Intercurso - Andrea Dworkin

Intercurso Andrea Dworkin
Tradução de Natalia Luchini

Capítulo 5 – POSSESSÃO Geralmente se fala e se compreende o intercurso como uma forma de possessão ou um ato de possessão no qual, durante o qual, devido o qual, um homem possui uma mulher, cobrindo-a fisicamente e esmagando-a e ao mesmo tempo penetrando nela; e essa relação física para ela – sobre ela e dentro dela – é a possessão dela feita por ele. Ele a tem, ou quando ele acaba, ele a teve. Por ter-se introduzido/ter penetrado nela se torna superior em relação a ela. Sua penetração nela é considerada sua capitulação frente ao conquistador; é a rendição física dela para ele; ele a ocupa e dá regras a ela, expressa sua dominação elementar sobre ela, por meio da possessão dela na transa. O ato em si, sem mais, é a possessão. Precisa existir uma relação social na qual a mulher é subordinada ao homem, um bem móvel em espírito ou fato/ação, um bem decorativo ou mesmo alguém que trabalha duro. Não é preciso haver relação sexual em curso na qual ela é cronicamente, demonstravelmente submissa ou masoquista. A transa normal com um homem normal é tida como um ato de invasão e apropriação empreendida de modo predatório: colonização, com força (virilidade) ou quase violenta; o ato sexual que por sua natureza faz ela dele. Deus fez assim, ou a natureza o fez, de acordo com a fé de quem explica os eventos e valores. Ambos sistemas conceituais – o teológico e o biológico – são leais à crença da dominação masculina e mantêm que o intercurso é a expressão elementar (não socializada) do macho e da fêmea, que por sua vez são as essências elementares (não socializadas) dos homens e das mulheres. Em Ideal Marriage, um manual do casamento sexual de vasta e onipresente influência antes da epidemia de separações e da assim chamada sexologia como profissão, Theodore Van De Velde resumiu o que homens e mulheres casadas deveria saber sobre sexo:

1

Intercurso - Andrea Dworkin
“O que tanto o homem como a mulher, levados por urgências primitivas obscuras, desejam sentir no ato sexual, é a força essencial da masculinidade, que se expressa como uma possessão violenta e absoluta da mulher. E então, ambos podem e de fato exultam, em certo grau, da agressão e da predominância masculina – seja real ou aparente - que proclama essa força essencial.”1

Em outras palavras, os homens possuem as mulheres quando os homens fodem (sic) as mulheres porque ambos experimentam/vivenciam o homem sendo macho. Essa é a lógica assombrosa da supremacia masculina. Sob esse ponto de vista, que é o predominante, a masculinidade é agressiva e violenta; e também o é transar, quando tanto o homem quanto a mulher vivenciam a masculinidade, essencialmente demandando o desaparecimento da mulher enquanto um indivíduo; assim, ao ser fodida (in being fucked), ela é possuída: cessa de existir como indivíduo distinto: assume-se o controle sobre ela. Notavelmente, não se considera que o homem é possuído no intercurso, mesmo que ele (seu pênis) esteja enterrado dentro de outro ser humano; e seu pênis esteja circundado por músculos fortes que se contraem como um punho que se fecha com força e se solta empurrando vigorosamente a coisa macia (the tender thing), sempre tão vulnerável, não importa quão dura esteja. Ele não é possuído mesmo que seu pênis tenha sumido – desaparecido dentro de outra pessoa, envolvido, sufocado, na cobertura musculosa de carne que ele nunca vê, apenas sente, segurando, soltando, segurando, mais apertado, mais firme, com mais força, e então empurrando para fora: ele consegue sair vivo? Parece ser uma ansiedade fundamental que alimenta a compulsividade sexual masculina e disciplina toda a psicologia profunda. O homem não é possuído ao transar mesmo que ele seja amedrontado pela castração; mesmo que ele às vezes pense – sozinho ou coletivamente numa/através de uma cultura – que a vagina tem dentes; mas ele se introduz de qualquer maneira, por compulsão, obsessão: não obcecado por ela, uma mulher em específico; mas com isso, com introduzir. Ele não é possuído mesmo que amedrontado por nunca mais ter seu pênis ( cock) de volta, porque ela o engolfou dentro de si, e ele é pequeno comparado com a vagina em volta dele, tragando-o e
1

2

Intercurso - Andrea Dworkin
empurrando-o para fora: cerrando-o, sufucando-o, aumentando a fricção e o frisson quando ele tenta tirá-lo. Ele não é possuído mesmo que ele fique desfalecido e inútil depois do ato, encolhido no esquecimento: isso não o faz dela em virtude da natureza do ato; ele não foi tomando e conquistado por ela, a quem ele finalmente se rende, quem o vence e o derrota tanto pela força quando pelo sofrimento prolongado. E para ele, essa pequena aniquilação, essa pequena falta de poder, não é erotizada como possessão sexual dele por ela, intrínseco ao ato, prova de uma realidade elementar, uma relação imutável entre macho e fêmea. Ele vivencia o coito como sendo morte; e fica triste; mas ele não é possuído. Os homens admitiram algumas formas de sua possessão sexual por mulheres na transa quando é possível caracterizar as mulheres como bruxas, más e carnais, e quando a transa ocorre em seu sono à noite. As bruxas transam com homens enquanto eles dormem; elas usam o homem contra sua vontade. Ele ejacula: como prova disso, por mágica, uma mulher vinha até ele à noite e fazia algo para ou com seu pênis. Na Europa, mulheres consideradas bruxas foram perseguidas por aproximadamente quatrocentos anos, queimadas na fogueira, talvez em torno de nove milhões delas – inúmeros casos de acusação de procurar por homens, praticar sexo com eles, causando sua ejaculação: à noite, quando dormiam. Nesses casos, então, a acusação de bruxaria era a acusação de estupro masculino: o homem alegava ser tomado contra sua vontade e usado no sexo contra sua vontade; certamente sem o consentimento dele e de certo modo uma violação das prerrogativas sobre a mulher em relação ao sexo. Na Europa durante a Inquisição, mulheres foram mortas por esse estupro masculino que acontecia na própria cabeça dos homens; por possuí-lo ao fazê-lo transar, se retorcer, se movimentar, atormentando-o durante seu sono; por fazê-lo praticar sexo, querer praticá-lo ou experimentá-lo de forma aprisionada em seu próprio corpo isolado, sexo que não era de sua vontade nem predeterminação. Em muitas culturas e tribos, os homens podem ser possuídos de modo similar; e a chave para a possessão – os sonhos, o sexo, a realidade física do desejo, a obsessão – é que a mulher é em si mágica e má; através de maldade e mágica ela exerce um poder ilegítimo (e assim, mágico sobre os homens; assim perverso; assim originando-se em Satanás) sobre os homens.

3

Intercurso - Andrea Dworkin
Para as mulheres, serem possuídas sexualmente pelos homens é mais trivial. As mulheres têm sido bens móveis dos homens enquanto esposas, prostitutas, como servas sexuais e reprodutivas. Ser uma propriedade e ser fodida ( being fucked) são ou tem sido experiências semelhantes na vida das mulheres. Ele tem a você; ele te fode (sic). A transa transmite a propriedade: ele a tem/ele é seu dono de dentro para fora. A transa transmite a paixão de sua dominação: ela requer acesso a todo centímetro escondido. Ele pode ter tudo em volta de você e tudo sobre você e tudo que você é capaz de fazer enquanto uma trabalhadora ou uma serva ou um ornamento; mas estar/ficar dentro de você e ter posse de suas entranhas/ter posse de seu interior é possessão: mais profunda, mais íntima do que qualquer outro tipo de direito de propriedade. Íntimo, cru, total, a experiência da possessão sexual para as mulheres é real e literal, sem qualquer dimensão mágica ou mística em si: ser fodida (getting fucked) e ser apropriada (owned) são inseparavelmente a mesma coisa; juntos, sendo um só, eles representam o que é o sexo para as mulheres sob a dominação masculina como sistema social. Na transa, o homem expressa a geografia de seu domínio: o sexo dela, suas partes interiores são parte do domínio dele enquanto um homem/um macho. Ele pode a possuir como um indivíduo – ser seu senhor ou seu mestre – e estar assim expressando um direito privado de propriedade (o direito privado proveniente de seu gênero); ou ele pode a possuir a fodendo impessoalmente e estar assim expressando um direito coletivo de propriedade sem disfarces ou modos. A maior parte das mulheres não são distinguidas, indivíduos privados para a maioria dos homens; e então a transa tende à afirmação de classe dominante. As mulheres vivem dentro dessa realidade de serem apropriadas e serem fodidas: são sensíveis a ela (a realidade); o corpo aprende a responder ao que o domínio masculino oferece como toque, como sexo, como amor. Para as mulheres, serem possuídas é o sexo que tem que satisfazer a necessidade por amor ou ternura ou afeição física; assim, isso significa mostrar a intensidade do desejo; e ser eroticamente apropriada por um homem que te pega e te fode é uma carga física e uma afirmação cheia de significado sobre a condição de ser mulher ou a feminilidade ou o ser desejada. Essa realidade de ser apropriada e ser fodida – como experiência, uma unidade social, política, econômica e psicológica – enquadra, limita, coloca
4

Intercurso - Andrea Dworkin
parâmetros para o que as mulheres sentem e vivenciam no sexo. Ser essa pessoa que é apropriada e fodida significa se tornar alguém que experiencia/vivencia sensualidade ao ser possuída: o toque do possuidor, em sua transa (in his fuck), é também, no entanto, insensível à complexidade ou à sutileza da sua própria humanidade. Porque a capacidade da mulher de sentir prazer sexual é desenvolvida dentro dos estreitos limites do domínio sexual masculino, internamente não existe um ser separado – concebido, nutrido em algum outro lugar, sob circunstâncias materiais diferentes – gritando para sair. Existe apenas a realidade de carne e osso de ser alguém sensível cujo corpo experimenta intensidade sexual, prazer sexual, e identidade sexual ao ser possuída: ao ser apropriada e fodida ( in being owned and fucked). É o que se sabe; e a capacidade de sentir e de ser é estreitada, dividida em pedaços/esmigalhada, para se encaixar nas demandas e dimensões dessa realidade sensível. Por esse motivo, as mulheres sentem a transa/a foda/o sexo – quando funciona, quando subjuga – enquanto possessão; e sentem-na como profundamente erótica; e avaliam a aniquilação do eu no sexo como sendo prova do desejo ou amor do homem, sua intensidade impressionante. E, portanto, ser possuída é fenomenologicamente real para as mulheres; e o sexo em si é uma experiência de diminuir a auto-possessão, uma erosão do eu. Essa perda do eu é uma realidade física, não apenas um vampirismo psíquico; e como realidade física ela é assustadora e extrema, uma erosão literal da integridade do corpo e de sua habilidade usada para funcionar e sobreviver. Os rigores físicos da possessão sexual - de ser possuída – destroem a vitalidade do corpo; e enquanto em um primeiro momento a mulher fica ardente com o orgulho da possessão – ele a quer o bastante para esvaziá-la – seu interior/suas entranhas é/são gasto/gastas ao longo do tempo, e ela, possuída, torna-se fraca, esgotada, usurpada em toda sua energia e sua capacidade física e mental por alguém que assumiu o controle físico sobre ela. Essa possessão sexual é um estado sensual de ser que beira o anti-ser até que acabe em morte. O corpo morre, ou o amante descarta o corpo quando ele foi usado, joga-o fora, algo velho e sem utilidade, esvaziado, como uma garrafa vazia. O corpo é usado; e a vontade é abusada (raped).

5

Intercurso - Andrea Dworkin
Em Satan in Goray, uma novela de Isaac Bashevis Singer, a possessão é literal: um dybbuk, um espírito mal, entra no corpo; e o modo de entrada é através do coito e literal:
E REB MORDECAI JOSEPH disse ao espírito, Através de qual abertura fizeste forçar o teu caminho até a mulher, e o dybbuk falou e disse Através daquele mesmo lugar2.

No final, a mulher possuída morre, mas a possessão sobrenatural é um fenômeno longe de se ver o fim: uma intensificação, um exagero extremo da possessão sexual que a mulher já experienciou nas mãos de homens mortais, líderes de comunidade; o que eles fizeram a ela, como eles a usaram, a posse sexual dela, esgotaram-na, deixaram-na vulnerável à possessão sexual, ela mesma na forma de estupro:
Era sufocante e a Coisa pressionava-a contra ele, apoiado sobre ela. A Coisa era um macho/homem; ele tentou forçar suas pernas afastando-as com os joelhos ossudos. Ele falou com ela rapidamente, com voz rouca, respirando com dificuldade, implorando e pedindo: “Rechele! Rápido! Deixe-me! Eu queiro deflorar você! “Não, não!” “Rechele, você já foi deflorada!” Ele a derrubou e penetrou nela3.

Rechele, ao longo de sua curta vida como mulher sobre a terra, tinha pertencido a seu pai, a quem pertenceu sem que ele transasse com ela; a seu tio, um sacrificador em rituais, que a criou e que a quis como noiva; seu marido, Reb Itche Mates, que era impotente e fanático e pensava que ela era o demônio Lilith; um amante, Reb Gedaliya, que a tomou de seu marido e ao final, em uma cerimônia profana, casou-se com ela; e o dybbuk, que a tomou de Reb Gedaliya. A comunidade religiosa dos judeus por fim, exorcizou o dybbuk: “No próximo instante a
2 3

6

Intercurso - Andrea Dworkin
congregação contemplou uma centelha de fogo sair daquele mesmo lugar e voar através da janela queimando um buraco no vidro da janela.” 4 Rechele em seguida morre. Essa história de possessão sexual se passa na Polônia, em uma cidade chamada Goray, “a cidade que fica no meio das montanhas no fim do mundo.”5 Em 1648 um açougueiro de judeus, Bogdan Chmelnicki, executou pogroms viciosos, massacres em massa; ele e seus seguidores esfolavam homens vivos, assassinavam crianças pequenas, violavam mulheres e depois abriam suas barrigas e costuravam gatos dentro delas.”6 Os judeus fugiam; eram batizados; vendidos como escravos. Goray foi desterrada. Ainda assim os judeus estudavam os textos sagrados, e os cabalísticos – os místicos do judaísmo – estudavam os textos místicos. Neles encontravam uma promessa de fim da perseguição aos judeus, um tempo no qual o Messias viria; e muitos concluíram que “os massacres de Chmelnicki foram as dores do parto do Messias.”7 O pensamento mágico/encantado desvirtuava da religião literal e austera dos judeus; as leis eram transgredidas; falsos Messias abundavam. Rechele nasceu em Goray logo antes do massacre ocorrer. Seu pai a levou para Lublin, deixando a criança com seu tio, um sacrificador em rituais religiosos; e o sacrificador sagrado de animais era um contraponto terrível ao massacre profano dos judeus. O ambiente era repleto com cadáveres de animais mortos, sangue, penas, facas e o cheiro da morte; e sexo começar aqui para ela, com esses sons e esses cheiros de violência, numa cama-sofá dura dividida com uma mulher velha e mórbida; a velha mulher “cheirava penas queimadas e ratos. Algumas vezes ela levantava e mudava a criança de lugar e passava suas mãos mortas sobre o corpo quente da garota, gargalhando com prazer impuro: „Fogo! Fogo‟ A garota está queimando!‟”8 Uma noite antes da velha mulher morrer, Rechele é deixada sozinha no Yom Kippur, a noite mais sagrada para os judeus; Senhores poloneses estupraram mulheres naquela noite e crianças morriam queimadas em meio a chamas.
4 5 6 7 8

7

Intercurso - Andrea Dworkin
Aterrorizada, ela entra em colapso, “deixando seus joelhos colados em seu queixo, seus olhos vidrados e seus dentes batendo.”9 Ela deixa de falar por completo, tornando-se cronicamente doente, e com paralisia em uma das pernas. Ela nunca mais foi forte ou normal novamente. Mas seu tio queria casar com ela porque era bela; então ele tentou curá-la. Ele contratou uma velha mulher para limpá-la da urina e afastar os maus espíritos. Ele providenciou o melhor cuidado médico, um doutor polonês que a ensinou latim. Ele mesmo (o tio) a ensinou a Torá de modo que ela pudesse assim passar suas horas. Quando seu tio, pouco depois, morre, ela foi mandada de volta à Goray para viver com seu pai, que viajava com frequência e não tinha interesse nela. Estava quase sempre sozinha: “Durante dias a fio ela ficava sentada em um banco olhando para a lareira, lendo os volumes que tinha trazido de cidades distantes, havendo rumo res de que elas era versada na língua sagrada.” 10 Tornou-se público que ela sabia latim. Casamenteiras tentaram fazê-la casar, mas seu pai era indiferente à ideia, e ela preferia ler a socializar. Ela era coxa, mas mesmo assim “ela despertava pensamento pecaminosos nos homens.”11 Goray havia mudado. Antes um centro para estudiosos antiquados, pura e santa, desertificada depois do massacre, agora era receptiva aos muitos charlatões que vinham pregar variações das leis judaicas, justificados pela eminência da chegada do Messias. Para aqueles que pensavam que os pogroms de Chmelnicki não eram nada além da indicação que o Messias estava a caminho, nenhuma modificação no pensamento poderia provar sua falta de lógica. Havia duas teorias: um grupo se tornou austero, cumpria penitências, e não tinham intercurso para se prepararem para a vinda do Messias; outro grupo notou que os textos sagrados declaravam que a geração que antecedia a chegada do Messias seria degenerada; então eles atentavam para a quebra de toda lei e cometiam todo e ultraje possível, para assim apressarem a chegada do Messias:
Eles eram secretamente adúlteros, comiam carne de porco e outras comidas impuras, e exerciam trabalhos expressamente proibidos aos sábados, aqueles que mais deviam ser evitados… Outros crentes profanavam as casas de banho, assim
9 10 11

8

Intercurso - Andrea Dworkin
as mulheres não poderiam se limpar com deviam, e seus maridos deitariam com elas em seu estado impuro.12

Através da cidade, sensualidade e transgressão eram rampantes. Homens e mulheres dançavam juntos em êxtase (ecstatic dancing); mulheres ouviam homens quando não deveria fazê-lo, por exemplo, ao ler mensagens presumidamente sagradas de sábios distantes. Homens e mulheres bebiam juntos; e os significados sexual dos textos cabalísticos eram publicamente declamados. Encantos, amuletos mágicos e unguentos eram usados; homens e mulheres descobriam suas cabeças e se beijavam e abraçam, e as regras que criavam barreiras entre homens e mulheres eram ignoradas e mesmo desprezadas. Os homens até mesmo entravam, por diversão, no local de banho das mulheres, invadindo-o: “Aquelas que eram grandes/gordas e se moviam devagar ficavam tão confusas que permaneciam paralisadas. Despidas diante dos olhos dos homens, elas eram publicamente envergonhadas. Houve muita zombaria e frivolidade naquela noite.” 13 Mulheres que haviam parado de menstruar eram aconselhadas a “comerem o prepúcio de uma criança”; e aquelas que queriam ser amadas “eram aconselhadas a fazer seus homens beberem a água na qual seus seios tinham sido lavados” 14. O falso Messias mais venerado era Sabbati Zevi, e a esposa do Messias, Sarah, também era venerada, “tendo sido prisioneira de um bordel em Roma.”15 As mulheres estavam, em especial, fora do controle e fora da linha, cada vez mais depravadas e fora da lei. Uma mulher foi a Gorah pregando, espalhando notícias de milagres e palavras de consolo; ela prometia a salvação:
Uma multidão de mulheres a seguiam, fazendo perguntas atrás de perguntas incansavelmente – e ela respondia com frases da língua sagrada, como um homem.16

12 13 14 15 16

9

Intercurso - Andrea Dworkin
As mulheres usavam “botas masculinizadas, e suas cabeças cobertas com xales rasgados...”17 E Rechele, encarnando essa mudança em direção ao masculino, estudou a língua sagrada e latim. No mundo legal de Deus isso não ocorre. Freud enfatizou com precisão o ponto de vista judeu ortodoxo do gênero quando ele escreveu:
O desejo apaziguado pelo pênis é destinado a se converter pelo desejo por um bebê e por um marido, que possui em pênis. É estranho, contudo, que encontremos com frequência que o desejo pela masculinidade seja retido no inconsciente e, fora desse estado de repressão, exercite uma influência perturbadora.18

Goray estava perturbada; as mulheres tinham a presunção de caminhar na direção do privilégio masculino. O hedonismo era doutrinal, uma crença cabalística na liberação sexual na qual cada transgressão levava a uma nova, mais e mais aprofundadas em experiências sensuais: tudo permitido pelo rabino que interpretava com astúcia o desejo da vinda do Messias. O próprio rabino, líder do direito, “explicava a jovens matronas modos de inflamarem seus maridos e a sussurrarem em seus ouvidos que...o mandamento contra o adultério era nulo.” 19 Seguindo uma nova doutrina em expansão sobre sensualidade como sendo divinamente sancionada, os homens estavam trocando de esposas, e também os desejos do incesto foram aceitos: toda luxúria era satisfeita. A autoridade da religião, na pessoa do rabino, insistia num comprometimento ideológico e numa justificação para a promiscuidade e na satisfação da sensualidade; e o comportamento estava conforme as exigências da ideologia, o êxtase substituia o Levítico. A autoridade masculina, a autoridade religiosa e a autoridade cívica, todas convergiram, indistinguivelmente, em relação ao ponto de entrada para o corpo de uma mulher; e foi nesse contexto que Rechele foi possuída, primeiro por homens mortais, essas várias autoridades, e então por um dybbuk. E nesse mesmo contexto a comunidade religiosa dos judeus foi transformada em pornografia social da possessão: um imperativo social estabelecido
17 18 19

10

Intercurso - Andrea Dworkin
para a perturbação sensual; a religião o sexualizou de modo que se tornasse um imperativo doutrinário para a possessão sexual das mulheres – pelos homens, pela força – chegando até o ponto da aniquilação e da morte. Cada ato de possessão é uma perturbação sensual para a mulher – físico, irresistível, consumidor; e cada ato de possessão ilumina o significado do sexo no qual a mulher é apropriada pelo homem e seu corpo passa a ser dele. O impacto físico e espiritual dessa dominação sexual se dá sobre a integridade da mulher. Ela é necessariamente (devido à natureza do ato) incapaz de opor-se à sua intensidade agressiva; ela é oprimida por ele, levada ao colapso físico e ao abandono do desejo. Cada ato de possessão é sensual e singular; mas a possessão também tem uma dimensão comunal a ela, a comunidade regulando, a um grau surpreendente, as fronteiras social e sexual da possessão – o significado da foda, o grau de cumplicidade pública no mantenimento de cada relação erótica, quais aspectos da possessão podem ou não podem ser mostrados ou reconhecidos na esfera pública, o papel da foda no controle das mulheres. Reb Itche Mates, com quem Rechele se casou a primeira vez, é aceito pelos cidadãos de Goray como alguém sábio e santo, com grandes dons mágicos e místicos; ele se envolve em práticas austeras de penitencia incluindo jejuns e mortificações. Em uma carta de estudiosos de outras comunidades, Goray é avisada de que Reb Itche Mates é um falso profeta, alguém que “está sempre mergulh ado em melancolia, cuja raiz é a luxúria...”20 Ele é acusado de usar mágica para causar mortes de pessoas boas e inocentes; e, de fato, um rabino da velha guarda que se opõe às novas práticas de mágica que estavam sendo feitas em Goray morre de tal morte. Reb itche Mates é um vigarista, acusa a carta; ele seduz mulher após mulher em cidade após outra cidade para se casarem com ele, mas então não consuma o casamento; “seu propósito é fazê-la impura e dar a ela uma má fama...ele não se divorciará delas, deixando-as sozinhas, como a mulher que espera o marido voltar de longas viagens, com as lágrimas sob seus rostos, seus lamentos amargos comovendo os céus, sem nenhum recurso.”21

20 21

11

Intercurso - Andrea Dworkin
Na festa de noivado de Rechele, ela “mudou de opinião e caiu em prantos dizendo que não queria Reb Itche Mates.” 22 Mas ela foi levada a capitular: conversaram com ela, persuadiram-na, subornaram-na com presentes até que ela concordasse com o casamento novamente. No noivado, depois de seu consenso coagido em público, Rechele experimenta/vivencia a possessão física; ela é dada para e pertence a Reb Itche Mates; ele não transou com ela, nem mesmo a tocou, para que o significado da possessão fosse real para ela enquanto mulher. No Yom Kippur, sozinha na casa do tio, ela respondeu ao terror de um estupro iminente por senhores poloneses com atitude semelhante à da possessão física; e agora ela experimenta/vivencia a possessão em resposta à força – forçada a ser fêmea, subordinada, apropriada, forçada a exprimir a própria vontade a contragosto e então violada, resultando em um casamento que lhe era repugnante. Sua apropriação masculina é fenomenologicamente real, é uma realidade física da possessão:
Antes que qualquer um pudesse alcançá-la, ela tinha caído e engasgava em soluços. Seus olhos vidrados, seus braços e pernas contorcidos, espuma corria de sua boca torcida. Ela estremeceu, contorcida, e um vapor rosa emanou dela como de uma brasa prestes a morrer.23

Ao ter sua vontade violada, ao ser apropriada, a ser compelida através de coerção social e de dinheiro (ela não tendo nada), ela experimenta/vivencia a sexualidade da possessão: a força desencadeia sua possessão, assim como o terror o fez; a força é o equivalente da foda na criação da realidade da possessão; respondendo à força/agressão da propriedade sexual, e força é sexo, domínio sexual sem penetração peniana. Ela tinha sido tomada. A força da dominação masculina é possessão mesmo quando a força é a coerção social, a comunidade forçando-a a se subordinar sexualmente deixando implícito uma servitude sexual. Daquele momento em diante, seu corpo não é mais dela, mesmo que Reb Itche Mates fosse impotente e não tenha transado com ela. Cada manhã depois do casamento, matronas da comunidade examinavam-na a ela e ao leito para encontrar sangue da primeira transa: “Envergonhada, Rechele se escondia debaixo do
22 23

12

Intercurso - Andrea Dworkin
travesseiro, mas isso não as incomodava...então elas a descobriam, e examinavam-na assim com as roupas de cama com cuidado, suas faces vermelhas enquanto elas faziam seu trabalho piedosamente.”24 Seu corpo, não mais lhe pertencendo, pertence à comunidade que sustenta o domínio masculino; e essas mulheres são agentes dessa comunidade, daquele domínio masculino, não de uma irmandade subversiva ou solidária; elas têm o direito de procurar em todos os cantos e fendas de seus corpo para ver se ela tem sido possuída de acordo com os ritos e leis do domínio masculino: que/se ela está sendo fodida (that she is being fucked). A comunidade expressa o desejo que tem sobre seu corpo; ela supervisiona (mandates) a foda. A sensualidade da possessão é, então, o que ela tem dentro desse sistema de realidade; e sem a possessão, ela não tem nada. Reb Itche Mates não transa com ela, mas ele a usa. À noite, ele lê orações, bate no peito, chora, confessa, então
aquecia suas mãos frias entre seus seios e seu cabelo eriçado a espetava, continuando a murmurar entre dentes e a chacoalhar corpo, de modo que a cama tremia com ele.25

O demônio Lilith, no quarto com ele, visto por ele, olhava para Rechele; e a visão dela, a presença dela para ele, dava-lhe prazer: “Longos cabelos como os seus. Nua. Concupiscente.”26 Por fim, a comunidade deixa Rechele para ele, para fazer a ela o que ele queria de acordo com seus caprichos ou vontades. Ao não ser fodida ela cessa de existir para a comunidade. Ela se torna invisível. A comunidade não valoriza a propriedade de uma mulher sem a transa. A realidade contínua da potência masculina é o interesse da comunidade que se serve da possessão como sendo o ato sexual. Não servindo a esse interesse, uma mulher adulta não tem existência social ou importância. Abandonada pelo pênis, ela é abandonada por sua comunidade, organizada sobre a terra para celebrar e perpetuar o poder masculino e os potencializar como divino. Ela é abandonada pelo poder, por Deus.

24 25 26

13

Intercurso - Andrea Dworkin
A própria Rechele está quebrantada pela frieza e alienação da sua apropriação sem transa, essa impotência, uma espécie de preliminar indiferente da possessão: ser apropriada sem êxtase; perda do eu na ausência da potência masculina, como uma oferta queimada em um universo sem Deus, um sacrifício no vácuo; perda do corpo na hediondez estéril da frigidez masculina. Não sendo fodida, ela cessa de existir; mas não através da aniquilação erótica, não através do desgaste lento e glorioso de sua vitalidade e substância aos trancos, espasmos e convulsões violentas. Ao invés disso, abandonada, ela é uma concha, como uma casa vazia, deserta porque ninguém quer viver ali, sem serventia. Reb Gedaliya, conhecido por sua piedade e aprendizagem (learning), não queria deixar a casa vazia. Sua ética dizia para usá-la; seu dom era inventar justificações doutrinárias para a promiscuidade. Ele instou a comunidade para foder/transar, desde que “negligenciado o princípio da fecundação atrasaria-se sua redenção.”27 Quando o Messias viesse, ele sugeriu, transar com muitas mulheres estranhas “pode até mesmo ser considerado um dever religioso; cada vez que um homem e uma mulher se unem eles foram uma combinação mística e promovem a união entre O Sagrado, abençoado seja Ele, e a Presença Divina.”28 Ele evocou demônios, “enganou o povo da cidade e conheceu suas mulheres e concebeu um sem número de bastardos...”29 O fervor religioso e o fervor sexual permeavam um o outro; e “a licença e a luxúria” 30 do rabino, eram legitimados, protegidos, blindados por interpretações místicas da tradição religiosa. O êxtase da religião e o êxtase do sexo eram uma única paixão. Nessa epistemologia carnal, sexo e conhecimento eram sinônimos; e a profecia era o corpo possuído, como seria no sexo, por um conhecimento que o ultrapassava. A sedução de Rechele se deu através de vozes místicas, uma visitação trabalhosa/complicada, visões e sons criados por Reb Gedaliya; e quando Rechele confiou nele, ele a saudou “com braços bem abertos” 31 em nome de Deus. Ela é tomada, possuída, cercada; primeiro “uma correnteza vermelha iluminada a rodeou;
27 28 29 30 31

14

Intercurso - Andrea Dworkin
chamas pareciam cobrir completamente a casa...”32 Ela responde às vozes do modo que um homem deve, lembrando, como ela faz, algum texto bíblico no qual, enquanto mulher, ela não deveria saber, e então, ela faz mímica sobre ele, como se um mensageiro legítimo de Deus viesse até ela, uma mulher; um engano que mostra implicitamente a corrupção da visitação. Visitada uma noite toda pela voz, tendo desmaiado, pela manhã ela se levantou e se lavou, como depois do ato sexual, “enxaguando seus seios e coxas como se performasse um ritual.” 33 Ela corre para a sinagoga em grande estado de possessão e êxtase, para Reb Gedaliya, tornando público o relacionamento entre eles; e em um estado de arrebatamento sexual e religioso, em êxtase, ela interpreta passagens da Bíblia. O ato sexual entre eles acontece virtualmente em público, mas é interpretado como religião:
Reb Gedaliya curvou-se sobre Rechele, ouvindo à voz e tremendo com medo; seu corpo teve que ser sustentado por dois homens fortes, porque suas pernas tinham desfalecido, e ele tremia como se tivesse febre. Somente quando Rechele desfaleceu como se morta, Reb Gedaliya fez um gesto para que se colocasse um xale de oração para cobrir seu rosto. Ele, então, carregou-a em seus braços para o palco.”34

Ele a carrega então para a ante sala, e a celebração pública começa, com homens e mulheres dançando, se beijando e abraçando, de diversos modos sem roupa; “e a cortina da Arca foi pendurada em estacas, como uma espécie de enfeite e colocada no alto das cabeças de Reb Gedaliya e Rechele.” 35 Ele a leva para sua casa para morar; e a possui. Ela era uma profetisa, consagrada em um quarto especial pintado de branco e revestido de cetim branco; uma Arca e uma Torá foram colocadas no quarto, e dez mulheres permaneciam lá com ela como minyan36 para rezar, e mulheres liam a Torá (o que era proibido). Rechele era velada. Ela parou de comer e ignorava todas as necessidades físicas. Sua pele se tornou translúcida. Seu corpo se iluminava no escuro. E à meia-noite a cada noite um

32 33 34 35 36

NT. Do hebraico, oração pública.

15

Intercurso - Andrea Dworkin
rabino vinha, descobria-a, acordava-a e beijava seus pés. Ele disse a ela que “„Os Pais Divinos estava copulando cara a cara…Essa é a hora da união.‟”37 Então ele transou com ela. Ela vinha e voltava em comas. Em sua possessão, Rechele é honrada pela comunidade. Reb Gedaliya lhe dá uma identidade através da qual ela pode saber coisas e conversar e rezar e pela qual ela é respeitada como santa: apenas através do pertencimento a um homem ela como pode ter uma identidade social; e o significado completo de pertencer a um homem – para a comunidade – é a foda sem a qual ela é socialmente apagada. O preço disso para ela é literalmente sua mente, seu corpo e por fim, seu poder de ser consciente no simples plano biológico: ela se torna em estado de coma. Sua identidade social – contigenciada a ser carnalmente possuída – se dá ao preço de sua existência humana – uma contradição paradigmática para mulheres sob o domínio masculino. A degeneração de seu novo marido é progressiva; então, por exemplo, ele traz uma prostituta para a casa deles, se envolve em sexo grupal e outras devassidões, e comete atos de sacrilégio agressivamente. Possuir é ambicioso, imperialista, sempre estendendo seu alcance; ser possuída gira em torno da morte – um fim do eu por inteiro, uma sexualidade na qual a mulher está em estado de exílio de sua condição humana enquanto tal. Não há nada pessoal deixado a ela, nenhuma personalidade, nenhuma individualidade, nenhuma soberania sobre si mesma, sem eu. Ela é usada como fêmea, abusada, mas o uso dela não para; e sexo é a mortificação de sua carne. Em estado de coma ou não, aquele mesmo lugar, o ponto de entrada para dentro dela, é ao que ela foi reduzida nesse ato cruel e mágico de decomposição metafísica. Em um mundo de possessão sexual sancionada socialmente, o significado da possessão alcança ser passada de homem em homem, ou ser despejada e usada de novo; e a cada vez que a mulher é possuída dentro dessa dinâmica social, ela é empurrada ao um nível mais profundo de coma, o efeito congregado da possessão para torná-la uma coisa de sexo, “violadas…tantas vezes que ficava sem força para se mover.” 38 Sem força, inerte, sem voz própria, mais morta do que viva, ela entra em uma nova realidade/esfera, uma nova dimensão da
37 38

16

Intercurso - Andrea Dworkin
possessão: uma coisa impessoal apreendida como algo a ser usado, ela se torna pornografia social, uma fêmea impessoalmente possuída sem remanescente de vida humana animando ou informando seu uso para o sexo. Ela é usada por homens impessoalmente sem nenhuma referência a ela como humana e nenhuma compreensão dela como um indivíduo. Enquanto pornografia social, ela é cadáver vivo, existindo para uso sexual. Quando a vida é assoprada dentro dela por um dybbuk, o espírito mau entra dentro dela, e ela se torna um monstro sexual, uma caricatura grosseira da sexualidade feminina putativa, exposta ao público pelo dybbuk como sendo violada e uma coisa suja para o sexo. O dybbuk é um emblema marcante dessa possessão impessoal; um estuprador imortal, forçando-se dentro de uma mulher. Rechele dormiria, e quando acordasse “suas pernas doeriam de tanto subir na esfera celestial.” 39 Ela não poderia comer ou rezar, sua boca estava seca, seu estômago distendido, ela estava fria, ela não podia levantar sua cabeça: “Com frequência seu coração palpitava como numa criatura vivente; algo contraía-se, enrolava-se, torcia-se como uma cobra embutida nos recônditos de seu ser.” 40 Rechele é a nova amante de Satã; e ele a atormentava, estuprando-a repetidamente, injuriando-a, humilhando-a:
Puxando os cabelos individualmente de sua cabeça, ele colocava-os em sua garganta; ele a beliscava nos quadris mordia os seios dela com seus dentes irregulares. Quando ela abria a boca ele cuspia em sua garganta; ele derramava água em seu lençol para parecer que ele tinha se urinado. Ele a fez mostrar a ele suas partes privadas e a beber água imunda.41

Impregnada por Satã, ela é abandonada por Reb Gedaliya; e ela então experimenta o total aviltamento da possessão impessoal, na qual a injúria feita a ela é o que gratifica o agressor. Ela é torturada, atormentada; tem abscessos em suas coxas com vermes dentro; vomita répteis. Ela está em cativeiro, seu corpo é o parque de diversões de um sádico. Sua humilhação e sua tortura é o sexo. Ela não tem voz própria. O dybbuk fala através dela: usando linguagem vil e obscena. Ela não
39 40 41

17

Intercurso - Andrea Dworkin
tem força física própria (estando quase morta quando foi possuída por homens mortais). O dybbuk dentro dela dá força sobrenatural a ela por uma única razão: machucá-la. Levantando com facilidade uma rocha que três homens não poderiam levantar, “ela fere seu corpo com a rocha do topo de sua cabeça até a ponta dos seus pés repetidamente…”42 Parte da carga sexual da possessão impessoal para o possuidor é forçá-la a se exibir em público; destruir sua privacidade e seu corpo. O dybbuk transforma Rechele em uma vagabunda pública, uma vergonha pública, uma desgraça pública; ele a publica, como se ela fosse assim; a vira, a exibe, possuída e lasciva em público. O dybbuk fez Rechele se despir em público
e abrir suas pernas para mostrar sua nudez e provocar pensamentos transgressores nos homens: E ela jogou água e contaminou o lugar sagrado…sua perna esquerda torcida em volta de seu pescoço e a direita esticada dura como uma tábua e sua língua enrolada como a de um homem enforcado…e muitas mulheres justas testemunharam que um fedor vinha daquele mesmo lugar…43

A percepção pública de sua possessão é que é obsceno. A comunidade observa a exibição do desarranjo sexual bruto de uma mulher e sua humilhação como sendo suja; a exibição de sua genitália se torna sinônimo de sujeira. Há um repúdio social nessa possessão – uma tentativa, por fim bem sucedida, de exorcizar o dybbuk – porque a comunidade, organizada para manter o domínio masculino (e assim para protegê-la até mesmo de seus piores excessos), não pode ao final suportar a exposição não modificada da substância real e do significa final do domínio masculino: o significado da possessão sem os consolos da privacidade, romance, ou regulação social (leis, casamento). O poder dos homens sobre as mulheres – incluindo o poder dos homens de possuir uma mulher na transa – é ameaçada pela realidade social de uma possessão impessoal. A potência dos homens mortais não pode competir com a potência de um estuprador imortal, sempre o herói pornográfico; nem pode a potência de homens mortais ser desafiada pela
42 43

18

Intercurso - Andrea Dworkin
provocação sexual feminina não reguladas por suas regras e padrões de desejo. Para outras mulheres possuídas mais privadamente, possessão tendente ao coma, a devastação de ser uma puta pública, de ser usada até os limites da ganância sádica, sugere – talvez inevitavelmente, se os humanos possuem dignidade intrínseca – a necessidade de resistência; uma resistência brota da possessão erotizada. A comunidade afirma seus direitos de insistir na foda; e a comunidade afirma seus direito de manter o significado último e a consequência da possessão secreta; conhecida por homens, não por mulheres – não publicamente visíveis para mulheres; conhecida especialmente por homens que apreciam o prazer na destruição final e real das possuídas: essa destruição final é mais bem feita em segredo, em esconderijo, nas boas prisões e bordéis da pornografia esotérica; não em praça pública, não na sinagoga. A comunidade tem regras; e as regras da comunidade protegem o poder masculino. A foda é a legítima possessão sexual, efetiva em assumir o controle sobre as entranhas da mulher; mas a mulher possuída impessoalmente e pornografizada (sic) em público vai muito longe, especialmente ao expor as mulheres ao custo real da dominação masculina, ao significado real da possessão, ao seu destino final. Rechele morre. Goray estabelece limites novamente, volta a ser sagrada e religiosa, cumpridora de leis; então aqueles que fodem podem manter seu poder social e sexual; sua potência pode ser então sustentada, não ameaçada pela interface da ordem pública e da realidade privada. Num mundo de poder masculino – poder peniano – foder é a experiência sexual essencial de poder, potência e possessão; ser fodida por homens normais, caras normais. A sós, um homem fode uma mulher; ele a possui; o ato é um ato de possessão em si; o homem e a mulher o experimentam/vivenciam enquanto tal. Nem parece que a comunidade participa da transa, dando seu poder à possessão: sombras festejando ao lado da cama, conferindo o sangue nos lençóis de manhã. O ato sexual representa virtualmente a comunidade; o homem, bom soldado, ganhando espaço sobre terreno astuto. Foder é um ato sexual exemplar, um ato de possessão, íntimo, privado; o imperativo da comunidade para foder e regular a foda invisível através da própria foda.

19

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful