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1 História da Psicologia e Liberalismo: implicações éticas Fábio Roberto Rodrigues Belo1 Resumo: Esse artigo parte do pressuposto de que

é necessário fazer uma história crítica da psicologia, isto é, mostrar que o nascimento dessa disciplina está ligada ao seu contexto sócio-histórico. A psicologia pode ser vista como uma ferramenta auxiliar em dois processos que ocorrem simultaneamente: a subjetivação e as tecnologias de controle do indivíduo. Através de alguns exemplos, correlaciono as condições de possibilidade e as implicações éticas da relação entre liberalismo e psicologia: (a) as práticas clínicas que fomentam a produção de discursos “subjetivantes”; (b) as teorias que querem reduzir a responsabilidade do indivíduo às suas reações cerebrais; (c) as técnicas de seleção e treinamento no mundo do trabalho. Conclui-se que a psicologia oscila entre dois lugares na sua relação com o liberalismo: ora é apropriada pelo sistema e usada como mais uma técnica de controle, ora pode ser instrumento de produção de subjetividade, base para compreensão e resistência contra os controles impostos pelos sistemas de dominação. Palavras-chave: História da Psicologia; Liberalismo; Individualismo; Ética. 1. Uma experiência da “Psicologia” Psamtik I, rei do Egito durante a segunda metade do século VII a.C., além de ser conhecido por ter conseguido libertar o Egito do Império Assírio e por suas vitoriosas campanhas militares que renderam ao Egito alguns anos de prosperidade, é também lembrado pela curiosa história contada por Heródoto. Os egípcios acreditavam que eram a raça mais antiga na Terra e Psamtik quis comprovar essa crença. Ele, então, propôs uma hipótese: se as crianças não tivessem oportunidade de aprender nenhuma linguagem através da educação, a língua que elas falassem espontaneamente seria a língua original da humanidade.

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Psicólogo formado pela UFMG. Mestre em Teoria Psicanalítica (FAFICH – UFMG). Doutor em Literatura Brasileira (FALE – UFMG). Professor de “Psicologia”, na Graduação do curso de Direito, e de “Hermenêutica Jurídica” e “Linguagem e Pesquisa Jurídica”, no Mestrado em Direito Empresarial, da Faculdade de Direito Milton Campos. E-mail: frbelo@terra.com.br.

. da sucessão das várias “escolas” e teorias psicológicas – e a história do liberalismo – no sentido. esse ruído nada significava. O experimento de Psamtik I. hoje em dia. no entanto. Qual foi o resultado do inusitado experimento? Quando as crianças tinham já dois anos de idade. que os frígios eram uma raça mais antiga que os egípcios. mas ninguém deveria falar com eles. então. diga-se de passagem. pode ser visto como uma potente alegoria das relações entre a história da psicologia e o poder político. Também não desejo comparar esse experimento com a psicologia científica que nasce no final do século XIX. pode nos parecer bizarra.. por exemplo. ela nos ajuda a desmistificar que a ciência é neutra e não guiada por interesses ideológicos. comparar a situação política e social do reinado de Psamtik I com o liberalismo que nasce no final do século XVIII.2 Essa experiência. Em primeiro lugar. entretanto. Em segundo lugar. fez uma pesquisa e descobriu que becos era a palavra frígia para pão.2 Para testar sua hipótese. Seja pelo pressuposto de uma linguagem natural. Eles deveriam ser mantidos em área isolada e receber apenas comida e os cuidados básicos. de qualquer forma. gostaria apenas de tomar esse experimento como alegoria da relação entre a psicologia e a política para tentar responder às questões que ensejam esse artigo: as pesquisas em psicologia partem de quais pressupostos ideológicos? Quais são as implicações éticas da relação entre a psicologia e o liberalismo? Quais são as relações entre a história da psicologia – no sentido. Psamtik ordenou que duas crianças pobres fossem criadas em área remota por um camponês. por exemplo. sobreviveu até o século VI d. Para o camponês. Na verdade. lembro ainda que a Frígia foi um reino da antiguidade situado onde hoje fica aproximadamente a Turquia. mas.C. A língua frígia. O rei. seja pela falta de ética em submeter seres humanos a condições como às quais foram expostas as duas crianças. relatou para Psamtik o que ouvira. ela explicita que tomar o humano como objeto de pesquisa sempre tem implicações éticas. do fortalecimento do individualismo? 2 Esse experimento é contado por Morton Hunt (1994: 1-2). elas corriam para o camponês e gritavam “Becos!”. Não desejo. A título de curiosidade. Ele concluiu. desapontado.

gostaria de mencionar um importante pressuposto metodológico que norteia esse artigo. denominada “velha história”. Quase todas as teorias parecem frutos da cabeça genial de alguns poucos: Wundt. Prefiro o adjetivo “crítica”. História aqui se confunde com genealogia. vê o nascimento da psicologia ligado aos grandes nomes. 2-8). Peter van Drunen e Jeroen Jansz (2004) sugerem que há duas histórias da psicologia. Essa vertente histórica é muito bem representada por Michel Foucault. ligadas a outros regimes de poder etc. Obviamente. De maneira geral. não há muita preocupação em relacionar o contexto do nascimento da psicologia com os eventos políticos. tendo em vista os jogos de poder envolvidos nessas invenções. os experimentos mais antigos são mostrados apenas para desqualificá-los e engrandecer as recentes descobertas da ciência “moderna”. isto é. Geralmente. É o que é mais comum nos manuais introdutórios: um ou dois nomes ligados à determinada “escola” da psicologia. parte do princípio que não há história sem a investigação das condições sociais de possibilidade da formação de um determinado conjunto de práticas sociais. para a história crítica há “melhoras” 3 Drunen e Jansz (2004) a denominam “nova história” (cf. O que está em questão não é uma história que vem antes e outra posterior.3 2. mas ficam de lado as relações entre epistemologia e política ou entre os pressupostos metodológicos e os ideológicos. que denomino história crítica 3. econômicos ou ideológicos do momento. a “velha história” acredita na ciência livre de valores. Duas formas de se fazer história Antes de passar propriamente ao exame das questões levantadas no final da seção anterior. Uma outra história da psicologia. pp. Nessa vertente. Outra distinção importante é que a “velha história” tende a trazer embutida a pressuposição de progresso no campo cognitivo. sendo a psicologia apenas um exemplo. silenciadas. Uma. Skinner etc. O que importa é a metodologia e os pressupostos que guiam o fazer histórico. mais ou menos evidenciadas. As diferenças teóricas tendem a ser reduzidas às diferenças de “pontos de vista” e pressupostos metodológicos. neutra e capaz de encontrar a-históricos que expliquem o comportamento humano. . Trata-se do que compreendo por história da psicologia. Já a história crítica parte do pressuposto de que não há progresso cognitivo nem cultural: há um imenso campo agonístico de idéias e práticas sociais que vão sendo trocadas. o estudo das origens de determinadas práticas discursivas e sociais. pois limpa ainda mais o conceito de sua dimensão temporal. Freud. Wertheimer. É como se a história se desenvolvesse do pior para o melhor e do mais ilusório para o mais real.

mas. correlatas. Portanto. ao mesmo tempo.4 nessas práticas: mas elas são vistas como resultado da disciplina e do controle. é de 1879. do “sujeito psicológico”. o mundo do trabalho começa a ser mais regrado. isto é. Valores não-psicológicos como os valores religiosos vão perdendo espaço na formulação de explicações para os fenômenos humanos como as doenças ou a anormalidade. fundado em Leipzig. o processo civilizatório. O contexto do nascimento do sujeito psicológico A psicologia científica nasce no final do século XIX – o laboratório de Wundt. é um processo bastante longo. de possibilidade para a constituição de um campo disciplinar novo como a psicologia científica sejam as mesmas ou. Esses dois eventos não acontecem no mesmo período por acaso. Muito aos poucos. Feito esse esclarecimento. aparece também a etiqueta de como se comportar nesses espaços. passo agora à contextualização do nascimento da psicologia. O liberalismo também ganha força em meados do século XIX: um sinal disso é o fim da escravidão na maior parte dos países do Ocidente. Exemplo: se por um lado aparece a valorização do espaço privado. no mínimo. em resumo. Quais foram essas condições sociais de possibilidade? As pesquisas de Charles Taylor (1997) e Norbert Elias (1993 e 1994) mostram que o desenvolvimento da vida interior. ao mesmo tempo. o incremento de regras sociais que vão sendo instituídas visando o controle dos indivíduos em sociedade. e não de um acercamento mais seguro do real ou da verdadeira natureza humana. Compreendemos a história como um longo processo de lutas e jogos de poder. . para tentar compreender as relações entre liberalismo e psicologia e quais são as conseqüências éticas desse encontro. partimos desses pressupostos metodológicos. em parte. E ainda: aparece maior liberdade de se escolher o trabalho. 3. vai se formando a idéia que temos uma interioridade e uma singularidade. O interessante dessa história é que o processo que vai formando o sujeito psicológico é também. cujos movimentos só podem ser devidamente compreendidos se examinarmos o contexto e as condições de possibilidade do aparecimento dos eventos em questão. É preciso levantar a hipótese de que as condições sociais de possibilidade para o fortalecimento de práticas políticas e ideológicas liberais e.

Compartilho da tese de Figueiredo (1994) que explica que no século XIX três pólos organizavam a vida em sociedade: o liberalismo. faz com o que o sujeito deseje o que o sistema precise para se movimentar. O desejo e a vontade não são apagados. o espaço e o corpo são. O romantismo que vemos na propaganda do sujeito que compra seu carro e vai sozinho para o alto da montanha é um bom exemplo de como os valores são disciplinados. então. É como se o sistema dissesse: “você pode ter vontade e desejos próprios. que a psicologia tem duas fontes: a primeira é o processo da individualização.. isto é. de Kohut.5 No século XIX. estão bem próximos do pólo disciplinar. próxima do pólo romântico. por assim dizer. Luís Cláudio Figueiredo (1994) lembra que o liberalismo chama em seu auxílio a ideologia romântica para que esse processo de dominação seja ainda mais “invisibilizado”. O controle gerado aqui é quase invisível. docilizar o corpo: tudo isso é visto como necessário. a longa história da constituição da individualidade e a segunda é a história do controle e da disciplina dos corpos e das mentes dos indivíduos e das populações. vemos um avanço da administração burocrática e da racionalização do mundo. temos. pois é “naturalizado” com grande facilidade.”. seqüestrados por instituições de controle que os articulam de tal forma a aumentar a produtividade do sujeito. Próximo do pólo liberal. a psicanálise. a psicologia do ego. Cada “escola” da psicologia. Vejamos mais alguns detalhes desse duplo processo de formação da psicologia. Ao contrário: são colonizados ideologicamente e usados para o benefício do sistema capitalista.. as “psicologias” podem se aproximar mais ou menos desses pólos. A dominação fecha assim seu ciclo: ao invés de lutar contra o desejo. pode colocar mais em evidência uma ou outra face dessa história. . o liberalismo ganhou muito com esse tipo de controle social instaurado pela burocracia. Ao contrário do que é propalado pela ideologia liberal. isto é. E ainda. o processo de gerenciamento social. Para Figueiredo. A vida humana começa a ser regulamentada nos mais diversos aspectos: o tempo. Acordar cedo. cumprir as diversas etapas e séries da aprendizagem. Pode-se dizer. por exemplo. em resumo. Os comportamentalismos. o romantismo em diversas versões e o regime disciplinar. por exemplo. mas para realizá-los compre esse carro. diga-se de passagem. como “não podendo ser de outra forma”.

regulação do tempo.1. 2004: 6). Processo disciplinar ou gerenciamento social O processo de individualização ocorre ao mesmo tempo em que as várias formas de gerenciamento social tentam organizar e dirigir a vida social. pressupondo que todo indivíduo tem um “espaço interno” de razões. 3. filosófica. que vão da perda dos laços e estruturas sociais (liberando os indivíduos de suas amarras sociais) até uma crescente tomada de consciência do “eu”. c) Psicologização: o desenvolvimento de um senso de “interioridade”. b) A crescente tomada de consciência das diferenças individuais. Drunen e Jansz (2004: 8) ainda destacam: . Individualização Individualização é “um conceito usado para descrever uma ampla variedade de fenômenos. influenciar. nenhuma sociedade humana pode existir sem algum tipo de controle social.2. Evidentemente. esses controles tendem a ser cada vez mais precisos. constitutivo de seu próprio ser como pessoa singular e acessível total ou parcialmente através da introspecção. como mostra Foucault (1987). Por gerenciamento social entendo todo o conjunto de instituições que vão desde as burocracias até a família. memória. exigindo esquadrinhamento do espaço e do corpo. O que está em questão é que a partir dos séculos XVIII e XIX. artística). representadas por traços de personalidade e capacidades mentais (inteligência. em particular.6 3. vigilância cada vez maior e permanente etc. Desse processo cabe ainda destacar: a) A alteração do foco da cultura ocidental que passou dos aspectos coletivos para os aspectos individuais da realidade social e de suas várias representações (ideológica. percepção). no que diz respeito ao interior emocional” (Drunen e Jansz. ou seja. todas as relações de poder mais ou menos instituídas que servem para monitorar. controlar o comportamento de indivíduos e grupos sociais. pensamentos e sentimentos.

os lugares nos quais esse conhecimento foi colhido pode não ter significância intrínseca para o conhecimento mesmo. por exemplo. (Danziger. mas. dado o contexto de seu nascimento: de um lado. Essa dupla face da psicologia é compreensível. prever e controlar o comportamento humano.7 a) O gerenciamento social passa gradualmente de organizações privadas (corporações. É a base do que no século XX se tornará o Estado do bem-estar social. do tempo e do espaço. Ou seja. sociologia. pedagogia e psicologia. o contexto político e econômico pedia mais individualização. No entanto. há liberalismo e romantismo. 2006: 220). Mas. as características desses lugares de produção desse conhecimento se tornam bastante importantes. o que se pode dizer do contexto que possibilita o aparecimento da psicologia enquanto disciplina científica? Que há uma crescente necessidade de se compreender o indivíduo e as diferenças individuais. há disciplina. b) O gerenciamento social passa por um processo de profissionalização e “cientifização”. gostaria de fazer uma advertência: a psicologia não necessariamente é uma tecnologia a serviço do liberalismo. igrejas. O mesmo vale para a psicologia em geral: ela pode estar a serviço. Ferreira Neto (2007) lembra que Foucault percebe a prática clínica ora como parte das tecnologias de controle e disciplina do eu. cito uma importante passagem de Kurt Danziger que resume bem o que quis trazer até aqui: Na medida em que a psicologia é vista como um conhecimento advindo da natureza universal de indivíduos humanos. ela pode também fornecer recursos discursivos e emocionais para esses mesmos trabalhadores lidarem melhor com as dificuldades inerentes ao sistema capitalista. Esse processo está ligado ao início de várias disciplinas: criminologia. Para terminar essa parte do trabalho. Em resumo. que novas teorias e técnicas surgem para explicar. na medida em que a psicologia é vista como um projeto social produzindo conhecimento situado localmente. ora como recurso importante para o cuidado de si e parte do que se pode denominar arte da existência. . do capitalismo quando seleciona trabalhadores para determinada função. que há uma crescente racionalização do mundo: dos corpos. sociedades filantrópicas) para o domínio público. daí ser possível e desejável o aparecimento de tecnologias de mensuração de capacidades individuais. de outro. Antes de encerrar essa seção. Acredito que podemos generalizar o parecer de Michel Foucault sobre as práticas clínicas para a psicologia como um todo.

4. como fruto de jogos de poder situados em certos espaços sociais. Johann Louw (2006) descreve as pesquisas de psicólogos que ajudaram as vítimas de violência política na África do Sul. ficará claro como essas técnicas de produção de subjetividade podem ser substituídas umas pelas outras e como essas mudanças implicam na constituição de novos sujeitos. necessariamente. e (b) como a psicologia pode ser encarada como uma ferramenta técnico-discursiva que auxilia o sujeito a compreender fenômenos de sua existência de um ponto de vista interno. Sua pesquisa em torno da genealogia do sujeito pode ser dividida em alguns passos fundamentais: (a) mostrar como o sujeito se estabeleceu. pretendo mostrar (a) como a psicologia é uma tecnologia que se constrói. Através dele. não nasce pronta e tem que se adaptar ao contexto no qual aparece. as mantêm ou as transformam em função dos jogos de poder que participam. eivados de crenças e afetos. Esses psicólogos notaram que as pessoas . O exemplo é uma experiência relatada por Johann Louw (2006). Foucault. como um objeto de conhecimento possível. Essas técnicas se aliam às mais diversas relações de poder e produzem. uma série de discursos de verdade sobre o sujeito. poder e verdade. isto é. isto é. No exemplo que quero mostrar. pela compreensão do contexto como condição de possibilidade dessa tecnologia. subjetivo-psicológico. 2001[1981]: 1032) Técnicas de subjetivação existem em todas as culturas. recomendados ou impostos.8 A advertência de Danziger é fundamental. a partir disso. que se conhecem – produzem discursos de verdade sobre si mesmo – a partir de novas relações de poder. (b) mostrar como a experiência do que se pode fazer de si mesmo e o saber que formamos sobre ele (o eu) foram organizados através de certos esquemas. São a partir delas que os indivíduos constituem suas identidades. em diferentes momentos da história e em diferentes contextos institucionais. valorizados. Nas seções seguintes pretendo mostrar alguns exemplos de como a psicologia tem implicações éticas importantes e como a compreensão dessas implicações passa. (cf. Tortura e sentido Michel Foucault ligou de forma surpreendente três termos: sujeito. (c) mostrar como esses esquemas foram definidos. pois permite ver a psicologia como um projeto social.

Os testemunhos eram sempre muito presos ao essencial: o que aconteceu. de pensar numa suposta liberação trazida pela psicologia. onde e quando. também chamo ética psicológica – entendo as relações de poder que nos levam a tratar o nosso eu como um objeto digno de conhecimento e cuidado. Os resultados dessa experiência são importantes porque. Prática de liberdade é o exercício infindável de cuidado e de conhecimento dispensados a si mesmo em meio às relações de poder das quais inevitavelmente participamos. de maneira brilhante. Por ética do cuidado de si – que. Como Foucault (2001 [1984]) adverte. Além disso. Ainda desejo mencionar que o exemplo trazido por Louw ajuda a compreender a idéia de Foucault (2001 [1984]) que diz ser a ética do cuidado de si uma prática de liberdade. por exemplo. o homem se reconciliaria com essa suposta natureza original e livre. mas novas práticas de cuidado e conhecimento de si mesmo vão ganhando espaço. essa idéia: “A liberdade é a condição ontológica . foi ligando o “eu” com as “estórias” e os testemunhos foram se tornando o meio de moldar novas subjetividades em relação com circunstâncias sociais mutáveis. uma vez livres desses mecanismos. as vítimas tendiam sempre a usar um vocabulário externalista. Nada mais distante do que Foucault defende: para ele. Exemplos como esse são bons para lembrar que a psicologia não estuda uma suposta “natureza humana” trans-histórica. é uma das possíveis fontes de “tecnologias de cidadania” requeridas para gerar eus politicamente hábeis nas sociedades democráticas liberais. por exemplo) e novas possibilidades de ação. mas ajuda a construir práticas de subjetivação através de técnicas específicas. a idéia de liberação traz implícita a idéia de uma natureza humana escondida ou alienada por mecanismos de repressão e que. sempre estaremos imersos em relações de poder e é apenas a partir de novos dispositivos de poder que podemos construir subjetividades menos submissas. Duas frases resumem. aos poucos. Práticas religiosas permanecem. nesse texto. associando. as reuniões nas quais as vítimas relatavam suas experiências tinham efeito terapêutico importante e forneciam novo vocabulário (“trauma”. Não se trata.9 não usavam expressões do tipo “trauma” e nem se referiam às conseqüências de torturas como algo interno. com o exemplo de Louw. com quem. a prisão e a tortura à sujeira. Além disso. sustenta Louw. então. Essas técnicas de exame e avaliação do eu. Daí as vítimas geralmente passarem por processos de limpeza ritualística. O importante a se notar no relato de Johann Louw é que em países “em desenvolvimento” é possível observar hic et nunc a “psicologização” de uma parte da comunidade.

podemos pensar na frenologia apenas como uma primeira etapa do que virá a ser a neurociência. não há liberdade “pura”. Responsabilidade e corpo Um outro exemplo que mostra bem as implicações éticas da psicologia quando ela se relaciona com o liberalismo é um tema que se repete na história da psicologia: a idéia de que a responsabilidade humana possa ser completamente individualizada. Jansz (2004) explica que as mudanças sociais do século dezenove e as concomitantes ideologias do liberalismo e do darwinismo social enfatizaram o sucesso dos indivíduos. uma explicação diferente era necessária. Os jogos de verdade sobre os corpos dos sujeitos estão intimamente ligados aos jogos de poder que manipulam esses corpos. As respostas à tortura. por exemplo.10 da ética. dos direitos sobre seu próprio corpo. Esqueceríamos também que essa ciência. de Gall. esquecemos a advertência de Danziger. Ou seja. Quando o pano de fundo demográfico e econômico do vencedor não podia dar conta de seu sucesso.” 4 (Foucault (2001 [1984]): 1531). Poder são os jogos estratégicos que colocamos em movimento para dirigir a conduta do outro. por exemplo. Daí. por um momento. dentre as quais a frenologia de Gall destacou-se. 5. . a ética é a forma refletida que toma a liberdade. por volta de 1800. seja no exemplo que examino na próxima seção. o aparecimento de teorias que tentavam explicar as diferenças individuais. Mas. Mais l’étique est la forme réfléchie que prend la liberté. isto é. Em todas as camadas sociais. traz como implicações éticas a reflexão sobre as 4 Pela beleza e por temer ter perdido algo na tradução. Mais uma vez. abonam relações de poder as mais diversas. A primeira vez que isso aparece de uma forma clara e com todas as marcas de cientificidade é com a frenologia. Se. podem deixar menos ou mais claros quais foram os jogos de poder movimentados para conduzir o corpo da vítima. era difícil ignorar o fato de alguns indivíduos serem melhores competidores que outros. Seja num exemplo dramático como esse da tortura. necessariamente. a liberdade só se dá nas relações de poder que estabelecemos com os outros. Se o vocabulário é apenas externo – associado ao discurso religioso – pouco se diz. eis o original: La liberté est la condition ontologique de l’étique. pela via da biologia cerebral. em especial. focando em suas características mentais. poderemos notar como os jogos de verdade são produzidos pela ciência e como esses discursos têm implicações éticas.

Pior: para o seu cérebro. Mais tarde. o Conselho Federal de Psicologia emitiu parecer contrário a uma pesquisa no Rio Grande do Sul que tentaria mapear as reações cerebrais às imagens violentas de jovens infratores internados na Febem. morais. Mais uma vez. que redes neuronais são formadas não apenas por processos biológicos. . Sua teoria inspirou não só programas de casamento e reprodução.php?idNoticia=503. Galton acreditava que características físicas e mentais eram herdadas em grande medida. senão completamente. A eugenia também contribuiu para políticas de imigração: favorecia-se a entrada de pessoas supostamente “superiores” e proibia-se acesso aos “inferiores”.11 diferenças individuais.5 Pesquisas como essas são um trampolim para o “esquecimento” das condições sócio-históricas. O que decorreria daí? Mais uma vez. Obviamente. Galton e os dos psiquiatras gaúchos? Respeitando as diferenças entre eles. Suponhamos que a área do cérebro geralmente ligada à agressividade emita realmente sinais de um funcionamento mais intenso do que a população “normal”.br/noticias_internas. idiotas e alcoólatras. ficam claras as implicações éticas de escolhas teóricas e de como elas estão ligadas à história da psicologia. de Porto Alegre. lembro de um evento recente na história da psicologia brasileira. O cérebro não funciona sem sociedade. o que quero fazer notar é a forte marca da ideologia liberal nessas crenças aparentemente livres de ideologia: quanto mais 5 O Conselho Regional de Psicologia. Em 2007. em 1883. traz breve explicação do “experimento”: http://www. corre-se o risco de se “esquecer” que o cérebro também se forma socialmente. começa seus estudos em eugenia. mas é uma constante. Lombroso. os defensores da pesquisa alegam a “neutralidade” da ciência e seu interesse em apenas estabelecer possíveis correlações entre o funcionamento cerebral e a violência urbana. Não é por acaso que. O que pode decorrer desse tipo de pesquisa aparentemente neutra é isso: jogar toda a responsabilidade para o indivíduo.org. Lombroso publica seu famigerado L’Uomo Delinquente (1876). no qual tentava desvendar as indicações fisionômicas da criminalidade. econômicas e políticas da produção da criminalidade e para o fortalecimento da crença de que a criminalidade tem como única raiz a biologia individual.crp07. O que dizem os experimentos Gall. Aqui também a tentação de mapear o cérebro de criminosos é forte. Para deixar claro que o que estou defendendo nesse artigo não diz respeito apenas ao passado. também no século XIX. Francis Galton. como também políticas públicas de esterilização de criminosos. mas por processos sociais. do Rio Grande do Sul.

dentro dessa ideologia. Na verdade. Elas vão ao encontro da sabedoria popular que associa o feio ao crime ou o corpo anormal às anormalidades de conduta. psicologia e psiquiatria forense. 6 David Horn também lembra o forte apelo popular que essas teorias fisicalistas têm. melhor será para o liberalismo. Ele observa a necessidade dos métodos gráficos e de mensuração: “(. uma das alavancas mais poderosas da ideologia liberal. Lembro ainda a pesquisa de David Horn (2005) quanto à genealogia dos discursos e técnicas que pretendem qualificar e quantificar os corpos – medicina legal. 2005: 149).6 6. O taylorismo pode ser visto como uma individualização radical das performances dos trabalhadores. então. Aqui. vejamos um pouco do contexto desse encontro. Psicologia e o mundo do trabalho Um último exemplo que gostaria de comentar é a história da psicologia no campo do trabalho. era vista como “desadaptação” ou preguiça. . antropologia criminal. o método gráfico visava superar as deficiências dos sentidos e da linguagem do observador: “isso produzia um registro ostensivamente não afetado de preconceitos do observador e que podia falar através de barreiras lingüísticas.” (Horn. Pouco espaço era deixado para a subjetividade do trabalhador e o sentido que ele depreendia do trabalho.12 responsável for o indivíduo por seus atos. A organização científica do trabalho proposta pelo engenheiro Frederick Taylor (1856-1915) é um ótimo exemplo de como regimes disciplinares e individualização mesclaram-se no século XIX. O que esses eventos mostram é que há uma história consistente em reduzir a responsabilidade ao ser biológico do sujeito. o trabalhador foi reduzido ao seu próprio corpo. Ainda está para ser feita a genealogia da noção de responsabilidade. A ideologia que guiava os experimentos de Taylor era a da eficiência..” (Horn. as relações entre a psicologia e o liberalismo são especialmente fortes e dão ensejo a reflexões importantes às implicações éticas desse enlace. Ainda para o autor. Toda resistência do trabalhador. 2005: 147). circulando livremente – em textos e congressos – e com uma particular força retórica.. ao invés de confiar (e reproduzir) a ilusão que aqueles índices eram características de corpos.) a retórica da mensuração anatômica e fisiológica tendia a negar a natureza de construção do que era medido. simplesmente encontrados em suas superfícies e estruturas. Primeiro.

em 1921. James McKeen Cattell. e (b) os treinamentos de trabalhadores por psicólogos e por diversos profissionais visando estimular e aumentar a produtividade. funda Corporação Psicológica. As relações humanas começam a ser valorizadas nesse contexto. A ideologia que guiava esse trabalho era “o homem certo no lugar certo”. Münsterberg foi o primeiro a propor testes de seleção para empregos.” (Drunen. ele selecionava aquelas com menor tempo de reação. (cf. 2004: 161). institui novas tecnologias de construção identitária. Por exemplo. . maior capacidade de atenção e memória. Também na década de 20. 2004: 142). Elton Mayo liderou o que ficou conhecido como os estudos Hawthorne. Drunen. A ética psicológica. saiu da Alemanha e assumiu o laboratório de psicologia na Universidade de Harvard. Strien e Haas. mas dele se distanciando.13 Um outro nome importante no início da história da psicologia do trabalho é Hugo Münsterberg. Ele foi aluno de Wundt. no campo do trabalho. das quais destaco (a) os livros de auto-ajuda. Mais uma vez. Na segunda década do século XX. para contratar telefonistas. dar espaço para os trabalhadores se organizarem e falarem de seus problemas aumentava a produtividade. Mayo descobriu que fatores sociais eram muitas vezes mais importantes que fatores físicos para a produtividade. mas também o Estado. os testes psicológicos e a seleção de pessoal já era uma preocupação das indústrias na Europa e nos Estados Unidos. Por exemplo. cujos temas variam imensamente. em 1890. passando pelas dicas de relacionamento amoroso até os “clássicos” manuais de como encontrar e desenvolver o “melhor de si mesmo”. trabalhadores da indústria e do comércio procuram conhecimento psicológico para alcançar seus objetivos nessa área. Levando adiante as hipóteses de Taylor. a ideologia da eficiência dava sua contribuição para as pesquisas psicológicas que nasciam no alvorecer do século XX. Strien e Haas. essas tecnologias de seleção contribuíram para a transformação do que Max Weber chamou de ética protestante para o que podemos chamar ética psicológica: “o trabalho é considerado um fator importante para nosso bem-estar psicológico tanto quanto para o econômico. na seleção de soldados para o Exército ou funcionários para a burocracia governamental. um dos pioneiros fabricantes de testes mentais. vão desde a busca do sucesso econômico. Instituições como as de Cattell auxiliavam não só as indústrias. De maneira geral.

certo dia. como recurso que pode contribuir para o sujeito lidar melhor com conflitos que decorrem de sua situação social (política e econômica. principalmente). então. foi proposta uma reflexão sobre a responsabilidade de cada um no trabalho. Ao contrário: mostra com mais clareza que as técnicas desenvolvidas pela psicologia vão sendo aos poucos disseminadas nos mais diversos campos da sociedade. Em grande medida. me contou que foi convidada por sua chefe para organizar uma “dinâmica” com os funcionários de sua repartição a fim de motivá-los ao trabalho. Minha paciente. O primeiro exemplo é de uma paciente que. de uma transformação de alguns aspectos da primeira.”. antes. Trata-se. entre sorrisos e fingido desespero.” (Foucault. A nova ética do trabalho que nasce com a reforma protestante permanece: o trabalho é panacéia infalível para todas as formas da miséria e os males causados por ele são sempre negados. Isso mostra que a ética . 2004 [1972]: 76). a possibilidade de percebermos essa ética como simples aliada do regime disciplinar e. O fato de a instrutora ser uma advogada não desabona em nada sua dinâmica como exemplo de “psicologização” do campo do trabalho. sobre a importância de valores como autonomia e pró-atividade. Em seguida. foram passando a bomba para o colega do lado até que o pavio finalmente parou de queimar. pediu que o sujeito que tinha ficado por último com a bomba nas mãos abrisse o dispositivo. Obviamente. Se o trabalhador cumpre bem sua função. mais uma vez. Ela planejou e executou a seguinte dinâmica: todos ficaram em círculo e enquanto passavam de mão em mão uma “bomba” cujo pavio fora acesso pela instrutora.14 É importante ressalvar que a ética protestante não é substituída pela ética psicológica. e onde a virtude (tanto ela tem seu prêmio em si mesma) só tem por recompensa o fato de escapar ao castigo. ao contrário. dentro da bomba havia duas passagens para praia e um bilhete que dizia algo do tipo: “Parabéns a você que pegou a bomba: nem sempre o resultado de ficar com ela é ruim. essa é a sua virtude. se não cumpre deve trabalhar mais para encontrá-la. sempre no sentido da laicização e da interiorização. Gostaria de encerrar essa seção com dois exemplos de treinamento a fim de mostrar a prática disso que chamei ética psicológica. para o mundo do trabalho contemporâneo vale o que Foucault escreve sobre o trabalho no século XVII: “uma espécie de soberania do bem em que triunfa apenas a ameaça. ninguém quis que a bomba “explodisse” em suas mãos e. Um detalhe: essa paciente é advogada e trabalha numa importante repartição do Poder Judiciário. Desejo ainda mostrar. Para sua surpresa.

A ideologia do sucesso. confiança. Ela planejou a seguinte dinâmica de grupo: os funcionários foram divididos em grupos e encenaram (a) um dia normal de trabalho. a proporção se inverte quando se pensa na permanência no emprego: o trabalhador precisa fazer valer seus valores pessoais – atitude. em especial. na admissão. enquanto as capacidades individuais contam apenas 20%. Além disso. O foco não é o por quê do problema. a capacidade técnica conta 80%. Para ela. Um outro exemplo para ilustrar a ética psicológica foi o treinamento conduzido por uma psicóloga. “Atitude para gerar valor!” era o que se lia na camisa que todos os trabalhadores nessa dinâmica usavam. de como “ser vencedor”. A técnica da culpabilização e da responsabilização é interessante.15 psicológica está muito além do campo da psicologia como disciplina acadêmica. Ela também contribui para o fortalecimento das crenças que valorizam a individualidade e fazem apagar a importância da situação política e dos jogos de poder que instituem a condição social do trabalho. casa bem com o liberalismo. A dinâmica faz aparecer o grupo de trabalho como um todo: daqui decorrem melhorias de comunicação dentro da empresa. O interessante desse trabalho é que vários conflitos podem ser visualizados sem que haja excessiva responsabilização individual. – mais do que suas habilidades técnicas para continuar no emprego. Todavia. A psicóloga foi convidada para fazer um treinamento numa pequena empresa. o treinamento proposto pela psicóloga não é contra a ideologia liberal. bom humor etc. por exemplo. por exemplo. nesse caso. mas a capacidade individual do trabalhador resolver o problema. (c) um dia que dá tudo muito certo no trabalho. Dois detalhes importantes sobre esse segundo exemplo. O exemplo da bomba é interessante ainda porque mostra como essas técnicas de psicologia podem ser usadas como aliadas a um sistema disciplinar cada vez mais detalhista. Não é raro. ao contribuir para a resolução de . usou dois gráficos para explicar o que fazia um trabalhador entrar e permanecer num emprego. é preciso pensar que a psicologia. ver técnicos de esporte bem sucedidos darem palestras de “treinamento” para funcionários de empresas. porque tira do foco a organização social do trabalho. os trabalhadores “falam” da realidade de seu trabalho sem ter que se dirigir diretamente aos patrões e chefes – que também participavam da dinâmica. Por outro lado. O exemplo mostra como a psicologia pode ser uma ferramenta auxiliar na resolução de conflitos no mundo do trabalho. de maneira geral. Esses dois detalhes mostram que. Nas encenações. (b) um dia que dá tudo errado no trabalho. a psicóloga no início da dinâmica.

no entanto. quis explicitar que uma experiência psicológica não ocorre no vácuo social. pelo menos. nada muda no que tange à mais-valia ou à propriedade privada. extraindo dele o máximo de produtividade. não é feito à força. essas implicações éticas ficam mais visíveis. as várias definições de nossa identidade com relação ao trabalho também fazem parte das relações de força e das práticas discursivas ensejadas por elas historicamente determinadas. Através dessa alegoria. com Foucault. que ela sempre parte de pressupostos ideológicos implícitos e que ela sempre tem implicações éticas. Isso. Defendi a idéia que é apenas através de uma história crítica. reforça os traços fundamentais de um desenho. próximo daquilo que Foucault chamou genealogia. na medida em que fornece pesquisa sobre as diferenças individuais. Não se modificam as condições reais de trabalho. Comecei esse artigo trazendo a história da Psamtik I como uma alegoria sobre as relações entre a psicologia e o liberalismo. Ou seja. Observações finais Nesse artigo. 7. 2001 [1978]: 475). Ainda é preciso reafirmar. está ajudando também aos trabalhadores a viverem em melhores condições. Um dos traços que destaquei foi a interconexão entre processos disciplinares e individualização.16 conflitos dentro de uma empresa. A psicologia. como toda caricatura. a psicologia pode também ser instrumento fundamental de des-naturalização desses discursos e de crítica historicista dessas práticas. subjetivas. Ela pode contribuir na formalização dos discursos que atrelam nossa identidade ao trabalho de forma a responsabilizar apenas o indivíduo pelo seu “sucesso” ou “fracasso”. Mas. do trabalhador são melhoradas. que “entre o homem e o trabalho não existe nenhuma relação essencial” (Foucault. as condições internas. Há uma contribuição importante da ideologia liberal para . Mais uma vez. pode ser usada pelo capitalismo como instrumento que lhe auxilie na maior exploração do corpo do sujeito. quis mostrar algumas implicações éticas da relação entre a psicologia e o liberalismo. A longa história da constituição da subjetividade tal como ela se dá hoje acontece lado a lado à história da constituição de tecnologias de controle desse mesmo indivíduo e da sociedade da qual faz parte. o lugar da psicologia é duplo. O exemplo de Psamtik I é grotesco. mas. mas.

Através deles. é possível perceber que a psicologia também é uma tecnologia que pode auxiliar o indivíduo a lidar melhor com os conflitos trazidos por suas relações de trabalho. gerando novas possibilidades de resistência. No segundo. Além disso. justamente. lembrei de uma experiência importante com vítimas de tortura na África do Sul que aprenderam a re-significar as experiências sofridas com um novo vocabulário. . Por fim.17 tornar esse estado de coisas mais aceitável. comentei a forte tendência ao longo da história da psicologia em reduzir a responsabilidade do indivíduo à sua biologia cerebral. pois a responsabilização maciça do indivíduo interessa na medida em que obnubila os jogos de poder que dão ensejo às práticas sociais complexas como o crime e a violência. Todavia. por estudar o indivíduo pode explicitar seu caráter social e político. São exemplos de crenças que sustentam a ideologia liberal: “o homem certo no lugar certo”. (Ed. Por outro lado. “meu fracasso e meu sucesso são de minha responsabilidade”. “a vida é um tipo de competição: vence o melhor”. Brock. pp. Adrian C. Exemplos dessa ética psicológica podem ser vistos em vários lugares e momentos. Por um lado. 2006. No primeiro. Adrian C. quis mostrar que tecnologias produzidas pela psicologia podem ser apropriadas pelo liberalismo e pelo sistema capitalista de produção. é também através da psicologia que o indivíduo pode ganhar mais recursos para compreender seu ambiente e a si mesmo. Essas crenças são as formas práticas do que se pode chamar ética psicológica. citei dois exemplos. mais interno e subjetivo. a psicologia é também instrumento de resistência que. isto é. pode-se dizer que as implicações éticas do encontro entre psicologia e liberalismo são ambivalentes. tal tática científica é apropriada pelo liberalismo. o conjunto de práticas sociais e discursivas que tendem a dar sentido ao mundo humano reduzindo-o à interioridade dos que dele fazem parte. New York: New York University Press. Psychology and liberal democracy: a spurious connection? In. 152-162. a psicologia é parte do processo de individuação que começa muito antes dela aparecer como disciplina independente. como tem mostrado a história crítica da psicologia. Citei apenas três. no campo do trabalho. Muitas vezes. Referências Bibliográficas Brock. Internationalizing the history of psychology. De maneira geral.).

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