Personnalité

Por José Geraldo Couto, de Uberaba retrato Ana Ottoni

djalma santos

Foi na bola
Quatro Copas do Mundo, dois títulos mundiais e 111 jogos pela seleção em 26 anos de carreira. Mesmo com números tão espantosos, é de um zero aquele que Djalma Santos mais se orgulha: o lateral direito jamais foi expulso de campo
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foto folhapress

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O craque, em 1964, com sua inseparável parceira

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djalma santos

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ntrar na sala da casa de Djalma Santos, em Uberaba (MG), é mergulhar no túnel do tempo: fotos, troféus, flâmulas e bandeiras trazem de imediato aos sentidos toda uma época de ouro do futebol brasileiro e mundial. Djalma foi um dos protagonistas desses anos dourados. Considerado o melhor lateral direito nacional e um dos melhores do planeta em todos os tempos, disputou quatro Copas do Mundo (1954, 1958, 1962 e 1966). “Ganhei duas, perdi duas, não devo nada”, resume, com a mistura de modéstia e bom humor que o caracteriza. Fez uma centena de jogos oficiais com a camisa da seleção brasileira. A CBF registra 96, mas ele contesta: “Joguei 111 partidas”. Djalma foi um fenômeno em muitos outros sentidos. Como profissional, jogou nada menos que 26 anos, dos 17 aos 43 – a maioria dos jogadores de futebol se aposenta antes dos 36 anos de idade. Conquistou títulos nos três clubes por onde passou e nos quais ainda hoje é venerado: Portuguesa, Palmei-

“joguei 111 partidas pela seleção brasileira e quatro copas do mundo: ganhei duas, perdi duas. não devo nada”

arquivo pessoal/ arquivo jb

ras e Atlético Paranaense. Nessa estatística de números espantosos, aquele de que ele mais se orgulha é um zero: o número de expulsões ao longo da carreira, um feito ainda mais extraordinário por se tratar de um jogador de defesa que enfrentou dribladores endiabrados como Pelé, do Santos, Edu, do Santos, Luizinho, do Corinthians, e até mesmo Garrincha, do Botafogo. É o próprio Djalma quem recorda, entre risos. “Uma vez, num jogo da seleção paulista contra a carioca, Aimoré Moreira, nosso técnico, me disse: ‘Olha, Djalma, vou te botar de lateral esquerdo pra marcar o Garrincha’. Eu disse: ‘Ah, seu Aimoré, o senhor está de sacanagem comigo’. Mas fui lá, joguei bem, nós vencemos e fomos campeões.” Djalma nunca viu um cartão vermelho apontado para ele porque jamais dava pancada no adversário. Impunha-se pelo invejável condicionamento físico e, como se diz no futebol, pela categoria. Poucos, muito poucos, jogaram bola como ele. Mas os olhos serenos e sagazes desse homem de 81 anos, que parece ter uns 20 a menos, não estão voltados para o passado e sim para o futuro. Há três décadas sua principal atividade é treinar crianças e adolescentes, em especial das classes menos favorecidas. Ensina de tudo, não apenas a jogar bola – a redonda serve como parábola também para os desafios de toda a vida.
“Não sei enganar”

O caminho para descobrir essa vocação foi um pouco tortuoso. Depois de pendurar as chuteiras, Djalma teve uma breve carreira como treinador no Brasil, na Bolívia e
djalma em forma pela seleção brasileira, em 1958

no Peru, mas logo viu que não era essa a sua praia. “Os times eram ruins e eu, como treinador, tinha que dizer aos jogadores, à torcida e aos dirigentes que seríamos campeões. Não é do meu caráter enganar os outros.” Só se sentiu plenamente à vontade quando foi trabalhar com as divisões de base de um pequeno clube da cidade de Bassano del Grappa, na região italiana do Vêneto, onde ficou quatro anos e meio. A responsabilidade era grande (“Se um garoto do meu time fosse expulso, o penalizado era eu”), mas o entusiasmo era ainda maior. Trabalhou em seguida no Al Ittihad, de Jeddah, na Arábia Saudita, também com os quadros infantil e juvenil. De volta ao Brasil, Djalma, paulistano nascido no Bom Retiro e criado na Quarta Parada, na zona norte, estabeleceuse em Uberaba, cidade da família de sua primeira mulher, Mercedes. No início dos anos 1990 criou, com a prefeitura da cidade, o projeto Bem de Rua, Bom de Bola, pelo qual passaram mais de 4 mil garotos de 6 a 16 anos. “Era um projeto muito bom. A prefeitura fez os campos nas periferias. Tínhamos 25 núcleos, entre futebol de campo e de salão.” Todos os garotos tinham que estar na escola. “Na hora de formar a seleção de cada núcleo, que eles chamavam de ‘o time do Djalma’, o aproveitamento escolar era levado em conta, assim como a assiduidade aos treinos, a disciplina, o respeito aos companheiros”, recorda. “Eu pensava: se não sair um grande jogador, pode sair uma boa pessoa, um bom homem.” A mesma filosofia levou para sua própria escolinha. Formada no início deste ano, conta com 190 meninos, que treinam num

defendendo as cores da Portuguesa contra o Nacional no Pacaembu

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campo cedido por um clube local de bancários. Djalma vai todos os dias aos treinos. “Ele tem paixão por esse trabalho. Quando chove e não pode ir, fica contrariado o dia inteiro”, diz a bemhumorada esposa atual do ex-jogador, Esmeralda, de 57 anos, com quem ele se casou depois de ficar viúvo de Mercedes. Às vezes, durante os treinos de seus pupilos, o eterno craque pega uma bola, fora do campo, e brinca de fazer embaixadas. “O treino para”, diz Luciano Soares, o jovem assessor de Djalma e curador de seu acervo. “Todo mundo fica admirando a habilidade dele. Aí ele diz: ‘O que vocês estão olhando? Vão treinar, vão treinar’.” Então os meninos retornam ao treino inspirados, com muito mais empenho.
Amadurecer na marra

_ Pés – e mãos – na calçada da fama do Maracanã
Assim como Garrincha fez de um suposto handicap – as pernas tortas – uma vantagem, por lhe facilitar o meneio e o arranque, Djalma Santos também usou um problema físico a seu favor como atleta. Na adolescência, um grave acidente de trabalho desfigurou sua mão direita. Por conta disso, e da fisioterapia que foi obrigado a fazer e que deu à mão uma força incomum, Djalma passou a arremessar a bola vigorosamente para a frente nas cobranças de lateral, lançando-a no meio da área adversária. Foi pioneiro nisso, como em tantas outras coisas. Não por acaso, na calçada da fama do Maracanã estão gravados não apenas os seus pés, mas também as mãos. Ainda no quesito pioneirismo, Djalma foi um dos primeiros atletas negros a atuar no Palmeiras. Antes dele, só Og Moreira (“que nem era crioulo de verdade, era só moreninho”).
fotos: arquivo pessoal/ arquivo apress/ arquivo jb

É por experiência própria que Djalma sabe a importância que o futebol pode ter para um garoto pobre. Suas infância e adolescência foram das mais sofridas. Aos 3 anos, o pai, soldado do exército, abandonou a mulher com três filhos – Djalma e duas irmãs. Mas o pior ainda estava por vir. “Quando minha mãe morreu, eu tinha 12 anos. A minha irmã mais velha tinha 15. Éramos dois garotos e tivemos que tomar as rédeas da casa. Amadurecemos na marra. Tínhamos que trabalhar, conseguir o que comer e viver uma vida de respeito”, lembra o jogador, sem nenhum traço de autocomiseração. Djalma trabalhava de dia numa fábrica de sapatos e estudava à noite, com o desejo de se tornar piloto de avião. Um acidente na fábrica, ao deformar sua mão direita, sepultou o sonho de voar. “Eu jogava minha bola lá na várzea, no América, no Internacional da Parada Inglesa. Tentei, junto com outros dois ou três garotos do bairro, jogar no Corinthians, no São Paulo, no Ipiranga, no Juventus. Eram muitos moleques, a gente não tinha padrinho, ninguém prestava muita atenção.” Um homem do bairro,
defendendo as cores da seleção paulista em 23 de fevereiro de 1959

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djalma santos sorri ao lado de dadá maravilha na calçada da fama do maracanã. na página ao lado, sob o olhar do técnico feola, djalma treina no dia 5 de maio de 1959

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que o viu jogar e tinha contatos na diretoria da Portuguesa, levou-o para treinar no clube. Bendito seja esse padrinho. Djalma agradou e ficou. Como era menor de idade, para se profissionalizar procurou o pai e pediu que assinasse uma autorização. “Eu não via o velho havia muitos anos. Ele assinou a contragosto, dizendo que jogar futebol não era profissão decente.” Não fazia ideia, claro, do filho decente que tinha diante de si. Ficaria na Portuguesa por dez anos. Em 1959, depois de disputar duas Copas do Mundo pela seleção brasileira, foi vendido ao Palmeiras por Cr$ 2.700.000, uma fortuna na época. Diz-se que esse dinheiro foi decisivo para a construção do atual estádio da Portuguesa, no Canindé. Ficou dez anos no Palmeiras e quatro no Atlético Paranaense. Aposentou-se aos 43 anos, em 1972. Até hoje, Djalma bate sua bolinha com

outros veteranos, aos domingos, no Country Club de Uberaba. “É futebol society, oito contra oito, de um lado os velhos, do outro os mais velhos ainda”, brinca. Um dos segredos para esse condicionamento excepcional, além da genética, é o exercício físico constante. “Quando eu ia treinar na Portuguesa, o ponto do ônibus era na Brigadeiro Luís Antônio. O campo ficava no Ibirapuera. Ia caminhando, contornava o lago, num trajeto de uns 2 quilômetros. Já chegava no treino aquecido”, lembra. O outro segredo é uma vida de moderação. Mas sem exageros repressivos. “Sempre gostei de tomar uma cervejinha, um bom vinho. Mas não em excesso. Até água, se você beber demais, morre afogado. O sexo é a mesma coisa. Faz bem, mas, se exagerar um dia antes da partida, o jogador entra em campo exausto.”
fotos: arquivo pessoal/ ana ottoni/ topfoto

Garoto polonês

“nunca bebi em excesso. sexo é a mesma coisa. se exagerar na véspera da partida, o jogador entra em campo exausto”

_ Seleção do mundo: amizade com Yashin e Eusébio
Djalma Santos fez parte de todas as seleções possíveis em sua época: paulista, brasileira e mundial. Das quatro Copas que disputou, só não foi eleito o melhor lateral direito da de 1966, na qual o Brasil teve sua pior campanha. Seu feito mais extraordinário, quanto a isso, foi ter sido escolhido para a seleção da Copa de 1958 mesmo tendo atuado apenas na final, pois durante o torneio o titular foi De Sordi. Em 1963, tornou-se o único brasileiro (Pelé estava machucado) a participar da seleção da Fifa que enfrentou a Inglaterra num amistoso em Wembley. A seu lado, feras como Puskas, Di Stéfano, Eusébio, Yashin. Djalma se lembra com orgulho dessa partida e de ter feito amizade com o russo Yashin, o “Aranha Negra”, e o moçambicano Eusébio. “Tivemos pouco tempo para treinar, mas ali todo mundo sabia jogar futebol.” De seus companheiros de seleção brasileira, Djalma mantém amizade sobretudo com Zito, a quem visita às vezes em Santos, e Nilton Santos, internado com Alzheimer numa clínica do Rio. Amigos raros, para toda a vida.

Quando nos preparávamos para deixar a casa do craque, ele nos mostrou cartas de admiradores que ainda recebe dos quatro cantos do mundo. “Esta aqui veio da Polônia. Ainda não respondi porque está escrita em inglês”, disse. Ele me estendeu a carta e me dispus a traduzi-la. Era de um garoto de 15 anos de uma aldeia polonesa. A certa altura dizia: “Sou lateral direito como o senhor, que para mim é um modelo, um dos melhores jogadores da história”. Ao ouvir isso, os olhos de Djalma brilharam. E os nossos também.

no alto, djalma com a família de mercedes, sua primeira mulher, de uberaba; acima, ele é o segundo da esquerda para a direita com a camisa da portuguesa; com a atual esposa, esmeralda, de 57 anos

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no alto, com os amigos yashin e eusébio; acima, djalma é o primeiro jogador em pé, uniformizado, da esquerda para a direita. fora das quatro linhas, o chapéu completa o traje do craque

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“meu pai dizia que jogador de futebol não era profissão decente”
_ Mostra itinerante traz fotos, camisas e troféus
Como a maioria dos craques de sua geração, Djalma Santos não ganhou, nem de longe, o dinheiro que merecia. Aos se casar pela segunda vez, há cinco anos, com Esmeralda dos Santos, passou a maior parte de seu patrimônio para Laura Andreia, filha única de seu primeiro casamento. Hoje, ele vive modestamente numa casa térrea num bairro de classe média de Uberaba. Tem um Gol, que ele próprio dirige pelas ruas da cidade. “Quando não é ele quem guia, fica o tempo todo dando palpite, atormentando quem está no volante”, diz Esmeralda, rindo. A principal fonte de renda do exjogador, hoje, é a exposição itinerante “Djalma Santos – A Trajetória de um Ídolo”, vendida principalmente para prefeituras de cidades do interior do Brasil. De acordo com o organizador da exposição, Luciano Soares, o objetivo é estendê-la para capitais e cidades de todo o país, mediante patrocínios incentivados pela Lei Rouanet. São mais de cem peças, entre troféus, fotos, quadros, diplomas e camisas usadas em jogos históricos.

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após 26 anos de carreira, djalma santos escolheu uberaba para ensinar futebol para crianças. no estádio uberabão, a postura do lateral direito remete aos tempos em que ele parava os adversários na bola, sem pancada

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