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JOSÉ LUIZ DE MORAIS

ARQUEOLOGIA DA REGIÃO SUDESTE

JOSÉ LUIS DE MORAIS Museu de Arqueologia e Etnologia Universidade de São Paulo E-mail: jlmorais@uol.com.br

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REVISTA USP, São Paulo, n.44, p. 194-217, dezembro/fevereiro 1999-2000

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screver sobre a arqueologia das regiões brasileiras, especialmente a da Região Sudeste, é uma tarefa ingrata por vários motivos. Um deles é que o recorte regional

oficialmente estabelecido está longe de contemplar uma possível homogeneidade ambiental físicobiótica e socioeconômica, pertinente ao que seria uma regionalização de facto. Neste caso, os limites

convencionais da região cercam um conteúdo que me parece um “ornitorrinco geográfico”. Outro motivo é que construir sínteses regionais será, sempre, postura eivada de conotações particulares, muito presas à visão do autor que ouse empreender tal tarefa. Assim, ao sabor de tais características (tentando bem digeri-las ou, melhor, adequando-as às prerrogativas que permeiam minha ousadia), proponho não simplesmente elencar as iniciativas que desenharam o estado d’arte da investigação arqueológica regional: por meio de um texto que, espero, ágil e sucinto, enfatizarei, antes de tudo, problemas e questões relativas à práxis arqueológica e ao povoamento regional nos limites do recorte oficialmente estabelecido, centradas nas especificidades da disciplina em epígrafe. Isso talvez confira à última parte desta colaboração um caráter de maior importância. Certamente, sempre que possível, situações e casos correntes na literatura arqueológica regional irão alavancar pressupostos ou posturas ventiladas. Assim, não espere o leitor elucubrações profundas a respeito da arqueologia da Região Sudeste. Há trabalhos já publicados, dentre os quais destaco o de Prous (1991) ou de Beltrão (1978), que poderiam melhor espelhar uma visão sucinta de projetos ou do estado d’arte da arqueologia regional.

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Um pouco diferente é a situação no extremo sul da região. E o aparato que compõe o acervo científico correlato à práxis arqueológica bem demonstrará tal diversidade (aliás uma diversidade que poderá ser estendida à própria práxis). 194-217. Na porção centro-meridional a situação muda drasticamente pela presença da Serra do Mar: a transição é brusca e a escarpa vez por outra vem diretamente ao oceano ou. àquilo que é conhecido por Sudeste. destacando-a para formar um compartimento único envolvendo a faixa litorânea da Região Sul. Assim. E o viés arqueológico acaba por acentuar as críticas a este desenho: de fato. ENTENDENDO A PAISAGEM REGIONAL: ESPAÇOS DE TRANSIÇÃO AMBIENTAL Uma postura crítica relativa ao desenho regional do país deve vir acompanhada de justificativas palpáveis embasadas nas divergências de ordem ambiental que. esta posição astronômica responsabiliza-se pela maior parte das características que tornam o Sudeste uma região de transição ambiental. como em um trabalho acadêmico. E a geografia física coloca. RS). só será possível entender a Região Sudeste pelas transições que se fazem presentes no ambiente físicobiótico e nas desigualdades relativas ao meio ambiente socioeconômico. por motivos óbvios. ela ganha sentido quando se percebe que a intenção foi salientar os importantes episódios que resultaram na formação dos sambaquis do litoral meridional brasileiro (balizado pelo Cabo de São Tomé. RJ. e pela foz do Arroio Chuí. O RELEVO COMO CONDICIONANTE DE APROPRIAÇÃO TERRITORIAL No Sudeste. onde o curso médioinferior do Rio Ribeira. tal postura pode parecer claudicante. Minas Gerais. Aí. p. n. a Serra de Paranapiacaba (nome regional da Serra do Mar) afasta-se para o interior. São Paulo. com propriedade. como apresentarei adiante. por meio de uma sucessão de patamares modelados nos terrenos cristalinos (IBGE 1977).Convém pontuar que a estrutura da publicação em que esta contribuição se encaixa houve por bem outorgar identidade própria à faixa litorânea da Região Sudeste. 14º S até 25º S. no estado de São Paulo. Antes. Associada ao relevo. transitando pelas divergências anteriormente mencionadas como cenário de uma tentativa de organização territorial aplicada à disciplina. até certo ponto plausível. as grandes unidades ambientais que caracterizam este espaço do subcontinente. porém. Todavia. menções à dispersão do povoamento pré-colonial pela faixa litorânea da Região Sudeste. dezembro/fevereiro 1999-2000 . pontuando minha abordagem no relevo e nas condições climáticas e fitogeográficas. Trazendo o que foi afirmado anteriormente. possibilitando o desenvolvimento 196 REVISTA USP. da PréHistória aos dias de hoje. deixa um colar de pequenas planícies litorâneas limitadas por esporões. evidencia-se ainda mais a fragilidade do contorno territorial do espaço geográfico da região. quando recua. sob o enfoque do povoamento pré-colonial. não estou ensaiando uma abordagem geoarqueológica ou interdisciplinar. o recorte entre ambientes litorâneos e interiores difere bastante no sentido norte-sul. evitarei ao máximo. À primeira vista. percorre largo trecho de planície litorânea. sim.44. no estado do Espírito Santo. A Região Sudeste do Brasil é composta por quatro estados: Espírito Santo. Rio de Janeiro e São Paulo. composta por arenitos) e o acesso às terras mais elevadas do planalto se faz gradativamente. acabaram por dar certa identidade. aproximadamente. por ironia. Ao norte do Rio Doce. ao colocar as características ambientais regionais. Sua posição astronômica abrange latitudes que vão desde. Estou. a planície costeira é bastante larga (reflexo da interiorização da Formação Barreiras. quero deixar claro que.

Triângulo Mineiro. A Depressão Periférica e o Planalto Ocidental Paulista. um segundo degrau do Planalto Oriental Brasileiro). No alto São Francisco. na Era Mesozóica (cerca de 130 milhões de anos atrás). Todas estas características marcam definitivamente o caráter transicional do clima regional expresso. com características de clima Af (quente. vertentes das bacias atlânticas de Minas e Espírito Santo e litoral do Rio de Janeiro). caracterizando o Sudeste como aquela região brasileira que possui REVISTA USP. São Paulo. desde aquelas intensamente granitizadas. a partir do Reservatório de Três Marias. marcam presença altas superfícies modeladas em rochas proterozóicas. Os relevos modelados em rochas sedimentares. capixabas e fluminenses. destacamse. subunidades da primeira. dentre outras. Importantíssimo é o fato de a região estar na faixa de latitude onde mais freqüentemente se verifica o choque entre os sistemas de altas tropicais e de altas polares. nos limites com a Região Sul. OS FATORES CLIMÁTICOS E FITOGEOGRÁFICOS Além dos efeitos da latitude. e a Serra da Mantiqueira como degrau do Planalto Sul-Mineiro. No primeiro caso. A pluviosidade se encarrega de completar o quadro das diferenças. será possível discriminar peculiaridades no âmbito dos domínios climáticos. dezembro/fevereiro 1999-2000 197 . que se desenvolve principalmente em território paulista. pertencem a duas unidades distintas: a Bacia Sedimentar do Paraná e a Bacia Sedimentar do São Francisco. o relevo apresenta aspecto tabular. O quadro climático abrange os seguintes domínios: • Quente (noroeste paulista. conhecidos como Serra do Mar e Serra da Mantiqueira (esta. na realidade. São deste compartimento os terrenos que funcionam como divisores entre a bacia do Rio São Francisco e os rios que drenam diretamente para o Atlântico. • Mesotérmico (trechos serranos de São Paulo e Minas Gerais). com superfícies modeladas em rochas do complexo arqueozóicoproterozóico e os chapadões sedimentares de idade paleozóica e mesozóica (Cunha e Guerra 1998). p. Os grandes domínios morfoestruturais do interior da Região Sudeste podem ser caracterizados pela presença de dois conjuntos distintos: os terrenos cristalinos da fachada oriental. Melhor descrição desta morfologia colocaria a Serra do Mar como o degrau do Planalto Atlântico. Neste caso.44. em função da constituição geológica dos arenitos de idade cretácea. 194-217. na zona dos chapadões. Assim. região do São Francisco. apresentam testemunhos de um dos grandes episódios vulcânicos que afetou o planeta. com duas estações – seca e úmida – bem definidas).do complexo estuarino-lagunar do eixo Iguape-Cananéia-Paranaguá. principalmente. dentro do domínio clima quente. haveriam de ser separados o noroeste paulista. unidades menores como os bordos orientais do embasamento cristalino. existem algumas bacias sedimentares. Encaixadas em fundos de depressões tectônicas. Afetando o mecanismo atmosférico que atua na região. das vertentes das bacias atlânticas mineiras. como a do Paraíba do Sul e a de São Paulo. em território mineiro. Mais para o norte da região. com chuvas melhor distribuídas no decorrer do ano). até pacotes sedimentares. o Triângulo Mineiro e a região do São Francisco. a topografia acidentada e o sopro contínuo dos ventos alísios condicionam a distribuição dos climas regionais. com características de clima Aw (quente. n. A vertente oeste da bacia hidrográfica do São Francisco integra-se inteiramente no Planalto Central Brasileiro e sua nota característica é a forma de relevo conheci- da por “chapada”. no seu regime térmico. as rochas possuem estrutura complexa. o relevo determina uma série de variedades. que se dá em equilíbrio dinâmico (IBGE 1977). • Subquente (interior paulista e Planalto Mineiro). De fato. presentes no território do Sudeste.

no norte do estado de Minas Gerais. cuja faixa se desenvolve plenamente na metade noroeste da região. estende-se o domínio da floresta ombrófila densa que. que anexaria toda a vertente ocidental do São Francisco. No meu entendimento. Assim. Sem contar com a identidade própria atribuída ao litoral que. o vislumbre da plataforma ambiental que justifica as afirmações ligadas à artificialidade do seu contorno. à vista das condicionantes naturais. a influência da “escola” francesa foi marcante no meio acadêmico regional. do Atlântico para o interior. Sua apresentação objetivou. tanto no litoral como no interior. A qualidade do solo e o relevo (notadamente as escarpas de serra) exercem papel importante na distribuição da flora. pelo menos no sentido da dispersão das populações sambaquieiras. formaria um compartimento homogêneo.44. Salvo melhor juízo. como no litoral do estado de São Paulo. respingada por manchas de cerrado. Hoje muito criticado pela geração mais jovem. No extremo centro-norte marca sua presença a manifestação mais meridional da caatinga. com sede no Rio de Janeiro. indo desde as formações típicas do semi-árido. acabou por “diagnosticar” várias fases culturais componentes de tradições arqueológicas regionais ou de abrangência mais ampla. A vegetação do Sudeste é variada. 194-217. ações promovidas pelo IAB (Instituto de Arqueologia Brasileira). começo por destacar a precoce atuação regional do Pronapa (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas). acabaram por compor um quadro de fases ainda hoje bastante populares. no extremo meridional. desde a Pré-História. somado ao da Região Sul. ARQUEOLOGIA REGIONAL: UM PANORAMA COMPLEXO Não seria o caso de abordar aspectos históricos da investigação arqueológica feita na Região Sudeste: a eficácia da compreensão só se faria presente se tal abordagem fosse feita considerando os aspectos nacionais como um todo. n. A floresta estacional semidecidual compõe faixa contígua. fez-se mais pela ação de instituições externas aos estados). Ou a necessidade de prover melhor identidade para o território que envolve a arqueologia do Planalto Central Brasileiro. compete com as expressões mais setentrionais da floresta ombrófila mista (a Mata das Araucárias. esta presença. Nos estados citados. convencionalmente na Região Sudeste. a consolidação da investigação regio- nal tem trazido novas e importantes questões em torno da dispersão do povoamento indígena. São Paulo. A oferta deste background relativo aos principais aspectos do meio físico-biótico do Sudeste não teve o propósito de fomentar questões ou afirmações ligadas à distribuição do povoamento pré-colonial nos seus limites. outrossim. De fato. Esta notável diversificação vem desempenhando papel muito importante na distribuição do povoamento regional. p.maior diversidade climática. menor. Ultrapassada a faixa de vegetação tipicamente litorânea. há algumas faixas. especialmente nas regiões serranas. Grosso modo . não há como negar a melhor integração das coisas da arqueologia paulista com a dos estados da Região Sul. cuja vegetação ainda permanece no seu estado nativo. principalmente na 198 REVISTA USP. De qualquer maneira. cuja área nuclear está na Região Sul). o Sudeste pré-colonial poderia muito bem ser repartido entre as regiões que lhe são limítrofes (Figura 1). como é o caso da Serra do Mar. dezembro/fevereiro 1999-2000 . cuja área nuclear está na Região Nordeste. as unidades fitogeográficas regionais se sucedem em extensas faixas. mudanças e adaptações das sociedades antigas. Por exemplo. Apesar da densidade de ocupação e do nível de desenvolvimento econômico da região. que sempre tiveram muito a ver com as formas. mais popular no Rio de Janeiro e no Espírito Santo (em São Paulo e Minas Gerais. o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro houve por bem não percorrer tal caminho (Kneip 1977). até aquelas caracterizadas pelas condições de superumidade.

FIGURA 1 ARRANJO GERAL DOS SISTEMAS REGIONAIS DE POVOAMENTO REVISTA USP. p. São Paulo. dezembro/fevereiro 1999-2000 199 .44. n. 194-217.

Além de algumas incursões de equipes mistas brasileiro-americanas. e alguns outros pesquisadores. com seu foco nuclear nas alturas do Planalto Mineiro. segundo André Prous (comunicação pessoal 1999). dentre outras atividades. carência quase absoluta de pesquisas arqueológicas no estado do Espírito Santo. cujo trabalho foi bruscamente interrompido pela sua morte repentina. n. utilizando a plataforma adquirida na parceria com a missão franco-brasileira.Universidade de São Paulo (as pesquisas coordenadas por Luciana Pallestrini são. cuja tipologia. então da Universidade Federal do Espírito Santo. isso coloca o fulcro das preocupações arqueológicas capixabas e fluminenses (pelo menos no nível das instituições) muito mais afeito às coisas do litoral que à arqueologia do interior. Hoje. há elucubrações interessantes. Emperaire. por meio de seu campus de Presidente Prudente. responsáveis pelo levantamento de aldeias guaranis pré-coloniais na margem esquerda do Rio Paranaíba (Alves et al. funcionando como contrapeso à arqueologia mineira. a Universidade Federal de Minas Gerais está concluindo um relatório final correspondente a vinte anos de pesquisas na bacia do São Francisco médiosuperior (regiões de Peruaçu e Montalvânia). Minha impressão “geopolítica” a respeito da arqueologia do Rio de Janeiro (e. dezembro/fevereiro 1999-2000 . acabou por associar-se à Universidade de Alberta (Canadá). Os resulta- 200 REVISTA USP. restos alimentares. No estado de São Paulo. o local ganhou destaque como a mais importante estação arqueológica do país. Abordagens ligadas à paleobotânica e arte rupestre. vem ganhando corpo nesta atividade. Tecnologia pré-histórica e arte rupestre são as duas principais linhas de pesquisa em desenvolvimento na UFMG. sim. por meio de projetos regionais de inspiração francesa. Com a ausência de Mme. Apesar da exigüidade de informações a respeito da arqueologia do Espírito Santo. Na minha opinião. tipicamente “de interior”. também estão sendo encaminhadas. Para a região de Lagoa Santa e da Serra do Cipó foram relevantes as pesquisas em tecnologia lítica realizadas por Prous e sua equipe. quando foram identificadas algumas fases culturais ao estilo Pronapa. Isso porque permeia nas entrelinhas da literatura arqueológica corrente uma forte ligação entre as arqueologias dos três estados: aparentemente. A Universidade de São Paulo também se faz presente em parte do território mineiro. Estão previstas a elaboração de monografias sobre os sítios arqueológicos. Em Minas Gerais. em 1976. mesmo. Rio de Janeiro e Espírito Santo funcionam como “compartimentos litorâneos” de Minas Gerais e este como “compartimento interiorano” dos dois primeiros. Ao que parece há. Após as investi- gações levadas a efeito por Celso Perota. o grosso do volume das investigações arqueológicas tem ficado a cargo da Universidade de São Paulo (a Unesp. Uma boa síntese da Pré-História do Rio de Janeiro pode ser encontrada em Gaspar (1997). Todavia. a arqueologia mineira descentralizou sua atuação: a universidade.44. p. a região de Lagoa Santa é um caso à parte: desde os primeiros achados feitos por Lund. segundo Beltrão (1974). Grandes projetos institucionais abrangendo segmentos das bacias hidrográficas estão implantados há mais de três décadas (Morais 1999). estaria claramente vinculada a outras pontas encontradas no interior de São Paulo (entenda-se a região de Rio Claro). o melhor exemplo). análises de artefatos. a partir do melhor entendimento dos sistemas regionais de assentamentos de caçadores-coletores. lá se fez sentir a ação direta de Mme. nos últimos dez anos). do Espírito Santo) é que ela é freqüentemente entendida como uma arqueologia tipicamente “litorânea”. 194-217. principalmente no Triângulo. os levantamentos adentraram estado letárgico. tal assunto carece de maior aprofundamento. Vários pesquisadores encontram-se envolvidos em pesquisas arqueológicas por contrato. 1999). São Paulo. hoje. como a sintomática existência de pontas de lança no interior do estado. esta. talvez. Annette Emperaire.

de se estranhar. certamente. que é o Museu de Arqueologia e Etnologia. inseridas na problemática ambiental (a arqueologia enquadra-se prontamente no meio ambiente socioeconômico e cultural). Então. A partir dessa premissa. e que sua vocação de “fazer escola” prende-se à presença. popularizam-se na Região Sudeste os projetos de resgate do patrimônio arqueológico em áreas impactadas por empreendimentos potencialmente lesivos ao meio ambiente. as condições ambientais reduziram os elementos da cultura material a raros vestígios (Kern 1981). e isso é aparentemente louvável. considerando que. à reunião dos programas e profissionais em uma única instituição. Ora. os objetos são meios e. vem se destacando como centro emergente em arqueologia histórica. passando por projetos de urbanização. fica difícil transpor a idéia de uma “unidade arqueológica artificial”. um utensílio típico. para algo complexo e muito “humano”.dos até agora obtidos. Explico: a idéia de “fase” e “tradição” apóiase em objetos e. mas pela cadeia operatória que o produziu. gerada a partir do artifício de uma seriação. posto que eivados de um artificialismo classificatório de todo incompatível com uma disciplina que busca. n. Assim como ocorre em outras regiões brasileiras. na USP. indicam forte relação da arqueologia paulista com as “tradições” pré-cerâmicas e cerâmicas do Brasil meridional. no estado. destacam-se as situações em território paulista. que não podem ser confundidas com culturas. sob a tutela de Eliete P. Maximino. O mesmo poderá ser dito com relação ao Laboratório de Arqueologia da Unisantos. Esta visão deve-se. esse pensamento é válido nos estreitos limites de uma modesta arqueografia per se. assumo a nãoutilização dos termos “fase” e “tradição” arqueológica. Se REVISTA USP. INTRODUÇÃO À SÍNTESE DOS SISTEMAS REGIONAIS DE POVOAMENTO O pensamento pronapiano relativo a “fases” e “tradições” arqueológicas indica que estes conceitos são considerados “unidades arqueológicas artificiais”. Também é muito forte. Além da Unesp. B. dentre outros propósitos. em algumas características físicas do registro arqueológico. que vão desde a duplicação de rodovias até a implantação de grandes reservatórios de hidrelétricas. como herança cultural das comunidades do passado). a arqueografia que inventou (e denominou) “fases” e “tradições” arqueológicas acabou por distinguir características peculiares em conjuntos de materiais arqueológicos. geram classificações aplicáveis a eles próprios. campus de Presidente Prudente. como frisei anteriormente. que é um sistema de povoamento ou de ocupação de um território. do único curso de pósgraduação de Arqueologia stricto sensu do país. Nessa vertente. levantar e analisar o cotidiano das comunidades do passado. sob a coordenação de Margarida Davina Andreatta. Não é. a tendência de se colocar as coisas relativas à arqueologia sob o viés patrimonial (isto é. portanto. que os maiores escritórios de arqueologia que prestam serviços mediante contrato estão sediados em São Paulo. o Núcleo de Arqueologia Braz Cubas. São Paulo. a ponta-de-projétil (quase um fóssil-guia). plenamente inserida nas suas condicionantes sociais e ambientais. como chamou a atenção Caldarelli (1983). na maioria dos sítios arqueológicos (principalmente os pré-cerâmicos). primordialmente. Certamente. na minha opinião. vez por outra. Mas não deve parar aí. Não há de se esquecer que a crescente homogeneidade da qual se investe a arqueologia paulista deve-se. Na minha opinião.44. às prerrogativas estabelecidas pelos projetos e profissionais que atuam sob a égide da chamada “arqueologia de contrato” (mais apropriadamente uma “arqueologia por contrato de prestação de serviços”). Quisera eu que a chamada “Tradição Umbu” tivesse sido definida não pela presença de um “traço-diagnóstico”. dezembro/fevereiro 1999-2000 201 . 194-217. p.

“Humaitá” ou “Itararé”. algumas situações e casos que considero importantes: ora são determinadas regiões (como é o caso de Lagoa Santa). Muito a gosto da corrente processualista. Hodder 1976. 194-217. no estado de Minas Gerais. n. LAGOA SANTA A região de Lagoa Santa. desenhando os padrões de assentamento. serão apenas ventiladas quando se fizer uma oportunidade. cujas comunidades utilizaram a mesma fonte de matéria-prima para suas indústrias líticas (Morais 1999). há algo a ser louvado em termos dessa organização e. Selecionei. sistema regional de povoamento e sistema local de sítios arqueológicos. A coordenação entre sítios ou conjuntos de sítios de certa região. Com o passar do tempo.44. Antes. Clarke 1977). O conjunto de sítios coordenados pela proximidade de um fator comum. São Paulo. similaridade ou complementaridade. embora bastante espalhado geograficamente. define um sistema regional de povoamento. Certamente minha base operacional será o que existe a respeito das grandes “tradições” arqueológicas (como afirmei anteriormente. porém. resulta no reconhecimento sistemático dos padrões espaciais dos dados arqueológicos. Por exemplo. 1975a. constitui um sistema local de sítios arqueológicos. que seja entendido como um sistema regional de povoamento. de qualquer natureza. Por exemplo. nos moldes antes delineados. SISTEMAS REGIONAIS DE CAÇADORES-COLETORES A partir deste ponto. demonstrando relações concomitantes por contemporaneidade. Então. um conjunto de sítios de caçadores-coletores que. dezembro/fevereiro 1999-2000 . estruturas políticas e sociais e densidade da população foram alguns dos fatores que influenciaram a distribuição do povoamento. mantém alguma coesão. embora percorra este caminho. cedeu grande parte de seu 202 REVISTA USP. o conjunto de sítios de caçadores-coletores e de agricultores. refletindo as relações das comunidades do passado com o meio ambiente e as relações entre elas próprias no seu contexto ambiental (Yoffee e Sherratt 1997). Estratégias de subsistência. p. proponho uma descomprometida síntese do povoamento pré-colonial da Região Sudeste. associado ao exercício de rigorosas técnicas matemáticas e estatísticas (Chorley e Haggett 1974. Que algumas soluções tenham sido válidas em alguns momentos é aceitável. discorrerei superficialmente a respeito dos sistemas regionais de povoamento pré-colonial da Região Sudeste. não há por que insistir em mantê-las nos dias de hoje. como qualquer outro gentílico da língua portuguesa) sob o estranho rótulo “tupiguarani” (sem hífen). como se a cerâmica arqueológica pudesse ser um fator de fusão entre dois povos. tais como análise espacial.existe algo chamado “Umbu”. Todavia. do universo de caçadores-coletores e de agricultores de subsistência. simplesmente. não estarei simplesmente substituindo o termo “tradição” por “sistema regional de povoamento”). A análise espacial tem seu nicho na geografia moderna e seu ponto de partida tem sido o uso de mapas de distribuição de sítios ou de artefatos. Padrão de assentamento é a distribuição de sítios arqueológicos em determinada área geográfica. contém as mais tradicionais estações arqueológicas do país. a despeito da eventual importância microrregional ou local. Também penso não ser correto aglutinar tupis e guaranis pré-coloniais (no plural. padrão de assentamento. tomarei a liberdade de relembrar alguns conceitos básicos da disciplina arqueológica que têm fundamentado os preceitos da arqueologia regional. A arqueologia não deve. Situações menores (em termos de tempo e de espaço). preocupar-se com a organização e o agrupamento de cacos. ora são sistemas de povoamento. arrematando o que considero os grandes sistemas regionais de povoamento. 1975b.

bem marcadas por raspadores e raspadeiras que são. em certo momento. no estado do Piauí. São Paulo. em 1964. o batismo de “Luzia” por Walter A. principalmente Maria Beltrão. Assim.500 anos antes do presente. no estado de São Paulo. que teria traços similares às populações da Austrália e da África. contém o Sítio Alice Boër.44. e 450 d. em parte. n. sua investigação vem ganhando corpo.C. Schmitz 1999). O quartzo é a matéria-prima mais utilizada. reacendida pelas pesquisas internacionais que giram em torno de “Luzia”. se existiram os episódios arqueológicos qualificados como “tradições do Sudeste”. A datação de 14. Relativamente bem conservados no ambiente calcário. sugiro a leitura dos trabalhos de Hoeltz 1997 e Schmidt Dias 1994). a região de Lagoa Santa conserva ainda alguns sítios intactos. Falo dos umbus e humaitás. p.brilho à região de São Raimundo Nonato. segundo alguns autores. um dos formadores do Rio Paraná. A INTERAÇÃO UMBU/HUMAITÁ NA REGIÃO SUDESTE À vista dos dados arqueológicos recentes e da releitura dos resultados anteriores. em termos de arqueologia americana. até as vertentes do Rio Grande. Prefiro tratálos como integrantes de sistemas regionais de povoamento que. passando por Hurt e por Mme. Numa seqüência estratigráfica perturbada foram encontrados materiais líticos com técnica de fabricação aprimorada (Beltrão 1974). cujo correspondente povoamento talvez tenha avançado para o norte. o que lhe deu estatuto de antigüidade. segundo André Prous. ainda uma controvérsia. a região tem demonstrado boa combinação entre dados da megafauna e componentes pleistocênicos de ocupações humanas. apesar de a organização regional brasileira. talvez por volta de 12. Muito recentemente. os instrumentos retocados dominantes na região. têlo colocado na Região Sudeste. dezembro/fevereiro 1999-2000 203 . a vocação jornalística de Lagoa Santa. Desde as escavações pioneiras realizadas por Lund. segundo as datações absolutas disponíveis. Na sua região nuclear. Neves recuperou. aproximadamente (na área nuclear. quisadores. Indústrias líticas também se encontram presentes. Caracterizar os caçadores-coletores do Sudeste em território paulista significa discutir duas “tradições” consolidadas na Região Sul. No dizer de Prous. seu remanescente fóssil mais famoso.C. Emperaire. Lá se encontram belos exemplos de grutas e abrigos com sinalações rupestres. reitero que o território paulista é “arqueologicamente” meridional. Perez da Paz (1992) retoma alguns pontos sobre a região de Rio Claro. Prous e Fogaça (1999) oferecem uma boa síntese sobre as situações vigentes no território brasileiro na passagem do Pleistoceno para o Holoceno. este RIO CLARO A região de Rio Claro. tenha recebido levas de ancestralidade australo-africana (Neves e Pucciarelli 1998). todavia.000 a. umbus e humaitás foram definidos e diferenciados basicamente por suas indústrias líticas (para se inteirar de discussões recentes acerca da crise das “tradições” meridionais.. fundamentada em preceitos socioeconômicos atuais. pouco terão abrangido o território hoje paulista (Caldarelli 1983). que foi investigada por vários pes- REVISTA USP. enfatizando situações de Minas Gerais. mas é provável que pesquisas mais frutíferas tenham que ser realizadas agora em zonas menos expostas ao vandalismo” (1991:132). 194-217. Tal postura muda bastante a cristalizada hegemonia mongolóide no que se refere ao povoamento das terras americanas que. sobejamente descritos por arqueólogos gaúchos (Mentz Ribeiro 1999. Os restos esqueletais humanos de Lagoa Santa constituem um capítulo especial naquele contexto.200 anos antes do presente constitui o foco das controvérsias. “[…] apesar das destruições. principalmente o que se refere à técnica de produção de objetos líticos. estiveram no território paulista entre 6.

p.FIGURA 2 SISTEMAS DE CAÇADORES-COLETORES DO FLANCO MERIDIONAL 204 REVISTA USP. n. São Paulo. 194-217.44. dezembro/fevereiro 1999-2000 .

o que inclui as lascas (lâminas e lamelas são lascas. Na análise das indústrias líticas. No Sistema Regional Humaitá eram produzidos núcleos robustos. A técnica de processamento da indústria lítica abrange a redução primária e a redução secundária. O elemento separador de ambos. p. O produto é o núcleo. com base no perfil de pedúnculos de pontas de projétil. A escolha de percutores menos robustos (duros ou macios) insere-se no âmbito desta etapa. Volto aos sistemas regionais Umbu e Humaitá. n.perfil cronológico é bastante diferente). que resultaram em sítios a céu aberto. Assim se concretizou novo sistema regional baseado na agricultura de subsistência e na edificação de grandes aldeias. a partir do olhar sobre as indústrias líticas. a tipologia sempre estará incluída no espectro maior. serão reconhecidas as escolhas feitas pelo artesão: sua recorrência permite a caracterização das técnicas tradicionais de determinado grupo social. convém revisitar alguns parâmetros correlacionáveis com ambos os sistemas (definidos no território paulista): Morfologia e função dos assentamentos: falo dos acampamentos com funções “habitacionais” ou onde se realizavam atividades mineratórias. geralmente cascalheiras de litologia diversificada (sílex. é a técnica do processamento da matéria-prima. A partir dessa última data. A tipologia classifica o artefato de acordo com a tecnomorfologia do retoque ou. quanto à apropriação de uma forma previamente concebida. perde sentido na medida em que se observa o conjunto das indústrias envolvidas sob a ótica da cadeia operatória e da sua ambiência. geneticamente). nova ordem social e econômica foi imposta pelos guaranis. lapidados para se transformarem no próprio objeto. A técnica lida com o processamento da matéria-prima. a partir do talhe da massa primordial. A redução secundária engloba a produção de suportes de artefatos. posto que depende de importantes pré-requisitos identificados ao longo da cadeia operatória de processamento dos materiais líticos. bem como as técnicas de percussão direta e indireta. dezembro/fevereiro 1999-2000 205 . arenito silicificado) ou afloramentos de arenito silicificado (diques clásticos). que é o estudo da técnica. amplas) para a produção de artefatos mais pesados. Separar dois sistemas em um mesmo território. bloco e gesto. finalmente. a cultura está expressa nas escolhas que são feitas na seqüência operacional identificada. Assim. a escolha de uma bigorna (no caso da percussão indireta).44. Ao se reconstituir a seqüência operacional. A redução primária conta com o concurso de percutor. diagnosticável por meio da adoção do modelo “cadeia operatória”. A determinante para a escolha do sítio foi a fonte de matéria-prima. quartzito. A redução secundária conta com o concurso de percutor. nos primórdios do século XVI. o abandono do objeto. 194-217. Grandes lascas preparatórias do núcleo eram retocadas (retiradas profundas. Materiais. A cadeia operatória é constituída pelos diferentes estágios da produção de um artefato lítico. a percussão direta ou indireta. fonte de suportes para a fabricação posterior de artefatos. que perdurou até a conquista ibérica. ainda. A primeira engloba os procedimentos necessários para transformar um bloco ou um seixo em núcleo: a escolha de um percutor duro e pesado. No Sistema Regional Umbu eram produzidos núcleos pequenos. presentes no flanco meridional da Região Sudeste (Figura 2). análise e classificação de todos os objetos líticos que integram o encadeamento massa inicial (matéria-prima) / talhe / debitagem / retoque / artefato (uso). De fato. na abordagem das indústrias líticas: ela permeia pela leitura. o seu uso e. desde a aquisição da matéria-prima (umbus e humaitás do flanco meridional da Região Sudeste coletavam matérias-primas nos mesmos locais). o preparo dos planos de percussão. dos quais se retiravam lascas gráceis para a produção de artefatos leves. técnicas e tipologia: os líticos constituem o traço característico de ambos os sistemas. São Paulo. REVISTA USP. Seria interessante pontuar um pouco do estudo da técnica. a técnica da sua produção (aí residem diferenças entre umbus e humaitás). As lascas preparatórias do núcleo são resíduos potencialmente descartáveis.

em função de semelhanças nas técnicas de produção de artefatos líticos. ocorrentes entre 3050 e 2050 a. cachoeiras ou saltos (locais de apanha de peixes migratórios). Todos os estratos estão vinculados à presença de importantes ocorrências de arenito silicificado. leves.C) e II (acampamento do ano 920 d.) integra-se no Sistema Regional Umbu. no espaço geográfico da Região Sudeste. Fitoecologia: a territorialidade dos sistemas Umbu e Humaitá.44. não longe dos limites com a Região Sul. ultrapassando-o até as vertentes setentrionais da bacia do Tietê. O estrato IV (acampamento do ano 2700 a. Parâmetros locacionais: os sítios dos sistemas Umbu e Humaitá podem ser encontrados indistintamente em terraços. Os produtos são lascas. atitude classificatória. não ultrapassando as vertentes setentrionais do Paranapanema. No vizinho Sítio Camargo 3.C.) do Sítio Camargo integramse no Sistema Regional Guarani. Geologia e geomorfologia: os acampamentos de ambos os sistemas tendem a se localizar junto a afloramentos ou depósitos de matérias-primas aptas para o lascamento. lâminas e lamelas.) integra-se no Sistema Regional Humaitá.C. os estratos I (aldeia do ano 1450 d. Artefatos eram feitos para algum uso e. São Paulo. cabeceiras de nascentes e topos de interflúvios (parâmetros locacionais ligados à função morar. No Paranapanema médio-superior.C. exatamente por concordar com as acepções de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1983): horticultor é pessoa que se dedica 206 REVISTA USP. O estrato III (acampamento do ano 110 a. acampamentos do Sistema Regional Humaitá com acampamentos do Sistema Regional Guarani. constituindo a etapa final do processo de leitura sistemática do conjunto de documentos líticos. A tipologia de artefatos. Quase sempre estão associados a cascalheiras. (Ab’Sáber 1989). 194-217. como em colinas. restarão poucos no registro. quer na forma de diques clásticos aflorantes ou de cascalheiras. a expansão do Sistema Regional Umbu teria alcançado antes o Paranapanema. O Sistema Regional Humaitá teria vindo logo depois. colos e platôs mais interiorizados. Ao que parece. hoje abomino a expressão “horticultor” para qualificar as sociedades pré-coloniais brasileiras (ou americanas) que praticavam a agricultura. potencialmente suportes para a confecção de artefatos retocados. n. principalmente as pontas-de-projétil usadas na caça. no modelo preditivo). patamares de vertentes. Ambos se alternaram nos mesmos locais.C. mais pesados. cabe em uma pequena porcentagem dos objetos resgatados do registro arqueológico. como comprovam os vários sítios multicomponenciais das bacias do Paranapanema e do Tietê. portanto. lâminas e lamelas como suporte para artefatos bifaciais ou unifaciais de pequeno porte. mais afeita aos procedimentos arqueográficos. pela ausência de cerâmica. talvez tenham refreado a expansão umbu para o norte. No Sistema Regional Umbu da Região Sudeste eram produzidas lascas. A maior quantidade de objetos líticos corresponderá aos resíduos do processamento da matériaprima (Morais 1983). dezembro/fevereiro 1999-2000 .núcleo e gesto. diques clásticos ou pavimentos detríticos (locais de extração mineral para a indústria lítica) e corredeiras. SISTEMAS REGIONAIS DE AGRICULTORES PRÉ-COLONIAIS Antes de mais nada. Vez por outra são confundidos. misturam-se evidências de lascamento dos três sistemas sobre piso basáltico com abundantes diques e escórias de arenito silicificado. Hidrografia e topografia: há ocorrências de acampamentos dos sistemas Umbu e Humaitá tanto nas grandes ou pequenas calhas fluviais. Os pequenos ciclos de climas quentes e localmente mais secos. distribuídos por várias cotas altimétricas. p. No Sistema Regional Humaitá eram produzidas lascas e lâminas robustas para a fabricação de artefatos maiores. dependeu menos das adaptações ambientais que do distanciamento das áreas nucleares situadas mais na Região Sul.

Neste sentido. creio que tupis e guaranis devam ser considerados particularmente. não foi boa a invenção do rótulo “tupiguarani” (sem hífen) para separar materiais arqueológicos de um lado e tupis + guaranis “etnográficos” (com hífen). relativamente ao povoamento do Planalto Central: “A maioria dos relatos arqueológicos do Centro-Oeste brasileiro. C. com o nome de Tradição Tupinambá. Estes. de fato. dando a impressão de que a arqueologia é a especialidade dos cacos e a etnologia. O conjunto de núcleos de solo antropogênico. que postulavam para cada núcleo de solo antropogênico o estatuto de um sítio-habitação. Não é o caso dos indígenas americanos que. ainda fortemente arraigados a um pensamento evolucionista. de pronto. O DESMEMBRAMENTO DA “TRADIÇÃO” TUPIGUARANI Na minha opinião. e do Sítio Jango Luís. definitivamente. datadas em mil anos antes do presente. uma atitude pioneira. por volta de 700/800 d.à horticultura e esta é a arte de cultivar hortas e jardins. em termos de levantamento de sítios arqueológicos). como os humaitás. os mapeamentos efetuados pelas ações do Projeto Paranapanema garantiram a unicidade da aldeia guarani pré-histórica. n. p. Os traços mais importantes do registro arqueológico das aldeias guaranis são as urnas funerárias de cerâmica para enterramentos primários e os núcleos de solo antropogênico (conhecidos também por “manchas de terra-preta”). Desculpem-me os pronapianos. Nesse sentido. os guaranis foram subjugados pelos conquistadores ibéricos no século XVI (eles. Quanto à contraparte. que prefiro reconhecer como Sistema Regional Guarani. 194-217. Tratarei as comunidades plantadoras da Região Sudeste como “agricultores de subsistência”. dadas as especificidades de cada um (por exemplo. concordo plenamente com Irmhild Wüst (1999). os guaranis são povo da Bacia Platina). À época (final dos anos 60). praticaram o manejo da flora (transferindo espécies de um lugar para outro) e domesticaram algumas plantas que mudaram. considerando que suas manifestações podem ser agregadas em vasto arranjo territorial. entendidos como remanescentes de uma aldeia. Por outro lado. contrariando os ditames dos pronapianos. de fato um inteligente sistema de uso e ocupação do solo. consolidando. achatam a trajetória de pelo menos mil anos de uma vida agrícola dos moradores das grandes aldeias num estágio erroneamente rotulado de horticultores ou de agricultores incipientes” (Wüst 1999: 324).44. São Paulo. correspondem aos remanescentes de cada solo de habitação e respectivo cinturão envoltório. muito eficientemente. quando foram evidenciadas e cartografadas grandes aldeias guaranis pré-históricas. Agrada-me sobremaneira abordar a saga guarani. acabou por destacar o “componente” guarani da famosa tradição. ao que parece. uma subtradição. nos idos de 1968 (de fato. município de Campina do Monte Alegre (ambos no estado de São Paulo). em termos de distribuição regional. posto que suas práticas agrícolas se desenvolviam na medida dos consumos familiares. município de Itapeva. Alguns mais drásticos acabaram por aventar algo definitivamente separado. já haviam exercitado feitos de conquista sobre outros povos. que muito bem expõe esta questão. Indígenas da região do Prata. o cardápio dos europeus. A arqueologia guarani da Região Sudeste começou com Luciana Pallestrini. é interessante perceber que um modismo gaúcho (no melhor sentido da expressão). dezembro/fevereiro 1999-2000 207 . forma um único sítio arqueológico. o “componente” tupi da antiga tradição tende a se consolidar pelas bandas do litoral. por sua vez. As casas-grandes guaranis (tapy’ iguassu’) foram primeiramente observadas nas escavações do Sítio Fonseca. dos índios.). mas jamais deveria haver preocupação no sentido de separar o que é arqueológico daquilo que é etnográfico. por meio do Projeto Paranapanema. de outro. há de se considerar que. a Tradição Guarani. REVISTA USP.

os guarani se estabelecem. O último. eram quatro faces de cobertura fechando todos os lados. discordo enfaticamente de Pedro Ignácio Schmitz. consumo e vida religiosa) era suficientemente espaçosa para abrigar várias dezenas de pessoas (Schaden 1974). o piso se enchia de lixo e os terrenos ao redor viravam capoeira imprestável” (Schmitz 1999: 287-8). com a própria cobertura descendo até o chão. as urnas funerárias. nunca encontramos (primeiramente Luciana Pallestrini e. consistem em casas isoladas. 25). espalhandose por áreas abertas na floresta” (p. ligadas por rede de trilhas vicinais). sempre fora dos núcleos de solo antropogênico. Uma tapy’ iguassu’ tinha dezoito metros de comprimento por oito de largura. À vista deste interesse divergente padeceram os guaranis: quando não mortos ou escravizados. Talvez o escrito de Schmitz seja mais adequado a certas situações pósconquista européia. com os guaranis debandados. pudessem ter uma organização espacial tão precária em termos de habitação e de design de assentamento. p. com os frontões e oitões cobertos de sapé (na realidade. nas escavações de núcleos de solo antropogênico das aldeias guaranis do Paranapanema pré-colonial. a habitação da família extensa guarani (entendida como unidade de produção. que assim trata o mesmo assunto: “A construção das casas era pobre e o conteúdo também… As aldeias não duravam mais do que alguns anos em um mesmo local porque a palha do telhado apodrecia rápido. mais ou menos distantes umas das outras. longe de constituírem conglomerados compactos de habitações. apesar de ser amarrada com cipós. por volta de 1830. formando frontões.Neste momento pontuarei uma profícua interface entre a arqueologia e a etnologia. sempre que possível. deixando os sertões do alto Paraná um deserto de índios. em que as atividades de subsistência incluem as lides da caça em combinação com o amanho da terra. n. De fato. 194-217. instigado pelos escritos de Egon Schaden (1974). São Paulo. evitando a paisagem aberta dos campos. Aquela. resistente às intempéries por muitos anos. corresponderiam ao sepultamento no seio da mata. assinado na cidade espanhola de Tordesilhas. fugitivos e espoliados pelo poder colonial português e espanhol. em conluio com as milícias bandeirantes. retornam os guaranis em migrações messiânicas para o les- 208 REVISTA USP. o registro arqueológico demonstra muito bem esta situação etnográfica: os núcleos de solo antropogênico espalham-se por grandes extensões de terreno (no passado ocuparam grandes clareiras no interior da mata. eu mesmo) buracos de esteios centrais de sustentação do que seria a cumeeira da edificação. para o norte e para o sul. relativos a aldeia guarani: “[…] portadores de cultura característica da região florestal. viu nos índios excelente matéria-prima a ser cristianizada. posteriormente. Fazendo minhas as afirmações deste etnólogo. povo que consolidou um expressivo sistema regional de povoamento em tão vasto território. Mas volto à casa-grande guarani. drenado dos rios Paraná. Reitera Schaden que habitação guarani era uma construção sólida. dezembro/fevereiro 1999-2000 . Conhecida por tapy’ iguassu’ (cabana grande) ou o’ga djekutu’ (casa fincada). De fato. dividira as terras americanas e seu conteúdo guarani entre Espanha e Portugal. reiterando duas das principais características arquitetônicas da tapy’ iguassu’: cobertura e parede constituindo um único elemento e ausência de suportes para a linha central de cumeeira. com a cumeeira estendendo-se no sentido norte-sul). A cumeeira não tinha suportes. a máquina colonizadora das potências ibéricas vai desmontando irreversivelmente o sistema de povoamento guarani pelo território platino. tiveram que debandar mais para o interior do continente. A partir do século XVI. É difícil acreditar que os guaranis. As entradas eram três: uma para leste (principal. Paraguai e Uruguai. viu nos índios cristianizados competente mãode-obra escrava para as plantações de canade-açúcar do litoral atlântico. As suas aldeias. no seio da mata. por meio dos jesuítas. Dois séculos depois.44. dando para o pátio) e duas secundárias. Tinha base quadrangular. O Tratado de la Capitulación y Partición del Mar Océano.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO E REVISÃO À vista da postura anteriormente colocada. aldeados pelos padres capuchinhos. em meados do século XIX. domínio de matas e cerrados. Assim. Aldeias a céu aberto e as conhecidas casas “subterrâneas” compõem um dos padrões de assentamento melhor conhecidos na arqueologia brasileira. separadas pelo extenso hinterland AratuSapucaí. nesta síntese. sob um denominador comum. tentou correlacionar os vestígios cerâmicos da “tradição” Itararé. n. com grupos indígenas etnograficamente conhecidos. de fato. Miller (citado por Prous 1991: 330) que. guardadas peculiaridades específicas. lâminas de machado lascadas. quando da retirada das comunidades jesuítico-guaranis do trecho médioinferior da bacia (em outras palavras. onde seus descendentes permanecem até hoje (Figura 3). na procura da mítica yvy marane’y. na reunião de Goiânia (1980). O material lítico é abundante no registro arqueológico (lascas robustas. Dessa vez encontraram novo oponente: posseiros que vinham em busca das terras devolutas do Paranapanema e do Tietê. Artefatos líticos e cerâmica (considerada o “traço diagnóstico da tradição”) são as evidências mais freqüentes no registro arqueológico. com ingerências significativas pelo território do Sudeste. tentei poupar o leitor (e a mim também) da leitura exaustiva concernente ao REVISTA USP. principalmente os kaingangs. SISTEMAS REGIONAIS LOCALIZADOS Prous (1991) nos faz uma boa síntese do Sistema Regional Aratu-Sapucaí. foi parcialmente ocupado pelos kaingangs. tratado enquanto uma das tradições arqueológicas regionais do Brasil Central. Dentre os materiais líticos estão presentes no registro arqueológico lâminas de machado polidas. p. eventualmente machados semilunares. acabaram por ser colocados em reservas (em Araribá. Manifestações da chamada Tradição Una são pontuadas no noroeste de Minas Gerais (variedade “A”) e no vale do Paraíba mineiro-fluminense (variedade “B”). posteriormente. potes com gargalo e tigelas rasas compõem a tralha cerâmica das comunidades entendidas como portadoras da Tradição Uma. Neste caso.44. além de vasilhas globulares e semiglobulares. por exemplo). com retoques bifaciais. Taquara-Itararé é outra “tradição” meridional que avança para o território da Região Sudeste. Aratu-Sapucaí decorre da “fusão” daquilo que foi identificado por Calderón (1969) na Bahia. na procura da terra-sem-mal). não há razão (arqueológica ou etnográfica) para rotular culturas sobejamente conhecidas com a toponímia hidrográfica. competindo com os guaranis e. Sapucaí e Uru. dezembro/fevereiro 1999-2000 209 . próximo à cidade paulista de Bauru. considero instigante a postura de Tom O. mós e mãos-de-mó. compunham a tralha cerâmica das comunidades do sistema. o “deserto” humano que se estabeleceu nos sertões do Paranapanema. uma tradição de grandes aldeias lineares ou formando anéis concêntricos. ocupando extensas colinas no universo regional das chapadas.). a terra-sem-mal. De conflito em conflito. Vasos globulares e cônicos. tembetás e lascas utilizadas. No dizer de Prous (1991). 194-217. etc. poderiam formar extenso sistema regional de povoamento de agricultores pré-coloniais. Isto me faz pensar que. Grandes jarros cônicos. até a volta dos guaranis. talvez um outro sistema regional de povoamento com peculiaridades próprias. São Paulo. Assim. por Dias (1978) em Minas Gerais e por Schmitz (1978) em Goiás. particularmente entendo esta “tradição” arqueológica como o Sistema Regional Kaingang que marcou fortemente os sertões do Paranapanema em dois momentos: pré-histórico.te. reconheço. nos séculos XVII e XVIII. que as tradições Aratu. pratos e tigelas de base plana. raspadores.

n. 194-217.FIGURA 3 SISTEMA REGIONAL GUARANI 210 REVISTA USP. São Paulo.44. dezembro/fevereiro 1999-2000 . p.

Certamente esta atitude deverá adquirir viés de abrangência nacional. estruturação. esse autor enfoca. vem sendo utilizado em termos de componentes e relações internas de unidades inseridas em seus níveis hierárquicos. Constituem referencial básico a nortear a conceitualização. n. Vale a pena copiar novo trecho de Christofoletti. atentando para as “condições de emergência das novas qualidades. com a estrutura do sistema” (Christofoletti 1999: 4). a expressão “holismo” foi gradativamente sufocada por idéias envolvendo o misticismo. as in the emergence of cognitive processual archaeology (Renfrew and Zubrow 1994) and neo Darwinian archaeology (e. São Paulo. num viés crítico. Nesse sentido. Aliás. com certa veemência. É bem verdade que vez ou outra alguém pontua. 194-217. mea culpa . talvez possamos digerir as “lacunas” como etapas (mal) queimadas. Nesse sentido. Resumidamente. mas procuram também tratar das interações entre sistemas ambientais e os sistemas sociais e econômi- REVISTA USP. no momento em que somos atropelados pela frente “pós-pós-processualista”. Even processual archaeology has seen its splits. pensemos na definição de novos paradigmas para a arqueologia brasileira e para a sociedade que congrega os profissionais desta área (na falta de melhor termo. de pesquisa e de aplicabilidade. na letra de Hodder: “[…] What is post postprocessual archaeology? One of the main reasons for using the term ‘post’ in postprocessual archaeology was that a diversity of views was to be espoused. representa a noção de totalidade. há de se retomar. mormente girando em torno da expressão “perda do bonde da história”. The end of grand narratives. p. análise e avaliação dos sistemas em função das atividades de ensino. Coincidentemente com trabalho de minha autoria (Morais 1999). grifo meu). Posteriormente resgatado. a este propósito: “As contribuições explicitando propostas de abordagens holísticas na análise de sistemas ambientais são numerosas. regionalism and the embrace of multivocality are characteristics of archaeology in this period. minha contribuição prende-se à definição e comentários preliminares acerca de algumas questões. as etapas “queimadas” (quer sejam o processualismo e o pós-processualismo). Nesse sentido. São elas: • Discussão e consolidação de novos paradigmas. Exageros à parte. There is greater personal choice and ecletism in the putting together of theoretical positions” (Hodder 1999: 5. tentando consolidar uma cor local que promova sua melhor identificação no cenário internacional. a existência de lacunas graves na arqueologia regional e nacional. que geralmente devem estar relacionadas com o arranjo de elementos. especialmente a geomorfologia. na oportunidade da virada do milênio. with no singular and unified perspective imposed on the discipline. não importando em qual escala de grandeza espacial se deseja focalizar. nessa recente publicação. Dunnell 1989). interessantes aspectos da recuperação da teoria sistêmica no âmbito das ciências ambientais. Na perspectiva da construção da teoria arqueológica. dezembro/fevereiro 1999-2000 211 . aplicada à discussão dos novos paradigmas da arqueologia (fala-se em atrasos da ordem de uma ou duas dezenas de anos!). seria interessante recuperar tópicos relativos à abordagem sistêmica. Utilizada por Jan Smuts em 1926. na acepção recuperada do termo. This emphasis on diversity has continued on into the 1990s. Antonio Christofoletti apela para a adoção da perspectiva holística. Mas o fato é que a arqueologia brasileira existe e está aí criando e recriando o longo percurso das comunidades indígenas e da sociedade nacional.44.g. As proposições também não se restringem apenas ao estudo dos componentes do sistema ambiental. em consonância com a militância internacional. abuso do já desgastado “novos paradigmas”).panorama arqueológico regional (embora não tenha conseguido deixar de assumir posturas algo críticas com relação à práxis arqueológica em vigor).

pode ser definido como transdisciplinaridade. pelo menos. Mormente faz parte de uma arqueografia per se ou. a etnologia. reafirmo). na realidade. Assim (com importantes exceções. na archaeology of plantations . a geografia. pela natureza dos seus procedimentos. etc. também). percebemos uma identidade bem marcada. a antropologia e a sociologia). tudo isso introduzido (como afirmado anteriormente) por desnecessários capítulos rotulados como “aspectos geográficos da área investigada” ou “geologia e geomorfologia da região” ou. sistemas de informações geo-referenciadas. reitero o postulado de que os antigos cenários de ocupação humana poderão ser revivenciados pelo concurso das várias disciplinas inseridas no contexto das ciências humanas e sociais (especialmente a arqueologia. n. em busca da compreensão do sistema de organização espacial e bases para as propostas de planejamento e desenvolvimento sustentável” (Christofoletti 1999: 45). também se enquadra no contexto das abordagens holísticas. São Paulo. ainda (acompanhando jargões mais atuais). Trata-se. • O desenvolvimento de linhas de pesquisa vinculadas à correlação arqueologia/ciências ambientais. sem dizer aos importantes aspectos sociais das comunidades responsáveis por esse registro. de “aspectos ambientais da região pesquisada”. a construção da interdisciplinaridade – entendida como o máximo aproveitamento das potencialidades de intercomunicação entre duas ou mais disciplinas. dentre outros. a ciência e a tradição. sensoriamento remoto.. dentre outras).44. a geografia humana. plenamente aplicável à arqueologia. informática. transpor fronteiras disciplinares aproximando. enquanto abordagem interdisciplinar. apenas no nível do discurso (atitude igualmente claudicante pois desprovida daquela salutar plataforma proporcionada pela arqueografia classificatória e historicista). corroboradas por complexos exercícios estatísticos. 194-217. sistemas de base de dados. A concepção de geossistemas (Sotchava 1977). de um foco de preocupações centrado no conjunto intersecção entre a arqueologia. a história. inclusive. e outro. dezembro/fevereiro 1999-2000 . O uso das geotecnologias (sistema de posicionamento global. química. alinhamentos direcionais que subsidiem a implementação de todos os procedimentos relativos às interfaces possíveis entre disciplinas afins. Na arqueologia brasileira (e em algumas outras. de inspiração européia. De fato. A arqueologia da paisagem tem se desdobrado em dois enfoques. a geologia. o registro arqueológico). matemática. dois subcampos bem consolidados da arqueologia: a geoarqueologia e a arqueologia da paisagem . • A consolidação da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade. Em recente trabalho (Morais 1999). etc. seguidas de infundadas e desconexas afirmações funcionais. a literatura arqueológica nacio- nal tem contado apenas com exaustivas descrições morfológicas. no encalço de objetivos comuns – tem sido encaminhada (com importantes exceções) de modo canhestro. das ciências naturais (principalmente a geografia física. modelagens digitais de terreno. no ensejo de um rótulo “sistêmico”. No caso da geoarqueologia. p. A adoção do fator geo pode colaborar vivamente na organização de um 212 REVISTA USP.cos. Na busca da otimização de uma postura interdisciplinar e transdisciplinar. O fator geo se distribui no âmbito de. que se fundamenta exatamente na interface arqueologia/geografia. também se insere neste quadro. pelo menos: um de inspiração norte-americana que tem centrado suas preocupações na archaeology of ancient gardens. a geomorfologia e a geologia. Investigações científicas têm a função de estabelecer. Isso contribuiu muito pouco para as reflexões concernentes às fontes de recursos culturais (no caso.). acabei por salientar o que considero a importância do fator geo na pesquisa arqueológica. a geomorfologia e a biologia) e das ciências exatas e tecnológicas (física.

por que não encarar um Sistema Regional Guarani e um Sistema Regional Tupinambá. o mesmo se aplica à etnologia. o manejo da floresta! • A elaboração de esquemas de planejamento e gestão patrimonial. colocando-o em prática de modo bastante diferente daquele praticado há três ou quatro décadas. São Paulo. caso do recurso arqueológico). está um cérebro. novos rótulos. À vista das considerações anteriores. as áreas nucleares dos sistemas regionais de assentamento. Não há por que inventar novos nomes. Está aí o que poderá ser chamado (com certa impropriedade) de arqueologia pública. quase sem exceção. assim como entendemos os sistemas de assentamento rural e os sistemas urbanos. principalmente quando se trata da abordagem das populações indígenas do passado recente. n. sim. REVISTA USP. com sucesso. b) o planejamento e a implantação de esquemas de extroversão ou de devolução social dos dados adquiridos pela pesquisa (neste caso. 194-217. de natureza finita. por detrás de cacos e mais cacos. mudaram os hábitos alimentares dos europeus? Por que chamá-los de horticultores (plantadores de hortaliças)? Seria pelo fato de não cultivarem espécies exóticas. Quanto às relações interdisciplinares. também exercitaram. bem a gosto dos pós-processualistas. colaborando para o desenvolvimento social das comunidades pelo incentivo à participação coletiva” é um princípio perfeitamente articulado com os melhores compromissos abordados pela Agenda 21. ao que parece. • Por uma aproximação com a etnologia. a proteção e a divulgação do patrimônio arqueológico enquanto bem de uso especial. por que não me inspirar em José Proença Brochado (comunicação pessoal 1997) e propor justiça às populações indígenas que. que se estende da pré-história até um passado recente? No embalo da mudança. E. com estímulo à participação coletiva. alinhavar as bases para a elaboração de gráficos a respeito da dispersão do povoamento précolonial pela região. documento que norteia os pressupostos do uso sustentável dos recursos ambientais (incluam-se os “recursos” culturais. Então. “Criar condições favoráveis para o estudo. creio que este quadro sinótico será melhor entendido em conjunto com os demais. estão fora do Sudeste. Por que Tradição Tupiguarani? Que tal pensarmos que. seria muito difícil trabalhar apenas com os dados regionais. dezembro/fevereiro 1999-2000 213 . Certamente a intenção não é apresentar um elenco exaustivo das datações obtidas pelas pesquisas em andamento na Região Sudeste ou. um comportamento humano. Assim. Para finalizar apresento algumas datações pontuais que sustentam a plataforma necessária para o estabelecimento da cronologia dos sistemas regionais de povoamento mencionados no texto. nos moldes da agricultura comercial introduzida pelos conquistadores europeus? O justo é chamálos. de extrema utilidade para o mapeamento de áreas potencialmente favoráveis para a localização de sítios arqueológicos. p. Como frisei anteriormente. desdobrando a “arqueológica” (e artificial) Tradição Tupiguarani? Não seria mais interessante assumir de vez a chamada Tradição Itararé (dita “regional”) como um Sistema Regional Kaingang. muito menos.modelo preditivo baseado na definição de parâmetros locacionais (percebidos em um modelo empírico). Foram selecionadas algumas datações que considero importantes para esta finalidade. no âmbito da sociedade nacional. Vamos tentar entender os sistemas regionais de assentamento précoloniais. correspondentes às outras regiões do Brasil.44. resgatando o melhor significado da expressão “levantamento arqueológico”. de agricultores praticantes de uma agricultura de subsistência. comum do povo brasileiro. cultivando a batata (dentre outros vegetais). a participação da museologia será imprescindível). com a adoção de linhas de pesquisa que privilegiem o registro e a preservação dos bens arqueológicos in situ (a arqueologia da paisagem é uma boa direção). À vista disso. aproveito a oportunidade para pontuar dois aspectos: a) o uso sustentável do registro arqueológico.

960 AP Santana do Riacho.720 AP Cerca Grande. 194-217.CRONOLOGIA DOS SISTEMAS REGIONAIS DE ASSENTAMENTO DA REGIÃO SUDESTE LAGOA SANTA.000 AP 9.000 AP 10. MG indústrias líticas. SP indústrias líticas em sílex Beltrão 1974 in Prous e Fogaça 1999 214 REVISTA USP.000 AP Lapa do Dragão indústrias líticas de quartzito (objetos unifaciais) Prous et al.190 AP 8. p.44.970 AP 10.950 AP Sítio Alice Boër. MG indústrias líticas de quartzo e restos humanos Hurt e Blasi 1969 in Prous e Fogaça 1999 10. dezembro/fevereiro 1999-2000 .350 AP Lapa do Boquete.620 AP Lapa do Gentio II. MG carvão e lascas simples de cristal de rocha Prous e Fogaça 1999 11. n.378 AP 9. MG ossos humanos Prous e Fogaça 1999 11.200 AP 10. SERRA DO CIPÓ E RIO CLARO 12. São Paulo.870 AP 9. 1984 in Prous e Fogaça 1999 10.680 AP 10.200 AP Lapa Vermelha IV. MG enterramentos secundários Schmitz 1987 in Prous e Fogaça 1999 14. artefatos de ossos e fogueiras Prous e Fogaça 1999 11.

da Serra. Ary Carneiro. SP Kaingang.550 AP 1.020 AP 978 AP 800 AP 755 AP 595 AP 270 AP Umbu. pessoal) Prous 1991 Maranca (com.230 AP 1. 194-217. SP Guarani. Boa Esperança. Neves. B. Lapa da Foice. SP Guarani. SP Guarani. dezembro/fevereiro 1999-2000 215 . pessoal) Morais 1999 Morais 1999 Kunzli (com.660 AP 1. SP Una. SP Humaitá. pessoal) Faccio (com. Camargo. SP Guarani.320 AP 1. Alves.093 AP 1. MG Guarani. MG Uma. pessoal) Maranca (com. SP Guarani. Lapa do Gentio. Camargo. SP Guarani. pessoal) De Blasis (com. SP Guarani. pessoal) Morais 1999 Faccio (com. T. B.100 AP 4. J. pessoal) Morais 1999 Morais 1999 Faccio (com. F. Caiuby.de Godoy. SP Umbu. Camargo.200 AP 2.Luís. Ragil. pessoal) Maranca (com. SP Umbu.000 AP 5. SP Kaingang.070 AP 1.030 AP 1. pessoal) De Blasis (com. pessoal) Afonso (com.620 AP 1. Lapa Vermelha Guarani. Kondo. SP Afonso (com.650 AP 3.250 AP 1. n. SP Kaingang. SP Guarani. SP Guarani.da Serra. pessoal) Morais 1999 Morais 1999 Prous 1991 Prous 1991 Maranca (com. Três Lagoas. Paraíso. SP Umbu. pessoal) REVISTA USP. São Paulo.600 AP 2.490 AP 2.do Turvo.400 AP 1. SP Aratu.CRONOLOGIA DOS SISTEMAS REGIONAIS DE ASSENTAMENTO DA REGIÃO SUDESTE 6. Alvim. p. pessoal) Maranca (com. B. Trentin.060 AP 1. SP Guarani. pessoal) De Blasis (com. de Pedra.44.040 AP 1. Ragil 2. SP Guarani.

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