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Segunda-feira 22 .7 .2013

Tema em discussão
Políticas de privatização
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Preconceito ideológico

Nossa opinião

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Consequências da privataria

Outra opinião

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o dia 21 de outubro, a Agência Nacio- ceiras, tecnológicas e gerenciais, multiplicannal de Petróleo realizará a primeira li- do assim sua capacidade de investimento. A citação de um campo na camada do chegada de muitas companhias e a criação de pré-sal depois de adotado o regime de outras de capital nacional oxigenaram a inpartilha de produção para esse tipo de reserva- dústria brasileira. Motivaram profissionais a tório. Pela potencialidade do campo de Libra, enfrentar desafios vultosos. O parque tecnocom possíveis reservas da ordem de 12 bilhões lógico da Universidade Federal do Rio de Jade barris e investimentos que alcançariam a ca- neiro, na Ilha do Fundão, abriga cada vez sa de US$ 200 bilhões, é provável que a licitação mais centros de pesquisas, com ênfase no pevenha a ser, isoladamente, o maior negócio na tróleo, mas que se irradiam também para ouhistória do setor. Somente em bônus de assina- tras áreas e se intercomunicam com o mundo tura, o consórcio vencedor terá de pagar ao Te- acadêmico de norte a sul do país, sem deixa souro R$ 1,5 bilhão. Além disso, terá de assegu- de fazer uma ponte com o desenvolvimento da tecnologia no exterior. rar ao governo pelo menos 41% Ao optar pelo mercado e a comda produção, descontada parte Mesmo com as petição no lugar dos defasados dos custos para extrair o petróleo. evidências monopólios estatais, o Brasil se liA produção, prevista para conegativas dos vrou de amarras que limitavam o meçar no prazo de cinco anos, vai investimento pela ausência de cagerar royalties para os cofres púmonopólios pitais sob gestão privada. O exemblicos, prevendo-se também a estatais, este plo das telecomunicações talvez formação de um Fundo Social a atraso ainda seja o mais contundente. Com o fim de que o resultado da atividaantigo monopólio, a telefonia celude possa ser usufruído por futucontamina a lar, o acesso à internet em alta veras gerações de brasileiros, tal política locidade e a TV por assinatura seriqual ocorre em outros países (o am hoje serviços distantes da maimelhor exemplo é a Noruega). Ainda que o regime de partilha de produção oria da população. Mesmo a universalização tenha sido questionado diante da alternativa da energia elétrica continuaria sendo um sode se manter o de concessões que foi adotado nho (assim como o é no saneamento básico, em todas as licitações anteriores, tal investi- segmento dominado por companhias estatais mento somente será viabilizado porque o estaduais). O preconceito ideológico contra o mercaBrasil instituiu uma nova lei do petróleo, abandonando o antigo e ultrapassado mono- do e a mobilização de capitais privados ainpólio. A maior beneficiária dessa mudança foi da contamina a política no país, infelizmenexatamente a companhia estatal que exercia te, mesmo com todas as evidências que o esse monopólio, pois desde então se tornou Brasil estava marcando passo com a era dos mais ágil e com mais autonomia para negoci- monopólios estatais. Oxalá isso um dia seja ar parcerias societárias, operacionais, finan- superado. l

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petróleo. Esta última está gerando a entrega do pré-sal para o cartel internacional do petróleo. Sob um bombardeio diário do cartel internacis jornais estamparam nas suas primei- onal, o governo Dilma vem sendo acuado e, após ras páginas as informações de que a reabrir os leilões — o que não tem sentido, pois a Agência Nacional de Segurança dos Petrobras já descobriu mais de 60 bilhões de barEUA vem espionando o Brasil. Algo ris no pré-sal —, está prestes a entregar Libra, o como dois bilhões de telefonemas e mensagens maior campo brasileiro, cuja reserva provável é de brasileiros foram espionados. Um crime hedi- de 15 bilhões de barris, aos grupos estrangeiros. Estrangulando a Petrobras financeiramente, o ondo de violação das liberdades individuais, sem qualquer justificativa, a não ser a de cumprir a es- governo deixa a empresa enfraquecida para partratégia do Departamento de Defesa americano ticipar do leilão. No 11º leilão recém-realizado, regido pela Lei de FHC que dá topara manter o Brasil, o maior celeiro do o petróleo para quem o produde matéria-prima para os EUA, na Curvando-se zir, a Petrobras teve uma participacondição de subdesenvolvido. Diz ao cartel, o ção pífia, tendo comprado menos um jornal de grande circulação: Brasil perde de 20% das áreas ofertadas e sendo “Companhias de telecomunicações operadora apenas em 3 delas. no Brasil têm essa parceria que dá uma grande No 12º que é específico para o acesso à empresa americana.” O que oportunidade campo de Libra, o bilhete premianão ficou claro é qual a empresa de deixar de do, a Petrobras pode ficar de fora americana que tem sido usada pela ou com apenas 30% por ser operaNSA como “ponte” . ser o eterno dora única. Em compensação, Quando a privataria começou, país do futuro consórcio estrangeiro tem chances alertávamos sobre o perigo de privade ficar com 46% do petróleo protizar as telecomunicações, portadoras da informação, por ser esta de alta importân- duzido, sem ter corrido risco, sem ter feito nada, cia estratégica. Se as empresas de telecomunica- pois a Petrobras será a operadora. E vai exportar ções ainda fossem estatais seria muito mais difícil esse petróleo bruto, deixando de pagar 30% de cooptá-las. Tratando-se de empresas estrangei- impostos e usando um imenso poder de bargaras, fica muito mais fácil. Aliás, foi esta uma das nha na geopolítica mundial. Enquanto isto, nós brasileiros, donos do petrórazões da privatização das teles. O Brasil perdeu o leo, deixamos escapar a maior oportunidade que controle das informações. Outras más consequências das privatizações o Brasil tem para deixar de ser o eterno país do foram: a abertura do subsolo para empresas es- futuro e ser uma potência econômica, financeira trangeiras; abertura da navegação de cabotagem e tecnológica mundial. Não dá para aceitar isso. l para elas navegarem nos nossos rios e escoarem nossas riquezas; a venda da Vale por um centési- Fernando Siqueira é vice-presidente da Aepet e do mo do seu valor real; e a quebra do monopólio do Clube de Engenharia

FERNANDO SIQUEIRA

LIGIA BAHIA

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Taquicardia
rio nacional de serviços e ações de saúde, se o SUS der certo. Imaginar que a consciência solidária, humanista e “SUSista” possa ser cultivada em ambientes apropriados ao contato entre médicos e o povo, tal como este vive e sofre, e que daí derive uma revolução cultural, liderada por profissionais desaburguesados que ponham o sistema de saúde de cabeça para baixo, é puro idealismo. O heroísmo de David Capistrano, um dos formuladores do SUS, preso e torturado diversas vezes pelo regime militar, e a psicopatia assassina de médicos que voluntariamente participaram de supliciamentos não foram ensinados nas faculdades. Estudantes e profissionais de saúde não são diferentes das demais pessoas. Agem em função de contextos de trabalho que influenciam as inclinações favoráveis ou desfavoráveis à compreensão, à compaixão e comprometimento com os pacientes. O modelo de formação dos médicos é determinado pela inserção profissional, e não o contrário. Nesse caso, é importante discernir quem vem primeiro, se o ovo ou a galinha, para evitar apresentar um juízo moral como política. A precedência do trabalho e as relações entre saber e fazer já foram estabelecidas em diversos estudos sobre ensino e prática profissional. Do jeito como está organizado o sistema de saúde, a proposta de prolongamento do curso médico conjugada ao fato de que a maioria dos postos de trabalho no Brasil está no setor privado significa que levaremos mais tempo e gastaremos mais recursos públicos para formar gente para atuar junto aos planos privados. A deMARCELO

m sistema público de saúde, tal como qualquer área de política social, deve ser eficiente, equitativo e bem administrado. Sinteticamente, é uma combinação de impostos, contribuições sociais arrecadados e benefícios ofertados, tendo como objetivo a maximização das condições de saúde da população, por meio de uma quantidade adequada de ações preventivas e assistenciais qualificadas. A chave que abre a perspectiva efetiva de reverter o quadro de desigualdades na saúde não é apenas o aumento do número de médicos. No Brasil, o sistema de saúde como um todo é ineficiente porque a maioria da população que o sustenta, inclusive o setor privado, com seus inúmeros e vultosos subsídios fiscais, tem menos acesso e usa menos serviços de saúde. Enquanto a resposta à altura da radicalidade das manifestações das ruas reivindicando o SUS padrão Fifa for tentar gritar mais alto e não se disser com clareza a que saúde pública o governo se refere, não existirá espaço para diálogos produtivos. “Socializar” o ensino médico é uma medida decorrente do efetivo funcionamento de sistemas universais de saúde. O aumento na quantidade de médicos e a alocação de profissionais de saúde, inclusive estrangeiros, em regiões remotas e nas periferias das grandes cidades são tentativas meritórias para a redução das desigualdades, mas o fio conector para a resolução dos problemas é o SUS. Haverá mais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos e todos os demais profissionais de saúde, mais generalistas e melhor distribuição no territó-

finição de conteúdos e prazos para a formação de profissionais de saúde é uma atividade de natureza eminentemente técnico-acadêmica, e não político-partidária. A saúde já tem um pacto democraticamente estabelecido pela Constituição de 1988. O pacote Mais Médicos não é um pacto da saúde, e sim um embrulho, pós abandono da proposta de importação de médicos cubanos, que procura dar conta simultaneamente dos resultados de pesquisas de opinião que indicam queixas relacionadas com a falta de médicos na rede SUS, demandas de prefeitos de cidades do interior, especialmente das regiões Norte e Nordeste, e clamores por direitos sociais efetivos

nas grandes cidades. Até agora, a atuação do governo Dilma na saúde pode ser resumida como um conjunto de tentativas e erros. Primeiro veio o anúncio da construção de milhares de prédios, logo depois, na onda do aprimoramento da gestão, a colocação de câmeras nos hospitais diretamente ligadas ao Palácio do Planalto, e mais recentemente a decretação de prazos para o tratamento de pacientes com diagnóstico de neoplasias. Esses lampejos, não submetidos a qualquer fórum de discussão da saúde, foram insuficientes para refrear a insatisfação com a situação do sistema de saúde. Ligia Bahia é professora da Universidade O Mais Médicos, graças às manifes- Federal do Rio de Janeiro tações nas ruas, traz uma novidade: ligiabahia55@gmail.com

finalmente, o governo voltou a falar sobre o SUS, reconheceu que a saúde vai mal, que é preciso intervir para mudar e promete mexer no mercado de trabalho via aumento das vagas para residência médica. É uma agenda torta, mas qualquer iniciativa que mencione gente e SUS é melhor do que as medidas para a saúde baseadas só na engenharia civil ou na retórica gerencialista. Contudo, o “pacto da saúde” poderá causar muita agitação, mas deixará tudo exatamente no mesmo lugar, se o sujeito das intervenções estatais anti-SUS permanecer oculto. A indicação, neste mês, de mais um integrante do quadro de uma empresa de planos privados de saúde para diretor da ANS foi apenas um equivoco ou as regras de jogo, completamente desfavoráveis ao SUS, permanecem as mesmas? Os nós da saúde não serão deslindados entre quatro paredes e muito menos por decreto. A polarização a favor ou contra proposições cumulativas e inócuas, lançadas de crise em crise, causam uma síndrome de taquicardia imobilizadora. Que tal inverter o fluxo do decisório? Seguir penando para conseguir audiências fechadas com a Presidência da Republica dá muito trabalho e não modifica o padrão ambíguo, ora estatizante, ora privatizante das reais políticas governamentais. É tempo de quem define os rumos do sistema de saúde comparecer a reuniões abertas organizadas por partidos políticos, entidades profissionais e de usuários. l

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