Gravando “O Povo Brasileiro”

Promessa é dívida. Quando da publicação do artigo “Filmando o Povo Brasileiro”, assumi o compromisso de contar aqui a outra metade da história. Então, lá vai: Dinheiro. Sempre o dinheiro! E chato ficar falando: - Eu avisei, eu avisei! Mas quando tomei conhecimento do orçamento de que dispúnhamos para captar toda a série , ficou claro para mim que não conseguiríamos fazer tudo em Super 16. A opção que me pareceu mais interessante era captar num dos formatos digitais: ou DVPro, ou DVCam.. Analisando prós e contras, conclui que o pequeno diferencial de qualidade do DVPro (4:2:2) não era suficiente para superar a universalidade e as facilidades de operação e manutenção oferecidas pelo DVCam (4:1:1). Nesses tempos de consumismo globalizado se podem formar times. Por exemplo: De um lado os PC, Volks, Sony . Do outro os Mac, Fiat, Panasonic . E eu pertenço ao primeiro time, mas estou sempre aberto à discussão (só que não agora, por favor!). Confesso que chegamos a cogitar o beta analógico, mas preços e principalmente, volume e peso, deram ganho de causa ao digital. Uma escolha sempre leva à outra: Alugar ou comprar? Eu que já tinha prometido a Santa Clara nunca mais possuir nenhum tipo de equipamento de camera, fosse de cinema ou de vídeo, quebrei a promessa e me associei à Superfilmes na compra de uma Sony DSR-300 com os acessórios básicos. Porém até que decidíssemos isso, a série seguia seu cronograma e fomos viajar para Minas para captar o “Brasil Caipira” com uma DSR-200, minha velha conhecida, pois tinha sido eu que especificara a sua compra no ano passado, quando fiz com o dono dela, Marcelo Machado, um documentário nos USA. Naquela ocasião a camereta mostrou seu valor. Gravamos com ela desde geleiras no Alaska a menos 10 C , até o Vale da Morte, no deserto de Mojave onde fazia 46 C . Nenhum pau, e ótima operação. A qualidade? Bem, é uma camera com 500 linhas de definição horizontal , mas se você comprou consciente disso, ela não vai lhe decepcionar. Limitações: Não tem regulagem de pedestal! Você pode até ajustar o hue da imagem, mas o pedestal não. Porque? Perguntem a Sony. Ela provávelmente vai responder: -O que você esperava de uma camera que custa U$ x.xxx,xx? Tem lógica... Minas Geraes. Já dá vontade de ir citando Guimarães Rosa. Me contenho em nome da objetividade. Morei no interior de Minas por cinco anos. Foram anos de exílio profissional. Mesmo assim, nunca consegui olhar para aquele “mar de montanhas” sem imaginar como seria fotografa-lo. De manhãzinha e ao entardecer forma-se um degradê de azuis que é um deslumbre. Uma paleta generosa, com mais de uma dezena de tons. Um desafio para a latitude da camera e também para o conceito de exposição do fotógrafo. O resultado está lá e é para ser visto, não descrito.

Tentei sempre compensar a amostragem menor da crominancia do formato (4:1:1), saturando mais as cores através da utilização de filtros polarizadores e enhancer. Funcionou bastante bem. A portabilidade do equipamento foi sempre um ponto alto. Documentário para mim significa camera de prontidão o tempo todo. Tudo pode acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar. Portanto, olho vivo e dedo no botão. Em outros tempos ( que já parecem a pré-história...) fiz muito documentário em 35mm com as Arris 2B. Resultava numa forma branda de halterofilismo, que me deixou com dois antebraços parecidos com os do Popeye. Deformações profissionais. Ao pé da letra... Com a camereta os problemas são de outra natureza. Uma fita que grava duas horas pode te transformar num perdulário, se você não impor uma rígida disciplina ao olhar. Em alguns momentos é bom pensar que v. esta filmando em 65mm só para conter a gastança e a língua do editor depois... No quesito sensibilidade, a criança brilhou. Interior de Minas é só 110 volts, e com aqueles fios fininhos. Para ligar um HMI de 1.2 KW tem que pedir pra desligar a geladeira e deixar o pessoal da casa sem banho quente até segunda ordem. Problemas de produção que a Fernanda Senatori tirava de letra. Pela topografia do local, quase sempre as janelas davam para um arvoredo, o que diminuía bastante o estouro da luz exterior. Como sempre, eu andava com um rebatedor de espelho para mandar o sol para dentro da casa. Uma chapa de isopor articulada se encarregava de difundir a luz na direção desejada. Tínhamos assim sempre a mesma temperatura de cor que no exterior. Se quiséssemos falsear um pouco, para simular um skylight, era só botar um ½ blue em frente do espelho. Funciona! Gosto muito de misturar fontes de luz artificial nestes interiores dia. Assim ando sempre com lâmpadas de 60 e 100 W e com a ajuda de uma “girafa”, coloco-as em campo onde quero. Acho que acrescenta um aconchego à imagem, além de ser exatamente como as casas são iluminadas por lá. Nos esbaldamos naquelas varandas generosas que circundam as casas. Só um fillzinho de rebatedor ao longe, ajudava a destacar os personagens do fundo. Senti falta de distancias focais mais longas na objetiva. A zoom, não intercambiável, tem um range pequeno, e tínhamos apenas o elemento que converte para grande angular. Para não dizer que tudo foram rosas, quando chegamos em Cristina, no alto da serra, o play-back pifou e passei a trabalhar às cegas, como se fosse cinema (sem vídeo-assist!!!). Ajudado pelo João Godoy e sua malinha mágica, fiz algumas tentativas de limpar a cabeça de reprodução, mas nunca logrei faze-lo inteiramente. Mas, como via alguns flashes de imagens gravadas, sabia que era só um problema de reprodução. Meu diretor de cena, Mauro Faria, que vem do cinema, não estressou. E foi assim que fizemos cinema..... em vídeo! Quando voltamos para São Paulo encontramos a DSR-300 nos esperando. Brinquedo novo. Leva para casa e testa daqui, experimenta dalí, grava carta de cor, tabela de cinzas, chart de resolução. É como se v. não acreditasse numa vírgula do que está no manual e quisesse , qual São Tomé eletrônico, checar item por item as especificações do produto. Haja!!!

Uma descoberta: Mesmo as cameras que se destinam ao mercado norte-americano vem com o ajuste do pedestal em 0 IRE (NTSC japonês), ao invés dos 7.5 do NTSC americano. Porque? Pergunte ao Morita... Assim, aqueles que como eu já vão colocando de cara - 5 de pedestal e - 20 de gamma, CUIDADO!!! Você pode estar esmagando os pretos... ( para os não iniciados é uma tradução prá lá de livre da expressão “Crush the blacks” usada para explicar o que acontece quando se enterra demais o pedestal de uma camera de vídeo.) On the road again. Brasil Sulino. A verba cortou os açorianos de Santa Catarina, de modo que fomos direto para o Rio Grande do Sul. Abro um parênteses: Sou um indivíduo de formação laica, materialista, mas não de todo ateu. Com tudo isso, toda vez que vou para o sul do continente americano me bate uma sensação de que já andei por lá em outras épocas. Um “dejá-vù” recorrente, que certamente tem algo a ver com o prazer que tive na adolescência ao ler a trilogia “O Tempo e o Vento” do Érico Verissímo. Confesso que a convivência com esse “alter-ego” gaúcho é muito prazerosa. A paisagem, a culinária e os modos são sintonizados por mim sem nenhum esforço. E é claro que isso se reflete nas imagens. Assim não tenho porque esconder que de todos os episódios da série em que fiz a fotografia principal (1) o que mais gosto fotográficamente é o Brasil Sulino. Uma parte do crédito vai com justiça para o meu diretor de cena, Flávio “Cariri” Frederico. Bom de olho, com pique de documentarista e ótimo companheiro. Estivemos em Porto Alegre, nas lagoas ao sul, na Serra Gaúcha e na fronteira com o Uruguay (se não gostamos que escrevam Brazil com z, eles também não gostam de Uruguai com i...) . POA é uma das capitais que mais filmei ao longo da carreira. Todos aqueles pontos de vista manjados, como aquele morro onde estão as emissoras de TV, são velhos conhecidos. Mas ao invés de evita-los tento sempre que os revisito, faze-lo com um novo olhar. Se consegui desta vez, vocês é que vão dizer. Uma coisa interessantíssima que gravamos, foram os Guaranis no centro da cidade vendendo artesanato e esmolando. Um contraste que de certa forma, antecipou as imagens das comemorações dos 500 anos em Porto Seguro, que eu veria na tv semanas depois. Outra situação insólita foi um festival umbandista nas margens do rio Guaíba. Pais e Mães de Santo loiros, alguns de celular. Despachos com quindim e vinho tinto. Fez um entardecer maravilhoso com sol dourado e nuvens negras do lado oposto ao poente onde se formava uma tempestade. Por sorte, só resultou num chuvisco irritante, de encomenda para respingar a objetiva a cada dois minutos. Fomos numa favela que dava de dez em muito bairro popular de São Paulo e Rio. O produtor local, Fernando Tielzmann, insistia em que era um local perigoso, mas o máximo que conseguiu de nós foi a observação de que seu umbral para a violência urbana era quase europeu se comparado ao nosso. Num esforço para conseguir algum material sobre a colonização açoriana e também para captar algo da natureza da região lacustre , fomos passar um dia na Lagoa do Peixe. Chegamos em Mostardas, uma pequena cidade de colonização açoriana, onde nos juntamos aos guias do Parque Nacional da Lagoa do

Peixe . Deixamos nossos carros e embarcamos em duas caminhonetes off-road, as únicas capazes de enfrentar as areias da restinga. Captamos belas imagens de vida selvagem. Muitos pássaros, animais silvestres e vegetação típica. Mas o que mais nos impressionou foi uma cidade fantasma à beira mar. Por estar no perímetro do parque, seus habitantes foram forçados por decisão judicial a abandonar o local. O que restou lembra um cenário abandonado, com as casas sendo encobertas pelas areias que o vento constante movimenta. Antes da volta para Porto Alegre ainda enfrentamos problemas mecanicos com um dos veículos, o que acabou dando um ar de aventura a excursão. No dia seguinte, deixamos para trás a rua da Praia e subimos a serra. Aí foi a glória. Paisagens lindíssimas. Vegetação bem preservada. Campos cultivados. A luz meridional ajuda dourando a cena nos finais de tarde, e projetando longas sombras sobre a paisagem. Ênfase especial na cultura material dos imigrantes italianos e alemães: Vitivinicultura, pecuária, agricultura de subsistência e pequenas indústrias caseiras. Houveram momentos em que ficou difícil manter a tal disciplina do olhar e gravamos um monte! Peço perdão as editoras Vania Debs e Idê Lacreta , sempre tão benevolentes e elogiosas com o nosso trabalho. Na última etapa, fomos até a fronteira Santana do Livramento – Rivera. Já estive em muitos tipos de fronteiras: belicosas como Chile-Perú e Perú-Equador, amistosas como Noruega-Suécia e França-Itália, ou ainda vigiadas e agitadas como a do México com a Guatemala, onde certa vez fui detido sob suspeita de ser um imigrante ilegal. Mas a fronteira Brasil-Uruguay é o máximo em matéria de confraternização e amizade entre povos. Na praça principal na noite de domingo, um enorme footing como eu não via há anos, misturava nacionalidades num portunhol (ou castelhês) cordial. Em mais de um momento fiquei sem saber em que país estava e a frase do Francelino Pereira, “Que país é esse?” assumiu uma concretude insólita. A sorte andava junto o tempo todo, e assim foi que por puro acaso fomos levados na tarde deste mesmo domingo, a uma festa campeira gaúcha, com direito a concurso de laço, corrida em cancha reta e doma de cavalos. Tudo regado a chimarrão e churrasco, e com uma direção de arte e figurinos primorosos. Foi um daqueles momentos em que você se convence definitivamente que qualquer esforço, por maior que seja, de reconstituir uma situação daquela num filme de ficção, vai ficar muito aquém do que você esta presenciando. No dia seguinte viajamos para gravar numa estância remota. Chuviscava. O céu apresentava várias camadas de nuvens em tons de violeta. O contraste cromático com o verde da pastagem era quase irreal. Coisa de telecine. Bem no final do dia, o sol se infiltrou por entre as nuvens numa “luz de milagre”. Foram 15 minutos de deslumbramento fotográfico. Se durasse mais, baixava Nossa Senhora... À noite fizemos uma roda de chimarrão e “causos” com os peões da estância. Usei a lareira como referência de luz principal e com 3 refletores entre 300 e 650W fiz uma daquelas “luzes naturalistas” para a qual o maior elogio acontece quando perguntam: -“ Mas aquilo ali foi iluminado?”

Gastronomicamente, foi o trecho mais interessante da viagem. Dormíamos no Brasil, mas comíamos no Uruguay. A parrilha uruguaya, com seu sistema de fazer o carvão na hora, confere as carnes um defumado especial que encontra a parceria perfeita no bouquet dos vinhos da Calvinor. Desculpem a digressão. Virou “Comer Bem”. O último módulo de gravações, referente a Amazônia também dirigido pelo Flávio “Cariri” Frederico, foi fotografado pelo meu amigo e parceiro de tantos projetos, Adrian Cooper, que como sempre brilhou. O formato também foi aprovado por ele com muitos elogios. O resultado do material captado em DVCam surpreendeu a nós todos. Durante o tape-to-tape que antecedeu o on-line no Symphony, fiquei impressionado com a uniformidade conseguida no intercut entre o material captado em vídeo digital e o super 16. Para documentários destinados à tv é a solução perfeita, pois associa qualidade de imagem e som, portabilidade e baixo custo. Ou seja: tudo o que o produtor independente busca para o seu projeto. A série “O Povo Brasileiro”, produzida em dez episódios de 30 min pela SuperFilmes de São Paulo, estreia na primeira quinzena de julho no canal GNT . Estão todos desde já convidados. (1) Além de mim e do Adrian Cooper, o José Guerra (Guerrinha ) também fez a fotografia principal em um episódio, além de ter fotografado a entrevista seminal do projeto com o Darcy Ribeiro.