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Em Respostas e perguntas.

Rio, MEC, 1953 UMA FONTE DA FILOSOFIA DE MACHADO DE ASSIS TODO O MUNDO conhece o delírio de Brás Cubas: num deserto, o delirante encontra-se em face de um "vulto imenso, figura de mulher", de impassibilidade egoísta, de eterna surdez; reconhece-a como a Natureza, sua mãe e inimiga; ela lhe explica a lei cruel que rege o Universo ("A onça mata o novilho porque o raciocínio é que ela deve viver"); mas afinal o pesadelo cede, e o monstro que trouxe Brás Cubas para aquele deserto transforma-se, sempre diminuindo, na figura familiar do seu gato. - Agora, num outro documento literário, menos famoso entre nós, leio de um sujeito que encontrou no deserto "um vulto grandíssimo, figura desmesurada de mulher", de impassibilidade cruel ("Acreditaste que este mundo tenha sido criado para ti?"), mãe mas inimiga de todas as criaturas; ela lhe explica a lei cruel que rege o Universo ("que é um círculo perpétuo de produção e destruição"); aí também aparecem monstros, dois leões, que teriam devorado o infeliz, se um vento de areia não o tivesse encoberto e mumificado; "mais tarde, viajantes encontraram a múmia, trazendo-a para a Europa, colocando-a no museu não sei de que cidade" - não importa, porque todos os museus se parecem, assim como, conforme Machado de Assis, todos os cemitérios se parecem. - Esse outro documento, que o autor das Memórias póstumas de Brás Cubas deve ter conhecido, é o Dialogo della Natura e di una islandese, que faz parte do volume Operette morali, de Leopardi. As poesias de Giacomo Leopardi não se ignoravam no Brasil, na época do romantismo; até hoje, o maior poeta que a Itália produziu depois de Dante é considerado no Brasil como um romântico melancólico, um poeta elegíaco. Talvez porque se desconheciam os seus diálogos em prosa, aquelas Operette morali que são uma das grandes obras da literatura universal. Machado de Assis as teria conhecido? Machado foi leitor assíduo de Schopenhauer, e este, por sua vez, foi grande admirador de Leopardi. Voltarei a esse ponto. Em todo caso, o autor do delírio de Brás Cubas reconhecido teria em Leopardi mais que um poeta melancólico e sim um pensador poético ao qual o ligavam profundas afinidades. O delírio de Brás Cubas é da mesma lucidez das Operette morali, que são o documento principal da filosofia leopardiana. São diálogos (e, em parte, monólogos) de uma estupenda variedade, apesar da monotonia do pensamento e do rigor clássico do estilo: resultados das leituras enormes de um espírito enciclopédico. Duma fonte hebraica surge o "cântico" do mitológico gallo silvestre, despertando os homens para acordarem do sono das "imagens vãs". O Frammento apocrifo di Stratone di Lampsaco é uma pequena falsificação literária, pondo na boca do filósofo grego as idéias leopardianas sobre o universo. O diálogo de Hércules com Atlas, ao qual a decadência do mundo torna cada vez mais leve o fardo nos ombros, lembra os imensos estudos mitológicos de Leopardi, enquanto aquele diálogo do islandês com a Natureza lhe revela os interesses geográficos. O poeta volta para o solo italiano, notando a conversa de Torquato Tasso, preso no manicômio, com o seu "gênio familiar". ("Como vai, Tasso? - Como se pode, numa prisão.") Outro famoso poeta italiano, Parini, fala, pela boca de Leopardi, da vaidade da glória e dos inexoráveis destinos humanos - "mas é preciso acatar o nosso fado, por onde nos traga, com ânimo forte e sereno", o que lembra tanto os estóicos da Antiguidade como o amor fati de Nietzsche. Enfim, os estudos científicos de Leopardi inspiraram-lhe o diálogo do célebre anatomista holandês Ruysch com as múmias do seu museu anatômico às quais ele sabia conservar toda a frescura de corpos vivos; certa noite, os mortos acordaram o sábio, cantando o coro (são os únicos versos no volume das Operette morali) que condensam a filosofia leopardiana: "Solo nel mondo eterna, a cui si volve Ogni creata cosa In te, morte, si posa Nostra ignuda natura; Lieta no, ma sicura Dall'antico dolor..."444 O personagem principal de todos os diálogos sempre é o mesmo "islandês": a criatura humana perseguida pelo Fado, até repousar, como múmia, no museu anatômico. Reina neste livro, assim como no diálogo de Tasso com seu gênio familiar, "una notte oscurissima, senza luna nè stelle". Mas

quando o homem, despertando do "sono das imagens vãs", reconhece o terror e a obscuridade da vida, então se lhe aproximam as imagens da arte - assim, Nietzsche explicava as origens do teatro grego - transformando o terror em sublimidade e o absurdo em comicidade. Sublime, a poesia de Leopardi é, e trágica. Na sua prosa, na mitologia fantástica dos diálogos, ele procurava "um grande estilo cômico". Tasso e Ruysch são personagens de féeries: Ruysch assusta-se, de maneira cômica, da vivacidade musical das suas múmias bem conservadas; e a Tasso, implorando as consolações do Espírito, seu gênio familiar aconselha procurar o espírito nos "licores generosos". A obra-prima desse triste humorismo leopardiano é o Diálogo de um vendedor de almanaques e de um passante na noite de Ano-Novo: ao vendedor, que promete dias felicíssimos para o futuro, o outro demonstra de maneira rigorosamente lógica que não há motivo para acreditar em dias mais felizes que foram os do passado - e estes teriam sido felizes? Mas, admite, para o otimista existem na realidade; e o vendedor corre, apregoando com convicção fortalecida seus almanaques. Ora, pode-se viver com uma filosofia assim no coração? Contudo, esse diálogo do vendedor de almanaques encontra-se traduzido no último livro de Jean Paulhan, que foi editor das Éditions de Minuit e um dos chefes intelectuais da Resistência Francesa, exemplo de comportamento ativo, apesar dos motivos mais fortes de desespero definitivo, "com ânimo forte e sereno". Eis a única maneira possível de um pessimista achar (como Machado na agonia) que "a vida é boa". Pelo menos como filósofo Leopardi não foi elegíaco. Daí a diferença, já observada por De Sanctis, entre o poeta italiano e Schopenhauer, que também foi ateu mas espiritualista: dá testemunho disso a metafísica, "multicolor como a pele de uma onça", do filósofo alemão. Toda elegia é, por índole espiritualista. Mas a filosofia de Leopardi - a unidade filosófica da sua obra já foi demonstrada pelos mais agudos críticos italianos - é o materialismo. No Frammento apocrifo di Stratone di Lampsaco, Leopardi já fala da eternidade da matéria. Apenas esse materialismo não se baseia no cientificismo físico e biológico do século XIX, que Leopardi ainda ignorava, e sim nos seus estudos de filosofia grega. E os versos do coro dos mortos, no diálogo deles com o anatomista Ruysch, não deixam dúvidas quanto à fonte dessa filosofia, materialismo cuja finalidade ética é apenas a ausência da dor: "Nostra ignuda natura Lieta no, ma sicura Dall'antico dolor..."445 É o materialismo de Epicuro: mais um que anda caluniado pelos séculos. Epicuro, embora materialista, não foi um "epicureu"; apenas achou que "a vida é boa". Leopardi, embora triste, não foi um elegíaco. Machado de Assis, embora espirituoso, não foi um cético; ele também - "a vida é boa" - foi materialista. Em Leopardi também se encontra o motivo que sugere a impressão de ceticismo ao leitor de Machado de Assis. Como materialistas epicureus, o erudito grecista Leopardi e o "mulato grego" Machado seriam "pagãos"; mas na verdade não podem existir pagãos depois do advento do cristianismo. Fica, até nos anticristãos, estímulo da inquietação espiritual, do "ceticismo" pascaliano. Machado foi leitor de Pascal, Leopardi também foi leitor de Pascal; o famoso Pari inspirou-lhe as demonstrações lógicas do diálogo de vendedor de almanaques, sobre o valor do futuro. Mas por serem pascalianos, ainda não eram cristãos: Leopardi consolava-se com a "morte eterna" ("a matéria liberta para sempre da alma extinta", diz o nosso poeta), e o outro com o pensamento de não ter transmitido "a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Egoísmo? O "Epicurismo" lendário é egoísmo, mas o verdadeiro epicurismo não é. O "cântico do galo silvestre" ensinou ao poeta, despertando-o do sono das "imagens vãs", a seguir o seu fado, "com ânimo forte e sereno". O outro, quando o galo da madrugada o despertou da agonia, pôde dizer: "A vida é boa." Pois então, não havendo mais futuro, é boa. MAUGHAM VERSUS MAQUIAVEL "UMA RUA em Florença. Entram Callimaco e Ligúrio..." - assim começa a genialíssima comédia na qual Callimaco, aconselhado pelo criado Ligúrio e ajudado por Frate Timóteo, confessor da bela Lucrécia, consegue passar uma noite com a dama, para arranjar um filho ao matrimônio

estéril do burríssimo Messer Nícia. O autor dessa comédia, talvez a mais alegre e a mais subversiva de todos os tempos, é o homem que arrasta pelos séculos a reputação de latinista pedante, diplomata pérfido e preceptor de tiranos: Maquiavel. Na verdade, o comediógrafo-político só ensinou aos homens o que sempre fizeram sem plena consciência do que fizeram. Acreditando na permanência imutável das qualidades humanas, tirou dos historiadores romanos as leis conforme as quais agem politicamente os homens, os do passado, os do presente e os do futuro. Para chegar a tanto era preciso abolir todas as "imaginações vãs" dos milênios, inclusive a fé na "virtude" dos príncipes e dos seus povos. Só pela sua inteligência superior, uma das maiores de todos os tempos, Maquiavel conseguiria atingir tão completa independência espiritual de observador agudo dos dramas, paixões e comédias da humanidade. Essa poderosa inteligência do patrício de Dante e Michelangelo descobriu as mesmas "leis de comportamento" nos atos do tirano, do demagogo e de uma mulher infiel. E escreveu a comédia Mandragola. Só muito raramente se representa, hoje em dia, essa comédia clássica. Talvez por isso um ator moderno que deve muitos êxitos teatrais à dramatização dos seus próprios romances, tenha resolvido aplicar, no caso, o processo inverso: transformar a Mandragola em romance para arranjar-lhe o êxito que também acompanha sempre os romances de Somerset Maugham. Then and Now, o romance de Maugham, recebeu na excelente tradução de Érico Veríssimo o título Maquiavel e a dama, e isso muito acertadamente, em virtude da modificação feliz que Maugham introduziu: o herói da aventura galante, no romance, é o próprio Maquiavel que teria realizado a façanha erótica quando embaixador de Florença em Imola, junto ao terrível César Bórgia, em situação política que muito se parece com a da nossa época - "then and now". Daí o lema bem maquiaveliano que abre o romance: "Plus ça change, plus c'est la même chose." Mas isso se aplica igualmente aos negócios do Estado e aos do amor. As mulheres também são, sempre, iguais. E nesta outra modificação introduzida por Maugham - o grande diplomata perde o jogo: é outro rapaz, mais novo, que toma seu lugar na cama da bela senhora. Voltando, com o coração amargurado pela decepção, para Florença, Maquiavel recupera sua superioridade ao avistar, do alto da colina, a cúpula de Brunelleschi - sua cidade. E o espírito florentino inspira-lhe a vingança que transforma a derrota em comédia. Senta na mesa dos negócios do Estado e começa a escrever: "Uma rua em Florença. Entram Callimaco e Ligúrio..." O romance de Maugham é brilhante comédia: Maquiavel tem de experimentar, na própria carne, a excelência da sua doutrina de que "plus ça change, plus c'est la même chose". Os tiranos e as mulheres serão sempre assim. Deste modo ele perde o jogo erótico - enquanto Maugham perde o jogo político. A situação angustiosa, "then and now", transformou-se ao romancista num ornamento de arabescos históricos em torno da intriga erótica. Maquiavel, porém, usou o enredo erótico para definir uma situação política. Nenhuma palavra, na Mandragola, alude aos problemas políticos de que, conforme Maquiavel, a doutrina do Príncipe seria a única solução. No entanto, podia-se afirmar, com toda a razão, que a Mandragola é a comédia da sociedade corrupta da qual o "príncipe" é a tragédia. Zombam e "font l'amour" à sombra da cúpula de Brunelleschi; mas o céu está cheio de nuvens sinistras. A transformação da comédia em romance por Maughan dissipou-as, porém. Afinal Imola não é Florença, e sim apenas o teatro de uma farsa erótica: Maquiavel e a dama. Quem é a dama, já sabemos: é a mulher de todos os tempos. Mas quem é Maquiavel? O Maquiavel de Maugham não é o Callimaco da comédia. Mas é ele, pelo menos, o Maquiavel da história? Ou apenas o Maquiavel da "lenda negra do maquiavelismo"? O diplomata esperto que sabia contar histórias indecentes, ou então o exilado, como Dante, que sabia traçar os rumos da História? A chave para resolver-se esse pequeno problema é o conceito da virtù. Durante séculos e milênios o gênero humano acreditava na "Virtude" como inspiradora dos grandes feitos, sobretudo na vida pública. Maquiavel, porém, compreendeu que deveria ser assim mas não é. E modificou o conceito, atribuindo o êxito político à virtù que significa, para ele, inteligência e força (com um pouco, e não pouco, de astúcia e violência). Ora, hoje em dia não se usa mais a palavra "virtude", que tem sabor de moralismo hipócrita: Valéry tem dito coisas excelentes sobre a decadência da velha palavra, numa ocasião quando a Academia Francesa distribuiu o Prix de

Maugham porém acredita tampouco em cúpulas como em virtudes. "Ele escreve demais". realmente. é para Maugham uma fraqueza falível. tese repetida até à saciedade. é uma solução. mas sim apenas uma alusão política e no fundo um axioma erótico.. Pois a viagem. dizia Mirabeau. viajando de país para país. uma "força tremenda". Daí não custa nada. a transferir o teatro com a cúpula de Mandragola. plus c'est la même chose" do espetáculo histórico. "A grande maioria dos seus contos e das suas peças não passam de casos da crônica policial. E se o romancista inglês representa como mero diplomata e farsante o pensador italiano. nenhuma personagem honesta. senão o próprio autor que ganhou o processo perante o tribunal da História. desde Croce.Vertu. porque se perdera a realidade: a tese do seu admirável romance Il fu Mattia Pascal. que é. no palco. Passaram-se os dias em que o crítico Adriano Tilgher quis tirar das obras de Pirandello um sistema . como ele mesmo resume no Summing Up . até para a Oceania da Chuva e agora para a Itália de Maquiavel. No romance. que foi. Na pátria do escritor. tampouco tem sentido a própria vida na sua obra-prima Of Human Bondage. Em Origens e fins. foi a primeira censura. Nesse sentido.foi Maugham que perdeu o jogo novelístico. a Maugham. de Florença para Imola. e. ligeiramente poetizada. só é para ele um espetáculo de turismo. Um mundo que. 1943 ATRÁS DE PIRANDELLO LUIGI PIRANDELLO pertence à família dos escritores mais apreciados no estrangeiro do que na própria pátria. tampouco como a rima." não é uma verdade histórica."467 Maugham tem fama de grande narrador mas também. E no fundo é sempre o mesmo caso. bem d'annunziano. este poderia responder assim como respondeu Rivarol à advertência de Mirabeau: "Vous devez". como Chuva). Maquiavel perdeu o processo erótico. vista do alto da colina."materialista" sem filosofia. entre outros. O teatro de Pirandello seria um caso. Assim explicam também a inquietação geográfica do romancista. a maior força espiritual dessa literatura. Somerset Maugham tampouco acredita. Naquela não há. mistura própria das crônicas espirituosoengraçado-filosófico-pensativas de jornal. a mesma paisagem é o teatro da tragédia de Dante e Michelangelo. como já se observou. à realidade. je n'eusse jamais osé vous le dire. é a história do desmoronamento da virtude de um missionário.316 marcado este por uma barbichinha aristocrática à maneira de D'Annunzio. "observer la difference qu'il y a entre nos deux réputations!" . engenhosamente arranjados para contos divertidos dos suplementos de domingo. Para ele. a comédia Mandragola é grande peça trágica e Then and Now um pequeno romance humorístico. a admiração era bem menos calorosa. Enquanto este ficou sempre fiel à sua cidade."Ah."mais de grand style". Pois a reputação de Maugham é tampouco indiscutida como a de Maquiavel. A crítica literária italiana. das desgraças do "plus ça change. sem encontrar jamais outra solução que uma renúncia inglória. talvez a melhor de suas obras (conhecida entre nós. Rio. Para Maquiavel. não quer saber nada da literatura italiana moderna. até à suprema homenagem burguesa do prêmio Nobel. cercou de mil homenagens. a essa figura isolada. admirava-o imensamente. e espantou-se: "toujours avec ce cercle de mystérieuse solitude autour de lui. Casa do Estudante do Brasil. A paissagem com a cúpula de Brunelleschi. monsieur. para Maquiavel. Não se acredita mais em virtude alguma.e Rivarol respondendo: "Ah. de homem que não acredita na virtude nem em nada . advertindo na própria Mandragola que não gosta de "perdere la Cupola di veduta". "cet homme de simplicité bourgeoise" . Miss Thompson. obstinadamente." Há também alguma verdade nisso. Daí se explica parte do grande êxito de Maugham em época que não acredita mais em virtude: mas daí também se explicam algumas restrições que se lhe fizeram.como se exprimiu Juliette Bertrand . A virtù. para farsas cinematográficas de mera aparência trágica. je n'eusse jamais osé vous le dire" . de fascinação. monsieur. Pirandello escreveu muito. "plus ça change."317 E a gente não conseguiu penetrar nesse mistério. sempre repetindo a mistura de desilusão amarga e humorismo fantástico. mas na realidade . tratava-o com certa implacabilidade. sem fundo sério.e por isso seus romances não teriam sentido superior.. o da perda da personalidade.

apenas uma trova. continua."318 Contudo. I Vecchi e i Giovani. despedaçando o mundo desses romances em centenas de contos ("tanti piccoli specchi del mio mondo"). entre eles. dottrina che dovrebbe far sorridere un principiante di filosofia. é antes como a dum homem primitivo."320 Só o velho Benedetto Croce. E. Adamo ed Eva. dramaturgo no meio duma literatura pobre de dramaturgos. escritor siciliano.de filosofia. regionalista. vou confessar a idéia que gerou este estudo: a convicção de que Pirandello não pode ser compreendido como figura isolada. no estilo de Giovanni Verga. o severo sábio não me convenceu inteiramente. ainda uma vez: não quer encontrar. uma sociologia pirandelliana: a qual se encontra no romance. Pirandello é um naturalista que. algures. enterrando-se vivo no culto das suas recordações e medalhas. dando ao herói uma nova personalidade civil. quase desconhecido. da qual agora não quer saber. filho duma natureza virgem. ao qual o romancista e crítico Corrado Álvaro chama "opera centrale che rappresenta la conclusione della esperienza civile di Pirandello". da qual não sofreu. Onde fica o núcleo criador dessa obra? A crítica indicou quase unanimemente o Mattia Pascal. e sim apenas no complexo da história literária italiana. A única personagem que se salva é o velho garibaldiano Curzio Mortara. aparentemente. mas esse outro crítico é o próprio Pirandello: escrevendo. Parece contradição. modificou o conteúdo e a solução do romance.321 Outro crítico está de acordo com isso.diz o autorizado Pietro Pancrazi . Visto do ponto da realidade vitoriosa.322 Mas essa "obra central" difere essencialmente de todas as outras obras do autor: é um romance naturalista. Pirandello era duplamente isolado na época da literatura d'annunziana. um "casetto spirituoso". "Il romanzo di Mattia Pascal" . mas não como a dum principiante. personaggi e problemi di Pirandello. não foi capaz de tal heroísmo de loucura: ao fim da vida. mas não conseguiu terminar o seu último romance. pronunciando pela segunda vez o nome de Verga. idealista que lutou pela vitória dessa realidade. Ficou com a razão o velho Benedetto Croce: "Il filosofare di Pirandello no ha cepa nè coda. cujo chefe era Verga.319 continua. São isolados. da qual o mundo lá fora. É uma figura isolada naquele romance. Pirandello. não quer tomar conhecimento. condensando esses contos em peças que desmentem a realidade social em torno dos indivíduos artificialmente isolados. porém. da paisagem mais virgem e menos literária da Itália. uma inteligência verbosa e sem caráter. ambas incapazes de se acomodarem ao ritmo da nova época. lá. Pirandello. A necessidade de manter-se na vida social foi mais forte do que a dúvida acerca da realidade dessa vida. Quadro triste de duas gerações. a velha dos tempos bourbônicos e a nova do Estado nacional e unitário. I Vecchi e i Giovani é um grande panorama da vida siciliana por volta de 1890. "il trionfo dello stato civile". que. . ocorre-me a frase que Pirandello sempre repetia: "L'arte prosegue la natura". Estranho é também o seu ritmo de vida: esses decênios de pobre professor que escreve romances e inúmeros contos sem o mínimo êxito.o pouco conhecido I Vecchi e i Giovani e o muito conhecido Il fu Mattia Pascal. reedificar o mundo primitivo. Em toda a literatura universal não conheço outro caso de tal distribuição dos gêneros literários na vida de um escritor: começa com romances . obstinado como o seu louco Enrico IV. se opôs. quis recomeçar ("ricominciare" era uma das palavras de sua predileção). abandonou o "Verismo". nenhuma influência. e um clero relaxado e covarde. repete obstinadamente essa canção da loucura. Pirandello é filho da Sicília. De repente."non è soltanto il romanzo della personalità perduta e ritrovata: vi s'incontrano tutti gli altri motivi. sem justificação na sua obra posterior. a glória mundial do dramaturgo improvisado. nada de espontaneidade nem de psicologia profunda. Ritmo de vida literária realmente estranho. Curzio Mortara é o primeiro dos inúmeros loucos desequilibrados de Pirandello. recuperada a saúde mental. Uma nobreza latifundiária. mas é antes a confissão de realidades sociais ao fundo da estranha psicologia pirandelliana: deve existir. na extrema miséria. ao fim da vida. e. em 1935. de Pierre Chenal. e um povo analfabeto. A filosofia de Pirandello é primitiva. ainda por esclarecer. o grupo dos romancistas naturalistas da sua Sicília. con la spontaneità e il getto della prima scoperta. no mesmo ano de 1935. por motivos psicológicos e artísticos. confuso ao primeiro contato com as complicações da civilização e da sociedade. admirador de Pirandello. resolveu continuar na loucura simulada para não se dar conta da realidade dos outros.323 lema naturalista. o cenário para o filme Mattia Pascal. corrompida e impotente. Escritores sicilianos têm sido raros em todas as épocas da literatura italiana.

primitiva. Ulisses. não basta. "Evviva la Provvidenza". que deixou apenas umas poucas obras-primas. Pirandello é o primeiro dramaturgo siciliano. no sentido antigo. recuperara a perdida situação da sua personalidade. primitiva. Contra todas as aparências. Como foi vitorioso o próprio Verga. Hardy e Pérez Galdós. o pastor que conheceu desde menino o filho do senhor feudal. como de uso. naturalistas. é a epopéia dum mundo arquivelho. mortos. até à morte. arte de figuras do tamanho sobrenatural. não quer acreditar que este se tornou adulto. mas heróis. Verga encontrou para isso um símbolo profundo no conto Jeli. renunciou à literatura e continuou. O novo mundo da exploração burguesa.A simples comparação entre Pirandello e Verga. Pirandello. o assassínio. até o signorino lhe roubar. bárbara e clássica ao mesmo tempo. que construiu para os italianos uma alma artificial. as personagens de Verga não são loucas. nos contos Vita dei campi. dogma do poder inexorável dos dados físicos e sociais sobre o destino humano. mais do que no próprio Hardy. Verga fita o sol. é uma obra muito maior. Mas nunca ele alcançou o êxito europeu desses grandes. il pastore. mas vitoriosos. como inscrição. O tema eterno de Verga é a vontade trágica dos homens de manteremse contra o próprio Fado. Em Verga. em decomposição. do dogma filosófico dos naturalistas: dogma do determinismo. no romance daquele nome. O assunto constitui toda a tragédia da Itália moderna. num silêncio altivo. "mais de grand style". porém. em I Malavoglia. muito maior. que a unificação nacional italiana surpreendeu. O assunto épico de Verga . Então. Cita-se o nome de Verga sempre ao lado de Zola.o seu conto Cavalleria Rusticana serviu de libreto à horrível opereta trágica de Mascagni324 . Foi toda a Itália que perdeu a alma. o autor do Oblomov.sem chegar ele próprio ao teatro. o mar e o homem da sua ilha não com desespero científico dos naturalistas. ficando calado até a época em que os triunfos do outro começaram. "fermo e immobile".nasceu de situações particulares da ilha. assim como a ilha homérica. Antígona. em Mastro Don Gesualdo: tudo isso parece. enquanto Verga. cuja palavrice escondeu a realidade italiana. À luz falsamente mediterrânea desta literatura apareceram os escritores "marginais" da Sicília como "veristas". com o fato de haver Pirandello. Em Verga havia uma grande força dramática . povo de estirpe antiga. para se manterem como eram. chegado tarde à sua verdadeira vocação. Todos esses fatos demonstram a situação estranha de ambos no ambiente ruidoso da eloqüência dannunziana. até hoje não entrou na consciência européia moderna. como Adão e Eva. essa Força tem algo do Fado dos antigos. que se recusou a reconhecer a nova realidade.325 "llamado a desaparecer" pela vontade fatal dum deus já morto. Na verdade. que "escreveu demais". o pastor. nos carros de camponeses sicilianos. da corrupção e exploração burguesas. atrasada. artificialmente colocado na camisa de força dum Estado racional. mas com o stupore dum fiel de deuses longínquos. ameaça vedar às personagens de Verga a saída que a construção feudal do velho mundo lhes deixara: a saída para o "sertão" siciliano. Jeli. Esta maior maturidade técnica do sucessor está relacionada. desse mundo primitivo de senhores feudais e escravos. e La Provvidenza chama-se a barca que é o fado sinistro da família Malavoglia. o signorino. talvez. Recusando-se a reconhecer a nova realidade. um ato de acusação social. da luta desesperada contra a miséria. duma religião já esquecida. figuras homéricas e dos grandes trágicos. por mais nova e interessante que me pareça. de Verga não encontrou o caminho do "eterno immobile" à "contingente civiltà". Mas a verdadeira arte regional é sempre universal. legalmente organizada. de inocência elementar. dentro de uma realidade já transformada . A arte épica. não vencidos. renunciou cedo à atividade literária. durante trinta anos de vergonha "modernista". sem lei nem rei. durante a época de D'Annunzio. ao seu lado. Verga participa. e seria conveniente citar. esse pastor de Verga é a primeira personagem pirandelliana. A tragédia ficou despercebida durante os longos decênios do silêncio altivo de Verga. A descrição inexorável das paixões indômitas. É uma arte clássica. e a única saída é a saída para a vingança primitiva. Verga é o épico. o eu: a tragédia que Alfieri tinha profetizado sem a força de dar-lhe a forma poética. o "homme de simplicité". dannunziana.o manterem-se os homens tais como foram sempre. O Verismo é outra coisa. a mulher. diante do quadro duma sociedade primitiva. negando a realidade social dos outros. superficialmente cristianizado no culto da Providência por aqueles insulanos. na aparência. Não o foram. li. mesmo quando tudo em torno deles mudara. Aquiles. a realidade do homem primitivo desvela-se como ilusão. e ainda sinistros. personagem de Verga com a barbichinha .

o eu perdido. de simplicidade clássica. como o seu louco Enrico IV. desde Dante. de Fiesole. Nasceu em 1749. exilado da sua terra piemontesa. criando assim a primeira personalidade verdadeiramente dramática da literatura italiana. Tudo isto se vê do Lungarno. Ariosto. mas contra o estado civil. a porta altivamente fechada. símbolo disso a imensa cúpula de Brunelleschi.dannunziana. de San Miniato. fitando com o stupore do agonizante o sol e o mar eterno e o homem moribundo. vê-se o palacete em que viveu e morreu o espírito mais trágico da Itália: a casa de Alfieri. Acreditava ter nascido para conquistar os últimos lauréis que faltavam ainda à literatura de Dante: os lauréis da tragédia. ALFIERI E A TRAGÉDIA DA ITÁLIA O LUNGARNO. ma con gli occhi di chi va innanzi per la prima volta. único exemplo duma arquitetura que chegou a transformar uma paisagem. Mas ficou. No meio dum povo e duma literatura que. e ao fundo de uma discrição aristocrática descobre-se uma alma trágica. de se desdobrarem em personagens teatrais. pelo falso individualismo dannunziano. Mas esperava que o seu espírito passaria a outros séculos.326 Eis o assunto verganiano da obra de Pirandello. porém. A grandeza épica foi devorada. O mundo fechado da epopéia despedaça-se em mil faits-divers dos contos. os guarda-ventos das janelas sempre descidos. Ricominciare é uma das palavras de sua predileção. mas não conseguiu escrever. o romance em conto. é a do grande renunciador: de Verga. . não reconheceram a realidade. Era homem duma melancolia desesperada. É uma paisagem nobre. fechado no silêncio altivo de Giovanni Verga. mas não em tragédia. Adamo ed Eva. A epopéia transformou-se em caso. Pirandello é uma figura isolada. Um teatro original aparece nessa literatura quando se torna extrema "la disproporzione tra l'individuo e gli obblighi sociali che lo circondano". em face da paisagem trágica. heróica. Pirandello tendia para trás. particular: a recusa das suas personagens a reconhecer a realidade já não é luta contra o Fado. o conto em farsa. O louco Enrico IV não passa de caricatura do invisível herói pirandelliano. entretanto. a renúncia: a de Mattia Pascal. Essa poesia de renúncia. A mesma personalidade do autor perde a coesão. Pirandello fez o indivíduo perdido. o "meio determinante" dos naturalistas transforma-se em mundo de acasos e loucuras que destroem o sentido das vidas particulares. e per la prima volta vede e sente questo miracolo. do povo perdido. É também uma casa de simplicidade clássica. a de Enrico IV. ao lado deles."327 Pirandello. fechando-se num mundo de ilusão. ao fim da vida. a casa em que o conde Vittorio Alfieri. quando a Itália já não tinha esperanças. quis viver. A literatura italiana é fortemente individualista. onde o gigantesco David de Michelangelo lembra os dias trágicos em que o engenheiro de fortificação Michelangelo e o secretário de Estado Machiavelli defendiam a república contra os tiranos: os últimos dias da liberdade florentina. à procura dos "princípios" épicos da humanidade. pois mais ilimitada que o seu desespero era a sua ambição. Petrarca. oferece uma vista memorável sobre a cidade de Florença: a torre aguda do Palazzo Vecchio lembra as guerras civis seculares da república indômita no seio da qual nasceu a nossa civilização moderna. Pirandello transformou a tragédia social em caso psicológico: a epopéia de Verga despedaça-se em mil casos da crônica policial. aquela paisagem de suaves colinas. Pirandello transformou a epopéia dum povo em fato individual. O verdadeiro herói de Pirandello já morrera. como a verdadeira poesia na obra de Pirandello. desfazendo-se em "personagens à procura do autor". o herói fechado na poesia da sua renúncia. talvez por isso. para o perdido mundo épico da simplicidade elementar. dum pessimismo sem limites. e morreu em 1803. sem adornos. é uma literatura de grandes indivíduos fechados. e onde morreu. Alfieri venerava a quatro poetas. Do país perdido. e num conto diz: "Fare come se le non fossero riviste in un ritorno. não passou pela época sem sofrer a deformação inevitável. e esperava que a história literária lhe reservasse o quinto nicho. Tasso. E entre os velhos palacetes. como os maiores da sua nação: Dante. aristocrata piemontês. O stupore religioso transformou-se em loucura desiludida. incapazes. a rua de velhos palacetes aristocráticos ao longo do Arno. no século da pior escravidão italiana.

Disaccentati. apoético. Realmente. E a poética Mirra carece de vida dramática. autodidata violento." Alfieri era megalômano. na Galeria degli Uffizi. duri. Saran pensati. nemini nisi fortasse sibimet ipsi despectus. sem melodia interior.. "Mi trovan duro?"328 . em Florenza. "o livro dos livros".. O retrato de Alfieri.Mas o conde Vittorio Alfieri não era um grande dramaturgo. Era um fraco poeta. e pôs-se a "aprender a poesia". Numa comédia. desarmoniosa. Bruto Secondo. em qualquer verso das suas sátiras. Stentati. A Finestrina no peito de Alfieri é a sua hostilidade furiosa contra os franceses. Para esse seu monumento em S.329 Assim é: "cada verso um ranger de dentes". cantores e dançarinas da ópera metastasiana. não passam de espetáculos duma retórica violenta. desprezado por ninguém senão talvez por si mesmo. com a inscrição dos seus versos: "Liber'uomo esempio. "homem de virilidade dórica no meio da corrupção do Rococó". o seu classicismo frio e seco não é um artifício. Alfieri. mas um grande homem. caprichos e manias obstinadas. sem pensamento. pintado pelo classicista francês Xavier Fabre. Sob este ponto de vista. e o seu sonho era ser sepultado em Florença. oscuri. não "la viril nostr'arte" com que ele tinha sonhado. na igreja panteônica de S. às vezes.não se pode dizer nada de maior sobre ele . E uma dessas manias nos trai o segredo da verdadeira importância de Vittorio Alfieri. Megalomania de um forte ressentimento. Alfieri não era nem sequer poeta. semiconsciente disso. ociosa. Alceste. . Polinice.pergunta . encarnando todas as melancolias e desesperos amargos da alma poética dum homem que não era poeta. entre Michelangelo e Macchiavelli. de Dante que dorme no exílio. d'animo e di mente". daqueles aristocratas do século XVII. a irritabilidade dum "egro di core. Joseph de Maistre. As suas tragédias. a literatura dos arcadianos. e a sua obra maior é a vida. apresenta uma figura imponente. Croce escreveu o epitáfio que exprime o seu orgulho desesperado: "Optimis perpaucis acceptus. Aristocrata quase inculto. que provocou também a indignação moral de outro aristocrata piemontês. partiu daquela corte corrompida de Turim. antes da grande Revolução ele mesmo fala do "ozio mio stupido"330 . como a obra-prima Saul. intralciati. completa. Às vezes é a "malinconia dolcissima" que ele canta. a sua galofobia. o fel. colocou-se a si mesmo sobre o pedestal do seu próprio monumento. das suas tragédias. Croce. segundo as quais a educação pode transformar em gênio qualquer homem. Há qualquer coisa de antigo em Alfieri e na sua desmesurada avidez de glória. e a sua língua pessoal trai. de pretensa simplicidade clássica. dos seus sonetos que ainda fascinam pela atitude altiva. envolvida nos trajes da época. viciosa. La Finestrina. destinada a ocultar a melancolia.era digno disso. o aristocrata piemontês. Quatro ou cinco vezes leu as biografias heróicas de Plutarco. Alfieri passou pela vida afrancesada. com o título castamente orgulhoso: Vita di Vittorio Alfieri scritta da esso. nela descrita.332 que sempre rebentavam pelas dobras da toga aristocrática. Non son cantati. exemplo duma admirável autodisciplina. Oreste. Bruto Primo. sem educação. Virginia. Irti. falando um jargão semi francês.. ficam na frieza classicista. sem poesia. não conseguiu nunca o domínio completo da língua.."331 E . que o próprio Croce admira. como nas dobras duma toga romana. Filippo II e tantas outras são bem medíocres. mas a expressão furiosa. não passam de exercícios de escola. foi estimulado pelas teorias do enciclopedista francês Helvétius. A única obra duradoura de Alfieri é a sua autobiografia. Alfieri fala da utilidade duma pequena janela colocada no peito dos homens e através da qual se reconheceria a verdade da alma deles. literatura melódica e vazia. Agamemnone. exilado como Alfieri. ao pé do túmulo vazio de Dante. Mas." "Apreciado pelos poucos ótimos. Alfieri quis à força desmentir a degenerada literatura italiana da sua época. de um homem.e defende os seus versos: "Son duri. mas a expressão sincera da sua índole. o espírito seco.conseguindo transformar-se em homem.

e um deles . Não por motivos estritamente políticos . realmente "explicou a sua intenção". A literatura italiana não possui tragédia própria. e souberam disso. A literatura italiana do século XVII é cheia de raivas antifrancesas. degli Indifferenti non ne può mai esser nessuno. com a conclusão perpétua: "Matai-os!" Mas a sua ternura não se limita aos reis. mais ou menos artificial em todas as outras literaturas modernas. Alfieri não conseguiu colocar-se no "quinto nicho". movimentados por paixões heróicas e violentas. Mas Alfieri exagera. prefaciando-a com palavras que manifestam toda a grandeza do homem: "Mi pare. avendo spiegata la mia intenzione si agli amici che ai nemici. "a queda da tirania de um". Como individualista indômito. Os três maiores poetas italianos. já não pode haver neutros". Não é uma simples sátira que se abre com tais palavras. o Saul. a ausência total de cor. a última "nação européia" no sentido medieval. Essa literatura. condenou a revolução. eram poetas épicos. iguais.L'Uno. e como Goethe disse sobre Byron: "Os seus poemas representam discursos parlamentares". escrevendo. o sistema do teatro clássico francês parece intransplantável para outros céus: os teatros inglês. se bem que um estudo de Fubini reconhecesse nisso repetições inábeis das velhas Difese della poesia. I Pochi. Com efeito. eloqüentes pela simplicidade. como exagerava sempre: a limitação da ação e do diálogo a um mínimo. não é uma verdadeira obra-prima. e a sua Merope é superior à Mérope de Voltaire. IV) dos advogados. poichè nella gran Causa che pende purtroppo fra il Retto e l'Iniquo. Il Misogallo. L'Antidoto . os italianos. noi che ti amammo. Com isso era Alfieri um mestre da difícil técnica francesa. Depois. As Satire amaldiçoam. com força igual." Mas agiu. É estranho. "in trono trema chi fa tremar". são todas dirigidas contra o espantalho do século: contra os tiranos. condicionadas pelas circunstâncias da época. sendo a maior tragédia da literatura italiana. contra o classicismo francês. e malogrou-se."333 Há na Itália uma tradição de galomania também. Há uma tradição de galofobia na Itália.mas em favor da liberdade individual do homem individual. Até o Saul. Contudo. No fundo. os aristocratas. desprezo. o Francia. a democracia. quando a ameaça se aproximou da sua pátria: ameaça que lhe pareceu encarnada na revolução dos franceses. Dante. Tinha entusiasticamente saudado a Revolução. Tasso." Sim. cresciuti al tuo libero splendore. Esta admiração tem razões de política interior. I Troppi. o antigo republicano . mordaz e fraquíssima. os reis. e Alfieri é membro da hecatombe dos Dryden. a todos". insulta a todos os países europeus.ele. foi incapaz de criar um teatro trágico. Como individualista indômito. Mas a epopéia. As suas tragédias são tragédias políticas. devem à França o moderno sentimento nacional. uma das maiores. na ode ao assalto à Bastilha: Parigi sbastigliato. I viaggi. Certos polemistas gostam de generalizar umas expressões galófobas de Machiavelli e Guicciardini. Na sátira IX. Não acredita pertencerem os reis ao gênero humano. e sobretudo a odiada "Sesqui-plebe" (Sat.Alfieri desdenhava o povo não menos sinceramente do que aos tiranos . É furioso contra todos. não deixando subsistir senão isolados caracteres. Era. e "nessa grande Causa pendente entre o Justo e o Iníquo. falando com independência altiva "aos amigos como aos inimigos. Escreveu a sátira. o entusiasmo transformou-se em raiva. os plebeus. Alfieri quer fazer tremer os que fazem tremer. ódio. É uma ação patriótica: o protesto contra uma ideologia política estrangeira. espanhol e alemão o testemunham.Alfieri combate a monarquia absolutista. comerciantes e "escribas". saudou a Revolução. Alfieri é um escritor político. como Lord Byron. Mas os melhores espíritos sempre souberam o que a Itália deve à França: o conceito de nação. o regime aristocrático. A galofobia é uma velha doença italiana. artificialmente agitadas. como testemunha Carducci: "Noi. a tirania dos demais. di aver parlato a tutti. para recomendar enfim . ao qual Alfieri infundiu toda a sua própria amargura e angústia. assim disse Alfieri sobre si mesmo: "Escrevi só porque a época miserável não me permitiu agir. Ariosto. O próprio Alfieri foi vítima da galomania italiana: tentou introduzir na literatura nacional a tragédia classicista à maneira de Voltaire. não é uma grande tragédia. De fato. estátuas classicistas. menos o único que realmente admira: a Inglaterra. o laconismo seco da expressão expulsam a poesia do teatro alfieriano. Numa tetralogia de comédias políticas . Moratin e Chronegk. um aristocrata com instintos de liberdade desenfreada.a monarquia constitucional à maneira inglesa.Alfieri odiava os franceses. é um gênero bem italiano.

sobretudo nesta época dos crimes coletivos. contra a qual quase todos os povos estariam indefesos. o mais velho dos povos europeus e o povo mais europeu. importam-se messianismos estrangeiros. sobretudo do messianismo dos vencidos. humanamente. os gritos desesperados da heróica Espanha. as insolências dos politicastros criminosos. e se aquele realismo. invariável desde os séculos da Antiguidade. nutridos pelo espírito esperador dos que morreram no exílio. injustiça precipitada.a falar em "peuple subalterne" e "race mal-née". é incapaz de criar um messianismo especificamente italiano. E os italianos são um povo de vencidos. transformado em megalomania mediterrânea. Como o povo dos profetas israelitas. com obstinação. desde Dante. modesto. emprego imprudente das armas envenenadas do inimigo. perguntando a Quintino Sella: . Palestrina."335 Esquecem a miséria da condição humana e criam-se fantasmas de misérias nacionais. As vítimas do mesmo preconceito de "heroicidade" de panache como os seus inferiores e detestáveis adversários italianos. e para lembrá-los não faltaram nunca as vozes de profetas como Dante e Alfieri. O povo italiano real desmente. muito pouco heróico e muito realista. E o único destino digno de homens é viver como homens. Os sofrimentos das invasões bárbaras não estão esquecidos. ensangüentada pela covardia italiana com a cumplicidade covarde de nós todos. é uma epopéia. e o mal-entendido fundamental produz os mal-entendidos subseqüentes e mais irritantes. Alfieri lança aos "mal-nés" o seu furioso . e a substância do povo italiano é realmente antiga. e enfim." Era o velho malentendido hegeliano das "missões históricas" que cabem aos povos. com os dois pés fincados na terra: um povo antigo como eram os povos da Antiguidade. não compreenderão jamais que a verdadeira grandeza do povo italiano reside justamente nessa "subalternidade" dum povo humilde. fê-lo adoecer. excitou-se muito. os tchecos e tantos outros. chovem as ofensas. As "missões nacionais" constituem falsos messianismos. inato aos povos antigos. Mas o ressentimento é o berço do falso messianismo. no meio da indiferença criminosa de um mundo. chistoso e melancólico. porém. Galilei. e criou o monstro paranóico da "superioridade racial". A história italiana parece muito trágica. Então. até que surge o espírito superior de Georges Bernanos . e acabam esquecendo a dignidade humana. trabalhador. escravos da própria desumanidade. pequenos burgueses. não se ouve nada do trabalho sincero desse povo infeliz. Mas os povos não têm "missões". o ressentimento da "subalternidade" invadiu o próprio espírito italiano. e enfim o messianismo latino da Action Française. eles têm "destinos".superior. Desde a escola. abstraídas da história mal compreendida. exilado pela fúria florentina. Quando os italianos. parecem indispensáveis aos homens dos quais Leopardi disse: "Gli uomini sono miseri per necessità e risoluti di credersi miseri per accidente. os estrangeiros sabem da Itália somente coisas grandiosas. sem grandes aspirações. "Race mal-née"! Quase não vale a pena replicar que da "raça mal-nascida" nasceram os São Francisco de Assis. Michelangelo. o historiador Theodor Mommsen. injustiça que. até Giovanni Amendola. invadida pela eloqüência verbosa. tudo parece mentira. involuntariamente. ocuparam a Roma papal. a única superioridade a que os italianos não têm o mínimo direito. um povo épico. heróicas. perigosas e desumanas. Dante. Às vezes. exilado pela fúria fascista. alegre.334 Generalização das mais perigosas. o mal compreendido hegelianismo alemão. encontram-se fruteiros. e de que um povo sem "missão" não é digno de subsistir. Vico e Leopardi. camponeses. mas como eram realmente. Impôs-se um messianismo italiano. ouvem-se apenas o barulho da caldeiraria de literatos inefáveis. enormes. Não como a escola os imagina: multidões de estátuas heróicas. Enfim. Então. o popolo minuto. essas quimeras: esperam-se heróis. A literatura italiana parece uma literatura antiga. generalizações artificiais. fortalece esse erro de perspectiva. é uma vítima dos séculos. das imbecilidades coletivas e das demissões coletivas. inventam missões e mitos. artífices. então residente na Cidade Eterna. aos grandes poetas épicos da Antiguidade."Que é que desejais em Roma? Ninguém pode manter-se em Roma sem fins supranacionais. Na verdade. É a mais bárbara das invasões estrangeiras: importaram a revolução jacobina. o primeiro contato pessoal com o povo italiano mostra um povo humilde. se torna cúmplice da injustiça diabólica à qual sucumbiram os espanhóis.que eu venero como testemunha da verdade . e a própria literatura italiana dos últimos séculos. Macchiavelli. em 1870. muito velho. por trás das bazófias dos retóricos. e as vozes de impostores cujos nomes não merecerão a honra de ser memorados.

isto não é trágico. nós todos. cujo sepulcro na terra francesa de Nice traz o epitáfio: "Qui giace Giovanni Amendola. dos godos e longobardos. ele próprio. normandos. sindicalistas. Muitas derrotas. das ruas. de modo que aquele homem não se surpreende com a derrota que ele profetizou. Cumpriu-se a última ambição do homem Alfieri: foi enterrado na igreja panteônica de S. o homem mais solitário da cidade castigada e deste mundo castigado. mas que profetizou. da inglesa. da liberdade que lhe diziam: "Gli odo già dirmi: o vate nostro. Não é trágico? Não. o maior dos filósofos vivos. amargo. cheia de oposições dialéticas. a qual estamos esperando. da italiana. olhando a derrota da sua cidade e da sua pátria pelo ativismo diletante dos semicultos. Ainda menino. Como ele. Os acidentes da reportagem. porque ao seu destino não falta o elemento da culpa. O que é triste na vida quase octogenária de Croce é o seu destino de grande mestre abandonado sucessivamente por todos os discípulos. Cumpre protestar contra a linguagem daqueles mesmos jornalistas de guerra e de paz. ao pé do cenotáfio de Dante. das casas. se entusiasmavam com as "chuvas de bombas" sobre Nápoles. nessa "gran Causa che pende purtroppo fra il Retto e l'Iniquo. que Alfieri não pôde criar. é eloqüência baratíssima: o homem de gênio. como por milagre. de cada pedra. desde então. fantasiados de correspondentes de guerra. conservadores e liberais. desesperado."O gregge infame di malnati schiavi. Da minha capacidade ilimitada de admirar os que são realmente grandes. in pravi Secoli nato. ao terremoto que lhe roubou os pais e todos os irmãos. e."339 SOLIDÃO DE CROCE ENQUANTO uns jovens esportivos. Visto do alto daquela sua colina de Nápoles. ele."336 É a verdadeira tragédia italiana. sem aderir a nenhuma das suas opiniões. aspettando. senão simbolicamente. o maior dos críticos literários. dos romanos. da francesa. pensei num homem muito velho. Morreu amaldiçoando o século: "Corrotta Età viviam: gloria è il servir. cidadão. da mesma luta da qual Alfieri tinha falado. não são trágicos. da européia. para não profetizar também outras épocas. como espera ainda no túmulo o exilado italiano Giovanni Amendola. a vitória da humanidade. enfim. como nenhum outro."337 Mas não era bastante pessimista. desejamos. a história dos bairros. o maior dos historiadores vivos. eu que aprendi do velho mestre o método do pensamento dialético e o rigor da sua crítica. franceses e espanhóis. "avendo spiegata la mia intenzione si agli amici che ai nemici. Não haverá triunfo. fascistas."338 Esta profecia não se cumpriu. dove degli Indifferenti non ne può mai esser nessuno". onde dorme entre as sombras de Michelangelo e Macchiavelli. Assim. onde conhece. escapou. está acostumado. livres-pensadores e tradicionalistas." O contraste. e. encarnando as tradições milenárias da sua cidade de Nápoles. na guerra e na paz. Na sua dialética hegeliana. Como ele. a maior autoridade espiritual da Itália e talvez do mundo atual. Sou também apóstata. que chamam "trágico" a cada acidente de automóvel. não é uma figura triste. oppur create hai queste Sublimi età. che profetando andavi. dessa paisagem histórica de Nápoles que já viu as catástrofes históricas dos gregos. marxistas. das famílias. Depende duma luta. desejo ter guardado o espírito de justiça e de independência. Benedetto Croce. Sem dignidade. porém. todos os abandonaram. citando os versos dum poeta alemão: "Não convém jubilar. o mundo está cheio de apóstatas. aver parlato a tutti". são simplesmente tristes. Estamos esperando. suábios. dos árabes. . admito. a meditar sobre as catástrofes. a Itália está espiritualmente unida em torno do exilado invisível: símbolo trágico da unidade espiritual européia. só. Croce. seguir o seu próprio caminho talvez seja a mais alta fidelidade aos mestres. inspiraram-se românticos e classicistas. bilioso. É uma figura trágica. todavia.

a força do espírito. o da relação entre a teoria e a prática. O problema hegeliano da realização do espírito tornou-se-lhe o seu problema: como pode o espírito conseguir o poder? Para resolver tal problema. juntou ao romantismo. introduziu a violência sindicalista do seu amigo Georges Sorel. É preciso saber que o socialismo italiano foi sempre o mais violento de todos. quando as ruas de Milão estavam cheias de cadáveres de operários fuzilados. E isto explica a impotência desse alto espírito no mundo das realidades. Encontrando no congresso filosófico de Oxford. Não podiam deixar de ouvir a acusação da sua lógica dialética. em 1930. marxista . Nunca ensinou. destruindo-lhe os livros. pela força. o duro realismo clássico de Machiavelli: o espírito só pode vencer. no país das autoridades infalíveis. Só pôde ver a derrota do inimigo. o sindicalista. inquietante. contra o ativismo diletante dos semiintelectuais. da qual era a alma e da qual foi.367 Apoiando-se na sua imensa autoridade espiritual. o marxista. Perante o olhar implacável de Croce. o comunista russo Lunatcharski. porém. já antes do fascismo.que lhes tinha ensinado o gosto da aventura do espírito e da aventura da ação? Ao ocidente histórico da sua vida perturbada. Contudo. que ele fundara e sustentava. nos poderes estabelecidos. por aqueles que agiram conforme os seus preceitos. implacável. Nunca pertenceu a uma academia. O problema central da filosofia hegeliana. citando o verso de Tasso: "un di quei che la gran torre accese". No seu exílio voluntário dentro do país. . Croce confessou-se. Na Itália policial de 1900. um dos Estados mais reacionários da Europa. Era admirado. A sua nomeação para senador do reino não obedeceu ao reconhecimento do mérito pessoal. "Não convém jubilar. com coragem incrível. vergonhosamente excluído. essa condição de homem riquíssimo . desaparece. Nunca pensou em fugir. era. Croce juntou a condição que Aristóteles exige do verdadeiro herói de tragédia: a culpa. Mas não era o mesmo Croce . ele foi durante vinte anos o único que enfrentou realmente o vivere pericolosamente. A sua presença. para justificar a sua luta solitária contra a força coletiva. Benedetto Croce foi sempre um homem solitário.não explica satisfatoriamente a sua altiva independência em face de todos os poderes do Estado e das massas. para depois opor-se publicamente. quase anarquista. querido e temido como nenhuma autoridade espiritual desde Tolstoi.deduzo o direito da crítica mais severa. o liberal Croce . nunca encontrou a verdadeira força. na Itália "liberal" de Crispi. Na Itália bolchevizante de 1920. espírito essencialmente negativo. foi logo abandonado. sempre protestando. da vida. da história. o mundo real da arte. Admirando a imensa riqueza espiritual de Croce. apoiou . ameaçando-lhe a vida. é também o problema central do velho hegeliano de Nápoles. figura ridícula de burguês gordíssimo. Croce. Benedetto Croce.isto também seria útil saber hoje revestido de todas as aparências do parlamentarismo e da liberdade liberal. sem poder nenhum na realidade. Na Itália de 1910. numa Universidade. Estava sempre numa oposição irreconciliável. não desconheço o contraste entre a agudeza do seu exame negativo e a pobreza deste em resultados positivos. Na sua Itália das autoridades artificiais. Croce era adepto dos ideais conservadores de Cavour e da "Direita Histórica". ao ditador manchado do sangue de Matteotti. em 1934. quando o marxismo se burocratizava e toda a atmosfera intelectual do país estava cheia de um tépido socialismo humanitarista.Benedetto Croce. 366 Mas a torre do capitalismo não foi a única incendiada por esse poderoso espírito negativo. com o que o seu patrício Vico tinha descrito as vicissitudes cíclicas da história.pelo menos indiretamente . o mais velho marxista italiano. Mas estava sempre longe do comodismo das adesões. tendo sido mera conseqüência legal da sua condição de pessoa que pagava os maiores impostos na sua província. o problema que transformou os "jovens hegelianos" de Berlim em conservadores reacionaríssimos ou em marxistas revolucionários. senão àquela Academia Pontaniana de Nápoles. era uma pergunta permanente. em reação a um Estado que . Por volta de 1890.o reacionário. não conhecia o medo. evocou a sombra do velho liberalismo. à juventude fascista.a violência fascista. estava sempre em oposição. latifundiário e grande burguês . e de uma polícia que sabia atirar. e. o grande mestre. Não haverá triunfo."un di quei che la gran torre accese". Benedetto Croce não pôde vencer. o fascista. com orgulho. Croce tornou-se socialista. Estado de polícia. na história. nem quando lhe irromperam em casa.

só. nos velhos palácios. nasceram umas explicações simplistas.e as contradições dialéticas da sua doutrina e da sua vida não se refutam. confessou: "Il suo esilio politico. che ha nel mezzo un . Benedetto Croce é uma figura trágica. e isto facilita. Confessou ao mesmo amigo: "Como filosofo e critico. Ali cada pedra lhe é um amigo. consolando-o da abjeção do presente. antes de ser absorvido pelo liberalismo econômico. aquela personagem sinistra que Heine imaginara.com exceção da do próprio Hegel . con le sue bianche celle e il suo chiostro. quase conventual. A estes o marxista emigrado que se oculta sob o pseudônimo de "Subalpino" respondeu na insuspeita revista Giustizia e Libertà. na revista Letteratura. o fascista Giansiro Ferrata.eis a fonte das suas contradições e dos seus choques com a realidade . que o nosso mundo atual dos totalitarismos fascistas. "Nenhum sistema filosófico foi jamais refutado" . apareceulhe. que nunca se realiza na vida prática. riquíssimo. com o seu Vico. de 25 de agosto de 1938: "Sua opera sul marxismo merita tutta la nostra reconoscenza. seja a grandiosa visão do processo histórico. Não há ninguém entre nós que não lhe devesse muito . Não realizou a autonomia do Espírito ."371 E o mais impetuoso dos seus discípulos-apóstatas. admira-se "della filosofia crociana. assai differente dei prodotti intellettuali della sua classe. marxistas. a resistência dos últimos barões feudais contra a monarquia absoluta. Borgese. é antes para os que "ruminam Croce" do que para aqueles pobres que se revoltam contra essa atividade perigosa. igrejas e conventos com as inúmeras recordações históricas. Croce. Acho."370 E acrescenta: "Questa critica e limitazione crociana del marxismo non è solo fondalmente vera. Realmente. Sem dignidade.é um espírito contemplativo. facendo di Croce una cosa adatta a turbare i sonni"368. forjou a doutrina de ação. Ainda em 1938. não podiam respirar a atmosfera difícil da sua dialética contraditória. porém. e. Dessa insônia dos jovens. O problema não é para os amadores dos simplismos. capitalistas e idiotas poderia aprender com aquele velhinho gordo alguma coisa mais do que crítica literária e filosofia da história. A. falou em "cretinismo senatoriale".Muitas derrotas. na região das idéias platônicas. causada pelo espírito insone do velho. O exemplo de Benedetto Croce é uma grande inquietação para nós outros. "Tipico orgoglio di borghese. lembrando. G. e non le critiche de asilo infantile dei marxisti pretesi ortodossi. a independência do homem "che la gran torre accese" tem sólido fundamento econômico. sem a sua independência econômica. latifundiário.que é o centro da sua filosofia." Neste sentido. Eppure. filosofia di classe"369 . sapete quale aspirazione trovo nel fondo della mia anima? Un convento secentesco napoletano.diz o seu biógrafo e amigo Giovanni Castellano.o último representante da impossível autonomia do espírito. que se lhe confundem na irrealidade do passado. e della insoddisfazione che lo tormentava"373 . Vive com os seus poetas. Para os outros que. para os que apostataram. O senador por censo é grande burguês. É . onde se sente em casa como se sente em casa no passado da sua velha e querida Nápoles. macaqueando o pseudomarxismo do inimigo. cuja filosofia hegeliana gerou mais conseqüências práticas do que qualquer outra . e um pobre emigrado."372 Mas quem aprendeu dialética na escola do próprio Croce reconhecerá com franqueza a porção de verdade na acusação à independência cômoda do latifundiário. assim como não se refuta nenhuma dialética e não se refutam as contradições da própria vida. ignoranti. como uomo. o homem com a espada da justiça escondida sob a capa rubra." Mas Benedetto Croce não morre assim. "Tutta la sua filosofia è sorta come un'incoercibile necessità della perplessità della vita morale e delle oscurezze e contradizioni. accetto le più dure prove. Croce é esteta e moralista na maneira de olhar a vida e a arte. porque é uma autonomia teórica.diz aquele fascista. Nas noites de insônia. talvez.seja o agudíssimo método de crítica literária e o método mais agudo de crítica moral. cochichando-lhe: "Sou a ação do teu pensamento.com maiúscula . seja o mais grandioso exemplo da vida humana . Croce nunca se libertou inteiramente das bases da sua liberdade. Podemos aprender algo da independência pessoal que era o espírito do velho liberalismo. As contradições de Croce não são daquelas que se refutam facilmente. per radicale e distruttivo che sembri. ma è ancora attuale. e que é hoje o liberalismo ideal do velho Benedetto Croce. Afinal. para explicar a atitude de Croce. non recedo innanzi ad alcun pensiero. quando mi sorprendo a sognare.disse o seu mestre Hegel.

não nascido ainda . aplaudindo. para nós outros que estamos vivendo a queda apocalíptica do nosso mundo e buscando o nosso caminho nas trevas. no espírito coletivista e "populista" de Herder. nas concepções de Comte. Rio. "Não convém jubilar. de Marx. do Vesúvio. da ilha de Capri."che la gran torre accese" -. Enfim. a elevação estética e a indignação moral. O problema . Todos os problemas viquianos estão resolvidos no livro estupendo que Croce lhe dedicou. apenas o riso frenético dos imbecis. contempla com o olhar frio de pedra as crianças inocentes que brincam ao pé do monumento. a sociologia comparada. o nosso problema presente. ao pé do qual a cidade submergida de Pompéia dorme: paisagem essencialmente histórica. paisagem que sonha com o passado. corroída pelo tempo.como pôde a Scienza Nuova nascer em meio ao choque desses dois mundos. Na negação . Como a história. o parque municipal de Nápoles. Mas é. criou. e.que é a própria índole do espírito. de 1668 até 1744. historiógrafo miseravelmente pago do rei Carlos III. que não sabem quem foi aquele que lhes traçou. 1942 VICO VIVO A ESTÁTUA do filósofo Giambattista Vico ergue-se na Villa Nazionale. Não haverá triunfo. . Foi escrito. Sem dignidade. e com um futuro incerto. dos românticos. que permitem compreender o sentido do passado e pressentir os destinos do futuro. Com esse livro. Foi ele quem primeiro empreendeu estabelecer leis históricas. che batte invano alle sue alte muraglie. anti-histórico. entre outros. Mas foi compreendido só pelos descrentes. e por um problema premente que permanece conosco. preceptor em casas de famílias nobres. Escreveu muito. obscuro professor de retórica. o livro Principii di una Scienza Nuova intorno alla natura delle nazioni. Vico passou despercebido."374 Nessas palavras está todo o Croce: a audácia do seu espírito negativo . uma "Ciência Nova": a filosofia da história. Os pequenos resultados acessórios desse trabalho foram a ciência histórica do direito. e que é o problema dos nossos dias presentes: como foi possível que alguém escrevesse em 1725 a Scienza Nuova. a negação da realidade. otimista. a doutrina de Vico tornou-se uma base evidente e quase natural da nossa estrutura espiritual. Perto do mar. a época em que as ciências naturais e matemáticas começavam a marcha triunfal que hoje termina com as vitórias terríveis da técnica.reside a culpa trágica e a grandeza moral do velho liberal Benedetto Croce. os longobardos. a figura de pedra. que edificou na própria alma a única torre indestrutível no meio das ruínas da cidade castigada. Casa do Estudante do Brasil. os romanos. cidade dos inquisidores espanhóis e da erudição sufocadora dos antiquários. nunca perdeu a fé. Pela doutrina.recinto di aranci e di limoni. os espanhóis deixaram os seus traços. com exceção dum único problema que parece puramente histórico. jurisconsultos e gramáticos. os implacáveis destinos futuros. Viveu em Nápoles. também aquela estátua. e o criador dessa doutrina caiu num olvido glorioso. fuori. Vico está bem vivo entre nós. onde tentou melhorar os vencimentos magros escrevendo poemas de ocasião para aniversários natalícios e núpcias. a compreensão dos contemporâneos napolitanos limitava-se a dúvidas e discussões acerca da sua ortodoxia católica. a consciência da imensa responsabilidade do intelectual e a consciência da própria culpa trágica. e até na vulgarização de Spengler. olha o panorama do Posilippo. por isso suspeito aos simples de todas as cores . Era o século XVIII. onde Benedetto Croce o redescobriu. na penumbra das árvores velhíssimas." Em Cinzas do purgatório. aquele livro. de Michelet. os alemães. e escreveu. Vive com todos os espíritos num mundo em que a violência sofre a derrota pela violência e em que sobrevive. progressista e intimamente a-histórico.parece um problema histórico. il tumulto della vita fastosa e superba. só. os franceses. na verdade. Influiu poderosamente na filosofia da história romana de Montesquieu. onde os gregos. os árabes. Muitas derrotas. a filologia e estética históricas e psicológicas. na Nápoles estreita de então. a elas também. de Sorel e de Max Weber. que feriram o professor: na maior miséria. parece insensível aos sofrimentos e sonhos humanos. para pertencer a um terceiro mundo.

e em Virgílio o poeta épico dum estado mais velho e mais refinado da civilização. O pobre professor napolitano do tempo . ditaduras lutam com anarquias. É independente dessas possibilidades interpretatórias a primeira conseqüência que Vico tirou do conceito da interdependência: Homero é o poeta da aurora da humanidade. anônima. Vico predisse-o: percorremos as épocas dos deuses. até Vico. especulações sobre Adão e Noé. religião. criam a historiografia e as ciências: é a "época dos homens". ciência em que as histórias da Bíblia e da Antiguidade se misturam numa erudição extensíssima. curvado pelas noites intermináveis à mesa dos estudos. Vico é o criador do historicismo.expõe Vico . os destinos dos homens. privilegiados pela Revelação. um século antes de Wolf. Mas a ortodoxia sincera que Vico sempre professou parece residir em sua fé na providência divina: ela vence o seu pessimismo e fá-lo achar um sentido na história. como uma elite. a significação revolucionária da monarquia absoluta na luta da burguesia contra o feudalismo. o poema histórico de Vico não pode denegar a sua descendência da teoria cíclica da história do pagão Políbio. Criou esta atitude científica que hoje perece. Vico discute. uma maravilha. a relatividade de qualquer ordem política e social. mesmo no direito. por isso. Põe termo à identificação ingênua do direito romano com o direito natural. agora.Giambattista Vico era um homem magro. É estranho como frisa a mudança da escrita com os diferentes estádios da civilização jurídica e material. Pertence às especulações barrocas sobre a origem das nações e de suas línguas após o dilúvio. Vestia o traje do seu tempo. por invariável. dos heróis e dos homens. que passou. opõem-se ao espírito do cristianismo. escrevem em caracteres alfabéticos. concebem os elementos duma religião. Espantados pelo trovão. Todos os séculos precedentes tomavam Homero e Virgílio ingenuamente como pares. um pouco civilizados. assim o poder da história. hoje renovadas entre Croce e Chiocchetti. E é estupendo. Quando .as águas do dilúvio desapareceram. reconhece a relatividade de toda ordem jurídica. A ciência de Vico está vestida do mesmo traje contemporâneo. Como em toda a poesia barroca. a significação histórica das lutas sociais. gravíssima. funda cidades. peruca de professor. esses bárbaros. conseguem subjugar outros bárbaros inferiores e os governam. restabelecem por um "direito natural" a democracia. bestiais. numa volta. Vico vê a história como uma força que rege. da criação até o juízo final. Todas as teorias cíclicas da história. Reconhece o papel do "espírito do povo" nacional e do "espírito dominante do tempo" na evolução das instituições humanas. O poder da história. a Igreja. é só relativo. tem Homero como poeta: é a "época dos heróis". dos heróis e dos homens. num "ricorso". Vico reconhece em Homero o poeta épico da idade heróica. faz guerras. só admite uma evolução retilínea.direito. às vezes divertida e não raramente doida. em Vico. escreve em caracteres figurativos e fala em língua metafórica. tossindo na poeira dos inúmeros livros devorados. um pessimismo agudo junta-se à fé inabalável na providência celeste. em Vico. batina semiclerical. Mas como o poder dum monarca constitucional está limitado pelas leis. Originaram-se daqui as discussões contemporâneas sobre a ortodoxia de Vico. com exceção dos hebreus. Eis a razão por que Vico não sabe como situar no ciclo histórico a história única do povo hebraico e da sua sucessora. duma "cultura teológica". a relatividade de toda a nossa civilização. os subjugados vencem aos senhores. está limitado pela lei histórica dos ciclos que se repetem. Portanto. sempre doente. representada por sacerdotes que falam por mitos aos leigos e que escrevem em hieróglifos: é a "época dos deuses". É que Vico reconhece a interdependência de todas as regiões da atividade humana . os povos recaem na barbaridade das origens. É. política. Essa elite de guerreiros liberta-se da tutela dos sacerdotes. Assim. a parte da poesia popular. e. e estamos voltando. civilização material e espiritual: é possível interpretá-lo no sentido da dialética idealista de Hegel e da dialética materialista de Marx. deixaram os homens sobreviventes em profundíssima barbaria. estúpidos. sobre os ciclopes e os heróis. de Políbio até Spengler. A Scienza Nuova é um grande poema barroco. diante de um novo dogmatismo. isto. que se desenvolveu até SainteBeuve e Taine. brutos e brutais. com poder absoluto. Na aparência. cria a ciência histórica do direito. Os outros erravam "na grande floresta da terra". à barbaria. na elaboração das epopéias homéricas. criou Vico a estética histórica e analítica. Criou o relativismo histórico. Com isso. recomeça o ciclo das épocas dos deuses. Mas a democracia corrompe-se. Enfim. que não conhece mais que uma única revelação e uma única encarnação de Deus e. no ano de 1725. as bases sociais do direito.

antiquária. Trata-se. enfim. A grande discussão literária desse tempo é a comparação apaixonada entre os poetas e escritores da Antiguidade e os contemporâneos: a "Querelle des Anciens et des Modernes". Está à margem do mundo civilizado. Está regida. "dottissimo". resolvido.106 Seguir-se-á a Revolução. O grande teatro do mundo viquiano é aquilo a que Paul Hazard chamou La crise de la conscience européenne. o liberalismo de Spinoza. ou. incisiva. "la filosofia è scritta nel libro grandissimo della natura in lingua matematica"105. naturalmente. se o preferem. que excitou a oposição vivíssima de Vico. Novum Organon e Instauratio Magna chamam-se os livros de Bacon. Gassendi acha na Antiguidade o que nenhum antiquário ousara achar: o atomismo materialístico de Epicuro e Lucrécio. por seu lado. onde o drama se passa. Trata-se de vencer a perplexidade pela visão superior. uns aos outros. a Revelação e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Num certo nível. em inumeráveis volumes. Um deles. aquele Franklin que "eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannis". técnicas. às quais Vico opõe as suas leis históricas. implacável. que escreveu. o que é inconcebível aos velhos professores e eclesiásticos. "A Antiguidade teve tudo" . um livro com o título precioso De antiquissima Italorum sapientia. o quarto. é chamado "uomo di una immensa erudizione greca. do mesmo modo. Para resolver o problema Vico. Subsiste a erudição barroca. jurisconsultos e filólogos da velha estirpe. do século XVIII. um abade napolitano. Há. Estava perplexo diante do espetáculo da história. depois a cidade.diz Vico . escolástica. O livro fundamental de Hazard traz o subtítulo De 1680 a 1715 e marca. exatamente o tempo em que o espírito de Vico se formou. a atitude espiritual. É o próprio método histórico de Vico. como as "máquinas animadas" da psicologia de Descartes. Um problema está. "knowledge is power".108 . e o último ato chamar-se-á Napoleão. sucumbe à crítica cética. Seguir-se-ão. Lá não há crises de consciência nem novos mundos. e Boyle transformá-lo-á em ciência nova da química. tão caro aos antiquários namorados da Antiguidade. inventor do pára-raios e da República americana. e a sua perplexidade é a nossa confusão. as irreverências de Voltaire e Diderot." Reconhece a nova época das ciências naturais. o braço jurídico de Grotius arma o absolutismo totalitário de Hobbes e. latina e toscana in tutte le spezie del sapere umano e divino". e para Bacon. uma crise terrível das consciências que cria uma nova época. Todo o restante saber humano. A cidade de Nápoles. depois a rua. basta colocá-lo no seu tempo e no seu espaço. nesse caminho. depois a casa e. nisso. Para Galilei. que Vico leu e releu com um misto de curiosidade e medo. o nosso "problema Vico". matemáticas. e entretanto implacável. com uma nítida preferência pelos modernos.107 e é assim chamado pelo seu admirador humilde Giambattista Vico. para nós outros. O mundo transforma-se em máquina gigantesca. de reencontrar a possibilidade da atitude viquiana em face do fim de um ciclo histórico. com isso. A própria Bíblia é irreverentemente criticada pelo atrevido oratoriano Richard Simon. ocupa no palco desse grande teatro mundial o último lugar. As obras mais admiradas das academias eruditas chamam-se Antiquitates e Thesauri. Os demolidores das crenças religiosas não param.barroco previu o nosso problema. que. diante das crenças políticas: o "direito natural" serve-lhes para dissolver o direito positivo. Toda época é uma "querelle des anciens et des modernes". vestidos de couro de porco e por isso impenetráveis às influências do tempo lá fora. como decisiva. e permanece. todas as soluções se tornam indiferentes. sob a pressão atenuada. Está sonolenta. contestam os milagres. conforme o relativismo do mestre. Ficam sendo essas leis matemáticas a última coisa certa e indubitável no mundo. esta máquina mundial. o processo de Balzac de fazer-nos ver primeiro o país. É o fim da velha Europa. "eruditissimo". incompreensível aos antiquários. no ar espesso e pouco respirável da decadência italiana."só não teve um Bacon. sufocados na miséria. O problema de Vico é o nosso problema. Não se trata da justeza e exatidão das soluções viquianas. se está bem colocado. Chamam-se os homens. do governo espanhol e da Inquisição espanhola. "latinissimo". de Pierre Bayle. sobre o qual assentam todos os poderes. e os deístas ingleses tiram conclusões inauditas. que dissolve em lendas e fraudes todas essas histórias amadas. "saber é poder". as proclamações teoréticas de Rousseau e práticas de Franklin. práticas. pelas leis matemáticas de Newton. serão sempre discutíveis. de início.

Para distinguir . Não há sempre progressos. tiradas da superstição. Passaria por um pessimista excessivo. A mão do velho professor treme. e que alguma coisa do novo. tiram as conclusões do anátema furioso ou da sujeição servil. Não tem medo dos poderes. sujeita-os ele ao moinho infernal e inevitável dos seus "ricorsi". os livros proibidos de Bacon. Giambattista Vico não amaldiçoa. como. Como salvar os bens mais sagrados? Como reage o seu mundo contra o ataque bárbaro? Parece-lhe que esse mundo de teólogos. sobre a que partido pertence."110 Num tempo em que a gente é interrogado. pois compreende mais profundamente do que os outros o presente. com eruditíssimas analogias. e num futuro que está por vir. Mas não tem medo. está buscando "leis". Por trás da história agonizante dos últimos romanos. Qualquer coisa morre. os implacáveis destinos do futuro. Lê as histórias do reino decadente dos homens e do reino imperecível das idéias. Traçar a fronteira. no próprio domínio da erudição "dottissima" e "latinissima". nem dos velhos nem dos novos. Vico teria tido a coragem de passar sem ouvir a pergunta. e observam. em torno deles. Acha a lei da história. Por isso mesmo. Chega à conclusão de que a sujeição e a resistência são igualmente duvidosas. filólogos e jurisconsultos se tornou um hospital de doidos. Não teria temido o campo de concentração. nas revoluções.109 Se os contemporâneos houvessem compreendido Vico. empresa bem escolástica -. rodeado de crianças inocentes que brincam e não sabem quem era aquele que lhes traçou. há também regressos terríveis. Como os naturalistas. voltam.E o último lugar naquela cidade erudita e sonolenta é o pobre gabinete de estudos do miserável professor de retórica e autor de poemas de ocasião. Hoje. busca um modelo de história. irremediavelmente. a elas também. que lê. a sua estátua olha a paisagem milenária. perecer. Está desesperado. doente. como. Submerge-se num passado que se foi. Uns e outros. tremendo. Vico não pode acreditar no progressismo ingênuo e alegre do seu tempo. porque esperava auroras que ainda não resplandeceram. Vico ficou perplexo diante do espetáculo histórico do seu tempo. Vico poderia dizer. fica perplexo: sente a queda do mundo que era. As suas profecias compreendem o passado. Olha o espetáculo histórico da humanidade. que valha para todos os povos e épocas. eis o dever do intelectual. e com doidíssimas profecias. que aquilo que aconteceu não aconteceu e não acontecerá nunca. nem o ostracismo. Resta saber onde está a fronteira. Tira das histórias humanas de Políbio e Tácito a história real platônica. hoje. os "ricorsi" da doutrina viquiana. o seu mundo também. como nós outros ficamos perplexos diante da catástrofe do nosso tempo. Ele sabe que alguma coisa do velho deve. plus c'est la même chose". Descartes e Spinoza. as suas analogias iluminam o futuro. mas felizmente bem pouco. e morrem ainda uma vez. LETRAS ITALIANAS . Vico é o primeiro para quem a decadência não é um assunto de sermão moralizante. pois o seu pessimismo crente sabe da caducidade de tudo o que é. afinal. tiradas da história. qualquer coisa nasce."distinguo". Todos eles morrem. usa da erudição antiquária do velho mundo e do método científico do novo. consciente da responsabilidade. o mar eterno e o Vesúvio. um após outro apostata e se submete servilmente aos novos senhores. na miséria. uma "storia ideal eterna". também. deve ficar. não treme e não se submete. em cada esquina. Resistem. impotentes. e o que passa e o que fica dos novos mundos. pois já estava dentro dele. Mas a atitude de Vico foi superior. Lê Platão. lê Políbio e Tácito. para provar o improvável. envelhecido antes do tempo. os contemporâneos enganam-se em profecias doidíssimas e em analogias históricas sutilíssimas. Está buscando o sentido superior atrás do absurdo da catástrofe. O pobre professor. com Valéry: "Je ne suis ni de droite ni de gauche. E "plus ça change. como a pedra corroída do seu monumento que olha a paisagem histórica. noturnamente e clandestinamente. mas um problema da história. É sempre assim. parece insensível como uma pedra. nenhum dos partidos em luta teria ficado satisfeito. ao pé do qual a cidade submergida dorme. com anátemas e exorcismos. já que o espírito superior o merece. de modo nenhum. Provam eles. Resta saber o que morrerá e o que continuará do velho mundo.

e aos quais ele grita: "Pace. de um catolicismo que se adapta a todas as excursões de sensualidade amorosa e de acomodação modernista. Depois deles. mas. cuja poesia "é um ranger de dentes sobre a miséria da Itália". nos contos de Renato Fucini. contudo. tinham-no ainda. Giovanni Papini experimenta todas as aventuras espirituais. cuja substância se submete mais facilmente a corrupções do que a vitalidade deste povo muito antigo. desses grandes poetas italianos. cada um à sua maneira. e as letras italianas encerram uma grande lição humana. Será uma grave advertência para nós intelectuais. mas também o poeta colérico dos panfletos contra os papas corrompidos e contra os pequenos tiranos que dilaceram o povo. D'Annunzio. ela encanta pela harmonia de sons e cores. zombador. deixai a síntese do falso misticismo e da sensualidade desenfreada. grandes profetas. quando desejam honrar a Itália. Vede os romances de Antonio Fogazzaro. ela constitui uma escola de firmeza e de caráter. E é pena. em todas as épocas. a incomparável estabilidade do caráter italiano sob a pressão dos mais terríveis sofrimentos e atribulações. o Juiz. no estrangeiro. é o mestre de toda a literatura italiana. o último católico liberal. Pascoli. da demagogia furiosa e do chauvinismo bárbaro. É uma obra completamente regionalista. o tipo do intelectual invertebrado. Manzoni e Carducci. até nesse recanto idílico. É uma das maiores e mais magníficas literaturas. a literatura italiana. um verdadeiro mestre: Giovanni Verga. da sua família. chama-se a si mesmo "Un uomo finito". nos sonetos de Cesare Pascarella. Os juízes do prêmio Nobel. título da sua autobiografia precoce. misturados com a extraordinária magia da palavra que serve para narcotizar os desesperos da alma vazia de Gabriel D'Annunzio. O bom senso tradicional dos italianos refugia-se na pequena literatura dialetal. e cujo socialismo sentimental encerra já alguns apetites imperialistas. pela superfície. antes de se precipitar na agitação nacionalista. Seguem-se-lhe Petrarca. mas essa destruição constitui um acontecimento bem italiano. senão destroços. pace!". eu vos suplico. sombreado por algumas melancolias do mar e da montanha. é de uma curiosidade insaciável. Dante. É um povo tranqüilo. Ariosto. acima de tudo. Nos gracejos espirituosos dos pequenos-burgueses florentinos e nas canções nostálgicas dos marinheiros napolitanos resplandece um último raio do sol jônico. pela melodia verbal. retrato da burguesia católica de província. como literatura romana. o último humanista toscano. o poeta do exílio. onde as banalidades turísticas de Nápoles se transfiguram em grande poesia. Sobre este pequeno povo arqueia-se um Olimpo. no mundo burguês. a inteligência mais viva sem nenhuma . é o vácuo. Vede as poesias de Giovanni Pascoli. é o Balzac da Sicília. encontram apenas os fracos contos folclóricos de Grazia Deledda. o patriarca e o vate. Mas. Existe. que lastimam os sofrimentos dos emigrantes italianos em todos os continentes. nas canções de Salvatore Di Giacomo. orgulhoso de seus antepassados e das grandes obras que deixaram. alegre. são desequilibrados. É o céu. o "diretor dos jovens". que se exprime numa preciosa literatura dialetal. não somente o amante de Laura. de um pouco de prazer e. pace. que era. após si. para desarraigar todo um povo e não deixar. É um popolo minuto. A literatura italiana é uma literatura latina e a filha predileta da literatura romana. Giuseppe Prezzolini. Foscolo. sem saber dominar seu caos interior. Alfieri. cuja epopéia fantástica encerra orações dantescas contra a "Itália. muito bem feitos. Filicaja. desequilibrada. e algumas vezes o inferno. Fogazzaro. do sol de Homero. cloaca de servidão". de uma boa morte. cuidadoso da sua nutrição.Conhece-se pouco. nem por isso a lição será menos importante. através da sua revista Voce. O seu poderoso romance-ciclo apresenta-nos quadros empolgantes de um mundo que morre. a literatura deste povo que amei sempre. em que os pequenos-burgueses de Florença se divertem. um "pequeno povo". que foram. O novo século vê uma geração pequena. que duraram séculos e séculos. Como literatura latina. Eu sonho com uma história da literatura italiana onde se veria. entre esses grandes mestres de uma pequena arte. A nova geração é desarraigada. o patriota desesperado. Ele não é somente o libretista da Cavalleria rusticana. O que existe de mais notável é a falta de bom senso. uma lição. mas estéril. Carducci. do velho mundo feudal que se transforma. o homem de ferro. Tal história seria uma consolação para nós outros. mas sem medula. através das letras. nos quais o povo suburbano de Roma joga na loteria e zomba da polícia. e se acaso esta firmeza se partiu. Manzoni e Carducci representam o fim das tradições que criaram a Itália moderna: Manzoni. enfim. e enfim Leopardi.

Malaparte escreverá mesmo uma Técnica do golpe de Estado. que ele prefere escrever em francês. Borghese descreveu. Ardengo Soffici. A consciência desta confusão inconsciente é Luigi Pirandello. esgota-se na propagação das modas intelectuais de Paris. Esta terrível montanha devorou todo um futuro. Ele penetrou-os e destruiu-os implacavelmente. Croce é o único caráter. desequilibrada e aventurosa.raras vezes . e as suas vozes não conseguem atravessar a densa rede metálica que Marinetti e os seus teceram. G. a comédia do homem moderno. mas um grande crítico. e à luz artificial de seus holofotes tecnicamente perfeitos o espírito não se reconhece mais. para definir sua atitude: já não há guerra. Giuseppe Ungaretti é um autêntico poeta. mais tarde ele recupera a sanidade mental. A. Bem cedo ele se põe a dilacerar. A vítima é a velha geração. A guerra mundial destruiu uma geração. nessa nova Itália dos bolcheviques. diante do qual não se cansa de experimentar o sentimento de inferioridade de um velho pedante. no romance Rubé. dos fascistas. morto aos vinte anos. A mais significativa de todas é talvez este Enrico IV. grande poeta mesmo. A guerra matou a velha Itália. Mas é um velho. continuou com boa saúde. Eles eram sinceros. as últimas novidades. antes. e não podiam acostumar-se. ele seria um grande trágico. dos aproveitadores da inflação e dos dançarinos de fox-trot. tomavam gosto à vida desregrada dos acampamentos. definitivas. e para suportá-lo é preciso criar um mundo fictício. esta hecatombe será um massacre. Mas são uns solitários. que viveu o seu romance Il Carso. e resolve fingir-se louco para continuar imperador. Criaram. ou melhor. cada ano. que se suicidou. partindo aborrecidos para a guerra. Pouco importa: Panzini é o maior talento humorístico da literatura italiana contemporânea. conseguiu condensar o profundo desespero da sua poesia noturna em formas destinadas a se tornarem clássicas. aos Fogazzaro. Scipione Slataper. A sua crítica é um campo de batalha. morre em 1915 no Monte Podgora. a frase dannunziana. à vida regrada da paz. ou. os frammentisti. Alberto Moravia. jovens poetas infelizes que se esgotaram em fragmentos. depois. exceções: Corrado Alvaro. aos jovens. a perturbação interior dos intelectuais pequeno-burgueses que. que uma infelicidade atirou à loucura de ser o imperador medieval. O novo mundo é um mundo de ficções. num mundo estável e fechado. reconhece-o muito bem. de onde traz. Em outros tempos. Entre os moluscos. imensa promessa. Guido Gozzano. talento incontestável. Expulsaram. Mas substituíram-na por um pálido classicismo. Croce os amou. o cantor às vezes . Ele resolve continuar imperador num império de ficções. mas não reconhece mais o seu mundo. Pouco depois. Os protagonistas da literatura contemporânea são os Emilio Cecchi e Vincenzo . Alfredo Panzini. até a Marinetti.poderoso. a Itália do futuro deveria ser "uma sinfonia de cimento e de aço". sem dúvida. o adolescente desesperado. na paz. vivemos num intervalo incerto. Renato Serra. humanista de velha escola. desequilibrado. "americanizar". e a paz não quer voltar. porém. sem sucessão possível. polemista furioso. para enaltecer a beleza dos viadutos e dos arranha-céus. e é em francês que exige imperiosamente a destruição de todas as igrejas e museus. ele o estará quando lhe permitirem continuar. esta geração tem uma pequena literatura. poeta e novelista fascinante. nos seus romances. "As obras-primas da impertinência": a palavra é de Benedetto Croce. as mais das vezes absurdo. Aqueles a quem ele deixou viver morreram demasiado cedo. cheio de mortos. do mundo moderno. o amargo novelista da vida de província. morre em 1915 no Monte Podgora. crítico incisivo e construtivo. mas sua época produziu terríveis comédias. Existem. Caso único. Francesco Gaeta. sua profissão de voluntário de guerra. o último dos grandes profetas italianos que castigam e amaldiçoam por amor. vítima da tísica. Curzio Malaparte. jovem voluntário da guerra. é certo. Marinetti. A língua clássica é tão imprópria aos seus absurdos. de repente reconhece inútil toda a sua preciosa cultura. Mas a última novidade é Marinetti. professor de ginásio. sem poder realizar sua poesia e sua vida: Sergio Corazzini. que é a guerra na paz. aos Pascoli. talvez a maior esperança intelectual da Itália. Arrisca-se mesmo a dizer que a ficção se tornou a condição de vida indispensável ao intelectual que colaborou para criá-la. este mundo baixo e vil.faculdade de criar. pronta para "modernizar". É o quadro perfeito da mudança radical do espírito burguês: à velha burguesia humanista e satisfeita substituiu-se uma nova classe média. cantor delicado das velhas lembranças de família. está bem à sua vontade nessa época. "armar" a "Italietta" dos pais. no qual os ventos salgados do Adriático atormentam uma mocidade inquieta. caracteristicamente fechados. aos D'Annunzio. o único verdadeiro romancista da Itália moderna.

do pacifismo universalista. Agora já se vêem alguns sinais da transformação. críticos da crítica. Após ele veio a era das novas classes médias. confundindo o sentimentalismo e o humanismo. amigo íntimo de Georges Sorel. inclinado para um catolicismo muito amplo. da vida. Este povo é tão velho. anti-humanitárias. e não se pode sustentar que era uma educação sentimental. com o furor de que só as almas desarraigadas são capazes. transformamse em nacionalismo. sindicalismo. Aqueles que cederam à educação foram os intelectuais. A dialética da história fez uma volta terrível: o pensamento do próprio Benedetto Croce. na Nuova antologia (janeiro de 1939): "O povo italiano é mestre e chefe perpétuo do mundo. Seu catolicismo era capaz de acomodar-se à revolução social. dirigem-se contra a superioridade quase frívola do humanitarismo. um único sentimento de mistério. A Prefeitura de Florença teve a engenhosa idéia de mandar gravar em mármore e colocar nas esquinas das ruas florentinas os versos de Dante que se referem a tal localidade. da religiosidade italiana. apóia-se na tradição autoritária. abraçou o socialismo humanitário. Literatura em terceiro grau. O patriotismo. da compaixão social. porque esta rede. acaba por acomodar o catolicismo à italianidade. Confundindo a universalidade religiosa com o imperialismo temporal. ele escreveu. filósofos e críticos. este belicismo fictício são construídos sobre um prussianismo fictício. No começo era a acomodação. "flamas cantantes que não largam as suas vítimas. um patriotismo muito pacífico. um socialismo puramente humanitário. que. Mas não existem caracteres num mundo fictício. Esgotam um talento excepcional escrevendo pequenas peças autobiográficas. apóia-se em Sorel.. Todos os seus companheiros. Giovanni Papini converteu-se. Mas não conseguiu dominar os instintos anárquicos da sua alma caótica. Observando certas deformações da coluna vertebral. revelarão como se faz um romance. que não atinge a alma do povo italiano. 14). Antonio Fogazzaro é modernista. sindicalistas. a própria religião revestem-se de uma espécie de violência. desejaria um catolicismo "modernizado". e.. a punição de seus pecados. e suas últimas horas são perturbadas pelas primeiras explosões da violência sindicalista. que parece o supremo modelo de "modernização" mais rápida. A modernização econômica e técnica enxota o humanismo. antitradicionalistas. nas deformações hediondas. de uma viagem. contra o modernismo católico. Os desafios violentos do seu Gog e Magog mostram-no ". antigo mesmo. do socialismo.200 e existem vivos cujos corpos deixam ver todos os estigmas da acomodação. São mortos? Mas "la mort n'est pas une excuse". como os condenados do Inferno de Dante mostram. arrancou este pelas raízes. Sobre o patrioteirismo de D'Annunzio é melhor não falar. Para retomar a terminologia de antes da guerra: o frammentismo conquistou a literatura italiana. ed in taverna coi ghiottoni"201 (Inf. fascistas. Mas deve-se responder pela negativa. Perto de 1900 a Itália parecia a terra de promissão da tolerância religiosa. Contra o humanitarismo. este catolicismo fictício.. nem ao menos tem necessidade dela. o socialismo. Mas este modernismo contradiz algumas tendências íntimas do espírito italiano. ele apóia-se em Hegel. Croce tornou-se o coveiro do seu próprio liberalismo sublime. prisioneiros por toda a eternidade". Para transformar esses fragmentos em grandes obras. os Riccardo Bacchelli e Bruno Barilli. nella chiesa Co' santi. era a maior força da revolução espiritual que devia voltar-se enfim contra ele e sua obra. era preciso apenas uma coisa: caráter. pelo ridículo das academias provinciais. aparentemente de aço. Parece que todas as ruas da literatura italiana contemporânea estão marcadas com esses tercetos terríveis. por . capazes de fazer a poesia da poesia de fazer uma poesia. levam a descrição de um quadro. perguntamos se não seria responsável por isto aquela rede metálica que aperta os membros como uma camisa-de-força. a muitas outras coisas. Antes uma auto-educação. ela própria é uma ficção. XXII. empenha-se em imitar o modelo alemão. nenhum verdadeiro romance. Abundância de talento. Ainda uma vez: não falta espírito nem talento. A Itália moderniza-se febrilmente: há 60 anos ou mais. São espíritos de escol. mais tarde. O mal vem de longe. este latinismo fictício. Giovanni Pascoli passou por socialista. este corporativismo fictício. poetas sobre a poesia: fazendo um romance.Cardarelli. contra o socialismo marxista. e principalmente o novelista Massimo Bontempelli. não o conseguindo. mas nenhum grande poema. Com efeito. integralismo. os clercs. que não suporta mais reeducação.

Marcello Galliani.. contra o cólera. "Tutto di pietra et di color ferrigno"205 (Inf. se ele o ganha mas perde a sua alma imortal?" Esta conversão era antes uma demissão: onde existe a demissão.. num estudo sobre o Leviatã.. a submissão não está longe. Há trinta anos ele zombava da Academia e declarava: "Desejam-me ditador? Eis-me ditador. nessas palavras. entre os exilados. mais importantes na vida dos indivíduos e da nação." Roma. cobertas de neve. como em Dante. Roma e o povo italiano dominaram sempre o mundo. até que se perde. enfim. A literatura dos jovens reflete fielmente a pálida luz dessas paredes. que escreveu. e Adriano Tilgher. como Brancati a define: "A vida é uma máquina que vos raspa o crânio. mas a fuga também. Fuga em prisão. Ma con dar volta suo dolore scherma"204 (Purg." Sem dúvida. um grande escritor.. VI. 2). vos transforma. Não citarei de Curzio Malaparte senão os títulos das suas últimas obras: três volumes de contos. mas a sua desconfiança seria muito natural e muito oportuna. Ardengo Soffici. do mal intelectualista. Bachelli. terre d'Italia tutte piene di tiranni. p. É necessário que os intelectuais italianos reconheçam que o seu dever consiste em se retirarem e deixarem dominar outras forças. se submete. 149)."203 (Inf. 124) ou um desesperado "O voi."202 (Purg." Hoje. que experimentou "come sa di sale Lo pane altrui." A isso Dante acrescentaria alguma coisa sobre as "." Máquina maravilhosa! Lia-se a definição no excelente hebdomadário Omnibus. dos círculos inferiores do inferno. Ungaretti. XXVII.. ao ponto de transformar toda a vida em pesadelo mortífero dum paranóico. É por isso que o herói do seu romance O pão e o vinho volta à pátria. que são hoje em dia meio loucos" (Maremmana. e com'è duro calle Lo scendere e il salir per l'altrui scale"206 (Parad. 58). a quella inferma. 233). Enrico Pea explica "sua neurastenia e seu caráter violento pelas injeções aplicadas.. Relemos a descrição dos "Malebolge".. onde os lobos o dilacerarão. o tifo. vestido de acadêmico. Sangue e Viva a morte. e condena a América em nome da "Europa cristã e católica". Finalmente. o Estado todo-poderoso de Thomas Hobbes: "Os súditos guardam a liberdade: a liberdade de fazer aquilo que o soberano se esqueceu de proibir. O fascismo não desconfia dos intelectuais italianos. e nos lembramos do "mundo de cimento e de aço" de Marinetti. Missiroli. Mas. que ele não reconhece mais e onde não mais o reconhecem. é um equívoco. nas montanhas. 61). o Leviatã é um enorme carabiniere. que glorificou a França e amaldiçoou a Alemanha. Mas são teóricos. fala de uma "atmosfera de sangue. onde os condenados logram os diabos. de aborrecimento e de morte". XVII. ch'avete l'intelletti sani.essência e por vocação. num semblante de morte. como aconteceu com muitos outros combatentes. XVIII." Sem dúvida. meio criminoso.. onde os pecadores baixos espiam. dotada das novíssimas invenções técnicas. uma casa de alienados perigosos. Os italianos na Espanha. É um mundo meio louco. e Omnibus foi incluído entre as coisas que não se esqueceram de proibir. É assim que Giuseppe Prezzolini. vos arranca os dentes. mudou depois os nomes: chama a Dostoievski um "gorila bolchevista". ele assemelha-se ". ao menos. Ignazio Silone.. uma jovem . por experiência... É um mundo dantesco. e sei falar. ele pode dizer: "Desejam-me acadêmico? Eis-me acadêmico.somente ela - . 123). onde colaboravam Moravia. e o católico Papini esqueceu a palavra do Evangelho: "De que serve ao homem o mundo. o diabo respondeu: "Tu non pensavi ch'io loico fossi!" (Inf. tipo do intelectual. e uma coleção de documentos e fotografias. e muito alto: ele. Existe. Tilgher pensava repetir a cena do canto 22 do Inferno.. Ele fala. A resistência é inútil. a quem o seu editor chama "o mais fascista dos escritores". um policial de tamanho mitológico. Desde a época em que Augusto governava e Jesus nasceu. durante a guerra. IX... VI. não seguiu o conselho de calar-se. a encefalite e outras doenças. na Gazzetta del Popolo (8 de fevereiro de 1939): "Eu também fui um intelectual. Che non può trovar posa in sulle piume. para sempre.

entrincheirando-se atrás de frases untuosas e subterfúgios involuntariamente cômicos. que nasceu duma tragédia individual e anuncia uma esperança coletiva. Os que não fugiram da miséria para o território da República de Veneza. Renzo. Em Milão. mandando-o para Milão. neste cemitério. todos os romances históricos. Naquele convento em Monza vive uma religiosa. Ele tem "fatta parte per se stesso"208 (Parad.fará. Afinal. Pois é o único romance histórico que apresenta o passado em cores sombrias. violento. Enfim. É uma grande obra de arte. apelam para o capuchinho frei Cristoforo. Mas os poderes deste mundo são mais fortes que o cristianismo do frei Cristoforo. o sinal da cruz. transformaram-se em leitura infantil: o leitor adulto não suporta a glorificação ingênua do passado. chamam-lhe Innominato. de Scott até Sienkiewicz. Os noivos. do perdão final. e que se perdeu pela loucura de querer dominar. que guarda Benedetto Croce. verdadeiro coração da "cidade morta". 96). Só ficou. justamente porque todo o mundo os conhece. É ela que entrega Lucia a um amigo de Don Rodrigo: a um homem cruel. porque outras épocas o esperam em que já não haverá "partido". Rio. que tem conceito mais ativo do cristianismo: abriga a moça provisoriamente num convento em Monza. levados pelos terríveis monatti. sombrio. o cemitério. desesperados. faz pairar. "che vive in Italia peregrino"207 (Purg. todos. confundido numa conversa com o santo cardeal Federigo Borromeo. aos deveres de pastor de almas alheias e às preocupações da própria alma medrosa. XVII.. que vela o rosto. atrás de si. XIII. que vive num castelo solitário e inspira tanto pavor à gente que até não têm a coragem de pronunciar-lhe o nome. cujo nome a história esqueceu. dama da aristocracia que seu pai forçou a tomar o hábito para separá-la dum amante indigno. E uma análise exata descobre-lhe mais qualidades inesperadas. certa vez. época do domínio espanhol sobre a Itália e do despotismo dos senhores feudais. onde frei Cristoforo serve como enfermeiro. os promessi sposi estão reunidos. um profundo silêncio. Mas será fácil perdoar-lhe a covardia. no momento em que temos de esquecer tantos sofrimentos e perdoar tantos crimes. um amigo brasileiro que nunca quis ler aquele livro "porque os salesianos costumam dá-lo de presente aos alunos no fim do ano letivo". que não se desmoronará. de Manzoni. a catedral. toma parte numa revolta do povo faminto nas ruas. Mas o vigário Don Abbondio não lhes dará a benção nupcial. como todas as grandes obras. que reunira entre as suas muralhas todos os esplendores. nobre e obstinado. Em Retratos e leituras. e o Campo Santo. 1953 UM GRANDE ROMANCE CERTOS livros sofrem a má sorte de ficarem desconhecidos. É um romance político. Renzo encontra Lucia: o Innominato. adoecem e morrem a milhares. antes justificam o cristianismo de Don Abbondio. a Itália em luto. ao mesmo tempo. assaltando as padarias. a Inconsolabile. que morre na carreta dos monatti. Organizações Simões. Disse-me. pois a Morte é democrata. transformado em livro escolar: ficoulhes a lembrança dum "livro chato". Todo o mundo aprende a língua italiana nos Promessi sposi. sabe satisfazer. a grande cidade. enfermeiros e coveiros ao mesmo tempo. É o único que podia verdadeiramente retirar-se. sobre o perdido. Os Promessi sposi devem a mesma sorte a um equívoco. Contudo. converteu-se de maneira milagrosa e deixou a moça fugir. eternizada no monumento funerário que lhe ergueram. Existe. e quatro gerações de colegiais italianos aborreceram-se desse romance. mas cuja memória fica. Se existe lirismo nesta citação. ele tem medo enorme do latifundiário Don Rodrigo. Pensa-se em Pisa. e põe Renzo a salvo. No hospital. A esse amigo dedico o seguinte resumo esquelético do enredo dos Noivos. Entre as vítimas é Don Rodrigo. Os noivos são Renzo e Lucia. 69). "fuori le mura". e que continua no convento uma vida escandalosa. o túmulo de um nobre. cheio de raiva contra os opressores.. O padre. a Toscana é a responsável. Renzo e Lucia pretendem casar. É o mesmo silêncio. depois rebenta a peste. que gostaria de eliminar o pobre Renzo e roubar a moça. nós que precisamos. revela-o enfim como epopéia. pobres fiandeiros de seda numa aldeia lombarda do século XVII. Don Abbondio não lhes dará a benção nupcial antes de ficar certo da morte do temido Don Rodrigo. anunciado nos Promessi sposi com as palavras que ressoam como eco e ficam na memória: "Dite loro che perdonino sempre. sempre! tutto! tutto!"510 .

Ridicularizou as esperanças contraditórias e estéreis do catolicismo liberal: o imperador da Áustria deu porventura a liberdade aos italianos. Algumas das personagens principais são históricas: frei Cristoforo convertido após uma vida de violências de grande aristocrata. de modo que basta aqui a referência. oficial. das revoltas populares. não tem nada que ver com a Pátria. História. jansenista francês. Passou 50 anos em silêncio desesperado. As suas descrições da tirania feudal. a conversão de Manzoni significou adesão ao povo. e. é um idílio. comovido por um sermão do cardeal Borromeo? A caridade do frei Cristoforo venceu porventura a violência dos senhores feudais? Manzoni acreditava na Providência divina. . Que nos importa a História? Que nos importa essa história? O primeiro que concordaria com isso seria o próprio Manzoni. A interpretação histórica lembrará o parentesco do jansenismo predestinacionista com o calvinismo. é um daqueles nobres palácios rococós . são rigorosamente exatas. A conversão religiosa de Manzoni está intimamente ligada a uma conversão social. sua casa na Piazza Belgiojoso. com isso. precursor inconsciente do fascismo. O romance poderia suportar o subtítulo da última peça histórica de Shakespeare: All Is True. A ficção lhe parecia deformação ilegítima da verdade histórica. descendentes de Don Rodrigo e do Innominato.Livro chato! Imitação pálida de Walter Scott. da peste. nunca mais escreveu outro romance. Manzoni era historiador consciencioso. gente fraca. base dos seus privilégios sociais entre os quais se contava a indiferença religiosa. o rei João passou por aqui. Pela conversão. Convertido. se refugiou numa igreja. na mesma fonte encontrou o próprio Innominato. paralisada pelo conflito irresolúvel entre o patriotismo italiano e a lealdade à Igreja romana. os Promessi sposi não são um conto de fadas. "viris". Mas para que serve isso? Lembro-me duma frase de Carlyle: "O historiador diz: só o fato tem importância. O jovem Manzoni era aristocrata típico do século XVII ao fim do qual nasceu. Amado Alonso descreveu bem os escrúpulos terríveis de Manzoni com respeito à relação entre a história e o romance. É preciso interpretar a história historicamente: na situação de então. Liberdade. Manzoni saiu da sua classe. O livro. na região de fronteiras perigosas. Em Paris. Manzoni não era representante duma religiosidade tranqüila. o cardeal Borromeo. Os contemporâneos cheios de admiração submissa. em Milão. e Baillet. pertenceu à estirpe dos twice-born. criador da mentalidade burguesa. Os seus guias para a Igreja eram Degola. e que no romance de Manzoni intervém por meio de conversões inacreditáveis. Eis o que significa tomar a sério a literatura. dos quais William James fala: à estirpe dos Luther. e que o romance fortaleceu as esperanças patrióticas dos italianos. interpretar o fato psicológico como fenômeno de evasão. afastado da vida. convertido pelo cardeal Borromeo. domesticados pelo salão francês e pela filosofia do século das Luzes.o motor do enredo do romance é. e a miséria popular . Pascal. naquela mesma Providência que tolerou cinco séculos de opressão da Lombardia. coisa rara então. cheia de otimismo cor de rosa. No Ensayo sobre la novela histórica. concluíram os adversários. em solidão absoluta. interpretaram aquele silêncio como serenidade goetheana dum medalhão oficial da Itália liberta. e sim um livro de História. São homens que vivem e morrem "no paradoxo". todos eles Manzoni os tomou da crônica contemporânea de Ripamonte.linhas simples. Não se importavam com a "superstição" do povo. e o papel do próprio jansenismo na formação da mentalidade econômica na França moderna. Bernardino Visconti. iluminou-se-lhe a consciência quando." Nós. cheio de chamas infernais e de preces insistentes pelo perdão final.dos grandes senhores pré-revolucionários da Lombardia. quase não escreveu mais nada. Mas o cientista responde: fato que não me importa absolutamente porque nunca mais passará por aqui. os guarda-ventos das janelas sempre fechados . Mas era realmente assim? O catolicismo liberal de Manzoni gerou inúmeros "manzonianos". que dedicou à morte de Manzoni o seu Requiem. Kierkegaard. porém. É produto duma evasão da realidade. um conto de fadas. estudada até nos seus motivos econômicos ("cause per cui i lavoratori della seta nella prima metà del Seicento emigrarono dalla Lombardia"). da nova Itália. Não será possível. concordamos. representante das tendências "romanas". na ocasião duma revolta de rua. nunca encontrando a paz da alma que está acima da razão. filhos duma era de técnica física. Contra esses manzonianos protestou Carducci. leitura para meninos e moças. responderam os professores. Alegam que é descrição velada do domínio austríaco sobre a Lombardia. jansenista italiano. a religiosa de Monza. Talvez soubesse da verdade só o velho Verdi. Manzoni não foi convertido por padres insuspeitos. Mas.

nos Promessi sposi. "romanos". apenas. jansenistas do século XVII. os Promessi sposi. tem toda a humildade de Manzoni e todo o seu inconformismo invencível. os francos. que se aliaram às comunas democráticas da Lombardia contra os imperadores alemães . Manzoni estava consciente do perigo. Estava perto do fundador do socialismo cristão. imbuídos de ideais heróicos. frei Cristoforo e Don Rodrigo. os Papas dos séculos XII e XIII."parole di dolore. Estava na fronteira. estrangeiros ou indígenas. Mas ultrapassou o liberalismo burguês do historiador. jansenisticamente. e Renzo tem indomável senso de direito que inspirará a Revolução.. procurando representantes católicos dos seus ideais políticos. Manzoni. através da conversão. com a esperança do perdão. convertido mas. As suas personagens são. podemos acrescentar. Essa situação psicológica de Manzoni. até Don Abbondio é predestinado para a covardia ("il coraggio. que acabou como herético excomungado. accenti d'ira" . Contra o fundo negro da alma do Innominato. diferentes de todos os outros romances históricos. todas. da história. da revolta popular (lembram-se da rua em Paris? ). e estamos no pleno inferno . digno do limbo dantesco das "anime triste di colore Che visser senza infamia e senza lodo". de permanente exame de consciência não o curvaram nem o tranqüilizaram. encontrou-se com aqueles grandes revolucionários medievais. em que a Providência não reage contra os males do século. que introduziu as massas populares na historiografia e interpretou a história da França como revolução permanente dos gauleses oprimidos contra os invasores aristocráticos. não glorificam o passado. apiedando-se da miséria do povo. Na verdade os milagres da Providência.tradição lombarda que. Por isso. Lucia é inocente como o povo que sofre. que prefere a aliança com o diabo à predicação da palavra evangélica.no Inferno da História em que sofre a personagem principal dos Promessi sposi: o povo. e vencidos.o Innominato não responde palavra alguma ao cardeal . fruto duma psicologia determinista como a dos moralistas franceses. O mutismo dessa conversão . era católico democrático." Falando das "cause per cui i lavoratori della seta nella prima metà del Seicento emigrarono dalla Lombardia". Só uma personagem está solitária: o Innominato. O povo da Lombardia é a personagem principal dos Promessi sposi: história duma luta de classes entre humildes e poderosos. sem força de agir. que fora um dos jacobinos mais resolutos e tinha votado pela morte do rei Luís XVI. depois. que Manzoni.Manzoni não era católico liberal. procurando razões teóricas do seu paradoxal credo político. A sua incapacidade de agir e até de falar corresponde tragicamente à covardia de Don Abbondio. Lamennais. Estranho idílio em que o feudalismo governa e a peste raiva!. Um passo mais adiante. pelo seu passado violento que aparece transformado em inconformismo social naquela ameaça a Don Rodrigo: "Giorno verrà. detestava. Mas Renzo e Lucia são personagens tão "insignificantes" como parecia "insignificante" o povo aos historiadores da velha escola. para o pecado.e a solidão do convertido no pavoroso castelo solitário é símbolo profético do silêncio meio-secular de Manzoni na solidão pavorosa do castelo da sua alma. A conversão do Innominato é a conversão do próprio Manzoni. aderiu às teorias do historiador francês Thierry.". para a santidade. assim como o próprio Manzoni. até Manzoni.. frei Cristoforo. até a solidão sem fim. pela sua situação de senhor feudal. e a religiosa de Monza. uno non se lo può dare"). Aqueles padres jansenistas estavam em relações íntimas com o abade Grégoire. não tinha encontrado voz representativa na literatura italiana. Manzoni já estava preparado para essa teoria. destacam-se a auréola do santo cardeal Borromeo e as luzes infernais na alma da religiosa de Monza. não tem força real. Certos críticos acham insignificantes os protagonistas dessa massa popular: Renzo e Lucia. interpretando toda a história da Itália como luta entre opressores. e. por assim dizer "racista". transformou a "luta de raças" em "luta de classes. Manzoni. Confirmaram-lhe. Conforme as leis da predestinação moral. no romance de Manzoni.511 baseou o motivo principal do seu romance no fundamento da história econômica. reage apenas como luz artística que transfigura a . o jansenista. durante cinco séculos de opressão. não adiantam nada. o cardeal Borromeo. a sua predestinação. as personagens aparecem a pares: o cardeal Borromeo e Don Abbondio. 50 anos de silêncio. reflete-se na psicologia do seu romance. Todo o romance é vivificado por esse elemento autobiográfico. Crente do dogma de predestinação jansenista. "predestinadas": Don Rodrigo. A Providência.

É um problema. menos em língua portuguesa.de D'Azeglio. Sua doutrina nasceu na república burguesa que Florença foi na época do Renascimento. que já conhecíamos como fino crítico literário e estudioso de assuntos internacionais: um dos homens mais cultos de que dispõe nosso serviço diplomático. porém. assim. Já estão extintas as gerações de acadêmicos e gramáticos que durante três séculos o caluniaram. uma voz que chama para ação: "Giorno verrà. Ainda continuamos empregando o adjetivo "maquiavélico" para estigmatizar as atividades de pequenos intrigantes. sempre! tutto! tutto!" Em Livros na mesa. E são tão humildes. e pouco antes dela escreveu Laclos seu romance Les liaisons dangereuses. durante 50 anos. limitando a sombra. o Estado unitário em Estado fascista. Às vezes. Grossi . Daquelas contradições Manzoni criou a autêntica obra de arte. que é. mais tarde. Manzoni era um vencido. especialmente à vida erótica. Mas ainda resta explicar o fato de que a doutrina de Maquiavel também ."512 E reponde-se a Manzoni com as suas próprias palavras: "Dite loro che perdonino sempre. um Innominato. na região do perigo. Rio. unificados. Essa venceu na Revolução Francesa. Os Promessi sposi. Manzoni teria apenas conseguido um dos muitos romances galhardamente patrióticos da época . reconhecido como o do maior pensador político de todos os tempos. mas não aquele que Manzoni sonhara. celebrou-se a aliança de Don Rodrigo com o cardeal Abbondio. do Sr. o manual do maquiavelismo aplicado à vida particular. pagando com o desespero silencioso no castelo sinistro da sua alma. articuladores e desarticuladores de candidaturas etc. não se realizou na vida. O verdadeiro Manzoni ficou desconhecido. escurecido pelas calúnias de quatro séculos. já está restaurado. prisioneiro da angústia confusa da sua velhice. própria da epopéia. É um livro atualíssimo. Há pouco anos. Livraria São José. representada com todas as suas sombras: como luz." Mas o que se harmonizou tão bem na obra de arte. Guerrazzi. Os twice-born ficam sempre lá. as monarquias absolutas serviram-se dessa mesma doutrina para eliminar o poder político da aristocracia feudal e da Igreja. após cinco séculos de silêncio.. "abstruso" e " incompreensível". que chegam até pedir perdão por isso. Mas o retrato de Maquiavel. É ela que cria o equilíbrio entre a causalidade determinada do passado e as esperanças livres do futuro. cheios de tensões íntimas entre derrotas e esperanças. conforme a observação de Malraux. no entanto suscita. Não lhe foi dado atravessar aquela fronteira. Manzoni lembra-me os versos de Apollinaire: "Pitié pour nous qui combattons toujous aux frontières De l'illimité et de l'avenir Pitié pour nos erreurs pitié pour nos péchés. Preenche essa lacuna o livro Introdução ao pensamento político de Maquiavel. A bibliografia moderna sobre Maquiavel é imensa. 1960 INTELIGÊNCIA DE MAQUIAVEL SABEMOS todos que Góngora foi um dos maiores poetas de todos os tempos. e sim por uma burguesia egoísta. entre chamas infernais e preces insistentes. confere ao romance a harmonia. Disse-a. que lhe substituiu a ação. e isto lhe paralisou a capacidade de agir. A liberdade da Itália foi feita. O "Giorno" veio. Mas ainda continuamos empregando o adjetivo "gongórico" como sinônimo de "bombástico". a aura de ambigüidade e dubiedade em torno de Maquiavel continua. Não conseguiu superar as contradições íntimas daquele paradoxo generoso que era o seu catolicismo democrático. mas não pelo povo. e.. Mas sem aquelas contradições. Pois o pensamento político do secretário florentino continua sendo invocado à toda hora para justificar isto ou para denunciar aquilo. o sociólogo alemão Fritz Horkheimer definiu Maquiavel como "o primeiro pensador político da burguesia". a arte que está além da fronteira das palavras. hoje ilegível e esquecida. criando os Estados nacionais. são um verdadeiro romance político.realidade. e então. Nos séculos XVI e XVII. Apesar de todos aqueles estudos e pesquisas.ótima literatura de propaganda. mudo. a música de Verdi. Prepararam. tornandoo. incapaz de dizer a última palavra da sua arte. Lauro Escorel. esses inconformistas. o caminho à ascensão da burguesia. a mesma que transformou.

como acreditam os turistas apressados. Também é seu epitáfio. relativamente modestas. em seu livro Florentine Painting and Its Social Background (Londres. Opõe à utopia religiosa e moral do poeta medieval. Essa observação historiográfica é a chave para compreender a atualidade do pensamento de Maquiavel. isto é. A Renascença não foi só um fenômeno artístico-estético. é doutrina empregada por todas as correntes políticas modernas. O estudioso americano Warman Welliver. inimigos obstinados do maquiavelismo. inclusive pelas que o denunciam. baseando-se na obra antiga mas insubstituída de Pasquale Villari. Inesquecível é o ambiente. o exílio que lhe serviu de posto de observação do seu mundo. Lauro Escorel fez. depois. a Mandragola. Como no tempo de Maquiavel. o Príncipe. o florentino Pratolini. tão modernamente. que significava na Idade Média a virtude religiosa e moral . também foi maquiavélico. La Nuova Itália. O maquiavelismo. determinada por idéias religiosas e morais. os Discorsi. que é preciso estudar a fundo para compreendê-la bem. Mas para o marxista não há diferença entre meios e fins: um fim qualquer sempre é meio para outros fins. até o movimento socialista. Em seu livro Humanisme et terreur. Frederick Antal. um museu. Ghiberti e Donatello e Michelangelo os italianos chamam-na de città della vita. as funções diplomáticas. Já se vê que a expressão "maquiavelismo" continua sendo empregada em dois sentidos: como doutrina que permite ao estadista servi-se da fraude. escreveu Maquiavel as obras. de "verità effettuale delle cose". Não há meio melhor para estudá-la do que o método biográfico que o Sr. Sobretudo a história do pensamento de Maquiavel ainda não acabou: é a história de toda a teoria política até hoje. Para resumir o resumo: ambiente e carreira de Maquiavel. a do seu mundo e a do nosso. aquilo que ele chama. o "fim". a Itália das pequenas repúblicas. esboça-se uma nova ordem das coisas e uma nova visão do mundo. e naquele sentido do termo. nas mesas do Café Giubbe Rosse. o "meio" para produzi-lo. em toda a história. A doutrina de Maquiavel surgiu dos acontecimentos da sua época e das suas experiências políticas. dominando-a e como interpretando-a. se desmoronou. o nosso. É o berço do mundo moderno. descreve o papel das artes plásticas como expressão da doutrina e meio de propaganda da política florentina. l958). ainda poderosa mas já ameaçada pela ascensão dos grandes Estados. é ao mesmo tempo. l948). ainda hoje sente o hálito da vida da Renascença. foram denunciados porque para eles o fim justificaria os meios. assim definido e redefinido. no romance Metello. não conseguiu impedir o desmoronamento dos pequenos Estados medievais. que iluminam de maneira tão inesquecível o mundo novo. no momento em que seu mundo. Hoje em dia. A época de Maquiavel foi a de uma grande crise histórica: a doutrina política medieval. "Compreensão de Maquiavel". Acontece que a doutrina de Maquiavel explica esta e aquela crise. legalista e moralista. A cúpula de Brunelleschi é.sobrevive à era da burguesia. Quem olha do alto da colina de San Miniato para Florença. que tinham de ceder às monarquias absolutas (e. O secretário florentino é um verdadeiro anti-Dante. Não é. Todos os grandes movimentos italianos de século XX começaram em Florença: do futurismo. Os Estados relativamente pequenos do século XIX têm de ceder aos impérios continentais e intercontinentais. Durante séculos. novamente está em crise uma doutrina do Estado: a jurídica. Merleau-Ponty demonstrou que na análise dialética dos fatos históricos cada acontecimento é o efeito. a paisagem dominada pela cúpula de Brunelleschi. Essai sur le problème communiste (l947). de Botticelli. Na cidade de Dante também nasceram a física de Galilei e a técnica da contabilidade. traição e violência para conseguir seus objetivos. e como eficiente e sutil teoria política. do acontecimento precedente. A cidade de Lorenzo de Medici. M. burguesas). O antimaquiavelismo de Foster Dulles. em sua obra L'Impero Fiorentino (Ed. arregimentando ditaduras para defender o mundo livre. a causa do acontecimento seguinte. Desmoronam-se as Constituições. esclareceu a relação entre a renovação das artes e a ascensão da burguesia republicana. isto é. Um autor francês daria a um livro destinado a esse fim o título "Intelligence de Machiavel". os jesuítas. Lauro Escorel empregou. ao sonho de um império universal e teocrático. Interpretação daquele "Império" temporal e espiritual dos florentinos também foi a obra de Maquiavel. É o que o Sr. cujos inícios evocou. que exerceu a serviço da República-Cidade de Florença. Poliziano e Pulci. mentira. A Virtù. o único caso de uma obra arquitetônica modificar para sempre uma paisagem. O caminho para tanto seria o estudo da própria inteligência do homem e pensador Maquiavel.

sua posição não pode ser defendida. e começo a pensar e escrever sobre as maneiras de que se fundam. e na conseqüência desse hábito. Maquiavel. para observar com objetividade. Por isso. Luigi Russo propôs para o problema de Maquiavel uma solução. mereceu o epitáfio no seu sarcófago na igreja de Santa Croce. que se encontrava desarmado em Perugia. a do político e a do músico. assim como são as obras de arte. talvez a única possível. à nova Ciência da natureza. Fausto Montanari (La poesia de Machiavelli. embora sua poesia seja a mais amarga de todos os tempos. de l0 de dezembro de l5l3: descreve sua vida no exílio. virtù significa "competência" e "eficiência" do estadista. mas o "como". de Galilei: este e aquele não estudaram o "porquê" nem o "para quê" das coisas. O maquiavelismo de Maquiavel é uma técnica sem consideração das finalidades. e. Roma. à qual também adere o Sr. retiro-me para a minha modesta biblioteca. Mas não aproveitou. caindo. Maquiavel definiu sua própria "faculté maîtresse": a inteligência. Política e historicamente.do Imperador e Rei." Perante essa inteligência temos de justificar-nos. mas o mundo da convivência humana não é só de natureza política. Pela inteligência insubornável com que Maquiavel analisou o fenômeno político. matando-o. E Maquiavel foi um dos homens mais inteligentes de todos os tempos. dispo as roupas imundas de camponês. instrumento de Deus no governo do mundo. Maquiavel não somente descreveu friamente as fraudes. a do cientista e a do hábil vendedor de sapatos. homo aestheticus. l948) compara Olschki a nova Ciência do homem. Maquiavel tem razão. Teria a inteligência de Maquiavel sido de ordem científico-técnica? Em seu livro. sim. A inteligência é coisa mais rara do que se pensa. É um cientista. Com toda a razão acha o Sr. Machiavelli the Scientist (Berkeley. o exílio para sonhar. Mas também há no secretário florentino momentos de poesia "pura". Maquiavel teria apenas estudado as leis do comportamento humano na vida pública. É ambígua: assim como são as grandes obras de arte. É mesmo poeta. pela interpretação que damos . se o tom não fosse tão calmo. porque o grande físico não levou em conta a eventualidade de o corpo. Lauro Escorel: a teoria de Maquiavel é irrefutável como doutrina política. define-se pela multiplicidade dos sentidos possíveis. moralmente. a maior comédia da literatura italiana. chegou a aconselhar aqueles crimes. entre camponeses rudes e ignorantes. clássico. Redefinindo assim a "virtude". No capítulo 27 do livro I dos Discorsi censura o condottiere Baglioni por não ter assassinado o Papa Júlio II. sem se preocupar com conclusões morais. mas a esse poeta a evolução histórica deu razão. e não são só as soluções políticas que determinam nossos destinos. Maquiavel é homem da Renascença. Sua Mandragola. Mas existem diversas inteligências: a do artista e a do jogador de xadrez. que foi o exílio. muda de acepção: na doutrina de Maquiavel. l953) chega a chamar de "poesia applicata" toda a ciência política de Maquiavel. de natureza científica. Lauro Escorel que essa interpretação não resolve completamente. esse anti-Dante. é um julgamento estético. evidentemente. visto-me à maneira dos embaixadores. ouço-lhes os conselhos." Foi um retiro comparável à descida de Dante para os ínferos. Exemplo é a estupenda carta a Francesco Vettori. Baseando-se na separação rigorosa de Benedetto Croce entre a política e a moral. que é o Panteão dos florentinos: "Tanto nomini nullum par elogium. "amoral" como o poeta ao qual só importa a perfeição dos seus versos. no meio da Natureza que parece inabitável a esse florentino nato . No fundo: é técnica "pura" sem finalidade alguma. Foi homem da Renascença. teria realizado seus objetivos políticos e conquistado glória imortal! Essa observação estupenda não é. acreditando na possibilidade de resolvê-la assim como se constrói uma grande obra de arte. de Maquiavel."mas ao cair da noite. para os fins elevados da fundação e manutenção do Estado. como Dante. traições e violências dos estadistas e generais do seu tempo. atingir e matar alguém. para receber os grandes reis estadistas da Antiguidade grega e romana que invoco dos livros. Seria esta a chave do chamado imoralismo de Maquiavel? Mas ninguém considera como imorais as leis da queda dos corpos que Galilei descobriu. tem mesmo certa semelhança com seu grande conterrâneo: na insistência em dizer verdades desagradáveis à gente. seria comparável às sátiras violentas de Ben Jonson. De que espécie foi a inteligência de Maquiavel? "Competência" e "Eficiência" são termos da nossa época da técnica. se governam e se perdem as Repúblicas. Chegou a exagerar o détachement completo em face da crise política do seu mundo.

de código dos tiranos e de arma dos homens livres. os salões de jogo do Ridotto. Sobre esse Don Juan ligeiramente falsificado já se escreveu muito. numa casa na esquina do Teatro San Moisè em Veneza.as memórias de Casanova são um grande documento histórico. enfim. um homem que se aproveita de todas as oportunidades. depois de tantas aventuras. A vida de Giovanni Giacomo Casanova enche exatamente esse último século aristocrático: nasceu em 1725. jesuítas e ocultistas. que foi a irmã dela. Quantos destes lerão até o fim? Basta saber. e isto todo o mundo sabe ou acredita saber. desprezava aquela sociedade ociosa e frívola. como observou tão bem De Sanctis. muitos leitores que esperam coisas escabrosas. e foi como se todas fossem a mesma. o que é o assunto principal dos 10 volumes das suas Memórias. Por isso já inspirou tantos lugares-comuns sobre don-juanismo etc. publicou Casanova em Praga um livro que parece desmentir aquelas. e sobretudo em Veneza. às vésperas da Revolução Francesa. Casanova é figura mais complexa. onde o velho alquebrado encontrara. Será possível dizer. 1957) salienta os elementos de oposição contra o mundo aristocrático.à sua obra. encontrará. algo de menos banal. um bailado fantástico de marqueses e abbés. Casanova também teve suas horas de revolta. Ainda tem algo de Gil Blás e já tem algo de Fígaro. sem dúvida. Paul Nettl. para citar um personagem do seu século. em cuja poesia dramática Manlio Dazzi (Carlo Goldoni e la sua poetica sociale. em Dux na Boêmia. O OUTRO CASANOVA AS MEMÓRIAS de Casanova são obra que muitos citam e poucos leram. os ritos bizantinos da Sereníssima República e o ateísmo de enciclopedistas afrancesados. Mas as mais das vezes preferiu ser o parasita dos grandes. no escuro. Ernesto Grassi. o nome de Casanova vive na memória de todos como sinônimo de Don Juan. sobretudo das eróticas. O palco dessa história é a Veneza da época de Goldoni: paixão pela comédia e pela ópera em teatros feericamente iluminados de velas. No entanto. sem que se preste atenção à existência de um outro Casanova atrás da lenda do grande sedutor. algo de novo? Para começar: um daqueles lugares-comuns é verdade exata . com uma beldade para perceber. de Madri até Petersburgo. fossem mesmo só migalhas caídas da mesa rica. Passou a vida seduzindo e abandonando mulheres. É um aventureiro. condensações etc. isto é. as máscaras. de quem a lê: pode ela servir. os espiões e delatores do terrível Conselho dos Dez. Teria este sido o sonho do sedutor volúvel? Foi o fruto amargo de sua experiência. o poeta satírico milanês Parini. uma megera feia e velha. da Editora José Olympio. ou então. os palácios e os canais. igualmente. quem Casanova foi. Roma e Londres. mas enfim ficou sabendo que o Amor tinha mentido a ele. observações espirituosas e lugares-comuns triviais. Leu Rousseau. participando do gozo dos privilégios aristocráticos. e. mas o palco da sua vida é a Europa inteira. . a não ser em edições lamentavelmente truncadas. "o anonimato do instinto". em 1788. Turim. na última época em que o estilo da vida era o mesmo em todos os países. Eis a Veneza de Casanova. A nova edição completa. que quis brilhar na grande sociedade aristocrática de Veneza e Paris. na luz da aurora. romance de viagem a um país utópico em que o amor é fiel e constante. aquele que todo o mundo conhece de nome. chama a atenção para um episódio menos engraçado das Memórias: Casanova passa uma noite deliciosa. e certos fatos históricos parecem confirmar essa lenda. o último refúgio. em 1798. de Madri e Nápoles. afinal. Um erudito musicólogo alemão. O grande sedutor teria reconhecido. e morreu nove anos depois do assalto à Bastilha. um Des Grieux com muitas. É bem o conterrâneo e contemporâneo de Goldoni. o carnaval e o minueto. diplomatas e aventureiros. como outro grande contemporâneo seu. Mentiu a todas as mulheres. Pois a significação da obra de Maquiavel depende. foi um esnobe: um plebeu. livres-pensadores e músicos de teatro. Pouco antes de iniciar a redação das Memórias. o romance fantástico Icosaméron ou l'Histoire d'Édouard et d'Élisabeth. Amou tantas mulheres diferentes. no silêncio provinciano da biblioteca do conde Waldstein. sobre ele. Este amante decepcionado não é uma figura don-juanesca. de origens humildes. Desse modo. meretrizes caras e plebeus revoltados. Mas. com inúmeras Manons. espécie de Don Juan do Rococó. Um filósofo italiano do nosso tempo. uma biblioteca inteira. seu nome virou sinônimo de Don Juan. Casanova. na verdade.

conscientemente. Foi seu autobiógrafo. de um Tirso de Molina nem de um Mozart e Da Ponte para eternizar-se. não se perde em minúcias. em edições inglesas impressas em Paris. sobretudo. e Catarina a Grande. de terríveis injustiças sociais e de muita sujeira moral e física. O último estilo internacional. Quem escreveu esse episódio foi grande escritor. o libretista de Mozart. Quanto à verdade vergonhosa. colaboradores ou obstáculos do plano. a fuga de Casanova das terríveis prisões sob os tetos de chumbo do Palácio Ducal em Veneza. Esse problema não me parece de importância alguma. escreveu obras de algum valor sobre a história de Veneza e da Polônia. mais outros. o Grande. com Crébillon e D'Alembert. É a época de Mozart. É. cada um desses incidentes se abatendo sobre o fugitivo como uma catástrofe apocalíptica. Recordando-se. Não foi levado pelos diabos para o inferno. com seus muitos subepisódios. escrita pela mão inconfundível de Casanova. incertos como seus destinos e seus crimes. citando outro título mozartiano: Così fan tutte. Não precisava. na recordação. a própria fuga. com Frederico. Casanova também tem esse estilo. Afinal. nas cenas de sedução e nas cenas de alto charlatanismo. É grande escritor. como Don Juan. rostos que não se vislumbram bem no lusco-fusco da prisão. Mas também é a última época em que a Europa teve um estilo completo: no savoir vivre e na indumentária. basta comparar-lhes as Memórias com os produtos meio burlescos da pornografia moderna que hoje se espalham. Com razão. mestre na arte de traçar retratos: alguns. em 1787. sem dúvida. seja vergonhosa. enfim. como caricaturas de Daumier. do segundo ato de Don Giovanni. mas terminou seus dias em profundo tédio. Casanova foi doutor em Direito civil e canônico pela Universidade de Pádua. e. Ele próprio preferiu charmar-se Proteu. traduziu para o italiano o Zoroastre de Rameau e. uma janela que se abre. na qual a vontade de fugir vira idéia fixa. sendo especialista em todas as artes teatrais. Determinado episódio das Memórias. europeu. Mas Casanova não tem nada da paixão demoníaca de Don Juan. aquele que teve horas de conversa com Voltaire e Haller. no silêncio de uma biblioteca de província. uma porta que faz ruído. avistando-se a Piazza San Marco e a luz. viveu pela segunda vez sua vida. É um século. a escuridão do cárcere. É o autor das Memórias: Casanova. era conterrâneo do famoso sedutor e aventureiro como este. resolveu o problema geométrico chamado deliaco (da duplicação do cubo). É um episódio magistral. Nesses retratos. encontrou na biblioteca do castelo de Dux uma versão diferente do sexteto. Lorenzo Da Ponte. nas nossas livrarias. e quem teria a . O décor de Così fan tutte também fora o da sua vida. são de uma vivacidade e de um esprit que lembram as comédias de Oscar Wilde. pretende dizer a verdade toda sobre si próprio. a liberdade. A melancolia do sensual decepcionado define-se melhor. como medalhas de bronze de um Pisanello. Assim sabia Casanova falar. sobretudo. Casanova gosta de comparar-se a Rousseau. encenou essa ópera em Dresden. de Quentin de La Tour ou de Rosalba Carriera. Para apreciar a categoria do escritor Casanova. nas artes e no amor. Sabe descrever o salão nobre. e o século XVIII foi época de uma alta cultura da conversação. Assim como este nas Confessions. mas ficção? Eis o problema crítico. nos móveis e na cozinha. como miniaturas de pastel. Casanova sabe descrever as névoas matinais em cima da laguna veneziana como se fosse um quadro de Guardi. estudou a Kabala. Os diálogos. de 15. os companheiros do infortúnio. outros.especialista em música mozartiana. até de 13 anos). os pequenos incidentes. do qual um reflexo sobreviverá na Chartreuse de Parme. meio garanhão. mais jovens do que eram (quase só ama e seduz meninas de 16. Assim também sabia escrever. ficção de base autobiográfica. Sabia Casanova distinguir a ficção e a realidade? São as Memórias uma autobiografia verídica ou um romance. num palácio à beira do Canal Grande. já se tornou famoso em vida do autor. Eis o outro Casanova. como se fosse um quadro de Longhi. traduziu a Ilíada do original grego. enquanto seus rivais se lhe afiguram feios e imbecis. a paixão inspira-lhe o estilo: o memorialista torna suas amantes mais belas do que eram e. Na solidão da biblioteca de Dux retirou-se Casanova para seu passado. com Metastasio e Mengs. Não me lembro quem já comparou Casanova a um centauro: meio aristocrata. seja lisonjeira. Com toda a razão. tocou o violino na orquestra do Teatro San Fenice em Veneza. também achou mais outros indícios da colaboração do aventureiro na estréia da ópera em Praga. O Laclos das Liaisons dangereuses ainda tem esse estilo.

porém. mentindo a todas as mulheres. como Eduard Fuchs. sobretudo. Precisamos enveredar pelo mesmo caminho. as traduções francesas do romance saíram na Bibliothèque des demoiselles. Lucca. como se se tratasse de leitura para alunas de colégio de freiras. se dizia com maior franqueza. Mas justamente esses episódios inventados (ou desfigurados na recordação) são os melhores capítulos do grande ficcionista que acreditava escrever Memórias. "Anormal". da parte da crítica. fora do comum. No entanto. inspira coragem para voltar ao assunto. Eliot. que não recebe. Nós outros. esse grande mentiroso na vida. OBRA-PRIMA DA LITERATURA UNIVERSAL COM o conceito moderno da crítica literária é incompatível a tarefa que alguns ainda querem atribuir ao crítico: a de acompanhar semanalmente as novidades do mercado de livros. Melville e Henry James e. O preconceito parece invencível. as espantosas cenas da peste em Milão. O século que fez dos móveis e dos vestidos e da cozinha artes que mereciam o esforço da vida inteira. Eis por que Casanova é pródigo demais em dizer nomes e fornecer datas e até endereços. nos suplementos e colunas. ao mesmo tempo em que dedica tantos estudos profundos e pseudoprofundos ao horrível marquês de Sade? Talvez porque este foi um monstro e Casanova um homem normal. que uma menina de 15 anos seduzida por Casanova foi na ocasião uma matrona de 60 anos. e a ordem cronológica das interpretações escureceria a linha mestra da evolução . Não me consta que alguém tenha prestado atenção à nova e boa tradução de Os noivos. O que vale no espaço para o livro estrangeiro vale no tempo para o livro do passado. Em face do encarecimento do livro estrangeiro. Certamente. dito de mocidade e velhice transviadas. enquanto um crítico francês censurou a falta de paixão sexual nas cenas de amor. despreza Casanova. 1952) dá conta desse esforço. Santini (Storia della critica manzoniana. Uns estudiosos de exatidão incompreensiva. em certos casos. de tanta injustiça e tanta sujeira. sem obter repercussão alguma. Wordsworth e Keats. Pouco posso usar. escrevendo um romance erótico. não temos tempo para nada. tempo para escrever depois 10 volumes sobre as obras realizadas. Lembro-me de já ter escrito dois artigos sobre o romance. Por isso aquele século de Casanova. Yeats e Joyce ou um "clássico vivo" como T. Erótico? Parece assim porque este século XX. o citado livro de Santini: a abundância da documentação faria rebentar este artigo. que o tornou inacessível à maior parte dos leitores. demonstraram em pesquisas minuciosas que várias aventuras contadas nas Memórias não têm fundamento na realidade. naquele romance. o esquelético noticiário sobre novas publicações estrangeiras para não ficarmos provincialmente limitados. hoje. só pode parecer a exclusividade com que dedicava a vida toda à arte de amar. os episódios e frases francamente pornográficos são relativamente raros na obra de Casanova. No resto. Pois naquela época se teve tempo para tanto e. por Maria Guaspari. Esse julgamento repercutiu no Brasil. O livro de E. Realmente. nunca se tentou no Brasil interpretar devidamente esse romance que Benedetto Croce chamou de "obra-prima da literatura universal do século passado". não é leitura para meninas. Os grandes críticos modernos no estrangeiro também se dedicam muito à interpretação e reinterpretação de obras permanentes. Tiveram muito tempo. provaram.coragem de reprochar-lhe essa reserva? Quanto à verdade lisonjeira. S. tem dedicado àquele romance um trabalho de interpretação tão extenso e tão intenso como a nenhuma outra obra com exceção da Divina comédia. no conjunto dos 10 volumes quase desaparecem. seria desejável substituir aquele "policiamento" da produção nacional por informação mais substancial do que pode proporcionar. fica chocado por muita coisa que no século XVIII se fez e. isto é. por Archibald Colqhoun. exercida por adultos do século XX. também mentiu nas Memórias a todos os leitores. além disso. mas Donne e Marvell. Os objetos preferidos da nova crítica anglo-americana não são autores vivos. a atenção devida. A crítica italiana. Mas por que a crítica literária. que tampouco está devidamente apreciada entre nós. também cultivava como arte o amor. para tanto. de Manzoni. É o espírito do seu tempo. quando muito. Mas o sucesso surpreendente da nova tradução inglesa. Os críticos estrangeiros foram menos cuidadosos: a título de curiosidade lembra-se o fato de que Poe só elogiou. Dá oportunidade para tanto o movimento tradutório. parece-nos hoje um paraíso perdido.

hoje em dia. agiu à plena luz da sua consciência literária. e é espetáculo fascinante a revelação gradual de fundos abismais e mistérios inesperados num livro que aparentemente se reveste de grande simplicidade. poder-se-ia estudar como e de que maneira os elementos históricos e religiosos entraram na invenção do romancista. depois. de simplicidade desconcertante? O sucesso fulminante da obra na Itália de 1827 teve motivos que não podem ser nossos: assim como tantos outros romances históricos daquela época. Mas Os noivos é obra escrita na técnica antiquada de Walter Scott. Mas ninguém poderia denunciar como revolucionário vermelho o autor: pois Manzoni. convertido a um catolicismo moderadamente liberal. a "Senhora de Monza". afigurava-se aos primeiros leitores alegoria da opressão da Itália do século XIX pelos dominadores austríacos. Mas foram outros os desígnios da Providência. com algumas luzes de humorismo cervantino. Don Rodrigo. são os da fé cristã. dos quais cada um tem sua própria literatura. com seus muitos dialetos. que se nos afiguram teoricamente idênticos. na qual o confirma o santo cardeal Frederico Borromeo. tinha-se. Mas os resultados não são aqueles que se poderiam esperar de uma análise estilística. está escrita em pura linguagem florentina. a um julgamento moral que considera a ficção como mentira.do pensamento crítico. esses processos não rendem muito. Mesmo assim. E o leitor que só tomou conhecimento do face value da obra tem o direito de perguntar: Que é que os italianos acham de tão extraordinário nessa história de amor. Por isso. Um monje mais firme. a questão da língua é de grande importância. época e ambiente que só podem interessar os amadores de erudição antiquária. não estamos acostumados a separar assim rigorosamente os gêneros para submetê-los. exame detido do assunto poderia servir de lição a críticos e a romancistas. que fora descrente voltaireano na mocidade. enchendo de cadáveres as ruas: Don Rodrigo é entre as vítimas. abrigando-a num convento e confiando-a a uma freira de origem nobre. enclausurada no convento contra sua vontade. Tudo parece perdido. Enquanto isso. esse também parecia inspirado pelo patriotismo. esperamos de um romance a unidade estrutural de um grande poema em prosa. a crítica moderna começa com análises de estilo para desenterrar o sentido simbólico da obra. O vigário. estava cheia de particularidades idiomáticas da Lombardia. Renzo e Lucia serão reunidos na igreja de Don Abbondio. É um romance histórico. . Não há. padre tão covarde que faz rir. A primeira edição de Os noivos. a segunda edição. É o happy end que esperávamos e o perdão para todos. enchendo de amores castos e de resignação cristã a história da peste em Milão. Fra Cristoforo. Em Milão irrompe a peste. É um critério da poética aristotélica que. O surpreendente é que aquela opinião negativa também foi a do próprio Manzoni: no ensaio Del romanzo storico condenou sua obra. ressurge hoje na Escola de Chicago. símbolos escondidos. passando-se na Lombardia do século XVII. Depois daquelas tempestades todas. Talvez nenhuma obra da literatura tenha sido submetida a tão meticuloso exame gramatical. em Os noivos. escrevendo e reescrevendo a obra. camponeses lombardos. Quando muito. justamente porque Manzoni. Tendo lido Flaubert e Henry James. pretendem casar. no entanto. base da estrutura formal. lexicológico e estilístico como fizeram os críticos italianos com Os noivos. algo de repente. Don Abbondio. agora já liberto de temores degradantes. O Innominato experimenta inesperadamente sua hora de conversão. Qual é esse enredo? Renzo e Lucia. modificando-a. é incompreensível esse critério. de 1827. embora com uma diferença importante: já não distinguimos entre a forma (a poesia e o conteúdo. A opressão da Lombardia por espanhóis e senhores feudais. diretamente formulados como no catecismo. não tem ânimo para casar os amantes contra a vontade do aristocrata violento. no século XVII. de 1840. é uma natureza predestinada a fazer o mal: entrega Lucia a outro aristocrata violento ao qual o romancista não deu nome próprio (o "Innominato"). causadas pelo desemprego e pelo alto custo de vida e violentamente suprimidas pelos soldados. acredita salvar Lucia. quer raptar a moça. assim como o enredo inventado só poderia comover os leitores de histórias de amor com happy end. porque seria inadmissível a mistura de acontecimentos e personagens históricos e de acontecimentos e personagens inventados. "mentirosas" seriam a história romanceada e a forma poética dada a um assunto histórico. que lera na velha crônica de Ripamonte. hoje. Para nós. Na Itália. Mas o senhor feudal da região. Mas a respeito de Os noivos. no caso: a história). Mas acontece que essa freira. Somos exigentes. Renzo fugiu para Milão onde participa de revoltas de rua.

Manzoni quer convencer e. Apesar de tantas vicissitudes e catástrofes. que no século XIX passava por ser o maior crítico manzoniano. mas como torcidos pela intervenção das forças sobrenaturais. Manzoni extraiu da história o elemento poético. . Mas . não são nada idealizados). característico da poesia épica. E assim. Estudaram-lhe minuciosamente a biografia para demonstrar que pela conversão (que consideravam como espécie de crise neurótica) o gênio de Manzoni foi estragado. Mas continuou discutida aquela objetividade épica da obra. uma obra cuja alta categoria a crítica de De Sanctis já tinha demonstrado. também era antireligiosa e (às vezes) anticlerical. Separou nitidamente os personagens inventados (Renzo. O grande De Sanctis já deu o exemplo. o leitor sabe de antemão que tudo terminará bem. Esclareceu muitas coisas sem contribuir grande coisa para a compreensão estética da obra. transcrição da crônica de Ripamonte. nunca esqueceu de todo o voltaireanismo de sua mocidade. Scalvini já tinha lamentado o rigorismo moral de Manzoni.e essa diferença é decisiva . ninguém duvidou mais da alta categoria do romance. porque dizem respeito a discussões atuais entre críticos "antigos" e "novos". Don Abbondio) e os personagens históricos (o cardeal Borromeo. hoje em dia. Croce respeita o romance (que não lhe é simpático) pela harmonia perfeita entre o autor e a obra.Depois da crítica de De Sanctis. O que parece. que identificou como Bernardino Visconti. libertino que se converteu). Assim como esse grande sermonista. das causas do . os acontecimentos não se desenrolariam conforme a lógica humana. o covarde vigário Don Abbondio e a perversa freira de Monza. Mas essa crítica "positivista" quis ficar objetiva. Os noivos estavam destinados a terminar como leitura juvenil e incluídos na Bibliothèque des demoiselles. no romance. um idílio. que este sempre é o destino da crítica "externa" que se perde em minúcias biográficas e estudos de supostas influências. O crítico De Lollis estudou a influência de Thierry. que seria muito desigual. A história infiltra nesse "mundo ideal inventado" o elemento de realismo objetivo. lhe era fundamente antipática. Não podia rejeitar.Grande parte desse trabalho foi realizado por Francesco D'Ovidio. nunca poderiam explicar defeitos literários. o enredo não estaria colocado sob o ar livre da Lombardia. embora não tendo nada em comum com a filosofia positivista de Comte. se for possível. ficando na superfície dos problemas. Só se condenaram os elementos religiosos. Como voltaireana caracteriza Trompeo a caricatura do covarde vigário Don Abbondio. Lucia. Esse determinismo psicológico é o núcleo do método biográfico que pretende explicar pelo autor a obra e que hoje se combate tanto. mas soube encontrar o caminho de fora para dentro. salvou o romance. porque se gabava de ser científica. em bloco. Comparou o moralismo de Manzoni e sua fé na Providência divina ao moralismo e providencialismo de Bossuet. que explicara (muito antes de Marx) a história da França como história permanente de lutas de classes. Estudou as oscilações de Manzoni entre política patriótica e resignação religiosa. Já sabemos. Só restava estudar detalhes. A discussão parece encerrada. Verificou-se que Manzoni. em Os noivos. Examinou as influências de Scott e de Cervantes (personagem de Don Abbondio!). o Innominato. Há nele um elemento de grande retórica. também é transfigurado em poesia. Quando Manzoni fala. Condenando a teoria de Manzoni. converter os leitores. É do maior interesse examinar os motivos dessa crítica negativa. Acabou com a distinção entre forma e conteúdo. O romance é um grande conto de fadas (embora de fadas cristãs). Sacrificaram a unidade da obra. Mas esses levaram a resultados inesperados. e explicaram essa desigualdade pela intervenção indevida da religiosidade do autor. o providencialismo. da superfície para o núcleo do problema. Uma obra de fundo religioso. A unidade dela é novamente reconhecida. Também outras leituras francesas de Manzoni não eram das mais ortodoxas. que parecia aos críticos limitada pela fé religiosa do autor. os personagens idealizados do cardeal Borromeo e de Fra Cristoforo (não perceberam que dois outros personagens "clericais". mas sob uma cúpula de igreja.Croce rejeitara aquele determinismo psicológico. atribuindo-as à conversão repentina do romancista. como Os noivos. Mas a grandeza da crítica literária italiana é justamente esta: não ficou no biografismo (como a francesa) nem se isolou na análise estética (como a anglo-americana). A crítica erudita do positivismo europeu de 1860 ou 1880. mesmo depois da sua conversão. Um resto daquele anticlericalismo do século XIX sobreviveu na mentalidade de Benedetto Croce. Seu romance seria na literatura o que é na música um Oratório. Particularidades biográficas etc. a Senhora de Monza.

nenhuma ajuda para a interpretação. começou a tormar aulas de língua inglesa que lhe deu um jovem irlandês. A misteriosa "Senhora de Monza" é retrato de uma alma predestinada à perdição. naquele tempo só conhecida na Áustria. Isolado pelas origens numa cidade isolada pela língua. Pelo humorismo cervantino de Manzoni. depois se retratou. Anos depois. cidade de civilização italiana no meio de gentes eslavas. tutto!" Isto não é um idílio com happy end nem um Oratório. O estudo dos pormenores biográficos. Seu humorismo também é consciência religiosa da fraqueza humana. assim como tantos outros grandes artistas. pela história dos humildes. publicada pela casa editora de Croce) um momento da resistência antifascista. se defendeu contra a vida. então o grande porto da Áustria. retratando-se. Dois romances. na Lombardia do século XVII. Ettore Schmitz. aqueles pormenores adquiriram vida própria. nesse momento dos estudos manzonianos. acredita-se ler um economista moderno. Bem disse Valéry: "La personne de l'auteur masque l'oeuvre plus qu'elle n'aide à la dégager. março de 1952). residente em Trieste: James Joyce. reconheceu. porventura. É realista. mas uma sinfonia de tudo que é natural. que talvez fosse (Umili e potenti nella poetica de Manzoni saiu em 1934. A obra é a epopéia do povo italiano: a cúpula em cima dela não é a de uma igreja de aldeia. embora ridículo. A religião de Manzoni foi bastante particular. que causara tanto embaraço aos críticos do século passado.desemprego e da alta do custo de vida. causadas pela tolice e pela sabedoria. adotou o pseudônimo Italo Svevo para tornar-se escritor italiano. Esses estudos inspiraram a Zottoli uma interpretação toda nova de Os noivos: Manzoni não escreveu um romance histórico. abandonando as divagações biográficas e preferindo caracterizar a arte de Manzoni: a fé do convertido acrescentou à sua poesia. escreveu para o primeiro aniversário da morte de Manzoni um Réquiem cheio de terrores infernais e visões celestes. de eloqüência religiosa. são todos eles partes do grande plano divino da história. Por que Manzoni escondeu a identidade do Innominato? Não seria. pela violência e pela resignação. que. ao qual ocorreu essa idéia engenhosa. uma nova dimensão. pela fé conseguiu penetrar a alma dos seus personagens. embora descrente. Mas importa observar a "revolução" no valor dos elementos críticos. essa universalidade do romance (in Spettatore Italiano. tutto. antigamente. Mas quando se abandonou o determinismo psicológico. Foram padres jansenistas que o tinham convertido. sobrenatural e infra-humano. e a primeira idéia de elevar um comerciante . Mais perspicaz que todos eles foi o velho garibaldino Verdi. Abre-se uma perspectiva inteiramente nova. não tinha dado. Voltou a ser Schmitz e comerciante abastado. deixa de ser desprezível. pela imaginação criadora transformou aquele seu conhecimento psicológico em fisionomia e gesto. novamente o perigo do determinismo psicológico: o de interpretar o autor em vez da obra. poucos meses antes de morrer. completou a storia scritta dos historiadores que só tratam dos poderosos e omitem o povo. Houve. dos bons e dos condenados. Una vita e Senilità (titulo esquisito em escritor então jovem) ficavam despercebidos. escondendose atrás de uma máscara. como elementos constitutivos da obra. este seu nome civil. Não é preciso aprovar integralmente essa reinterpretação "democrática". Cada um dos dois aprendeu com o outro. Os atos das criaturas humanas. Na religiosidade do romancista reconhece Russo "a combinação de rigorismo moral e liberdade humana"."698 Isto é verdade especialmente no caso de Manzoni que. mas o céu livre da Lombardia. a conversão dele um símbolo da sua própria? O grande crítico Momigliano. A idée fixe de analisar em vez da obra o autor dela tinha impedido a interpretação justa. que é característica de "ces messieurs de Port-Royal" e de Pascal. predestinação que a dogmática ortodoxamente católica não admite. até então só lírica. das influências etc. voltando com maior convicção a afirmar: "Uma obra-prima da literatura universal do século passado. um homem fraco como Don Abbondio. descendente de judeus austríacos de língua alemã. Isto também se refere à sua religiosidade católica. mas escreveu propriamente história. O próprio Croce. Até a peste mortífera aparece incluída na perspectiva histórica. Joyce: os primeiros conhecimentos da psicanálise. sempre!." AS TRÊS RUAS DE SVEVO A GLÓRIA de Italo Svevo passou como um cometa entre as constelações literárias do primeiro após-guerra. tinha nascido em 1861 em Trieste. na qual é mais fácil obedecer ao conselho do santo homem: "Dite loro che perdonino sempre.

Essa vida meio irreal nem será interrompida pela realidade duramente palpável da guerra: um pouco mais de trabalho é útil exercício físico e a morte de tanta gente dá agradável relevo a fantasias sobre a destruição geral. condensou essa atmosfera no poema Tre vie: a primeira é a Rua Domenico Rossetti. significa a segurança da velha Áustria. A consciência de Zeno é a historia de um fracasso. Em Italo Svevo misturam-se da maneira mais gentil os elementos italianos. Quer. às vezes dostoievskiana. hebraicos. Com a consciência moral está Zeno profundamente preocupado. Procura o psicanalista. engana-a com Carla e engana Carla com Augusta. a segunda. Svevo: nova coragem para escrever. é inconfundível a atmosfera de Trieste. Ei-la. capaz "to end . sobre o fim do mundo que será a morte de tudo. mas "são bons demais para serem imperativos". No entanto . . A palavra tem os dois sentidos: o moral e o psicológico. e mesmo falando dos outros. será esta vez a última". em 1956. Eis os limites do mundo de Zeno. É a solidão infinita de um homem que colocou seu posto de observação na sua consciência. esperamos. alemães e eslavos. Que temos com isso? Poil de Carotte. escreveu Rilke suas Elegias. No entanto. mas a consciência como instrumento de observação da vida permite-lhe ficar com superioridade irônica. porventura. Italiana. só parece contada para Zeno se lembrar das palavras de Hamlet: que haverá um momento. mais especificamente: maquiavélica é sua . Philippe Soupault. É a vida de um homem comum. constata melancolicamente: "Svevo está esquecido.judeu a herói do futuro romance Ulysses. em Duíno. Austríaca é sua arte de sobreviver à permanência de situações precárias e duvidosas. em Lisboa. a Rua do Lazaretto Vecchio. Eslava. mas bastante esperto para viver comodamente. Svevo é cidadão italiano e escritor italiano.Vinte anos depois. mas também para o mar da aventura. a morte do velho autor de Senilità. pela última vez. Valéry Larbaud e Benjamin Crémieux anunciaram ao mundo a nova obra-prima do século: La coscienza di Zeno. Depois dela.e voltando para o porto da mediocridade segura. para o português. essa vida dupla que o tornou neurótico. que lhe manda escrever a história da sua vida. Até a cena trágica do livro. Não se ilude quanto à dubiedade dessas situações. Interveio a primeira guerra. Zeno Cosini é neurótico. mais uma vez. é a dos marujos e das bandeiras de todos os países. O mundo lá fora é de importância secundária. a saída para a Itália. Dos antepassados judaicos herdou a melancolia e o gosto da auto-ironia. Esse romance de Svevo é maior peça de sustained irony que conheço. sem se cansar demais em trabalhar.The heartache and the thousand natural shocks That flesh is heir to". entre os burocratas austríacos da cidade teria sido possível a existência de um Kafka. admirador da primeira hora. a terceira é a Rua del Monte que acaba no cemitério dos judeus. E também uma. mas se a encontrar. Esses "thousand shocks" psicológicos são a matéria do livro. mas não pode deixar de fumar. parece sua mania de impiedosa introspecção psicológica. é fronteira como a Irlanda. e que. em 1928. Trieste fica situada aos confins da civilização ocidental. e para manter-se precariamente equilibrado em situações duvidosas quando lhe convém assim. a morte do pai. o grande poeta triestino Umberto Saba. On n'en voit pas cinq ou six par siècle de cette ordre-là. ainda. Não se pode negar: Italo Svevo é um autor provinciano." . regional. onde estão enterrados os antepassados de Saba e os de Svevo. declarava com o orgulho dos seus sofrimentos: "Tout le monde ne peut pas être orphelin. Por isso procurou o psicanalista. a das calmas casas burguesas. ligeiramente ridículo (Crémieux lembrou-se de Charlie Chaplin)."712 Nem todos nós outros podemos ser triestinos. sempre fala de si próprio. Em 1926. como seu amigo Joyce). à maneira dos míopes (Svevo sofre dos olhos. Mas não quer ficar curado: pois a neurose é como o navio em que continua saindo para o mar da aventura . inclusive da inquieta consciência de Zeno Zeno fala na primeira pessoa.eis minha tese ."711 Foi a glória. escrita por um velho fracassado.a Trieste de Italo Svevo é tão universal como a Dublin de James Joyce. Joyce. Zeno só o vê vagamente. Thérive escreveu: "C'est une réussite incroyable. Que injustiça. E logo. É abúlico.Agora acabaram de sair novas traduções para o francês e o inglês. conhecido e reconhecido no país de Machado de Assis. perdendo-se à margem da cidade na paisagem que já é eslava. o órfão de Jules Renard. Svevo será. Cada cigarro que fuma "será o último". Mas é um romance sutilmente humorístico. Tem os melhores propósitos. hoje. O grande poeta Eugênio Montale observou que a literatura dos triestinos italianos ficou marcada pelo multissecular domínio da Áustria: perto dali. Um concidadão e confrade de Svevo. Também "encontrar-se-á com Carla. Casou com Augusta.

LIVROS QUE NÃO HÁ NA MESA HÁ MUITOS livros na mesa. e a desilusão psicológica quando se descobriu que o "eu" não é dono absoluto em sua casa. Mas não basta parar na comparação de Crémieux. Homens fracassados na realidade como Zeno ou fracassados na imaginação como Svevo não castigam ninguém. A própria vida. o primeiro romance italiano. Svevo participa dessa oposição: seu 'herói" é tão pouco heróico como Charlie Chaplin.. alemão e castelhano). esperando. certa vez. Fala na primeira pessoa como o personagem principal de um romance picaresco. medievais e renascentistas. Dessa terceira desilusão o então austríaco Svevo chegou a saber antes de o mundo lá fora tomar conhecimento. Como Juvenal. iludidos pelas aparências do sustentado monólogo interior. Os autobiógrafos costumam mentir. Nunca saberemos quando Zeno é ele próprio. portanto. A autobiografia de Zeno é apresentada como documento para o consultório psicanalítico. a da casa. A literatura italiana. porque lhe escapa o domínio do subconsciente. Mentira e verdade aparecem inextricavelmente misturadas. Verga não é "moderno". embora "la realtà può talvolta farsi satira con la sola precisione"713. Freud falou. Lido sem preconceitos. mas para cada um chega a hora em que se sente órfão neste vale de lágrimas. como Zeno? É verdade que "tout le monde ne peut pas être orphelin". A consciência de Zeno afigura-se um romance burguês na grande tradição do século XIX.estratégia da vida cotidiana. "todos os cemitérios se parecem". menos complicados e. a de Zeno e a dos outros. Das Glasperlenspiel (O . O lobo das estepes. inexplicáveis. São as três dimensões que caracterizam a realidade. Escritor provincial? Regional? Não estaríamos. quando Darwin integrou o homem no reino animal. Não pensei em Ulysses. "herói" de fitas humorísticas. no entanto. E. Sem dúvida. Balzac and Flaubert. parece mais urgente chamar a atenção para certos livros que não há na mesa. por enquanto. 1957). é ficção. teve dificuldades em incorporar-se esse gênero moderno. Svevo diria: "É difícil deixar de escrever sátira. o crítico Raymond Giraud explica aquela dissolução pela oposição dos escritores contra o homem anti-heróico que é o tipo da classe média dominante. nesse sentido. das três grandes desilusões que o homem moderno experimentou: a desilusão cosmológica. nós outros. A Morte também é humorista e por isso acontece o estranho fenômeno de que. mas ninguém pensa em traduzir a obra principal do grande escritor. ainda não traduzidos para o português: e os primeiros títulos anunciados já fazem pensar nas muitas obras importantíssimas que continuam. A obra de Svevo é. Italo Svevo também nos proporcionou no fim da vida dolorosa esse espetáculo raro: o sorriso de um homem velho. Zeno é tão real porque não passa de uma ficção inventada por ele mesmo. a desilusão biológica. Seu riso é irônico como o do velho Verdi que. Zeno tampouco tem dúvidas em iludir ou querer iludir o médico. foi um dos maiores sucessos literários no Brasil. Mas veio tarde. Em livro recente (The Unheroic Hero in the Novels of Stendhal. todos nós." Na verdade. Manzoni não é "moderno". Uma grande editora paulista acaba de anunciar a publicação de uma Coleção de Romances Contemporâneos. escrevendo com 80 anos de idade sua primeira opera cômica. Sejamos humoristas. maior. New Brunswick. no dizer de Machado de Assis. os primeiros críticos de Svevo. fê-la terminar e culminar numa fuga sobre as palavras "Tutto nel mondo è burla". exageraram as semelhanças com Joyce e com Proust. quando acredita ser ele próprio. Mas essa tradição não é italiana. Veio quando o gênero já se encontrava em plena dissolução assim como o velho mundo triestino do primeiro após-guerra. N. quanto nos quer fazer acreditar que assim é ele próprio. infinitamente solitários em companhia com a nossa consciência. não chegou a escrever sátira. Falstaff. é obra sui generis. cuja tradução é de dificuldade quase sobre-humana (embora fosse vencida em francês. mas em toda parte há as três ruas de Umberto Saba. Ninguém sabe isso melhor do que o psicanalista. Penso em outros casos. e A consciência de Zeno é mesmo o romance picaresco da psicanálise. quando Copérnico desalojou do centro do Universo nossa terra. de Hermann Hesse. baseada em heranças clássicas. Mas parte da confissão é ou pode ser verdade. J. a da aventura e a que leva ao cemitério. Aquela dissolução do gênero "romance" pela "deseroificação" do "herói" faz parte de um outro processo. O romance em que entraram esses elementos todos. inacessíveis ao público brasileiro. Não somos triestinos. porventura.

o simples desconhecimento.jogo das pérolas de vidro). baseado no Apocalipse. dotados de ferocidade extraordinária e de inteligência calculadora. por sua vez. Pois talvez Alfons seja um homem do serviço de contra-espionagem norte-americana. como diz com desprezo. escreve em inglês (ou. ao passo que o misterioso coronel Howard estaria a serviço dos russos? O segredo em que os dois homens ficam envolvidos. obras de Anna Seghers. que atacam em massa uma cidade indefesa. we build our own hell. New York). são vingadores das injustiças . Os personagens principais dessa obra ligeiramente apocalíptica são cachorros. que se diz do Serviço Secreto norte-americano. que reúne as qualidades de uma nova técnica novelística de profundidade dir-se-ia supratemporal do pensamento político e as de atualidade urgente. que sofreu grave colapso de nervos. Contra essa tese insurge-se o Sr. tão freqüentemente influenciados por Kafka. Eis o que se pede ao psiquiatra. pelo menos. porventura. de fortes tendências místicas. habitando um apartamento que "se parece com o interior de um caminhão para mudanças". Não se assustem do nome impronunciável desse "ilustre desconhecido". vive em New York. Mas não será. Malik. M. Zondval. Também se desconhecem. Cronaca de' poveri amanti. além das cogitações comerciais. As opiniões estão divididas.. Querido. se também se traduzisse sua obra-prima mais recente. reuniram-se no Paço Municipal algumas personalidades para debater a conveniência ou não da execução pública de um novo Oratório. Enquanto isso. O Sr. É um mundo confuso. sem que se torne confusa a obra que a reflete. Já conquistaram o centro. até All the King's Men. Metello. eis o problema do romancista moderno. Não tem confiança em nenhum dos dois homens. pela própria natureza da sua ocupação. Uma das muitas frases significativas que surgem como flash-lights no romance de Hostovsky é esta: "In fighting the devil. Joyce Cary. inclusive para os leitores brasileiros. de Robert Penn Warren. Mas este fica submerso em dúvidas. Amsterdã). E os nossos contistas. É uma imagem perfeita das confusões mentais e morais da nossa época.. não acredita na possibilidade de combater os cachorros. exilado há muitos anos. como refugiado. interessado em se restabelecer o equilíbrio mental do russo para arrancar-lhe seus segredos. porque não seriam verdadeiros cachorros. Hostovsky. em hora noturna. mas criaturas metafísicas cuja força só reside no poder dos nossos pecados. um psiquiatra tcheco que. por falta de traduções. confuso este nosso mundo contemporâneo? Refletir essa confusão. O Sr. Como exemplo de um consciente esforço desses desejar-se-ia a tradução para o português de pelo menos um dos romances do escritor tcheco Egon Hostovsky. Augustijn. Porque na política editorial influem. desapareceriam muitos equívocos. os inimigos não seriam robots nem animais comuns. Arnost Malik. Aos habitantes não resta outra saída senão a fuga para os telhados. é o coronel Howard. colabora na tradução das suas obras para a língua inglesa). Sua obra-prima talvez seja The Midnight Patient (Appleton-Century-Crofts. que é racionalista. Camilo José Cela. Poderia ser a epígrafe do novo romance do jovem escritor holandês Alfred Kossmann: De Hondenplaag (A praga dos cachorros. É hoje um dos grandes nomes da literatura ocidental. O personagem involuntariamente principal desse romance é o Dr. às vezes. a ele só importam providências eficientes para combatê-la. não quer saber das causas da misteriosa praga. A esse problema estão subordinadas as novas soluções técnicas assim como o esforço intelectual sem o qual a imaginação criadora degeneraria em jogo gratuito. por meio de inseticidas. portador de informações importantes. E. não permite esclarecer aquela dúvida. homem de inclinações para a técnica moderna. divulgados no Brasil. O "paciente de meia-noite" chama-se Alfons: é um agente secreto russo. novos tipos de romance político. em situação miserável. acasos incalculáveis: prêmios Nobel de sensacionalismo efêmero. Coster. acerca do neo-realismo italiano. Anuncia-se a tradução da primeira obra-prima de Vasco Pratolini. Todos esses fatores contribuem para a distorção dos horizontes literários assim como são vistos do Rio de Janeiro e de São Paulo. construímos nosso próprio inferno." Combatendo o diabo. apesar da sua fama internacional. só os editores lhe desconhecem a maior obra. Quem o leva à presença do Dr. mas robots aos quais seu inventor diabólico deu forma canina. O latido incessante dos inimigos ferozes lá fora obriga os entendidos a mudar o objeto das suas deliberações estéticas: do Apocalipse musical para o da realidade. Todo o mundo no Brasil conhece Thomas Mann. visitas de autores ao Brasil. só podem ler em francês. obra musical de que alguns temem a impressão por assim dizer défaitiste na população. o Doktor Faustus. relações diplomáticas e.

como Moravia e Pratolini. o "Anatole France italiano". ouvindo-se os gritos dos jornaleiros. segunda fase. os políticos. Agora. na ficção contemporânea. Não há mais comunicação com o mundo lá fora. Já é dia. mas neste momento aparecem os críticos musicais que pretendem telefonar para os jornais em Roma notícias da estréia: os telefones estão cortados. de Villy Soerensen. O autor da Famosa invasione degli orsi in Sicilia é o italiano Dino Buzzati. pois: "Acreditam que o Partido Revolucionário. cidade . os intelectuais. É um alívio instantâneo. Depois. Milão) que esclarece definitivamente nosso assunto. dá aos circunstantes uma pequena aula de tática revolucionária": "Primeira fase."714 Ou então La famosa invasione degli orsi in Sicilia. eliminação física dos elementos reacionários". É grande o sucesso da obra. surge a aurora. com as ruas misteriosamente vazias em torno do teatro. anuncia Tempi nostri. eu disse. publicado no Diário de São Paulo) VIDA ITALIANA O cineasta italiano Antonio Blasetti tem boas idéias. os artistas para ouvir a estréia de uma nova ópera. Ninguém ousa sair. apesar de a atmosfera estar envenenada por boatos de um movimento decisivo do Partido Revolucionário. Ontem mesmo fui excluído do partido. a alegoria é transparente: é um desmentido aos Koestlers e a todas as agências noticiosas que há 15 anos nos predizem diariamente. como sempre. que deu no romance II deserto dei Tartari um dos mais impressionantes romances alegóricos deste tempo. uma das Strange Stories. Eis a contribuição desse diretor jovem para o film italiano neo-realista. Aqueles reuniram-se grande teatro "como os últimos Nibelungen se fecharam na fortaleza. feito sobretudo de atmosfera: Ladrões de bicicletas (De Sica). panorama da vida italiana através de contos italianos modernos: histórias humorísticas como “Il bacio” (Achille Campanile)." (inédito que mandei a Olavo de Carvalho. pelo prefeito. A propósito daquele romance holandês pensa-se em sua novela Paura alla Scala (Mondadori. Mas todos eles sabem fazer o que Blasetti aprecia principalmente: inventar enredos. que começa com um impressionante texto de telegrama: "Return immediately stop tiger in the kitchen.não são longas . O político apenas sorri: "Não sei de nada. ocupação dos pontos estratégicos. Roma. enquanto um velho escritor espirituoso. “Il sovrintendente” (Vitaliano Brancati). Corrado Alvaro. no salão nobre do teatro. No Teatro alla Scala está reunida toda a sociedade milanesa. "A matança dos inocentes de Belém". a grande burguesia.que temos cometido e contra os quais só adianta uma conversão completa e contrita . Ou então. ficando porém tão aborrecidos com a corrupção ali reinante que preferem voltar para as suas montanhas. Por motivos de higiene mental seria aconselhável mandar traduzir aquelas três obras e . alguns dos co-autores desse film são tão conhecidos. ou fantásticas como uma de Italo Calvino. Os telefones estavam cortados? Mais um golpe de mestre da nossa lamentável administração municipal. Na praça defronte do teatro estabelecem-se. para amanhã ou depois. Poderia citar A guerra contra as salamandras." Depois de uma noite cheia de apreensões terríveis. histórias trágicas de Dino Buzzati. Há o usual assalto de todos ao buffet. a revolução e a terceira guerra mundial. confirma essa impressão. A comparação com alegorias semelhantes." Desta vez. Altri tempi foi uma fita composta de histórias do século passado. "Ligeiramente apocalíptico". porque a intenção do autor é evidentemente satírica. com habilidade jornalística. perguntando.e assim se prolongam interminavelmente os debates até os cachorros invadirem o Paço e devorarem os discutidores. cujo enredo é. Ninguém quis deixar de assistir ao grande acontecimento artístico e social. em que ursos famintos invadem uma cidade siciliana. Os repórteres quase assaltam-no. esperando o ataque dos hunos". Mais ligeiros são seus contos em que esse redator do Corriere della Sera sabe. E à rainha da festa tão gravemente perturbada apresenta-se 'uma gardênia intacta'. deixaria imprimir e sair o Corriere della Sera? Não houve nada.reuni-las em um volume só cuja epígrafe seria uma frase de Ludovic Halévy: "J'ai passé ma vie à annoncer des catastrophes qui ne se sont jamais produites. de Capek... significativa e ironicamente. copo na mão. as floristas. internacionalmente. explorar temas kafkianos. há recepção oficial. “Gli innamorati” (Ercole Patti). Como saber o que se passa? Acontece que está presente no salão um dos próprios chefes do Partido Revolucionário. quando no poder. por desvio ideológico.

Já se conhecem. Permite definir a “Italian vogue”: a tradição humanística. Mas o italiano de hoje ainda se lhes afigura cantor lírico. de Petrarca até os nossos dias. traduzem com o maior interesse aqueles autores que forneceram enredos a Antonio Blasetti. todos eles já filmados. sobretudo. Está sendo descoberta a Itália. Conhecemos. O primeiro nome que se impõe. Assim Vitaliano Brancati. ao qual já me referi em outro artigo. É. é o lugar da mais amarga pobreza. como exemplo. a história Il vecchio con gli stivali: velho funcionário da Prefeitura de uma pequena cidade siciliana. do Partido Comunista. também entra nas histórias virtuosamente fantásticas de Dino Buzzati. de Ricardo Bacchelli. tem de entrar no partido por imposição do prepeito: depois da guerra. Bacchelli e Silone são. como Carlo Levi. enquanto os americanos já deram um passo mais adiante: compreendem a Itália viva. tão imensamente rica. os aproveitadores dessa nova atualidade: o brilhante jornalista Malaparte. começam a admirar os museus. recém-transformado em anti-fascista. Essa história de um anti-fascista de alta cultura intelectual que. há pouco. já tão conhecido que não é preciso apresentá-lo. Pensam em Steinbeck? Não está certo. embora patrícios e contemporâneos seus. Livre de tendências é o realismo cru de Alberto Moravia. a mais antigga das que hoje existem. que obedece a outros “mots d’ordre” literários. superiores pela cultura humanística. exerce influência muito forte. a América paga aos italianos os juros. A Itália é a pátria do conto. Com efeito. Junto com o realismo de Hemingway o culto da pobreza e a self-pity de CharlesLouis Philippe. Só agora os turistas brasileiros. representante da nobre tradição manzoniana. O mesmo realismo reúne a cultura de Bacchelli e o primitivismo de Silone em Cristo s’è fermato a Eboli. escritores tendenciosos. libertos da paixão monomana pela Lutetia. Ao pólo oposto dessa alta cultura literária coloca-se Ignazio Silone. Steinbeck é um primitivo. o nobre anti-fascista. No Brasil. é o de Elio Vittorini. se encontra entre camponeses que. abafando as vozes da retórica herdada. Um novo. Agora. têm aparecido poucos grandes romancistas. Algo semelhante é Giuseppe Berto. discípulo de Kafka. aliás. confinado na Lucania pelo governo de Mussolini. em Il vento nell’ oliveto. Naqueles italianos é primitivo apenas o ambiente que descrevem. quase bárbara. Parece necessária para tornar suportável uma presença que os Vittorini e Berto ignoram (mas não a ignora . perguntaria Blasetti. ainda não chegou o que chamam nos Estados Unidos e na Inglaterra “The italian vogue”. Hemingway. Por isso. os outros. Paciência. envolvida naquela atmosfera que faz o encanto do cinema neo-realista italiano. Já se disse que os americanos descobriram em 1918 a França e em 1945 a Itália. chocando-se com a vida primitiva. o panorama da pobreza rural na Calabria. Vittorini separou-se. São os mesmos sapatos que apertam a vida toda ao velho. O lirismo inibe os romancistas italianos. palácios e igrejas da península. o amável Guareschi e (em nível superior) a psicologia complicada de Carlo Coccioli. Não me lembro quem já definiu a short story como produto do vale do Arno. meio apalhaçado. por idealismo. narrador sólido. cadê nessa história o enredo? Eis o ponto fraco. é julgado como fascista por um tribunal popular ao qual preside aquele prefeito. que situa seus enredos nos ambientes rurais mais primitivos. Fortunato Seminare. Arroz amargo (De Santis). e muito espírito de rebeldia social — eis as fontes da moderna ficção italiana. transplantado para o vale do Mississippi. ou então engraxate. livro que foi dentro de três anos traduzido para quase todas as línguas. do qual citarei. dos campos italianos. algo parecido com o dos nossos romancistas nordestinos. antes. esse estilo. Mas aí a função da ironia é diferente. são ironistas amargos. em história tão sinistra como Cronache di poveri amanti de Vasco Pratolini. milenar. entre nós os outsiders.. no Brasil.aberta (Rossellini). autor de Conversazione in Sicilia: a ilha. que parece o paraíso terrestre aos turistas. Mas não prejudica os narradores de histórias curtas. Lêem. três sucessos mundiais. Poderíamos aprender deles. lidíssimo na Itália. já se falou em “Itália bárbara”. dos intelectuais italianos. de Carlo Levi. panorama deprimente de um subúrbio florentino nos tempos do início do fascismo. Hoje. Essa ironia até entra como elemento decisivo. anti-fascista impenitente. acaba de dar. a terra da qual é preciso emigrar. Na literatura italiana. mas ao qual são.. É o neo-naturalismo. uma literatura de poetas líricos. parecem viver no paganismo da época pré-histórica — esse livro é realmente um grande documento. muitas vezes. O maior sucesso literário de 1952 nos Estados Unidos foi o romance histórico Il mulino del Po. Mas.

um lugar onde alguém o espera. da civilização grega. essencialmente. sim. São imensos panoramas sociológicos de uma vida bárbara. A palavra “realismo mágico”. digamo-lo francamente. que a pobreza não explica. Na verdade. de Beppe Fenoglio. será melhor compreendida por leitores das obras de Verga.se nos Veintiquattro giorni della cittá de Alba . tragédias sofocleanas fantasiadas de romances naturalistas. na Sicília. Pavese também foi um mestre da vida. Um fenômeno como Pavese desmente o que se disse sobre as influências americanas e francesas no romance italiano moderno. transfigurado pelo estupor quase religioso de quem contempla a terra eterna e o mar eterno em torno da ilha e a condição humana e o destino das criaturas. O prejuízo é nosso. La luna e i falo.Moravia): a do Mal. Mas a mesma barbária da terra subalpina já apareceu liricamente transfigurada nos contos do maior de todos esses italianos. Os estrangeiros só o costumam conhecer como autor da novela que serviu de libreto à Cavalleria Rusticana. o realismo mágico da ficção italiana contemporânea tem suas raízes no exemplo dado por Giovanni Verga. Cesare Pavese. I superflui. Charles-Louis Philippe não a teria escrito assim porque — a França não é bárbara. Há neles todo o realismo cruel da vida moderna. na Europa. A “Itália bárbara” revela. O Mal está presente em romance de um novo como Dante Anfelli. Podem ter ajudado. . Mas aquilo não é mercadoria de importação. antes de suicidar-se. é obra de um mestre. história de jovens provincianos exilados na miséria da grande cidade: apesar das semelhanças. onde acaba a solidão”). história da volta de um emigrante à aldeia (“A aldeia é. descrição das lutas ferozes entre fascistas e anti-fascistas no Piemonte. Ao seu diário deu o título Il mestiere di vivere. de um Tolstoi. tão em voga hoje. mas que não é bárbara por primitivismo e sim por decadência: é o último resto. I Malavoglia e Maestro Don Gesualdo são romances só comparáveis aos maiores de um Hardy ou.