A cultura e o Estado: as ações do Conselho Federal de Cultura.

Lia Calabre Pesquisadora Adjunta da Fundação Casa de Rui Barbosa As questões que envolvem a relação entre o Estado e a cultura são consideradas pertencentes ao campo das políticas culturais. Segundo Eduardo Nivón Bolán, a política
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cultural como uma ação global e organizada é algo que surge no período pós-guerra, por volta da década de 1950. Até então, o que se verificava eram relações, de tensão ou não, entre o campo do político e o da cultura e da arte em geral, gerando atos isolados. A institucionalização da política cultural é uma característica dos tempos atuais. Em L’histoire de la politique culturelle, Philippe Urfalino enumera cinco objetos de estudo de interesse historiográfico dentro do campo da política cultural que seriam: as das relações entre a arte e a política; o do culto do passado e da criação artística; das políticas públicas da cultura; do setor cultural e da política cultural como problematização mais global.2 Esse estudo trata a questão das políticas públicas de cultura no Brasil, tendo como objeto de estudo o Conselho Federal de Cultura (1966-1990), em sua primeira década de existência. A criação de um conselho de cultura dentro do âmbito do governo federal foi prevista pela primeira vez pelo Decreto-lei n° 526, de 01 de julho de 1938. Em 1961, o Conselho foi recriado e reformulado no ano seguinte, passando a ter existência efetiva. Em 29 de novembro de 1996, o Decreto-lei n° 74, criou o Conselho Federal de Cultura - CFC, revogando a legislação anterior. A escolha do CFC para o estudo das políticas públicas de cultura no período de 1966 a 1974 se deu pelo fato de ter sido este o órgão responsável pela grande maioria das ações levadas a cabo pelo Ministério da Educação e Cultura - MEC na área da cultura. Durante muito tempo a estrutura de Ministério esteve toda voltada para a área de educação, não possuindo sequer uma secretaria de cultura - o Departamento de Assuntos Culturais foi criado pelo Decreto 66.967 em 27 de julho de 1970. A partir de 1974, na gestão do
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Bolán, Eduardo Nivón. La política cultural: temas, problemas y oportunidades.México: CONACULTA/FONCA. 2006. 2 Urfalino, Philippe. L’histoire de la politique culturelle. In: Rioux. Jean-Pierre e Sirinelli, Jean-François. Pour une histoire culturelle. Paris, Éditions du Seuil, 1997. P. 312-313.

presidente Ernesto Geisel e do Ministro Ney Braga a área da cultura sofre uma série de reformulações. Um marco internacional na institucionalização do campo da cultura foi o da criação, em 1959, do Ministério de Assuntos Culturais da França, que promoveu ações que se tornaram referencia para diversos países ocidentais. Philippe Urfalino em um estudo sobre o que denomina de a “invenção da política cultural da França” chama a atenção para o fato de que a política cultural evolui a partir do somatório de ações dos segmentos administrativos, dos organismos em geral e dos meios artísticos interessados e que, de certa forma, os estudos de política cultural contribuem para a constituição de uma espécie de história da ideologia cultural do Estado.
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No caso brasileiro, os dois período da história que concentram ações que podem ser classificadas como políticas públicas de cultura são o do governo de Getúlio Vargas (19301945) e o período dos governos militares, dentro do qual se insere o período aqui estudado.

O Conselho Federal de Cultura O conselho que antecedeu o Conselho Federal de Cultura era formado por sete membros, tendo um campo de ação bastante restrito. A criação do CFC foi precedida por estudos encomendados pelo governo. A principal questão a enfrentar era a da recuperação e ampliação da infra-estrutura da área da cultura sob a responsabilidade do governo federal. O novo modelo de conselho idealizado tinha tanto sua representação quanto suas atribuições ampliadas, estando integrado aos projetos governamentais de revigorar a ação do Estado em diversas áreas, sobretudo na cultura. Segundo Josué Montello, em discurso de posse como o primeiro presidente do CFC: “O Conselho Nacional da Cultura, que então existia, e fora criado em 1938, limitava-se ao tímido papel supletivo dos órgãos secundários, incapacitados de corresponder à sua ambiciosa denominação.” Segundo
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Renato Ortiz, o “Estado de Segurança Nacional” não reprime o poder conferido pela
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Urfalino, Philippe. L’invention de la politique culturelle. Paris: Hachette Littératures, 2004. p. 10 e 11 Cultura. N. 1, julho/1967, pág. 6 5 Ortiz, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 82-83.

Cassiano Ricardo. constituído por 24 membros. o Conselho Federal de Cultura era. José Cândido de Andrade Muricy. Dividido em quatro câmaras: artes. o Conselho Federal de Cultura tomou posse. Dentro da estrutura do Ministério. Cada Câmara tinha um secretário. Gilberto Freire. Rachel de Queiroz. Arthur Reis. Djacir Lima Menezes. Hélio Viana. Manuel Diegues Junior. Clarival Valladares. Marcos Barbosa. D. em artes José Mozart de Araújo. proferido em 1967. Roberto Burle Marx. respectivamente. letras. estimula o uso da cultura como meio de integração sob o controle do aparelho estatal. ter um caráter mais executivo. que no período aqui estudado foi Manoel Caetano Bandeira de Mello. mas que. diretamente nomeados pelo Presidente da República. Afonso Arinos. Armando Schnoor. O Conselho Federal de Cultura contava também com um secretário-geral fixo. João Guimarães Rosa. Ariano Suassuna. em um discurso para o Conselho Estadual de Cultura do Estado da Guanabara. Em fevereiro de 1967. sim. Raymundo de Castro Maia. possuía também uma comissão de legislação e normas que funcionava como uma quinta câmara. letras e ciências. patrimônio histórico e artístico nacional. Os conselheiros. deveriam ser escolhidos “dentre personalidades eminentes da cultura brasileira e de reconhecida idoneidade” além de representarem as áreas de artes. Gustavo Corção. agiu mais como um órgão de elaboração de políticas. Josué Montello afirma. segundo o previsto no Decreto de criação. Criado nos moldes do Conselho Federal de Educação. Josué Montello. Todos intelectuais de reconhecida importância e projeção nacional. Otávio de Faria. Augusto Meyer. ele era um órgão normativo da administração direta. Pedro Calmon. que o CFC não deveria ser um órgão de debates acadêmicos e. o desenvolve e o utiliza. ciências humanas. Coube a Josué Montello e a Pedro Calmom a presidência e a vicepresidência. inicialmente. podendo ser reconduzidos por um igual período. O presidente e o vice-presidente eram eleitos pelos Conselheiros com mandatos de dois anos. em patrimônio Amália Lucy Geisel e em legislação e normas Roberto Parreira. ao contrário. Rodrigo Mello Franco.cultura. Moysés Vellinho. em letras Eunice Bittencourt Coelho. muito próximo das atividades executivas. ou seja. em ciências humanas Oku Martins Pereira. em seus primeiros anos. . com a seguinte composição: Adonias Filho.

trazia toda a legislação aprovada no período. em 1971. sem perder o espaço de reflexão intelectual presente nos estudos e proposições. A publicação é uma excelente fonte de informações sobre os projetos e propostas de ação desenvolvidos no período. também eram republicados artigos que haviam sido veiculados pela imprensa em geral. a Revista Brasileira de Cultura. possuindo 7 periodicidade mensal. Ciências Humanas Arthur C. 7 O MEC já possuía uma publicação com esse título e que foi suspensa para dar lugar a nova publicação do Conselho Federal de Cultura. inclusive as portarias ministeriais ligadas às questões culturais. A publicação registrava todas as atividades 6 relacionadas à ação pública federal. A primeira publicação se chamou Cultura e. ou por eles encomendados ou selecionados com seções dedicadas as temáticas de cada uma das câmaras. O CFC manteve ainda uma outra publicação. Em 1971. A publicação foi inicialmente intitulada Cultura (entre 1967 e 1970). passou a se chamar Boletim do Conselho Federal de Cultura e a ser publicado trimestralmente. parágrafo h.O decreto de criação do CFC. ou seja.Ferreira Reis Augusto Meyer Djacir Lima Menezes Gilberto Freire Gustavo Corção Manuel Diegues Junior 6 Decreto-Lei n. além das atas e das decisões gerais tomadas pelo CFC. previa a “publicação de um boletim informativo de natureza cultural”. quanto das que foram propostas e não foram efetivadas. Estão ali registrados os anteprojetos e os estudos que nos permitem realizar a análise tanto das ações implementadas pelo CFC. . permitindo uma análise das limitações impostas ao órgão. para divulgação de ensaios e de estudos dos membros do CFC. Além disso. No momento da instalação do CFC a distribuição dos conselheiros pelas câmaras se deu da seguinte forma: C. Patrimônio Afonso Arinos D. entre outras determinações. foi rebatizada como Boletim do Conselho Federal de Cultura.Marcos Barbosa Raymundo Castro Maya Rodrigo Mello Franco Hélio Vianna Pedro Calmom Artes Ariano Suassuna Armando Schnoor Clarival Prado Valadares Andrade Muricy Octávio de Faria Burle Marx C. artigo I. As principais atividades dos órgãos de cultura estaduais e municipais e suas respectivas legislações também eram noticiadas. 74. Letras Adonias Filho Cassiano Ricardo Moysés Vellinho Rachel de Queiroz Guimarães Rosa Josué Montello C.

entre outras. . a de alteração de normas ortográficas. Projetos de lei e normas jurídicas. Para as câmaras eram enviadas as solicitações mais diversas. o Conselho recebeu 1. A comissão de legislação e normas era formada por membros das diversas câmaras. Eles estabelecem como prioridade a recuperação das instituições de cultura de caráter nacional – Biblioteca Nacional. ou de realizações de diversas atividades como: congressos. . Clarival Prado Valadares a de artes e Arthur César Fereira Reis a de ciências humanas. p. festivais. aquisição de equipamentos. A seguir serão apresentadas algumas dessas competências acompanhadas de exemplos de ações implementadas. Pedro Calmon. por exemplo. que poderia ser para a pesquisa. O maior número de pedidos era de auxílio financeiro. espetáculos. tais como a da destruição de sambaquis ou de jazigos com valor histórico. que criou o Conselho Federal de Cultura. Também eram solicitados pareceres e estudos sobre inúmeras questões. do campo da cultura. Ano IV. Dos quais 314 foram objeto de análise e de emissão de parecer. conservação de acervos. publicação.o discurso do CFC é de forte crítica à maneira como essas instituições vinham 8 Cultura.500 processos para analisar. restauração do patrimônio. A primeira das atribuições era da de “formular a política cultural nacional. 8 No período aqui estudado o Conselho Federal de Cultura mantinha duas linhas de ação como prioritárias: a coordenação das atividades culturais do MEC e a elaboração do Plano Nacional de Cultura. especifica 20 atribuições para o órgão. sua constituição. era a seguinte: Afonso Arinos (presidente). janeiro/1970.Adonias Filho presidia a câmara de letras. Gustavo Corção e Rodrigo de Melo Franco. Hélio Vianna. no 31. homenagens e muitos outros. Atribuições e ações O Decreto no 74. Logo de início foi elaborado um plano de ação emergencial para a reformulação das instituições nacionais de cultura de maneira a permitir que cumprissem o seu papel de coordenar as atividades culturais em todo o território nacional. Museu Nacional de Belas Artes. no limite das suas atribuições”. Arquivo Nacional. também eram objetos de análise do órgão.13. Segundo o relatório de 1969. em 1967. a da criação de datas festivas. Rodrigo Mello Franco a de patrimônio.

de maneira a assegurar a coordenação e a execução de programas culturais. o Estado passava por uma reforma administrativa com regras mais rigorosas no que diz respeito a determinações de aplicação de recursos – conselhos não poderiam dispor normas que contivessem questões orçamentárias. . Uma outra atribuição do Conselho era a de articular-se com os órgãos estaduais e federais. com uma parte das verbas. da área da cultura e da educação. Era comum a participação federal.89. sendo inclusive levadas como proposta do Brasil para a Conferência Cultural de Veneza promovida pela UNESCO. Para publicações foram realizados muitos convênios com a Imprensa Nacional e o Instituto Nacional do Livro. Propôs a criação do Serviço Nacional de Música. Serviço Nacional de Artes Plásticas e do Serviço Nacional do Folclore. Cabia ao Conselho cooperar para a defesa do patrimônio histórico e artístico nacional. A principal questão enfrentada pelo órgão foi exatamente a da determinação do limite das atribuições. Questões como a da preservação de sítios históricos ou de conjuntos arquitetônicos e não apenas de edificações isoladas. na construção de bibliotecas municipais e estaduais. Mesmo sem conseguir assegurar dotações orçamentárias fixas para custear os planos de longo prazo o Conselho executou uma parte significativa dos objetivos planejados. 9 O auxílio para restauração de edificações isoladas também era mantido como por exemplo. estiveram presentes nas reuniões do CFC. Dentro do decreto de criação do órgão havia um artigo especial para a câmara de patrimônio. centros de artes. através dos convênios com o CFC. a restauração da casa de Santos Dumont em 9 Cultura. Ano IV. o CFC realizou uma série de estudos com a finalidade de reforma e atualização. agindo assim como órgãos centralizadores e normatizadores em suas respectivas áreas. O CFC tentou aprovar durante vários anos o plano nacional de cultura que garantiria os recursos financeiros necessários para a implementação das políticas setoriais. No caso das instituições federais. Ao mesmo tempo. museus e arquivos históricos. p. sempre custeados com dotações especiais.sendo conduzidas nos anos anteriores – o projeto era fornecer efetivo alcance nacional possibilitando que se tornassem coordenadoras do processo de multiplicação de instituições congêneres. no 39. setembro/1970.

Petrópolis. Enviou para uma série de estados um modelo do decreto-Lei de criação do CFC adaptado para o nível estadual. do Serviço Nacional de Teatro.” Fica claro na correspondência que para efetivar convênios com o governo federal os estados deveriam criar seus órgãos específicos de cultura. Em 12/02/68.347. do Instituto Nacional do Cinema Educativo. o Secretário Geral do MEC. ainda no aspecto regional. o país já contava com conselhos de cultura instalados e 10 funcionando em 22 estados. inicialmente os conselho. Também eram objeto de convênio a restauração e proteção dos acervos documentais e bibliográficos. do Museu Histórico. Logo ao tomar posse. representantes dos territórios. será fiscalizada pelos referidos conselhos. O boletim Cultura. em seus aspectos regionais. Segundo o escritor e conselheiro Adonias Filho. Brasília: MEC. O Conselho Federal tinha entre suas principais atribuições a de estimular a criação de Conselhos Estaduais de Cultura. 1978 . de Oliveira Lima em Recife ou de Portinari em Brodosqui. o prefeito do Distrito Federal. membros da comissão de educação e cultura da câmara e do senado. foi convocada a 1 a. “Esclareço a Vossa Excelência que a formulação do Plano Nacional de Cultura. O Conselho elaborou um anteprojeto. o representante do departamento de turismo do Distrito Federal e o Diretor do Departamento Cultural do 10 Adonias Filho. contava com a participação dos diretores: da Biblioteca Nacional. no momento da implantação do CFC somente dois estados – Guanabara e São Paulo – tinham conselhos estaduais de cultura. Em setembro de 1971. o Ministério do Planejamento. o Inspetor Geral de finanças do MEC. Reunião Nacional dos Conselhos de Cultura. publicou uma carta de Montello para o governador do Pará. número 2. mas também são comuns as recomendações para a criação de secretarias de cultura. do Serviço de Radiodifusão Educativa e da Diretoria do Patrimônio. por decreto presidencial. Josué Montello iniciou uma campanha para a criação dos conselhos estaduais de cultura. do Instituto Nacional do Livro. terá por base as informações prestadas pelos Conselhos Estaduais e a sua execução. que além dos representantes dos conselhos. Foram ainda convidados: o presidente do Conselho Federal de Educação. de agosto de 1967. O Conselho Federal de Cultura. com os preservados pelos Institutos Históricos e Geográficos espalhados por todo o país. do Museu Nacional de Belas Artes. que regulamentava as questões da exportação de livros e de conjuntos bibliográficos antigos. transformado no Decreto n o 65.

por exemplo. Para pleitear subvenções ou auxílios do Ministério as instituições culturais deveriam antes obter registro junto ao Conselho. Logo na alínea seguinte estava prevista a promoção de campanhas nacionais articuladas que visassem o desenvolvimento cultural e artístico. Muitos destes se mantiveram funcionando ao longo das últimas décadas. no 2. Havia entre as atribuições mais algumas ligadas as relações entre o CFC e os Conselhos Estaduais. ampliando o campo de ação e obtendo resultados mais amplos. A política de convênios implementada pelo CFC. de Arthur Azevedo. autor do parecer. Em outubro de 1967. entre outras atividades.95. buscando o atendimento de programas. tais como a de realização conjunta de exposições. Esse foi um dos critérios adotados pelo CFC para o julgamento de pedidos de auxílio como. literária e artística”. Ano I. Foi iniciado em projeto de levantamento de todas as instituições culturais dos Estado através de um formulário enviado aos conselhos de cultura e as secretarias. Cabia ao CFC a tarefa de reconhecimento e registro das instituições culturais e da permanente atualização das informações. que teve o parecer negado mesmo se enquadrando no projeto de popularização do teatro. argumentou que: 11 Cultura. foi muito eficiente e resultou na criação de conselhos em todos os estados do país. . no caso da solicitação para a encenação de a Capital Federal. para que fosse montada uma representação do CFC. produzindo discussões e propostas específicas para cada área. espetáculos e conferências. tendo em vista a conservação e guarda do seu patrimônio artístico e biográfico e a execução de projetos específicos para a difusão da cultura científica. de maneira a afastar o Ministério da faixa da filantropia ou da dos eventos. O conselheiro Ariano Suassuna. Os grupos de discussão foram formados em torno das temáticas das câmaras.Ministério das Relações Exteriores. o Conselho Estadual de Cultura de São Paulo ofereceu um escritório na capital do estado. Para as instituições da área cultural em geral a principal atribuição do Conselho Federal de Cultura era a prevista no Artigo 2 o. Na reunião plenária de 15/05/67 surge a discussão da necessidade da criação de 11 critérios objetivos para a concessão de subvenções. alínea “e”: “conceder auxílios às instituições culturais oficiais e particulares de utilidade pública. associada a um serviço de apoio às questões jurídicas. agosto/1967. Para tal eram analisados os estatutos das instituições. p.

Outra atribuição prevista em algumas alíneas era a da promoção de campanhas nacionais e de realização de intercâmbios internacionais. Um outro procedimento previsto nas normas era o de que os projetos deveriam indicar. de maneira precisa. bem como o valor dos recursos próprios ou provenientes de outras fontes a serem aplicados no projeto com o mesmo fim. no 3. Ano I. o montante de recursos solicitados ao Conselho. na medida em que os projetos deveriam vir acompanhados de parecer dos órgãos de cultura local – conselhos ou secretarias. tais como o da necessidade de prestação de contas de auxílio anterior ou o da data limite de entrada para projetos a serem executados dentro do ano em exercício. definiu como iniciativa isolada que. O conjunto de normas reforçava as atribuições previstas no Decreto de criação. aprovando normas sugerida por seu presidente. p. permitindo ao CFC estreitar ainda mais os laços com os diversos níveis de governo. se completava em si mesma. nomeadas para congressos ou encontros. Não era comum que os projetos fossem custeados com 100% dos recursos do CFC. sem condições de alcance.73 . 12 continuidade e longo As normas para a concessão de auxílios foram aprovadas em 15 de junho de 1967. associadas a instituições públicas como a da elaboração de uma política nacional do livro coordenada pelo Instituto Nacional do Livro acompanhada de uma campanha para a ampliação dos cursos de biblioteconomia. desde o 12 Cultura. Seguindo a linha de ação de trabalho integrado com outros níveis de governo e de alcance nacional o Conselho Federal de Cultura possuía um projeto próprio. setembro/1967. As campanhas aconteciam.A montagem única e exclusiva de A Capital Federal é exatamente aquilo que o Conselho Federal de Cultura. que tratavam de questões culturais. na maioria das vezes. Como já foi visto anteriormente. normalmente as delegações brasileiras. Estavam regulados os procedimentos mais administrativos. embora de sentido cultural. No campo dos intercâmbios internacionais. promovidos por organismos internacionais contavam com a participação de pelo menos um membro do Conselho Federal de Cultura. ainda que o plano nacional de cultura nunca tenha sido aprovado inúmeras subvenções foram fornecidas e publicadas sob a rubrica de subvenções a entidades culturais de acordo com estipulado nos projetos do Plano Nacional de Cultura.

Ministro da Cultura da França entre 1959 a 1969. ao lançar o primeiro plano qüinqüenal para a cultura Malraux anunciou o projeto de criação de casas de cultura por toda a França. Nas Casas de Cultura também seriam desenvolvidos trabalhos de formação cultural através de conferências.período da sua criação. não era uma originalidade brasileira. O projeto foi elaborado durante a gestão de Josué Montello (primeiro presidente do Conselho) e implementado na gestão de Arthur Reis (1969-1972). a maior parte destes ligada à problemática da dotação de orçamento. 13 O projeto da Casas de Cultura mais famoso e melhor sucedido é o francês. bibliotecas e museus. funcionando através de um acordo prévio entre os órgãos provinciais. uma forma de cooperação entre as comunas. foi sancionado um decreto criando e regulando o funcionamento das casas de cultura. concertos. Philippe. em 1964. Archiveros y Arqueólogos: 1971. Madri: Asociacion Nacional de Bibliotecários. a seu modo. um modelo específico de democratização fundado na excelência artística e em um modelo político. em especial a cultura popular. A primeira Maison de la culture foi inaugurada em Bourge. Paris: Hachette Littératures. na Espanha. No decreto estava previsto que as Casa de Cultura seriam lugares onde se reuniriam atividades de arquivos. oficinas de teatro. Philippe Urfalino afirma que em 1973 ela deixa de ser uma política exemplar do ministério. sendo que o das 13 Pérez-Rioja. p. projetos de Casas de Cultura já vinham sendo experimentados em alguns países da Europa. mas se adequava aos objetivos de fortalecer o campo da produção cultural no país de maneira mais descentralizada. 14 Urfalino. municipais e o ministério da educação nacional. 2004. José Antonio. vários dos projetos foram implementados. Ele serviu de fonte de inspiração para diversos países. entre outras atividades. Em verdade. Las casas de cultura. e. Em 1956. projeções cinematográficas. mas que quanto as casa de cultura não se pode negar que elas foram. 10 e 11 . 14 No caso brasileiro. exposições. o das Casas de Cultura. o anteprojeto do plano nacional de cultura e alguns dos projetos que o sucederam encontraram uma série de impedimentos legais para serem implementados. A iniciativa francesa foi de André Malraux. recitais. em especial na França e na Espanha. L’invention de la politique culturelle. Mesmo com todos os impedimentos orçamentários. Em 1961. A idéia era criar espaços onde estivessem presentes formas culturais nos seus mais diversos aspectos.

filmoteca. Amazonas. no discurso de abertura do encontro defende a necessidade da criação de um Sistema Nacional de Cultura. Para sua implantação era necessário o estabelecimento de convênio entre o Conselho Federal de Cultura e o município. na cidade de Lençóis. de acordo com a densidade cultural da região”. No projeto há ainda a observação de que preferencialmente esses centros culturais deveriam ser instalados em “velhos prédios nobres da sede municipal”. Rio de Janeiro. anteriormente citado. O CFC fazia uma avaliação periódica da utilização do local. Rio Grande do Sul e São Paulo. na reunião. Segundo o escritor esse não é 16 um sistema que pretenda criar cultura. Na tentativa de suprir essa lacuna estavam sendo distribuídos. Minas Gerais. Bahia. da manutenção de uma constante atualização do acervo e do fomento da circulação de espetáculos. o Conselho havia implantado 17 Casas de Cultura distribuídas pelos seguintes estados: Pará. . devendo também contar com a presença de um membro do Conselho Municipal de Cultura – no caso do município ter conselho.Casas de Cultura recebeu uma atenção especial. abril/1968. Segundo Josué Montelllo as Casas de 15 Cultura brasileiras não teriam o porte e a imponência das francesas. Essa era uma estratégia eficaz de incentivo da estruturação da ação municipal no campo da cultura. compostas por biblioteca. 13 Cultura. discoteca. Ano II . questionários para serem preenchidos pelos 15 16 Cultura. Rio Grande do Norte. mas coordenar. os instrumentos de cultura. Ano II . que poderia ser utilizada também para espetáculos teatrais. O objetivo era o da criação de um subsistema de informação cultural no qual cada Casa de Cultura atuaria como elemento catalisador na esfera municipal. com sala de exposições e de projeção cinematográfica. Mato Grosso. um pequeno museu. Há a necessidade de se conhecer as instituições culturais existentes no país e suas respectivas condições de funcionamento. Deveriam ser “agências de cultura em pequenas unidades. Um outro destaque do período foi a 1a Reunião Nacional dos Conselhos de Cultura. Acre. Em janeiro de 1973. Josué Montello. abril/1968. A meta inicial era a da construção de 10 unidades. p. n o 10. A primeira Casa de Cultura foi inaugurada em 17/12/1970. A administração da Casa de Cultura ficava a cargo do município. n o 10. através da análise da programação e de seu uso efetivo. no qual ambos contribuíam financeiramente para a execução do projeto. na Bahia. O Governo Federal se encarregaria de parte dos equipamentos. em termos nacionais.

Em geral as instituições não preenchiam devidamente os formulários. impedindo o repasse das informações para o Conselho Federal de Cultura. objetivando ampliar e elevar o auditório cultural brasileiro. Tal preocupação se encontra refletida no planejamento do quadriênio que tinha como um dos objetivos o da “dinamização e aprimoramento dos instrumentos de comunicação coletiva.” Todas as ação deveriam ser integradas. discursos e projetos. pelos próprios brasileiros. A idéia era a de empreender um zoneamento 17 cultural do país. colocadas em práticas dentro de um projeto de ações coordenadas “no sentido de evitar-se o desperdício e a fragmentação dos recursos públicos. surge a problemática do desconhecimento. O conselheiro Clarival do Prado Valadares ficou responsável por apresentar um estudo para a implantação das Casas de Cultura aos participantes da reunião. o CFC elabora um primeiro anteprojeto de Lei do Plano Nacional de 18 Cultura. O Conselho e o Plano Nacional de Cultura Em 1967. Um dos focos da ação seria o reaparelhamento das instituições nacionais. 18 O anteprojeto e o plano de custeio foram publicados em Cultura. destinando-os a projetos prioritários e mediante 17 Em vários números posteriores da revista Cultura podem ser encontradas reportagens sobre a dificuldade da coleta das informações e o empenho de alguns dos conselhos estaduais. com metas de curto e de longo prazo para programas tanto de cunho nacional quanto regional. Aproveitando a oportunidade para também iniciar uma aproximação com os municípios. a fim de dar-lhes condições de cumprimento de suas atribuições. A questão do patrimônio merece uma atenção destacada com o projeto de criação de serviços nacionais que melhor atendessem à conservação e expansão do patrimônio cultural.Estados. O plano deveria ser executado ao longo de quatro anos. entregues aos conselhos Estaduais para o encaminhamento aos municípios. O encontro permitiu que os conselhos se familiarizassem com as atividades e com os projetos do Conselho Federal de Cultura. Ano I – n° 2 – agosto 1967 . Em vários debates nas reuniões plenárias. Ao realizar o encontro em grupos divididos através das câmaras o governo obteve um diagnóstico da situação das áreas nas diversas regiões do país. visando a ampliação do alcance da atuação das mesmas. da diversidade da produção cultural nacional. O programa do quadriênio 1968-1971 estava centrado na reformulação das instituições nacionais de cultura. foram elaborados questionários específicos.

o estímulo à incorporação dos autênticos valores da cultura. a proteção ao artista e ao meio artístico brasileiro e a promoção da produção cultural. no conjunto de museus federais e em centros culturais. Ano I. 19 O anteprojeto estava acompanhado por um plano de obras contendo as estimativas de custos para as reformas na Biblioteca Nacional. espetáculos.programação definida”. Em fevereiro de 1970. p. a reserva do mercado para a produção artístico-cultural brasileira. em 1967. instituições públicas ou privadas e lugares do país. associada a uma maior divulgação e valorização dos mesmos. histórico. O CFC. com previsão de modernização de instalações e equipamentos em geral. recebeu verbas para um plano de emergência e seguiu recebendo dotações orçamentárias e verbas extraordinárias nos anos seguintes. Ainda que os conceitos de cultura e de autenticidade cultural com que operava o Conselho Federal de Cultura estejam baseados em visões conservadoras o plano apresentado amplia os limites do campo de ação governamental até então vigentes. Constituíam os objetivos e diretrizes do Plano: a preservação e defesa do acervo dos bens de valor cultural e dos recursos humanos e naturais. a defesa das razões e expressões da cultura. restauração e valorização do patrimônio documental. Ano IV. incorporando as questões da diversidade pelo viés etnográfico. etnográfico. a divulgação nacional e internacional dos valores culturais brasileiros. através de estímulos governamentais diretos ou indiretos. . Tal preocupação está expressa nos objetivos que buscavam garantir reserva de mercado para produtos nacionais. foi entregue ao ministro Jarbas Passarinho um primeiro Plano Nacional de Cultura. visando o fortalecimento da personalidade nacional. pesquisas. Cultura. março/1970. a proteção. dezembro/1967. do meio-ambiente e da proteção dos documentos dispersos pelos mais variados órgãos. como incentivo ao seu aprimoramento e desdobramento em dimensão universal. 164. artístico e paisagístico. publicações. 19 20 Cultura. O anteprojeto não foi aprovado. congressos. etc. que deveria ser encaminhado para a aprovação no Congresso. 20 O plano apresenta uma interpretação ampliada do conceito de patrimônio cultural. filmes. no 6. Existe uma grande preocupação com o avanço do cinema. no 33. da música e da produção televisa estrangeira no país – especialmente a norte-americana. O plano trazia também a estimativa da aplicação de recursos em atividades culturais em geral tais como exposições. em suas diversas formas de expressão.

..........552....... colocadas ao seu alcance. Cr$ 2.. Ano I no 4...... com os recursos oriundos do Fundo Nacional de Educação ( Fundo Nacional de Ensino Primário.O Plano circulou entre os parlamentares..........006......... retomou a problemática do Plano Nacional de Cultura elaborado e não aprovado....00 Auxílio de 1971...... A previsão para 1973 não era nada alentadora..... Cr$ 4.......346.. Cr$ 3..... o orçamento havia terminado antes do fim do ano.. 92 ........ p....... orçamentárias ou não................................ Cr$ 893.....000............. tendo permanecido na presidência do Conselho Federal de Cultura de 1968 a 1973............ em discurso de despedida........... que concluía que tal ação não era da competência do Conselho Federal de Cultura......372...100..92 Auxílio de 1968 ..717. Cr$ 3....... pois o orçamento havia sido reduzido e estava quase limitado às despesas com o pessoal e com os jetons dos conselheiros. Tal decisão tornava nulo o artigo 2 o alínea “m” presente no Decreto de criação do CFC que determinava que o órgão deveria: elaborar o Plano Nacional de Cultura.....00 Auxílio de 1970.. 21 Boletim do Conselho Federal de Cultura.... Cr$ 1. mas nunca chegou a ser votado......000...... Alertava para o fato de que sem orçamento o Conselho Federal de Cultura não tinha como dar continuidade aos trabalhos...... VERBAS DO CONSELHO FEDERAL DE CULTURA 21 Auxílio de 1967 (programa de emergência) ........ Um dos problemas enfrentados pelo documento foi o do parecer da consultoria da presidência da república...................... obrigando o governo a liberar uma verba extra para conclusão dos trabalhos que estavam em curso.....900. janeiro/março 1971....... proferido em janeiro 1973.00 Auxílio de 1972 (em votação no congresso)...00 Em 1972............... O argumento estava baseado na reforma administrativa implementada a partir do Decreto-lei n° 200 de 25/02/1967 e de outros dispositivos legais que determinavam que não era da alçada dos conselhos elaborar planos que estivessem condicionados à existência de verbas.. Arthur Reis... Fundo Nacional de Ensino Médio e Fundo Nacional de Ensino Superior) ou outras fontes..........902...000...00 Auxílio de 1969 ....

5 Levantamento e cadastramento dos bens culturais. 6 . 7 – Criação das casas de cultura. A política nacional de cultura. Entretanto. em incentivar . em seus diversos institutos como estímulo aos estudantes para o estudo e conhecimento da vida cultural do país. 4. como de reformulação dos já existentes. 8 – Implantação de um sistema de colaboração entre as universidades federais. já estavam sendo executadas pelo Conselho. 9 – Recuperação e restauração de bens privados tombados. 10 – Financiamento de projetos de natureza cultural. o incentivo à criatividade e a difusão das criações e manifestações culturais. auxílios e parcerias em geral. O grupo elaborou um conjunto de modelos de decretos tanto de criação de novos órgãos.Estímulo ao funcionamento e à criação dos conselhos de cultura. o ministro Jarbas Passarinho solicitou ao Conselho a elaboração de diretrizes para uma política nacional de cultura. deveriam servir de subsídios para planos. 2 – Criação do Serviço Nacional de Música.Em janeiro de 1973. o conceito de patrimônio cultural ultrapassava os limites do campo das edificações e dentro do incentivo à criatividade estariam incluídas as inúmeras áreas de produção artística e intelectual. Em lugar de planos de cultura. O documento enumera dez medidas básicas a serem implementadas para viabilizar a execução de uma política nacional de cultura: 1 – Criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Cultura. Medidas como estímulo ao funcionamento dos conselhos de cultura. deveriam ser confeccionadas diretrizes que. Existe também uma preocupação fundamental em inventariar. 3 – Criação do Serviço Nacional de Artes Plásticas. A criação dos serviços de música. com destinação certa e livre das restrições e cortes orçamentários. para estudar a reforma e reestrutura dos organismos de natureza cultural que compunham o MEC. estaduais e privadas. artes plásticas e folclore já tinha sido proposta pelo grupo de trabalho. segundo as diretrizes. a aprovação de um plano significava a destinação dos recursos necessários para a garantia da manutenção do trabalho. programas e projetos de governo. criação de casa de cultura. A democratização do acesso à cultura se faria através da política de difusão. deveria estar pautada sobre três objetivos básicos: a preservação do patrimônio cultural. cuja defesa seja obrigação do poder público. após serem submetidas à apreciação do Presidente da República. Por isso a primeira medida da lista é a da criação de um fundo.Criação do Serviço Nacional de Folclore. como o da educação. formado em 1969.

afirmando que só assim poderia ser criada a estrutura administrativa necessária para a implementação de uma Política Nacional de Cultura. como resultado desse processo. aumentando-lhe a hierarquia e a área de competência”. o documento aponta para a necessidade da criação de “um novo organismo ou de adaptação de órgão já existente. como é o caso da educação e da cultura. O novo órgão teria funções de planejamento. coordenação e avaliação das políticas e atividades implementadas no campo da política pública de cultura. Depois dessas argumentações. a cultura fica sempre em segundo plano. sem descartar as contribuições mais diversas para a formação do caráter do “ser brasileiro”. inclusive. principalmente tendo em vista ser esta um dos elementos garantidores da segurança nacional. janeiro/março 1973. execução. parte das atribuições previstas vinha sendo cumprida pelo 22 Departamento de Assuntos Culturais e o restante delas pelas instituições vinculadas. a questão da cultura popular fica associada a do folclore. O documento reforça a necessidade da institucionalização administrativa da área da cultura. Até então. De maneira geral. o aperfeiçoamento e atualização da legislação cultural. p. As propostas do órgão estão voltadas para uma definição de cultura nos padrões eruditos. segundo a percepção do CFC. propondo. Aponta para o fato de ser a educação uma área que absorve muito a atenção do Estado e que. porém de forma desarticulada. a cultura era uma área estratégica para as políticas de governo. ainda que complementares.a realização de levantamentos que permitissem a construção de um diagnóstico da situação da cultura no país que permitisse uma aplicação mais racional dos recursos. o documento propõe a criação do Ministério da Cultura. Ano III no 9. 62 . como o próprio documento afirma. A última parte do Diretrizes para uma política nacional de cultura apresenta algumas considerações sobre as dificuldades administrativas de um ministério que abrange duas áreas distintas. Os intelectuais do Conselho se colocam entre o grupo que defendem a necessidade de proteção da cultura nacional centrada na ação de instituições com alcance em todo do território nacional. podemos verificar que. Existe sempre uma preocupação em afirmar que a intervenção do Estado não se dá sobre os conteúdos produzidos e sim na garantia dos meios para produzir e difundir esse produto. Para a execução dos projetos e dos programas básicos a serem postos em prática pela nova política. 22 Boletim do Conselho Federal de Cultura.

2 o. subordinada diretamente ao Ministro de Estado. do Museu Imperial e a constituição (em formato de fundação ou instituto) da Fundação 23 Cultura.” 23 Isso significava que a coordenação de todas as atividades ficaria subordinada ao Conselho e que a secretaria estava sendo criada para cumprir as exigências legais que impediam que certas atribuições fosse delegadas a órgãos normativos. . a Secretaria de Assuntos Culturais. no 22. previa Art. Os anteprojetos tratavam também da concessão de autonomia financeira da Biblioteca Nacional. que promovesse ações planejadas na campo da cultura.As discussões e os diversos planos apresentados pelo CFC estão centrados na recuperação das instituições públicas. abril/1969 p 7-28. de caráter nacional. O anteprojeto da criação da Secretaria de Assuntos Culturais. A medida em que o CFC foi se estruturando delegou a si próprio uma série de atribuições que são típicas dos órgãos executivos e não de um órgão normativo. órgão executivo das deliberações do Conselho Federal de Cultura. O primeiro passo foi a criação do Departamento de Assuntos Culturais. Tempos de mudanças No início da década de 1970. que: “É criada no Ministério da Educação e Cultura. em 1969. Já na década de 1970 aumenta a ênfase da necessidade da criação de um Sistema Nacional de Cultura como um mecanismo fundamental de implementação de uma política nacional. para a reestruturação das instituições culturais do MEC. Ano III. que foi sendo estruturado e assumindo um papel mais efetivo de coordenação das questões ligadas a área cultural. Um exemplo da ampliação de poder que vinha ocorrendo se encontra nos estudos que o órgão realizou. nas instituições privadas com perfil similar ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (instituições de interesse público) e nas ações que podem ser desenvolvidas em parceria com os outros níveis de governo. O Conselho Federal de Cultura havia sido criado em um período de ausência de um órgão executivo. do Museu Histórico Nacional. do Museu Nacional de Belas Artes. no nível central do MEC. o Ministério inicia um processo lento de retomada do controle das decisões sobre a área da cultura que tinha sido praticamente entregue ao Conselho Federal de Cultura.

Instituto Nacional do Livro. seus projetos de regimentos e estatutos. 155 . O programa ficou sob a responsabilidade do Departamento de Assuntos Culturais. ampliar o campo de trabalho para os artistas. Todos esses órgãos seriam vinculados a Secretaria de Assuntos Culturais e deveriam apresentar ao Conselho Federal de Cultura. concomitantemente à censura e à repressão política. A maior parte das ações ficou concentrada nas áreas artísticas 24 RIDENTI.soube dar lugar aos intelectuais e artistas de oposição. Serviço Nacional de Artes Plásticas. através de circulação de produções. principalmente no caso das turnês na área de música. torturas e exílio os que ousaram se insurgir abertamente contra ela . que ficou conhecido como PAC. 2003. o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O programa é apresentado com o objetivo genérico de gerar interesse pela cultura nacional.” Além de ter que submeter ao CFC. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança. chamando a atenção da imprensa em geral. do Instituto Nacional de Teatro. ficou evidente o esforço modernizador que a ditadura já vinha esboçando desde a década de 1960. mortes. entre outros. nas áreas de comunicação e cultura. com indicação da aplicação das dotações orçamentárias e dos auxílios recebidos. O programa era dinâmico. A partir dos anos de 1970.. 24 O PAC se enquadra nesse esforço modernizador e de incentivo do Estado à cultura. Lucília de Almeida Neves. para aprovação. foi aprovado pelo Presidente Médici e era acompanhado por uma exposição de motivos assinada pelos Ministros de Educação e Cultura. Segundo o historiador Marcelo Ridente: Paradoxal é que a nova ordem da ditadura – uma vez devidamente punidos com prisões. Serviço Nacional de Folclore e Serviço Nacional de Música. Com esse conjunto de decretos o Conselho Federal de Cultura ampliaria e consolidaria seu grau de poder. proporcionar o ressurgimento de movimentos culturais regionais. anualmente. um “relatório circunstanciado de suas realizações. Jorge e DELGADO. O programa havia sido planejado para o biênio 1973/1974. Marcelo. Fundação Nacional de Radiodifusão Educativa e Cultural. O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. da Fazenda e do Planejamento. In: FERREIRA. p. incentivando o desenvolvimento capitalista privado ou até atuando diretamente por intermédio do Estado. No final da gestão do Ministro Jarbas Passarinho foi lançado o Programa de Ação Cultural.

81-98.) Políticas Culturais: diálogo indispensável. da câmara. n. 1991. problemas y oportunidades. Romance de Formação: FUNARTE e Política Cultural. 25 O governo inicia o processo que culmina na elaboração da Política Nacional de Cultura e na criação da Funarte. exposições de pintura e temporadas teatrais e uma pequena parte foi dedicada a atividades ligadas mais a cultura popular. La política cultural. 1984. Além da Funarte outros novos institutos foram criados – de folclore. por sua vez. CALABRE. p. Referências Bibliográficas BOLÁN. Estado e cultura no Brasil. financeiro e político. corais. 2006. mas a execução dos programas e do próprio orçamento passou a ser gerida pelos novos órgãos. Néstor Garcia (compilador) Cultura y pospolitica: El debate sobre la modernidad em América Latina . era não apenas uma abertura de crédito. 1976-1 990. 25 MICELI. A decisão da distribuição de recursos deixará de estar concentrada no Conselho Federal de Cultura. IN: MICELI. p. Isaura. de artes cênicas e o Pró-Memória. balés. a algumas áreas da produção oficial até então praticamente desassistidas pelos demais órgãos oficiais. Na análise de Sérgio Miceli O PAC. O conselho Federal de Cultura. 1971-1974. Rio de Janeiro. México: CONACULTA/FONCA. Os focos e as prioridades da ação governamental estavam sendo alterados. Sérgio(org. ___________. (org. Néstor Garcia. In: Canclini. O processo de construção institucional na área cultural federal (anos 70). São Paulo: Difel. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes. BOTELHO. Rio de Janeiro. 2000. Eduardo Nivón.mais consagradas como: concertos sinfônicos. O Conselho Federal de Cultura se manteve como um importante órgão normativo e consultivo.). “Los estudios culturales de los ochenta a los noventa: perspectivas antropológicas y sociológicas”. 2005. Lia. CANCLINI. Temas. Sérgio. Rio de janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa. mas também uma tentativa oficial de “degelo” em relação aos meios artísticos e intelectuais. In: Estudos Históricos. janeiro-junho de 2006. Edições Casa de Rui Barbosa. 37. 55 .

Marcelo. n° 11. Rio de Janeiro: Ed. UFMG. 1997. Pérez-Rioja. A história cultural: entre práticas e representações . Sérgio (org. O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX.). 1985. no 22. L’invention de la politique culturelle. George. Jorge e DELGADO. .CHARTIER. Estado e cultura no Brasil. Antônio. UFALINO. Philippe. Lucília de Almeida Neves. Renato. São Paulo: Difel. Brasília: Minc/Iphan. 2004. Paris. Porto alegre. Lisboa: Difel. Concepção oficial de cultura e processo cultural. ________. “Quelques questions de portée générale en guise d’introducion”. In: Ecrire l’Histoire du temps présente. In: Jean-Pierre Rioux e JeanFrançois Sirinelli. São Paulo: Brasiliense. UFRJ / FGV. A conveniência da cultura: Uso da cultura na era global. CNRS Editions. RIDENTI. 2004. COHN. 1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. _________. YÚDICE. Gabriel. 1984. Archiveros y Arqueólogos: 1971.. Pour une histoire culturelle. In: FERREIRA. José Antonio. Belo horizonte. du Seuil. HOHFELDT. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança. MICELI. p. Las casas de cultura. In: Revista FAMECOS. “L’Histoire de la politique culturelle”. 38-56. Por uma história política. RÉMOND. 2003. Roger. 1990. Madri: Asociacion Nacional de Bibliotecários. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Paris: Hachette Littératures. Cultura brasileira e identidade nacional. ORTIZ. 1991. René. 1987. dezembro 1999. Paris: Ed. A fermentação cultural da década brasileira de 60.

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