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POR CERROS E VALES .

^ edição) Gente Riistica (2.^ edição) Os amores de Latino Coelho A caminho d' A/rica Terra de lendas Quadros alentejanos Pretos e brancos Jornadas Contos ligeiros Contos Cente vária e sátiras Scenas da Vida Cente Bóer Pó da estrada Lourdes A questão romana A ENTRAR NO PRELO: Terras santas lestina — impressões d'uma viagem á Pa- EM PREPARAÇÃO: Ferroadas . Carlos intimo (2.DO AUCTOR PUBLICADOS : Herança mórbida (esgotado) A propaganda (esgotado) Dois crimes (esgotado) Impressões de viagem (esgotado) Por ahi Jóra (esgotado) Nas horas cahnas (esgotado) Ao de leve (esgotado Longe da visita (2.^ edição) D.

BRITO CAMACHO Por cer Livraria Eôitora GUIMARÃES 68. & C. Rua õo Munõo. 70 LISBOA .

« Rua Diário de — LISBOA . e imp. na IMPRENSA LUCAS & Notícias. 59. 61 C.Df szs Br ff ÂPR õ 1968 Comp.

primeiro sono. Nunca fui madrugador.Por barlavento A's seis horas da manhã pára o comboio em Tunis. por faltas. numa aula. apa- gados os últimos clarões da aurora. no campo. e uma já leve. a simpática deusa . Manhã sonte. Nunca fui madrugador . tão pontual reló- gio não acabara de bater as dez horas. mas também nunca me arrependi de ter sacrificado o sono da manhã. diferenciadas na côr? cambiantes. Portimão.se. perder o ano. em Coimainda no far- bra. ao en- cantamento de ver o sol erguer. com o sol ainda abaixo do hori* uma tenuissima neblina que nos de pouco variadas deixa uer as coisas na realidade do seu feitio e ta* manho. estando já formado na gare o que hade leyar-me a quente. e sucedeu-me. estava sentado na cathedra. já os meus condiscipulos estavam que ainda o já ele tos de ouvir o Mestre.

E vale a pena vel-as então. Não aliás é verdade. mais cedo. durante a qual estão amendoeiras. por aqui. no Algarve. que as amendoeiras. mas nunca uma tio visita ao Algarve. como se as tivessem borrifado com a espuma d'um sangue arterial muito vivo. mez de fevereiro não é menos frio nem menos um pouco chuvoso. que não vale a pena visitar o Algarve senão durante a época. muito fluido. muito breve. ou vermelhas de sangue. é destituída de porque mesmas em todo o como sucede em toda a parte. o caso daquela linda moura que só condescenderia se entregar a um príncipe cristão no dia em em que no . Não a primeira já tive nem bôa a segunda V7ez que passo sorte. conforme o tempo. POR CERROS E VALES que tem os dedos côr de pa. estavam as amendoeiras floridas. ^ates de melena e casrosa. como muita gente diz. segundo o testemunho dos poetas românticos. de por aqui passar. um pouco mais tarde. Ora é precisamente nestes meses. e a ha uns poucos de anos. variando apenasj das Estações- o O mez de janeiro é frio. é . mas podia ser verdade. felizmente. muito curta. fugido á folia carnavalesca das cidades.. no Esinteresse. e impertinente de chuvas. na Primavera. muito puro. mortos sem descendência. em flor as Essa época é preferível a qualquer outra. se carregam de flores. brancas de neve. ou no Outono. Conta-se como lenda. os aspectos da sua paisagem com o particularismo as suas belesas naturais são as ano.

em estavam cobertas de neve. Um ca. como grandes pingos de sangue muito cado até á espuma. — Disseste-me que caisse minha quando no Gharb venda. Pois bem tira a Quasi todas as arvores. os olhos vendados. guardada á a nos seus aposentos. Vasta planura. á pobre defini- moura. manchas vermelhas. que não esteja aproveitado. e olha. prenunciavam fluidífi' talvez. culando aquela alvura dhostia. vista. e levando-a peia alto mão. foi imposta á linda moura. largo neve. num campo.POR CERROS E VALES Algarve chovesse neve. a um lado e outro da linha. pequenas dizer forme as suas aptidões culturaes —o manchas de restolho. sendo todavia . serias . muito pequenas. sucedendo uma noite fria e opa- o Principe mandou-a chamar. ao varandim mais Castelo disse-lhe que chegara o prir a sua do momento de cum- promessa. a ferida mortal no coração do profeta. mapuro. ainda a moura estava na cama. tiva e irremediavelmente vencido o Islam. sem ondulações de terra. a comunicar com a dia lumi- Natureza. a noso de sol frio.Estava quasi a findar o mez de janeiro clausura . e a espaços. Pode dizer-se que não há um palmo de chão. com pequenos cerros fechando o horisonte. a floração da amendoeira não devia tardar. dia. espraiar a vista pelos nem sequer podendo campos. con- que não quere segundo os melhores preceitos e ensinamentos da Agronomia. frente. Grandes bocados de vinha. pela esquerda.

agradável ao gosto. como se chama ? — Tem o trigo. ao vêl as assim. com demora apenas d'algumas heras. que no rigor do inverno elas serão o enfeite destes campos. em esquadria. á crisma. Aqui fica o meu oferecimento para padrinho. Oliveiras carregadas d'azeitona .POR CERROS E VALES certo que estes terrenos se prestariam bem á cultura do — Aquela povoação. o tempo bastante para me indignar perante a vergonhosa ruina do seu Castelo. fecha se na abun- dância da sua ramaria. mas não hesito em afirmar que o nome que lhe deram. A é alfarrobeira. um grandioso mo- . mal se acreditando. d'uma regularida- de perfeita. além. e o tempo não me chega para ir até lá. mesmo nome da fui . dum verde-negro muito carregado. Enorme figueiral. recorrendo . e os frutos que dá. Estação. Não se descobre Silves. fazem lembrar pingos de cera preta. • facíl de remedear. que lembram flocos de neve alpina. Nunca sível lá provavelmente nunca lá irei. E' pos- que não corresponda á impressão agradável que me fâz. amendoeiras nuas. ao abrigo d'uma prega de terreno. chama-se Al- gos. nem nem aprazível á vista. carrega- das de flores brancas. é um caso absurdo de toponímia. uma arvore de aspecto severo. se quizerem dar-me essa honra imerecida. chatos e compridos. infamante aplicado ás pessoas. civil. e para reviver in mente.

diariamente. Tenho rage. até ha poucos anos. a lutarmos com os serracenos. por isso. Fiz.POR CERROS E VALES mento da vida nacional. a já aberta.e a po que eu quizer.árabes no excelente trabalho — — professor. já na vigência da Republica.me ecO} no Parlamento. e consegui. dan* do lhes plena trar satisfação. esperando o tem- prontifica a levar-n-. d'essas reclamações. . no sentido de ser levado até lá o comboio. a desafiar os Ímpetos corrente. e a rio. Oliveira Parreira. no Castelo de Silves. Parece-rae que Lagoa cresceu muito desde a tima ul- vez que a vi. o comboio na ponte. ha muitos anos falecido. seria ali. mas em automóvel eu vou mais á minha vontade disponho d'ele como me aprouver. e mostram as estatisticas que os desastres d'automovel são menos frequentes que os de camionete. mesma impressão tenho de Ferragudo. pagando-lhe noventa mil réis. por muito menos dinheiro . Talvez. bôa sorte de encontrar á porta d'uma gaum automóvel de aluguer. me tomou uma duma certo alvoroço ao en- bela ponte de ferro. Se conhecesse o árabe. Portimão foi. poetas de cuja obra se podem ver amostras do erudito Luso. que se Monchique. que eu leria versos do Motamid e do íbnAmar. testa de cami- nho de ferro. O chaaf- . a aprovação dum projecto de lei. Ha camioneles que fazem este serviço. na foz do com uma ponta de terra a meter se pelo mar. a muito custo. não obstante as reclamações de Lagos. até á noite. que ás vezes lhe dá para ser caudalosa. e trazer-me para Portimão.

as mais próxili- mas. de plantação recente. até não ser mais ou ser pouco mais que uma garganta no ponto em que tícolas a construiram as thermas. Vinhas e campos de milho. e o embebedando com com pulso não se as velocidades. possante. o que permitirá ir de Por- timão ás Caldas ter em menos de vinte minutos. todas as culturas hor- que se presta uma curso d'agua. Toca para Monchique. já a encontre á prova de ses- senta quilómetros á hora. chorões que põem na Trepam serena tranquilidade do vale uma nota de melancolia. sem ba- nenhum que recerd. brancas da poeira da estrada. e á compita com elas trepam os pi- nheiros bravos. as oliveiras pelas chapadas de brando ou rápido declive. Não ha terra desaproveitada. com o volante. vale estreita. membruanimal de sangue sujeita frio feur é do. á esquerda. A ra-la. dos rapases que espigam a palmos. como se diz. á medida que se sobe. terra susceptível de remunerar o ca- . estrada deixa muito a desejar. a crescerem sem cença de Deus. que não brinca firme. Andam por ali a repa- sendo provável que o leitor. e um aqui. Tufos de cana á beira d'agua. Corre a estrada ao longo d'um vale. terra grossa atravessada por quasi um Oliveiras de grande porte. se passar d'aqui a alguns meses.IO POR CERROS E VALES um árabe a desandar para o negro. lá para os meus sitios. outro além. e macissos de eucaliptos.

ou são escassamente povoados de pinheiros. que não fovista agrologico. as. guezes como de hespanhoes. desguarnecidos de tudo. é a de que vamos percorrer umas antiquíssi- mas catacumbas. Os cerros. Chegamofi ás Caldas. pensei em dar por caduca a concessão das Caldas. sem que o doente saia do banho. . Não o fiz. Pensei. em nenhum havendo uma campainha. entrando no Estabeleci- mento. de pequeno vulto.POR CERROS E VALES pitai ii que nela se gaste em trabalho de adequada cul- tura. a cinza dispensando o adubo. o caso é muito diferente. O que se chama quartos de primeira classe. excepto de banheira. Pela direita da estrada. terra a ram abandonados ao mato. de mau aspecto sob o ponto de de minimas aptidões culturaes. A terra é áspera. sendo Ministro do Fomento. tanto de portu- A impressão que se tem. que permita chamar. informado da vergo- nha que aquilo era. cumprido a menor das suas obrigações. não ser nos pequenos trechos onde se possam fazer moreia. não tendo o concessionário. força. e reconheço agora que o devia ter feito. até aquela data. Ministro á como o Medico de Moliere. em caso de necessidade. queimadas as moreias que ali fizeram. até meia encosta. são uns cacifos sem ar nem luz. entregando as Thermas a quem soubesse explorai chamando ali uma grande clientela. ou são lavrados.

bebe quanto lhe dá na gana. e assim aumentou as encontrou este receitas. Em tempos não muito afastados. contei oitenta e é magnifico para exercício dois degraus. apezar de tudo quanto dito. — São de recomendar as aguas de Monchique ? Por certo. tantos. tanto de portuguezes. para um pateo onde enfermaria dos homens. que são ao mesmo visitas- tempo casa de jantar. e fica do muito mais que poderíamos dizer.como de . eram ameaçadores àquela praga. á porta fica a Desde a porta de entrada do Estabelecimento até que dá saida. pinga Quem não ali uma fonte. sendo de graça o banho que é tomado em comum. que sendo daninhos para as coisas. para as a pessoas. estes quartos eram verdadeiros ninhos de ratos. Procurando remédio Administração do Estabelecimento alugar gatos. n'uma piscina em que a agua chega de pancada. com receita bebe aos gramas quem . leva receita. com direito a servir-se da cosinha. que é a buvette da casa. o que maticos. tão grandes e tão vorazes. ao fundo. ao menos Uns quarenta e deis escudos por mez. elas são bastante concorridas. de rheu- A meio d'um corredor escuro.POR CERROS E VALES Simplesmente repugnantes as enfermarias destinaque pagara. por grupos alternados de homens e mulheres. de dormida e salinha de ? Baratos. eles ou as Camarás das aos pobres • • • do seu concelho. que é comum. visto como. Mizeraveis quartos de aluguer. como nicho vai de santa.

delicia bebel-a. comido o almoço n uma espécie de saião de esgrima. mas o céu está limpo . disposto a visitar a Foia. tem maciezas de veludo. A agua. de Estamos em fins de setembro. di- go eu que é uma leve. fechando os olhos. de que regressei a Aljustrel. e quando esperava encontrar a frescura dos pontos altos. sempre subindo. tenho a impressão. á hespanhola. agradavelmente selvático. meto-me na traquitana que me trouxe de Portimão e faço-me de rumo a Monto- chique. talvez ainda mais de hespanhoes que de portuguezes. uma folha não se vê um nuvem manchando o puríssimo azul do Não farrapito ar. aborrecido e indignado. muito muito a mais leve. ha das as probabilidades de podermos ver a Serra no mais alto grau da sua apregoada beleza. que é um fundo de alguidar. que é o cemedõiro. senhores querem ir á Foia ? menos de nada estão ao nosso dispor dois — Os Em . Está um bole calor de abafar. do Hotel Central. e fina. Aborrecido com as Caldas. um trecho de Natureza exuberante a oferecer á Arte motivos d'uma linda decoração scenografica. propriedade do Estado. disse-me o poeta Cândido Guerreiro. . O sitio é pitoresco. cheguei aqui. a Monchique. quando se usa em banho.POR CERROS E VALES 13 hespanhoes. a mais fina agua que ainda bebi. O dia está quente.

tem ligente. Para sair da villa.barba. vê>se tudo. faz a gente a ascensão d'uma ladeira Íngreme. Reconheço ime- diatamente que a albarda. debaixo d'um animais marcharem vereda facilmente praticável. o mais valente. feitas de arbustos entalado na- entre muros de pedra solta. rapazote de aponta. mas irrepreensivelmente aceiado. umas poucas de léguas á roda. com as enxergas que lhe puzeram em cima. que um pobre burrO) pondo-lhe bas — eu roais em villa cima quatro ou cinco arro- peso seis — estacaria sem dar um passo. em dias como o . dos á maneira de cabresto e albarda. um ar inte- maneiras desembaraçadas. excelente compa- nheiro para estas excursões á pressa. modestamente ves- — — como pobre. esta azinhaga por onde sol vamos. em direcção á Foia. O al- mocreve. Caminho de cabras mais que de turaes. certo o trambulhão se mudassem uma pata . de nos oferecerem amoras. Não haverá nevoeiro lá para os lados da Serra? Não. para almofadar. d'hoje.me no asno que o almocreve eu me destina. tido. é larga demais para o angulo que nas. senhor com um óculo. ]á quasi fora da escarrancho. alternando com sebes que nos agridem a pretexto de fogo. bem podia ser uma certo desembaraço. Toca para a Serra. a pé.T4 POR CERROS E VALES um branco ou russo e outro prelo. burros. apetrechabíblica. por ser pesado que meu irmão. me obrigará a fazer com a& per- um angulo de quasi cento e oitenta graus. permitindo aos pobres com Mas Seria não. burros.

de serras mais avantajadas. da azinhaga e dos seus Quando nos vemos tos é livres tapumes. porque as serras. de vales mais amplos e mais apraziveis. e eu sinto que se afroixasse a arreata ao meu. e ahi mesmo nasce e cresce a saxifraga. mas os burri- que não andam mais depressa. nas épocas do ano em que não chove. o desgraçado afoci- nhava —e afocinhava eu consta que com ele. respiramos mais livremente.me pensar na Beira.POR CERROS E VALES sem pedir licença á outra. encurtam o horizonte. por uma grande abertura — se não ando errado no que diz respeito aos pontos cardiaes. mas por igual pobre d'agua. Não me duas vezes —a já algum fizesse este caminho não serem os burros de Monchique e respectivos almocreves- Agora já se pode espraiar a vista ao largo. altaneiras e penhascosas. aqui e além aparecendo A'parte as um magote rochas. a mais ordinária das figueiras. de pinheiros bravos. 15 e esta delicadeza entre as patas dos burros. a não ser do lado sul. A fisionomia d'esta região faz. Castanheiros.como não ha homem. estou crer em que não ha terra absolutamente insusceptível de cultura . sobreiras e oliveiras são as espécies arbóreas que enfeitam estas encostas. não muito para o largo. mais cortada de riachos. por muito bronco que . importa capaz de fazer o desespero uma lentidão de marcha dum santo. de que se podia e devia ter feito ha muito larga sementeira.

de cada vez é mais intenso o calor. e mal resisto á tentação rar procu- um pouco uma de frescura. que mais não seja para ministro em ditadura. que que já uma me parece não ter fim. Paulo. na Zambeuma revista de gado.! i6 POR CERROS E VALES O figuremos. que não tenha préstimo para alguma coisa. tão incoa modo como Sinto passar uma vez o senti em Africa. uma gua- aqui E zia. e avisa me o almocreve . Oiço vir um marulhar d'aguas correntes. que me dizem ser interessante. duma insolação — como sucedeu Não direi que o caminho é de cada vez . estendido na sombra das arvores. talvez bebendo á canis no regato que ali passa. Da detraz Serra não ha novas nem mandados n'esta fica por doutras serras. tenha ares de rio caudaloso. na esperança de lobrigar rita que me diga só —é um viso. . convertido á orthodoxia de a a Igreja por efeito S. uma crista. em Bompona. ribeira que com as chuvas do inverno. diz-me o almocreve —e para lá eu deito os olhos anciosos. pior. e sabe Deus se esta seria a minha de Damasco. quando enche. do guarda estrada que não aguentava a jornada sem a protecção sol. ~ direcção. Avista-se um bocado da estrada de Sabóia. a pouca distancia d'ir lá da carreteira. porto- que desde o começo ele é péssimo mas recordo dos os maus caminhos por onde tenho andado — honni soit —e constato que o pior de todos é passadeira de veludo comparado com este. julgo d'um macisso de castanheiros.

até onde deixa de ha- ver terra para só haver pedra bruta. armado de mangual. com prazer. bipartido. E um tórrida. pela encosta acima. senão pela fresca. Aqui se nos depara tado por um pequenino tanque. para evitar estradas romanas. Resisto á tentação de fica me acolher a um monte que á beira da estrada. e facilmente o burrito afoci- com ele ! Não me espanta nem me deslumbra o espectáculo d'estas serras. e vale. já a pingar suor. que erradamente os livros si- tuam entre os trópicos. e em segundo logar porque lhes faltam predicados scenograficos. lentamente e sempre com agrado. bem amanhados e verdejantes. a boca resequida. a zurgir as massarocas. a estas horas já completamente seco. em socalcos. de lá não saia. porque o ca- minho agora líha — e eu é a descer. que poderiam tornai as interessantes. á maneira das velhas todas as cautelas. Penso de mim para mim que se me apanhasse á sombra. que se desdobra na minha cultivada vou-os erguendo. constantemente a . o que obriga o burro a caminhar um escorregão. no imenso frente. alimen- uma fonte que não se vê. O com caminho agora é lagiado. em primeiro logar porque são modes- tas em tamanho. não para continuar o passeio até á Foia. visto que está um homem. e instintivamente desvio os olhos d'uma eira para secagem de milho. Mas demoro os olhos.POR CERROS E VALES 17 de que preciso manter a arreata tensa. o calor parececalor da zona me ser de cada vez mais intenso. mas para regressar a Monchique.

Encosta suave. n'um chafariz duma estrada. Para gáudio dos passageiros. que não se pode beber de esta Ocorre-me á beira legenda. em verso. Saibam todos pró futuro. facilmente praticável.POR CERROS E VALES jorrar. comigo atraz. sem outra vegetação além do aproveitado para fazer estrumeiras. Quem te trouxe d onde sorges ? Borges. visto não tro préstimo. de contornos bem definidos no seu relativo isola- . no Alemtejo. ter ou* Esperava encontrar a Foia muito diferente do que é. Que aqui gastou seus dinheiros Francisco Borges Maduro. Quem furou o Monte Duro ? Maduro. e diz. alto Deixamos a estrada e enfiamos em direitura ao da montanha pelo caminho mais curto e mais burro firma-se agora melhor nas patas. devido á bene* merencia d'um proprietário rico: Quem mandou aqui pôr isto ? Francisco. O um bocadinho a andadura- . tina. e apressa .me o almocreve que aquela agua é tão gole. tojo.

aprazível. não agridem a vista. cheias de sombra. d'uma radiação de fornalha acesa. uma espécie do gaze violeta desdobrando se por sobre as coisas. muito tica. a lembrar as flechas duma O alto da Foia é uma chan relativamente grande. e mesmo os que são coroados de E' nem é nem provoca desdém. já ilus- paisagens. sença. 19 monte acuminado e penhascoso. Esta fútil . sinto emocionado. Não me admiração. negra da pedra de que é remate. horisontes fora largos. e um isso vento forte que vem dos sol lados do tempera as ardências do em brasa. Passeio a vista. excessivamente vasto para que nos impressionem os seus mais curiosos detalhes é — como se trada com olhasse para uma carta em relevo. quasi do alcance do binóculo. o que seria Sopra mar. só nos longes mais afastados. com alto. muito branco e muito velha catedral gó- esguio. Os picos não nuvens. abundantemente semeada de pequeninas rochas que mal afloram. rasgões. não . nem comovido. um marco geodésico. reforçada com lunetas e binóculo. feita. que As ravinas são modestos mesmo de noite. não tem a graça nem sequer tem visitantes fácil a utilidade d'um álbum dum em que os da Serra deixem registo da sua pree interessante.POR CERROS E VALES mento. Natureza não topetam as uma Natureza d um bucolismo virgiliano. em pirâmide quadrangular. utilisada a fotografia nos levan- tamentos topográficos. pelo vasto panorama. e a guarita. é grandiosa não suscita rocha. caiando-a. Céu limpo.

se o fizesse já no cair da tarde. Estou a lembrar. de encontrar o horizonte limpo. mas já muito diminuida a todos os santos ajudam. fins dos princípios de junho a ferível tentá-lo em julho e agosto. talvez me fizesse ver as coi- com mais agrado. e menos tempo é menos calor. de terras ásperas. Se me preyuntarem agora. menos incomodo. afrontando os rigo- res caniculares. dominadas pelo Marvão. ou não vale a pena visitar a Foia. erguendose em frente de S. espero gastar até sua radiação sas calorifica. e como para baixo menos tempo Monchique do que gastei de Monchique até aqui. subindo á Foia. Torno d'aqui a bifurcar-me no burro. Isto quere dizer ^ue não vale a pena tende setembro. menos aborrecimento. depois do que se vale fica dito. Nunca ha a certeza. quasi devoto.me. menos duros os contornos. scb todos os pontos de vista mais interes- sante que a famosa serra algarvia.20 POR CERROS E VALES em abismos. com a atmosfera sem . do Alto-Alômíejo. distinguindo. tanto faz subir lá ccmo derei. Mamede. em tudo um ar de recolhimento ascético. sendo pre- semelhante passeio a não ser no tempo quente. propicio á meditação. respon- como na velha teologia. mesmo em pleno verão. não tar subir. pelo fazem pensar contraste. ao sonho. Este passeio de regresso. e com uma atmosfera enevoada. Mas com o horizonte limpo. o sol ainda alto. menos violentas as cores. ao êxtase.

desespera- doramente muro. garantimos — que não vale a pena ir á Foia. nas Caldas. não se vê se fazem sentir a uma folha as brisas do mar não uma distancia tão grande. tem de ser lenta. mais útil aplicação. n'estas condições. O cha. melhor adapta- transito das cabras que dos burros. e Monchique é que sabe se ria lhe vale a pena entrar n'essa despeza. da . os joelhos an- cabeça esvaida. sacrificando á hy- potese do turismo dinheiro que poderia ter. o espectáculo que se gosa do lá alto da Serra compensa do afadigoso trabalho de ir? Não compensa. nova. Só de ver o automóvel sem poder com a entra em mim uma alma as pernas.POR CERROS E VALES turvação. agua que não pesa no estômago. como se nada tivesse dentro. não sa- bemos. a marcha fôr dum caracol subindo um Emquanto o caminho do ao ao leitor o que á. ainda que litros. Mas não sepreciso gastar ca- — mundos e fundos para tornar o minho transitarei. quasi kilosados. A mar. e peor ainda na descida que na subida. que fica a distancia mede-se pelo tempo gasto em percorrel-a a mais de duas horas de Monchique. Delicio-rae a beber um grande copo d'agua. coisa de na. caminho é horriyel os burrinhos fazem prodígios de equilibrio para não afocinharem a cada passo. se beba aos . quieta e diáfana. lenta. Baixou um pouco bolir a temperatura.

que o famoso instrumento singularmente desafinado. ilusão perigosa para os interesses de Como cha. mais caiados os seus prédios. só ponte atravessava o rio . tenho que passar uma ir noite em Portimão. resolvo para a Praia da Ro- onde pouco mais havia. conforme era de prever. peitante a edificações. dar vasão á onda americana. era. ha poucos anos.POR CERROS E VALES Pois ha ! quem a beba aos gramas — pagando a inscrição Desejaria. que tem ido rebentar em Sevilha. cidade de fresca data. á espera dos hos- pedes da temporada. creando uma muita gente. aquele milagre de organisação famoso rápido que só por um dos serviços ferro-viarios tem conseguido. uma o caminho de ferro tinha . de ha mezes a esta parte. nos jornaes. uma cidade pequena. mais cuidadosamente varridas as ruas e praças. já o rápido tinha partido. onde abunda- vam os hospedes de todo o ano. no resHotel Viola. repetidas vezes. E* — espalmados e sugadores. talvez a primeira vez que visito Portimão depois que d*esta villa grande fizeram Não a acho diferente do que um boca- dinho mais limpa. Então. mas quando chegamos é.muito dar imediatamente por terminada esta visita ao Algarve . a Por- timão. Cinco milhões de americanos ! E escreveu se isto. isto o comboio que em Tunis liga com o rápido de Vila Real.

dos seus mais altos valores morais. Teve a União Republicana. o medico mais reputado do Algarve. e jamais um doente sumi- discutiu. acompanhan- do-a em todos os seus movimentos. igualava a a sua generosidade. para cima da antiga ponte. dum afamado. como poucos. e. devotado correligio- Clinico de excepcionaes merecimentos. com uma Estação que não envergonha O peor de tudo. tendo mar- cado a sua passagem pela Escola Médica. Ernesto Cabrita. na margem esquerda do rio. a ponte destinada exclusivamente aos comboios. Ernesto Cabrita foi» por largos anos. pelo menos. devotados partidários. o dr. com afirmações de altissimo valor. toda em ferro. Tantos que Abriu a já se foram ! marcha fúnebre o Zacharias José Quer- . por tem- peramento. o dr. contribuindo para lhes dar auctoridade e prestigio. ouvido em de doentes que podiam ter mais ceira e quaudo se tratava medico á cabeconvocavam em conferencia algum Esculápio todos os casos dificeis. porque morreu. Pagava-lhe tico quem queria. Havia n'ele uma sua competência — era coisa que. não era foi homem para as brigas politicas. Agora ha. no Algarve. para mim. a cidade. Ernesto Cabrita. que. e o dr. achando-a exagerada.POR CERROS E VALES a sua estação 23 terminas onde hoje é a Estação de Ferragudo. meu devotado amigo nário. é que iá aqui não encontro. uma conta que ele apresentasse.

o dr. . se desvairados politicantes não tivessem erguido no seu maminho cair. não encontro ainda em Portimão em Ernesto estudante quando o positivismo de Portugal. espirito. que ele dispendia a mãos largas. Júlio de Maios. tendo amealhado. caracter primoroso. que o obrigaram a Pois Cabrita. o antigo hotel* Viola. enfi- Comte começou leirando ele.24 POR CERROS E VALES reiro. farnel para a velhice. insuperáveis obstáculos. já . a ser conhecido cora o Bettencourt Raposo.aximos sacrificics. um amigo o general desde o Lyceu. entre os quais. No dois Hotel. inteligência robusta. E a graça que tinha o pobre Silveirai sempre de bom humor. se é que não excedia. lá adiante. não adquira uma larga e solida cultura mas como que adivinhava o que não aprendera em horas de aturado estudo. Preguiçoso de . desde os seus tempos de cadete. uma colecção de anedotas de varia espécie. por forma que sempre a sua opinião era digna de ser escutada. ha quartos disponíveis. os . de pé. e só por excepção o seu conselho deixava de ser seguido. não encontramos alojam. diga-se em honra da nossa mentalidade. na pequena falange dcs positivistas portuguezee. mas na Pensão Oceano. e teria realisado uma grande obra na gerência d essa pasta. mobilados á francicana. o de- votamento partidário.Foi um distinto Ministro da Guerra. não havia laffitistas. republicano de sempregarÍo Era al- Silveira. capaz de o levcr aos m. unionista em quem a dedi- cação pessoal igualava.ento. Corrêa Barata e outros.

já mil. Mais milhar. porque uma noite bem se passa. POR CERROS E VALES 25 que pouco nos importa. . para 9êr a ben- ção do Oceano. e na manhã seguinte. Ora o mar é o terreno mais producíivo do Algarve quando a pesca falha. ir gente ? mil pessoas. A razão do facto não é conhecida. Se temos chegado na véspera. pcuco outro informador corrigia este destempero. a Praia da Rocha fora tão coisa certa é que concorrida. em pleno com uma procissão de milhares de pessoas acompanhando Santa Catharina á praia. extinto todo festa. — Muita Dahi a — Umas cincoenta — Deviam soas. ainda assim. O Ha caso interessante. verdadeiramente digno de nas costas registo. nunca Santa Catharina vira nos arredores da sua Igreja e seguindo o seu andor tamanho numero de devotos. caíamos arraial. nunca a menos milhar. os devotos não seriam mais de a cinco o que representa. mas triste o facto é da mais e irrecusável autenticidade. exagerando ainda. depois do o rumor da quatro jantar. um triunfo assignalado. para Santa Catarina. já este numero sofrera grande redução. cada qual procurando um logar junto do andor.. falta muito tempo que a sardinha do Algarve. foi como vou expor. na procissão umas vinte mil pes- A' noite. anda a mizeriaa rondar a porta do aflito pescador.

Quem pr'o os ? quando deviam ir mar mandou ficar em Os que mais con- fiaram no meu poder e na minha piedade. apareceu ao cance das suas redes. Mas então o • . irmandados todos na fé. mesma desgraça. O milagre fez-se. de promouma grande festa em honra de Santa Catharína. n'aquele dia festivo. não menos devoto que os outros. e ela sardinha. pectivos industriais. inteiramente dedicado a homenagear Houve. foram . devotos ver como todos os homens do mar. que se calculava ter esse industrial colhido nas suas redes.. relatando o tinha ouvira. dacordo com os resem que ninguém iria para o mar festa. então. 26 POR CERROS E VALES Lembraram-se. E o que sucedeu ? Sucedeu que. qualquer coisa como milagre cento e vinte contos de pes- cado. e satisfatoriamente o explicou o sacristão de Santa Catharína. e apareceu em tão grande quantidade. sardinha a apareceu nas aguas próximas. incendidos todos na mesma alentados todos pela mesma esperança. mas de crenças mais raciocinadas. no dia da a Santa. um industrial. depois que á sanal- — Pediram-me terra de recolher a procissão. que acorresse gente de todo o Paiz algarvio. Assentaram os pescadoras. ordenando imperiosamente que todos os seus cercos trabalhassem. por milagre de Santa Catharína. (esta a os de sotavento como os de barlavento. porém. que não adheriu ao pacto. os marítimos de Portimão.

a que os santos mais gostosamente altissimo. zias. intercedendo pelos levam perante o dores. se faas con- zem variar. o trabalho segundo de Deus.e alguma coisa tenho visto do que Praia da A Praia ha por esse mundo. como obra acústica da fisica precisa ser corri< gida pelos instrumentistas e cantores. e fazia dó ver a cara desolada dos mízeros pescadores. A otica dos livros precisa ser corrigida pelos pina tores. peca- No dia seguinte. abrigada de todos os lados. variando as condições da observação. como fins. ]á nas aguas próximas não havia barcas va- sardinha. d'uma beleza scenografica como outro igual ainda não vi . nhã á noite. Na de Falcão Trigoso acha-se abundante- . retinas privilegiada. com qualquer tempo. para o conseguirem.POR CERROS E VALES para a labuta da pesca. em que de luz. carecem de os procurar cora a maior a horas diversas e em meios diferentes. de que apenas se apercebem as paciência. varando na praia as suas Rocha merece a reputação que tem. de maperigo. aberta sobre lago sem fim. se um mar que é um pode tomar banho. e de lá coitaram mais ro- bustecidos nas suas crenças e mais remediados nas suas a lei faltas. e ainda assim. n'outro campo e para outros dições da experiência. Praia larga e extensa. O trabalho honrado. é a oração mais eficaz que pode re- sar um crente. sem Ha efeitos no Algarve.

cartas. luz que lhe vem da Pelo atmosfera. entra-se na chamada Praia das Mezas. A e luz que enche a Praia da Rocha. é rica a qualquer hora do de tons. — Santa Gendveva velando para ir Uma casa. no seu quadro referido* levard de Michel. dia. e matizes que lhe feriram curai as andando a prode que Pu- com paciência de beneditino. e não perfaz duas dúzias o numero de pessoas que aqui vejo á hora do banho. coada por filtros mágicos. surprezo e deslumbrado. Buraca da Avó. estive convencido Por muito tempo eu vis de Chavannes não observara a luz que puzera no seu admirável quadro sobre Paris. banhistas. não as encha de bu- de sadia e estrepitosa desenvoltura. eu saí de Rua da Sorbonne de S. algumas. porque me enchia os olhos aquela luz de Puvis. olhando as grandes arvores do jardim estaco. subtil domar como um perfume errante. era pleno verão. . e ainda d'essas. quando a maré o permite. nos começos do outomno. e faz pena que estas duas Praias não estejam coalhadas de barracas . ha apenas seis barracas. da rocha e da areia. na tarde. quando o sol já não aquece mas ainda fortemente lício alegre. uma gárrula multidão de Pois em toda esta linda praia. que no entardecer. ao Odeon com- prar papel Distraidamente subo o boue quando já estava ao pé do Luxembourg.28 POR CERROS E VALES mente e brilhantemente comprovada a minha afirmação com respeito á luz algarvia. e a mais d'um tico cri- eu tenho ouvido censurai o por inventar cores os olhos. ilumina.

na actualidade. também havia quem preferisse as praias de menor frequência. por necessidade ou por gosto. ma- gras. gordas e Novas e isto é. todas se despem pelo mesmo modelo. Se havia turalmente aquelas trar quem procurasse as praias muito concorridas. em que se inspirassem os artistas e se educasse o gosto do publico a d'elas. Hoje o caso é diverso. As Praias. e mais estabelecer no- vas relações. no nosso tempo. isto é. são verdadeiramente mostruários de toaletes e exposições de jeunes filies â marier.POR CERROS E VALES são aves de arribação tiram á noite. Podiam ser. naem que era mais provável enconfácil amigos e conhecidos. algumas Academias de esculptura. braços e seios. -- 29 chegam — pela manhã e re- das por Tempos houve em que as Praias eram frequentaquem tomava. em lon- labutí?. sem preocupações dum luxo que. todas fazem a mesma êtalage de pernas. além de ser caro. banhos de mar gos mezes de ainda por muitos dos que. modestas praias em que se an- dava á vontade. todas as mulheres vestem pelo mesmo figurino. velhas. tinham consumido energias que precisavam refazer para continuarem labutando. é incomodo. Mas não. casadas e solteiras. da indumentária conservando apenas o bastante para que a policia lhes não embarace o transío. Era duas grandes cathegorias se podem classificar . . admirar a elegância das linhas curvas e as tentações da beleza plástica.

Por ora. passar de tarde. dominando tudo tal. uma ou outra praia modesta. havendo. ser mas nem sequer até. um chalet monumen- com uma linha arquitetonica de muita distin- ção.30 POR CERROS E VALES as pessoas que frequentam as praias — a das pessoas ali que para ali vão- • • para ver. A Praia da Rocha é linda . até hontem. aqui ou além. e que sendo umas das outras se não se conhecessem. com habites de economia domestica de que não se desembaraça quando veraneia. se o bairrismo algarvio quízer que a . ir é barato viver na cidade e ir umas horas na Praia. ou umas horas tomar banhos á Praia. no agradável convivio de pessoas que as circunstancias reúnem em transitória intimidade. geralmente pouco abonada. confundido ou isolado na multidão. ha uma Avenida. de manhã. E' pouco. como hotel. bom ar marí- Esta clientela é muito reduzida. do Algarve. um pequeno e um Casino. mesmo sem tomar banho. por expressa recomendação do medico. a fazer vontade de iantar> estendido m areia. lambem ha quem frequente as praias. ou sim- plesmente para encher os pulmões de timo. quem lhe praias do é a única Praia prefira o Monte Gordo. desconhecidas. aparte algumas casas modestas de habitação. e a das pessoas que vão serem vistas. Mas poderá ser mais? Sem duvida. amanhã se crusarão na rua. na Rocha. para tomar ba- nhos. que não precisa de licença de ninguém para uma das melhores Não é cómodo nem mundo.

fácil teria Muito mais sido fazer Monte Gordo. um Palace. um Paiz de turismo. tas em relação á qual Portimão é beleza. que viesse dos Paizes se concluíssem ricos alastrar nas costas do Algarve. que os hotéis. As estradas. contando com os americanos de revêso. tanto servidos. que fazer Monera servir os seus próprios interesses. valiam menos. na inteligente previsão duma onda de Turismo. por espe* favor da Natureza. ma- gestosa Praia se desenvolvesse- E' de recear que suceda coisa parecida da Rocha. anos principiou-se na Rocha a construção d^um um grande Hotel.! PORXERROS E VALES Praia da ciai 31 Rocha seja aquilo que pode ser. da com a Praia como cerfres- mães inveiosas da filhas. por motivo da Exposição de Sevilha. mocidade e da cura das Ha Hotel. Real não soube ver. o pon . Talhou-se á grande. por de dinheiro. e desde ha muito. Villa te Gordo mais bem quanto mais aquela ampla. sob este ponto de vista. parando as obras falta pouco depois de começadas. sem contar com uma bôa do districto de Beia. ha pessoas inte- ligentes convencidas de que basta a um Paiz ter boas estradas e bons hotéis para ser.. querendo sêl-o. em numero de alguns milhões Em Portugal. antes do prodigioso desenvolvimento que tomou o automobilismo. chaclientela mando e da para ali muitos veraneantes da Extremadura Andaluzia. Era de esperar que essas obras agora. a tempo. ou- tros descendo o Guadiana. uns levados pelo comboio.

que o nosso íeuriste não pode levar á paciência plo. para evitar perigosas ilusões. fazer as suas excursões. o leve d'aqui para ali. repugnandolhes. nos hotéis em que se abrigam. cabeça rachada ou com um braço partido. essas pessoas exigem apenas. ou não tem á mão. a tratar de negócios ou simplesmente a divertir-se. . uma camionete que. Essas pessoas. cora a. e o nu- mero de pessoas que podem deslocar-se a dentro das fronteiras. sem hábitos de estroinice cara. fora. mas pro- porcionando lhe a maneira de com menor dispêndio e a horas mais cómodas.. las por índole e por educação. económicas sem avareza. so- bretudo. por uma bagatela. —é que no Palace de Lavabaros. de Lisboa. turismo e com que nós podemos contar é o in- convém. boteis. fugindo ao ram ram caseiro para fazerem turismo. não esquecer que a nossa população é escassa. é muito diminuto. aceio e comodidade. . isso é outra coisa. por exem- lhe apresentem uma conta como no Avenida Palace. atirar dinheiro pe- janelas tão pouco civilisadas que não gos- tam que as roubem. uma nem ter cosinha que nem relativamente á quantidade relativamente á qualidade da alimentação. para o serviço do publico. 32 POR CERROS E VALES caminhos de ferro transportarem os viajane comodidade. Quanto aos O terno. Ha uma coisa. to era os tes com rapidez Presentemente só utilisa os comboios quem não dispõe d'um automóvel. fazendo sem ostentação a sua vida ordinária. as faça saudades do seu pot au fea.

lá. agora utílisassem para o á vontade das conversas noites inter amicõs. rio. o castelão ? 3 . —E vive ali. o que obrigaria a ser- pente a mudar de tatica para a induzir em pecado.não fosse a mais linda fruta que havia no Paraizo. com pre- A que esplanada do Castelo poderia ser aproveitada. pêras ou maçãs que. propriedade do Estado arrendada por noventa e nove anos a um particnlar.POR CERROS E VALES Admite se fruta. lá 33 que n*uraa Província onde ha bôa Algarve. em grande parte. uizo da esthetica. começando por serem desagradáveis á vista. A veria facha Catarina ser até ao que se estende do Castello de Santa extremo da Praia das Mesas. acabam por ser repugnantes ao paladar ? As arvores que Deus tos fez nascer da terra. de* varanda aberta sobre uma o mar. frente. prolongando-se a Avenida até ali como um eirado deixassem os mouroS) e que os banhistas calmosas e luarentas. na mesa dos seus hotéis se como no apresentem uvas. e ção do mundo. na criavista. mas já parece que a tendência é aproveiíal-a. em Em do outro lado do encarrapitado numa ponta de terra que entra pelo mar dentro. telo fica o Casde S. enfeitiçando os olhos e por eles excitando o paladar. talvez a mãe Eva ti- vesse resistido á tentação. ]oão. o que sem duvida valorisará os respectivos terrenos. eram agradáveis á saborosos* os seus fru- Se a maçã. o que se fez. para ruas ou avenidas.

sae da gare de Portimão. em esquadria. as figueiras nha. . conhece-o. como na orla d'uma charneca em cha- mas. to- vindo de Lagos. As amendoeiras. completamente já dão-me a impressão d'arvores reseças. Coelho de Carvalho. Terras vermelhuscas. — Conheço. para não dizer mais áspera. Vou notando te detalhes da paisagem. um jarrigorosamente em lihorta ou nuas. Agora está cá- i — Quem ctadura. todo murado. com certeza. de dsta. vis atingidos pelo limite São quasi seis horas da tarde quando o comboio.34 POR CERROS E VALES — Passa a maior parte do lempo em Lisboa. perdidas para a floração. diferente também da paisaBeira. Faz calor á beira do rio. é ? — O dr. gem da e em nada semelhante à paisagem alemtejana. até S. cheias das as carruagens de segunda e terceira. O dr. mais severa. perici- — Ou9Í dizer que o governo o considerava goso. menos cariciosa á retina. como se fosse uma dim. tive- ram preso no Nunca se soube porquê. E' uma das victimas da di- — E' verdade. por ser chefe dum grupo de revolucionários de idade. Passou de dois mezes que o Aljube. por não circular nos seus vasos esclerosados ceiva abundante e fecunda. entre Poço Barreto e Alcantarilha o maior figueira! que ainda vi. muito diferen- da paisagem minhota. Partimos de Tunis ainda com bastante sol.

a mais fina leve. iornada em automóvel. ter Fecho os olhos sem somno. picadas de montado. . e estendo-me para me erguer na Estação fazendo o resto da em que havemos de sair. uns quinze ou vinte Uf ! Sinto a impressão.! POR CERROS E VALES Bartholonteu de Messines quasi não se notam dentes entre branco e 35 aci- de terreno. de que me tiraram de cima. o tempo refrescou. coisa de poucos minutos. ao meter-me na cama. um grande copo de agua das Caldas. e tenho por certo que bebendo agora. coberta de restolho amarelo. tenho por certo que levaria a noite dum somno. dormindo como um justo. a mais agua que ainda bebi. dá-me a falsa impressão sal- de que vamos atravessando terras íranstaganas. como se tivesse febre. fresca como na fonte. Escalda me a boca. a Serra de Monchique. . e a planicie. azinho e sobro* Escurece só . .

.

porque era ao mesmo tempo cozinha. A casa de fdra. a não ser na qualidade do pão. que para os criados era de toda a farinha. As em ondas de grande amplitude. alguns ainda no velho outros de construção moderna. lavrador habita. searas. cobertas de telha vã. a mais espaçosa. e para os amos era de farinha espoada. as excepções do estilo. e os casaes. Por via de regra os amo% comiam junto da chaminé. aparecendo in gurgite vasto. Montes em que o estilo. ares de trovoada. rouparia e casa de jantar. de forma rectangular. dão aos cam- pes a aparência os dum maré magnam. A la- sobremeza era um luxo a que não se davam os .Pelos campos Céu nublado. os criados em frente da porta. os Montes da minha eram palhotas de era a taipa batida. são bem os raros ravegantes do poeta mantuano. casa de entrada. incul- cando desafogo e comodidades. e em pouco diferia a comida d'uns e outros. peça principal. Com infância. calor húmido.

prato de grandes ou pequenas dimensões. be- bendo-o a ganharia pela tijela. o uso do garfo. também a casa de fora era casa de amassaria. e a que corresponderá. participavam d'este luxo culinário. praguejando á sua vontade quando a sovela não furava ou a linha era quebradiça. de maior capacidade que as quartas em barro cozido. a não ser melão ou melancia. Ali se peneiali se cardava a lã . cantando e batendo sola. por via de regra o mais geitosinho. quando o mau tempo o não deixava trabalhar na rua. raras vezes ao almoço. ali se amassava e tendia . e bebia-se o caldo pelo prato. menos quebradiços que o vidro. eram a jarra que servia ao lavrador para beber agua. os que faziam horta . O quarto em que dormiam os lavradores. ali trabalhava o mestre sapateiro. O adven" do guardanapo nos usos quotidianos do lavrador» inicio d'um periodo de civilisação ainda decorrente. conforme o numero de servos a que o patrão dava comida. os que tinham yinha. N 'alguns Montes. com aza. o meu era um d'eles. muitas vezes servindo de púcaro a tampa dos cântaros de cobre. mais cedo ou mais tarde. rava. pelo grosso da população indígena. em Africa. de maior duração e memarca o nor preço. mas então os cria- dos. servia para receber as . porque á sua mesa só ia um prato — o que servia para a carne e legumes. Também o copo chegou muito tarde á mesa do lavrador. Comia-se a sopa com o garfo. ao abrigo d'uma parede. uvas. com bastante frequência ao to jantar.38 POR CERROS E VALES vradores. o púcaro e o cocharro.

para ca- sabeques ou vestidos . que se conservava enrolada para servir era tão soleranes ocasiões. quem dormiu. cheias de trigo ou farinha. produtos da industria algarvia. beberricando os ca- valheiros. dormiam n'outra casa. como não dos com poucas excepções. — lenço de cinco pontas — e limpava-os aos safões. as criadas. junto á mesa dos ganhões O lavrador. encostado á parede. O homem assoava-se aos de- . emquanto as madamas se entretinham vendo os luxos e a opulência da casa — fazenda . nos velhos tempos que rememoro. não era ne- de tudo o que fosse além das rudimentares necessidades dum campónio. o mesmo para todos. atapetado com uma esteira algarvia. em cima de um enorme caixão de castanho. As raparigas. mulher de jor- que usasse meias. Quando havia filhos e os rapazes dormiam n'uma casa. e logo a lavradora apresentava não eram de ceremonia recebiam-se na casa d'en- uma garrafa e um copo. lenços de seda ou de algodão comprados nas dos de pano de lojas ou aos tendeiros filhas. não tinha o sentimento do conforto . sem fechadura.! POR CERROS E VALES visitas 39 de cereraonia. que também servia para arrumação de caixões. muitos côva- linho para lençoes e toalhas. as visitas que Irada. arcas de empreita. havia. Bera entendido. considerava timbre lhe da sua classe privar-se de quanto cessário. com Deus conserve por até ir muitos anos e bons a estudos. para os no Monte das Mesas. Não naleiro havia jornaleiro que usasse lenço de assoar. embora tivesse bastante de seu.

jaqueta. no verão. no pido. Também quando a tinha ves* ar. é um Paiz. a que nem sequer limpavam o suor. o lenço de assoar. se adregava trazerem -n*o. mas bôa meia de algodão mercerisado. . e o fim. e nas mulheres servindo terem na mão. muito dobradinho. nos vestia. planície. nos tempos quasi biblicos em que decor- reu a minha infância de labroste. em dias O era lenço. sacudindo-os primeiro. Corre o automóvel vias pela dr- estrada poeirenta. meias. todos os homens todas as mulheres e raparigas us?.m do campo usam lenço. entre sur- prezo e pasmado. Moura Pinto. aqui e além. Ligeiros acidentes de terreno. ao tida. cinta. n'um gesto rámulheres se assoavam aos dedos. as mais pinponas festivos. sem fecharem o a gente hori- que recua á medida que avançou. como os homens. indo ale á meia de seda. parece que interrompem a zonte. para o um pequeno lenço branco. cança os olhos a passeai os pela campina sem —O Alemtejo não é uma Província. ou então entalado na como hérnia mole. tanto nos homens como nas mulheres. em de reparação. não a meia de linha a feita nos vagares do trabalho á jorna. Hoje clássica as mais perluxas assoando se ao avesso do avental. homens enchendo-ihes uma algibeira da com uma ponta de fora.40 POR CERROS E VALES punho da as ás calças. um objecto de luxo.

POR CERROS E VALES
Resentem-se as searas da
falta

41

d'agua

;

os prados

ainda verdejam, matisados de

mil

cores,

mas

vê-se

que secarão de todo, em breves
a pedir chuva,

dias, se ás preces,

Deus

fizer ouvidos

de mercador.
bíblicos,

Não
os

se

pode dizer que sejam rebanhos
lado
e outro

de Absaião, por exemplo, os rebanhos que vea

mos,

um
Pinto

de estrada, enchendo a
dr-

boca d'erv3, nédios a esticar a pele; 'mas o

Moura
calcula

evoca os rebanhistas da sua Beira, e

que

a pecuária alemtejana entra por muito

na

riqueza da Nação.
dia
ter

A

verdade é que o Alemtejo, pogado, tão

uma abundância muito maior de

grande que chegasse, pelo menos, para as necessidades

do Paiz. Fazendo a conta ao numero de ca-

beças que corresponde a cada kilometro quadrado,
facilmente verificamos que esse
ferior

numero

é muito

in-

ao de Paises que não podemos considerar mais
por favor de Natureza, que o nosso, sob o
vista armentifero.
;

aplos,

ponto de

Não ha um palmo de terra desaproveitada a que não verdeja de trigo, cevada ou aveia, está preparada

devidamente para as sementeiras do ano prófeita,

ximo, excepção
tadas para

bem

entendido, das terras coi-

pascigo.

E

isto

causa admiração ao àr.

Moura
vasta

Pinto,

informado

de

que a lavoura, nesta
tiro,

região,

essencialmente agrícola, se faz a sana co-

gue, isto

é, pelo emprego dos animaes de meçar no boi e a acabar no burro.

O

Alemtejo

é,

de todas as províncias de Portugal,
fácil

a de mais escassa população, que não será

au-

42

POR CERROS E VALES

lem, regime de concentração á
sia,

mentar consertando- se o regime de propriedade que moda antiga da Rúsa

que só poz termo a brutalidade revolucionária que gerou o bolchevismo- Na Inglaterra, paiz de latifúndios, ainda não ha muitos anos havia lanálot'
ds possuidores de mais de quinhentos mil
de terra cultivável
!

hectares

Parcelar a grande propriedade,

não indo até á pulvcrisação, é aumentar o numero
de
ção.
proprietários,
isto
é.

erear

núcleos

familares

que aumentem rapidamente o qaanium da populaActualmente só
fala

dos incultos do Alemtejo

quem

não conhece a província, o alfacinha que
á ideia,

em tempos

ouviu falar das charnecas alemtejanas e se aferrou
inteiramente falsa, de que elas ainda hoje

cobrem,

para regalo das cabras, dos coelhos, rapo-

sas e lobos, regiões

sem

fim.

Que
falar

seja possível tirar

do chão cultivado

um
;

ren-

dimento
tivada,

maior, é coisa que ninguém contesta

mas
que

de incultos n'uma província tão largamente culé dispauíerio fora das marcas

— mesmo

as marcas sejam colocadas a

grande distancia

uma

das outras.

Corre o automóvel pela estrada poeirenta,
de
reparação
;

em

vias

as

searas

ondulam, os
pouco,

trigos e as
;

avelas, ainda verdes,

mas
as

sentidas de falta d'agua

a

temperatura baixou

um

quasi nada,

e

o

vento do-se

rodou

para

bandas

do

leste,

nublan*

mais o céu

em

todos os quadrantes. Dizia-se

POR CERROS E VALES
n'outro

43

tempo:

— Quando

Deus

queria,

do pego

ventava e do norte chovia.

Anda tudo muito mudado do que
Patriarca
a

era

;

mas ainda
Deus não

ha uns sígnaes quasi certos de chuva, e isso levou o
decretar

preces

- como

se

soubesse que a estiagem, a prolongar-se, nos daria
mais

um ano

agricola ruim.

minha irrehgiosidade vem de longe, dos primeiros anos do Lyceu, e recordo-me de alguns cachações paternos no decurso de philosophicas contraversias,

A

discutindo princípios ou

mandamentos da sagrada

theologia.

Porque é que os lavradores não pedem a Deus
trigo,

que lhes encha os celeiros de

em

vez de lhe

pedirem boas colheitas ?

Meu

pai,

homem

de letras gordas, nas suas

dis-

cussões comigo, ainda franganote, empregava frequen-

temente o argumento ad-hõminem, ás vezes sob a forma de puxão de orelhas. As suas crenças eram sinceras
;

o seu culto esterno era modesto, impregnado da

modéstia de toda a sua vida. Tinhamlhe ensinado,

em

pequeno,
Igreia, e

as

vulgares

doutrinas

da Santa

Madre
corrifi-

como em grande nada aprendera que
deformidade do seu
tinham
criado
a
ele.

gisse

essa

espirito, criou os

lhos

como o

Porque

tinha

por verdades absolutas, verdades reveladas, as pretendidas verdades da Igreia, negal-as parecia<lhe ne-

gro

pecado,

justificativo

de condenação eterna

;

não

observar

os preceitos e mandamentos de Deus, en*

sinados na letra

do cathecismo e na catequese dos

44

POR CERROS E VALES
falta

referendos, afigurava- se-lhe ser
tiva

grave, impedi-

de entrada no céu, logo a seguir á morte, sem

estagio no purgatório.

Não podendo discutir comigo, porque ainda sabia menos do que eu, liraitavase a pôr-me objeções. e quando as minhas respostas lhe cheiravam a irreverência, ou me admoestava com severidade, ou me castigava com brandura. Uma noite, corria o mez de julho, estávamos deitados era cima do calcadoiro, guardando a eira, emquanto
os

ganhões ceavam, eu, meu pai e minha
estrelas,

mãe.

O

céu,

recamado de

como o

diria

um

vate

romântico, tinha a côr violeta das ametistas, e a lua,

muito redonda e muito branca, parecia a hóstia con-

sagrada sobre o

altar

do

infinito,

com

diria

o

sr.

Leo-

nardo Coimbra.


disse

Está

muito bonita a Estrada
pai,

de Santiago

meu

os olhos cravados na constelação que

tem este nome.

—A

estrada de Santiago ?.

.

Onde

é ?

Apontando com o dedo, desconfiado da inocência
da pergunta, meu pai respondeu:

— —

E' aquela.

Pode

ser

que eu

esteja

enganado

;

mas pare-

ce

me que

aquela estrada não é a de Santiago, é a

de Odemira.

— E'
lhe

muito engraçado, o menino

!

Se é

isso

que

ensinam

no Lyceu, dou por bem empregado o

dinheiro que

me

custa.

POR CERROS E VALES

45

Passados alguns minutos, como se reatasse uma
coRçersa interrompida, monologou:

Tudo o que

existe,

alguém o

fez.

Se Deus não
foi

é o autor de todas as coisas criadas,

quem

então

que as criou ? Eu não


~

fui

;

mas

se

tudo quanto existe
antes
d'ele
criar

foi

criado,

alguém
se,

criou

Deus,

o

mundo.
Cale

não diga asneiras.

Não

sei

onde

me

tenho, que lhe não arranco

uma

orelha.

Se entre ambos não estivesse minha mãe, sempre tinha apanhado a minha conta.

Já o

dr.

Moura
lhe

Pinto se

ia

convencendo de que
região

não

'flores

silvestres

nesta

alemlejana,

quando os clhos
colorido,
gista,

caem sobre um tapete ricamente

como

se fosse

uma

tela

de mestre paisa-

tendo reaiisado

uma

fantástica

combinação de

cores. Mais adiante, o vermelho das papoulas destaca

n'uma seara de trigo, como grandes pingos de lacre no verde d'um tapete movediço. Uma pequenina mancha de esteva curta, constituindo reserva de lenha para o forno, sorri aos nossos olhos na brancura da sua flor de intenso aroma,

tocada de vaga melancolia.
tre

E

vêr

uma

chãsinha en-

duas pregas de terreno, e logo o doutor Moura
ali

Pinto afirma que

há agua, mais funda ou menos

funda, pouco importa,

mas há

ali

agua

em

quantidade

passa e — Se O voro . não se esquecia de dizer que seria lógico carne. isto é. o carneiro. homem no as mulas. com arvores de fruto á mistura. o por- o boi. não citando mais para não Certo é que o alemtejano é um o animal essencialfacto. 46 POR CERROS E VALES para satisfazer as exigências suficiente duma horta ou pomar que alegrasse os olhos de quem garantisse um bom rendimento a quem o possuisse. comam como também alongar a lista. morre de inanição. mente carnívoro. isto fosse meu !. Sou|a Martins» citava-o aos seus alunos. não consta que a não . E assim vamos. comessem osso para porem que os que comem carne para porem osso. . de não vêr estes vastíssimos campos salpicados de hortas. e fazendoihe a critica merecida. já grandemente . Não comem co. e isso explica que ao dr. homem nem sequer é concebível sem sem o esqueleto. correndo o automóvel pela estrada poeirenta. Este aforismo de carniceiro deve ser de procedência alemtejana. os perus e as galinhas. comem os coelhos e as lebres. Moura Pinto causa estranhesa e desgosto. uma leira de couves repolhudas. constatando que as searas. e os que são colaboradores do seu trabucar de todos os dias os burros. A carne é que põe carne.. carne os animaes de engorda. os cavalos. nem sequer ao menos um pequenino nabal. carne. alemtejano é um animal essencialmente carní- se o sujeitarem á alimentação vegetariana do homem da Beira. sendo certo que a vida do ossos.

47 ainda podem dias. com a poda que se usa agora. n'um encantamento de beirão vida rústica.! POR CERROS E VALES prejudicadas pela estiagem. em fartas produzindo trigo e aveia. terras brancas que antes do emprego dos adubos empobre- ciam o lavrador. Dizem . ser boas. que o dr. Campos de semeadura. calor de estufa. se a chuva não tardar por muitos Anda ionge. abrem- á luz e ao calor. numa abundância nunca sonhada. Moura Pinto. tão limpa a terra. ao longe. se bem precisa é. Moura Pinto uma impressão justa desta parte do Alemtejo. qua- tempo bastante para realisarmos o que talhei de molde a dar ao dr. como grandes taças que o enche prodigamente de energias fecundas. tão bem tratadas as arvores. lado nesta freguesia. a formar-se iá uma trovoada. ligeiramente opressivo. muito mal apreciada. mas o dano não demorasse por algumas horas. ao sair vila. azinho e sobro. e agora se desentranham colheitas. que seria grande. . menos sobro do que azinho. muito para os lados de Sines o calor agora é maior e mais húmido. programa d'esta jornada nhecida- vel. V/amos ter chuva ? Deus a traga. por não ser bem cotro a cinco horas. pároco coda go. exclama amiudadas vezes — é um parque afeito á As se sol azinheiras. E aqui entramos na zona dos monta- dos. Atravessamos Castro Verde sem parar o automónem sequer para cumprimentar o meu velho amipadre João António das Dores Alho.

no dizer de Musset. hábeis para se carregarem de folhas e de frutos. e na realidade não oferecem ao caminhante. verdadeira sem exageração i Não passa ninguém. que desde Vendas Novas vem encantado cora os montados alemtejanos. o livro em que se admira bretudo. andam- se léguas e léguas. nos esbraseados dias de canicula. deixando a roais abundantemente provida de dr. de que também sofrem as oliveiras. Como no Jocelyn. E' deste parecer o Moura Pinto. letra. não se vê ninguém . alon- ga-se a vista era todas as direcções. afigura-se que seria mais conveniente desembaraçar apenas a arvore de toda a madeira . diferente dos tros guarda-soes. como eu. é que a velha cantiga O Alemtejo não tem sombra Senão a que vem do céu pode tomar-se á poética. as azinheiras não podem oferecer. inútil.chuva. adoptada esta raoda arboricòla. como sentinelas perdidas. os entendidos na matéria mas aos leigos. vagamente pensando nos soutos da sua Província. o regalo dura guarda sol. aldeia.POR CERROS E VALES que é bom assim. era ou- não servir de guarda.brosas- Assim tosquiadas á escovinha. pernadas sãs. le génie de lite la faci- i . mal se lobriga so- um Monte ou outro. sem encontrar uma e. a comodidade. Agora sim. formando tre- chos de floresta. arvores de mair porte. copadas e um.

não foram anios nem demónios que os fizeram. embora o gado desse pancada. um pastor olha pelo seu rebanho. campos que se estendem a perder de vista. vestido de peles. apertada entre modestos uma ribeira que alarga em pego. a vêr quem passa. sem ex- cluir os que são cobertos de arvoredo. . podendo ser aproveitada a sua agua para a irri- gação das margensE' o regas! O lavrador alemteiano vive na obcessão da seara. a cabeça. sem a pecuária. ni berger. fazer represas. Aqui nos aparece agora. ampara o gado. lá em baixo. uma espécie de fatalismo musua jo- sulmano pautúa o complicado mecanismo da jogando na lavoura como outros fiado gam na adversa. que nem sempre é Sentado numa pedra. O ajuda. rasgar é coisa que o não preocupa vida agricola. terra. do lado dum tremez curto e ralo. Abrir poços. lotaria. a meio duma encosta suave.POR CERROS E VALES Monosil Móis cherchait quelqiCun qu'il pút interroger 49 datis champs déserts. valas. isto é. Comtudo o trabalho feito nestes campos. ni troupeau. outeiros. muitos moios lançados á muitas cabeças de gado pastando nas suas herdades. é de resultados muito problemáticos. por ordem de Deus ou do Diabo. vasto pego que talvez não seque no verão. ouvindo o barulho do carro. do lado do pão. todos amanhados com esmero. não vá algue não desvia . que a lavradoria. na sorte. á direita da estrada.

quando no campo maioral á frente ou atraz do seu gado. en- vejo um costado ao cajado. Mas esta falta não se nota a dis- tancia. levaram sumiço. e com o calção os botins. e eu tenho a impressão. estou vendo algum em pé. para estudos etnográficos. no Alemtejo. suavemente convexo na parte supeA'parte o chapéu. e mentalmente repito esta cantiga passada de perfume silvestre Toda a vida fui pastor. A moda! Vestem hoje as raparigas do campo como as me* ninas da cidade. não é o que era noutros tempos. Os sapatos brancos e grossos. aparte o chapéu. de fivelas amarelas. a aba larga e rija. mesmo sucedeu ás mesmo dando á es- tempo uma comodidade e uma . é talvez o único homem do campo. Tenho uma chaga no peito De me encostar ao cajado. com borla.: 50 POR CERROS E VALES cabeça mais gulosa fazer dano ]á ma na seara alheia. que rior. o pastor. ha dezenas de anos. a jaqueta será em breve uma peça de nuseu. como as jaquetas. e o vermelhas ou pretas. uma espécie de chapeutoldo. tenho a impressão de que dos maioraes da minha recuada triste re- meninice. que eram ao garridice. Toda a vida guardei gado. o maioral d'ovelhas. abundantemente cardados. Desapareceu o calção azul. que ainda não sacrificou de todo á moda a originalidade. o pitoresco da sua indumentária. cintas.

todos eles lhados. porque aprendi isso nos livros. correspondesse a par- ticularismos de strucíura. a uoi pouco ao Deus dará. trajados um realce que en- tontecia as cachopas. porque as carque impropriamente se chama estradas. nestes animais. na grande familia porcina. Ontem a moda. hoje é a côr E não pode o lavrador furtar-se ao despo- tismo deste capricho. como se a côr. luminoso como no inverno. e desse giro resultando os dias e as noites. Tdut passe Até a côr dos porcos sofre os caprichos da moda. quando está na berra uma côr. que o sol que o põe. se tal sorte.• POR CERROS E VALES belteza dos 51 moços bem . Queima-nos o sol. Andamos reteiras. a pouco mais de meio ca- minho do seu giro. . um sol quente como no verão. era a côr preta amarela. porque o negociante. que o sol está parado. . sol vai alto. Mas habituei-me que o sol se a dizer. Eu bem sei. sol como toda a gente que o nasce. não pega na outra senão por já feita. que a sciencia nega. e estas expressões impli- cam um conceito de movimento. notando-se apenas picos de côr preta nas grandes pearas. multiplicam e anastomosam de seria a gente escapar-se que mais fácil do labirinto de Creta que tri- orientar-se neste dédalo de caminhos. Certo é que na longa caminhada ainda não sal- vimos senão porcos amarelos. aptidão maior ou menor para a engorda. vai baixo. baixo preço. implicando uma . girando a terra sobre o seu eixo.

his' que ! ele realisou esse milagre. mau balhador. de investigação . logica- mente se condue que primitivamente o Sol movia-se e a Terra estava quieta. para se redimir em sucessivas incarnações. já sabendo que e gostando eletricidade se desenvolve por atrito. á nossa aproximação. . um burro es- canzelado ergue filosoficamente a cabeça. menina ? — E' a igreja de Nossa Senhora — E aqui — Isso um padre. A Biblia Josué fez parar o sol. durando e^te fenómeno cosmografico até ao fim das idades biblicas. embora por aqui transitasse algumas vezes. e resam velhas cro* nicas.52 POR CERROS E VALES mas que os nossos afirma que sentidos afirmam. e tem os ares duma alma penada. solto de pé e perna. completar a derrota dos Filisteus. e do ceu reenviado á terra. Além nos aparece uma dias capelinha. perdidas para os trabalhos torica. dando para á aparência o valor de realidades. morto em flagrante pecado. — Que igreja é esta. modesta capelinha de que eu não con- servo memoria. diz-se missa ? ! sim Ha que séculos que aqui não aparece . aficionado das romarias. das Neves. os redactores das Escrituras. de me I eletrisar — Nosso Senhor tenha dó da minha alma Perto da igreja. tal- vez a alma dum velho sacristão. com três mora^ á roda. a moço de sangue na guelra. é certo. mau cantador. puxando-lhe pelo rabo Como não ç de admitir que errassem tão grosseiramente.

muito das minhas relações. com divisórias de taipa» Temos a boa sorte de mostrar ao dr. em ordem morada aqui. Não o dê á Senhora. e vamos de proa feita a S. guel. são dispostos Os povoados. e a rodar para os oitenta anos. houvesse necessidade de poupar espaço. Moura Pinto por um Monte sua dos antigos. desemba- mãe de treze fiavó d'uma cabazada de netos! Não quere deiir xar-nos embora sem jantar — sempre se arranja . Também em que o . conservado quasi intacto na pureza primitiva. como no começo d'uma ou no decorrer d'uma mudança á pressa. tudo em aparente desordem nem o pele-mele de camas. Beira. viuva de ha poucos mezes. três ruas e meia. casos não formando arruamentos. com buracos para meter os garfos. Moura Pinto o dispositivo acha interessante mas nada cómodo tejo. Moura Pinto dá á rapariga : uma nota. urbano dos pequenos núcleos populacionaes no Alemas casas encostadas umas ás outras. Ha quantos anos eu não via a prima Anna da Luz. fazen- do-lhe esta recomendação escusada — Isto é para — Pois não dou de empregar ? si ! . rija instalação. Nem sequer falta a cana. morada além. na dispersa. arcas e caixões. ainda raçada. cada pequena aldeia fosse como ou como se se um grande familisterio.POR CERROS E VALES 53 O dr. havia ela Deixamos á direita a pequenina aldeia de AlmeiMi- rim. cima da meza dos ganhões. . lhos. na maioria dos O dr.

a olhar vos. bem conser- . O sino. na sino. devendo senão o favor de me não tratar mal. ornado de hervas modo a tornal-o macio. por baixo do ninho da cegonha. á distancia de um tiro largo espingarda caçadeira. as paredes. como de era sua obrigação. entrelaçados com muita e palhas. roida pelo tempo e pelo bicho. ergue-se a toda a altura ção. curiosa das suas pernas esguias. habitantes do em compartimentos separamesmo prédio que mal se conhe- cem e nunca se visitam. e em mosaico. um pouco feito vendo a mãe aos saltos. o chão quadriculado. pronta a erguer vôo. res. A Igreja fica perto. Miguel. Não me dispenso de ir apresentar os primentos a S.54 POR CERROS E VALES cõisa que vocemecês cõ/nant alguma hia — e eu ter. pelo lado de fora. de gravetos ásperos. um lhe dos santos por quem tenho muita simpatia.se no seu ninho. se a jornada fosse menos commeus cumnão prida ou os dias fossem maiores. bem censervada por denem grande altura. ainda pequeni- nos. comodernos e vulga- bertas de azulejos a duas cores. e mal se apercebe da nossa aproximae timida. que não veio ha muitos anos. erguem a cabecita acima do rebordo do ninho tanganhoso. tro A Igreja está mais que por fora. com modos interrogatiOs filhos. rota a peque- na trave que o sustentava. muito á sua vontade. de arte e solidez. passaritos de varias ordens instalam. Uma torre do cegonha fez ninho.lhe • feito a yontade. Por consentimento tácito da cegonha. desequilibrou se mas não caiu. dos.

as que não podem entender. — . atre- Mas contei. bons quarenta anos. senhor ? Conte lá. que o santinho ainda se lembra de mim. tinha vida.. em estado de dedum sentimento que teve raizes elo duma tradição que vem de lon- de muito longe. mas bem podiam os devotos da religião conserval-a cência. As andorinhas fazem ninho dentro da Igreja. Divino Arcanjo . sem violência. . para lhes alugar quartos. —fui eu que o paguei. O sermão dessa festa talvez não soubesse?. —O então. duma irreverência me fez hesitar por instantes. que deve ser inte- ressante. a ultima vez que nos vimos. verdede. e no domingo de Páscoa. nos paroxismos da Mistória. as raparigas frescas — ciosos como as ervilhas em flor. — E' Igreja — Ha quanto tempo não o via!. Eu eslava a ferias.se com a cegonha. os rapazes audacomo lidadores de justa. Notei que o Diabo. ge. por ocasião da Semana Santa. a impar debaixo dos pés do Santo.. e é como a poeira das lendas desaparecendo. 55 Não ha razão para reclamar para esta Igreja a cathegoria de monumento nacional. na Igreja. um cho buliçoso de romeiros empapoilados. Arranjo as coisas de modo a ficar só. aproximando-me do altar. POR CERROS E VALES v7ado. a trasbordar. testemunho na alma popular. ha . e jubiloso. constato. que um ar escarninho.. estava a sua ran- em festa enchia o adro. em casa de meus pais.

O padre agradeceu o generoso oferecimento. e vai o padre diz a meu pai que ia pedir-lhe uma libra para comprar o jantar aparecera murcho da festa. ao seu costume. não se zanga. Conversa para aqui. nem cinco réis partidos ao meio. disse-lhe que abalasse sem demora. em passando. se pôs a chorar também. de como um saco vasio. Claro está que era esta conversa acompanhada de bebianga. a não o beber pelo caminho. — Se íu quizesses. passan- . Dito e Chamei o padre. que você gasta -o na bebedeira ou no jogo. Não empresto. Soube mais tarde que o audacioso mariola. mas declarou que só o dinheiro receberia. Dinheiro. ali. que o pai. o que por um triz me não enche os olhos de lagrimas. vendo-o a chorar. isto lhe feito. Ofereceu-lhe sários para meu pai os avios necesle- um bom jantar de festa— pão. Descoroçoado. porque em casa não tinha coisa que se nem com que a adquirisse. á escolha. e a sua mulher e os seus filhos teriam de festejar a Páscoa fazendo cruzes na boca. dávamos a libra ao padre. a ponto de minha mãe. moscontrariamente írando-se o reverendo parcimonioso. e eníregan- libra. comesse. e um bar- de vinho branco ou ele. gumes.56 POR CERROS E VALeS manhã cedo. carne. se meu pai qui- zesse fazer a esmola de lho emprestar. ril uma galinha ou um galo. do-lhe a cora um aceno de mão. o padre Laricas. o feverendo chorava como — uma Magdalena. obrigan- do-se por juramento. conversa para ali. tinto. como quizesse.

familia a jejuar n'esse dia. á Praça. encontrei Monte. tomande lhe ser pago o sermão. poucas vezes indo além dos três quartinhos tro.. e ali derreteu a libra. Chegando mília triste. mais Dias. por feliz acaso. bebendo e jogando até ao ultimo real. se não lhe valesse a genero- sidade d'alguma alma bemfazeja. Miguel. teve logar a sua Senhor todos os S. aqui. porque não havia di- nheiro para o sermão. Ora sucedeu que. achando- me no Monte> festa. de carriola. e o padre declarara terminan- temente que não pregava se não lhe pagassem. com meus irmãos. comendo. amezendou na taverna do José Dias. como era sermão do enconréis- queria que lh'o pagassem por cinco mil — Estou a vêr o desfecho — disse S. três anos mais tarde. meu primo e seu que fosse dizer ao padre que pregasse. Jurei vingar-me. visinho. e ahi venho eu. mas aquele. em condenando a do que outro qualquer festivo. e a derretera na taverna do José Messejana. Miguel. lhe dissesse do tle a responsabilidade mas que não que eu estava na festa. convencido de que não seria possivel a vingança.. . O da padre era. o reverendo Laricas. como o Pa- tagonia de Coimbra. a gosar uma licença.POR CERROS E VALES 57 do por Messejana. libra o mesmo que me apanhara uma festa para o jantar da Paschoa. bebendo e jogando. O padre fazia sermões a preços vários. ficando os velhotes no armado o arraial. Disse ao lavrador dos Gregorios. já a fa- de orelha murcha. .

teve um froixo de riso. O diabo. Miguel que empenhe o seu valimento junto do Todo Poderoso. ficando a balança a oscilar por um bocado. tinha . e encarregou o primo Manuel de Brito de me dizer que metesse os cinco tostões onde eu teria metido o sermão. já muito prejudicadas pela estiagem excessiva. atrás do improvisado púlpito. de fazer boas pesagens. ouvindo esta historia. que o santo do. — Fique sabendo que eu fui um e dos grandes. porque inéditas- Dei cinco tostões ao primo Manuel de Brito. e antes que entrem os meus companheiros de jornada. • • entregar ao padre. pela maior parte absolutamente dinheiro. grande valimento. lavrador dos Gregoriosr com a incumbência de os • — — - Mas pagou?. senhor e possuidor de muitas herdades . se fosse tão malcreado como èle. sem duvida. e de tal modo entrou a distender e encolher os ia-se desequilibran- músculos da barriga. já incapaz. para que não demore a chuva.POR CERROS E VALES Fui pôr. Sinto passos no adro. espumando como um javardo. peço a S. e dizer-Ihe que já me não devia nada. como a da justiça.me a geito de ouvir o sermão. para que o padre me não visse» e dei por bem empregado o meu tempo» . . sob pena de se perderem as searas. courelas um dos maiores proprietários da Vila de Castro. e o meu nunca ouvira tantas e tão descompassadas asneiras. O padre vociferou.

e chefe de todas as potencias infernaes.! . que ninguém reedificará quando cair. caindo antes que as searas se percam. sagrado coração de Jesus aos seus méritos se e ha- — Tem bita muita rasão. consumindo nos desesperos d*uma sujeição inexorável os seus ímpetudo. a Senhora direita. nas Alturas. e S. 59 nos Hoje nada tenho de meu^ a não ser esta pobre Igreja abandonada. ha uma eternidade. POR CERROS E VALES rebanhos de gado como não havia outros aqui. amealhar como um avaro o dinheiro de esmolas e oblações. sítios. em vez de o empregar era bilhetes do tbesouro ou quaesquer outros papeis de credito valeu bem a pena fazer tudo isto. á minha como a Niabe da fabula.vprancisco á minha direita. mais pobre do que ]ob. — Ainda tem a jornada comprida ? — Preciso a Santa Luzia deverei chegar Ir . invertendo-o terras em e gados. Valeu bem a pena batalhar contra os demónios. Roubaram-me tos de vingança impiedosa . para me ver agora votado ao mais injusto abandono. . — Pois não chegará a casa sem ter chovido. vencendo-os. adorado Senhor S. aqui metido entre quatro paredes. sempre calado. em Se isto é vida. taciturno. a casa á boca da noite. ás vezes ião neurastenico que se põe a brandir as suas armas gestos irrespeitosos. Miguel gloria acrescentaria mas grande quizesse interceder junto de quem tudo pode. triste dos Prazeres. para que a chuva não se demore. por amor dos homens ter debaixo dos pés. com uma pedra na mão. . .

aldeia com geitos de Vila. • de palha com aveia á mistura. que palavra do santo não volta atraz. o sul. tinham por certo que ela eniste. é e insultos. de pequenas casas e grandes quintaes. entregou á junta de paro- quia as — não tinha as honras de behetria. que durou até se construir o cami.. sendo-lhe oferecido um banquete. quando Deus local. para lhes patentear o seu reconhecimento. nha do Santa Engracia. Miguel! Se recolho a casa molhado. e ele então. uma espécie de obras de a respectiva Estação. d'uraa lentidão desesperadora. ter caído na ribei- . foi fosse servido livrar a que lhas entregassem.nho de ferro do Algarve. acreditavam piamente na tradição referida e sem nunca terem visto a famosa chave. a caminho do Os casevelenses recebe- ram-n'o fidalgamente. passou D. segundo ria uma tradição local. para volta. a curta distancia do caminho de ferro. como sem a dos reis. Miguel. Agora já vamos norteados e como a estrada é re- Utivamente boa. Meu rico S. Casevel — chaves do reino. sendo termo da liPoucos beneficios colheu d'esta circunstancia favorável. por largos anos. quando eu era menino. vá de acelerar a marcha. Em dição fas o régio também de tradeportado recebido com chuAlvalade. 6o POR CERROS E VALES Passamos a uns três kiloraetros de Casevel. quando por exilio. Pessoas que eram velhas. ficou depositaali das chaves do reino. na Nação dos perigos do liberalismo.Pois Casevel.

de tons bens marcados pedra Aqui nos aparece uma quintarola. no propósito de prender pelo nariz os homens que não se deixam prender pelo que os cheiros usa beiço. evolando-se dos prados floridos. E' uma ilhota. Um mas dum milhão de til flores. terras primeiro lavradas e logo a seguir gradadas. algumas dando a impressão de lhes terem passado levemente por ci- ma uma terra. mais agradável fortes que o madamismo das cidades com abundância. admirável sintese que a chirealisar. para melhor aproveitamento do terreno. 6i darei uma avultada esmola para arranjos da sua Igreja. na superfície guns hectares. escova de cabeio- E como é varia a côr da d'al- nua de toda a vegetação.! POR CERROS E VALES ra. não faltando o sermão de encontro. mica dos laboratórios ainda não sabe e ao mais sub- mesmo tempo mais delicioso. perfume vago chega até nós. género padre Larica. com musica e fogo de vistas. de forma tringular. em dia certo. vago perfume que não é d^uma fiôr. Acaricia a vista a aparente macieza das terras pre- paradas para a sementeira próxima. e farei com que os parentes e pessoas ami- gas festa que tenho por estes sitios lhe promoyam uma no estilo da que todos os anos lhe faziam. desde o cinzento claro até ao barrento quasi negro— uma reduzida escala cromática. um cercado em solta. um tufo de ver- .

Romão> curso d'agua que não é navegável nem flutuavel. Avenida que devia chamar. estrada é péssima. da freguesia d'Ourique. A ser. que arranca ao Moura Pinto uma já exclama* parece a ção de orgulho Beira. bordado de grandes sobreiros. passando por Messejana. visto ser este o nome do lavrador que a mandou construir. aos trôpos-galhôpos. regionalista: — Isto sim. gando a Extremadura com o Algarve. ora a estreitar-se para caber entre rochaS) ora a dilatar-se em pe- gos de considerável fundura. E aqui temos a Ribeira de S. cu que umas ás outras as ligam. Para a rega d'esta horta. dura. um bocado de yinha rasteira. caudalosa no inverno. de suave declive. com searas verdejando nas chapadas. quasi seca no verão. á .se Jacinto Paes. verdejando igualmente os pequeninos vales que umas das outras as separam. uma bôa estrada nacional. velha carreteira que devia li- ha quarenta anos. a um lado e outro da estrada. uma nora meio da propriedade e um velho poço entalado na parede. vindo lá de cima. Não ha remédio senão ir devagar. A ponte é uma construção de grande solidez. e sobreiras. os terrenos agora. Vamos entrar n'uma ampla Avenida. na forma de anexin. feijão e hortaliça.62 POR CERROS E VALES dr. conforme aconselha a sabedorias das Nações. que é o que faz quem tem pressa. Aryores de a fruta. são ondulações cobertas de arvoredo. Acabou azinheiras a planicie .

nos anos bons. atiran- do. a não ser as que sstavam á borda da estrada ou as de granatravessando a estrada. Sempre via coelhos e crescia-me uma grande vontade de ser homem. porque assim m'o prometeu S. cortada pela Ribeira de S. pelo cair da tarde. Chegamos ao Poço Seco muito carregado de nuvens. e apezar d'isso explorada folha como se fosse uma simples •. que era uma aldeiasinha toresca. por muita que alta bastante 63 para que toda seja. elevada e húmida a tem- muito limitado o horisonte Choverá ? Tenho por certo que chove. nc interior d'uma herdade. montado n'ura macho ou n'um burro. Tantas vezes eu aqui passei. de porte. escolar de nove ou dez anos. em todo o caso antes de regressarmos a Aljustrel. car- regadas de candeio. Miguel Archanjo. lhe passe por baixo- Vamos andando gumas oliveiras por entre montados. as azinheiras misturadas com as sobreiras. mais logo. al- matísando a paisagem arboricola. nos afastados e saudosos pi- tempos em que a . Mais se adivinha do que se vê a imensa várzea de Alvalade. e mal conseguia vêr as arvores afogadas na charneca. bôa para trigo. povoando as encostas distantes. a agua.* Luzia.lhes quasi á queima-roupa. Romão. mais agora. Resolvo ir a St. um bocadinho confusa a visão das coisas. limpos de mato.POR CERROS E VALES prova das maiores cheias. pelo menos ser grande bastante para me servir d'uma espingarda. o ceu um nevoeiro esgarçado tornando peratura.

Horisontes cur- todas as encostas cultivadas. porque a Santa Luzia não chegaríamos com muito sol. um grande olival . colheitas. a vêr se consigo reconhecer. e a estrada. de numerosas e grossas pernadas. que ofere- cem ao transeunte. e ferias.64 POR CERROS E VALES visitei. gaiato como na ocasião. Grandes arvores. pela maior parte limpas ou po* dadas á moda antiga. o consolo bra fresca. aviado o taleigo para jantarmos no caminho. que por inculcas do servir em que entrei. mi- as casas. por mais alguns sem grandemente prejudicar as tos. acha-se em rasoavel estado* . Bôss searas nas terras duma sombaixas. entendida em moléstias Disponho-me rando todas a percorrer a povoação inteira. dum ver* dias. estava fui em de dez anos. e em Santa Luzia. encarregado de a pagear. que é Uma curva eis-nos lhos. minúscula povoação encarrapitada em rochas no sopé d'um monte. as duas únicas Catharina. de pequena corda e grande raio. Abalamos do Monte depois do almoço. destacando no ver- de escuro das azinheiras. . sustentando verdadeiros zimbórios. indicador de que a planta tem resistência para aguardar a chuva. o verde característico dos trigos ou hervas. no verão. ao que me dizem. uma d'o-> dfí estrada. vindo acompanhar a Maria em minha eu. de sadio. ha mais de cincoenta anos. casa. Quiz a moça compadre Rabino fora visitar a mãe. grande cerca. caso ainda existam. E' um passeio de três a quatro kilometros. quando muito. • de ruina.

já ào caminho para baixo d'uma velha sobreira. Haoia. o macho preso a uma damanducando a sua ração de aveia. para abalarmos cedo. a todos dando trela.Deus a tenha — era uma famosa rapariga. bem desenhados. ligeiramente. Tinha os olhos negros e pestanudos. assentámos no programa da nossa seria que menino vai para casa da sr. debaixo d'um grande freixo. bonitas e pouco esquivas- Pois era uma bela moça a Maria Catharina. de carnação abundante. —O apenas de dois dias. . junto â Ribeira.POR CERROS E VALES 65 A Maria Catharina . e prendendo o macho a uma argola do moinho. sem escusadas gorduras. . nos demorámos. bonitas raparigas na Serra. com todos chalaçando e rindo. que ao tempo contava pouco mais de vinte anos. cabendo-lhe dentro um for- homem. conforme a sua mãe lhe recomendou mas depois de amanhã vai dormir a minha casa. sobrancelhas pretas. fomos seníar-nos á beira d'agua. sobre um •' macisso de verdura. curvado Ali ças. e gostava de conversar com os homens. Puzémocaminho. sem grandes pressas. medindo até roeira. uma le^e pe- nugem sombreando-lhe o labio superior. 5/ jeunesse savait desviandc-nos Apeárao-nos outra vez. de tronco escavado. minhar. e sempre a cavisita. Apeámo nos. de brincadeira. a primeira vez. ali perto.' Maria Augusta. perto de Santa Luzia. nos a quasi sol posto. e naturalmente ainda ha. os peitos riios. bonita e em descanso! bem feita.

Felizmente o vento levou a chuva para longe do . e do pequeno comercio que comprando e vendendo ul- pelos Montes. Meu rico S. e tinha primeiro andar.66 POR CERROS E VALES A deia. ao estrada a fim dos quais encontraremos uma maque- dame. Fui dormir a casa da Maria Catharina. porque a velhota teve de fazer cama nas palhas do buraco em que acomodava o burro. deferindo suplicas de Patriarsantinho do concelho de ! um abandonado Castro. a única. tornando fazer uns impossível ou muito dificultosa a marcha do automóvel. já pouco hábil para os trabalhos do campo. cantando a agua nos telhados. A casa da Maria Caíharina era a habitação miserável d'uma pobre viuva. em bom estado de conservação. Temos de vinte quilómetros por carreteiras mal andaimosas. a mãe de Maria Ca- tharina. misera e mesquinha. talvez. a pedido d'ura incorrigível livre-pensador O peor é se a chuva alaga as estradas. mal tirando para se manter. que não fel-o fez Deus. fazia. e muito me arrependi de o ter feito. na minha tima noite de Santa Luzia. na vaga esperança de ainda encontrar o tugúrio em que vivia. quando me disponho a percorrer a aldeia. a patinar em vez de correr. para que se alojassem o mais comodamente possível o seu hospede e a sua filha. Pois entra a chover deveras. Miguel! O ca. na que tinha esta magnificência. casa da senhora Maria Augusta era de soal< brado.

que ainda hoje é muito caluniado por ser pouco conhecido. e a que por aqui caiu. é um Paiz. que em Lisboa. quasi rese- quidas. rilar rija. para não acredi- tarem no autentico milagre que deixo aqui e relatado ajura- que pode ser garantido por testemunhas mentadas. mal chegou para lavar as folhas das arvores.. Miguel pôde não ligar nenhuma ás implora- dum Papa. uma acção nos tribunaes. beirão da gema. — Continuo na minha: — O Alemtejo não é uma Provincia. tão prendido de interesses mundanos que se deixou rou- por gerações sucessivas de devotos. mas não tão justo fecha os ouvidos á su- plica fervorosa dura cio. e refrescar as searas. Miguel por minha intervenção. 67 a tambo- na capota do carro. Moura Pinto. que deixará mentir ? me não des- Um bar santinho honrado como S. Pinto.no as ruínas impávido. á maneira de Horáele o pintou como — Se E Moura estalado cair o orbe ferem. . cá estamos em Aljustrel. um bom naco deste vasto Alemtejo. boas razões podem ter os devotos que acreditam nos milagres de Fátima e de Lourdes. Miguel. — Então ?. varão justo. um como ções S. mas eu pergunto que Tenho a certeza de fôr soado. tendo mostrado ao dr. entre elas o dr. sem pôr santinho contra eles. . : POR CERROS E VALES nosso caminho. quando o caso ninguém acreditará no milagre que fez S.

encerra.. As Minas não constituem espectáculo interessante. Os campos. á superficie. vinhas de enxertia . para mim. vasto de magnifico porque não de terra que não um palmo seja cultivado. na opinião do ignorado auinédito Mais do que tor um dum poema : — Cardos mastigueiros. como se fossem hortas. Qae o Alemtejo é infinito. dentro da fre- encantam os seus olhos de beirão. porque a sua cultura é esmerada. fruta Da Senhora do Castelo dis- ele um pode vasto e soberbo muitas léguas de superficie. E até já o yi escripto. dizer-se. Não tem principio nem fim. agarradas ao chão. não é coisa que dê nas vise no género é banal. nos guesia. em que o tamanho Aleratejo se define assim. panorama. Moura Pinto os monu• Aljustrel • • para o obrigar a voltar cá De passagem indicoihe o local • • onde teria sido o Palácio das Cortes- se elas aqui tivessem reunido» o que não está provado. as suas vinhas. um porque o trabalho que ne- se faz. 68 POx^ CERROS E VALES Paiz. las tas. quanto ao seu Tenhd de mim. arredores da vila. e milhões de metros terras são o quadrados dessas distrito que ha de melhor no para a ex- ploração frumentarea. Não quero mentos de mostrar ao dr.

umas plantadas de vinha. Rio de Moura Pinto vê um enorme trecho de montado. E o seu jubilo sebe de ponto quando lhe dizem que a mais bem explorada daquelas courelas. uma espéali de colonato. outras exploradas de milho. o Moinhos. quasi sempre dando menos do que promevisitado tem. além de serem estensas. Dizia um : lavrador. na extensão de muitos quilómetros. grão ou batata. uma das impor- que entram na formação do Sado. leiras. embevecido e admirado —é um lindo e rico tapete. — mais variada cultura. A caminho de Jungeíros. os seus terrenos marginaes. ribeira ^travessamos a tantes ribeiras do Roxo. e a diferença não está apenas na . a de Isto sim. o que o leva a exclamar. sem sair da estrada. sem que vivam os donos daquelas umas maiores. são exuberantes de vida. encarecendo o poder to- xico desta agua — é um veneno tão forte. ribeira envenenada pelas aguas da Mina. isto é.. outras mais pequenas. que lhe matou todo o peixe e esterilisou. Entre cie jungeiros e Montes Velhos ha . numa larga faixa.. que lhe resista. sem colonos. que não ha micróbio.POR CERROS E VALES 69 americana. tendo dr. é Era dum beirão! nada se parece uma aldeia alemtejana com uma aldeia beirôa. rãs ou pardeihas. e como o vê dum ponto alto. tem a impressão duma superficie continua. kagados. que faz lembrar a minha Beira. . grande ou pequeno.

70

POR CERROS E VALES
do respectivo centro poas pequenas aldeias,

topografia, na configuração

pulacional, sendo aliás muito grande essa diferença.

No

Alemtejo as aldeias,

mesmo

são feitas á semelhança das

vilas,

da

mesma forma

que as

vilas são feitas á semelhança das cidades. Venho eu a dizer na minha que nas aldeia? alemteianas as casas formam alinhamentos, que se chamam

ruas,

sendo rara a que não tem

quintal.

Nas

aldeias

beirôas as casas não se encostam

umas

ás outras;

cada qual construiu a
Stirner

sua onde pôde ou onde lhe
é,

apeteceu, fazendo de conta que

na frase de

Max

unice e sua propriedade.

Mas

esta diferença

não

é a uuica

nem

é a princi-

pal entre aldeias alemtejanas e aldeias beirôas.

se

Nas aldeias beirôas á porta da casa moradia, fazuma nitreira, e dentro de casa, numa promiscuiquando

dade que lembra a Arca de Noé, vivera as pessoas
e os animaes. o burro e o porco, o carneirito

o ha.
coisa

A

casa pobre,

na aldeia alemtejana, respira

aceio, varrida pelo

menos uma vez no dia, e cada no seu lugar, cobertas as arcas com panos de
muito limpos na estanheira, e as quarpoial, elegantes

chita, pratos
tas,

no
feira

como amphoras, compradas

na

ou á porta.

São geralmente grandes, alguns desmedidamente
grandes, os quiníaes alemtejanos, e raro é o que não

tem poço, fornecendo agua para os gastos domésticos. Deviam ser pequenos jardins ou pequenas hortas; mas não é uma coisa nem outra como horta não vai além da hortelã para dar gosto á comida, e

POR CERROS E VALES
da faya, para comer

71

em

verde;

como

jardim, para

o

serem ou o parecerem, bastaria que tivessem
res.

.

.

flo-

O meu
mas

concelho é relativamente grande,

em

área;

a distancia

que separa

a sede

do concelho, das

outras povoações, é de poucos quilómetros, o
treze.

máximo

Pois bem.

Em
mente
tras,
;

todas elas se fala a

mesma

lingua,

natural-

mas

a phonetica varra tanto

dumas para ou-

que não é fácil errar dizendo que tal pessoa que se ouve sem se vêr, exprimindo se em voz alta, é de Messejana, Rio de Moinhos ou de Aljustrel. As
palavras que
a

empregam são

as

mesmas

;

é a

mesma

sua expressão gráfica, mas diferem tanto na sua

expressão oral, na qualidade e na quantidade dos

sons que se empregam na sua pronuncia, que

bem

se

podem
Toda

considerar

como

características regionaes.

a

três aldeias

minha vida de menino se reparte pelas que o dr. Moura Pinto visitou Rio de

Moinhos, Jungeiros e Montes Velhos. ]á largamente me ocupei de Rio de Moinhos, nos

Quadros Alemtejanos, livro de que eu poderia dizer, adoptando a frase de Musset ce livre est toute ma /e unes se.

De

Jungeiros era minha mãe,

casada ainda era

creança, morta ainda

coração

mais

não era velha. Nunca houve cheia de afectos, alma enternecida

como

a sua, sensível a todas as dores, compadecida

72

POR CERROS E VALES

de todas as misérias.
sua bondade.

A

sua religião era a poesia da

O
?

alguma coisa
educação, e

— dela

que

em mim

ha de

bom

— haverá

o recebi, por herança ou por

por mais
vida,

graves da minha

duma vez, em momentos numa evocação intensa, ouv'
temperando sempre os
visitas a Jungeiros,
ri-

os seus conselhos e admoestações, juiz austero que
castiga

com o riso nos

lábios,

gores do castigo com

uma porção de bondade.
onde

Frequentes eram as nessas

eu muitas vezes ia só, pedibus calcantis, ou escarranchado num burro que pedia emprestado. No verão é que estas visitas
dáveis,

me eram
sinal

particularmente agra*
aldeia,

porque de restolhada com os moços da

os meusUios,
frente,
ia

que por

eram meus primos, á
al-

banhar- me na ribeira, desejoso de saber
brincadeira tinha seus perigos, porque

nadar.

A

gumas vezes escolhíamos, belamente audaciosos, para
teatro

das nossas façanhas, pegos muito fundos

e

muito largos.

Assim que eu chegava, em qualquer época do ano, os meus primos organisavam, em minha honra- •. e proveito, saturnaes infantis,

que algumas ve-

zes tinham

como

epilogo.

.

uma

sova geral!
!

As

coisas que a gente aprende,

sem nos ensinarem
tia

Era uma santa mulher, a minha
pada, casada
tes,

Mariana Estio

com um irmão de meu

avô, o

Monto-

grande pandego, nos seus tempos de rapaz,

cador de viola e cantador a despique, afamado na
freguesia de S. João de Negrilhos, que hoje tem sede

em Montes

V/elhos.

:

POR CERROS E VALES

73

A

tia

Mariana, sofria do que os psychiatras do

nosso tempo

chamam

parafasia, e

que consiste n'um3

confusão de palaçras, a que corresponde confusão de ideias
correctas na
simples,
tia

uma

certa

As representações mentais eram
queria
dizer
a

«Mariana, c os raciocinios, aliaz muito

bem coordenados. Mas
;

uma

coisa e dizia outra

tinha no

pensamento

palavra

fogo e o que )he saía da boca era a palavra agua,

por exemplo.

Um

dia

meus primos organisaram uma

burricada,

obtida a indispensável licença para irmos a

uma

festa

no Monte de S. João, á distancia duma légua. Verificou-se, á hora da partida, qne um dos convidados
teria

de

ir

a pé,

porque

faltava

um

burro.
tia

AlvitroU'Se que eu fosse pedir a burra da
riana,
tai a,

Ma-

sem
não

trocadilho,

porque

ela,

rebelde a empres-

me

diria

que não.
tia

Formulei o meu pedido, e logo a

Mariana, ma-

goada por não poder
-

deferil-o,

exclamou
[ter

Não

posso, nino.

A

burra está para

uma

ovelha.

E

não ma emprestou.
a
tia

Assistia

Mariana a

um

parto,

mulher com

geito para tudo, e serviçal até ao ultimo ponto.

Era

de bôa pratica, n'aquele tempo, as parteiras, assim

que as crianças nasciam, apertarem-lhe o
para não
ficar achatatado, nariz

narizito,

de preto.

Nasce
a
Ihe

a criança, e logo a

tia

Mariana

insiste cona

parteira — aperte-lhe

as guelas, comadre, aperte-

as guelas.

74

POR CERROS E VALES
Eram também
frequentes as nossas visitas a

Mon-

tes Velhos,

que ao tempo era uma espécie de regutio

lado do lavrador Joaquim Ignacio,

de minha mãe,

meu

padrinho e de todos es meus irmãos, excepto

um, não

me lembra agora qual. Era um excêntrico, um original, o quim Ignacio, homem rico que sabia
com
a assistência pelo socorro.

padrinho Joafazer

bom

uso

da sua fortuna, conjugando a assistência pelo trabalho

Era padrinho de
que

toda a gente, na aldeia

e d'ahi resultava

em

ele

aparecendo na rua, era uma chusma de gaiatos a pedirera-lhe a benção, e quasi

não havia
lhe

homem ou mu-

lher que^ passando por ele

não fizesse este cum-

primento
sr.

— bons

dias,

boas tardes, ou boas noites.

compadre.

Pagava aos seus

jornaleiros

como

pre de maneira que eles não

queria, mas semganhassem menos do

que lhes pagavam, pelo mesmo trabalho, os outros
lavradores.

Os
taco.

visinhos

pagavam

a três tostões ?

Ele mandava pagar a treze vinténs

menos um pa-

tostões, e ele

outros ainda pagavam a três mandava pagar a cruzado. Dizia que as feiras não eram para vadios e pas;

Na semana seguintes os

seantes

quem não

tinha

que comprar ou vender,
ir

fosse o que fosse, não devia

lá.

Assim pensando, nunca
vendido ou comprado.

saía

d'uma

feira

sem

ter

Um

ano,

na Feira da Conceição, chamada feira

. Dentro em nada todo aquele calçado estava meti- do em caixotes. e o pa- drinho Joaquim Ignacio era um homem que não tra- java segundo as suas posses. dizendo ao sapateiro — Isto era brincadeira. — Talvez — vocemecê não se importasse de me ven. — Brincadeira Então ? que contasse. porque todos o conheciam. Para o vender é que eu o trouxe á feira . comprava três ou quatro pares. entrou 75 n'uma baTaca de cslçado e poz botas. e paguei conforme o ajuste. feira para brincar ? Toda a assistência tomou o partido do sr. e era transportado n'um carro para Montes Velhos. O homem não sabia com quem tratava. POR CERROS E VALES des coices. e pô!-as sobre o bal- cão. em m'o pagandO) está logo com outro dono. se eu lh'as desse a vintém cada par. der todo o calçado que aqui tem?. — Diga — Quero lá então quanto quer psla fazenda ? trinta libras loja. Sim. mas hade pagâl-as sem ar- redar pé da — Sirvam lh'o os senhores de testemunhas que este homem me vendeu que eu Tirou da bolsa todo o calçado que aqui i^m. trinta libras. . e alguns dispu- zeram-se a zurzir o sapateiro pelo seu atrevimento. se a ajustar — Se -- umas me fizesse um preço razoável. Joaquim Ignacio. você atreve se a brincar e que não veio á com uma pessoa que não conhece.

76 POR CERROS E VALES Foi um regabofe na afilhados s aldeia. Assim Deus Quanto ganhei. conforme lhe recomendara o lavra- apareceu na aldeia no domingo imediato. como e se fossem pessoas de memeti- Deu-lhe o teu. sem ia. . que nha perdido. magro. libras tar A gente deve traSe lhe aproveitar a lição as pessoas que conhece conforme elas merecem. O dor. padre Jordão. e ! .. as que não conhece. as sobrancelhas fartas. Todos os compadres que andaam deslh'os calços ou mal calçados. claros. • . recimento. foram escolher botas ou sapatos a casa do sr. — — — . sapateiro. .lhe na janíar. Era um ve- lhote baixo e corcovado. era prior da freguezia de S. negras e parecendo . lavrador ? salve a minha alma como eu perdi á roda de vinte . os olhos ásperas. Na antiguidade pre-historica a que me estou reportando. João de Negrilhos o sr. Joaquim Ignacio. saber ao que Ora vamos lá a saber quanto é que você ganhou no negocio que fez comigo. mão as vinte libras que ele dizia réis. e mais cinccenta mil que apanhara e pelo incomodo que pelo susto tivera. descendente em linha reta do patriarca Noé — etilicaraente falando. quando ele se despedia. sr. que dava graiis pre Dee.

fechava para tabaco. pela manhã. que lhe saiam pastosas e confusas. do sr. dandolhe á mia semelhanças choso. como a ele não ouvia.! POR CERROS E VALES feita de bocadinhos de esteva seca. para dizer ao meio dia. e pelo todos os pecados. e só deixando de beber á noite. e por esse motivo era a ele que as mulheres gosta- vam de se confessar. preferindo o a qualquer outro. benção a um. Falava ruminando as palavras. dava-lhes tencia. benção a outro — Nosso Senhor o faça um santo — mandava fa- um creado dizer ao padre Jordão que chegara a a missa mília das Mêzas. um pequeno nabo A boca. não se embebedasse. pare- como as patacas. filha sr. fisiono* de pedra-pomes a que desguarnecida tivessem bi* colado. se todos os dias. o padrinho Joaquim Ignacio. o prior de Negrilhos. podiam confessar receio. e esposa do Joaquim Pe- . a nossa visita a Quando adregava Montes Velhos ser ao domingo. mal aca- bava de nos cumprimentar. em borracha. sem carregar na peniten* O padre Jordão tia Fui ao enterro da minha lynacia. padre Jordão embebedavaa beberricar assim começando que se levantava. para servir de nariz. Porquê ? Porque. sem mesmo motivo absolvição. quando se metia na cama. e que se ainda nãp estava bêbedo. Era surdo como uma porta. As bexigas ti- nham-n'o marcado fundamente. de dentes. O sr. cendo que os beiços realisavara um movimento de torsão. Manuel da Chaminé.

pregou consigo na cadáver. . só utilisa a tumba algum pobre diabo que morre no Hospital. servia para todos os defuntos. como era seu cos- estava Quando apareceu para acompanhar o cadáver já que nem umas flores. O cemitério era n'uma . ura a — tumba. e o levassem para casa. Assim se fez. De quando erç quando parava o comboio fúnebre. coitado. O pôde tume. padre Jordão.78 POR CERROS E VALES dro. ao menos. calculando que o padre. Por motivos de que me não lembro agora. o psdre Jordão. alvitrou que o metessem no esquife. Hoje. aguentou se eraquanto mas entrou um bicho a roer-lhe o estômago. Deposto o cadáver na cova. pobres e ricos. não poderia agora dar um passo. nada se entendendo do que dizia. metido entre dois homens fortes. e o meu pa- drinho Joaquim lonacio. irmão de minha mãe. estatelado sobre o O acompanhamento ria da farça. na Província. por meio de toalhas dobradns. ficando transferido para depois do meio-dia. que lhe N'aquele tempo amda a sustinham o balanço. para todos. e ele tratou de o afogar em vinho. ponta da aldeia até lá o reverendo aguentou se razoa- velmente. sacudindo com demasiada força o hyssope. já mal se aguentando de pé. formando correia. que era a hora de jantar. na minha terra. cova. o padre arengava o latim da encomendação. bombordo. o enterro devia realisar-se de manhã. antes do trambulhão. . íeni-te não caias. outro a estibordo.

com dicar sérios propósitos de o resolver. para amostra. á 79 herdade do Sabugueiro. quando cae sobre tado. as searas mudaram de aspecto. sem lande e sem bolota. Bem ao podiam os lavradores criar um premio a adjusábio.! POR CERROS E VALES Vamos. em cada ano. dando-lhes vigor e frescura. Os prados. coisa — Miguel ! — n'eslas louvores sejam ultimas vinte e quatro dir-se-hia horas. E' curioso Porque choveu alguma dados a as S. Aíé agora o burge tem poupado os sobreiros mas pode amanhã uma variedade ainda não conhecida d'esse animalejo atacar o çuercus suber. n'um perto.o burgo. e então. São muitas centenas. rufo. terrivel inimigo Moura Pinto o mais do lavrador que possue mon- tados d'azinho -. alguns milhares de contos o que a economia nacional perde causa do burgo bedoria oficial . e tem um de poder destruidor. nacional ou estrangeiro. por mas parece não valer a pena a sa- ocupar-se deste gravissimo problema. ás vezes não se criando uma só boleta. alastra um montão gran- como nódoa d'azeite. que as arvores não frutificam. Este maldito insecto. beneficiaram da ao lavrador esperar que os seus . já licito rega. sendo como as searas. que a estes Estado estudos se dedicasse d'alma e coração. os montados portuguezes ficarão perdidos para a engorda dos suinos. aqui a ver se consigo mostrar ao dr. que chuvas as desentorpeceram. dando-lhe o a assistência necessária para os reaiisar con- venientemente. .

E toca para Aliustrel. nos ásperos mezes comer que terra. não precisem gados. — Que Na José ? triqo engelino. Saberá sua senhoria que é terra . um boem todo se aca- Lindo campo de trigo. d'aguas envenenadas. não ha duvida. d uma côr tão viva como bassem de sair d'um banho do mais puro sangue arterial. afasta utilitário. uma seara de trigo nos encanta e maravilha. atravessando magnificas ter- ras de semeadura. a Ribeira do Roxo. vai andando a cami- Lá em baixo. por ferem pasto com fartura. como antes das Minas a inquinarem. por uma vereda. e as papoilas encarnadas. se o tempo lhe servir. pondo no vasto campo uma nota de sensibilidade artística. e trechos de olival. mas portugueza o caso. grandes e bem copa- das oliveiras. Atravessamos. quinze sementes. consideráveis com grandes bocados de vinha. sr. sem transparência. argelino gelino.8o POR CERROS E VALES do verão. seara que irá além de trigo é este. de sua naturalidado este trigo chama-se mas por aqui toda a gente lhe chama en- que é uma denominação poríugueza. jantar ainda o roupeiro está se dispensa Moura Pinto não de ir ver como aqui se pratica a industria dos lactici- . cadinho arrevesada é certo. onde chega depurada. do nosso espirito todo o pensa- mento na desolação àà terra morta. sem energias produtoras. carregadas de candeio. e o dr. nho do Sado. Quando acabamos de a fazer queiios.

espremendo-a aié fi- car seca. acordan- do na Palestina. se ahi aparecesse. que no Alemtejo. servindo o mesmo patrão. mas também queijos gr^..des. POR CERROS E VALES nios. embora não façam duas vezes saem-lhes maus. que se vendiam geralmente a dez réis. a meter coalhada nos chinchos. para alavão. mutatis matandis. geito. —O sr. imaginaria ter feito moda da um longo somno. nos tempos da minha saudosa meninice. antecipando o dia de iuizo. os que apartam. isto é. Estes mestres de rouparia são trabalhadores supinamente ignorantes da industria que exercem . intragáveis. compadre tem muito . em anos de pouco leite a vintém cada um. toda a gente fazia queijos pequenos. ela se pratica como na Beira. Em minha casa. que nunca me deixava chincho sem rer se do estavam bem espremidos. algumas centenas de ovelhas. e sempre ê!es arranjam temporadas seguidas na mesma casa. yendo fazer queijos á terra. que chegavam a render seis tostões. industria 8i puramente caseira. ouos concerte. Hoje o caso é muito diferente. sem gran- de espanto. N'alguns Montes ainda se adopta a pratica antiga mas os lavradores de cachaço grosso. Eu também fazia queijinhos. Verifica. tras Umas quem vezes os queiios saem -lhes bons. sentado ao lado da tiral-os comadre Narcisa. e pagam-lhes para cima de qui* nhentos escudos por mez. esses já metem roupeiro. meteram-se a fazer queijos. de forma tão primitiva que sua um patriarca biblíco.

veio-me no Monte das Mesas. : tarefa. era ruim trabalhador e detestável pessoa só para os trabalhos mulherengos tinha geito. de pequenos. mas como era ha triz mais de cincoenta anos. O Manoel Narciso. em que Toda o leite coalhava. e só para os seus amazios tinha demonstrações de estima. nos era fiel. em mi- nha casa. mas parentes sinceramente estimados. os queijos. ambos tratados com especiaes deferências. a carne. maricas dos quatro costados. embora nada tendo de seu. despejada na queijeira a grande panela de cobre. e cerrando os olhos. incómodos e aborrecidos. de duas asas. as azeitonas. não como ele é hoje. e por as mangas. bagatelas com que elle presenteava os seus desperdiçados que tinham familia a sustentar. não os cousins pauvres de Balzac. A O comadre Narcisa Manoel Narciso ! ! Que ella diferença.82 POR CERROS E VALES Foge me o espirito para muito longe> no tempo. e para os quaes estes presentes eram um valioso auxilio. . em minha casa. por instantes. que incomensurável diferença entre e o irmão. quando eu era menino e moço mas a comadre Narcisa e o irmão é que tinham o principal encargo d'essa a gente fazia queijos. tratado pelo cardo. A' . ambos criados. Nem ao me- pegando-se-lhe facilmente ás mãos as coisas de comer — o pão. como se fossem parentes. sentando um não arregaço me a fazer queijos.

porque era incapaz da mais leve incorreção.: POR CERROS E VALES irmã 83 podia-se confiar tudo. Dizia o compadre Rosa. dizia meu pai era a melhor . dizia minha mãe. sempre maldizente. um pouco ser irmão por este mas principalmente por da comaser velho. sem que tasse a ponta d'um alfinete Todos os anos. provocando a indignação e o nôio. que por fim estadeava. ella ella tivesse como se nem se* quer o sabão lhe dava. das criadas. rior á que geralmente tinham as criadas. que da cintura e da cintura para cima são outra. de se do-se comiam á N'êlle o vicio de roubar era consequente do vicio prostituir. e motivo. abrindo lhe a porta da cadeia. ingenito e irremediável. se mas\ carava de mulher. Era a irmã que lhe tratava da roupa. conservou-se na casa até muito velho. exacerban- com a idade até ao Era o peor dos criados. máximo da impudência. e obrigação de o fazer de graça. exigindo que o trouxesse isso lhe cus- bem cosido e bem remendado. quando o via de . sereias. e era como se a um preso dessem a liberdade. erudito analphabeto escandaloso — para Este diabo é baixo são como as uma coisa. quando o mesa com os patrões. na terça-feira do carnaval. que algu- mas vezes. O compadre João Catharino. dre Narcisa. nos seus actos. sempre resmungão. nem sequer usando da liberdade que tinha se dar o regalo em minha casa para d'uma alimentação um pouco supeserviço apertava. fosse o que fosse.

a consoladora ilusão neto de não ser filho das aguas correntes. pela extrema vida. al- invalidado decrepitude. nos derradeiros momentos. para conhecerem. fazendo uma e outra coisa quasi sem descontinuar. pa- deiando as como as marafonas baratas. Ha quatro dias que não ouvimos falar de revolução. desembar- camos no Terreiro do Paço. um animal sem préstimo. se não houver atrazo no caminho. não se dispensada de lhe dizer: — não O' ladrão te 1 Tu hoje devias fingir d'homem. partir ás três horas e quarenta e quatro partimos ás quatro. ]á era assim quando o Estado explorava as suas linhas. ancas saias.84 POR CERROS E VALES na cabeça. e nem sequer ouvimos a grafonola do Café Xlhiado. tendo a respectiva escada um só degrau. Subimos para a carruagem como subiríamos para um primeiro andar. A' meia noite e dez mi- nutos. desprezando pequenas frações de tempo. piedade lhe desse. sequer ao sem que uma menos uma lagrima de das aguas turvas. o que dá uma velocidade comercial. de 24 kilometros á hora. lenço um chale pelos hombros. Devíamos minutos . tendo percorrido uma distancia de 192 kilometros. horrível instrumento que toca e canta. aguardando no desamparo a morte Toca para Lisboa. oitenta anos» Morreu com perto de palavra affectuosa. o que tanto fez . deitado ao margem da libertadora.

! POR CERROS E VALES dizer que. e o esforço da sua gente para valorisar a sua terra é qualquer coisa de heróico. a este respeito. o Alemtejo é imenso. homem superiormente inteliculto. 85 o publico nada ganhou com o arrendamento. Comboios de passageiros kilometros á hora a fazerem vinte e quatro O dr. com raras qualidades de observador. digna de admiração e respeito. gente e Moura Pinto. duas palavras a impressão que co- resumiu n'estas sidade e esforço. . lhera na sua rápida visita ao sul do Alemteio -imen- Sim.

.

como iá eu. esta velocidade é a vertigem. mais do que regular. ás traineiras do sul-sueste. para bater um recerd. a marcha do e então para quem está haé o Sud comboio — — bituado. Parece que a Companhia anda a estudar a eletrificação da linha de Cintra. o que nos faz ter esperanças de que esses miúdos que por ahi andam. Atravessamos o túnel sem que o fumo nos incomode. meio dia e meia hora. crianças na idade escolar. fechadas as portas e as ianelas. quando forem velhos. Muito regular. quando o aquecimento artificial é dispensável. parece Calor de rachar* A uma muito carruagem estufa em que cultura nos instalamos para a de ananazes. a estonteante velocidade d'um automóvel em pista. d'esta conquista do progresso ferro viário. atra- Conheço muito bera estes campos que vamos . em dias de pouco frio. Deve ser cómoda no inverno.Pela Beira Na Estação da Avenida . \à aproveitem.

por barcos de maior ou menor tonelagem. Bem podia a Natureza ter sido mais gene- comnosco dando agua com fartura aos nossos rios. e depois d'isso.88 POR CERROS E VALES tenho-os visto cessando . ()e me canso nem me aborreço a um e outro lado da linha. como de navegação- ]á um sábio. em todas as épocas do ano. navegáveis em toda ou na maior parte da sua extensão. nos dias mais quentes do estio. em todas as épocas do ano. Cabreira. foz. aqui tenho passado vezes sem conta. por motivos de varia ordem e por em circunstan- diversas. muitos barcos n'esta porção do Tejo que do comboio se avista. o Douro. são navegáveis rios. amplo como um dos grandes lagos italianos. Pois nunca tes campos. fiz esta via- gem cias muitas vezes. n'uma extensão apenns algumas dúzias de kilometros para além da sua nos. de ver esfazendo a navette cia janela para janela. aproveitando as férias. e os outros ainda vias menos valem. muito mesr. formulou rios fa- esta pergunta — Porque é que os grandes . o Guainsignificante. cremos que da Academia do António phi- losopho e matemático . saindo de Lisboa. e nos dias mais rigorosos do inverno. Estudante em Coimbra e no Porto. me permite fazêl-o. o Tejo. rosa Masque! Os nossos maiores diana. conforme a proximidade do mar. quando a concorrên- de passageiros Custa-me não vêr muitas velas.

tinto dum puro como o do céu que o cobre. se o tempo ihes servir. ádito Teio ermo de velas. tão perto lhe ficam. este mente de bôa produção. seguindo. além manchas verdes Quando êle desaparece. em que destacam os touros bra- vos. de barcos. ano. éguas em manada. a ver o amplo. Para cima da ponte. Na e terra baixa cultiva-se o trigo. sereno e majestoso. quasi seco. salpicadas de povoações que ainda se podem considerar arrabaldes de Lisboa. negros rece. de grandes fundas. muito largo. eu de azeviche. como é o Alfarelos.POR CERROS E VALES zem caminho se no oceano ^ 89 pelas grandes cidades para irem meter? A verdade é que eu vou deliciado. o caminho de . ficando-me debaixo dos olhos a aspereza dos restolhos. e nunca mais a gente o avista do comboio. o Tejo faz uma curva rápida. aqui e de milho serôdio. salinas de vário tamanho. ao que me di- de produção excepcional. já uma paisagem que com aci- dentes do terreno que circunscrevem vales apraziveis. Santarém. a gosar interessante. em em espécie de cabedelo. vaias de pequena largura. que obriga o rio a encos- se á margem direita. ganhar em energia o que perde em volume. meu caso. geral- pelas encostas trepam vinhas e oliveiras. sob as vistas do respectivo guarda. utu pouco menos deserto azul tão que esbaforido. e zem. a areia forma termos da sua corrente A uma tar- jusante da ponte. pastando ao lado de pequenos atalhos de gado vacum. quando o é mais rio me desapa- vou para a janela do lado oposto.

Nunca passo por aqui. estudante em ferias. que não evoque a memoria d'esse pobre João de Freitas. foi impiedosamente cruel para com um mulato da peor espécie. viaian» do na Terceira. e não o mando matar. Thomé. e nem ha quarenta e tantos anos. iunto á Igreia das Mercês. fazendo vida de advogado. tão mau e tão desprezível. se mostrara sempre bom e amoravel para com os pretos. No bem uma seu olhar desvairado havia chispas d ódio. e eu vi que na sua alma convulsionada se travava luta formidável. levado á pratica d'um crime por alucinação patriótica. homem de bem na mais larga acepção da palavra. Uma me com do um tarde. que havia muito lhe conturbava o espirito. e eis-nos ]á che- gados ao Entroncamento. — Não o mato. montados e olivaes^ terras planas e de semeadura á direita. encontrei- discurso violentíssimo João de Freitas. porque sou incapaz d'uma covardia. acusando-o de negras culpas. de que só apreendi a significa- ção e o alcance quando êle me disse. depois de 1915. hoje é yila. porque tenho crenças religiosas. com as comedorias num taleigo. que sequer era aldeia. Pobre João de Freitas Ele que em S. que os seus últimos anos de vida aproveitou-os para encher de lama uma gaveta. quan* do eu por ali passava.! 90 POR CERROS E VALES Muita arborisação á esquerda. apertando-me nervosamente a mão. com a recomendação ex- .Afonso Costa. vinha ele de fazer no Senacontra o dr.

na idade em que se carregam de cachos. e pergunto. pequenos vales. para saltarmos na gare assim que pare o comboio. fazendo o dector horiõris. de a atirarem á cara de anti- gos camaradas. começasse a delir. saindo do Entroncamento ao cabo de curtis- Pequenos nheiros. é. eu e o Moura Pinto. através* sando. quando soará a hora da justiça para o Mestre João Ferrador. antes do seu cadáver. tomo a posição de sentido. alguns d'eles velhos amigos.. e como saiThoraaz de Mello admirável con- mos na Estação próxima. sem esperar que me respondam. quando a sua memoria. tros. agradeço ao velho amigo e Breyner a bôa companhia que versador que dr. outeiros. Alfarelos I . O calor aperta . me fez. . . vinhas Tiro respeitosamente o chapéu quando passamos por Chão de Maçãs. 91 naturalmente. oliveiras e pi- que afectam o vigor das cepas em pleno desenvolvimento. causa de qualquer Faculdade. Pobre João de Freitas I Conheço muito bem os campos que vamos sima demora. sobretudo para os lados um pouco o horido mar. De Soure em diante alarga-se sonte. POR CERROS E VALES pressa. não bole uma folha nas arvores apetece beber coisas frescas. distante uns treze kiiomedr. .

Um ga de ciso braço do tal Mondego passa rente á Casa. no inverno. que é do Estado. verdeja nas terras ala- mas no meu tal espirito. Enorme dia. riscados de valas túmidas. ainda curta. um grande arrozal.92 POR CERROS E VALES Põe se o automóvel em marcha. a não ser . an- dam de modo associados estes dois conceitos — arroz e febres. Como ta nos chega o tempo. tinha as mesmos sensações do calor escalfrio. com o termómetro - ia jurai ~a rasar os trinta graus. vamos de visita á Quin- da Fdja. um pateo enorme. vem uma impressão de o ! frescura que torna muito suportável as ardências do sol. que é predesagradável á o uso de bombas para os enxugar. que podia servir de campo ds aterrissagem. e ala- forma estes campos. a contemplar na montes de neve. que dificilmente os separo. dante que ao apear-me do comboio. Certo é que d'estes campos verdejantes. e parece que o tempo refrescou. no Alemtejo. é vista Não quando gadas . Estou convencido de que se fechasse os olhos. e por uma dupla escada de pedra sobe. e recordo-me de sentir calor.se ao andar nobre da moderna casa senhorial em que se transformou um convento. passando Atravessa se á orla d'um grande pinhal. a planta. Senti Suissa. desde muito novo. a olhar da sombra uma queimada extensa e galopante. plátano no pequeno jardim anexo á mora- grande a fazer-me lembrar os mais avantajados vi imbundeiros que em Africa.

e continua a sementeira são doutras espécies arbóreas. POR CERROS E VALES quando me servem arroz doce. devia antes charaar-se-lhe Serra de Mau Andar. sem omis- ctares. sobranceira ao Cabo Mondego. poucos anos ainda. a Bandeira. vê se toda a dade. e feria os olhos a sua quasi absoluta nudez. veredas cor- tando o matagal rasteiro. Da ci- Vela. era excelente . bahia . Serra da Bôa Virgem . ligada a Buarcos. Ha pera. A mas Serra ainda não está completamente povoada já a mata ocupa uma área de quatrocentos hede penisco. Hoie não. de que se possa fazer menção.. antigos ou sem monumentos modernos. mas não era cómodo ir lá. cidade incaracteristica. prompta e negativa. das maiores de Portugal. Dois rends-points. como ainda hoje. Chamava-se-ihe. mas se houvesse lógica nos nomes. com polvilhos de nela. que são dois amplos belvedeum ao sul. a Vela. para uso dos coelhos. que na serra abundavam. eriçada de pedregulhos e toios. esta Serra não tentava o veraneante da Figueira. Excelente praia. e ouvida a minha resposta. res.Como miradoiro. Gaspar de Lemos se estou mas- sado. outro ao norte. manda seguir para a Serra. a vista permitem espraiar na em redor. e a Serra domi- uma já área de muitos dúzias de kiiometros. porque era escalvada e ás- Alguns pinheiros. muito poucos . 93 ca* Pergunta-me o dr.

Mertola Mas não . o nosso comercio. evitando as maiores resistências. rente ao mar. não dá para se manterem três ou quatro portos comerciaes- todo o ano. o que fazemos com o estrangeiro. a colear na areia. hora. a nossa agricultura é pobre. iá em Coimbra o poético rio dos sal- gueiraes. . sem outro nossa propósito que não fosse o de ter aqui um boro porto regional? costa é A pequena . dá a impressão verem. mal arranja agua para uso das lavadeiras. Ficam lá em baixo. que aos habitantes da Figueira. onde nunca entra navio. Se ao menos o Mondego fosse navegável durante como é o Guadiana desde Vila Real até !. com ares de grande de Montemor para relações do rio baixo. ora da margem esquerda. Mal se perrio. dinheiro Seria mal gasto o que o Estado desse precavendo^se para obras marítimas na Figueira. cortadas todas as com o mar. que ao Estado teem custado muito dinheiro. tenha a sua foz. Só por milagre a barra não está entupida. e o que fazemos com as colónias. a nossa industria é débil. contra a fantasia duns e contra a megalomania doutros. aproximando- se ora da margem direita. 94 POR CERROS E VALES um a amplissima. Alonga-se a por cima da ci- . as chamadas Minas de Cabo Mondego. e de nenhum vista beneficio seriam para a região se não dessem trabalho a algumas dúzias de operários. mar infinito..no a toda a dum mar ali deserto. cebe que o Mondego. nos meses de verão.

hayendo uma facha de areia. a recuar. a perder de larga 9Ísta. mais largo do que fundo. todas ilustrando a paisagem. atravez diurna neblina que se sol. sem enfado. desde afastados tempos. diverso e mais scenografico. põe uma nota de arranjo e amenidade na áspera fisionomia d'este boboqueirão cado de terra entre a Serra e o areal. no pé da Serra. quasi indistinta. muito e muito extensa. a arborisação da Serra. o contra as suas fúrias epilépticas- diz-me dr. Diverso é o panorama que se desfruta do outro belveder. Dizem me o nome das povoações que avistamos. todo ele esmeradamente cultivado. repartindo se consumir um ou dois mezes de ferias do tros. adensa. que seria menos bela se a não víssemos. em direcção ao norte. mede uma área de ele. quatro mil hectares. casino. Vê-se que o mar tem vindo. deixando um rasto de areias. refugio dos que não podem. umas perto. já agora protegidas pela distancia. formando dunas. uns dias por oude mergulharem os olhos no seio da Natureza . ser.POR CERROS E VALES 95 dade. e constata. Aquele apontando penisco. e vai todo semeado de Rasgado em direção ao mar. que está a reclamar penisco. Gaspar de Lemos. um largo e fundo. a recuar. outras longe. muito vaga. entre as manhãs da praia e as noites sem o gôso panteista.se que não descontinua o pinhal. areal. mal tocada pelos últimos raios do Bem precisava a Figueira d'este melhoramento. única maneira de ter alguma utilidade.

que para isso apetrechamento. no verão. N'um momento de dou construir feliz inspiração a Junta manpor um chalet. por certo tenho que o chalet não chegará para as encomendas. mas uma cidade que valha a pena visitar em da qualquer época do ano. cia mesmo que mata. larga varanda aberta sobre o mar. um dia apenas. de manhã á noite. Muito bem situado. O thema era de natureza a despertar interesse — . sem distinções partiempenhados todos em que a sua terra não sela apenas uma praia em que se tomam banhos. a uma sar familia ou grupo de familias que ali queira pas- umas horas. a todos eles. correspondendo os atrativos da terra ao encantamento do mar.96 POR CERROS E VALES respirando livre. não vá dar-se o caso faunos da espécie de ali dos á solta. que se alugará. suavemente rumorosas. tamisado por essências florestaes. organisando que presidam Vénus e Bachus. meio da encosta. mas de fácil acesso. Figueira. A's dez horas inicio a minha conferencia. cozinhando o seu o chalet tem almoço e o seu o conveniente a iantar. um ar puro. fazerem d'ele uma bacanaes a refugiam peccatorum. mediante a espórtula de dez escudos. Deve-se este melhoramento aos republica- nos dárias. errando no ambiente em perfume tão subtil que dir-se-hia espiritualisado. recebido pela numerosa e ilustre assembleia com demonstra- ções de apreço. por a sua guarda e vigilân- sejam cometidas á Moral. dominando Buarcos e a Figueira.

purificada Apetece arejar. descarapuçado. que visitara sendo abundantemente. de7 . mas e redimida. As passagens mais aplaudidas da minha conferencia foram aquelas em que do eu mais calorosamente afirmava a supremacia direito sobre a força. mesmo em Portugal. na Esplanada. usando o mais largamente possível da escassa liberdade que Argus concede aos que. . para em o Alfarelos. segundo as praxes. pela palavra escrita ou oral.POR CERROS E VALES 97 O problema nacional discursando —e o conferente não era in- teiramente Ministro. en- carecendo o republicano cio absurdo e a vergonha de n'um regime não ser permitido e garantido o exercída democracia sobre o despotismo- de todas aquelas liberdades que assignaiaram o triunfo decisivo Tenho de mim para mim que a Democracia. e já está passando por uma excessivamente demorada. que eu lhe falasse como deve falar um sempre e em todas as circunstancias. os seus melhores caceteiros. mais cedo do que outros esperam. mas esperava republicano. não corre risco de morte crise grave. dada por bons republicanos. só estava Não me foi bem dificil perceber que a assembléa não disposta para me ouvir. desconhecido na terra. e vindo aqui realisar uma conferencia. d'ela sairá mais tarde do que uns de- sejam. pretendem comunicar com o publico. mais tarde. graças ao maJosé de logrado protegerem. Nápoles. por signal que só não apanhou uma sova. que mobilisou.

Para que se pudesse dizer que o mal perfeito. viu leiteira. para dizer missa. sendo insuficiências.98 POR CERROS E VALES uma conferencia durante seis quar- pois de ter suado tos d'hora. fazer um ela rapazinho. Mas feita. porque não era qualquer que faria o que ele fez. próxima da sua casa. pudesse girar no como as aves e em terra fosse capaz de corcomo as lebres. um me rodeio para a levar a beber n'um ribeiro que cava muito perto. são perfeitos animaes. já apontar^he as remédio. em boa verdade. monótono e cadenciado — como se fosse é a respiração d'um monstro oceânico estendido a todo o comprimento da praia. aborrecido de nada fazer desde toda a eternidade. o Mundo. era necessário que ele pudesse viver na agua. os defeitos. como os peixes. Talvez seia para exaltar. rer imperfeito do que é. envergando ha bitos talares. Com estes predicados ainda não seria a perfeição absoluta. E então o abade pensou que bem podia Deus . mas para além d'um muro imensamente comprido e d'uma altura respeitável. Quasi não se ouve o mar . um vago sussurro che- ga até nós. mas seria muito menos espaço. homem um ani- havendo alguns que. a caminho da Igreja. o Poder de Deus. agora sem Conta-se que um abade. que tangia uma vaca enorfi- com um considerável rodeio. forçoso é reconhecer que não fez uma obra perfácil uma obra de harmonia e equilíbrio. a uma insignificante distancia.

a simplicidade. e porque todas são tratadas da mesma com as mesmas atenções. verificando o corpo de delito. Grande é in- do homem que se a sondar os sondáveis designios do Todo Poderoso.POR CERROS E VALES Nosso Senhor ter 99 dado ás yacas. que o obriga a exclaN'isto da). porque são patentes os benefíela presta á gente que pobre da cidade. Limpou o satez nariz. e também aos homens. generosamente concedida ás aves e aos pássaros. e mar: — Tudo a estultícia quanto Deus faz é bem mete feito. passa. os mesmos disvelos. o que fizemos já a caminho da Estação. murmurando a sua insen: — Olha ! se vaca Ficava em vez d*um passarinho fosse uma em bonito estado para dizer missa • • • Manoel Gaspar. seguros de que empregam bem o cios seu dinheiro. Dentro da Escola. as crianças reconhe^ cem-se iguaes. um parmesmo na ponta do nariz do reverendo. Aparte o pagamento ás professoras. a noção de igualdade que lhes . a faculdade de voar. uniformisadas com a maior e menos dispendiosa forma. de visitar o Jardim-Escola João de Deus. mesma solicitude. onde tomaremos o comboio da Beira Alta. quasi a roçar-lhe no boné. e ainda bem. todas as desdispensa o dr. comete uma grave irreverência. Não me pezas da Escola são custeadas pela generosidade dos habitantes da Figueira. e continuou o seu caminho.

opulenta ranças. persuadidas de que não fizeram senão brincar. radica se no seu espirito ção. Aqui ha muitos anos. O lhosa dr. O mas mais provável é irmos sós até á Pampise alguém entrar. com um calor de rachar. ainda eu era estudante de . A's onze horas. todas as qualidades de Mulher e Mestra.. Administração da Escola. fazemos . um colete depressa se abotoa. os nossos calorosos e sinceros cumprimentos. Ministra se o ensino por modo que as crianças apren- dem sem ver. indispensáveis para o bom desempenho de tão melindroso cargo. da Universidade Livre de Coimbra. e eu tiro o casaco. esforço. sita. com a diferença de ser aquilo uma brincadeira que só é possível na Escola. loo POR CERROS E VALES em forma- dá o vestuário. dr. Moura Pinto desabotoa o colete. Muito reconhecidos por todas as gentilezas que para conosco teve a Delegacia. damos por finda esta vi- que nos reavivou saudades d'uma quadra da nosde sonhos. saímos da Figueira pelo comboio da Beira Alta. e á sua ilustre que nos parece reunir em grau elevado. Na pessoa do Manoel Gaspar felicitamos a directora. e um casaco depressa se veste. na Figueira. a transbordar de espe- sa vida. . podendo ter- se como certo que em muitas esse admirável ensinamento da Escola resistirá aos maus exemplos e perniciosas sugestões da Sociedade. encontram se a saber ler e escre- ao cabo de poucas semanas.

onde os aguardavam os politica grandes trunfos da progressista. Mal o comboio arrancou de Gaia. Pinto. uma Comissão de burgueses do Porlo. a conferenciar com o presidente ministério. o alto comercio. é que eles trataram de se vestir e calçar. Quando já estavam perto de Lisboa. que era regenerador.POR CERROS E VALES medicina. excelente Moura amigo que é ao mesmo tempo adorável companheiro de viagem. pela maior parte gente do comercio.. na carruagem. to- mou do o comboio para Lisboa. o que tinha ares de chefe advertiu que em chegando ao Poço do Bispo — ao tempo a Estação terminus da linha do Norte era Santa Apolónia vestissem. os da Comissão puzeram-se á vontade. porque qualificativo nada mais são que modestíssimos outeiros.. — era necessário que se Ora sucedeu que a Estação do Poço do Bispo parou lhes passou despercebida. e alguns com o colete por fora do casaco. os mais escravisados ao uso do tamanco e do chinelo. Facilmente se calcula o embaraço dos pobres comissionados. de suaves . Viajavam em carruagem reservada. desembaraçando-se do casaco e colete. Pois vamos sós. um d'eles tão atrapalhado que saiu da carruagem com uma bota na mão. desembaraçando se também das botas. eu e o dr. e calçassem. um Pequenos vales. e justamente quando o comboio em Santa Apolónia. que não merecem o ligeiras acuminações de terreno de montes. num dos mais pirome- tricôs dias de julho. e alguns.

á distancia a que nós os vemos. a quem os rei- vê de longe. a batata. aqui e além retalhos de centeio. havia os gran- des latifúndios. não me lembra agora em que volume Havia os — os . o que morreu assado no Vesúvio.! 102 POR CERROS E VALES e arborisadas encostas. Alemtejo para ser completa a poesia das Na Itália do seu tempo. e tanto eles contribuíam para a miséria publica. em anos de bôa ou razoável colheita. e qualquer pequeno lavrador semeia por ano. os trigaes do Alemtejo Centenas de alqueires lançados á terra. latifúndios mas não havia os infinitos trigaes. dando fofo. gente. de macio e d'um verde terno. ocupando esta sementeira entre trinta a quarenta hectares. seara. con- forme a terra é de mais ou menos semente. que Plinio. salpicados de papoilas vermelhas. que ainda entra. Muitas oliveiras. e viveiros de penisco. estendendo-se para um e outro lado da linha. talvez considerada. quatro ou cinco moios. com certeza menos d'um hectare. escreveu na sua Historia Natural. a abóbora. são deze- nas de moios que entram no celeiro. terra. mas de cada vez menos. na alimentação d'esta Agora mesmo me caem os olhos sobre uma seara de trigo. per- feitamente uniforme. a vinha. . latifúndios per- deram a Itália. Grandes manchas de pinheiro bravo. de pouca idade. mal cobrindo a vedo tropical. a impressão. insignificantes olivais. aqui. Faltou ao poeta mantuano ver uma grande já seara de trigo no Georgicas. As searas. qualquer coisa uma grande como quatro ou cinco alqueires em semeadura. Retalhos de cultura — o mi- lho.

como eu. ora loiras. li- Muito curiosos. Cantanhede. e escrevia. ao que me informam. êde é comum a todas — Arazêde. adquirem um porte soberbo. a poucos kilometros mais alguma outra de que não lembro agora. que ainda não é de pleno verão. com as espigas as ceifas á As admirável^ paginas que Virgílio teria acres- centado ao seu poema. 103 um já em leite. ora verdes. e inculcam um viver confortáque ainda hoje. Constato que por aqui a oliveira adquire um gran- de desenvolvimento. habitação que Pequenos pomares. Tirando Alhadas. n'esta da Figueira.POR CERROS E VALES ondulando como ainda porta. alemtejano de raiz. a crescerem sob o bafo de Ceres> e a amadurarem quando o carro do Sol. Lecal me mêde. Aparece. Primavera. Murdêde. os nomes das Estações. maduro o grão. Abunda a em Can- tanhede. pequeninas hortas. criado como eu a sjer a opulência das messes. guiado por Phoebus. e nha pitoresca. arvores de bom porte. na minha Província. no horisonte afastado. se fosse. irradia um e já calor benéfico. excessivamente didatico. n'esta região. só conhe- vel cem e desfrutara raros lavradores. não fazia versos. em prosa. as oliveiras. ou ast0 mar interior. por isso. não é da fosse florida — E' verdade que se ele tão mal como eu. o tronco grosso e a copa abundante. casas de em nada se parecem com os velhos Montes do Alemtejo. o Caramulo pela . como eu escrevo. de bôa produção. e talvez.

metida n'uma cercadura de A cadeia de Caramulo fecha o horisonte. cultivada com esmero. se deitássemos a cabeça fora da janela. para ela pasverti- Vê-se o Bussaco de muito perto. alta e muito comprida a ponte sobre o Dão. a campina de Mortágua. A linha. d'aqui até Mortágua. em Abril de 1894. e o Bussaco pela direita. em que bateríamos com o nariz. com um ano de inactividade. esquerda. d'uma extensão pinhaes. pequeninas estan- de letrado pobre. d'aspecto mais do que pobre. miserável. quasi na nem propriamente monte nem estreitas. e na verdade elas e muito curiosas as formações de chisto que a linha como quem abre um livro. em canudos que foi escuros. cordilheira. aqui e além fendidos em n'algumas das quaes ha povoados minúsculos. envoltos voeiro pouco denso. massa enorme de ravinas flancos ásperos. que são os numerosos necessário abrir na rocha. limitando uma depressão de terreno. ridículas em comparação com de muitas dúzias as que se vêem no Guadiana. A primeira foi vez que por aqui passei. ora metida túneis sar. em ne- uma neblina que turva os ares sem apagar as formas. cal. que faz lembrar os campos do Ribatejo.104 POR CERROS E VALES . variamente acidentado. Linda. era eu cirurgião ajudante. a caminho de Vizeu. Pampilhosa. Muito cortou. ora apertada entre trincheiras altas. castigado pelo mi- nistro da guerra. é aborrecida. fazem lembrar estantes com tes livros. . altas de metros.

. . e. . Por efeito esti- do castigo. n'umas eleições geraes. — não não da posição. emquanto vesse em Vizeu. o e o crime. Vão passados trinta e cinco anos e N'aqueles velhos tempos ainda não era decente os inimigos das instituições vigentes servirem-nas servirem-se. temperada a alma com as qualimais alemtejano do que eu. Sou . em cargos de confiança politica. O calor é de respeito .! POR CERROS E VALES Que nefando ção? Praticara 105 crime praticara para tão dura expia- o crime de colaborar n'um jornal repu- blicano que se publicava em Beja. qualquer coisa como yinte mil réis. mas nunca excessiva para um alemtejano de raiz. como bagagem que nos acompanha. por forma a não comprometer a dignidade fazer dividas. é pouca a carruagem para o automóvel. fardado ou á paisana. proposto pelo Directório. eu receberia por mez. consentido em ser can- por Beja. e ninguém é bem um homem da sua província. e apresentar-me. a temperatura é caminho dos Vales. um autentico produto do meio em que foi gerado e se criou. confor- me a moral dos novos tempos. menos do que o indispensável para cito viver preceituado no Regulamento Disciplinar segundo o do Exer- comer nas tavernas ou casas de malta. para mais bem dis< com uma noite perdida. de ter didato Nove de Julho. saltamos da Pára o comboio na gare de Santa Comba. Era natural que não yiesse posto. ainda maior. e a ála que se faz tarde.

io6

POR CERROS E VALES

dades e os defeitos que essencialmente caracterizam
a gente transtagana.

O que seria um homem Um anjo. O que seria um homem

sem

defeitos ?

sem

virtudes ?

Um

monstro.

In medid consistet virtus, e eu não trocaria a mi-

nha qualidade de
ção

homem

pela

absoluta perfeição de

Deus, e só constrangido aceitaria a minha transfigura-

em Belzebu, mesmo que me fizessem imperador do Orço.
Pois está
bra
;

um

calor de se lhe tirar o chapéu... á
folha,

som-

não bóie uma aragem.
Põe- se o carro

caridosamente tocada pela

em

marcha, e a coluna de ar que

desloca atenua os rigores do sol, cravado

como um

botão de fogo no céu limpo de nuvens.

A

estrada, de Santa

Cçmba

até por aí fora, permite

toda a velocidade de que é capaz

um Ferd que

tem no bucho para cima de quarenta mil quilómetros.

Nós, os portugueses, somos duma poupança feroz,

quando se

trata

de

utilizar

maquinas, e o Estado muito

mais que os particulares.
Acreditará o
terror
leitar

que o nosso Vasco da

Qama,

dos mares,

conta a bonita idade de sessenta

anos?
]á se
trutora,
vel

uma casa consuma peça que era indispensáao funcionamento duma maquina que ali tínhamos
deu o caso de pedirmos a
na Inglaterra,

POR CERROS E VALES

107

comprado havia muitos anos, e estava ainda em condições de prestar óptimos serviços, adicionando lhe a

peça que lhe faltava.

Na

própria casa que a fabricara e
leve, a

no

la

vendera não havia a mais
da
tal

mais apagada
foi

noticia

maquina, e a resposta
tirar

mandarem

aqui
fia

um

engenheiro para

os desenhos e fotogra-

de tão extraordinário prodigio, digno àe figurar
pressa,

num Museu. Vamos devagar, porque não temos
pressa tivéssemos, mais devagar iriamos,
cia a

e,

se

em

obediên-

um salutar aviso da sabedoria das Nações. Região acidentada, horizontes curtos, renovando-

se a cada volta

da estrada, sem que mude a paisagem. Pequenos campos de milho, algum \â alto e em-

bandeirado,
curto,

com tendência

a murchar, outro> muito
resistir

ds aspecto vigoroso, capaz de

á sede,

se a chuva tardar. Retalhinhos de cultura frumentaria,
trigo e centeio,

que

me

dariam, se ainda estivessem

verdes e rasteiros, a impressão de searas de Santo

António

em

grandes pratos de barro.

Os

pinhais são os

montados da Beira

;

mas o

pi-

nheiro bravo não se compara,
rústicas, que dá bolota,

em

beleza, ao quercas

porta o confronto,
ber, que dá a

nem o pinheiro manso sucomo desenho, com o quercus sa-

lande, admirável comida para engor-

dar os porcos

esguio

Tudo no pinheiro bravo é áspero, como os ciprestes, mas sem

quasi agressivo,
a

ramagem que

enfeita estas arvores funerárias, particularmente destinadas, entre nós, á

ornamentação do scemiterios.

io8

POR CERROS E VALES
pinheiro

O
que

manso, de

farta cabeleira,
vista,

dum

verde

irradia frescura,

não fere a

não molesta a
de estrada,

sensibilidade.

Agora mesmo, num

virar

me caem
sos,

os olhos sobre

um

maciço de pinheiros man-

na chapada

em

frente, todos

do mesmo tama-

nho, todos

equidistantes

uns dos outros, tocando-se

pela coma, a formar

uma umbela suavemente convede que vai surgir de qual-

xa, e eu tenho a impressão

quer parte o divino Pan, oferecendo se

em

adoração

naquela pequena catedral.

— Parece

que foram tosquiados, como buxos de
o
dr.

jardim

— diz-me

cia superior

dá realce

Moura Pinto, a cuja inteligênuma sensibilidade excepcional-

mente delicada. Quere-me parecer que caminhamos por entre hortas, pequeninas hortas que são grandes quintais, terras amanhadas com muito cuidado, junto ás povoações

com muito esmero,

as arvores de fruto, as lamacieiras,

ranjeiras, as pereiras, as

os pecegueiros.

pondo uma nota de elegância arboricola nos taboleiros, uns maiores, outros mais pequenos, em que verdeja o milho, a batata, o feijão, e bracejam as abó-

boras, ainda

em rama.

A
anos

nota mais simpática desta paisagem é dada pela

vinha,

que neste ano prometedor, sucedendo a dois
desgraçados,

promete uma

tal

abundância de

vinho que

os mixordeiros

negocio que eles

andam aflitos, porque o fazem com o sumo da uva é nada
lhes rende a sua enologia de

em comparação do que
criminosos

i

— sem

medo, sem escrúpulos e sem ver-

POR CERROS E VALES
gonha. Aqui nos aparece agora
inculto,

109

um

largo trato de chão

um

baldio que

berta a terra

nem sequer tem pinheiros, coduma urze que lhe dá tons de grenat,
tojo,

misturada ao

de pequenina

flor

amarela, e ao

rosmaninho,

seco,

côr das borras do vinho tinto.

Feita de curvas, muito apertadas, só de longe

em

longe a estrada oferece
recta,

um pequeno

fragmento de

em que

se

diversa sucede
rectas se

com

pode largar á vontade. Coisa bem as estradas do Alemtejo, onde as
raio.

medem

por quilómetros e as curvas, por via

de regra, são de grande
Garante- me o
dr.

Moura Pinto que
.

é o

Mondego

o rio que

vamos agora
.

atravessar, apertado entre

fragas, o leito cheio.
eles serpeando,

de pedregulhos, e por entre

em

ondulações minúsculas,

um

del-

gadinho
poça.

fio

de agua, que só por milagre rão em-

Sem

a

contribuição que recebe doutros rios

—o

Ceira, o Alva, o Dão, o

Mondego

arriscava-se a não

chegar á Figueira, e tão insignificante é o seu desnivel entre a Figueira e

Coimbra, que não seria coisa

no cabedelo, interrompendo por completo e definitivamente as suas relações com o Oceano. Não baixou a temperatura, mas o calor não incomoda. Plátanos é eucaliptos bordam a estrada, dandia esbarrar

de pasmar vê-lo

um

do lhe sombra, e aqui e além,

em pequeninos

lanços,

formam abobada ogival, cora rasgões por onde entra o sol, mal temperando a folhagem as suas ardências
de verão.

;

lio

POR CERROS E VALES
manter* se

Não podem

grandes rebanhos nestas

terras quadriculadas, e os baldios, terra de ninguém,

ficam a grandes distancias uns dos outros, de

modo

que tem o gado de andar pelas estradas, impossibilitado, nas suas andanças, de comer pastagem doutrem.

Agora mesmo passa por
atalhito

nós,

parado o carro,

um

de ovelhas brancas, guiado por dois pastores,

dois

rapazotes
pelo trajo

nem

que não têm nada o ar serrano, e nem pelas maneiras fazem lembrar o
atravessamos o Mondego, agora mais

zagal do Alemtejo.

E novamente

largo e mais farto de agua, formando pego para bai-

xo da ponte, emoldurado de esmerada cultura.

em

freixos

e salgueiros,

dando-se até o luxo de margens relativamente largas,

Ainda não
tirar

vi

um

só moinho americano, moinho de

agua, e as tristes cegonhas que me aparecem, molhando o bico em covas ou boqueirões sem empedrado, levam-me a pensar no que seriam as regas no Paraiso, anteriormente ao pecado, tão inocente o

homem coroo a mulher, passeando descuidosamente um e outro, a sua nudez fresca e virginal pelas ruas
umbrosas e perfumadas do jardim, sem desejos pecaminosos, sem pensamentos libertinos, e o Diabo
debaixo da macieira, de óptimos frutos, a
rir,

a rir...

Chegamos
tributário

a Coja,

na

do Mondego, como já ficou de interessante esta vila, que seria

margem esquerda do Alva, dito. Nada tem um nudeo de

população importante se aqui perto tivesse

um

cami-

mais ancho além. Almoço po. húmido e musgoso. permitindo o uso de jangadas. pela esquerda. estilo antigoa agua. velho e querido amigo. iii ou se o rio fosse navegael. abaixo beirão. lote. montada sobre colunas de granito. com um vago sabor muito pura- a ferro. funcionando como les. e Vales.POR CERROS E VALES nho de ferro. e é como se fossemos costeando em rápido um velho muro. Mas em é admirável a paisagem. os montes descem declive. Pela direita. não lendo fugido do Mun- . cora o sol a pino. Na termómetro marca São duas horas. Mendes Leal. muito estreito aqui. em- bora não seja garfo de nomeada e fique. nos Apetece mais a agua que a comida. mui- muito leve. é excelente. Mendes Leal. com chanfraduras alongadas ou semi-circulares. a que eu faço grande honra. co- mo um les. pomo-nos a caminho de Torrezelo. va. na Beira. para barcos de pequeno se pelo embora menos fosse flutuavel. por ali abaixo. ao conselheiro sr. Moura Pinto. o trinta e seis graus. como co- do medíocre. tão forte como ao chegarmos Santa Comba. batelões. a Sem medo ao calor. nas suas curvas de maior ralo. até Coja. como lhe chama toda a gente. de visita ao dr. Mais cinco minutos de corrida e estamos nos Vaem casa do dr. o Altorcicolos. varanda. circunscrevendo risonhos va- que seriam os jardins e pomares de Vertuno e Poraona dos nossos dias. to fresca. caixilho partido.

mais largo e mais comprido. sem harmonia com o ambiente. do lado esquerdo do rio. ficando tãc/ bem. desde a margem do rio. Verdejante e aprazivel como o de Vila Cova é o vale do Avô. trada. como na como numa recurva da es- gião de calores sufocantes.112 POR CERROS E VALES do — sabe-se lá para onde ? — os simpáticos um deuses que o povoavam e eram ao mesmo tempo a força e a abundância. Visto das chamadas Varandas. vivem os caseiros em pobres moradias sem conforto. vagamente fazendo lembrar os enormes vales da Suiça. Nas Quintas. pinhais em formação põem grandes manchas verdes nas terras inclinadas e froixas. sobe até quasi tocar os cabeços mais altos. e. como que proiectando-se nas encostas. toda a beleza da vida. O aspecto da . Um grande ramo de olival povoa as encostas. em chalés incaracterísticos. em frente. tornando ainda mais pequeno o seu pequenis- simo caudal. sendo de pre- sumir que sem estas agrafes elas viriam assorear mais o rio. mansão de privações e dores. numa região de frios e neves. ou tão mal. que são as herdades do Alemteiot não tendo em conta a área. o vale do numa Avô é realmente bonito. ou vivem os donos. comparadas ás quais estes cerros são pequeninos desníveis. emoldurados em montanhas gigantescas. a Terra sendo uma estancia de prazer e não vale de lagrimas. Aqui e além. na planície encosta. muito maior. acomodadas as oli' veiras em socalcos. como as cepas no Douro.

a que dá acesso uma escada de pedra. pela côr! vale a pena a gente demorar-se Não Vila em qualquer destas pequenas povoações que vamos atravessando. nem uma só destacando. pelo lado de fora. sas. rida. o ao sair chegar-se para as encos- da povoação. casa aqui. independentemen- da forma e do tamanho. todas elas insignificantes. estrada nacional. sendo curioso notar que numa pe- quena área como te esta chã do Avô.POR CERROS E VALES 113 povoação é desgracioso. Lorosa. conservando ainda. talvez. coberta de telha vã. a gente distingue as coi. Vendas de Galizes. ctonicamente Tudo mais velho do que rio a antigo. arquitedistinta. Chamusca. a que se nos prendam os olhos nm tas. e do mesmo lado. talvez como documentação. não ha as co- violentas que ferem pelo contraste. O verde. pobre e mesquinho. A estrada em que vamos agora. Na paisagem da Beira não há o contraste violento declive das res cores. uma varanda cor- em madeira. de grandes curvas. Pinheiros a um lado e outro . permite a maior velocidade de que é capaz o carro. os primeiroe contrafortes da Serra da . naturalmente procurando um que o não obrigue a esforços com que mal poderia a sua esquemia de verão. melhor dizendo. Pouca. a toda a largura da respectiva face. interessando-nos pela grandeza. é a côr funda- mental da Beira. . um grande numero daquelas po< cilgas com primeiro andar. na opulenta escala das suas gradações. casa além. fechan8 do o horizonte. enlevo. pela direita.

114 POR CERROS E VALES de chapadas verdejantes. esbaterem se os contornos da montanha. Está desanuviada a Serra. formando um espinhaço que parece uniforme. por as- sim dizer incoercível. visto através da neblina discreta. até aos Vales. Em ras frente de Torrezelo a Serra é imponente. aqui. batata. um grande rio. lá em • baixo. falta-lhe apenas. a es- trada de Loriga. feijão. desde a raiz. como uma branca. mas começa a envolvê-la uma neblina sem consistência. o pobre rio Alva. Mas eis que surge um automóvel. através da qual veremos. fita Divisa-se. . O ar da Serra retemperou o meu velho amigo. voltará rijo e forte a Lisboa. muito ténue. as inevitáveis culturas da Beira — milho. de côr violeta em é transição para o azul. ao passo das mulas de carga. ao convívio de pessoas que muito o estimam e que são todas que de perto o conhecem. pinheiros bravos e cultu- várias. a correr com o . Chegamos a Torrezelo. Estrella. incapaz de nos levar por ahi fora. o Caramulo. por ela trepando. na cumieira. e por seguro tenho que com a demora de mais algu- mas semanas. dentro em pouco. que para ser agua. e adívinha-se. no fun< do do vale estreito. nus e ásperos os altura. visos de maior Pela esquerda. vinha rasteira. embora cami- nhando lentamente. O demónio que se avariou o Ferd.

e o meu a extasi poético. Igrejas alcandoradas nos sem mon- porque me parece que elas inculcam um salutar regresso ao paganismo. na capelinha da Senhora das Preces. valores mobiliá- que somavam contos. E' guiado pelo sr. apeando. muitos contos. porque então uma libra valia nove vezes cinco tostões e cada tostão valia cinco vinténs. idos. e não precisou dizêlo duas ve?es para aceitarmos o seu generoso oferecimento. foi talvez para Senhora uma oração.POR CERROS E VALES 115 maior desembaraço. como agora sucede.se dele pessoas conhecidas. como o povo lhe chama. que me tornou credor da sua divina graça e inefável misericórdia. terra. amigos do homem e seus sem as promessas dum Céo-chimera. ha pouco. Pegado. Hoje a Senhora das Preces. quando vínhamos a caminho de Torrezelo. unionista dos que na Beira mais devotadamente serviram o par* tido. de feição religiosa. Moura Pinto. e não apenas cinco réis. Senhora das Pressas. . integrados os Santos na vida multiforme protectores. e sem as ameaças d'um Inferno-mentira. Eu levO"OS aos Vales declara o sr. da Natureza. Pobre Senhora das Pressas 1 Teve muito de seu. muitos carros de milho. ao que me informam. amigo intimo do dr. em tempos rios muitos alquei* res de. — — Quem sabe? Eu cravei demoradamente os olhos. José Pe- gado. Nunca vejo comoção pequeninas tes. quando vínhamos para aqui. e pára junto de nós.

no género d'aquelle cura do Melfâ — malicioso. e de cada vez menos.ii6 POR CERROS E VALES com que pagar triste ainda tem a lamuria cantada ou resa- da d'um cego. já não é a tonalidade violeta da hora crepuscuno entardecer d'um dia quente e húmido. que se tinham feito encargo de lhe administrar a fazenda. ainda limpida a do o poder emocional da sua alma de artista. alegre. Como um fixar grande pintor que para memoria. a atmos- phera a adensar se por sobre os montes alcantilados. mas tam- bém lar. vista. uma phantasia de cores. de todos que eram conhecidos. Não é a encher se de começam ainda a côr azul dos longes montanhosos. mas já os vales mais fundos sombra. fora o de enriquecer finadissimos devotos. integro to- ainda forte o pulso. se não d'ella. oiro novo. e prover á execução do seu culto. suavemente iluminadas. Aproxima-se a Ainda se vê o noite. vai morrer. sol. já teria com que pagar lâmpada que a alumia. e nas chapadas da Serra as coisas vão tomando formas homogéneas. se os devo- muito poucos. o sol desenha no poente um quadro maravilhoso. seus fabriqueiros. prazenteiro — que o maior em pouco tempo os re- milagre que a Senhora fizera. por cima do Caramulo . que vai desde o amarelo até ao vermelho purpúreo do oiro derretido. . querendo na tela. lembrassem para a não deixarem ás escuras. mas dificilmente o azeite da tos. E a respeito do poder milagrento da santinha ? Dizia um velho cura.

ilustre cathedratico de Coimbra.POR CERROS E VALES Alravez d'um vê se o horisonte pinhal 117 espesso. são agora massas e frangalhos de nuvens quasi negras franiadas de branco muito limpido. sol abaixo do horisonte . é que melhor crepusculares. em chammas. voraz se o tocassem os mágicos pincéis de Salvator Rosa. o automóvel galga e adapta-se ás como um comboio rápido. na pintura. acentuam as formas Vinci empregava-as e distribui-as por maneira a tornar qua. e é como se para cima d'uma tela de Caravagío atirassem as sombras trágicas de Ribera. sobretudo nos logares como este. cortado de ravinas e eriçado de montes. si palpável o modelado das suas figuras Nas horas rora quando desponta a auou quando se aproxima a noite. na exclamação vigorosa e beyroniana do Adrião Forjaz. Ainda são tancia. seu discípulo. Um coelho atravessa a estrada. como incêndio. nitidos os contornos das coisas a dis- frouxamente iluminadas pelos últimos raios do . como pregas de veludo. quasi deixando-se apanhar pelo carro. curvas como um cavalo de circo. aodes- . e este pequeno incidente. formando corjina. mas já mal se apercebem saliências e depressões os tons duros da paisagem las tornaramse macios. Guiado por mão as rectas hábil e firme. Cae a noite. inspirado na poesia trágica dum como o de Go- monba. se observara os efeitos de luz. o jogo das sombras em plena Natureza. e aquelabaredas que ainda ha pouco viamos incendiando o poente. As sombras.

A treva. ar. no somno d'uma noite profunda e muda. de do nosso Quatro dias sem grafonola Quatro dias sem Asuero 1 Quatro dias sem Camarão N'esíe mundo. no campo. uma adver- um aviso. como se fora tência. e uma é d^ellas. E cá estamos nos ^/alles. que bem neces- sendo ao vigor do nosso corpo e á saúespirito. chos de floresta. as hyenas. isto é. esperançados o tempo não mude. aquelie sentimento de dependência. em mysterios qual- O silencio apavora quer ruido nos sobresalta. em tre- região de montes alterosos e ravinas fundas. ha os leo- os pretos. o medo. apezar das suas imperfeições. os leões. em casa amiga. depois. esta pequena excursão. A noite. como que separa a imaginação da realidade. quando a Natureza fatiga- da se retempera para a vida. como elementos de pardos. admiravelmente bem em que dis- postos para comer. ha bichos bons. os crocodilos. sobretudo a noite escura. bichos maus. por certo das melhores. que fez nascer no homem a religiosidade primitiva. como faz-me recordar noites d'Africa dizia o outro. que são os brancos. e para dormir. um recanto da Província. de maneira sária estava tal que tenhamos de dar por ape- nas iniciada. chovendo finda. andar para o onde. e é ahi que Deus reside. e entre uns e outros. ainda ha coisas boas. que são transição.! ii8 POR CERROS E VALES Barril. com . é propicia á cogitação e á perpetração de crimes. primeiro. enchen- do os pulmões de bom vendo como as searas crés- .

horta e courela. as suas rosas. em que vivem.se o dr. No ou menos a mesma coisa. quasi a desculpar. muitas centenas de hectares. são deliciosos os seus fructos. ouvindo a cantoria dos si* pássaros e o ramalhar das arvores. e teem flores. com interesse e com porque as suas terras são feríeis. e sede d'agua . a Quinta dos Vales é uma pra- propriedade que se explora zer. Deus e a Natureza nada mais sendo que espirito. mas da polegada do chão em que trabalhem de conta própria. Moura Pinto por não ser uma daquelas imensas herdades alem- que medem. e julgo Minho. Jardim. pouco rende. e te-la-ha de sobejo. já conveniente exploração. dizendo que na estatística criminal duma e . sucede pouco mais não ficar longe da verdade. antes do almoço. falta. se não fôr con- venientemente regada. não empenhado. uma creação do Fazemos o a sua Quinta tejanas giro do proprietário.POR CERROS E VALES cem e lencio 119 os frutos amaduram. um aroma penetrante as suas os seus cravos. escutando no das noites calmas os segredos que as raizes dizem á Terra e os Montes comunicam ao Céu. na Beira. Mas a apenas do casinhoto propriedade. tos uns fáceis Agua não lhe quando estiverem completrabalhos de hydraulica em que anda preparada a respectiva mina para a Na Beira ha fome de terra todos querem ser proprietários. em área.

. dentro dum souto. ao longe. que devessem ser consideradas e pudessem ser satisfeitas pelo Mi- . o ribombar surdo dum trovão. Por aqui andei in illo tempere. o horisonte. um souto. passando pelo Ainda não tanheiros. Está a fortnar-se as bandas uma trovoada no quadrante sul. Escureceu ura pouco o ar já vi relâmpagos curtos zig-zagueando para cá dos montes que fecham . rode para do pego.mo das maiores necessidades d'esta região. em plena tão viva é a impressão de frescura que os castanheiros. ]á o céu vai limpando. nada se vendo das suas pernardas. ha pouco. diz o dr. Moura Pinto. Toca para o Posto Agrário. pareceu me ter ouvido. vi Barril. por de- mais poeirenta.POR CERROS E VALES outra destas Províncias avulta a sacholada homicida por motivos de repartição das aguas para rega. sentir frio. porque então dá molho. Efectivamente passou. algumas tendo uma rigorosa forma geométrica. tendo caido algumas gotas d'agua. já.. mas tenho visto lindos casalguns em plena floração. empenachados tão profusamente que parece não ser a arvore mais do que uma enorme cerbeille. muito ao lon- ge. e receio muito que ela. em cone. com as das azinheiras. com certeza. Quer-me parecer que se deve canicula. na forma e no tamanho. transmitem á pele por intermédio da vista. insuficientes para ogarem a estrada. carregados de flores. sem comparação. e. — Isto passa. a informar. uma vez formada.

de que nunca usei. como se ornamentassem as capelas Imperfeitas. alegando rasões de muito peso. formada dos seus membros mais a União Ree ilustres. Disse o dr. que nunca tive. sobrelevando a todas a necessidade de se manter o contacto com o povo por intermédio de alguém que houvesse marcado o seu lugar nos trabalhos da propaganda. ha bons dezoito anos. que não eram desculpas de mau pagador. Não foram atendidas as minhas razões. um es- dos meus amigos mais dedicados. como monu- mento tiva.POR CERROS E VALES nisterio força. que hoje é considerada nacional. vendo tudo e ouvindo todos. da Batalha. com toiros e bonecos das . Pois foi na qualidade de Ministro do Fomento que eu por aqui andei. Moura Pinto. A fachada conserva a feição primi- e seria fácil restituir-lhe a pureza arquitectónica estúpido acrescen- da sua construção. publicana. servindo-me de cicerone o dr. e condenáveis processos. e a 23 de Novembro de 1910 eu assumia a gerência da pasta do Fomento. cuja pasta eu seria. sabendo que mentia. absolutamente nada lisongeado com a honraria. onde ha uma tilo igreja em românico. Fiz as maiores e mais honestas diligencias para não entrar no Governo Provisório. Ministro á como o medico de Molière. atribuindo-me ruins propósitos. um que veiu a ser. que eu intrigara para ser ministro. Parámos em Lorosa. e sem nenhum que receio das graves responsabilidades me adviriam do exercicio do cargo. Teó- Braga. demolindo te um que a macula. filo 121 do Fomento.

não obstante a cortar pelo meio uma es* trada nacional. os dentes brancos. exclama religião. chegando-lhes aos Uma gros. O postigo. os pés muito limpos. — Eles A é que dão cabo da adorável garota . as ruas imundas. miudinha. as saias compridas. Aparece a senhora Maria do Carmo com as cha- ves da Igreja. estávamos nós a palestrar com um pe- queno rancho de tornozelos. e o sacristão anda a tratar da sua yida. no campo. os olhos ne* bem rasgados. na sua quasí no estilo antigo. a meio da porta. a que já me referi. d'elas. ceifeiras. e com um desembaraço de feminista militante. João. — sem propositada ofensa a esta pobre e honrada gente. todas descalças. envolvendo todos os padres na mesma responsabilidade. e serve para arejar a casa.! : POR CERROS E VALES Caldas. que no Alemteio é representado por uma abertura quadrangular. e parece que nas demais terreolas da Beira. cos. como lhe uma chamariam em espécie de Lisboa. e constata- noite recolha a casa. Lourosa é uma povoação de aspecto miserável. e para ver ga. as totalidade. da equivalência de Lorosa. Damos um pequeno mos que. o postigo. sendo natural que só á giro pela Aldeia. queixa-se fôfoS) admiráveis para do pároco não promover festas a S. é re- presentado por meia porta. mu'to bran- destacando pela alvura no escarlate dos beicitos beijos pegados. casas. redondinha. Está fechada a porta. assim avental de pau. quem passa ou quem che- em Lorosa.

as amoras dos silvados. uma grande bandeja. em grande bicha. cinco tostões. perfeita mulher. . e depois. tra-se disposta a fazer é em Portugal um dos mais antigos exemplares do autorisada do ta a estilo românico. Esta igreja. Viseu. no campo ou no Parlamento quem o dera cá ha formas de linguagem que é desagradável ouvi-las. mas a voz tem bôa tonalidade. ape- zar dos seus quarenta bem contados. do templo. a não ser dentro. onde nada ha que chame a nossa atenção. ou qualquer outra enormidade do mesmo São como rústicas . desde que Beira. A ta senhora Maria do Carmo. mesmo quando — I — nos arranham os ouvidos como se fossem lasquialhas de pau do ar. e me em entendo.me de ver as igrejas cheias. e remonsua fundação aos princípios do século 10 °. e dá gosto apetece apanha-ías.POR CERROS E VALES Não lhe pergunto o 123 nome. abre-nos a porlateral. Habitua-se a gente a correcções gramaticaes. em cima duma mesa. Joaquim de Vasconcelos. dos quais dusen. ao domingo. en- carecer a religiosidade da recordo. senhora Maria do Carmo leva-nos á sacristia. tendo em esmolas. os devotos retardatários. segundo a opinião A sr. Parece que o devocionismo beirão sofreu . e referir-nos tudo quanto a respeito dele sabe. com medo dela jaez. são falsos. tos e cincoenta réis. uma insignificante porta e mos- nos vêr tudo quanto ele contem. me di- zer que se chama Zéfa da Purificação. as rapariguinhas vê-las. ouvin- do missa do adro. Sempre tenho ouvido.

presta grandes sertécnica. o Posto viços á região. ha anos. pelo menos não se traduz rosidades para com os santos. adota todas as praticas úteis. doutorices . sem agua em abundância. Escassamente dotado. a Está o Posto instalado foi num enorme casarão. quando os não vigari- sam. sem o apetrechamento que devia ler. como no Alemtejo. vindo a re- conhecer. como assistência mercê da já competência e do zelo do agrónomo que d'ele tem encargo. fica ali adiante. Na a Beira. a escorregar por uma ]á encosta rápida. o agricultor é surdo mas escuta todos os conselhos inteli- gentes. como sucedeu á Senhora das Preces. ]á muitos lavradores o consultam tos . mui- vão ali aprender como devem fazer a poda das suas vinhas e arvores de fruto. como devem prepa- rar as suas terras. Pensou-se. em ins- talar ali um hospital para tuberculosos. e como o pou- objectivo da excursão d'hoje é o Posto Agrário. ali que mandar para teberculcsos o mesmo seria que passar-lhes guia de marcha para o outro mundo. que convento de freiras. mar- chamos para Vila Pouca. Nada mais ha que ver em Lorcsa.se.124 POR CERROS E VALES em gene- grande quebra. depois de feiíos consideráveis gastos. desde que a sua utilidade resalte dos factos em vez de relampejar em discursos Acreditará o leitor que ao Posto de Vila Pouca . e que sementes devem empregar para que seja mais abundante a sua colheita. que cos quilómetros.

do Fomento criei uma Escola. a vulgares tocadores de pifaro. sob a direcção d'uma entidade corporativa. a primeira no Paiz. e tia em segundo logar eu presen- que ela. pomicultura e iarmaneira Como Ministro dinagem. Dificilmente se não terá razão dizendo mal do Es* tado. a crear-se. Pois quer o leitor saber frente da Escola. alheia á burocracia. quem a Associação poz á nomeado pelo Ministro ? ! Um oficial da marinha de guerra Tenho o dito muitas vezes. instalando. em regra. vias oficiais ha mais d'um ano ? Ministério da Resisti em 1911. e Pedi á Associação de Agricultura que elaborasse o programa dessa Escola me indicasse o homem competente que havia de dirigil*a. de horticultura. que até certo ponto o iustificam. seria confiada.a no vasto Parque de Queluz. muito cuidado. instalada no Terreiro do Paço. procedem de tal. e não será demais re- .POR CERROS E VALES ainda 125 não chegou a criar um o udometro. e ainda não tive uma hora de arrependimento. — Tenham seja E recomendei. as bennes da politica. mas a verdade é que os mais implacáveis cen- sores do Estado. Em primeiro logar não se fazia sentir a necessidade d'essa gaita na orquestra administrativa. á toutfaire que nos longinquos tempos da Monarquia iniciavam a sua carreira de estadistas pelo Ministério da Marinha. Deseio que a Escola uma instituição do Estado. requisitado pelas Agricultura. quando os chamam a substituil-o em qualquer ramo de serviço publico.

126 POR CERROS E VALES O petil — a lavoura não tem a assistência técnica que devia ter. s bordada. do não se ergue o nem um que ali casalito fumega. até Avô. os visos da serrania vale em frente. O sol. d'um bucolismo virgiliano que extasia. de grandes arvores — grandes plátanos. sumiu. .me que estou a vêr mestre paisagista ou então uma tela de uma pa- . que nunca eia se habi- função social que lhe incumbe. parece. o que galissima ceia para os seu dia bem ganho. em largos trechos. me hoje mais belo do que hontem. sequer ao menos mais leve ruido. que além de tudo mais são carissimas. grandes eucalyptos e tra uma ou ou- grande acácia mimosa. a sua luz difusa não ilumina as chapadas.lhe litará a reâlisar a de Lisboa. . uma frurecolhem do trabalho. e este vale do Avô. cortado por um rio sem agua. não tardará a su- mir-se. marchando para lá a toda a força. Debruçado no parapeito que doque estou a ler mina o vale. os maiores e mais abusivos favores pautais que quizerem. zolina. para beneficio do Paiz. nas encos- se prepara a ceia. Não ha paisagem feia na hora inculcando crepuscular. quadriculado como um afigurara. Paramos nas Varandas. mais suavemente prende e idilico.se taboleiro de damas. que por aqui se dá á mase ainda se não já ravilha. e a continuarem as doutorices agronómicas podem conceder. do Posto para baixo. A estrada. São muito boas horas de nos fazermos de proa aos de gaVales. tas.

uns mais. amplificada. como uma proie- minha alma anciosa e nunca sao horisonte sempre a recuar. Virgini . gens no deserto tos. como as mira. quente no pleno verão. da tisfeita.POR CERROS E VALES gina lhida 127 da Neva Heleisa. indife- — Sinto a imensidade alemtejana ção. mais requintadamente Dá-se comigo este facto curioso todos os aspectos da Natureza me impressionam. como parecido o se fosse theista uma — voz do céu n'um mundo cristão e panAngelus dominl nunciavit. mas esta Beira de horisontes curligei- de vales amenos. O Angelas é um já quadesa- drinho que feito nas Varandas. ctos variados e interessantes. está bem de vêr. . porque um álbum que eu vou folheando sem me me oferece em cada pagina aspecom certeza prefere a Beira ao . com manchas de neve em pleno in verno. rosos. escrita sob a impressão corápida a n'uma v/isita um dos mais lindos. ramente acidentada aqui. themas da vida campesina a fixar na tela. a meio da encosta. mais lí- delicadamente românticos. ridizer tejo para as suas excursões Alemmas isto não cos de movimento e de podia ser sol. mas a nenhum sou rente. o vale a encher-se de sombra. ricos recantos da Suissa. e uma sineta. de encostas verdejantes. Um quer pintor de artista que faltem á minha Província motivos d'Arte. convidando á prece. outros menos. cor. montanhosa além. quasi posso dizer que todos me sensibilisam. esta Beira de fundas ravinas e pincaros alte- é aborrecer. — .

se daria ali tão bem como nas terras vizi- e. ora descendo. prometido é devido. desenrola-se por aí fora. São muitos hectares incultos. dá formas tira in- decisas a aos montes distantes e ás coisas próxi- dureza da plena evidencia.128 POR CERROS E VALES as Olaneuses. cora uma pagina de Hugo. e afi- gura-se aos meus olhos de lavrador-curioso que uma boa porção desta teio terra íem aptidões culturais. quadro. seria raais útil ver ura grande pinhal onde agora se vê raato. em curvas apertadas. e. vel em estado razoá- de conservação. mancha. que resulta da luminosidade solar. sem estevas. e eu prometi ao dr. ura A mas bocadinho turva. aléra de ser mais agradável. ]osé Ventura ir abraça-lo na sua Quinta do Mosteiro. atmosfera. qualquer coisa como as antigas charnecas do Alemtejo. O cennão é exigente e a aveia com bera pouco se contenta e dispensa adubação. . cora mais de » trinta graus á sombra- Aqui nos aparece uma vasta mancha desértica. notável a Mas são como realisação artística. ora subindo. o Alva. E' pela certa que o pinheiro nhas. e que no Alemteio lhe saltaria da paleta grante da verdade e exhuberanfe de poesia. com recortes nitidos. o apontamento para artista um fla- grande que o não poderia fazer na Beira. o esboço. Ura pouco adiante de Coja a estrada desvia-se do rio. se O alguma vez jornadeasse por estes sitios.

POR CERROS E VALES 129 E a azinheira não encontraria ali condições favo- ráveis ao seu pleno desenvolvimento ? Nesta já vi pequena jornada a caminho do Mostelre sobreiras que não fariam má figura numa her- dade alemtejana. Não pouco valeria a pena o homem e da Beira largar um de mão bolota vale o pinas dcdicar-se á cultura do ? quercas. Mas ra Beira o mato não serve só para o lume serve tam- bém rato. desbravadas as charnecas slemtejanas e cultivada até ao palmo a terra beirôa. aumentando o seu poder uma nitreira feita Convém dizer que ainda não vi secundum artem . que é susceptivel de cultura remuneradora. acontecendo . dos proprietários. em cuja composição não entra o mato. como no Alemtejo.ais que outro qualquer a falta de lenha género de exploração agricola. e a não oiça ! — vende-se boje pesada a ouro. para fabricar um adubo ba- que muito beneficia a fertilizante. . nas suas excelentes variedades A cortiça — que o um pouco diabo me mais que o pinhão. terra. com a tanganhada que uma boa parte do combustível de que ne- cessita para os seus usos domésticos. m. Na para Beira. exclusivamente feitas com palhuço e o estrume das arramadas e cavalariças. queimar é grande. graças á gene- rosidade corta. para fazer nitreiras. mais. mesmo quando o seu preço era baixo. O se pinheiro fornece á gente pobre. ainda assim elas valem incomparavelmente mais que as estrumeiras do Alemtejo. e valeu sempre.

sentemente. esta sabedoria silvicultor. formado em medicina adquiri<a eu agora. e dentro de razoáveis por cada sangria. mais racional. . em Secarias. tão tenho uma simpatia já grande pelo pinheiro pelas razões que disse: mas eles entram economia desta província. sangrar o pinheiro antes dos dificultar trinta para não o seu desenvolvimento. me aborrecem me e quasi todas as pessoas me E aqui aparece agora. processo. petidamente. Uma vez entrado na maioridade da sua espécie boele tânica. ir um pinbeiriío Não brayo. uma vasta . por descuido. ncs tanganhos e caruma. acabavam por lhe embaraçar a circula- além de lhe diminuírem dos ventos. fisio- logia da arvore. onde quasi todas as coisas irritam. Diz-me o a resistência á impuldr. em frente da sua que já alguns lavradores sangram pelo moderno útil. que confrange ver completamente nuas terras em que eles largamente na se dariam á maravilha. preescudo. De passagem faz a extrair vou notando que ainda por aqui se Ignorantes da anatomia e da sangria do pinheiro. recebe o dono um de Toda parte. agradece as sangrias que lhe façam. para lhe a resina. são Moura Pinto. mais scientifico e mais Não convém anos. . ção. dono dum pequeno mas casa> simpático pinhal. á moda antiga. a limites. abriam-Ihe no tronco feridas que e que.130 POR CERROS E VALES enrolado algumas vezes. de ha três dias a esta fugido ao bulicio da cidade. sendo aprofundadas re- nunca cicatrizavam.

cortado pela estrada. ligeiramente magoatraz. lindos bo- cados de terra beirôa.! POR CERROS E VALES 131 planura. dos os olhos. perante as vilas e aldeias onde esti- vemos. ainda magoados. vizinhos de paredes meias lá. Certo é que o vale de Arganil. verdejante. alongando-se até ao Alva. n'uma aflição. o de Cova e Barril. Lá. avessas. por- que ainda lhe fica longe o Mondego. A impressão que o dr. já que a coresta planura teria o rio referi. ções. na generalidade dos casos não ha continuidade nos prédios. que são. Moura Pinto te- ve no Alemtejo. por sobre a qual é agradável espraiar a vista. na Beira. que passa lá em baixo. um encanto dos vales a que Vila me o de Avô. centros populacionais que mereçam esta denominação. as povoatamanho e a sua im- portância. que eu não estou certo de ter visto aldeias e vilas. ~ — tas vilas e em todas ou quasi todas as aldeias da Beira não tem rigorosa aplicação. a deitar os bofes pela boca. ou por onde passámos. certo é que este . que as expressões em muiao pé da porta. essa impressão tenho-a eu agora — ás . ao menos nesla parte da Beira por onde jornadeio. outro acovizinhos de em termos tais. por os havermos demorado um pouco sobre o matagal rasteiro do baldio que nos ficou Com tasse uma cercadura de montes e em qualquer direcção. um aqui. na realidade. são arruamentos de casas que pegam umas nas outras aqui. Arganil O urbanismo da Beira difere tanto do urbanismo do Alemtejo. qualquer que seja o seu no Alemtejo.

132 POR CERROS E VALES esmeradamente mais parece cultivado. Adiante de Arganil fica a serra de MonfAlto. o maior pinheiro que ainda vi neste infinito pinhal que é a Beira. agricola. onde se venera a santa do mesmo nome. que caí do alto. a luz uma luz directa.: . Moura Pinto a minha atenção para um pinheiro gigantesco que está na borda da estrada. E dá-se o caso de o uma hora má. uma quinta de recreio que um campo de exploração vermos muito a viva. e que em dias de nevoeiro um bocadinho denso. A serra é toda arborizada e nela tem origem uma ribeira. séculos ?. que seria de grande utilidade para o vale se tivesse agua em abundância. de variadíssimas cul- vale. lugar para abranger de num golpe de o imenso pano- rama que se desenrola para os lados do poente. E explica este pinheiro chamou Bulhão Pato o avô dos outro. Quasi ao fim do vale de Arganil. pouco mais ou menos no estrangulamento que o separa do vale de Folques. —A séculos. a lá. Havia um que morreu. . deve fazer lembrar o oceano enfurecido erguendo ondas grandes como montanhas. turas. rematada por uma capelinha. mas esgarçado. o sol muito quente. o automóvel pára. igual a este em idade e em tamanho. Deseiaria ir lá acima. atraves- sando uma atmosfera límpida. chamando o dr. em primeiro lugar para fazer ree lações com santinha. Avô dos Espevito um pouco a memoria e encontro lá pa* . em segundo vista.

mas levanta-se e prepara-se para nos receber com a presteza dum estudante em férias. . e não foi sócio da Academia ! Talvez Bulhão Pato não conhecesse a frase de Ro- Se a conhecia. num arroubamento pantheista. á meditação. admiráveis. iá se vê !. alegre e sacudido. e.. cem anos. Eu tenho de retirar . POR CERROS E VALES sinas da 133 Luz da Razão. !. fez dela um despropositado emprego. em rigorosa esquadria. a dr. exclama — aquele ! virado para o Monte velho. figura-se Numa dessas paginas Rosalino no Penedo da Saudade. menos apra- que o vale de Arganil um olival eis- moço. para Lisboa . e nunca atingem uma longevidade ficação retórica. O dr. — Almoçam cá. Não almoçamos. ampli- Grandes zível oliveiras no vale de Folques. for- mar-se. por um triste. avô dos seca- O a grande Rosalino Andou por Coimbra uns poucos de anos e resistiu tomar capelo enriqueceu a literatura com paginas . suavemente propicia ao extasi. que orça pelos oitenta. do grande filosofo que cair foi Rosalino Cândido. . . e nos á porta do José Ven- Mosteiro. mesmo em desmarcada dalgum modo a iustifique. filosofo e Lumanitarista. propriedade e residência do tura. : em los frente. de tarde outonal. porque os pinheiros têm uma vida média salino. que. Descreve a Natureza em volta. Ventura ainda está na cama.

do melhor que tem saldo de mãos portuguesas. artistas. se Deus quiser não fosse — — da sua lavra. e a senhora Mercedes não le* varia a bem que o meu ultimo almoço na Beira o ultimo por esta vez.134 POR CERROS E VALES no «rápido» da tarde. Delia manda-lhe muitas saudades. e que ocupariam dignamente uma grande sala do Palácio de VersaiU leS} histórica residência do Rei Sol) e surpreende- . Este Mosteiro. que é —A Vem uma bela rapariga. servido pela menina Mabilia. pouco bem ordenado. excelente cozinheira que ela é. que realizava maravilhas de forma. artista Nenhum de nomeada recusaria adoptá-la . mas de ines- timável valor. Quatro ou cinco grandes leitos em madeira preta. Ventura aqui tem. é hoie um Museu. que tinha o segredo da beleza plástica quando o não escaldava a febre das criações monstriparas. o próprio Rodin teria orgulho de contar esta maravilha no avultado numero das suas obras maravilhosas. da mais elegante arquitectura. é admirável como Arte e não apenas como antiqualha. distribuí- das por grandes salas. do melhor estilo. sem aquela preocupação de arranjo de que não se dispensam os amadores e com que mal se preocupam os faianças. o próprio Rodin. devida- mente autenticadas. e peças de Sèvres. da maneira primitiva. e vale milhares de escudos. Seriam necessárias muitas horas para bem ver as preciosidades que o dr. a ser a Delia um bocado de escultura. A sua colecção de em que abundam peças da China. antigo convento de frades cruzios.

e a brinsorriso tão fresco. Na sua colecção de numismática guarda o dr.POR CERROS E VALES riani) pela originalidade e pela beleza. que uns pintainhos amarelos vão comendo com gulodice. deixa cair alpista. que sente a gente vontade de a beijar na boca. ouro. Linda. para algum inimigo de ex. o dr. alguns dos seus melhores trabalhos constato que é. como se fosse um verda* deiro bambino. co. esta bôa ménagere em mármore e bron- que dum prato que segura nas duas mãos. nos lábios entreabertos um de tanta candura e meiguice. uma cabeça de até quasi á fino em mármore brantransparência. Sem ze. José V/entura uns botões ou alamares. em s. está es:ultura seria perfeita. como para bandejar. sem este pecadilho de Escola. com iustificado desvanecimento. um dia. a pose excessivamente académica.^ lhe atri- buir cumplicidade nalguma das suas façanhas crimi- nosas. já fora do nosso tempo. Uma terra cota de Simões d'Almeida fica bem .lhe uma terceira covinha no queixo. num e noutro género. car. e que ainda podem servir. 135 os amadores mais entendidos. uma covinha em criança cada face. que pertenceram ao João Brandão. puramente de atelier. que oxalá tomada na devida consideração. e eu sobretudo. Escultor e marceneiro. no marfim que mais bri- lhantemente se afirmam as suas aptidões de miniaturista. ou coisa semelhante. José Ventura mos» tra-nos. seja Aqui fica a advertência amigável.

naquele. ineststico mostruário O de pernas. foi-lhe ao enterro. que é Lisboa. pior é que se faz tarde. presidindo á ba- uma santa. porque d'aqui a Santa Comba não gastamos mais duma hora. Prudência. é porque o Seguro morreu de velho. e D. aventuras com que eles castigavam o corpo. são duas e um bocadinho. como se o não vesse visto ha três dias Justamente ao sairmos da ponte sobre o Mondego. se não conta os quilómetros pelos minutos. terra de muito desha outra estrada que do Mcsteiro nos V/ales. arrípiamos vairadas gentes. a que não faltam dentes de elefantes. uma ponte insignificante. . coisas heterogéneas formando rafunda um conjunto estra^agante.136 POR CERROS E VALES entre lindas esculturas de comercio. pequenina. e dois magníficos retratos. e no meu relógio. e eu quero estar á meia noite naquele horrível. opulenta de roupas. quasi do tamanho duma mulher triste. o ar meditativo de quem recorda os seus tempos do convento? a surpreender confidencias dos monges. interessando nesse martírio o mulherio dos arredores. certo pelo caminho de ferro. dão á cia e V7asta sala um tom com de elegân- severidade que ela não teria tantos objec- tos por cima de mesas ou dispersos no chão. Como não conduza aos caminho e o carro. Almoçamos com todo o vagar. ti- Interessa-me o que vou vendo. um do dr. outro de sua esposa. ao que resam as crónicas. género italiano. dominado pela mão firme e hábil do Francisco. Ventura.

que nos aparece agora numa volta da es- . o que talvez modificasse a um pouco minha irreligiosidade. em Países essencialmente cerealíferos. Uma vistoria sumaria dá-nos a segurança de que o carro marchará como até aqui. e eu tenho a impressão de que o carro sofreu avaria grossa. a não ser tenta. Taboa e S. 137 neste ponto. o caso de ser um grande ninho de formigas incansáveis. ha inúmeros casaes. salpicando os campos. ter João de Areias. é um indicio de pobreza. Talv:z por isso. e suas aldeias.. iá no do Paiz o macadame era uma tradição quasi perdida. estas estradas. Sendo assim. a Beira falta e dando se. encaro com horror a hipótese de andar a pé uns poucos de quilómetros. Muito pouco concorridas. as suas aldeias ficam á vis- umas das outras. resto elas se conservaram em bera estado. A ta Beira tem uma densidade de população muito entre as superior á do Alemtejo. sendo certo que a agricultura. sus- mas não enriquece. Csparis. e como estamos longe de terra de providencias. a não ser que providencialmenle passe um carro que de nos dê reboque. é miseravelmente estreito. para mais.POR CERROS E VALES porque o rio. a de transito pelas suas magnificas estradas. o guarda lama bate num pedregulho. uma tradição. havendo bu- racos que eram abismos. papando quilómetros com a maior galhardia e desembaraço. a distancias curtas. mais do que pela excelência da sua construção. esburacada..

gável.se no Oceano. como o Alva. conseguiram ser ricos. dando passagem aos comboios. que na Beira tem mil gramas. a grande altura. ambos tributários do Mondego. esperando o rápido do Porto. não afluente doutro mas indo directamente perder. é rio de poucas aguas. e á tabela parte com destino á Pampilhosa. de padeiros. em todas as épocas do ano naverio. para jantar. donos de padarias. e em pouco . largo e fundo. muito brancas de cal. — E' uma terra de padeiros. todas as casas novas. — O diferencial do ? — Não. . algumas incul- cando fortuna. Na carruagem mixta que vem de Hespanha. O um rio bem merecia que lá em baixo. na Pampilhosa. 138 POR CERROS E VALES é trada. vem um único passageiro. João. um logarejo aprazível. homens que foram daqui para Lisboa. esse passageiro seja o Santos Lima.. e esta ponte que o atravessa. Aproveito o tempo. inculcando aceio e conforto. e depois do jantar entretenho-me a ver os romeiros que regressam das festas do S. e tenho a bôa sorte de que sr. tempo. passasse. e em Lisboa nunca vai além das oito- O rápido de Madrid entra na gare de Santa Comba á tabela. gra- ças ao diferencial. com muita agua e muita verdura. centas. empapoiladas as ca- . o diferencial do trigo kilo. na Figueira. inteligente e despretencioso conversador- Dão. — De padeiros ? — Sim.

POR CERROS E VALES chopas. e pelo caminho mais curto. fisionomias paradas. quasi todas de sapato e meia. n. dirijome para a rua leitor Anchieta. — se não precisar de mim . e os 139 homens muito gêbos. A' meia noite e meia hora desembarco na estação da Avenida. sem piritualidade um ar de es- que lhes dê tom de gente. 2\ lado esquerdo.° 13. onde o tem um creado ás suas ordens para nada. que é a Calçada do Carmo.

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A paisagem do entroncamento até á Torre. aci- dentes que as modificam. em atendiveis exi- gências de administração. era conveniências politicas. sofrendo. diferenciadas por características bem marcadas. como as dioceses. tenha mais areia do que agua. Os distritos são criações artificiais. resistentes á acção do tempo. e lambem. a viajar leste. mesmo tendo . só aqui e além enchendo o leito. com agrado. E' pena que o Tejo. por excepção. nos meses de verão. embora. As provincias são unidades geográficas e históricas. vê-se se o habito de a ver.Alto Alem te jo na linha de Para a minha sensibilidade de alemteiano. tendo origem. no decurso da vida nacional. o Aleratejo principia na Torre das Vargens. digam o que disserem os livrinhos escolares que tratara da geografia politica do país. ás vezes dando a impressão. sem as alterarem substancialmente. a maior parte das vezes. por erros de perspectiva.

sendo pouco interessante como fortificação. para dar residência condigna ao caste- lao de Almourol. Um bocado de terra. um dos mais singelos de rio. poderia sustentar um veterano que ali residisse. Não desequilibraria o orçamento o e. pro- As encostas da margem esquerda. ao mesmo tempo heróica e poética da formação da nacionalidade. préstimo externo. está bem de ver. é encantador como pagina ainda bem conservada da Historia. fica quasi a meio do em frente de Tan- e. em cone. já sem nenhum valor militar. que custasse essa subvenção. mas formando no seu conjunto um Tombo bem mais inte- . O cos. diferentes no tamanho e no feitio. com subvenção do Estado. sob o não seria preciso contrair um emdificil patrocínio da Socieda- de das Nações. a procurar o caminho da menor resistência. em luta com os mouros. bem povoadas de arvoredo e salpicadas de logarejos e casais ou quintas. que fa- cilmente cansaria a notar o recorte das ilhotas. pobrissima terra que. de que a corrente. impressionam agradavelmente a vista. á força de cuidados inteligentes. faz cauda ao rochedo em que a torre assenta. quereria ver bem conservados ou escrupulosamente reconstruídos todos esses monumentos que ha espalhados pelo país. uma torre elevando-se dum penhasco. falhando ás cura a origem e não a foz do da hidráulica.142 POR CERROS E VALES leis rio. castelo de Almourol. Portugal. Eu tenho a paixão dos castelos. que a corrente vai de- senhando.

assim. que sempre palaciano e aiudante de ordens de S. festas que* eram. como se eu não fosse republicano. históricos Havia no Convento Conceição. Se dos deles tivesse a fortuna dum Rokfeller. sumptuosidade realizada na a Semana Santa de Pax Júlia dos romanos. me tratou. dois gran- des andores de prata.. fugindo aos horrores da profanação. pelas festas em Bela. que só apanhavam o ar da rua do Sacramento. Tancos. Recordo coro saudade o tempo que passei aqui. Prestaria. sob o comando ou direc- ção do coronel Duval Teles. Vão passados tantos anos! Um dia apareceu na Escola. as quais foram desapa- recendo a pouco e pouco. monumentais e pesados. Explicava o Anselmo de Andrade: — em E' que não cabem nas casas particulares. relativa. todos que quisessem vender. documentos não poderiam ser roubados. cirurgião de artelharia 2. M. em obiecto de servi- . a fazer serviço na Escola de Engenharia. Neste convento havia muitas coisas de valor. me um um que grande serviço á industria do turismo e conservaria. em relação a alguma. metida 143 em pastas. compraria to- os velhos castelos de Portuga]. que tinha procurado abrigo na casa de pessoas devotas. dos Ar- quivos e Bibliotecas. pela duração dos secnios. pela Sevilha.POR CERROS E VALES ressanfe que a papelada. e mandaria reconstituir cada com a possivel fidelidade. sabendo-se. Cs andores de prata é que não arredaram pé do convento.

hospede de ura dia. com interrupções. a que devia para um o exercício de rei. a partir de Santarém. pouco mais se vê que o castelo. Constância tem a frescura duma linda Maia. — E' e subir. O . Lá adiante.me pela esquerda. nos tempos da propaganda Da fresca Abrantes — . mas fez este re- paro de pessoa entendida: mas caladinho tinha outra graça. sempre pobre de agua. por onde os guerreiros mouros podiam descer bonito. a não ser já perto de Abrantes. . Agora o Tejo aparece. severo e quasi sombrio como no tempo em que fazia a policia daquela via fluvial. Ali fui. vermelhas e triangulares. admirável miradoiro. cial do Estado Maior. as velas pouco tensas. foram mostrar-lhe o castelo de Almourol. dando lhe quando tem agua dispouma contribuição valiosa nível. de uma largura considerável. Os oficiais da Escola esmeraram-se em obsequiar o coronel. assistir Era ministro da Guerra o Pimentel Pinto. no pendor dum pequenino outeiro. onde enche um terço do leito. enquanto não chegava a hora do jantar.144 POR CERROS E VALES um coronel de ço. Três barquitos. a remirar- se nas frescas aguas do rio. são toda a vida do rio. e de tarde. O coronel gostou. Pois ainda está na mesma. quem me não lembra o nome. Zêzere entra pacatamente no Tejo. ofijá se andava em preparativos armas combinadas. . dois dos quais sobem muito lentos. da pequena encosta que domina o Apeadeiro. no largo trecho que tenho observado. porque domina uma vastidão enorme.

Foi nessa ocasião que o Bernardino Machado. e onde ele alarga é para nos mostrar cabeços áridos. . ali. em alguns dos quais verdeia o arroz. aqui e casais. só por milagre toparia uma flor. ao largo. os . pela direita. além branquejando povoações e O horizonte é estreito. . andando por ali. dando-lhes a aparência de duvida pomares. minúsculos vales. Jacinto Nu- nes Vinhas. num que se realizou na praça dos dr. e quereme parecer que. Vão aparecendo campos de semeadura: de cada menos oliveiras de cada vez mais sobreiras. ções prometeu á vila fazê-la cidade. toiros. com uma candeia em pleno dia. fruto. formando a limitar uma espécie do molhe.POR CERROS E VALES saudosos tempos tarde orar 145 l — realizar uma conferencia. de cada vez 10 mais extensos. Sem que nestes vales mas não vejo noras nem tanques. antecipando as suas funpresidenciais. o dr. o dr. com uma franja de sobreiras na vez raiz. de mato curto. e em poucos se notam arvores de modestos ha agua acesa. muito apertado. uma cadeia de montes. pela esquerda. republicano ab evo. Ramiro Guedes. assim que fosse proclamada a Republica. uma amplíssima bacia de verdura. cheia á cunha. e mais comicio. Vive em Abrantes. a não ser autenticamente silvestre. a um lado e outro da linha. campos de milho . e que só não é o decano dos republicanos portugueses porque ainda yive. Magnificas vinhas. a partir de Abrantes . pequenas ele- vações de terreno. restolhos. felizmente.

em redonda. racter. Até agora só tive muito próxima. e a cus ilex dos letra que eu \i vi chamar. da ribeira de Ponte do Sôr. á sociedade protectora dos ani- Acho que o homem tem o direito de se utilizar de tudo quanto Deus criou e possa de algum modo para realizar os seus desejos legítimos e dar servir satisfação ás suas legitimas necessidades. não me lembra onde. sem um racional e bem justificado propósito utilitário. Lavo os olhos nas aguas mansas. só com esta simples resulte mas imprescindível condição mutilar — que daí não dano ou prejuízo para os outros homens. e desespero-me a ver sobreiras majestosas reduzidas ao tronco e duas ou três pernadas dentes. muito re- . reais. muito novos. Acho que uma arvore. formando uma espécie de garfo só com dois uma Eu não pertenço como não pertenço mais- forqueia descomunal. Vai desaparecer o que ainda lobrigo. de uma mau ca- Faz-me pena ver estas sobreiras espectrais. e não compreendo que o lavrador ganhe em cortiça o que perde em madeira e lande. uma grande manguef cha de pinheiros bravos. porque a azi- nheira é de uma rusticidade flagrante. e ainda não o gosto de ver meia dúzia de azinheiras. á sociedade protectora da arvore. algumas reduzidas ao tronco e duas pernadas. quercus rústi- cas. sol. o que não constitui uma ofensa. é praticar brutalidade reveladora.146 POR CERROS E VALES vi. sem corrente. o silvicultores. em muitos casos. condenadas a não darem fruto nem darem sombra.

só para amostra. lio Ferreira explica-me tudo pelos miúdos. Uma para visita á Fabrica. amarelo- sujo. se fosse um engenheiro mecânico. depois de iantar. que que hoje tem o seu lugar marcado. com pouca demora. e caldeiros áridos. e distinto. medico dia trocou a clinica pela industria. ficar a em termos de eu quasi nome de todas aquelas .POR CERROS E VALES 147 donde. e que e me dá a impressão de um enorme botão de ma- dre-perola numa tira de seda branca. ]á vejo sobreiras copadas. reduzidas á expressão mais simples. como os areais desérticos. em terras limpas . o saber o dr. pondo manchas pardacentas no cimo ou iunto ao cimo das maiores ondulações de terreno. por afirmações de inteligência e honestidade. não se parecem nada com as que ainda ha pouco triz vi. muito poucas. tiranizadas pela moda. e as que sofreram a operação da tosquia á garçonne. em leiras de terra onde o arado não entra. Enormes foliias de restolho. muio branca muito fina. onde espera o dr. Torre das Vargens. entre os mais ilustres industriais do País. estevas pequeninas. por entre as franças do arvoredo distante. dispõe bem Abí- um Como sono largo e reparador. e por um não grito — ainda se não I avista Chança —O me um rice Alemtejo da minha alma Deixo o comboio na estação do Crato. Abilio Ferreira.

Por muitas operações passa o trigo. na frase de Voltaire. um movimento . como que á estatua se dariam ideias e sentimentos. em tra . strutura e como como funcionamento. partindo de elementares sensações. Se faca. perfeito aos meus olhos de leigo. isto é. em pão. e espendida a opinião. Não me repugna Wagner já vi ria. de que a Ilíada. se por me não falha a sr. como pretendem alguns someramente uma questão de garfo e por seguro tenho que a resolveria a mecânica. em plena laboração. vasto e complexo organismo. que se inspirou muito nas oficinas do Krupp. ou papo-sêco. aié que dele saia. é como se fosse um trecho de musica interpretando uma estrofe de epopeia. foi uma espécie de Krupp da mitologia. sem ofensa á cronologia. E não ha. a questão social.148 POR CERROS E VALES peças. em grão. Tenho de mim para mim que uma grande Fabrica. é a coisa mais necessária. em ter- mos de a ninguém faltar o necessário e o supérfluo — o supérfluo que. memo- um sábio da Academia do matemático Cabreira. fosse cialistas. Homero só escreveu a Odisseia e depois de ter visitado a loja de Vulcano. acreditar. a um excedente do consumo. em fari* nba. desde que enna Fabrica. . de todos aqueles órgãos. chegarse-ia a dar-lhe uma consciência e uma vontade. Quere-me parecer que procedendo com uma Fabrica como se fosse a estatua de Condillac. toda esta complicadíssima dinâmica. elevando a produção nos vários ramos da actividade fecunda e útil.

os ataques teatrais da que se chamava o grande eu tinha obrigação de não maU no tempo em que dizer tolices a discretear sobre coisas da medicina. em que me en> passo a noite a sonhar. com D. António. de cristão e de judia. embora ele. As grandes peças. de grande só havendo neles a baixeza do caracter. aquelas nevroses caracterizadas por movimentos rítmicos. Certamente por sugestão do lugar contro. o Prior do Crato. a perversão da vaidade e a fome de dinheiro. de mínimas oscilações. pequeninos órgãos que fazem pensar em necroses. a plebe não podia realmente. ou por um tre- mor incessante. haja peças que pafinali- a mais. A plebe.POR CERROS E VALES inútil. conheça que. cadenciados. rei de Castela toma- posse do reino de Portugal sem a menor resis- Os do clero e da nobreza. . trazem á lembrança. corrompidos até á medula. se não fora tência. se bem que. alguns regateando o preço da venda. filho . não pôde . por não perceber a dade do seu trabalho. cadenciado e ritmico também. as que regulam e distribuem a força produzida. sem uma autoridade inflexivel que disciplinasse os seus impulsos e orientasse os seus actos. 149 um desperdicio de força motriz. como eu. o Nunca ria tive grande simpatia por este Prior. aos oliios de rece estarem um ali leigo. vendiam-se ao castelhano. o moyem. sem uma voz eloquente e forte que gri- tasse a justiça das suas reclamações e a dignidade dos seus protestos. na fúria com que se epilepsia conçulsionante.

á fúria vingadora do duque de Alba. 150 POR CERROS E VALES Nação. foi seCristó- também chamado Nuno Alvares II cretario de Filipe — talvez por indicação de vilissimo vão de Moura. encontro-o. campo do di- e faltou lhe igualmente um homem de armas que fizesse vingar o nosso direito nos campos de batalha. um dos seus descendenPereira. ao certo.. em que ele pelejou. fugir. quando ali se feria. Faltou a Portugal. um letrado que fizes- se vingar a justiça da nossa causa no reito. sequer ao menos salvar a independência da salvar a honra da grei. uma encarniçada . o cuja personagem. amplificando os seus para reduzir a proporções modestas o preço do seu resgate títulos .. ocultando a sua qualidade de principe. Transporto-me aos Açores. e nunca me comoveram as suas porque os seus defeitos. português corruptora valeu mais desnaturado actividade para o triunfo do castelhano que os talentos do general duque de Alba e do almirante marquês de Santa Cruz.- até abandonando o seu exercito. a elas deram lugar. nas aguas da Terceira. mais tarde. Vejoo mentindo em Tanger. em 1580. bom preço ao usurpador de Cas- Assisto ao combate de Alcântara. de gloriosas tradições. de herdeiro legitimo da coroa de Portugal para se vender por tela. muito mais que as suas virtudes. vencido com as armas na mão. João das Regras não sei. desditas. se deixou des- cendência que lhe sobrevivesse por duzentos anos do Condestavel sabese que tes. Não me comovem.

Acompanho D. ter-se ia vendido a Castela logo que o rei Filipe alegou os seus direitos e formulou veis ameaças. e a sonhar rememorei todas as desgraças e vergo- começar na jornada de Alcacer60 anos. Sempre a dormir e a sonhar. com amterrí- bições de reinar. 151 em que os espanhóis ficam vencedores.POR CERROS E VALES batalha naval. e dou pelo Prior. não desiste de ser rei Pois que o seia. . e chego á conclusão de que êle. a fazer como era Alcântara. . e eram dignos de terem outro chefe. sempre a sonhar. não se importando nada com a sorte dos que por êle se ba* tiam. quando eu julgo ver o esplendor apoteótico do alvorecer de Dezembro. António. Pcis levei a noite a sonhar com o prior do Crato. em troca da aiuda que lhe der contra o rei de Castela ? Pois leve lá A se Inglaterra não favorece a sua causa a fazer de Portugal sem que êle comprometa Pois que esta uma colónia in- glesa ? Nação livre e independente passe a de Portugal ? dominio Filipe colonial. nhas nacionais. A França pede-lhe o Brasil o Brasil. se não fora príncipe. contanto que o castelhano o encha de dinheiro e o cumule de honrarias aquelas honrarias — todas que possam elevá-lo á categoria de rei honorário. em 1640. comprometendo se o prior a facilitar a sua pretensão. a Quibir. em to- dos os acidentes da sua yida de pretensor. ininterruptas durante .

abun- dantemente povoadas de sobreiros. a estrada que liga estas duas povoações é detes- tável. um pouco por acidentes da mas principalin- mente por naturais particularismos da psicologia . Terras delgadas e ásperas. Muros de pedra. a me entra no quarto^ pela que lembrar-me que preciso levantar. por excesso de cautela. os solícitos cuidados com que a outras estradas se tem acudido. A mas distancia entre o Crato e Portalegre é pequena. o automóvel. e por seguro tenho que ela durará enquanto o homem como tem Historia. joga como se fosse uma ca- noa em mar vista revolto.me cedo. aqui e além. priedade individual. A que liga o Crato a Portalegre está péssima . limpas de mato. por forma que eu aproveite bem o meu tempo de viajor. c^xemplo. Sou advogado gratuito da profôr. fica um bocado fora do caminho para Sevilha trito talvez por isso. sido até agora. tão baixos que não podem ear abrigo ás culturas. . estremando propriedades. por e já servindo apenas. Portalegre e. que deixei aberta. enquanto o teu e o meu não passam a ser nesse. as estradas deste dis- não têm merecido cuidados e solicitudes. O dr. de fazer célere a marcha.152 POR CERROS E VALES acordo com os olhos cheios da luz de um radioso sol janela de Agosto. para separar o teu do meu. não é pouco. e não deixa. Abilio Ferreira tem a evita todos os aguda e o pulso rijo trambu- Ihões que são evitáveis. como sucede nos Açores.

media trinta quilómetros de perimetro. um bocadinho monótona. A propriedade não é o roubo. no de Beja. vale bem mais que um montado de sobro. Bocados de onde ha culturas verde- . de ciais. de uma regularidade quasi geométrica. como todos sabem. Reconheço que a sobreira . muito devagar porque depressa. e ainda hoje é das maiores do distrito de Portalegre. o que quando sem descontinuidade. de vária constituição agrologica. . mas o latifúndio é um privi- que resultam grandes transtornos so- Sempre parece dras. terra baixa. distrito Não sucede as- sim no Baixo Alentejo. um animal essencialmenle pro- Precisamente a herdade que vamos agora atravessando. onde uma abundante sementeira de peda criação do mundo.POR CERROS E VALES dividual prietário. os montados de facilmente torna a paisagem. é uma arvore mais ornamental que a azinheira mas um montado de azinho. no ponto de visto estético. . Sucedem-se. sobro. terras delgadas ou grossas. segundo a definição de Proudhon. onde os montados de azinho alternam com os campos de semeadura. . embora haja. as ter- se feito foi mesmas terras delgadas e ásperas. muita propriedade roubada legio odioso. mas que dão imediatamente á vista a agradável impressão de fecundidade e abun- dância. esta a ^estrada não deixa andar herdade da Crucieira. apesar dos acidentes do terreno. 153 e colectiva.

distrito. todos os pés calçados. pela escruz de pedra. quasi re- cente. sendo relativamente moderno. Não — Aquela nada disso cruz — explica comemora o falecimento. Abilio . os braços uma grande como no Calvário. o advento da meia. pé. passam artificiais. gente que vem. que ornamentam este vasto panorama alcantilado que se desdobra por uma boa porção do querda. bispo são unidades do marcando na Eternidade tempo. Chegámos. tas Grandes arvores marginando a estrada. puramente momentos ou períodos a que corresponderam factos de maior ou menor importância. — reira. . já Ergo os olhos ao perto da cidade. Gaudêncio. e lá ao fundo as serras de Portaalta legre. outros de burro . uns a . em cercadura de ou das muitas er- teiros arborizados. A graça do sr. — tempo. Os séculos não morrem. . incolores e inodoros. já ás porda cidade gente que vai. do século XI K.! 154 POR CERROS E VALES grandes vales metidos jantes. ás vezes nem isso séculos insípidos. como é de regra no Alentejo. branquejando na mais uma midas da Senhora da Penha. notando-se que esta regra não é moderna. e vejo abertos. e foi ali erigida por instancias do bispo D. e respeitosamente tiro o chapéu no convencimento foi de que ali sucedeu uma Fer- grande desgraça ou se perpetrou um o grande crime. alto. marcando certos corpos se dizia na quimica do meu de como . dr.

. que se realisou no do comicio. como se fosse ha passados mais de vinte anos. Este adverbio nosse dd o positivamente era quasi uma gulodice oratória do dr. porque fomos aqui recebidos fidalgaraente eu. vinte dias. o faço. verá que não perde o seu Não aqui fazer. c vão um banquete. veio pedir-me que no meu discurso metesse Almeida. Foi nos oferecido dia . e o comicío a que viemos assistir. António José de Almeida. bem disposto como sempre. da cidade. e a visitar» como estudioso. um não dia inteiro. foi uma grandiosa manifestação Lembro-me. de manhã á por assim dizer fisionómicos. cidadãos . delegados do Directório. António José de Almeida. dr. Bernardino Machado que não ten- . agora. e facilmente já um me resigno a não o porque o fiz. antes de sentar-se á mesa. Disse ao dr. que frequentemente iniciava com ele os seus discursos — Positivamente. a ver os aspectos. á noite. no lugar da pre- O sidência. se tempo. nos bons tempos visita da propaganda. porque não posso demorar-me dia inteiro. mas como turista. POR CERROS E VALES 155 Se O leitor vier a Portalegre. fizer isto. republicana. Bernardino Machado. Bernardino Machado e o dr. os seus monumentos recomendados na excelente Guia de Portugal. e aqui se demorar noite.. . Dessa guardo saudosa lem- brança. ha anos. — o dr.

a não serem os próprios que a tinham encomendado. não esqueceria a sua recomendação. e sempre. cionava mas se falasse. Principiei assim o meu pequeno discurso : Positi- vamente. mas não me dispenso de fazer a volta da Serra de S. eu não tencionava usar da palavra neste banquete. dr. ás palavras amigas que Tive de falar.. lembrou-se de me fazer um brinde. . associando. . mas com tanta cordialidade nos acolheu o povo de Portalegre. Abilio Ferreira. António José de Almeida pediu-me que metesse no meu discurso a Cordialidade de Bernardine. não falar. que não tencionava a sua mas não esqueceria recomendação. Mamede. Disse-lhe. forme com o maior aprazimento. o dr. no banmas o meu amigo e compadre Costa Pinto. me dirigiu. se tivesse de o fazer. Era meu propósito. segundo o itinerário marcado pelo dr. que tem feito este passeio muitas vezes. mostraram-no claramente. Bernardino Ma- chado.se a assistência. abastado e inteligente lavrador de Sousel. tem decorrido Ninguém se apercebeu da brincadeira. quete . realmente. calorosamente. cidadãos. e tão Cordialmente esta festa . não lhe acharam graça ne- nhuma. como dissera ao falar. Quasi na altura dos brindes. Não disponho de tempo suficiente para dedicar um dia inteiro a Portalegre. condiz. 156 POR CERROS E VALES falar. para agradecer. e esses.

que tonifica. salpicado de casas que destacam pela brancura no verde escuro do arvoredo. ainda dentro da zona florestal. que é tão somente uma impres- são visual transmudada é em sensação térmica por um fria. a vista es* praia se por alto em redor. as ardências do sol. é puro. como o vermelho é uma uma vale. O verde é . côr dinamogenica. há casas de habitação. do qual se elevam montes grande parte nús e penhascosos. jardinagem. no pino do meio parece erguer-se do vale ura bafejo quasi imper- ceptivel de frescura. uma côr como o amarelo côr astenica. erguendo-se ao mais dos visos e descendo ao mais fundo das ravinas^ a sentir a macieza dos soutos. um em Quasi na assomada para a cidade. meço toda a extensão do que não é grande. . uma côr quente o roxo é que deprime. e penso cair em como ele será lindo de uma noite de outono. A ao subir a encosta. formando oceano de verdura. silencioso tudo quanto nele tem vida. mecanismo desconhecido. e a encherem no as grandes sombras dos montes — Majores que cadunt altis de mau muitas léguas monti- bus umbrae. Da cumieira. sem o preciosismo dos chalets por copia. cultivado do Reguengo é mas o com esmeros de . construidas com feitos bom gosto. Temperando dia. Na jorra por toda a parte.POR CERROS E VALES 157 A yale estrada é má. quasi sempre em absoluta desconformidade Serra há abundância de agua. e porque o ar ali com o ambiente. aqui e além é péssima lindo. extensa e de andar.

Sem vestir sedas nem gaias.: 158 POR CERROSrE VALES poeiras e é útil sem sem micróbios. chupar um cigarro. é muito agradável. uma larga avenida arborizada. não se vendo. antes afecta um ar de elegância e garridice. para o Ferreira. pasjá. que faz lembrar uma noiva rústica. e uma incalculá- porção de loiça para uso domestico. Anda o sol a namorá-las Como E' dia de feira. convenientemente esvista. com tendências a estender-se para o lado do vértice. a parte baina. de algumas zerem ali uma semanas ou de alguns meses. loiça de barro . Abundância de vel fruta no mercado . vestindo como se fosse uma princesa. Toda esta estrada que venho de percorrer. para os debilitados e enfraquecidos estação. Disse o poeta Raparigas pobrezinhas. onde há alguns prédios de Não tem nada de monumental. de forma aproximadamente triangular. vulto. se fossem rainhas. sando pelo Reguengo. que se vendem a olho. numa vista de con- junto. devia ser e há muito tempo. e delicio-me a vêr a cidade. mas também não tem nada às mesquinho. incorrigivel fumador. Abilio paçadas as arvores. A impressão que dá. rumas de melão e melancia. sendo agradável para fa- todos. para não encurtarem a Pára o automóvel. por instantes. dr. do ponto onde estou.

Constato sitio. para visitar os sítios marcados no meu curto programa de turista. para todos os efeiturismo- como zona de E' verdadeiramente montanhosa esta região que . ainda no horizonte afastado não ruborescia a aurora dos dem tempos novos. e que não mereciam registo tão duradoiro. Por ora não há que dizer mal da estrada mite .POR CERROS E VALES cosido. pronunciei. encurtan- do o mais possivel as distancias. com destino a Sevilha. guarda. ncs dias de o rendez-vdus dos lavradores do á cidade. que aco- que ainda aqui ha lembrança viva do comicio a que já me referi. todos os jaqueta vestida. se lembrem de regressar por aqui atraídos pelas belezes de Castela^ que tos. se os homens não melhorarem. Ainda temos muito que andar. realizado há muitos anos. simples e 159 grosseira. e sabe Deus como estão as estradas por onde temos de seguir. e raros chapéus de sol homens de como se o calmasio não fosse de respeito. são de pequena Deus a conserve. como talvez ]á se fabri- casse quando por aqui andaram os sarracenos. ela per- uma a velocidade muito razoável e os trambulhões amplitude. Todas as mulheres de lenço na cabeça. que feira. é. porque talvez os cinco milhões de americanos que desembarcaram na lagoa de Óbidos. já devia ter sido considerada. citar frases que. e tenho o desvamuito dedicado. nesse necimento de ouvir um correligionário republicano da velha comicio. Almoçámos no Café Central.

Azinheiras ainda não nheiros. uma pequenina aldeia á beira . Mamede. para muita gente. na Beira. abundantemente povoada de sobrei- ros e castanheiros. vi — nem azinheiras nem pi- No meu recente passeio á Beira. qual parámos. que. Vencida uma grande curva da estrada. e nós éramos desse numere. o que lhes dá o tom de arvores ornamentais. em fru- o penacho transformado em ouriço. entrámos n'uma planura que a estrada corta. se aplicava tão somente ao contraforte que domina a cidade. Hgeíramente ondulada e abundantemente pedregosa que nos fica em frente. a flor convertida to. A curta distancia da cidade. dita Manchas de restolho em terras que mal se que dêem seara. e a ioda esta massa de montanhas cabe o nome de Serra de S. criadas pela Natureza para seu enfeite. e a que já me referi largamente. pela vasta campina. sobretudo á direita. Mas não vi soutos. misto de horta e jardim. a meio da a vista. apertado entre cerros de modesto porte. com abundância de arvores feras e fruti- uma casa de residência inculcando fortuna e gosto. para espraiarmos sempre curiosa e nunca cansada. um vale alegra-nos os olhos.i6o POR CERROS E VALES yamos atravessando. fui encontrar os castanheiros empenachados. massas de ar- voredo cobrindo grandes extensões de terreno* Aqui venho encontrar o castanheiro n'uma fase mais adiantada da sua evolução anual. guardando acre- dentro a castanha. sem demora.

neste vale. menos nesta parte do distrito que mas há ainda muita encosta escal- todavia. . que um do. qual é a nossa riqueza florestal. e eis-nos chegados aos Olhds d* Agua. Portale* des arvores que lhe dessem sombra. ser estéril. no distrito de Portalegre. e não verdade é que os sabemos se são ain- competentemente dirigidos de todos os u . guerra. é mais provável que se ignore. granfrutas. florestal O povoamento é grande. oásis bem se pode chamar no meio doesta Arábia pétrea.se ao extremo de arrancar montados e olivais para vender a lenha. pelo vou percorrendo vada. E' provável que se saiba. A agua borbulha tanto ribeira. vendo-o da estrada. flancos de serra es- carpada onde os pinheiros se dariam belamente. que êle seja aquilo que podia e devia ser -~ quinta de recreio com toda a opulência d'uma vegetação exuberante e variada. com igreja e cemitério. porque a nossa burocracia contenta-se com informações aproximadas para organizar estatísticas. sem. Castelo de Vide e Marvãa.POR CERROS E VALES i6i da estrada. um grande lago que lhe desse frescura. capaz de abastecer de gre. uma pequena que o corta em toda a sua extensão. os mais diga. no rigor dos números. e a serviços florestais foram. por- que são arvores pouco exigentes. ou então horta de rendimento. Ignoro se nas regiões desfalcada pela oficiais se sabe. se não ofen- testa chamando assim a esta parte do distrito que encom terras castelhanas. chegando. A ver- dade manda Deus que se da. que chega a formar Não me parece. bastante.

comende. que mais vale lá um avião que um automóvel para chegar acima. e que é de regra na habitação da gente pobre. obra com grades de do século XVII. cá debaixo. é o caminho para o Castelo. Castelo. Apeamo nos á porta da Vila. por aí fora.i62 POR CERROS E VALES Ergo os serviços públicos concernentes á agricultura. como lhe chamavam os romanos. Abilio Ferreira. no ponto mais alto da Serra. é como A Camará ferro um velho casarão em que está embutida a cadeia. Calculo que. uma formidável escar- e penso. a fortaleza. através alto deste da povoação. é e só mesmo. em qualquer aldeia alemtejana. pa. e abrimos ás pernas um crédito de confiança. Mal se adivinha. por isso por isso. não constato a ordem e o as- Espreito discretamente. O los. o classificaram de monumento fosse — não alguém pensar que em Portu- . de mim para mim. nacional como sucede á maior parte dos casteuma ruina. Uma rua estreita e tortuosa. olhos para a Serra de Mari/ão. em Portugal. pelas mal cerradas portas de casinhas seio térreas. janelas de sacada forjado. magnifica atalaia que domina os campos de Castela. que era natural. ninho de águias quasi inacessível á soldadesca mourisca e ás hostes castelhanas. para nos levarem. Portas ogivais. ao ponto mais formoso Mer minius Mindr. sem nada dizer ao dr. sem nada que a refica.

dirigindo trabalhos do cami- nho de A essa representação assistiram. personalidade. actor e espectador ao rendo conservá-lo tor mesmo tempo. tudo observado flagrante. poderá fazer-se um pequeno bairro. ha quem maior desprezo edifícios seja capaz de co- tar ao que são paginas da nossa historia geral.POR CERROS E VALES qal. falsa. em an- quando o ferro. Dentro do Castelo. dcriv^ados com do do mais acendrado patriosolicitude tismo. removido ali o entulho. conservando>lhe a estrutura e a acção. encantadora de simplicidade e exacta como uma re- produção fotográfica. a aberta na previsão sua porta fante. como engenheiro. ilustre comediografo por dava. que não tem muito por onde alargar-se. comédia urdida com scenas ali e personagens da vida regional. da platea. entregue á Estado para efeitos da sua conservação. dum assalto triun- E será melhor assim. João da Camará metera na peça e que viam assim desdobrada a sua Pois esse teatrinho foi-se abaixo. . Daqui por alguns anos. e bem pode ser que no rodar dos tempos cresça a sua população. ha muitos anos. os seus roídos panos de muralha. o mais lindo bairro da Vila. porque então. o pouco que resta do Castelo terá desaparecido as suas torres. alguns dos indivíduos que D. — as suas vigias. João da Camará fez re^ presentar Os Velhos. a 163 não ser o Estado. nem sequer ocorcomo homenagem ao nosso escri- de teatro que melhor soube transferir ao palco a vida campesina. construíram um pequeno teatro onde D. muitas delas ilustradas feitos heróicos.

chamando assim á bicharada do ar. o inimigo num raio de mui- que seria necessário guerrear em campo raso. Em relação ás perdizes o facto não me oferece a menor duvida. A esta Serra chamaram os romanos Her- minius Miner. ros. burgo Marvão para ad- mirar os seus monumentos. antes de mais nada. Pois têm ventre os pássaros de Marvão. quatro . que vem a ser a Serra da Estrela. que os não tem a pobre vila dum Castelo fronteiriço que permitia avistar. e as aves. para evitar que o tomasse de assalto ou é para se dar o lhe pusesse cerco duradoiro. com excepção dos aviões. tas léguas. encarecendo assim a sua relativa grandeza. — ventre não. porque nada menos de quatro ergueram voo quando nos aproximámos do teatro. está bem de os pássaros de qualquer outro ponto do globo. e não dou por mal empregado o meu tempocomo as aves e Cumpre dizer. figurando-se a caminho de Madrid. muito abaixo do Herminius Magnas. em rompante de espanhol folgasão os pássaros. teem costas. alongar a vista por terras de Espanha. Quem visita Marvão prazer de olhar d'aIto a parte mais acidentada do Alemtejo. Pelo menos cu não vim a Marvão para outra coisa. a grande distancia. como alguém se lembrou de dizer. teem costas e ventre. e não simplesmente costas.i64 POR CERROS E VALES visita E' evidente que ninguém alemtejana. que daqui se avista em toda a sua majestade. com passagem por Valência de Alcântara. que os pássaver. em Marvão.

nos acompanhado caçadeira. grande numero de capelas espalhadas neste Muito longe. O serra espectáculo que oferece uma serra alcantilada. modestamente alta. alta do que Agora é que eu vejo bem o que é o enorme maschamado Serra de S. filha aspérrimo da Terra.se a Serra da Estrela. mas de base tão larga. uma até das quais. olhando de cima para baixo.POR CERROS E VALES perdizes teria 165 grandes. em é. tronco de cone. e tem uma parece forma quasi muito mais regular. por motivos vários. . dizer. Mamede. que tem distrito. mas que é a maior ampola do nosso sistema orográfico. ctificação. pelo menos. como o Adamastor. num dos quais bran- uma capelita da Senhora da Penha. servindo- temperamento diverso que para lhes as impressões visuais para estimularem a sua inteli- sensibilidade ou para darem que fazer á sua gência. as pessoas de cultura e elas olham. eriçada de rochas brutas e rasgada de gargan• ou montanha que se pudesse tas fundas. vê. que deve estender>se por siço muitas léguas a respectiva linha curva. massa confusa que não traz á lembrança os Pirinéus ou os Alpes. fechando o horizonte. os cerros alcantilados de Castelo de Vide. e de ao Crato> se ali tivéssemos uma algum modo esperássemos aquele e sucesso ruidoso. mas vê*se indistintamente. feita a sua re- Vêem queja se. uma tal mon tanha. como está isolada. A Serra é alia. interes- sando. oferece um espectáculo variado.

as montanhas que d'aqui vejo. A frenologia das pedras. como nos templos que o homem segundo regras e de conformidade com os fos- modelos consagrados. excepção feita da Estrela. muito extensa. muito próximas umas. aliás modesto em todas. muito como a Gardunha. como S. dá a impressão de ter . que só pelo tamanho. conseguem prender a atenção por breves instantes. Ha serras ou montanhas para que necessário olhar como para um monumento.i66 POR CERROS E VALES Hugo A's revoluções politicas chamou Victor as brutalidades do Progresso . pode qualquer chamar as brutalidades da Natu- sem propósitos de faltar ao respeito ao Criador de é todas as coisas visiveis e invisíveis. Ha tos rochas em que facilmente se descobre a figura inteira. Mamede. afastadas dentes de terreno. não a figura que tudo mas alguns dos segmencomodidade de es- n'ela se consideram por — mais Lavaíer geralmente a cabeça. a que dá maior relevo o seu isolamento. A planicie. humana. de formas. pro- curando na sua arquitectura o plano a que obedeceu a sua construção. — ás revoluções geoló- gicas reza. com traços fisioal- nómicos acentuados. nas suas flagrantes semelhanças com a mascara das pessoas. como se ensi- na no catecismo. seria simplesmente o estudo fisiognomonico dos calhaus. quasi inalteráveis como se sem dogmas na arte de construir. se gum já a tivesse criado. catedrais megatilicas em que é difícil encontrar proporcionalidade de linhas e harmo- nia constrói. Encarrapitado na Serra de Marvão. são apenas acioutras.

recorda-me tempos afastados. velhos tempos do apostolado republicano. Teófilo Braga dava-lhe os seus ça. e aber- . estruturalmenie republicano. Diviso na imensa planicie. em edições bara- sendo duvidoso que lhe dessem algum lucro. deixando tigios 167 como ves- perduráveis afioraçõss de pedra negra. em duções. rio em Cabrela e grande eleitor em Lisboa. que leio de uma rua. na esquina O nome de Carrilho Videira. Videira. e ele atirava-os tas. grato aos favores que lhe devia. sobretudo de propaganda republicana. numa lojeca da rua do Arsenal. vestigios da ultima cultura. supõe a minha ignorância. ás mais recuadas épocas geológicas. em tra- novos e velhos. livros. o restolho da seara que ali ceifaram ha poucas semanas. por terminada a minha visita a Marvão.POR CERROS E VALES sido lambida por línguas de íogo. em pequenos trechos re- petidos. convenien- temente traduzido Dicen que lâs catalanes De E dou las piedras sacan panes. o ditado catalão. Em to- das as eleições o Carrilho Videira votava com o seu compadre. era rico proprietá- Carrilho compadre do velho Simões Carneiro. de gra- para o publico. ainda eu estudava medicina. e penso de a estes bravos mim para mim que sem : camponeses se po- deria aplicar. cuja formação deve remontar. Carrilho livros Videira fazia um pequeno livros comércio. favor.

Na extensão de mais de um quilómetro. blicano. se bem me recordo. e . por estes sitios. porque então o seu compadre não precisaria do seu voto. talvez dois quilómetros. ralado de desgostos. . que não tem. que mais tarde. que lhe ba- para o Brasil. os freixos. fazendo passar uma sombra. pé dos Olhos d'Agua. a frescura de ainda alto. de grande tronco. . foi proposta e aprovada a irradiação do Carrilho foi Videira. ca- Terras de sais bom aspecto. quasi agigantados. que o uma rés. ao tempo instalado na rua dos Fanqueiros. estrada que E ála que se faz tarde. a não ser que a comparemos com a estrada do Crato a Portalegre. congresso cujas sessões se realizaram na sede do Centro Hen- riques Nogueira. No sitio da Portagem.i68 POR CERROS E VALES tamente declarava que assim procederia até ao fim ou até á proclamação da Republica. aí por 1887. inculcando fertilidade de boa aparência. não macula. as simpatias que Encostas arborizadas fruto. O caso foi que num Congresso do Partido Repuda vida. enfiámos pela estrada de Castelo de Vide. . tem na 5eira. enormes soutos oliveií^as discretas de pinheiro manchas carregadas de bravo. inculcando vida farta e já com delicadas preocupações de bem-estar caseiro. folhudos como as faias do Vergilio —fagi patuloe — dão-nos sol. tea subtil por entre folhas mal juntas. ao não é positivamente uma pista. onde nunca recorreram baldadaêle os emigrantes portugueses mente a tiam á porta. .

agua. não deixando de ser incomodo ás horas em que o sol queima. A ir lá Fonte. sa- bendo a. cozinha ampla . Magnifica agua. casa de jantar cheia de luz. Fontes por toda a parte. isto é. se trabalha afa- um jantar americano» com jazz-band Bons quartos. tão empinada que de linhas que- pasma a gente das casas não cairem para cima umas das outras. bradas. . o Chafariz. quasi sem peso. fica a pou- cos passos do hotel. onde nosamente para e tudo. e todas elas jorrando com . muito fina. de cinquenta e quatro mil Castelo de Vide. a que feita dá acesso uma rua estreitíssima. receita. fechada a cadeado. impede que alguém vá beber. em Vamos ao Hotel das Aguas. e ha terapêuticas. Fazemos um pequeno nos de ir giro pela vila. sem . sem ter pago a inscri- ção. Corredores largos. quem afirme que têem propriedades boas no tratamento de certas doenças gastro-intestinais e eficazes também no tratamento de certas dermatoses ligeiras. escrupulosamente asseados . que é um sabor sai generis. senão todas. . rico forma* plena produção. Uma grade maali nhosa. oliveiras. mas sem nada lhes faltar do que ao hospede é preciso. a tufar de vegetação.POR CERROS E VALES Lindo o V/ale 169 do Prado. que a quimica ainda não definiu. como todas as aguas analisadas. . dispensando- ver o pouco que resta do seu castelo. arvores já das a maior parte. mobilados com!simplicidade. Banho de imersão e de chuva. melhor dizendo. Parece que são radio-activas.

estes Por seguro tenho que o dinheiro que se gastasse com melhoramentos daria um juro superior ao dos do Tesouro. meu professor de anatomia. na sua terra natal. se Nosso fôr servido. e então resolveu concorrer a uma vaga de professor na Escola em que se formara. tentou êle a vida clinica mas foi de uma . de travessa em travessa. um estabelecimento para banhos. e como ainalguma demora em Portalegre. regalando- uma agua que vale a melhor do mundo. tendo obtido as mais al- tas classificações. António José Serrano. Aqui. para o repouso de alguns dias. muito mil fontes. bilhetes De rua em rua.170 POR CERROS E VALES abundância. onde voltaremos. vou passar em frente da casa onde nasceu o dr. muito asseada. Castelo de Vide bem merece que lhe chamem a Cintra do Alemtejo. logar aprazível onde os que precisara de repou- so e gostam da Natureza podem passar algumas se- manas. e pouco dispendioso. rica de agua vegetação e com jorrando constantemente de Muito alegre. e sem quebra das nossas convicções . grande infelicidade nos primeiros casos que tratou. fresca. atri- independentemente do valor terapêutico que lhe buem. ter aqui e um balneário. da- mos por Senhor finda a nossa visita a Castelo de V/ide. Não vale a pena ter da devemos ir lá acima. á Penha. se nos permitem a exasgeração. uma piscina ou tanque para exercícios de natação. enchendo os pulmões de se a beber bom ar. Facilirao seria. De caminho.

POR CERROS E VALES republicanas. comprida e o caminho não é bom. ainda que não sejam. tendo abolido o beija-mão. que. depois de morto ainda os seus aulicos do Conselho de Estado lhe babujavam os dedos : como consta da respectiva acta foi admitido á Real Camará o Conselho de Estado e beijou a Augusta Mão de S. esta. Tem esta deia que fica denominação poética uma pequena ala dois quilómetros e meio do Crato. Querendo — Pois — Em já se vê que quero- Quasi pára o automóvel á entrada Flor da Rosa. Abilio Ferreira onde estamos. Magestade El-Reí defunto. virtu- não era uma das suas maiores . como no caso cuja modéstia presente. num povoado. e eu pergunto ao dr. Vitor Hugo. — A volta é lá ir. por lhe repugnar essa sobrevivência absolutista. raostrar-me a Hidro- Electrica Alto Alemtejo mas receia que eu regresse Lisboa excessivamente fatigado. Pedro V. estando no Crato. estatuado em mármore. 171 saudamos D. isto é. Não se dispensa de ir ali. sem vontade de repetir jornadas como . e toda a sua extensão pela estrada que é cortada em conduz a Gafete. o dedos monumentos que voto das coisas antigas. — — — Deseja o a dr. Abilio Ferreira . tão infeliz. melancólico e simpático rei. são páginas da nossa Historia. paginas d'Arte.

traduzidos em várias lín- guas. Quasi se pode avaliar do grau de cultura ponto de dum pelos vista. sem o tornar maior. não mata o monumento torna-o mais explicito Mas o livro amplio-a como narrativa como crónica. . pois. Portugal é dos povos menos cultos do Orbe. Não admira. Com mais pro- priedade lhe chamaríamos vergonha nacional. 172 POR CERROS E VALES escrevendo a Notre Dame. Os a livros teem mais garantida. em edições de milhares. e sob forçoso e triste é este reconhecê-lo. A Itália é o país das ruinas.. sua conservação que os monumentos guardam-se biblio- nas bibliotecas publicas e particulares. se tão lamenela tável miséria ainda representasse ou pudesse vir a re- . mais assegurada . atirada ao edificio do mesmo nome — céci tuera cela. povo pelo respeito ou despreso que mostra monumentos nacionaes. o seu valor documental. desafio. o maior império de todas as idades. que ruinas. e editam-se repetidamente. teve esta frase de des. nas tecas do mundo inteiro. e completa. quando é excepcional o seu valor. em Flor da Rosa haja um montão de que por irrisão foi há poucos anos classificado de monumento nacional. e nas suas bibliotecas e arquivos não ha livros que valham as trágicas mutilações do Coliseu e do Fórum para nos dizerem o que foi a maior cidade de todos os impérios. e para chamaríamos a atenção dos que aceitaram e sobre si tomaram o encargo de velar pela conservação de tais relíquias. abundantes no pais.

uma importantes ordens religiosas e militares que tão po- derosamente contribuíram para a formação e conso* lidação da nacionalidade. tão pobre e tão modesto que não há verdadeiramente o direito de estranhar que tenha assistido sem um grito protesto. . dandolhe ares de decência. capitulo da nossa importantes. parece-nos? irreparável derdum monumento que de certo modo poderia fazer dela uma espécie de Meca para os devotos. vila próxima. aquele monumento der- uma vez e por completo» para quem passa o desmazelo criminoso do Estado. Melhor fora. Sobre o priorado do Crato. suficientemente autorizada para se fazer ouvir nas altas regiões. de velhas e nobres tradições. na região. se podem considerar como legítimos herdeiros daquele deposito. historia ge- e dos mais porque nele se com* das mais preende a biografia dos Hospitalarios ou Maltezes. sem uma reclamação. Flor da Rosa é um rocado^ arrasá-lo de grite a que não modesto logarejo. isto é. quando reivindica direitos que lhe não podem ser contestados! artística Ora Flor da Rosa é uma gravura tra a historia ral. umas poucas de vezes secular.POR CERROS E VALES presentar 173 um yalor no inventario da nossa riquesa arqueológica. modesto e pobre. Mas o rocada Crato. sem um de revolta á lenta mas continua e já agora. da chamada Ordem de Malta. e a falta dum esclarecido sentimento patriótico por banda dos que. é uma povoação importante. não querendo cercar de respeito. que ilus- do Crato. os sinceramente devotos da religião da Pátria.

sexto prior do Cra- mandou ali construir. A verdade é que o Crato assistiu. Álvaro Gonçalves Pereira. de soslaio. nomeado por D. escreveu Pascoal ]osé de inspirada. guaritas e cubelos ou torreões. se abaixo com tamanha honra. carreira eclesiástica castelo com Nada admira num tempo em que o profano andava tão unido ao sagrado. do Priorado do Crato. como monumento nacional. ao ruir da Igreja e Convento que havia em Flor da Rosa. indiferente.ad majorem dei A historia da Flor da Rosa é simples. que alguns templos fossem baluartes.jurídica. o que . princi- palmente a igreja.174 POR CERROS E VALES seu direito e jurisdição. Melo uma substanciosa dissertação histórico. sem duvida. olhando para ali. D. que a e a carreira militar eram. uma igreja e um mosteiro. e deu se por satisfeito quando o Estado. disse com ares protectores — isto agora fica ao meu cuidado. linhas. sem que para isso dependa de Bulas pontifícias. para . se não pudesse foi- ainda estava de pé. uma fortaleza. um ameias. e sobre os seus bens-. igreja e mosteiro que constituíam. mas também inspirada no despeito de lhe terem regateado uns magros dinheiros a que se julgava com direito por virtude das funções que exercia na qualidade de provedor. e conta-se em poucas to. em 1356. no bom desejo de tornar cia* os direitos ros e insofismáveis do Imperata sobre uma Ordem professor e estrangeira^ no Reino. Como gloriam. Pedro III.

Álvaro ainda não estava completamente reduzido a ossos. iogava bem com a e porque também era torreado. em mármore. mais tarde crismada Malta. ter — isto agora passa a monumento na- cional I Outras edificações.POR CERROS E VALES milhares de homens. O hábito de frade não lhe quebrou o anioío guerrei* . Álvaro. Abilio Ferreira. seria suficiente para qualificarmos de criminoso o abandono a que foi votado o templo e o mosteiro. soldado cuia valentia se assinalou brilhantemente na batalha do Balado. Álvaro e ás suas edificações em Flor da Rosa. O claustro do Mosteiro. cavaleiro da Ordem dos Hospitaleiros. tarde e a dito ás gentes más horas. 175 uma só carreira. simultanea- mente espalhando bênçãos e cutiladas. A igreia que D. via em Flor da Rosa. de menor importância. o dr. das. de belo mármore. deveu o país á iniciativa de D. fez construir gótico. conservan- do-se em rasoavel estado o hábito que lhe servira de mortalha. circunscrito por oito arcaigreia. por quem soube que D. Álvaro. ainda ha poucos anos se o tumulo. e guiado pelo mesmo ilustre chauffeur. a O dito D. era em Ordem de em estilo ali duma só nave. do seu ilustre fundador. abandono que não cessou pelo facto do Estado. cuio cadáver foi removido para a igreia paroquial da freguesia. o todo dava a impressão dum que castelo fica em camouflage com respeito de templo. em automóvel — precisamente o mesmo automóvel em que eu visitei o distrito de Portalegre.

talvez mais que o D. inspirado na fé e no pa- realizou. pobreza e castidade. Não to faz sentido glorificar como heroe e como o filho. monge a triotismo. tão largamente criava povoadores. Se o templo e o mosteiro fundados por D. e votar ao abandono a obra que o pai e guerreiro. Do modo como de cia trinta observou e cumpriu o voto de casfoi pai tidade faz-se ideia aproximada. além de criar núcleos de po- pulação. na qual entroui como era da regra. hospilalário carnou o espirito da sua Ordem. como já dissemos. Álvaro. bastante entrada em san- idade. os dois grandes sentimentos que tornaram nacionalidade. machos e fêmeas- Bem mere- o cognome de povoador. ser cantadas possível formação desta pequena cujas façanhas gloriosas bem mereciam por um Homero.176 POR CERROS E VALES que como poucos compreendeu e in- ro. A mãe de Nuno Alvares era criada do Pajá ço. ali é que deviam es- do Condestavel. um chamcu-se Nuno Alvares Pereira. e veiu a morrer freira. fazendo os cotos substanciais de obediência. conservando-se Íntegros na elegância rijeza da sua linha arquitectónica e invulneráveis na da sua estructura tar os restos em mármore. Álvaro em Flor da Rosa tivessem sido preservados dos estragos do tempo. Tinha então. se as não cantasse um Camões. e veio a ser o heroe de Aliu- barrota. Sancho. Ora dos trinta dois filhos de D. sabendo-se que e dois filhos. e então aquele peque- nino burgo seria um logar de romagem para nacio- . dezoito anos. o e homem que.

em edifício próprio. reinando D. ou que. no terceiro quarteirão do século Xtl pelo fundador da Monarquia. e os estrangeiros cultos que nos visitassem. vila . dessa famosa ordem dos irmãos hospitalários. em 1662. 12 . que Deus haja em sua santa guarda. dos os santos. muito ter conservado o seu castelo Não e um trecho das suas muralhas. E' certo que D. graças á valentia e astúcia de D. é que foi criada a Ordem breve Militar de Cristo. dois passos do Crato. quasi arrazou esta tui-Ia. por devoção patriótica. Só em 1320. aproveitando-se. criada em Jerusalém antes de se constituir o reino de Por- tugal. e nada ver-se ali mais natural que o arquivo instalado. João de Áustria. dário. para isso. Afonso HenDiniz.! POR CERROS E VALES nais e estrangeiros religiosa 177 ~ os nacionais que. mas coisa faci! teria sido reconsti- conservando-lhe a fisionomia que tinha desde séculos. sinceramente admiradores de todos os heróis. e Ordem extinta por um que em França teve um fim espantosamente trágico. mesmo que não seto- jam da sua Histeria. por devoção quizessem adorar o santo. pontificio. rica custava de tradições. menos de três quilómedevia ser Flor da Rosa podia e o mais lindo arrabalde desta vila histórica. ou piedosamente devotos de mesmo que não sejam do seu calen- Singular Paiz o nosso! Cria-se Fátima. e deixa-se perder Flor da Rosa A tros. conquistada aos mouros. os despojos dos Templários. riques. quizessem homenagear o herói.

cia mercê da influen- paterna. a serem valentes até ao ponto de aceitarem na proporção de um para três. os seus irmãos e confrades. a não ven- - derem nem entregarem os bens da Ordem a ajudarem por todas as formas.a defenderem a fé pelas armas. eliminados os fracos de corpo e os tímidos de ânimo. antes na Ordem. Seria o monge que ção de Flor da Rosa. Não Os a luta fugir de três inimigos I cavaleiros da Ordem obrigavam. irem ás guerras ultramarinas. mas não dando garantias de serem.se. e D. por jura- mento. às vezes podendo ser bons frades. inclusivamente por conse. condição esta que determinava uma rigorosa selecção. bons soldados. ascendeu ao honroso cargo de grãosugeriu ao guerreiro a funda- prior. a não fugirem de três inimigos. quando os chamassem. os cavaleiros comprometiam de mais nada. porque as duas Ordens eram da mesma índole. a nunca estarem sem armas nem cavalos.178 POR CERROS E VALES ser escolhido para Mereceu o Crato as honras de cabeça da Ordem de Malta. Na Ordem dos Templários a fórmula de juramento era a mesma. a serem fieis aos Reis de Portugal Regibus Portugalliae fidelis ero . o que não admira. sujeitas às . honroso e de proventos grados. filho do Arcebispo de Braga. em Portugal. e sido tinham criadas para mesmo o fim. ou seria o guerreiro que fez a sugestão ao padre ? No iuramento que prestavam ao serem admitidos se. Ál- varo. lhos. a darem toda a ajuda contra os reis e príncipes infiéis.

Do lhada velho Crato. Imporporque a verdade a tudo sobreleva. ricos de imaginação. dos maiores vultos da nossa onde os grandes vultos não faltam. que filhos al- guns dos de D. Do como já dissemos. ampliada.atestandoasuaremota an- Não há vestígios de qualquer das suas por- que eram cinco. ferra amura- que a fúria castelhana reduziu a escombros. tas.POR CERROS E VALES 179 mesmas regras. onde casaram reis. residência de D. empregano rosário e a do as mesmas armas de combate — catana. nessa famosa batalha os portugueses não proporção de cos de mil um para combateram com os infiéis na três. Álvaro fez prodígios de bravura na batalha do Salado servindo lhe de escudo linho. ta dizer. porque o Deus das vitórias lhes sorria dos legião céus. uma das quais se chamava. não mosteiro e templo de Flor da Rosa. Álvaro. . resta um monte um de ruínas. resta. esteja o tumulo de D. altos A darmos crédito a alguns dos nossos cronistas. sendo de admirar que debaixo delas não pai do Condestavel. a façanha em mais dum recontro. quási nada tiguidade. História. irmãos de D. mas de um para uns poudos Pares cons- — repetindo. sabemos porquê. Álvaro. Beringel. uma relíquia do santo- à que era uma espécie de in hoc signo.. com pequenas diferenças. D. a gritar portuguesa que para a frente é que era o caminho. de França no seu tante peleiar cora a moirama. Álvaro que dali presidiu à constru- ção de Flor da Rosa. a não serem uns bocadinhos demuralha. Nuno.

pesando. um sol abrasador. além de ir incomodar. devagar. e no lugar onde se erguia o templo e o mosteiro. pondo-lhe na base quatro figuras simbólicas —a Ignorância» a Estultícia) a Mentira e a Basófia. muita pedra . criar erva que encha a boca duma sendo duvidoso que chegue para en- cher a barriga dum boi. no justificado receio Terras ásperas. via já mas se do tesouro arqueológico que ali ha- nada resta de aproveitável. poderão ovelha. e que íomaram o partido de Castela contra um um descendente do herói de Aljubarrota. Prior Se alguma coisa ainda se pode salvar de Flor da Rosa. delgadas como Bem adubadas. papel de embrulho. Na duma verdade. e não o fez por paixão. servindolhes o tempo. como na Palestina.i8o POR CERROS E VALES Portugal. também Nuno Alvares Pereira. erga-se uma estátua ao Desmazelo. remova-se o entulho para fora da aldeia. e também. tarde sa fez partidário da causa de Filipe II contra o do Crato. obriga a avaria grossa. Poucas arvores. duzentos anos mais neto. o caminho é péssimo. mas por dinheiro. o que. sobre a terra gretada e . convenientemente ajardi- nado. conforme reza a História. é acudir-lhe sem tardança e pela maneira mais eficaz. poderão dar seara nos anos favoráveis á lavoura. quasi sem relevo. então ponham-se aqueles bocados de parede rasos com o chão.

republicano. clinico da velha Escola. a visitar o dr. Também informados por Nisa passámos sem nos apearmos. nem sequer movidos pela curiosidade de vermos o lugar onde existiu o Castelo ubi fuit Treja que os romanos já encontraram quando vieram aqui. ela na se interessante. que medicina como se ela fosse pratica a um sacerdócio. de que a estrada velha. Continua sendo má a estrada. nestes sitios. falar á gente das vinganças do Senhor. apesar dos cuidados e mes- com que é guiado. Ordem de Cris- Ordem que bem merecia. que ajudaram a formação e consolidação da que o Estado. bordada ricos. Muros de pedra além quasi estran- . João de Morais. só com a diferença de coi- sa alguma. uma carreteira em que vamos pior entrar agora. mas agora. como as outras ordens militares nacionalidade. realisa o milagre de ser que a estrada. primitivamente macdamizada. com a de eucaliptos e sobreiros. ontem monárquico e as tivessem na devida considera- hoje ção. Passámos por Alpalhão sem nos apearmos. aqui e deixamos. distraindo-nos tor- um pouco dos tram- bulhões que o carro dá. que solta. a todos. tão fora do seu tem- po e da moderna deontologia médica. horrivelmente zurzídos.POR CERROS nua. formando abóbada. E VALES i8i como disse o poeta. Pertria — — tencia este Castelo ao Mestrado da to. pobres e viços prestando os mesmos inteligentes sermesma solicitude desinteressada. Curta demora em Gafete.

ramo de montado de azinho. espesso de vinte e cinco e alto de vinte e oito metros. lá em bai* apertada modestos outeiros. samos ainda sair teremos de recuar até que posdo caminho.matos. o que talvez me impeça de hoje tomar o comboio para Lisboa. considerando-o irrea- Pois a represa fez-se. ribeira que parece correr. ou as arvores são bastas. carregado de produtos agrícolas ça. Se nos aparece des- tes carros pela proa. Conheço mal buinte a bacia hidrográfica do Nisa. — um em rama. lisavel. e aqui estou eu sentado no paredão que lhe estanca as aguas. os muros e os Qalados mas não se pode romper a corta. que represa- riam as suas aguas. armazenando vinte e dois milhões de metros cubí- . uma á procura d'agua. albufeira. a albufeira terá seis quilómetros de extensão por dois de largura. fazendo uma eu riria do projecto. tão mal que se alguém tivesse dito. faltando. talhadas á medida palha ou trigo de parelha. involuntariamente. .. i82 POR CERROS E VALES dum car^o corti- guiando as azinhagas. porque ou a terra é lavrada. Acabaram as azinhagas. em qualquer ponto. sendo de trezentos metros o entendido. como seu está projetado. quando o altearem. a compromissos que obrigam. contri- me ou afluente do Tejo. que a da tros apenas. Bem cada é a da base. a espessura indicrista será comprimento. Um bom xo. ainda ha poucos anos. e entre . de cinco me* Realisadas todas as obras pi ejectadas.

considerando a pecuária diária como industria subsi.000 em cada ]á é grande o mês. Além de ser ser Eléctrica tem para uma obra no Alemtejo. no ano. no ano corrente tem sido aproximadamente de 200. em todo o ano de 1928. de força. a coisa certa é terem eles resistido ao fraccionamento pela natural evolução da propriedade. pois que sendo de 280. consumo de energia produzida ali. uma obra de e é Diz-se. de boa vontade para a terra. enfeudando.Eléctrica. da insaciável fome de que tem o homem do Alentejo.se aos Bancos ou aos usuráterra rios. que os seus rendimentos líquidos não comportam.POR CERROS E VALES COS d'agua. .000 HP. mercê da paixão. para a exploração segundo os moldes clássicos. dispondo de 9. Quaisquer que sejam as origens históricas dos lati' fundíos alentejanos. Santarém e Castello Branco. vai verdade. poderá abastecer de energia a parte mais importante dos distritos de Portalegre. que o capital alentejano só agrícola.000 kw. lavrar e se- mear. tão grande que os leva a empenharem-se sem remédio. os remediados e os ricos. 183 Então a Hidro. esta Hidromim o particular merecimento de alentejanos. grande e progressivo. Évora. pagando juros excessivos. A que preço? preço de $80 a energia luminosa e $40 a ener- Ao gia motriz. para adquirirem mais courelas ou mais herdades. da sua profissão.

alente- janos.. já satisfeito adiantado. vejo tudo quanto mas vendo com a simpatia com que na minha provinda representa uma fui utilidade colectiva. duma grande obra. feita por alentejanos e destinada a servir uma do Alentejo. por almocreves. quer os peça aos particulares.i84 POR CERROS E VALES Empreendimentos dispendiosos. e para êles não lança as suas disponibidades monetárias. que se coloquem fácil por seguro temos que lhe alcançar os recursos de que porventura ainda careça para levar a bom e definitivo termo a sua obra. vale a pena inculcar. concebida e realizada com inteligência e com probidade.. pessoas individuais ou colectivas. mas uma empresa em capitais. numa estalagem de ver este es- manchega. não o seduzem. naturalmente. . vo. que como exemplo e como incenti• aos desalentados* que nunca tiveram alento. á pre á espera de lhe aparecer a oportunidade de adquirir mais algumas centenas ou milhares de hecta- res de terra para dar maior vulto á sua personalida- de latifundista- Sabendo que a Hidro-Eléctrica é obra de vasta zona visitar. quer os peça ao Estado. desiludidos. como o D. nunca tiveram crenças. como já não é uma tentativa arrisque dinheiro. semcola. fora do labor aqrimaneira adamita. emincompleta. aos aos descrentes. • que • das ilusões que nunca tiveram. eu tinha imenso desejo de a vendo-a a com olhos de leigo. muito Quixote. Nem já me lembro de que manteado dentro do automóvel. Pois que a Hidro-Eléctrica é bora ainda em que será se uma obra feita. boço.

vaainda que modesta. portuguesa. Porque é genuinamente portuguesa esta peça. Como da Espanha. quer a produção de energia eléctrica. enorme satisfação que nos causou que fizemos á Hidro'Eléctrica e expressos os nossos votos pelas suas maiores prosperidades. que não mos. aqui fica expressa a a visita Para fugirmos ao mau caminho até Nisa. ainda. plano de reconstituição económica do País ha que fazer para uma larga parte ao aproveitamento da quer para serviços de irrigação agricola. e devemos dizer. em relação ás pessoas que a administram. avançamos . e quanto que a conceberam. relati- vamente ao nosso que — interesse principal da nossa economia pátria assenta hoje em a nacionalização dos nossos organismos económicos Não pode considerar-se economia nacional a que vive invertebrada e com os seus elementos primários entregues á exploração do capitalismo estrangeiro ou alimenta os monopólios rentlsticos e as combinações das oligarquias financeiras e in- dustriais. planearam e construiram. de mais valor te* que a obtida pela combustão da hulha. do nosso apetrechamento económico portugueza pela origem dos capitais com liosa nacionalidade dos técnicos que se fundou. escreveu Sanchez de Toca — Reconstituiçon de Espana en vida de Ecdnemia politica actual — podemos País.- POR CERROS E VALES 185 Num agua. e das antracites e linhites que não soubemos ainda utilizar na justa medida.

ainda Afinal passou o comboio. useira e veseira em inílingir aos transeun- escusadas demoras. um jantar abreviado. e dispôs Deus ao Peso fechada a cancela. para chegar ali. porque já o carro pode marsolavan- char mais depressa. só passado o comboio de merca- que não tinha pressa de chegar. o seria desculpável. Mas o homem põe que chegássemos abrindo depois de dorias. com tempo bastante para comer coisa. avistando-se grande distancia porque a linha é recta em mais contara de um quilómetro. encantado com a fidalga hospedagem que me deram o dr. exercendo um bocadinho Crato.i86 POR CERROS E VALES Castelo de Vide. com a mulher da cancela. dou por terminada a minha visita ao Alto Alenmuito satisfeito com o que vi. e em menos de nada che- gámos ao alguma ceia. Não havendo demora no gar ao caminho. não por excesso de zelo. precisava de alguns minutos. vindo na direcção em que vinha. ter Deus já dispõe. sem fome. e muito a tempo de apanhar o comboio. devemos che = Crato boas horas de jantar sem pressa. Abilio Per- . permitindo -me chegar a Lisboa. e comboio. que mas por orgulho de subalterno de autoridade. Abílio Ferreira não O tes dr. e não se cos de agora comparam os com os a trarabulhões de ha bocado. I Que desespero Em o a deis segundos o automóvel passaria a linha. e logo constatamos que foi em direcção a a inspiração bôa. com algum apetite para a E tejo.

de requintadamente estético. num sermão da semana com santa. ao reboar no templo violência. gritaram : voz púlpito — Nãõ fomos nós. Eu sairá de Lisboa no firme propósito de ser um mediador da paz entre Nisa e Alpalhão. em um façanhudo pregador. Tal não sucedeu.! POR CERROS E VALES reira e a ilustre 187 senhora que é sua esposa. um desse ódio de morte atira frequentemente os habitantes de Alpalhão contra os de Nisa e os de Nisa contra os de Alpalhão. com fúria. apavorados como numa an- — Ah ! cães de Nisa. que tevisão a do Inferno. estabelecidas entre os dois po- vos relações de uma amizade leitor imagine o que os romanos de Alpalhão a História tinham raptado as Sabinas de Nisa. que. como se uns fossem guelfos e outros gibelinos. . O Nisa. E a multidão que enchia o templo. homens e crianças. exclamou. momento. depois o estrondo do caixão. ab- sorvida a atenção pelo que tem de superiormente de* licado. firmar nas duas povoações^ de ha muito desavindas. foram em lagrimas* em direcção ao A partir es de Alpalhão. todavia. adorável a opulência se disfarça mènage em que to. : como quem denuncia um crime horrivel mataram o vdsso Deus. una você. os extremos sincera e duradoira um Não arco de aliança. mulheres. Punge-me um remorso. os olhos afogados cortada de soluços. fechado de nele metido o corpo do Senhor. em bom gos- quasi não se dando pelo que tem de valioso. pelo menos não o conta caso foi nem o refere a tradição.

paciência.i88 POR CERROS E VALES eu. beetríâs desavindas. Não o pude fazer . e com sucesso reconciliar. . um ilustre académico está na posse de documentos que provam á evidencia. que ali de Alpalhão nem os de Nisa que mataram o Senhor. que não foram os Porrinos. desde aquelas duas laboriosas vilas alentejanas. fronteiriças e vizinhas. de maneira em documentos que brevemente serão lidos sessão publica da Academia. vim a saber que trrecusavel. Ora pela indiscrição de uma mulher a dias. mas sim um espanhol de brica costumava aparecer vendendo pastillas y benbdnes de la fa- Matias Lopez- Pensei em reunir os bons e os velhos daquelas a notícia deste formidável já.

Fora de vila e termo Sempre ouvi entra a dizer que no inverno não ha que fiar em Deus. não direi na disposição de visitar. estão simplesmente horriveis. como que prenunciam um novo e universal di- Desatento confortado outro dia a este aviso da sabedoria das nações. com uma bôa açorda alemteiana. porque os seus Alentejo. instante para outro o tempo fazer caretas. cortadas de valetas que obrigam a uma . macadam. meti-me num modesto Studebacker. ameaçando de as bátegas de agua que encharcam os cara* pos e tornam intransitáveis as carreteiras de melhor piso. porque dum para se estival. que sacode as arvores. no concelho de Portel. As estradas a trechos. aparte uns amiga — donos actuais teem a sorte de serem ainda novos. aos esplendores luminoso e quente. o céu deixa de estarllimpido tornar nebuloso. no aqui e Ínfimos além. sucedem-se rajadas e dum sol dum ar' vento rançar. herdades de gente de velhos amigos. luvio.

os as azinheiras. cresceram. que o mau tempo Evitaria me apanhasse por fora de pelas as estradas do Governo. E então quando essas valetas evita. espera do reboque duma ou duma valente parelha de muares. é certo ficar para tana. põem em risco mais fortes e bem temperadas molas. nem sequer humedecidas pri- meiras chuvas outonais. o automóvel marcharia lestamente. tão apraziveis as noites. ida e volta. Ha para quantos anos eu não passava de Montes Velhos I lá Desapareceram as charnecas que por chaparros fizeram-se azinheiras.Era bem diversa a limpe- . grossas de tronco. tornaram-se adultas. Eu bem sabia que estamos no inverno.Quixote. aproveitando da limpeza das terras. enxuta que calculei ser-me fácil realizar a minha jornada. manteado. de agua. numa . se o chauffeur as não lo. encorparam. as ainda assim. segundo 03 almanaques. é pior que ser estalagem mal frequentada. sem incómodos de maior. e ali havia . sem casa. como sucedeu ao pobre D. podendo faze á ou não as passa com o carro ali quasi parado. e pelas ve- lhas carreteiras. Andar de automóvel por semelhantes estradas. tão desanuviado o céu. uns duzentos quilómetros. se enchem. a copa torna- da de convexa em concava. para que o ar circule n'el3 á vontade. quasi era forma de taça. tão a terra. estatelada a traquijunta de bois. um pouco tam- bém da limpeza a machado.190 POR CERROS E VALES e. e a luz a en- cha de energias criadoras. mas iam decorrendo tão lindos os dias. marcha de procíssãO.

Filipe da Pedralva. desembaraçando-se d'uma parte dos seus latifúndios. transigindo com o modernismo e rompendo com a rotina. assim. ga- rantem mais eficazmente os seus direitos de proprie- dade? O I fracasso da experiência comunista feita na Rus- . que aforou. Como O Formou-se. e sempre regando-a com o suor do seu rosto.POR CERROS E VALES 191 za que se fazia no meu tempo. votados a trabalharem toda a vida a terra alheia. gras. proprietários. certos de que. Transposta uma lomba. e quer-me parecer. que entre o que se fazia então e o que hoje • . donde se avista Ferreira» sol. Pequeninos seareiros. a criarem proprietários. branquejando ao espraio a vista por uma vas< esmeradamente cultivadas. um abundante celeiro que ainda ha poucos anos era um campo de estevas curtas e ervas matissima planicie de terras cultivadas. fazer como o sr. Porque não hão-de os grandes land-lords. uma colónia. para ali morarem. herdade de muitâs centenas de hectares. se operou o milagre ? dono da Abegoaria. ha um justo meio termo. fizeram casa de habitação e de lavoura. na minha ignorância de arboriculíor. donos de algumas geiras. e os foreiros. que ainda ha no Alemtejo. servos da gleba emancipados. d'uma hora para outra. viram- se. que talvez conviesse adoptar. dividiu a em courelas. se faz. cada qual segundo as suas posses. rom* pendo-a com a enxada ou rasgando-a com o arado. formado em medicina.

não podem ser os mesmos para todas as províncias ou divisões administrativas equivalentes. totais. eu não posso vêr tudo como deseiava. foi a prova de- cisiva de que o homem. um salutar aviso aos latifundistas do encontro. dispenso. a respeito do que vejo. filo- sófico ou social. tem vista de ser considerada sob o ponto de da produ- independentemente do seu aspecto jurídico. Se o regime dos latifúndios é a miséria pela .192 POR CERROS E VALES em matéria de propriedade rural. é foi um animal essencialmente proprietário. e porque não quero arris- me a não chegar ao fim da jornada. em determinado continente. Na car- pressa em que o automóvel vai. sou levado a crer que a divisão da dentro de certos limites. mites. com alguma se- gurança. Primam vivere- • • Pelo que conheço do Alemtejo.se. A ção. a mas simplesmente a dentro de certos lique não podem ser os mesmos para todos os em todos os continentes. e que serviriam para. ocasião de dizer numa em e Lisboa.me de colher. e era cada país. cer. como conferencia publica. para que vão ao preiuizos estabele- sem violências criminosas e sem d'um estado de coisas que tende a porque está no plano de evolução económica das modernas sociedades. países. província essencial- mente agrícola. á produção. questão da propriedade grande ou pequena. mundo inteiro. já tive sia. informações que desejava colher. é favorável propriedade. me orientar no estudo do problema agrícola do Alemtejo.

seis qui- sem inflexões. e nele dormiu algumas noites. para o oumundo. meni- no e moço. e as fruto- de azeitona. lhe não mudava o humor nem lhe estra. por ter o cabelo estopento. Andava ameaçado de • • lhe fazerem arrefecer o céu da boca. uma vez em cada ano. não aguardando a mor* te. hoie muito maior do que era no tempo em que eu. um original o parente Estopa. de beber. mostrar aos seus proiectados assassinos que a perspectiva tro gava o apetite. o Estopa. mas cosendo a bebedeira. A estrada é tolerável de Ferreira até Peroguarda. Atravesso. onde 13 . sem demora. pela fragmentação da proIn médio censistet virtus . n'uma idade ça a branquear na em que êle ainda não come- generalidade das pessoas. e lá nos aparece Cuba. Terras de semeadura. trigos em que mal despontam oliveiras carregadas os semeados no cedo. assim chamado. n'um relance. ali ia.POR CERROS E VALES concentração da riqueza. e êle queria de o despacharem antes de tempo. Ferreira do Alemteio. 193 infínite- simaes é também a miséria.. da feira. acelerando a marcha. a casa do primo José de Vilhena. parecendo que deixaram de ter folhas para terem Aqui se nos depara agora uma recta de lómetros. por ocasião Vejo. tão original Era que man- dou fazer o caixão em que havia de ser enterrado. o que nos permite ganhar tempo. o regime das leiras priedade.

sem nada em que os olhos pou- sem com atenção ou Simplesmente curiosidade. para Vale do Carro ? Seguem sempre a direito por essa o primeiro Monte que encontram. em que se cultiva o trigo. abana donando estrada a macadam. e dentro em nada chegamos a trezentos fogos. Sim. como iria. horriçel o ultimo trecho d'esta es- trada.194 POR CERROS E VALES almoçaremos. á cevada e a aveia. passando por Vila de Frades. Na volta irei á casa onde nasceu o Fialho de Almeida. Acabou a planície : começam a as terras dobrada?. e r:ão ha remédio senão marchar por ela. porque utilizar. a esquecida. riais. Foi esperar-nos. que possamos Bem almcçadcs. desde tempos imemo- — Varacs — estrada : das gentes que governam. a uma igreja ou capela rezar as minhas devoções. se fosse devoto. A uns seis quilómetros adiante da Vidigueira. . bem por aqui. mal almoçados. senhor. não ha uma carreteira próxima. O lavrador não está. enfiamos por uma SanfAna. a Cuba bessem ler correctamente — êle mas como lhe não soule- nem conhece as . situada abeira do caminho de íerro. silvícola d'esta Azinho e sobro constituem região de montados. é Vale do Carro. massa com peladas de tamanho vário. aldeia de duzentos carreteira de transito relativamente cómodo. fazemo-nos de proa á Vidigueira. çilarica e desgraciosa.

visto não habilitar para se lerem os Lusíã' das ou escrever o Monge de Cister. fez uma tra- palhada de mil demónios — ainda nos esperava em Cuba. porque a uma grandeza que não teem estes cerros. a nossa ruina financeira. que evitam a mo* . um pouco. na Europa. Certo é que estamos em Vale do Carro. Meto-me á extrema da herdade. o grau mais elementar do ensino. nós estávamos ao pé da herdade. crever. todo o valor ao simples ler e es> imaginam que não ha vida de relações fora atmosfera em que se urdem os grande negó- que o ensino elementar. aproveitando me sentar. na Europa. por excesso de gastos. somadas. e estas duas calamidades. Não direi palavra montanha inculca que esta região é montanhosa. o País onde é maior a percentagem dos doutores. o País de maior percentagem de analfabetos. dando-lhe indicações precisas. explicam a da nossa vida colectiva — a nossa miséria económica. Quer-nos parecer que também somos. fazendo altos como nas marchas militares. percentagem que na caalém de quarenta. e vou observando tudo de os marcos para horários. vencida a fiado nas pernas. primeira êtape da nossa jornada. simples acuminações. meu vagar. desordem por insuficiência de produção. é perfeitamente cios dispensável. Somos pital vai actualment?. a nossa corrupção de costupoliticos mes por falta de base moral.POR CERROS E VALES Iras 195 ~ um já telegrama que eu lhe expedira na ante- véspera. Os que negam da alta .

uma árida charneca. a terra a seiva fertilizante. diz charneca. quasi tão velhas como a nacionalidade. que sentenciou a morte da charneca alem- tejan?. que vai duma a outra ponta da provincia. e eu. parasita de milhões de bocas. porque as estevas. quando sa famosa charneca. Eu ainda conheci esde grandes ondas. as estevas quasi do tamanho das arvores. de linhas irregulares- Para muita gente. em concorrência com elas. encontrei o Alemteio cultivado. desde que se consti- tuiu a nacionalidade.196 POR CERROS E VALES extensas e encurtam os hori- notonia das planícies zontes. quem diz Alemlejo. Perde limpeza no dia se comida. porque então a cortiça era valia. aim afogado alfeire ou vara. certo. por falta nem frutificavam capazmente. duma beleza selvagem. Nunca assim ]á foi. para não merecer confronto com a as infindáveis steppes da Rússia. promulgada em 1899. semelhando um mar uma ventania desabrida soprava em qualquer direcção. lhes roubavam o alimento. Os maiorais viam-se e desejavam-se para guardarem um as- rebanho de porcos. um produto de somenos . muita bolota. — como o Graviel chama a um' silvado impenetrável. num montado em mato. escassamente meninice. cultivado. que mm muito depois de Afonso Henriques. sugar da Mal cresciam e se desenvolviam as azinheiras nesse maré magnum de estevas. é já na minha saudosa mas bastante cultivado. e bastas a formarem bardum sr. e as arvores não se desenvolviam ninguém fazia caso. Mas foi lei de protecção á lavoura. Das sobreiras chão.

em todo o Alemtejo. o aiferce atirado á raiz desses mata* vetustos. e as sarças emaranhadas. tornando possível o trabalho da char- rua e do arado. o equador da vida. nas regiões ásperas e alcantiladas. nesgas de uma char< neca que já deu pão. onde o gíido capril. gosas. muito para traz. hoje. que preferem os lugares altos amantes árdua. as cabras. . menos exigente que o ovelhum. A gais lei de 1899 foi a grande roçadoira metida a es- sas charnecas.POR CERROS E VALES Ainda 197 conheci as famosas charnecas do Alentejo. — — como se lê em Virgilio. isso ainda se en- contra no Alemtejo. na tradição da Província e um pouco na lembrança dos que deixaram para já traz. Charnecas alemtejanas! Mas só existem. Pegam com de que nunca a roçadoira por ali passou. de roer as moitas espinhosas rubosques horrentes. a herdade que ando visitando ter* do montado tão sujas de mato. Elas gostam. que eu tenho a impressão de que nunca ali entrou um arado ou um ras aiferce. encontra o seu parco alimento. que só não E estas terras mata- podem ali considerar<se estéreis por- que a Natureza fez nascer o azinho e o sobro. manejada por braços robustos. a verem próxi- mos os cimos nevados duma decrepitude sem remédio Pequenos trechos de mato. e está agora em descanso para se refazer de energias produtoras. moradia basiante segura dos coelhos e reduto quasi inexpugnável de lobos e javardos.

estas terras que eu vejo semea- . entregue as suas terras a quem tra- possa explorá-las convenientemente.198 POR CERROS E VALES abandonadas terras estendetnse. não querendo diminuir a sua opulência fundiária. Pois bem. O tiga. dominada por sentimentos de solidireito dariedade. embora limpas. obrigando-se o proprieralaço a indemnisar os vizinhos dos prejuízos que lhes causou. pre- cisamente os que constituem base da alimentação de gente. direito de usar e abusar. e dessa herdade facilmente passa outras. quer se de terras em que em que cultivar se engordam porcos. sem embargo das penalidades que seja jusio aplicar-lhe. por seu descuido criminoso. Ha poucos anos. to- estas das pertencentes ao mesmo dono. Quem não pode por sua conta. uma condenação formal no tem-na irremediavelmente na consciência moderna. e norteada por tiça colectiva. á força de balho e de cuidados. um ideal superior de jus- Num tcda a País deficitário em géneros alimentares. terras pobres e ricos. segundo a formula an- se ainda não tem obiectivo. o togo fugida deve ser considerado como íôgo posto. verdadeiro land' hord alemtejano. que com ela extremam. obrigando-as á máxima produção. quer se trate de terras se possa cultivar o trigo. Quando tário este caso se der. sem fim. Facilmente se ateia um grande fogo numa her- a dade matagosa. não há o direito de trate possuir ao abandono.

a ter o ar recolhido de quem se pre- em silencio. toda a despeza que com elas fazem. as sombras vão enchendo os vaies. é puríssima no ponto de . sem profundidade. quasi a pôr. uns choupos esguios que além barranco sem agua. e um charrito solto. o que modo compensa : a diminuta produção. come- çando as coisas para. Não adiante. devidamente adubadas. e geralmente o trigo tira que daqui se de certo tem um peso especifico alto. O que não dispensam é a adubação. que se perdeu no rebanho. verdejando 199 no engrelar de sementeiras temperas. não exigem muita semente a su?. aqui perto. Hoje dão searas de sete a oito sementes. nas chapadas distantes. as Mansas e para a rede. quasi religioso.POR CERROS E VALES das. mas pagam. poder eram campos de margaça e outras ervas de mínimo nutritivo. Ia jurar que esta agua é quimicamente purs. suficientemente. quando o chama. bordando um pequeno se aprumam com elegância. no sopé da colina próxima.se. co- mais elegante que a taça do rei de Thule convida a gente a beber. Terras magras. e conhece muito bera a voz da outra uma ou mãe. afectam a quietude hie- rática de sacerdotes pantheistas. ali- Duas arcas de agua. Bate o sol. lavoura é fácil e quasi dispensam monda. para o repouso de uma noit3 retemperante de energias. ovelhas vão-se encaminhando chamando o filho. mentam um tanque. em que o gado bebe. ainda que todas as ovelhas se ponham a balar ao mesmo tempo. fartas. faz vento .

Deus super emnia — Choverá. O vento quando nasceu. — Não dade. sol. Não há de haver novi- Deus quizer. em que predominam roncos e silvos. doutor.200 POR CERROS E VALES bacteriológico. que é espantosamente radio-activa. tomados de estranha raiva. sem vibração e sem ritmo. quasi ao meter-me na cama. Não oumas calculo que vão abrir-se as catara- do céu. é como que uma suspensão norint-. lhe vejo geitos disso. inspiração quasi divina. Dir- se-hia que já tudo dorme. Tenho a impressão de que abriram a potta da caverna onde Eolo guarda os ventos. da vida. e dentro em pouco cada estrada seja uma ribeira. No brilham estrelas na terra não bruxuleiam luzes. sua colas — cantou si bona Agrí- o mantuano. se calou se< e o sr. caindo a noite . e vista não seria dificil provar. e nada vira que prenunciasse chuva ou vento. dos animais e das coisas. poeta que como nenhum outro comentou a vida dos campos. Gabriel ? sr. com propósitos demolidores. e que esses demónios. Vem — silenciosa e escura. ço a chuva. vinha tão branco. tornando se impossível a marcha do automóvel. O' furtunatõs nimium. em versos duma Acordo a ouvir um «jazzband» infernal.Espreitara a noite. . e que o sono das pessoas. com céu analises. que até parecia a lua cheia. uma tempestade desabrida. atacam o Monte em que tas estou.

e da muitos porcos. e sem duvida. sem lama e sem agua- cabo de meia hora. marchando cautelosamenchegamos á estrada nova. prende. regu- larmente calcetadas. olivais nas proximi- dades de Portel. Ao muitos anos. Muito branca de as ruas muito limpas. por getação é exuberante . porque a estrada. ave- as arvores. nada tendo para lhe mostrar senão as insignificantes ruinas dum insigni- A um largo de forma irregular. escuferrageais. Agora é que toda a cautela é pouca. isso ras e grossas. cal. Portel não afugenta o visitante. produzindo como Por aqui abunda a agua. mesmo. centro duma região que se pode chamar ca. sem reparação ha te. em anos de boa a sua produção cerealífera é considerável. salpicada de buracos. vinhas e hortas de sobretudo pela direita. mas também o não ficante Castelo. porque produz muitas arrobas de cortiça e engorproduz muito azeite. grossos como poucos eu vi em Africa. é toda cortada de valetas. estrada a macdam. e terras bom aspecto. Também colheita. ad- quirem grande tamanho e afectam que as faz parecer novas. de semeadura. uma vitalidade tal mesmo que sejam velhas.POR CERROS E VALES Confortados com uma bôa açorda de bacalhau. ecori- nómico. Montados a um lado e outro. me* temo-nos a caminho. hoje chamado . sob o ponto de vista Portel é uma bôa terra. ricas de seiva. bordada de eucaliptos de tronco gigantesco. duras as carreteiras.

por certo que o Afonso Costa é que o não um fi- bom católico. a outra chama-se Espirito Santo. Chove. tem e um arremedo em que de porta. Em menos de um quarto de hora. dalgos.se Dr. Tipo do velho Monte. . correndo quasi parale- as duas principais ruas da Vila — uma chama. é O quinchoso. apesar do estado calamitoso a estrada se encontra. bardo. Corre lá em baixo. sr. sem leito. que zig-zagueia entre montados. em que chegamos ao Rebolar. termo . pos e pratos. da nossa jornada.202 POR CERROS E VALES ter. — a graça de - Rua do Tenho. sem janelas a casa de fora grande e desconfortada comprida. vão las. Praça da Republica. a casa do meio. as . como que riscando o fundo dum vale de apertado entre colinas modestas. talvez mas tem andado e por isso o Espirito Santo achasse de mau gosto a camaradagem. quando tem agua. pegada ao Monte. atestando este desmazelo cola a Índole essencialmente carnívora do indígena alemtejano. ssm parede nem um palmo de terra a salsa e a hortelã. Salmos de Portel na estrada a descer uma ladeira íngreme. como os modernos a fingir é. uma ribeira quasi ribeira que atravessa a herdade. dos modernos. larga e com um poial alto para as quartas e uma arra- prateleira escavada na parede. se cultiva hortí- um simulacro de telhado. Reguengos. onde se guardam corua. Afonso Portel ! Costa.Ihs dentro como na A mada.

e isso está aí desde o principio do mundo. Para outro tanto. lativo ela chegar a velha. bas- tante fundo. sr.. mel. é uma goteira.. mais opulenta que a rosa. adornadas aqui e além de loendros. duma vivacidade álacre. tronco que se foi escavando. mas fazendo nos Nosso Se- nhor a esmola e graça de nos matar antes de che- garmos a esta miséria. á beira dum pego quasi redondo. não ofereda substancia sucção das abelhas um pouco com que elas fabricam os seus favos ? duma Quedo-rae 2 olhar o carcomido tronco rastejante oliveira. só dando agora sinais frágil dum organismo que de vida em dois pernada se enfeita. levou tempos sem para se tornar no que se está vendo. impressionando como - um tapete esburacado e sujo. dr. Gabriel ? ~ Ora. fim. á laia de adivinha Qual é o ramalhete em que entram todas as flores E' o favo de de campo menos a do loendro?. vegetação mais parda que verde.: POR CERROS E VALES 203 margens estreitas cobertas de junqueiras. vermelha como o ce á cacto. grandes ramos com que uma . Esta oliveira quantos anos sr. Aquilo não é um tronco. diz me o sr. demorou A gente devia ser como as oliveiras. re- aos anos de vida. Porque será que uma flor tão linda. é a única flor campesina em que não pousa a abelha. terá. a agua coberta de limos. — . roído pelo tempo. e é hoje todo o sistema vascular por onde corre a diminuta seiva que alimenta o quasi nada que resta foi vigoroso. Diz-se até. cuja flor vermelha. Gabriel.

nuas ou apenas salpicadas de arvores. dos lados de o .. azinho ou sobro.! . para aqui veio. a herdade não estava Gabriel ? sim ! — Isso Havia ai estevas mais velhas do que a Sé d'£vora. em que o terra. Triste remate da mocidade. searas dum campo arrelvado. dão* me as a impressão tando a relva. são como a penu- gem da aspecto Mas nada me alegra os olhos como o de uma várzea ou duma encosta. extrema da herdade. a da arvore. 204 POR CERROS E VALES como dois molhos de flores sobre e são um cadáver insepulto. quando os bem nascidos. cuidadosa- mente limpa. Agora vê-se a formosura da planta da arvore. sem em- pregar um a neologismo estafado! chuviscar. sr. Entra Grandes massas de nuvens Portel. e plúmbeas cobrem o céu. V/ou seguindo a . com tão singela graça. e as suas terras semeadas. a velhice. alemteianas. Só a frança das azinheiras e das sobreiras se bispava por cima do mato. Envelhecer ! Morrer . trigais. mal despondum verde muito tenro. a morte. Se era possível silhueta um literato desenhar o recorte. Consolador termo da velhice. que era uma coisa sem feição. verde escuro das azinheiras dá realce ao verde esmeraldino dos — Quando limpa. trigais. Encantam-me cobrindo vastas planícies.

massa confusa de que emerge o Castelo. com o comboio tempo. Como barismo. —O \á sr. sr. E' uma nuvem que des- carrega. excelente meio de estradas e transporte. é libertos do automóvel. cem boas o sr. doutor. doutor está a mangar comigo. —O Dores preparara a as sr. o seu perfil artístico. Cai agua que Deus a manda. de cor cinzenta. ao mais pequeno descuido. limita a Uma mueu.POR CERROS E VALES vento sopra. das bandas do peso» — Isto passa. senão lher não se um homem como por interesse. no Monte. recortando numa atmosfera de papel esgarçado. sacudindo-as com A muito custo vamos pôr o sr. Gabriel. Gabriel. agua em grossas corviolência. a porto de salvamento. que a menina tristeza. comermos do seu um suas cabritinho preceito. rijo 205 e fustigante. Chegamos á porta. que ]à se avista lá adiante. deve também casar-se. como quem tem pressa. das. que a ventania torce. e o automóvel. o seu profundo desjantar. e eu tenho medo duma derrapagem que nos aí. em casando meninas. escor- rega. Clareia um pouco o céu. fazendonos pena a sua gosto por não guizado. vamo-nos apro- ximando de Beja. obrigue a ficar para no descampado Devagar. mas a chuva não despe-< ga. diria Gabriel — chove que bom um bar- .

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o céu limpo. provocando um estado particular de hipnose em que subsiste a consciência e não se oblitera por completo a vontade. não para dormir.me a impressão de que marcho por cima de . mar deve ter chegado. na precedente maré muito para além das rochas. o mar sereno.Sagres — Maria — Pois valeu. Luisa ? Como que no a Otilia estivesse d'acordo. mas para sonhar. na areia. á sombra duma rocha. Mal reá tentação me estender ao comprido. muito húmida e muito fofa. assentou-se em dia seguinte. o vago sussurro das ondas. Manhã sisto quente. V/aleu. como nos de dias quentes de Julho. tott-ariamcs o rumo de Sagres. porque sinto a areia húmida. vago e monótono. depois do almoço. tendo visitado a Praia da Rocha. ás vezes dando. O cheia. a praia deserta.

quando muito um destrambelhamento . formado de musgo sempre verde e húcim. estes pedregulhos. nem pelo seu aspecto.. e daí para onde alcançam os meus olhos míopes. sei Bem que ha a morfologia . e para um a serão caprichos da Natureza. nem pela sua grandeza. quantos séculos. ha mo- que os de Cintra. mobile como dona da canção. mas aqui. ao pé de Guimarães. Mas a morfologia . que dela não é possível arranca Ias sem as partir. a não ser noutra praia como esta. que para um devoto serão manifestações do poder de Deus. nolitos muito maiores todas estas rochas juntas. se lhes nota.. as maiores. na Senhora da Penha.a. nem me sento. Fora daqui. ou- formando bloco sei ler estes aparência como a estupidez de certas criaturas homogénea humanas ! — Não litera documentos. a forma geométrica e artística é pura fan- tasia literária. noto um roda-pé de al- tura variável. Em rochas que e. Em todas elas. e para não estar parado. excedem em tamanho. tras com o tamanho de e o feitio que hoje algumas nitidamente estratificadas.a a cogitaCintra ha ções de qualquer ordem. ha quantos milhares de anos Ha estarão eles aqui. a mais origi- que conheço. que é mí- nima. obrigando. incrustações de conchas tão agarradas á rocha. oá d3 examinar cada um dos monolitos que ilustram esta originalíssima nal praia. na Praia da Rocha. prenderiam a atenção duma pessoa culta. que é banal.2o8 POR CERROS E VALES Não me deito !ã cardada. até mido.

suscitado por 209 uma hipotética combi- nação de linhas. Tem cautela. que já não faz parte do scenario 14 . digamos assim. . eu que não sou madrugador Apenas duas me aparecem. ficando entre as duas uma espécie de que. vista pelo lago de jardim. o Buraco da Avó. permitindo que se passe duma para a outra. : POR CERROS E VALES da imaginação. 6 pescador Madruguei mais que as gaivotas. furado era dum ponto. torna a sua comunicação impossivel. suficientemente grande para tomarem banho. pesca. ao mais pequeno crescer da maré. sito de cautela os num propóbem conhecidos versinhos Pescador da barca bela Onde vais pescar com ela. se não estou em por um mais septo de grande altura e espessura. chamada Mesa. a vela panda. Alongo a passe.! . a garvios praia. e não logro pousá-la mar além. sereno como um num vapor que empenachado de fumo. é separada da pequenina erro. ou numa bsrquita de inútil. — ou dum banho geral. mas só por um deles. a que possa gritar. na maré vazia. todos os ai* de Barlavento. empolei1 radas numa rocha. a não ser á custa dum pediluvio. ante. Sob o ponto de a vista arquitectónico. Mesa é uma praia mais interessante que a outra.camará. ao mesmo tempo. A nela Praia da Rocha.

valeria a pena aqui. os pés descalços. e parece que foram criadas juntas. logo a trepam para as rochas que melhor se prestam á exibição fotográfica. mas a Praia \â não está deserta. para a Praia se encher do ruido alegre. procurando no silencio morno dum sitio ermo maguas e saudades. a cabeça descoberta.! ! 210 POR CERROS E VALES da praia. quem sabe se duas noivas abandonadas ou duas viuvas inconsoláveis. parando parando além. Sem o calor e sem a poeira.- ir deI vagar. que brincaram com as mesmas bonecas fúteis como se ainda fossem pequeninas. da jovialidade comunicativa horas de recreio. saltando. atraídas uma quente manhã de Primave- pelos encantamentos da luz. rindo. que frequentaram o mesmo colégio. Toca para Sagres. o mar continua sereno. dum rancho escolar nas As endiabradas moças Nunca se tinham visto. por ra. tomando perante o kedak poes- ses sabiamente descuidadas. e ao mesmo tem po compostas como se já fossem senhoras — • Com uma outra. gritando. a fazerem pensar em quivas divindades marinhas que viessem das profun- dezas oceânicas. Sabe-se lá! a livre expansão das suas O céu continua limpo. até ontem. a gravar bem na . agilidade de esquilo. Bastou que a Maria Luisa e a Otilia aparecessem. agora uma.

fazendo com que todas vivam mal. no verão. guido em nuvens. muito mais do que seria preciso haver. e sistema uma dessas exigências consiste precisamente rer em evitar que um pobre turista. acabe por fazer com que algumas desapareçam. 2ii para que não se apague facilmente da memoemo* algum trecho mais particularmente interessante desta paisagem algarvia. terra por cultivar. ao cabo de alguns quilómetros er- sinta que aumentou de peso. a cor- num automóvel. E no Algarve elas são em grande numero. Nem um ies palmo de . descomunais vassouras que vão esburgando e não apenas varrendo o caminho. em nada inferior. ria. sobre- tudo se por elas transitam essas famosas bizarmas. a um lado e outro da estrada e as encostas . o que pode ter esta dupla consequência fazer com que os — turistas se encham menos de pó. a encher-se de pó. á do Minho. este inco> modo atinge proporções de tortura. pelos ouvi* dos e pelo nariz.POR CERROS E VALES retina. a tratarem dos seus ne- dessem por bem servidos.E' possivel que a concorrência. a que se dá o nome de camionetas. pelos olhos. se se deslocam. pelas ções que desperta. Ha que adaptar as estradas ás exigências do novo de yiação. e os donos das ca- mionetes que triunfaram na concorrência. Nas estradas de grande concorrência. peia boca. muito bem aproveitados os va- a maior variedade de arvores de . se encham mais de dinheiro. para que os algarvios que gócios.

os Casais são o en- canto da Maria Luísa. no verão quasi ferindo os olhos pela in- tensidade da radiação luminosa. grandes chapéus de sol a que se para haste. onde choravam três meninas . que não correm lutamente nada pauis que nunca secam nada. em pequenas manchas discretas. Muitos pinheiros mansos. alteiam-se como as oliveiras pequenas. e campos de grão de bico. dir-se-ía não terem tronco. Magnificas várzeas. delgados e quasi . Ribeiros . for- mando um relvêdo descontinuo. Não ha horta sem nora. abso- em matéria de hidráulica agrícola que faça lembrar os mouros. de grande porte. e as oli- veiras. os excelentes figos inteiro. Muito brancos. pinheiros bra- vos que a Maria Luísa acha muito inferiores aos da sua Provincia. em que os olhos poisam com agrado. sem no mundo : Nem todas as figueiras são assim algumas. onde a cal e o pão de trigo são preciosidades raras. As tiu figueiras. sobretudo quando formam logares? a lembrar-se da sua Beira. onde verdejam trigais. alvejando por entre c verde matizado das arvores. aqui e além. cobrindo grandes superfícies. do Algarve. espaçadas por forma a mal fa- zerem lembrar aquele figueiral figueiredo. profartura metendo de azeitona. carregadas de candeio. muito agarradas ao chão. com as vinhas. sem rama. carregadas rival de figos.2Í2 POR CERROS E VALES as searas alternando fruto . modestissimos engenhos que os progressos da mecânica industrial ainda não conseguiram pôr de banda.llorando las achara^ lldran- do las achei . em rigoroso alinha- mento.

área muito menor que o Alem- ficando-Ihe muito acima em população. . Seria interessante visitar cada uma das povoações por onde passamos . como se a densidade da população. por exemplo.. era tãõ linda. mas escrupulosamente limpas. Assim é que os Cassis ou Montes. se chame Zara. são os rari nantes da anedota do frade. em todo o Algarve que conheço. e são mouras todas as mulheres que encontramos. modestas. querendo por força que uma delas. sondar o interior das suas casas é a vida dos pobres. no Alemtejo. sucedendo a alemtejano. ao passo que no Algarve. . POR CERROS E VALES 213 O Algarve tem uma tejO. Para a Maria Luísa são mouros todos os homens que por nós passam. um ras. e parece- me que mente o conheço todo. nalgumas regiões dando a impressão de formigueiro. pode vindo por aí a comprometer o ano cabo das sea- agrícola. perto de Lagos. mas o calor é de racomo nos mais esbrazeados dias do Agosto Esta antecipação do estio. de olhos negros e tez queimada. na Provincia. fosse a da Bélgica. nova e bonita. que prin- Qõnt0U-m'd uma velhinha . não só os casais propria- ditos. colher algu* mas informações sobre o que nestes centros populacionais char. inverno prolongado. são em gran- de numero. embiocadas no lenço. pondo-se a recitar o conto de cipia assim : Tomás Ribeiro. alfôrra dar . mas os lugares e aldeias.

para o Alemtejo. . Lá está o Promontório Chegamos a Sagres. muito agarradinho ao chão. Chão pedregoso. ! Lá está o meu pecado — o infante D. a glorifi- nome é um dos mais imperiosos e sa- grados deveres nacionais. Henrique dos grandes vultos da nossa Historia. com magua que constato. apesar de grande. e três ou quatro quilómetros para de já do Bispo. com medo de que o gado Cabo 1 o coma. vivendo a eterna vida da Historia. .214 POR CERROS E VALES gasolina. tenho por êle muito mais admiração que afecto. correções que a analise e a £' possam não fazer na sua biografia de celebridade. Henrique não estiver no mesmo plano dos seis primeiros. Pequena demora em Lagos. uma vez mais. para meler e lavar os olhos na agua cerúlea da baía. no que tem de bom. se teria a impressão de ter passado do Algarve. de rochas que mal afloram estevas pequenas e discretas . A Vila paisagem começa a ser diferente para além da lá Raposeira. Confesso o é. sem viço. Numa galeria de portugueses ilustres. talvez pe- quena. pasto magro. Todas as homenagens são devidas cação do seu á sua memoria . se não fosse a proximidade do mar. se D. no que tem de mau. para conter as nossas projectadas esquadras. é porque o pu- seram fora do seu lugar sem embargo d'algumas critica histórica. mas não é dos que mais estimo. um dos que mais admiro.

lendo quadros a biografia do herói — a menos que se reserve gloria dei- esta xando atrás de denominação para os que subiram á si um rasto de cadáveres. nada que seja ura preito da filhos um dos seus de mais lidima gloria — uma mu- Nação estátua. mapas ou álbuns. o bom gosto que ela tem. fosse fosse apenas um casinhoto para e uma Igreja para resas. Vale . Henrique. tão pobre que as crianças que a frequentam precisam cadeirita. comer lagosta também. que não habitação. que mais não seja. um busto. para comer lagosta ao natural no hotel do sr. . singela Uma quanto lapide por fala cima duma porta é tudo do infante D. ler e escrever como em qualquer como em Rio de Moinhos ou Jungeiros. as crianças aprendessem. José Luís. Nada. Simplesmente uma vergonha. que lhes desperte o interesse por uma Ali das mais brilhantes paginas da nossa Historia. Sagres nos Vale a pena ir em a Sagres ? . outra da Infante. uma Villa que uma Escola e um Arquivo. para terem onde se sentem. tão apetitosa que. que lhes lembre o Infante. a de levar de casa a respectiva casita da Escola. se o Padre Santo soubesse. como cm Lisboa ou Cambas da Serra. Porque não se fundou aqui uma verdadeira Villa aprende-se a Escola. que mais não fosse uma Escola. uma espécie de pedra tumular. centro de estudos .POR CERROS E VALES haver a 215 em Sagres. marcando a sepultura dum obscuro major reformado. em que rais. viria de Roma ali.

permanenum médico. fosse possível reconstruir a capelinha sava as suas devoções o glorioso Infante. \á tem. não visitam um enfermo em que re- em Se Sagres por menos de cento e cincoenta escudos. uns mais. eu acho que ela devia ser reconstruída. outros menos. provido de todos 05 elementos de estudo. que os clínicos de Lagos. Facilmente. porque os marí- timos são prolíficos. em Sagres. centro po- pulacional que aumentaria depressa. que é rico e violento. homens que da mulher. Ficava ali bem um deposito de velhos e inmil vezes iogaram validados marítimos. uma rasão para ali haver. á dis- temente. trabalhadores da que é pobre e áspera. como se fos- se uma relíquia. O Promontório é uma espécie de lagedo. que ás vezes para dá. todos sofrem a influencia genésica do oceano indómito. em Sagres. bem pouco mais que A Runa dos marítimos. a vida para que lhes não faltasse no lar pobresinho o sustento dos filhos e Importa dizer que o Estado. tancia de uns trinta kilometros. cosmográficos.2i6 POR CERROS E VALES como pretendera o Infante. adquiridos por copia. seria mais do um pretexto. cercada de veneração. e á beira-mar. protegida pelo respeito de todos — devotos e livres pensadores. onde não . embora escandalisando o Registo Civil. e do mar. respeitantes á nossa vida de navegantes ? despeza. por sua conta. um camponezes. quem se ocupe dos pescadores — agentes que inexoravelmente cobram um imposto so- bre o pescado. se construiria. e com pouca perto do Promontório. bairro de pescadores e terra.

inaproveitaveis abertas ás fúrias terra. das aguas. limite sul da bôa terra portuguesa. o centeio. alagando. a este deserto pe- o conforto dum modesto dregoso. como abrigo. aqui e além. nódoas de mato yerde. quasi punctiformes. o lagedo do Pro- montório. dos enterros. medindo a dias altura de algumas dezenas de metros. Cabo de mas não é positivamente uma é uma brutalidade em rocha viva. a frutifica. nos interstícios das lages. a formar nevoeiro cerrado. a fava remuneram a sua cultura. Estende-se esle lagedo até ao Cabo. uma formiga. quando o vento sopra do escarpada. inútil como o latim Aqui perto a vinha aveia. Vicente e Lagos. mal se vendo. á falia de melhor. . e os cereais pouco exigentes.POR CERROS E VALES é facíl 217 encontrar ierra para enterrar. para os usos domésticose Uma pequena mata daria o encanto oásis. — jardim rhetorico da Europa lhe chamou o poeta em seu S. erguem-se a toda a altura da riba quasi vertical. Em de tempestade. . Pode dizer-se que este trecho da costa algarentre S. as arvores de fructo crescem. é uma sucessão de bahias de tamanho vário. do mar. uma parte. mas que serve. que não invade por ali a contido por muralhas de cantaria. e poços de pequena profundidade enchem-se d'agua que não é excelente. Vicente versejar. ernivel guendo-se a dezenas de metros acima do via. quadrante sudoeste as ondas são verdadeiras montanhas. . e a outra resolvendo-se em espuma. O maravilha.

barco naufragara. Sagres. fosse o fosse.Cada qual apanhava o que podia. acendiam fogos que enganavam os mareantes. ainda ha quem apanhe alguns que o mar deita fora. tudo o que resta dum barco inglez que ali se afundou^ salvando-se a tripulação eperdendo-se a carVerificou-se que não farol palia a pena gastar tempo explicando: e dinheiro para erguer o barco. tudo para o mar constando que um seu. limitando se a recolher o que boiava. em que . na sua evolução histórica. pode orgulhar-se da honestidade dos seus marítimos. levando-os a aproximarem-se excessivamente da terra.2i8 POR CERROS E VALES além. — E' ga. á beira-mar. comparando. Aqui os homens aproveitam ou aproveitavam dos estragos que o mar fazia. em noites de negrume e tempestade. meridional em relação ao nosso Paiz. e parece-me que ests Promontório. que diz. Homens. novos e velhos. — Aquilo. pregando com os barcos nas rochas- . mulheres corria e crianças. Acodem<me pos tão li á lembrança narrativas que em tem- sobre factos da vida ingleza. pondo-o a fluctuar.os com os marítimos inglezes do referido condado. relata o guarda do antes da — Para de. perdido. ou era cuspido em terra lá os homens. chamava —E agora ? — Agora os salvados teem dono. encarrapitados nas . mas isso é bagatela. esta gente ura naufrágio era a sorte granlei dos salvados. rochas mais altas. o que é ? pergunta a Maria Luiza. como Cornwall em relação a Inglaterra. e ao que apanhava. á superfície das aguas.

— No dias V/amo-nos embora. montou uma pequena oficina de cerâmica. qual de cima qual debaixo. em Sagres. para a loiça ordi- nária. ali é segura po- de. e o sr.se tomar banho á vontade. se — quando Deus quizer. com feitio de industrial. . meninas? inverno. . fazem bonitas quartas.POR CERROS E VALES 219 Ha excelente barro. virei aqui passar uns em Lisboa me garantirem que as rai- escarpas do Promontório estão sendo batidas com va pelas ondasepelos ventos. José Luiz. como em Estremoz mas A praia de Sagres é pequena. onde se e Beringel.— engalfinhado Neptuno e Eolo.

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a menos que o em boa companhia. quasi reputo malbaratado o tempo que passo a comer. a autentica.! Campos de Ourique A's nove horas. tia Amjcis viajava pelo Danúbio. a dar á lingua. e. estamos a contas com o almo- ço. é tes preocupações culinárias. a genuina açorda da mi- um livro deficiente. de cozinha que não ensine como se faz a açorda. parecendo que senbeleza da paisagem marginal. contrariando hábitos alfacinhas do sr. livro Para mim. José de Bragança. que eu nunca recomendarei ás donas de casa que tenham inteligennha Provincia. — . Pouco dado aos prazeres faça da mesa. como precisasse comunicar a alguém as suas impressões. es- porque então.me de que tou ali para dar ao dente. Edmond de travou posto. que por acaso não mete açorda alemtejana. esqueço. conversação com um cavalheiro muito bem a que deambulava no deck. luxuriosa e opuE' admirável lenta.

mas não avultam nas minhas recordaobrigado a tomar parte. neste ha anos. incluindo os dez réis da gorgeta. tinha casado havia semanas- — Também eu conservo boas recordações de quanUma que caldeirada que fomos comer a terra. Não nem guardanapos . . * sinto na boca o seu Era um rico merceeiro de Francfort o interlocutor viajar. • - de Amicis. de saborosas iscas. um pouco mais baratos que as ceiàs da setrês vin- nhora Pintasilga. A's vezes. convidados pelo comandante do barco. em que em reem gra. do por aqui passei. senão pa- Naturalmente recordo-me de muita já coisa. porque sou velho. e dos quais ções almoços. lam- bo os beiços. raramente indo além dos havia toalha téns e meio. quasi hipnotizado com murmúrios e o vago mistério das suas sombras. só de a recordar. banquetes fui saía.! 22Ô POk CERROS E VALES colossal — Conservo as maqem que fiz — E' melhores recordações da primeira rio. na travessa da Palha. para evitar que se metessem na algibeira dos fregueses. jantares ou ceias. ao custo de seis vinténs por cabeça. mais farto do que ouvira que do que comera. e parece-me que gosto forte e delicado. vindo da Floresta a dolência dos seus Negra. era a coisa mais deliciosa imaginar-se possa. as ceias da Pintasilgai Abro uma excepção para ágapes Beja. numa ânsia de libertação. que nunca se metia a ra comer. e para os frequentes. as facas e os garfos eram solidamente presos á mesa.

sem relevos orográficos que te- nham São pregas de quasi apagado. Barrancos secos. e.-. como nos dias anteriores. A bem ainda e que de. A^s nove horas estamos a contas 223 com o almoço. a um lado e ouvista da estrada. de leito lavoura Montes de aspecto senhorial. Campos tro lavrados ou de restolho. marcando centros de em terras que andam de renda cu ao quarto. . manteados como o engenhoso fidalgo da Mancha. ontem chamada de amanhã passará a ser seria Aíjustrel-Castro-Verde. em Aljus- como ha muito. felicidade o calor não aperta. terreno que maí quebram a monotonia das planícies infindáveis. dizer a nossa romagem principia na antiga estação do Carregueiro. estendendo -se a perder de definição nos livros escolares. . romagem. se neste País o interesse publico não fosse constantemente sacrificado a interesses particulares. chauffeur de que temos pressa. e ao mesmo tempo principia o nosso tormento. antes nos consola uma aragem fresca. e fazer-se a manteação ao longo Principia a nossa duma Por carreteira poeirenta. hoje chamada de Aljustrel. que logo se põe em marcha. para gáudio de almocreves bêbedos. -estação de Castro Verfôr quando a estação de Aljustrel. só com a diferença da manta ser o automóvel. avisando eu o .POR CERROS E VALES Pois é verdade. para os lados de Castro. saltamos para o automóvel. apenas engulido o ultimo bocado. trel. em vez de se fazer numa estalagem. que nos faz lembrar com horror a torreira de Lisboa. para ir devagar.

E aqui está Entradas. todas as casas a maior parte. Grandes rebanhos do pasto formados quasi só de ovelhas brancas. gado muar. alimentada por mundos que ardem como ás vezes se fossem de lenha seca. de ruas compridas e mal térreas . a cada lentos e pe- um deles jungida ou iemada uma pa- relha de possantes animais. uma das mais antigas po- voações do calçadas. á nédios c lustrosos. mas . na pedra de armas que encima a porta principal. e muito cos edifícios modernos quebrando a solenidade da sua vetustez. da povoação. nos ras aguas para se meterem ao arado. em taipa batida.224 POR CERROS E VALES di- sendo de cada vez menor o numero das que são rectamente exploradas pelo respectivo dono. a data de 1555. encaixilhadas em pedra solta. pequeninas hortas que põem agradáveis manchas de verde nos ressequidos e amarelados restolhos. sujeitos á moirama. e perto de cada Monte. á espera de que caiam as primeia vista. ruminan- boca cheia. distrito de Beja. Passam carros em direcções opostas. Talvez valesse a pena vê-la por dentro. quasi fora sr. Todos os Montes branquejam a ferir dias em que o sol tem reverberações de fornalha acesa. as arreatas na mão dum infiel que por aqui ficou do tempo em re- que vivíamos bíblicos. e o Paramos diante duma pequena igreja. sados. José de Bragança lê. a pou- quasi totalidade das janelas sem vidros. galadas com a abundância . e pachorrentos bois de trabalho do. um ou outro rebanhito de porcos fossando a terra dura.

e a pequena igreja da Senhora dos Remédios. outra além. ou de restolhice Montes a grande uns dos outros nem aldeias ou lugarejos que nos expliquem o milagre de tão vastas culturas em regulai exploração A maquina é como que a multiplicação do homem mas toda a lavoura. nestes si. tios. curioso de ver as steppes alemtejanas. que. essa vegetação parasitaria. de residência. cuja falta.. 15 . José de Bragança. o que muito surpreende o sr. um padre e correlativo sacristã. POR CERROS E VALES 225 O sacristão anda a tratar da sua vida. e para cada arado é preciso ra cada charrua são precisos dois um homem. que a devoção desta bôa gente de Entradas não dá para haver ali. mostra. O — o tecto em berço. meu velho amigo padre João Alho. de muito interesse por dentro. duma só nave. pousio . muito insignificante por fora. já duramente se faz sentir como combustivel- Chegamos a Castro. As mesmas distancia terras alqueivadas largos tratos de terreno em . Toca para Castro. bom sacerdote e bom homem. logo nela aparece. discretamente. é feita pelo arado ou pela charrua. de que ouve falar De charneca nem sequer uma pequena desde que se entende. movidos a sangue. em es- anos sem ser lavrada. Uma esteva aqui. três. pa- ou amostra. tando três em certas regiões. que fica a uns quinze quilómetros.nos o que na terra ha digno de ser visto a igreja matriz. em terra de tal modo crençuda de mato.

porque é trazem mais perto do coração. para o abraçarmos. segundo a autorizada opinião do sr. e sem como documento. na cair. José de Bragança.mór. e porventura criar-lhe uma atmosfera de suspeição nos altos céus. Jamais a dos que me . Se não tivesse medo de o fazer Alho. século XV ou XVI. e também para admirável opinião lhe agradecermos a oferta do seu valioso trabalho sobre o teorema de Fermat. qne por bem empregada daria a sua visita ao Alemtejo se nada mais visse que estes dois templos. revelador talento para o estudo das dum matemáticas — na de pessoas autorizadas na matéria. altar. coisas d'Arte. que forma a arquitectura do seu igual. um destinado a retumbante e merecido su- cesso Na pequenina igreja dos Remédios ha excelente pintura em madeira. opulenta de talha dourada. Aparece-nos o lo dr. quando iamos procurá- em sua casa. obra antiga. acha que a matriz é verdadeiramente um monumento nacional. superiormente instruído O em sr. Colaço. sobre a qual prepara livro. a his- no país» toría da batalha de Ourique. também em azulejo. rica de azulejos antigos.226 POR CERROS E VALES José de Bragança. muito conhecedor da nossa His- toria e criteriosamente versado na arqueologia. pelos admiráveis panneaux em que é feita. deixaria aqui dito que este pároco sertanejo — sem ofensa a Castro —é dos amigos que eu mais prezo. o reverendo má vontade do Bispo. que cobrem as suas paredes de cima a baixo. .

na mansão justos. azinheiras. Grandes tras sr. ainda nos começos do século vai correndo. e por seguro tenho que no julgamento final. me acudiram á memoria estes versos de Lamarno Jecelyn. roidas pelo burgo. e garantindo a minha conduta. e nunca eu deixei de olhar para as suas vestes sacerdotais Ia com o maior jurar que se tem lembrado de mim nas suas que eu lho peça. José de um bocadinho de steppe que dê ao ideia Bragança uma pequenina isto era noutro tempo. é Nem viy'alma por es- o pior que vamos perdidos. . côr de salmão. pedindo misericórdia orações. dos A poucos quilómetros de Castro entra se na zona dos montados. e ninguém por estas de Ourique.: POR CERROS E VALES minha e irrelígiosidade 227 me fez desmerecer a sua estima respeito. que Providencialmente chegamos a um Monte. ]á tine. azinho e sobro. como bemayenturado. ni troupeav. ses campos. consideração. sem ser necessário cerá a depor em para a minha vida de pecador sincero. compareminha defeza. afastando-nos cada vez mais carreteiras. e nem amosdo que de esteva. citado noutro capitulo deste livro oeil cherchait quelqu'un qu'il les Mon pút interroger Mais dans champs déserts. onde nos ensinam o caminho. famosas sobreiras de tronco nu. ni berger.

desbaratados os reis mouros. V/ila cair da tarde tomam ha oliveiras de bom formando pequenos trechos de olival. vadas. e iiiões carreteiras por onde temos vindo. pois coisa alguma auctorisa a suposição de que en- contraremos na volta melhores carreteiras que encontramos na vinda. as mesmas de lavrador. Aind^ mo não perguntou. encarrapitada num outeiro. azuladas serras que no formas indecisas. baixo e por cima a mesma casas falta de população al- deada .228 POR CERROS E VALES estrada macadamizada A — deixem passar — faz- nos ter saudades das passo de procissão. mas iá por mais duma sVi vez o José de Bragança esteve tentado a per- . e algumas hortas muradas. a que chamam Castelo. A' roda da porte. Afonso Henriques comendo melancia. As mesmas vastas campinas esmeradamente cultios mesmos vigorosos montados. limpos por . Marcha o carro em nem assim evitamos trambuque nos ameaçam a integridade dos ossos. e do alto do pretendido Cas- que é apenas um mirante em ruinas.se serras do Algarve e de Odemira. construído ha poucos anos. quasi todas \á sem a feição carac- que noutro tempo tinham os Montes. com agua em abundância. a caminho de Aliustrel. poeirentas e esburacadas. pouco faltando para se ali dizer que esteve D. E ala. Vila é importante. Lá nos aparece Ourique. avistam. A telo. que se faz tarde. muito longe umas das terística outras.

consomem a vida. só. nas Oeoroicas. tudo metido em cultura. que fecundam os germes das novas searas e que fazem cair dos altos céus benéficas chu- vas. ou dezanove quilómetros quadrados por habitante. embora seja verdade. que nem só de pão homem. tudo a produzir trigo. os deuses e deusas que velam sobre os campos. como vive o se diz nos Evangelhos. com os meus cães. aveia ou esteva nestes centeio Pois mal se lobriga uma Ainda não senti vontade de evocar. homens cujo polvorinho nunca metiam o bico as perdi* em zes e as galinholas. cacei eu muitas vezes lebres e perdizes.. a legitima ambição de colher o fruto das suas vaidade de obrigar a terra a produzir o alimento de todos. gente duma simplicidade sem ambições e sem vaidades — a justa não ser a canceiras. limpos de mato. de dezanove habitantes por quilóme- quadrado.POR CERROS E VALES guntar 229 me se a população do Alemtejo é. como di- zem tro os livros. ou metido na iolda. como Virgiiio. de respei- mas tenho vindo to e admiração pelos ignorados camponeses que a trabalhar quasi primitiva. . cinegética. campos matagosos da minha mocidade. Por estes campos que vamos agora atravessando. a recrear os olhos na muda contemplação dessa obra imensa. tomado de simpatia. ao lado dos mais afamados caçadores da Vila.. que é uma epopeia de trabalho fecundo.

d'et€reos infinita num gozos. um olival ou um montado.Ele ri ás searas que verdejam. não pode pantheista. cresce e fructífíca sem que tenha que regar a terra com o suor do seu rosto. um amigo ou um parente a escorregar para Ha uma bôa dúzia d'anos que o burgo róe a . Faz-se entre o trabalha uma espécie de identificação espiritual. como entre os místicos e a Divindade. só para não arrancar as arvores que Deus creou. e para com as que entram em decrepitude. não raramente palavras de compaixão — como se fosse a cova. religioso por tradição. Não desbas- muitas vezes. á cabeleira das arvores. ta. O pantheismo do camponez é o seu grande amor á Natureza. geralmente analfabeto. que lhe dá o pão. o cam* ponez.230 POR CERROS E VALES é Se o pantheismo uma concepção filosófica. Se o pantheismo é uma doutrina religiosa. habitam muito para além das estrelas. porque o Deus da sua crença e os santos das suas devoções. não pode ser pantheista. afagando este ou aquele animal de menos bravura e esquivança. logar de supremas delicias. chamando assim a tudo quanto Deus creou homem. conversa com os rebanhos para uso e comodidade do camponez e a terra em que que pastam. o hoda mem ser terra dos campos. tem olhares carinhosos e compadecidos. sadios e nédios. que lhe dão os fructos. mal se elevando o seu espirito. mais velhas que o seu tetra-avô. numa promessa de abundância. região o homem onde tudo nasce.

mas antiguidade de que frescas. baldas e vícios que cada dia mais avultam nos grandes centros populacionais e vão distingindo horrivelmente para as Vilas e Aldeias. todavia. cantando e dansando sacrifícios solenes. e á economia da Nação alguns matando o insecto. não duma antiguidade bíblica. a deusa Ceres. contan- do-se por centenas ou milhares de anos. Recomendava Virgílio oue lhe fizessem. que. sujeitando os fenómenos metereológicos. vindo a perder.POR CERROS E VALES ma'or parte dos moniados por onde passamos? vel 231 terrí- doença para a qual ainda se não encontrou. que na gente rústica subsistem. e duma eu conservo recordações quasi ras da que providencialmente adoçam as amarguminha incipiente velhice. tanto com um poder contagiante bem pensadas medidas de profilaem relação ás pessoas como em re- lação ás colectividades. em sua honra. todos os anos. Conheço suficientemente a gente do campo para saber que ela não é isenta de ruins paixões. naturalmente inconstante. tratamento eficaz. volúvel e caprichosa como todas as Foi mulheres. agrícolas. entre nós. Não deixa de ser verdade. embora desfalcadas. muitas das vir- tudes antigas. refratarío ás roais xia moral. milhares de contos* mau porem toda a vida dos campos sob a protecção duma mulher.se a poesia dos campos. um remédio poupe ao lavrador alguns milhares de escudos. que saibamos. con- Tem . á que fazem bons ou maus os anos bilidade dos volu- seus caprichos.

sentado na varanda. chalrear o das moças que fazem bordadura ao poço. Colhe o Vem vindo as filhas de Jacob á fonte Descai o — Com seu ritraico andar. tendo feito a rograças a Deus e ao chaufmagem sem novidade — feur. lasciva puella resto. resisto a mostrar ]osé Bragança a . a menos esquivas que convertido o pudor a Galatea. suavemente rumorosos e espontaneamente fecundos. entre as palmeiras. Os últimos raios de sol tingem duma côr sen- sivelmente frente. mostrando quasi tudo para que se adivinhe o num estimulo de luxuria. Estamos novamente em Aljustrel. que está o jantar na mesa. caindo na agua. — Façam Não favor de vir. duma só asa. duma enternecida dolência- Destruídos os bosques. ou- vindo o ruido dos caldeirões. ao sr. a rude ave- na da musica pastoril.: 332 POR CERROS E VALES a vertida Terra numa grande oficina . sátiros aco- em perseguição das nímfas.se aos povoados. nas herdades alemtejanas. mentalmente sol nos olivais do monte. elegantes como amforas etruscas. cada qual com a sua quarta. alaranjada as encostas dos cerros em e Fecho os olhos. mas já não tocam pifaro nem gaita. os pastores. recito os lindos versos de Go- mes Leal. Das largas eiras gado o pastor. ainda usam samarra e pelica. os faunos e lheram. e.

tendo de no adro. descarapuçados á mulherio enchia o corpo da porta. d'oficio. e fazendo rancho as macisso. e o já maricas do sacristão. altar. a quando chegamos. bens que a gente vai perdendo no cami- nho da vida — a saúde. todas de capa e lenço. patarreco de sete ou oito anos faz de sacris- que o devocionismo aljustrelense não dá para mais. ne- nhuma sem o seu cordão de ouro ver o sr. Estou a lavradoras da freguezia. Reporto-me aos velhos tempos da minha meninice. o Francisco Peixeiro. habitualmente minha Caem-me os olhos no lugar em que mãe ficava. as paredes grossas templo duma só como muralhas. está o padre no sa. de severa compostura. sob a vigilância das respectivas mestras. teia O sendo reservado ás senhoras o espaço entre a e o altar-mór. e di- quatro senhoras que vão acompanhando o oficio vino. lendo nos seus livrinhos as orações d'ocasião> Um tão. fechando os olhos. com muitos anos teada. carregando nos acentos — era um vicio profissio- forma a dar ás palavras uma eufonia que as tornava ásperas e desagradáveis. sabendo a missa de cór e saN latim mas pronunciando o duma forma barba- nal — por . Por acaso. vasto nave. Saudades do tempo em que tinha crenças? Não saudades do tempo em que tinha saúde e mocidade. igreja. ra. padre Cardote. e vejo. que frequentemente se perde . a ficar igreja a abarrotar de fieis. os retardatários.POR CERROS E VALES igreja mairiz da 233 minha terra. tendo dizer mis- como auditório os rapasinhos duma escola particular.

que digere pe- como se fosse um Não me que para dispenso de levar o monstro apocalitico. sr. e a sua conservação afirmaria respeito pela historia e pela tradição. mas o desenho ás Minas Uma des. mais respeitadores da verdade dos factos que os cronistas patranheíros. Apresento o Igreja sr. trabalho. já ao sr. e mim tem o respeitoso encanto d'um lo^ar . carregados outros no plano inclinados dras dum triturador. se faz a grandes profundida- á superficie vendo-se apenas montes de que a agua atravessa. a Senhora do Castelo. perfeito. actualmente. Não consta que êle desempenhasse um papel importante nas luctas por- fiadas entre cristãos e sarracenos. José de Bragança fui ao Monte das Mezas. visita é interessante mas todo o terra. dignos de figurarem dos e num tura Museu. em cuja pequenina ha panos de azulejos variamente ornamenta^ rigorosamente coloridos. pin- em madeira.334 POR CERROS E VALES relativa e com facilidade se recupera. em taipa batida. mas a sua derro- cada não aproveitou a ninguém. José Bragança á minha venerável madrinha. já desbo- tada a côr. Do mostro êle Castelo de Aljustrel. De grande valor artistico são três ou quatro telas que ha na Igreja da Misericórdia. existiu — ubi José de Bragança senão o local onde fuit Tróia. uma e outra contada por monumentos. . a mocidade não que não se recupera uma vez perdida. e pequenas locomotivas que arrastam pequeninos vagons. dos fins do século XVII. carregando-se de cobre. onde nascido e creado. carregados uns á boca dos poços.

grandes como courelas. ha quarenta anos. mu- rados de taipa. resando as suas orações- Não ha terrenos escalvados na yastissíma região avista. Chega-nos o tempo para visitarmos Rio de Moinhos. Jungeiros e Montes Velhos. de em qualquer das três. Impressiona o norte. nela tinha vidraças. fora e julgo não ja- muito da verdade dizeado que nenhuma José de Bragança. andar. planicie intérmina. os quintaes. de trigo. favas ou aveia. só um cul- ou outro aproveitado. uma só. homem do de esmerado aceio que teem todas as ca- sas em todas estas aldeias. o ar sr. 235 um altar em que as pessoas de<7otas ajoe- lham. mas só nos Beja e toca nas serras de Grândola. insignificantes ampolas d'uma Trechos de lífera. as pare- des caiadas. três grandes Aldeias do concelho de zia Aljustrel. mais aqui. olival e montado salpicam a zona cereaferragiais de fértil que se estende até aos além. para o tivo de hortaliças. não lhe . O voro um se lhe derem carne vezes ao dia. alemtejano é .POR CERROS E VALES sagrado. a ultima das quaes é fregueprimeiro Só na e ultima ha uma casa. apenas aqui e além interceptando o horisonteum pe- queno cerro ou lomba. os maiores semeados na época animal essencialmente carnítrês competeote. as ruas limpas. extensa que d'aqui se de muitos kilometros. eram ir raras as casas que tinham janela. todos eles providos de poço. muito escassamente. me- nos fértil maus anos agrícolas dei* xando ficar o lavrador com o celeiro vasio.

excelente morto. entre Montes Velhos e Aljustrel. peúgas e as mulheres usam meias. e a uva se vende barata. Dá nas vistas. Todas as . aptas para a cultura da vinha. já sem piuga nem Saimos de Montes Velhos por mil carapinhadas. pessoas grandes andam calçadas os homens usam é. peixe d'agua doce que bôa conta dava ás povoações As terras que vamos agora atravessando. seu percurso. isto sapato. ela queima esterilisa as em muitos kilometros do as arvores que lhe fazem bordadura. habituado a não mesa. o apuro de toda esta gente no seu vestuário pobre. chegamos á . a não ser no a quando abunda o melão e melancia. Colector da agua das Minas. sorvete alemtejano que vale dos grandes cursos d'agua no butária Aqui atravessamos agora a Ribeira dos Roxos. d'uma grande fertilidade.n'o mediocremente. do rio um tri- Sado. e terras marginaes na largura de muito metros. regalados de melancia. são uma transição para os barros de Beja. vendo-se uma ou outra criança solta de pé e perna.236 POR CERROS E VALES má cara- faz As chamadas arvores de estio. dlstricto de Beja. mesmo a quem é de cá. tendo faziam criação. quasí ao solto posto. de que se notam pequeninas manchas. • Por virtude d'uma informação errada. fruto interester sobre- sam. todos os peixes que n'ela nela habitavam e ribeirinhas. desde a primeira hora.

uma linha recta. á hora 237 em que o com* com bóio já devia ter chegado a Beja se não viesse atrazo de duas horas. direita em fragmentos extensos. e como se desenrola atravez de montados. que este ano se portaram como as terras galegas. da Boa Vista a Resolvemos atravessar a cidade. Grandes azinheiras e pouca bolota . a velocidade tem de ser moderada. mas uma salgadeira ou um lagar. partimos de automóvelé A carreteira má. Por mal dos nossos pecados entramos na estrada do governo. Agora sível sim. Vamos atra- vessando os famosos barros de Beja. que ponha uma nota de verde n'aquele solo ardido e gretado. de curvas largas. Pela esquerda são as planícies nuas. Ainda bem . não seriam um celeiro. se fossem co- bertos de arvoredo. a maior parte quasi sem leito. de regresso a Lisboa. passada a zona dos montados.se montes que pertencem ao systema orográfico de Mertola. em nenhum se lobrigando uma junqueira. Os campos agora.POR CERROS E VALES Estação. avistam. lavradas de fresco para as sementeiras próximas. sem escrúpulos de rigor no emprego das palavras. que é Beja. Pela direita. a terra limpa de mato. e os barrancos secos. montado ou olival. são nus mas . seguindo o . lá muito longe. ou cobertas do restolho amarelecido da ultima seara. a pé. uns vinte kilometros á hora. é poslisa marchar mais depressa^ a carreteira.

ver a fisionomia geral d esta famosa Pax lhas e nobilíssimas tradições. sem reparar que nos cres- cendo a agua na boca. e não faz luar- Em Viana enchem a carruagem feirantes de Senhora d'Avres. mas condenados a chegarmos a Lisboa. felizmente. pouco importa. Ce- aiemtejano adoptivo. só para caminho mais o sr.238 POR CERROS E VALES curto. lá para a meia noite. bem almoçados em Aljustrel. muitos dos quais. onde subsiste um pequeno dr. mais saborosas que as de qualquer outro recer ponto da costa de Portugal. sem confortarmos o estômago com qualquer coisa parecida com um jantar. em que embutiram uma Agencia da Caixa Geral dos Depósitos. Santa pernas. que é a da Conceição uma olhadela ao templo de . . Anoitece. encontrámos o Gil. rios. — coroo bom algarvio de nasêle — Jantaram ? Dizemos-Ihe que não. Maria. E põe-se a encaia o seu acepipe. e tem a crueldade de nos dizer que se preparara para a jornada com uma ri- quíssima sopa de amêijoas. trecho lorico da primitiva muralha. irão ficando pelo caminho. sempre exuberante de palavras e de gestos cença. grandes e saborosas amêijoas algarvias. de vemi- Demora de alguns nutos na religiosa contemplação do minimo arquitectónico. e vá de desembaraçaras que o comboio não espera pelos retardatáportas A's de Moura. ]osé de Bragança Júlia. gótico Igreja ou manuelino.

despeço. em que cairam. em muitas das quais ha luzitas que fazem lembrar pyrilampos.me do gança. Bragança. . uma aqui.: POR CEkROS E VALES Barreiro. mal obse- quiado. Silencioso e quieto. moda alemteiana ter sido tão sr. A' entrada da rua do Ouro. mal anoiteceu. o Tejo é 239 um lago enorme. aranhas fantásticas. Desembarcamos no Terreiro do Paço com uma hora de atrazo. dizendo-lhe á sr. outra além. Bra- — Desculpe.

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DP 525 B7 Brito Camacho. Manuel de Por cerros e vales PLEASE DO NOT REMOVE FROM THIS CARDS OR SLIPS POCKET UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY .