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Dunglas, Édouard CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DO MÉDIO DAOMÉ: O REINO IORUBÁ DE KETU Afro-Ásia, Núm. 37, 2008, pp. 203-238 Universidade Federal da Bahia Brasil
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Afro-Ásia ISSN (Versión impresa): 0002-0591 afroasia@ufba.br Universidade Federal da Bahia Brasil

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BIBLIOTECA DE CLÁSSICOS
NOTA DOS EDITORES

Inauguramos nesta Afro-Ásia no 37 uma seção dedicada à reedição de textos que podem ser considerados “clássicos” ou “raros” da historiografia, da antropologia e de outras disciplinas. Trata-se, na sua maioria, de artigos escritos em língua estrangeira e publicados em jornais especializados de difícil acesso ao público brasileiro. Neste trabalho de resgate, dar-se-á prioridade a textos relativos ao continente africano, mas também poderão ser incluídos outros de outras regiões, de interesse para a revista. Nesta edição, apresentamos uma parte do trabalho de Édouard Dunglas, “Contribution à l’histoire du Moyen Dahomey”, publicado entre 1957 e 1958, nos números 19, 20 e 21 de Études Dahoméennes, revista do IFAN (Instituto Francês da África Negra), editada em Porto Novo (atual República do Benim). Afro-Ásia publica apenas os quatro capítulos correspondentes à historia do reino de Ketu, aparecidos no número 19, em 1957. Os dois primeiros constam desta edição, o terceiro e o quarto aparecerão na próxima. Optamos por respeitar o estilo original na citação de referências bibliográficas, mas adaptamos os etnônimos e os topônimos à grafia portuguesa e, quando necessário, introduzimos notas adicionais, devidamente sinalizadas.

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de Ketou et de Ouidah)”. Ver nota bibliográfica no final do texto. en cuanto a verdad. “Contribution à l’histoire du Moyen Dahomey (royaumes d’Abomey. dijo el Bachiller. – No hay libro tan malo. 37 (2008). que no tenga algo bueno. bastante lacônicas.1 Advertência Antes de empreender. inicialmente consagrado exclusivamente a Ketu. As fontes impressas sobre Ketu. 1957. no 19. só mencionarei três dos principais trabalhos consagrados ao Daomé e aos iorubás: * ** 1 Édouard Dunglas. Porto Novo. [1615]. Tradução do francês de Claude Lépine. Miguel de Cervantes. por assim dizer. hay algunos que así componen y arrojan libros de sí como si fuesen buñuelos. y donde está la verdad está Dios. 11-71. a redação do presente estudo histórico. Como documentação escrita não encontrei praticamente nada. que monopolizou. capítulo 3. porque ha de ser verdadera. IFAN. Os arquivos do posto de Ketu são inexistentes: foram dispersados em Pobé e em Zagnanado. Afro-Ásia. comecei pela pesquisa das fontes. a atividade dos pesquisadores e dos eruditos. Neste prefácio. Études Dahoméennes. o posto administrativo tendo sido fechado várias vezes e por vários anos. são muito mais interessantes no caso de Abomé. já em 1941. pero.CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DO MÉDIO DAOMÉ: O REINO IORUBÁ DE KETU* Édouard Dunglas** La historia es como cosa sagrada. no obstante esto. El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. pp. segunda parte. 203-238 205 .

completada por úteis informações tiradas das mais diversas fontes – Snelgrave. sem dúvida. Eles procuram transmiti-las oralmente a seus filhos. verdadeira façanha.1) L’ancien royaume d’Abomey. trabalho completo. 3) The History of the Yoruba. entre os antigos. a indiferença cresce dia a dia. No decorrer de minha longa estada no Daomé. Ilorin. mas indispensável ao conhecimento da história dos reinos vizinhos do Daomé. o que poderia. Bertho. de Le Hérissé. que contém rica documentação etnográfica. Skertchly. Bernard Maupoil. do professor Melville Herskovits. salválas do esquecimento. o relato de dois ataques dos daomeanos contra Abeokuta: o de 1851 e o de 1864. Forbes. em particular. tive a felicidade de poder recolher as principais tradições locais. piedosamente conservadas por alguns velhos que as ouviram várias vezes de seus pais. J. chega-se a formar uma idéia clara dos reinos iorubás: Oió. que mostra o que um etnógrafo de qualidade é capaz de fazer em sete meses de estada em Abomé. Talvez fosse urgente fixar pela escrita tais tradições. trabalho do maior interesse. Burton. repleto de informações. sacerdotes e pastores. em inglês. que compreenderam que a história da civilização daomeana não remonta a 1892. professores. Por mais interessantes que fossem as fontes impressas.2 2 Data da conquista colonial francesa da capital do reino do Daomé [nota da tradutora]. entre os contemporâneos – que decidi transformar o ensaio inicial sobre Ketu num estudo histórico abrangendo o Daomé central. em numerosas cidades. muito complicado. Lendo atentamente seu trabalho. e P. Hazoumé. 37 (2008). S. Le Hérissé fornece poucas informações sobre Ketu e sobre sua rivalidade com Abomé (páginas 332-333). 2) Dahomey. Ijebu. antigo oficial da corte do alafin de Oió. pelo reverendo Samuel Johnson. Ilesa. Simone Berbain. Johnson detalha um pouco mais e nos dá. em dois volumes. importantes lacunas teriam permanecido e muitas questões teriam ficado sem resposta. Felizmente. às quais acabo de fazer rápida alusão. infelizmente. se eu não tivesse podido conhecer as riquíssimas tradições locais. 206 Afro-Ásia. está surgindo uma nova geração africana de intelectuais: médicos. Foi depois de uma leitura aprofundada destas três obras capitais. Norris. mas. Abeokuta. Ifé. 203-238 . Bouche.

Entre os principais detentores das tradições de Ketu. formam uma mistura na qual as antigas lendas. os esabas (ministros) Ajahokosu e Akiniko. G. 222): “Eles [os negros] têm uma memória tão feliz e uma tradição tão constante de tudo o que aconteceu entre eles nos tempos mais distantes. IFAN. o chefe do distrito de Ketu. o imame Séidu. diretor da escola de Ketu. Seria ingrato se não mencionasse aqui os nomes do reverendo padre Le Corbeau. os Srs. devo citar. algumas das quais devem ser colhidas com prudência. bem informado a respeito das velhas tradições de Ilé-Ifé e do Benim. e onde as deformações são mais raras. mais ou menos enriquecidas de detalhes maravilhosos. morto em 1883. Aos leitores que poderiam pensar que atribuí importância demais às antigas tradições. Bankolé. Recebi preciosos encorajamentos por parte do professor Th.. historiador oficial dos reis de Ketu. eu lhes devo muitos agradecimentos. em primeiro lugar. ex-atirador do exército. tiradas das melhores fontes que pude encontrar. e de Fagbémi. de Habermann.Estas tradições. elas ajudam a formar o juízo”. Babá Elégun Oyédé. Parrinder. diretor do Instituto Francês da África Negra. Afro-Ásia. oporia o seguinte texto do bom padre Labat..] que a gentileza das fábulas desperta o espírito: que os atos memoráveis das histórias o levantam e que. Adéwori Adégbité. Para os eventos posteriores a 1880. judiciosos conselhos me foram dados pelo professor P. Em seguida. chefe da aldeia de Ketu. que é um prazer ouvi-los contar os fatos que aprenderam de seus pais e que estes tinham aprendido de seus avós”. que me comunicou interessantes informações sobre a rainha Ida. filho do balogun Séidu. de Moussé Albert. sargento da alfândega. e o mais qualificado. Sr. do professor Dr. quadragésimo oitavo rei da dinastia local. 203-238 207 . do University College de Ibadan. diretor local do IFAN. superior da Missão Católica de Ketu. membro da família real de Ketu. para desculpar-me de ter às vezes misturado as fábulas maravilhosas com os relatos históricos mais severos: “Eu sabia [. Monod. servem de fundo ao relato de eventos mais próximos de nós. pude reencontrar algumas testemunhas oculares. que me comunicaram de bom grado tudo o que sabiam sobre as lendas e as tradições do seu país. lidas com medida. ex-chefe do posto de Ketu. 37 (2008). p. Ele foi o primeiro dos meus informantes. Thomassey. tirado de sua Nouvelle relation de l’Afrique Occidentale (tomo 2. e.

no entanto. nas proximidades da aldeia de Ewé. Estas ruínas. um pouco acima do paralelo 7º 22’. a meio caminho entre estas duas cidades. abandonada há séculos. concordam em atribuir a predecessores desconhecidos. pela confluência do rio Uemé com o rio Okpara. por exemplo. bem conhecidas no Daomé sob o nome de “contas de Ketu”. facetadas. pelo paralelo 7º 08’. de um estilo hoje abandonado. ergue-se a cidade de Ketu. 203-238 . alcançava o córrego Yewa e incluía Méko (Mekaw). a oeste. e que os iorubás chamam de Ilé-Sin (a casa dos sins). que passa. encontram-se antigos túmulos cavados no revestimento laterítico. A leste. um limite geográfico. Este distrito é atualmente limitado. quase norte-sul. decaída hoje ao nível de mera sede de distrito. Existem. Esta linha. Nestes túmulos. situada na estrada KetuPobé. estendia-se até o Uemé. No entanto.CAPÍTULO 1 ORIGEM E FUNDAÇÃO DE KETU Distante aproximadamente 80 km a leste de Abomé. antiga capital do reino do mesmo nome. passava a menos de 2 quilômetros a oeste de Ketu. ladeado a leste por um pequeno barranco. a leste. É praticamente impossível saber quais foram as primeiras populações que habitaram outrora a região de Ketu. Mas o antigo reino de Ketu ultrapassava amplamente estas fronteiras oriental e ocidental. incluído no território de Ketu. elas deixaram sinais. o rio Uemé. que passa pela pequena aldeia de Odo-Méta. assim como Ilara e Idofa. contêm túmulos onde se encontram pedaços 208 Afro-Ásia. no planalto de laterita. seu principal afluente na margem esquerda. antigas contas vermelhas de cornelina. o limite confunde-se com a fronteira Daomé-Nigéria. tendo sido Ewé. invadidas pela vegetação. as ruínas facilmente identificáveis de uma antiga aldeia. ao norte. fons e iorubás. ao sul. Em Idanhim (Idigny). a oeste. substituiu recentemente (em 1947) uma linha de demarcação lingüística que separava as aldeias fons (a oeste) das aldeias iorubás. ao norte de Ketu. e que as populações que hoje habitam a região. pelo paralelo 7º 38’. em princípio. podem-se encontrar. 37 (2008). às vezes. aproximadamente entre os postos nº 127 (ao norte) e nº 78 (ao sul).

Mas quais eram estas populações primitivas? A tradição local de Ketu não remonta além da chegada dos iorubás-ifé ao atual reino de Ketu e do recuo consecutivo dos fons para o oeste. abandonando as margens do Nilo. e o culto dos espíritos locais. Um belo dia. teriam sido fundadas. depois de uma viagem de 90 dias. em direção ao rio Uemé. Lá. trazer da Arábia para além do rio Kora (Níger). teriam partido em massa em direção ao Uemé. o mais importante. a antiga aglomeração de Ilé-Sin já estava ocupada quando foi fundada a cidade de Ketu.de cerâmica. 203-238 209 . talvez subindo o curso do Bahr-el-Gazal – o Rio das Gazelas – e teriam chegado. carregando consigo seus bétilos sagrados. Parece que aqueles fons de Ilé-Sin só haviam reocupado um antigo sítio abandonado. numa época que podemos situar por volta do século XI de nossa era. teria ocorrido uma divisão do clã. Os fons que lá moravam teriam abandonado sua cidade há seiscentos ou setecentos anos para refugiar-se em Ketu que lhes oferecia a proteção de uma população numerosa e de muralhas fortificadas. por volta do século XI. As duas antigas metrópoles dos iorubás. que eles teriam deixado após desentendimentos de ordem religiosa. Quem são os sins? De acordo com as tradições de Ketu. Não tinham conseguido. cidades santas. veneráveis pedras vindas dos lugares mais remotos do Iêmen e que ainda podem ser vistas em Ilé-Ifé e Ilé-Isa? Um daqueles bétilos. As tradições dos iorubás de Ilé-Ifé falam de antepassados que teriam vindo da Arábia. cisternas cavadas na laterita e em parte quebradas. apesar das inúmeras vicissitudes da migração para países desconhecidos. 37 (2008). quem fundou Ketu. leva gravado na pedra dura as dezesseis respostas Afro-Ásia. o mais famoso. associado àquele dos antigos deuses da Arábia. Teriam feito inicialmente uma primeira pausa nas margens do Nilo. O mais antigo rei que ela menciona é Isa-Ipasan. ao mesmo tempo chefe político e religioso. Os antigos túmulos não se devem a eles. o rei Edé. que teria deixado a metrópole iorubá de Ilé-Ifé para caminhar em direção ao noroeste: foi seu 6º sucessor. à região do Baixo Níger. finalmente. Um primeiro grupo. no alto Egito. lá existem igualmente túmulos análogos àqueles de Idanhim. os bétilos sagrados. do Iêmen. onde acabava de chegar e onde tinha sido favoravelmente recebido por um monarca local. teria ficado na margem direita do Baixo Níger.

segundo contam. em Ilé-Ifé.4 3 4 As ruínas de Kokai seriam ainda visíveis nas margens do Níger. durante sua disputa com Moisés. em aval de Tombuctu. E não se pode admirar. Eles viajaram pela terra de Deus até o dia em que chegaram à terra de Kokia. numa base quadrada de um metro e vinte? Veio realmente do Iêmen? Talvez uma análise geológica e mineralógica nos fornecesse alguma luz neste assunto obscuro. duzentas e cinqüenta e seis respostas. apesar da distância que os separava. 37 (2008). É interessante aproximar desta tradição de Ilé-Ifé o seguinte texto do Tariikh-es-Sudan. Adrien Maisonneuve) [Nota do editor]. os Fa-dú. Durante muito tempo. nascido em 28 de maio de 1596. Os dois irmãos chegaram àquela cidade numa miséria tão grande que quase não pareciam mais humanos. Estavam quase nus.3 situada nas margens de um rio e muito antiga: já existia no tempo dos faraós. estes últimos perguntaram sobre sua terra de origem: “viemos do Iêmen”. deixou o Iêmen com seu irmão. em 1898-1900. O segundo grupo teria subido o curso do Níger e chegado até a região hoje habitada pelos songais. a famosa espada de Oranyan. O primeiro rei songai chama-se Dialliaman. responderam. isto é. que. de al-Sa‘dî (escrito por volta de 1655). combinados de dois a dois. a preciosa crônica sudanesa que devemos ao letrado de Tombuctu. o Opa Oranyan. não deixavam de trocar mensagens de amizade e presentes para manter os laços que os uniam. 210 Afro-Ásia. os dois grupos iorubás continuaram considerando-se irmãos e. Diz-se que um deles. O texto árabe e a tradução francesa do Ta’rîkh al-Sûdân. Dialliaman. dão dezesseis ao quadrado. chamou feiticeiros que opôs ao profeta. Kokia era uma cidade dos songais. e reimpressos em 1964 (Paris. 203-238 . Es Sadi Abder Bahman ben Abdallah. Os atuais iorubás seriam os descendentes destes iemenitas cruzados com as populações do Baixo Níger que haviam chegado antes deles. foram publicados em Paris. misterioso obelisco de três metros e meio de altura. Tendo pedido hospitalidade aos habitantes.elementares de Fa. que acabou abreviado como Dialliaman. Seu nome deriva da frase árabe diamin el Yémen (ele vem do Iêmen). Os nomes deles foram esquecidos e só ficaram conhecidos pelo apelido “vindos do Iêmen”: dja min el Yemen. Sua pele estava queimada pelo sol e coberta de pó. que publicou o Tariikh em 1652 e o completou em 1655 com um novo capítulo.

203-238 211 . não teriam hesitado em identificá-lo com o famoso caçador Nimrod. Ele reinou primeiro sobre Babel. unânimes a este respeito. Erek. o antigo rei da Arábia. De acordo com Josephe. Antiquités judaïques. apud S. filho de Kpaluku e de Olu Unku. no país de Senaar (Gênesis. ou Namurudu. familiarizados com a leitura da Bíblia. Isa-Ipasan. com a modificação intermediária Dialliamani. encontra-se às vezes o nome masculino de Darmni (o autor procedeu a um recenseamento nominativo em 1943). 1826. Ele foi um valente caçador perante o Eterno. valente caçador perante o Eterno”.5 este mesmo Nimrod é quem teria construído a famosa torre de Babel. X-8/9/10). embora o autor tenha usado o termo impróprio de “fetiche” [nota da tradutora]. imperador de Sokoto. O antepassado primitivo. foi ele quem começou a ser poderoso na terra. era um príncipe de Ilé-Ifé. Afro-Ásia. é o rei Isa-Ipasan. Kush engendrou também Nimrod. o “chicote do deus”. pp. é por isto que se diz: “como Nimrod. fon et origo de todas as famílias de príncipes do país iorubá e até de Benim. Traduzimos por “deus”. 37 (2008).Entre os akpenu-ikulés. 4 e 2. ele não seria propriamente um rei de Ketu: esta cidade será fundada pelo rei Edé. Estas antigas tradições foram relatadas ao capitão inglês Clapperton pelo sultão Belo. Não nos foi 5 6 7 Josephe. Narrative of Travels and Discoveries. que talvez derivasse de Dialliaman.6 O mais antigo rei da dinastia de Ketu. Major Denham e capitão Clapperton. marcando sua ligação com a família real de Ilé-Ifé. Akkad e Kalné. de acordo com as antigas tradições. Entretanto. chamar-se-ia Lamurudu. Nenhuma significação e nenhuma origem puderam ser encontradas para este nome. apêndice 12. a venerável metrópole da margem direita do Níger. seu sexto sucessor. 1.7 Para sermos mais precisos. monarca instruído e letrado. Alguns letrados iorubás. Johnson. pelas tradições locais particulares de Ketu. cujo nome teria chegado até nós. 5-6. ele é mencionado no início da lista por todas as tradições que procuram essencialmente lembrar as origens da dinastia local.

seguiu o rumo do oeste. nos mapas da Nigéria). Paris. levando no seu exílio voluntário suas mulheres. Subiu o Oyan até sua nascente. cujas causas não foram conservadas pela tradição.. Uma colina próxima ao Oyan forneceu um local favorável à construção de uma aldeia que foi simplesmente chamada Oké-Oyan (a colina de Oyan). 37 (2008). Owé. na atual subdivisão de Savé. Vários anos se passaram. seus servidores e todo o seu clã. 212 Afro-Ásia. Um segundo príncipe. perseguidos por todo o Daomé meridional. 8 Segundo Montserrat Palau-Marti (Histoire de Sabe et de ses rois. vira a sua esposa e mãe dos seus filhos. o que atraía numerosos leões. corre para o sudeste e vai jogar-se no rio Ogun. uma primeira divisão ocorreu. o Oyan (Awyan. Maisonneuve et Larose. Um belo dia. A aldeia de OkéOyan foi abandonada. mais novo.8 seus filhos. a quase duzentos quilômetros. a floresta dos leões. entre as quais Tolu Dagbaka e Odua.. este personagem está associado a Odudua que. 203-238 . pois um dos seus sucessores fundará Ketu. 1992): “Os ketus fazem remontar sua dinastia real a Ìsà Ìpàsán. subiu o curso de um dos seus afluentes da margem direita. em Ketu” [nota da tradutora]. rio que nasce na Nigéria. considerado de sexo feminino em Ketu. a descer para o sul. por causa das razias devastadoras dos cavaleiros baribas vindos de Nikki. Mais tarde. seguido por numerosas famílias. os imigrantes de Oké-Oyan instalados em Kilibo serão obrigados. os ados. deixou por sua vez Oké-Oyan para penetrar nas solidões do noroeste. Um dos príncipes. onde fundaram o reino de Savé. Odudua também é chamado (ou chamada) Toludagbaka. acima de Abeokuta. O país não estava desabitado e uma tribo iorubá. É deste príncipe que nos ocuparemos. depois de ter atravessado o rio Ogun. pretendentes ao trono vago. composto de várias centenas de famílias. atravessou o Okpara e estabeleceu-se numa grande floresta freqüentada por rebanhos de palancas negras e de búfalos. A aldeia da floresta foi então chamada Kilibo (Kini-Igbo). perto do Okpara. tomando a direção da parte mais importante do clã. Isa-Ipasan. Não é preciso procurar muito: é bem provável que fosse depois de brigas ou mesmo de guerras civis.contado por que razões ele tomou a decisão de abandonar sua cidade natal para dirigir-se para o oeste. príncipe de Ifé. tinha encontrado ali um refúgio. provocadas pelas ardentes competições dos príncipes. Estas brigas ocorrem tão freqüentemente na história dos reinos africanos.

o nome do seu pai foi esquecido. Para que se pudesse encontrar seu túmulo no meio da aldeia deserta que a vegetação ia aos poucos invadir. obedecendo. o terceiro príncipe. filho de Adémunlé e de Odéré. 203-238 213 . Seu primeiro cuidado foi proceder ao sepultamento do corpo de Isa-Ipasan. Foi escolhido o príncipe Ijá numa outra das famílias reais. só se conhece o de sua mãe: Ofiran. Nove famílias reais. a antiga aldeia abandonada. terceiro rei da dinastia. desceu o curso do Oyan e. uma plataforma foi construída. depois. às últimas vontades do velho monarca. Subindo para o norte. Após a sua morte. chamada Katunga pelos haussás). tomando a direção do êxodo. o velho rei Isa-Ipasan veio a falecer. foi enterrado nas proximidades do lugar consagrado ao espírito Ogun. O rei Isa-Ipasan seguiu o primogênito dos seus sobrinhos. Com a morte de Ajojé. Após dois dias de viagem. foi fundada. que. chegaram a uma floresta. onde encontraram um local favorável. filho de Adegbiyi e de Oju. Aro. fundou a cidade de Oió (a antiga. atingindo quase o 9º paralelo. das armas e da guerra. em Oké Oyan. o do Ogun. Numa destas famílias é que foi escolhido o novo rei. Owé permaneceu vários anos em Aro. descendentes dos antigos reis de Ifé. haviam seguido os reis Isa-Ipasan e Owé em suas migrações e estavam estabelecidas em Aro. O pastor Samuel Johnson nos contou detalhadamente sua história. Agbo Akoko (Akoko Primeiro) era filho de Adékambi e de Oliji. além da nascente do Ogun. filho de Adeyonu e de Asebi. todo o clã parou e uma nova aldeia. acompanhado por uma fração do clã primitivo. deus dos ferreiros. Algum tempo depois. o segundo soberano da nova dinastia. tornando-se. Ajojé. Eis por que o local do túmulo real foi chamado Oju-Ogun (sob o olho de Ogun). o mais novo. Seu sucessor. Ali. Afro-Ásia. não muito distante da atual fronteira Daomé-Nigéria. procedeu-se à eleição do seu substituto. 37 (2008). deste modo. O quinto rei foi Erankikan. essência de grande vitalidade e fácil de se identificar. Foi durante vários séculos a capital do mais importante de todos os reinos iorubás. sobre a qual o rei Owé plantou um galho da árvore chamada orupa. O príncipe Owé foi eleito no seu lugar. embrenhou-se na floresta do oeste. assim.Enfim. o príncipe Owé.

a um dia de viagem para o sul. Yewa. três bons caçadores que conheciam bem a região que se estendia a vários dias de caminhada ao redor. Antes de partir. Idofa e Matsaï. perto de um pequeno rio. os filhos mais moços. haviam encontrado terras com recursos suficientes para sustentar todo o clã e que fossem favoráveis à sua instalação definitiva. no decorrer de suas expedições. que não queria entrar em conflito com os fons do oeste. Alalumon conhecia uma floresta. permaneceria sob o comando do rei Edé e. preconizava a instalação numa região arborizada.Destes sucessores imediatos de Isa-Ipasan. das quais participaram os chefes de família. fácil de se atingir e em cuja vizinhança já haviam chegado os fons. com efeito. cada um deles conhecia um local conveniente. elas serão incomparavelmente mais generosas com respeito ao sétimo rei. não tardou em tornar-se muito numeroso. o fundador de Ketu. as tradições de Ketu só retiveram os nomes. consultou seus três filhos (ou sobrinhos) Alalumon. na aldeia de Aro. Seria necessário encarar nova separação. Idofa. Os três caçadores responderam que. o mais importante. Edé. O primeiro. decidiu-se que o clã se dividiria em três grupos. quem tomou a decisão de deixar Aro. iria até a floresta do oeste. 37 (2008). Foi o sétimo rei da nova dinastia. sucessor de Agbo Akoko. Estes últimos haviam construído uma pequena aldeia. instalar-se perto dos fons da al- 214 Afro-Ásia. Foi necessário considerar uma nova migração para terras mais favoráveis. por sua vez. em Ifé. Ewé. Matsaï. a dois dias de viagem para o oeste. mas não extenso o suficiente para poder atender às necessidades do grupo todo. Depois de longas discussões. Edé. hesitantes. guiado por Alalumon. Perguntou-lhes se. tanto pelo crescimento natural da população como pela chegada de parentes que tinham ficado. Veio o momento em que os recursos oferecidos pela região se tornaram insuficientes. a aldeia onde descansava o velho rei Isa Ipasan. 203-238 . ele conhecia esta boa gente e garantiu que eles não veriam nenhum inconveniente se iorubás viessem morar na floresta perto deles. recomendava que voltassem para o leste. O clã que havia permanecido com o segundo rei. Kpanku. além de Oké Oyan. córrego que serve de fronteira.

jurou que nunca esqueceria os antigos reis e fez a promessa de mandar celebrar freqüentes cerimônias comemorativas. O segundo tomaria o rumo do sul. Deu-lhes. que ainda existe.deia de Kpanku. O caçador Alalumon fazia freqüentes expedições na floresta do oeste. partiu. atingiu rapidamente o rio Yewa. foram celebradas cerimônias fúnebres para comemorar a lembrança dos antigos reis. num planalto arborizado. aquelas que. o rei Edé fixou a data da separação depois de consultar Fa. voltando sobre os passos de seus antepassados. atravessou o rio e. ainda habitada em nossos dias: é o Igbo-Awra dos mapas da Nigéria. as razões imperativas que o obrigavam a procurar novas terras. Os representantes do rei Edé arrancaram um galho da árvore orupa para levá-lo para Aro. em voz alta. Enfim. O dia da separação tendo chegado. tendo encontrado o lugar propício. Enfim. onde criou a aldeia de Igbo-Oran (floresta pantanosa). seguido por sua fração do clã inicial. consagrado às sepulturas reais. representando o rei. 37 (2008). mais extensas e mais férteis. Isa-Ipasan. onde foi solenemente plantado sobre os túmulos reais de Oju-Ogun. O país não estava vazio e algumas famílias de raça fon. flanqueado ao norte e a leste por um pequeno barranco quase sempre seco. que o conduziria até as agradáveis margens do pequeno rio. parou e iniciou a fundação da aldeia de Idofa. que desceu durante algumas horas e. Enviados especiais. desculpando-se por abandoná-los. o terceiro grupo voltaria para o leste e seria conduzido por Matsaï. Em primeiro lugar. por sua vez. predecessores do rei Edé. foram mandados para as ruínas da antiga aldeia Oké-Oyan. de todas as que se Afro-Ásia. enterrados no lugar denominado Oju-Ogun. A decisão irrevogável estava tomada. a fim de procederem a sacrifícios convenientes sobre o túmulo do primeiro rei. perto de Aro. Matsaï. Edé pediu aos antepassados a permissão para deixá-los. Idofa. o grupo mais numeroso que tinha ficado sob o comando do rei Edé e era conduzido por Alalumon. parou a uns cinqüenta quilômetros acima de Abeokuta. seguido pelos seus. passou por Oké-Oyan. 203-238 215 . sob o comando de Idofa. dirigindo-se para o oeste. perto da fronteira. o babalaô indicou qual era o dia favorável e passou-se a tratar dos preparativos da viagem.

ele foi o ponto de referência inicial e o centro da cristalização da cidade de Ketu. À primeira vista. deve refazer. 37 (2008). Entretanto. e com razão. dispersas. em 1922. Aquele iroko histórico e venerado morreu no fim do século passado (século XIX). eles preservam uma grande importância. A tradição local conservou os mínimos detalhes da migração do rei Edé. um pouco mais ao norte. estavam ali. desde a sua saída da aldeia de Aro até sua chegada nas proximidades do iroko de Alalumon. se tinham inicialmente acolhido pacificamente o rei Edé e seus companheiros. mais ou menos lendários. à vista de todos. O novo monarca. Esta resplandecente afirmação – esta recordação figurada e pitoresca – visa os fons que.tinham estabelecido na margem esquerda do Uemé. antes de entrar com grande pompa na sua capital. embora quase queimado pelos fogos anuais do mato. mas. as de Adakpamé e de Ewé. refazendo. não simbolicamente. que o rei Edé ia fundar. parecem ter pouco interesse. pelo contrário. que chegaram como conquistadores no país. 216 Afro-Ásia. É preciso ver nesta comemoração. No decorrer de suas caçadas. nas proximidades da estrada que vai para a Residência. existe ainda em Ketu. aos olhos dos iorubás de Ketu. A aldeia de Kpanku e. próximo ao iroko. a afirmação simbólica. junto a um iroko. Todos os incidentes da migração lendária são relembrados no decorrer da viagem ritualmente imposta ao novo monarca. a mesma viagem que fez outrora o rei Edé. estes detalhes e incidentes da viagem. Alalumon costumava fazer uma pausa para uma frugal refeição. em cujo tronco pendurava sua bolsa. que o caçador Alalumon conduziu seu parente. Ainda é chamado “o iroko de Alalumon”. no decorrer das numerosas cerimônias que precedem a entronização do novo rei. solene e pública dos direitos antigamente adquiridos pelos iorubás e seu rei. não um estreito formalismo sem significado muito preciso. Mais tarde. mas real e publicamente. 203-238 . no sul do bairro Massafè. mais tinham avançado em direção ao leste. o rei Edé e a parte mais importante do clã. Foi neste lugar. e. habitadas por fons. o ritual da sacralização foi em grande parte baseado na tradição da viagem lendária do rei Edé. que ainda existem hoje. já estavam lá. escrupulosamente o mesmo percurso. Seu tronco ressecado caiu de velhice por ocasião de uma tempestade. foram mais tarde obrigados a reagir contra suas repetidas usurpações.

Jurou que nunca os iorubás do seu clã fariam a guerra contra a gente de Ilikimon. 203-238 217 . Menos de uma hora depois da partida. Nisto. Um mensageiro. foi escolhido outro iroko que é objeto de um culto intermitente. duzentos metros mais ao norte. retomaram seu caminho. se pôs a caminho. Foram rápidos em pilhar a colméia e todos puderam regalar-se com mel fresco. Uma das mulheres do rei Edé acabava de sentir as primeiras dores que anunciavam que o parto aconteceria em breve. que estava na frente. Pode-se ver ainda aí a “casa da rainha”. Próximo ao sítio presumido do famoso iroko do mel. destino da migração. Foi relembrando esta descoberta que se deu ao lugar de parada o nome de Iroko-Ogni: o iroko do mel (Irokogny). viu nesta notícia um presságio de felicidade e do sucesso do projeto que estava começando a executar. Alalumon pôde daí mostrar a seus companheiros a floresta. Neste ponto. Chegaram rapidamente às encostas de um vasto planalto laterítico. com a idade de 80 anos. o rei Edé. Após dois dias de descanso nas proximidades de Iroko-Ogni. trouxe a Edé a boa notícia: sua esposa acabava de dar à luz um lindo menino. A rainha Ida retirou-se para esta aldeia em 1917 e nela morreu em 1938. Passando pelo lugar chamado Okpo-Méta (os três okpos). encontra-se hoje o posto da alfândega francesa e. ligeiramente inclinado para o oeste. O rei. exultante de alegria. árvore que desapareceu há muito tempo. guiado por Alalumon. o rei Edé e seus súditos. vindo de Ilikimon. a pequena aldeia de Iroko-Ogni. no lugar do seu venerável predecessor. O êxodo para o oeste recomeçou. Todos pararam e começou-se a preparar a refeição da noite. 37 (2008). futuro núcleo da aldeia de Ilikimon.O clã do rei Edé. sempre guiados por Alalumon. Deixaram-na numa destas cabanas com um grupo de acompanhantes capazes de dar-lhe os primeiros cuidados. foi preciso parar perto de um grupo de cabanas construídas por um iorubá do clã. ouviu o Afro-Ásia. depois de um dia de caminhada. abandonando a aldeia de Aro. A primeira etapa ocorreu na floresta. por causa da presença de três okpos. alguns jovens descobriram que o tronco de um enorme iroko abrigava abelhas selvagens. árvores que fornecem uma madeira de construção muito apreciada.

assim avisada de que um visitante se aproximava. seguiu pelo trilho na floresta. ouvindo rãs a coaxar. encontra-se perto daqui acompanhado de todo o seu povo. mais bem inspirado que seu predecessor. Furiosa por ter sido surpreendida nesta situação e. sua cólera tendo passado. diante de sua fogueira. mas. Ia Mèkpèrè. qual era o motivo de sua visita. acompanhada pelos dois jovens. Numerosos iorubás. naquele lugar encontram-se numerosos afloramentos de laterita. murmurando misteriosos sortilégios. que acaba de sair de Aro. e eis o enviado do rei estendido no chão. É por isto. sem anunciar-se previamente batendo palmas como exige a boa educação. atormentados pela sede. alguma poção mágica. cuja presença tinha sido revelada pelo concerto dos batráquios. para começar. mandou um segundo rapaz atrás do primeiro. pediram ao rei que fizesse uma pequena pausa. Inteiramente nua. o rei Edé. devolveu a vida ao primeiro enviado. deu a permissão de pegar água e. minha mãe. acalmada. 37 (2008). Levada pela curiosidade. por ter sido interrompida no meio de sua operação secreta. não esqueceu de bater palmas para informar da sua chegada. sobretudo. morada da velha feiticeira Ia Mèkpèrè. teve tempo de se cobrir. para ver o rei Edé. a velha proferiu contra o jovem descuidado uma terrível fórmula. saiu de sua casa e. na estação das chuvas. 218 Afro-Ásia. em que toda uma população de rãs vem divertir-se. 203-238 . Ele já mandou meu irmão mais velho. Edé. formando poças de pouca profundidade. Ela abriu a porta ao enviado real e perguntou-lhe. sem vida. encarregou-me de trazer água. O jovem respondeu educadamente: Meu pai. que me precedeu por aqui faz pouco tempo e que talvez se tenha perdido. O adolescente enfurnou-se no mato e logo encontrou uma casa. O novo mensageiro viu. como o jovem não voltava. Edé consentiu e enviou um jovem rapaz à procura de água. as águas se juntam nos baixos. Com efeito. O jovem enviado do rei penetrou bruscamente na casa da feiticeira. A velha. agora desprovida de eficácia. ela estava preparando. a casa da feiticeira. também.coaxar de uma rã. que eu entrei na sua casa: para saudá-la e pedir-lhe que nos dê de beber. Nós estamos com sede e meu pai.

Alalumon conduziu o pessoal junto ao iroko onde tinha o costume de pendurar sua bolsa. As crianças se dispersaram para buscar lenha e as mulheres. Alalumon foi até lá sem perder tempo e. e todos fizeram uma pausa. nada de extraordinário: encontra-se em muitos países este costume de extinguir todos os fogos em ocasiões diversas. entrando na casa de uma velha mulher. num caminho habitualmente deserto. seguidos de todo o seu povo. a “cerimônia do fogo”. reconhecendo o caçador. O último fogo apagado. pediu-lhe fogo. Mas precisavam procurar fogo para que se pudesse cozinhar o jantar. a feiticeira manifestou ao rei sua surpresa por vê-lo seguido de uma multidão de homens. Alalumon. retiraram os mantimentos. atravessaram um pequeno barranco e chegaram logo à floresta tão desejada. Ia Kpanku. Até aí. por ocasião do falecimento do rei. a floresta onde esperava estabelecer-se e fundar uma cidade. encarregou-se desta tarefa. o rei Edé e o caçador Alalumon. era a aglomeração mais próxima. Mas a particularidade que esta cerimônia oferece em Ketu consiste na procura do novo fogo e na significação escondida que os iorubás lhe souberam atribuir. deu-lhe um tição aceso que ele prontamente levou para seus compatriotas reunidos em torno do iroko. “a tia Kpanku”. 37 (2008). abrindo suas bagagens. apagam-se todos os fogos da cidade. A velha Ia Mèkpèrè desejou-lhe sorte e prometeu preparar um talismã para a proteção da nova cidade.Após terem trocado saudações. Assim que os ministros anunciam solene e oficialmente a notícia fatal pela voz do pregoeiro público. Deixando a velha feiticeira. O rei explicou os motivos de sua presença naquele lugar e apontou com a mão para o oeste. Para relembrar este incidente que marcou o primeiro contato entre fons e iorubás. o único que conhecia o país. Era o fim do dia e a noite estava chegando. Ia Kpanku. 203-238 219 . uma missão conduzida pelo ministro chamado “Alalumon” dirige-se em procissão para a casa de uma das Afro-Ásia. a meia hora em direção ao sudoeste. desceram as encostas do planalto. A aldeia fon de Kpanku. celebra-se em Ketu uma curiosa cerimônia. Os fogos foram acesos e em toda parte as mulheres puseram-se a cozinhar a primeira refeição. mulheres e crianças.

embora tendo fons na sua ascendência. pouco a pouco empurrados para o oeste e despossuídos dos seus campos e de suas terras de cultivo pelos iorubás. Estes fons. fornecedora do fogo. Lá. Hoje. um modus vivendi foi adotado e uma espécie de fronteira. com os mesmos termos que o caçador Alalumon havia antigamente usado. respondem. Subsiste. e nenhum fon da região de Ketu ousaria declarar-se “chefe da terra” – ainon – local. Algumas famílias de Ketu. o ministro pede-lhe fogo para preparar a refeição da noite. que se confunde mais ou menos com o limite atual entre os distritos de Ketu e de Agonli. É com este tição que são então reacesos todos os fogos da cidade. de um antigo ainon local. nesta ocasião.mulheres velhas da aldeia que. O caminho que leva até lá desemboca diante da porta fortificada dita porta de Idena. então. marcou a separação entre as terras de cultura dos fons e as dos iorubás. inclusive a de Kpanku. O túmulo deste antigo chefe da terra existe ainda e o lugar de sua cabeça é assinalado por uma vara de ferro enfiada na 220 Afro-Ásia. cujo nome foi esquecido e que estaria enterrado num cemitério especial. chegou como conquistador e que foi pela força que ocupou. entretanto. do período que precedeu a chegada do rei Edé e de seus iorubás. bastante apagada. 37 (2008). pretendem descender de um antigo ainon fon. com algum constrangimento. situado a mais ou menos mil e quinhentos metros a noroeste de Ketu. 203-238 . foram obrigados a tomar as armas para preservar seus direitos de uso da terra. para ele e seus descendentes. completamente assimiladas aos iorubás. As coisas acontecem de modo diferente para a ocupação do solo. uma lembrança. Quando se lhes faz a pergunta de modo categórico. substituirá a Ia Kpanku da lenda. verdadeiros invasores. o rei Edé. que seu antepassado. o solo de Ketu e as terras de cultivo das vizinhanças. A velha entrega-lhe. É verdade que as primeiras lutas do rei Edé e de seus sucessores imediatos foram dirigidas contra os fons das aldeias vizinhas. quase dez séculos de ocupação consagraram as usurpações dos iorubás. Em primeiro lugar. um tição em chamas que ele leva processionalmente para Ketu. os iorubás de Ketu não gostam muito de falar da origem de seus direitos. Por fim. esta conquista não é mais seriamente contestada.

pouco diferente das construções vizinhas. Para não provocarem conflitos. na casa de quem habitava um tecelão corcunda. na aldeia de Afro-Ásia. Quanto aos estrangeiros. Os recém-chegados não haviam sido mal recebidos pelos fons. Todos os dias. a leste da cidade. e seu vizinho Ajahosu. Um pequeno muro de terra argilosa em volta definia seus limites. para viverem em paz. As constantes usurpações dos iorubás do rei Edé acabaram com a paciência deles e. instalou-se uma guarita (ou um corpo de guarda?). Abandonando sua casa. não tinham sido objeto de nenhuma manifestação de hostilidade. o palácio do rei. um cemitério especial lhes é reservado. pertíssimo do lugar onde foi construído o Dispensário. Elas se agruparam em função de seus laços de parentesco e de afinidade para formarem bairros nitidamente separados. Akiniko. Nas proximidades do lugar onde em breve vai erguer-se a porta fortificada de Idena. constatavam com desgosto que aquelas terras cultiváveis. Talvez fossem dados a alguns destes bairros nomes que lembravam os de Ilé-Ifé. haviam seguido o rei Edé. Mas. Já no dia seguinte à sua chegada perto do iroko de Alalumon. moravam dois fons: Akiniko. os fons deixaram de ver com bons olhos os iorubás do rei Edé. todos os iorubás se puseram a trabalhar para construir suas casas. que eles haviam reservado para os próximos anos. 37 (2008). Edificou-se. aos poucos. Ainda hoje mostram no bairro Massafé o lugar onde se encontravam suas casas. o tecelão corcunda foram para a casa de seus compatriotas. que não podem pretender nenhum direito de uso das terras urbanas de Ketu.terra. As famílias que descendem deste ainon exercem zelosamente o direito exclusivo de serem enterradas neste cemitério aristocrático. tinham sido ocupadas pelos iorubás que agiam como se tivessem tido desde sempre direitos de usufruto sobre o território. na entrada. preferiram deixarlhes o lugar. inclusive. As demais mandam enterrar seus mortos nas dependências de suas casas. Segundo a tradição. morada bastante simples. O bairro que cresceu rapidamente em volta das casas reais foi chamado de Ita-Obá (o bairro do rei). primeiros ocupantes do solo. em primeiro lugar. os fons abandonaram progressivamente as terras do leste. Ajahosu e. cento e vinte famílias. numa clareira da floresta. 203-238 221 . das quais nove reais.

Ela garantiu ao rei que este talismã traria a prosperidade e impediria os inimigos de penetrarem na cidade. necessários à fabricação da substância mágica. decidiu-se que o corcunda seria sacrificado e que seria enterrado diante da porta da cidade. O rei Edé. assim como ninguém jamais poderá endireitar sua corcunda.Ewé. para concretizar este desafio. com certeza. e não o feiticeiro de Ketu [Nota da tradutora]. Só faltava agora dar um nome à nova aglomeração. endireitar sua corcunda? Não. E. Um destacamento de soldados foi logo enviado para Ewé. Ia Mèkpèrè foi um dia até a nova cidade. acrescentou a frase alegórica: Ké tu kéé? Ké fo lu? (Quem endireita a corcunda? Quem destrói a cidade?). mandou um dos seus filhos para lembrar-lhe a promessa do talismã protetor da cidade. lembrando-se da promessa feita por Ia Mèkpèrè. A velha pediu certo número de ingredientes. segundo as regras de sua arte. situada a uma dezena de quilômetros ao norte. Alguém já conseguiu. Eles possuíam por lá um daqueles abrigos que são usados pelos agricultores na época do plantio e que acabou sendo a sua nova casa. alaketu significa o senhor de Ketu. e discutiu-se longamente. em meio a demonstrações de aprovação. Tendo estes sido fornecidos pelo rei.9 9 Na verdade. morava aqui mesmo na casa de Akiniko. sacrificado e enterrado no mesmo lugar. composto pelos chefes das principais famílias. 222 Afro-Ásia. O rei Edé reuniu um dia seu conselho. Todo mundo sabe que isto é impossível. o conselho adotou o ponto de vista de um antigo que havia exposto sua idéia da seguinte forma: Há alguns meses um tecelão corcunda. levado diante da porta da cidade. E. 37 (2008). passando pelo bairro Idajè. da mesma forma ninguém poderá destruir nossa cidade. 203-238 . A cidade foi assim chamada “Ketu” e seu rei. Então. fabricou. a mistura protetora e a enterrou num recanto secreto do bairro de Idajè. o alaketu (o feiticeiro de Ketu). Após ouvir várias propostas. a feiticeira de Okpo-Méta. O infeliz inquilino de Akiniko foi preso. de raça fon. alguma vez.

pela filiação completa de cada um deles. Afro-Ásia. O primeiro de todos é o rei Isa Ipasan que. tenha podido chegar até nós sem o apoio de veneráveis pergaminhos e de textos autênticos? Não devemos esquecer que os reis de Ketu precisavam conhecer e às vezes. o verdadeiro fundador de Ketu. a família Oyédé. que. Em primeiro lugar. mesmo que fosse apenas para estabelecer e afirmar publicamente seus direitos e seus títulos. pela simples tradição oral. 203-238 223 . a famosa lista dos reis? Os erros simulados eram prontamente assinalados pelo coro das crianças. Baba Elégun não repetiu para seus filhos. E foram obrigados a conservar e transmitir a seus sucessores estas genealogias e esta lista. como acabamos de ver. a velha metrópole dos iorubás que forneceu as famílias de príncipes aos reinos de Savé. incluindo aquele que reina atualmente. sempre ficava alguém capaz de substituí-lo. Ela incorpora o rei Isa Ipasan e seus cinco primeiros sucessores para marcar claramente a continuidade da dinastia de Ketu com a de Ilé-Ifé. conservava na sua memória a tradição oral recebida do seu pai. Ketu. Não parece extraordinário. reunidos no pátio da casa.CAPÍTULO 2 OS REIS DO PERÍODO LENDÁRIO – AS FORTIFICAÇÕES DE KETU – A PORTA DE IDENA A tradição conservou-nos o nome de quarenta e oito reis de Ketu. só para mencionar os mais importantes. a lista integral destes quarenta e oito reis. inclusive. chefe do distrito de Ketu. Oió. Adéwori Adégbité. A tradição local desta cidade não inicia a lista com o rei Edé. na hora em que a noite traz a tranqüilidade na cidade. sua genealogia e a lista exata de todos os predecessores. conhecido pelo seu apelido popular de Baba Elégun Oyédé. Quantas vezes. Medidas especiais e eficientes eram tomadas a este respeito. 37 (2008). Benim. A morte podia levar o chefe da família. até os adultos participavam desta aula de história. ainda complicada como que por prazer. estava encarregada desta tarefa e seu chefe. à primeira vista. viveu mais ou menos cem anos antes da fundação de Ketu. publicar sua filiação. uma família de griots.

cabritos. Ao rei Edé. bebidas. em compensação. fundador da cidade de Ketu. 37 (2008). abriram repentinamente as hostilidades contra os iorubás. exasperados pelas incessantes usurpações. e ele encontrava ajuda junto aos chefes das famílias reais. arauto oficial. se fosse necessário. a rotação das culturas obrigava os recém-chegados a ocupar terras suplementares. Sob o seu reinado estourou a primeira guerra. a cada ano. Qualquer erro ou omissão era considerado uma falta gravíssima. tecidos. tornados mais atrevidos. doravante desonrado e condenado ao suicídio. Mas. o dia da entrada do novo alaketu na sua boa capital. para recolocar um antigo rei no seu lugar cronológico exato. Acrescentamos. sem cometer nenhum erro sobre a sua filiação e sem inverter a ordem cronológica de seus reinados. filho de Atonsi e de Oniyi. Ele era ovacionado e. à notícia da aproximação de um grupo armado. Baba Elégun Oyédé informava-se. fugiu e foi refugiar-se 224 Afro-Ásia. Baba Elégun Oyédé. Numa circunstância solene. Mas. não apenas pelo recitante. os fons haviam tolerado a presença dos seus espaçosos vizinhos. o rei mandava-lhe um suntuoso presente. a lista completa dos reis. sem omitir nenhum. Baba Elégun recebia recompensas mais concretas: carneiros. Ekpo. os fons. Durante o reinado de Okoyi. que em toda a história de Ketu não há um único exemplo de que o mínimo erro tenha sido cometido por ocasião da recitação solene da lista dos reis. sucedeu Okoyi. Durante o reinado de Edé. tanto quanto o próprio rei.Além deste treino. Naturalmente. Okoyi. mas ainda para os ouvintes e os presentes. soberano ao qual faltava prestígio e cuja pusilanimidade era bem conhecida. durante um momento. Além do alívio inexprimível de se ter desincumbido satisfatoriamente de sua missão. verdadeiros intrusos no país. a recitação impecável das litanias reais valia inúmeras felicitações a Baba Elégun Oyéré. Os fons das aldeias vizinhas. também interessados na preservação das antigas genealogias. recitava publicamente. e em voz alta. para esclarecer um trecho duvidoso. Gagnigon e Kpanku. 203-238 . tornava-se o herói da festa. Ele foi o oitavo rei da dinastia. em honra da família Oyédé. tomaram as armas para jogar para o leste aqueles iorubás insuportáveis.

o teriam executado no decorrer de um levante popular. uma das nove famílias reais originárias de Ilé-Ifé. Todo perigo tendo sido afastado. Alguns deles foram até designados ministros e. Não chegou até nós nenhum dado sobre seu reinado. em particular Akiniko. Tudo o que sabemos sobre o décimo segundo rei. escolheu-se para substituí-lo o príncipe Etsu. 37 (2008). Numerosos fons aceitaram. o proprietário da casa onde morava o famoso tecelão corcunda. Mas é possível que haja. décimo rei. 203-238 225 . uma confusão com a aventura do mesmo gênero acontecida com Agbo-Keji. filho de Ahekpo e de Orèrè. Os descendentes de Akiniko e de Ajahosu existem ainda em Ketu. nem sobre seus dois sucessores imediatos: Akpanhun. o nono de Ketu. filho de Aro-Baba-Itsa e de Angbá. é que ele é o mais antigo conhecido rei. o vizinho de Akiniko. puderam entrar no conselho do rei. pertencendo à família real Alapini.numa floresta que ainda leva o seu nome. Os habitantes de Ketu. e que havia acompanhado o rei Edé no seu êxodo de Aro para Ketu. hereditário. de Akiniko e de Ajahosu: eles fazem obrigatoriamente parte do conselho do rei. O rei Okoyi tendo falecido. que os havia abandonado no momento do perigo. filho de Adonu e de Awokpè. no caso. receberam direitos de cidadãos e foram admitidos no mesmo nível que os iorubás. de modo a formar uma só aglomeração. o rei fugitivo pôde voltar à sua capital. Ogôh. décimo primeiro rei. e Dako. indignados pela covardia do seu rei. Foram completamente assimilados pelos iorubas e até esqueceram sua língua materna e só falam a língua iorubá. tragicamente ou não. Seus chefes de família conservaram apenas o nome. Algumas tradições relatam que os iorubás. Alguns chefes de famílias fons. É a esta mesma família Afro-Ásia. recentemente adotadas graças à paz. décimo terceiro rei da dinastia de Ketu. a cólera dos assaltantes esfriou e conversou-se sobre a paz. se defenderam com vigor e repeliram os ataques dos fons. nas proximidades da pequena aldeia de Tobolu (Nigéria). Depois de algumas escaramuças sem importância. e Ajahosu. Foi então que os chefes das famílias iorubás tiveram a excelente idéia de propor aos fons uma fusão dos dois povos e construir suas casas perto dos bairros iorubás. que haviam em vão procurado o seu rei. sacrificado diante da porta da cidade.

filho de Atsabi e de Aguro. O décimo terceiro rei. Procurou-se. sucedeu a Agbo-Keji. assustado. Enquanto isto. o alarme tinha sido dado e os iorubás. o rei que. O rei Sá. os muros estão parcialmente caídos e os fossos invadidos pela vegetação. Agbo-Keji. Estes fossos têm uma profundidade que 226 Afro-Ásia. 37 (2008). que já se havia manifestado de improviso. fugiu para esconder-se num dos acampamentos de agricultores situado ao norte da cidade. tratava-se de construir uma muralha fortificada. ele foi encontrado no seu acampamento. “Agbo segundo”. na parte sul do bairro Ita-Obá. assim. Uma nova guerra estourou entre os habitantes de Ketu e os fons do oeste.100 metros.Alapini que pertence o rei atualmente reinando. quadragésimo oitavo soberano da dinastia de Ketu. se pensou que havia sido levado pelos fons. havia demonstrado a necessidade de dar à cidade os meios de resistir às incursões dos inimigos e até de dar-lhe condições de sustentar um sítio. As tradições locais atribuem-lhe a construção dos fossos. exasperados por sua deserção e sua covardia. Com o rei Edé. O rei Sá passa por ter traçado pessoalmente este amuralhado em volta da cidade: é uma elipse um pouco irregular. o massacraram. delimitando. uma superfície interna de 85 hectares.300 metros. por golpes sangrentos. de início. ele é o mais famoso dos antigos reis de Ketu. dos muros e da porta fortificada. A hostilidade espasmódica dos fons. 203-238 . simples grupo de casas construídas no bairro sul. quase norte-sul. o rei Sá tomou a direção das obras do plano de defesa. em estado bastante bom. Teria acontecido com ele a mesma desventura que com seu predecessor Okoyi. o eixo menor mede 965 metros. era filho de Ajido e de Odiola. dita porta de Idena. o oitavo rei. O desenvolvimento total atinge o comprimento de 3. Estes últimos tentaram de surpresa um golpe contra o palácio real. ainda tremendo de medo: seus súditos. Agbo-Keji. sempre a respeito das terras de cultivo. A muralha fortificada de Ketu existe ainda. Após ter obtido o assentimento do seu conselho. Finalmente. sob os reinados de Okoyi e de Agbo-Keji. no caminho de Adakplamé. superiores em número. em alguns lugares. cujo eixo maior. Adéwori Adegbité. então. repeliram os fons para fora do perímetro da cidade. assim como Okoyi. contínua e circundante. mede 1.

elas descem suavemente do lado interno. de 3 a 4 metros. ferreiro. No dia seguinte. iniciado na magia e versado nas ciências ocultas. A tradição local relata que. na época em que foram construídas. dos importantes fornecimentos de víveres impostos aos habitantes por ordem do rei. ajudante de obra. uma de dia e a outra de noite. 203-238 227 . 37 (2008). a cada vez. Ajibodu e Oluwodu. muralhas de 2 a 3 metros de altura. Abruptas no lado externo. estas fortificações foram rapidamente construídas. É provável que algum perigo fosse iminente e que fosse preciso terminar com toda urgência as trincheiras. a execução dos trabalhos. para construir a muralha fortificada. do lado interno. sua largura total oscila entre 5 e 8 metros. os homens encarregados desta tarefa divertem-se reconstituindo no muro a marca de uma mão de enormes dimensões. a marca deixada por uma mão colossal sobre a parede interna de um dos corredores da porta fortificada de Ketu. a intempérie e a ausência de manutenção diminuíram suas dimensões iniciais. Na parte norte é que atingem as maiores dimensões. que o rei Sá. transformada e enriquecida de detalhes maravilhosos. em média. feita para provocar a admiração dos meninos e o assombro dos curiosos. a cada dez anos e. um.varia de 3 a 4 metros. Deviam atingir. graciosa brincadeira que fazia os gigantes darem boas gargalhadas. O reboco da parede é refeito. pretende. Mas isto não passa de amável trapaça. Como prova material da existência dos gigantes. cada família enviava numerosas cabaças cheias de pratos preparados. O rei Sá vigiava pessoalmente. Em outros lugares do conjunto de construções que constituem a Afro-Ásia. A lenda. Esta lenda não seria outra coisa senão a lembrança. embelezada de detalhes extraordinários. À noite. traziam-lhes uma formidável ração de comida. os contramestres enviados pelo rei Sá eram obrigados a dar-lhes grandes marteladas sobre os polegares. e o outro. tudo tinha sido comido. apesar de sua importância. os habitantes de Ketu mostram às crianças e também aos estrangeiros. foram elevadas. Para acordá-los. se tinha assegurado o concurso de dois gigantes. Com os entulhos originados pelo escavamento dos fossos. dizem. chamada porta de Idena. para alimentar aqueles que trabalhavam nas fortificações. com efeito. Eles dormiam o dia inteiro e trabalhavam de noite. pois parece que foram utilizadas duas equipes de trabalhadores simultaneamente.

Esta passagem. A planta é um quadrilátero irregular. Uma das extremidades desta vara. cresceu uma árvore que serve de apoio a uma vara de dois metros de comprimento. em tempo de guerra. corria o risco de tornar-se. neste lugar. Este batente (ilekun) gira sobre um eixo de ferro de fabricação local. indispensável em tempo de paz para transpor com comodidade as fortificações. parecem ter sido traçados por dedos gigantescos. Este batente externo é formado por 5 tábuas de iroko. segundo o modelo daquelas que já existiam em várias cidades do país iorubá. com espessura de 7 a 8 centímetros. repousa no solo. pousado sobre um cachimbo cavado num bloco de pedra muito dura. hábil construtor. deixados na terra ainda úmida pela extremidade dos dedos. A cada lua nova. feitos com o cotovelo. inclinada a 45º. Dentro do espaço fortificado. está parcialmente enchido para que se possa atravessar facilmente. Mas. na porta de Idena. Do meio do lado norte do pátio sai um corredor sul-norte que desce abruptamente para os fossos e que é fechado pela única folha da porta externa. vindo do exterior chega à porta fortificada.porta fortificada. por certas tradições. a construção da porta fortificada. Um habitante de Idéré (perto de Pobé). estes riscos. uma passagem foi construída no lugar preciso onde. É justamente neste lugar que fora enterrado o famoso tecelão corcunda. foi encarregado da edificação da porta. segundo a tradição. pelo contrário. É o mais provável: a porta não precedeu os fossos. grosseiramente talhadas com enxó e sumariamente ajuntadas. Era preciso construir ali uma porta fortificada. o rei Edé teria passado quando chegou pela primeira vez a Ketu. A porta externa dá diretamente sobre o fosso que. imprimem-se igualmente sobre os muros marcas semelhantes àquelas que são encontradas sobre todas as paredes: riscos paralelos. largas de 20 a 30 centímetros. 203-238 . um ponto fraco da defesa. No meio do caminho que. aproximando-se sensivelmente de um retângulo. ela é colocada de forma a impedir a passagem numa das metades 228 Afro-Ásia. No centro. inquilino de Akiniko. 37 (2008). ficando a outra encostada na árvore. relatam que o mérito desta construção pertence ao rei Sá. Outras tradições. Diante da porta estaria enterrado o tecelão corcunda. A fama lendária do rei Edé fez com que lhe fosse atribuída. encontra-se um pátio quadrado de aproximadamente doze metros de lado.

Na extremidade sul deste corredor. 37 (2008). à direita ou à esquerda. Um segundo caminho de ronda. intérprete do oráculo Fa. circula ao redor do conjunto de construções da porta fortificada. dando acesso a uma seteira aberta sobre o exterior. 203-238 229 . As palavras Idéré e Odi-Ona transformaram-se no termo composto Idena. consagrou-a com cerimônias e sacrifícios que lhe conferiram propriedades mágicas. cavada no meio do muro a oeste do pátio interno. no exterior e no interior. A parte sul deste caminho de ronda tem vista sobre os fossos. makpa ona da (na lua nova eu mudo a passagem). teria sido imposta por um babalaô. Mais tarde. coberto. Neste local. que remontaria à época em que a porta foi construída. Afro-Ásia. e hoje só é chamada de Akaba Idena. e repetem o dito tradicional: otsu lé. abrindo sobre uma vasta praça dentro da cidade. Um membro da família Durossimi é encarregado. Uma larga abertura. encontra-se outra porta de um só batente. o batente da porta externa era consolidado por fortes vigas transversais e retirava-se com a maior pressa o colmo da cobertura que protegia as construções. O sábio arquiteto. dá acesso a um segundo corredor norte-sul. um destacamento armado ocupava a porta permanentemente e sentinelas ficavam de vigia sobre os caminhos de ronda e sobre as muralhas. a cada lua nova. bem acima do batente da porta. de cada lado do corredor. a cinco metros do chão. Era uma útil precaução contra incêndios que teriam tornado insustentável a posição dos defensores. só permaneciam abertos durante o dia. dá a volta ao pátio quadrado. Esta manobra. Em tempos de guerra.do caminho. acompanha à direita e à esquerda o alto da muralha com cerca de 6 a 8 metros. construtor da porta fortificada. Os habitantes de Ketu chamaram esta vara de kiliba. nome da aldeia do arquiteto. de deslocar alternadamente a vara kiliba. o caminho está fechado. longo de uns quinze metros. Nos primeiros tempos. Em caso de alarme. sendo interrompido somente pela entrada do corredor que leva à porta externa. o caminho de ronda interno termina por uma escada abrupta. Um caminho de ronda. ela recebeu o apelido de Odi-Ona. mesmo em tempo de paz. Os batentes. interno. em tudo semelhante àquela que dá sobre o fosso norte. chamaram a porta de Akaba Idéré (a porta de Idéré). a porta de Idena.

fora do perímetro fortificado. Apesar de suas virtudes extraordinárias. na presença do guarda da porta. por ordem do rei Ognienguin. É por medida de segurança que a grande feira de Ketu acontecia fora da cidade. os batentes. diante da porta de Idena. o rei é avisado urgentemente. então. ergueram-se espontaneamente. 37 (2008). foram substituídos por outros novos em 1896. teria. o espírito protetor contenta-se com um carneiro ou um cabrito. O rei Glele. Com efeito. notadamente a de não poder ser aberta por traição. mas.Aconteceu de os batentes fecharem-se por si mesmos. em 1886. devido às freqüentes unções praticadas pelo velho Durossimi. aberta dia e noite já há cinqüenta anos conse- 230 Afro-Ásia. chefe da família Durossimi. era mais exigente. Neste caso. numa praça interna. Eles levam as marcas frescas do óleo de palma. A canção de Arekpa faz alusão a estes sacrifícios humanos. Estes batentes. Atualmente. descendo devagar. talvez. como movidos por um espírito. Uma feira instalava-se de quatro em quatro dias diante da porta de Idena. presságio de um perigo. depois de aspergidos com o sangue do boi sacrificado. Para consolarem-se. os antigos de Ketu contam que estes batentes. 203-238 . antigamente. depois da ressurreição de Ketu. guardião da porta e encarregado do culto do espírito protetor. numa praça reservada a este fim. assustado por este prodígio. Não vimos neles nenhum sinal de sangue de boi. suspensos por uma mão invisível assim que tocaram o chão de Abomé. que o espírito da porta pede um sacrifício. transportados como troféus pelos daomeanos. consultado seus adivinhos que o aconselharam a fazer o sacrifício de um boi para pacificar o espírito irritado que mantinha milagrosamente suspensos os batentes da porta mágica. por ocasião da segunda tomada da cidade pelo exército do rei Glele. perdidos em Abomé de 1886 a 1892 (teriam. ela ocorre na cidade. os dois batentes foram assim mesmo transportados para Abomé sobre a cabeça dos prisioneiros. A porta de Idena passa por ter propriedades sobrenaturais. apoiaram-se tranqüilamente sobre o solo. o conselho é reunido e. inevitavelmente por intermédio do babalaô. sido desmontados e as tábuas utilizadas para outros fins?). Nos dias atuais. procede-se à consulta do Fa. O oráculo responde então. Precisava de um boi ou até de um sacrifício humano e o sangue da vítima servia para aspergir os batentes que se tinham fechado de modo desastroso.

Este plano parecia-lhes extraordinário e mesmo fora do bom senso. dizia ele. mas ele acrescentou que não podia garantir a exatidão absoluta. As seteiras e as barbacãs. parece que deveríamos conhecer com exatidão o nome de todos os reis de Ketu e a ordem em que se sucederam. desapareceram. Uma lenda conta que o rei Ekpo. 37 (2008). oja-kékélé. O historiador Baba Elégun. Pretendem que este rei tenha sido morto no decorrer de uma rebelião pelos habitantes de Ketu. mandava vir grandes quantidades deste óleo para amassar a terra das fortificações. nos forneceu. uma lista completa. Dando continuidade à política das “grandes obras” que havia marcado o reinado do seu predecessor. no alto dos muros. a partir do leste do bairro Dagbanji. situada a uns quatro quilômetros. tendo falecido. Faltavam-lhe. relata que a rebelião teria sido provocada por um grupo de oponentes irredutíveis ao projeto das fortificações que deviam unir Ketu a Ekpo. que haviam perdido a paciência devido aos incessantes pedidos de mão-de-obra e de mantimentos. diversos trabalhos. foi substituído por Ekpo. construtor das fortificações e da porta de Idena. ele deu acabamento às fortificações de Ketu e introduziu aperfeiçoamentos. Uma outra tradição. obras de pouca importância e pequenas dimensões. os cinco dias de retiro.cutivos. que devia unir Ketu e Ekpo. O rei Sá. filho de EkpoKilaja e Irokon. Os nomes exatos dos quatro primeiros sucessores do rei Ekpo. cujo nome em iorubá significa “óleo de palma”. em particular no que se refere aos quatro primeiros sucessores de Ekpo. mandando construir em certos lugares. a pequena feira. com efeito. de preparação e de exercício mnemotécnico. não são conhecidos com certeza. como seteiras e barbacãs que protegiam os arqueiros da defesa. décimo quarto rei de Ketu. Mas o fosso acoplado à muralha. reúne-se numa pequena praça. o ambiente excitante da multidão que assiste à recitação solene da lista Afro-Ásia. tão plausível quanto a primeira. ainda existe em bom estado numa distância de mais de dois quilômetros. porque se tratava de incluir na mesma rede fortificada uma cidade iorubá e uma aldeia fon. que consultamos a este respeito. Fez ainda prolongar para o sul o fosso e o muro da cidade. Depois do que relatamos a respeito do historiador Baba Elégun Oyédé. no centro da cidade. décimo quinto rei de Ketu. capaz de recitar sem erro a lista cronológica dos reis. em direção à aldeia fon de Ekpo. 203-238 231 . Uma segunda feira.

diz-se. aparência agradável. não quis deixar passar a ocasião 232 Afro-Ásia. com o que ganhou todas as simpatias. 203-238 . criado longe de Ketu. que não havia previsto este empecilho. um escravo. que não tinha conhecido seus pais. capturado muito jovem. alusão ao fato de que. É provável que este nome seja o de uma essência da floresta que fornece uma madeira de construção muito dura. acrescentar também o desgosto inconsciente pela perda dos regalos que as famílias reais oferecem? Depois de ter comparado entre si as diversas listas que nos submeteram graciosamente vários membros das famílias reais de Ketu. talvez. filho de Asubo e de Abetsu. Na família onde servia como escravo foi logo considerado um filho adotivo e criado com os outros príncipes. a despeito da presença de numerosos concorrentes locais. à família real na qual foram buscá-lo. tanto por suas qualidades físicas. e não como um servidor de baixa estirpe. Décimo oitavo rei: Odiyi Ikoyè Nikan. filho de Akambi e de Ofèrè. Este rei. excelente caráter. bela postura. por sua ascendência. 37 (2008). Quando da morte do rei Ara. O rei escolheu este nome para significar que sustentaria o reino de Ketu como se ele fosse uma viga de madeira dura. até conseguirmos novas e mais precisas informações: Décimo sexto rei: Ajina. a família adotiva de Odiyi Ikoyè Nikan pôde apresentar somente um príncipe. O chefe da família real interessada. não pertencia. e até um certo grau de inspiração. habilidade nos jogos atléticos. percebeu-se que o futuro rei era canhoto. Tinha sido posto à venda na feira de Ketu e comprado pelo chefe das famílias reais. os quais demonstraram todos algum interesse em ver o presente trabalho redigido. como por suas qualidades morais: viva inteligência. Seu nome significa “estamos longe”. o que acarretou a sua desqualificação como candidato ao trono. depois. vigor. décimo oitavo da dinastia. Útil precaução que permitia escolher um rei que se mantivera distante das disputas e das intrigas locais.dos reis. famílias que haviam seguido inicialmente Itsa Ipasan e. Era. No último momento. Décimo sétimo rei: Ara. Deveríamos. A designação deste rei constitui a única exceção conhecida nos princípios dinásticos que impõem que o soberano seja escolhido numa das famílias reais aparentadas à de Ilé-Ifé. Edé. elaboramos a seguinte lista. Logo fez-se notar. fora eleito um príncipe que até então havia residido longe de Ketu.

ao tomar este nome. ou Olukèdun. filho de Ajagbé e de Ijaku. O nome que escolheu ao ascender ao trono significa Olorun kè dun. Arogbo. deus me tornará feliz (deus me ajudará). a combinação dois convexos e dois abertos ganha. Ikoyè Nikan não é outra coisa que a pronúncia deformada da frase ko ni énikan: ele não tem ninguém (nem pai nem mãe). os búzios mostram seja o lado convexo. 203-238 233 . seja o lado aberto. após uma séria discussão no conselho. tanto para o nome dos reis. filho de Ajido e de Adufè. e ao fato de que vivia no campo. De onde o nome que o rei adotou: Odiyi (às avessas). 37 (2008). com a condição de que uma cerimônia de troca de sangue com um membro autêntico da família que o apresentava fizesse dele um verdadeiro príncipe. Ketu estaria sempre em festa. Seu nome. O rei Tètè. A partir do vigésimo rei. Foi o rei Arogbo quem teria levado para Ketu a curiosíssima instituição do eunuco oni oja. que não esperava reinar.regular de dar um rei a Ketu. Ao caírem no solo. Odun é a festa. queria dizer que seu acesso ao trono fora um acaso. significa “o camponês”. pois era correr o risco de a família ser posteriormente eliminada e perder a qualidade real e dinástica. vigésimo primeiro rei. quadragésimo oitavo rei. as tradições locais estão praticamente mudas. O décimo nono rei chamava-se Akèdun. é conhecido até Kuandé. sob o seu reinado. filho de Ajoké e de Atsètsè. apresentou seu filho adotivo que foi finalmente aceito. o rei talvez quisesse indicar que. O tètè é um jogo de azar. e muito comum no Daomé. Não tendo podido recolher informações mais detalhadas. provável alusão à profissão que o príncipe exercia antes de sua eleição. Sobre os dezoito alaketus que se seguiram. como para sua ordem cronológica. Vigésimo rei: Arogbo. vimos que havia sido eleito “às avessas” do costume. do tipo do jogo de dados. depois de Odun. trigésimo oitavo rei. Vigésimo segundo rei: Tètè. Na falta de outro candidato. Arogbo. até Ojé. Adéwori Adegbité. até o rei atual. Ele se joga com quatro búzios que os jogadores seguram na mão e lançam simultaneamente para cima. todas as listas que pudemos coletar e confrontar concordam exatamente. só poderei apresentar aqui a seca enumeração que segue: Vigésimo primeiro rei: Odun. o guardião do mercado. Afro-Ásia. Era filho de Adékambi e de Ajaro.

rápido e violento como o fuzil. Vigésimo sexto rei: Etu. cada uma por seu turno. filho de Akani e de Kobolu. quatro destas famílias ilustres desapareceram. sem dúvida por extinção natural. Desde esta época histórica. 2) A família Magbo. Vigésimo quinto rei: Ekpo Oludi. Só restam hoje cinco famílias reais que possuem o privilégio de fornecer. É nesta família que foi escolhido o rei Etu. Adéwori Adegbitée. A interpretação acima. filho de Arogbo e de Ahuélé. Já dissemos anteriormente que nove famílias reais. Talvez tenha sido eleito antes que tivesse chegado a sua vez. 1) A família Alapini. filho de Ondo Foyi e de Awokpè. referente ao nome do vigésimo quarto rei. frustrada na ocasião precedente pela corrupção do colégio eleitoral. fuzil. mas a lembrança deles se perdeu. eleito em 1937. filho de Omowoyé e de Ajini. é confirmada pelo nome que adotou seu sucessor. Tomou o nome de etu. 37 (2008). a família real. haviam acompanhado o rei Edé. tinha enfim obtido satisfação. e seu nome foi até esquecido. um rei a Ketu. Isto era um indício certo de que estava predestinado a ser rei. enquanto todos à sua volta circulam descalços. como deixaria supor o nome que lhe foi dado: o rico foi escolhido. 234 Afro-Ásia. Este rei havia sido escolhido na família Mangbo. Vigésimo quarto rei: Arowo Ojoyé. Este nome é a deformação da frase ikpo otun ji: o lugar chegou (a nós). 203-238 . O mais antigo rei conhecido desta família é Ogoh Alapini. por respeito. que deu a Ketu o rei atual. ele seria forte. o décimo segundo alaketu. isto é com os pés envoltos na membrana placentária. quando fosse necessário defender Ketu. para significar que.Vigésimo terceiro rei: Ajiboyédé. Por ocasião desta eleição. graças ao que gastara para garantir sua eleição. descendentes da muito antiga dinastia de Ilé-Ifé. O nome escolhido pelo rei relembra esta particularidade do seu nascimento: Aji bo yé (a) dé: nascido com a esperança da coroa. Note-se que este nome é uma onomatopéia. ela certamente havia fornecido outros. pois somente o rei tem o privilégio de usar sandálias. Havia nascido “calçado”. Arowo Ojoyé.

O rei significava. As tradições desta família real só remontam à época já distante de Amuwagun. resposta feita pelo recém-eleito a seus rivais. pertence-lhe provavelmente. 37 (2008). Foi escolhido na família Mefu. o trigésimo quarto rei. 203-238 235 . é o mesmo que o do fundador mítico da dinastia dos reis de Abomé. o rei Agassu ou Agaaossu. Trigésimo segundo rei: Orubu. com certeza. filho de Adilo e de Korayè. filho de Asotan e de Iyamo. A palavra ogun significa igualmente guerra. filho de Adisa e de Atsakè. Foi dado a Ketu pela família Magbo. Trigésimo primeiro rei: Agassu. vigésimo sétimo alaketu. e era de propósito que a resposta do alaketu era ambígua. que sua família retomava posse da dignidade real. à família Aro. Seu nome não é outro senão a frase bem conhecida: ko tse oni (“não é hoje que [ele] me pertence”). Trigésimo terceiro rei: Léké. 5) Enfim. filho de Agbaka e de Abero. O primeiro monarca conhecido que com certeza teria saído desta família é Embo. acabou por aceitar. filho de Ajagbé e de Agniké. diante da insistência de seus parentes e amigos. Seu nome é a deformação da frase e mawa ogun (não peça a herança). Pertence à família Alapini. Esta frase é freqüentemente usada pela pessoa que recupera um objeto emprestado há muito tempo. 4) A família Metsa: ela deu talvez o rei Otudi e. Vigésimo sétimo rei: Ekotsoni. com muita probabilidade. trigésimo primeiro rei. Este alaketu pertencia. Provém da família Metsa. cuja vez de dar um rei a Ketu tinha chegado. A origem do seu nome é incerta. filho de Ileju e de Atsabo. O rei Ekotsoni. A significação do seu nome é mal conhecida. Parece que não queria ser rei. vigésimo oitavo rei.3) A família Aro. Foi escolhido na família Magbo. Vigésimo nono rei: Asunu. A tradição pretende que ele era o mais novo Afro-Ásia. Seu nome. Seu nome relembra este episódio de sua eleição: a desculpa ficou inútil. cuja origem é ignorada. Trigésimo rei: Agodogbo. vindo da família Mefu. a família Mefu. o primeiro que ela tem certeza de ter dado a Ketu. assim. Vigésimo oitavo rei: Amuwagun. filho de Atsuloyé e de Agbéké. Trata-se de mera coincidência.

chefe de Ilikimon. Trigésimo sétimo rei: Abiri. conhecidos inicialmente no reino de Binui (Benim) que chegaram por mar. significa “o branco” (o europeu). filho de Asotan e de Awélé. nós tínhamos um rei (já tínhamos um rei na família) Este último alaketu encerra a lista dos reis de Ketu sobre os quais só conseguimos reunir informações muito magras e bastante incertas. O quarto deixou o país natal e foi morar em Ajasé (Porto Novo). O primeiro tornou-se chefe da aldeia de Idanhim. e o quinto foi para a casa de seus primos em Savé. 203-238 . Oyimbo. chefe de Idofa. como um cinto de pérolas na cintura de uma linda mulher. carregadas de mercadorias desconhecidas e muito procuradas: pólvora. filho de Ojugbélé e de Abétsè. Começavam a falar. e bebidas fortes. na língua iorubá.dos seis filhos de Adilo. nem mesmo de modo aproximado. Léké significa “pérola” e o rei Léké. 236 Afro-Ásia. Seu nome não é muito complicado: “o poderoso”. escolhido na família Alapini. novos tecidos. aquele que chega (do estrangeiro). Foi a família Mefu. Etimologia: o yi bo. levados por suas grandes pirogas com velas. no reino de Ketu. Seu nome significaria “bem que você o predisse”. Não foi possível indicar a duração dos seus respectivos reinados. exclamação proferida pelo príncipe quando o chefe de sua família lhe trouxe a notícia de sua eleição. Trigésimo quarto rei: Embo (ou Oyimbo) filho de Adiro e de Anikè. a aldeia estabelecida nas margens da Yewa. *** [Nota: os capítulos 3 e 4 aparecerão na próxima Afro-Ásia 38]. tendo chegado sua vez. Trigésimo quinto rei: Osuyi Oliborumu. filho de Akandé e de Atsabké. daqueles estrangeiros de pele branca. deu este príncipe. Vinha da família Metsa. Este príncipe veio da família Aro. O segundo. ao escolher este nome. Trigésimo sexto rei: Oniyi. fuzis. queria expressar a idéia de que ele atraía todos os olhares. o terceiro. simplesmente. 37 (2008). orelhas vermelhas. A origem do seu nome permanece obscura. que. Propomos a seguinte explicação: oba iri.

Designado inicialmente para o serviço geográfico da África Ocidental Francesa. filho de modesto funcionário do ensino público. sobretudo. no 17º Regimento de Infantaria (21º corpo) ao qual se juntou em Notre-Dame de Lorette. originária de um pequeno vale dos Pirineus do Saint Gironnais.NOTA BIOGRÁFICA SOBRE ÉDOUARD DUNGLAS Édouard Dunglas. sobre os costumes dos bétés da Costa do Marfim. de Martonne. Apaixonado pela etnografia e também pela geografia e pela história das diferentes regiões onde serviu. Em conseqüência do falecimento de sua mãe. Tendo saído ileso das provas da guerra e escapado de graves perigos. onde foi particularmente apreciado por M. em particular em Verdun. à sua família paterna que morava em Saint-Girons. foi confiado. permanece desconhecida. em vista da preparação de um tratado de direito local. com sonoridade escocesa. Édouard Dunglas fez sólidos estudos secundários no colégio de Saint-Girons. 203-238 237 . para onde foi sucessivamente enviado a partir de 1934. quando ainda estava no quarto ano da faculdade. foi para responder a uma pesquisa promovida em 1933 pelo Governo Geral. nasceu em Paris em 1891. valeu-lhe uma medalha de bronze e um diploma da Société de Géographie. serviu depois na Costa do Marfim e. no Daomé. 37 (2008). com dois anos de idade. A origem do nome Dunglas. que elaborou em 1937 e que exigiu mais de dois anos de trabalho. Fez toda a guerra como médico em diversas unidades combatentes e obteve a cruz de guerra com duas citações. particularmente reputado. na subprefeitura da Ariège. abandonou os estudos de medicina depois da guerra e entrou na administração colonial. É usado exclusivamente pelos ramos de uma única família. partiu para a frente de batalha como médico auxiliar no início de 1915. na qualidade de funcionário dos serviços civis. que ele redigiu um estudo. Mobilizado no fim de 1914. e freqüentou em seguida a Faculdade de Medicina de Toulouse. obteve o diploma de bacharel em ciências em 1908. Afro-Ásia. Do mesmo modo. o mapa em grande escala do círculo de Natitingou. em 1916.

A realização da tarefa foi facilitada pelas pesquisas que realizou na biblioteca do centro do IFAN. em 1939. começou a escrever a história muito curiosa desta cidade. Pierre Dunglas 238 Afro-Ásia.000 habitantes. fundindo-o numa história detalhada de Abomé. completar sua história de Ketu. mas que corria sérios riscos de cair um dia no esquecimento. Está enterrado no cemitério de Porto Novo. mina inesgotável de informações e que exigiu dele quase dez anos de trabalho. foi duas vezes tomada e por fim destruída pelos reis do Daomé. Uma nomeação em Abomé permitiu-lhe. estando em serviço em Ketu. 37 (2008).Enfim. colocava-se como rival de Abomé. Mal acabava de terminar este trabalho quando faleceu. As informações que recolheu nesta ocasião da boca de velhos dignitários daomeanos pareceram-lhe tão interessantes que desejou imediatamente refazer seu primeiro trabalho. em novembro de 1952. de uma “congestão cerebral”. 203-238 . cujo relato ainda estava conservado pela tradição oral nas famílias dos antigos dignitários da corte. em 1942. antiga metrópole dos nagôs. que chegou a contar até 30. vista desta vez do ponto de vista do campo oposto.

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