Viso · Cadernos de estética aplicada

Revista eletrônica de estética
ISSN 1981-4062 Nº 12, jul-dez/2012

http://www.revistaviso.com.br/

Nietzsche-poeta
Henry Burnett

In many ways. e os comenta em duas frentes: aproximando-os de obras publicadas por meio de comentários críticos e propondo uma interpretação musical a partir da tradução poética de Rubens Torres Filho. It is based on Gérard Lebrun’s selection of Nietzsche’s poems. I will comment these poems following two directions: approaching them to published works by means of critical comments and also proposing a musical interpretation of the poetic translation of Rubens Rodrigues Torres Filho. Palavras-chave: Friedrich Nietzsche – Rubens Rodrigues Torres Filho – poesia – Alemanha – música ABSTRACT Nietzsche-poet Nietzsche’s poetic work. In them Nietzsche condenses many issues and classic experiences presented in his books.12 jul-dez/2012 RESUMO Nietzsche-poeta Quase sempre marginal em relação à obra em prosa. This essay presents his poetic in broad outlines. mas não pretende ser uma crítica exaustiva de toda obra em verso. seus poemas espelham seu pensamento filosófico. De várias maneiras. Neles. but is not intended to be an exhaustive review of his work in verse. Este ensaio apresenta as linhas gerais de sua poética. his poems reflect his philosophical thought. como um prolongamento de sua obra e de sua vida. almost always marginal in relation to work in prose. da clássica coleção Os Pensadores. selecionados por Gérard Lebrun. occupies notwithstanding a significant place among his writings. Toma como base o recorte do conjunto de poemas traduzidos por Rubens Rodrigues Torres Filho para o volume “Nietzsche”. Keywords: Friedrich Nietzsche – Rubens Rodrigues Torres Filho – poetry – Germany – music Nietzsche-poeta · Henry Burnett .Viso · Cadernos de estética aplicada n. Nietzsche destila muitas questões e vivências clássicas que foram apresentadas em seus livros. translated by Rubens Rodrigues Torres Filho to the classical edition of Nietzsche’s work in Os pensadores collection. a obra poética de Nietzsche ocupa um lugar significativo entre seus escritos. as an extension of his work and his life.

mas ao inverso. Trata-se.. cujas obras teóricas foram preteridas em razão do alcance da obra musical. Aqui. esteta e até mesmo filósofo. Para muitos. mas não só. ou talvez fosse melhor dizer diluídos.Ao Paulo Vieira e ao Rubens Rodrigues Torres Filho: poetas. o leitor desavisado poderia achar que se trata de um excesso típico de uma juventude. sobretudo Viso · Cadernos de estética aplicada n. O mesmo se deu. dedicada aos poemas de Nietzsche em alemão. assaltar leitores incautos diante do volume da produção do Nietzsche-poeta. ele foi tido como poeta. mas de uma produção poética com todos os seus percalços. realçando seu valor para um leitor de poesia e de filosofia atual. no âmbito deste ensaio. como diríamos de um poeta bissexto. e sua verve filosófica. além de ter sido um compositor referencial na história da música. podemos sondar de modo seguro essa dupla face da obra de Nietzsche. não se trata de uma análise extensa ou mesmo crítico-literária da produção poética de Nietzsche – tarefa que ocuparia um livro inteiro e exigiria dispositivos próprios da área. tão somente. cheia de excessos. O mesmo espanto que possa acometer o leitor atual ao descobrir esse Wagner-escritor pode. ainda hoje. É quando começamos a descobrir que Wagner foi um prolífico escritor. se tomarmos a disposição elaborada em uma edição cuidadosa. encontraremos a seguinte distribuição dos ciclos dessa poética: Nietzsche-poeta · Henry Burnett . caso ela pudesse ser isolada. cobrindo o período que vai de 1878 a 1908 (abarcando publicações e descobertas póstumas). de um comentário que pretende dar destaque à relação de alguns desses poemas com a obra filosófica de Nietzsche. marcando precisamente a distância e o vínculo entre o que seria sua produção poética. teatrólogo. naturais e técnicos? E onde esses domínios se afastariam na sua própria escrita? Ou ainda: podemos distinguir essa dupla origem utilizando a distinção entre natureza (poética) e cultura (filosófica)? Os poemas de Nietzsche estão dispersos. em certa medida. Com isso. de 1872.. em muitos livros.12 jul-dez/2012 Introdução No primeiro prefácio d’O nascimento da tragédia. Essa tarefa daria bem a medida de um tema recorrente da própria estética nietzschiana: onde se separam os domínios instintivos e conscientes. quando Nietzsche ainda prestava contas de sua leitura do famoso texto de Wagner – Beethoven –. mas. mormente para os wagnerianos. com o compositor. A estes leitores cabe adiantar que não estamos falando de alguns poemas esparsos. outra face manteve sua poesia quase proscrita: o peso da obra crítica e filosófica. exagerando ao ponto de quase afirmar que sua influência teria sido fundamental para a redação do livro recém-lançado. Como no caso de Wagner.

oito poemas intitulados “Idílios de Messina” foram publicados em uma revista mensal e.12 jul-dez/2012 . Anhang.1 Como se vê. Além do bem e do mal (inclui Aus hohen Bergen.1882/18872. 1884. traduzidas por Paulo César de Souza (com exceção d’O nascimento da tragédia.Lieder des Prinzen Vogelfrei (Zyklus 1887) . antes de uma disposição organizada em ciclos. demasiado humano II (nenhum poema foi incluído) . Nietzsche visitara Messina. A gaia ciência (inclui o “maior conjunto de poemas reunidos pelo autor”. Da pobreza do mais rico) Nietzsche-poeta · Henry Burnett .1878.Outros poemas . dispersa nos livros em prosa. depois de saírem em Aurora.Poemas em prosa São variações editoriais de uma poesia errante. não se trata de um conjunto fragmentário. List und Rache. Nachgesang. Nietzsche contra Wagner (inclui Von der Armuth des Reichsten. Do alto dos montes. 1885. mas não de modo aleatório.1881. um epílogo) . e sim como espelhamento das ideias neles contidas. com várias alterações) .1888. Lieder des Prinzen Vogelfrei. inclui Unter Freunden. Se considerarmos a edição brasileira das obras. Nietzsche organizou sua produção poética com o mesmo esmero que o fez quando preparou seus livros para publicação – é o que se pode concluir ao identificar a disposição dos poemas no interior dos livros publicados.1888. no dizer do tradutor brasileiro. Canções do príncipe Vogelfrei) . Genealogia da moral (nenhum poema incluído) .1883.1886.. demasiado humano I: um livro para espíritos livres (a 2ª edição.Ditirambos dionisíacos . Na citada edição portuguesa a organização segue outra estrutura: . Vorspiel in deutschen Reimen (Sammlung 1882) . Humano.1887.1879/1880. Apêndice. Aurora (segundo nota do tradutor. Entre amigos. Canção-epílogo) . podemos perceber melhor como Nietzsche distribuiu seus poemas de acordo com uma ordem clara no interior das obras publicadas: Viso · Cadernos de estética aplicada n. em 1886. O caso Wagner (nenhum poema incluído) . como designa a edição alemã. O nascimento da tragédia (nenhum poema foi incluído) . Partien nach dem Erstdruck 1891). em abril de 1882.Scherz.Idyllen aus Messina (Zyklus 1882) . [Die Lieder Zarathustra’s] (Zyklus. foram incorporados em sua maioria à 2ª edição d’A gaia ciência. de 1886.1872. como parte das “Canções do príncipe Vogelfrei”. traduzido por Jacó Guinsburg). Ein Nachspiel. na Sicília.Dionysos-Dithyramben.Fragmentos de ditirambos dionisíacos (Canções de Zaratustra) . como resultado. Aparentemente. Assim falou Zaratustra (nenhum poema incluído) . Humano.

mas não são menos importantes por isso. Parece-me dispensável deixar registrado que os poemas só foram incorporados ao ambiente da canção brasileira em razão das soluções encontradas pelo tradutor. reúne nove poemas dedicados a Dioniso. 5 Por fim.12 jul-dez/2012 Nietzsche-poeta · Henry Burnett . Além de possibilitar uma porta de entrada à poesia de Nietzsche. a escolha das traduções tem ainda outra razão fundamental: os poemas traduzidos por Rubens Torres Filho foram musicados pelo autor deste ensaio e fazem parte. primeiramente.Ditirambos de Dionísio (incluído entre os “manuscritos autorizados” da eKGWB. o verdadeiro “exercício de interpretação” que está na base deste pequeno ensaio. como se lê em uma nota às traduções na edição d’ A gaia ciência. traduzidas limitando-se a “verter quase literalmente os poemas”. Crepúsculo dos ídolos (nenhum poema incluído.. Recorte Para nosso intento aqui. Glaura? Tem ido ao cinema?” e “Trovas populares” –. como tentarei mostrar. de resto despretensioso do ponto de vista crítico-literário. sem data. notabilizado como um dos primeiros intérpretes da obra de Nietzsche no Brasil. tomaremos como base o conjunto de poemas traduzidos por Rubens Rodrigues Torres Filho para o volume Nietzsche. o título de “Canções de Zaratustra”). e nem foi essa a intenção no caso declarado de Paulo César de Souza. Os textos para esse volume da coleção foram selecionados por Gérard Lebrun.1889. junto com alguns poemas do próprio tradutor – como “E de resto. divide espaço com O anticristo. como apêndice: Fala o martelo) . à exceção de uma compilação não inédita extraída de Assim falou Zaratustra. sem dúvida. com os originais em alemão ao lado e com o áudio ao final. cabe dizer que nenhuma tradução dos poemas de Nietzsche para o português atingiu o grau de fidelidade literária deste trabalho. recebeu. sem dúvida. Os poemas incluídos no volume abarcam alguns dos temas mais importantes tanto no conjunto da obra poética quanto em seus vínculos com a obra publicada em prosa. esses poemas são o apêndice do volume. dirigido por Yanete Aguilera (em fase de produção). Abaixo.6 Viso · Cadernos de estética aplicada n. escolhida por Nietzsche para figurar ao final do livro. o que explica. Sobre a escolha dessas traduções cabem algumas considerações. transcreveremos os poemas na íntegra. o rigor e a precisão do recorte. Pouco frequentada nas produções acadêmicas como fonte de comentários – tendo recebido uma atenção modesta em comparação com as obras ditas filosóficas – a seleção em questão dá bem a medida do todo dessa produção e de seu significado para os leitores de Nietzsche no Brasil. 3 Na edição brasileira. como a reproduzir o lugar da poética no conjunto da obra. 4 Entretanto. As intervenções musicais sobre os poemas disponibilizadas aqui constituem. da coleção Os pensadores. da trilha sonora de um documentário sobre sua vida e obra.

. na sonolência De escuras árvores. Hört’ ich ticken. Sie sind ein Dichter“ Achselzuckt der Vogel Specht. E dá de ombros o pica-pau. Zeil’ an Zeile. Bis ich gar. Sie sind ein Dichter“ Achselzuckt der Vogel Specht. ich. Fiquei zangado. lachen Eine Viertelstunde lang. Wessen harr’ ich hier im Busche? Wem doch laur’ ich Räuber auf? Ist’s ein Spruch? Ein Bild? Im Husche Sitzt mein Reim ihm hintendrauf. — „Ja. tão apressado. Vesgo versinho. – “Sim. Und es giebt grausam Gelichter. Unter dunklen Bäumen sass. ele morre à ponta da seta Ou cambaleia. eu sozinho. meu senhor. na edição de 1886. zittert. E vendo o verso cair. penso eu. bem de mansinho. Reime. E ri por um bom quarto de hora. E dá de ombros o pica-pau. sois um poeta”. Wenn der Pfeil in edle Theile Des Lacerten-Leibchens dringt! Ach. wie nach Takt und Maass. mein Herr. publicados Ainda outro dia. Trunkne Wörtlein. Oder taumelt wie bezecht! — „Ja. Rimas. um taque. Schiefe Sprüchlein voller Eile. sois um poeta”. Wie mir so im Verse-Machen Silb’ um Silb’ ihr Hopsa sprang. Por quem espero aqui nesta moita? A quem espreito como um ladrão Um dito? Imagem? Mas. um poeta? Tu. saltando fora. meu senhor. mich zu erquicken. Sílabas. E dá de ombros o pica-pau. de repente. rir. Sie sind ein Dichter“ Achselzuckt der Vogel Specht.) Viso · Cadernos de estética aplicada n. como em cadência. Ai. E dá de ombros o pica-pau. Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta Em verso o poeta. sois um poeta”. fechei a cara – Mas afinal me deixei levar E igual a um poeta. serão como dardos? Que rebuliços. mein Herr. Was nur schlüpft und hüpft. Das dies — freut? | Sind Dichter — schlecht? — „Ja. que nem repara. Höhnst du. — Endlich aber gab ich nach. Em tique-taque me ouvi falar. arme Wichter. meu senhor. sind wie Pfeile? Wie das zappelt. meu senhor. | gleich sticht der Dichter sich’s zum Vers zurecht. ave? Queres brincar? Nietzsche-poeta · Henry Burnett Als ich jüngst. tiquetaqueado. Cai na corrente. wie sich’s drängt! Bis ihr Alle. leise ticken. Tu zombas. Du ein Dichter? Du ein Dichter? Steht’s mit deinem Kopf so schlecht? — „Ja. saltos e sustos. justo e por igual. Tive que rir. Ouvi batendo. Sie sind ein Dichter“ Achselzuckt der Vogel Specht. mein Herr. Um tique. Musst’ ich plötzlich lachen. psiu! Afoita Salta à garupa rima e refrão. sois um poeta”. poemas de 1882-1884. Zierlich. Vogel? Willst du scherzen? . cadente.Poemas I Vocação de poeta7 em apêndice à Gaia Ciência. ihr sterbt dran. Existe laia tão cruel e abjeta Que isto ainda – alegra? | O poeta – é mau? – “Sim. um poeta? Tua cabeça está assim tão mal? – “Sim. Böse wurd. springt. gleich einem Dichter. upa. Tu. Bêbada corre cada palavrinha! Até que tudo. mein Herr. Se o dardo agudo vai acertar dos Pobres lagartos os pontos justos. zog Gesichter. An der Tiktak-Kette hängt. linha após linha. mein’ ich. Selber mit im Tiktak sprach. o ébrio animal! – “Sim..12 jul-dez/2012 Dichters Berufung (Das canções do Príncipe Livrepássaro.

própria do poeta-filósofo. fürchte meinen Grimm! — Doch der Dichter — Reime flicht er Selbst im Grimm noch schlecht und recht. mas é também onde encontramos a ambivalência de seu Nietzsche-poeta · Henry Burnett . O poema fala da captura das palavras nos versos A quem espreito como um ladrão?/ Um dito? Imagem? Mas psiu! Afoita/ Salta à garupa rima e refrão . sua obra resulta dessa tensão. o poeta não hesita em concluir o poema com uma exposição pessoal de seus males. ditada por uma probidade inamovível. De muitas formas. Sie sind ein Dichter“ Achselzuckt der Vogel Specht. Próximo do que chamaríamos hoje de uma metapoesia.12 jul-dez/2012 Para ouvir: https://soundcloud.com/henry_burnett/1-vocacao-de-poeta O poema nos coloca diante de um dilema no qual Nietzsche esteve imerso senão a vida inteira. como um criador sem consciência de seu fazer poético. os vínculos estreitos entre vida e obras – no plural. quase a demonstrar que não era preciso temer a língua divinizante da poesia. Para Nietzsche. separando aqui. que um dos lados seria escolhido – talvez não possamos nem mesmo distinguir radicalmente poesia e filosofia. o poema é também um momento de introspecção tenso. Mas a exposição dessa dualidade. de questionamento sobre a força da poesia como linguagem adequada para expressar um projeto que flutuava entre o impulso estético e o teor moral. comprovando certa fragilidade. a pergunta de fundo poderia ser ‘para quê poesia’? Existe laia tão cruel e abjeta/ Que isto ainda – alegra? O poeta – é mal? Por outro lado. se considerarmos que. a poesia parece ideal para acertar seus alvos. mein Herr. com a qual poderiam ser expressas quaisquer coisas. Rimas. Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta/ Em verso o poeta. zombas. — „Ja. justo e por igual. serão como dardos? A duplicidade mostra que Nietzsche mantinha o jogo livre entre poesia/filosofia. instinto/razão. o pássaro. principalmente a filosofia. que nem repara . sempre – o poeta. Na raiva mesmo sempre certo e mau. meu senhor./ Meu coração pior há de estar? Isso por si bastaria para notarmos. eles acabaram por se fundir no estilo aforismático de Nietzsche. perdido em meio a esse compor inconsciente. Mas. natureza/cultura. o poema joga com a capacidade mesma de se fazer versos e da sua função. sois um poeta’/ e dá de ombros o pica-pau . não significa que uma tomada de posição viria adiante. Schlimmer stünd’s mit meinem Herzen? Fürchte. ou seja. – “Sim. Meu coração pior há de estar? Ai de ti. forçadamente. ave? Queres brincar?/ Se está tão mal assim minha cabeça. para adiante descrever o quase dom natural do ofício. A dispersão desse indivíduo deslocado no tempo que se julga igual a um poeta. Trata-se do drama vocacional que o dividia entre a exacerbação de sua paixão pela poesia e pela música e sua tarefa intelectual plena. Em meio à falsa dúvida. meu senhor. as esferas artística e filosófica. penso eu. a rigor. além do jogo entre fazer e sentir. Viso · Cadernos de estética aplicada n. sois um poeta”. repete o que podemos chamar de estribilho do poema: ‘Sim. figura que tornará a aparecer em outros poemas. Tu. Afinal. que minha raiva cresça! – Mas trança rimas. certamente em grande parte dela. numa aproximação superficial. já naquele momento. sonho/realidade. Steht’s mit meinem Kopf schon schlimm. E dá de ombros o pica-pau.Se está tão mal minha cabeça. contrasta com a dúvida sobre a potência dos versos.

Thurm und Hafen. O pé ante pé faz o alemão pesar. Ein Vogel lud mich her zu Gaste.12 jul-dez/2012 Im Süden Eis-me suspenso a um galho torto E balançando aqui meu cansaço.uso. Cantar a sós – já é para os parvos! Nietzsche-poeta · Henry Burnett So häng’ ich denn auf krummem Aste Und schaukle meine Müdigkeit. isso talvez precise ser ainda demonstrado. no espaço. neuem Spiel… Einsam zu denken nenn’ ich weise. idílios. Wo bin ich doch? Ach. Vernunft! Verdriessliches Geschäfte! Das bringt uns allzubald an’s Ziel! Im Fliegen lernt’. longe. Penhasco. weit! Ach. podemos entender com mais clareza a extensão daquela afirmação autocrítica. Seus poemas mantiveram vivo esse desejo de expressar-se na arte para repensá-la. Idylle rings. Não cabe aqui discutir o valor literário puro e simples desses versos.. — Schon fühl’ ich Muth und Blut und Säfte Zu neuem Leben. purpúrea. dormindo absorto. Und purpurn steht ein Segel drauf. Razão! Trabalho pesado e ingrato! Que vai ao alvo e chega tão cedo! No voo aprendo o mal que me eiva – Já sinto ânimo. me acolhe nela! Só a passo e passo | – é como estar morto. Aprendi com pássaros leveza e salto – Ao sul voei. weit! Das weisse Meer liegt eingeschlafen. drin ich raste. Mandei o vento levar-me ao alto. Ich hiess den Wind mich | aufwärts heben. tão branco. Fels. Com os poemas posicionados à sombra das obras. metafórica. Uma revolução filosófica.. Doch einsam singen — wäre dumm! . Stets Bein vor Bein macht | deutsch und schwer. da ética à metafísica. — Unschuld des Südens. ich. torres e cais. a continuação de uma célebre reflexão sua acerca da necessidade de ter cantado seu primeiro livro e não escrito como um tratado filológico. Balir de ovelhas e figueirais. Feigenbäume. E ali. e sangue e seiva De nova vida e novo brinquedo. Se ele tentou transpor para a forma do aforismo a potência estilística da poesia. II No sul8 (Das Canções do Príncipe Livrepássaro) Viso · Cadernos de estética aplicada n. Ich lernte mit den Vögeln schweben. mas não resta dúvida que esse espelhamento dos temas centrais da obra filosófica nos poemas interliga essas duas frentes de modo nítido. e permite que façamos da leitura dessa poesia aparentemente diletante uma fonte tão importante quando um fragmento póstumo. que ele não foi. e assim recolocar diversas outras questões em xeque. Sul da inocência. nimm mich auf! Nur Schritt für Schritt | — das ist kein Leben. was mich äffte. Sou convidado de um passarinho E aqui repouso. Mas onde estou? Ai. onde está seu ninho. por sobre o mar. Quem pensa a sós. O mar. vai uma vela. antes mostrar que não houve um abandono da forma do verso. — Nach Süden flog ich über’s Meer. estética e estilística não poderia ser feita utilizando-se dos mesmos subsídios que sustentam o presente historicista e cientificista que precisava ser superado. de sábio eu trato. Ein Vogelnest ist’s. ou talvez da forma poética. Geblök von Schafen. imagética em nenhum momento do percurso produtivo de Nietzsche.

O contraste aqui requer uma pequena digressão. No norte amei – e confesso a custo – Uma mulher. Adiante. o mais aparelhado de imagens. porque para Nietzsche o “sul” é sinônimo de liberdade.12 jul-dez/2012 Para ouvir: https://soundcloud. vai uma vela. região italiana para onde Nietzsche viajara pela primeira vez no outono de 1876./ Penhasco./ E ali. uma saída de teias invisíveis que poderiam se estender em forma de dominação tanto a partir da filosofia quanto da arte. “prova” das virtudes rítmicas do poeta: a crítica da filosofia. tão falsos. dormindo absorto./ Balir de ovelhas e figueirais. Mandei o vento levar-me ao alto.com/henry_burnett/2-no-sul Dos poemas selecionados por Lebrun este é.Estou cantando em vosso louvor: Fazei um círculo e. tão inconstantes. mas neste verso especialmente. em inúmeros momentos de sua obra. a convite de sua amiga Malwida von Meysenbug e que mudaria o curso de sua filosofia. por sobre o mar. 9 A referência é fundamental. digamos. vinde sentar-vos! Jovens. O mar. | alt zum Schaudern: „Die Wahrheit“ hiess dies alte Weib… Viso · Cadernos de estética aplicada n. uma fuga que sempre lhe pareceu essencial. cais funerais. O sul é como uma falsa metáfora. como uma ferina observação sobre os “modos” alemães contra os quais Nietzsche foi sempre irônico. Eingeschlafen – Hafen Shafen.nimm auf são vertidas com leveza para os pares vela . livre de relações imediatas com conteúdos explícitos da obra filosófica de Nietzsche. já no título. Mas outra característica deste poema é ainda mais importante que essa. so falsch. o mais próximo de uma poesia autônoma. ou da forma de exercê-la. talvez licenciosamente. idílios. tão branco. Drauf . por exemplo – mas de um escape. herum! So jung. Razão! Trabalho pesado e ingrato!/ Que vai ao alvo e chega tão cedo! Nietzsche dilui aqui uma dura Nietzsche-poeta · Henry Burnett .. a liberdade de superar seus pares num momento de exacerbada preparação nacionalista na Alemanha. Ihr schlimmen Vögelchen. Um pássaro novamente lhe dá a medida do impossível. essa crítica aparentemente regional se revela mais ampla. torres e cais.nela./ O pé ante pé faz o alemão pesar poderiam ser lidos. Pareceis feitos bem para amantes E em passatempos vos entreter. o nome dessa mulher. ao meu redor./ Sul da inocência. é uma referência direta a Sorrento. mas também de uma tensão fundamental de sua obra. em vários trechos. Malvados pássaros. Os versos Só a passo e passo – é como estar morto. velha de dar susto: “Verdade”. por assim dizer. O sul. Lendo o verso seguinte a resposta é um sim inevitável. me acolhe nela! O tradutor brasileiro manteve as rimas com uma engenhosidade só disponível a outro poeta. porque não se trata de uma oposição clara em termos geográficos – Alemanha x Itália.. purpúrea./ Aprendi com pássaros leveza e salto/ Ao sul voei. A imagem do voo por sobre o mar fala por si. dividida entre o rigor de uma filosofia que ele julgava aprisionada – na qual sua obra causou uma cesura – e um pensamento que muitos chamam ainda hoje de “musical”. so umgetrieben Scheint ganz ihr mir gemacht zum Lieben Und jedem schönen Zeitvertreib? Im Norden — ich gesteh’s mit Zaudern — Liebt’ ich ein Weibchen. a imagem de uma direção essencial. So hört ein Lied zu eurem Preise Und setzt euch still um mich im Kreise. o mediterrâneo foi.

Só curvo vale e longo desdém São seus encargos. de sábio eu trato/ Cantar a sós – já é para os parvos! uma clara alusão às duas esferas com as quais Nietzsche conviveu longamente. os pássaros surgem como antíteses da imagem anterior. tão falsos. Weiß nicht. o que faz todo sentido. E explica: Estou cantando em vosso louvor. 1871-1888) Viso · Cadernos de estética aplicada n. o nome dessa mulher.. onde aparecem apenas no último verso. isto é.observação sobre o pensar e o fazer filosofia.. realmente a sós. vivo e redentor. Já cantar a sós não é possível. que me fizeste! Que meu sentido e pé retiveste. e sangue e seiva/ De nova vida e novo brinquedo. podemos entender que alguém crie seu sistema imerso na solidão. pensar. parece tarefa de tolos. minha ave. nesse caso. vinde sentar-vos! Notemos que. tão velha que não é mais digna de desejos. Já os versos finais No norte amei – e confesso a custo –/ Uma mulher. diz ele. Primeiro. Adiante. e servem como condenação da “feiura” dessa velha mulher chamada verdade. Um passarinho canta na noite: “Ai. já que o conteúdo erótico – raro de se manifestar de modo tão direto em Nietzsche – ganha destaque somente em português).. como um exercício público. tão inconstantes/ Pareceis feitos bem para amantes/ E em passatempos vos entreter. Jogo virgem entre saber. velha de dar susto:/ “Verdade”.. — — „Ach Vogel. ao meu redor. extremado. e não estão na mesma posição no original.. Nietzsche-poeta · Henry Burnett Es geht ein Wandrer durch die Nacht Mit gutem Schritt. pela primeira vez. mesmo se repetido: No voo aprendo o mal que me eiva –/ Já sinto ânimo. Aonde vai seu caminho ainda? Nem sabe bem. o homem moderno. onde tece uma mistura em forma de jogo entre erotismo e uma condenação quase pueril da procura pela verdade filosófica. III O andarilho10 (Dos Poemas. (importante notar que o local das reticências depois do verso de aparente pendor erótico são do tradutor brasileiro. simplesmente.12 jul-dez/2012 Der Wanderer Um andarilho vai pela noite A passos largos. distinta daquele ser alado que lhe ensinara leveza e salto na 3ª estrofe. A noite é linda – Mas ele avança e não se detém. Jovens. melhor pensarmos. Und krummes Thal und lange Höhn Er nimmt sie mit. Esse vaivém não para por aqui. O poema encerra com momentos distintos e até mesmo surpreendentes. wohin sein Weg noch will. ou menos. Fazei um círculo e. são os sábios. E pede. — Da singt ein Vogel durch die Nacht. diz Nietzsche sem ironia aparente./ malvados pássaros. fazem contraponto à juventude sensual do verso anterior. Die Nacht ist schön — Er schreitet zu und steht nicht still.. encontramos nos versos Quem pensa a sós. sobre o olhar e a mimese própria da criança que se inebria com a vista do novo. „Die Wahrheit“ hiess dies alte Weib…. Ousar interpretar o que seriam os passatempos eróticos de Nietzsche com jovens é tarefa árdua e talvez facilmente desviante para caminhos pouco úteis aqui. was hast du gemacht? Was hemmst du meinen Sinn und Fuß . Aqui eles são a representação total do seu maior inimigo. escrever e jogar.

Caminhar em direção ao desconhecido sim era importante. A história descreve um andarilho. nein! Dich | grüß ich nicht Mit dem Getön. arme Wandersmann!“ Viso · Cadernos de estética aplicada n. daß ich stehen muß Und lauschen muß. Isso porque ele não foi um pensador isolado de seu tempo – talvez apenas metaforicamente. como pode parecer. pobre homem da andança!” Und gießest süßen Herzverdruß Ins Ohr mir. mormente os que tendem a valorizar tal solidão como fruto de certa “rebeldia” – algo que pode facilmente confundir e tornar indiferente o significado da solidão e do isolamento como algo determinante em todo o percurso intelectual de Nietzsche. O caminho que conduz esse andarilho sempre adiante não é claro. pois nessa desventura residia uma possibilidade de escapar da armadilha niilista de sua época. Sua solidão está exposta no poema de modo nítido: A noite é linda –/ Mas ele avança e não se detém/ Aonde vai seu caminho ainda?/ Nem sabe bem. ou resultado dela. sua obra resulta justamente da amplitude de suas leituras e de suas interlocuções. quase um conselheiro. antes Nietzsche-poeta · Henry Burnett . sua autobiografia. em nenhum momento. Como em vários momentos de sua obra em prosa. andar. andarilho! Não é a ti não. Que chamo aqui Com a canção – Chamo uma fêmea de seu desdém – Que importa isso a ti também? Sozinho. a noite não está linda – Que importa a ti? Deves ainda Seguir. um caminhante aparentemente imerso em grande angústia. Que ainda paro E presto atenção? – Por que me lanças teu chamariz?” – A boa ave se cala e diz: “Não. Du Wandersmann?“ Der gute Vogel schwieg und sann: „Was tat mein Flötenlied ihm an? Was steht er noch? Der arme. é um tabu para Nietzsche. como se ela fosse parte de sua tarefa. mas agora como um interlocutor presente. Homem da andança?” A boa ave se cala e pensa: “O que lhe fez minha flauta mansa. ele a suporta sem resignação. um espelhamento entre vida e obra que lhe custou caro. é também de si que ele está falando no poema.com/henry_burnett/3-o-andrarilho O poema traz o personagem alado novamente. nos coloca no centro de um dos grandes motes da filosofia de Nietzsche: a solidão. um cenário que. extemporaneamente –. Ein Weibchen lock' ich von den Höhn Was geht's dich an? Allein ist mir die Nacht nicht schön Was geht's dich an? Denn du | sollst gehn Und nimmer. nimmer stille stehn! Was stehst du noch? Was tat mein Flötenlied dir an. E nunca. dos limites de uma vida que nascia anunciando seus fins. uma vergonha que precisa ser mascarada. Quem lê algumas páginas de Ecce Homo.12 jul-dez/2012 Para ouvir: https://soundcloud. Ao contrário. A noite inebriante não é algo obscuro.E escorres mágoa de coração Tão docemente no meu ouvido. como ele diria. ou. Was lockst du mich mit Ton und Gruß?“ — Der gute Vogel schweigt und spricht: Nein Wandrer. pode perceber que a solidão. de imediato. nem para ele mesmo. Que fica ainda? – O pobre. Mas que também permite recolocar uma separação muito importante aos seus leitores. nunca. nunca parar! Ficas ainda? O que te fez minha flauta mansa.

dass sie kommen: macht dunkel um mich mit euren Eutern! — ich will euch melken. “mais luz. Richard Wagner em Bayreuth. andar. a noite não está linda –/ Que importa a ti? Deves ainda/ Seguir. goteje orvalho. ele pouco se mostraria. nicht geizig zu werden in dieser Dürre: ströme selber über. ihr Dunklen!“ Heut locke ich sie. Pudéssemos falar em um eu do poema. 17[31]. kein Thau der Liebe — ein regenloses Land… Nun bitte ich meine Weisheit. mas uma solidão introspectiva. nunca. O poema é de 1876 (NF-1876. nunca parar! O segundo trecho escancara a solidão. obscuras!” Agora as chamo. kein feuchter Wind. que venham: fazei escuro ao meu redor | com vossos ubres! – quero ordenhar-vos. IV Da pobreza do riquíssimo11 Von der Armut des Reichsten Viso · Cadernos de estética aplicada n. a ti também? Quer dizer. O poema pode ser lido em um contexto próximo ao de uma espécie de tensão entre o ouvir e o ignorar. feminina.12 jul-dez/2012 (Dos Ditirambos de Dioniso. pois o pássaro diz Chamo uma fêmea de seu desdém/ Que importa isso. quer dizer. e será justamente o mesmo sentimento que tocará Nietzsche e o reterá por alguns instantes. último texto publicado sob a batuta do wagnerismo e que viria a encerrar a chamada primeira fase justamente com um rompimento em relação ao compositor.. entre a sedução da música que ainda soava como uma tentação de difícil fuga e a necessidade de superar aquele projeto já tão avesso aos propósitos de uma maturidade estética premente./ E nunca. Seja ela a chuva do ermo amarelado! Um dia mandei as nuvens embora de minhas montanhas – um dia eu disse. mas o andarilho parece desacreditar e chega a ver a música se diluir como promessa. pausa que o faz suspender a trajetória e ouvir. Agora peço à minha sabedoria Que não se torne avara nessa aridez: Corra ela própria. o chamado era por outra sensibilidade. a origem que sempre foi recuperada e rediviva. Mas o pássaro pergunta sobre a hesitação que retém o andarilho.. . kein Tropfen erreichte mich. A amizade que os unira estava então com os dias contados. Era um momento de solidão. É o ano da IV Consideração extemporânea. um ano muito significativo do ponto de vista do entendimento do conjunto da obra. 1888: “Estas são as canções de Zaratustra. sim. träufle selber Thau sei selber Regen der vergilbten Wildniss! Einst hiess ich die Wolken fortgehn von meinen Bergen. Nietzsche-poeta · Henry Burnett Zehn Jahre dahin —. — einst sprach ich „mehr Licht./ Homem da andança? O chamamento da canção não era destinado ao caminhante.pode ser vista como um sinônimo de beleza. vira as costas para a beleza e avisa que a ida é sem volta. mas nem a beleza deve deter o caminhante: Sozinho. como uma preparação para o que viria a seguir. O que te fez minha flauta mansa. a grande fonte de reflexão. eKGWB). nem úmido vento nem orvalho do amor – uma terra sem chuva. E não é difícil perceber que tal beleza é justamente a música. para suportar sua última solidão”) Dez anos já – e nenhuma gota me alcançou. que ele cantava para si mesmo.

sie gaukelt wie Öl über braune Meere: dieser Seele halber heisst man mich | den Glücklichen. unersättlich mit ihrer Zunge. ó verdades de olhar sombrio! Não quero ver em minhas montanhas acres verdades impacientes. | zu überlisten. bastante esperto para | guiar. unterhalb seines Eises. Meine Seele. gegen das Schicksal selbst | will ich nicht stachlicht sein — Zarathustra ist kein Igel. tapear o acaso. sabedoria. Aber immer gleich dem Korke. an alle guten und schlimmen Dinge | hat sie schon geleckt. eu esbanjador de toda sabedoria de Zaratustra? Hoje doente de delicadeza. | süssen Thau der Liebe ströme ich über das Land. e mãe o Riso silencioso? Não me gerou esse duplo conúbio. Fora. bruxeleia como óleo | sobre os mares morenos.vacas das alturas! Leite quente. | doce orvalho do amor derramo por sobre a terra.12 jul-dez/2012 . unterhalb seines Gipfels. | von der Liebe gebräunt. Minha alma. — im eignen Safte süss geworden und gekocht. de mim se acerca hoje a verdade. fort. ihr Wahrheiten. | esperando. Vom Lächeln vergüldet nahe mir heut die Wahrheit. Heut strecke ich die Hand aus nach den Locken des Zufalls. | wartend auf seinen Bergen. Mas sempre igual à cortiça. den Zufall einem Kinde gleich zu führen. adoçada de sol. Heut will ich gastfreundlich sein gegen Unwillkommnes. klug genug. die ihr düster blickt! Nicht will ich auf meinen Bergen herbe ungeduldige Wahrheiten sehn. Hoje quero ser hospitaleiro com o mal-vindo. fora. Dourada de sorrisos. Wer sind mir Vater und Mutter? Ist nicht mir Vater Prinz Überfluss und Mutter das stille Lachen? Erzeugte nicht dieser Beiden Ehebund mich Räthselthier. sempre bóia outra vez à tona. sitzt Zarathustra wartend. contra o destino mesmo | não quero ter espinhos – Zaratustra não é um ouriço. mich Verschwender aller Weisheit Zarathustra? Krank heute vor Zärtlichkeit. por ter essa alma me chamam | o Afortunado. eu animal de enigma. Fort. Quem são meu pai e mãe? Não é meu pai o príncipe Supérfluo. Hoje estendo as mãos às seduções do acaso. bronzeada de amor – só uma verdade madura | eu tiro da árvore. in jede Tiefe tauchte sie hinab. esperando. em cada profundeza já mergulhou. eu monstro luminoso. immer schwimmt sie wieder obenauf. ein Thauwind. Viso · Cadernos de estética aplicada n. mich Lichtunhold. embaixo de seu cume embaixo de seu gelo Nietzsche-poeta · Henry Burnett ihr Kühe der Höhe! Milchwarme Weisheit. Zaratustra está sentado. já lambeu em todas | as coisas boas e ruins. como a uma criança. von der Sonne gesüsst. um vento de orvalho. insaciável com sua língua. em suas | montanhas – em seu próprio suco tornado doce e cozinhado. — eine reife Wahrheit | breche ich allein vom Baum.

que és rico! Presenteia antes a ti próprio.. und kein Tropfen erreichte dich? Kein feuchter Wind? | kein Thau der Liebe? Aber wer sollte dich auch lieben. Zaratustra! Pareces alguém que engoliu ouro: ainda hão de te abrir a barriga!.. der Gold verschluckt hat: man wird dir noch | den Bauch aufschlitzen!… Viso · Cadernos de estética aplicada n. | distribuir teu supérfluo. um olhar de moça. são muitos os que tornas pobres. amável.cansado e venturoso. | oh Zarathustra! Zehn Jahre dahin —. tu. A mim própria tua luz faz sombra – ela me enregela: vai embora. vem. . — mit unsichtbaren Blitzen trifft sie mich. müde und selig. que és rico. komm. weg | aus deiner Sonne!… Du möchtest schenken. lieblich. sai de teu sol! Queres presentear. wegschenken | deinen Überfluss. aus sammtenen Schaudern trifft mich ihr Blick.. du Reicher! Verschenke dich selber erst. — Still! Eine Wahrheit wandelt über mir einer Wolke gleich. du Verderber Vieler! Zu Viele machst du neidisch. sie errieth mich | — ha! was sinnt sie aus? — Purpurn lauert ein Drache im Abgrunde ihres Mädchenblicks. bös. vai. zu Viele machst du arm… Mir selber wirft dein Licht Schatten —. mau. Por largas lentas escadas sobe até mim sua felicidade: vem. Ela adivinha o fundo de minha felicidade. Zaratustra. Zarathustra. Auf breiten langsamen Treppen steigt ihr Glück zu mir: komm. corruptor de muitos! São muitos os que tornas invejosos. mas tu próprio és o mais supérfluo! Sê esperto.. | ó Zaratustra! Dez anos já – e nenhuma gota te alcançou? Nem úmido vento? nem orvalho de amor? Mas quem haveria de te amar. De arrepios aveludados me atinge seu olhar. geliebte Wahrheit! — Still! Meine Wahrheit ists! Aus zögernden Augen. – Quietos! Uma verdade passa por sobre mim Igual a uma nuvem – com relâmpagos invisíveis ela me atinge. ela me adivinha | – ah! o que ela inventa? – Purpúreo espreita um dragão no sem-fundo de um olhar de moça. ein Schaffender | an seinem siebenten Tag. wie Einer. Zarathustra! Du siehst aus.12 jul-dez/2012 És rico demais. querida verdade! – Quietos! É minha verdade! – De olhos esquivos. Nietzsche-poeta · Henry Burnett Zu reich bist du. | tu. ein Mädchenblick… Sie errieth meines Glückes Grund. — Still! Meine Wahrheit redet! — Wehe dir. geh. du Reicher.. es fröstelt mich: geh weg. aber du selber bist der Überflüssigste! Sei klug.. um criador em seu sétimo dia. Quietos! Minha verdade fala! Ai de ti.

em uma narrativa onde se deixa confundir propositalmente com Zaratustra. die Qual übervoller Scheuern. desvios. sábio insensato! queres ser amado. de paixão. mas dotado de um clima distinto dos outros poemas.. weiser Unweiser! willst du geliebt sein. Man liebt nur die Leidenden.uma terra sem chuva. du giebst dich ab..12 jul-dez/2012 Para ouvir: https://soundcloud. figurações – daí parecer dispensável imprimir-lhe à força uma linha melódica. | ó Zaratustra! – Eu sou tua verdade. de solidão. torna pobre de amor – uma terra sem chuva. que na primeira estrofe diz e nenhuma gota me alcançou e na segunda te alcançou.. exacerbando quiçá pela primeira vez uma tensão que acompanhou seus arroubos psíquicos nos últimos anos de vida. man giebt Liebe nur dem Hungernden: verschenke dich selber erst. não te poupas. A troca de lugar autor/personagem é marcada justamente no trecho musicado. justamente porque tem a função de um discurso público. só se dá amor aos que têm fome: presenteia antes a ti próprio. dich quält | dein Reichthum —. du Ärmster aller Reichen! Du opferst dich. macht arm an Liebe — ein regenloses Land… Niemand dankt dir mehr. o tormento dos celeiros saturados. Tens de tornar-te mais pobre.com/henry_burnett/4-da-pobreza-do-riqu-ssimo O longo poema final. que podemos tomar como prosa poética.. Um poema-testamento? Sem dúvida. de dignidade que vimos há pouco./ nem úmido vento nem orvalho do amor/ . É Nietzsche só... du Überreicher.ó mais que rico? Tua felicidade faz secar em torno.. | übervollen Herzens — aber Niemand dankt dir mehr… Du musst ärmer werden. tua riqueza | te atormenta– tu dás.. como um anúncio direto. du aber dankst Jedem. | oh Zarathustra! — Ich bin deine Wahrheit… Viso · Cadernos de estética aplicada n. mas tu agradeces a todo aquele que toma de ti: nisso te reconheço. ó mais que rico. Não encontramos aqui jogos metafóricos. não te amas: o grande tormento te força o tempo todo. o mote é recorrente e funde todo sentimento de desamparo e desespero que sempre acometeu Nietzsche com respeito à indiferença com que seus pares o recepcionaram e. por tabela. | du liebst dich nicht: die grosse Qual zwingt dich allezeit. Dez anos já -/ e nenhuma gota me alcançou. Nietzsche-poeta · Henry Burnett . foi escrito no último ano de produção consciente de Nietzsche. du Überreicher? Dein Glück macht rings trocken. deixando soar com música apenas o falso refrão que se repete como um lamento. 1888. Ama-se somente aos sofredores. ó mais pobre de todos os ricos! Tu te sacrificas. bastando fixá-lo na leitura. ano de O caso Wagner. Ecce Homo e O anticristo. Ninguém mais te agradece. Ele deixa poucas margens para interpretação. | do coração saturado – mas ninguém mais te agradece. der von dir nimmt: daran erkenne ich dich. Pode ser visto como uma síntese daqueles outros momentos. du schonst dich nicht.

Lichter. com direção editorial de Paolo D’Iorio: Digitale Kritische Gesamtausgabe (doravante eKGWB. distribuir teu supérfluo. Luzes. o Sul. De longe veio um canto: gota de ouro orvalhando sobre a superfície trêmula. Fernher kam Gesang: goldener Tropfen quoll’s über die zitternde Fläche weg. Frankfurt am Main: Insel Taschenbuch. F. mesmo que admitindo limites: Ama-se somente aos sofredores.. Coimbra: Centelha. sang sich. Nietzsche Gedichte. ecoa a mesma sensação de abandono deste com o qual finalizamos estas reflexões. unsichtbar berührt. link: http://www. Ao contrário. e Nietzsche deixa o poema soar como seu último canto.org/). de um “amolecimento dos instintos”../ mas tu próprio és o mais supérfluo! Mas não se trata. É como se não houvesse de fato.../ só se dá amor aos que têm fome:/ presenteia antes a ti próprio . mas posteriormente Nietzsche-poeta · Henry Burnett . 1994. apesar do clima aparente de resignação.. Gondeln. ó Zaratustra!/ – Eu sou tua verdade. Minha alma um alaúde.nietzschesource. 1981.12 jul-dez/2012 Junto à ponte me achava há pouco na noite gris. por mão invisível tocada. – Não sei pensar a felicidade. Musik — trunken schwamm’s | in die Dämmrung hinaus… Meine Seele. — Hörte Jemand ihr zu?… Ficha técnica da gravação Poemas I. num poema publicado no Ecce Homo.. gôndolas.12 An der Brücke stand jüngst ich in brauner Nacht. Nietzsche se despede dotado de profunda autocompreensão.Alguém a teria escutado?. uma canção gondoleira. nenhum eco de seu embate contra as forças que moviam a Alemanha (e o mundo) numa direção incontornável que. de muitas formas. música – ébrio em direção ao crepúsculo.ignoraram Zaratustra. mas é onde sabemos com mais exatidão o que acompanhou Nietzsche em seus últimos momentos: “Quando busco outra palavra para música. seção 7 do capítulo “Por que sou tão inteligente”. nenhuma herança. . sem um estremecimento de pavor”. 1 2 Sobre este livro cabe dizer que foi publicado pela primeira vez em 1882. passados tantos anos. cantou | para si. zitternd vor bunter Seligkeit. Nietzsche: poemas. Nietzsche prognosticou. em resposta. Não sei distinguir música de lágrimas. Foi consultada para a elaboração deste texto a edição mais recente das obras completas de Nietzsche. II e III | violão e voz: Henry Burnett | guitarra: Marcel Rocha Poema IV | violão e voz: Henry Burnett | teclados: André Pontes * Henry Burnett é compositor e professor adjunto do Departamento de Filosofia da UNIFESP. encontro somente a palavra Veneza. Mas nada podia ser feito: Queres presentear. Edição organizadas por Ralph Kray e Karl Riha. organizada e traduzida por Paulo Quintela. ein Saitenspiel. Vale lembrar da mais completa edição dos poemas de Nietzsche em língua portuguesa. aqui na tradução de Paulo de César Souza: Viso · Cadernos de estética aplicada n. heimlich ein Gondellied dazu. trêmula em mil tons de alegria.

1887 (eKGWB). C.(1886) reeditado com o acréscimo de um quinto capítulo e de um novo prefácio. v. Op. Em alemão. publicada sob o título Cinco prefácios para cinco livros escritos: uma autobiografia filosófica de Nietzsche. Ecce Homo. n. seguido de um breve comentário histórico-filosófico. Op. Anhang: Lieder des Prinzen Vogelfrei. Paris: CNRS Editions. A descrição abaixo do título reproduz a mesma forma que aparece no volume da coleção Os pensadores. São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo: Brasiliense. Coleção Encanto Radical. 7 8 9 Ibidem.. Fritzsch. cit. Ver D’IORIO. São Paulo: Iluminuras. Anhang: Lieder des Prinzen Vogelfrei. num balanço que abarcava cinco obras no total. Nietzsche-poeta · Henry Burnett . tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. p.d. F.).12 jul-dez/2012 Os ensaios de Lebrun estão reunidos no volume A filosofia e sua história. In: TATASCIORE. 1997. “Nietzsche fra Tristano e Carmen”. Do mesmo autor. P. Tradução em português de Henry Burnett e Ernani Chaves. 2008. 1974. 5 Depois de cada poema o leitor encontrará um player. procedimento editorial que foi amplamente utilizado por Nietzsche naquele período. todas pertencentes à assim chamada fase “juvenil” e “intermediária”. O. Belo Horizonte: Tessitura Editora. 2006. chamado “Cai o sol”. existe ainda outro. cit. São Paulo: Victor Civita. 1982 . 4 A obra poética de Rubens Rodrigues Torres Filho foi reunida em Novolume. 2 (no prelo). Sobre os chamados “prefácios de 1886” dediquei uma pesquisa específica. Seleção de textos de Gérard Lebrun. 2012. Le voyage de Nietzsche à Sorrente. 6 Friedrich Nietzsche: obras incompletas. Cacciola e Marta Kawano. In: Die fröhliche Wissenschaft. In: Estudos Nietzsche. traduzido para o volume escrito por Scarlett Marton: Friedrich Nietzsche. eKGWB/EH-Klug-7. 2008. 3. W.) (eKGWB). Cabe lembrar que. Torino: Bruno Mondadori. além dos quatro poemas traduzidos por Rubens Torres Filho para a coleção Os pensadores. Friedrich Nietzsche: obras incompletas. Ibidem. (éd. Em alemão: Dionysos-Dithyramben (“Autorisierte Schriften”. 46. Filosofia e musica. NIETZSCHE. 1995. s. São Paulo: Cosac Naify. Maria Lúcia M. 10 11 12 Idem. Qualquer possível variação de datas ou de informação resulta do cotejo da tradução brasileira com a eKGWB. Tradução de Paulo César de Souza. “Entre Tristão e Carmen”. O livro foi organizado por Carlos Alberto Ribeiro de Moura. Em alemão. onde poderá ouvir o poema musicado em uma gravação caseira. Leipzig: E. 3 Viso · Cadernos de estética aplicada n.

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