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Bloco de rua

Fernanda Torres
Sou do tempo em que não se brincava Carnaval nas ruas do Rio de Janeiro. A minha percepção de moça era de que a ditadura militar, tão reativa às manifestações populares e às aglutinações públicas, era a culpada pelo fenômeno. Não sei. O fato é que a cidade passou um longo período muda. Fora a Sapucaí e a Rio Branco, as opções a portas fechadas eram bailes de clube e orgias romanas. O Cacique de Ramos, o Bola Preta e a Banda de Ipanema faziam parte da resistência. Meu espírito de foliã desabrochou tarde, em um esplendoroso Carnaval em Salvador. A velha sociofobia se rendeu aos shows peripatéticos. Na Bahia, não se ouve somente música de Carnaval. É claro que existem o axé e os refrões irresistíveis, como o da água mineral, mas ver Carlinhos Brown reger a Timbalada no Guarani, interpretar Zé Ramalho, Gil atacar o repertório de Londres e Baby e os seus, em uma peregrinação de um dia inteiro, fazerem uma retrospectiva histórica da carreira da diva foram grandes surpresas do Baco à baiana. E mais Ivete, Ben Jor, Marisa, Caetano, o Gandhi, o Ilê e os Apaches. Imperdível. Os fracos, que têm por costume voltar para casa antes das 10 do dia seguinte, acordavam para descobrir que haviam partido no momento culminante da festa. A grande ameaça do Carnaval soteropolitano é o sono. Na época, o Rio era um deserto. Tímidos blocos arriscavam sair, mortos-vivos de Michael Jackson, morrendo à míngua nas vielas vazias. Havíamos perdido o rumo. Hoje, o Bola Preta bateu o Galo da Madrugada, do Recife, em número de foliões e Preta Gil teve de ser transferida para o Centro. A profusão de adeptos tumultua a orla e faz xixi nos canteiros. O prefeito Eduardo Paes, amante da folia, enfrenta os dilemas da organização. No meio da semana, um cortejo saiu sem autorização e engastalhou o tráfego de Botafogo. A guarda entrou em contato com a prefeitura: reprime ou não reprime? O prefeito mandou seguir. Ia fazer o quê? Botar todo mundo em cana? O Carnaval carioca guarda o tom do improviso. Em Salvador, comandos de quatro soldados baixam o cacete de maneira cirúrgica para garantir paz na procissão de eufóricos. O Rio é amador. Os blocos cariocas soam canhestros aos ouvidos do meu amigo baiano, o violonista e compositor Cézar Mendes. Salvo exceções, e ele deu como exemplo os naipes dos metais da Banda de Ipanema, Cézar constata que na Bahia, ao contrário do Rio, os músicos são profissionais. Virtuoses, diz ele. E se escuta bem mesmo longe das caixas. Aqui, quem vem no rabo da bagunça mal entende o que se canta na frente, em um agudo estourado, como uma buzina estridente. A observação me fez pensar que, talvez, a motivação primeira do Carnaval do Rio não seja a música. O Simpatia, o Que M. é Essa?, o Me Beija que Eu Sou Cineasta são como o Baixo Gávea, a Guanabara e a Lapa, salões ambulantes, fiéis à tradição do chope e do filé- aperitivo. Entendi, ouvindo a crítica do baiano, que o que puxa a parada no Rio é a boemia.

Venha o que vier. será permitido. além dos botequins. espero que a informalidade resista.Carioca tem horror a visita. que. a paixão pelas churrascarias evolua para a fundação do Espeta as Carnes. Em dez anos. O renascimento passa por um instante glorioso. tomara que não. Os blocos cresceram. o Monobloco fechará o Aterro e a guerra ambiental dos jardins da orla contra os Napoleões de Boulevard provocará a proliferação desenfreada da iúca. mas ainda não viraram um negócio. Espero. também. A cidade é a sala. É a esse caráter que devemos a volta do Carnaval. Tapumes de madeira farão um curral do percurso e o abadá. mas gasta as horas perambulando pelos bares e calçadas. planta dura em formato de agulha capaz de cegar o incauto. habemus esquinas. do Picanha Nobre e do Estou em Brasa. Francisco Gomes Vargas .