Em Pauta

Resenha crítica

O caso dos exploradores de caverna

A

narração de Lon Luvois Fuller (1902-1978), que se inicia em maio do ano imaginário de 4299, ganhou o mundo com centenas de traduções. Trata-se de um estudo de caso em que cinco personagens, membros de uma organização amadora de exploração de cavernas, ficam presos após um desmoronamento com poucas possibilidades de socorro. O trabalho de resgate foi extremamente penoso e difícil. Ocorreram novos deslizamentos de terra, resultando na morte de dez operários por soterramento, e foi necessária uma campanha de ajuda financeira para complementação das despesas de resgate, concluído apenas no 30º dia após o acidente. No 20º dia de resgate, descobriu-se que os exploradores possuíam um rádio transmissor, o que tornou possível a comunicação entre eles e o acampamento de resgate. Nesse momento, as vítimas foram informadas de que a equipe de resgaste os alcançaria em no mínimo mais dez dias. Em vista da resposta, os exploradores ponderaram duas hipóteses: se sobreviveriam a mais dez dias sem alimentação; e se, caso se alimentassem de carne humana, teriam chances de sobreviver. A primeira recebeu uma resposta negativa e a segunda foi aceita como uma possibilidade de sobrevivência de parte do grupo. As vítimas ficaram sem comunicação com a equipe de resgate e passaram a decidir por si mesmas se sacrificariam ou não a vida de um na tentativa de sobrevivência dos demais. Roger Whetmore, um dos exploradores, propôs a escolha daquele que seria morto por sorteio, porém, antes que essa medida fosse adotada, ele desistiu de participar e sugeriu que os demais esperassem por mais uma semana. Seus companheiros o acusaram de traição e procederam ao lançamento dos dados. Whetmore foi o sorteado e morto (sacrificado) – sua carne serviu de alimento para seus companheiros, resgatados no 30º dia. Após o resgate, os sobreviventes foram a julgamento e condenados à pena de morte. O caso foi analisado e julgado por quatro juízes, Foster, Tatting, Keen e Handy. O juiz Foster propõe a absolvição dos réus com base em uma posição jusnaturalista, alegando que, quando Whetmore foi “sacrificado”, eles não se encontravam em um estado de sociedade civil, mas em um estado natural. Assim, segundo sua visão, a lei não poderia ser aplicada. Tatting, o segundo juiz, critica os pontos expostos por Foster, porém, no final, mostra-se confuso emocionalmente em relação à decisão. Ele não se decide e pede afastamento do caso. Keen, o terceiro juiz, condena os réus e acusa Foster de usar furos na legislação para justificar a decisão dos acusados pelo sacrifício de um dos membros da equipe e pede o afastamento do juiz. O quarto juiz, Handy, expõe uma pesquisa de opinião pública em que 90% da população absolveria os réus. Ele fica do lado da opinião pública.

Os sobreviventes são processados e condenados à morte pelo assassinato de Whetmore. Eles recorrem da decisão, mas são julgados novamente com a sentença condenatória confirmada. A inquietação pública se dá no entendimento de que a justiça seria feita se os acusados fossem inocentados, apesar de seus atos serem considerados monstruosos se praticados em uma situação normal e que a situação dos fatos e circunstâncias deveria ter sido pesada. Analisando o caso à luz do Direito Penal Brasileiro, pode-se observar, conforme a doutrina de Rogério Greco, que, apesar de o fato ser típico, ou seja, a conduta ser prevista no tipo penal incriminador, e de que, ainda, bens penalmente tutelados tenham sido afetados ou ameaçados de forma relevante, um fato, para ser considerado crime, necessita ser típico, ilícito e culpável. Segundo Greco, o fato típico geralmente também é ilícito, salvos os casos em que fica caracterizada uma das causas excludentes da ilicitude (causa de justificação) – no Código Penal Brasileiro, nos termos de seu artigo 23, o estado de necessidade, a legítima defesa e o estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito. As causas excludentes da ilicitude propõem uma conduta humana que se amoldou à figura típica. Para que se configure o estado de necessidade, a doutrina aponta como requisitos indispensáveis: atualidade do perigo; inevitabilidade do perigo; que o perigo não tenha sido voluntariamente provocado pelo sujeito; e razoabilidade da conduta do agente. Destarte, o perigo de morte era iminente, tendo o próprio médico da equipe de salvamento admitido que fossem praticamente inexistentes as chances de sobrevivência pelo período mínimo estimado de dez dias para o sucesso das operações de salvamento. Nenhum dos exploradores tinha dado causa, já que a caverna subterrânea em que se encontravam presos teve sua saída bloqueada por um desmoronamento natural. Além do exposto, os bens jurídicos em conflito são a vida de cada um dos exploradores, não sendo razoável, portanto, exigir que um deles sacrificasse sua própria vida para resguardar a dos outros. Nossa Constituição proclama o direito fundamental do indivíduo à vida –requisito para a existência de todos os outros direitos: nas palavras de José Afonso da Silva, pelo nosso ordenamento “se reputa legítimo até mesmo tirar a vida de outrem em estado de necessidade de salvação da própria”. O livro O caso dos exploradores de cavernas é uma verdadeira introdução ao estudo do Direito, provocando reflexões diante da problemática e da opinião sobre as possibilidades de decisões ao caso.

 Alan Carlos Marques
Natural de Salvador/BA. Acadêmico do último ano do curso de Direito do Centro de Educação Superior Reinaldo Ramos – CESREI. Estagiário do Tribunal de Justiça da Paraíba. Autor de artigos e blog de Direito na internet.

Rosemeire Carlos Pinto
Jornalista (edição de texto)

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