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Giddens

_ -Anthony

Sociologia
edição
Tradução: Sandra Regina Netz C o n s u l t o r i a , s u p e r v i s ã o e r e v i s ã o técnica d e s t a e d i ç ã o : Virgínia A i t a Doutoranda em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Reimpressão 2008

2005

A Mídia e as Comunicações de Massa

O s jornais e a televisão Os jornais A transmissão de programas de televisão O impacto da televisão TV e violência Os sociólogos analisam os noticiários da TV A televisão e o gênero Teorias da mídia As primeiras teorias Jürgen Habermas: a esfera pública Baudrillard: o mundo da hiper-realidade John Thompson: a mídia e a sociedade moderna A nova tecnologia das comunicações Telefones celulares: a onda do futuro?

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A internet As origens da internet O impacto da internet A globalização e a mídia Música Cinema As "superempresas" de mídia O imperialismo da mídia A mídia global e a democracia Resistência e alternativas à mídia global A questão da regulamentação da mídia Conclusão Pontos principais Questões para reflexão Leitura complementar Endereços na internet

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15: A Mídia e as Comunicações de Massa

V

i v e m o s n e s s a era interligada e m q u e pessoas de t o d o o planeta participam de u m a única o r d e m informacional u m a situação que é, e m grande parte, resultado do alcance internacional das comunicações m o d e r n a s . Graças à globaliz a ç ã o e ao p o d e r da internet, q u e m estiver e m Caracas ou n o Cairo conseguirá r e c e b e r as m e s m a s m ú s i c a s populares, notícias, filmes e p r o g r a m a s de televisão. Canais d e televisão que e x i b e m noticiários 2 4 horas por dia trazem informações dos fatos assim que eles ocorrem, e transmitem coberturas sobre o desenrolar dos eventos que serão vistas p o r telespectadores do m u n d o inteiro. F i l m e s p r o d u z i d o s e m H o l l y w o o d ou e m H o n g K o n g c h e g a m a públicos de t o d o o m u n d o e celebridades, c o m o as Spice Girls e o Tiger W o o d s , tornam-se n o m e s familiares e m todos os continentes. A o l o n g o de várias d é c a d a s , t e m o s t e s t e m u n h a d o u m p r o c e s s o d e convergência n a p r o d u ç ã o , distribuição e n o c o n s u m o das i n f o r m a ç õ e s . Se h o u v e u m t e m p o e m q u e m e i o s de c o m u n i c a ç ã o c o m o a i m p r e n s a , a televisão e o c i n e m a e r a m esferas relativamente fechadas, eles a g o r a estão n i t i d a m e n t e entrelaçados. A s divisões existentes entre as formas de c o m u n i c a ç ã o não são m a i s tão i m p r e s s i o n a n t e s c o m o o f o r a m n o p a s s a d o : a televisão, o rádio, o j o r n a l e a telefonia estão p a s s a n d o por profundas t r a n s f o r m a ç õ e s e m função dos avanços na tecnologia e da difusão a c e l e r a d a d a internet. E m b o r a os j o r n a i s e d e m a i s m e i o s de c o m u n i c a ç ã o c o n t i n u e m t e n d o o m e s m o p a p e l central e m n o s s a vida, a m a n e i r a c o m o eles se o r g a n i z a m e distribuem seus serviços está m u d a n d o . O s j o r n a i s p o d e m ser lidos on-line, o u s o d o telefone celular está e x p l o d i n d o , e a televisão digital e os serviços de t r a n s m i s s ã o via satélite p e r m i t e m u m a diversidade de escolhas s e m precedentes p a r a os telespectadores. P o r é m , n o c o r a ç ã o d e s s a r e v o l u ç ã o das c o m u n i c a ç õ e s , está a internet. C o m a e x p a n s ã o de tecnologias c o m o as q u e possibilitam o r e c o n h e c i m e n t o da voz, a t r a n s m i s s ã o e m b a n d a larga, o webcasting e as c o n e x õ e s a c a b o , a i n t e r n e t a m e a ç a a c a b a r c o m as distinções entre as formas tradicionais da m í d i a e tornar-se o c o n d u t o r p a r a distribuição de informações, entretenim e n t o , p r o p a g a n d a e c o m é r c i o às audiências da mídia. N e s t e capítulo, e s t u d a r e m o s as transformações que afetam a m í d i a e as c o m u n i c a ç õ e s d e m a s s a c o m o parte da globalizaç ã o . A m í d i a d e m a s s a a b r a n g e u m a a m p l a v a r i e d a d e de form a s - incluindo a televisão, os j o r n a i s , o c i n e m a , as revistas, o rádio, a p u b l i c i d a d e , os video games e os C D s . O n o m e m í d i a d e " m a s s a " deve-se ao fato de esse tipo d e m í d i a chegar a audiências d e m a s s a - q u e c o n s i s t e m e m v o l u m e s e n o r m e s d e p e s s o a s . E s s a s f o r m a s são, às vezes, d e n o m i n a d a s t a m b é m d e comunicações de massa. É c o m u m a s s o c i a r m o s a m í d i a de m a s s a a p e n a s ao entreten i m e n t o , e n x e r g a n d o - a , assim, c o m o se estivesse à m a r g e m da vida da m a i o r i a das p e s s o a s . Entretanto, essa é u m a visão par-

cial: as c o m u n i c a ç õ e s d e m a s s a t a m b é m estão envolvidas e m m u i t o s outros a s p e c t o s de n o s s a s atividades sociais. T i p o s de m í d i a c o m o os jornais ou a televisão t ê m u m a a m p l a influência sobre n o s s a experiência e sobre a o p i n i ã o p ú b l i c a , não apenas p o r afetarem nossas atitudes e m m o d o s específicos, m a s p o r s e r e m o meio de acesso ao c o n h e c i m e n t o d o q u a l d e p e n d e m m u i t a s atividades sociais. I n i c i a r e m o s este e s t u d o d a m í d i a d e m a s s a c o n s i d e r a n d o dois d e seus formatos m a i s antigos - os j o r n a i s e a televisão. A b o r d a r e m o s questões c o m o o i m p a c t o da televisão e o p a p e l d a radiodifusão p ú b l i c a , p a r a e n t ã o f a z e r m o s u m a análise de a l g u m a s das principais teorias do c a m p o e d o p a p e l da m í d i a na p r o t e ç ã o d o espaço p ú b l i c o . N o e n c e r r a m e n t o d o capítulo, exp l o r a r e m o s o surgimento da m í d i a eletrônica e das t e l e c o m u n i c a ç õ e s , incluindo a internet, e d i s c u t i r e m o s a g l o b a l i z a ç ã o da m í d i a nas últimas d é c a d a s .

Os jornais e a televisão
Os jornais
O s j o r n a i s , e m seu formato m o d e r n o , tiveram o r i g e m nos p a n fletos e nos folhetos informativos i m p r e s s o s q u e circulavam n o século X V I I I , g a n h a n d o u m a t i r a g e m "diária", lida p o r m i l h a res ou m i l h õ e s de leitores, a partir d o final d o século X I X . O j o r n a l r e p r e s e n t o u u m a v a n ç o d e i m p o r t â n c i a f u n d a m e n t a l na história da m í d i a m o d e r n a , p o i s r e u n i u vários tipos diferentes de i n f o r m a ç õ e s e m u m formato l i m i t a d o e d e fácil r e p r o d u ç ã o . E m u m ú n i c o pacote, os j o r n a i s c o n c e n t r a v a m i n f o r m a ç õ e s sob r e assuntos d a atualidade, e n t r e t e n i m e n t o e b e n s de c o n s u m o . O s E s t a d o s U n i d o s f o r a m os pioneiros da i m p r e n s a diária de b a i x o custo. O diário d e u m centavo estabeleceu-se originalm e n t e e m N o v a York, s e n d o e n t ã o c o p i a d o e m outras grandes cidades d o leste. Até o início d o século X X , os jornais citadinos ou regionais c o b r i a m a m a i o r i a d o s estados n o r t e - a m e r i c a n o s (diferentemente d o q u e o c o r r e u c o m os p e q u e n o s países e u r o p e u s , os j o r n a i s de circulação nacional n ã o p r o g r e d i r a m ) . A inv e n ç ã o de u m papel b a r a t o p a r a a i m p r e s s ã o de j o r n a i s foi a c h a v e d a difusão de m a s s a d e s s e v e í c u l o de c o m u n i c a ç ã o a partir d o final do século X I X . O s dois primeiros e x e m p l o s d e jornais de prestígio da virada d o século f o r a m o New York Times e o The Times, de L o n dres. A m a i o r i a dos j o r n a i s influentes nos o u t r o s países o s tom o u c o m o m o d e l o s . O s j o r n a i s do s e g m e n t o mais importante d o m e r c a d o a s s u m i r a m u m d e s t a q u e de g r a n d e força política q u e c o n t i n u a m a exercer até hoje. D u r a n t e m e i o século, ou mais. o s jornais representaram a p r i n c i p a l m a n e i r a de t r a n s m i t i r informações c o m rapidez e a b r a n g ê n c i a a u m p ú b l i c o d e massa. C o m o avanço d o rádio,

d o c i n e m a e - m u i t o m a i s i m p o r t a n t e - d a t e l e v i s ã o , sua influência d i m i n u i u . S e u n ú m e r o d e leitores, n a G r ã - B r e t a n h a , s u g e r e q u e . d e s d e o início d a d é c a d a d e 1980, h o u v e u m a q u e da n a p r o p o r ç ã o de p e s s o a s q u e l ê e m u m j o r n a l diário d e circulação n a c i o n a l . E n t r e os h o m e n s , e s s a p r o p o r ç ã o c a i u de 76%. e m 1 9 8 1 , p a r a 6 0 % , e m 1 9 9 8 - 1 9 9 9 . O s níveis de leitores são, de certa forma, m a i s b a i x o s entre as m u l h e r e s , m a s a q u e da n e s s e g r u p o t a m b é m foi s e m e l h a n t e - de 6 8 % p a r a 5 1 % (HMSO, 2000). E b e m p r o v á v e l q u e a c o m u n i c a ç ã o eletrônica v e n h a a a b o c a n h a r u m a p a r c e l a a i n d a m a i o r da circulação dos j o r n a i s : as notícias agora estão q u a s e q u e i n s t a n t a n e a m e n t e disponíveis on-line, s e n d o c o n s t a n t e m e n t e atualizadas ao l o n g o d o dia. T a m b é m é possível acessar e ler on-line vários j o r n a i s s e m pagar n a d a .

trolada p o r lei - o t e m p o m á x i m o é d e 6 m i n u t o s p o r h o r a . E s ses r e g u l a m e n t o s t a m b é m se a p l i c a m aos canais p o r satélite, a m p l a m e n t e d i s p o n i b i l i z a d o s aos assinantes na d é c a d a d e 1980. N o s E s t a d o s U n i d o s , as três principais organizações de T V são redes comerciais de c o m u n i c a ç õ e s - a American Broadcasting Company ( A B C ) , a Columbia Broadcasting System ( C B S ) e a National Broadcasting Company ( N B C ) . P o r lei, as r e d e s de c o m u n i c a ç õ e s n ã o p o d e m ter m a i s d o q u e c i n c o estações lic e n c i a d a s , q u e , n o c a s o dessas três o r g a n i z a ç õ e s , l o c a l i z a m - s e nas m a i o r e s c i d a d e s n o r t e - a m e r i c a n a s . J u n t a s , as "três grand e s " c h e g a m a mais de u m quarto dos lares através d e suas próprias estações. A c a d a r e d e de c o m u n i c a ç õ e s estão ligadas t a m b é m u m a s 2 0 0 estações filiadas, c o m p r e e n d e n d o 9 0 % das cerca d e 7 0 0 estações de T V d o p a í s . A r e n d a dessas redes d e p e n d e da v e n d a d e e s p a ç o publicitário. A National Association of Broadcasters (Associação Nacional dos Radiodifusores), u m grupo privado, formula diretrizes p a r a a definição da p r o p o r ç ã o d o t e m p o d e e x i b i ç ã o p o r h o r a a ser d e d i c a d o à p r o p a g a n d a : 9,5 m i n u t o s p o r h o r a d u r a n t e o " h o r á r i o n o b r e " , e 16 m i n u t o s p o r h o r a n o s d e m a i s p e r í o d o s . A s e m p r e s a s d e televisão utiliz a m estatísticas c o l h i d a s r e g u l a r m e n t e (índices de audiência) q u e i n d i c a m quantas p e s s o a s a s s i s t e m a p r o g r a m a s específicos p a r a d e t e r m i n a r o valor das taxas publicitárias. E s s e s índices, é claro, t a m b é m e x e r c e m u m a forte influência nas decisões q u e e n v o l v e m a escolha dos p r o g r a m a s q u e d e v e m c o n t i n u a r a ser exibidos. O p o d e r das g r a n d e s r e d e s de c o m u n i c a ç õ e s sofreu u m a r e d u ç ã o c o m o advento da T V a c a b o e via satélite. E m m u i t o s países e u r o p e u s (entre eles o R U ) e nas p r i n c i p a i s cidades norte-americanas, p a g a n d o u m a taxa de assinatura, o telespectador t e m direito a escolher entre u m a multiplicidade de canais e prog r a m a s . N e s s a s circunstâncias, a i n d a m a i s c o m a influência dos vídeos, cresce o número de pessoas que fazem a própria " p r o g r a m a ç ã o " , m o n t a n d o horários pessoais de exibição ao invés d e d e p e n d e r e m d a q u e l e s preestabelecidos p e l a r e d e . O s sistemas p o r satélite e c a b o estão alterando a n a t u r e z a da televisão e m p r a t i c a m e n t e t o d o s os l u g a r e s . U m a v e z q u e eles c o m e ç a r a m a invadir os d o m í n i o s d o s canais o r t o d o x o s terrestres d e televisão, ficará ainda m a i s difícil p a r a os governos c o n t r o l a r e m o c o n t e ú d o da TV, c o m o c o s t u m a v a m fazer n o p a s s a d o . C o m o v i m o s , o alcance da m í d i a ocidental p a r e c e ter influenciado as c i r c u n s t â n c i a s q u e p r o d u z i r a m as r e v o l u ç õ e s de 1989 n o L e s t e E u r o p e u (veja o C a p í t u l o 14 " G o v e r n o e P o lítica", p. 342).

A transmissão de programas de televisão
A o lado do progresso da internet, a influência crescente da t e l e v i s ã o é, p r o v a v e l m e n t e , o m a i o r a v a n ç o d a m í d i a n o s últimos 40 anos. A julgar pelas tendências atuais de perman ê n c i a d i a n t e d a TV, u m a c r i a n ç a q u e n a s ç a h o j e t e r á d e d i c a d o , até os 18 a n o s , m a i s t e m p o a v e r T V d o q u e a q u a l q u e r outra atividade, exceto dormir. Hoje e m dia, praticamente t o d o s os l a r e s p o s s u e m u m a p a r e l h o d e TV. N o R U , a m é d i a de t e m p o e m que os aparelhos de T V ficam ligados é de cinc o a seis h o r a s p o r dia; u m p e r í o d o s e m e l h a n t e a o v e r i f i c a d o nos demais países europeus ocidentais e nos Estados Unid o s . N o R e i n o U n i d o , a p a r t i r d o s 4 a n o s d e i d a d e , os i n d i v í duos p a s s a m u m a m é d i a de 25 horas por semana vendo televisão! Os mais velhos dedicam a essa atividade o dobro do t e m p o d i s p e n d i d o p e l a s c r i a n ç a s q u e t ê m e n t r e 4 e 15 a n o s d e i d a d e , e as m u l h e r e s , u m p o u c o m a i s d o q u e os h o m e n s (veja a F i g u r a 15.1). O n ú m e r o de canais de televisão disponíveis aos telesp e c t a d o r e s b r i t â n i c o s v e m c r e s c e n d o e m função dos a v a n ç o s n a t e c n o l o g i a de satélites e d e c a b o s . E m 1 9 9 8 , c e r c a d e 1 3 % d o s lares b r i t â n i c o s t i n h a m u m a a s s i n a t u r a d e T V p o r satélite, e n q u a n t o 9 % a s s i n a v a m a T V a c a b o ( H M S O , 2 0 0 0 ) . E m 1 9 9 8 , a t e l e v i s ã o digital t o r n o u - s e d i s p o n í v e l c o m e r c i a l m e n te n o R U .

Radiodifusão pública
N a m a i o r i a d o s países, o E s t a d o envolve-se d i r e t a m e n t e n a adm i n i s t r a ç ã o da t r a n s m i s s ã o de p r o g r a m a s de TV. N a G r ã - B r e tanha, a British Broadcasting Corporation, a primeira a produzir p r o g r a m a s d e televisão, é u m a o r g a n i z a ç ã o pública, financiada pelas taxas de licença p a g a s p o r c a d a família q u e possui u m aparelho e m casa. Por alguns a n o s , a B B C foi a ú n i c a organ i z a ç ã o n a G r ã - B r e t a n h a c o m p e r m i s s ã o p a r a transmitir tanto os p r o g r a m a s de rádio q u a n t o os de televisão, m a s , hoje e m dia, a l é m d o s dois c a n a i s d e T V d a B B C , o B B C 1 e o 2 , e x i s t e m três canais de T V c o m e r c i a i s terrestres (o ITV, o Channel 4 e o Channel 5). A freqüência e a d u r a ç ã o das p r o p a g a n d a s é c o n -

O futuro da BBC
A situação da B B C - a s s i m c o m o a dos radiodifusores públicos d a m a i o r i a dos p a í s e s - está t e n s a e t e m sido o t e m a d e m u i t a controvérsia. O futuro da B B C t o r n o u - s e p r o b l e m á t i c o devido à proliferação das novas formas de t e c n o l o g i a da mídia. N o v o s c a n a i s estão s e m p r e a p a r e c e n d o . C o m o d e s e n v o l v i m e n t o da t e c n o l o g i a digital, h á literalmente c e n t e n a s d e canais a c a b o e via satélite s e n d o d i s p o n i b i l i z a d o s . O s i s t e m a pay-per-view, a

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Indivíduos do sexo Todos com idades a partir de 4 anos

masculino

Indivíduos do sexo feminino

4-15 16-24 25-34 35-44 45-54 55-64
acima de 65

Todos com idades a partir de 4 anos

40

30

Horas semanais por pessoa

20

i— 10

10

20

30

40

Horas semanais por pessoa

Figura 15.1 Tempo gasto assistindo à televisão, por gênero e idade, RU, 1998 (horas semanais por pessoa). Fontes: BARB; AGB Ltd; RSMB Ltd. De Social Trenós, 30 (2000), p. 211. Crown copyright.

televisão p o r assinatura e a " T V interativa" a m e a ç a m enfraquecer o c o n t i n g e n t e d e telespectadores d a B B C . E m 1995, o percentual de a u d i ê n c i a d a B B C esteve u m p o u c o a c i m a dos 4 0 % , sendo acompanhada por apenas 3 3 % das pessoas que possuem televisão a c a b o ou p o r satélite - e m u i t o s p a s s a r a m a question a r p o r q u e t e r i a m de p a g a r a t a x a de licença. H á q u e m sugira q u e a B B C d e v e s s e ser privatizada. E m outras p a l a v r a s , deveria extrair sua receita d a p u b l i c i d a d e , a s sim c o m o os outros canais o fazem, e acabar c o m a taxa de lic e n ç a . A t é o m o m e n t o , e x i s t e m resistências contra a idéia de u m a privatização total: m u i t a s p e s s o a s a c r e d i t a m q u e é i m p o r tante q u e a B B C p e r m a n e ç a n o d o m í n i o p ú b l i c o . N o e n t a n t o , m e d i d a s t ê m sido t o m a d a s n o sentido de c o m e r c i a l i z a r p a r t e das atividades internacionais da B B C , a fim de ampliar os fundos d e s t i n a d o s aos seus serviços p ú b l i c o s d o m é s t i c o s . A B B C é u m a das " m a r c a s " m a i s c o n h e c i d a s e respeitadas n o m u n d o . N o s ú l t i m o s a n o s , ela v e m t e n t a n d o tirar p a r t i d o d e s s a vantag e m , i n g r e s s a n d o e m e m p r e e n d i m e n t o s conjuntos para a criaç ã o de novos canais de televisão voltados aos m e r c a d o s globais ( H e r m a n e M c C h e s n e y , 1997). C o m o o b s e r v a m alguns c o m e n t a d o r e s , os efeitos da d e s r e g u l a m e n t a ç ã o e m seu a m b i e n t e de o p e r a ç ã o e das p r e s s õ e s financeiras t r a n s f o r m a r a m a B B C e m u m s i s t e m a c o m e r c i a l q u e p r e s e r v a parte daquele seu e l e m e n to original de serviço p ú b l i c o . O futuro da B B C é incerto. P o r u m lado, o sistema d e taxas d e licença n ã o conseguirá suportar u m a q u e d a ainda m a i o r da a u d i ê n c i a da emissora, pois h a v e r á u m m o v i m e n t o de resistência p o p u l a r e m r e l a ç ã o a a u m e n t o s d e valor. N o s p r ó x i m o s anos, a r e n d a p r o v e n i e n t e das taxas de licença será insuficiente p a r a a t e n d e r às d e s p e s a s c a d a vez m a i o r e s de p r o d u ç ã o e d e a q u i s i ç ã o d o s direitos d e u m a p r o g r a m a ç ã o de alta q u a l i d a d e . A r e n d a publicitária g a n h a r á cada v e z m a i s i m p o r t â n c i a n o fin a n c i a m e n t o d e p r o g r a m a s (Currie e Siner, 1999). P o r outro lad o , o valor d o serviço p ú b l i c o p r e s t a d o p e l a B B C n ã o deveria ser s u b e s t i m a d o . C o m a d e s r e g u l a m e n t a ç ã o d o setor de televisão, o p a p e l d a B B C a s s u m e u m a i m p o r t â n c i a n u n c a vista, e s -

p e c i a l m e n t e n a h o r a de m a n t e r u m alto p a d r ã o d e q u a l i d a d e n a p r o g r a m a ç ã o e - a g o r a q u e as p e s s o a s c o m m a i s de 7 5 anos t ê m direito à i s e n ç ã o d a t a x a d e l i c e n ç a p a r a a T V - atingir as parcelas socialmente excluídas da p o p u l a ç ã o . C o m o c o m e n t o u o Diretor de Política e P l a n e j a m e n t o da B B C :

Existem fortes temores de que o aumento da quantidade significará uma falta de qualidade, de que a concorrência promoverá uma fragmentação das audiências e dos investimentos através de múltiplos pontos-de-venda, que levarão a valores de tablóide e a uma nação que ficará dividida entre aqueles que adotam os novos serviços e aqueles que, ou não podem, ou preferem não arcar com seus custos. O desafio da política pública é resgatar o que houver de melhor nesses dois mundos: impulsionar o crescimento e manter a qualidade (Currie e Siner, 1999).

A televisão em nível global
N o s últimos 2 0 anos, m u d a n ç a s importantes v ê m ocorrendo tanto na tecnologia q u a n t o n a política, fazendo c o m q u e a program a ç ã o de T V abranja u m nível mais global. M u i t a s regiões d o m u n d o onde os sistemas de transmissão de p r o g r a m a s de televisão e o n ú m e r o de aparelhos de T V s e m p r e foram limitados c o m o n o Leste E u r o p e u , n a antiga U n i ã o Soviética e e m partes da Á s i a e da África - sofreram u m a e n o r m e e x p a n s ã o e m suas capacidades de transmissão. O v o l u m e crescente de canais de televisão e o a u m e n t o da p o p u l a r i d a d e desse aparelho incentivar a m a d e m a n d a de u m a p r o g r a m a ç ã o m a i s extensa - u m a d e m a n d a q u e geralmente n ã o c o n s e g u e ser suprida pelos recursos domésticos de produção, exigindo a importação de programas de televisão. À m e d i d a q u e os governos liberalizaram as regulam e n t a ç õ e s relativas à transmissão de p r o g r a m a s d e televisão, as e m p r e s a s de m í d i a estrangeiras p a s s a r a m a se inserir e m m e r c a dos antes fechados (veja o quadro p . 370). Esse fato, aliado aos avanços n a tecnologia de satélites e de cabos, facilitou e m m u i t o

Televisão e globalização: o caso da índia
Os efeitos d a g l o b a l i z a ç ã o da m í d i a p o d e m ser p e r c e b i d o s claramente no caso da índia, onde, na última década, houve u m c r e s c i m e n t o e x p o n e n c i a l n a t r a n s m i s s ã o d e p r o g r a m a s d e TV. E m 1 9 9 1 , a índia p o s s u í a um c a n a l d e T V c o n t r o l a d o p e l o E s t a d o , m a s , até 1 9 9 8 , j á c o n t a v a c o m q u a s e 7 0 c a n a i s - i n c l u i n d o a m a i o r r e d e d e t e l e v i s ã o asiática d o m u n d o , a Z e e TV. Nos últimos anos, o panorama da mídia tem apresentad o m u d a n ç a s p r o f u n d a s n a í n d i a , p a í s cuja e n o r m e c l a s s e m é d i a ( c o m p o s t a p o r 2 5 0 m i l h õ e s d e p e s s o a s ) d e falantes de i n g l ê s o t r a n s f o r m a e m u m d o s m e r c a d o s m u n d i a i s da m í d i a e m q u e se verifica u m c r e s c i m e n t o m a i s a c e l e r a d o (Thussu, 1999). Atualmente, a índia é vista por muitas e m presas internacionais do setor c o m o u m m e r c a d o vibrante, j á que o volume imenso da população e a diversidade de culturas e de línguas traduzem-se e m u m a ampla demanda de m u i t o s t i p o s d e p r o g r a m a e c a n a l . E n q u a n t o e r a u m E s t a d o p ó s - c o l o n i a l c o m altos í n d i c e s d e a n a l f a b e t i s m o e u m frágil s e n s o d e i d e n t i d a d e , a I: ' dominada pela radiodifusora nacional Doordars/?.•• . 2s'."a o g o v e r n o i n d i a n o , a D o o r d a r s h a n r e p r e s e n t a v a i; de construir a unidade nacional, promover certos objetivos d e " d e s e n v o l v i m e n t o " entre a p o p u l a ç ã o e e d u c a r os c i d a d ã o s c o l e t i v a m e n t e . A p e s a r d a h i s t ó r i c a l i b e r d a d e d a m í d i a i m p r e s s a n a í n d i a , a Doordarshan era submetida a u m a c e n s u r a e a u m c o n t r o l e r i g o r o s o s . U m dos m o m e n t o s d e c i s i v o s d a r a d i o d i f u s ã o i n d i a n a o c o r r e u d u r a n t e a liderança de Indira Gandhi (1967-1978 e 1980-1984), que considerava a televisão u m instrumento crucial para prom o v e r as i d é i a s d e c o n s t r u ç ã o d a n a ç ã o e n t r e o p o v o . E l a supervisionou a expansão no número de estações emissoras d e televisão, a l é m d e i n t r o d u z i r a p a r e l h o s d e T V e m c o res no país. E m 1 9 9 1 , o g o v e r n o i n d i a n o l i b e r a l i z o u o setor d a m í dia, a b r i n d o a p o r t a p a r a q u e c o r p o r a ç õ e s e s t r a n g e i r a s d e s sa á r e a t r a n s m i t i s s e m u m a p r o g r a m a ç ã o d e n t r o d e u m sist e m a a n t e r i o r m e n t e f e c h a d o . A r a d i o d i f u s ã o v i a satélite c o m o a q u e é r e a l i z a d a p e l a STAR TV d e H o n g K o n g e p e la C N N d o s E s t a d o s U n i d o s - g a n h o u b a s t a n t e p o p u l a r i d a d e e n t r e a elite c u l t a u r b a n a , i n d u z i n d o a u m r á p i d o c r e s c i m e n t o das c o n e x õ e s a c a b o e das a n t e n a s d e satélite. A i n d a que n o início da década de 1990 esses modos de exibição e s t i v e s s e m r e s t r i t o s a u m a p e q u e n a m i n o r i a rica, o s a n u n c i a n t e s i n t e r e s s a r a m - s e p o r e s s a m i n o r i a , e n x e r g a n d o na transmissão de programas de televisão na índia u m camin h o e x c e l e n t e p a r a p r o m o v e r seus p r o d u t o s . Até o ano de 1998, todos os principais canais mundiais d e T V a c a b o - i n c l u i n d o a B B C , a C N N , o Discovery, a

SOCIOLOGÍA

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STAR, a M T V c a C N B C - e s t a v a m t r a n s m i t i n d o s e u s p r o g r a m a s na índia a o lado d e e m p r e s a s i n d i a n a s . E m b o r a e s sas e m p r e s a s d e m í d i a t r a n s m i t i s s e m u m m a t e r i a l cujo c o n t e ú d o era p r a t i c a m e n t e t o d o e s t r a n g e i r o , elas m u i t a s v e z e s " s i t u a v a m " os p r o g r a m a s a c r e s c e n t a n d o l e g e n d a s e m h i n di, o u c o l o c a n d o n o ar p r o g r a m a s q u e t r a t a s s e m d e t ó p i c o s de interesse específico para o país. A Zee TV foi o m a i o r e m a i s b e m - s u c e d i d o canal d a T V i n d i a n a a surgir a o l a d o d a Doordarshan. L a n ç a d o e m 1992, o primeiro canal de T V privado da índia e m língua hindi c o n s e g u i u s u p e r a r a Doordarshan, até 1996, c o m seus 3 7 % de audiência, contra 2 8 % da estatal ( H e r m a n e M c C h e s n e y , 1997). A p o p u l a r i d a d e d a Zee TV p a r e c e estar r e l a c i o n a d a a u m a c o m b i n a ç ã o d e fatores, entre eles, u m a p r o g r a m a ç ã o i n o v a d o r a q u e é n o v i d a d e p a r a os t e l e s p e c t a d o r e s i n d i a n o s , além d o a m p l o u s o d o " h i n g l ê s " ( u m a m i s t u r a d o hindi c o m o inglês q u e caiu n a preferência d o s j o v e n s u r b a n o s ) . A p r o g r a m a ç ã o d a Zee TV d e m o n s t r o u o s u c e s s o d e r e m o d u l a r p r o d u t o s globais c o m t e m a s locais: os telespectadores indianos n ã o e s t a v a m familiarizados c o m p r o g r a m a s de entrevistas e game shows, m a s a Zee TV c o n s e g u i u a d a p t a r c o m suc e s s o o s formatos dessas atrações ocidentais p a r a u m p ú b l i c o especificamente i n d i a n o (Thussu, 1999). A m e d i d a q u e as forças g l o b a i s f i r m a r a m - s e n a á r e a d e transmissão de programas de T V na índia, a Doordarshan se viu o b r i g a d a a r e a g i r à c o n c o r r ê n c i a a m p l i a n d o a p r ó p r i a

oferta. A e x e m p l o da m u d a n ç a que o c o r r e u e m m u i t o s p a í ses, a m i s s ã o da Doordarshan, de c o m p r o m e t i m e n t o c o m a p r e s t a ç ã o d e u m s e r v i ç o p ú b l i c o , foi g r a d u a l m e n t e s u b s t i tuída por políticas voltadas para o lucro e o mercado. A l é m d e o f e r e c e r u m c o n t e ú d o e d u c a c i o n a l , a Doordarshan com e ç o u a incluir p r o g r a m a s d e e n t r e t e n i m e n t o e m sua p r o gramação para reforçar seus índices de audiência. Essa mudança em direção à privatização da mídia na índia - a m a i o r d e m o c r a c i a d o m u n d o - tbi c r i t i c a d a p o r m u i t o s o b s e r v a d o r e s q u e a f i r m a m q u e a T V i n d i a n a e s t á se transform a n d o e m u m a c o r p o r a ç ã o e seu c o n t r o l e e s t á s e n d o a s s u m i d o pelas gigantes da mídia ocidental. Essa discussão c h e g a a alegar q u e , q u a n d o o j o r n a l i s m o , a p r o d u ç ã o de n o tícias e o c o n t e ú d o d a T V são i m p u l s i o n a d o s p o r i n t e r e s s e s d e m e r c a d o , cai a q u a l i d a d e d o c o n t e ú d o e a p r o g r a m a ç ã o p a s s a a ser d o m i n a d a p e l a s n e c e s s i d a d e s e p e l a s v i s õ e s d o s a n u n c i a n t e s ( T h u s s u , 1999). O u t r o s a f i r m a m q u e a g l o b a l i z a ç ã o da m í d i a na í n d i a foi i m p o r t a n t e p a r a q u e b r a r o c o n t r o l e d o E s t a d o n a á r e a d a t r a n s m i s s ã o d e p r o g r a m a s d e T V e p a r a e x p a n d i r a esfera p ú b l i c a . A Zee TV, p o r e x e m p l o , d e d i c a u m a a t e n ç ã o b e m m a i o r às o p i n i õ e s d o s p o l í t i c o s d a o p o s i ç ã o d o q u e a Doordarshan, f o r ç a n d o esta ú l t i m a a l i b e r a l i z a r s u a c o b e r t u r a política (Herman e McChesney, 1997). Nesse aspecto, o aparecimento de novos radiodifusores comerciais serviu p a r a a m p l i a r e revitalizar a esfera p ú b l i c a i n d i a n a .

a transmissão dos p r o g r a m a s de televisão, q u e assim p u d e r a m ultrapassar as fronteiras dos estados-nações.

O impacto da televisão
U m v o l u m e i m e n s o de p e s q u i s a t e m sido p r o d u z i d o p a r a tentar avaliar o s efeitos d o s p r o g r a m a s d e televisão. A m a i o r i a d e s s e s e-srudos diz respeito às crianças - o q u e é bastante c o m p r e e n s í vel, p e l a q u a n t i d a d e d e t e m p o q u e elas p a s s a m e m frente ao a p a r e l h o e p e l a s possíveis i m p l i c a ç õ e s d e s s e c o m p o r t a m e n t o p a r a a s o c i a l i z a ç ã o . D o i s d o s t ó p i c o s m a i s p e s q u i s a d o s são o i m p a c t o da televisão n o â m b i t o d o c r i m e e da violência e a natureza das notícias exibidas na televisão.

l e n t o s e e p i s ó d i o s d e v i o l ê n c i a f o r a m d e m o n s t r a d o s graficam e n t e e m u m a v a r i e d a d e d e tipos d e p r o g r a m a s . N a p e s q u i s a , a v i o l ê n c i a é definida c o m o a a m e a ç a ou o u s o efetivo de força física, q u e o i n d i v í d u o dirige c o n t r a si m e s m o , ou c o n t r a o u t r a s p e s s o a s , e n v o l v e n d o u m d a n o físico o u a m o r t e . A dram a t u r g i a n a T V d e s p o n t o u c o m u m caráter a l t a m e n t e v i o l e n to: e m m é d i a , 8 0 % d e s s e s p r o g r a m a s c o n t i n h a m v i o l ê n c i a , c o m u m í n d i c e d e 7,5 e p i s ó d i o s v i o l e n t o s p o r h o r a . O s p r o g r a m a s infantis m o s t r a r a m níveis a i n d a m a i o r e s d e v i o l ê n c i a , embora geralmente retratassem menos casos de assassinatos. D e t o d o s os tipos d e p r o g r a m a s de televisão, os d e s e n h o s a n i m a d o s f o r a m os q u e c o n t i v e r a m o m a i o r n ú m e r o de atos e e p i s ó d i o s v i o l e n t o s ( G e r b n e r et al., 1 9 7 9 , 1 9 8 0 ; G u n t e r , 1985). E m q u e a s p e c t o s , se h o u v e r a l g u m , a r e p r e s e n t a ç ã o d a v i o l ê n c i a influencia os t e l e s p e c t a d o r e s ? F.S. A n d e r s o n r e u n i u as d e s c o b e r t a s de 6 7 e s t u d o s r e a l i z a d o s ao l o n g o de 2 0 a n o s (de 1956 a 1976) que investigaram a influência da violência a p r e s e n t a d a n a T V s o b r e a t e n d ê n c i a de a g r e s s i v i d a d e e n t r e as c r i a n ç a s . C e r c a d e três q u a r t o s d o s e s t u d o s a l e g a r a m ter encontrado alguma associação. E m 2 0 % dos casos, não houv e r e s u l t a d o s c l a r o s , ao p a s s o que e m 3 % d a s p e s q u i s a s , os investigadores concluíram que presenciar a violência na telev i s ã o na v e r d a d e d i m i n u i o n í v e l de a g r e s s i v i d a d e i F.S. A n d e r s o n , 1977; L i e b e r t e t a l . 1982).

TV e violência
A i n c i d ê n c i a d a v i o l ê n c i a n o s p r o g r a m a s de t e l e v i s ã o está b e m - d o c u m e n t a d a . O s e s t u d o s m a i s a b r a n g e n t e s f o r a m realizados por Gerbner e seus colaboradores, e trazem u m a análise de a m o s t r a s d a p r o g r a m a ç ã o e x i b i d a e m h o r á r i o n o b r e e d o s p r o g r a m a s d i u r n o s d o s fins d e s e m a n a de t o d a s as g r a n d e s r e d e s d e c o m u n i c a ç õ e s n o r t e - a m e r i c a n a s e m t o d o s os a n o s a p a r t i r d e 1 9 6 7 . O n ú m e r o e a f r e q ü ê n c i a d e atos v i o -

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ÂmnmY

GCOENS

O e s t a d o s e x a m i n a d o s p o r A n d e r s o n , e n t r e t a n t o , são b a s tante d i v e r g e n t e s e m r e l a ç ã o a o s m é t o d o s e m p r e g a d o s , à i n t e n s i d a d e d a a s s o c i a ç ã o s u p o s t a m e n t e r e v e l a d a , e à definição do "comportamento agressivo". Nas histórias criminais que r e t r a t a m a v i o l ê n c i a (e e m m u i t o s d e s e n h o s a n i m a d o s infantis) e x i s t e m t e m a s s u b j a c e n t e s d e j u s t i ç a e d e r e t r i b u i ç ã o . N e s s a s histórias, a p r o p o r ç ã o d e c a n a l h a s q u e s ã o levados aos tribunais é b e m m a i o r d o q u e a c o n t e c e n a v i d a r e a l c o m as inv e s t i g a ç õ e s p o l i c i a i s ; e, n o s d e s e n h o s a n i m a d o s , os p e r s o n a g e n s m a u s ou a m e a ç a d o r e s n o r m a l m e n t e t e n d e m a ter " o q u e m e r e c e m " . L o g o , altos níveis d e r e p r e s e n t a ç ã o d a v i o l ê n c i a não necessariamente geram padrões diretamente imitativos e n t r e os i n d i v í d u o s q u e a s s i s t e m a ela, q u e talvez sejam m a i s influenciados pelos t e m a s m o r a i s subjacentes. D e m o d o geral, a p e s q u i s a r e f e r e n t e aos efeitos da t e l e v i s ã o s o b r e as a u d i ê n cias t e n d e a tratar os t e l e s p e c t a d o r e s - c r i a n ç a s e adultos - c o m o pessoas que reagem de maneira passiva e sem discernim e n t o ao q u e v ê e m . R o b e r t H o d g e e D a v i d T r i p p ( 1 9 8 6 ) e n f a t i z a m a idéia de q u e as r e a ç õ e s das crianças à televisão e n v o l v e m u m a interpretação ou leitura d o q u e v ê e m , e n ã o a p e n a s u m registro d o conteúdo dos programas. Eles sugerem que a maior parte da pesq u i s a n ã o c o n s i d e r o u a c o m p l e x i d a d e dos p r o c e s s o s m e n t a i s infantis. Assistir à TV, m e s m o aos p r o g r a m a s triviais, n ã o é u m a atividade inerente a u m b a i x o nível de d e s e m p e n h o intelectual; as crianças " l ê e m " os p r o g r a m a s ao relacioná-los a outros s i s t e m a s d e significado p r e s e n t e s e m s u a v i d a cotidiana. P o r e x e m p l o , até m e s m o as crianças b e m p e q u e n a s r e c o n h e c e m q u e a violência m o s t r a d a n a m í d i a " n ã o é r e a l " . D e a c o r d o c o m Hodge e Tripp, não é exatamente a violência exibida e m p r o g r a m a s de televisão q u e p r o d u z efeitos sobre o c o m p o r t a m e n t o , m a s , sim, o e s q u e m a geral de atitudes d e n t r o d o qual e s s a violência é a p r e s e n t a d a e "lida".

t e m á t i c a e i m p a r c i a l d o c o n t e ú d o das notícias e d o m o d o c o m o elas e r a m apresentadas. Bad News c o n c e n t r o u - s e e m retratar as disputas industriais. O s livros seguintes c o n c e n t r a r a m - s e m a i s n a cobertura política e n a G u e r r a das M a l v i n a s . Bad News c o n c l u i q u e as n o t í c i a s s o b r e as r e l a ç õ e s i n d u s t r i a i s f o r a m s e m p r e a p r e s e n t a d a s d e m a n e i r a seletiva e tendenciosa. Termos como "desordem", "radical" e "greve i n ú t i l " s u g e r i r a m v i s õ e s anti-sindicalistas. O s efeitos d a s g r e ves, p r o v o c a n d o t r a n s t o r n o s p a r a o p ú b l i c o , f o r a m b e m m a i s relatados do que suas causas. As imagens utilizadas faziam m u i t a s v e z e s c o m q u e as a t i v i d a d e s d o s m a n i f e s t a n t e s p a r e c e s s e m i r r a c i o n a i s e a g r e s s i v a s . P o r e x e m p l o , u m filme e x i b i n d o grevistas q u e d e t i n h a m a e n t r a d a d e p e s s o a s n a fábrica focava qualquer confronto que ocorresse, m e s m o que essas situações fossem raras. O livro t a m b é m c h a m o u a t e n ç ã o p a r a o fato de q u e a q u e les q u e c o n s t r o e m as notícias a g e m c o m o " p o r t e i r o s " d o q u e entra na a g e n d a - e m outras palavras, de t u d o q u e o p ú b l i c o ouve. Greves e m q u e t e n h a m ocorrido situações d e confronto ativ o entre os e m p r e g a d o s e a gerência, p o r e x e m p l o , a c a b a m send o a m p l a m e n t e divulgadas; j á as disputas industriais de m a i o res c o n s e q ü ê n c i a s e d e l o n g a d u r a ç ã o p o d e m ser p r a t i c a m e n t e i g n o r a d a s . A s opiniões dos jornalistas dos noticiários, sugere o Glasgow Media Group, refletem a visão dos g r u p o s d o m i n a n tes da sociedade, q u e inevitavelmente v ê e m os grevistas c o m o indivíduos p e r i g o s o s e irresponsáveis.

Reações críticas
A s o b r a s d o Glasgow Media Group f o r a m m u i t o d i s c u t i d a s n o s c í r c u l o s da m í d i a , a s s i m c o m o n a c o m u n i d a d e a c a d ê m i ca. A l g u n s p r o d u t o r e s de noticiários a c u s a r a m os p e s q u i s a d o r e s d e s i m p l e s m e n t e e s t a r e m s e n d o p a r c i a i s , c o l o c a n d o - s e ao l a d o d o s g r e v i s t a s . E l e s r e s s a l t a r a m q u e , e m b o r a o Bad News contivesse u m capítulo sobre "Os sindicatos trabalhistas e a m í d i a " , n ã o h a v i a n e n h u m c a p í t u l o s o b r e "A g e r ê n c i a e a m í d i a " - u m fato q u e d e v e r i a ter s i d o d i s c u t i d o , a r g u m e n t a m os c r í t i c o s d a m í d i a , j á q u e m u i t a s v e z e s os j o r n a l i s t a s d e n o t i ciários são a c u s a d o s p e l o s c o m p o n e n t e s da g e r ê n c i a de serem t e n d e n c i o s o s e m r e l a ç ã o a estes, e n ã o a o s g r e v i s t a s . Os críticos acadêmicos a b o r d a m pontos semelhantes. M a r t i n H a r r i s o n ( 1 9 8 5 ) teve a c e s s o às t r a n s c r i ç õ e s d o s noticiários d o Independent Television News d u r a n t e o p e r í o d o de a b r a n g ê n c i a d o e s t u d o original. C o m b a s e n e s s e m a t e r i a l , ele a f i r m o u q u e os c i n c o m e s e s a n a l i s a d o s n o e s t u d o n ã o f o r a m representativos. Durante esse período, houve u m número a n o r m a l d e dias p e r d i d o s e m f u n ç ã o d a a ç ã o i n d u s t r i a l . Seria i m p o s s í v e l p a r a os n o t i c i á r i o s fazer u m r e g i s t r o c o m p l e t o , l o g o , a t e n d ê n c i a d e e n f o c a r os e p i s ó d i o s m a i s i n t e r e s s a n t e s era compreensível. N a o p i n i ã o d e H a r r i s o n , foi u m erro d o Glasgow Media Group afirmar q u e os noticiários estiveram m u i t o concentrados n o s efeitos das greves. Afinal, n o r m a l m e n t e h á b e m m a i s p e s soas afetadas pelas greves d o q u e p a r t i c i p a n d o delas. À s vezes, as ações d e u m p e q u e n o n ú m e r o d e p e s s o a s c a u s a m u m trans-

Os sociólogos analisam os noticiários da TV
O s e s t u d o s s o c i o l ó g i c o s s o b r e a televisão t ê m d e d i c a d o u m a e n o r m e a t e n ç ã o aos noticiários. U m a fatia c o n s i d e r á v e l da p o p u l a ç ã o n ã o lê j o r n a i s ; a s s i m , os n o t i c i á r i o s d a T V r e p r e s e n t a m u m a fonte e s s e n c i a l de i n f o r m a ç õ e s sobre o q u e a c o n t e c e n o m u n d o . A l g u m a s das p e s q u i s a s m a i s c o n h e c i d a s - e c o n t r o v e r s a s - r e l a c i o n a d a s a o s noticiários da t e l e v i s ã o f o r a m e x e c u t a d a s p e l o Glasgow Media Group ( G r u p o de M í d i a de G l a s g o w ) d a U n i v e r s i d a d e d e Glasgow. O g r u p o p u b l i c o u u m a série d e o b r a s críticas sobre a a p r e s e n t a ç ã o d a s n o t í c i a s : Bad News, More Bad News, Really Bad News e War and Peace News. E m c a d a u m d e s s e s livros, os autores s e g u i r a m estratégias d e p e s q u i s a s e m e l h a n t e s , a p e s a r de a l t e r a r e m o foco de suas investigações. O p r i m e i r o e m a i s influente livro d o g r u p o , Bad News (Glasgow M e d i a G r o u p , 1976), b a s e o u - s e e m u m a análise das t r a n s m i s s õ e s d e noticiários d e T V e m t o d o s os três c a n a i s d o R U (na é p o c a , o Channel 4 n ã o existia) e n t r e os m e s e s de j a neiro e j u n h o de 1975. O objetivo era oferecer u m a análise sis-

SOCIOLOGIA

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t o m o à v i d a d e m i l h õ e s de p e s s o a s . P o r fim, s e g u n d o a análise de H a r r i s o n , a l g u m a s d a s d e c l a r a ç õ e s d o Media Group e r a m s i m p l e s m e n t e falsas. P o r e x e m p l o , contrariando o q u e foi afirm a d o p e l o g r u p o , as notícias n o r m a l m e n t e citavam os sindicatos e n v o l v i d o s n a s disputas e i n f o r m a v a m se as greves e r a m oficiais ou não-oficiais. E m r e s p o s t a a essa crítica, os m e m b r o s d o g r u p o observar a m q u e p a r t e da p e s q u i s a d e H a r r i s o n h a v i a sido p a t r o c i n a d a p e l o I T N , o q u e p o s s i v e l m e n t e c o m p r o m e t i a sua imparcialidade a c a d ê m i c a . O s transcritos escrutados p o r H a r r i s o n n ã o estav a m c o m p l e t o s , e alguns t r e c h o s incluídos, n a v e r d a d e , n e m h a v i a m sido transmitidos pelo I T N . D e s d e e n t ã o , os m e m b r o s d o Glasgow Media Group v ê m realizando u m a série d e p e s q u i s a s adicionais. E m u m artigo intitulado "Seeing is believing" (Ver é acreditar), u m d e seus m e m b r o s , G r e g P h i l o ( 1 9 9 1 ) registrou u m a p e s q u i s a sobre o q u e as p e s s o a s g u a r d a m n a m e m ó r i a e m r e l a ç ã o aos eventos p a s s a d o s . E m t e r m o s específicos, ele p e r g u n t o u qual a l e m b r a n ç a q u e ficou da greve dos m i n e r a d o r e s d e 1 9 8 4 - 1 9 8 5 , u m confronto p r o l o n g a d o , de larga escala, entre o sindicato dos m i n e r a d o r e s , liderado p o r A r t h u r Scargill, e o g o v e r n o C o n s e r v a d o r de M a r g a r e t Thatcher. P h i l o m o s t r o u fotografias da g r e v e p a r a diferentes g r u p o s de p e s s o a s , p e d i n d o q u e estas r e d i g i s s e m notícias sobre as fot o s c o m o se f o s s e m j o r n a l i s t a s . E l e t a m b é m p e r g u n t o u o q u e elas l e m b r a v a m a respeito da greve, e se, p o r e x e m p l o , esta havia sido e s s e n c i a l m e n t e pacífica ou n ã o . E l e c o n s t a t o u u m a e n o r m e s e m e l h a n ç a e n t r e as histórias escritas e os itens originais e x i b i d o s na T V n a o c a s i ã o d a greve; m u i t a s das frases era m as m e s m a s . M a i s da m e t a d e das pessoas acreditava q u e o p i q u e t e ocorrido d u r a n t e a g r e v e fora e s s e n c i a l m e n t e violento ( q u a n d o , n a v e r d a d e , as c e n a s d e v i o l ê n c i a f o r a m raras). P h i l o ( 1 9 9 1 , p . 177) c o n c l u i u q u e " p o d e ser m u i t o difícil criticar u m relato da mídia d o m i n a n t e q u a n d o existe p o u c o a c e s s o a fontes alternativas de i n f o r m a ç õ e s . N e s s a s c i r c u n s t â n c i a s , n ã o d e v e r í a m o s subestimar o p o d e r d a m í d i a " . E m Getting the Message, o Glasgow Media Group r e u n i u pesquisas recentes sobre noticiários. O editor do volume, J o h n E l d r i d g e , r e s s a l t a q u e o d e b a t e p r o v o c a d o p e l a o b r a original d o g r u p o a i n d a c o n t i n u a ( 1 9 9 3 ) . D e f i n i r o q u e s e r i a c o n s i d e r a d o o b j e t i v i d a d e e m u m n o t i c i á r i o é u m a tarefa q u e será s e m p r e difícil. E m c o n t r a p a r t i d a à q u e l e s q u e d i z e m q u e a n o ç ã o d e o b j e t i v i d a d e n ã o faz s e n t i d o (veja " B a u d r i l l a r d : o m u n d o da h i p e r - r e a l i d a d e " , n a p . 3 7 5 ) , E l d r i d g e afirma q u e é i m p o r t a n t e c o n t i n u a r t e n d o u m olhar crítico p a r a os p r o d u t o s da m í d i a . A p r e c i s ã o n o s noticiários p o d e e d e v e ser e s t u d a d a . Afinal, q u a n d o o u v i m o s os r e s u l t a d o s das p a r t i d a s d e futebol, esperamos que sejam precisos. U m exemplo simples como esse, d e f e n d e E l d r i d g e , s e r v e p a r a n o s l e m b r a r d e q u e q u e s tões r e l a c i o n a d a s à v e r d a d e e s t ã o s e m p r e p r e s e n t e s n o s n o t i ciários. P o r é m , o p o n t o é q u e as notícias n u n c a são a p e n a s u m a " d e s c r i ç ã o " d o q u e " d e fato o c o r r e u " e m d e t e r m i n a d o d i a ou e m d e t e r m i n a d a s e m a n a . A s " n o t í c i a s " são u m a c o n s t r u ç ã o

c o m p l e x a q u e exerce u m a influência regular sobre o seu c o n t e ú d o . P o r e x e m p l o , q u a n d o u m p o l í t i c o a p a r e c e e m u m noticiário e faz u m c o m e n t á r i o sobre u m a questão controversa - dig a m o s , o estado da e c o n o m i a e o q u e p o d e ser feito a esse r e s peito - o próprio c o m e n t á r i o p a s s a a ser u m a "notícia" nos p r o g r a m a s seguintes.

A televisão e o gênero
A televisão de hoje funciona e m u m fluxo constante. A p u b l i c i d a d e p o d e até fragmentar os p r o g r a m a s , m a s n ã o e x i s t e m lacunas. Se, p o r u m m o m e n t o , a tela deixar de exibir i m a g e n s , a c o m p a n h i a de televisão s e m p r e se sentirá na o b r i g a ç ã o de p e dir d e s c u l p a s . Tanto os p r o d u t o r e s q u a n t o os t e l e s p e c t a d o r e s p r e s u m e m q u e a televisão seja ininterrupta - e, d e fato, a g o r a há m u i t o s canais q u e n u n c a s a e m d o ar. A televisão é u m fluxo, m a s sua p r o g r a m a ç ã o é u m a c o n fusão. A r e l a ç ã o de p r o g r a m a s de u m a ú n i c a noite, p o r e x e m plo, g e r a l m e n t e c o n t a r á c o m u m conjunto c o m p l e t o de p r o g r a m a s b e m diferentes, u m a p ó s o outro. Vale a p e n a e m p r e g a r m o s a idéia d o g ê n e r o p a r a e n t e n d e r m o s a n a t u r e z a a p a r e n t e m e n t e caótica da p r o g r a m a ç ã o de T V ( A b e r c r o m b i e , 1996). O g ê n e r o refere-se à m a n e i r a c o m o os p r o d u t o r e s d e p r o g r a m a s e os telespectadores e n t e n d e m " o q u e " está sendo visto, refere-se a c o m o os p r o g r a m a s são c a t e g o r i z a d o s e m função d e s s e s grupos - p o r e x e m p l o : notícias, novelas, game shows, m u s i c a i s ou suspense. C a d a g ê n e r o p o s s u i suas regras e c o n v e n ç õ e s q u e os d i s t i n g u e m dos d e m a i s . E s s a s r e g r a s s ã o , até c e r t o p o n t o , r e l a c i o n a d a s ao c o n t e ú do. P o r e x e m p l o , as novelas o c o r r e m e m u m c e n á r i o d o m é s t i co, os filmes de faroeste a p r o v e i t a m o t e m a d a A m é r i c a d o século X I X . T a m b é m e n v o l v e m p e r s o n a g e n s e contextos. Para as n o v e l a s , os p e r s o n a g e n s (talvez famílias e m u m a m b i e n t e d o méstico) sejam as figuras centrais, m a s é provável que estas fiq u e m s u b o r d i n a d a s à t r a m a n o c a s o d o s thrillers. O s g ê n e r o s t a m b é m g e r a m diferentes expectativas: o s u s p e n s e e o mistério são u m e l e m e n t o necessário d o s contos policiais, m a s n ã o é c o m u m fazerem parte das novelas. D e m o d o geral, os p r o d u t o r e s de T V s a b e m o q u e e s p e r a m os t e l e s p e c t a d o r e s e t r a b a l h a m dentro d e s s e s limites. A g i n d o d e s s a forma, eles c o n s e g u e m definir r o t i n a s n o q u e fazem. E q u i p e s de p r o d u ç ã o e n v o l v e n d o atores, diretores e escritores q u e se especializam e m d e t e r m i n a d o g ê n e r o p o d e m ser m o n t a das; objetos d e cena, cenários e figurinos p o d e m ser reutilizados várias vezes. A audiência torna-se fiel à m e d i d a que as p e s soas se a c o s t u m a m a a c o m p a n h a r r e g u l a r m e n t e p r o g r a m a s de determinado gênero.

Novela
E s t e g ê n e r o , c r i a d o pelo r á d i o e pela televisão, é o tipo de p r o g r a m a ç ã o m a i s popular, hoje e m dia, d a TV. D a s a t r a ç õ e s s e m a n a i s d a T V c o m m a i o r e s í n d i c e s de a u d i ê n c i a na G r ã B r e t a n h a , q u a s e t o d a s são n o v e l a s - EastEnders, Coronation

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ANTHONY GIDDENS

Street e m u i t a s o u t r a s . A s n o v e l a s , a o m e n o s as r e p r o d u z i d a s n a T V britânica, classificam-se e m vários tipos diferentes, o u subgêneros. Novelas produzidas no RU, como Coronation

Teorias da mídia As primeiras teorias
A c o m u n i c a ç ã o - transferência d e i n f o r m a ç õ e s d e u m indivíd u o ou g r u p o p a r a outro, seja através d a fala o u p o r m e i o d a m í d i a d e m a s s a d o s t e m p o s m o d e r n o s - é crucial e m q u a l q u e r s o c i e d a d e . D o i s n o m e s influentes n a teoria d o s m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o f o r a m os autores c a n a d e n s e s H a r o l d Innis e M a r s hall M c L u h a n . Innis ( 1 9 5 0 , 1951) a f i r m o u q u e o c a r á t e r d a m í d i a d e u m a s o c i e d a d e e x e r c e u m a forte i n f l u ê n c i a s o b r e a o r g a n i z a ç ã o dessa s o c i e d a d e . E l e cita os hieróglifos e m p e d r a - i n s c r i ç õ e s g r a v a d a s e m p e d r a - e n c o n t r a d o s e m a l g u m a s civilizações antigas. Essas obras têm u m a longa duração, m a s n ã o p o d e m ser t r a n s p o r t a d a s f a c i l m e n t e ; s ã o u m m e i o p r e c á rio d e m a n t e r c o n t a t o c o m lugares distantes. A s s i m , s o c i e d a des que dependam dessa forma de comunicação não conseg u e m se expandir. M c L u h a n ( 1 9 6 4 ) d e s e n v o l v e u a l g u m a s d a s idéias d e Innis, a p l i c a n d o - a s p a r t i c u l a r m e n t e à m í d i a d a s s o c i e d a d e s industrializadas m o d e r n a s . P a r a M c L u h a n , " o m e i o é a m e n s a g e m " ; o q u e equivale a dizer q u e , a n a t u r e z a d a m í d i a e n c o n trada e m u m a s o c i e d a d e exerce u m a influência b e m m a i o r sob r e s u a estrutura d o q u e o seu c o n t e ú d o , o u as m e n s a g e n s , q u e a m í d i a t r a n s m i t e . A televisão, p o r e x e m p l o , é u m m e i o b e m diferente d o livro i m p r e s s o : é eletrônica, v i s u a l e c o m p o s t a p o r i m a g e n s m u t á v e i s . O c o t i d i a n o é v i v i d o d e m a n e i r a s diferentes e m u m a s o c i e d a d e n a q u a l a televisão d e s e m p e n h i jm p a p e l f u n d a m e n t a l , e m c o m p a r a ç ã o c o m outra que c : J^M nas c o m os m e i o s i m p r e s s o s . D e s s a m a n e i r a , os no l::imM T V t r a n s m i t e m i n f o r m a ç õ e s globais i n s t a n t a n e a m e n t e i T H l h õ e s d e p e s s o a s . A m í d i a eletrônica, d e a c o r d o c o m M c L » han, está c r i a n d o u m a a l d e i a global - p e s s o a s e s p a l h a d a s pelo m u n d o inteiro assistem ao desenrolar d o s principais evento; e p o r isso p a r t i c i p a m j u n t a s desses a c o n t e c i m e n t o s . E m vários p a í s e s , m i l h õ e s d e p e s s o a s a c o m p a n h a r a m , p o r e x e m p l o , a intriga e n v o l v e n d o o p r e s i d e n t e n o r t e - a m e r i c a n o Bill C l i n t o n e a ex-estagiária da Casa Branca, Mónica Lewinsky. Após u m ano cheio de revelações, acusações e de u m a cobertura implacável da m í d i a , o e s c â n d a l o f i n a l m e n t e c e s s o u d e p o i s d o frac a s s o d e u m a p r o p o s t a d e impeachment contra o presidente. Telespectadores do m u n d o inteiro haviam participado de u m d o s m a i s d r a m á t i c o s e influentes episódios d a política e da m í dia d a r e c e n t e e r a m o d e r n a .
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Street, t e n d e m a fazer u m a e x p o s i ç ã o d a r e a l i d a d e , r e f e r i n d o se. m u i t a s v e z e s , à v i d a d o s m a i s p o b r e s . E m s e g u n d o lugar, estão as n o v e l a s i m p o r t a d a s d o s E s t a d o s U n i d o s , d a s q u a i s m u i t a s , c o m o Dallas o u Dynasty (década de 1980), retratam i n d i v í d u o s q u e t ê m u m a v i d a m a i s g l a m o u r o s a . U m a terceira categoria é formada pelas importações australianas, c o m o Neighbours. Estas geralmente são produções de baixo orçam e n t o , q u e r e t r a t a m lares e estilos d e v i d a d a c l a s s e m é d i a . D e m o d o g e r a l , as n o v e l a s s ã o c o m o a t e l e v i s ã o : i n i n t e r r u p t a s . H i s t ó r i a s i n d i v i d u a i s p o d e m c h e g a r a o final, e d i f e rentes personagens p o d e m aparecer e desaparecer, m a s a n o v e l a e m si n ã o a c a b a r á a t é q u e seja t o t a l m e n t e r e t i r a d a d o ar. C r i a - s e u m a t e n s ã o e n t r e o s e p i s ó d i o s através d o s c h a m a d o s "ganchos". O episódio termina repentinamente u m pouco antes d e a l g o m u i t o i m p o r t a n t e a c o n t e c e r - o t e l e s p e c t a d o r p r e cisa e s p e r a r o p r ó x i m o e p i s ó d i o p a r a v e r c o m o t u d o vai s e desenrolar. U m c o m p o n e n t e b á s i c o d o g ê n e r o novela é a n e c e s s i d a d e de u m público que o acompanha regularmente. Individualm e n t e , os e p i s ó d i o s n ã o f a z e m m u i t o sentido. A s n o v e l a s p r e s u m e m u m a história, q u e o telespectador regular conhece ele familiariza-se c o m o s p e r s o n a g e n s , suas p e r s o n a l i d a d e s e suas e x p e r i ê n c i a s d e vida. O s fios q u e s e t r a m a m n a c r i a ç ã o dessa história são, sobretudo, pessoais e emocionais - n a m a i o r i a d a s v e z e s , as n o v e l a s n ã o c o n s i d e r a m e s t r u t u r a s s o ciais ou e c o n ô m i c a s m a i s a m p l a s , q u e as a f e t a m a p e n a s e x ternamente. O s s o c i ó l o g o s a p r e s e n t a m v i s õ e s d i v e r g e n t e s s o b r e as razões da popularidade das novelas - u m fenômeno que o c o r r e n o m u n d o inteiro, n ã o a p e n a s n a G r ã - B r e t a n h a o u n o s E s t a d o s U n i d o s , c o m o t a m b é m n a África, n a Á s i a e n a A m é r i c a L a t i n a . A l g u n s a c r e d i t a m q u e as n o v e l a s r e p r e s e n t e m u m m e i o d e fuga, p a r t i c u l a r m e n t e n o s l u g a r e s e m q u e a s m u lheres (que constituem u m público mais numeroso do que o m a s c u l i n o ) c o n s i d e r a m a v i d a q u e l e v a m m o n ó t o n a e sufocante. Porém, essa é u m a visão não muito convincente, j á q u e m u i t a s n o v e l a s r e t r a t a m p e s s o a s cuja v i d a é t ã o p r o b l e mática quanto a de alguns telespectadores. O mais plausível é a i d é i a d e q u e a s n o v e l a s l i d a m c o m os d o m í n i o s u n i v e r s a i s da vida pessoal e emocional. Exploram dilemas que todos p o d e m enfrentar e t a l v e z c h e g u e m a t é a ajudar a l g u n s t e l e s p e c t a d o r e s a p e n s a r e m d e m a n e i r a m a i s criativa a r e s p e i t o das próprias vidas. C o m o d e v e m o s avaliar as g r a n d e s i m p l i c a ç õ e s d a m í d i a ? Essa é u m a das principais preocupações daqueles que desenv o l v e r a m interpretações teóricas sobre o p a p e l d a m í d i a n o e s tabelecimento dos contornos do desenvolvimento e da organização sociais: e é p a r a e s s a s teorias q u e n ó s n o s v o l t a r e m o s agora. O filósofo a l e m ã o e sociólogo Jürgen H a b e r m a s é u m n o m e a s sociado à E s c o l a d e Frankfurt d o p e n s a m e n t o social. A Escola d e Frankfurt foi u m g r u p o d e autores inspirados p e l a o b r a d e M a r x , m a s q u e , n o e n t a n t o , acreditavam q u e as o p i n i õ e s dele p r e c i s a v a m passar p o r u m a revisão radical q u e as atualizasse. E n t r e outras coisas, eles acreditavam q u e M a r x n ã o havia d a d o atenção suficiente à influência d a cultura n a sociedade capitalista m o d e r n a .

Jürgen Habermas: a esfera pública

SOCIOLOGIA

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A E s c o l a d e Frankfurt r e a l i z o u u m e s t u d o a b r a n g e n t e d o q u e e l a d e n o m i n a v a " i n d ú s t r i a da c u l t u r a " , ou seja, as i n d ú s trias d e e n t r e t e n i m e n t o r e l a c i o n a d a s ao c i n e m a , à TV, à m ú s i c a popular, ao r á d i o , aos j o r n a i s e às revistas. A f i r m a v a m q u e a difusão d a i n d ú s t r i a d a cultura, c o m seus p r o d u t o s c o m p l a c e n t e s e p a d r o n i z a d o s , enfraquece a c a p a c i d a d e d e os indivíd u o s d e s e n v o l v e r e m u m p e n s a m e n t o crítico e i n d e p e n d e n t e . A arte d e s a p a r e c e , i n u n d a d a p e l a c o m e r c i a l i z a ç ã o Mozart's Greatest Hits (os m a i o r e s s u c e s s o s d e M o z a r t ) . H a b e r m a s d i s c u t e a l g u n s d e s s e s t e m a s , p o r é m os d e s e n volve de u m m o d o diferente. Ele analisa o avanço da mídia d e s d e o i n í c i o d o s é c u l o X V I I I até o s dias d e h o j e , t r a ç a n d o o surgimento - e a queda subseqüente - da "esfera pública" (1989). A esfera pública é u m a arena de debates públicos na qual é possível discutir temas de interesse geral e formar opiniões. A esfera p ú b l i c a , s e g u n d o H a b e r m a s , d e s e n v o l v e u - s e prim e i r o n o s salões e n o s cafés d e L o n d r e s , Paris e de o u t r a s cid a d e s e u r o p é i a s . A s p e s s o a s c o s t u m a v a m se r e u n i r p a r a d i s c u t i r e m as q u e s t õ e s d o m o m e n t o , e os a s s u n t o s d e b a t i d o s g e r a l m e n t e p r o v i n h a m dos folhetos de notícias e dos j o r n a i s q u e r e c é m c o m e ç a v a m a aparecer. O debate político tornou-se u m a questão de especial importância. Habermas defende que os s a l õ e s f o r a m vitais n a p r i m e i r a fase d a e v o l u ç ã o da d e m o cracia, m e s m o contando c o m a participação de u m número a p e n a s restrito da p o p u l a ç ã o , p o i s i n t r o d u z i r a m a i d é i a da r e s o l u ç ã o de p r o b l e m a s p o l í t i c o s através da d i s c u s s ã o p ú b l i c a . A esfera p ú b l i c a - ao m e n o s e m p r i n c í p i o - e n v o l v e a r e u n i ã o de indivíduos e m situação de igualdade e m u m fórum para debate público. E n t r e t a n t o , a p r o m e s s a a s s u m i d a n e s s a p r i m e i r a fase da evolução da esfera pública, conclui H a b e r m a s , n ã o se concretizou t o t a l m e n t e . O d e b a t e d e m o c r á t i c o n a s s o c i e d a d e s m o d e r nas está s u f o c a d o p e l o a v a n ç o da indústria d a cultura. A difusão d a m í d i a de m a s s a e d o e n t r e t e n i m e n t o d e m a s s a b a s i c a m e n t e transforma a esfera p ú b l i c a e m u m a fraude. A política é e n c e n a d a n o p a r l a m e n t o e n a mídia, e n q u a n t o os interesses c o m e r c i a i s triunfam sobre os interesses d o p ú b l i c o . A " o p i n i ã o pública" não é formada por meio de u m a discussão racional, aberta, m a s através d a m a n i p u l a ç ã o e d o c o n t r o l e - c o m o n o c a s o da p u b l i c i d a d e .

C o m o e x e m p l o , c o n s i d e r e m o s o j u l g a m e n t o de O.J. S i m p son, u m célebre c a s o de tribunal q u e se desenrolou e m L o s A n geles entre os a n o s de 1994 e 1995. S i m p s o n tornou-se f a m o s o o r i g i n a l m e n t e c o m o astro d o futebol n o r t e - a m e r i c a n o e. m a i s tarde, ficou c o n h e c i d o n o m u n d o inteiro e m função de aparecer e m diversos filmes populares, incluindo a série Naked Gim. Ele foi a c u s a d o d o assassinato de sua esposa, N i c o l e , sendo absolvido após u m l o n g o j u l g a m e n t o , q u e foi televisionado ao vivo e a c o m p a n h a d o e m m u i t o s países, e n t r e eles a G r ã - B r e t a n h a . N o s E s t a d o s U n i d o s , seis canais d e televisão fizeram u m a c o b e r t u r a c o n t í n u a desse j u l g a m e n t o . O j u l g a m e n t o n ã o o c o r r e u a p e n a s na sala d o tribunal. Foi u m e v e n t o televisual q u e reuniu m i l h õ e s d e t e l e s p e c t a d o r e s e c o m e n t a d o r e s d a m í d i a e ilustra o q u e B a u d r i l l a r d c h a m a de h i p e r - r e a l i d a d e . N ã o existe m a i s u m a " r e a l i d a d e " (o q u e aconteceu n a sala d o tribunal) a q u e a televisão nos p e r m i t a assistir. A " r e a l i d a d e " é, n a verdade, a série de i m a g e n s exibidas nas telas de T V d o m u n d o inteiro, q u e definiram o j u l g a m e n t o c o m o u m evento global. P o u c o t e m p o antes da d e f l a g r a ç ã o d a s h o s t i l i d a d e s n o G o l f o P é r s i c o , e m 1 9 9 1 , B a u d r i l l a r d e s c r e v e u u m artigo d e j o r n a l intitulado "The Gulf War cannot happen" ("A G u e r r a d o G o l f o n ã o vai a c o n t e c e r " ) . Q u a n d o a g u e r r a foi d e c l a r a d a e o c o r r e u u m conflito s a n g r e n t o , p o d i a p a r e c e r ó b v i o q u e B a u drillard estava e r r a d o . D e f o r m a a l g u m a . A p ó s o final d a guerra, ele e s c r e v e u u m s e g u n d o artigo, "The Gulf War did not happen" ("A G u e r r a d o Golfo n ã o a c o n t e c e u " ) . O q u e ele quis dizer c o m i s s o ? Para Baudrillard, essa era u m a g u e r r a diferente das outras q u e a história registra; u m a g u e r r a da era da m í dia, u m e s p e t á c u l o televisual, n o q u a l , j u n t o c o m outros telespectadores espalhados pelo mundo, George Bush e Saddam H u s s e i n assistiam à c o b e r t u r a da C N N p a r a v e r e m o que de fato estava " a c o n t e c e n d o " . B a u d r i l l a r d sustenta q u e , e m u m a era na q u a l a m í d i a de m a s s a está e m t o d a a parte, n a verdade, cria-se u m a n o v a realidade - hiper-realidade - composta pelo amalgamamento do c o m p o r t a m e n t o das p e s s o a s c o m as i m a g e n s exibidas pela mídia. O m u n d o da hiper-realidade é feito de s i m u l a c r o s - imag e n s cujo significado só p o d e ser r e v e l a d o a partir de outras i m a g e n s e q u e , p o r isso, n ã o p o s s u e m n e n h u m e m b a s a m e n t o e m u m a " r e a l i d a d e e x t e r n a " . U m a f a m o s a série de p r o p a g a n das dos cigarros Silk Cut, por e x e m p l o , não fazia a b s o l u t a m e n te n e n h u m a referência aos cigarros, m a s a p e n a s aos a n ú n c i o s publicitários anteriores q u e h a v i a m a p a r e c i d o e m u m a l o n g a série. H o j e e m dia, n e n h u m líder político q u e n ã o apareça c o n s t a n t e m e n t e n a televisão c o n s e g u e g a n h a r u m a eleição: £ i m a g e m d o líder exibida na T V é a "pessoa"" que a m a i o r p a n e dos telespectadores c o n h e c e .

Baudrillard: o mundo da hiper-realidade
U m dos teóricos da m í d i a m a i s influentes da atualidade é o autor p ó s - m o d e r n i s t a francês J e a n Baudrillard, cujo t r a b a l h o d e m o n s t r a u m a forte influência das idéias d e Innis e M c L u h a n . Baudrillard considera que a mídia de massa moderna produz u m i m p a c t o b a s t a n t e diferente, e t a m b é m m u i t o m a i s p r o f u n d o , d o q u e o de q u a l q u e r o u t r a t e c n o l o g i a . O a d v e n t o d a m í dia d e m a s s a , p a r t i c u l a r m e n t e d a m í d i a e l e t r ô n i c a , c o m o a televisão, transformou a própria natureza de nossas vidas. A T V n ã o a p e n a s " r e p r e s e n t a " o m u n d o p a r a n ó s , m a s , n a verd a d e , s e r v e , c a d a v e z m a i s , p a r a definir c o m o é este m u n d o e m que vivemos.

John Thompson: a mídia e a sociedade moderna
A p r o v e i t a n d o e m parte os escritos d e H a b e r m a s . John Thompson analisou a r e l a ç ã o q u e h á e n t r e a m í d i a e o desenvolvi-

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ANTHONY GIDDENS

m e n t o d a s s o c i e d a d e s i n d u s t r i a i s ( 1 9 9 0 , 1995). D a s a n t i g a s f o r m a s d e i m p r e s s ã o até a c o m u n i c a ç ã o eletrônica, a r g u m e n ta T h o m p s o n , a m í d i a t e m d e s e m p e n h a d o p a p e l central n o d e s e n v o l v i m e n t o d a s instituições m o d e r n a s . E l e acredita q u e o s p r i n c i p a i s f u n d a d o r e s d a sociologia, entre eles M a r x , W e b e r e Durkheim, tenham dado pouca atenção ao papel da mídia, m e s m o q u a n d o e l a m o l d a v a a p r i m e i r a fase d a evolução d a s o ciedade moderna. M e s m o sendo favorável a algumas das idéias de Haberm a s , T h o m p s o n t a m b é m faz críticas a ele, a s s i m c o m o à E s c o l a d e F r a n k f u r t e a B a u d r i l l a r d . A E s c o l a d e F r a n k f u r t teve u m a atitude b a s t a n t e n e g a t i v a e m r e l a ç ã o à i n d ú s t r i a d a c u l t u ra. P a r a T h o m p s o n , a m í d i a d e m a s s a m o d e r n a n ã o n o s n e g a a p o s s i b i l i d a d e d e t e r m o s u m p e n s a m e n t o crítico; n a v e r d a d e , e l a n o s p r o p o r c i o n a m u i t a s f o r m a s d e i n f o r m a ç õ e s às q u a i s antes não poderíamos ter tido acesso. A s s i m c o m o a Escola d e Frankfurt, H a b e r m a s t a m b é m e x a g e r a ao n o s j u l g a r r e c e p tores passivos das mensagens da mídia. N a s palavras de Thompson: E comum os indivíduos discutirem as mensagens da mídia durante e após a recepção delas (...) [Essas mensagens] são transformadas através de um processo contínuo de narração e de repetição da narração, de interpretação e de reinterpretação, de comentários, de risos e de críticas (...) Ao pegarmos as mensagens incorporando-as rotineiramente em nossas vidas (...) estaremos sempre modelando e remodelando nossas habilidades e nossas reservas de conhecimento, testando nossos

sentimentos e gostos e expandindo os horizontes de nossa experiência. A teoria d e T h o m p s o n sobre a m í d i a d e p e n d e d e u m a distinç ã o entre três tipos d e i n t e r a ç ã o (veja o q u a d r o ) . A interação face a face, c o m o a q u e o c o r r e q u a n d o as p e s s o a s c o n v e r s a m e m u m a festa, é r i c a e m v e s t í g i o s q u e os i n d i v í d u o s u t i l i z a m p a r a e n t e n d e r o q u e os o u t r o s d i z e m (veja o C a p í t u l o 4 , " I n t e r a ç ã o social e v i d a c o t i d i a n a " ) . A interação mediada e n v o l v e o u s o d e u m a t e c n o l o g i a d a m í d i a - p a p e l , c o n e x õ e s elétricas, impulsos eletrônicos. U m a característica da interação mediad a está n o fato d e e l a se e s t e n d e r n o t e m p o e n o e s p a ç o , ultrap a s s a n d o , e m m u i t o , os c o n t e x t o s d a s i m p l e s i n t e r a ç ã o face a face. A i n t e r a ç ã o m e d i a d a o c o r r e e n t r e i n d i v í d u o s d e f o r m a direta - p o r e x e m p l o , d u a s p e s s o a s c o n v e r s a n d o ao t e l e f o n e mas s e m deixar u m a oportunidade para os m e s m o s tipos de vestígio. U m terceiro tipo d e i n t e r a ç ã o é a quase-interação mediada, a qual refere-se a o s tipos d e r e l a ç ã o social criados p e l a m í dia d e m a s s a . E s s a interação estende-se n o t e m p o e n o e s p a ç o , m a s n ã o estabelece u m a ligação direta entre os indivíduos: d a í o t e r m o " q u a s e - i n t e r a ç ã o " . O s dois p r i m e i r o s tipos s ã o " d i a l ó g i c o s " : os indivíduos c o m u n i c a m - s e d e m a n e i r a direta. A quase-interação m e d i a d a é " m o n o l ó g i c a " : u m p r o g r a m a d e TV, p o r e x e m p l o , é u m a f o r m a unilateral d e c o m u n i c a ç ã o . A s p e s soas q u e a s s i s t e m a e l e p o d e m discuti-lo e talvez dirigir alguns c o m e n t á r i o s a o a p a r e l h o d e T V - m a s é claro q u e e l e n ã o irá responder.

Uma ouvinte ativa extrai o melhor de seu debatedor.

SOCIOLOGIA

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TIPOS DE INTERAÇÃO
Características interativas Constituição espaço-tempo Interação face a face Contexto da co-presença; sistema de referência espacial-temporal compartilhado Multiplicidade de dicas simbólicas Orientada para outras pessoas específicas Dialógica Interação mediada Separação de contextos; disponibilidade ampliada em tempo e espaço Restrição na variedade de dicas simbólicas Orientada para outras pessoas específicas Dialógica Quase-interação mediada Separação de contextos: disponibilidade ampiiada em tempo e espaço Restrição na variedade de dicas simbólicas Orientada para uma variedade indefinida de receptores potenciais Monológica

Variedade de dicas simbólicas Orientação para a ação

Dialógica/monológica

Fonte: John B.Thompson, The Media and Modernity, Polity, 1995.

O essencial, n a teoria d e T h o m p s o n , n ã o é a idéia de q u e o terceiro tipo v e n h a a d o m i n a r os outros dois - b a s i c a m e n t e , a visão a s s u m i d a p o r B a u d r i l l a r d - , m a s , sim, m o s t r a r q u e , hoje e m dia, t o d o s esses três aspectos estão a m a l g a m a d o s e m n o s s a vida. A m í d i a de m a s s a , sugere T h o m p s o n , interfere n o equilíbrio entre o p ú b l i c o e o privado e m nossas v i d a s . A o contrário do q u e disse H a b e r m a s , b e m m a i s coisas p a s s a m a entrar p a r a o domínio público do que antes, o que muitas vezes gera disc u s s õ e s e controvérsias.

negativo, crítico ou pejorativo", t r a z e n d o " u m a crítica ou u m a c e n s u r a implícitas". T h o m p s o n defende a preferência à n o ç ã o crítica, pois esta liga a ideologia ao poder. A ideologia refere-se ao exercício d o p o d e r s i m b ó l i c o - a m a n e i r a c o m o as idéias são a p r o v e i t a d a s p a r a esconder, justificar ou l e g i t i m a r os interesses d e g r u p o s d o m i n a n t e s n a o r d e m social. E m seus estudos, o Glasgow Media Group estava, na verdade, fazendo u m a análise dos aspectos ideológicos das reportagens do noticiário. A s notícias t e n d i a m a favorecer o g o v e r n o e a gerência às custas dos grevistas. T h o m p s o n acredita q u e , de m o d o geral, a m í d i a de m a s s a - incluindo n ã o a p e n a s os noticiários, m a s todos os tipos d e c o n t e ú d o e g ê n e r o d e p r o g r a m a s - e x p a n d e m u i t o o alcance d a ideologia nas sociedades m o d e r n a s . Atinge as audiências de m a s s a e, e m suas palavras, baseiase n a " q u a s e - i n t e r a ç ã o " - u m a r e s p o s t a d i r e t a d o s telespectad o r e s é impossível.

A ideologia e a mídia
O estudo da m í d i a está i n t i m a m e n t e r e l a c i o n a d o ao i m p a c t o da ideologia na s o c i e d a d e . A i d e o l o g i a refere-se à influência das idéias sobre as c o n v i c ç õ e s e as a ç õ e s d a s p e s s o a s . O c o n c e i t o t e m sido a m p l a m e n t e e m p r e g a d o n o s estudos da m í d i a , a s s i m c o m o e m outras áreas da sociologia, m a s t a m b é m faz m u i t o t e m p o q u e p r o v o c a controvérsias. Q u e m c u n h o u esse t e r m o foi u m escritor francês c h a m a d o D e s t u t t de Tracy, n o final d o séc u l o XVIII, ao e m p r e g á - l o c o m o significado de u m a "ciência d e idéias". N a s m ã o s d e autores posteriores, entretanto, a p a l a v r a p a s sou a ser utilizada e m u m sentido m a i s crítico. P a r a M a r x , p o r e x e m p l o , a ideologia era u m a "falsa c o n s c i ê n c i a " . G r u p o s p o d e r o s o s c o n s e g u e m c o n t r o l a r as idéias d o m i n a n t e s q u e circulam e m uma s o c i e d a d e a fim d e justificarem a p r ó p r i a p o s t u r a . A s s i m , s e g u n d o M a r x , a religião freqüentemente é ideológica: ensina os p o b r e s a se c o n t e n t a r e m c o m sua sina. O analista social d e v e revelar as distorções da ideologia p a r a q u e os fracos p o s s a m adquirir u m a perspectiva real de suas vidas - e a g i r e m n o sentido d e m e l h o r a r suas c o n d i ç õ e s . A v i s ã o de Tracy é c h a m a d a p o r T h o m p s o n ( 1 9 9 0 , p . 5 3 54) de c o n c e p ç ã o neutra da ideologia, e a de M a r x , c o n c e p ç ã o crítica da ideologia. C o n c e p ç õ e s n e u t r a s " d ã o u m caráter de ideologia, ou ideológico, aos f e n ô m e n o s , s e m i m p l i c a r e m q u e esses f e n ô m e n o s n e c e s s a r i a m e n t e sejam e n g a n a d o r e s , ilusórios ou alinhados c o m os interesses de q u a l q u e r g r u p o específico". A s n o ç õ e s críticas da i d e o l o g i a " e x p r i m e m u m s e n t i d o

A nova tecnologia das comunicações
A i n d a que, até o m o m e n t o , t e n h a m o s n o s c o n c e n t r a d o nos j o r nais e na televisão, n ã o d e v e m o s p e n s a r q u e a m í d i a se r e s u m e a esses m e i o s . U m d o s a s p e c t o s m a i s f u n d a m e n t a i s d a m í d i a diz respeito à p r ó p r i a infra-estrutura p e l a qual o c o r r e m a transm i s s ã o e a troca d e i n f o r m a ç õ e s . A l g u n s avanços tecnológicos i m p o r t a n t e s registrados d u r a n t e a s e g u n d a m e t a d e d o século X X t r a n s f o r m a r a m c o m p l e t a m e n t e a face das t e l e c o m u n i c a ç õ e s - a t r a n s m i s s ã o d e i n f o r m a ç õ e s , sons ou i m a g e n s e m longa distância através de u m m e i o tecnológico. A s novas t e c n o l o g i a s das c o m u n i c a ç õ e s , p o r exemplo, e s tão p o r trás d e m u d a n ç a s profundas nos sistemas monetários e n o s m e r c a d o s de ações m u n d i a i s . O dinheiro deixou de ser o u ro, ou a m o e d a q u e você carrega n o bolso, passando a ser cada v e z m a i s eletrônico, a r m a z e n a d o e m computadores de bancos d o m u n d o . O valor de q u a l q u e r m o e d a q u e v o c ê por acaso tiver e m seu b o l s o é d e t e r m i n a d o p e l a s atividades de negociadores e m m e r c a d o s m o n e t á r i o s c o n e c t a d o s eletronicamente. E s s e s m e r c a d o s foram criados há cerca de a p e n a s 10 ou 15 a n o s : são

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ANTHONY GIDDENS

o p r o d u t o de u m c a s a m e n t o entre os c o m p u t a d o r e s e a t e c n o l o g i a das c o m u n i c a ç õ e s p o r satélite. H á q u e m d i g a q u e a " ' t e c n o l o g i a ' está t r a n s f o r m a n d o r a p i d a m e n t e a B o l s a de Valores e m u m m e r c a d o g l o b a l ininterrupto, aberto 2 4 h o r a s p o r d i a " ( G i b b o n s , 1990, p . 111). Q u a t r o t e n d ê n c i a s t e c n o l ó g i c a s c o n t r i b u í r a m p a r a esses avanços: a melhoria constante das capacidades dos c o m p u t a d o res, j u n t a m e n t e c o m a q u e d a dos custos; a digitalização dos dad o s , p o s s i b i l i t a n d o u m a i n t e g r a ç ã o entre o c o m p u t a d o r e as t e c n o l o g i a s d a s t e l e c o m u n i c a ç õ e s ; o d e s e n v o l v i m e n t o das t r a n s m i s s õ e s via satélite; a fibra ótica, q u e possibilita o transp o r t e de várias m e n s a g e n s diferentes através d e u m ú n i c o p e q u e n o c a b o . E s s a i m p r e s s i o n a n t e e x p l o s ã o dos últimos anos nas c o m u n i c a ç õ e s não m o s t r a sinais de c a n s a ç o . E m seu livro Being Digital (1995), o fundador d o laboratório de m í d i a d o Massachusetts Institute of Technology, Nicholas N e g r o p o n t e , analisa a p r o f u n d a i m p o r t â n c i a dos d a d o s digitais nas atuais tecnologias das c o m u n i c a ç õ e s . Q u a l q u e r inf o r m a ç ã o , i n c l u i n d o fotografias, i m a g e n s e m m o v i m e n t o e sons, p o d e ser t r a d u z i d a p a r a "bits". U m bit tanto p o d e ser 1 q u a n t o 0. P o r e x e m p l o , a r e p r e s e n t a ç ã o digital de 1, 2, 3 , 4 , 5 é 1, 10, 1 1 , 100, 1 0 1 , etc. A digitalização - e a v e l o c i d a d e - está na o r i g e m d o d e s e n v o l v i m e n t o da m u l t i m í d i a : o q u e n o passad o e r a m m e i o s de c o m u n i c a ç ã o distintos q u e n e c e s s i t a v a m d e diferentes tecnologias ( c o m o as visuais e as sonoras) agora p o d e m ser c o m b i n a d o s e m u m ú n i c o m e i o ( C D - R O M / c o m p u t a dor, etc). A v e l o c i d a d e dos c o m p u t a d o r e s d o b r a a cada 18 m e ses, e a t e c n o l o g i a j á c h e g o u a u m e s t á g i o e m q u e é p o s s í v e l transformar u m a fita d e v í d e o e m u m a fotografia na tela de u m P C e revertê-la. A digitalização t a m b é m p e r m i t e o desenvolvim e n t o da m í d i a interativa, d a n d o às p e s s o a s a possibilidade de p a r t i c i p a r e m ativamente e d e e s t r u t u r a r e m o q u e elas v ê e m ou ouvem. U m resultado desses avanços t e c n o l ó g i c o s , e u m a p r i m e i r a manifestação d a globalização, é o c r e s c i m e n t o a s t r o n ô m i c o n o n ú m e r o de c h a m a d a s telefônicas internacionais. Se e m 1982 o v o l u m e de m i n u t o s d e l i g a ç ã o superava os 12 b i l h õ e s , até 1996 esse n ú m e r o h a v i a subido p a r a m a i s de 6 7 bilhões. D e s s e v o l u m e incrível de c h a m a d a s internacionais, cerca de 5 0 % originaram-se em apenas cinco países: Estados Unidos, Alemanha, F r a n ç a , R e i n o U n i d o e Suíça! O m o v i m e n t o telefônico internacional distribui-se de forma desigual pelo m u n d o : e n q u a n to a m é d i a m u n d i a l de ligações internacionais per capita é 7,8

m i n u t o s , e n t r e os países d e s e n v o l v i d o s ( O r g a n i z a ç ã o p a r a a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, OCDE) a média é d e 36,6 m i n u t o s . N a África S u b s a a r i a n a , a m é d i a é d e 1 m i n u t o p o r p e s s o a (Held, et al., 1999). A estratificação nas ligações telefônicas internacionais reflete u m a d i s c r e p â n c i a a i n d a m a i o r entre a p e n e t r a ç ã o das n o vas t e c n o l o g i a s nas s o c i e d a d e s m a i s d e s e n v o l v i d a s e nas m e n o s d e s e n v o l v i d a s (veja a T a b e l a 15.1). N o ano de 1995, n o s países desenvolvidos, h a v i a u m a m é d i a d e 5 4 6 linhas telefônicas a c a d a 1.000 p e s s o a s , ao p a s s o q u e , n a s e c o n o m i a s d e baix a r e n d a , a m é d i a m a l ultrapassava 2 5 l i n h a s telefônicas. P o r é m , h á t a m b é m indícios de q u e tais discrepâncias u m dia p o s s a m ser c o m p e n s a d a s e x a t a m e n t e através das c a p a c i d a d e s d e s sas novas tecnologias. C o m o d e m o n s t r a a F i g u r a 15.2, a l g u m a s n a ç õ e s m e n o s d e s e n v o l v i d a s t ê m feito p e s a d o s i n v e s t i m e n t o s e m a v a n ç a d a s infra-estruturas d e t e l e c o m u n i c a ç õ e s , c o n s e -

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Entre as economias com 100% de digitalização, estão Botsuana, Chile, Emirados Árabes Unidos, Bahamas, Barbados, Djibuti, Gâmbia, Hong Kong (China), Jamaica, Maldivas, Mauricio e Catar.

Menos digitalizadas Figura 15.2

Mais digitalizadas

Classificação das economias por fração

da rede telefônica digitalizada, 1993. Fontes: Dados do International Telecommunication Union relativos a 164 economias. De World Bank, World Development Report 1998-1999, Oxford University Press, 1998, p. 59.

Tabela 15.1 Grupo

Seleção dos Indicadores da penetração das informações e das telecomunicações por nível de renda nacional Linhas telefônicas principais por 1.000 pessoas. (1995) 25,7 94,5 130,1 448,4 546,1 Computadores individuais por 1.000 pessoas. (1995) 1,6 10,0 24,2 114,8 199,3 Usuários da internet por 1.000 pessoas. (1?9Ç 0,01 0,7 3,5 12,9 111,0

Economias de baixa renda Economias de renda média baixa Economias de renda média alta Novas economias industrializadas (NEI) Economias de alta renda 'excluídas as NEI)

Sank, World Development Report, 1998, p. 63.

g u i n d o concluir suas r e d e s telefônicas digitais antes dos países d e s e n v o l v i d o s . E m b o r a os avanços t e c n o l ó g i c o s p o s s a m levar a u m a a m p l i a ç ã o d a estratificação e da d e s i g u a l d a d e , eles t a m b é m m a n t ê m a p r o m e s s a d e reduzir tais d e s i g u a l d a d e s ao p o s sibilitar a c o m u n i c a ç ã o p a r a as p e s s o a s q u e m o r a m e m regiões isoladas ou e m p o b r e c i d a s . C o m o v e r e m o s , a u t i l i z a ç ã o d a i n t e r n e t d e v e r á ser r e s p o n s á v e l , n o futuro, p e l a m a i o r p a r t e d o c r e s c i m e n t o d o m o v i m e n t o telefônico i n t e r n a c i o n a l . O a c e s s o à internet e o n ú m e r o d e u s u á r i o s e s p a l h a d o s p e l o m u n d o inteiro d i s p a r a r a m n a ú l t i m a d é c a d a , à m e d i d a q u e os a v a n ç o s n a t e c n o l o g i a torn a r a m a a t i v i d a d e on-line m a i s acessível e m t e r m o s t é c n i c o s e financeiros.

Telefones celulares: a onda do futuro?
A d é c a d a d e 1 9 9 0 t e s t e m u n h o u o d e s e n v o l v i m e n t o de u m n o vo fenômeno importante das telecomunicações - o aumento d a p o p u l a r i d a d e d o s telefones c e l u l a r e s . A s estimativas s ã o d e q u e , e m 1990, h a v i a 11 m i l h õ e s d e telefones c e l u l a r e s e s p a l h a d o s p e l o m u n d o e d e q u e , u m a d é c a d a m a i s tarde, m a i s de 4 0 0 m i l h õ e s d e p e s s o a s j á u t i l i z a v a m esses telefones! C o m p a r a n d o - s e e s s e v o l u m e c o m as 180 m i l h õ e s d e p e s s o a s q u e p o s s u e m c o m p u t a d o r e s i n d i v i d u a i s , fica claro p o r q u e , c a d a v e z m a i s , os telefones c e l u l a r e s r e p r e s e n t a m o futuro das t e l e c o municações. N a v e r d a d e , os telefones celulares n ã o são u m a n o v i d a d e , m a s a t e c n o l o g i a r e s p o n s á v e l p e l o i m p u l s o q u e os transformou e m u m fenômeno global é bastante recente. A chamada "prim e i r a g e r a ç ã o " d e telefones celulares, q u e utilizava a t e c n o l o gia a n a l ó g i c a , foi a p i o n e i r a ao d e m o n s t r a r a p o s s i b i l i d a d e de c o m b i n a r as c o m u n i c a ç õ e s c o m a m o b i l i d a d e . A tecnologia digital p r o d u z i u u m a " s e g u n d a g e r a ç ã o " d e telefones, m a i s rápidos, menores, m e n o s incômodos e mais convenientes. C o m o os p r e ç o s c o n t i n u a r a m a b a i x a r e a c a p a c i d a d e de r e c e p ç ã o se estendeu a distâncias c a d a vez m a i o r e s , a p o p u l a r i d a d e desses telefones a u m e n t o u : as novas c o n e x õ e s telefônicas dos celulares a g o r a u l t r a p a s s a r a m e m m u i t o as c o n e x õ e s das linhas da telefonia fixa (veja a F i g u r a 15.3). E m alguns países o n d e h á esc a s s e z d e linhas fixas e a infra-estrutura telefônica é subdesenvolvida, os telefones celulares p r e s t a m u m serviço confiável e bastante necessário (veja a F i g u r a 15.4). A tecnologia r a r a m e n t e c o m b i n a c o m lentidão, e, n o caso dos telefones celulares, ela saiu e m disparada. A t ã o e s p e r a d a "terceira g e r a ç ã o " d a t e c n o l o g i a celular irá p r e n u n c i a r a era da "internet s e m fio". C o m o auxílio de u m Wireless Application Protocol (WAP, P r o t o c o l o p a r a A p l i c a ç õ e s s e m Fio), as inform a ç õ e s e m formato de texto extraídas dos websites serão filtradas e exibidas e m palavras na tela do telefone. O s usuários conseguirão acessar a internet através de seus telefones celulares p a r a efetuar tarefas q u e vão d e s d e n e g ó c i o s bancários, c o m p r a de ingressos e p a s s a g e n s até a leitura das m a n c h e t e s dos j o r n a i s e o c o n t r o l e dos p r e ç o s das a ç õ e s . P a r a o acesso on-line, n ã o serão m a i s necessários c o m p u t a d o r e s e c o n e x õ e s dial-up, e m 0

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1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 Figura 15.3 Uma comparação mundial entre as novas conexões para telefones celulares e as linhas fixas, 1990-1998 (milhões somados a cada ano)
Fontes: Dados do International Telecommunication Union. De The Economist, 9 de outubro de 1999.

b o r a seja provável q u e elas c o n t i n u e m a ser b a s t a n t e utilizadas e m navegações mais longas. M a s no caso de transações mais rápidas, os telefones celulares ajustados n o "i-mode" ( m o d o internet) oferecerão u m c a m i n h o m a i s ágil e c o n v e n i e n t e de acessar a internet. "A portabilidade dos telefones celulares os transforma e m i n s t r u m e n t o s m a r a v i l h o s o s p a r a a l i b e r a ç ã o p e s s o a l " , afirma u m c o m e n t a d o r (The Economist, 9 d e o u t u b r o de 1999). E i n e gável q u e os telefones celulares são u m a g r a n d e v a n t a g e m e m u m a era m a r c a d a p e l a m o b i l i d a d e constante, p e l o d e s l o c a m e n to p a r a o trabalho, pelas v i a g e n s freqüentes e pelas a g e n d a s cheias. A s tarefas p o d e m ser a d m i n i s t r a d a s c o m m a i o r eficiência; pais p o d e m m a n t e r c o n t a t o c o m os filhos a d o l e s c e n t e s ; o t e m p o gasto e m d e s l o c a m e n t o s ou l o n g e de u m a linha telefônica fixa agora p o d e ser aproveitado p a r a as exigências pessoais e profissionais. M u i t a s p e s s o a s a p r e c i a m e s s a flexibilidade p r o p o r c i o n a d a p e l o s telefones celulares. N o e n t a n t o , a l g u m a s p e s s o a s a d v e r t e m q u e os telefones celulares são t a m b é m u m indicativo de alguns aspectos problem á t i c o s de n o s s a é p o c a . N e s t a era d e m a r c h a acelerada, e m q u e a j o r n a d a diária t o r n a - s e m a i s l o n g a e exige um esforço m a i o r d o s indivíduos, o s telefones celulares p a r e c e m a u m e n t a r ainda m a i s esse ritmo frenético d a vida ao violar os m o m e n t o s d e p r i v a c i d a d e das p e s s o a s , significando u m acesso c o n t í n u o , c o n f u n d i n d o os limites entre a vida pessoal e a profissional. O valioso t e m p o " d o intervalo", q u e a n t i g a m e n t e era d e d i c a d o a r e c o l o c a r as idéias e m o r d e m , é c a d a v e z m a i s invadido p e l o s ruídos dos celulares t o c a n d o e pelos esforços frenéticos de úl-

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• Filipinas Finlândia Noruega

As origens da internet
A i n t e r n e t surgiu d e f o r m a e s p o n t â n e a . E o p r o d u t o d e u m m u n d o sem divisões - u m m u n d o após a queda do M u r o de B e r l i m . P o r é m , suas o r i g e n s r e m o n t a m e x a t a m e n t e ao p e r í o d o d a G u e r r a Fria a n t e r i o r a 1989. A r e d e iniciou n o P e n t á g o $ Líbano Japão Israel c O Austrália
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e Malásia ® Kuwait

Tailândia

Suécia » # Dinamarca

no, o quartel-general dos militares norte-americanos. Estabel e c i d a e m 1969, seu p r i m e i r o n o m e foi r e d e A R P A e m f u n ç ã o da Advanced Research Projects Agency ( A g ê n c i a de P r o j e t o s dé P e s q u i s a s A v a n ç a d a s ) d o P e n t á g o n o . Seu objetivo era limi-

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• Venezuela • Sri Lanka » África do Sul

t a d o , b u s c a v a p e r m i t i r q u e cientistas c o n t r a t a d o s p e l o e x é r c i Nova Zelândia
09 Cingapura

to e m d i f e r e n t e s p o n t o s d o s E s t a d o s U n i d o s j u n t a s s e m s e u s r e c u r s o s e c o m p a r t i l h a s s e m os e q u i p a m e n t o s caros q u e utiliz a v a m . A idéia d e t a m b é m projetar u m a f o r m a de enviar m e n s a g e n s surgiu q u a s e q u e c o m o u m a reflexão t a r d i a na m e n t e de s e u s c r i a d o r e s - e a s s i m n a s c e u o c o r r e i o e l e t r ô n i c o , " e mail". A t é o início d a d é c a d a d e 1980, a internet d o P e n t á g o n o

Itália

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• Gabão • • • Chile Bélgica China > Argentina ^ Espanha Bulgária • França Canadá

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consistia e m 5 0 0 c o m p u t a d o r e s , l o c a l i z a d o s e m laboratórios militares e e m d e p a r t a m e n t o s d e ciências d a c o m p u t a ç ã o d e universidades. O u t r a s p e s s o a s d o m e i o universitário e n t ã o c o m e ç a r a m a e n t e n d e r o sistema, p a s s a n d o a utilizá-lo e m b e n e fício p r ó p r i o . A t é o ano d e 1987, a internet j á h a v i a se e x p a n d i d o p a r a 2 8 m i l c o m p u t a d o r e s centrais, e s p a l h a d o s p o r diferentes universidades e laboratórios de p e s q u i s a . D u r a n t e v á r i o s a n o s , a i n t e r n e t p e r m a n e c e u c o n f i n a d a às universidades. P o r é m , c o m a difusão dos computadores pessoais d o m é s t i c o s , e l a c o m e ç o u a a v a n ç a r p a r a u m d o m í n i o externo - entrando, então, e m u m período de crescimento explosivo. Entre 1988 e 1998, o volume de lares britânicos c o m

r 20
-

30

40

50

~r 60

-

-1

70

Linhas principais por 100 pessoas

Fontes: Dados do International Telecommunication Union relativos a 45 países. De World Bank, World Development Report, 1998-1999, Oxford University Press, 1998, p. 59.

Figura 15.4 Densidade da telefonia e penetração mundial dos telefones celulares, 1996.

tima h o r a p a r a organizar detalhes q u e h a v i a m sido d e i x a d o s de lado. E m alguns lugares públicos, c o m o trens e restaurantes, os telefones celulares p a s s a r a m a ser vistos c o m o u m estorvo, e a l g u m a s m e d i d a s v ê m s e n d o t o m a d a s n o sentido de restringir seu uso.

c o m p u t a d o r e s s a l t o u d e 18 p a r a 3 4 % . E n t r e as f a m í l i a s c o m filhos, o p e r c e n t u a l foi d e 4 9 % ( H M S O , 2 0 0 0 ) . A d i f u s ã o dos provedores comerciais de serviços na internet que oferec e m o a c e s s o dial-up através de m o d e m s serviu para ampliar S e r v i ç o s ona p r o p o r ç ã o d e l a r e s c o m c a p a c i d a d e s on-line. b l i o t e c a s d e software

line, q u a d r o s d e a v i s o e l e t r ô n i c o s , s a l a s d e b a t e - p a p o e b i -

A internet
Até o início da década de 1990, muitos especialistas das indústrias da c o m p u t a ç ã o e d a t e c n o l o g i a j á a d m i t i a m q u e o rein a d o d o c o m p u t a d o r p e s s o a l h a v i a c h e g a d o ao fim. P a r a eles, ficava c a d a vez m a i s c l a r o q u e o futuro n ã o estava n o c o m p u tador individual, mas e m u m sistema global de computadores interligados - a internet. Embora, naquela época, muitos u s u á r i o s de c o m p u t a d o r e s t a l v e z n ã o t e n h a m p e r c e b i d o e s s a s i t u a ç ã o , n ã o d e m o r o u m u i t o p a r a o P C se t o r n a r u m p o u c o m a i s d o q u e u m p o n t o d e a c e s s o aos a c o n t e c i m e n t o s d o m u n do - eventos que ocorrem e m u m a rede estendida pelo planeta, q u e n ã o é p r o p r i e d a d e d e n e n h u m i n d i v í d u o e d e n e n h u m a empresa. O potencial da internet para o crescimento do ativismo internacional é explorado em "A tecnologia e os movim e n t o s sociais', na p. 3 5 9 .

foram colocados na rede por u m a va-

riedade espantosa de pessoas, não mais apenas na América do Norte, mas e m todo o mundo. As corporações t a m b é m a d e r i r a m i m e d i a t a m e n t e . E m 1 9 9 4 , as e m p r e s a s d e s b a n c a r a m as u n i v e r s i d a d e s , t r a n s f o r m a n d o - s e n a s u s u á r i a s d o m i nantes da rede. O e l e m e n t o m a i s c o n h e c i d o da internet é a World Wide Web ( W W W ) ( R e d e M u n d i a l de C o m p u t a d o r e s ) . D e fato, a s s i m c o m o u m c u c o e m u m n i n h o , ela a m e a ç a a s s u m i r o controle da casa. A web é, na v e r d a d e , u m a biblioteca m u l t i m í d i a global. F o i inventada p o r u m e n g e n h e i r o de software ratório de física suíço, e m 1992; o software e m u m laboque a popularizou

n o m u n d o inteiro foi criado por u m a l u n o d e g r a d u a ç ã o d a U n i v e r s i d a d e de Illinois. O s usuários n a v e g a m n a web c o m o auxílio de u m "browser" - u m p r o g r a m a de software q u e possibilita aos indivíduos buscar informações, localizar sites ou páginas específicas na web e m a r c á - l a s p a r a referência futura. P o r m e i o d e l a é possível transferir u m a a m p l a v a r i e d a d e d e d o c u m e n t o s e p r o g r a m a s , q u e vão d e s d e d o c u m e n t o s sobre a política gover-

SOCIOLOGM

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n a m e n t a l , até softwares

antivírus p a r a j o g o s d e c o m p u t a d o r . A

O acesso à internet é e x t r e m a m e n t e desigual (veja a F i g u r a 15.5). E m 1 9 9 8 . 8 8 % d o s u s u á r i o s m u n d i a i s d a internet viviam nos países desenvolvidos. A América do Norte concentrou m a i s d e 5 0 % de t o d o s os u s u á r i o s , e m b o r a ela c o m p r e e n d a apenas 5 % d e toda a p o p u l a ç ã o m u n d i a l . O s E s t a d o s U n i d o s são o país c o m o m a i o r n ú m e r o d e p e s s o a s q u e t ê m c o m p u t a d o r e s e a c e s s o on-line. M a i s d e 100 m i l h õ e s d e n o r t e - a m e r i c a n o s u t i l i z a m a internet, e n q u a n t o a A l e m a n h a e a G r ã - B r e t a n h a p o s s u e m , c a d a u m a , 10 m i l h õ e s de u s u á r i o s . N o J a p ã o , p a í s o n d e a febre d a internet c h e g o u u m p o u c o m a i s tarde, m a i s de 1 4 % d a p o p u l a ç ã o (18,3 m i l h õ e s d e p e s s o a s ) u t i l i z a v a m a internet e m 1999 - u m n ú m e r o q u e deve crescer r a p i d a m e n t e n o s próximos anos.

sofisticação desses sites p a s s o u a deleitar seus visitantes: m u i tos são e n f e i t a d o s c o m gráficos i n t r i n c a d o s e fotografias, o u c o n t ê m arquivos d e v í d e o o u de á u d i o . A web t a m b é m serve c o m o p r i n c i p a l interface p a r a o c o m é r c i o e l e t r ô n i c o - transações e m p r e s a r i a i s r e a l i z a d a s on-line. N ã o se sabe o n ú m e r o e x a t o de p e s s o a s q u e , de fato, estão c o n e c t a d a s à internet, m a s , n o início d o século X X I , b e m m a i s d e 100 m i l h õ e s d e p e s s o a s e s p a l h a d a s p e l o m u n d o inteiro p o d i a m a c e s s á - l a . O c r e s c i m e n t o d a internet está e s t i m a d o e m u m a t a x a de 2 0 0 % ao a n o d e s d e 1 9 8 5 ! E m u m futuro p r ó x i m o , c o m o s n o v o s a v a n ç o s n a t e c n o l o g i a d a c o m p u t a ç ã o e d a s telec o m u n i c a ç õ e s , t u d o i n d i c a q u e esse í n d i c e e x p o n e n c i a l de c r e s c i m e n t o se m a n t e r á constante.

As fatias indicam a porção regional da população mundial. Fatias escuras mostram os usuários da internet.

Usuários da internet como percentual da população nacional 45,

40 isiândia Ásia Meridional África Subsaariana Estados Arabes Leste Europeu eCEI Leste da Asia América Latina e Caribe Sudeste da Ásia e Pacífico 25 OCDE excluindo os Estados Unidos

30 : Finlândia Estados Unidos

•População regional (como percentual da população mundial) Estados Unidos OCDE (exc!. cs EUA! Amério Sudeste da Ásia e ;~í,:.' kv,
:

Usuários da internet (como percentual da população regional)

20

• oingapura • Canadá

15 14.1 8.S 0.5 • Estônia

Leste--'l.estc Africa 5:;h«';ïP~na '

¡0

Reino Unido

JIIIIIililBIIll 5.8
9.7 23.5 i..t>
da Coréia e a Turquia estão

5

-Cafar - Malásia

C

Figura 15,5

Usuários da internet em todo o mundo.

Fontes: Baseado em dados fornecidos por Nua, 1999, Network Wizards, 1998; e IDC, 1999. De UNDP, Human Development Report, Oxford University Press, 1999, p. 63.

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ANTHONY G a x e l s

O impacto da internet
N e s t e m u n d o de m u d a n ç a s t e c n o l ó g i c a s b a s t a n t e s u r p r e e n d e n t e s , n i n g u é m c o n s e g u e s a b e r ao c e r t o o q u e o futuro n o s r e s e r v a . M u i t o s v ê e m n a i n t e r n e t u m e x e m p l o da n o v a o r d e m g l o b a l que e s t á s u r g i n d o n e s s e final d o s é c u l o X X . O s u s u á rios da i n t e r n e t v i v e m n o " c i b e r e s p a ç o " . O c i b e r e s p a ç o é o e s p a ç o de i n t e r a ç ã o f o r m a d o p e l a r e d e g l o b a l de c o m p u t a d o r e s q u e c o m p õ e m a internet. N o c i b e r e s p a ç o , c o m o B a u d r i l lard talvez d i s s e s s e , d e i x a m o s de ser " p e s s o a s " p a r a n o s torn a r m o s m e n s a g e n s e s c r i t a s n a s telas d o s c o m p u t a d o r e s d o s outros. C o m exceção dos e-mails, que levam a identificação d o s u s u á r i o s , n i n g u é m n a i n t e r n e t c o n s e g u e s a b e r ao c e r t o a v e r d a d e i r a i d e n t i d a d e d o o u t r o , se está se c o m u n i c a n d o c o m u m h o m e m o u c o m u m a m u l h e r , ou e m q u e l u g a r d o m u n d o a p e s s o a está. E x i s t e u m f a m o s o c a r t u m s o b r e a i n t e r n e t q u e traz u m c a c h o r r o s e n t a d o d i a n t e d e u m c o m p u t a d o r e a seg u i n t e l e g e n d a : " O m e l h o r d a i n t e r n e t é q u e n i n g u é m fica sabendo que você é u m cachorro." A difusão da internet p e l o g l o b o trouxe q u e s t õ e s fundam e n t a i s p a r a os s o c i ó l o g o s . A internet está t r a n s f o r m a n d o os c o n t o r n o s d a v i d a diária - c o n f u n d i n d o o s limites entre o global e o local, a p r e s e n t a n d o n o v o s canais de c o m u n i c a ç ã o e de interação e p e r m i t i n d o q u e u m n ú m e r o cada v e z m a i o r d e tarefas cotidianas seja e x e c u t a d o on-line. P o r é m , ao m e s m o t e m p o q u e e l a oferece n o v a s e instigantes o p o r t u n i d a d e s p a r a e x p l o r a r m o s o m u n d o social, ela t a m b é m a m e a ç a enfraquecer as r e l a ç õ e s h u m a n a s e as c o m u n i d a d e s . A p e s a r d e a " e r a d a inform a ç ã o " a i n d a estar e m seus estágios iniciais, m u i t o s s o c i ó l o g o s j á e s t ã o d i s c u t i n d o as c o m p l e x a s i m p l i c a ç õ e s d a i n t e r n e t p a r a as r e c e n t e s s o c i e d a d e s m o d e r n a s . A s o p i n i õ e s a r e s p e i t o d o s efeitos d a i n t e r n e t s o b r e a int e r a ç ã o social d i v i d e m - s e e m duas g r a n d e s categorias. E m u m l a d o , e s t ã o os o b s e r v a d o r e s q u e e n x e r g a m n e s s e m u n d o on-line 2L c a p a c i d a d e d e p r o m o v e r n o v a s f o r m a s de r e l a c i o n a m e n tos e l e t r ô n i c o s q u e t a n t o s e r v e m p a r a m e l h o r a r q u a n t o p a r a c o m p l e t a r as i n t e r a ç õ e s face a face e x i s t e n t e s . E n q u a n t o estão v i a j a n d o o u t r a b a l h a n d o n o exterior, os i n d i v í d u o s p o d e m aproveitar a i n t e r n e t p a r a se c o m u n i c a r e m r e g u l a r m e n t e c o m os a m i g o s e c o m os p a r e n t e s e m casa. A d i s t â n c i a e a s e p a r a ç ã o p a s s a r a m a ser m a i s toleráveis. A i n t e r n e t t a m b é m p e r m i te a c o n s t r u ç ã o d e n o v o s t i p o s d e r e l a c i o n a m e n t o : u s u á r i o s on-line " a n ô n i m o s " p o d e m se e n c o n t r a r e m salas de b a t e - p a p o e discutir t ó p i c o s de i n t e r e s s e m ú t u o . E s s e s c i b e r c o n t a t o s às v e z e s e v o l u e m p a r a v e r d a d e i r a s a m i z a d e s e l e t r ô n i c a s , ou m e s m o resultam em encontros que ocorrem pessoalmente. M u i t o s u s u á r i o s d a i n t e r n e t p a s s a m a fazer p a r t e d e a n i m a d a s c o m u n i d a d e s on-line q u e s ã o q u a l i t a t i v a m e n t e diferentes daq u e l a s e m q u e eles h a b i t a m n o m u n d o físico. O s e s t u d i o s o s que c o n s i d e r a m a i n t e r n e t u m a c r é s c i m o p o s i t i v o à i n t e r a ç ã o h u m a n a d e f e n d e m a i d é i a d e q u e e l a e x p a n d e e e n r i q u e c e as r e d e s d e c o n t a d o s sociais d a s p e s s o a s . Entretanto, n e m todos a s s u m e m u m a postura tão entusiástica. A m e d i d a q u e as p e s s o a s p a s s a m m a i s t e m p o se c o m u n i c a n d o on-line e l i d a n d o c o m suas tarefas diárias n o c i b e -

"Adorei o teu e-mail, mas eu pensei que você fosse mais velho." ©The NewYorkerCollection, 1998, Robert Weber de cartoonbank.com. Todos os direitos reservados.

r e s p a ç o , é possível q u e elas e s t e j a m d e d i c a n d o m e n o s t e m p o à i n t e r a ç ã o c o m os o u t r o s n o m u n d o físico. A l g u n s s o c i ó l o g o s t e m e m q u e a difusão d a t e c n o l o g i a d a i n t e r n e t a c a b e levando a u m isolamento social e a u m a atomização cada vez m a i o r e s . E l e s s u s t e n t a m q u e u m efeito d a a m p l i a ç ã o d o a c e s so à i n t e r n e t n o s lares é q u e as p e s s o a s e s t ã o d e d i c a n d o m e n o s " t e m p o de q u a l i d a d e " à v i d a c o m a família e c o m os a m i g o s . D i a n t e d a c o n f u s ã o n o s l i m i t e s e n t r e o t r a b a l h o e a casa, a internet invade a vida doméstica: muitos empregados contin u a m t r a b a l h a n d o e m c a s a a p ó s o e x p e d i e n t e - verificando o e - m a i l ou c o n c l u i n d o tarefas q u e n ã o t e n h a m c o n s e g u i d o term i n a r d u r a n t e o dia. R e d u z - s e o c o n t a t o h u m a n o , s o f r e m os r e l a c i o n a m e n t o s p e s s o a i s , e s q u e c e m - s e as f o r m a s t r a d i c i o nais d e e n t r e t e n i m e n t o , c o m o o teatro e os livros, e e n f r a q u e ce-se a e s t r u t u r a da v i d a social.

P a r a s a b e r mais a respeito d e a l g u m a s d a s n u a n c e s q u e fazem falta n a c o m u n i c a ç ã o a distância, veja "Rosto, corp o e d i s c u r s o n a interação", n a p. 9 1 . C o m o p o d e m o s avaliar e s s a s p o s t u r a s contrastantes?

C e r t a m e n t e e x i s t e m f u n d a m e n t o s d e v e r d a d e e m a m b o s os lados desse debate. N ã o há dúvidas de que a internet está ampliando nossos horizontes, além de apresentar oportunidades s e m p r e c e d e n t e s p a r a o e s t a b e l e c i m e n t o d e c o n t a t o s c o m os o u t r o s . E n t r e t a n t o , o r i t m o frenético de s u a e x p a n s ã o t a m b é m i n t r o d u z desafios e a m e a ç a s às f o r m a s t r a d i c i o n a i s de interaç ã o h u m a n a . S e r á q u e a i n t e r n e t irá t r a n s f o r m a r r a d i c a l m e n t e a s o c i e d a d e e m u m d o m í n i o f r a g m e n t a d o , i m p e s s o a l , o n d e os seres h u m a n o s r a r a m e n t e se a r r i s q u e m a sair de suas c a s a s e p e r c a m a h a b i l i d a d e de se c o m u n i c a r e m ? P a r e c e i m p r o v á v e l .

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E m b o r a seja m u i t o c e d o p a r a j u l g a r c o m p r e c i s ã o todas as i m p l i c a ç õ e s da e x p l o s ã o da i n t e r n e t nas s o c i e d a d e s m o d e r n a s recentes, a l g u n s e s t a d o s s o c i o l ó g i c o s j á t e n t a m a v a l i a r s e u s efeitos. E m u m e s t u d o de g r a n d e e s c a l a e n v o l v e n d o m a i s d e 4 m i l a d u l t o s n o r t e - a m e r i c a n o s , p u b l i c a d o e m fev e r e i r o de 2 0 0 0 , p e s q u i s a d o r e s d a U n i v e r s i d a d e d e S t a n ford c o n s t a t a r a m q u e u s u á r i o s r e g u l a r e s da i n t e r n e t d e d i c a m m e n o s t e m p o às suas famílias e a a t i v i d a d e s c o m u n i tárias d o q u e n ã o - u s u á r i o s ou u s u á r i o s n ã o - f r e q ü e n t e s . O e s t u d o d e s c o b r i u q u e 5 5 % dos entrevistados t i n h a m a c e s s o à internet e m c a s a ou n o t r a b a l h o ; 2 0 % dos indivíd u o s q u e c o m p õ e m o l e v a n t a m e n t o f o r a m classificados c o m o "usuários regulares" que passavam no mínimo cinco horas p o r s e m a n a c o n e c t a d o s à internet. O e s t u d o o b s e r v o u d u a s t e n d ê n c i a s significativas. P r i m e i r a m e n t e , a internet p a r e c e estar fazendo c o m q u e as p e s -

soas a b a n d o n e m outras f o r m a s de mídia de massa. Entre os usuários regulares da internei, W,i dis^eraiv. qau a g o r a p a s s a m m e n o s t e m p o assis:imlo à icIcvNão. e um \ - r ç o relatou u m a r e d u ç ã o n o t e m p o de .'•.•inira d e jiimai.v E m s e g u n d o lugar, a internei: e s t á c o n f u n d i n d o o s l i m i t e s e n t r e a casa e o l o c a i d e t r a b a l h o . U m q u a r t o dos u s u á rios regulares i n f o r m o u q u e Y - a m mais t e m p o t r a b a l h a n d o e m c a s a , e m b o r a o n ú m e r o d e h o r a s d e sua j o r n a d a n o local d e trabalho c o n t i n u e igual, ou m e m o lenha a u m e n t a d o . D e a c o r d o c o m o a u t o r d o est-.:-- • a \ ida i o i a o u - s e u m "fluxo c o n s t a n t e " q u e se organiza em torno da internet. O s e m p r e g a d o s a g o r a utilizam mais a internei d m a i i i e n imped i e n t e "oficial" e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , s/.-abam l e v a n d o p r o j e t o s p a r a casa em vez de deixarei!- -.üa* m e s a s limpas até o final d o dia.

Há cerca de 50 anos, temores bastante semelhantes foram manifestados assim que a televisão estourou n o cenário da m í d i a . E m The Lonely Crowd (1961), u m a influente análise s o c i o l ó g i c a d a s o c i e d a d e n o r t e - a m e r i c a n a da d é c a d a de 1950, David R i e s m a n e seus colegas mostraram-se preocupados c o m os efeitos d a T V s o b r e a vida f a m i l i a r e c o m u n i t á r i a . E m b o r a alguns de seus temores fossem b e m justificáveis, a t e l e v i s ã o e a m í d i a de m a s s a t a m b é m e n r i q u e c e r a m o m u n d o social d e m u i t a s m a n e i r a s . D a m e s m a f o r m a c o m o o c o r r e r a a n t e r i o r m e n t e c o m a televisão, a internet t a m b é m despertou esperanças e temores. Será que perderemos nossa identidade no ciberespaço? Serem o s d o m i n a d o s p e l a t e c n o l o g i a c o m p u t a d o r i z a d a ou a d o m i n a r e m o s ? O s seres h u m a n o s irão se refugiar e m u m m u n d o on-line a n t i - s o c i a l ? T u d o i n d i c a q u e a r e s p o s t a p a r a e s s a s dúv i d a s , f e l i z m e n t e , seja " n ã o " . C o m o v i m o s a n t e r i o r m e n t e , n a d i s c u s s ã o a c e r c a d e "A c o m p u l s ã o d a p r o x i m i d a d e " (p. 9 8 ) , as p e s s o a s n ã o u t i l i z a m a v i d e o c o n f e r ê n c i a se p u d e r e m se r e u n i r d a m a n e i r a h a b i t u a l . A t u a l m e n t e , os e x e c u t i v o s das e m p r e s a s t ê m u m a v a r i e d a d e b e m m a i o r de f o r m a s de c o m u nicação eletrônica disponíveis do que no passado, mas, m e s m o assim, houve u m a disparada no número de conferências de negócios realizadas à m o d a tradicional.

o alcance e o i m p a c t o internacionais de outras formas de mídia. N e s t a seção, e s t u d a r e m o s a l g u m a s das m u d a n ç a s q u e afetam a m í d i a de m a s s a sob as c o n d i ç õ e s d a g l o b a l i z a ç ã o . A i n d a q u e a m í d i a s e m p r e t e n h a tido d i m e n s õ e s internacionais - c o l h e n d o histórias p a r a notícias e distribuindo filmes p a r a outros p a í s e s , p o r e x e m p l o - até a d é c a d a de 1970, a maioria das e m p r e s a s de m í d i a operava dentro de m e r c a d o s d o mésticos específicos, seguindo os r e g u l a m e n t o s estipulados p e los g o v e r n o s nacionais. A indústria da m í d i a t a m b é m apresentava setores distintos - n a m a i o r i a dos casos, o c i n e m a , a m í d i a i m p r e s s a , o r á d i o e a t r a n s m i s s ã o de p r o g r a m a s de televisão funcionavam d e f o r m a i n d e p e n d e n t e . N a s três ú l t i m a s d é c a d a s , c o n t u d o , o c o r r e r a m profundas transformações dentro da indústria da mídia. O s m e r c a d o s nacionais d e r a m lugar a u m m e r c a d o global mutável, e n q u a n t o as novas tecnologias fizeram c o m q u e formas da m í d i a q u e antes e r a m distintas se fundissem. A t é o início d o século X X I , o merc a d o da m í d i a global era d o m i n a d o p o r u m g r u p o de cerca de 2 0 c o i p o r a ç õ e s multinacionais, cujo p a p e l n a p r o d u ç ã o , na d i s tribuição e n o marketing das notícias e d o e n t r e t e n i m e n t o p o dia ser sentido e m p r a t i c a m e n t e t o d o s os países. E m seu trabalho s o b r e a g l o b a l i z a ç ã o , D a v i d H e l d e seus colegas ( 1 9 9 9 ) a p o n t a m c i n c o g r a n d e s m u d a n ç a s q u e contrib u í r a m p a r a a o r d e m da m í d i a global:

A globalização e a mídia
C o m o v i m o s ao l o n g o deste livro, a internet é u m a das m a i s i m p o r t a n t e s c o l a b o r a d o r a s d o s atuais p r o c e s s o s de globalização, a l é m de ser u m a das principais m a n i f e s t a ç õ e s d e tais p r o cessos. Entretanto, a g l o b a l i z a ç ã o t a m b é m está t r a n s f o r m a n d o

1. Maior

concentração

da propriedade

-

Atualmente, a

m í d i a g l o b a l é d o m i n a d a p o r u m p e q u e n o n ú m e r o de corporações poderosas. Empresas de mídia independentes, d e p e q u e n a e s c a l a , t ê m sido g r a d u a l m e n t e incorporadas a c o n g l o m e r a d o s de m í d i a e x t r e m a m e n t e centralizados.

2. Transferência do domínio público para o privado - É u m a tradição e m q u a s e t o d o s os países o d o m í n i o parcial ou c o m p l e t o d o E s t a d o sobre as e m p r e s a s d e m í d i a e de t e l e c o m u n i c a ç õ e s . N a s ú l t i m a s d é c a d a s , a liberalização d o a m b i e n t e e m p r e s a r i a l e o r e l a x a m e n t o das r e g u l a m e n tações l e v a r a m à privatização (e c o m e r c i a l i z a ç ã o ) d a s e m p r e s a s d e m í d i a e m m u i t o s países. 3 . Estruturas corporativas transnacionais - As empresas d e m í d i a n ã o o p e r a m m a i s e s t r i t a m e n t e d e n t r o d a s fronteiras nacionais. D a m e s m a m a n e i r a , as regras de p r o p r i e d a d e d a m í d i a foram afrouxadas p a r a q u e os investimentos e as aquisições u l t r a p a s s e m as fronteiras. 4 . Diversificação em torno de uma variedade de produtos da mídia - A i n d ú s t r i a da m í d i a p a s s o u p o r u m a diversificação e está b e m m e n o s s e g m e n t a d a d o q u e n o p a s s a do. C o n g l o m e r a d o s d e m í d i a e n o r m e s , c o m o o A O L - T i m e Warner, cujo perfil é t r a ç a d o a seguir, p r o d u z e m e distribuem u m a m i s t u r a de c o n t e ú d o s de m í d i a q u e inclui m ú s i c a , notícias, m í d i a i m p r e s s a e p r o g r a m a ç ã o de televisão. 5. Aumento no número de fusões de corporações de mídia - E x i s t e u m a t e n d ê n c i a e m direção às alianças entre c o m p a n h i a s de diferentes s e g m e n t o s d a indústria d a m í -

dia. E m p r e s a s d e t e l e c o m u n i c a ç õ e s , fabricantes d e hardware e de software p a r a c o m p u t a d o r e s e p r o d u t o r a s r e s ponsáveis p e l o " c o n t e ú d o " d a m í d i a estão envolvendo-se c a d a vez m a i s nas fusões d e c o r p o r a ç õ e s , c o m a crescente integração entre as f o r m a s da mídia. A globalização da m í d i a conferiu d e s t a q u e às formas "horizont a i s " de c o m u n i c a ç õ e s . Se as formas tradicionais d a m í d i a gar a n t i a m u m a c o m u n i c a ç ã o d e n t r o dos limites dos e s t a d o s - n a ç õ e s , e m u m estilo "vertical", a g l o b a l i z a ç ã o está levando à int e g r a ç ã o horizontal das c o m u n i c a ç õ e s . N ã o são a p e n a s as p e s soas c o m u n s q u e fazem contatos entre si, m a s t a m b é m os p r o d u t o s da m í d i a estão s e n d o a m p l a m e n t e d i s s e m i n a d o s graças a n o v o s e s q u e m a s r e g u l a d o r e s h a r m o n i z a d o s , políticas d e p r o p r i e d a d e e estratégias transnacionais de marketing. A s c o m u n i cações e a m í d i a a g o r a p o d e m expandir-se c o m m a i o r facilidade, ultrapassando os confins de c a d a país ( S r e b r e n n y - M o h a m m a d i e t a l , 1997). N o entanto, a s s i m c o m o ocorre c o m outros aspectos da s o ciedade global, a n o v a o r d e m da i n f o r m a ç ã o desenvolveu-se de m a n e i r a desigual, refletindo divisões e n t r e as s o c i e d a d e s d e senvolvidas e os países m e n o s desenvolvidos. N e s t a seção, exp l o r a r e m o s as d i m e n s õ e s d a g l o b a l i z a ç ã o d a m í d i a antes d e c o n s i d e r a r m o s os a r g u m e n t o s e x p o s t o s p o r a l g u n s e s t u d i o s o s

A internet irá transformar a indústria da música?
A internet j á está m u d a n d o m u i t o s a s p e c t o s d o n o s s o cotid i a n o - das nossas atividades de lazer à m a n e i r a c o m o os n e gócios são feitos. P a r a e m p r e s a s d e mídia "tradicionais", c o m o a indústria d a m ú s i c a , a internet representa u m a e n o r m e o p o r t u n i d a d e , m a s t a m b é m u m a séria a m e a ç a . E m b o r a a indústria d a m ú s i c a esteja se c o n c e n t r a n d o cad a v e z m a i s n a s m ã o s d e alguns c o n g l o m e r a d o s internacion a i s , alguns o b s e r v a d o r e s a c r e d i t a m q u e e l a seja o e l o m a i s vulnerável d e n t r o d a "indústria d a cultura". O m o t i v o d e s s a p r e o c u p a ç ã o está n o fato d e a internet p e r m i t i r o d o w n l o a d digital d e m ú s i c a s , q u e d e i x a m de ser adquiridas nas lojas de discos locais sob a forma de C D s ou cassetes. A t u a l m e n t e , a indústria global da m ú s i c a a b r a n g e u m a c o m p l e x a r e d e de fábricas, c a d e i a s d e distribuição, lojas d e discos e v e n d e d o res. S e a internet eliminar a n e c e s s i d a d e d e t o d o s esses e l e m e n t o s , a o permitir q u e a m ú s i c a seja c o m e r c i a l i z a d a e b a i x a d a dir d a indústria da m ú s i c a ? E como ir%,— . iL _„ m e n t e s estabelecidas n a intern e t d e entrarem n o m e r c a d o e tirarem p r o v e i t o da c r e s c e n t e demanda de "nichos" de gêneros musicais e do trabalho de artistas l o c a i s ? P a r a u m a i n d ú s t r i a q u e atingiu níveis astron ô m i c o s d e crescimento n a d e m a n d a global da principal corr e n t e da m ú s i c a popular, as t e n d ê n c i a s s ã o a m e a ç a d o r a s : de 1988 a 1 9 9 8 , a fatia d o m e r c a d o p a r a o s d o i s m a i o r e s g ê n e í

r o s m u s i c a i s - o r o c k e o p o p - caiu de 6 2 % p a r a 4 5 % {The Economist, 29 d e j a n e i r o d e 2 0 0 0 ) . N o v o s s o n s - c o m o o h i p - h o p , o trip-hop, o l o u n g e e o acid j a z z — e s t ã o m i n a n d o esse m e r c a d o m u s i c a l . A i n d ú s t r i a d a m ú s i c a j á e s t á l u t a n d o c o n t r a os efeitos d a d i g i t a l i z a ç ã o . A International graphic Federation ofthe PhonoIndustry (Federação Internacional da Indústria Fo-

nográfica) estima q u e a c a d a m o m e n t o s ã o e n v i a d a s ilegalm e n t e m a i s de 100 m i l h õ e s d e faixas m u s i c a i s n a internet, q u e ficam d i s p o n í v e i s p a r a download (The Economist, 29 d e j a n e i r o d e 2 0 0 0 ) . A p i r a t a r i a on-line j á é u m d o s m a i o r e s desafios e n f r e n t a d o s p e l a i n d ú s t r i a global da m ú s i c a . E m b o r a se tente i m p o r c o n t r o l e s r í g i d o s s o b r e as c ó p i a s d e m ú sicas a d q u i r i d a s p o r m e i o s l e g a i s , o r i t m o d a s m u d a n ç a s t e c n o l ó g i c a s está s u p e r a n d o a h a b i l i d a d e d a i n d ú s t r i a de red u z i r a pirataria. U m e x e m p l o q u e atraiu m u i t a a t e n ç ã o n o a n o 2 0 0 0 foi o c a s o N a p s t e r . O N a p s t e r é u r a p r o g r a m a d e software que p o s s i b i l i t a às p e s s o a s a t r o c a d e a r q u i v o s a t r a v é s d a internet - incluindo cópias ilegais d e músicas. A indústria fonográfica entrou c o m diversas ações judiciais contra a peq u e n a e m p r e s a q u e e s t á p o r trás d a N a p s t e r . M a s o g ê n i o e s t á fora d a l â m p a d a .

SoaoLOSi q u e c o m e n t a m esse tema, os quais a c r e d i t a m q u e a m e l h o r m a neira d e descrever a nova o r d e m da m í d i a g l o b a l seria através da e x p r e s s ã o " i m p e r i a l i s m o d a m í d i a " .

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Cinema
E x i s t e m diferentes f o r m a s d e avaliar a g l o b a l i z a ç ã o d o cinema: u m a delas é considerar o local da p r o d u ç ã o d o s filmes e as fontes de financiamento q u e os p a t r o c i n a m . A j u l g a r p o r esses cri-

Música
C o m o o b s e r v a m D a v i d H e l d e seus colegas e m sua pesquisa sob r e a g l o b a l i z a ç ã o da m í d i a e d a s c o m u n i c a ç õ e s , " o formato m u s i c a l é o q u e se ajusta m e l h o r à g l o b a l i z a ç ã o " (Held et al., 1999, p . 3 5 1 ) . Isso a c o n t e c e p o r q u e a m ú s i c a consegue transcender os limites da língua escrita e falada p a r a alcançar e atrair u m a audiência d e massa. A indústria global da música, d o m i n a da por u m p e q u e n o n ú m e r o de corporações multinacionais, foi construída s o b r e sua c a p a c i d a d e d e descobrir, produzir, c o m e r cializar e distribuir as habilidades musicais de milhares de artistas p a r a u m público e s p a l h a d o p e l o m u n d o . O desenvolvimento d a t e c n o l o g i a - d e s d e os aparelhos estéreos tipo walkman, os canais d e m ú s i c a ( c o m o a M T V ) até o compact disc ( C D s ) oferece c a m i n h o s mais novos e sofisticados p a r a distribuir as m ú s i c a s g l o b a l m e n t e . A o l o n g o das últimas décadas, desenvolveu-se u m " c o m p l e x o institucional" de e m p r e s a s q u e fazem parte d o marketing e da distribuição globais da música. A i n d ú s t r i a m u n d i a l fonográfica é u m a das m a i s c o n c e n t r a d a s . A s c i n c o m a i o r e s e m p r e s a s - Universal ( q u e a b s o r v e u a PolyGram e m 1 9 9 8 ) , Time Warner, Sony, EMI e Bertelsmann - c o n t r o l a m e n t r e 8 0 e 9 0 % d e t o d a s as v e n d a s na á r e a d a m ú s i c a i n t e r n a c i o n a l m e n t e ( H e r m a n c M c C h e s n e y , 1997). A t é j a n e i r o d e 2 0 0 0 , q u a n d o a n u n c i o u a fusão c o m a Time Warner, a EMI e r a a ú n i c a e m p r e s a e n t r e as c i n c o m a i o r e s q u e n ã o fazia p a r t e d e u m c o n g l o m e r a d o d e m í d i a m a i s a m p l o . A i n d ú s t r i a g l o b a l da m ú s i c a teve u m c r e s c i m e n t o c o n s i d e r á v e l e m m e a d o s da d é c a d a d e 1990, c o m u m a u m e n t o d e 3 8 % n a s v e n d a s e n t r e os a n o s d e 1 9 9 2 e 1 9 9 5 . N o s p a í s e s e m d e s e n v o l v i m e n t o , as v e n d a s f o r a m p a r t i c u l a r m e n t e i n t e n s a s , inspirando muitas das grandes empresas a contratarem mais artistas l o c a i s n a e x p e c t a t i v a d e q u e o m e r c a d o c r e s c e r i a ainda mais. O c r e s c i m e n t o da i n d ú s t r i a global da m ú s i c a deve-se prim e i r a m e n t e ao s u c e s s o da m ú s i c a p o p u l a r - q u e teve o r i g e m principalmente na América e na Grã-Bretanha - e à propagaç ã o das culturas e s u b c u l t u r a s j o v e n s q u e se identificam c o m essa m ú s i c a (Held et al., 1999). A globalização da música, portanto, t e m sido u m a das principais forças n a difusão dos estilos e g ê n e r o s m u s i c a i s n o r t e - a m e r i c a n o s e britânicos aos p ú b l i c o s internacionais. O s E U A e o R U são líderes m u n d i a i s de exportação da m ú s i c a popular. E m outros países, os níveis d e p r o d u ç ã o m u s i c a l d o m é s t i c a são b e m m a i s b a i x o s . E m b o r a alguns críticos afirmem q u e o d o m í n i o desses dois países na indústria da m ú s i c a enfraquece o sucesso dos sons e das tradições m u s i cais locais. E i m p o r t a n t e l e m b r a r q u e a g l o b a l i z a ç ã o é u m a e s trada de d u a s vias. A crescente p o p u l a r i d a d e da world music c o m o n o c a s o d o s u c e s s o f e n o m e n a l q u e f a z e m nos E s t a d o s U n i d o s os sons inspirados n a A m é r i c a L a t i n a - é u m t e s t e m u n h o d o fato d e q u e a g l o b a l i z a ç ã o c o n d u z a u m a difusão cultural e m todas as direções.

térios, c e r t a m e n t e h o u v e u m p r o c e s s o de g l o b a l i z a ç ã o n a i n dústria cinematográfica. S e g u n d o e s t u d o s r e a l i z a d o s p e l a O r g a n i z a ç ã o das N a ç õ e s U n i d a s p a r a E d u c a ç ã o , C i ê n c i a e Cultur a ( U N E S C O ) , m u i t a s n a ç õ e s t ê m c a p a c i d a d e para produzir film e s . N a d é c a d a d e 1980, c e r c a d e 2 5 p a í s e s p r o d u z i r a m 5 0 film e s ou m a i s p o r ano, ao p a s s o q u e u m g r u p o restrito de países - E s t a d o s U n i d o s , J a p ã o , Coréia d o Sul, H o n g K o n g e índia esteve n a l i d e r a n ç a ao p r o d u z i r m a i s d e 150 filmes p o r a n o ( H e l d e t a l . , 1999). O u t r o m o d o d e avaliar a g l o b a l i z a ç ã o d o c i n e m a é c o n s i d e r a n d o o v o l u m e d e e x p o r t a ç õ e s d o s filmes p r o d u z i d o s n a c i o n a l m e n t e . N a d é c a d a d e 1920, c o m o n a s c i m e n t o dos l o n g a s - m e t r a g e n s , H o l l y w o o d p r o d u z i a q u a t r o q u i n t o s de t o d o s os filmes e x i b i d o s n o m u n d o ; hoje e m dia, os E s t a d o s U n i d o s c o n t i n u a m a ser a m a i o r i n f l u ê n c i a d a i n d ú s t r i a d o c i n e m a . ( D e p o i s d o s E s t a d o s U n i d o s , o s m a i o r e s e x p o r t a d o r e s d e film e s são a í n d i a , a F r a n ç a e a Itália.) E m m u i t o s p a í s e s , o g o v e r n o oferece s u b s í d i o s p a r a a u x i l i a r suas p r ó p r i a s i n d ú s t r i a s c i n e m a t o g r á f i c a s , m a s n e n h u m o u t r o país se i g u a l a aos E s t a dos U n i d o s c o m o e x p o r t a d o r d e l o n g a s - m e t r a g e n s . N a G r ã B r e t a n h a , p o r e x e m p l o , os filmes n o r t e - a m e r i c a n o s r e p r e s e n t a m 4 0 % de t o d o s os filmes e x i b i d o s a c a d a a n o n o s c i n e m a s . A maioria dos demais países que possuem u m a indústria cin e m a t o g r á f i c a e m nível d e e x p o r t a ç ã o , c o m o a Itália, o J a p ã o e a A l e m a n h a , t a m b é m i m p o r t a g r a n d e s q u a n t i d a d e s d e film e s n o r t e - a m e r i c a n o s . N a A m é r i c a d o Sul, a p r o p o r ç ã o é g e ralmente superior a 5 0 % , e u m percentual semelhante é enc o n t r a d o e m m u i t a s r e g i õ e s da Á s i a , d a Africa e d o O r i e n t e M é d i o . A o l o n g o d e t o d a a U n i ã o E u r o p é i a , a p r o p o r ç ã o das r e c e i t a s d e b i l h e t e r i a r e l a c i o n a d a s a filmes n o r t e - a m e r i c a n o s subiu d e 6 0 % , e m 1984, p a r a q u a s e 7 2 % e m 1 9 9 1 ; até o ano de 1996, a fatia d a s r e c e i t a s relativas a o s filmes n o r t e - a m e r i canos havia caído novamente para cerca de 6 3 % (Held etal. 1999). O s E U A s ã o t a m b é m os m a i o r e s e x p o r t a d o r e s de film e s p a r a as n a ç õ e s q u e m a i s a d q u i r i a m filmes d a i n d ú s t r i a c i n e m a t o g r á f i c a soviética. Até o ano de 1993, mais de 5 0 % dos rendimentos dos est ú d i o s d e H o l l y w o o d p r o v i n h a m d a d i s t r i b u i ç ã o d e filmes n o exterior. A t é o a n o 2 0 0 1 , esse n ú m e r o deveria atingir 6 0 a "O^c. E s s a t e n d ê n c i a g e r o u várias c o n s e q ü ê n c i a s específicas. M u i i e s estúdios de H o l l y w o o d estão envolvidos n a construção de cinem a s multiplex e m outros p a í s e s p a r a a m p l i a r o s pnMicos e s t r a n g e i r o s . E m s e g u n d o lugar, a difusão d o s aparelhos d e v i deocassete e m vários m e r c a d o s r e c e n t e s aumentou a demanda de filmes e m vídeo, q u e . e m 1995, renderam JL8 bilhões d e d ó lares - m a i s da m e t a d e da r e c e i t a d o s estúdios cinematográficos ( H e r m a n e M c C h e s n e y , 1997).

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Nem mesmo a China escapou de O Exterminador do Futuro e do alcance globalizante do cinema de Hollywood.

As "superempresas" de mídia
E m j a n e i r o de 2 0 0 0 , d u a s das m a i s influentes e m p r e s a s de m í dia e m nível m u n d i a l u n i r a m - s e na m a i o r fusão de c o r p o r a ç õ e s j a m a i s vista n o m u n d o . E m u m a c o r d o valendo 3 3 7 b i l h õ e s de dólares, a Time Warner, m a i o r e m p r e s a de m í d i a d o m u n d o , e o America Online ( A O L ) , m a i o r p r o v e d o r m u n d i a l de serviços n a internet, a n u n c i a r a m sua i n t e n ç ã o d e criar a " p r i m e i r a e m p r e s a d o m u n d o a realizar u m a c o m p l e t a integração entre a m í dia e as c o m u n i c a ç õ e s n o século da internet". A fusão r e ú n e o e n o r m e " c o n t e ú d o " d e m í d i a da Time Warner - incluindo jornais e revistas, estúdios d e c i n e m a e estações de T V - e as p o derosas c o m p e t ê n c i a s de distribuição na internet d o A O L , cuja b a s e de assinantes na é p o c a d a fusão ultrapassava o n ú m e r o de 2 5 m i l h õ e s d e p e s s o a s e m 15 países. A fusão p r o v o c o u u m e n o r m e a l v o r o ç o n o s m e r c a d o s financeiros, diante da c r i a ç ã o da quarta m a i o r e m p r e s a d o m u n do. P o r é m , esse a c o r d o atraiu u m a g r a n d e a t e n ç ã o n e m tanto p o r seu t a m a n h o , m a s p o r se tratar d a p r i m e i r a g r a n d e u n i ã o entre a " v e l h a m í d i a " e a " n o v a m í d i a " . A s o r i g e n s da Time Warner r e m o n t a m ao a n o d e 1 9 2 3 , q u a n d o H e n r y L u c e fundou a revista Time, u m a publicação semanal q u e r e s u m i a e interpretava o g r a n d e v o l u m e de i n f o r m a ç õ e s contidas nos j o r n a i s diários. O sucesso e s m a g a d o r da Time foi l o g o repetido p e l a criação da revista de negócios Fortune, e m 1930, e pela revista fotográfica Life, e m 1936. A o l o n g o d o século X X , a T i m e , I n c . t r a n s f o r m o u - s e e m u m a c o r p o r a ç ã o d e mídia, a b a r c a n d o estaç õ e s de rádio e de TV, a indústria d a m ú s i c a , o i m e n s o i m p é r i o

d o c i n e m a e dos d e s e n h o s a n i m a d o s d a Warner Brothers, e a C N N , p r i m e i r o canal d e notícias d o m u n d o a p e r m a n e c e r 2 4 h o r a s p o r dia n o ar. N a é p o c a da fusão, o faturamento anual da Time Warner era de 2 6 bilhões de dólares; suas revistas e r a m lidas p o r 120 m i l h õ e s d e p e s s o a s a c a d a m ê s , e a e m p r e s a detin h a os direitos d e u m arquivo de 5.700 filmes, b e m c o m o de alg u n s dos p r o g r a m a s m a i s p o p u l a r e s da cadeia de e m i s s o r a s d e televisão. Se a história da Time Warner foi u m reflexo perfeito da evolução geral das c o m u n i c a ç õ e s n o século X X I , o avanço d o A m e r i c a O n l i n e é característico da " n o v a m í d i a " da era da inf o r m a ç ã o . F u n d a d o e m 1982, o A O L i n i c i a l m e n t e oferecia acesso dial-up à internet c o b r a d o a u m a t a x a horária. A t é 1994, contava c o m 1 m i l h ã o d e usuários assinantes; após introduzir o acesso i l i m i t a d o à internet p o r u m a t a x a - p a d r ã o m e n s a l , e m 1996, o n ú m e r o d e assinantes elevou-se p a r a 4,5 m i l h õ e s . C o m o o n ú m e r o de u s u á r i o s c o n t i n u a v a a crescer - , 8 m i l h õ e s d e p e s s o a s , até 1997, utilizavam o A O L - , a e m p r e s a se envolveu e m u m a série de fusões, a q u i s i ç õ e s e alianças q u e c o n s o l i d a r a m sua p o s i ç ã o de p r o e m i n e n t e p r o v e d o r de serviços n a internet. A CompuServe e a Netscape f o r a m adquiridas p e l o A O L ; u m a j o i n t v e n t u r e c o m a e m p r e s a a l e m ã Bertelsmann, em 1995, levou à criação d o AOL Europe, e u m a aliança c o m a Sun Microsystems possibilitou o ingresso do A O L no domínio do c o m é r c i o eletrônico. Vai levar a l g u m t e m p o p a r a q u e i m p l i c a ç õ e s da fusão AOL Time Warner sejam esclarecidas; p o r é m , j á é possível d e m a r c a r d u a s p o s i ç õ e s distintas: e x i s t e m aqueles q u e v ê e m n o a c o r d o a

3B7 capacidade de desencadear potenciais tecnológicos novos e instigantes, e aqueles q u e se p r e o c u p a m c o m o fato d e a m í d i a estar s e n d o d o m i n a d a p o r g r a n d e s c o r p o r a ç õ e s . P a r a os entusiastas, a fusão r e p r e s e n t a u m i m p o r t a n t e p a s s o e m d i r e ç ã o à c r i a ç ã o das " s u p e r e m p r e s a s " de m í d i a q u e , através da internet, p o d e m enviar, d i r e t a m e n t e p a r a a c a s a das p e s s o a s , t o d o s os noticiários, p r o g r a m a s de TV, filmes e m ú s i c a s q u e elas quiser e m e q u a n d o q u i s e r e m . C o m o p r o g r e s s o da tecnologia, as c o n e x õ e s dial-up p e l a internet serão substituídas p o r ligações feitas p o r c a b o s d e alta velocidade c o n e c t a d o s 2 4 h o r a s p o r dia e handsets p a r a i n t e r n e t q u e c a b e r ã o n a p a l m a da m ã o . C o m o disse S t e v e C a s e , ao a n u n c i a r a fusão: " E s t e é u m m o m e n t o h i s t ó r i c o e m q u e a n o v a m í d i a atinge a m a i o r i d a d e de fato. S e m p r e d i s s e m o s q u e a m i s s ã o d o America Online é transform a r a internet e m u m i n s t r u m e n t o t ã o central na vida das p e s soas q u a n t o o telefone e a televisão, e até m e s m o m a i s v a l i o s o " {Guardian, 16 d e j a n e i r o de 2 0 0 0 ) . N o e n t a n t o , n e m t o d o s c o n c o r d a m q u e a idéia das s u p e r e m p r e s a s d e m í d i a seja u m e x e m p l o ao q u a l se deva aspirar. O n d e os e n t u s i a s t a s e n x e r g a m u m a m i r a g e m , os críticos perc e b e m u m p e s a d e l o . A m e d i d a q u e as c o r p o r a ç õ e s de m í d i a p a s s a m a ficar c a d a v e z m a i s c o n c e n t r a d a s , c e n t r a l i z a d a s e a ter u m a l c a n c e global, h á m o t i v o s p a r a p r e o c u p a ç õ e s de q u e o i m p o r t a n t e p a p e l d a m í d i a e n q u a n t o f ó r u m de livre d i s c u r s o , expressão e debate acabe sendo reduzido. U m a única empresa c o n t r o l a n d o tanto o c o n t e ú d o - p r o g r a m a s d e TV, m ú s i c a , film e s , fontes de notícias - quanto os m e i o s d e distribuição fica e m u m a p o s i ç ã o de g r a n d e poder. P o d e p r o m o v e r seu p r ó p r i o m a t e r i a l (os c a n t o r e s e c e l e b r i d a d e s q u e t o r n o u f a m o s o s ) , p o d e exercer a u t o c e n s u r a ( o m i t i n d o r e p o r t a g e n s q u e p o s s a m deix a r suas a ç õ e s ou os p a t r o c i n a d o r e s da c o r p o r a ç ã o e m u m a sit u a ç ã o desfavorável) e a i n d a p o d e fazer p r o p a g a n d a de p r o d u tos d e d e n t r o d o seu p r ó p r i o i m p é r i o às custas dos p r o d u t o s externos. A v i s ã o da internet n a s m ã o s de vários c o n g l o m e r a d o s d e m í d i a e n t r a e m u m n í t i d o c o n t r a s t e c o m a idéia de u m d o m í nio e l e t r ô n i c o livre e irrestrito p r o p o s t a p e l o s p i o n e i r o s d a internet h á a p e n a s alguns a n o s . N o c o m e ç o , m u i t o s v i a m a internet c o m o u m território individualista q u e os u s u á r i o s p o d i a m percorrer livremente, buscando e compartilhando informações, fazendo a m i z a d e s e i n t e r a g i n d o fora d o d o m í n i o d o p o der das c o r p o r a ç õ e s . C o n t u d o , a p r e s e n ç a crescente d e c o r p o r a ç õ e s g i g a n t e s da m í d i a e de a n u n c i a n t e s v e i o a m e a ç a r e s s a s i t u a ç ã o . O s críticos e s t ã o p r e o c u p a d o s c o m o fato de q u e o a u m e n t o d o p o d e r das c o r p o r a ç õ e s n a internet a c a b e s u b m e r gindo tudo, deixando somente a "mensagem da corporação", p o d e n d o t r a n s f o r m a r a internet e m u m d o m í n i o restrito, a c e s sível a p e n a s aos assinantes. É difícil avaliar essas opiniões divergentes; n ã o há d ú v i d a s d e q u e a m b a s as perspectivas p o s s u e m u m f u n d o de v e r d a d e . A s fusões da m í d i a e o avanço t e c n o l ó g i c o c e r t a m e n t e e x p a n dirão a forma de o r g a n i z a ç ã o e de distribuição d a s c o m u n i c a ç õ e s e d o e n t r e t e n i m e n t o . A s s i m c o m o os antigos p i o n e i r o s d a mídia, n o c i n e m a e n a m ú s i c a , foram influenciados pelo avanço das cadeias de e m i s s o r a s d e T V e p e l a indústria da m ú s i c a ,

a era d a internet irá p r o v o c a r m a i s m u d a n ç a s i m p r e s s i o n a n t e s na m í d i a de m a s s a : nos p r ó x i m o s anos, as audiências terão b e m m a i s e s c o l h a s e m r e l a ç ã o aos p r o d u t o s q u e c o n s o m e m e a q u a n d o os c o n s o m e m . P o r é m , as inquietações a respeito d o d o m í n i o d a m í d i a p o r p a r t e das c o r p o r a ç õ e s n ã o são injustificadas. J á existem relatos de c o n g l o m e r a d o s d e m í d i a q u e e v i t a m cobrir notícias desfavoráveis q u e e s t e j a m r e l a c i o n a d a s a suas e m p r e s a s associadas. O s a r g u m e n t o s a favor d a internet livre e aberta b a s e i a m - s e e m i m p o r t a n t e s c o n v i c ç õ e s q u a n t o ao valor de u m e s p a ç o p ú b l i c o irrestrito n o qual as idéias p o s s a m ser c o m p a r t i l h a d a s e discutidas. Vale l e m b r a r q u e , n o m u n d o social, p o u c a s coisas são inevitáveis. Tentativas de se obter u m controle total das fontes de i n f o r m a ç õ e s e dos canais d e distribuição r a r a m e n t e são b e m sucedidas, tanto e m função de u m a legislação antitruste q u e visa a i m p e d i r a f o r m a ç ã o de m o n o p ó l i o s , c o m o através das reações persistentes e criativas dos usuários da m í d i a q u e b u s c a m rotas alternativas p a r a o b t e r e m i n f o r m a ç õ e s . O s c o n s u m i d o r e s da m í d i a n ã o são " p e s s o a s c u l t u r a l m e n t e i m b e c i s " que p o s s a m ser facilmente m a n i p u l a d a s p e l o s interesses das c o r p o r a ç õ e s ; c o m a e x p a n s ã o d o a l c a n c e e d o v o l u m e das f o r m a s e d o cont e ú d o da mídia, os indivíduos estão m a i s hábeis p a r a interpretar e avaliar as m e n s a g e n s e o material q u e e n c o n t r a m .

O imperialismo dia mídia
A p o s i ç ã o s u p r e m a d o s p a í s e s industrializados, s o b r e t u d o d o s E s t a d o s U n i d o s , n a p r o d u ç ã o e n a difusão da m í d i a t e m levado m u i t o s observadores a falarem n o i m p e r i a l i s m o d a m í d i a . D e a c o r d o c o m e s s a v i s ã o , v i v e m o s e m u m i m p é r i o cultural. P a í ses m e n o s desenvolvidos são c o n s i d e r a d o s e s p e c i a l m e n t e vuln e r á v e i s p o r n ã o p o s s u í r e m os r e c u r s o s necessários à m a n u t e n ção de sua p r ó p r i a i n d e p e n d ê n c i a cultural. A s sedes dos 2 0 m a i o r e s c o n g l o m e r a d o s m u n d i a i s d a m í dia estão todas l o c a l i z a d a s nas n a ç õ e s industrializadas, s e n d o q u e a m a i o r i a delas se e n c o n t r a n o s E s t a d o s U n i d o s . I m p é r i o s d a m í d i a c o m o o AOL Time Warner, a Disney/ABC e a Viacom t o d o s t ê m sua b a s e n o s E U A . O u t r a s g r a n d e s c o r p o r a ç õ e s de m í d i a - c o m e x c e ç ã o d o i m p é r i o M u r d o c h descrito a seguir i n c l u e m a j a p o n e s a Sony Corporation, proprietária da CBS Records e da Columbia Pictures; o g r u p o a l e m ã o Bertelsmann, d o n o d a RCA Records e d e u m g r a n d e c o n j u n t o d e e d i t o r a s c o m b a s e n o s E U A ; e o Mondadore, a c o r p o r a ç ã o de televisão d e Silvio Bernasconi, e x - p r i m e i r o ministro da Itália. N ã o h á dúvidas d e q u e foi através da m í d i a eletrônica q u e os p r o d u t o s culturais ocidentais se e s p a l h a r a m p e l o g l o b o . Pic o Iyer fala d a s video nights d e K a t m a n d u , d e freqüentar danceterias e m B a l i ( 1 9 8 9 ) . O s v í d e o s n o r t e - a m e r i c a n o s são b a nais na R e p ú b l i c a Islâmica d o Irã, a s s i m c o m o as fitas de áudio d a m ú s i c a p o p u l a r o c i d e n t a l , q u e e n t r a m e são v e n d i d a s n o m e r c a d o n e g r o ( S r e b e r n y - M o h a m m a d i , 1992). E m 1999, for a m a n u n c i a d o s os planos d e c o n s t r u ç ã o de u m p a r q u e temático da D i s n e y e m H o n g K o n g - o qual será p r a t i c a m e n t e u m a réplica das atrações n o r t e - a m e r i c a n a s , e m v e z d e refletir a cul-

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A cobertura que a televisão faz sobre o mundo em desenvolvimento
U m relatório e n c o m e n d a d o p a r a instituições beneficentes da G r ã - B r e t a n h a q u e l i d a m c o m auxílio, d e s e n v o l v i m e n t o e q u e s t õ e s a m b i e n t a i s i n t e r n a c i o n a i s revelou q u e a q u a l i d a d e e a q u a n t i d a d e da c o b e r t u r a q u e a T V exibe sobre o m u n d o e m d e s e n v o l v i m e n t o sofreram u m a q u e d a d r a m á t i c a ao longo da última década: o n ú m e r o total de horas de programação efetiva s o b r e o s p a í s e s e m d e s e n v o l v i m e n t o caiu e m até 5 0 % . A l g u n s c a n a i s a d e r i r a m à o n d a dos p r o g r a m a s sobre v i d a s e l v a g e m e v i a g e n s , e n q u a n t o outros s i m p l e s m e n t e r e d u z i r a m as h o r a s de p r o g r a m a ç ã o - a I T V d i m i n u i u sua c o b e r t u r a e m m a i s de 7 0 % . O r e l a t ó r i o , i n t i t u l a d o Losing Perspective, c o n s t a t o u q u e g r a n d e p a r t e da p r o g r a m a ç ã o q u e a b o r d a t e m a s sérios, c o m o direitos h u m a n o s , p o b r e z a e m e i o a m b i e n t e , vai ao ar t a r d e d a n o i t e ou d e m a n h ã b e m cedo, quando o número de telespectadores sempre é menor. D i a n t e dessa situação e m q u e m a i s d e 6 0 % d o s p r o g r a m a s a respeito do m u n d o e m desenvolvimento concentram-se nos t e m a s d a v i d a s e l v a g e m e d a s v i a g e n s , os críticos a f i r m a m que é praticamente impossível os cidadãos ocidentais des e n v o l v e r e m u m a c o m p r e e n s ã o da v i d a d e s s e s 8 0 % da p o pulação humana que não vivem n o "Primeiro M u n d o " (Stonc, 2 0 0 0 ! .

tura local. C o m o indicou o presidente dos parques temáticos da Disney, isso p o d e ser a p e n a s o c o m e ç o : " S e existe s o m e n t e u m p a r q u e t e m á t i c o da D i s n e y e m u m país q u e t e m 1,3 bilhões de habitantes, e cinco p a r q u e s temáticos nos E U A , cuja p o p u l a ç ã o é de apenas 280 milhões de pessoas, temos u m a comparação u m p o u c o difícil". (Citado e m Gittings, 1999.) A a t r a ç ã o global d o s filmes d e Hollywood é e x a m i n a d a e m "Cultura popular", n a p. 7 0 . e m "Cultura popular", n a p. 7 U . Todavia, n ã o são a p e n a s as f o r m a s m a i s p o p u l a r e s de entreten i m e n t o q u e e s t ã o e m q u e s t ã o . O c o n t r o l e q u e as p r i n c i p a i s agências ocidentais e x e r c e m sobre os noticiários m u n d i a i s , c o m o j á foi s u g e r i d o , significa o p r e d o m í n i o d e u m a " v i s ã o de P r i m e i r o M u n d o " n a s i n f o r m a ç õ e s q u e são t r a n s m i t i d a s . A s sim, h á q u e m alegue q u e a a t e n ç ã o n o s noticiários volta-se ao m u n d o e m d e s e n v o l v i m e n t o p r i n c i p a l m e n t e nos m o m e n t o s de desastre, n a s crises ou n o s confrontos militares, e q u e os registros diários de outros tipos de notícias reservados ao m u n d o industrializado n ã o são m a n t i d o s p a r a a cobertura d o m u n d o e m de senvol v i m e n t o . H e r b e r t Schiller afirmou q u e o controle das c o m u n i c a ç õ e s globais p o r p a r t e das e m p r e s a s n o r t e - a m e r i c a n a s deve ser o b servado n o q u e diz respeito a vários fatores. E l e a r g u m e n t a q u e a T V n o r t e - a m e r i c a n a e a c a d e i a de e m i s s o r a s d e rádio estão sendo c a d a v e z m a i s influenciadas p e l o g o v e r n o federal e, particularmente, p e l o D e p a r t a m e n t o d e D e f e s a dos E U A . E l e cham a atenção p a r a o fato d e q u e a R C A , proprietária das redes de televisão e de r á d i o N B C , é t a m b é m a principal s u b e m p r e i t e i r a de defesa d o P e n t á g o n o , o quartel-general das forças a r m a d a s dos E U A . O s p r o d u t o s de e x p o r t a ç ã o da televisão n o r t e - a m e r i cana, j u n t a m e n t e c o m a p u b l i c i d a d e , p r o p a g a m u m a cultura c o m e r c i a l i z a d a q u e corrói as formas locais de e x p r e s s ã o cultural. M e s m o n o s l u g a r e s o n d e o g o v e r n o p r o í b e a t r a n s m i s s ã o de canais c o m e r c i a i s dentro de suas fronteiras, os sinais d o rád i o e da televisão dos países vizinhos m u i t a s vezes p o d e m ser recebidos diretamente.

Schiller sustenta q u e , apesar d e os n o r t e - a m e r i c a n o s t e r e m sido os p r i m e i r o s afetados p e l o " c a s u l o q u e p r o t e g e a m e n s a g e m das c o r p o r a ç õ e s (...) o q u e está a c o n t e c e n d o a g o r a é a c r i a ç ã o e a e x t e n s ã o g l o b a l de u m n o v o a m b i e n t e cultural-inf o r m a c i o n a l t o t a l m e n t e c o r p o r a t i v o " (Schiller, 1989, p . 128, 168). D e s d e q u e as c o r p o r a ç õ e s e a cultura dos E U A p a s s a r a m a d o m i n a r o p l a n e t a , elas " t ê m o p r i m i d o u m a b o a p a r t e d o m u n d o " , tanto q u e "A d o m i n a ç ã o cultural n o r t e - a m e r i c a n a (...) d e t e r m i n a os limites p a r a o discurso n a c i o n a l " (Schiller, 1 9 9 1 , P. 22).

A mídia global e a democracia
E m sua o b r a q u e trata da m í d i a global, E d w a r d H e r m a n e R o bert M c C h e s n e y (1997) e x p l o r a m os efeitos d a m í d i a internacional sobre as atividades dos estados democráticos. P o r u m lad o , a difusão das fontes de m í d i a globais c o n s e g u e exercer c o m s u c e s s o u m a p r e s s ã o s o b r e os g o v e r n o s autoritários p a r a q u e eles afrouxem o c o n t r o l e sobre os m e i o s de radiodifusão c o n trolados pelo E s t a d o . C o m a crescente dificuldade e m conter os p r o d u t o s da m í d i a d e n t r o das fronteiras n a c i o n a i s , m u i t a s soc i e d a d e s " f e c h a d a s " estão d e s c o b r i n d o q u e a m í d i a p o d e se tornar u m a p o d e r o s a força d e a p o i o à d e m o c r a c i a (veja o quadro). M e s m o e m u m sistema político multipartidário, c o m o n o caso d a índia, v i m o s q u e a c o m e r c i a l i z a ç ã o da televisão conferiu m a i o r p r o e m i n ê n c i a às o p i n i õ e s d o s p o l í t i c o s d e o p o s i ç ã o (veja o q u a d r o d a p . 3 7 0 ) . A m í d i a g l o b a l t e m possibilitado a d i s s e m i n a ç ã o geral de p o n t o s d e vista c o m o o i n d i v i d u a l i s m o , o respeito aos direitos h u m a n o s e a p r o m o ç ã o dos direitos das minorias. N o e n t a n t o , H e r m a n e M c C h e s n e y t a m b é m e n f a t i z a m os p e r i g o s da o r d e m da m í d i a global e a a m e a ç a q u e ela r e p r e s e n ta ao exercício natural da d e m o c r a c i a . C o m a crescente concentração e c o m e r c i a l i z a ç ã o da m í d i a global, esta invade o funcion a m e n t o da i m p o r t a n t e "esfera p ú b l i c a " ao m o d o descrito p o r H a b e r m a s (veja a p . 3 7 5 ) . A m í d i a c o m e r c i a l i z a d a , a l e g a m

SocxxoG'.i

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A televisão na China: o "centro de um ciclone cultural"
Há m a i s d e u m a d é c a d a d o s eventos d r a m á t i c o s de 1989, da q u e d a d o M u r o d e B e r l i m e d o fim da G u e r r a Fria entre o O r i e n t e c o O c i d e n t e , a televisão a s s u m e l u g a r de d e s t a q u e nas lutas e m torno da d e m o c r a t i z a ç ã o na R e p ú b l i c a P o p u l a r da C h i n a . A natureza contraditória da g l o b a l i z a ç ã o está i l u s trada c l a r a m e n t e n a C h i n a , país q u e v e m p a s s a n d o p o r u m a r á p i d a transformação cultural e e c o n ô m i c a s o b o olhar vigilante d o Partido C o m u n i s t a C h i n ê s . C o m o parte de sua a g e n d a modernizante lançada h á m a i s de duas décadas, o governo chinês supervisionou a e x p a n s ã o de u m sistema n a c i o n a l de televisão e estimulou os cidadãos chineses a c o m p r a r e m aparelhos de TV. O governo viu, n a transmissão de p r o g r a m a s d e televisão, u m m e i o d e unir o país e p r o m o v e r a autoridade partidária. Entretanto, a televisão p o d e ser u m veículo volátil: nessa era de canais p o r satélite, não apenas é impossível u m controle rígido d a transmissão d o s p r o g r a m a s , c o m o t a m b é m os telespectadores c h i n e s e s têm d e m o n s t r a d o sua disposição e m interpretar o c o n t e ú d o exibido na T V d e maneiras q u e contrariam as intenções d o governo (Lull, 1997). E m entrevistas r e a l i z a d a s c o m c e m famílias c h i n e s a s , J a m e s Lull constatou q u e os telespectadores chineses, a s s i m c o m o outras p o p u l a ç õ e s q u e v i v e m s o b r e g i m e s c o m u n i s t a s , e r a m " m e s t r e s d a interpretação, s a b e n d o ler nas entrelinhas a f i m de captar as m e n s a g e n s m e n o s ó b v i a s " . E m suas entrevistas, Lull observou q u e s e u s entrevistados n ã o a p e n a s d e s c r e v i a m o q u e v i a m , m a s como v i a m . " S a b e n d o q u e o governo m u i t a s vezes veicula distorções e e x a g e r o s e m suas notícias, os telespectadores ficaram c r a q u e s e m i m a g i n a r a situaç ã o real. O q u e é a p r e s e n t a d o , o q u e é deixado d e fora, o q u e é p r i o r i z a d o , c o m o as coisas são ditas - t o d o s esses m o d o s são m i n u c i o s a m e n t e o b s e r v a d o s e i n t e r p r e t a d o s " ( 1 9 9 7 , p . 266-267). Lull c o n c l u i u q u e muitas das m e n s a g e n s a c o m p a n h a d a s na T V p e l o s t e l e s p e c t a d o r e s c h i n e s e s - p r i n c i p a l m e n t e e m filmes e c o m e r c i a i s i m p o r t a d o s - estão e m d e s a c o r d o c o m o m o d o d e v i d a e as o p o r t u n i d a d e s disponíveis e m sua própria s o c i e d a d e . A o v e r e m o c o n t e ú d o d a televisão enfatizar a ind i v i d u a l i d a d e e a s o c i e d a d e c o n s u m i s t a , m u i t o s telespectadores chineses p e r c e b e r a m u m a restrição e m suas o p ç õ e s n a vida real. A televisão transmitiu aos telespectadores chineses a idéia d e q u e outros s i s t e m a s sociais p a r e c i a m funcionar m a i s t r a n q ü i l a m e n t e , a l é m d e oferecer u m a l i b e r d a d e m a i o r d o q u e eles p o s s u e m . Lull conclui q u e a televisão salienta a c o n t r a d i ç ã o fund a m e n t a l e n t r e a voz m o n o l í t i c a d o P a r t i d o C o m u n i s t a d o m i n a n t e e as " r e a l i d a d e s alternativas" q u e p o d e m ser vistas n a TV. P a r a ele, a televisão e n c o n t r a - s e n o " c e n t r o de u m cic l o n e c u l t u r a l " q u e está sobre o futuro da China. A televisão t o r n o u - s e u m veículo d e a g i t a ç ã o q u e serve para confirmar e incentivar o d e s c o n t e n t a m e n t o p o p u l a r em r e l a ç ã o à falta de liberdade pessoal, à instabilidade na e c o n o m i a c à fortificaç ã o da burocracia.

eles, t e m u m a dívida c o m o p o d e r da receita publicitária, s e n d o forçada a privilegiar u m c o n t e ú d o q u e garanta altos índices de audiência e de vendas. Conseqüentemente, o entretenimento triunfará n e c e s s a r i a m e n t e sobre a controvérsia e o debate. E s s a f o r m a d e autocensura p o r p a r t e da m í d i a enfraquece a particip a ç ã o dos cidadãos n o s assuntos de d o m í n i o público e as interp r e t a ç õ e s q u e as p e s s o a s t ê m das q u e s t õ e s p ú b l i c a s . S e g u n d o H e r m a n e M c C h e s n e y , a m í d i a global n ã o p a s s a de u m g r u p o de "novos missionários do capitalismo global": o espaço nãoc o m e r c i a l dentro d a m í d i a v e m s e n d o c o n s t a n t e m e n t e t o m a d o p o r a q u e l e s q u e a n s e i a m destinar a ele " o m e l h o r aproveitam e n t o e c o n ô m i c o " ( H e r m a n , 1998). A o s seus olhos, a "cultura d o e n t r e t e n i m e n t o " p r o m o v i d a pelas instituições da m í d i a está acarretando u m e n c o l h i m e n t o constante da esfera pública e u m e n f r a q u e c i m e n t o dos m e c a n i s m o s da d e m o c r a c i a .

p a r a retardar os ataques violentos da m í d i a e m o l d a r a n a t u r e za dos produtos desta de f o r m a a refletir as tradições, as culturas e as prioridades locais. A religião, a tradição e as visões p o pulares são t o d o s i n s t r u m e n t o s p o d e r o s o s p a r a frear a globaliz a ç ã o da mídia, ao p a s s o q u e os r e g u l a m e n t o s locais e as instituições nacionais da m e s m a t a m b é m p o d e m d e s e m p e n h a r u m p a p e l limitador n o i m p a c t o das fontes da m í d i a global. A l i M o h a m m a d i e x a m i n o u a r e a ç ã o de países islâmicos às forças d a globalização da m í d i a (1998). O avanço dos impérios eletrônicos internacionais que a t u a m através das fronteiras dos e s t a d o s é v i s t o c o m o u m a a m e a ç a à i d e n t i d a d e cultural e a o s interesses n a c i o n a i s de m u i t o s e s t a d o s i s l â m i c o s . D e a c o r d o c o m M o h a m m a d i , a resistência contra a i n c u r s ã o de formas e x ternas d e m í d i a varia d e s d e a crítica silenciosa até a total proib i ç ã o d o s satélites ocidentais. A r e a ç ã o à globalização d a mídia e as a t u a ç õ e s d o s países i n d i v i d u a l m e n t e refletem, e m grande parte, todas as suas respostas e m r e l a ç ã o ao l e g a d o d o colonial i s m o ocidental e à invasão da m o d e r n i d a d e . N a análise que faz sobre as reações islâmicas à globalização da mídia. M o h a m m a di divide os e s t a d o s e m três categorias gerais: niodernistas. mistos e tradicionais.

Resistência e alternativas à mídia global
A i n d a q u e o p o d e r e a a b r a n g ê n c i a da m í d i a global sejam ineg á v e i s , t o d o s os p a í s e s c o n t a m c o m forças q u e p o d e m servir

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A NTHONY GIDDENS

Empresar
R u p e r t M u r d o c h . e m p r e s á r i o n a s c i d o n a Austrália, lidera u m d o s m a i o r e s i m p é r i o s m u n d i a i s d a m í d i a . A s a ç õ e s d a News Corporation movimcnum i n c l u e m nove m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o diferentes
U M \ ALOR

principais competições esportivas programadas é acirrada e n t r e a News de evento. Os governos p o d e m causar problemas para Murdoch, j á q u e , a o m e n o s d e n t r o d o s l i m i t e s d a s s u a s fronteiras, eles podem introduzir u m a legislação que limite a propriedade c r u z a d a n a m í d i a , o u seja, u m a s i t u a ç ã o e m q u e a m e s m a e m p r e s a é d o n a d e d i v e r s o s j o r n a i s e e s t a ç õ e s d e TV. A União Européia também expressou sua preocupação e m relação à posição dominante de empresas de mídia muito g r a n d e s . P o r é m , n ã o é fácil c o n t e r o p o d e r d e M u r d o c h . d a d a a s u a difusão global. E l e é i m p o r t a n t e o b a s t a n t e p a r a influenciar g o v e r n o s , m a s é d a n a t u r e z a d o n e g ó c i o d a s tele5

Corporation

e outros impérios d a mídia à m e -

d i d a q u e a d e m a n d a global d e e s p o r t e s s u p e r a o u t r o s tipos

q u e o p e r a m n o s seis .continentes. E m 1 9 9 6 , a c o r p o r a ç ã o d e 10 b i l h õ e s d e d ó l a r e s e m v e n d a s . n a A u s t r á l i a antes Work! M u r d o c h fundou a News Corporation

d e entrar n o s m e r c a r e s b r i t â n i c o e n o r t e - a m e r i c a n o n a d é c a da de i 9 6 0 . S u a s p r i m e i r a s aquisições - o News of the c O Sun. na G r ã - B r e t a n h a ( e m 1969), e o New York Post ( e m m e a d o s d o s a n o s d e 1970) - a b r i r a m c a m i n h o p a r a u m a i m p r e s s i o n a n t e e x p a n s ã o d e s e u d o m í n i o . A s a ç õ e s d a News ('iiifoniiirni a g o r a i n c l u e m m a i s d e 130 j o r n a i s e m S a n A n tonio, Boston, C h i c a g o e outras c i d a d e s . E m m u i t o s d e s s e s j o r n a i s , ele adotou u m a linha d e j o r n a l i s m o sensacionalista, f u n d a m e n t a d a n o s três t e m a s - sexo, c r i m e e esporte. O Sun,
POR E X E M P L O ,

c o m u n i c a ç õ e s estar e m todos o s lugares e e m n e n h u m lugar. A b a s e d e p o d e r d e M u r d o c h é b e m a m p l a , m a s t a m b é m indefinível. E m u m d i s c u r s o feito e m o u t u b r o d e 1994,: M u r d o c h aceitou o desafio d a q u e l e s q u e v ê e m o i m p é r i o d a m í d i a c o m o u m a ameaça à democracia e à liberdade d e discussão. " P o r q u e os capitalistas e s t ã o s e m p r e t e n t a n d o a p u n h a l a r u n s aos o u t r o s p e l a s c o s t a s , " a r g u m e n t o u M u r d o c h , " o s livres mercados não levam a monopólios. Basicamente, o s monop ó l i o s só p o d e m existir q u a n d o os g o v e r n o s os m a n t ê m " . " N ó s , d a News Corporation", continuou Murdoch, "somos e s c l a r e c i d o s " . E l e d e s c o b r i u q u e n a í n d i a , o n d e as t r a n s m i s sões da t e l e v i s ã o Star p o d i a m ser c a p t a d a s , m i l h a r e s d e o p e r a d o r e s p a r t i c u l a r e s h a v i a m investido e m a n t e n a s d e satélite e v e n d i a m i l e g a l m e n t e a p r o g r a m a ç ã o d a Star. B e m , o q u e d e v e r í a m o s fazer, defendeu M u r d o c h , e r a aplaudir! A Corporation, d o c h , 1994). D u r a n t e a l g u m t e m p o , M u r d o c h foi o chefe d a m a i o r organização de mídia que o m u n d o conheceu. E m 1995, c o n t u d o , e l e foi s u r p r e e n d i d o p e l a fusão d a Disney pany Comc o m a A B C . M i c h a e l E i s n e r , o p r e s i d e n t e d a Disney, News c o n c l u i u ele, a g u a r d a c o m i n t e r e s s e p o r " u m a

t o r n o u - s e u m g r a n d e s u c e s s o , c o m u m a tira-

g e m d e m a i s d e 4 m i l h õ e s d e e x e m p l a r e s diários. N o s anos d e 1980, M u r d o c h começou a expandir seu império para a televisão, f u n d a n d o a Sky TV, u m a c a d e i a d e t r a n s m i s s ã o p e r satélite e c a b o q u e , após a l g u n s c o n t r a t e m p o s iniciais, d e m o n s t r o u ser u m sucesso c o m e r c i a l . E l e t a m b é m d e t é m 6 4 % d a r e d e Star TV, c o m base e m H o n g K o n g ,
CUJA c» IRAI CG i a . d e c l a r a d a é

" c o n t r o l a r os c é u s " n a t r a n s m i s -

satélite d e u m a área c o m p r e e n d i d a e n t r e o J a p ã o e a 7" -. World a, a b r a n g e n d o os m e r c a d o s g i g a n t e s d a í n d i a e d a t r a n s m i t e c i n c o c a n a i s , u m d o s q u a i s é a BBC News. Fox, u m a c o m p a n h i a d e c i n e m a q u e deCompany e m 1987 - e m p r e s a q u e se tor• 1 : E l a

E m 1985, Murdoch comprou metade da participação na Twentieth-Century Fox Broadcasting t é m o s d i r e i t o s d e m a i s d e 2 m i l filmes, d a n d o início a s u a nou a quarta m a i o r rede d e televisão d o s E s t a d o s U n i d o s , d e pois da A B C , da C B S e da N B C . Murdoch é dono de 22 estações de T V norte-americanas q u e representam mais de 4 0 % d o s g r u p o s d e televisão d o s E s t a d o s U n i d o s . E l e c o n trola 25 revistas, i n c l u i n d o a f a m o s a TV Guide, c o m p r o u as editoras n o r t e - a m e r i c a n a s Harper n o m e atual é HarperCollins. e, e m 1987, e Row - cujo

longa parceria c o m esses empresários esplêndidos" (Mur-

deixou claro a intenção de competir c o m M u r d o c h nos mercados q u e se expandiam rapidamente na Asia. A resposta de M u r d o c h à fusão foi: ' A g o r a eles t ê m o d o b r o d o m e u tama-i nho". Logo após, ele acrescentou: " U m alvo maior". A rec e n t e fusão d o A O L c o m a Time Warner r e p r e s e n t o u o u t r o alvo p a r a M u r d o c h , m a s tudo i n d i c a q u e e l e n ã o s e e n c o l h e rá d i a n t e d e s s e desafio. T o d o s o s e x e c u t i v o s - c h e f e s d a Dis-i ney, Time Warner e Viacom d i z e m q u e M u r d o c h é o e x e c u tivo d a m í d i a q u e eles m a i s r e s p e i t a m e t e m e m - e q u e estud a m seus m o v i m e n t o s c o m o m a i o r c u i d a d o > I k - r m a i i o M c C h e s n e y , 1997).

N o s ú l t i m o s a n o s , M u r d o c h t e m feito i n v e s t i m e n t o s p e s a d o s na lucrativa i n d ú s t r i a d a televisão digital p o r satélite, especialmente n a cobertura d e eventos esportivos ao vivo, c o m o j o g o s d e b a s q u e t e b o l e d e futebol. D e a c o r d o c o m Murr -'paru _
1

cobertura de esportes é o "aríete" necessário da m í d i a ( H e r m a n e

. : . : os novos mercados

M c C h e s n e y , 1997). C o m o é m e l h o r assistir a eventos e s p o r tivos a o v i v o , e s t e s p r e s t a m - s e a o f o r m a t o " p a y - p e r - v i e w " , O qual é lucrativo tanto p a r a M u r d o c h q u a n t o p a r a o s a n u n c i a n t e s . A c o n c o r r ê n c i a p e l o s direitos d e t r a n s m i s s ã o d a s

SoaoLOGti

391

A t é m e a d o s da d é c a d a d e 1980, a m a i o r parte d a p r o g r a m a ç ã o d a t e l e v i s ã o d o m u n d o i s l â m i c o e r a p r o d u z i d a e distrib u i d a d e n t r o d a s fronteiras n a c i o n a i s ou p e l a A r a b s a t - a cad e i a p a n - a r a b i s t a d e e m i s s o r a s via satélite q u e a b r a n g i a 21 e s t a d o s . A l i b e r a l i z a ç ã o da t r a n s m i s s ã o e o p o d e r da T V global p o r satélite m u d a r a m os c o n t o r n o s d a televisão n o m u n d o isl â m i c o . O s a c o n t e c i m e n t o s da G u e r r a d o Golfo, e m 1 9 9 1 , t r a n s f o r m a r a m o O r i e n t e M é d i o e m u m c e n t r o d e a t e n ç ã o par a a indústria da m í d i a global, afetando de f o r m a significativa a t r a n s m i s s ã o e o c o n s u m o de p r o g r a m a s d e televisão t a m b é m n e s s a r e g i ã o . O s satélites e s p a l h a r a m - s e r a p i d a m e n t e , e, até 1 9 9 3 , B a r e i n , E g i t o , A r á b i a Saudita, K u w a i t , D u b a i , T u n í s i a e J o r d â n i a l a n ç a r a m canais p o r satélite. A t é o final da d é c a d a , a m a i o r i a d o s e s t a d o s i s l â m i c o s h a v i a e s t a b e l e c i d o seus p r ó p r i o s c a n a i s p o r satélite, assim c o m o j á acessava os p r o g r a m a s da m í d i a global. E m alguns estados islâmicos, p o r é m , os temas e o material apresentados na televisão ocidental geraram tensões. P r o g r a m a s q u e e n v o l v a m q u e s t õ e s r e l a c i o n a d a s ao g ê n e r o e aos direitos h u m a n o s são p a r t i c u l a r m e n t e c o n t r o v e r s o s ; a A r á b i a Saudita, por e x e m p l o , deixou de m a n t e r a BBC Arabic devido a preocup a ç õ e s q u a n t o à cobertura de temas voltados aos direitos h u m a nos. Três estados islâmicos - Irã, A r á b i a Saudita e M a l á s i a p r o i b i r a m o acesso p o r satélite à televisão ocidental. O Irã t e m sido o mais fiel o p o n e n t e da m í d i a ocidental, estigmatizando-a c o m o fonte de "poluição cultural" e p r o m o t o r a dos valores consumistas ocidentais. N o e n t a n t o , r e a ç õ e s fortes c o m o e s s a s ã o u m a m i n o r i a . M o h a m m a d i c o n c l u i q u e , e m b o r a os países i s l â m i c o s t e n h a m r e a g i d o à g l o b a l i z a ç ã o da m í d i a ao t e n t a r e m resistir ou oferecer u m a alternativa, a m a i o r i a deles p e r c e b e u a n e c e s s i d a d e de aceitar certas m o d i f i c a ç õ e s e m sua cultura a fim de m a n t e r e m sua própria i d e n t i d a d e cultural. Para o autor, a " a b o r d a g e m tradicionalista", c o m o a q u e é preferida p e l o Irã e p e l a A r á b i a Saudita, está p e r d e n d o terreno para r e a ç õ e s b a s e a d a s na a d a p tação e n a m o d e r n i z a ç ã o ( M o h a m m a d i , 1998).

g r a n d e s e m p r e s a s de d o m i n a r e m as i n d ú s t r i a s é. n o nrinimo, questionável. R e c o n h e c e n d o esse fato, todos os países p o s s u e m disposiç õ e s legais q u e b u s c a m controlar o d o m í n i o d a mídia. M a s até q u e p o n t o essas d e t e r m i n a ç õ e s d e v e m ser rigorosas? E. c o n s i d e r a n d o - s e o caráter global dos e m p r e e n d i m e n t o s da m í d i a , será q u e , e m t o d o o caso, os g o v e r n o s nacionais p o d e m ter m u i tas e s p e r a n ç a s de controlá-los? A q u e s t ã o d a r e g u l a m e n t a ç ã o da m í d i a é mais c o m p l e x a d o q u e p o d e p a r e c e r à p r i m e i r a vista. P a r e c e ó b v i a a idéia de que, p a r a o interesse público, deveria haver u m a diversidade de organizações de mídia, j á q u e assim seria provável que se asseg u r a s s e a possibilidade de vários g r u p o s e perspectivas políticas diferentes serem atendidos. C o n t u d o , a disposição de limites sobre q u e m p o d e ser d o n o d o q u e e q u e formas de tecnologia de m í d i a eles p o d e m utilizar talvez afete a p r o s p e r i d a d e e c o n ô m i c a d o setor da mídia. Países restritivos d e m a i s p o d e m acabar ficando p a r a trás - as indústrias da mídia são u m dos setores da e c o n o m i a m o d e r n a q u e a p r e s e n t a m u m c r e s c i m e n t o mais acelerado. A q u e l e s q u e c r i t i c a m a c o n c e n t r a ç ã o da m í d i a d i z e m q u e as grandes e m p r e s a s d e m í d i a e x e r c e m u m p o d e r excessivo. Já a p a r t e e m p r e s a r i a l contesta, afirmando q u e , se eles se sujeitar e m à r e g u l a m e n t a ç ã o , será impossível t o m a r decisões c o m e r ciais eficazes, e eles sofrerão p e r d a s n a c o n c o r r ê n c i a global. A l é m d o m a i s , p e r g u n t a m eles, q u e m ficaria e n c a r r e g a d o d e s sa r e g u l a m e n t a ç ã o ? Q u e m regulará os reguladores? U m a linha norteadora da política de regulamentação da m í d i a p o d e ser o r e c o n h e c i m e n t o d e q u e , se d u a s ou três grandes e m p r e s a s de m í d i a d o m i n a r e m o m e r c a d o s i m u l t a n e a m e n te, tanto a c o n c o r r ê n c i a e c o n ô m i c a leal q u a n t o a d e m o c r a c i a e s t a r ã o a m e a ç a d a s - u m a vez q u e os d o n o s d a m í d i a n ã o são eleitos. N e s t e caso, a l e g i s l a ç ã o a n t i m o n o p ó l i o existente p o d e ser acionada, ainda que apresente e n o r m e s diferenças n a E u r o p a e e m outros países industrializados. A c o n c o r r ê n c i a é s i n ô n i m o de p l u r a l i s m o , ou deveria ser e p r e s u m e - s e q u e o p l u r a l i s m o seja b o m p a r a a d e m o c r a c i a . M a s será q u e o p l u r a l i s m o é suficiente? M u i t o s a p o n t a m os E U A ao d e f e n d e r e m a idéia de q u e a pluralidade dos canais de m í d i a n ã o é u m a garantia de q u a l i d a d e e de p r e c i s ã o dos cont e ú d o s . A l g u n s e n x e r g a m a i m p o r t â n c i a de se m a n t e r u m forte setor p ú b l i c o d e radiodifusão p a r a b l o q u e a r o d o m í n i o das grandes e m p r e s a s de mídia. Entretanto, os sistemas públicos d e radiodifusão, q u e n a G r ã - B r e t a n h a e q u i v a l e m à B B C . g e r a m seus p r ó p r i o s p r o b l e m a s . N a m a i o r i a dos países, eles c o s t u m a v a m ser m o n o p ó l i o s , e e m m u i t o s , de fato, foram u t i ü z a d o s c o m o v e í c u l o de p r o p a g a n d a d o g o v e r n o . A d ú v i d a sobre q u e m deve regular os reguladores surge aqui c o m mais força. U m ponto que vem complicar a questão da regulamentação d a m í d i a é o nível bastante acelerado das m u d a n ç a s t e c n o lógicas. A m í d i a v e m s e n d o c o n s t a n t e m e n t e t r a n s f o r m a d a p o r i n o v a ç õ e s t e c n o l ó g i c a s ; e formas de t e c n o l o g i a q u e j á foram distintas agora estão e m p r o c e s s o de fusão. Se os p r o g r a m a s de televisão f o r e m vistos p e l a internet, p o r e x e m p l o , q u e tipo de r e g u l a m e n t a ç ã o de m í d i a deve ser aplicada? E n t r e os estados-

A questão da regulamentação da mídia
O a v a n ç o e a influência d o s e m p r e s á r i o s d a m í d i a e d a s g r a n des e m p r e s a s de m í d i a p r e o c u p a m m u i t a s p e s s o a s , j á que essas c o r p o r a ç õ e s estão e m u m r a m o de negócios q u e n ã o é voltado a p e n a s à v e n d a de m e r c a d o r i a s , m a s à influência de o p i n i õ e s . O s p r o p r i e t á r i o s dessas c o r p o r a ç õ e s , c o m o M u r d o c h , n ã o faz e m segredo de suas visões políticas, q u e , inevitavelmente, são u m m o t i v o de p r e o c u p a ç ã o p a r a os p a r t i d o s políticos e outros grupos d e d e f e n d e m p o s i ç õ e s políticas diferentes. H á u m fundo de v e r d a d e n e s s a v i s ã o de M u r d o c h de q u e a p e n a s os g o v e r n o s c r i a m m o n o p ó l i o s . M u r d o c h não é u m ger a d o r de m o n o p ó l i o s e teve q u e enfrentar riscos financeiros e n o r m e s - e perdas - p a r a chegar à p o s i ç ã o q u e ele agora ocupa. Ele resiste à concorrência não apenas das outras gigantes da m í d i a , c o m o a l i d e r a d a p o r Eisner, m a s d e i n ú m e r o s rivais. E n tretanto, a idéia de q u e a c o n c o r r ê n c i a n o m e r c a d o i m p e d e as

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A\--Z\Y

GlDDENS

m e m b r o s da U n i ã o Européia, a questão d a convergência da mídia e d a s t e l e c o m u n i c a ç õ e s lidera as discussões. E m b o r a algum a s p e s s o a s p e r c e b a m a n e c e s s i d a d e d e u m a legislação coord e n a d a q u e h a r m o n i z a r i a as t e l e c o m u n i c a ç õ e s , a radiodifusão e a tecnologia d a i n f o r m a ç ã o p o r t o d a a E u r o p a , e s s a é u m a sit u a ç ã o difícil d e se realizar. A U E c o n t i n u a d e s e m p e n h a n d o m a l o seu p a p e l n a r e g u l a m e n t a ç ã o d a m í d i a , e o texto d a atual política "Televisão s e m fronteiras" d e v e r á ser retificado novamente apenas no ano 2002.

organizado, a o p a s s o q u e o i m p a c t o d a s novas tecnologias m u i tas v e z e s p a r e c e caótico e perturbador. D e q u a l q u e r f o r m a , o a d v e n t o d o m u n d o p l u g a d o até o momento não produziu nenhum dos quadros opressivamente negativos prognosticados por alguns céticos. O "Big Brother"* n ã o surgiu c o m o r e s u l t a d o d a internet: m u i t o p e l o c o n trário, esta p r o m o v e u a d e s c e n t r a l i z a ç ã o e o i n d i v i d u a l i s m o . A p e s a r d e t o d a a o n d a e m t o m o d o p o s s í v e l c o l a p s o d a infrae s t r u t u r a d a c o m p u t a ç ã o g l o b a l n a v i r a d a d o m i l ê n i o - a partir d o c h a m a d o "bug d o m i l ê n i o " - , o m o m e n t o se p a s s o u s e m m a i o r e s p r o b l e m a s . P o r fim, é i m p r o v á v e l q u e os livros e o u tros m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o " p r é - e l e t r ô n i c o s " v e n h a m a d e s a parecer. A i n d a q u e seja v o l u m o s o , este livro está m a i s à m ã o p a r a ser u t i l i z a d o d o q u e estaria u m a v e r s ã o c o m p u t a d o r i z a da. A t é m e s m o B i l l G a t e s p e r c e b e u a n e c e s s i d a d e d e e s c r e v e r u m livro p a r a d e s c r e v e r o n o v o m u n d o da alta t e c n o l o g i a q u e ele p r e v ê .

Conclusão
E n q u a n t o indivíduos, n ã o e x e r c e m o s controle sobre as m u d a n ças t e c n o l ó g i c a s , e o s i m p l e s r i t m o d e s s a s t r a n s f o r m a ç õ e s a m e a ç a atolar nossas v i d a s . A q u e l a idéia g e r a l m e n t e recorrente d a "auto-estrada d a i n f o r m a ç ã o " sugere u m m a p a rodoviário

Pontos

Principais
d e u m a "esfera p ú b l i c a " - u m a esfera d e opinião p ú b l i c a e de d e b a t e p ú b l i c o . Baudrillard foi fortemente influenciad o p o r M c L u h a n . E l e acredita q u e a n o v a mídia, especialm e n t e a televisão, d e fato m u d a a " r e a l i d a d e " q u e vivenc i a m o s . T h o m p s o n afirma q u e a m í d i a d e m a s s a é responsável p e l a c r i a ç ã o d e u m a f o r m a d e i n t e r a ç ã o social - a " q u a s e - i n t e r a ç ã o m e d i a d a " - q u e é m a i s limitada, restrita e unilateral d o q u e a interação social cotidiana. 6. N o s ú l t i m o s a n o s , os a v a n ç o s d a n o v a t e c n o l o g i a d a s c o municações transformaram o cenário das telecomunicaç õ e s - a t r a n s m i s s ã o d e texto, sons ou i m a g e n s a distância através d e u m m e i o t e c n o l ó g i c o . A digitalização, a fibra ótica e o s s i s t e m a s p o r satélite t r a b a l h a m j u n t o s p a r a facilitar a m u l t i m í d i a - a c o m b i n a ç ã o d e diversas f o r m a s de mídia e m u m único meio de comunicação - e a mídia interativa, q u e p e r m i t e a p a r t i c i p a ç ã o ativa d o s indivíd u o s n a q u i l o q u e v ê e m e o u v e m . O s telefones c e l u l a r e s a t u a l m e n t e estão n a v a n g u a r d a das i n o v a ç õ e s n a s t e l e c o municações. 7 . A internet está p e r m i t i n d o níveis d e interligação e d e interatividade s e m p r e c e d e n t e s . O n ú m e r o d e u s u á r i o s d a internet e s p a l h a d o s p e l o m u n d o v e m c r e s c e n d o r a p i d a m e n t e , e a v a r i e d a d e d e atividades q u e p o d e m ser c o n cluídas on-line continua e m e x p a n s ã o . A internet t e m prop o r c i o n a d o n o v a s e instigantes p o s s i b i l i d a d e s , m a s h á q u e m se p r e o c u p e c o m o fato d e q u e ela p o s s a enfraquecer as relações h u m a n a s e as c o m u n i d a d e s ao estimular o i s o l a m e n t o social e o a n o n i m a t o . 8. N a s três ú l t i m a s d é c a d a s , a indústria d a m í d i a p a s s o u p o r u m p r o c e s s o d e g l o b a l i z a ç ã o . Diversas tendências p o d e m * N. de T. Figura inventada pelo escritor George Orwell em seu livro 1984 que simboliza a vigilância do poder autoritário sobre os cidadãos.

1. A m í d i a d e m a s s a veio d e s e m p e n h a r u m p a p e l f u n d a m e n tal n a s o c i e d a d e m o d e r n a . P o r m í d i a d e m a s s a e n t e n d e - s e a m í d i a d a s c o m u n i c a ç õ e s - j o r n a i s , revistas, televisão, rádio, c i n e m a , vídeos, C D s e outras formas - q u e a t i n g e m audiências d e m a s s a . E s s e tipo d e m í d i a exerce profunda influência sobre nossas vidas, p r o p o r c i o n a n d o n ã o apenas entretenimento, mas fornecendo e moldando muitas das „ i n f o r m a ç õ e s q u e utilizamos e m n o s s o cotidiano. 2. O s jornais o c u p a r a m lugar d e destaque n a antiga m í d i a d e m a s s a . S e u p a p e l c o n t i n u a s e n d o significativo, p o r é m o u tros veículos mais recentes, p a r t i c u l a r m e n t e a televisão e a internet, v i e r a m s u p l e m e n t á - l o s . 3 . A o lado d a internet, a televisão r e p r e s e n t a o m a i s i m p o r tante a v a n ç o d a m í d i a a o l o n g o d o s ú l t i m o s 4 0 a n o s . N a m a i o r i a d o s países, o E s t a d o envolve-se d i r e t a m e n t e n a a d m i n i s t r a ç ã o da t r a n s m i s s ã o d e p r o g r a m a s d e TV. A tecn o l o g i a d a s t r a n s m i s s õ e s p o r satélite e c a b o está alterand o a n a t u r e z a d a televisão e m a s p e c t o s f u n d a m e n t a i s : a t r a n s m i s s ã o p ú b l i c a d e p r o g r a m a s d e T V está p e r d e n d o sua fatia d a audiência à m e d i d a q u e se disponibiliza u m a multiplicidade d e canais e diminuiu o controle dos govern o s sobre o c o n t e ú d o d o s p r o g r a m a s d e televisão. 4. U m a série d e teorias diferentes sobre a mídia tem sido d e senvolvida. Innis e M c L u h a n defendem a idéia d e q u e a influência q u e a m í d i a exerce sobre a sociedade é m a i o r e m relação a o modo d e s u a c o m u n i c a ç ã o d o q u e a o conteúdo d o que é transmitido. N a s palavras d e M c L u h a n , " o m e i o é a m e n s a g e m " : a televisão, p o r exemplo, influencia o c o m portamento e a atitude das pessoas p o r q u e suas características são b e m diferentes daquelas d e outros meios, c o m o os jornais e os livros. 5. Outros teóricos i m p o r t a n t e s s ã o H a b e r m a s , B a u d r i l l a r d e T h o m p s o n . H a b e r m a s aponta o p a p e l d a m í d i a n a c r i a ç ã o

SOCIOLOGIA

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ser o b s e r v a d a s : o d o m í n i o d a m í d i a está c a d a v e z m a i s c o n c e n t r a d o nas m ã o s d o s grandes c o n g l o m e r a d o s d e m í dia; o d o m í n i o privado d a m í d i a v e m s u p e r a n d o o d o m í nio p ú b l i c o ; as e m p r e s a s de m í d i a u l t r a p a s s a m as fronteiras n a c i o n a i s ; as e m p r e s a s d e m í d i a diversificaram suas a t i v i d a d e s ; e as fusões d a m í d i a t o r n a r a m - s e m a i s freq ü e n t e s . A indústria global d a m í d i a - música, televisão, c i n e m a , notícias - é d o m i n a d a p o r u m p e q u e n o n ú m e r o de c o r p o r a ç õ e s multinacionais. 9. A t u a l m e n t e , a sensação d e p e r t e n c e r m o s a o m u n d o é, e m g r a n d e parte, u m r e s u l t a d o d o â m b i t o internacional d a

m í d i a e d a s c o m u n i c a ç õ e s . A s s i s t i m o s a o >ur_ • . ••" i e u m a o r d e m d a informação m u n d i a l - u m s i s t e m a internacional d e p r o d u ç ã o , distribuição e c o n s u m o d e bens informacionais. Diante da posição suprema dos países industriais n a o r d e m d a i n f o r m a ç ã o m u n d i a l , m u i t o s a c r e d i t a m q u e o s p a í s e s e m d e s e n v o l v i m e n t o estão sujeitos a u m a n o v a f o r m a d e i m p e r i a l i s m o d a mídia. M u i t o s críticos e s tão p r e o c u p a d o s c o m o fato d e q u e a c o n c e n t r a ç ã o d o p o der d a m í d i a n a s m ã o s d e a l g u m a s e m p r e s a s ou indivíd u o s p o d e r o s o s v e n h a a enfraquecer o s m e c a n i s m o s d a democracia.

Questões

para

Reflexão
4. Q u e m v o c ê p o d e r i a ser n a internet? 5. A c o n c e n t r a ç ã o n o d o m í n i o d a indústria d a m ú s i c a levou a u m a redução da variedade de produtos ao consumidor? 6. S e r á q u e a g l o b a l i z a ç ã o d a s c o m u n i c a ç õ e s i r á m e l h o r a r n o s s a c o m p r e e n s ã o d a s diferenças culturais o u aniquilar essas diferenças?

1. O s g o v e r n o s d e v e r i a m limitar a e x p a n s ã o d a T V a c a b o e p o r satélite p a r a tentar p r o t e g e r as culturas nacionais? 2 . S e as novelas f o s s e m a s u a ú n i c a fonte d e i n f o r m a ç ã o , d e q u e m a n e i r a s a visão q u e v o c ê t e m d e seu país ficaria distorcida o u i n c o m p l e t a ? 3 . A m í d i a d e m a s s a a m p l i a o u r e d u z a possibilidade d e u m d e b a t e p ú b l i c o aberto?

Leitura Complementar
C h r i s B a r k e r , Television, Globalization and Cultural ties ( B u c k i n g h a m : O p e n University Press, 1 9 9 9 ) IdentiN i c k L a c e y , Narrative Press, 2000) and Genre (Houndmills: Macmillan ( C a m b r i d g e : Polity, (London: Arnold,

T i m o t h y E . Cook, Governing with the News: The News Media as a Political Institution ( C h i c a g o : T h e University of C h i c a g o Press, 1998)

J a m e s Slevin, The Internet 2000)

and Society Empires

D a y a K i s h a n T h u s s u , Electronic 1998)

Endereços na Internet
F o u n d a t i o n for Information Policy R e s e a r c h ( U K ) http://www.fipr.org T h e M o d e r n i s t Journals Project w w w . m o d j ou rn. b r o w n .edu N e w s Watch http://www.newswatch.org O E C D a n d the information e c o n o m y www.oecd.org/dsti/sti/it University of California at L o s A n g e l e s : Cultural Studies West http://www.qseis.ucla.edu/courses/ed253a/253WEBB.htm