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O presente revisitado ZAMBONI, Fausto José da Fonseca.

(UNIOESTE) RESUMO: As reflexões sobre o ensino da literatura impõem o questionamento de como a literatura, de modo geral, pode servir de ensinamento ao homem. Para sermos mais simples e diretos, que proveito podemos tirar, para nossa situação concreta de professores de literatura, do ensinamento que os grandes críticos nos legaram? A primeira condição para estabelecer um diálogo frutífero com o passado é não considerá-lo como algo historicamente determinado e alheio à nossa vida, nem como um ensinamento a ser colhido e colocado em prática, sem prévio e sincero exame. Propomo-nos, assim, a iluminar alguns princípios e procedimentos comuns na universidade brasileira, hoje, sob a perspectiva do escritor Otto Maria Carpeaux, que já não é nosso contemporâneo, nem conhece a situação atual da universidade. Essa inversão paradoxal do ângulo de observação, que pode parecer ilógica, é na verdade o próprio processo de geração e manutenção da vida literária (e intelectual), que brota do passado, não de forma mecânica e determinada, mas através das escolhas específicas da tradição prossegue em direção ao futuro. Da mesma forma, o que resta de uma geração é colocado em confronto com o passado para que seja determinada sua posição e valor. Com este tipo de exercício, podemos “estranhar” algumas de nossas práticas mais arraigadas, e transformamos a leitura do crítico, de algo exterior, num interesse vital — que é a suprema tarefa da literatura e do seu ensino. PALAVRAS-CHAVE: Tradição literária, ensino, crítica. RESUMEN: Las reflexiones sobre la enseñanza de la literatura imponen el cuestionamiento de cómo la literatura en general puede servir como una lección para el hombre. Para ser más simple y directo, que podemos hacer, como maestros de la literatura, de la lección de que los principales críticos de literatura? La primera condición para establecer un diálogo fructífero con el pasado es no considerarlo como algo históricamente específico y que no guarda relación con nuestra vida, o como una lección para ser cosechada y puesta en práctica, sin previo y sincero examen. Queremos iluminar algunos principios y procedimientos comunes en la universidad brasileña de hoy, desde la perspectiva del escritor Otto Maria Carpeaux, que ya no es nuestro contemporâneo y no conoce la situación actual de la universidad. Esta paradójica inversión del ángulo de vista, que puede parecer ilógico, es, de hecho, el proceso de generación y el mantenimiento de la vida literaria (e intelectual), que nace del pasado, no de manera mecánica y determinada, sino a través de opciones específicas de la tradición sigue hacia el futuro. Del mismo modo, lo que queda de una generación se pone en confrontación con el pasado a fin de que se determine su posición y valor. Con este tipo de ejercicio, se puede ver en modo crítico nuestra situación y algunas de nuestras prácticas más arraigadas, y transformar la crítica en un interés vital - que es la tarea suprema de la enseñanza de la literatura. PALABRAS CLAVE: Tradición literaria, educación, crítica.

Carpeaux e a Universidade

da Europa do seu tempo . do italiano. de relações e influência internacionais.. Tinha o conhecimento de muitas línguas: segundo seu amigo Antonio Houaiss. pessoalmente. era senhor do galego. Ele era um leitor de Shakespeare no original.Otto Maria Carpeaux (1900-1978) teve uma atuação de grande valor na vida intelectual brasileira.] Fazendo um retrospecto rápido. lia polonês e lia tcheco. Sua relação com a universidade é controvertida. Rilke.. estivesse na contra-mão das mudanças que adaptavam a universidade à vida moderna. e do alemão e das línguas germânicas. Como se vê pela amplidão dos seus estudos. Hofmannsthal. o questionamento do que à reverência: “Quando estudante. algo afim da espanhola [. ele também tinha um domínio não pequeno da língua eslava. sociologia em Paris e literatura comparada em Nápoles. ainda que ele. mais tendente ao exame. entre o utilitarismo técnico e oportunismo político. do português. segundo sua tradição). e os novos rumos da universidade. pouco antes dos últimos exames. do siciliano (era um profundo admirador de escritos dialetais da Sicília). humanística. do provençal. Nascido na Áustria com o nome de Otto Karpfen. que não se limitava às ciências exatas ou humanas: estudou Direito e Filosofia na Universidade de Viena.. do espanhol nas diversas modalidades. do francês. Mas do inglês. Um trecho de um ensaio vemos como sua atitude é. à investigação. tinha admiração por aquele tipo de literatura populesca que se desenvolveu no sul da Itália. freqüentemente. desde o início. O domínio passivo de leitura dele era fenomenal. jurisconsulto famoso. para não dizer cínicas. o italiano. aconselharam-me fazer uma visita em caráter pessoal ao recém-eleito reitor da Universidade.”(p. falado. que ele lia corretamente. à solidez do ensino secundário e da educação universitária austríacos. tido como uma das inteligências mais penetrantes e mais frias. de feição picaresca. Teve uma ampla formação universitária. [. ciências matemáticas em Leipzig. Ele lia russo.. do catalão. 160) O seu domínio de várias línguas e literatura européias deve-se. “. foi contemporâneo de um período de grande florescimento da vida intelectual austríaca — a época de Kafka. num misto de amor para com o que a instituição representava (ou deveria representar. Werfel. aí o caso flamengo. servo-croata. quer dizer. era precário. política em Berlim. Freud. sua experiência em relação à universidade não é nada desprezível. esse homem teve realmente um espectro excepcional de leitura..] do bretano eu não sei. que ele conheceu muito bem. em parte. Schoenberg..

e os cursos de letras — entre tantos outros — sofrem com esta separação. pedindo para esperar. eu não tinha ouvido entrar o grande jurisconsulto. Os . e a ciência estaria separada da vida. p. talvez só expostas para impressionar os visitantes. Mais embaixo. séries intermináveis de revistas de Direito Internacional Privado. Cleland. Saint-Simon e Cervantes. toda ela mobiliada de livros. evidentemente nunca lidas. 745). notas à margem das páginas. (. abri um outro volume. havia a ruína do “edifício do espírito. Comecei a examinar as estantes. quando alguém atrás de mim disse: ‘Não se preocupe. Em cima. Crébillon. acessíveis só mediante escadas. Difícil. os moralistas franceses. e em geral mortais os próprios remédios propostos: de um lado. Junto ao esplendor dos edifícios. Para ele. Goethe. toquei a campainha. Chateubriand. afastado das discussões e das descobertas científicas. Absorvido pela curiosidade. sentindo ligeiro frisson. Erasmo e Voltaire. esta catedral invisível”. nas universidades particulares.. encadernações gastas. a separação entre as instituições puramente científicas e os institutos de ensino seria mais um problema do que uma solução. as universidades estavam definhando. que livros seriam estes? Talvez Aretino. os grandes historiadores. são escravos das variações deste e devem provar sua eficiência em números — quer aos donos. os pornógrafos? Ajoelhei-me para confirmar a suspeita. E ali. Ainda mais embaixo. seria enfim o próprio fim da universidade: e o ensino ficaria entregue à rotina. quer ao estado. para ele. Byron. pois dela dependia a vida espiritual das nações.” (CARPEAUX. eu também já fiz explorações assim em bibliotecas alheias para investigar as preferências e o caráter dos seus propretários”. As suas preocupações são pertinentes e atuais. mas cobertas de poeira. Esperei dez minutos.) Devidamente anunciado. facilmente acessíveis. O criado levou-me para uma sala. a função de apêndice útil do mercado de trabalho. 2005. Quando despolitizada. Carpeaux sentiu mais concretamente a decadência da universidade nos seus anos de formação. achar os culpados. coleções completas. embaixo. Maquiavel e Lichtenberg. quando o nazismo estava em ascensão na Alemanha e os estudantes preocupavamse mais com agitações políticas que com a formação universitária. vinte minutos — o grande homem ainda estava ocupado. Quase sempre são destinados a formar profissionais para o mercado de trabalho. os clássicos. leitura preferida de um céptico desprezando os homens e as instituições feitas pelos homens. tampouco abertas jamais. escondidos atrás de portas.(década de 1920). a universidade mostrava o outro lado da moeda da modernidade: o utilitarismo. nas públicas — para não terem a sobrevivência ameaçada. A saúde da universidade deveria ser salvaguardada. ainda que nelas se trabalhasse muito e aparecesse resultados comemorados pela sociedade..

Eles não estudam mais do que o necessário. por não nos fornecerem nada. seriam ciências inúteis. Em suma.cursos perdem toda a autonomia intelectual. Antes. a universidade era outra. Carpeaux vê o problema no seu início. seriam as ciências úteis. A necessidade de apresentar os números reflete-se também na qualidade do ensino. por sua vez. eram para ele um dos principais problemas da universidade: “Há duas espécies de estudantes: chamá-la-emos os “ricos” e os “pobres”. são dirigidos praticamente de fora da instituição. Junte-se a isso a benevolência. apodítica. e não contarem com a segurança de uma metodologia facilmente demonstrável. porém. que não têm necessidade de estudar. em virtude dos sacrifícios para tornar a vida mais digna. é de que a utilidade das ciências é determinada segundo as aplicações práticas: a física e a química. mas problemas semelhantes já se impunham. necessitam deles. importando de forma infeliz certos métodos que lhe dão uma pose de ciência .” O problema da mentalidade do nosso tempo. sobretudo têm pressa de terminar os estudos. o indispensável para passar nos exames. devemos admirá-los. mas que através dos estudos testemunham grande respeito às ciências. que os examinadores lhes devem como recompensa pelos seus esforços. o nível baixa sensivelmente. plenamente justificável. os esforços ulteriores parecemlhes ridículos. Ele. por fornecerem objetos úteis para o consumo ou para a guerra. pelas ocupações acessórias para ganhar a vida. e estas. Sem poder ser rigorosa. com suas necessidades e com a visão da universidade como um instrumento para a ascensão ou prestígio social. E esse nível é a morte da Universidade. por serem pobres dentro da universidade. vê com bastante problema as implicações reais das “ciências inúteis” — as humanidades que. para subsistir materialmente. O nível baixa até o nível dos estudantes “ricos”. E são eles que determinam o nível geral. estudam para se assegurarem um melhor sucesso na luta pela vida. comum às mais diversas ideologias do último século. Toadavia. a história e a filosofia. Os estudantes. Seria cruel e estúpido censurá-los. Existem outros “ricos”. que querem um grau acadêmico para renome social. para não reprovar “demais”. em nome do reconhecimento do curso e da obtenção de bolsas de fomento. sofrem de um certo complexo de inferioridade. Os estudantes pobres são aqueles que estudam “para a manteiga e para o pão”. Nem mesmo a pós-graduação escapa deste destino. deve ceder e abaixar o nível. importa não se dissimularem os graves inconvenientes: vivem embaraçados pela miséria.

porque as ciências modernas e suas investigações têm menos necessidades de cérebros que de batalhões de estudantes. resto da elite de outrora. e o “complexo de inferioridade” resultante da perda da autonomia e da própria convicção da importância das humanidades torna-se o lugar ideal para a válvula de escape que é o outro perigo da humanidade: a sua politização. Para Carpeaux. As ciências humanas. A politização da universidade. têm uma utilidade tão decisiva que os regimes totalitários acharam indispensável regular pela força o estudo das ciências cujas conseqüências práticas poderiam abalar estes regimes. No seu amorpróprio e na fobia inconsciente à vida racional. e que são. está estreitamente ligada à classe média e aos seus problemas políticos. “maduro para a violência”. As universidades não forneceriam mais as elites intelectuais. enfim. que ataque a sua auto-estima. justamente porque a vida política depende delas. para o surgimento de novos líderes cuja fecundidade destrutiva tornou-se evidente em todo o século XX. quer mais certezas a que se ater do que problemas que a deixem insegura. A cultura da reclamação se instaura e se perpetua. ora sutil. observa Carpeaux. as ciências humanas. As ciências humanas.tão exata quanto qualquer outra. Os estudantes não representam nem aspiram mais à Inteligência. funcionários superiores de toda espécie. nas humanidades. O terreno está preparado. no desejo de auto-defesa desacompanhada do senso crítico. ora ostensivo. O discurso difuso entre estudantes e professores. são “intelectuais”: médicos. Os regimes totalitários não se preocupam com as ciências “úteis”. e sobretudo da necessidade de pertencer a um grupo que o deixe intelectualmente seguro — um partido. por suas conseqüências na sociedade. e a massa dos . justamente. a reação contra a realidade torna-se mais raivosa e perde-se. assim. e para isto eles satisfazem”. A grande massa dos “intelectuais” é avessa à problematização e à discussão intelectual. Ele está. segundo Carpeaux. uma ideologia — é que está o perigo deste tipo de intelectual produzido pela universidade. “que pretende substituir o espírito no papel guiador das massas. O vazio intelectual causado pelo rebaixamento do nível. têm um caráter messiânico. e aos quais a humanidade surda não presta ouvidos. especialistas científicos de toda sorte. segundo Carpeaux. advogados. o próprio senso da realidade. “mas verdadeiras massas. os clercs. deixando-as livres no seu desenvolvimento. a violência em todos os setores da vida pública é o fato central da nossa época. Somente uma pequena parte destes “intelectuais” pertenceria à Inteligência. Não importa se soam muitas vezes falsas as boas intenções daqueles que dizem querer transformar a sociedade. num círculo vicioso. raciocina por slogans e palavras de ordem. foram durante o último século muito influenciadas — para não dizer sufocadas — pela vida política.

dos Pasteur e Henri Poincaré.intelectuais também”. todos formados num regime de ensino secundário ou superior muito facilitado [. uma vez que este é violentamente antiintelectualista. que se propagou e venceu através das classes médias. de funcionários públicos. dos Flaubert e Proust. como uma criança quebra o brinquedo insubmisso. violentamente revolucionária e anti-intelectualista. Este teria criado uma nova classe média. cheia de ressentimentos. dos Rodin e Debussy. O próprio Bolchevismo estaria estreitamente ligado a este fenômeno. cujo maior porta-voz teria sido George Sorel. preocupado com a decadência das “autoridades sociais”. este discurso sobre a decadência. e da fraqueza dos regimes tzarista e capitalista ante a sua violência. sendo assim como um “irmão” do fascismo.] deve-se precisar o pensamento: o fascismo e bolchevismo têm o lado comum de serem expressões das novas classes médias. resultados diversos das mesmas crises e transformações sociais. visto que a burocracia soviética e outras camadas privilegiadas do operariado não seriam outra coisa senão uma nova classe média.. “numa das épocas mais magníficas do espírito francês”. furiosa contra os livros que já não sabe ler e cujas lições já não garantem ascensão social. do seu alto poder destrutivo.” . de pequenos empresários. dos Mallarmé e Claudel. Está madura para a violência. A classe média é uma criança perigosa. nossa época não parece ter clara consciência do papel da classe média nas revoluções fascista e bolchevista. seria o pai espiritual comum do fascismo e do bolchevismo. fato admirável. O exemplo mais característico. E a ideologia que permite explicar o espírito das novas classes médias é a ideologia pequeno-burguesa. é o fascismo. Assim como o século XIX esqueceu-se do potencial perigoso das classes médias (a classe que fizera a Grande Revolução). que vê como inútil. “Privada dos privilégios da Inteligência. para ele. O século XX teria visto a ascensão de classes inteiramente novas que o século anterior ainda não conhecia. a classe média quebra furiosamente o instrumento. justamente numa época em que a França produzia intelectuais da estirpe dos Taine e Bergson.” A ideologia pequeno burguesa. contudo. dos Degas e Cézanne. O julgamento negativo de Sorel. assim como toda ideologia pequeno burguesa. não seria de se admirar. que o próprio Karl Marx não poderia prever: “verdadeiros exércitos de funcionários privados.. assim como a nova classe média é hostil ao espírito que não pode compreender. “das quais é a expressão triunfal”.

o papel principal da universidade — é um problema de “pedagogia humanística”.As novas classes médias empregariam. ligada a nenhum órgão oficial. O ensino de cultura geral seria uma das questões centrais da vida espiritual da nossa época. É uma cultura geral puerilizada. no uso da sua violência para a salvação social da classe. na universidade. no seu surgimento. para ele. mas dar ao estudante capacidade para escolher a sua convicção. Para Carpeaux. seria colocado em xeque. Esta catástrofe irrompe sob o signo do progresso. por ironia.” (Olavo de Carvalho). não há mais cultura geral. deveria caber ao ensino secundário. São estes homens. fato proposto pelo futurismo e concretizado pelos totalitarismos. mais tarde. como no passado havia formado o gentleman. o problema da formação das elites — que é. que. o Gebildeter. justamente no momento da chegada da maturidade dos alunos. O utilitarismo é o inimigo mortal da universidade. com a filosofia. em geral dos doze aos dezoito anos.” Assim. contra o próprio espírito. Eram antes “clubes de aficionados. ocuparão os espaços dos intelectuais e opinarão sobre tudo. “com a autoridade que o grau acadêmico lhe confere. ele acredita que a conseqüência da moderna educação universitária “é um decidido adeus aos livros”. A universidade medieval. de todas as conquistas e armas que o espírito criou. adaptada àquela faixa etária.” Carpeaux defende a Universidade de estilo medieval. Paradoxalmente. voltada à cultura geral e à formação da personalidade. O preparo do ensino profissional. Até o próprio ensino de cultura geral. se dará através da mídia: uma cultura massificada. é o resultado do afastamento das tradições: “Da diminuição das lições latinas existe apenas um passo para a destruição dos livros e museus”. movidos pelo puro anseio de conhecimento. não teve sua atividade reconhecida pelos órgãos oficiais. na sua concepção. à sua missão original. pois é limitada apenas ao ensino secundário. Não caberia à universidade “formar crentes nem sugerir convicções. posteriormente. era uma entidade intelectualmente autônoma. Depois. Todo contato com a literatura. Não esteve. e não a fornecedora de profissionais e estudantes violentos. se cotizavam e mandavam vir os melhores professores de onde estivessem. com a história. A universidade deveria ser a formadora dos caracteres das nações. numa época de pouca maturidade do aluno. de início. adestrados na sua especialidade e infantis no que se refere a todo o resto é que ditará a opinião média na sociedade. o lettré. de utilidade prática reduzida. nas escolas secundárias. cujo modelo Carpeaux defende. que resultaria. . num combate às “línguas mortas” na escola. a única saída para a Universidade seria o retorno às suas fontes.

sob a autoridade de um tector scholarium. e a massa de estudantes que afluía aos centros universitários era designada como discere turba volens (“massa dos que querem aprender”). e não a universitas scientiarum. de Kierkegaard ao próprio Nietzsche (que jamais escreveu um trabalho dentro dos cânones universitários) agiram fora do âmbito da universidade. movida tão somente pelo interesse de uma comunidade acadêmica. prestígio social. de Bacon a Voltaire. não eram subordinadas diretamente às autoridades. nem mesmo o surgimento da filosofia moderna. Os alunos reuniam-se em grêmios e corporações para garantirem sua proteção. de Petrarca a Leibniz. Desde então. A universidade medieval tem um caráter internacional. A nova vida intelectual teria gravitado em torno às cortes. funcionava. coloc. como as demais corporações medievais que garantiam certo equilíbrio de poder na Idade Média. . os grandes intelectuais. portanto. continua ele. Não obstante. a detentora da totalidade do saber. as sucessivas mudanças mais ou menos traumáticas que afastaram o ambiente universitário do centro da vida intelectual. “foi a interferência cada vez maior dos poderes externos que provocou. Por ter o corpo discente composto na maioria por estrangeiros. interessada sobretudo no saber e não na perspectiva de uma profissão futura. a Renascença na da deve à universidade. Em 1158 o imperador Frederico Barba-Roxa conferiu privilégios especiais e imunidades aos estudantes estrangeiros de Bolonha. As universidades viviam. de Joseph de Maistre a Karl Marx e Tocqueville. os estudantes gozavam de reputação e da proteção e mecenato dos cidadãos ricos do local. eram corporações de estudantes que visavam facilitar o acesso das pessoas aos conhecimentos. numa relação de reciprocidade com outras instituições sociais e com outras autoridades do saber: monges isolados. a pobreza. estendendo depois estes privilégios às outras instituições de ensino superior. entre os séculos XIV e XVII.A universidade medieval não tinha um intuito prático. Difícil imaginar. Os professores viviam numa condição paradoxal: de um lado. não havia como esperar uma utilidade social daquela instituição. de outro. e os professores viviam das contribuições dos alunos. o conjunto dos estudantes. que encontravam-se em terra estrangeira. na qual o latim funcionava como língua mediadora. assim.” Com efeito. uma instituição de ensino semelhante. A universidade era então uma instituição estritamente privada. fonte). Segundo Carvalho (98. sábios independentes. de Darwin a Freud. desvinculada aos interesses dos propretários e das diretrizes de órgãos oficiais. trovadores. hoje. geralmente feita de estudantes de todos os países da Europa. Não se arvora em detentora do saber universal: a universidade é apenas universitas scholarum.

teria conservado. A universidade. Ao contrário. num dos ambientes mais “atrasados” e “desatualizados” da Europa. até a sua destruição pelo nazismo. 1998. 1 2 Ausgewählte Schriften. de certo modo.2 No ensaio Meditação de Basiléia. . num ambiente de extrema liberdade acadêmica. mas possam estender sua ciência a novos domínios que lhes estavam fechados. hoje. teria permanecido ainda muito ligada aos modelos medievais. Frankfur-am-Main. ligado ao antigo modelo alemão de união da pesquisa científica e transmissão pedagógica. procura muito mais defender. o que com freqüência resulta não somente em dar a esses assuntos um sentido mais elevado. S. paradoxalmente. Carpeaux revela o seu ideal de sistema universitário. e introduzir assuntos até então estranhos e abordá-los de uma maneira livremente escolhida. Band 5. evitando quaisquer conflitos internos sérios que evidencie a sua fragilidade. como testemunha Schelling: bastaria lembrar a louvável liberdade que reina nas nossas universidades. a força do passado e lançado as sementes para o desenvolvimento intelectual do futuro. 11. Aí teria surgido uma filosofia estreitamente ligada à universidade.A grande exceção teria sido a universidade alemã que. o utilitarismo técnico e o servilismo político teriam minado as universidades alemãs. e que faz com que os professores não sejam obrigados a ater-se aos títulos das especialidades admitidas e consagradas. assim. de Kant a Hegel. assim como toda a nação alemã. 1998. Para ele. apud Carvalho. 1985. mas em ampliar. a ciência mesma. a universidade medieval e a universidade alemã incentivavam o confronto dialético: O mais breve exame dos debates filosóficos daquele tempo basta para mostrar que não só havia plena liberdade de palavra mas também que ali se incentivava entre os professores um ostensivo confronto de idéias que em qualquer universidade brasileira de hoje – e mesmo em muitas européias e norte-americanas – soaria como um escândalo intolerável. Suhrkamp Verlag. Carvalho.”1 A Alemanha. segundo Carvalho.

Desta forma. entre nós. No entanto. para ordinário (isto é. em geral. Rio de Janeiro: Cruzeiro. outros trabalhos publicados podem determinar sua nomeação para professor extraordinário e. assim como a bajulação e até o casamento com a filha de um catedrático influente. Contudo. sem que haja necessidade de freqüência obrigatória. O resto desistia sem ter sido constrangido. o aluno tem a liberdade de aprender. Mais tarde. mas de autonomia intelectual. que eram. O. havia uma seleção natural. uma tese para concurso e nunca mais publica nada. 1966. os livros que prefere. Por isso se costuma dizer que os três caminhos para a cátedra correspondem aos três processos da medicina antiga para introduzir remédios no corpo: per os. _____. não no sentido da autonomia administrativa. História da Literatura Ocidental. porém. Não há programas nem pontos. o estudioso já formado que pretende seguir carreira universitária é nomeado docente livre. de escolher livremente os professores. Nem sempre este sistema funciona impecavelmente. o professor universitário tinha status de ministro de estado. as matérias. Ensaios reunidos I. enfim. Nas nomeações influi a capacidade de falar bem. . “a famosa libertas docendi. não está sujeito a nenhum poder temporal ou espiritual”. Bibliografia CARPEAUX. As universidades disputavam os melhores professores. o sistema dá melhores resultados. . Não existe ali o tipo que faz.. catedrático). M. per vaginam. e os desinteressados desistiam logo: menos de 30% dos matriculados chegavam aos exames finais. devido ao seu papel de líder durante a reforma luterana..As universidades alemãs não faziam concursos para contratação de professores. Rio de Janeiro: Topbooks. e refletir quais as contribuições que eles poderiam nos fornecer.Apresentando trabalho científico de certa importância. oferecendo-lhes os melhores salários. melhores bibliotecas e laboratórios. de Olavo de Carvalho. rigorosíssimos. segundo ele.não há concursos. VIII v. 1999. justamente porque a vida universitária sempre está relacionada à vida de cada nação. per anum. Da mesma forma. Poderíamos adotar. As universidades eram autônomas. uma vez na vida. Na Alemanha. o sistema alemão? O próprio Carpeaux reconhece que a cópia falsifica o modelo. Org. a independência total do professor. é importante conhecer os modelos de universidade que obtiveram êxito ao longo da história. ao expor suas opiniões.

crítica & arte. Verbete universidade. Ensaios reunidos II. e LIMA.htm#_ftn9>> em 15/10/2008. Org. 1942. _____. Considerações sobre a universidade. 2005.olavodecarvalho. Rio de Janeiro: Casa do Estudante. U. _____. 1978. S. Rio de Janeiro: Graal. julho 1976. . José. Rio de Janeiro: Topbooks. L. Literatura.org/textos/dines2. O. LEITE. 1. de Olavo de Carvalho. CARVALHO. Nº. Alceu Amoroso Lima. Acessado em << http://www. A cinza do purgatório. Enciclopédia Mirador internacional._____.C.