ALEXANDRE DUMAS A GUERRA DAS MULHERES Tomo primeiro NANON DE LARTIGUES I Perto de Libourne, cidade tão alegre que

se contempla nas rápidas águas do Dordonha, entre Fonsac e Saint-Michel-la-Rivière, erguia-se outrora uma linda aldeia de paredes brancas e telhados vermelhos, meio escondida sob as tílias e as faias. A estrada de Libourne a Saint-André-de-Cubzac passava entre as casas simetricamente alinhadas, e constituía a única vista que delas se desfrutava. Atrás de uma dessas fileiras de casas, pouco mais ou menos a cem passos, serpeava o rio, cuja largura e caudal começavam naquele sítio a dar indícios da vizinhança do mar. A guerra civil, porém, passou por ali, e desde logo derribou as árvores; depois, despovoou as casas, as quais, expostas a todos os caprichosos furores da guerra, e não podendo fugir com os habitantes, se foram desmoronando sobre a relva, protestando, a seu modo, contra a barbaridade das revoluções intestinas. Mas a terra, que dir-se-ia ter sido criada para servir de sepultura a tudo quanto existe, a pouco e pouco foi cobrindo os cadáveres das casas, outrora tão alegres e tão festivas; finalmente, a erva cresceu sobre aquele chão artificial, e hoje, o viajante que segue a solitária estrada, longe está de suspeitar, ao ver pastar sobre essas elevações desiguais um dos grandes rebanhos que a cada passo se encontram no Midi, que pastor e carneiros pisam o cemitério onde dorme a aldeia. Todavia, na época de que falamos - isto é: no mês de Maio do ano de 1650 - a aldeia em causa ocupava ambos os lados da estrada que qual grande artéria a alimentava, com um luxo de vegetação e de vida dos mais agradáveis. O viajante que então a houvesse atravessado, teria visto com prazer os camponeses ocupados em atrelar e desatrelar os cavalos da charrua, os barqueiros arrastando à praia as suas redes, nas quais saltava o peixe branco e rosado do Dordonha, e os ferradores, malhando vigorosamente na bigorna, debaixo de cujos malhos jorrava um repuxo divergente de centelhas, que alumiavam a forja a cada martelada. O que todavia mais o teria encantado - sobretudo se a caminhada lhe abrisse o apetite que se tornou proverbial entre os que frequentam as estradas - seria, a quinhentos passos da aldeia, uma casa baixa e comprida, composta somente por um rés-do-chão e um primeiro andar, cuja chaminé exalava alguns vapores, e as janelas certos perfumes, denunciadores - ainda melhor do que o desenho de um bezerro dourado, pintado numa chapa de lata vermelha, que rangia, suspensa de um varão de ferro chumbado na cimalha do primeiro andar - que finalmente chegava a uma das casas hospitaleiras cujos moradores, mediante certa remuneração, chamam a si a tarefa de retemperar as forças dos viajantes. Por que razão, perguntar-me-ão, estava a estalagem do Bezerro de Ouro situada a quinhentos passos da aldeia, em vez de ocupar o alinhamento natural das risonhas casas encavalitadas de ambos os lados da estrada? Em primeiro lugar, porque, se bem que retirado naquele cantinho de terra, o respectivo proprietário, quanto à arte culinária, era um artista de primeira água. Logo, colocando-se no princípio, no meio, ou na extremidade de uma das duas compridas fileiras de casa que formavam a aldeia, arriscava-se a ser confundido com algum dos taberneiros que se via obrigado a admitir como colegas seus, mas a quem não podia resolverse a considerar seus iguais. Pelo contrário, assim retirado, chamava a

atenção dos entendidos, os quais, logo que tivessem provado, uma só vez que fosse, os guisados da sua cozinha, diriam a quantos encontrassem : "Quando for de Libourne a Saint-André-de-Cubzac, ou de Saint-André-deCubzac a Libourne, não se esqueça de parar para almoçar, jantar ou cear, na estalagem do Bezerro de Ouro, a quinhentos passos da aldeiazinha de Matifou." E os entendedores detinham-se, saíam contentes, mandavam também outros conaisseurs, de sorte que o inteligente estalajadeiro ia insensivelmente fazendo fortuna própria, o que não o impedia - coisa rara - de conservar a sua casa no mesmo nível gastronómico; isto prova, como já dissemos, que o senhor Biscarros era um verdadeiro artista. Ora, numa das lindas tardes do mês de Maio, em que a natureza, já desperta nas regiões do Midi, começa a despertar no Norte, fumos mais densos e perfumes mais suaves do que os habituais saíam das chaminés e das janelas do Bezerro de Ouro, ao mesmo tempo que, à respectiva porta, o senhor Biscarros em pessoa, vestido de branco, conforme o uso dos sacrificadores de todos os tempos e de todos os países, depenava com as suas augustas mãos perdizes e codornizes, destinadas a algum dos delicados banquetes que tão habilmente sabia preparar, e a que costumava emprestar - e isto sempre pelo amor que tinha à sua arte - todos os seus cuidados. Começava, portanto, o dia a declinar, e as águas do Dordonha, que num dos tortuosos rodeios da sua corrente se afastavam da estrada cerca de um quarto de légua, para passarem junto do pequeno forte de Vayres, principiavam já a branquejar sob a folhagem escura das árvores; algo de sereno e de melancólico se espalhava sobre o campo, com a viração da tarde. Os lavradores deixavam-se ficar imóveis, com os cavalos desatrelados; os pescadores, faziam outro tanto, com as suas redes gotejantes os ruídos da aldeia iam findando; e, tendo ecoado a última badalada, pondo assim termo ao laborioso dia, principiou a ouvir-se o primeiro canto do rouxinol num bosque vizinho. Logo que as primeiras notas saíram da garganta do músico emplumado, o senhor Biscarros cantou também, sem dúvida para acompanhá-lo. Em resultado desta rivalidade harmónica, e da atenção que o estalajadeiro dava ao seu trabalho, não viu um pequeno grupo, composto de seis cavaleiros, que surgia na extremidade da aldeia de Matifou, e caminhava para a estalagem. Contudo, uma interjeição que partiu de uma janela do primeiro andar, e o movimento rápido e estrondoso com que esta se fechou, fizeram levantar o nariz ao digno estalajadeiro. Pousou então os olhos no cavaleiro que marchava à frente do grupo, o qual vinha directamente para ele. Directamente não é o termo exacto, e apressamo-nos a emendar o nosso erro; porquanto o homem parava de vinte em vinte passos, lançando à direita e à esquerda olhos investigadores, examinando rapidamente atalhos, árvores, moitas, e segurando com uma das mãos um mosquete sobre o joelho, a fim de estar pronto para o ataque e para a defesa, e, de vez em quando, fazia sinal aos companheiros, que imitavam em tudo os seus movimentos, para que se pusessem em marcha. Então, arriscava-se a dar mais alguns passos, e a mesma manobra principiava de novo. Biscarros seguiu com os olhos o cavaleiro, cuja singular marcha o preocupava tão furiosamente que, durante todo esse tempo, se esqueceu de arrancar do corpo da ave as penas que tinha entre o dedo polegar e o indicador. "É um fidalgo que procura a minha casa - pensou Biscarros. - Aquele digno gentil-homem é sem dúvida míope; contudo, o meu Bezerro de Ouro está

pintado de novo, e a tabuleta dá bastante na vista... Vamos, ponhamo-nos bem em evidência." E o senhor Biscarros foi postar-se no meio da estrada, onde continuou a depenar a ave, com gestos graves e majestosos. Este movimento produziu o resultado que esperava o estalajadeiro: mal o cavaleiro o avistou, logo se encaminhou para ele; e, saudando-o cortesmente, disse-lhe: - Senhor Biscarros, não viu por aqui um grupo de militares, que são meus amigos, e que devem andar à minha procura?... Militares, não digo bem... Homens de espada... sim... Numa palavra: homens armados... Sim, homens armados, isto exprime melhor a minha ideia. Dar-me-á, pois, notícia de uma pequena tropa de homens armados? Extremamente lisonjeado por se ouvir chamar pelo seu nome, Biscarros também saudou o outro afavelmente; não observara que, numa só vista de olhos que o forasteiro lançara à estalagem, lera o seu nome e a sua qualidade na tabuleta, do mesmo modo que acabava de ler a identidade da pessoa no rosto do proprietário. - Quanto a homens armados, senhor - respondeu ele, depois de ter reflectido um instante - só vi um gentil-homem e o respectivo escudeiro, que há uma hora se acomodaram em minha casa. - Ah!... - fez o forasteiro, passando a mão pelo imberbe rosto, onde, todavia, já se distinguia a virilidade - tem aqui na estalagem um gentilhomem e o seu escudeiro!... e ambos armados, dizia?... - Não há dúvida, senhor, de que aqui estão; deseja que mande dizer àquele gentil-homem que lhe quer falar? - Mas - replicou o forasteiro - não seria isso um tanto indecoroso?... Incomodar assim um desconhecido, seria talvez tratá-lo com demasiada familiaridade, mais ainda se o desconhecido é pessoa de condição. Não, não, senhor Biscarros, basta que me dê os sinais dele, ou, o que ainda melhor seria, que mo mostre sem que ele me veja. - Mostrá-lo não será coisa fácil, senhor, visto que ele mesmo dá mostras de querer ocultar-se, pois fechou a sua janela no momento 10 11 em que o senhor e os seus companheiros apareceram na estrada; dar-lhe os sinais dele será, assim, mais fácil. É um jovem louro e delicado, que poderá quando muito ter dezasseis anos, e que parece possuir justamente a força exigível para empunhar a pequena espada de salão que pende do seu boldrié. A fronte do forasteiro enrugou-se, como se recordasse alguma coisa. - Muito bem - disse ele. - Sei o que quer dizer: um rapaz louro e efeminado, montado num cavalo baio, e seguido de um escudeiro, velho, tão direito como o valete de espadas; não é esse a quem procuro. - Ah! não é quem o senhor procura?... - perguntou Biscarros. - Não. - Pois bem, enquanto não chega aquele que o senhor procura, e que não pode deixar de passar por aqui, visto que não há outra estrada, poderia recolher-se a minha casa, para tomar algum refresco com os seus companheiros. - O que me cumpre é dar-lhe os meus agradecimentos, e rogar-lhe que me diga que horas são. - Estão a dar seis horas no relógio da aldeia; não ouve, senhor, as badaladas do sino grande?... - Muito bem. Agora ainda tenho de pedir-lhe um obséquio, senhor Biscarros...

O pescador arregalou os olhos ao ouvir tão disparatada fantasia. e enquanto o forasteiro se adiantava até à borda da água. encaminhou-se rapidamente para as árvores. e tornando à sua ideia de fazer cear o forasteiro em sua casa. portanto. a dizer ao forasteiro que estava às suas ordens. à laia de parêntesis. e da expressão de cinismo vulgar que pairava nos seus lábios . os outros pararam no alto da ribanceira. Daqui pode ver o barco. que a ausência da sua boa vontade provocaria o emprego da força. A mulher do pescador veio recebê-lo. com muito acerto. Falemos. Sem dúvida alguma o encontrará à mesa.Com toda a justiça.É uma comida medíocre-respondeu este. . e provavelmente está a jantar. está encoberta com aqueles vimes. .Não. e foi bater à porta da cabana designada. senhor Biscarros.perguntou ele. embora magro.um grande mancebo louro. podiam dominar ao mesmo tempo a planície que se estendia atrás deles. ele. e proteger o embarque que se efectuava a seus pés..É para ir desembarcar em Vayres? . o pescador estava à mesa. e fixou os olhos atentos na margem oposta. dizemos. . cujo campanário denegrido..Para atravessar o rio? .Pega nos teus remos . senhor Biscarros.ordenou o cavaleiro .. amarrado além àqueles salgueiros.agradeceu o forasteiro. inspeccionou as pistolas com cuidado. e ia dar em linha recta à vila de Ison. porém. .. de modo que pudessem vigiar para todos os lados. .. -perguntou Biscarros.Nada mais fácil. constituída por um vasto prado cortado por uma vereda que partia da praia. E.. o pescador que me abastece de peixe. à direita. fez mover uma comprida espada na respectiva bainha. Gosta de peixe. . sem dúvida com receio de alguma surpresa. colocou o mosquete à bandoleira.o forasteiro. quando está bem temperado. para dar um passeio. e à distância de um quarto de légua. fazendo sinal aos seus companheiros para que o seguissem. se queres ganhar um escudo. O pescador levantou-se com uma precipitação tal que bem dava a entender quão pouco generoso era o estalajadeiro do Bezerro de Ouro. Quanto à casa. perto do ulmeiro.e segue-me.Obrigado. daquele que lhe fornece o peixe. pensando.. se divisavam entre a neblina dourada do entardecer. o seu barco e os seus remos. colocando-se. obrigado . deu de esporas ao cavalo.. e que no conflito perderia a recompensa oferecida. não opôs dificuldade alguma. elevava-se. . O pequeno grupo encaminhou-se logo para o rio. .Por isso lhe dou os parabéns. pálido e nervoso. não o rejeito. 12 .. senhor?.Faça o favor de dizer-me como poderei arranjar um barco e um barqueiro.É unicamente para me levares até ao meio do rio. e um fumo branco. . Na outra margem também. Do ponto em que se colocaram. .Muito gosto terei em servi-lo. . Apressou-se. Então. Deve a esta hora ter acabado a faina. e que tinha uma fisionomia inteligente. o forasteiro . o pequeno Forte de Vayres. mas como lhe era oferecido o lucro de um escudo. e ali te demorares comigo alguns minutos.Eu tenho sempre excelente peixe.-Contudo. Tal como o senhor Biscarros havia dito. apesar das olheiras que circundavam os seus olhos azuis. e a uns vinte passos atrás do cavaleiro que batera à porta viu desenharem-se os perfis dos companheiros.

e que respondia a estes dois homens. dois.. uma pequena estaca de três ramos que tinha no topo ..qual de vocês o vê.. é demasiado vantajoso.É o do meu primo. a meio da água..Não o façamos esperar-continuou o forasteiro.disse um dos homens . quatro. dirigindo-se aos seus companheiros que estavam de sentinela .. porque o sol me ofusca a vista. O homem a quem se dava esta ordem. no momento em que o outro chegou ao pé dele. . e por isso não devo expor-me a perder o fruto que dele devo usufruir. o assunto. e principiou a distanciar-se da praia. . Um. e.. à frente ou atrás? . . E saltando por sua vez para o barco. mas ainda não estou muito certo. pousou-lhe a rédea no braço e dispôs-se a entrar no barco. conserve-se.disse-lhe Ferguzon.Tenha todo o cuidado. Mas. apressou-se a obedecer. receava que tivesse lugar um combate naval a bordo do seu barco e do de seu primo. Sim.Pensava nisso agora mesmo: os que nada têm a arriscar.Ora! Que irão eles fazer?.Sim.. não será da minha parte. Portanto. . Põe-te a caminho. além da nossa superioridade quanto à coragem. em tom meio amigável.. Aquele a quem Ferguzon chamava Rolando e Cauvignac.. .Creio . fez sinal ao pescador que fosse ocupar o seu posto. ah! Avisto um. o forasteiro apeava-se.informou o pescador. mergulhou a comprida vara nas ervas.Venha segurar-me o cavalo. . se for possível. na realidade.Então? . entretanto. sem dúvida porque um era 14 15 o seu nome de baptismo. também a temos quanto ao número. o sujeito.Só. Não se aproxime tanto da outra margem que se exponha a receber uma descarga de mosquetaria a que não possamos responder.que vislumbro um grupo negro no caminho de Ison.fez um sinal com a cabeça. que parecia muito interessado nestes preparativos. ... meio imperativo. lá embarca o homem do capote azul .respondeu fleumaticamente o forasteiro.. principie por alojar-lhe uma bala na cabeça. Ferguzon. Portanto.ou de guerra . . ..disse Ferguzon. e desceu a ribanceira.. Ah! ah! eis as suas cabeças. Perante isto.. . O pescador desamarrou o barco. da direita ou da esquerda. É o mensageiro que esperamos. que principiava a impacientar-se. .. esses sim. bem vê que não vem mal acompanhado. porém.perguntou o forasteiro. Cauvignac! Se vir o mais pequeno movimento suspeito por parte do seu homem. aquém da linha de demarcação. se alguma imprudência se cometer nesta ocasião. Espere. todavia. . o arrais da barca de Ison . cinco homens: um deles de chapéu agaloado na cabeça. podem cometer imprudências. e que para maior segurança terá arranjado escolta. mas a gente dele é menos numerosa do que a nossa..nada de afoitezas inúteis... e que.disse Ferguzon. que ali se encontra como por encanto. . e o outro o de família . segundo as escritas condições do ajuste.Escute . barqueiro.. não há dúvida alguma. Rolando . ao mesmo tempo que da margem oposta partia o barco do barqueiro de Ison.O rio é muito largo. pondo-lhe a mão no braço .disse Ferguzon. nada há que temer. .Nada tema . Havia. . e capote azul. que vão principiando a aparecer. renovando as suas prudentes recomendações.Tem o direito de assim fazer .Não poderão achar barco algum. são eles. três.Bom..disse ele.

19 . . senhor? . que era a da preia-mar.. com bigodes e suíças encanecidas. fixos como os de uma ave de rapina.que tem? . e o corpo e as vestes sob um amplo capote azul.Então eu conheço-o?!. .. senhor.Nada.Não há dúvida de que o sou. senhor.-perguntou. dava-me a honra de me dirigir a palavra. Mas àquela hora.Então. tinha pelo menos ocultado.. que a corrente reunira bordo com bordo. senhor? Está mascarado!. o que. o pescador que partira da margem oposta voltou-se para o seu viajante a fim de receber ordens. segundo creio. e. redobrou então.Não o creio. e só a balbuciar se atreveu a pedir ordens à estranha personagem. por pouco não perdi o equilíbrio. porém.. .. O senhor. embora não tendo posto máscara. e que. os cabelos e o rosto debaixo de um grande chapéu agaloado. O barqueiro de Ison foi o primeiro a chegar. a ponta desses rochedos.e eu responderei com a mesma franqueza: mascarei-me para lhe ocultar o rosto. e que servia de aviso aos compridos barcos de transporte que descem o Dordonha. . no meu entender pelo menos.QUE quer isto dizer. amarrou o barco a uma das argolas da estacada.Perguntava-lhe porque está mascarado. estendendo 16 a mão para um dos postes .. E a sua mão estendida passou do poste designado para o gentil-homem conduzido pelo barqueiro de Ison. Os dois barqueiros sem dúvida alguma compreenderam que ali podia realizar-se a junção dos parlamentares.E essa franqueza chegará a ponto de revelar os segredos dos outros?. homem corpulento. . com certo sobressalto à mistura de despeito. negra e lisa acima da corrente do rio. só a pequena bandeira e uma ligeira ebulição da água.... . pelo que dirigiram para esse lado os seus barcos. e qual não foi o seu espanto deparar com um homem mascarado e embuçado num capote. poderia mais tarde reconhecê-lo.uma bandeira branca. Nesse momento. que denotava ter cinquenta e cinco a cinquenta e oito anos de idade.A sua pergunta é franca . quando da minha franqueza me não pode resultar mal algum. fazendo um movimento involuntário. indicavam a presença do rochedo. e os dois barcos..Amarra o barco àquela argola . .Vejo que é franco. e o não deixara um só momento. Cauvignac não pôde deixar de denunciar o seu sobressalto. permitiram aos dois plenipotenciários darem início à conferência que se segue.. mas ao vê-lo uma vez. .o mais perto possível do barco daquele senhor. II . Considerando mais de perto a personagem que acabava de falar-lhe.disse Cauvignac. por causa de um banco de rochedos cujo acesso era perigoso. olhos severos.. O barqueiro obedeceu. O medo que dele se apossara. é absolutamente inútil. o mais possível. de acordo com a ordem que lhe deu o seu passageiro. . até se podia ver. o que era então que dizia?.perguntou o gentil-homem .disse o mancebo . Nas marés baixas. o recém-chegado.

Quis prestar um serviço àquele digno fidalgo. se é que pode fazê-lo nessa língua. adoptando desde esse momento o idioma convencionado . soldado. ou prefere passar para o meu. algumas obrigações. se nisso encontra prazer. pois.. .. senhor. senhor! Ela e eu somos inteiramente seus. .. E não quereria ver-me tão cedo privado do prazer que ela me dá. quer mal à menina de Lartigues?. 21 .Ei-la aqui.o decidiu a descobrir ao duque d’Épernon a infidelidade da senhora em causa? . 20 . a sua conversação agrada-me. Conversemos.. senhor! Quando uma tal revelação me pode render alguma coisa. . no meu entender. o que pode fazer de mais acertado. não é instigado por qualquer motivo de ódio.Não se apresse tanto. Mas permita-me que lhe faça uma pergunta. médico.É.. . .Sou seu criado .Quer que façamos a troca? . Tenho sido alternativamente letrado.Não se verá. O velho gentil-homem pousou tristemente e de longe os olhos sobre o fino papel.E eu também. através do qual apareciam algumas letras. . há que confessá-lo.. e só o conheço pela reputação de que goza. tem-na de ser honrado cavaleiro e bravo gentil-homem. . .Isso é inútil. . não é assim? .. e muito me desgostaria se lhe acontecesse alguma desgraça.. .Ei-la aqui! Não pretendo queixar-me.Então dê-me o papel assinado em branco.Às mil maravilhas! Que razão .Então.. inclinando-se com afectado respeito.Quem? Eu! Muito pelo contrario! Antes lhe devo.continuou o gentil-homem.Essa não é má.Quer que passe para o seu barco. .disse o mancebo. e ele é demasiado brioso para recusar um convite desse tipo. em espanhol.. .Nunca o vi.. Sem dúvida fala alguma língua estrangeira. . senhor.E agora.Tenho. .Assim farei. vê por isso muito bem que por falta de profissão não serei mal sucedido. mas é a segunda vez que lha mostro.Falo o espanhol.Tem o senhor a assinatura em branco que se pede?. senhor! A gente faz o que pode.. .Reconheço. .Reconhece sem dúvida a letra? .Sim. que faz? . e.. senhor. O mancebo foi abrindo vagarosamente a carta. Conversemos. . o ofício que tem. rogar-lhe-ia que se dignasse bater-se comigo à pistola ou à espada. de me cingir ao que disse.. . então. a fim de que no barco que ficar livre tenhamos os barqueiros afastados de nós?.. e receberá a carta.Fale. e insinuar-me na sua graça.Então.. devo dizê-lo. .Pelo que vejo.É muito singular. portanto. e partidário. . é ao senhor barão de Canolles que tem por inimigo? .Muito bem! Tem então aquela carta que prova a infidelidade da menina de Lartigues. .. . .Nada disso! Se quisesse mal ao senhor barão de Canolles.

e. pela menina Soyon. um pouco acima de Saint-Michel.E eu presto-lhe atenção. revistaram-no. e se amanhã os encontrar.Espere.. então. Que fartura!. Esta tarde receberam fardamento novo. Que lhe parece esta ideia? . .É engenhosa. . o senhor de Beaufort pela senhora de Mont-bazon. . que não ganhava grande coisa em combater pela rainha. pelo rei. a entregar-nos o dinheiro de que era portador. reuni um exército.que se assemelham aos companheiros de Falstaff. .Muito bem.disse entre dentes o gentil-homem. senhor.Esperámo-lo à saída. que estava de mau humor. pelo povo. escoltámo-lo com toda a fidelidade.. .Falemos de si. vejo-a muito bem. o coadjutor pelo senhor de Beaufort. La Rochefoucaukl pela senhora de Longueville. .De boa vontade lho direi. sem que ficasse um único por cobrar. quando chegámos a meio do rio.Não ignora que o governo espantosamente avaro de Mazarino lhe granjeou enormes problemas na capital. .. o Parlamento pelo povo. finalmente. é negócio de conveniência. ocorreu-me a ideia de não adoptar partido algum.Verdade seja dita . . nada tenho a ver com os seus homens. . na causa dos príncipes.. com toda a cortesia de que sou capaz.Cinco homens?. na qual ninguém deixa de tomar partido. encontrámos o cobrador do distrito. . ou pela França. fizeram-nos recobrar a razão. . passemos adiante. pelo coadjutor.E o mancebo tornou a dobrar muito sossegadamente o papel. . enquanto não recebeu todos os tributos. fazia eu a guerra por minha conta. tive desejo de tomar o partido do rei. em mim. pelo senhor de Beaufort..continuou o interlocutor . verá que são na realidade belos rapazes. juro-vos que a abraçámos com ardor. que meteu na algibeira. pela senhora de Longueville. . portanto. Mas não se preocupe por isso. . Está a vê-lo. convidando-o. Acreditaria. Mas os acontecimentos cada vez nos vão deixando mais perplexos: um movimento de mau humor contra Mazarino. e. Destes dois governos opostos saiu um estado de coisas que muito se assemelha a uma guerra geral. Ora.. dei-lhe a conhecer a nossa tendência política. Optaria muito desacertadamente.. como já fazíamos havia cinco dias.Ora.Como conseguiu obter essa carta? . encarceraram o senhor de Conde.. o duque de Orleães pela menina Soyon. muito até. ao ver que a tal sacola se ia enchendo. mas sim de seguir aquele para o qual me sentisse momentaneamente impelido.Em consequência. . senhor. se os desprezasse. pela minha fé. e seguimo-lo. Os meus companheiros. que andava de aldeia em aldeia enchendo a bolsa de sua majestade. . Falstaff é um gentil-homem inglês meu conhecido. .. e por consequência disposto a tudo tratar com desprezo. Tudo. pois..Não ignora que a governação um tanto delapidadora do duque D’Épernon lhe tem granjeado grandes embaraços na Guiena.Sim. no meio dos olmos e sicômoros.Muito mal vestidos . e. passámos com ele o Dordonha.E a que propósito são para aqui chamados Mazarino e D’Épernon? . que ele tanto se recusasse?.A de Nanon.continuou o velho gentil-homem.Mesmo assim mais um do que os seus. que combatia pela França.. Pensávamos que havia algo de bom. Mazarino combate neste momento pela rainha. pela senhora de Montbazon. . a mim. não posso deixar de confessá-lo. O cobrador terminou o giro naquela casinha solitária que vê lá em baixo.. postado nas margens do Dordonha. o senhor combate pelo rei. e as queixas que de todo o lado ouvíamos contra D’Épernon. E.

. O senhor de Canolles recebeu uma cópia da carta que lhe aprazava o lugar onde deveria dirigir-se.. quando o tirámos do rio.O senhor de Canolles não terá recebido qualquer aviso.Como é possível que. Muito ingrato teria ele de ser para mas não conceder! ..Eu não disse que foi afogado. compreendi e aplaudi). o governo?. sem dúvida alguma.aquele que vê lá em baixo. este. se o mensageiro morreu... . rapaz a quem nunca faltam recursos . apesar de não ter ficado lá mais do que um quarto de hora.Tal qual o diz. um colaborador de Nanon.E que pensará ele quando não reconhecer a escrita? . não virá ao ponto aprazado. O forasteiro olhou para Cauvignac com certo espanto.Não alterquemos acerca de palavras... interrompe.. portanto.afirmou o velho gentil-homem.se não me engano. não fiz mais do que guardar o manuscrito autografado. sim.. abraçado o partido dos príncipes. fazendo-a entrar no rio. .. Tentou então encontrar meio de intimidar aquele atrevido velhaco. e conservou-a assim pelo menos palmo e meio sob a água. e não aos particulares.. . 24 .. e da correspondência que lhe fora confiada.. apoderar-nos.replicou o mancebo rindo.. ..e como gritava de tal modo que podia dar escândalo.Oh! Quanto a isso. Parece que o bravo cobrador servia de corretor à menina de Lartigues. morrera de raiva! .Pensa que o senhor D’Épernon não tem mais que fazer do que ocupar-se com devassas?. e eu guardei os papéis.. . nos seus amores. Então. aquele que emitira esta proposição curvou a cabeça do recalcitrante. com ironia. o meu tenente. pensando que era de alguma importância. amotinado toda a terra! Imagine que. de capote encarnado.. portanto.Não posso compreendê-lo inteiramente .. na minha qualidade de médico. .. pela mesma razão. não lhe disse eu que tudo quanto fizera era para ganhar as suas graças?. entre outros.Era. em nome dos príncipes. que eu. como lhe chama. .. . a propagação do som (este um axioma de física. muito bem.corroborou o velho gentil-homem . . Teria. com efeito. que. . . as devassas?. se serviu de mão estranha.Mas. Dei o dinheiro aos meus soldados.disse-lhe ele.As devassas.Pondere bem no que lhe digo: faço guerra às potências. como muito judiciosamente o senhor observa. certamente.Não lhe dá isso algumas vezes cuidado?. . causado por tanta impudência aliada a tamanha firmeza de ânimo.. lhe ocorresse a estranha ideia de querer prestar serviços ao senhor D’Épernon?! .. segurando 22 23 o meu cavalo pela rédea . como confessa. de todo o dinheiro que levava.Mas se o mensageiro foi afogado. para maior precaução. E. têm muita necessidade de se fardarem de novo. tendo. além disso. .E no rio o mergulharam de novo..Ah! vai ver se fizemos bem em pôr de molho aquele miserável.reflectiu que se a água intercepta as correntes do ar. . com efeito . E que foi feito desse miserável? .Que a pessoa que o convida a ir vê-lo. e. não o ouviram gritar mais! Pudemos.

.perguntou Cauvignac. e o conduzisse para a margem oposta àquela de onde partira. e é este o motivo por que tomei partido a favor dela.pois eu também tenho pistolas. .disse o forasteiro.Já o é. mais uma pergunta: que fará da assinatura em branco que exige? ..disse Cauvignac .murmurou o velho gentil-homem. "Então.Que remédio tenho senão dá-la . . e dos melhores.Necessito passar para a margem direita do rio.Nada! Agora. enquanto na outra segurava a pistola. e também é muito possível que me desfaça dela por qualquer capricho.desabafou o velho gentil-homem. Em todo o caso.É gentil-homem?. Deste lado.Pois bem. a sua carta.que caminho toma? . e eu mandar-lhe-ei os seus neste. mandá-lo-ei rodar .disse consigo o desconhecido. . . "Aqui está um salteador que mandarei enforcar. senhor . . e o duque d’Épernon tem mil razões contra os seus administradores. . .. . pois. . é a coisa mais simples do mundo: a inspecção dos papéis apanhados ao cobrador convenceu-me da pureza das intenções do rei. Mas.Como faremos agora? Os meus homens estão do lado para onde vai. com uma dúzia de endossantes.. ? ... como se fosse uma letra comercial.. e os seus do lado para onde vou. desembuçando-se . . o que acabavam de receber.Todavia.Nasci para general de um exército. . pode ficar descansado: não abusarei dela para fazer coisas de que o senhor e eu tenhamos de nos envergonhar. se um dia me cair nas mãos" .. se me der na vontade fazê-lo. .A carta?. .Diabos me levem se já tomei alguma resolução a tal respeito! Pedi uma assinatura em branco.Agora. puxando pelos eriçados bigodes. Talvez que eu mesmo lha apresente antes de terminar a semana. sou gentil-homem. é necessário que nos entendamos: era uma troca que eu propunha. É provável que a guarde para dela me valer em alguma circunstância extrema. 25 mais portátil e mais elástica.Para isso lhe servirá esta assinatura em branco.Deixe a sua pistola em paz . . piscando os olhos debaixo da máscara.Aqui..Ah! é verdade! .. sua majestade está completamente justificado a meus olhos.Sim. e eu guardarei o meu. nada mais fácil: mande-me os meus homens no seu barco. .Não o obrigo a tanto. O forasteiro fez sinal ao barqueiro para que desamarrasse o barco.A assinatura em branco?. seja o que for. . Aqui está o seu papel assinado em branco." . E com uma das mãos ofereceu a carta. senhor. com vagar e atenção.Tinha-me esquecido.disse o mancebo. .perguntou Cauvignac. e rumo . é que está a boa causa. .. . estamos igualmente armados. A troca dos papéis efectuou-se então com toda a lealdade. porque é a coisa mais cómoda.E eu para a margem esquerda. .Está resolvido a dar-me essa assinatura em branco? . e cada uma das partes examinou em silêncio. guarde o seu papel.. Jogo franco de parte a parte.Tem um espírito rápido e inventivo..Dizia.

principiou a ler a carta. e ainda no rio renovou ao barqueiro a ordem de receber no seu barco. depois de haver olhado à direita e à esquerda.Esta noite. Os dois grupos cruzaram-se e saudaram-se cortesmente. 26 27 Pouco depois. que tão veementemente se fechara. com uma indiferença real.. que sem dúvida provinha de uma espera em vão. no parapeito. Cauvignac chegava à margem esquerda do Dor-donha. O forasteiro nada respondeu. "Ah! ." .Vamos. . amarrotavam com impaciência umas luvas de camurça bordadas nas costuras.. momentos há em que me parece que enlouqueço! Viva o duque d’Épernon e a guerra civil!. ou afectada. de que viveria eu?. vestido de preto.. justamente no momento em que o velho gentil-homem lhe mandava Ferguzon e os seus cinco bandidos. apoiou os cotovelos um jovem de dezasseis a dezoito anos.. e. os folhos bordados da mesma.. e. caso o forasteiro fizesse o mais pequeno movimento suspeito. Com . os quatro homens do desconhecido. o velho gentil-homem embrenhou-se com a sua escolta na mata que se estendia das praias do rio à estrada real. tomou a vereda que desembocava em Ison. voltando as costas ao mancebo. 29 Dada a impaciência em que estava. Na verdade. E terminada a guerra civil. no barco de passagem de Ison. O mancebo. o que denunciava serem de raça nobre. falando consigo. levantou então a cabeça para segui-lo com os olhos. ficando em breve absorto nessa leitura. à frente do seu "exército".recordou Cauvignac. elegantes e cheias. prestes a disparar. barqueiro. estava naquele momento ensombrado por um certo ar de mau humor.murmurou Cauvignac. mas este nem sequer se dignou criticar a desconfiança de que era objecto. que eram de cambraia fina. Mas uma vez morto o duque d’Épernon. depois do que cada um chegou ao ponto onde era aguardado. camisa de punhos. de tez branca.Quando me lembro que só de mim depende deixar livre a sucessão do governador da Guiena. Haverá porém que dizer que todo este gracioso conjunto. que talvez receasse qualquer traição. de que me serviria o seu papel assinado em branco?. ao mesmo tempo que afagava a coronha da pistola. e até não deu mostras de o ter ouvido. e pôr termo à guerra civil!. e conduzir para a margem direita. batia com as luvas na mão esquerda. com uma magnífica pluma azul. um chapéu pardo. visto que o mancebo interrogava com os seus atentos olhos a estrada. adornadas de fitas.. cintilante de reflexos dourados.Não se esqueça do momento aprazado . Não quis mostrar-se menos pontual do que ele. às oito horas. como então usavam. a mesma janela da estalagem do senhor Biscarros. já mergulhada ao longe na bruma da noite. e sobrancelhas pretas. o qual devia fazer do mancebo um dos mais encantadores cavaleiros que se pudessem ver. Então. o dedo sempre no gatilho da pistola... sombreava-lhe o comprido cabelo. toca a remar! E apressemo-nos a chegar à outra margem: é necessário que este digno senhor não tenha de esperar muito tempo pela sua escolta. . . lábios rosados. abriu-se de novo. As pequenas mãos. com precaução. que de forma maravilhosa emolduravam um rosto oval.a um bosquezinho que se prolongava até à estrada. saíam altaneiramente do casacão e caíam ondulando sobre as calças. e Cauvignac. III PASSADA meia hora sobre a cena que acabámos de referir.

parecendo-lhe ouvir ao longe passos de cavalos. pois que sem dúvida poderá vir ou deixar de vir. evidentemente que o cavaleiro oculto na mata não era o companheiro que esperava. apeou-se por seu turno.Eilo que chega! Deus seja louvado! Com efeito. . o mesmo mosquete brilhante. .Contudo. mas é um hábito muito mau fazer esperar tanto tempo. ele não costuma fazer-se esperar. como se quisesse distrair-se da sua impaciência. voltou apressadamente para a janela. que vinte anos mais tarde Boileau poria em verso. Ao lado do chapéu cintilava um ponto luminoso: era a extremidade do cano do mosquete.Bem sabe que não ceio só.Não há sabedoria. ranger as botas 30 no sobrado retumbante. que acabava de depenar as perdizes. o recém-chegado tomou à direita. e. o mesmo manejo do cavalo. .E a mim não só me causa espanto. E sobre este axioma. que . Então. senhor. faça o que quiser . fez. . através dos ramos desviados com cautela.não pretendo censurar o seu amigo.Não haverá tempo para temperá-lo.Tire-o do espeto. o jovem recolheu ao seu quarto. além da mata onde cantava o rouxinol. reflectido no cano de um mosquete.o barulho que fazia. . foi anichar-se atrás de um rochedo.Nesse caso. o observador avistou.Ah! senhor . poderá servir a ceia. meu amigo.Entrego o caso à sua suprema sabedoria. sem dúvida devido à sua preocupação. e ficou à espera.Então arrefecerá. e que espero um companheiro .respondeu o estalajadeiro . disse: . . uma casaca esbranquiçada. e. que o nosso observador não pôde ouvir devido à distância. o mancebo divisava o chapéu por cima do rochedo. o estalajadeiro. entrou na mata. prova certa de que o cavaleiro se apeara. apesar do seu mau humor. O mancebo deixou-se ficar pensativo à janela. Do ponto elevado em que estava. tirando o barrete. . Passado um momento. o senhor Biscarros tornou a entrar na estalagem. O recém-chegado dirigiu ao primeiro algumas palavras. depois. . . não podendo. Em breve um segundo chapéu surgiu na curva da estrada. . ainda que fosse a do rei Salomão .exclamou.A que horas quer cear. . e a expressão de impaciência que enrugava o seu expressivo rosto deu lugar a uma máscara de curiosidade. A mesma casaca clara.respondeu Biscarros . sacudindo dolorosamente a cabeça. e em breve o seu chapéu se sumiu. e o fulgor de um dos últimos raios de sol no ocaso.retorquiu o mancebo. deixar de sorrir pelo desespero em que via o estalajadeiro. e. levantou a cabeça. por um momento. e muito me surpreende uma tal tardança. mas ficou muito surpreendido por esperar em vão que o cavaleiro desembocasse na estrada.concluiu o mancebo. embrenhou-se no bosque paralelo à mata. viu aparecer a cabeça de um cavaleiro. meu cavaleiro? Pois já só se esperam as suas ordens para ser servido.Enfim! . em consequência das informações que decerto lhe deu o companheiro. não ligara a mínima importância. Um sentimento de vago terror se apossou do espírito do gentil-homem. como bem lhe aprouver.Ponha outro assado ao lume. o jovem recuou de maneira a que o não vissem. .que possa tornar tragável um jantar requentado. . mas muito me aflige: queimarse-á o assado. a cujos acentos melodiosos o mancebo.Quando o vir chegar. .

na suposição de que Richon chegue." E o jovem deu outro passo à retaguarda. e não a SaintAndré-de-Cubzac. No momento em que o mancebo concluía mentalmente esta série de conjecturas. vou a Libourne. abandonando pouco a pouco as janelas.. a quem só falavam com o chapéu na mão. passasse diante da estalagem. pelo menos probabilidades. Se o meu velho Pompeu aqui estivesse. não passo por onde aqueles tratantes estão emboscados. inclinou-se por um momento. o andar térreo da casa parecia sumir-se na escuridão. Dir-se-ia que o dia se prolongava para iluminar esta cena. tendo em conta o ardor de que dava mostras. O outro. e na qual o mancebo não teria reparado não fora esta circunstância. que a brisa da tarde levantava. e sobre esses indícios podiam estabelecer-se. acenderam repentinamente milhares de rubis nas vidraças de uma linda casa situada a uns cem passos do rio. havia um número suficiente de indicios. Mas.olhava para esta cena ocultando-se cada vez mais. a cuja varanda uma mulher se apresentara momentaneamente. Era portanto viável que a mulher e os homens esperassem a mesma pessoa. depois de ter refulgido por um momento num feixe de frechas de ouro que servia de grimpa. à medida que ia baixando. Mas. sim. pela minha fé! são dois homens mais.. Este reforce de luz desde logo deu a conhecer que os olhos dos espias se dirigiam alternativamente para a entrada da aldeia e para a pequena casa dos vidros refulgentes. e que. só um deles trazia casaca clara... e de que 31 eu possa pôr-me a caminho esta noite. isto tem toda a aparência de uma emboscada!. Para qualquer espírito dotado de mediana inteligência.. por conseguinte. porque os últimos raios de sol. Era também provável que a pessoa por quem esperavam viesse da aldeia e. com receio sem dúvida de ser vista. mas com intenções muito diversas.será a mim e aos mil luíses que levo comigo que quererão lançar mão?. uma vez que estava oculta entre os ramos de uma densa mata. e a luz.. da mesma forma que a própria mata se situava a meio caminho entre a estalagem e a casa.. "Oh! oh! . Por fim.. tendo-se aberto uma das janelas iluminadas. adornado com uma pluma branca. que se encandeavam umas nas outras. neste momento surgiam outros dois cavaleiros na mesma curva da estrada. era provável que o cavaleiro da pluma branca fosse o chefe dos cavaleiros de casacas esbranquiçadas. o Sol baixava para além da montanha. consultá-lo-ia.perguntou ele a si próprio . vêm juntar-se aos outros dois. erguendo-se sobre os estribos para ver mais ao longe. Desta vez.. uma mulher apresentou-se ao balcão.. porquanto. Finalmente. Olá.e sem dúvida alguma andava à espreita por sua própria conta... Ao mesmo tempo que se recolhia. como se esperasse alguém. montado num possante cavalo preto. rompendo por entre uma daquelas densas brumas que às vezes se estendem de um modo tão pitoresco no horizonte. Na verdade. este chefe tivesse ciúmes . usava o chapéu agaloado.. senão certezas. por consequência. se não me engano.. Provável seria que aqueles homens vigiavam a pequena casa isolada. e logo se recolheu. subia ao telhado de ardósias e desaparecia de todo.. situada a meio caminho entre a aldeia e a mata. e debaixo deste capote. e embuçado num amplo capote. porém. via-se refulgir um rico bordado numa sobrecasaca de cor nacarada. não.. a porta do quarto abriu- . e que os das casacas pareciam ter o maior respeito ao da pluma branca.

recebe os pratos no vestíbulo.Mas hoje . porque se apresenta como uma sombra consciente da autoridade dos seus direitos.Viu alguma vez essas sombras? . na realidade..disse o jovem. sorrindo .vem visitar de vez em quando.Haverá uns dois meses. . a quem a sombra do primeiro marido . já que o seu companheiro tanto tem tardado. porque sai raríssimas vezes. Vejamos. sem dar tempo àquele que tão a propósito entrava no seu quarto para que lhe expusesse o motivo da sua visita (motivo que ele não deixava de adivinhar) . A outra. se acaso não é indiscreta a minha pergunta. mas só passam à noite. vive retirada de todo. .perguntou ele .Uma jovem senhora. Uma pequena aia. respondeu com um sorriso que tentava impregnar malícia: . que notou de especial no porte das duas sombras? .e esta. que se diz viúva. e sempre coberta com um véu.Oh! estará pronta. .. . coçando a testa. depois do sol-posto. e era para ela que preparava as codornizes e as perdizes que me viu depenar.Para as oito. e creio que há dois meses a esta parte ninguém pode gabar-se de a ter visto. cumpre-me dizê-lo. a quem pertence a pequena casa que se vê lá em baixo. visto que nunca se apresentam ao mesmo tempo. e diga-me. é mais tímida.Sem dúvida a uma das suas sombras de que já falei. portanto. e no mesmo instante bate com a porta nas ventas do moço. . Subi apenas para lhe falar da ceia de vossa senhoria. Quanto ao resto.Uma é a de um homem de sessenta a sessenta e cinco anos.se. O estalajadeiro seguiu com os olhos a direcção do dedo e.. se tem qualquer razão para desejar o isolamento.E a quem dá ela de cear? . quer deseje simplesmente esconder alguém. A si.perguntou o mancebo. .E para que horas lhe ordenaram que aprontasse a ceia de hoje? .Pela minha fé! Ora a um. é a de um mancebo de vinte e seis a vinte e oito anos . perder tempo. .. logo se vê que é um bom observador.venha cá. E por isso juraria que é a do segundo marido. puxando por um belo relógio que já por diferentes vezes havia consultado. vem todas as manhãs informar-me acerca das iguarias que pretende para o dia: lá se lhe levam. antes que seja dia.afirmou o mancebo. senhor.Mesmo assim tenho a certeza de que as distinguiu.Caro patrão .. ou de madrugada. completamente. sossegue a esse respeito.E desde quando . há um banquete. e tem de todo em tudo os ares 34 de uma alma que anda penando.Não pode. paga generosamente a conta. . pois assim que abre a boca. meu caro Biscarros. . Em tudo isto apenas um reparo: as duas sombras devem provavelmente estar combinadas. Esta noite.São sete e meia . muito linda. 32 33 O mancebo corou. e entrou o senhor Biscarros.. e para lhe dizer que recomecei a confeccionála. por exemplo.Sim. ora a outro. quer deseje ocultar a sua pessoa. e parece-me ser a do primeiro marido. como um ponto branco no meio dos olmos e dos sicômoros. .quem habita essa casa? .e talvez que também a do segundo . Agora. .habita a formosa viúva essa casa solitária e tão cómoda para as aparições? .

e já que confia em mim. com toda a probabilidade. vinha um lacaio.pensou o mancebo. de boas cores. de terna poesia. ouviram-se à sua esquerda os passos de um cavalo. cujo curto capote.volveu o estalajadeiro . completavam um perfeito cavaleiro.trate de arranjar as coisas de modo a que não chegue aqui antes que se tenha passado uma hora. segundo as leis da elegância que estavam em vigor na corte de França. e os homens do bosque propõem-se interceptar o visitante antes que este tenha tempo de bater à porta.tudo compreendo. pelo contrário. o ruído de armar os mosquetes feriu-lhe por três vezes os ouvidos e fez-lhe estremecer o coração. divulgado e posto na moda pelo senhor Gastão de Orleães. De longe. com toda a curiosidade. como temos de conversar. um ligeiro assobiar. a fim de ver se descobria o homem a quem este ruído mortífero ameaçava. " viu. a que o jovem correspondeu com um ligeiro aceno de cabeça. bigodes negros e delicados. montado num formoso cavalo. senhor . bizarro e ufano. com ar triunfador. e de forte orgulho. para um movimento que tinha toda a aparência de agressão.disse o jovem cavaleiro. não pôde deixar de estremecer ao pensar que os dois distintos homens que se aproximavam tão descuidados e com tamanha segurança. dentes finos e brancos. se a ceia não estiver pronta. aparecer. que já então começava a dar o tom a todas as outras cortes da Europa. . como que a justificar as previsões do sagaz observador. um belo mancebo. Ao mesmo tempo. Cerca de cinquenta passos atrás dele. pareceu-lhe que uns desviavam os arbustos e outros levantavam as cabeças a fim de olharem por cima do rochedo.Preste-me atenção. a examinar a atitude dos homens emboscados. uns e outros. No mesmo instante. ocupando novamente. Apesar de a noite começar a confundir os objectos numa meia escuridade. o senhor Biscarros fez uma profunda vénia. os olhos do mancebo volveram-se com a 35 rapidez do raio. estiver pronta. sem dúvida demasiado jovem para assistir imóvel a uma cena semelhante àquela de que ia ser testemunha. o seu posto na janela . boca um tanto aberta pelo hábito de sorrir. muito afectado e emproado. conversaremos antes. olhos ardentes. que parecia ocupar entre os criados uma distinção tão marcada como a do respectivo amo entre os gentis-homens. Vista de mais perto. meu amigo . esta figura parecia cheia de elegância. O formoso adolescente que se conservava à janela da estalagem. e saiu. "E agora .Na verdade. esteja certo de que ficará satisfeito.não se atormente por causa da nossa ceia. Voltou-se então rapidamente para o lado de Libourne. Dito isto. forrado de cetim branco. conversaremos depois. era composta por um rosto regular e mimoso. logo que chegassem à emboscada onde os . pois ainda que a pessoa por quem espero chegasse. semelhante ao dos pintassilgos daquela época." Ao mesmo tempo. Um elegante pingalim. . deixava elegantemente descoberto o ombro direito.é um gentil-homem muito condescendente. no tom de um homem para quem o grave negócio de uma ceia servida a hora certa é coisa de pouca monta . preparando-se. caminhando a trote. A senhora espera alguém que deve vir de Libourne. se. e montado num cavalo cuja passada regulava pela do cavalo do primeiro cavaleiro. seriam mortos 36 a tiro.

continuou o jovem. pois tenho de comunicar-lhe algo bastante importante.Oh!-volveu o viajante .. um dos quais deve ser o chefe.estranhou o passageiro .. bradou: . . .O que há de novo. . e ao ver o jovem à janela.Mas. . assusta-me!. Ah! querem arcabuzarme. senhor! Peço-lhe que pare. Torne a pôr o chapéu. senhor. e que é a mim quem veio procurar nesta estalagem.continuou o mancebo. Chegue-se mais perto. quando há pouco desembocou da aldeia. senhor . porque é necessário que nos julguem conhecidos de há muito.Adivinhei-o. E como o cavaleiro ia passar diante da porta da estalagem sem ao menos olhar para o lado onde se encontrava. ..esperavam. a uma resolução irresistível. Muito bem. apearem-se e ocultarem-se.E se não estivesse tão escuro. não é assim?.fez o cavaleiro. para levaram a efeito essa bela operação? ... mas reconhecendo pelo gesto daquele que lhe falara que se tratava de um gentil-homem de belo porte e boa fisionomia.. quatro homens estão emboscados à sua espera.Não faça parar o seu cavalo. e o amor ao próximo. onde a estrada faz um cotovelo.. talvez que os pudesse ver e reconhecer.. dirigindo-se ao elegante viajante. senhor . uns atrás das árvores...Esse chefe não parece mais idoso do que os outros?... o cavaleiro ergueu a cabeça.. . Finalmente.. quem lhe disse que me dirigia àquela casa.Pelo contrário: aproxime-se de mim sem afectação e como se me conhecesse.. .Sim.Ah!. . . Estenda-me a mão. O cavaleiro fez um aceno. mais perto ainda. pois se tal fizer está perdido. deteve o cavalo com um movimento de mão de que não desdenharia o melhor cavaleiro. e..disse. outros para além dos rochedos.Olá. senhor .Mas então que novidade há? Na verdade. sorrindo. um rápido combate pareceu ter lugar no ânimo do jovem. . que por seu turno começava a assustar-se.. .Sim.-exclamou o cavaleiro.É um adivinho muito encantador. E quanto são eles. cravando os olhos no pequeno e pálido mancebo.Aproxime-se ainda mais.continuou o desconhecido da janela pois o que tenho que dizer-lhe não pode ser dito em voz alta. . Encaminha-se para aquela casinha onde se vê brilhar luz. Mas ao senhor. não passe desta estalagem....Aqui me tem às suas ordens.Essa agora!.Vi-os chegar uns atrás dos outros. . ali. entre a timidez da idade. . . e que era a mim que assim espreitavam? . é como lhe digo . Por fim.. Estou encantado em vê-lo! Agora. O cavaleiro hesitou um momento. naquele bosque sombrio.. debruçou-se da janela.Está bem certo disso?.Não tardará a compreender.. 37 . Ouvindo a voz e estas palavras.disse ele. . eu agradeço-lho. . ouvi-os carregarem os mosquetes. . cedendo a um súbito impulso. cubra-se.. o cavaleiro. Entretanto. Então.Em que posso servilo? . . . senhor. .Mas no caminho dessa casa.não tenho necessidade de reconhecê-los: sei muito bem quem são esses homens. tanto quanto pude julgar daqui. venceu o sentimento generoso. hem?. e adiantou-se sorrindo..não posso compreender. isso mesmo. tirou o chapéu.Quatro. o mancebo. senhor. .

Ah! senhor . mas diga-me o seu parecer.Não. o serviço que me rendeu é de suma importância.. como se quisesse certificar-se de que as suas pistolas estavam em bom estado.. E os que o acompanhavam. mandei-o ao encontro de uma pessoa por quem espero.Tem armas? . que ao ver parar o amo.. e. . Entre. peço-lhe desculpa . sabe o que deveria fazer?. portanto.Como?.Curvado?.. tanto a eles.Castorin! . .Senhor. mas sim da riqueza. pois. voltando-se para o lacaio. qual era o respectivo trajo? . capote pardo. fizera por sua vez alto conservando-se a certa distância: . Sim. . senhor. .exclamou o jovem gentil-homem. mande aprontar a ceia. .disse ele. como ao seu chefe. .Pois bem. . Castorin desapareceu sob o portal. .Tem o seu lacaio? . .Com que fim? . em seguida. acompanhou estas últimas palavras com um movimento de cabeça que não admitia réplica. pluma branca no chapéu. depois de haver reflectido. .É isso. Em seguida. e a sorte sempre me reserva cada um! Mas não importa.Esquecia-me de que este assunto não lhe diz respeito. estendendo o braço como para o deter. são os seus porta-cacetes! Juro-lhe pela minha honra que lhe fico muito agradecido.. meu gentil-homem.. O cavaleiro seguiu Castorin um instante com os olhos. nenhum motivo posso ter de desconfiança a seu respeito. com um acento que provava não estar de modo algum disposto a tal expedição.exclamou o gentil-homem. pareceu tomar uma resolução. E.Mas. .disse o viajante.apesar de que nesta circunstância se não trate precisamente da honra. casaco bordado. quase tão espantado como o amo. portanto. ..Tem razão .. de antemão me sinto a isso absolutamente disposto. a fim de não levantar suspeita alguma àqueles que o esperam. E como o cavaleiro sem dúvida percebeu que Castorin se dispunha a replicar. E ao mesmo tempo levou a mão aos coldres. Castorin.Casacas pardas. tenho a minha espada.continuou.Está louco. justamente. e fazer-lhes pedir misericórdia.Não há que duvidar: é o duque d’Épernon!.exclamou o mancebo. e se o que eu faça puder serlhe útil. não posso deixar de lhe dar conta dos meus negócios. Apeou-se.De espáduas largas e arqueadas. gesto não comum. . .Que diz o senhor? .Sem dúvida. .não iremos mais longe. Lembre-se de que se trata da honra de uma mulher.Pois bem. senhor! .Digo que a menina Francineta ficará esta noite privada da honra de nos receber. . meu amigo . mas severo e imperioso. por ora. e. dirigindo-se ao lacaio que se lhe havia reunido .Com efeito..... E agora. em nome do céu! Não 38 39 vá arriscar a vida numa tal aventura! Entre antes na estalagem. .. mas não está agora aqui.. visto que ficamos na estalagem do Bezerro de Ouro. entrou . .Venha cá.condescendeu o cavaleiro . de orelha murcha e sem se atrever a dizer palavra. . e preparar uma cama para mim.Com o fim de cairmos sobre aqueles miseráveis.-exclamou Castorin.. deve ajudar-me num ataque repentino.

um modelo de caridade cristã. . senão vou denunciá-lo.. e em dois pulos chegou ao quarto do jovem gentil-homem. mas o duque veio transtornar o plano...Obrigado . ..o que faz com que em toda a Guiena seja tão execrada como ele. ..Não tem por certo razão! Nanon é uma senhora digna de ser conhecida de todos os modos. não me desdigo.Ah! desta vez. é decididamente feiticeiro! .Não conheço a menina de Lartigues. E para casa daquela mulher é que o senhor ia!. eu o confesso. digo-lhe um nome de baptismo. . sem que o outro lha estendesse . lançou-lhe a rédea do cavalo no braço.não há a mínima dúvida: é a si que devo a vida. que enfeitiçou o duque. tão espirituosa. Nanon de Lartigues?!. . .. As sobrancelhas do mancebo franziram-se..-Pobre Nanon!.. Quer que eu amanhã o apresente a ela?. mesmo que me tivesse lembrado. estupefacto. Nanon é uma mulher encantadora...A qual casa havia de ser? À casa aonde me dirigia. nem desejo conhecê-la de outro modo.. tão rica. muito fiel às suas promessas enquanto sente prazer em guardá-las. senão de nome. .negou o jovem . Mas.continuou o mancebo. mais tarde ou mais cedo. . além do que. . . não tinha meios de fazê-lo. Vê emboscarem-se uns tipos numa estrada. segundo dizem. .. confesso. Contanto que não lhe aconteça mal algum!.Nanon?. que sacudiu cordialmente.Pela minha fé. explique-se sem a mínima demora.Pelo que vejo. este.. e já que a nomeei. vendo abrir-se repentinamente a porta.Não.. tão compreensivo: chegaria a sua bondade ao ponto de mandar aviso à casa?.Ai de mim! . não podia deixar de ser Nanon de Lartigues.Não.Sim . exagera o favor que lhe prestei .disse em tom seco o jovem gentil-homem. e fazer com que o condenem à fogueira pelo Parlamento de Bordéus. espantado .disse o cavaleiro. aproximando-se alegremente do mancebo.admirou-se o passageiro.exclamou o mancebo. .não era preciso ser muito esperto para chegar a saber quem era a pessoa que queria ocultar: uma vez que nomeou o duque d’Épernon como seu rival. nada de modéstia! É como lhe digo. Eu devia cear com ela esta noite. Que remédio terá o duque. tão formosa.de tal não me lembrei. . que para lá ia. e adivinha o nome de família.Ah! peço-lhe desculpa . . Ainda não há mais de duas horas que aqui cheguei. enquanto o ama. e não conheço ninguém nesta casa. terá de concordar . fazendo um movimento de inquietação. que o recémchegado não pôde ver por causa da escuridão...queixou-se o viajante. à casa em que me esperam.Ah! senhor. senão voltar para AgenL. era evidente que se nomeasse uma Nanon.A qual casa? .emendou o mancebo.. diga-me. já que é tão amável. em tom de repreensão. e que governa o seu estado . e 41 capaz do mais extremoso afecto para com aquele a quem ama.. . é um 40 modelo de perspicácia.replicou o mancebo . senhor..mas eu acreditava que na sua idade.no portal atrás do lacaio.continuou o cavaleiro. Eu conheço o duque: é um homem sumamente brutal. Quanto a si. . senhor . recuando um passo. Vamos. pegando-lhe na mão. e adivinha a quem querem matar. deu mostras de sobressalto e susto.. .

.. . .Ah!.perguntou Canolles. famoso pelas aventuras amorosas do tempo. e que é amiga da princesa. porém. enlevado no encanto da sua conversa.O barão de Canolles!..Mas creio que vou aprendê-la consigo. .. . .. 43 . .Pois bem. Vejamos..Pela minha fé. Que quer?! Cada um tem o seu fadário. 42 . capitão no regimento de Navailles. a menina de Lartigues não deixa de ser mulher. se não estivesse aqui de passagem.-Tenho ouvido falar de uma linda viscondessa de Cambes.. .Felicito-o por isso.exclamou por seu turno o visconde.E má reputação. Na verdade. Conhece a arte da guerra.respondeu o visconde. olhando para o interlocutor com curiosidade total.Quanto a isso. nem de ter sido comprometida pelo senhor: e. portanto.. O mancebo pareceu hesitar.Julga que assim será? .E eu de boa vontade aceitaria o seu oferecimento. e por sua culpa. .atalhou o jovem. . quando a força é inútil. . seria suficientemente hábil e astuta para fazer com que o duque lhe pedisse perdão.Sou o visconde de Cambes. . se a ocasião me favorecer neste ponto. vejamos....Ainda não .disse com vivacidade o mancebo. nada sei.A estalagem tem duas portas.. Espero que. Apesar de.. é preferível empregar a astúcia. .Sem dúvida. cumpre-lhe tratar da segurança dela.. Fomos sem dúvida atraiçoados.fez o interlocutor.. ma apresentará.Oh! daqui não sairá sem que pelo menos eu saiba quem é o gentil cavaleiro que teve a bondade de salvar-me a vida. todavia. a mim. pois dizem ser uma senhora incomparável.Tem toda a liberdade. Eu sou o barão de Canolles.. e actualmente de licença. agrada-me a vida agitada. senhor. quer ajudar-me a urdir um plano?. a qual o senhor duque d’Épernon foi forçado a conceder-me em virtude de uma recomendação da menina de Lartigues.Sem dúvida que é na minha idade que normalmente se recebem semelhantes proposições .. Mas de que maneira? Explique-se. .Permitir-me-á.Que há uma senhora terrivelmente comprometida por sua causa. . eis a primeira lição: sabe que na guerra.Qual? . . rindo. que tem grandes propriedades nas vizinhanças de Bordéus. leviana. somente . . . pois.. meu jovem Nestor! Esquecia-me. e não me visse obrigado a pôr-me a caminho esta mesma noite. não é verdade?.De reputação. e que será o alvo da vingança do duque pelo desgosto que ela lhe dá. para viver como lhe apraz . senhor visconde.respondeu o visconde.. Para utilizar este meio.De muito boa vontade. . .É minha parenta . despertada por este nome..respondeu o visconde. e é muito provável que o duque saiba tudo. . .. passado. . jovem?. que lhe faça uma observação. dando-se conta do mau efeito produzido pelo seu rigor. dos meus deveres de gentil-homem. um instante: . se Nanon pudesse ser informada a tempo do que se passa.. que tem razão..Conhece-me?.

tanto mais que tenho suspeitas de que aquele tratante tem suas inteligências lá na casa..Ora. enquanto o visconde. entrando em casa por uma porta que também abre para o campo. saio por esta última. . e depois de haver olhado um momento. . Canolles tinha descido. mas oculte-se com todo o cuidado. iguarias que outrem que não ele ia talvez comer. numa tal circunstância. dizia consigo: "Como olha para mim!. pois.Sim. mas eu não farei mais do que entrar e sair. Canolles saiu do quarto. e não o vendo sair daqui.Na verdade que não sei onde tenho a cabeça! . tanta vergonha pudica. ..Mas lá em baixo há de tudo isso. ..Sim. . .. Agradeçolhe os seus bons conselhos. lhe serem destinadas . para as codornizes. inquieto e quase perturbado." Contudo.Surpreendê-lo-ão. .Bem vê que tudo se pode arranjar assim .Sem dúvida! O duque. tem tinta. Eis como tudo terminará. Vá lá. descrevo um semicírculo. .Você é um feiticeiro! . . Sem tirar os olhos do mancebo.Uma vez que entre. e desceu a escada. Castorin poderá desempenhar às mil maravilhas a missão. com ar alegre: . num arvoredo. o senhor duque .fez o visconde.. como homem profundamente magoado.Na verdade. será talvez morto à frente dela.pediu que o encaminhassem ao quarto que devia ter-lhe preparado Castorin.opôs-se Canolles. a outra para o campo.Mas sei-o eu muito bem.Quem a levará?.. o senhor é que a tem. papel e penas? . e vou para junto de Nanon.Não . o único risco que um lacaio corre é o de levar algumas pauladas. . . se a natureza dotou os seus belos olhos com a faculdade de ver à noite. pode distinguir. e outras iguarias. que não faço senão asneiras sobre asneiras! Não importa. . Vejo.Se não me engano.apesar de.. uma dá para a estrada real. ao passo que um gentil-homem arrisca a vida. a fim de não ser surpreendido.disse Canolles. não irei . que de táctica sabe como ninguém!. a quem desde alguns momentos examinava com singular tenacidade. que Biscarros ia arrumando num cesto colocado à cabeça do seu ajudante de cozinha. senhor visconde.Não posso já duvidar.. jovem .Na realidade.disse Canolles. continha tantas repreensões veladas. para que o surpreendam naquela casa! . E. na verdade. Este oh! foi pronunciado de tal forma.exclamou o visconde. . e apesar da escuridão cravou os seus penetrantes olhos no mancebo. acompanha-o um lacaio. não sei o que tenho esta noite. não tornará a sair.exclamou Canolles. O visconde sentiu todo o peso deste olhar.. que Canolles ficou subitamente comprometido. tão suave delicadeza. tem razão.Parece-me que uma carta. penas e papel. perdizes.respondeu o visconde. com entonação tão eloquente.. Ter-me-á ele reconhecido?. 44 .Dê-me licença .Nada disso! . que tinha o cotovelo encostado ao parapeito da janela.Sim.Não tenho razão.estranhou Canolles. . . .disse o visconde. Mas como a informarei sobre o que se passa? . .. . senhor barão. . e escreveu a Nanon a carta que se segue: Querida senhora: A cem passos da sua porta.. . sem a mínima dúvida. cansado de esperar.. Para ali mandou levar tinta.disse Canolles. e vou segui-los desde já.Há os armários. voltará para casa.Oh! .Para que me surpreendam?... e continuou.

por ter ao meu serviço um semelhante imbecil. sou um gentil-homem muito digno de lástima.objectou Castorin..Mas. a fim de que me aproveitasse da minha liberdade para vir vê-la. senhor.disse Castorin muito satisfeito . .Não. Fique.. . . com certo ar de importância.. Aconteça. relativamente aos seus amores com Francineta. senhor .posso. horrivelmente. A menina Francineta teve inteligência bastante para apreciar as minhas boas qualidades. Pegue neste bilhete.Sei como hei-de bater. quando a tormenta houver passado. Muito bem. e depois dê uma volta pelo prado. Canolles assinou este bilhete.pois não teria deixado de senti-lo ao desancar o senhor d’Épernon e os seus esbirros. que receava algum contratempo.Cada vez melhor... muito espantado com semelhante pergunta . . nem sequer eu sei. No Bezerro de Ouro dirlhe-ão que estrada segui. Dou-lhe dez minutos para ir e voltar.disse Castorin.Passará por tolo... se assim não acontecesse.. . mercê do qual não se deixa no campo um homem sem lhe dar entrada. chamando o seu lacaio: .Ah! nesse caso. senhor .. nem de fazer com que a senhora perca o seu descanso. . senhor . vá bater a essa porta. . Não tenho qualquer intenção a respeito dela.Em tal caso.volveu Castorin. Porém. Para onde vou.Não lhe pergunto o modo como bate: isso é coisa que pouco me importa. O que lhe peço não passa de uma simples informação. mas os seus interesses são-me mais caros do que o meu prazer . depois. o que acontecer. porém. sossegada a este respeito. tome a chamar o seu fugitivo.Venha cá..Eu sei muito bem o caminho. e se for surpreendido. Castorin . Portanto. com ar triunfante.Nada receie. 46 .Quer dizer que está como queria. depois. mastigue . senhor. sobretudo.respondeu Castorin. . senhor vilão ruim. no qual reinava toda a jactância do gascão que sabia muito bem o efeito que produziria na gascoa Nanon.Mas. Vá. pois. senhor. .e confesse-me ingenuamente em que posição está. para me fazer arcabuzar e para a comprometer. creia que sou todo seu e que.disse-lhe ele . porquanto deve ter algum modo especial de bater.Bata à porta que dá para o campo. e entregue esta carta à menina Francineta. Essa porta também não lhe deve ser desconhecida. Tome..não sei se devo. pois. . lhe sou muito fiel. não sinto o mínimo desejo 45 de perder a vida. esse caminho. .d’Épernon. e não terá a honra de ser meu rival. ... a coisa é muito diferente.... vou usufruir da licença que o fez assinar há dias. e até ignoro se vou para alguma parte. contanto que lhe dêem entrada. minha querida. Bato logo duas pancadas seguidas e por fim uma terceira. .. É preciso que esta carta seja entregue imediatamente à menina Nanon de Lartigues. que está à minha espera.. escondidos sob o seu disfarce. Alegro-me por saber que compreenderá o sacrifício que me imponho.e se não me abrirem a porta?.Pode partir imediatamente. . . pois. senhor. Quanto a mim.

o papel e engula-o; se assim o não fizer, mandarei cortar-lhe as orelhas, quando voltar. Castorin partiu como um raio. Chegando ao fundo da escada, porém, e em detrimento de todas as regras, meteu o bilhete no alto da sua bota. Depois, saiu pela porta do pátio, e, dando um largo rodeio, atravessando as moitas como uma raposa, saltando os fossos como um galgo, foi bater à porta referida, daquele modo especial que tentara explicar ao amo, e que tanta eficácia tinha, que a porta lhe foi aberta no mesmo instante. 47 Passados dez minutos, Castorin estava de regresso, sem que tivesse sofrido qualquer contrariedade, e informava o amo que o bilhete fora entregue nas belas mãos da menina Nanon. Canolles dedicara esses dez minutos a abrir a sua mala, a preparar o roupão, e a mandar pôr a mesa. Ouviu com visível satisfação o relatório de Castorin, foi dar uma volta pela cozinha, dando em voz alta as suas ordens para a noite e bocejando desmesuradamente, como homem que espera com impaciência o momento de se deitar. Esta manobra tinha por objectivo, caso d’Épernon o mandasse espreitar, dar-lhe a saber que o barão nunca tivera intenção de passar além da estalagem, onde, como simples e inofensivo passageiro, pedira ceia e pousada; e, com efeito, este plano obteve o resultado que o barão esperava: uma espécie de camponês, que pagou a despesa feita, levantou-se, e saiu, sem afectação e cantarolando uma redondilha. Canolles seguiu-o até à porta, e viu-o encaminhar-se para a mata; dez minutos depois, ouviu os passos de cavalos que se iam afastando. A emboscada fora levantada. O barão recolheu então ao seu quarto com o espírito absolutamente sossegado a respeito de Nanon; tratou apenas de passar a noite do modo mais divertido possível. Em consequência, ordenou a Castorin que preparasse as cartas e os dados, e que, feito isso, fosse perguntar ao visconde de Cambes se queria dar-lhe a honra de receber a sua visita. Castorin obedeceu, e encontrou no limiar do quarto um escudeiro, velho, de cabelos brancos, o qual, segurando a porta quase fechada, respondeu ao seu cumprimento em tom desabrido: - Isso por ora é impossível; o senhor visconde está ocupado. - Muito bem - disse Canolles. - Esperarei. E, como ouvia grande ruído do lado da cozinha, foi ver o que se passava naquela importante parte da casa, a fim de distrair-se. Era o pobre moço de cozinha, que voltava mais morto do que vivo. No sítio onde o caminho fazia cotovelo, fora detido por 48 quatro homens, que o haviam interrogado acerca da finalidade do seu passeio nocturno. Ao saberem que ia levar a ceia à senhora da casa isolada, haviam-lhe tirado o barrete, a vestia branca e o avental; o mais jovem desses quatro homens revestiu-se com as mesmas insígnias, colocou o cesto à cabeça, e encaminhou-se, em lugar do moço, para a pequena casa. Passados dez minutos, estava de volta, e falava em voz baixa com o homem que parecia ser o chefe da quadrilha. Então, restituíram ao moço de cozinha a vestia, o barrete e o avental; tornaram a pôr-lhe o cesto à cabeça, e, mandando-o voltar as costas, deram-lhe um pontapé, para lhe indicar o caminho que devia seguir. O pobre diabo não quis esperar mais: partiu às carreiras, e acabou por cair meio morto de susto no limiar da porta, onde acabavam de ajudá-lo a levantar-se.

Esta aventura era totalmente incompreensível para toda a gente, à excepção de Canolles: mas como este não tinha motivo algum para dar explicações, deixou o estalajadeiro, criados, criadas, cozinheiro, e moço de cozinha, fazerem as conjecturas que entendessem relativamente a este acontecimento, e enquanto todos disparatavam - e qual deles mais - subiu ao quarto do visconde; então, entendendo que a primeira pergunta, que dirigira por meio de Castorin, o dispensava de dar um segundo passo do mesmo género, abriu sem cerimónia a porta, e entrou. Uma mesa com luzes e dois talheres estava posta no meio do quarto, faltando apenas para completá-la os pratos que a deviam ornar. Canolles reparou nestes dois talheres, e daí tirou uma conclusão festiva. Contudo, dando com os olhos nele, o visconde levantou-se com um movimento tão arrebatado, que facilmente se percebia que a visita surpreendera o mancebo, e que, ao contrário do que ao entrar supusera, não fora destinado a Canolles segundo talher. Esta suspeita foi confirmada pelas primeiras palavras que lhe dirigiu o visconde: - Poderei saber, senhor barão - perguntou-lhe, adiantando-se 49 para ele em tom de cerimónia - a que nova circunstância devo a honra da sua visita? - A uma circunstância muito natural -respondeu Canolles. um tanto confuso perante esta desagradável recepção. - Apertou-me a fome; julguei que também por ela se sentiria apertado. Está só, eu também: quis ter a honra de convidá-lo a cear comigo. O visconde olhou para Canolles com uma desconfiança visível, e pareceu experimentar algum embaraço ao responder-lhe. - Pela minha honra! - disse Canolles a rir- dir-se-ia que tem medo!... Será acaso cavaleiro de Malta?... Tê-lo-ão destinado ao estado eclesiástico, ou tê-lo-á a sua família educado ins-pirando-lhe horror aos Canolles?... Vejamos, não quero perder a sua companhia de uma hora que podemos passar juntos, cada um do seu lado da mesa. - É-me impossível descer ao seu quarto, senhor barão. - Pois então, não desça ao meu quarto. Todavia, já que subi ao seu... - Mais impossível ainda, senhor. Espero alguém. Desta vez Canolles ficou embaraçado, sem saber o que responder. - Ah! espera alguém? - disse ele. - Sim, senhor. - Juro-lhe... - prosseguiu Canolles, passado um momento de silêncio- sim, juro-lhe, que quase preferia que me tivesse deixado continuar o meu caminho, expondo-me a todo e qualquer perigo que daí pudesse resultar, a vê-lo deitar a perder com tal recusa o favor que me fez, e do qual eu ainda não lhe apresentei os devidos agradecimentos. O mancebo corou, e aproximou-se de Canolles. - Peço-lhe desculpa, senhor - disse ele com voz trémula.- Vejo qual é a minha descortesia, e por isso, se não estivessem em causa negócios sérios, negócios de família que preciso de tratar com a pessoa que espero, teria muita honra, e gosto ao mesmo tempo, em admiti-lo, apesar de... 50 - Oh! acabe - volveu Canolles- seja o que for que me diga, decidi não me escandalizar.

- ...Apesar de o nosso conhecimento - continuou o jovem - ser um desses efeitos imprevistos do acaso, um desses encontros fortuitos, uma dessas relações efémeras... - E por que razão há-de ser assim? - perguntou Canolles. - Pelo contrário, é assim que se firmam duradouras e sinceras amizades; para tanto, nada mais é necessário do que considerar um favor da Providência aquilo que atribui ao acaso. - A Providência, senhor - replicou o visconde, rindo - quer que eu parta dentro de duas horas, e que, segundo todas as probabilidades, siga uma estrada absolutamente oposta à sua; fique portanto, certo do grande desgosto que tenho por não poder aceitar, conforme eu desejaria, a amizade que tão cordialmente me oferece e cujo valor muito aprecio. - É na realidade um rapaz muito singular- observou Canolles - e o impulso de generosidade deu-me ao princípio uma ideia muito diferente acerca do seu carácter. Mas enfim... faça-se como deseja; decerto não tenho o direito de ser exigente, pois que estou em dívida, e que fez em meu favor muito mais do que eu poderia esperar da parte de um desconhecido. Retirome, pois, para cear só; mas, na realidade, senhor visconde, isto não deixa de me custar muito: o monólogo não faz parte dos meus hábitos. E, com efeito, apesar de tudo quanto dissera e da resolução de retirarse, anunciada pelas suas palavras, Canolles ia-se deixando ficar; parecia que alguma coisa o havia pregado no lugar onde estava, sem que disso pudesse dar a si próprio uma razão; sentia-se atraído de um modo invencível para o visconde; mas este, pegando num castiçal, aproximou-se de Canolles, e com um sorriso amável, estendendo-lhe a mão, afirmou: - Senhor, seja como for, e por muito curta que tenha sido a nossa entrevista, creia que estou encantado em ter podido ser-lhe útil em alguma coisa. 51 Canolles viu nisto apenas o cumprimento; pegou na mão que o visconde lhe apresentava, a qual, em vez de corresponder à varonil e amigável pressão da sua, se retirou frouxa e trémula. Depois, compreendendo que, apesar de disfarçada com uma frase lisonjeira, a despedida que lhe fazia o mancebo não deixava por isso de ser uma despedida, retirou-se, bastante desgostoso, e sobretudo muito pensativo. À porta, encontrou o sorriso desdentado do velho criado, que pegou no castiçal que o visconde tinha na mão, acompanhou Canolles com toda a cerimónia até ao quarto, e tornou a subir no mesmo instante, reunindo-se ao amo, que o aguardava no alto da escada. - Que faz ele? - perguntou o visconde em voz baixa. - Creio que se resolve a cear só - respondeu Pompeu. - Então, não tornará a subir. - Pelo menos assim o espero. - Mande aprontar os cavalos, Pompeu; sempre se ganhará algum tempo com isto. Mas - ajuntou o visconde, aplicando o ouvido - que bulha é essa que ouço?... Dir-se-ia a voz do senhor Richon... - E a do senhor de Canolles. - Estão altercando, segundo me parece. - Pelo contrário, reconhecem-se; escute... - Contanto que Richon não vá falar!... - Oh! nada há que recear, é um homem muito circunspecto. - Caluda... Os dois calaram-se para escutar; e ouviu-se a voz de Canolles: - Dois talheres, senhor Biscarros! -gritava o barão.- Dois talheres! O

e sentando-se à sua mesa solitária . Richon escapuliu-se pela escada e subiu rapidamente os degraus. "Na realidade -rosnou Canolles. a tristeza apossa-se de mim. ele. Não sei como me sinto.respondeu Richon . já não a ceia. permitirá que me retire.Pelo que vejo.Não. . e no número destes inimigos seja necessário contar a maior parte dos historiadores tenho fastio. como foi isso? . com todos os diabos! Tal não permitirei! -exclamou Canolles. . o senhor Biscarros se via obrigado a IV ENQUANTO o barão de Canolles procurava inutilmente quem com ele ceasse. Ah! Que estúpido sou. conhece o visconde. .Como se chama ele? 52 . que o encaminhou para o quarto do visconde de Cambes.Que gentil-homem? . ou ceio eu consigo. a primeira ceia que havia sido e que. .. e cujos dois ferrolhos foram corridos para maior segurança. cuja porta se fechou depois de lhe dar entrada.Com efeito. por falta de novas provisões. a sua mão encontrou uma pequena mão. Mas enquanto Canolles se voltava para ver se esta ordem era executada. portanto. . Mas que é isso!?. Meteu-se-me na cabeça que cearia na companhia de alguém..Espera por mim. e eu E Canolles atacou filosoficamente preparada para o visconde de Cambes. ." . .. senhor barão? . Salvou-me a vida. Fecham-se lá em cima como quem conspira!. e. buscando debalde com os olhos o desaparecido Richon.... ..Sim. o que se passava em casa de Nanon. Na verdade. e contar-lhe-ei enquanto cearmos.Então quer cear só com aquele gentil-homem?. servir requentada. por quem conspiram eles? Será a favor daquele coadjutor? Dos príncipes? Do Parlamento? Do rei? Da rainha? De Mazarino? Ora! Conspirem contra quem 53 quiserem. está à espera de alguém. ..Olá Castorin! venha cá. senhor .. com efeito! Isto agora dá-me a explicação de tudo. Apesar de quanto tenham dito e escrito os seus inimigos.Se o conheço!. quero dar-lhe uma tunda.. . Chegado ao último.O visconde de Cambes... mande servir perdoo. ceio com ele. . . Castorin. ou ceia o senhor comigo. e.E então. dois talheres.Ceie comigo.Aquele que está lá em cima. .não sei que má sorte me persegue nesta maldita terra: uns correm atrás de mim como se estivesse empestado. Sou capaz de me embebedar esta noite como um soldadão alemão.Não. outros fogem de mim como do Diabo!. verifiquemos. perco o apetite.. e como estou atrasado...senhor Richon ceia comigo. cansado das suas infrutuosas diligências. se decidira por fim a cear sozinho. deite-me vinho no copo. entretanto.Quem? Ele?!. para mim é o mesmo.isso não é possível.. Senhor Biscarros.Não posso.

E. assumiam um aspecto simultaneamente pleno de sedução e de lucidez. todos os fogos aí reflexos. ou então. era ela quem na realidade governava esta bela província. mas pagavam-lhos em bela e corrente moeda. trigueira. dando a autoridade.tesouros. no seu . Passados seis meses de ligação com o governador de Guiena. distinguira com o olhar esta pequena burguesa. e a respeito de quem não deixaram de conceberse suspeitas que chegaram aos ouvidos de Catarina de Médicis . O duque d’Épernon. Será esta a explicação para a duração do seu reinado. tudo tinha o seu preço. porte ágil e airoso. Rainha por acaso. depois de uma defesa sustentada com toda a habilidade de um grande táctico. Em compensação pela reputação já perdida. ou emprego. a tenacidade invencível e a 55 profundidade dos intuitos. porém. ao serem transmitidas por uma voz vibrante na qual estava profundamente impresso o acento gascão. contudo. um emprego na magistratura. influências e honras. era nesta época uma encantadora criatura de vinte e cinco a vinte e seis anos. todavia. as mais graves deliberações. Consequentemente. fez deles um conjunto útil ao seu crédito e proveitoso à sua fortuna. e dela triunfara a muito custo. que fizera sentir ao seu vencedor todo o preço da vitória. bem longe de submeter o seu espírito a todos os caprichos : a todas as futilidades que marcam com loucos arabescos a trama macia e dourada de que ordinariamente se compõe a vida de uma mulher garrida. Nanon mandava criar determinado posto. Nanon era natural de Agen. risonha na aparência. vivas e frescas as cores. Nanon estava.o duque d’Épernon. filha de um simples advogado. de tudo se apoderou . que por detrás daquele olhar cheio de promessas voluptuosas e cintilante de vivos ardores. as suas insolências e os seus exageros o tinham feito odiar. pressentindo. nomeado governador da Guiena. que era o seu ídolo. Jogando com admirável destreza os diversos elementos de que dispunha. recebeu as visitas de Mazarino e dos primeiros senhores da corte. Um posto no exército. os agravos e ofensas que deles recebera.que dela se ocuparam. Foi rica. como a dos gatos. Antes pelo contrário. dura e largamente ponderadas na sua inquieta cabeça. e olhos muito negros. conforme lhe os quiserem examinar. que era necessário compensar por meio do abuso a provável brevidade do reinado. ao ver tal lascara rosada de feições finas e risonhas. cedendo uma ínfima parte de poder em benefício de 56 alguém. recuperava esse fragmento em outra espécie. comuns ao homem de Estado.de Nanon. Festiva à superfície. ou humilhado. se encobrisse a perseverança infatigável. fazendo pagar com usura aos que outrora a haviam ofendido. porquanto os homens. de pequena estatura. mas guardando para si o dinheiro. onde a sua arrogância. de tudo lançou mão. fez-se tirana por cálculo. Cada favor que Nanon fazia tinha o seu preço. Nanon arrebatara ao duque o poder e a liberdade. de modo que. ou então com algum rico e real presente. deu empregos. cuja córnea límpida raiava. estas eram as qualidades -ou os defeitos. filho do inseparável amigo de Henrique IV que seguia na sege real no momento em que a faca de Ravaillac feriu o monarca. reverso da medalha. Havia-o namorado. Ninguém teria adivinhado. tal era o espírito calculista e o coração ambicioso aos quais servia de invólucro um corpo cheio de elegância. com a sua subtil inteligência.

e quando o anel precioso passou do seu dedo para o de Nanon. arrastara consigo Nanon. não podia compreender que fosse preciso ser intrigante. apenas acessível à ambição. No dia seguinte. Quanto às intrigas amorosas de Nanon. Nanon. e talvez que um dia se saiba o motivo por que assim o fez. que. devia ser uma terrível inimiga. Os povos expulsam com pesar um tirano que lhes leva o seu ouro e que se vai rindo. derrotou os cálculos e a fiscalização da menina de Lartigues. Quer tivesse Canolles sido na verdade objecto do primeiro impulso amoroso daquele coração. Canolles quisera ser capitão. a amante. devia ser uma encantadora mulher. Ambos jovens. e mau grado alguns . hesitam em derrubar um inimigo a quem possa restar uma compensação. humilde discípula. ocupada por mais graves cuidados. precedido do seu pomposo acompanhamento de conquistas amorosas. Nanon cedeu à tormenta. O conhecimento de Nanon e de Canolles fizera-se do modo mais natural. e para isso convidou Canolles a falar-lhe em sítio combinado. Era a primeira vez que via Nanon. O que a vingança quer é uma ruína total. é uma prostração completa. E Canolles podia com alguma razão. não foi como preço da ambição satisfeita. as adiasse para mais tarde. Foi Nanon quem leu a carta: respondeu como costumava. praticava à distância a política do astuto e flexível italiano. coronel-geral da infantaria. para isso teve que escrever ao senhor d’Épernon. V QUANTO as razões para a residência de Nanon se situar perto da aldeia de . O cardeal atentou nesta mulher. Canolles escolheu entre as jóias da sua família um anel magnífico. Apesar de tudo isso. os seus próprios inimigos não haviam sido pródigos de escândalo para com ela. pouco se falava nas intrigas políticas da bela Nanon. Tenente no regimento de Navailles. mas nem por isso deixou de ficar concluído. crescer e ruir. mas Nanon. o poder do senhor d’Épernon. ofendida. formosos e espirituosos.pretenderem que ela se correspondia directamente com Mazarino. quer houvesse a prudência aconselhado aos seus predecessores uma discrição absoluta. tudo abalava em torno dela. tomara Mazarino por modelo e. nem sabia formar juízo a tal respeito. mas desta vez o vencedor Canolles. do mesmo modo que a lancha segue o navio. Admirou a pequena gascoa. que era um belo moço e rico. Canolles recebeu a sua patente de capitão. quer porque. sem cessar. decidida a de novo se erguer. mas como prenda do amor feliz. e que valeria cinco mil francos . dominado pelo seu amor-próprio pessoal e nacional.ódio.o que sempre era mais barato do que comprar uma companhia. Este o motivo por que ela vivia com uma certa segurança em cima de um vulcão que. era a primeira vez que Nanon o via. e ainda fez mais: não se lhe opôs. O próprio Canolles.e dirigiu-se ao lugar determinado. do negócio que tinham de tratar não se disse palavra. quando ela tivesse passado. quer porque o clamor do amor que o senhorD’Épernon lhe tinha. acreditar que 57 Nanon fora invencível antes da sua chegada. houvesse absorvido o ruído que podiam fazer outros amores secundários. Nanon de Lartigues tinha dois milhões de francos. com as suas vagas. A conferência passou-se em galanteios recíprocos. expulso de Bordéus num dia de cólera. vira o ódio popular subir como a maré. que ia engrandecendo e enriquecendo à força dos mesmos meios que o haviam feito primeiroministro e possuidor de uma fortuna de cinquenta milhões. julgando ser mais um negócio a tratar.que diziam estar mais bem informados .

se bem que a razão levasse a crer que não fosse possível ir mais além o descontentamento. que bem quisera fazer em pedaços a sege. e assim não se apartar demasiado de Matifou. e foi Canolles quem a salvou.a pequena casa de campo. a quem haviam concedido a honra de lhe incutir mau génio. a história no-lo dirá. Nanon. graças à sua licença. mas que a isso se não atrevia. para a qual o regimento de Navailles havia 59 fornecido a parte que lhe competia . como as aves que de longe vêem o aproximar da tempestade. de Longueville. para a populaça. informando-a de que partia para dar uma volta pela província. penetrou até ao quarto da jovem e a salvou do fogo. os acontecimentos principiavam a tomar uma gravidade assustadora: os príncipes de Conde. O duque d’Épernon. era detestado na Guiena. Nanon. no que empregaria uns oito dias.e decerto o recordamos. portanto. Aproveitou pois a partida do duque . desapareceu e tornou a esconder-se entre a folhagem. tornava-se iminente. da portinhola da sua sege.e saiu da cidade juntamente com Canolles. crescia sem cessar. Com efeito. e convertera-se na cópia de convite escrita pela mão de Cauvignac. incendiou-se a casa que ela ocupava na cidade.Matifou. havia visitado na véspera a linda reclusa.que ia dar uma volta pelo seu governo. O tumulto do povo expulsouos de Bordéus e impeliu-os para Agen.duas 60 linhas a Canolles. Canolles conseguiu uma licença para. terminar em sua casa alguns negócios de família. obteve-a para ter o direito de se afastar do regimento. ali se tornara execranda. Nanon enviara pelo recebedor -que era seu protegido. acompanhado por uma escolta de mil e duzentos homens. visto que apesar de Canolles se afastar dela o menos que lhe era possível. onde se combinou que Nanon ficaria enquanto não estivesse pronta uma casa em -Libourne. porém. Fingiu ser uma viúva que procurava retiro: desta maneira . A este convite se apressava o mancebo a acudir. que. como já dissemos. Então. onde a sua presença protectora era mais urgente do que nunca. Mas em Agen o tumulto repetiu-se. seria um milagre estar sempre em circunstâncias de a poder salvar. presos a 17 de Janeiro precedente e encerrados em Vincennes. segundo alegou. Uma catástrofe desejada por todos os partidos. que todos sabiam seguir o partido da corte. O bilhete original que continha aquelas duas linhas. ofereciam aos quatro ou cinco partidos em que então estava dividida a França. O senhor d’Épernon.a havia designado o estalajadeiro Biscarros. se conservava naqueles arredores. para ali aguardar. havia desaparecido nas mãos do mensageiro. o duque e Nanon escolheram -ou para melhor dizer: Canolles escolheu secretamente. Certa noite. um excelente pretexto para uma guerra civil. o qual. A impopularidade do duque d’Épernon. o desenrolar dos acontecimentos. Um dia. despistaram a carruagem dourada em que Nanon ia ter com o duque. olhando com desprezo. Nanon julgou que numa terceira tentativa os ageneses poderiam ser mais bem sucedidos. E mal ele seguira viagem. não sabiam em que ponto estavam. numa ponte. de Conti. obscura e ignorada. na estranha situação em que a França se encontrava. na realidade. que voltava a Agen. quando o visconde de Cambes o detivera a quatrocentos passos do . Nanon achou-se no rio. muito a propósito. Sem se saber como tal acontecera. e foi também Canolles quem.

uma pancada dada de um modo particular. e Nanon. fechou de novo a porta. por fim. que em tamanha harmonia estava com todos estes preparativos. que lhe mostrava. às duas almofadas bordadas. reconheceu o duque. Mais lesta do que o relâmpago. Depois. escutando o menor ruído. com o receio de que ainda não fosse ele. colocou ao pé do seu prato o talher de prata dourada e depois. com tristeza. e voltou à janela. e atirou com ele para o jardim. perdendo o duque d’Épernon. onde estava posta uma pequena mesa com dois talheres. arrancando-lho da mão. porém. e Nanon exclamou: . sem a mínima dúvida. dá um salto para a criada. que. Em primeiro lugar bateram à porta da frente. Nanon ficou meio morta com a leitura. Porém. por seu turno. Nanon esperava Canolles. e. O homem de capote vinha à frente. lançou mão do simples copo de cristal destinado para Canolles. tanto quanto podia ver no meio das trevas. ao seu encantador desalinho. desceu apressadamente os degraus da escada. perdia não só 61 toda a sua fortuna futura.É o senhor duque quem eu espero . Nanon lançou um olhar de desespero à mesa. correu ela mesma os ferrolhos. as duas cadeiras. Mas quase no mesmo instante caiu em si e um sorriso lhe deslizou pelos lábios. aos dois talheres. abre-se a porta. angustiada. era apenas o moço da cozinha que trazia a ceia. tendo na mão um bilhete. "Estou perdida" . como era mulher sagaz. cuja insolente alvura tanto sobressaía sobre o carmesim das cortinas de damasco e.e não o senhor de Canolles. Francineta quis abri-la. e chegou à porta no momento em que acabava de retumbar uma pancada grave e solene. Serve a ceia.Ei-lo aí! Todavia. à qual faltava o convidado. Uma segunda pancada. Verdade seja dita que muito amava Canolles. chegando a cada momento à janela. Nanon lançou os olhos à antecâmara e viu o falso mensageiro de Biscarros.isto é: consultando dez vezes em cada minuto o relógio. Contudo. que se ocultava por detrás da montanha para dar lugar às primeiras sombras da noite. lançando-se ao pescoço do homem de pluma branca. interrogando com os olhos o Sol. e com aquele rápido olhar que tão bem interpreta o pensamento das mulheres que assim se acham surpreendidas: . Nanon recomendou a Francineta que conservasse as viandas quentes. Portanto. mas Nanon segurou-lhe o braço. fixava os olhos no quarto de dormir. a ambição era um sentimento quase igual ao do amor e. O resto. a estrada vazia. tirou de um estojo o copo de ouro com as armas do duque. abre-o rapidamente. começou por apagar a vela.ponto fatal. Neste momento Francineta entrava com uma vela na mão. Passado um instante. já sabemos. e Francineta aparece no lumiar desta com ar consternado. vermelho e exuberante.disse ela . deixou-se ficar de pé e imóvel no meio do corredor. e ela mandou Francineta abrir. Era mais que tempo: quatro homens aproximavam-se da casa de onde já não distavam mais de uns vinte passos. como espera uma mulher que ama . para que não fosse vista a sua sombra e correu à janela. que se dispunha a fazer-lhe uma carranca das mais . empurrou-a para o lado. fria de terror mas com um sorriso composto à pressa. e lê. mas talvez que também a sua fortuna passada. A jovem senhora. vendo o papel.disse ela consigo mesma. nela. muda. retumbou na porta das traseiras.

está servido. colérico.Ora. O duque tornou a olhar para ela. olha para todos os lados com tanto cuidado. visto ser também o gosto da rainha.. senhor . dos dois talheres aos dois travesseiros. D’Épernon ficou estupefacto. será bom que nos expliquemos.Continuo a esperar as ordens de vossa senhoria . visto que anunciava que ficaria aqui..E essas duas almofadas? .. senhora? E esses esquisitos perfumes?. e aqueles dentes tão brancos teriam batido uns nos outros. menina.perguntou. . Estes perfumes procedem das almofadinhas de cueiro que meto nos armários. exclamou: . . . Nanon antevira tudo isto. No mesmo instante. .disse o duque. e esperava o resultado do exame com um sorriso.As ordens de minha senhoria . deixou-se abraçar.E esse elegante desalinho. portanto. os meus 63 sonhos nunca me enganam. e a vermelhidão da cólera subiu-lhe ao rosto. . Nestes se demoraram mais tempo.Peço-lhe que se explique.. que vossa senhoria afirma preferir a todas as outras. um idiota como aquele que Cyrano de Bergerac introduziu nas suas comédias.. pretendendo fazê-la passar por um sorriso irónico. com um sorriso irónico. porém.É o trajo que costumo usar quando espero por vossa senhoria. é que tive um sonho revelador de que. . se a angústia os não cerrasse. . sem todavia se retirarem de todo.Que se passa. .. opôs: . Ora. com uma graciosa reverência.Dar-se-á o caso que esqueceu alguma coisa a última vez que aqui veio. que deixava ver os seus dentes tão brancos como pérolas . meu querido duque? .Não o compreendo. preparar esta ceia para nós. Com a mão fez um sinal aos seus acólitos. Em tal caso.é que me explique qual é o motivo desta ceia.Esqueceu-me dizer-lhe que não sou pateta.Sim . . mas como as caricias de uma linda 62 mulher sempre são muito agradáveis. vamos cear. o meu sonho ter-me-ia enganado.continuou o duque. senhor .disse Nanon.O motivo.Então esperava-me?. E por ter esquecido de dizer-lho. Venha. e com passo grave e compassado. que se afastaram respeitosamente. meu querido duque.. volto em pessoa para provar-lho. voltaria hoje.. franzindo as sobrancelhas por seu rumo - . como já disse. O duque fez segunda careta.Ah! O meu sonho não me enganou!.Devagar. .volveu ele . apesar de se ter despedido de mim ontem. .. . Os olhos do duque fixaram-se nas duas cadeiras.. .Dar-se-á o caso de que vossa senhoria tem intenção de ir pernoitar a Libourne?. . no tom mais sereno e mais franco. .disse Nanon. ainda mais significativa do que a primeira.disse-lhe Nanon com uma alegria tão bem fingida que poderia julgar-se natural. O duque fez uma careta. lembrando-se das terríveis provas de que dispunha.com a única diferença de que o sorriso muito se assemelhava a uma crispação. . das duas cadeiras passaram aos dois talheres.ferozes. .disse Nanon. mandei.. e entrou só.

além disso.disse Nanon.Mas enfim: por mais anónima que seja.Ele?! -exclamou Nanon..Ele já veio! . Leia esta. .Oh! a explicação não é difícil: é uma consequência dos obséquios que nos fazem os nossos amigos de Agen. . a quem dá a honra gratuita de julgá-lo seu rival.. mas recebo cartas. um dos mais hábeis políticos do século. e estremeceu ao ver a escrita.parece-me que deseja passar revista aos armários. .disse o duque. . enfim.respondeu-lhe Nanon.. e a sua viagem serviu de fundamento a essa ridícula acusação. o que foi uma felicidade para ele.E eu que me julgava desembaraçada de ti.prosseguiu. e. "Ah! Rolando! Rolando!. e chegou até uns quatrocentos passos daqui. souberam que passaria por aqui.Oh! não será difícil. o golpe era terrível. murmurou ela num sussurro. não! graças a Deus. encolheu os ombros. 64 Nanon pegou a tremer no bilhete que lhe apresentava o duque. sei naturalmente que tenho de ser enganado. bastar-me-á mostrar-lhe este papel. Velho e rico.. e nela ficará para cear e passar a noite. que não deixa de ser interessante. lastimo-o.Será possível . senhor.Quer dizer que veio. nem mesmo acordado. Dar-se-á o caso de se ter tornado ciumento? O duque compôs um ar majestoso: .. e que parou na estalagem Bezerro de Ouro. porquanto outra ideia sem 65 dúvida suscitada pela carta que voltava e tornava a voltar na mão.disse ela . .." .. participa-se-lhe que o feliz rival é o senhor barão de Canolles.Eu.. tenha a indiscrição de dar crédito a cartas anónimas!?. ciumento!. . deve ir a sua casa esta tarde.Não sou sonhador . .Estou bem informado?. quero pelo menos provar-lhes que não deixo de conhecer o engano... .. porque..Isso não é verdade. pode esperar. O senhor de Canolles. há seis meses a esta parte senhor de grande familiaridade com a menina Nanon de Lartigues. não sou capaz de me tornar ridículo até tal ponto. esse senhor de Canolles. . Desta vez.Tenho muita curiosidade em sabê-lo. O duque tirou um papel da algibeira.E como lhes provará isso? . não está aqui. mas àqueles que me enganam. mas este estremecimento foi imperceptível. com ar triunfante. a ver se ele vem. que explicação dá a esta? . .Muito mal informado . Oh....Sim.Lastima-me?. para ir tratar de alguns negócios de família pediu-lhe uma licença que lhe concedeu.que um homem de génio. havia um acento de profunda verdade na exclamação da acusada. principiava a tomar forma no seu espírito. . . Nanon embatucou.E se a sua polícia política não é mais competente do que a sua polícia amorosa.Na minha idade já se não sonha. e leu em voz alta: O senhor duque d’Épernon saberá que um homem. Nanon compreendeu que o duque não estava tão seguro como ela crera ao princípio. . . Como se não quer que o senhor duque d’Épernon tenha a menor incerteza a este respeito.

o seu cérebro principiava a turbar-se. cada vez se tornava mais carregada. leia . . 66 VI NANON compreendeu que a mínima hesitação. tivera tempo para amadurecer no seu cérebro o plano que lhe inspirava a carta anónima.Expor um tal segredo à indiscrição de um confidente!. . Assim.. não poderia sustentar muito tempo a luta. O homem que se dirigiu ao rio Dor-donha fui eu mesmo. Nanon diligenciou sorrir. Está livre? Eu estou.. querida senhora. e deste modo é que recebi esta.. . . não tivesse um certo pós-escrito. pálido de furor. meu querido Canolles.. .A explicação seria boa .Nanon percebeu que a fisionomia do duque. . Por um esforço rápido de memória. num batel do rio Dor-donha.. ainda que de um segundo apenas.?! .murmurou intimamente Nanon. pois. ..disse ele. via perfeitamente que se o acaso não acudisse em seu socorro. . às seis horas da tarde..-exclamou o duque d’Épernon. mas sentia que as suas feições contraídas já não se prestavam a esta demonstração de serenidade. . cravando os olhos no duque . não teve outro remédio senão pegar na sua própria carta.Esta espécie de confidências.disse o duque. Em tal caso. Nanon tentou lembrar-se de que se continha naquela carta. . saberá . defronte da aldeia de Saint-Michel-la-Rivière. leu: Cearei às oito horas. tem a minha carta?. Mas não lhe foi possível. .Tem a carta nas mãos. recebe-se pessoalmente.disse ela. seja pontual. que entendi não haver pagamento demasiado caro para uma carta sua. . .. e. . . O corpo todo da jovem senhora arrepiou-se de susto.E teve a imprudência.Não posso deixar de assim o fazer.disse o duque.. Ah! senhor duque!. contentou-se em ler com a entoação mais firme que lhe foi possível: Tenho nas minhas mãos a carta da menina de Lartigues ao senhor de Canolles. .Ah!. "Eis a minha absolvição" .Sucede-me o mesmo que a si. senhora..continuou o duque .Ei-la aqui. . e reconheceu com indizível alegria que a não comprometiam completamente.Ora.repetiu..Parece-me que isto é bastante claro! .tem um segredo com o senhor de Canolles. a deitava a perder.As suas letras são para mim tão preciosas. que na turbação em que está se esqueceu de ler. na qual o encontro de que falo está aprazado para hoje à noite. . e tornar a lê-la. visto que não se lhe pode ocultar . apenas continha três linhas: Nanon lançou-lhe os olhos com avidez.que tenho um segredo com esse gentil-homem. . longe de se desenrugar.Então.disse o duque. acedendo ao convite do duque. que o senhor duque mandará entregar por um homem só. e nada receie relativamente ao nosso segredo. esqueci-me do conteúdo dessa carta.se a famosa carta que atribui aos seus amigos.Confessa-o?!.Um pós-escrito?.. Nanon recobrou o sorriso que debalde buscara alguns segundos antes...disse Nanon.Leia em voz alta . Além disso..Sim. Devolverei esta carta em troca de uma assinatura em branco..

fazendo o seu cálculo ..Continue..Que tomo pelo senhor de Canolles o mais terno interesse. . que tremia de raiva . com tranquilidade.. Nanon fez um aceno afirmativo com a cabeça.disse o duque. sorrindo-se. . antes de eu ter falado respondeu Nanon.todas as minhas preferências para com o senhor de Canolles. .... aquela licença recente. .Isto exige uma explicação! .continuou Nanon . não é difícil de adivinhar..Esperava.Oh!.exclamou o duque.. o senhor que aprofunda o que há de mais recôndito no coração .Haverá . senhor duque: deixarei de ser generosa.Quinze dias depois.disse Nanon... continue! .exclamou então o duque.Nada de juramentos. aquela patente de capitão que lhe obtive.. passado um momento: .Senhora.Por Deus. 69 .E atreve-se a declará-lo?.coisa alguma.Senhora. .disse o duque.Quinze dias depois .É um nobre e bravo gentil-homem.continuou Nanon. . . ..balbuciou ele.Sim. . eu esperava o senhor de Canolles .Esperava?.. a quem continuarei a conceder os favores seus. ah! muito bem!. . cuja imprudência castigarei cruelmente.disse Nanon. . e que lhe falta para dizer-me?. . Mas o seu estranho ciúme a isso me impele.Muito bem o sei. . sabe quem é o senhor de Canolles?.continuou Nanon ... .Fale. senhor duque.Oh! juro-lhe que tal não acontecerá! .. que já principiava a sentir-se impressionado pelas fantasias e contos que forjava a formosa gascoa... . Mas imitá-loei. .É para mim muito triste .Seu irmão?!. . de divulgar um tal segredo. .Que necessidade tenho de esperar mais tempo.É um presunçoso.E vou dar-lha .Em que época assinou aquela patente de capitão para o senhor de Canolles? . . . o dinheiro que lhe dei para uma viagem à Bretanha com o senhor de La Milleraye. as suas maneiras cruéis a isso me obrigam... senhora!.uns oito meses. .Porque -continuou Nanon..Com toda a franqueza.Em que época morreu meu pai? . o meu constante desvelo em servi-lo?.. Agora. . . e isto porque... abusa!. pelo menos.bradou o duque. . .porque é meu irmão! O duque d’Épernon deixou cair o braço.Ora bem: meu pai era um advogado que não deixava de ter alguma .Que o servirei até à morte. . e sem mais demora.. Depois. lançando mão com um movimento dramático ao braço do duque.ter de revelar a vergonha de outra mulher.isso já passa dos limites! . é possível.Não tem observado. as instâncias que tenho feito a respeito dele. . senhor duque! Espere que lhe tenha dito tudo.. . . acompanhado de um sorriso de triunfo.Porque é seu amante.. .continuou o duque..Parece-me que foi pouco mais ou menos na mesma data . pois.Que lhe tenho o mais extremoso afecto.

continuou Nanon.Isso é próprio de uma alma delicada .Porque só pela morte de meu pai vim a saber do vínculo que nos unia. . as minhas jóias e alfaias mais preciosas. desgraçada de mim! Atraiçoei o segredo de meu irmão.consentiu o duque. sorrindo-se.Diga de preferência: como se a meu irmão . amarrotando a carta.Muitas vezes lhe tenho querido contar esta história. porque este segredo estava depositado numa carta que o próprio barão me entregou. Não o conheço.Sim. mas como acontece que esta amizade da sua parte com o senhor de Canolles principiasse tão tarde? .Ah! sim ..Seja. 70 71 .Pobre Canolles! . . saiba que tenho de zangar-me consigo . . . .disse o duque. com aquele sorriso angélico que os demónios tão bem sabem compor. ainda antes do seu casamento. Ceemos..Sentemo-nos à mesa. mas que guardou com todo o cuidado na sua algibeira. .. As suas suspeitas. e durante uma viagem do senhor de Canolles. Vou desde já mandá-lo chamar ao Bezerro de Ouro. porém.Para que ele saiba que nada posso ocultar-lhe. . minha querida? .Ora. meu pai sempre fora formoso. a mãe do senhor de Canolles.continuou o duque . chamando-me sua irmã. tudo lhe disse.exclamou o duque.Serei discreto. e sempre me rogou e suplicou que poupasse a reputação de sua mãe.disse Nanon. no estado de desalento em que se achava..Ah! e fazia bem .e esse escrúpulo só o honra. . embora .dizia consigo Nanon ...E contudo -continuou Nanon.celebridade: há vinte e oito anos. e amanhã pela manhã mandaremos chamar Canolles ("Daqui até amanhã .perguntou o duque.terei ocasião de preveni-lo. .E onde está essa carta? . . obrigaram-me a falar. . ainda ele era moço.Mas porque se não apresentará aquele mancebo? Porque o não verei agora mesmo?. como muitas vezes acontece. O duque caiu de joelhos e beijou-lhe as lindas mãos. Apresentar-mo-á.. O amor.. E Nanon rompeu em lágrimas. a qual lhe haviam recusado porque ela era nobre e ele mecânico. porque os compreendia. tendo toda a certeza de que tudo faria em favor daquele a quem chamo em voz baixa meu irmão.replicou Nanon. . que fingiu deitar ao lume. enquanto os seus olhos elevados ao Céu. Respeitei os seus escrúpulos. e os meus papéis mais secretos?. que ainda vive..Malditos delatores: que monstros! .Não se lembra do incêndio que tudo devorou em minha casa.. lhe abandonava. .era a fortuna o que ele rejeitava..E porquê.Porque outrora gostava mais de estar a sós comigo.Diga antes: quão felizes somos todos! Quero que aquele querido Canolles seja indemnizado do tempo perdido. enternecido. como quem .Não há dúvida . Passando depois a outra ideia: .A senhora diz: desgraçada de mim! . E. mas ele sempre me deteve. chamou a si a emenda do erro da Natureza. . pareciam pedir a Deus perdão pelo perjúrio.Mais ainda: eu jurava que este mistério nunca seria revelado a pessoa alguma neste mundo. senhor duque. Compreende agora?. . e que desprezado o meu juramento. mas quero conhecê-lo. Desgraçada de mim! Faltei ao meu juramento.exclamou ela. que ela. e amá-lo-ei como se a meu filho. . .. para mais tarde pedir contas ao respectivo autor. Amava.assentiu o duque.") .

Mas isto separar-vos-ia um do outro. .ser-me-á permitido interessar-me por meu irmão junto do meu amigo? . ajuntou em voz surda: "Daqui até amanhã não a deixarei um só instante. promoção.Está pronto a fazer todos os serviços que se lhe indicarem. nada receie. Isso não é coisa tão fácil.. naquele mesmo dia de Bordéus. .Portanto . conforme o afirmou continuou o duque. e que foi da mãe dele..exclamou Nanon." . às maneiras do duque e ao carácter da ama.acentuou o duque. De perto. e. .ainda conserva alguma dúvida. e não encontrará meio de o informar de coisa alguma.ora da prisão dos príncipes. exile-o. trazia. Nanon viu que lhe era indispensável aniquilar este resto de desconfiança. e dar-lhe-ei as minhas instruções. 72 73 . o que lhe dera ocasião de prestar ao barão de Canolles o assinalável serviço a que nos referimos.. . . . na sua qualidade de camareira de confiança.. Contanto que conserve o amor do meu querido duque.Amanhã pela manhã mandá-lo-ei chamar. E foram ambos sentar-se à mesa.?. se isso for para bem dele. por si estranhado. ora do Parlamento de Bordéus. . protegê-lo-á. quando ocasionalmente fora testemunha dos preparativos hostis do senhor d’Épernon. visto que tem ciúmes dele. não é assim? .fez o duque.Oh!.... e às duas almofadas ..Sem a mínima dúvida ..Tudo quanto quiser: dinheiro. em tramas que davam cuidado. . vamos cear.continuou d’Épernon. foi ele quem me deu este magnífico anel.não precisa.Logo coronel?.Então. portanto. Havia uma semana que saíra de Paris. uma vez que dela lhe resulte proveito?.minha querida menina. mas de longe.disse Nanon. minha amiguinha . . de rostos risonhos. aos dois talheres. estendendo sobre ele a sua poderosa mão. e ceava em companhia do visconde.Sim .Oh! sim. muito habituada que estava. olhando de esguelha para Nanon. e não se inquiete a meu respeito. eu servi-lo-ia mal.Para isso seria preciso que tivesse feito algum serviço à causa de sua Majestade. que mais posso precisar para ser feliz. Que importa a separação. lançando os olhos já com mais serenidade às duas cadeiras. VII O cavaleiro que Canolles saudara com o nome de Richon havia subido ao primeiro andar da estalagem Bezerro de Ouro. que era o assunto do dia.Ora pois. nem? .. que era o rei naquele . Fá-lo-emos coronel.replicou o duque. ora do senhor de Mazarino. a não ser que seja feiticeira. E agora. está dito . Desterre-o. que era a potência daquela zona.. de tal forma que até Francineta.Uma comissão para a corte?!. .. .Oh! dinheiro .disse Nanon pousando o braço no ombro do duque .replicou o velho cortesão.... .. Era a ele quem o visconde esperava com impaciência. . notícias recentes sobre os meandros um tanto embrulhados que de Paris até Bordéus se urdiam naquele momento. promoção.Eu bem poderia encarregá-lo de uma comissão para a corte.Oh! quanto a isso. À medida que ia falando .disse o duque. e o duque completamente desenganado. .. acreditou mesmo que Nanon estava tranquilizada de todo.

. sorrindo.. .Crê. . mas sim de Bordéus.Sim . E atarefemo-nos a reuni-lo..Poderia tê-lo encontrado a poucos passos daqui . .. a propósito de dinheiro: recebeu o que lhe foi devido? Trata-se de uma pergunta que me foi muito recomendada. demonstradores da sua intrepidez. com o fim de surpreender Vincennes e apoderar-se dos príncipes. que apareciam debaixo dos compridos bigodes. Oh! as coisas vão tomando bom aspecto . portanto. visto que na corte suspeitam de que elas não se contentam com a feitura de requerimentos ao Parlamento. os olhos perspicazes.E onde quer que o tenha encontrado? Não venho de Agen. mas de certo faremos muita bulha. os dentes brancos e agudos.O duque d’Épernon?. sinais estes que faziam de Richon o protótipo do verdadeiro oficial bem sucedido..disse o visconde. O duque de Bouillon vai partir com igual número. o dinheiro.. . .Crê então.continuou Richon. Turenne promete fazer uma incursão até Paris. com a única diferença de que à mãe juntavam o título de viúva.. arregalando os olhos. terá uns trinta mil homens.E nada mais!.pude cobrar umas vinte mil libras. é vigiada. beneficiando dessa súbita surpresa.A dois tiros de mosquete desta estalagem.E em que situação se encontra ela? .perguntou o oficial. todo o seu exército do Norte.De quê? De um exército?.interrompeu o mancebo. e que maquinam alguma coisa de mais eficaz a favor dos príncipes. que este humilde oferecimento será bem recebido pela senhora princesa? . cujos olhos chamajeavam de contentamento ao ouvir a enumeração das forças que prometiam o triunfo do partido a que se vinculara. Richon. passado um instante . Sem a mínima dúvida.. a pretexto de os fazer assistir às exéquias do pai..replicou o visconde. .Conhece-o? . como sempre acontece. Portanto . Encara assim essa soma como bagatela. que ali tenho. . 76 Não esteja inquieto. senhor visconde?! Bem se vê que é milionário: fala com tamanho desprezo de uma tal quantia. para a Guiena. ao qual fará abandonar o serviço real.. se não maior. e num momento como este!.a senhora princesa está agora em Chantilly. . O senhor de La Rochefoucauld alistou quatro-centros gentishomens. com o maior cuidado.A muito custo -afirmou o visconde.. ..Muito bem! Eis o que me dá a explicação da presença do barão de Canolles na estalagem Bezerro de Ouro. não sei se da nossa obra recolheremos muito fruto... 75 Sabe-se que era deste modo que se designavam as duas duquesas de Conde.momento . assim como a sogra. não é nestes arredores que vive a formosa Nanon de Lartigues?. mas seremos mais ricos do que o rei. em ouro. Vinte mil libras! Não seremos tão ricos como Mazarino. .. .o mancebo observava em silêncio o rosto varonil e queimado. e nada mais. . .E não encontrou o duque d’Épernon?. ... . que precisamos dele?.É lá que ela o espera o mais brevemente possível.Ah! tem razão.. .E com reconhecimento: dar-lhe-á com que pagar a um exército.respondeu Richon. Desgraçadamente.Num verdadeiro desterro.

não lhe dei grande atenção.não tirava os olhos de mim. Tenho pena que siga o partido contrário. . antigo criado do dia.disse o visconde.. que ainda ontem se não ocupava mais que de vestidos. que exerce uma tal influência na capital. com aquela melancólica filosofia que de vez em quando se encontra nos homens de vigorosa têmpera Acaso somos nós assim tão cegos e tão circunspectos. E.. que todavia reinou três meses na Casa da Câmara?. o seu amigo. passado um momento de silêncio. Richon.. . enquanto eu não passo de um pobre plebeu.replicou o visconde .. o antigo criado do senhor de La .. afinal. eu mesmo. Enfim: será chefe de partido muito sério. ...respondeu Richon. Até poderia dizer que sou amigo dele.. na situação em que nos encontramos. Um vermilhão fugitivo deslizou como um meteoro pelas faces pálidas do visconde. ele disse-me duas palavras a esse respeito..Com efeito . a qual pus improvisando-me homem de guerra. que se ocupava do manejo dos títeres. o senhor duque de Enghien. deveria aproveitar-se desta circunstância para chamá-lo ao nosso partido. .Não se encontram todos os dias gentishomens do seu estofo... Será homem muito sério o coadjutor. o filho do moleiro senhor de La Rochefoucauld. . . Será mulher muito séria a senhora de Longueville. e que a primeira vez que vestir calções será talvez para alvoroçar toda a França?..Sim. contudo.disse ele. E. que faz e desfaz ministros a seu bel-prazer?.serei eu uma personagem muito grave?. 78 eu. Está certo de que não o reconheceu?.A quem? Ao barão? Sim. Sabe-o muito bem: o gascão nunca é medíocre ... o senhor barão de Canolles. Creio que não deixará de saber que livrei de ser espancado... eis de Angolema. que sossega e amotina Paris com uma palavra?.. Eu. é ao mesmo tempo um galanteador e um bravo capitão. Richon sorriu. que está em mãos das mulheres..Os plebeus como você. porém.. valem tanto como príncipes. de jóias e de diamantes?. se o senhor de Canolles não fosse de alta linhagem. . Será mulher muito séria a senhora princesa de Conde. já que o acaso o pôs em comunicação com ele. deu uma espada. ou nada vale. Tinha demasiada pressa de vir ter consigo. um espírito encantador e um grande coração. filho do moleiro de Angolema.opinou o visconde. . se levar a bem que o meu nome se siga a tantos nomes ilustres .. 77 .Pareceu-me muito fútil. Na realidade.Acredito piamente . Será homem sério aquele senhor de Beaufort... senhor.. o seu amigo.Folgazão e bom. . No amor. nós que manejamos com as nossas imprudentes mãos o facho da guerra civil como o faríamos com um círio?. Será mulher muito séria a senhora de Chevreuse.. que lhe deram o nome de rei das praças e mercados?. . eu.É um cavaleiro que me parece folgazão . a quem meu amo um escova e um capote. como na guerra. em vez de uma bravamente à cintura. ou talvez de algo ainda pior..Tem razão.Oh! meu Deus! . Aquele é de boa cepa...Não é coisa fácil reconhecer as pessoas a quem nunca se viu. deveria ter perguntado se ele não adivinhara quem sois.ou excelente. .

isto assemelha-se muito a um sonho. No tempo do outro cardeal.. agora pendendo do peito do filho. porém. . tal como lhe dizia.nesse dia . o seu cordão azul da Ordem do Espírito Santo e os olhos brilhantes como dois carbúnculos. não há dúvida . não ousaria pôr-me a caminho. .Por onde andou hoje. . e tenha de gritar aos meus soldados: "Fogo contra o rei da França!" .nesse dia. Disse isto no outro dia. Vivem todos numa esfera de onde os fogos de artilharia .disse Richon.disse o visconde.. mas defronte de mim. e ela concordou. O visconde fez um movimento de horror. tenho medo de fraquejar e de acabar por fazer fogo em sentido contrário. . todavia. e. . como a peste. que reúne quatrocentos ou quinhentos homens. porque teria posto em jogo a minha cabeça.continuou Richon . e que seja ele quem me fure a barriga.. E isso.Deixe-se disso.vos parecem simples fogos de artifício. só porque sirvo a princesa de Conde . que esta noite apertei com tamanho gosto a mão daquele bravo Canolles. que tudo encara pelo lado mais desfavorável? -perguntou-lhe o mancebo. eu o tomarei por uma realidade.Na verdade. Ei-lo que caminha pela rota das grandezas. contudo. senhor visconde.Sim. ei-lo que levanta uma companhia. .. e nele mergulha como no seu elemento natural. ser necessário que eu. não na retaguarda. que dele zomba igualmente?. pois não posso acompanhá-lo. aquele mesmo cordão azul que ainda estou vendo no peito do pai. governador de praça. Como bem vê. senhores!" Mas quando tiver de encarar. como as febres de todas as cores..desgraçados daqueles que o despertarem.que apesar de tudo eu me engane.. como se Deus lhe houvesse dado o direito de assim fazer. Não vê senão um mar de intrigas. ei-lo que vai ser coronel. e até um dia inteiro.. Richon . . sei-o bem.. .. mas seja de que maneira for .E nesse dia -ajuntou o visconde.recordou-se Richon.. às vezes torna-se necessária. .Ah! agora por falar nisso: terá de passar sem ela. com um estranho movimento de ombros.. meu querido Richon.Fui bravo quando o rei Luís XIII. Richon. . bradava com voz estridente e mascando o bigode:-"O rei vos vê.nada tenho a recear..A guerra civil é coisa triste. por exemplo senhor visconde.ajuntou o mancebo. jogando com elas. a sua alteza. o destino de um reino nas suas mãos.. .que me assusta: e se não tivesse a certeza de tê-lo a meu lado para proteger-me. vá amanhã enterrar-lhe a espada na barriga.. mas.continuou 79 Richon. adiante. por seu turno. uma hora. como a febre negra.A minha escolta. o rosto pálido. Ei-lo que chegará talvez a ponto de ter durante dez minutos. como a febre amarela.que nos matam . cujas vidas.que de mim zomba .Ah! não compreende o que é a guerra.A não ser .Mas não deve voltar comigo para Chantilly?. Que virá a ser?. talvez me não houvesse afoitado a tanto. para que haverá de querer persuadir-me de que semelhantes considerações são capazes de deter um homem como o senhor. abanando a cabeça . .. um dos mais bravos soldados do exército?. . a minha importância tanto tem crescido.e ele Mazarino. estendo a delicada mão ao partidário . vai arriscar. Richon. senhor visconde. . porquanto será um herói. . protegido pela sua escolta . conforme formos mais fortes ou mais fracos. Crê.Um herói ou um traidor. . .Só no caso de aqui não ser necessário para lá devia voltar: mas.. até ao dia em que alguma grande catástrofe venha despertar-me.Sim. feito capitão. é o que acontecerá.Rochefoucauld.

e encontrará algum mais poltrão ainda. quem tem consciência do perigo não se deixa surpreender. . a quem fará fugir.. não se porá à espreita da nossa partida?. (tanto melhor). é ser o senhor o portador. há soldados do rei.Contudo. quem sabe se não seria mal recebido. aconteça o que acontecer.Então. pois . .Não verão que tem medo.. em Chantilly contam consigo e . pode chegar a Monlieu. dando-uma gargalhada.Tanto melhor .pondere isto bem olhe que os príncipes perdem a paciência com grande facilidade. apresente-lhe as minhas desculpas acerca da minha incivilidade para com ele. Além disso. e antes que amanheça.Eu bem lhe disse. mas peço-lhe somente que espere até que me tenha posto a caminho. além 81 de que.E para cúmulo da desgraça . . a quem esta promessa pouco alento dava.Além disso -acrescentou Richon. tem mais necessidade do dinheiro do que de mim. sobretudo quando esperam dinheiro.E o nosso barão..Com razão o diz.. e tratarei de demorá-lo. Vou partir. seria muito capaz de segui-lo até ao fim do mundo. que é cem vezes mais temeroso do que eu?! Atravessar assim metade da França só. .Oh! senhor visconde -replicou Richon. Richon.lamentou-se o visconde . vou ter com ele.Fará o que lhe aprouver. . senhor visconde . Mas considerando bem. Não quero.Oh! neste momento faz o que nós acabámos de fazer .Não deixarei de fazer assim. levantando-se. acerca do qual parece que há algum projecto. .É para me alentar que me diz isso?. não é homem que se levante da mesa sem algum motivo poderoso. O visconde fez uma exclamação de susto.A noite há-de estar boa. por toda a parte. . . e ainda não estamos em guerra... .Ria.há um meio de tudo conciliar. mas eu não partirei. ... .disse ele..disse Richon. que parecia um herói. . e só sob essa condição dei a minha palavra. que tenha agravos comigo.tenho de partir durante a noite. Creio que sua alteza.. pelo que me diz. o meio mais seguro. mas não se fie muito nisso. . a rir. Cá para mim. . caso chegasse sem ele. Não é por causa do dinheiro que tem medo?. e como cumpre ser completamente bravo.. Mas fique sossegado. juro-lhe! Morreria de susto antes que chegasse! .Partir deste modo. Parta.Partir com aquele digno Pompeu..continuou Richon.disse Richon. eu o cumprimentarei da sua parte. . entendo que o seu barão não é para graças.Sem dúvida. .. . e recomende a Pompeu que carregue as pistolas.80 que recebi ordem formal da princesa para me não afastar dos arredores do forte. ainda que mais não fosse para medir a espada com a sua.Isso é o que julga . . caso o encontre algum dia em menos generosa disposição do que hoje estava.. ou quase só?!. E ainda que a ceia dele não valha tanto como a nossa.. .quer dizer: está ceando. ... sem si?!..Tem razão. Oh! não partirei. com afectada gravidade. quando entrei. A princesa prometeu-me que o senhor me acompanharia. . .Sim. guardo o dinheiro.. .volveu o visconde. mandálo-ei por três ou quatro homens de confiança. ria. Ora bem: deixe-me o dinheiro.Então não se lembra já da espada que tem pendente ao lado?.

Compreenda. .Mas se tem demasiado receio. Apresente os meus humildes obséquios à princesa. não tenho . o que é necessário transmitir-lhe não passa de duas palavras.Agradeço-lhe o seu bom desejo.respondeu o visconde. segurando-o pelo braço no . . é preciso partir. que não é por amor de mim que assim falo. pois. meu amigo. além disso. meu bom Pompeu. e sei que te farias matar antes que a mim chegassem. ...Veja .. mosquetes?. com um resto de angústia que o ar marcial de Pompeu não podia dissipar. ..Que dizes. Pompeu!?.. basta que tenham o cuidado de seguir a estrada real.Indo contigo... . pois isso vem muito a propósito. E não se esqueça das duas palavras que lhe disse: "Bordéus . 82 83 . . tudo está no devido lugar. . .Oh! oh! .Sem dúvida se esquece .Todo o caminho tem princípio e fim. que eu já vou ter contigo no mesmo instante.Vamos. .Não é possível. . enfiado.sentenciou Pompeu..assegurou o mancebo. e foi ferido na batalha de Corbie. E ouvidas estas duas palavras.Não. inchando o peito. .Não vejo uma só nuvem no céu!. . Richon -replicou o visconde.ordenou o visconde ao criado. se tenho! Acabo de recordar-me o mais importante. não tem nenhuma mensagem?. até à morte..disse Richon.. .disse Pompeu...Tem medo?...Sem dúvida. .Na perfeição. um velho soldado!.de que nunca deixa de ter tudo aprontado o homem que foi soldado toda a vida. e do senhor de La Rochefoucauld.Quando um homem combateu contra os espanhóis.. Vejamos: está tudo pronto? Pistolas. .rosnou Pompeu.Não há perigo algum. espadas. pode partir com toda a segurança. mas o caminho é longo . . meu bravo Pompeu. -respondeu Richon. .. Vai colocar este ouro na garupa do teu cavalo. pois.replicou Pompeu.. que nesse momento metia a cabeça pela abertura da porta. .Mas durante a noite poderemos enganar-nos no caminho. . tomando o peso dos alforjes.Quais? . . faz um luar magnífico. a qual estivera por abrir um tanto. não é assim? Ora. . .Ela saberá o que querem dizer?. Vamos. .Sim. senhor Richon.. Pompeu . Conheço-te bem. seria bom esperar até amanhã. dir-lhe-á que respondo por tudo.disse Pompeu. .Não se pode ter medo com semelhante companheiro! Boa viagem.. . sem dúvida .Diga-me.É uma quantia muito avultada para expô-la assim . porquanto o senhor visconde não deixa de ter alguns receios.E para sua alteza.. senhor visconde..Não seria fácil.Sim.Já se não tem medo de coisa nenhuma.O senhor decerto não repara que estamos ameaçados por uma horrorosa tempestade. .. previno-te disso...Bordéus . . diga-lhe que sou todo dela.. pelo menos assim o diz Richon. senhor.. .Olá.Luar! luar!..Sem dúvida.continuou Pompeu. .Oh! oh! partir!. .Qual! -volveu Richon. senhor visconde." Eu vou ter com o senhor de Canolles. Sim.Escreve-lhe? .respondeu o velho escudeiro ..

e professava. da lentidão do velho soldado. Portanto. saltou com ligeireza para cima do cavalo. por muito sóbrio que fosse. nenhuma dúvida havia de que todo aquele que tocasse em tão provocadora sobremesa. No momento em que Richon entrava no quarto de Canolles. na sua qualidade de huguenote (Canolles era de família protestante. Canolles nunca era insensível à fragância de um bom jantar.Quanto ao mais. Com efeito. atreveu-se a lançar uma tímida vista de olhos através da fenda luminosa de uma porta no andar térreo.se esse Canolles é tão bravo capitão e tão bom gentil-homem como me afirma. queijos picantes. recolheu-se ao quarto. queixou-se. sorrindo. dizemos nós. Deixou pois o partidário descer as escadas. meio tombado na cadeira. amêndoas. ou da Borgonha.momento em que punha o pé no primeiro degrau da escada . que. embuçando-se 84 num capote que Pompeu lhe pusera sobre os ombros. elevava-se. apagou as velas. ou porque receasse que Richon visse o súbito vermelhão que assomara ao rosto. na sua qualidade de huguenote. que levava a mala com uma negligência aparente. Richon olhou para o visconde com um tão singular sorriso. nem daquelas rolhas encarnadas. aos encantos da vista. no meio de dois diáfanos corpos. biscoitos. da Champanha. deixando passar alguns minutos. que haviam sido garrafas cheias. a fim de não dar lugar a que se suspeitasse o respectivo conteúdo. amarelas ou verdes. seguido de Pompeu. como costumava. lendo sem dúvida nos traços do partidário o que se passava no seu espírito. que vedam o mais puro sangue da Gasconha. Canolles não acreditasse na canonização daqueles piedosos solitários que haviam ganho o Céu bebendo água e comendo raízes. cujo suave gosto tão grato é a um paladar já calejado. Ora Canolles não fazia gosto em passar por anacoreta. tendo já algum conhecimento dele. a religião do seu país). Adeus! E. que este. bem ou mal.. Apetitosas passas de uvas e figos. dê por não dito o que lhe disse. Poderia reunir-senos em Chantilly. depois. e. apressou-se a verificar se não esquecera coisa alguma. um grito de alegria dado pelo barão. por muito triste ou por muito enamorado que estivesse. ou porque receasse ser ouvido por Canolles. ou durante a viagem. apressou-se a dizer-lhe: . um avultado consumo de líquido. um garrafão envolto num entrançado de vimes. Sobre a mesa. provou que este não era homem que conservasse rancor. cujas estrondosas gargalhadas chegavam ao primeiro andar. e desapareceu na escuridão. talvez. por entre cujos interstícios a viva luz de quatro velas fazia despedir centelhas de topázios e de rubis: era um garrafão daquele vinho velho de Collioure. Richon.. revelavam o cálculo interesseiro do estalajadeiro. cálculo por cuja sábia exactidão respondiam duas garrafas despejadas. Canolles cedera. ao aspecto daquelas garrafas com formato especial. da vista passara ao 85 . e outra em meio. eu o apresentaria. estendendo-lhe a mão. Talvez que também. porque não faz você uma tentativa para chamá-lo ao nosso partido?. e faça a este respeito o que entender. meteu o seu pezinho na mão do escudeiro. rechonchudo e orgulhoso da sua rotundidade. desceu por seu turno com precaução. a quem havia de entreter enquanto o viscondezinho fizesse os seus preparativos de partida. necessariamente faria. Nestas circunstâncias.

ouviu-se o galope de dois cavalos que se iam afastando. Nem pense nisso. estar muito agradecido ao lindo visconde. Richon continuou a rir.Morrer de riso!. com um extremo de hilaridade em que Richon não pôde deixar de tomar parte.Não tenha semelhantes ideias. . . Olhe para esta prateleira. Sabe?. lhe posso assegurar. e estava a ponto de me ver constrangido a gabá-lo àquele biltre do Castorin..isto é: um verdadeiro servidor do senhor de Conde. que parece querer resistir.. .que é isto. à qual o convido a sentar-se.. . interessar-se daquela maneira pelo primeiro belo cavaleiro que vê passar!. não é razão para impedimento: principiaremos de novo. soltando uma gargalhada.. . engano-me: um lindo moço. pelo contrário. Neste pé entrou Richon. e o pequeno gentil-homem também!. Observe a delicadeza dos pratos. aplicando o ouvido. senhor barão! -exclamou Richon. meu querido Richon. sempre a deve haver: prove este vinho de Collioure. meu caro Richon. e não posso deixar de confessar que Biscarros é um eminente professor.não há dúvida. três estavam completamente satisfeitos.exclamou este .. Não é este estalajadeiro do Bezerro de Ouro um verdadeiro artista.Convenho que assim seja: pode não haver fome.. parece-me bem que você é o que todos dizem . a quem devo o prazer de saborear a vida nos seus melhores aspectos..Muito obrigado.. mas que terá de ser vencida. Bem precisava encontrar-me com alguém a quem fizesse o elogio do senhor Biscarros. . esperavam que chegasse a sua vez.. e do olfacto ao gosto.disse Richon a rir.E pôs-se a cantarolar. Ora.. O que..olfacto. àquele encantador Ganimedes. senhor barão . que não sabe o que seja paladar e a quem nunca pude ensinar a comer. mas isso que importa?. . não deixaria de ter a sua graça. Ah! Richon para o corpo de guarda.disse-lhe Canolles.. Tinha à minha disposição os portacacetes do meu compadre d’Épernon... e sobretudo seria muito fácil. perdoe-me. em vez de deixar fugir a alma pelos 86 três ou quatro buracos que tencionava abrir-me na pele aquele bravo duque d’Épernon. meu caro. . far-me-ia morrer de riso. porém.OláL. e lance os olhos a esta mesa. sobretudo se a acometermos ambos. que conspire.Pelo que vejo . Além de tudo isto... e foi dar com Canolles bamboleando-se na cadeira. como as demais.. . é que me causa horror o seu pequeno gentilhomem. .Então . Richon!?.. pois. com suma resignação.Já não tenho fome. E. Viva a alegria! Estou de muito bom humor. Eu também já ceei. Richon aproximou o seu copo. uma boa sobremesa e aquela garrafa de vinho de Collioure. Richon. . um homem digno de que eu o recomende ao meu amigo o duque d’Épernon?. com serenidade lhe digo. tanto a si como ao seu gentil-homem.. Neste momento.Ah! . . E Canolles deixou-se cair na cadeira rebentado de riso e retorcendo o bigode. .chega muito a propósito.Talvez não saiba que eu tinha muito boa vontade de mandá-lo prender... Devo.continuou Canolles . pois ninguém mais do que o senhor é capaz de avaliar o seu merecimento. mas com um sorriso menos franco.ceou com o biltrezinho do seu visconde. meu querido Richon. Ah! Richon. Sente-se ali. Ah! Richon. como dos cinco sentidos com que o dotara aquela boa mãe comum a que damos o nome de senhora Natureza....Ora! Deixe-se disso.. já ceou. Não. Mas sede. cheios de paciência. os outros dois.disse Canolles.Creio saber o que seja.

. Castorin e Biscarros deixaram-se ficar de pé. se nos puséssemos a jogar. e não poderei deixar de me aborrecer aqui.exclamou Canolles. no momento de partir. que o acho muito feio! Richou desatou a rir.Não se enfade. Castorin.Nada disso. . para vê-los jogar.. Ora espere. .disse Richon. . pois. Então Canolles. que não tinha já dinheiro consigo. e nada mais.disse Richon. que. . Canolles franziu as sobrancelhas. senhor barão . .. senhor barão . Richon. Richon! Não quer fazê-lo ?.estranhou Canolles. um de cada lado da mesa.disse Richon a rir.. Meu amigo. O diabo leve o pobretanas do pai. .Bom.. . o jogo! .replicou Canolles.e à meia-noite tenho de estar no meu posto. seguido de Biscarros: chegaram a banca de jogo. sem dúvida por mesquinhez. e.Não há dúvida de que é um sevandija! 87 .Com o mau humor por que está dominado. Richon?. vejamos: não tenho a menor vontade de dormir.Sim. ..condescendeu Canolles. apesar da previsão feita a Canolles. eis uma palavra que me reconcilia consigo. Estou levado dos diabos. . . ordenou a Castorin que o fosse buscar à sua mala..disse-lhe ele seria capaz. . . brigue comigo. nem um mestre lhe deu! . que de uma grande insolência faz uma pequena descortesia.É militar.Então.. ..Deus tal não permita! Contudo. me encarregou de lhe exprimir o quanto lhe pesava não ter tempo para lhe apresentar as suas despedidas. . lhe esfregaria as orelhas. afinal. Richon conhecia bem o génio de Canolles. E se me propusesse que o acompanhasse.E onde seria criado esse rapaz? Richon. . . meu querido barão: é um homem que tem muita pressa.O visconde não é tão malcriado como supõe.. .. Richon. que lhe ouvira dar a ordem.Senhor barão . Não é procedimento de um gentil-homem para com outros gentis-homens. .Sem me dizer adeus?!. Com todos os demónios! Parece-me que se lhe pudesse chegar. -vociferou Canolles. . Em menos de uma hora. . traz-nos cartas! Castorin logo se apresentou. e dou o meu perdão ao senhor de Cambes. portanto.. Richon. é tão formoso como um adónis. visto que. o jogo! Tem razão. e os dois companheiros puseram-se a jogar. muito me agrada.perguntou Richon. .Não tenho tempo para a desforra. meu amigo.Fale. senhor. e recomendou-me que lhe entregasse mil cumprimentos de sua parte.É o pequeno gentil-homem que parte.É escusado . Saberá.Ah! sim.Como assim!? Pois não tem tempo?!..Deixe-se de histórias! Está gracejando?. pode ficar certo de que a amizade dele não o honra. e sabia o que fazia ao oferecer uma escape ao mau humor do barão.disse Richon.exclamou ele. de ganhar esta noite mais de mil libras. com gravidade. eis tudo. meu amigo.Não. meio risonho e meio zangado.Acaso me criticará por lhe haver feito uma visita? . porque não partiu antes de ganhar-me o meu dinheiro?..Água benta da corte. São onze horas . bom! .disse ele. sabe muito bem qual é o rigor do serviço.Que singulares maneiras! . . Richon ganhou ao seu contrário uns oitocentos francos.

porém. e foi-lho buscar ele próprio. . e de vez em quando atravessada por algumas sombras. Canolles fixou os olhos em Richon. e dois minutos para escrever uma nota a Canolles num pedaço de papel.Muito bem! Vai.Recusaria essa honra. No primeiro degrau da escada. algum tanto incivis. na qual. Canolles deu com a ponta do pé em alguma coisa. dir-se-ia que o duque. uma janela. iluminada por um reflexo avermelhado. liberdade completa. não o conseguira completamente. e Richon. Nanon. afinal de contas. mas os olhos de bondade e o sorriso tão franco do governador de Vayres desarmaram. e apanhou uma das luvazinhas do visconde. baixou-se. Canolles encheu os copos. . Os negócios do género daqueles de que eu estou encarregado. indicava obviamente que a menina de Lartigues passava uma noite menos solitária do que a sua.. depois de haver tocado o seu com o do barão e bebido à saúde deste. das garrafas vazias. Arrastou-se pois para o seu quarto.Vamos . eu mesmo muito me teria zangado de que me houvessem seguido. lançando através das vidraças do corredor um olhar pesaroso e colérico para a pequena casa isolada. como ele. porquanto a sua alegria durante toda a noite fora acompanhada pelo pesar de ver malogradas todas as suas esperanças. 89 ainda que.Ia rogar-lhe que me não fizesse essa pergunta. . e por mais que quisesse aturdir-se e esquecer esse desgosto. revolvendo no seu pensamento milhares de planos para prevenir Canolles. Portanto. que este deixara cair ao sair precipitadamente da estalagem de Biscarros. vá lá mais um copo deste vinho de Collioure. e boa viagem! Dizendo isto. senhor barão. para ficar certo de que a zombaria não entrava por coisa alguma nestas respostas. inquieta e agitada toda a noite.. das cartas espalhadas. saiu sem que este se lembrasse sequer de examinar qual era o caminho pelo qual se afastava. para que lado? . Qualquer que fosse o conceito feito por Canolles num momento de misantropia . haja. Para isso não era preciso mais do que um momento surripiado ao duque para falar com Francineta.o certo é que na pequena casa solitária não reinava maior satisfação do que na estalagem Bezerro de Ouro. tratam-se sem testemunhas. para sair da situação precária em que se encontrava.É dever meu responder-lhe que nada sei a tal respeito. tão contrariado . que todavia lhe era muito necessária. o que me tivesse seguido se visse tão enganado como eu. fizera propósito firme de lhe não permitir aquela liberdade de um momento.E para que lado foi o visconde? . pelo menos a sua curiosidade.esta noite está mergulhado em mistérios. mas o senhor D’Épernon não quis consentir que se levantasse para ir buscar o seu fraquinho de sais.. Todavia. tendo suspeitado do que se passava e penetrado a inquietação do espírito dela através da máscara alegre com que cobrira o seu rosto.. o barão sentiu uma daquelas tristezas que só podem ser compreendidas depois de experimentadas. e sem dúvida não a julgara suficientemente preciosa para que perdesse o seu tempo a procurá-la. Todavia. Nanon queixou-se de uma dor de cabeça.muito perdoável a um amante que se vê. vendo-se só no meio das velas quase consumidas.. senão a sua impaciência. meu querido Richon. pusera em prática todo o espírito e velhacaria de que é capaz uma cabeça de mulher bem organizada. .disse Canolles.

tão temido.Nanon picou-se com um alfinete. o outro. e tocou a campainha. Nanon fingiu que dormia profundamente: quase no mesmo instante o duque pôs-se a ressonar. . A resposta que Francineta deu a esta pergunta foi trazer-lhe um maço de despachos que Courtauvaux. Nesta última manobra. e o meu aniversário calha a 24 de Agosto. . levantou-se. . que estava ao pé da cama.Sabe o que deveria fazer. Aquele dia. acudindo Francineta. não o tirava de Nanon.. tentou tirar o pequeno bloco de notas da algibeira do casaco do duque. e quis ir buscar à papeleira uma tira daquele famoso tafetá encerado que começava nessa época a ser apreciado. e acabava de rasgar uma folha de papel.E para quê . senhor -respondeu Nanon. foi cortar a tirazinha do tal tafetá encerado. e.Para ver em que dia calha a festa do santo com o seu nome..perguntou-lhe o duque.. caso isso estivesse na sua mão. minha querida? . asseverando que sem ela não poderia adormecer. a que o duque se esforçava por dar a expressão mais amorosa que lhe era possível. e ao alcance da sua mão. Foi então que Nanon declarou que não podia dormir com luz. .Não. teria feito em pedaços o duque. toda abrasada numa febre de impaciência. pediu-lhe em altos brados luz. . e apagou com toda a destreza a lamparina. com receio de que se repetisse um acidente semelhante ao que acabava de acontecer. para se não apartar um só momento da sua pequena Nanon. para saber se não haveria alguma coisa de novo.interrogou ele. . Nanon. levantou-se ao primeiro raio que filtrou pelas janelas. eu teria um pretexto para lhe dar o comando que deseja. vestiu-se sem ajuda de ninguém. e a lê-los com um dos olhos. Meteu uma e outra coisa debaixo da almofada.Mandar chamar o seu irmão .Que faz. O duque pôs-se a abri-los.perguntou o duque. que contém as informações que desejava. pelo que logo rebentou um rubi na ponta do seu dedo nacarado. como sabe.Mas se quiser dar as suas ordens. começou por fim a raiar por cima dos ulmeiros. deste modo. ao clarão da lamparina que estava sobre uma mesa. o seu picador favorito. quando voltasse. depois de haver lido uma parte dos seus despachos.Estava vendo se havia calendário no bloco de notas . infatigável na sua complacência. Francineta chegou antes que que Nanon houvesse tido tempo de escrever metade da sua frase. O duque d’Épernon. . Nanon ganhara pelo menos um lápis e papel. ordenou a Francineta que pusesse duas velas acesas sobre a lareira. o duque abriu um dos olhos.. esperando o dia com uma ansiedade fácil de compreender. e. serão pontualmente executadas. .Eu chamo-me Luís. e fez empalidecer a luz das velas. então Nanon tornou a abrir os olhos e. 90 91 E tornou a pegar no bloco que ela tinha nas mãos. envergou um roupão. O senhor d’Épernon.respondeu Nanon. e ele poderia partir neste mesmo instante. minha querida. com uma destreza que muito a desesperava. e o duque. minha cara amiga?. . Tem portanto bastante tempo para fazer os preparativos. . e meteu-o de novo na algibeira do casaco. esperando poder escrever nas trevas. voltou a cara para a parede. que se prezava de seguir os hábitos da vida militar. trouxera durante a noite. O rosto do duque exprimia a benevolência mais franca.disse o duque. mas o duque tocou no mesmo instante a campainha. e tornou a fechar a papeleira à chave. mas no momento em que já tinha o lápis na mão.Acabo justamente de receber uma carta de Bordéus.

caso se quisesse encarregar da comissão.que terá . e que essa pedra seria talvez algum grande calhau. quando quisera ver Canolles. para corresponder ao olhar do duque. mas. pudesse convidá-lo a que procedesse com cautela. e alentou-se para o combate. Nanon repeliu o rubor que lhe assomava às faces. de modo que. A porta abriu-se..disse o duque.o barão de Canolles não está já na estalagem Bezerro de Ouro. . ele se oporia..Ah! . O duque arregalou os olhos. em voz alta: . E cravou os olhos nos de Nanon. com a má catadura dos dias aziagos. Francineta estava só.Oh! presumo . Francineta não podia adivinhar o que ela pretendia: "Diga ao barão de Canolles que eu sou sua irmã. por meio da qual. Francineta bateu ligeiramente à porta. Nanon levantou a cabeça. o barão ficasse inteirado de tudo o que devia saber.É tão espirituoso e destro como bravo e formoso. por muito eloquente que fosse esta vista de olhos.disse de súbito o duque . O coração de Nanon palpitava com força no peito. . e tornou-se sombrio.Mande-o chamar o senhor mesmo.Engana-se. e despachou-a para a estalagem Bezerro de Ouro. meu querido duque ." Depois. e ocupou-se a compor uma frase artificiosa. podia abranger toda a estrada até àquele 92 93 cotovelo onde na véspera o senhor d’Épernon se ocultara com os seus esbirros. Nanon lançou uma vista de olhos a Francineta.Senhora . Neste ínterim. Subiram os degraus: o duque preparou um sorriso ao mesmo tempo nobre e amigável... Francineta . para procurar na sua fisionomia algum gesto que lhe desse alento.respondeu ela. Nanon engatilhou a famosa frase com que devia saudar Canolles. que então se viu obrigada a desviar os seus da estrada. . ou me compreenderá à primeira palavra que eu lhe dê.repito o que o senhor Bis-carros em pessoa me disse.disse Francineta. compreendendo que haveria pedra escondida no sapato. "O meu querido Canolles terá sem dúvida adivinhado tudo .ajuntou Nanon. . porque desconfiava que. . não pudera ver mais que Francineta. e não viu nela vivalma. .Vá neste instante dizer ao senhor Biscarros que venha falar comigo ordenou o duque.Como!? . Olhando de esguelha. .eis Francineta que está de volta. Nanon olhou para a antecâmara.ânimo! Quem sabe se Canolles lerá nos meus olhos. Nanon levantou-se. mal pusesse os olhos em Canolles.pensou Nanon. sem lhe dar nenhuma outra instrução mais do que estas palavras: .o barão de Canolles já não está na estalagem do Bezerro de Ouro?.Entre .disse Nanon precipitadamente.Senhora . decerto.insistiu Francineta .disse consigo Nanon . O duque chamou Francineta. logo às primeiras palavras."Vamos . para não tocar em notas discordes no terceto de família que se ia executar.disse o duque." . foi colocar-se atrás do duque.Diga ao barão de Canolles que a menina de Lartigues o espera para almoçar. e respirou. com a imperturbável serenidade de uma lacaia de comédia ." Francineta partiu.

senhor duque.perguntou Nanon . .Não é essa a reputação de que goza. Passados cinco minutos. Então. pôs-se a caminho após o picador.Partiu? . disseste-lhe que eu estava aqui.. Biscarros atou em torno dos rins um avental branco. senhor. Courtauvaux guardou o dinheiro na aba do seu gibão. Francineta? Responde! .. .que venha falar-me. Biscarros. o duque pareceu novamente dominado por toda a sua desconfiança. Francineta desapareceu. contente. até sentia o mais vivo desejo de falar com Biscarros. seis para si. VIII DESTA vez.. Nanon não tremia: a certeza que lhe dera Francineta sossegaraa absolutamente. ..disse Francineta.perguntou o duque. o senhor barão de Canolles?. Não cabendo em si de contente. Biscarros entrou. portanto..Persuadi o meu senhor que lhe encomendasse um almoço 94 fino. deu logo uma resposta evasiva: . deu-me oito luíses. para executar as ordens do amo. Foi ter com Biscarros. e. visto que Francineta só estava encarregada de o chamar da sua parte?. . minha senhora. .perguntou Francineta.. Eu mando lá Courtauvaux.Para onde foi? . . .disse o duque . Apesar desta pronta resposta de Francineta. .Realmente. por sua vez.como pode ser que o barão tenha medo de mim.. que sabia do seu ofício.Saiba. com o avental elegantemente arregaçado e com o seu barrete na mão. dois devo guardá-los. com a sua voz grossa. pois me pertencem como minha comissão.disse o duque. . e logo saiu. senhora .Que foi feito dele? . e quando vier. portanto. introduzido logo que chegou. Foi.. . meteu na algibeira os seus luíses. realmente?. . . não tinha já vontade de dizer palavra.Vá dizer ao estalajadeiro do Bezerro de Ouro .Partiu. Courtauvaux estava entre portas.Mas.sabido que se encontra aqui. vá sem perder tempo.Não podia dizer-lhe.. Era um moço esperto. tímido?!.Mas talvez seja melhor que aqui fiques. ..Mais do que nunca . que ele partiu. senhora . visto que ele já lá não estava.. pois que na verdade o ignoro. . eis aqui. . Dá-lhe estes dez luises de ouro para que a comida seja boa.disse o duque. que o conduziu às carreiras até à pequena casa.estranhou o duque.Não é verdade .Não. .Ele.. e terá receado incomodá-lo. .. assaz inquieto. Nanon. que se apresentava com toda a rapidez da franqueza e da verdade. pois a tua ama poderia precisar de ti.Isso não posso dizer.perguntou Nanon. porque o picador e os seis luíses de ouro lhe faziam pressentir alguma grande personagem debaixo daquele roupão. Vai sem mais demora.disse d’Épernon . que traga o que for preciso para um bom almoço.disse-lhe: .que ontem tinha em sua casa um jovem gentil-homem. segundo me parece. e que podia dar lições a todos os criados do seu tempo.o barão de Canolles partiu realmente.. Aquele pobre Canolles é tão tímido!. apertando a mão a Courtauvaux.Sempre tenho de voltar para chamar o senhor Biscarros?. .

. . para distrair-me." .disse consigo Biscarros.A estrada de Paris..acrescentou Nanon. e foi apunhalar Biscarros lá no seu ângulo. é sem dúvida algum príncipe disfarçado!.Leia em voz alta...perguntou Nanon.apressou-se a dizer Nanon." . recomendando que fosse entregue à menina Francineta. .E porque não entregastes essa carta? . .disse Nanon. sem motivo algum! perguntou o duque. "Excelentíssimo senhor!. . não sentia já em si vida senão no coração. . . em pé.disse rosnando a criada. voltou-se para a jovem senhora que.disse o duque. senhor.Porque não entregaste a tua ama a carta que o senhor de Canolles deixara para ela? . abrira-a.leu o duque...Vejamos! Dê-me a explicação desta partida. O desgraçado alagava-se em suor. ..Sem nada dizer. . não fez mais do que dar um salto da antecâmara para o quarto. com o cabo de uma caçarola na mão.perguntou o duque.Seria meia-noite.nada é mais . com timidez. e de boa vontade daria os seis luíses que tinha na algibeira para se achar nos seus fornos. recomendo-lhe a minha fortuna. . .Eu não lhe pedi .E sem nada deixar dito? . . . suportou o seu olhar com uma admirável audácia. pondo em sua ama uns olhos que queriam dizer: "Bem vê que a culpa não é minha. Até à vista. Francineta. Nanon.Eu entreguei-lha..Pois é lá possível que se parta assim à meia-noite. serenandose cada vez mais. mais pálida e mais fria do que uma estátua. que a carta não a comprometia. estendendo a mão. e talvez eu posso explicar .Francineta!-bradou o duque.É esse o respeito que tem pela recomendação de um gentil-homem?. . e indo alapardar-se no ângulo mais retirado do quarto..E a que horas se pôs a caminho? .Saberá pelo menos a estrada que tomou?.." . A pobre Francineta apresentou vagarosamente a carta. e vou.Ah! meu Deus! . "Querida Nanon.. o duque pegara na carta.. sumamente espantada. e estava lendo. 97 . deixou somente uma carta.aproveito-me da licença que lhe devo." .Doido?! Então porquê? ..perguntou o duque. Durante a leitura. . 98 Nanon compreendeu. E..ordenou o duque. com um sorriso encantador .Que quer dizer tudo isto? .. que estava escutando. ..perguntou Nanon.Ora! Aquele Canolles não pode deixar de estar doido!. passar algum tempo a galopar na estrada de Paris. depois destas palavras.. . .. .. Durante este tempo.Dê-ma ... . "Querida Nanon .continuou o duque .." Um duplo relâmpago saiu dos olhos de Nanon.disse ela. ao ouvir estas palavras. falando consigo mesma. Aquele estúpido do Biscarros é que deitou tudo a perder.. consternado. toda enfiada.perguntou o duque.Excelentíssimo senhor. "Com efeito!.Excelentíssimo senhor!.

.. e até tratou com alguma dureza o senhor de Canolles. "Ela também o trata por excelentíssimo senhor!. senhor Biscarros?.... A que loucura julga que ele dá preferência?. Nanon respirou.Não. formoso. que não comia. e quando lhe assomava aos lábios um sorriso de quatro polegadas de largo. afirmou: . E com verdade o digo! Depois da partida do grande. Com efeito. responda com franqueza: não lhe parece que adivinhei?.A única pessoa que lá passou a noite . . delicado. .. não estava enamorado de nada. leviano. começando a deixar-se dominar pelos primeiros crivos do ciúme. correu atrás do pequeno. segundo parece. senhora. -estranhou o duque... .Não é assim?. . É um camarada atrevido e empreendedor.Ah! ah! ah!.Ah! amoroso. qualquer que ela fosse. Biscarros. gordinho..disse ela. .. fazendo um leve movimento de cabeça cheio de sagacidade. Espere um instante.. . . esperava para cear um corpulento senhor de bigode. Nanon respondeu a este sorriso com um certo ranger de dentes. sem dúvida.Vejamos. e tê-la-á seguido. Não é assim..Eu pelo menos assim o julgo.Será possível que não adivinhe de que se trata?. fale! . . senhor Biscarros -replicou Nanon. e que tinha medo de se pôr a caminho durante a noite.Vejamos: diga quantas forasteiras pernoitaram em sua casa esta noite. pois.. estremecendo a seu pesar: . E após esta discussão.Não dei pousada a nenhuma forasteira . encantada de ver que o duque adoptava esta 99 ideia. .Sim. Nanon deu um passo para o estalajadeiro. Terá. nem bebia. .. louro.afirmou Biscarros.. que tomara à esquerda. -rosnou Biscarros..disse d’Épernon. não? .. . senhora. julga-o?. . estirando as pernas e encostando os cotovelos numa poltrona. senhora . .fácil. parece-me que a senhora não deixa de ter razão.Decerto que nada adivinho. falando no sentido dela. é jovem... Biscarros compreendeu que era chegado o momento de se aliar à jovem senhora. com certo ar de sagacidade.continuou o estalajadeiro.Ah! conte-nos isso. não é verdade?.disse Nanon.disse com soberba alegria o duque.Não há dúvida de que é algum príncipe!" .Vejamos. Ao amor.Ora. . sorrindo-se com esta ideia muito natural: que se Canolles era amoroso para uma forasteira.foi um pequeno gentil-homem.Com efeito. mas este bravo gentil-homem não se agastou por tão pouca coisa. sem reparar que cada uma das suas palavras fazia palpitar o coração de Nanon .. .. .respondeu Biscarros. excelentíssimo senhor.Sim.Continue . vendo ..Amoroso. caindo francamente na esparrela. e disse. portanto.. visto passar pela estalagem de Biscarros alguma formosa forasteira. . Um gentil-homem que tinha medo -continuou Biscarros. pois: Canolles tem vinte e sete anos. diga-o . que seguiu pela direita..Bem me compreende.Isso não deixa de ter a sua graça! E sem dúvida o pequeno gentil-homem esperava pelo senhor de Canolles. que nenhum esclarecimento dava.. faz-me pensar no caso. quando este quis cear com ele.Assim o julga?...

com uma doce esperança. e que tinha medo de se pôr a caminho de noite. pois era uma luva do pequeno gentil-homem.Uma luva?.. lançando com um movimento cheio de graça a perna direita para diante.replicou o duque. . Nanon ouvia.. tendo na mão esquerda o seu castiçal. como se houvesse sido ferida por um dardo invisível. . dentes apertados e olhos fixos. entendeu que lhe era permitido dar gargalhadas tão estrondosas que fizeram tremer as vidraças. alguma.é um tão supremo infortúnio.disse ela. uma luvazinha tão pequena.de que esteja bastante inteirado. fazendo diligência por se lembrar se não seria ela quem tivesse deixado tal penhor nas mãos do cavaleiro. .Uma luva de homem.. Biscarros revestiu-se do ar mais gracioso que lhe foi possível.respondeu Biscarros. absolutamente sossegado. que.O que me dá lugar a pensá-lo? . cuja vontade de rir era cada vez maior. . .fez o duque.Mas que lhe permite pensar . 100 101 . O duque. Está louco! . E apresentou ao estalajadeiro uma das suas luvas.repetia Nanon. afirmou: . pálida. que se empenhava em fazer penetrar a convicção no espírito dos seus ouvintes. . e que não siga a estrada real por capricho.disse ela.que o pequeno gentil-homem seja uma mulher. . apontava com o dedo a porta a Biscarros.. e na direita uma luvazinha. e até tomara desde logo o pequeno cavaleiro louro por um homem. apertando os punhos.. quando encontrei o senhor de Canolles no meio da escada.Oh! oh! oh! .Congratulo-me . Nanon deu um pequeno grito surdo. que o senhor de Canolles esteja enamorado dela. se este tivesse a mais pequena dose de fidalguia. ter uma mão muito delicada. vou dizê-lo. à medida que se iam desvanecendo os receios relativamente à sua pessoa.Uma luva de homem?!. . . o seu regresso seria uma grande ventura.. O senhor de Canolles a olhar para uma luva de homem. escutava cada palavra que saía da boca do estalajadeiro com aquela fé devoradora que impele os ciumentos a beberem a largos tragos. e. que examinava e cheirava apaixonadamente.pintada a satisfação no rosto do duque.Eu de nada desconfiava.Na realidade. e com um sorriso convulsivo e gelado nos lábios. senhor.disse Biscarros. nem comia. E com os lábios trémulos.. observando no rosto da jovem senhora estes sinais de cólera. nada podia compreender em tudo isso. . o veneno que os mata. "Se a ausência deste gentil-homem . para matar o tempo? .Sejam pacientes. Quanto a Nanon. .Explico-me já..negou Biscarros. fazendo um violento esforço .Vossa excelência tem demasiada bondade! .Não estou.Não .Uma luva do género desta?." 102 Em virtude deste raciocínio. que não bebia. meu querido amigo . e de que saiba tudo quanto desejava saber. .. . dános muito prazer. e a cheirá-la com paixão!. e estava de boca aberta e olhos arregalados. O duque aplicou o ouvido. do lindo cavaleiro loiro.Sim. diga-mo. e até às fezes. a fim de que tenha boa vontade de comer. teria abraçado Biscarros. Lisonjeemos este nobre senhor.disse ele lá consigo . não.

pelo seu estouvamento. O duque sorriu-se.. visto que o pequeno gentil-homem esperava um cavaleiro de bigodes. e então os assados!. Contudo. que vexame. voltou para junto do duque. talvez que perca quanto podia esperar.interpôs Nanon com vivacidade. não só desculpou. E Biscarros. era preciso deter os progressos desse novo amor apenas nascido.que a senhora lhe faz sinal para que se retire?. . deu ordem ao historiador para que cedesse o lugar ao cozinheiro: e. carregado de cumprimentos e de recomendações.e porque não voltaria ele? Quem sabe se não estará já de volta. senão quando.disse ela.atalhou Francineta . i . chegando a ponto de quase se aplaudir por ser suficientemente amada para provocar em Canolles esta pequena vingança.É verdade .. e veja se o senhor de Canolles terá voltado.ver-se aquele louco do Canolles privado.Que indiscrição! Dir-se-ia que não sabe o que faz. ao triunfo do rival! Era tal a paixão de Nanon. Canolles não seria desculpável? Com efeito.Cá por mim estou morrendo de fome. afinal. pergunte por ele. Não importa: era preciso contrariar Canolles.Mas. que observava o silêncio e o enleio das duas personagens. senhor Biscarros.Mais um momento! . para ele. apressemo-nos a dizê-lo. Vá ver. Após isto. Mas também... quando ouviu isto. de uma honra como a que se dignava conceder-lhe! Se estivesse presente..disse o duque. minha cara Nanon. Aqui.exclamou o duque. encontrara uma das suas luvas." Mas isso era uma loucura da parte dela. que. . Courtauvaux partiu.. atribuindo esta fuga a um exagerado ciúme. visto que tratara Canolles com dureza. produzindo nela o efeito de um raio que lhe caísse aos pés. parta sem mais detença. o senhor Biscarros não brilhou na segunda ocupação menos que na primeira. informe-se. 103 se o fosse. essa suposição? E. a sua sorte futura estava assegurada. Com a sua ausência.. primeiro do que tudo.. seria exacta. por acaso. procure-o naquelas imediações. mas também pode voltar a todo o momento. .. que cruel logro não era para um bravo gentil-homem como ele. e reduzido à necessidade que lhe era imposta de assistir. enfim.Que desgraça. Vá à estalagem do senhor Biscarros.O certo é que o cavaleiro partiu. Sucede-me o mesmo que a si! Estou morrendo de fome. .É muito justo . . ver que não se realizava aquele encontro ajustado de antemão. senhor Biscarros. visto que o próprio Canolles não reconheceu talvez o sexo do desconhecido. mas até lamentou Canolles. Tenho todo o empenho em almoçar com esse gentil-homem.disse . por assim dizer..e Courtauvaux tratará disso. Nanon tinha feito as suas reflexões e abrangido de um só relance toda a situação em que a colocava a suspeita de Biscarros: em primeiro lugar.. Venha cá Courtauvaux. Então. "Se aquele encontro de Canolles e do pequeno gentil-homem tivesse sido premeditado!. . e traga-me a resposta. uma reflexão terrível deslizou pelo espírito de Nanon. o almoço?. que acabava de despedir Biscarros.Não percebe . Venha. junte estes seis luíses aos outros: é para pagar a história que acaba de contar-nos. Se não o encontrar. armando-se de toda a sua energia. ... deu mostras de querer emitir um novo expediente. ver-se assim espiado e perseguido pelo duque d’Épernon. senhor . .

que sou mais razoável do que ele. . explique-se. .Que deliciosa partida pregaremos ao nosso namorador! .disse Nanon . .. não é coisa possível. . Nanon. escreveu duas linhas.. . ..A isso não posso dar remédio.Não quer mandá-lo à rainha.. o despacho incluso é para Sua Majestade a Rainha.Precisa de Courtauvaux? . Leve-o sem a mínima demora.Desgraçadamente. O duque pegou na pena e escreveu num pedaço de papel: Bordéus.é tudo quanto desejo. regente da França. da sua parte. minha querida.se tornarmos a encontrá-lo. . . decerto não terá voltado.disse Nanon .Sim.Pela minha fé! Tem razão.Sim. Fica responsável pela sua entrega. e diverte-se. E lançou o seu braço ao pescoço do velho duque.Há-de ser coisa digna de se contar. é jovem.Oh! tal não acontecerá .. . . e Canolles receberá esta ordem hoje à noite.Mas eu .respondeu 104 o duque. Eu lho afianço.. escreva a sua ordem.Ah! irmã ralhadora. trata-se da salvação do reino..Nenhuma necessidade tenho dele. E assinou-o. . .Está então decidido a isso? . para ver a cara que fará ao mensageiro. para lhe levar a toda a pressa uma notícia?.Sem dúvida. bem quereria correr atrás dele.A juventude é a idade dos prazeres.. . sou de opinião de que se lhes deveria turbar um tanto aquela alegria intempestiva. Depois... o mais tardar. vejamos: concebeu algum plano? Nada mais desejo. . 105 .disse o duque . ou antes: felizmente. que estremeceu de alegria. . não. no invólucro deste lacónico despacho. . .Ele não levaria isso a bem. . . ..Ordene que corram atrás dele.Oh! que boa cabeça de diplomata! Muitos progressos fará. em todo o caso será outro tanto caminho ganho.Mas . mas se ele não tiver voltado?. do que adoptá-lo eu mesmo. mas não percamos tempo. e coloque Courtauvaux à minha disposição.Na verdade. e tem de ficar a meu lado. minha querida .Deixe isso por minha conta.. . que juntou ao papel. senhor duque.Se o negócio é de mulher. e visto que segue a estrada de Paris. ou amanhã.Mas quem mandará? . . caso tenha algum. escreveu o seguinte endereço: A Sua Majestade a Rainha Ana de Áustria.Ponha-o à minha disposição. no primeiro momento -continuou Nanon.Ora bem.Fique eu eternamente na escola de um tão bom mestre ..disse Nanon. Vamos. e eu o enviarei com as minhas instruções.mas decerto ficar-me-ia mais tarde agradecido. depois de as haver mostrado ao duque: Meu querido barão: Como muito bem vê. .disse ela. senhora. Nanon.exclamou o duque.

e sorrindo-se com o modo mais gracioso. dando mostras de grande satisfação.Ao acaso! Ao simples acaso. . .disse Cauvignac.disse Cauvignac. mas em voz tão baixa que este nome antes foi pronunciado pelo coração do que pelos lábios. havia partido. E fez a mais profunda cortesia ao governador da Guiena.Sim . .Com efeito. fixando em Nanon os olhos onde transluzia uma indefinida expressão de ironia e dúvida. senhor. Nanon engoliu em seco e correu para a porta. Um raio que tivesse caído aos pés de Nanon não lhe teria decerto causado maior sobressalto do que esta inesperada aparição.Mas perdoe -continuou o proprietário desta voz.Seu irmão! .tenho admirado a sua delicadeza. Nanon. o prazer de ver-me? . dando com os olhos no duque d’Épernon. porque se a sua boa irmã não tivesse tomado a peito os seus assuntos. sem disso me prevenir senão com duas palavras..Sim..Que coisa pode haver mais natural?. uma nova personagem se apresentou à porta..Ah! . . do senhor?.Seja muito bem-vindo..Sim .. .respondeu uma voz muito meiga.Que quer.é que unicamente me impediu de reclamar mais cedo essa honra. .Sua boa irmã.. a que devo eu o prazer de o ver? .disse com viveza Nanon.exclamou Nanon. senhor barão . inclinando-se diante do duque.Sim. Ainda mal tinha acabado este bilhete. . mas não posso deixar de estranhá-la. que encontrei a cem passos daqui disse o picador...parece que eu tinha partido.volveu o duque .. . . .Cauvignac.. .Amim." ...Ele! .disse Cauvignac. .disse Cauvignac. minha querida Nanon? É preciso perdoar alguma coisa aos .Sem dúvida minha boa irmãzinha . abriu a porta. com o risonho semblante do homem que traz uma notícia que sabe ser esperada com impaciência.. 106 O duque arrancou uma exclamação de benevolência e surpresa. "Ah! -pensou Cauvignac.O senhor duque teve a bondade de desejar que lhe fosse apresentado. 109 . .corroborou Nanon.Sua irmã e eu não fizemos mais que falar de si desde ontem à noite. dizendo em voz baixa: "Está pois escrito que não o evitarei!" Neste momento.. Ah! ah!. senhor!? Estranhar a minha delicadeza?!. que o recebeu com um gesto benévolo..Aqui está o senhor de Canolles.. que contribuiu para que regressasse.Ah! minha boa irmã tomou a peito os assuntos.E ainda hoje mesmo. . e desde ontem à noite muito o desejamos.disse o duque. senhor de Canolles . vestido com magnificência.. . e Courtauvaux.disse Nanon.O receio de ser importuno. ... . nem lhe teria provavelmente arrancado uma exclamação mais dolorosa do que aquela que a seu pesar lhe escapou da boca. na verdade?.Ah! desejavam-me..talvez que vos venha causar incómodo. subindo apressadamente. quando se ouviu no fundo da escada um ruído de passos. de chapéu na mão.a que deve. lançando um olhar de eloquente repreensão a Nanon. . senhor . que nada mais fizeram do que agravar a minha inquietação. mau irmão.

Sim . senhor. devorava." .aventurou Cauvignac.confesse que o está.. segundo parece.perguntou o duque.. que via despejar-se com medonha rapidez o prato de Cauvignac. .. . . não receava ser desmascarado por quem conhecia a fraude. senhor... pelo menos assim o espero. Francineta. lidando por alcançar de todos os olhos algum sintoma da verdade. com o socorro do qual pudesse forjar uma alentada mentira. ..Querida irmã! -exclamou Cauvignac. . Com efeito. dando o braço a Nanon e passando para a sala de jantar. Nanon. combinados em doses sucessivas e iguais. tomando um nome emprestado. . Cauvignac adiantou o seu prato com um sorriso de sumo agradecimento.disse o duque .disse Nanon. não posso. o ar da noite.disse o mancebo. Canolles? -perguntou o duque. mas deliciosas e suculentas. com uma familiaridade que Cauvignac tomou por muito bom agouro.Passou-me a vontade. no caminho que eu seguia .Estou enamorado. . se for do seu 110 agrado.do pequeno gentil-homem que encontrou ontem de tarde.aí tem.constatou o duque.. .Sim. sim .Vamos .. a quem os vinhos de Bordéus e Borgonha.visto que desde ontem anda correndo pelas estradas. ele é muito galhofeiro .Ah! sim.ruminou em voz baixa Cauvignac.incitou o duque. Seja assim. . embora eu confesse. __Antes pelo contrário. .Então podemos convidá-lo a dizer alguma coisa acerca do pequeno gentilhomem?. um talher para o senhor de Canolles. travesso mancebo .o cunhado adivinhou.Quando penso que foi o prazer de me ver que lhe tirou o apetite.prosseguiu Nanon .Nanon. seguido por Cauvignac. para meu irmão . O vinho branco de Guiena e o vinho tinto de Borgonha caíam da garrafa como pérolas de ouro e cascatas de rubis. esta asa de frango?. . excelentíssimo senhor. "Oh! oh! isto vai-se complicando muito -murmurou Cauvignac consigo. e até confessarei que o fresco da manhã me deu boa vontade de comer.enamorados . Cauvignac não comia. e Cauvignac colocou-o diante de si. 111 .É para meu irmão.replicou Cauvignac.Está entendido que não lhe falo de amores.Vamos lá: que nos conta de bom. . fale deles. .mas almocemos. na realidade. Biscarros havia-se esmerado. senhor barão. enquanto almoçarmos. as iguarias não eram numerosas.Não o negarei . por muito violento que seja. nada de constrangimento ." . .disse Nanon .Mas a senhora.Oh! senhor. com que satisfazer o seu apetite...disse a jovem senhora. deixar de repreendê-la por tanto me amar.Diga que o da noite. Creio.. . capitão. sorrindo.disse o duque.emendou o duque . "Pela minha fé! Que desta vez . Contar-nos-á os seus amores. . O duque pôs a asa no seu prato.Pois então . e receava vê-lo renovar a farsa depois da desaparição dos víveres. .. com um sorriso triunfante. começavam a desaferrolhar a língua e que.Este rapaz tem bom apetite .disse o duque. que não terá almoçado.Não.. .

senhor barão. . . ainda mais faremos para o futuro disse o duque..... . que me deixaria fazer em postas por amor a ele. muito obrigado! . .Aquele pequeno gentil-homem?. pois.E depois na estalagem de Biscarros! . Cauvignac tudo compreendeu ao ouvir esta única palavra. receando que.Então. . essa não é má! . .Aquela.Que quer dizer! ? .. com uma comoção lacrimosa e pondo uma das mãos sobre o coração. . . .Sim. encontrou-o. minha mana . 112 .Conserva sempre a luvazinha sobre o coração?... Os negócios do rei. e disso não resultará dano algum para os negócios do rei. .Do pequeno gentil-homem louro.disse Cauvignac. da me-ta-mor-fo-se . Cauvignac se esquecesse da personagem cujo papel representava para tornar a entrar na sua própria individualidade .sabia já às quantas andava.Vamos. mordendo os lábios. mas dentro dela já nada há.Ah!? -exclamou ele...que era um mocinho encantador: louro. .Pela minha fé .Muito bem.a coisa ainda é remediável. . sim..Sim.... .continuou o duque.E está namorado dele? ...No meu zelo em servir o rei?..murmurou Nanon.. ora. . .Isso nunca! Os negócios do rei estão primeiro do que tudo..É isso mesmo . .E assim é de esperar . vamos.Jamais disso me esquecerei .disse Nanon.E depois na estalagem de Biscarros . carregando a cada sílaba. "Já não resta a mínima dúvida" .E nós já começámos a tratar disso.ajuntou o duque. viajando com uma espécie de escudeiro.. Cauvignac não .assegurou Cauvignac.Sério?.Então.Não sei quem despejou a garrafa que está do meu lado.disse Nanon. Eu. .Sim. isso é coisa sagrada! À saúde de Sua Majestade.-continuou o duque.. rindo sorrateiramente. 113 . .. .. dou-lhes a minha palavra de honra que tive algumas desconfianças.Dê-me pois de beber. nem de comer. .Obrigado..De quem? ..Como é ele? Vejamos! Diga-me com franqueza. aquela que ontem à noite cheirava e beijava tão apaixonadamente. e até.A luvazinha?. excelentíssimo senhor.o gentil-homem era então uma mulher?.. . delicado e elegante.exclamou Cauvignac. podemos confiar no seu zelo? . .Ainda mais faremos..perguntou Nanon. barão. graças às bondades do senhor duque?. senhor.Dano algum para os negócios do rei?!. delicado e elegante. -sentenciou o duque.replicou Cauvignac. realmente?. enfim..Ora.. .Não há dúvida de que assim foi! . visto que o seu amor não o impede de beber.continuou Cauvignac . . .bradou Cauvignac. no entusiasmo que lhe davam os vinhos de Bordéus e de Borgonha. .e assim é de esperar: não é um capitão ao serviço de Sua Majestade. creiam que podem confiar em mim. . que lhe forneceu a suspeita do ardil.

Entretanto. Siga os conselhos de sua irmã.Esse ardor agrada-me .disse o duque . neste desgraçado tempo.. barão. perguntar-lhe se tinha alguma suspeita de quem seria o sujeito que representou para mim o papel de delator..Àquela eu pus-lhe um sinal.Nenhuma ideia. há-os em grande número e de toda a espécie. .e para isso tenho tomado as minhas precauções: mas preferia sabê-lo já. com veemência... em virtude da sua recomendação.disse Cauvignac. .. .. rica..Sim.. E o tal tratante muito feliz será se a minha assinatura em branco o não fizer enforcar brevemente. pois. .disse Cauvignac.. . Nanon?) .Aquele miserável. a propósito. um espírito distinto. invisível para todos. .Um sinal?. com ar de ingenuidade . .continuou o duque . apurando o ouvido.. mas este é um dos mais impudentes que eu tenho encontrado. senhor. poderosa e.Esquece-se que eu ignorava um tal parentesco?.Palavra!? . extorquiu-me um papel assinado em branco.Oh! -fez Cauvignac.disse o duque..Tomou as suas precauções. Mas bem compreende. enquanto eu mesmo vou ocupar-me de um certo tratante.minha irmã sabe até que ponto a amo. Talvez que o seu futuro dependa da mensagem que lhe confio.. .Tem razão. . e algum dia saberá quem a cometeu.E de que tinha a loucura (perdoa-mo. em troca da carta que sua irmã lhe escrevera ontem. que nenhuma necessidade já tem de se ocultar. agora. que tais acções não ficam impunes. mancebo.Uma assinatura em branco é negócio muito sério! Mas que interesse tinha . meu jovem amigo -continuou o duque d’Épernon.perguntou Cauvignac..talvez me possa dar algumas informações acerca daquele bandido. sua irmã dar-lhe-á a saber qual é o negócio de que se trata: ela entregar-lhe-á uma carta da minha parte.Promete-mo?. por certo. e fique certo do meu afecto. .Quando precisar de protecções.Na realidade?! Ciúmes de mim!. com efeito.Sim.. . excelentíssimo senhor.. agora. que é inútil usar de rodeios.Senhor -exclamou Cauvignac.Sim. É uma boa cabeça. Ah! senhor. é demasiado tímido... algum dia o saberei .em possuir uma carta de irmã para irmão? ..E como poderá distinguir aquela assinatura em branco das outras ordens que dá? .Ah! é verdade..de ora em diante. .Fará muito bem. . deverá recorrer a mim.A isso me obrigo.Senhor -exclamou Cauvignac. ..continuou o duque estendendo a mão à jovem senhora. um coração generoso! Ame sua irmã.De boa vontade o farei .Fique então na companhia de Nanon. dirigir-me-ei a si directamente! .. e que nada desejo tanto como vê-la feliz.de ter ciúmes de si. . não é assim.Basta que eu saiba quem é o bandido de que vossa excelência quer falar. siga os seus conselhos.Sim. . mas que eu poderei reconhecer mediante um . Mas. sim. e de que se apossou por uma violência infame..Ah! -replicou Cauvignac. nenhuma razão tinha para isso. barão . agora. que estou ciente de que é irmão de Nanon. . . 114 .. . . .Desejava.

não me lisonjeia muito.. com um franzimento de sobrancelhas que nada anunciava de bom... excelentíssimo senhor.porque não está onde devia estar? . e fechando a porta como acaba de dizer o senhor duque dlheÉpemon.Assim. realmente nada lhe posso dizer a seu respeito.. . "Em boa estava eu metido! . mas quanto à minha pessoa. senhor. não é tão tolo como parece! Mas que farei eu da assinatura em branco?.Nada de sacrilégios. .Sim. em particular) tiveram vontade que eu as recebesse. .Não será Nanon.processo químico. e então.Sim. Nanon acompanhou o duque até ao patamar.. . pois. um gesto amigável ao irmão. eis-nos aqui sós. . nada de zombarias quando se trata de coisas santas.Agora. E Cauvignac chegou uma cadeira para junto de si. não estaria aqui.Ah! é verdade -replicou Cauvignac.visto que me não pode dar informação alguma relativamente àquele patife.Ora essa! . como estarei desobrigado da palavra que lhe dei. E o duque fez com a mão uma saudação benévola a Nanon. deixo-o com sua irmã. Escute: enviou-me para o Convento dos Meninos de Angolana. a sua educação foi toda religiosa. rogo-lhe. . a fim . diga que algumas pessoas que por mim se interessam (a senhora mesmo.. Vamos.Pode ficar descansado. . tem razão. mas a fim de bem conversar é preciso estar sentado.Ámen!-finalizou Cauvignac.E então. é uma prova de grande engenho. minha querida irmãzinha -respondeu Cauvignac . senhor. minha querida. . mandá-lo-ei enforcar. .Contudo.completou o duque. essa pergunta.Ora. senhora.Eu não estou zombando.Não. senhor. . . .Eu não. Se me achasse onde deveria estar.Ah! minha querida irmãzinha.. pois. e por consequência. . Nanon sentou-se. tornando a entrar.. e fez com a mão sinal a Nanon de que esta cadeira era destinada para ela. algum dia." . .disse Nanon . Eu vim unicamente para falar consigo.. mas é mister tomar cuidado de que o poltrão não tenha alguma suspeita do laço.Oh! por isso não é de recear. . prometendo que provavelmente voltaria antes que anoitecesse.o que fez. . Com todos os diabos! farei o que se faz com uma letra de câmbio: negociá-la-ei. da sua parte. . não poderá deixar de saber.continuou o duque. e desceu a escada.. . senhor .pensou Cauvignac. minha querida manazinha. Nanon . Não faço mais do que narrar. e julgo ter-me aproveitado dela santamente. excelentíssimo 115 senhor. quem quer que lho diga?.Fez muito bem aquele digno senhor em prevernir-me.E agora -continuou o duque..disse Cauvignac. vamos. cá vos deixo a ambos... .. quem é aquele homem.Em primeiro lugar . Sente-se. . não serei eu.Não havia desejado receber as Ordens sacras?. como ia dizendo. e sobretudo que não perca tempo! .disse Nanon. não teria o prazer de me ver.dê a este mancebo as informações precisas.Nem o senhor! Portanto. visto que em troca da assinatura em branco lhe terão dado o que desejava..eis-nos aqui sós. não tive uma vocação suficientemente intensa para a Igreja.Nem eu .

Não quis que eu fosse frade. querida irmã. eu fi-los. não tendo já nada que aprender no convento daqueles dignos meninos... senhora. mais do que suficiente. e se não inventarei alguma ordem nova. mas até me perguntou se eu queria ser seu secretário. disso estou bem lembrada. homem de guerra?!.Sim.Ah! eu conto. juro-lhe que cumpri exactamente este voto: ninguém tem sido mais pobre do que eu. e teologia como João Huss.... . Portanto. como bem vê. bem entendido. eu passava por um prodígio. essa era a minha intenção. pediu-me mil francos. como saiu do convento? . minha irmã.Não.Mas. sempre em cumprimento das suas ordens. o que me tornou profano e impuro. . . veja que entre esses carmelitas que bem longe estão de serem uns Erasmos e uns Descartes. o que fiz em termos tão elegantes e tão selectos. passei dali. para o cumprimentar. 116 117 Mil francos para um carmelita. o convento é que recebeu constantemente essa renda. voto de pobreza?. se eu fiz voto de pobreza. Mas neste momento estou aplicado à guerra.Então já não está na religião? .Sim. encolhendo os ombros .Sim. no meu entender.E quando assim fosse? Não fez o senhor. sob o pretexto de que eu não era ainda carmelita. é o que me não atreveria a fazer.. latim como Cícero.. mas. . . querida irmã. Isto aconteceu justamente no instante em que ia pronunciar os meus votos. era. quando o senhor duque de Longueville foi a Ruão solicitar que esta cidade se declarasse a favor do Parlamento. Como Adão saiu do Paraíso. Dizer-lhe que nela não tornarei algum dia a entrar. Sei grego como Homero.volveu Nanon. na primeira ocasião que se me ofereça. que eu lhe mandei por mão própria. Quem sabe se não farei como o senhor de Rance. Era demasiado sábio..E dou-lhe a minha palavra de honra que foram os únicos que recebi.. ..O senhor. e até. ao menos por ora.Esquece-se de dizer que eu tinha prometido estabelecer-lhe uma renda anual de mil francos. para o dos Carmelitas de Ruão.Mas devia renunciar ao mundo. . . de ciência.E então? . . de onde resultou. . consagrando-se à Igreja.de ali fazer os meus estudos. de onde resultou. a fim de ali professar. que não só deu mostras de ficar muito satisfeito com a minha facúndia. e. O senhor de Rance não acaba de fundar a Ordem de Cartuxa?. . cumpre-me confessá-lo. . sob pretexto de fazer as suas despedidas do mundo. e que cumpri a minha promessa.Não o nego.. . 118 pois. a ciência é que me deitou a perder.. . ela dispôs de mim de outro modo. . purificar-me-ei.. e por algum tempo. não me arrependo de assim ter feito. digo. enviarem-me àquele mesmo senhor de Longueville. Mas tal não foi a da Providência.Minha irmã. que sem a mínima dúvida lá tem os seus desígnios a meu respeito. Conformei-me.E então. à vontade daquela boa Providência. porquanto qual é o homem que pode na véspera dizer o que fará no dia seguinte?. pela mão do senhor de Longueville.Como é que pode ser demasiado sábio? .

Ah! a minha estada junto do senhor de Longueville foi-me muito útil. Suscitei. Ninguém tem os acontecimentos na mão. e a atraiçoar. .Como se fora um imperador.Muito bem.E porque não?. a seu lado? . minha querida Nanon.. eu estava com o senhor duque de Elboeuf.. como o ilustre cabo de partidários Sforza..À mais alta posição. um Dugues-clin. irá longe. se não for enforcado. Não lhe direi que sou um Dunois. contados pelo relógio. é homem de guerra?.exclamou Nanon. em caso de necessidade. quando a isso me vejo obrigado.E então? Isso que tem?. Querida irmã! Tal como me vê. Não.E onde o levou isso? ... Ora. ." Tenho. um dos meus medos.Nada disso.E como pôde tal suceder? . Se não estou muito enganado. que é isso de medo...Portanto. É uma felicidade para mim que aqui esteja. um cavaleiro sem medo e sem mancha. governei Paris. para isso.. Foi justamente o que eu disse comigo. durante o qual lancei mão. é que me enforquem. eu sou como Mazarino.Quanto tempo? . . mas a minha verdadeira inclinação. um Bayard. .O que se aprende ao lado dos príncipes: a guerrear. pois. Ora. a minha vocação decidida. é para a diplomacia. o que não obsta a que seja bravo quando a ocasião se oferece. e nenhuma vergonha pode haver em estar com o senhor de Elboeuf.Mas isso é uma coisa horrorosa!.. como diz Plauto: "Homo sum. Ora pois. et nihil humanum a me alienum puto". que.Sim.Que perdeu.De uma maneira muito simples. não saberia que fazer dele.. um motim a favor do senhor de Elboeuf. pois. eu! .E homem de corte. Lancei mão da sua amante. Não ignora que o coadjutor.. a intrigar. pois. eu mesmo! . chegarei a ser um grande político. o que quer dizer: "Eu sou homem. o senhor de Elboeuf era inimigo do coadjutor. . . e por isso. o senhor de Gondy. da senhora de Chevreuse. 119 .. . e ver-me-ia muito embaraçado. É um príncipe loronês. . Sou um homem. Portanto. basta olhar para Mazarino. tanto medo como a todo o homem é permitido que o tenha.depreciativamente. . não chega o meu orgulho a ponto de dizer que nada tenho de que possa arguir-me. a espada e a pistola.. O senhor de Conde também perdeu a sua.. . o maior de todos. e não perguntarei.O senhor?! .Não é coisa horrorosa que um padre tenha amante?.Governou Paris? . querida Nanon. naquele momento. naquele momento. o que me dá muita confiança e alento. como bem vê. Sei manejar assaz agradavelmente.. . .De quem? Do coadjutor? . e. e nada do que é humano me é estranho.Uma hora e três quartos. e a política é uma bela carreira. o abade de Gondy. .Era senhor absoluto da cidade. 120 . o meu intento era apoderar-me dela e levá- ..E que aprendeu.

Nanon. . senhor.admirou-se Cauvignac. . No meio do motim corri o maior perigo que jamais me ameaçara.Pobre mulher! Ver-se assim posta em leilão!. e que prova ser capaz de tudo. .. pouco destra.Mas não querida irmã: são as consequências necessárias da guerra civil. .. a bala passou por cima da cabeça. mas isso era inútil. .. No tratado que fizeram entre si. que sou desgraçado! A circunspecta criada da senhora de Chevreuse. e como não proporcionava a recompensa pelo serviço. Eu?!. assim o espero. . e que tinha por objectivo dar cabo do senhor chanceler Séguier.Sim. cumulado dos meus benefícios.Quanto mais não seja.Não me fale mais em tal..la para tão longe que jamais ele a tornasse a ver. por consequência. é que um irmão. de tentar o novo motim em honra do conselheiro Broussel. ficara comigo.que tem contra esta carta? Acaso estará mal concebida?. Pena sentiria. não o fez completamente.Sem dúvida.Então..Então. . isso provaria que é uma iletrada.. com o ar mais inocente do mundo.. portanto. O senhor de La Milleraye disparou contra mim um tiro de pistola.Atreveu-se a zombar. é fácil ver que não conhece os príncipes! O senhor de Elboeuf reconciliou-se com o coadjutor. Vejo-me. -A que me atrevi eu?. na sua própria presença.admirou-se Cauvignac.disse ele. o que nunca teria imaginado. pois .Arruinar minha irmã?. provou-lhe o quanto a amava o senhor de Gondy! Outro qualquer talvez não mostrasse tanto zelo em garantir-lhe a liberdade. a quem ninguém tratara de resgatar. deve estar rico. fui eu o sacrificado. saiba.Não me foi preciso esperar pela narrativa que acaba de fazer.. do conteúdo é que se trata.. por meio dessas surripiaduras. teria disfarçado a letra. quase à queima-roupa. obrigado a pôr-me ao serviço de Mazarino.Agora compreendo que um homem capaz de tais coisas se tenha atrevido a fazer o que ontem fez.Não se trata da redacção. tenha friamente concebido o projecto de arruinar a irmã. .. aceitei a oferta que me foi feita. para reconhecer a letra deste bilhete. e que.perguntou Cauvignac. .Eu? . 121 . dar-se por muito satisfeita.. a amizade daqueles a quem serviu ofendendo o coadjutor. Mas a minha gente. o que é que eu fiz? . de uma personalidade tão considerada como o senhor d’Épernon! Mas o que não compreendo..exclamou Nanon. roubou-me aquele dinheiro.Que mão-cheia de horrores! ... .. mas aquele diabo de homem tem umas razões a que não é possível resistir: mandou-me dez mil francos.Ah! Nanon. confesso.Como assim!? Deveria. . e o ilustre marechal apenas matou uma velha.. resta-lhe. . Se quisesse negar o facto. Cauvignac leu-a sem dar mostras de turbação. Quis a fortuna que nesse momento eu me abaixasse. mas este é um bigorrilha. o senhor! -replicou Nanon. . Foi ou não o senhor quem a escreveu? . pelo contrário. . ... E Nanon pôs debaixo dos olhos do irmão a carta de delação que o duque lhe entregara na véspera à noite. Veja! Negará que esta carta anónima seja escrita por si?. .Ora. Mandei-o prevenir de qual era a minha intenção. Nunca tive intenção de me . .Nenhuma dúvida há de que fui eu. se assim fosse...

não estando prevenido. oferecem um significado muito desagradável.. muito natural.... se dirigidas a um estranho... não posso deixar de dizer-lho: eu fui impelido por uma espécie de vingança. desgraça esta que acompanha todos os homens políticos. E então soube que minha irmã estava livre. estava sumamente embaraçada e receara imenso ver chegar o senhor de Canolles. Além disso.. com um gesto de horror. . . ter feito uma confissão capciosa. . creia. Que mal lhe fiz eu para que a ideia de se vingar de mim se apresente ao seu espírito!?. ficaria perdido?. .Não sabe que se eu dissesse uma única palavra ao senhor duque d’Épernon. nem me passaria pela ideia inquietar-me com isso. Lembra-se disso?. . . que possui milhões! Era uma miséria. Ah! Nanon.. do mesmo modo que vende a senhora de Chervreuse ao coadjutor. Recebeu três cartas. por mim antevistas. desgraçado!? Mas. que. Então..Vingança para comigo. .Não me fale disso. o senhor. como a que acaba de fazer.Não.O senhor mesmo bem o ouviu ainda agora.Confessa!? .E então não treme. pois conheço-a demasiado para lhe dar tal nome). Nada. que todavia confessa saber o que é medo?!. Ora. minha irmã repele-me. se tivesse continuado a ser diferente comigo. Era muito natural que me informasse. mas pondere. Apresento-me em casa de minha irmã. porque a tal confissão.. Que lhe importa. ponha-se no meu lugar. imploro-lhe. Saí de Paris. . resultam desta pequena altercação preparada pelos meus cuidados. . Volto para si. Não dirá que não reconheceu a minha letra. rica. feita com franqueza. talvez que já não seja senhora de si: neste caso. pois. e da sua própria 123 boca: qual é a sorte que destina àquele que lhe arrancou a assinatura em branco. os ciúmes transtornaram-me a cabeça.Com toda a certeza. o meu coração tentava desculpá-la. riquíssima! E que um barão de Canolles. a pedir uns miseráveis mil francos.. .É uma réstia de humildade. como eu o fiz. . pois. porque os termos da sua mensagem. que eu tivesse relações com o senhor barão de Canolles?. se lhe fizesse uma confissão franca. ingrata (não me atrevo a chamar-lhe de^a.. e minha irmã não me quer receber.É chegado o momento de lhe provar que os seus favores não caíram em terra ingrata. Escrevi-lhe três. estremeci até à medula dos ossos.disse eu comigo. Em primeiro lugar. porque ali tinha muitos inimigos.Diga antes que a cobiça.ocultar a seus olhos. eu até desejava que soubesse que a carta era obra minha. Vale mais. um estranho.. para não me trair. .. senhora. as cartas estavam assinadas.O que me fez?. provaria que o senhor de Canolles não é seu irmão. a si.. que era absolutamente a mesma do bilhete anónimo. . quantas vantagens.Sim. Mil francos. feliz.A mim?.. 122 . Vende-me ao senhor d’Épernon. pergunto. teria um . Talvez que ela ande na penúria . pondera o que diz! ?. foi-me preciso todo o poder que tenho sobre mim mesmo.admirou-se Nanon. . querida irmã. usurpa os meus privilégios e se faz proteger em meu lugar. é digna de desculpa. Como pode perceber..De vingança?.Oh! .

horrível papel no meio do seu romancezinho de família. A minha presença, pelo contrário, tudo salvou. Seu irmão não é já um mistério. O senhor d’Épernon adoptou-o, e até com muita bizarria, cumpre-me dizê-lo. Agora, o irmão não precisa ocultar-se, pois é da casa; daí resulta a facilidade da correspondência, e o poder encontrar-se consigo, tanto exterior, como interiormente - tendo, todavia, cuidado, para que o irmão de cabelos e olhos pretos não tenha a indiscrição de vir olhar cara a cara o senhor duque d’Épernon. Um capote assemelha-se enormemente a outro capote; e então, quando o senhor d’Épernon vir sair de sua casa um capote, quem lhe irá dizer se é ou não o capote do irmão? A única coisa que fiz, ao prestar-lhe este serviço, foi des-baptizar-me: chamo-me agora Canolles, o que não deixa de ser molesto. Deverá testemunhar-me agradecimento por este sacrifício que por si faço. A este fluxo redundante, resultado de uma incrível ousadia, 124 Nanon, estupefacta, não sabia que razões opusesse; e por isso Cauvignac, aproveitando-se desta vitória alcançada por assalto, continuou: - E além disso, querida irmã, já que depois de uma longa ausência, nos vemos reunidos; já que, depois de tantos contratempos, tornou a achar um verdadeiro irmão - confesse que doravante poderá dormir descansada, graças ao escudo com que o amor a cobrirá; viverá tão sossegadamente como se toda a Guiena a adorasse, o que não acontece, como muito bem o sabe; mas que remédio terá ela, senão passar pelo que nós quisermos. Com efeito, não me arredarei do limiar da sua porta, o senhor d’Épernon farme-á coronel, e em vez de seis homens terei dois mil às minhas ordens. Com estes dois mil homens renovo os doze trabalhos de Hércules; nomeiamme duque e par; a senhora d’Épernon morre; o senhor d’Épernon casa consigo... - Antes de tudo isso, duas coisas - atalhou Nanon, em tom um tanto desabrido. - Quais, querida irmã? Fale, estou pronto a ouvi-la. - Em primeiro lugar, restituirá a assinatura em branco ao duque, pois se o não fizer, está perdido. Bem ouviu a sentença da sua própria boca. Depois, sairá daqui no mesmo instante, pois de outro modo eu ficaria perdida, o que para si nada vale; mas perder-se-ia comigo, razão que, no meu entender, fará tomar a minha perda em consideração. - Duas respostas, querida senhora: a assinatura em branco é propriedade minha, e não pode impedir-me de me fazer enforcar, se tal for a minha vontade. - Nem eu a isso me oponho. - Muito obrigado! Mas nada disso acontecerá, esteja sossegada. Ainda agora lhe exprimi a minha repugnância por esse género de morte. Guardarei a minha assinatura em branco, a não ser que tenha alguma vontadezinha de ma comprar, e, em tal caso, poderíamos chegar a um ajuste... 125 - Não tenho qualquer necessidade dela. As assinaturas em branco sou eu que as dou. - Feliz Nanon! - Portanto, conserva-a? - Sim. - Correndo o risco que daí pode resultar? - Nada receie, sei o emprego que lhe devo dar. Quanto a retirar-me, não

cometerei uma tal indelicadeza, estando aqui com autorização do duque. Ainda há outra coisa: nesse seu desejo de se desembaraçar de mim, esquece-se de uma coisa... - Qual? - Aquela comissão importante de que o duque me falou, pela qual ganharei a minha fortuna. Nanon empalideceu. - Mas, desgraçado homem - disse ela- sabe muito bem que essa comissão não lhe está destinada! Sabe muito bem que, apesar da actual situação, seria um crime, e um crime que mais cedo ou mais tarde não deixaria de ser castigado. - E por isso não quero abusar. Só queria usar - eis tudo. - Além disso, o senhor de Canolles está designado na comissão. - E então, não me chamo eu barão de Canolles?... - Sim, mas no destino conhecem muito bem não só o seu nome, mas também o seu rosto. O senhor Canolles já por diferentes vezes foi à corte. - Seja então, eis uma boa razão; é a primeira que me dá, e portanto, bem o vê, e a ela cedo. - Além do que, tornar-se-ia a encontrar com os seus inimigos políticos acrescentou Nanon - e talvez que a vossa cara, se bem que por motivos diferentes, não seja menos conhecido do que a do senhor de Canolles. - Oh! isso não obstaria se, como disse o duque, a comissão tem por objectivo prestar um grande serviço à França. A mensagem servirá de salvaguarda ao mensageiro. Um serviço desta importância torna um homem digno de ser agraciado, e a amnistia do passado é sempre a primeira condição das conversações políticas, portanto, acredite-me, querida irmã, não cabe a si impor-me condições, mas sim a mim propor-lhe as minhas. -Vejamos quais são elas... - Desde logo, como ainda agora lhe dizia, o primeiro de todo e qualquer trabalho - isto é: amnistia geral. - Nada mais?... - Depois, o saldo das nossas contas. - Então, segundo parece, sou-lhe devedora de alguma coisa.. - Devia-me os mil francos que eu lhe tinha pedido, e que tão desumanamente me recusou. - Eis aqui dois mil. - Seja então, aí está como já reconheço a sua generosidade, Nanon. - Mas sob uma condição... - Qual? - A de reparar o mal que fez. - É muito justo. Que devo fazer para isso? - Vai montar a cavalo e correr pela estrada de Paris, até que tenha encontrado o senhor de Canolles. - Nesse caso, perco o seu nome... - Restituir-lho-á. - E que devo dizer-lhe? - Deve entregar-lhe esta ordem, e certificar-se de que partiu no mesmo instante para a executar. - É tudo quanto determina? - Tudo, absolutamente. - Será necessário que ele saiba quem eu sou? - Pelo contrário: é de suma importância que o ignore. - Ah! Nanon, será que se envergonha de me ter por irmão?... Nanon nada respondeu e ficou pensativa. - Mas - disse ela passado um momento - como poderei ter

126 127 a certeza de que desempenhou fielmente a minha comissão? Se para si houvesse alguma coisa sagrada, exigiria um juramento. - Faça ainda melhor... - O quê? - Prometa-me outros mil francos, depois de cumprida a comissão. Nanon encolheu os ombros. - Está combinado - disse ela. - Ora, pois, olhe; eu não lhe peço juramento algum, e a sua palavra basta. Portanto, dará mil francos à pessoa que lhe entregar da minha parte o recibo do senhor de Canolles. - Sim; mas fala de uma terceira pessoa: acaso tencionará não mais voltar?... - Quem sabe?.. Um certo negócio chama-me a mim mesmo aos arredores de Paris. Nanon não pôde reprimir um movimento de alegria involuntária. - Ah! isso não lhe cai bem -observou Cauvignac, a rir.- Mas não importa, cara irmã; nada de rancores. - Nada de rancores. Mas a cavalo. - A cavalo, no mesmo instante: não peço mais do que o tempo necessário para beber um gole. Cauvignac deitou no seu copo o resto da garrafa de vinho de Borgonha, saudou a irmã com um gesto muito respeitoso, e montando a cavalo de um pulo, desapareceu pouco depois, num turbilhão de poeira. IX PRINCIPIAVA a Lua a levantar-se quando o visconde, seguido pelo fiel Pompeu, saiu da estalagem de Biscarros, e se lançou pela estrada de Paris. Passado um quarto de hora, totalmente dedicado pelo visconde às suas reflexões, e durante o qual caminhou mais de uma légua, voltou-se para o escudeiro, que, montado com toda a gravidade, o seguia à distância de uns três passos. - Pompeu - perguntou o mancebo - terá por acaso a minha luva da mão direita? - Não, senhor, que eu saiba - respondeu Pompeu. - Então, que busca na sua mala? - Verifico se está bem segura, e aperto-lhe as correias, para que não tilinte. O som do ouro é fatal, senhor, e atrai os maus encontros, sobretudo de noite. - Faz muito bem, Pompeu - replicou o visconde - e muito me agrada ver que é tão cuidadoso e prudente. - São estas as qualidades naturais num velho soldado, senhor visconde, e que admiravelmente se conciliam com a coragem; {contudo, como a coragem não é temeridade, confesso que sinto pena por o senhor Richon não ter podido acompanhar-nos; porque, vinte mil libras são difíceis de guardar, muito principalmente em tempos tão tempestuosos como os nossos. 129 - O que diz está correcto, Pompeu - respondeu o visconde - e eu sou totalmente do seu parecer. - Eu até me atreveria a dizer - continuou Pompeu, reconfortado no seu medo pela aprovação do visconde - que não é prudente aventurarmo-nos como fazemos. Paremos, pois, se for do vosso agrado, para que eu inspeccione o

em Corbie é que foi ferido. . Convido-o a não fazer alguma valentia inútil.. a uns cem passos para a nossa direita. 130 . Esperemos. não pretendo outra coisa. . tomam atitudes ameaçadoras. Pompeu? .Tudo está em bom estado.Vai acontecer-me aqui o mesmo que me aconteceu em Corbie. Senhor visconde. Pompeu.o que foi uma felicidade para eles . e aquele que quisesse cortar-nos o passo passaria um mau quarto de hora.. com as mangas estendidas. Pompeu. de mau humor. . portanto.. Ultimamente. Óh! oh! que vejo eu lá em baixo!?. e qual delas a mais escandalosa.Diante de nós. absolutamente . . . e caminha direito às mochilas. arcabuzaram dois soldados de cavalaria ligeira que. despeitado. Estes.Estão varejando a presa. e alumiou esplendidamente. . cujas franjas prateava.Vejo qualquer coisa branca. senhor visconde. Nesse momento. com a carabina nas mãos. Há que acautelarmo-nos.replicou o escudeiro.disse Pompeu. . e o que nós vemos é branco. mas eles a mim não me vêem .Se eles o não vêem. duas ou três camisas que estavam a enxugar por detrás de um valado.. não se ouve falar senão de partidários que tomam por égide a farda de Sua Majestade para cometer milhares de infâmias.A minha demonstração seria. porque. Pompeu..Onde? .Sim.mochilas. são levadas por soldados do rei. que era um temerário.Então.disse o visconde. ele obstina-se. a uns cinquenta passos dos dois companheiros.Há que ter esperança em que assim não suceda. esta é a sua táctica. obrigam o viajante a dar-lhes a bolsa. . de longe. Andávamos patrulhando de noite para reconhecer o lugar onde havia de travar-se a batalha. .se eles ameaçam de longe com as carabinas. Pompeu.Mas. inútil. Descobrimos umas mochilas. .não tiveram de esperar muito tempo. . senhor visconde.meu mosquete. o luar rompeu através de uma nuvem negra. Emboscam-se assim ao lado da estrada.Sim.. .. segundo me parece. . se bem me lembro. . e.Desengane-se. desengane-se.. Eram estas as mochilas que haviam recordado a Pompeu a sua fatal patrulha . e foi o que fizeram aqueles miseráveis que ultimamente foram castigados em Bordéus. talvez. mas muitas vezes vestem uma camisola por cima do uniforme. como está vendo. meu bom Pompeu . é azul.Sim. Passado um instante. sejamos prudentes. em tal caso não podem ameaçá-lo .Se são mochilas. Os viajantes . Entricheiremo-nos. Eu volto costas.. parecemme tão imóveis!. em termos de guerra chama-se a isto entrincheirar. nesta direcção. Pela minha honra. de entrar neste valado à esquerda.Parece-me que me recordo da farda dos tais soldados de cavalaria ligeira.Oh! oh! -fez Pompeu .....De guerra nada entende. Contudo. faça outro tanto com a sua. que apesar de muito assustado conservava a presença de espírito . senhor visconde. . Eu estava com o senhor de Cambes. que tenho vontade. .disse o visconde. e sofri uma terrível ferida.Sejamos prudentes. . em Bordéus. muito pelo contrário. e os soldados do rei não roubam viajantes. uma maldita bala.

pois eu estou aqui e não durmo. e nós somos dois. Um soldado não teme nem os santos nem os diabos. no meu entender.Cá está a vantagem que há na escuridão: vemos o inimigo sem que ele nos veja. 132 eu estivesse só. iríamos literalmente lançar-nos na goela.Passemos para a sombra.. . .Então..Senhor visconde.Sim.Aquele maldito Richon. a que nos decidimos nós? Deixamo-nos ficar ao luar. que sombra negra é aquela que descubro lá em baixo!.. . Percorridas umas duas léguas já o tempo era magnífico.. exclamando: . é o que me parece mais prudente. senhor visconde. e Pompeu seguiu-o. Está pronto a descarregar: abaixe-se! . Pompeu.estamos falhos de exploradores. como bem o compreende.rosnou o escudeiro. então passemos para a sombra. Ah!.Ora. . Pompeu: nada mais faz do que mudar a espingarda de um ombro para o outro. corremos o risco de sermos colhidos de súbito. sempre há algum tempo de repouso. . meu bravo Pompeu? . porque a solidão é um índice dos caracteres resolutos. . de que servem a prudência e a experiência da guerra! Depois de grandes comoções. O famoso barão des Antres andava sempre só.disse o visconde. senhor visconde? . está só. que faz pontaria para nós.replicou o visconde .. o lugar só é favorável a um. Sempre ouvi dizer aos militares que quando dois homens mutuamente se buscam.. isto pouco cuidado me daria.. . Desta vez não há dúvida que ela marcha! . .Não é verdade que sente medo.Pois sim. . Não é este o nome que se dá aos que vão bater o mato. os viajantes caminharam tranquilamente. ao longo de um bosque que guarnecia um dos lados do caminho. mas se houvesse alguns homens emboscados na extremidade deste bosque. Pompeu. não me agrada nada o luar . . .disse Pompeu.de Corbie. . e esta duplicada responsabilidade assusta-me.Desgraçadamente . se me não engano. enquanto nós teríamos formado o corpo de exército.Quando nos avistam de longe.. e portar-me-ia como Dom Quixote.É mais do que certo . ninguém se aproxima de um bosque sem que primeiro o tenha mandado reconhecer. passando além das camisas.E faz muito bem em não o ter. meu querido Pompeu. passemos. Não lhe parece que aquele desgraçado tem uma espingarda!. O senhor. a sombra caía larga e negra como o ébano. o que é uma imprudência. .. porém. Nós achamo-nos em plena luz.Decididamente. esporeou o cavalo. senhor visconde. os homens que viajam sós são mais de temer. é verdade .Sim. Ei-lo.É verdade.Mas não. O visconde soltou uma gargalhada. Veja. juro-lhe que não. Pompeu. é um companheiro tão difícil de guardar como o tesouro que vai na garupa. ou passamos para a sombra? . Em campanha. .. senhor visconde. porque não havia de vir connosco? Tê-lo-íamos mandado adiante como vanguarda. Mas aquele homem. decerto..Não.Que felicidade não ter cedido à minha primeira inspiração! 131 Estava para dar um tiro para esse lado.

próximo a Saint-Genés. .. De noite nunca devemos confessar que temos dinheiro. não é prudente. que se afastou dando graças ao Céu pelo feliz encontro que tivera. .Mas era um poltrão. . que ele não atira.Sou um pobre mercador ambulante que de oito dias a esta parte não vendeu um só lenço.. pode voltar com gente armada. .que não somos ladrões.... repito-o. o teu caminho: estás livre. engrossando a voz.. O que Pompeu tomara por espingarda era a vara com que o pobre diabo media as fazendas.. 134 O visconde reconheceu desta vez a razão para a admoestação que Pompeu lhe dava .disse majestosamente Pompeu . depois de ouvida a teoria. e o senhor falará depois de mim.ajuntou a voz mais meiga do visconde. meu amigo . . E chegaram às margens do riacho de Saye. e que quer que façam dois homens sós. e que nem um soldo sequer trago comigo. . Então. lhes foi menos preciso passar a vau. depois de terem andado uns vinte passos. e o nosso aspecto resoluto tê-lo-á intimidado. mas como uma teoria não é uma ponte.. pode não ser mais do que um espião mandado adiante para reconhecer o terreno. como disse. i -Não atira!. 133 . pondo-se de joelhos. amigo . deixar perceber a um desconhecido que por acaso encontramos na estrada. abaixemo-nos.gritou Pompeu. . Assim. não vê que o primeiro grito deste poltrão foi dizer que não tinha um soldo na algibeira? . . há tanta distância como do medo à prudência. A sombra parou.Pode pertencer a uma quadrilha armada. esta é a prática constante.É verdade . .Entre ter medo e ter desconfiança.Mesmo quando esse desconhecido está só e desarmado?. o riacho não era profundo. Pompeu.acrescentou Pompeu.Então porquê? Em que fiz mal? . e este . senhor visconde.Tenha compaixão de mim. .ou antes: para pôr termo à discussão.Olá.Toma.Ah! tem medo?.disse o escudeiro.implorou o homem. que viajamos de noite porque nada receamos. e havia que passar a vau. . com a sua branca mãozinha. .Não importa. nem por isso. recebamos o tiro com o nariz sobre o arção. somos militares que nada tememos.. amigo! Quem sois? . Não havia ponte.O pobre diabo já está meio morto de medo. senhor visconde. ..reflectiu o visconde.É tempo perdido . -Mas pode ver perfeitamente. como o diz. contra tantos?. por muito bravos que sejam. deixe-me falar-lhe. A sombra vinha sempre adiantando-se..Fica sabendo..disse Pompeu. que possuímos o ouro.Não procedeu bem. senhor! . antes muito mal. abaixemo-nos.Aqui tens cinco libras pelo medo que te metemos... Por felicidade.. enquanto nós. . e que Deus te acompanhe! E o visconde. deu-se por convencido. Ah! tem medo. empertigando-se.Em dar cinco libras àquele homem. sorrindo-se. Pompeu apresentou então ao visconde uma sábia teoria da passagem dos rios. segue. deu cinco libras ao pobre diabo.. . pois. fazendo um movimento de terror muito visível. arremessando-se a ele com a carabina em punho. .disse o visconde.Bom! Teve sem dúvida medo. . ..disse Pompeu. mas sim militares.Grite também .

um excelente cavalo russo ruão. parecia aos dois fugitivos que os inimigos se iam aproximando..Gritam que nos façam parar . .E se tomássemos por este lado. o galopar de cavalos. que inflamou o ardor do cavalo barbo do visconde. mas. Pompeu meteu esporas ao cavalo. é alguém que sabe que nós conspiramos: Vão rodar-nos vivos! . .disse o visconde. Estamos perdidos! . a sua montada. os dois viajantes pararam repentinamente.Então. Ao mesmo tempo. .. .. neste campo.novo incidente deu uma nova prova ao visconde de que as coisas. os cavalos em que iam montados ergueram a cabeça e um deles relinchou.exclamou Pompeu .São mais de trinta! Escute: eles ainda nos chamam. são muito mais medonhas do que vistas de perto. a fuga é muitas vezes um meio de vencer. e ambos. todo trémulo.disse este em voz baixa.Parai! parai! .. parecia a lúgubre ameaça dos espíritos da noite.Muito pelo contrário! . 136 .Desta vez . e a sua imprudência é que nos põe em perigo! Vamos. .. misturada com o sibilo produzido pelo vento que os dois cavaleiros iam fendendo. raiaria o dia . De súbito.. .Ora. eu bem lhe havia dito. será preciso parar?.exclamava o visconde. deu um pulo ao sentir-se picado.Rebentemos os cavalos. Horácio.não os ouve?. chegados ao meio do bosque que rodeia Marsas. voz que. rebentou uma voz do meio das trevas. e com tal zelo o fez. .Vamos já. com efeito. e deixássemos passar os que nos perseguem?. o grande Horácio.É uma boa ideia . . de onde saíam milhares de centelhas. mais morto do que vivo. acabavam de ouvir ao longe e atrás de si.disse o visconde. Esta correria durou cerca de uma hora. Ouço um bando de gente a cavalo: perseguem-nos! Apostaria em que é a quadrilha do falso mercador.apressemos o passo quanto for possível! Adiante! Adiante! .disse Pompeu. Esta voz fez eriçar os cabelos brancos na cabeça de Pompeu. fujamos. mas distintamente.Visconde! Visconde! -bradava a voz.É alguém que nos conhece.Ai! sim.Têm gente adiante de nós! Estamos cercados! . nada de falsas bravuras! Salvemos a vida e o dinheiro. .continuava a voz. fingiu que fugia. espero que se mostrará dócil e que deixará o acontecimento à experiência de um soldado velho. Pompeu . com pouca diferença.. velho patife! .. tão assustado agora como o seu defensor..perguntou o visconde.Eles gritam: parai! . .senhor visconde.quando.Sim.disse Pompeu com voz sufocada. fizeram retumbar a calçada com os golpes compassados das ferraduras.disse Pompeu. pois.. .Eles adiantam-se! Ganham terreno! -dizia Pompeu. lançando mão à rédea do cavalo do companheiro .. .Eles gritam: parai! . sem mais demora. se for preciso! .. sim. 135 à porfia. adiante! adiante . e sobretudo de noite.Pare! Pára. é alguém que sabe que levamos o dinheiro da princesa. longe de ganharem terreno. vistas de longe. ... Principiava pois o visconde a sossegar-se realmente -e além disso dentro de uma hora. .

Os dois cavaleiros fizeram ao mesmo tempo voltar as cavalgaduras para a esquerda; o cavalo do visconde, habilmente conduzido, saltou o valado; mas o cavalo de Pompeu, menos destro, chegou-se demasiado à borda, a terra esboroou-se-lhe debaixo dos pés, e caiu, arrastando na queda o cavaleiro. O pobre escudeiro deu um grito de profundo desespero. O visconde, que já tinha andado uns cinquenta passos pelas terras, ouviu este grito de angústia, e, apesar de sumamente assustado, fez voltar o cavalo e foi ter com o companheiro. - Quem me acode! Misericórdia! - gritava Pompeu. - Eu pago o meu resgate! Rendo-me! Pertenço à Casa de Cambes! Uma enorme gargalhada foi a única resposta a estes lamentos; e o visconde, chegando neste momento, deu com os olhos em Pompeu que abraçava o estribo do vencedor, o qual, falando-lhe com uma voz sufocada pelo riso, fazia diligência para o sossegar. - Senhor barão de Canolles! - exclamou o visconde. - Ora, isto não são coisas que se façam, senhor visconde! Obrigar as pessoas que o procuram a correr deste modo!... - O senhor barão de Canolles! - disse Pompeu, que ainda duvidava da sua fortuna. - O senhor barão de Canolles e o senhor de Castorin!... - Sim, somos nós, senhor Pompeu - disse Castorin, empertigando-se nos estribos para ver por cima do ombro do amo, que, não podendo deixar de rir, se debruçava sobre o arção da cela. - Então que faz neste valado? - Está bem de crer- disse Pompeu. -O cavalo caiu no momento em que, tomando-os por inimigos, tratava de me entrincheirar para fazer uma vigorosa defesa. Senhor visconde - continuou Pompeu, levantando-se e sacudindo-se- é o senhor de Canolles. - Quê, senhor!? Por aqui?!-rosnou o visconde, com uma certa alegria que, involuntariamente transparecia na entoação da sua voz. 137 - Por certo que sou eu! Sim, eu mesmo - respondeu Canolles, cravando os olhos no visconde com uma tenacidade a que o achado da luva servia de explicação. - Morria de aborrecimento naquela estalagem; Richon havia-se apartado de mim depois de me haver ganho o meu dinheiro. Soube que tinha partido e que seguia a estrada de Paris. Quis a fortuna que eu também tivesse que fazer para estes lados. Pus-me então a caminho para juntar-me a si, pois não suspeitava que, para alcançá-lo, me fosse preciso correr à desfilada. É na realidade, meu gentil-homem, um exímio cavaleiro! O visconde sorriu-se, balbuciando algumas palavras. - Castorin - continuou Canolles - ajude, pois, o senhor Pompeu a montar de novo; muito bem vê que, apesar de toda a sua destreza, não o pode fazer. Castorin apeou-se e foi ajudar Pompeu, que, por fim, conseguiu sentar-se na sela. - E agora - disse o visconde- tornemos, se lhe aprouver, a seguir o nosso caminho. - Mais um instante -pediu Pompeu, bastante perturbado - mais um instante, senhor visconde... parece-me que me falta alguma coisa... - Bem o creio - disse o visconde. - Falta-lhe a mala. - Ai! Meu Deus - queixou-se Pompeu, fingindo um profundo espanto. - Desgraçado! - exclamou o visconde. - Será que perdeu...! ? - Não pode estar longe, senhor... - respondeu Pompeu. - Não será isto?...-perguntou Castorin, levantando a custo do chão o objecto que buscavam. - Justamente - disse o visconde.

- Justamente! - exclamou Pompeu. - Não foi culpa dele - disse Canolles, que desejava granjear a amizade e o afecto do velho escudeiro. - Com a queda, rebentaram as correias e desprendeu-se a mala... 138 - As correias não estão rebentadas, senhor, mas cortadas - disse Castorin. - Olhe... - Oh! oh! senhor Pompeu - disse Canolles- que quer isto dizer?... - Isto quer dizer - replicou com severidade o visconde - que, receando ser perseguido por ladrões, o senhor Pompeu terá tido a resolução de cortar as correias da mala, para se livrar da responsabilidade de ser o tesoureiro dela. Em termos de guerra, que nome se dá a este ardil, senhor Pompeu. Pompeu quis desculpar-se, referindo-se à faca de mato que "imprudentemente desembainhara"; como, porém, não pudesse dar uma explicação cabal, sempre ficou manchado, aos olhos do visconde, da suspeita de haver querido sacrificar a mala à sua segurança. Canolles foi mais benigno para com ele. - Bom! bom! bom! - disse ele- não é esta a primeira vez que tal acontece. Vamos, Castorin, ajude o senhor Pompeu. Tinha razão, amigo Pompeu, de recear os ladrões: a sacola tem o seu peso, e seria boa presa... - Não graceje, senhor -volveu Pompeu, estremecendo.- Todo o gracejo nocturno é equívoco. - Tem razão, Pompeu, e mais do que razão; e por isso - continuou Canolles - quero servir-lhes de escolta, a si e ao visconde: o reforço de dois homens não deixará de lhe ser útil. - Sem dúvida que o será! -exclamou Pompeu.- O número sempre dá segurança. - E o senhor Visconde, que pensa do meu oferecimento? - interrogou Canolles, vendo que o visconde aceitava com menos entusiasmo do que o seu escudeiro a oferta graciosa que lhe era feita. - Eu, senhor - disse o visconde - reconheço a sua urbanidade habitual, e agradeço-lhe muito sinceramente; porém, não seguimos o mesmo caminho, e eu recearia incomodá-lo... 139 - Como! - estranhou Canolles, desgostoso de ver que a luta da estalagem ia recomeçar na estrada real - pois não seguimos nós o mesmo caminho?!... Não vai a...? - A Chantilly - apressou-se Pompeu a dizer, todo trémulo com a ideia de continuar a viagem sem mais companhia do que a do visconde. Quanto a este, fez um gesto de impaciência muito visível, e se fosse dia, fácil seria de ver um rubor da cólera assomar-lhe às faces. - Ah! -exclamou Canolles, sem dar mostras de ter notado o olhar furibundo com que o visconde fulminava o pobre Pompeu.- Ah! Chantilly fica-me justamente no caminho que sigo. Eu vou a Paris, sim... ou para melhor dizer... - ajuntou, a rir. - Olhe, visconde, eu nada tenho que fazer, e não sei aonde vou. Se vai para Paris, eu vou para Paris; se vai para Lião, eu vou para Lião; se vai para Marselha, há já muito tempo que tenho grande desejo de ver a Provença, e vou para Marselha. Se vai para Stenay, onde estão os exércitos de Sua Majestade, vamos para Stenay. Sem embargo de haver nascido no Midi, não deixo de ter uma certa predilecção pelo Norte. - Senhor - replicou o visconde, com uma certa firmeza, que sem dúvida era

devida à irritação em que o pusera Pompeu - será preciso dizer-lho? Eu viajo sem companhia, por negócios pessoais da mais alta importância, por motivos muito sérios, e de antemão lhe peço perdão: se insistir, obrigarme-á, como muito pesar meu. a dizer-lhe que me incomoda nos passos que tenho que dar. Nada menos era preciso do que a lembrança da luvazinha que Canolles conservava oculta sobre o seu peito, entre o vestido e a camisa, para que o barão, vivo e impetuoso como um gascão, lhe não dissesse alguma graça. Contudo, pôde conter-se. - Senhor -replicou ele seriamente- nunca ouvi dizer que a estrada real pertencesse mais particularmente a uma pessoa do que a outra. Por isso lhe dão o nome de real, para provar que todos os súbditos de Sua Majestade têm igual direito a se servirem dela. 140 Estou, pois, na estrada real, sem a mínima intenção de incomodá-lo: até nela me encontro para o ajudar, visto que é moço, fraco, e sem grande defesa. Eu julgava não ter ares de salteador de estrada. Mas já que a sua posição é essa, convirei em que não tenho boa cara. Perdoe-me, pois, senhor, a minha intromissão. Tenho a honra de lhe apresentar os meus cumprimentos. Boa viagem. E Canolles, fazendo dar um ligeiro salto ao cavalo, passou, depois de haver saudado o visconde, para o outro lado da estrada, por onde Castorin o seguiu de facto, e Pompeu de intenção. Canolles representou esta cena com tanta elegância, com um gesto tão sedutor, cobrindo com o seu largo chapéu uma espaçosa testa e uns finíssimos cabelos pretos, que o visconde não se sentiu tão comovido pelo modo com que o tratou, como pelo seu porte nobre e alta estatura; tinhase ele afastado, como dissemos. Castorin seguia-o, direito e firme nos estribos. Pompeu, que ficara do outro lado do caminho, dava suspiros capazes de arrancar lágrimas às pedras; então, o visconde, que havia feito numerosas reflexões, apressou o passo do seu cavalo, e, pondo-se a par de Canolles, que não dava mostras de o ver, nem de o ouvir dirigirlhe estas duas palavras com uma voz apenas inteligível: - Senhor de Canolles... Canolles voltou-se, sobressaltado; não cabendo em si de contentamento, parecia-lhe que todas as músicas das esferas celestes se reuniam para lhe oferecer um divino concerto. - Senhor visconde... - disse ele, por seu turno. - Escute, senhor - respondeu este, com voz doce e branda. - Receio, na verdade, ser descortês para com um gentil-homem com o seu merecimento; perdoe-me, portanto, a minha timidez. Recebi uma educação tímida, devido aos desvelos com que os meus pais me trataram; eu repito-lhe, perdoe-me, pois nunca tive a mínima intenção de o escandalizar; e como prova da nossa sincera reconciliação, permita-me que siga a seu lado. - Então, porque não!... - exclamou Canolles. - Não uma só, 141 mas cem vezes lho concederia! Não conservo rancor algum, senhor visconde; e para provar-lho... E, dizendo isto, estendeu a mão, na qual se apoiou, ou antes escorregou, uma fina, ligeira e furtiva mão. O resto da noite passou-se em práticas galhofeiras por parte do barão. O visconde escutava sempre, e ria-se algumas vezes.

por conseguinte.A menina de Lartigues. e não pararam senão ao jantar. 142 "Se me enganasse . porque já era dia claro. ser paciente. e não eu com ele.. cujo envoltório almiscarado lhe causara uma tão viva comoção. senhor visconde. e até propunha que se apressasse o passo. Sentiu-se então dominado por um louco desejo de responder o que lhe vinha à cabeça. De vez em quando. Achava alguma coisa de encantador naquele disfarce do visconde. na verdade. Desta vez. Depois do jantar. e retirou-se. estando tão enamorado da menina de Lartigues. dizendo que ainda tinham muito para percorrer e que. e deixou ver uns cabelos tão lisos. o visconde experimentou alguma dificuldade em levantarse. o cansaço.Não foi muito difícil -respondeu Canolles. almoçou com o visconde.Os dois criados seguiam atrás deles. Castorin. . espalhava no rosto do visconde uma cor afogueada. meu jovem . Das mulheres nunca se deve exigir o que não é possível.. tão belos. o que Canolles recusava. senhor visconde. era pressionado por uma dúvida em que estava. fosse homem. Canolles acudiu logo em seu socorro.Se. O que lhe pergunto é como. Além de que. Depois do almoço. e respondeu à pergunta do visconde com um daqueles sorrisos que a tudo dão resposta. Canolles cravou no visconde os seus olhos perspicazes. pode separar-se dela. por conseguinte. Pararam em Barbezieux para almoçar e descansar os cavalos.. contiveram-no.À vista do que me disse.disse o visconde a Canolles. Pompeu explicava a Castorin como fora perdida a batalha de Corbie. tinha demasiado receio de despertar e de ficar desenganado. era ele quem tinha de deslindar algo comigo. que principiava a não poder já dissimular. teve de tirar o chapéu.E a menina de Lartigues?. senhor barão. e no rosto do mancebo não havia qualquer outra sombra além da proporcionada pelo chapéu. quando principiou a raiar o dia como terminou o seu assunto com o senhor duque d’Épernon? . que outro qualquer que não fosse um homem enamorado. com uma ligeira hesitação. . e tão soberbamente dispostos numa pele tão fina. e no Bezerro de Ouro comigo. parecia já não se sentir incomodado.adiantou o visconde. não pode estar ao mesmo tempo em casa com o senhor d’Épernon. mas Pompeu. puseram-se de novo a caminho. quando poderia ter sido completamente ganha.. apesar desta luvazinha e desta pequena mão. caso se não tivessem esquecido de chamá-lo ao conselho que tivera lugar pela manhã. era conveniente poupar os cavalos. -Precisa de descanso. Então. e teve então ocasião de admirar aquela mão. . uma só palavra que pudesse levantar suspeitas no visconde de que havia penetrado o seu disfarce. e por isso nada desejava tanto como prolongar a duração do seu sonho. Além de tudo isto.. porém. . . o visconde. que lhe permitia um rol de familiaridadezinhas .disse intimamente. porém. ou em todo o corpo uns leves estremecimentos. e.que um desmascaramento ou uma confissão franca lhe teriam vedado. Não disse. Canolles.Afinal . . ou se cansou de esperar. o senhor de Cambes sorria.. cuja causa Canolles lhe perguntava amigavelmente qual era. já cego. nada mais seria preciso para me sentir esmagado pela minha simplicidade!" Resolveu. Canolles. e o ar grave do visconde. e ainda estará à espera. não teria depois disso conservado a menor incerteza. no momento de se sentar à mesa.. pois. ou terá teimado.Isso não responde à minha pergunta.

e separado do quarto do visconde por toda a largura do pátio. sem reparar no desgosto de Canolles. se eu . tenho-me conduzido como um tolo! Vamos.parece que é aqui que passaremos a noite. Pompeu veio às carreiras segurar no estribo do amo: pelo que Canolles reflectiu que uma tal pressa seria ridícula da parte de um homem para com outro homem.. . E. . .. e deram com os olhos no escudeiro. e Canolles não deixou de se aperceber.disse ele.Sinto-me sumamente fatigado. "Agora . O golpe estava dado. O visconde sentiu arrepiar-se-lhe todo o corpo.. viaja por motivo dos seus negócios. viajo por passatempo. estou absolutamente desenganado. como mo disse. mostrando um grande quarto térreo..O seu? -perguntou a estalajadeira. deitar-nosemos. virando-se para o companheiro. enquanto o senhor.não tenho já dúvida alguma. vamos. Hora e meia depois desta partida.. que Canolles não pôde reprimir a sua vontade de rir.disse a estalajadeira.disse o visconde.uma noite depressa passa. senhor. os viajantes entraram numa grande vila.E o meu-perguntou Canolles-onde fica? E lançava. morreria ao terceiro dia de jornada. Quero que durma bem. todo cheio de portas. senhor de Canolles 144 continuou ele. conduziu-o até à extremidade de um corredor exterior. . eu conduzoo. os olhos a uma porta contígua à do visconde. tomou a dianteira e desapareceu.Se assim continuasse a caminhar. . .deveria cada um ter a sua tenda. Pararam então.Quando se empreende.. como nós fazemos. de que Canolles não pediu explicações. Viu que o visconde fazia um sinal a Pompeu.Ah! ah! . e.amigo . O visconde havia observado esta manobra do limiar da sua porta.disse Pompeu . e em breve o criado. Já lhe disse. Realmente. antes pelo contrário. senhor visconde. .disse o visconde.. cujo delgado repartimento de tabique era resguardo demasiado frágil contra uma curiosidade tão aguçada como a sua.disse Canolles . uma larga viagem .disse Canolles muito naturalmente.disse-lhe ele. mais pronto do que Canolles... senhor barão. .Venha por aqui.Vamos sem mais demora para o meu quarto .. ansioso. por cima.Aqui está .Ou uma tenda para dois . ao limiar da porta de uma estalagem com boa aparência. . sob um suposto pretexto.Seria o bastante. se o melhor quarto da estalagem não for para si! O visconde olhou para Pompeu com um ar tão assustado. 143 Esta noite não montaremos a cavalo. e São Pedro me leve. estavam os celeiros da casa. olhando para ele sorrateiramente.E porque não há-de ser?. com janela para o pátio. se for do seu agrado. .Sem dúvida alguma. que lhe disse algumas palavras em voz baixa. tem muita razão. Eu quero tudo quanto o senhor quiser. . . A única coisa que receio é que fique mal alojado neste cubículo. com efeito. todas as janelas tinham grades e. Este aproximou-se então do amo.Oh! .

Boa precaução. quer que o acorde amanhã? Não?.. cuja casa devia estar situada a três ou quatro léguas de Poitiers. Pompeu....ruminou Canolles lá consigo. e este respondeu-lhe que antes de chegar à aldeia de Jaulnay encontraria a casa daquele amigo.segundo dizia . cá tenho Pompeu. voltando para aquela espécie de varanda que formava. E estende um lençol dobrado por diante até interceptar a sombra. vou fazer outro tanto com Castorin. quase junto à estrada real.Boas-noites. resmungando. Canolles não lhe fez a mínima objecção. XI O outro dia. querido visconde! -gritou-lhe ele..amanhã toca-me a mim preparar os alojamentos.como corre as duas cortinas!.Boas-noites. .A propósito .Não lhe falta nada? Quer que deixe ficar Castorin consigo. Canolles pediu ao visconde que não levasse a mal que dele se afastasse. muito bem.Muito obrigado.. Canolles estava de humor ainda mais risonho do que na véspera.. despiu-se de mau humor meteu-se na cama zangado.. visconde .. o visconde lançou os olhos a um mapazinho que Pompeu levava num estojo. barão . e terei a minha desforra.volveu o visconde. Ah!. o corredor exterior da casa: .Durma bem.de escrever uma extensa carta a um dos seus amigos. Boas-noites. Não se pode 145 deixar de tomar demasiadas precauções numa estalagem. que residia naquelas redondezas. e a porta fechouse de novo. O próprio Pompeu galhofava fazendo a narrativa das suas campanhas a Castorin. entregava-se também a uma alegria mais franca... . um quarto . como Castorin tinha de separar-se do pequeno grupo para levar a carta. muita indiferença e afabilidade.... pois. como já o dissemos. Afectemos. Boas-noites! ." E. acordar-me-á então à hora que quiser. pois na realidade bem precisa. e como Canolles em pessoa tinha também que fazer uma pequena digressão. Toda a manhã se passou em gracejos de uma e outra parte.. pediu de antemão ao visconde que se dignasse designar o sítio onde pernoitariam.fizesse má cara seria malograr para sempre o negócio. reserve para mim.. preveniu-o de que teria que fazer uma visita a outro amigo seu." E Canolles recolheu-se. e sonhou que Nanon descobria na sua algibeira a luva almiscarada do visconde. e poderia reconhecê-la pelas suas duas torrezinhas. . na qualidade de aposentador. Então.. além disso. que é uma medida de prudência?. por seu turno. No almoço. para o ajudar a despir? . cujo nome disse ao estalajadeiro. levou a perfídia ao ponto de dizer em voz alta: "Pompeu. visto que tinha . Não é verdade. O visconde de Cambes. se for possível. e. visconde! O visconde correspondeu-lhe desejando-lhe outro tanto. Mas não importa: amanhã nos veremos. . pelo contrário. "Muito bem. e propôs a aldeia 147 de Jaulnay. se o enviarem. Canolles informou-se sobre este amigo.continuou ele .. Com todos os diabos! Que rapaz tão pudico é aquele gentil-homenzinho!. Ora.. fica no quarto contíguo ao meu. como ontem.continuou Canolles.

O meu cofre de viagem? . a casa do seu amigo. Resultando disto. Com o coração palpitante. Canolles reconheceu. e que estava alojado ao pé de Pompeu. Pompeu saiu. que antecipadamente recebera as suas ordens. ou porque o visconde julgasse que era uma precaução inútil.Os meus frasquinhos? . 148 .Tudo está em boa ordem. pois. onde tinham jantado. Fechar-me-ei por dentro.disse o egoísta Pompeu. . que tinha pressa de mudar de roupa. perguntou onde ficava o quarto do visconde. renovou a Pompeu o convite que lhe fizera de se ocupar do seu alojamento e tomou o caminho à esquerda. . que ardia em desejos de se ir deitar. deixando a Castorin o cuidado de tornar a fechar a porta. não havia perigo algum." O sonso do escudeiro lançou uma vista de olhos ao visconde. pelos indícios que lhe tinham dado. . E Pompeu pegou no castiçal.Veja se os guarda-ventos são sólidos. . ficou com o aposento. tomou conta da carta. sem que este disso tivesse a mínima suspeita.E se precisar de chamar por alguém? . Quanto a Castorin. Passada uma hora.Já está feito .O senhor pode verificar. foram caminhando ainda umas duas horas. e recomendou a Pompeu que fosse tratar do alojamento de Canolles.Bom. e desde o momento em que o barão não era para ele mais do que um simples companheiro de viagem. e sorriu-se. que correspondeu. porquanto em Jaulnay havia somente uma.Lá no fundo do corredor. . da parte de Canolles. o menor obstáculo às suas vontades. Quis a sorte que se arranjasse um quarto com bom lume. . saiu do seu quarto pé ante pé. . e foi insttuído para se lhes reunir em Jaulnay.Ei-los. que fora o primeiro a chegar à à estalagem. e vira escoar-se o dia sem a mais ligeira alusão.que fique contíguo ao do seu amo.Não tem ferrolho.Não.Obrigado. folgazão e espirituoso. mas tem uma fechadura. dava-se por muito satisfeito se acabasse a viagem em sua companhia. O visconde. ..Chega. Quanto a enganar-se na estalagem. Há aqui alguma outra entrada? . que eu saiba. Castorin. Esta porta fecha bem? . e foi abrir a porta a Canolles.Muito bem. . . a do Grande Carlos Martel. .A estalajadeira prometeu que isso ficava a seu cargo. Castorin tomou um caminho à direita. chovia a cântaros.Nenhuma outra. e o visconde deu uma volta à chave. O visconde estava completamente sossegado: a cena da véspera passara sem contestação. . ou porque não quisesse separar-se do seu escudeiro e ficar só na estrada. Pompeu não foi mandado adiante. Pode retirar-se. para podermos conversar. mostrou-a ao visconde. já não receava. despediu-se dele.Muito bem. Chegaram à aldeia ao anoitecer. Onde dorme. firmemente decidido a nada fazer do que Canolles lhe dizia. e deu volta pelo quarto.Está aqui uma campainha: a estalajadeira virá ter consigo. Pompeu? . Pompeu. Canolles introduziu-se na estalagem. e subiu.. bom. Meteram-se à estrada de Poitiers.Ei-lo aqui. .

.Bem me parece . . . O visconde lançou com terror os olhos para as duas camas gémeas colocadas ao lado uma da outra na alcova. . . e. busquemos. procuro a minha cama às apalpadelas.Ah! ando em busca da campainha para chamar Pompeu. facto de que Canolles se não queixou. uma roçadura de vestes e passos precipitados. .deve haver outros quartos.. Sim. desesperado . não tarda nada.. querido visconde. está enganado.O visconde estava para se meter na cama.Quem está aí!? .disse Canolles.Mas. passando do susto ao espanto.Estou ouvindo a sua voz lá na outra extremidade do quarto.. por especial favor.. Além disso.disse cada vez mais assustada.Desculpe-me. sentiu bater. e como o seu quarto tem duas camas. nem sequer um quarto disponível. embora não haja neles camas. .disse o visconde. eu já lá vou. Não dou com a porta. Esses passos fizeram-no estremecer.. Quis acordá-lo para dele saber alguma coisa.Fico à espera.Então vou chamar a estalajadeira. apresse-se..Ser-lhe-á fácil compreender .. quando ouviu passos no corredor.Ora essa! A mim parecia-me que tinha luz. passado um segundo. acabam de dar dez horas e meia. . Mas.replicou o visconde..Mas enfim . . Ora.perguntou numa voz tão assustada. .Sim. -continuou o visconde. 149 Os passos pararam junto à porta. barão .Sou eu!. Dorme como um surdo! . a voz do visconde. E a luz apagou-se no mesmo instante. que Canolles não teria reconhecido o respectivo timbre se por diferentes vezes não houvesse já tido ocasião de lhe estudar as suas variações. e não o ouvirá. . rogo-lhe. e foi formir no celeiro. pois.Abra-me a porta: eu agradeço-lhe. e aplicou o ouvido muito atentamente. O seu mal-avisado Pompeu não se lembrou de mim! Não há nenhuma outra estalagem na aldeia. Isto dará lugar a que . deito-me nela.. abra-me. e pronto.disse Canolles. visconde. e sem outra separação além de uma mesinha. .Eis-me aqui.Como assim!? O senhor? . julgarão que pegou fogo na casa. como já tivemos ocasião de observar.Não. senão quer achar-me gelado! . . pois estou morrendo de frio.Sim. .. 150 . .. ..Pompeu está lá no fundo do corredor. o visconde era sumamente medroso.. . para este lado.. Ouviu-se um grande desarranjo de móveis. ...continuou Canolles-que venha reclamar uma delas. Calcule. sim. É impossível não haver outros quartos! Chamemos. que já não há lugar vago na nossa estalagem. Vai acordar a estalagem toda. caro amigo..Mas eu?. . depressa a porta. Venha.. não vê que estava dormindo?.. para que é preciso chamar gente? Eu não preciso de pessoa alguma. mas nada de novo..Seria tempo perdido! A estalajadeira deu a respectiva cama a um viajante.

barão? .deveria pelo menos dar-me um fio.perguntou o visconde. visconde .Parece. que por fim se abriu. . venha! . Como a esquerda do visconde era a direita do barão.. só próprios de uma rapariguinha medrosa.exclamou o visconde. Cuidado. com a qual não consigo acertar. . da outra extremidade do quarto. barão. Uns passozinhos aproximaram-se da porta. Não. mas. se tenho! Diga-me onde está a minha cama. visconde.. . mas junto de si como que viu deslizar uma sombra. O visconde.. visconde!?.Mas então que se passa? .Como assim!? Não se há-de deitar?! . voltando-se ao ouvir esta palavra indiscreta.... nada mais abraçara do que ar. Fora com isso! Somos rapazes suficientemente crescidos para nos defendermos nós mesmos.Passarei a noite sentado numa cadeira. Acontecesse. e ao pé desta uma banquinha.Então que vai fazer? . ..disse o visconde..disse com viveza o visconde...exclamou ele.A sua cama é aqui. foi metendo a campainha na algibeira. não! . e fechou a porta sobre si.. .se não durma toda a noite. este encaminhou-se para a direita. tornemos a acender a vela.disse Canolles. quero que faça uma cama ao pé da minha.. . dê-me apenas a mão. ou então deixe-me acender de novo a vela. depois de lha abrir.Não! Não! Isso é inútil! . ou. .Olá.Tem vontade de dormir. que ia desaparecendo. . não.disse Canolles .Procuro a campainha para chamar Pompeu.Qual das duas é a minha? .. encontrou uma janela. uns hábitos. porque me vejo num verdadeiro labirinto.Isso é coisa que pouco importa! pois que eu me não deitarei. .Ah! muito obrigado.. 151 ..Não. porque as últimas réstias do luar. .. e encaminhe-me para a cama.pois na realidade aqui está-se melhor do que no corredor. apenas davam um clarão insuficiente. Ora! deixe-se disso! Tem uns costumes. semelhante ao Orfeu de Virgílio. . . .Quero. sobre a qual estava a campainha que o visconde fora de si tanto procurava. porém. visto que conhece os cantos do quarto. que jogamos à cabra-cega.estranhou Canolles..Ali! Ali! . e sentiu passar um perfume. havia-se afastado apressadamente. E adiantou-se com os braços estendidos para o lado de onde vinha a voz. Estas palavras pareceram dar alguma esperança ao visconde. porque estou morrendo de sono.Para quem? . Venha. A atmosfera estava tépida e perfumada de todos aqueles cheiros denunciadores do maior requinte em objectos de luxo. Canolles entrou.Para ele. o que acontecesse. não escorregue! Mas o que anda assim procurando.Para ele.. tornou a apertar os braços.Mas que diabo quer de Pompeu? .Está junto da sua cama.Visto que não me quer dar a mão .Não consentirei decerto numa tal criancice. . . . também. O barão achou-se então num quarto quase às escuras. Lacaios no nosso quarto!. o que seria um aborrecimento..Deixe-se disso! . visconde. . de que se lembra. à esquerda.disse Canolles . na escuridão? .

não tendo já nem sequer a força de dar um grito.Vejamos: que há de novo? . que logo morreu. Não dê um só passo. Este raio não foi mais do que um relâmpago.não se aproxime. e encontrou as duas mãos juntas e suplicantes do mancebo. havia na voz que implorava um acento que lhe fez compreender que o seu adversário já estava meio vencido.. se é gentil-homem! Canolles parou. . e desceu a escada.Que me quer ele? .Serviço do rei. Deu um passo mais. o pobre gentil-homem compreendeu que desta vez não poderia escapar àquele que o perseguia.Senhor barão de Canolles! . Contudo. .Senhor. mas tanto bastou para servir de guia ao barão. não saia do lugar em que está.disse Castorin da porta . com uma voz na qual um princípio de voluptuosidade se misturava com o terror.. com os braços estendidos. entre a janela e a cómoda. .Senhor barão de Canolles! É preciso que eu lhe fale neste mesmo instante.implorou o visconde. a que tinha de obedecer. guiado por um último raio do luar. O seu peito dilatou-se. . barão . Ao mesmo tempo. e para fazer compreender ao visconde que estava perdido.Os diabos levem semelhante basbaque! -vociferou Canolles. . Chamavam e batiam alternativamente. e. arrancou do peito um suspiro quase doloroso.Mas quem é o biltre!? . O visconde estava tão próximo. .Da parte de quem? . perfume mil vezes mais delicioso do que o das flores. -Misericórdia! 152 153 A voz expirou-lhe nos lábios. .balbuciou o visconde .Senhor barão de Canolles! -bradava a voz. Canolles foi abrir a porta. e precipitadas argoladas retumbaram na porta da estalagem. estendeu as mãos. um momento no lugar onde estava.balbuciou o visconde.Barão. mesmo se tivesse desejos de assim o fazer.Da parte do senhor duque d’Épernon. que lhe ouvia palpitar o coração. pareceu envolvê-lo para lhe tirar toda a possibilidade de obedecer ao visconde.. as quais foram seguidas de gritos e rumores.perguntam por si. apesar da escuridão reinar de novo no quarto. que. Ao ouvir esta palavra mágica. deteve-se.perguntou o barão. um perfume delicioso. e Canolles sentiu aquele mimoso corpo deslizar-se ao longo da parede e cair de joelhos.Oh! Deus seja louvado! Estou salvo! .Um correio. vendo que o mais pequeno movimento que fizesse seria bastante para tocar aquele corpo. senhor .Não podia vir amanhã de manhã! ?. com as mãos estendidas para aquelas mãos que antecipadamente o repeliam. procuram por si. . desta vez. embuçado no seu capote. . . ... deu com os olhos no visconde alapardado a um canto. . rogo-lhe! Barão. e sentia o calor tépido da sua respiração anelante. .. Canolles adiantou-se para ele em linha recta. Repentinamente. ouviu-se o galope de um cavalo debaixo da janela.E Canolles. cuja delicadeza e flexibilidade havia dois dias que tantas vezes admirara. composto de todas as emanações que procedem da mocidade e da formosura.Misericórdia! Misericórdia! . praguejando. Quanto a Pompeu. recuando um passo. embriagador. ouviram-no ressonar.gritava uma voz..

e que lhe fica sumamente agradecido. e foi ter com o visconde. e estava à espera numa sala térrea. a quem encontrou pálido. . 154 155 . senhor! -pôde apenas responder o mancebo. que não deixava a mínima dúvida acerca da sua sinceridade. que. diga a seu amo que me alcançou.E à menina de Lartigues. Leu uma segunda vez a carta. fez-lhe compreender o que acontecera . sem lhe abrir crédito na estalagem. . e para as duas camas gémeas. Algumas perguntas que fez a Courtauvaux não deixaram a Canolles a mínima dúvida acerca da necessidade da diligência que tinha a fazer...disse Canolles.Que dele se lembrará algumas vezes. . que estava pasmado à vista de uma tal recepção. trémulo.Muito bem. e já vestido. pondo a mão sobre o coração.. .. . Dirijo-me a Nantes. com voz ainda mal segura. Canolles lançou um olhar de profunda mágoa para aquela alcova. vá selar os cavalos! E sem mais nada dizer ao mensageiro. onde.E quando? ..Neste mesmo instante. .Sim. com uma voz muito comovida. em serviço do rei. . a carta de Nanon. .. o que não concorreu pouco para a má vontade com que ia obedecer a esta mensagem do duque. Canolles tornou a subir. . segundo parece. dir-lhe-á que o irmão sabe apreciar o sentimento por que foi impelida.Adeus.fez o visconde.disse Canolles.Qual coisa? . cujo lugar tomara. Por diferentes vezes ouvira a própria Nanon falar em termos pouco lisonjeiros acerca daquele irmão. não lhe direi coisa alguma?. por mais diligências que fizesse...disse Canolles. e sem lhe despejar a bolsa nas mãos.Sem..Decerto não tornarei a vê-lo. __Prometa uma coisa a um homem que se lembrará eternamente de si . sem outra intenção que a de . Nanon. Canolles pegou naquela mão toda trémula.isto é: que a menina de Lartigues se salvara do perigo fazendo-o passar por seu irmão. visconde . o correio era Courtauvaux em pessoa.disse ele. tendo partido umas dez horas depois de Canolles. sem se atrever a levantar os olhos para o companheiro. numa das quais se divisava uma ligeira e curta pressão.. cólera?. Duas velas estavam acesas sobre a lareira. esforçando-se por sorrir. . não pudera.Alegre-se.Muito bem . e leu.Eis que fica desembaraçado de mim para todo o resto da viagem. e isto com uma harmonia de voz e de gesto. Castorin.perguntou o visconde. . como o leitor já terá adivinhado. . .Eu prometo-lhe..O correio havia entrado. __Dá-me uma prova em apoio desta promessa?. e que obedeci no mesmo instante.disse ele a Courtauvaux. alcançá-lo senão na segunda pousada. o que não teria deixado de fazer em qualquer outra ocasião. __Quem sabe. e a assinatura Vossa boa irmã. que atirou consigo para cima de uma cadeira. . .Sim.. Canolles deu um passo para ele. Parto pela posta. O visconde estendeu-lhe a mão. está a corte. Canolles foi ter com ele. empalidecendo. O visconde observou este olhar com um sentimento de pudor que lhe fez subir o rubor ao rosto.

tudo ao mesmo tempo. no fundo dos caramanchões de madressilvas e de clematites. de vez em quando. mãe do vencedor de Rocroy. uma jovem senhora. ou à Astreia do senhor d’Urfé. colou-a com ardor aos seus lábios. na rua principal que vai ter ao castelo. em resultado dessa perseguição. depois de se tornar amante de Ana de Áustria. A dama do meio era a princesa viúva.e. dizendo consigo: "Ah! Nanon! Nanon!.. outra senhora velha. trajada 157 de negro. acabava de ser ferida. depois de perseguidos . de que Richon pintou ao visconde um quadro tão medonho. e primeiroministro do reino da França.apertá-la entre as suas. sobre tabuleiros de relva que se estendem até aos lagos azulados. princesa de Conde. discorria magistralmente acerca dos negócios do Estado.. quando criado do cardeal Bentivoglio. de Norlinga e de Lens. muito direita. e a quem agora chamavam sua eminência o cardeal Mazarino. passa. a que chamavam Mazarino." XII AGORA. a sua altivez mais se agravou com a perseguição. Finalmente. de modo que se tornou orgulhosa. onde não se vê distintamente mais do que a página branca que eles devoram e que pertence ou à Cleópatra.. por um fradinho italiano. para dar a entender que a mulher do chefe da família dos Condes era a primeira princesa de sangue. com a rapidez do relâmpago. e seguidas a certa distância por escudeiros mudos e respeitosos. mas. mas depois de ser perseguida. se acompanharmos as princesas da casa de Conde ao desterro de Chantilly. duas mulheres vestidas de cetim. eis o que há para ver: Sob belas áleas de castanheiros cobertos de flores. nome que a posteridade lhe conserva. e a desterrar para Chantilly a mãe e a esposa do nobre preso. Razão por que. uma dama de porte nobre. no seu amor de mãe e no seu orgulho de princesa. A senhora à direita é Clara Clemência de Maillé. Durante este tempo. franzindo as sobrancelhas. a mais empertigada e a mais afastada das três. e fugiu para fora do quarto. escutava. agita-se. a quem. por um movimento mais forte que a sua vontade. seguramente dos seus cinquenta e sete anos. a douta teoria. Foi ele quem se atreveu a encarcerar Conde. passeavam gravemente. em cujas feições se podiam ainda reconhecer os restos da formosura a que se dedicaram os últimos e talvez os mais loucos amores de Henrique IV. com gestos cheios de cerimónia e majestade. continuamente. falava. ouviam-se as ressonâncias dos alaúdes e os cantos de vozes invisíveis. escutava e meditava. do senhor de Calprenéde. aparecem alguns vultos de leitores. Jamais poderá indemnizar-me do que me faz perder?. a quem. rindo. no meio das plantas mais altas. Aqui e ali. um cavaleiro portador de algum despacho. encarcerado em Vincenas . no terraço. conversando e cantando. um enxame de pescadores. ao mesmo tempo. embora condenada a representar um papel secundário enquanto o .começaram a dar o nome de Grande Conde. à esquerda. porque era de condição menos ilustre. ou ao Grande Ciro de Mademoiselle Scudéry. enfim.. perdidos nas vagas de verdura. a princesa por excelência: nunca deixou de ser altiva. por um aristocrático costume daquele tempo. chamavam simplesmente Madame. no meio delas. Esta dama. à sua direita.

que se não atrevia a escrever romances. que sucessivamente excitaram a admiração das mulheres em cuja companhia estava. . tinha mais simpatias do que um órfão. Quererão acaso. abanando a cabeça e suspirando: . Em cada percurso que faziam. Possuía. que a senhora de Cambes se esquece de nós? . Apesar da sua aparência festiva. . que era um capitão assaz estimado. e os louros da senhora de Longueville.Tudo falta. nem o senhor de La Rochefoucauld.disse a senhora de Tourville. minha filha.. se formos vencidas .Não se pode alcançar glória sem algum preço .. e.Senhoras .. Chantilly poderia bem não ser.Nem em quem possamos confiar -replicou a princesa. foram aprazados para o momento em que se desembainhasse a espada. e seu filho. Desde o desterro imposto por Ana de Áustria a estas duas lacrimosas senhoras. e que. .. tem o seu "Milcíades" de saias.príncipe gozava de liberdade. as três mulheres passavam junto à porta principal do castelo. à cabeceira do leito. e dir-se-ia que da escada espreitavam a chegada de algum mensageiro importante. que estava para fazer sete anos. . nem o senhor de Bouillon!.Nem dinheiro! . fora ferido em Arrochela. ver-nos-emos humilhadas.e não há vitória sem combate! 158 159 . assemelhavam-se a um bispo assistido por dois diáconos. o duque de Enghien. e morto em Friburgo. não fazia a guerra pessoalmente. mas que forjava planos em assuntos políticos.E se a própria Clara se esquece de nós?. . Depois que veio reunir-se às princesas em Chantilly. a espada do defunto. . ter-se-ia vestido de luto. porém. minha filha. não lhe permitiam adormecer. Todos os olhos estavam cravados nela..volveu a jovem princesa . A jovem princesa inclinou-se ante a soberba humildade da sogra. e se não fora o receio de se tornar ridícula.vingarnos-emos. e. altercando deste modo. e dando-se um mútuo incenso. que tomem a Deus por pretexto das homenagens que prestam uns aos outros. Não se atrevia a vestir o uniforme do marido. e caso se procurasse.. uma bala na batalha de Corbie. como o bravo Pompeu. os seus gritos agudos converteram-se em surdas ameaças: de oprimidas que eram.Nem o senhor de Turenne. entendera que devia também sê-lo do génio militar.acrescentou a senhora de Tourville.. desembainhava-a com ar muito marcial. momentaneamente rainha de Paris. embora não abandonados.se nos sairmos mal. sendo herdeira da fortuna patrimonial.. . será unicamente Deus quem terá vencido o príncipe. a prisão do marido a elevou à posição de heroína: chegou a ser mais lamentada do que uma viúva.resmungou a princesa viúva.Ela não volta!. apesar de às vezes bem desejar fazê-lo. como ele. e as três personagens. A senhora da esquerda era a marquesa de Tourville. não recebera. na realidade. mais do que um vasto abarracamento. já fizera três planos de campanha. De onde resultava que. que estava pendurada no seu quarto. mas seu marido. de touca. tornaram-se rebeldes. e ao mesmo tempo! . . quando só.Quem lhe diz.Se ficarmos mal. de tempos a tempos. vingar-se de Deus?. ali se encontraria pólvora nos subterrâneos e baionetas nas ramadas.. no seu triste passeio.sentenciou a princesa viúva . A princesa "Temísto-cles". sem dar mostras de timidez.Seremos mal sucedidas. Já por diversas vezes a princesa viúva dissera.

São uns conversadores! . são maus soldados. que. . pois se assim não fosse.. já aqui estaria. e delas se aproximara pela retaguarda. se for necessário . saíra 161 por uma portazinha rente ao terrado. e nada mais.. voltaremos a ocupar-nos disso. e vê-se obrigada a seguir até ao último extremo a fortuna daqueles por quem se declarou. e que mais não serve senão para transtornar todos os nossos planos... as estradas estão fortemente guardadas pelo exército do senhor de Saint-Aignan. . São gascões!. cede à força. fora encarregado pelo prisioneiro de observar tantos os amigos como os inimigos. destinado.respondeu a princesa. do que . em parte.Mas declaro-me a favor do parecer de minha mãe e senhora. teríamos agora sitiado Bordéus.Porém..Além disso . como se lembrará.um dos três planos que tive a honra de entregar a Vossa Alteza. .repetiu ela. um miserável aproveita sempre a ocasião de não pagar.E ele é capaz de lá ter voltado. quando pode furtar-se. . . e prometeram enforcá-lo pessoalmente em Bordéus. de onde não tiravam os olhos. ao partido dos príncipes!. com despeito. se lá tornasse a entrar.Prefiro. e começo a acreditar que terá acontecido 160 alguma desgraça a Clara. e esta cidade não poderia deixar de capitular. homem frio.Desejaria que ela confiasse ao papel uma resposta tão importante?. encontrava muito maior dificuldade em obstar a que os amigos do príncipe comprometessem a sua causa. conselheiro do príncipe. compromete-se. . e. que se obstina em conservar.. com afectação . Não. enquanto elas davam uma das suas voltas em direcção àquele grande portão do castelo. tinha por finalidade a sublevação infalível da Guiena.disse a senhora de Tourville. Se ele não rejeitasse o meu segundo plano. cidade que se declara voluntariamente. bem o sabe. As três senhoras voltaram-se.. mas reunidos em corpo.replicou a senhora de Tourville . sim. como sabemos nós o que a gente da Guiena terá feito ou não. .daquele conselheiro teimoso. A adesão de uma cidade inteira como Bordéus.é culpa de Lenet. que Bordéus se declare por nós voluntariamente . salvo o parecer de suas altezas. individualmente. Talvez que os seus rendeiros não tenham cumprido a respectiva palavra. . do senhor Pedro Lenet. Pedro Lenet.Poderia pelo menos escrever-nos. as diligências dessa banda não são as que mais me inquietam. a ilha de São Jorge.. convém dizê-lo. Além de que. que só prestam para bradar Viva o Príncipe quando têm medo dos espanhóis. de ser verdade.. detestavam o senhor d’Épernon .. .lembrou a princesa viúva . e deram com os olhos em Pedro Lenet.Verdade que são bravos. O que a senhora de Tourville dissera não deixava. inteligente e grave. ..replicou a senhora de Tourville .E tudo isto . a tomar de surpresa o Castelo de Vayres. e o Forte de Blaye.pois que em Agen o enforcaram em estátua. Cidade que capitula. apesar das promessas?. e de os ter mandado enforcar a todos observou a princesa. e a nada se obriga.afirmou por detrás da senhora de Tourville uma voz em cujo acento respeitoso não deixava de transparecer algo de irónico.Sim.Talvez que não o tenha podido fazer.

. com o mesmo sangue-frio. senhora.Então. habituado às rabulices e tretas dos demandistas.. um número não pequeno dos planos de Lenet haviam por isso sido entregues pelos seus amigos aos próprios inimigos. e sobretudo em política..disse ela. deveria dizer-nos o conteúdo dos despachos.. que é o primeiro princípio da diplomacia masculina. Anuncio. porque receberá hoje três . a inflexibilidade aristocrática da princesa viúva. senhora não chega ao ponto que julga . modestamente. hábil e ardiloso com um causídico. .Não importa .. acudiu para saber a sua parte de notícias. como se com efeito Lenet fosse servido por algum demónio. porquanto. é filosofia. avistaram-se dois cavaleiros. o orgulho de Ana de Áustria. depois de nos haver anunciado os correios. . se adiantavam à desfilada. Espero muito do tempo. As duas princesas soltaram exclamações de alegre sobressalto. . O primeiro foi visto na estrada de Bordéus. e o terceiro chega de La Rochefoucauld.o ardente zelo e sobretudo a utilidade de Pedro Lenet. senhora. desertando dos jardins e dos canteiros de relva.disse ela. ou por uma inabalável inércia. Isso. No entanto. Além do que era em Chantilly mesmo que travara as suas mais sábias batalhas. .replicou Lenet.A filosofia. e que.. fizeram bom acolhimento ao conselheiro.disse a senhora de Tourville.sem embargo da oposição que nele encontravam . .disse ele. O amor-próprio da senhora de Tourville.O tempo. por seu turno.. confesso-o . Lenet sorriu.A senhora de Tourville lastimava-se. a impaciência da princesa.Sim. conseguia ordinariamente triunfar.Como assim!? Três?!.Senhora . é útil em todas as coisas. meu querido Pedro . Não é verdade. . . A senhora de Tourville mordeu os lábios. Ensina-nos a não nos exagerarmos com o êxito feliz. . que. não deixavam de valer tanto como a astúcia de Mazarino. e as indecisões do Parlamento. as variações da fortuna!.em combater as más intenções dos inimigos. o segundo vem de Stenay...A minha ciência. 1 -Parece-me. ou por alguma feliz reacção. tudo vai de mal a pior! Ai.exclamou a princesa.Vossa Alteza ficará." . meu caro Lenet? Bem ouvi .disse Lenet. . portanto. franqueada a cancela do castelo. Imediatamente. não primando sempre a diplomacia feminina pelo segredo.. No mesmo instante. Encarregado pelos príncipes de toda a correspondência Lenet pusera a si próprio a norma de não dar notícias às princesas senão na ocasião oportuna. Bem sabe o que diz o provérbio: "Quem espera sempre alcança. e era ele quem se constituía juiz desta oportunidade. meu caro Lenet. requebrando-se toda para dissimular o despeito e colorir dos melhores tons a amargura da palavra que ia proferir . senhor Lenet. e a não perder a paciência nos reveses. . mas não adivinho. e das variações da fortuna. muito satisfeita. -Sim. ou para melhor dizer: lastimava-nos. os nossos negócios. que nem por isso deixavam de reconhecer . e até um ligeiro sorriso deslizou pelos lábios da viúva. As duas princesas. princesa?..estou longe de ver as coisas tão negras como Vossa Alteza as vê.Limito-me a ser um fiel servidor.. . e não política! .que um hábil nigromante como o senhor não deveria deter-se em tão boa fala. .Preferíamos um bom correio a todas as suas máximas.respondeu a senhora de Conde. um bando de curiosos.. os nossos negócios!.

sumamente comovida. porque também receava a explosão de alegria de vossas altezas. tendo-se habituado a empregá-la a exemplo do rei Henrique IV.Boa ou má? . não nos sossegou com essas duas palavras?.acrescentou a princesa viúva. compadre Lenet. . e à vista de toda a gente.O melhor é calarmo-nos! . sempre razão! Pedro! meu bom Pedro! . venha! ..Sim.Olá.-volveu Lenet. e.que parecia ser o lacaio .Venha a meus braços. sorrindo . querida viscondessa . .Como!? sabe?!.disse Lenet. minha senhora. no terraço. Lenet! .disse Lenet. inclinando-se diante de Clara. . E depois de se haver deixado abraçar. senhora!. senhora.. . é homem de juízo e de acção .Sim.E. além disso. compõe-se de duas palavras.Não é verdade que está contente com ele. dirigiu-se para as princesas.disse a princesa..e por isso não me apressava. que lhe saíam ao encontro numa extremidade da galeria. não podendo conter a impaciência. vendo a inquietação em que estávamos. o cavaleiro voltou-se para a princesa viúva. . a a quem saudou profundamente. o mancebo quis segurar a mão da princesa. Compadre era a palavra carinhosa da princesa viúva.162 163 Os dois cavaleiros apearam-se. largou ao outro . o suficiente para que Lenet acudisse correndo na extremidade da galeria..exclamou a senhora de Conde. fala .Viste Richon? .espantou-se a princesa viúva. E a mais viva ansiedade pintou-se no rosto das duas princesas.. senhora. . para a beijar respeitosamente.Depressa! Fale. . E pondo um joelho no chão. e encarregou-me de uma comissão para Vossa Alteza.respondeu Lenet. contudo.Sim! . e pela bela maneira com que manobrou? Diga.Mas se sabia . .. .Lenet..Richon. .exclamou a princesa.E. .Clara! .Tem razão..Porque eu queria deixar à senhora viscondessa de Cambes a recompensa das suas fadigas . .Não sabe decerto que notícia nos traz a nossa boa Clara!.a rédea do cavalo alagado em suor. se sei. querida Clara . . .Bordéus . levantando-a. meu querido Pedro. .Bordéus . . .disse esta.Quais são elas? Depressa! Que eu morro de inquietação. digne-se Vossa Alteza receber os meus humildes respeitos.Sim! Não é isso?. e um deles. porque as princesas responderam a estas duas palavras com um grito de triunfo..Sim.exclamou a princesa.venha. . 164 . . . ..Na realidade..disse Clara. àquele honrado Richon é que devemos isso .por que razão. Mas em breve ficou sossegada.repetiu a senhora de Conde. que dela se servia com frequência. inquieta ela mesma quanto ao efeito que produziriam estas duas palavras. com todas as mostras de respeito possíveis. enquanto ele entrava pela outra.E creia .disse em tom de repreensão a princesa . . é feiticeiro! . mais correndo do que andando.Eu mesma o ignoro.

como suponho.Não somos actualmente bem vistas na corte para podermos recomendar alguém. depois da rainha. alguma confiança em mim.Sabemos muito bem. que a muito custo pude arrancar aos meus rendeiros. . Não se lhe poderia comprar uma patente para o senhor Richon?. . ..exclamaram as duas princesas. sabe-o muito bem. .. .Ficou na Guiena. .. que sou tão feliz que posso oferecer-lhe uma fraca quantia.Ele quer dizer.Talvez. pois: parece que o duque d’Épernon nada pode recusar a essa mulher.Eis o momento.continuou a viscondessa. . .E porque não veio o bom Richon anunciar ele mesmo em pessoa esta rica notícia? .Que quer dizer.Que faremos nós por ele? . .Algum posto importante!.No quarto de Sua Alteza. . mas o cofre está seco.E onde está essa soma? .o que não obsta a que o príncipe tenha.lembrar-se-á de que devemos esta quantia à senhora de Cambes.Vossa Alteza que se eu não estivesse tão certo dele...disse ele . . para onde o meu escudeiro Pompeu recebeu ordem de a levar. .. muito envergonhada por não poder oferecer uma quantia maior às duas primeiras senhoras do reino. . .que houvesse um meio. e que ela concede tudo quanto lhe compram. minha senhora . Decerto admiro e respeito a nobreza da França.quis saber a princesa.Lenet .Esquece-se de que o senhor Richon não é gentil-homem. pelo que preferia que se obtivesse para ele o comando de uma praça. Ali . . .Seria dinheiro bem empregado . tornando-se vermelha.Mas.perguntou a senhora de Tourville. . senhor Lenet? .de provar as suas altezas que de nada se esqueceu.Nem eu também o sou.continuou a princesa.Qual? . ou a ilha de São Jorge. . senhor conselheiro. . Lenet voltou-se sorrindo para o lado da senhora de Cambes. Disse-me que podia já contar com uns trezentos soldados. Vossa Alteza não pondera isso devidamente disse com azedume a senhora de Tourville. o oferecimento é muito modesto. Vinte mil libras. .. e acrescenta somente que. em tempos tão desgraçados como estes em que vivemos.Vossa Alteza mais tarde se ocupará disso. mas circunstâncias há em que me atreverei a dizer que vale mais um grande coração do que um velho brasão.disse a viscondessa.O senhor d’Épernon está. senhora . não o teria recomendado. como Vayres.perguntou a princesa viúva.respondeu Lenet . .Ah! sim! A formosa Nanon .disse a princesa .teria toda a certeza de ser muitíssimo útil a Suas Altezas. não estarão bem exercitados para combaterem a descoberto. senhora. . mas não pude alcançar mais.Mas como se poderia conseguir isso? -perguntou a princesa. 165 . baixando os olhos e hesitando.Ora. .disse com desdém a princesa.. .disse Lenet. para reunir um certo número de homens.disse-lhe .. .perdido de amores por uma certa menina. por falta de tempo. segundo parece . é uma fortuna! . e foi o próprio senhor Richon quem mo sugeriu. como o estou de mim mesmo.continuou a viscondessa..Vinte mil libras!.disse a senhora de Tourville.Sim. e aquele que recomendássemos tornar-se-ia desde logo suspeito. senhora ..

perguntou a senhora de Tourville.disse a senhora de Tourville. .Perdoe-me. sorriu.. disto devem lembrar-se vossas altezas. esperando sempre colher em falta o conselheiro. mas a ele devemos a segurança com que viajámos. senhor. é agora duque de La Roche-foucauld.respondeu Lenet.O príncipe de Marsillac.Graças à prudência de Pompeu . . estão a esta hora em vias de execução. quer sem dúvida dizer . senhora. pelo que vejo. . .Da parte do príncipe de Marsillac..Os planos formados pelo príncipe . Se não fosse esse precalço. . fazendo um enorme rodeio. se as previsões me não enganam . tirando da algibeira o seu bloco de notas.disse em tom sumamente cortês . nem por isso era menos real.O segundo é Blanchefort. como era seu costume. faltam os outros dois. senhora . minha querida? . no caso da provável adesão de Bordéus. derramando lágrimas de alegria.volveu Lenet. tirando da algibeira uma carta do príncipe de Conde. que está na prisão de Vincenas.E onde? . tudo quanto nele se continha. O papel quase foi arrancado das mãos do conselheiro pelas duas 168 princesas. . o qual nos retardou cerca de dia e meio.pelo príncipe.Eis as ordens de Sua Alteza. cujo total teria assustado um tanto as princesas. capitão das guardas do príncipe. Hoje.Já está lançada em conta .Ora. . e datadas de ontem . os nomes desses dois correios? 166 167 .Em Verteuil. um já chegou.perguntou a princesa. .Então o pai morreu? . esse perigo. e prometem um resultado feliz. e vem da parte do senhor de Turenne. . Lenet. .Em tal caso.. e o de amanhã. . senhora . não se dirá que as algibeiras de Lenet contêm todo .disse a princesa. senhora. É que mantemos correspondência. . . que devoraram. esperamos ter correios. caso se tivessem dado ao trabalho de somá-la. e que não tem comunicação com pessoa alguma?!. e da aliança dos senhores de Turenne e de Marsillac. e mostrando na exacta data as vinte mil libras da viscondessa assentadas numa coluna.Mas como conseguiu passar sã e salva. Chega de Stenay. escritas pelo seu próprio punho.E o segundo? .que por não ser declarada. . O que é agora necessário é empregar o dia de hoje. creio .ainda não houve tempo perdido. nem mais nem menos do que faz a guarda da alfândega.emendou a senhora de Tourville. vem da parte do duque de La Rochefou-cauld.Há oito dias. poder-se-ia recorrer ao primeiro plano que eu tinha feito. eu tinha chegado anteontem junto de Vossa Alteza.Asseguram-nos que o senhor de Saint-Aignan guarda a estrada. e passa revista a tudo.disse Lenet. a quem fazia guerra.E pode saber-se.mas os planos formados pelo príncipe em pessoa.evitámos.que.disse a viscondessa . . .disse com rispidez a senhora de Tourville .Recebia-a esta manhã.Sossegue. .O primeiro.disse Lenet . para evitar toda a perda de tempo.será Gourville. .

se Vossas Altezas querem receber Gourville.pelo menos lisonjeio-me de que nenhum de nós tivesse outra intenção . senhora. que confirmou esta ideia.Senhora! -cortou com impetuosidade a jovem princesa . no reinado de Luís XIII. à sombra da pouca glória que Deus se dignara conceder à nossa casa.. e não procurávamos . . e com uma augusta mesura. Todavia. criada durante as guerras civis. tomando a Deus por testemunha da ingratidão das princesas. . .eis o triste estado a que nos vemos reduzidos! Ocultarmo-nos.Ainda não.Na realidade.Que mais difícil tornará a nossa passagem. carregada de penosas lembranças. aquele esposo e aquele irmão são seus filhos. ou rolarem nos cadafalsos por haverem querido conservar-se direitas. e afastou-se. Meu esposo e meu irmão estão sofrendo um indigno cativeiro.. Lenet olhou para a princesa viúva.A notícia de que o senhor de La Rochefoucauld deve chegar aqui esta noite ou amanhã. Estas.porque se nos inquietarem. combateremos e sairemos vencedores: o espírito do senhor de Conde marchará connosco. será quase impossível chegar ao Midi sem sermos inquietados. ainda não .outra glória que não fosse a de nos conservarmos na graduação em que havíamos nascido. em consequência de um imperceptível aceno da princesa viúva à sua nora.Mas com a ajuda de Deus. fez as duas senhoras uma mesura ainda mais grave e mais cerimoniosa do que a que lhe haviam feito. as duas princesas. para desculpar todas as .Agora . e está mudando de fato. e evitado o seu encontro. passou com tristeza a mão pela fronte. . e eis que as contingências destes desgraçados tempos nos impelem a combater o nosso amo.disse a princesa viúva.Encaro com menos desgosto do que Vossa Alteza a necessidade a que nos vemos constrangidos. feita conforme com todas as regras da etiqueta... depois de se haver certificado de que a porta estava bem fechada. e congratulava-se por fazer uma ampla colheita de informações secretas. sem dúvida alguma. fitando os olhos na viscondessa. a sua filha está proscrita. . É mais do que necessário. e.Quinhentos gentis-homens?! -exclamou a princesa.disse ela .. fez uma respeitosa saudação.. a todo esse aparato. . A viscondessa compreendeu qual era o desejo que tinha Lenet de ficar só com as princesas. Além disso. espontaneamente.. e Pedro Lenet entrou após elas.E que notícia traz ele? I . que acaba de chegar. . .esta senhora deve precisar de descanso. Preferia cinco ou 169 seis servidores somente.. recolheram-se ao seu gabinete.respondeu o conselheiro. Agora -continuou ele. porque o longo caminho. e retirou-se. ter-nos-íamos mais facilmente subtraído ao senhor de Saint-Aignan. anunciaram à senhora de Tourville que era chegado o termo da sessão política a que fora convidada a assistir. mas Carlota de Montmorency.o reino da França?. como se para também ouvir o parecer desta. ou combatermos! Vivíamos muito sossegados. que vira curvarem-se tantas altas cabeças para entrarem na prisão. A dama das teorias compreendeu perfeitamente o que dela se pretendia.. perante um sorriso da princesa viúva. . com quinhentos gentis-homens. é um exército! . farei diligência para alargá-las o suficiente.Tanto melhor se nos inquietarem -exclamou a princesa .Sim . A senhora de Tourville ia-se deixando ficar. pois não ousa apresentar-se com o trajo de viagem.disse Lenet. Mas assim.

Senhora . .. . brasão demasiado belo para que possa ser abandonado.Temos feito muito ruído. depois de ter sido homem no conselho.Vossa Alteza tem razão. . Crêem que o pai não servirá de refém a Mazarino. eu suporto tudo isto com mais paciência do que a senhora. de sair de Chantilly apesar da vigilância da rainha. Mal havíamos para ela voltado. Se as minhas armas não fossem as da França. quando tivemos de entrar na prisão de Vincenas.disse a princesa viúva. há que tomar uma resolução pronta: cumpre ver qual seja na realidade a nossa situação. o que fazem. filho e neto de Vossas Altezas. como o quer fazer. quando se tentarem empresas temerárias em nome do filho? Não conhecem já os segredos da torre de Vincenas.volveu Lenet. que hoje está preso. e do bloqueio do senhor de Saint-Aignan.. sim.de sermos proscritos ou presos. perseguidos pelo ódio do cardeal de Richelieu. de que ao lado das vossas preciosas existências começa a apontar uma existência não menos preciosa .Deus é testemunha de que serei o primeiro a executar a ordem de Vossa Alteza. a quem as campainhas denunciam. Decerto não tenciona ser mulher no combate.Sim. o príncipe. fazem-no às claras. e não atraiçoam. onde estiveram encerrados o grão-prior de Vandoma.Os Condes não são espanhóis. pois. tornar a ver o quarto onde nasceu. e não a dissimularmos. Assim que fui esposa do pai de seu marido.que parece ameaçar-nos .. e alcançado demasiado renome . voltando-se para mim. mas adian-támo-nos demasiado. por isso. pois quando lhe anunciaram o desfecho da batalha de Rocroy. preferiria tomar por armas um falcão.é a do senhor duque de Enghien... é preciso dar batalha. logo tive de sair de França. Irão arriscar-se a sepultar no mesmo túmulo o presente e o futuro da vossa casa?.replicou Lenet. é a habitação mais insuportável do mundo? Não.disse a princesa viúva. . aflito com as recordações que a princesa acabava de evocar. que quanto mais glória a nossa casa adquirir. senhoras - .exclamou a princesa. . Trata-se. mas de cabeça levantada! . e não enganam.Senhora .Sim .empresas que pudermos tentar. Esqueceram-se daquele quarto fatal que. o marechal d’Ornano e Puy-Laurens?.eis o que nos perde. não são italianos. com uma tristeza muito resignada. Não é do meu parecer. Não estamos livres senão na aparência: a rainha tem os olhos fixos em nós. e de fronte erguida. e pôde. Meu filho. no fim de trinta e dois anos. e será Vossa Alteza quem dará aos soldados o grito de guerra. I-Saiamos de Chantilly. seja ela qual for. 170 perseguida por causa de Henrique IV. tinha razão de sobra nas suas sombrias profecias. não podemos recuar. com esta divisa: Fama dócil! . e. Mais ainda: em circunstâncias semelhantes àquelas em que nos encontramos. Marchará à frente dos seus partidários. Esquece-se. porém.Mas lembre-se. nasceu na prisão. . senhora. e ajudam a ser de novo apanhado. senhora. tanto maiores desgraças terá de sofrer. 171 . "Ah! o seu sogro. e o senhor de Saint-Aignan bloqueia-nos. Lenet? . quando o conduziram à sala atapetada com as bandeiras tomadas aos espanhóis. com acento de convicção.A minha opinião é esta . mas também não posso deixar de lamentar o triste destino . mas para sair de Chantilly. segundo diz a senhora de Rambouillet. Deus sabe a alegria que esta acção de meu filho me causa disse ele. minha filha.

vai agrilhoar-me num leito de dor.exclamou a jovem princesa.. e sairão de Chantilly como convém que o façam senhoras que sofrem perseguição.disse Lenet em voz baixa . pois que isto.continuou Lenet. uma mãe a quem privam do filho. se não se saírem bem.. A senhora . e faça correr a notícia da sua doença. . do laço que as prende. a mulher e o filho. Não é depois de amanhã que o senhor . Para obrar e falar alto e bom som. senhora! . e sobretudo a vossa posição. que cada vez se ia sentido mais fraca !• sim.Partimos às escondidas. a fim de não desanimar as pessoas que me rodeiam.exclamou Lenet. Minha filha e meu neto sairão de Chantilly. espalhe por toda a parte 173 que a vossa intenção é mandar correr um gamo no parque. os vossos partidaristas ficaram mudos. que será talvez o meu leito de morte. poderia ser-nos muito nocivo. pois quanto a mim. e como em breve teremos de recorrer às estrebarias e às equipagens.Sim.mande chamar o vosso médico Bourdelot.. primeiro que tudo.Oh! que dirá o príncipe. a quem já a jovem princesa. Ordene.Perde a cor. Lenet. assustada com a sua palidez. .. segurando a princesa viúva. O nosso plano está apoiado por Gourville. Mas se forem bem sucedidas.não. Lenet. aguardem que não sirvam já de reféns ao mais forte.Faça o que entender. as boas notícias de hoje fizeram-me mais mal do que as angústias dos últimos dias. não comprometem os vossos recursos. para melhor dizer. Lembrem-se de que a vossa arma mais segura é a fraqueza. . vejo-me obrigada a ficar aqui. Sinto-me devorada pela febre. trate de convencer minha filha. . . tomara em seus braços. afirmou: . e executar-se-á o que ordenar.. ninguém se admirará de ver homens. e com o rosto cheio de afectuosa melancolia. mas não me sinto já com forças para mais: a dor que me consome.a indisposição de Vossa Alteza seria um benefício do Céu. uma mulher a quem privam do marido. . Estando presas. Deste modo. dever-lhes-á a liberdade. não digamos a ninguém. se sujeitaram a uma tal vergonha !? . salvar a fortuna dos Condes.. e todos vivem indistintamente à custa do amigo e do inimigo. quando souber que a mãe. no mesmo momento em que minha mãe cai doente?. Temos toda a certeza de ter uma boa escolta. declarar-se-ão. 172 . Hoje.disse a viúva. visto já não recearem que lhes imponham as condições do vosso resgate.continuou ele. partimos como malfeitores?!.. e congratulo-me por terem bastante prudência para se conformarem aos seus conselhos . se a sua pessoa não padecesse.Não sei o que dirá. armas e cavalos em actividade. com a qual evitaremos os perigos do caminho. Até agora. Deixe-se ficar na cama. senhora. como aconteceria arriscando-se a uma batalha. .. hão-de dar ouvidos ao parecer deste vosso velho servidor.Senhora . vinte partidos diferentes estão envolvidos. libertam-se. vendo-as livres. Mas como é possível que um homem tão previdente como o senhor não veja que poderão admirar-se desta estranha partida de caça. dirigindo-se à jovem princesa . tenho lutado. .Tudo isso será prevenido.Meu querido senhor Lenet. e que em vão me esforço por ocultar. do melhor modo que podem. Consintam no que lhes digo: tudo está para breve. em tal momento.ou. um menino a quem privam do pai. É preciso. às suas ordens. juntando as mãos . A princesa viúva reflectiu um momento.

muito pelo contrário: afastemo-nos quanto antes da nossa prisão. . o seu coração maternal. e deve sair das mãos das mulheres?.. ao passo que. . . Duas destas praças sobretudo são de enorme importância: Vayres. deste modo. nós diremos que esta partida de caça tem lugar por motivo das primeiras calças que veste o jovem príncipe. senhora.Depois de amanhã. e a ilha de São Jorge.Mas ajudemos minha mãe a recolher-se a seu quarto.perguntou a princesa viúva. e que os vossos ouvidos foram os únicos a ouvir. e se esperei que ficássemos sós para expor o meu plano a vossas altezas.Então sempre julga que devemos partir? . à noite. Que não tenha o mínimo susto.Oh! não. Lenet. Disto. apesar de quanto possa dizer. à capital do Midi. . e. .Excelente ideia! . o senhor duque de Enghien não terá de ir numa sege?. onde estão à nossa espera. . Lenet.Não há coisa mais fácil. Lenet. todos poderão ver o senhor duque de Enghien. . . que obriguem as tropas reais a dividirem-se. como o espírito diabólico de Mazarino. desde hoje mesmo vou propagar o boato da nossa partida de caça para depois de amanhã. foi para descargo da minha consciência. Assim que chegarmos à segunda cidade do reino. tratemos apenas da forma como havemos de sair daqui.disse a princesa.Ora bem.desafiou a princesa. . nos ocuparemos mais tarde. senhora. o primeiro obstáculo que encontrássemos far-nos-ia parar. e tanto insistiu que tiveram de ceder às suas instâncias. Estamos aqui sós e à vontade. na realidade. que farão? . como melhor convier a vossas altezas.. antes de estarmos em Bordéus. o pretexto é bom. 174 . .. a meu ver . que mesmo em Bordéus não poderemos aguentar-nos muito tempo.Não tenha qualquer certeza. . Idealizei uma selazinha. .Oh! eu o desafio a que faça malograr esta! . terei a honra de lhes lembrar. poderemos negociar ou combater. muito ufana com esta primeira proclamação da virilidade do neto. senhoras. porém. contudo. que domina o Dordonha. é um digno e bom conselheiro..Sim.perguntou a princesa. porquanto neste mesmo momento sinto grandes receios relativamente à segurança do projecto que a minha cabeça só por si concebeu.exclamou com um alegre sorriso a princesa viúva. Encarregue-se dos convites. É que. e facilita a chegada de víveres à cidade.Mas para correr atrás da caça.Passaremos através do exército do senhor de Saint-Aignan. e à noite poderemos pôr-nos a caminho com toda a segurança. seu escudeiro.duque de Enghien completa sete anos. se Vossa Alteza não tem algum motivo para demorar a partida. senhora: a cavalo.E uma vez que tenha saído de Chantilly. que Vialas. mas até as adivinha. que Sua Excelência não quis de modo algum que a sua moléstia fosse entrave para esta solenidade.Assim é. caso não tenhamos do nosso lado algumas praças. juro.. não há coisa que seja fácil. . para cujos olhos encontraremos processo de lançar poeira. assentará adiante do arção da dele. senhora. que é considerada pelos próprios bordaleses a chave da cidade. e chegaremos a Bordéus. Iremos reunir-nos ao senhor de La Rochefoucauld e à respectiva escolta. indo de sege. O senhor Mazarino não só sabe das coisas. por agora. indo a cavalo o senhor duque poderá passar por toda a parte. . na suposição de que tenhamos de fugir.Não.. Lenet. .

meia hora depois. XIII O dia designado para levar a efeito os importantes planos de Pedro Lenet foi um dos mais escuros daquela Primavera. 177 as inquietações que desde logo dera a saúde da princesa viúva haviam-se. e os que por acaso a tinham esquecido. com uma espécie de orgulho. depois de sangrada. e nessa mesma noite mais de cinquenta convites foram enviados em diferentes direcções pelos numerosos servidores da real casa. aguardavam cinquenta cavalos selados e enfreados. médico da casa de Conde e mestre do duque de Enghien. Estes convidados. que se haviam acostumado a resistir às inclemências do tempo nos bivaques de Rocroy e de Lens. O céu estava nublado. e todos os clientes da ilustre casa. Alguns oficiais. Lenet passou o dia a escrever. a mais profunda névoa reinava por toda a parte. de orelha baixa. e raspando impacientes a terra com as ferraduras. por um esforço comum. Contudo. e. nos jardins de Chantilly. convidados pelas circulares de Lenet.175 . é a mais desagradável. todos os convidados pessoais da senhora de Conde haviam chegado. Nos vastos pátios. os bosques. e os jardins. panaceia universal daquela época. e que deveriam munir-se de ar solene para verem o duque de Enghien. foi pedida. vestido com calças pela primeira vez. reunidos aos servidores da casa. arrastar consigo o moço que enxugava aos que mais estimava as orelhas ensopadas em chuva. matilhas de cães atrelados e inquietos. e mitigavam o desagrado da demora conversando sob os terraços e escadas exteriores. e parecia que eram esperados outros convidados. haviam cumprido. Todos os oficiais que estavam ao serviço do príncipe. olhos tristes. cujo maior número estava reunido à roda do magnifico cavalo branco. presos às argolas. A princesa viúva recolheu-se aos seus aposentos. apinhando-se todos os hóspedes das princesas na antecâmara da princesa viúva. devido ao prognóstico. ficaram desertos. seu escudeiro. as galerias. . favorável de Bourdelot: a princesa. tentavam. A notícia desta inesperada indisposição espalhou-se no instante mesmo por Chantilly. fria e densa. tomara pela manhã um emético. eram introduzidos em consequência de um sinal que este fazia ao porteiro. a que chamam por tradição a mais bela estação do ano. destinado ao duque de Enghien. Aqui e além vagueavam os picadores com as suas cornetas. se tivesse instalado devidamente na sela principal. e cada qual fora introduzido apresentando a sua carta de convite. A presença de Bourdelot. e meteu-se na cama. arrostavam a água do céu.Fique descansada a esse respeito. levava adiante da sua grande sela à francesa um pequeno assento de veludo com espaldar. dissipado. uma vez que fossem reconhecidos por Lenet. sobretudo na França. Toda a gente havia sido avisada de que era dia de cerimónia. senhora. bater um gamo. Além disso. e onde este devia tomar lugar quando Vialas. e a chuva caía. ainda se não falava de dar princípio à caçada. formavam um total de oitenta ou noventa pessoas. Às dez horas. e de mãos atrás das costas. acudindo a Chantilly. que. o que entendiam ser um dever. e que quase sempre.

e. atravessando a sua alabarda. que tinha recebido ordens estritas. um quarto com lume. .E para onde vão? . e os mesmos cuidados se deram aos seus cavalos. . e vendo no pátio uns postes que pareciam plantados ali para o efeito. que tinham fome e curiosidade.Veja os nossos fumos. Enquanto isso. e. os cavalos foram tirados das mãos dos lacaios da casa. dois a dois. armados como os outros que já descrevemos. senhores . Mas o homem da alabarda. vendo os postes. com um talabarte de prata e de alabarda na mão aproximou-se dos recém-chegados. cinco a cinco. um homem vestido de azul. os três amos tinham. Ainda os três gentis-homens mal se haviam sentado à mesa. apresentaram-se outros quatro.Pelas dez horas e meia. entraram. Somos oficiais do exército de Turenne. 1 Os gentis-homens. e ainda se renovou a mesma cena. . entregaram as rédeas dos cavalos aos lacaios. Sendo tratados com a mesma cortesia. que pela equipagem ensopada em água e pelas botas enlameadas. apearam-se. . quiseram prender a eles os seus cavalos. armados de ponto em branco. .Do Norte . aproximou-se e renovou as perguntas: . e serviu-lhes de guia. 179 Das dez horas até ao meio-dia. mas todos bem .E que prova dão disso? 178 . cada um.disse aquela espécie de porteiro. . e levados para as estrebarias. tal como os primeiros. dirigiram-se para esse lado. tal como eles. E.respondeu um dos cavaleiros. mostraram os fumos que pendiam dos punhos das espadas. quando outros seis cavaleiros. em grupos sumptuosos ou insignificantes. Com efeito. entraram no castelo. o seu fumo na espada. Um camareiro esperava-os à porta. três gentis-homens seguidos dos respectivos criados. sós. onde lhes deram agasalho e ração. estes últimos foram tomar o seu lugar na mesa.Veja os nossos fumos.Vamos ao enterro. quiseram prender às respectivas argolas as cavalgaduras. que foram recolhidos na estrebaria.Rogo-lhes que me desculpem. e criados que os sirvam.disse o porteiro. também se lhes acudirá com o que for preciso. No mesmo instante. quatro a quatro.Da Picardia. informando-se do caminho para a sala de jantar. quanto aos que os acompanham. facilmente eram reconhecidos como viajantes que vinham de longe.De onde vêm. senhores? . e portadores de malas tão abarrotadas que dir-se-ia irem dar a volta à Europa.Donde vêm? . .E que provas dão? . como eles. Depois destes.Vamos ao enterro. O castelo está à vossa disposição: encontrarão a mesa posta. seguidos de seus lacaios.Para onde vão? .

e tencionava mesmo inserir em certo discurso estas palavras: Pobre príncipe órfão. . Contudo.encontrarão sentada a cear a senhora Princesa.Toma sentido -exclamou o príncipe com enfado. ignorava qual fosse a sua importância. que hoje pela primeira vez veste calças. Sua Alteza agradece-lhes. contemplava com olhos impacientes o rico e sever trajo que ia envergar pela primeira vez. conversando acerca dos negócios do tempo.. no quarto. Olha que são de veludo bordado. confiado pela última vez ao cuidado das mulheres. e que responderam dizendo de onde vinham.Senhores.armados. todo replandescente de saúde. prevenidos sem dúvida pelo senhor duque de La Rochefoucauld. tanto tempo esperada. que os espera para celebrar as exéquias do senhor seu pai. como hábil orador. a honra que lhe fazem de passar por sua casa ao encontro do senhor duque de La Rochefoucauld... . outros. Lenet entrou no salão e disse-lhes: . Considerem esta habitação como vossa. enquanto os criados tomavam algum refresco e os cavalos descansavam. na ala. devorava com os olhos o fausto de que se via rodeado o companheiro. devia aparecer o senhor duque de Enghien.Concluída a caçada . pois. que. esperavam alguma coisa semelhante. não podendo resistir à curiosidade. enquanto o pequeno príncipe olhava para outro lado. em execução das ordens dadas pelo senhor duque de Enghien. . Pedrito! Vais estragar as minhas calças. que pareciam ter uma certa ligação com os acontecimentos daquele dia.continuou ele . Alguns dos gentis-homens prestaram uma atenção particular à exposição deste programa. e sorrateiramente havia apalpado o veludo e acariciado os bordados. com as suas amas e as embaladeiras. e mostrando os seus fumos. Proíbo-te. a quem o alabar-deiro interrogou do mesmo modo. foram-se deixando ficar à mesa. Mas. não era o príncipe quem olhava com maior avidez para os esplêndidos vestidos e insígnias da sua virilidade. e Pierrot retirou a mão muito tarde. a dois passos dele. chegaram uns cem cavaleiros. que parecia de algum modo impedi-los de vontade própria. bordado de prata. que apenas tinha mais alguns meses de idade. após o que terão toda a liberdade para continuar o vosso caminho. e este efeite dava-lhe o ar sombrio do luto. outro menino. 180 Muitos deles passeavam por baixo da varanda principal. cabelo louro. e dignem-se participar nos divertimentos de uma caçada que deve ter lugar esta tarde. visto que ninguém fez reclamação alguma: uns foram ver os seus cavalos. força e arrogância. ajuntando que iam ao enterro. O jovem príncipe. e bem vês que se lhe tocares perderá o brilho. para se porem em estado de se apresentarem dignamente diante das princesas. à vista de um efeito certo. se interrompera. cheio de orgulho aristocrático. de faces rosadas. Todavia.. Depois que todos jantaram e travaram conhecimento. se atrevera a aproximar-se da cadeira sobre a qual estavam prontos os belos vestidos. depois de terminado o seu atavio. Um murmúrio de aprovação e de agradecimentos lisonjeiros correspondeu a esta primeira parte do discurso de Lenet. por meu intermédio. a mãe queria a todo o preço ser considerada viúva. até já por diferentes vezes. Era um vestido de veludo preto. e outros recorreram às suas malas. pois. enfim.toma. que ponhas as mãos nas minhas calças. que deseja ela mesma apresentar-lhes os agradecimentos. Mas aconteceu que uma vez o duque de Enghien lançou os olhos a tempo.

. cada qual correu em busca de um cavalo fogoso e descansado. com aquele movimento de mau humor que é familiar aos meninos de todas as condições. e disse: . mas eu sou jardineiro. O monteiro. os gentis-homens abriram alas. e que 182 não pôde encontrar nas suas recordações . não lhe deu tempo para isso. quis outro dia montar no meu burro.É verdade o que dizes.. amparado pelo escudeiro . se somos irmãos. o som da trompa ecoou nos pátios e penetrou até ao fundo dos quartos.Vamos. e todos os nossos gentis-homens se impacientam com tamanho atraso.represento o meu papá : e não cairei. por meio de uma demonstração acerca da diferença que há entre o irmão uterino e um colaço.vistam já o príncipe! Está dando uma hora. . mande dar o sinal de partida. mas hoje -replicou o jovem príncipe com toda a majestade que pôde chamar em seu socorro. foram os primeiros a partir..Não tenhas receio. .. porque a ele sobretudo desejava excitar a admiração e a inveja. Lenet. Pedrito . por conseguinte. Depois. os seus vestidos são meus. e logo me verás em cima do meu grande cavalo branco.. . como em torno dele. e se Sua Alteza me quer impedir de pôr a mão na sua roupa.Se Pedro tornar a pôr mão na sua roupa. vamos . e ele muito bem o sabe. com o mais insolente gesto de ironia.julgava que era meu irmão. e que. Então. as suas pintadas são dele. para atalhar a discussão entre Pedro e o duque de Enghien.Não se conservará muito tempo a cavalo.disse a princesa. . no seu cavalo branco.Pedro ocultou a criminosa mão atrás das costas. Luís . senhor de tudo o que há.disse a princesa ao filho. e lhe disse: . esquece-se de que Sua Alteza é seu amo. -respondeu o irreverente Pedro. . mas o jovem príncipe..disse ele. encolhendo e tornando a encolher os ombros.. e os pica-dores com as suas matilhas.. Eu tenho mais força de que Sua Alteza. e se as minhas pintadas são dele.. quando a ama do príncipe.Pedrito. hoje vou à caça. e o duque de Enghien.Sua Alteza é príncipe.Chamam-lhes irmãos porque foram criados com o mesmo leite. tanto no castelo. desfigurado por uma feia carantonha. com os seus cães de caça.Ah! sim?. sentado na minha linda selazinha. é dever nosso repartirmos.. e nele montou.Não se agaste. Ainda não tinha proferido totalmente estas imprudentes palavras. e eu é que matarei o gamo. mandá-lo-emos açoitar. pela minha parte.Como eu estava enganado!.disse Pedro . querendo que Pedro assistisse a todo o seu triunfo. . lançou mão ao braço da arrogante criança. XIV NO mesmo instante. graças aos cuidados que lhes haviam proporcionado. . eu. não o deixarei brincar com as minhas pintadas. . 181 Pedro substituiu a sua catadura amuada por uma catadura ameaçadora.não estou enfadado contra ti. mãe de Pedro. além de que Vialas me aparará em seus braços. e ele deitou-o por terra.Então. A ama ia replicar... .

com suma satisfação sua. se vestira. debalde a buscavam com os olhos. gentis-homens. e para quem eram estranhas 185 todas estas pompas reais. e a princesa. em consequência de algumas palavras que Lenet lhe disse ao ouvido. desconhecidos da maior parte dos gentis-homens. do luxo das armas que algumas aberturas dispostas com arte deixavam perceber. deu o sinal de partida. um porteiro. depois. e por isso o entusiasmo chegou ao seu maior auge. afinal.tal era. e pareciam consultar-se mutuamente. e montada num cavalo negro como azeviche. escudeiros. e além da estrada. em frente do muro do recinto construído pelo condestável Anne de Montmorency. que nunca tinham ido à corte. adorável no seu trajo mulheril. aplicando o ouvido aos sons das cornetas e aos latidos dos cães. cujas portas estavam guardadas por soldados do regimento de Conde. afagando os seus cavalos esbaforidos. com o acompanhamento de um esplêndido . num cavalo que evolucionava com encantadora graça. e defendera contra os rebeldes em São Germano. e como se esta precaução ainda não fosse suficiente para que nenhum falso irmão tomasse parte na festa. Esta brilhante cavalgada foi recebida com aclamações unânimes. O menino saudava-os com um lindo sorriso. e como ele armado com uma alabarda. Quanto à senhora de Tourville. Todos. fecharam-se as cancelas. podia bem causar espanto a espécie 186 de solidão em que se achavam aqueles gentis-homens. o som da corneta e os latidos furiosos dos cães deram anúncio de que se corria atrás de um gamo.Vialas. Estes gentis-homens tão brilhantes eram. primorosamente ataviada. erguendo-se nos estribos. A princesa saboreava a largos tragos todas estas provas da sua popularidade. Um momento depois de se haverem fechado as cancelas. espada comprida de punhos lavrados e abertos . seis cavaleiros. desde a antevéspera havia desaparecido como Aquilles: retirara-se para o fundo da sua barraca. e a cada uma delas estava. junto dela. vinha a viscondessa de Cambes. Depois de haverem passado os caçadores. botas finas com esporas de ouro. tão belos e tão nobres na hora em que toda a nobreza daqueles sítios estava reunida em Chantilly. Este primeiro capitão da Europa era perseguido e agrilhoado pelos mesmos a quem salvara do inimigo em Lens. tendo recebido ordem de não deixar entrar senão os que pudessem responder às três perguntas convencionais. era a mulher e o filho daquele a quem os inimigos reconheciam como o primeiro capitão da Europa. trajado como o da corte. e em breve passaram dos jardins para o parque. Contudo. dos brilhantes arreios dos seus cavalos. e seguido pela mãe. contudo. os soldados ficaram de sentinela por detrás das cancelas. Não seria preciso tanto para excitar o entusiasmo. com uma meiga majestade. tinham os olhos fitos na princesa e no duque de Enghien. dos lustrosos capotes que dos ombros lhes caíam airosamente sobre as garupas dos fogosos animais em que iam montados. haviam parado. À vista do seu trajo absolutamente novo. eclipsados pelo luxo do seu chefe. com que. apareceu rodeado de damas de honor. ou daquele que o parecia ser: plumas no chapéu. boldrié dourado. do outro lado do parque. de pé.

.disse em tom de quem tinha certo respeito à opinião do seu tenente aquele que primeiro falara.que Ferguzon não seja de parecer que se vá hoje à caça. e entraremos. Cavaleiros do nosso porte não se deixam na rua. .esses homens mal vestidos. se acham a esta hora no parque.replicou Cauvignac. Nós não o sabemos. disso estou certo! Crê então que essa gente vai à caça pelo amor que tem às caçadas?. estamos tão brilhantes como escudos novos. . 187 não é assim.disse ele.Nada disso! . passaria por duque e par. E por isso.isto não quer dizer que não caçaremos. à primeira cancela. quando na estrada que seguimos nos encontrarmos com os caçadores. cabeça de burro! se não podemos entrar?! ..Quer a desgraça ..Porque não faríamos nós neste muro. a quem se dirigia o discurso do seu chefe.Cauvignac -replicou Barrabás . se as portas e cancelas. apesar do seu trajo e modos. e por detrás do qual de certo não encontraríamos quem nos pedisse satisfações?.Ora.em caso de necessidade. atirando o chapéu ao ar. onde poderia encontrá-los mais belos? Se precisa de conspiradores. Apresentemo-nos.disse um terceiro.exclamou Cauvignac.Sobretudo quando estamos cansados de dar caça aos homens. . a caça é divertimento próprio de gentis-homens que muito me convém. . . e que os nossos leitores reconhecem pelo aventureiro que encontraram logo nas primeiras páginas desta história.Mas . estão. Cauvignac .Repito. I -Acredita. não digo que não me apraz.Não sou homem de tão pouco gosto. no teu entender.. tinham sobre nós uma vantagem: a de saberem qual é o santo.capote azul-celeste à espanhola.Eu não digo que não podemos entrar .. a equipagem deste cavaleiro. na caça ao gamo é fácil tomar parte. .. .Dão sinal de caça descoberta. e nós não entraremos. . . Se o senhor duque de Enghien precisa de soldados. sorrindo . . e que.Se o creio?. fechadas para nós?!.Bravo! .. ou à primeira porta.por onde é que se entra no parque? pela porta ou pela cancela?. que para os outros são abertas. Barrabás? .. e. e só para nosso uso.E como queres tu que cacemos.disse Ferguzon.. durante o qual os seis cavaleiros ficaram olhando uns para os outros com certa perturbação . pois. um rombo por onde pudéssemos passar.replicou Ferguzon. . . passado um momento de reflexão profunda.Oiçam! -exclamou Cauvignac.. Ferguzon: és o nosso homem de recursos! .. portanto. A mim não me enganam! eles conspiram. . .respondeu um dos cinco cavaleiros. . onde poderia achálos mais elegantes? O menos sumptuoso de nós tem a catadura de um capitão.Então? . pois. nós e os cavalos. e isto é muito positivo. .... Ferguzon? . nem dela dissuado os outros: digo simplesmente que a entrada deste parque onde andam à caça nos é vedada pelas portas e pelas cancelas..continuou Cauvignac. não nos deixarão entrar.. .Eles conspiram. não se dirá que esta nos passou por baixo das ventas. .continuou Ferguzon .Todavia.Dou-te totais parabéns.E como queres tu que entremos. Ferguzon não dizia palavra. quando se dá entrada a homens trajados como os que temos encontrado desde a manhã.Ferguzon tem razão . Temos quanto nos é preciso para figurar dignamente nesta festa.

derrubando os moços. Mas não sucedeu assim. Cauvignac pareceu convencer-se de que a caçada se realizava em honra da sua pessoa: arrancou a corneta das mãos de um dos moços que cuidavam dos cães. caso se tivessem conservado no seu posto. uma vez no parque. Mãos a obra. Tornaram então a montar nos seus cavalos. Cauvignac apeou-se da sua cavalgadura. praguejando. tocando desesperadamente a corneta. e vendo que o animal fazia frente aos cães. pois. os seus cavalos tinham sobre os dos cavaleiros que haviam chegado pela manhã a vantagem de estarem folgados. e. lhe .Que vai fazer senhor? É a princesa quem dirige a caça.Cauvignac! -dizia Ferguzon.O gamo é nosso! -gritou Cauvignac. alentados pelo exemplo de Cauvignac. e dêem provas de bom gosto. camaradas. e pouco ou nenhum conhecimento tinham entre si. ou conceder esse favor a quem bem lhe apetecer. não podendo já consigo. saudando garridamente as senhoras quando passava diante delas.É nosso! É nosso! E os companheiros. fazendo perder o rasto do gamo quando saiu dos bosques. . Num abrir e fechar de olhos. depois de haver atravessado o grande lago. Tudo teria. Em breve se juntaram e tomaram lugar entre os caçadores. animando-se a si 191 próprio quando as perdia de vista. dedicou-se ao derrube das pedras ja abaladas do muro. pertence matar o gamo. à excepção do prudente Ferguzon. ido às mil maravilhas. estava reduzido às últimas.sejam corteses. pois. além disso. . pedirei para ti o lugar de Mazarino. guiados por Cauvignac arremeteram para dentro da praça. um só dos quais foi bastante para segurar os cavalos de todos. o qual se não atreveu a recusar-lha. os cinco improvisados trabalhadores abriram uma brecha de três ou quatro pés de largo. ou neles se tornava a embrenhar. seguro! Não pode escaparnos! . XV JÁ dissemos que os seis gentis-homens estavam bem montados. dirigindo-se para o lado de onde vinha o som das cornetas . ajudado pelos companheiros. sem a mínima contestação. Passado um instante. que o seguia de perto . A ela.Agora .. apressavam-se a cair sobre a presa quando o capitão das caçadas. para nele colocar o príncipe.Cauvignac. juntando-se aos picadores e monteiros. ou também caso se contentassem em adiantar-se aos outros. rompeu através dos bosques. e. lhe disse: .Temo-lo. os intrusos não encontravam qualquer dificuldade em passar por convidados. esmagando os cães. berrando. tanto fará que por fim seremos todos expulsos! Modere-se. e caindo sobre o gamo no momento em que o animal.disse-lhes este. gritando com toda a força dos pulmões: . atravessou-se por diante do capitão de caçadas em todas as direcções.188 E quando eu tiver derrubado o rei da França do seu trono. brandiu-a à frente dos monteiros. afastando Cauvignac com a sua faca de mato. pois convidoos a cear em casa do senhor duque de Enghien. apeou-se e desembainhou a espada. pelo santo nome de Deus lho peço! Cauvignac a nada atendia. mãos à obra! Dizendo estas palavras. A maior parte dos convidados vinha de diferentes províncias.

Chegando ao meio do círculo.. . a quem os cinco minutos da alta que fizeram havia permitido que chegassem junto dele. precedendo o duque de Enghien.Cumpre em primeiro lugar saber quem é .Ordenei a um normando. Quero ver cair o veado.disse a princesa.disse Cauvignac. senhor . A princesa parecia muito animada. Esta manobra tinha por objectivo matar o gamo com uma bala. Lenet.mas pode muito bem acontecer que paguemos os nossos lugares mais caros do que na hospedaria da Borgonha. . e bem se percebia que este simulacro de guerra era o prelúdio de uma guerra verdadeira. . Não faríamos mal se nos eclipsássemos. com folha do mais fino aço e punho em prata dourada. encurralado junto ao tronco de um carvalho.Tem razão. pois se visse que o observavam.Mas visto que entrou. bem sei . avistou-se correndo para aquele lado a princesa. continuemos a nossa caçada. formando um grande círculo en torno do animal. se arremessasse contra ela. escapar-se-nos-ia. se este. aconteça o que acontecer.Contudo. tomarei a liberdade de dar a Vossa Alteza o conselho de desconfiar dele. será interrogado com toda a sagacidade..respondeu a princesa.disse Ferguzon. foi colocar-se a vinte passos do animal. .creio que se ocupa de nós aquela gente de alta distinção.. apresentando a face à princesa a quem quer Vossa Alteza conceder a honra de matar o animal? 193 .Senhora . e fitou-os em Cauvignac e 192 nos seus companheiros. ..replicou o capitão. .disse o capitão das caçadas. O arcabuzeiro saiu das filas e de arcabuz na mão. em vez de esperar pela princesa. . . e as damas. estes devorados pelo olhar inquieto e desconfiado dos picadores e dos oficiais de caçada.Namur . . viu-se subitamente rodeado pelo tropel dos caçadores. como às vezes acontece. . . . olhando de soslaio para Cauvignac. e é a primeira vez que o vêem todas as pessoas a quem interroguei.Não tardaremos a sabê-lo. deve sem dúvida ser conhecido de alguém. senhora . e cercado por todos os cães reunidos e encarniçados no assalto.Ah! pela minha fé: tanto pior.insistiu Ferguzon . e quando recuava com muito pouca graça.Julgas que sim?.Por certo que não . .É um belo espectáculo.Vossa Alteza conhece este gentil-homem? . a princesa parou.Reservo-a para mim.respondeu Lenet com o seu sorriso habitual. Mas por agora não dê Vossa Alteza a ideia de ter reparado nele. . era uma faca de que ordinariamente se servia o príncipe. na companhia da princesa.. . que faziam questão em não se apartarem dela. .. impelido pelo desespero. .Uma mulher da minha posição deve acostumar-se a manejar o ferro e a ver correr sangue.Saiba Vossa Alteza que ninguém o conhece. os gentis-homens.Cauvignac caiu em si ao ouvir esta áspera repreensão. que fossem ter com ele..disse ela.perguntou ele em voz baixa. pousou os olhos com soberania em torno de si. No mesmo momento.disse o capitão das caçadas ao arcabuzeiro .prepare-se. . O capitão chegou junto dela com a sua faca de mato na mão.Cauvignac .Mas ele não podia franquear as cancelas sem saber o santo. . a um picardo e a um bretão.Não .

disse ele. Ferguzon. Lenet aproximou-se dela. que. A besta não acreditou. E.. e de texugo quando não ri?.. Lenet. senhores . caído como estava sobre os joelhos. Cauvignac respondeu a este convite com um gesto sumamente recioso.convido-os a que me sigam. O gamo levantou então a cabeça. . Lenet. tentou fazer um movimento. que a morte se apresentasse sob as feições daquela formosa princesa.. batia palmas de alegria. acompanhado daquela grossa lágrima que acompanha a agonia do gamo e do veado. soaram todas as cornetas. .Aceito o convite que se me faz. correu com ares de amazona os olhos em torno de si.Não há dúvida de que assim foi. e ouviram-se retumbar milhares de gritos de Viva a princesa! enquanto o jovem príncipe. a sua natural perspicácia abandona-o neste momento. . a brecha está guardada. confiados nesta segurança. e com eles se dirigiram ao castelo. . voltando-se para o resto da comitiva: . e encaminharmo-nos para o lado dela é indicar que queremos sair por onde entrámos. que será de nós? . sem dúvida. de olhos fixos.Sossegue.Cauvignac. em lugar do gamo. . Depois.. os seis cavaleiros tomaram lugar entre os gentis-homens. eu juro-lhe. que é um feiticeiro. . . diga-me. parecia coberto de um tapete mesclado de mil cores. que foi cair no rosto da princesa. Mas não teve tempo para tanto.exclamou a princesa. e bem desejou que ele estivesse ali. mas no seu lugar. Mas cumpre confessar.Sim. dar-me-á muito prazer. caiu e morreu.Agora que está concluída a caçada. meu amigo. 194 . É já muito tarde para correr outro gamo. desapareceu até aos copos na garganta. além disso. . pegou na faca. A princesa tirou a faca da garganta do animal.Mas então. a cuja mão talvez tivesse ido comer dez vezes. a folha da faca.Ferguzon.perguntou Ferguzon. . com o seu sorriso habitual . Não reparou nas ordens que deu aquele senhor vestido de preto. quase oculto sob os cães. e que dá ares de raposa quando ri.Então que faz.em que pensava Vossa Alteza quando enterrava a sua faca na garganta daquele pobre animal?.disse ele.Pensava em Mazarino. Cauvignac não sabia se os havia enganado: não os perdia de vista.. em que se reflectiu um raio de sol. acreditar-me-á. tendo à sua direita o capitão das caçadas. e montou de novo a cavalo. No mesmo instante. eu retirava-me pela mesma brecha por onde entrámos. e. e.. Lenet ia caminhando.Quer a princesa que eu lhe diga . e à esquerda o mordomo da casa de Conde. . então. e tê-loia degolado desapiedadamente.. como eu vos tinha prometido a todos?.A princesa apeou-se. a ceia está à nossa espera.. lançando um último olhar de repreensão à sua bela senhora. que eu respondo por tudo. capitão? . e por isso.de que ninguém conhece estes cavaleiros? 195 . se quiser. Não vês tu que a princesa acaba de nos convidar para cear. agitando-se na sua sela. adiantou-se para o animal. restituiu a arma ensanguentada ao capitão das caçadas.disse ela .Estão certos . e. de onde esparrinhou o sangue.Sim! . bramiu dolorosamente. faces ardentes e lábios meio levantados.

podem ir. Clemência de Mailé Brézé não teve já a mínima prudência. a princesa levantou-se e pronunciou um discurso que comoveu os ouvintes. Ferguzon seguia-o. afagando os bigodes. Sois nossos amigos. confiado na sua promessa. Eram. Agora.temos de recorrer ao meio mais eficaz: não se diga que um punhado de espiões nos obriga a despedir cem bravos gentis-homens.Em tal caso . e estava certo de que não se teria vindo meter numa toca. trajado como já dissemos. e era evidente que se ia pronunciar um discurso. em quem tinham plena e inteira confiança. jurando alto e bom som servir fielmente a causa da ilustre Casa de Conde. . saudando respeitosamente a princesa. os seus partidários. e rompeu abertamente com Mazarino. Todas as pessoas olharam umas para as outras: havia sido prometida uma ceia. 196 Com efeito. logo que se tenha tornado a fechar a porta da galeria. e. Só que o normando descobrira uma brecha no muro do parque. senhor mordomo. passado um momento de silêncio -silêncio cheio de solenidadecomeçou uma cena.disse Lenet. pegou na carta de confiança que lhe . em suma. . que abandonavam com um perfeito desleixo a parte intelectual das relações sociais aos seus dois chefes. O normando. sem nada mais poderem dizer.Portanto. por seu turno. o picardo e o bretão voltaram. homens muito materiais. é o concurso da vossa bravura. electrizados pela recordação da afronta feita a toda a nobreza de França nas pessoas dos príncipes. e ajudá-la a sair da situação a que Mazarino a queria reduzir. que oferecemos ao serviço do príncipe. caso fossem bem sucedidos. quanto a Barrabás e aos outros três companheiros. se a toca não tivesse outra saída.. Um dos gentis-homens inclinou-se. senhores -exclamou a princesa. pois conhecia demasiado bem o seu chefe. é o oferecimento de vosso fervoroso zelo. Eis aqui a nossa credencial.o que o órfão que aqui vêem pede aos vossos corações generosos. o senhor capitão. e talvez ainda mais pela esperança das boas condições que haviam de impor à corte. meus amigos. A princesa saudou-o. Acresce que Lenet não tinha dificuldade de maior em desempenhar o encargo que a si próprio impusera. como homem inteligente. . tinha junto de si o filho. Tudo se passou conforme previra o conselheiro. terminando o seu discurso . Cauvignac e os companheiros não manifestavam o mínimo desejo de fugir.Ninguém. interrogámos mais de cinquenta gentis-homens. iam seguindo o tenente e o capitão sem pensar noutra coisa que não fosse na excelente ceia que os esperava.disse ele. ali colocara guardas. que podem fazer a nossa favor? Então. e tudo se executou como ele ordenara. preparado para o que der e vier. pelo menos. assinada pelo duque de La Roche-foucauld. interromperam duas ou três vezes o discurso da princesa. nem da arcada em que a cavalgada vai entrar. mantenha um piquete de doze homens com as armas carregadas. que não os perco de vista. e reuniram-se a Lenet. e sempre a mesma resposta: são absolutamente estranhos a toda a gente. Tenha cuidado. A princesa sentou-se sob um dossel que lhe servia de trono na grande sala de recepção. aqui se apresentam. . Desta vez. como tal. absolutamente. Reunimos cinco boas espadas e vinte mil francos. que era ao mesmo tempo a mais grave e a mais tocante que pudesse ver-se. que ninguém possa sair do pátio. Cauvignac andava sempre na frente.Chamo-me Geraldo de Montalent .Trago comigo quatro gentis-homens.

Venho acompanhado por seis gentis-homens meus amigos. rico e forte só com a minha espada.Onde está a vossa credencial? Cauvignac inclinou-se como homem que reconhece ser muito acertada a . nomeio-o um dos meus brigadeiros. resmungando com desconfiança.disse a princesa. tal como Lenet.apresentavam. conde de Duras . não tiravam os olhos da porta. de que tomou conhecimento.Chego sem amigos e sem dinheiro. cujo desfecho preocupara Ferguzon. senhores. tomando numa das mãos a carta. logo outro gentil-homem se levantou: . .Venha. Quando o lado direito se encheu. Bem sabia que atrás dela se encontrava o capitão com dez soldados bem armados. decerto não se apresentaram em Chantilly sem serem recomendados por alguém. . .Chamo-me Luís Fernando de Lorges. por último. e que do mesmo modo entregou a Lenet.disse então um terceiro gentil-homem. Assim que tomaram o lugar indicado. . perturbada com a antevisão do medonho tumulto que produziria a prisão dos seis suspeitos.Senhora. E perante o convite de Lenet. como fizera com a primeira. e. entregou-a a Lenet. senhores . ou do senhor de Turenne. que recebi do visconde de Turenne. . ia-se desguarnecendo o fundo da sala. conde de Clermont . . e esta inquietação foi logo comunicada aos companheiros. derramara uma sombra de inquietação no seu rosto. Os gentis-homens obedeceram. Eis a minha carta de confiança. pegando na carta do senhor de Bouillon. deu dois passos em frente e. senhor . cujo capote pendia majestosamente dos seus ombros. . mas o chefe. Temos cada um de nós dez mil francos. afirmou: . e passava para a direita da princesa. quem são? Querem dar-nos a honra de nos revelar os vossos nomes e mostrar-nos as vossas cartas de confiança? 198 O início da cerimónia. Deste modo. lançavam olhares coléricos ou ameaçadores. perguntou: .. formando um grupo solitário.Venha e deixe-se ficar junto de mim.disse a princesa. que..Chamo-me Cláudio Raul de Lessac. . dada a sua capacidade de raciocínio. Então. chamo-me Rolando de Cauvignac. conservara-se impassível. cada qual vinha com a sua credencial. restaram apenas Cauvignac e os seus esbirros. e trago comigo para o serviço de Vossa Alteza estes cinco gentis-homens. assinada pelo duque de Bouillon. mas que desejam conservar-se incógnitos. entregava a carta. saudando a princesa com uma graça muito afectada. e fez um sinal aos gentis-homens para que passassem à sua direita. . Este exemplo foi seguido por todos os gentis-homens. sobre o qual todos. . venha. pois estava sitiado em Bellegarde. fitando os olhos nos desconhecidos.disse ele. munido da qual abri caminho através do inimigo.disse a princesa. e dando-lhe a outra a beijar.E os senhores. a princesa fê-los passar para a esquerda. e pedimos o favor 197 de participarmos com esta quantia no tesouro de Vossa Alteza. que estava bem fechada.Passem para a minha direita. ou do senhor de Bouillon. estamos armados e equipados.Mas. e um simples soldo diário é quanto nos bastará. que pertencem às primeiras famílias da Guiena.Fiquem certos de todo o meu reconhecimento. Eis a nossa credencial. Lenet volveu os olhos para a porta.

com gesto triunfante. Esta 199 noite. deixou-se seduzir pelo atractivo dos vinhos de Borgonha. se dermos crédito ao duque de São Simão. porém. e viu-se uma magnífica ceia servida na principal galeria do castelo. . O sobressalto tornara mudos todos os espectadores. Cauvignac corria os olhos pelos circunstantes. o mesmo com Cauvignac. e deixando livre os seus convidados para prolongarem o banquete tanto quanto lhes aprouvesse pela noite adiante.. por mim. e por isso não tivera até então oportunidade de apreciar outros vinhos que não fossem os de sua terra. omitindo unicamente uma circunstância. e a mais grata expressão espalhou-se-lhe nas feições. excitou a admiração de Ferguzon. . 200 No fim do banquete. contraídas até aí por uma apreensão que era muito natural. que era a palavra que Lenet lhe dissera ao ouvido. E Lenet meteu na algibeira a assinatura em branco. mas que naquela época. de Barrabás. bebeu com moderação. levou a mão à algibeira. levando consigo o pequeno duque de Enghien. leu. Os dois batentes da porta lateral abriram-se ao serem pronunciadas estas palavras. A ceia foi uma das mais empolgantes. Se assim lhe convier. que achava excelentes. e por meu filho. foram suficientemente simples para julgar que o seu chefe se tornara sóbrio. depois da ceia. e acompanhado de imprecações estrondosas contra Mazarino. com os quais travara conhecimento pela primeira vez. que entregou a Lenet. a princesa retirou-se. .pergunta que se lhe faz.este papel é demasiado precioso para que tenha a intenção de dá-lo sem alguma condição.não lhes tinha eu dito que os convidava a cear com o duque de Enghien?.veja que fortuna! Uma assinatura em branco do senhor d’Épernon!..disse Lenet. de Nuits e Chambertin. e entendia que precisava de toda a sua razão para celebrar com o astuto conselheiro algum contrato do qual não tivesse que arrepender-se. pois .afirmou a princesa com o mais gracioso sorriso . Ninguém se coibiu de fazer honras às delicadas iguarias de Chantilly. e dela tirou um papel dobrado em quatro. proposto mais de dez vezes. Não se havia esquecido do sorriso sorrateiro de Lenet. conversaremos. cuja restituição Cauvignac teve a delicadeza de não pedir. tudo se havia passado como ela o desejava.muito obrigada! Três vezes obrigada. no momento em que ela se . o prudente Ferguzon. espada na mão.Senhor . Por esse motivo. . Este. como os brindes se fossem amiudando. Não acontecia. Ferguzon era gascão.. . sem embargo do justo apreço que fazia dos vinhos de Moulin à Vent. ignorando a causa de tal comportamento.disse a princesa. foi sempre correspondido por todos os convidados. de joelhos.disse Lenet em voz baixa ao ouvido da princesa . por meu esposo. O brinde ao príncipe.disse Cauvignac aos seus companheiros . dir-me-á em que poderemos ser-lhe prestável.E agora. senhor.Senhora . Lenet abriu-o. e dos seus três companheiros. Além disso. e fez uma narração circunstanciada da cena do salão e do banquete da galeria..Senhor .Ora. ainda não tinham grande reputação. que. Enquanto Lenet lia. sente-se à mesa . O próprio Ferguzon. fazendo-lhe uma profunda saudação.

Os príncipes não têm exército. .Porque.. alguma coisa de preferência a outra? . Assim que entrou no gabinete.Não prefere uma patente para levar alguma companhia?. Soariam em breve as nove.. . portanto. e Lenet do outro. como pode ver. como lhe digo.disse Lenet. não há nela outro nome senão o do duque d’Épernon. senhor. Contudo.A pessoa que a possuir poderá.. Creio que nenhuma dúvida pode nisso haver. Lenet conduziu Cauvignac ao seu gabinete.Portanto. Não digo por si. .Pertence. . . . e os seus olhos examinavam com ardor e rapidez as portas meio abertas e as tapeçarias flutuantes.. o que pretendo saber é se a possui com o consentimento do duque d’Épernon.respondeu Cauvignac 201 pois.O dinheiro é só o que viria a faltar?.levantava da mesa. . . .Eu serei razoável. pelo duque. mas tinha por princípio estar sempre pronto para repelir a traição.Ia mesmo propor-lhe esse ajuste. Lenet saiu por uma portinhola situada no ângulo da galeria. e a princesa deu princípio aos seus preparativos. e seguiu-o. a assinatura em branco.Não. . Neste ínterim.. talvez que tenha chegado à sua mão por via de uma terceira pessoa. nenhuma obrigação contraí. .Estão para tê-lo.. ao passo que. guardando eu esta assinatura em branco. Lenet designou com a mão uma cadeira a Cauvignac.Quando pergunto se lhe pertence. posso ganhar duas. enquanto iam caminhando. fazer uso dela com toda a segurança? .. . . meio alumiado por uma lanterna. e que lhe pertence.Não se esqueça Vossa Alteza de que partimos às dez horas. muito voluntariamente. se lha cedo. .E que duas coisas são essas? . e Cauvignac igualmente. senhor.Em tal caso. que eu lhe restituo. mas de cuja solidão ficou certo com uma só vista de olhos.Um posto no exército dos príncipes. .Recebi-a da sua própria mão. e a título de troca com um papel que lhe entreguei.Contraiu junto do duque d’Épernon a obrigação de fazer. Lenet e Cauvignac olharam um para o outro. só o dinheiro.eis aqui em primeiro lugar. . .. . a quem a possui . o aventureiro seguia atrás dele com ar de indiferença e confiança. só poderei beneficiar de uma coisa. Não receava precisamente que o atraiçoassem. Lenet levantouse. não é subtraída.E a segunda? . onde ardia a lanterna. nem extorquida por violência.Dinheiro.É coisa que não temos. . Cauvignac compreendeu a manobra. afagava indiferentemente o punho de um comprido punhal que tinha à cinta. em primeiro lugar.Foi-me dada. por que razão não faz o senhor uso dela? . e antes de tudo.Senhor ... assim pode fazer. . com esta assinatura em branco. a sua mão.De facto. . mas por alguma outra pessoa de quem a tenha recebido.Sim. que se sentou de um lado da mesa. para desde logo captar a confiança do gentilhomem.

fez sinal a Lenet de que a assinatura em branco era sua. e haviam mandado chamar Pedrito para o divertir. No momento em que Lenet tornava a meter na algibeira a chave do cofre. tinham receado que adormecesse. que era bom corredor. de portinholas abertas e cocheiros nos assentos.Com efeito. reunir. haviam sido levadas a uma sombria rua de castanheiros.É negócio concluído. onde era impossível que as vissem. vendo o seu rosto pálido e o seu olhar turbado. preencheu-a com os nomes que lhe indicou o mancebo. montado no seu cavalo branco. e mais facilmente pudesse. e. examinar os seus papéis. quando chegou ao último. cujo ponteiro designava dez horas menos cinco minutos. mas esta precaução tornou-se inútil. utilizar-se deles.Dez mil libras? .Sim. e entregoulha. próprio portanto para andar de sege como para montar a cavalo. porque era preciso conduzir para Paris a viscondessa de Cambes. os seus diamantes. uns após os outros. saíram ambos do gabinete. que mandara desengastar. e Lenet mais se precipitou do que entrou no quarto. Já só se esperava pelo sinal que deviam dar as cornetas. para o conduzir pela mão. não é demasiado. Disse-lhe que seria razoável. quando de súbito se abriu a porta. e ali se conservavam. Quanto ao duque de Enghien. veio um criado a toda a pressa dizer-lhe que o chamavam para assunto de extrema importância. abrindo uma espécie de cofre de segredo.Consente então nisso? . depois. apôs-lhe o selo da princesa. a princesa fazia todos os preparativos de partida. Entretanto. Cauvignac contou-os escrupulosamente. são-me indispensáveis alguns avanços para armar e prover do necessário os meus homens. se assim fosse preciso. a uns vinte passos somente da cancela principal. visto que ainda não houvera tempo de fazer outra 203 vestimenta. O escudeiro Vialas devia conservar-se constantemente à portinhola da carruagem. Ao princípio. A princesa. Em consequência disto. que consistiam em trocar o vestido de cerimónia por um de amazona. com os olhos cravados no relógio de pêndulo. levantava-se já e adiantava-se para o duque de Enghien. devia partir no trajo com que fora à caça. . O orgulho de se ver com trajos de homem conservava-o acordado. empalideceu e .Dez mil libras. entendendo sem dúvida que um papel tão precioso devia ser arrecadado com toda a cautela. . Lenet tirou da algibeira uma patente já assinada. brincando com ele.Que soma desejaria? 202 .. Lenet para seguir o criado. a fim de queimar os inúteis e levar consigo os de importância. em caso de urgência. As carruagens. a fim de receber o duque na sua selazinha e levá-lo a galope. . e Cauvignac a fim de voltar à sala do banquete. para que ocupassem menos espaço. que alinhou em montinhos de vinte luíses cada um. onde estava encerrado o tesouro do exército rebelde. retirou dez mil libras em ouro. aprontadas às escondidas. enfim. Lenet pegou nela e fechou-a no cofre de segredo. A princesa.

. se não é a si a quem ele guarda?. .que a princesa viúva se encontre aqui. pois se assim não fosse seríamos derrotados por Mazarino.Assim é preciso. . . e ataviar Pedrito com as suas roupas. não cabendo em si de contentamento.Porque o mensageiro teve de principiar a sua visita pela princesa viúva.. e o príncipe como jardineiro. .estamos perdidos! Meu caro Lenet. . O duque de Enghien calou-se.A princesa de Conde. senhor ..Qual? . foram ambos levados para uma sala térrea. Lenet sorriu.Não lhe dê isso cuidado. . porque se não achará uma falsa princesa de Conde?. prestes a debulhar-se 204 em lágrimas com esta única ideia. partirá com a mãe. . acaba de se despir à pressa. se entregava a uma visível explosão de alegria e orgulho. e por tudo respondo.Mas eu não quero que me tirem os meus vestidos para os darem a Pedro! exclamou o jovem príncipe. que pretende falar-lhe.Seu filho.Oh! meu Deus! Deixar partir o meu filho só!...que é que tem? que temos de novo? .disse Lenet.. .Oh! agora compreendo-vos muito bem. . . e neste momento mete-se na cama de Vossa Alteza..Sim. . . . e que tenho destinada para ser guardada à vista pelo espião de Mazarino.Eu.respondeu o imperturbável conselheiro. .perturbou-se por seu turno. .Mandar despir o duque de Enghien sem a mínima demora. quem me representará? . que faremos? . compreendo-me a mim mesmo.Hão-de ter-lhe dado ordem de nos guardar à vista. onde se operaria a metamorfose.se não quer que o senhor e sua mãe sejam encarcerados na mesma prisão aonde jaz seu pai. e neste momento está na sua antecâmara.Oh! meu Deus -exclamou a princesa.Vossa Alteza não se engana no que diz.Não o compreendo. e que até é capaz de impressionar num menino. um espião que a corte nos envia. incapaz de dominar os seus sentimentos.Uma única coisa. e fica a meu cuidado dizer a Pedrito o que deve fazer.disse. senhora . Mandei vestir Pedrito como príncipe. com uma certa inquietação. Lenet. senhora.disse Lenet . .Mas este mensageiro do rei não passa sem dúvida de um olheiro.é ter chegado um gentil-homem neste momento. enquanto Pedrito. Eis agora como se passou a cena de que Lenet acabava de dar conta à . senhora..Por que razão? . Depois. da parte do rei.. 205 .Isso é impossível.Porquê? Se encontrámos um falso duque de Enghien. . Mas que lhe importa isso. com a voz sufocada pela comoção .Oh! meu Deus! .ajuntou a princesa. próxima à capela. receava não ter ouvido bem. meu querido Lenet! Mas quem fará as minhas vezes.O que há . enquanto Pedrito. encaminhando-se para ele. de quem quero servir-me.disse Lenet. com aquele acento poderoso de que nas ocasiões graves fazemos uso. ..Quer a nossa fortuna ..

O gentil-homem fez um aceno com a cabeça. Se algum deles tivesse reconhecido o gentil-homem. trataria de diverti-lo. terei a honra de introduzi-lo. seguido do seu lacaio. . e sob o pretexto de lhe fazer companhia.respondeu o cavaleiro. .que facilmente se tomaria como desagrado pela comissão de que vinha encarregado.De Nantes .De onde vem? . em primeiro lugar. e ganhar tempo. tirando um papel da sua algibeira.disse-lhe ele.perguntou este. tudo se perderia irremediavelmente. depois Vialas. O porteiro abriu a porta. e ficou só. sem reparar que pelos buracos das fechaduras três cabeças curiosas o estavam espreitando. à promessa feita.para os retratos de família. um oficial da casa acudira. fora no mesmo instante introduzido nos quartos. para casa do duque de Enghien. Enquanto os gentis-homens iam continuando. o seu médico . a sentinela chamara. porém. e.Para onde vai? . e acaba de ser sangrada. e tocara a sineta. pela terceira vez. a cuja presença ia ser introduzido. como quem assentia ao que se lhe propunha.princesa. contudo. Até aqui tudo ia bem.continuou o alabardeiro. Vou anunciar-lhe a sua chegada. para casa da princesa. olhava com uma indiferença .Aqui não se entra! . porém. mas. e o terceiro La Rossière.Venho por ordem do rei! . um cavaleiro apresentara-se à cancela principal do castelo. Se o mensageiro tivesse dito que queria ver em primeiro lugar a princesa e seu filho. passados apenas alguns minutos o camareiro veio ter com o cavaleiro para conduzi-lo à presença da princesa viúva. . determinava que desde logo cumprimentasse a princesa viúva. o escudeiro do príncipe. a princesa fazia os seus últimos preparativos de partida. o recém-chegado vira o homem da alabarda de que já temos falado. e o mensageiro de Sua Majestade. .Para casa da princesa viúva de Conde. a beber. . pudera reconhecer aquele que tanto interesse tinham em chamar ao seu partido. . Ao soarem estas temíveis palavras. tendo entregue a carta de recomendação. por fim. ainda não há duas horas. O primeiro era Pedro Lenet. dentro de um minuto. por detrás dele. e os quartos da duquesa viúva estavam longe da galeria onde tinham lugar as últimas cenas do estrondoso banquete cuja primeira parte esboçámos. na sala do banquete. . e. cravando os olhos com afinco no retrato da princesa viúva. atravessando a alabarda. Nenhum deles. fazendo brindes aos príncipes e amaldiçoando Mazarino. enquanto Lenet ajustava no seu gabinete com Cauvignac a troca da assinatura em branco. senhor .respondeu o cavaleiro. O camareiro fê-lo entrar num grande gabinete contíguo ao quarto de dormir de Sua Alteza.Rogo-lhe que espere um momento.Sua Alteza sentiu-se de súbito incomodada anteontem. e que fora tirado no mais belo momento da sua mocidade. capitão das caçadas. entraria logo. Chantilly era muito grande. A etiqueta. . Era um formoso mancebo com a farda de infantaria. e para os móveis do gabinete. Carlota de Montmorency havia-se sentado na cama. enquanto. e faziam diligências para reconhecê-lo.disse o alabardeiro. finalmente. Fiel. 206 Por felicidade. a alabarda baixara-se.

o oficial inclinou-se segunda vez.disse o oficial. . e que até a teria recusado. e um menino. de que sua majestade se dignava encarregar-me. fez sinal ao mensageiro para que entregasse o despacho de que era portador. fez um sinal rápido para os lados da parede. Quando a princesa ouviu os passos do visitante.. visto que. como era dever meu. Proferindo estas palavras. . Passados dois dias.disse entre dentes a princesa. entendeu que lhe cumpria mitigar um pouco o amargo acolhimento feito ao portador de uma tal ordem. logo no princípio da conversa. à excepção do lado que a princesa viúva queria deixar aberto para receber a visita.Eu bem sabia -continuou ela.Muito bem! . a princesa viúva cravou mais fixamente os olhos no mensageiro. aceitando. que mais alva se tornara com a tripla sangria. que é o meu médico. e as palavras que dizia ao médico. mas. a rainha teve então a bondade de me dizer que ficasse junto dela. e tenho.Senhora!. e. uma pobre viúva. Depois. . O capitão estendeu a mão para a princesa. encontrando o oficial no limiar da porta. a rainha mandou-me aqui. . portanto. com o ar soberbo de uma rainha que está a ponto de se encolerizar.ficaria desesperado se vossa alteza me julgasse pela comissão que me vejo obrigado a desempenhar. para não parecer afectada. esperou que a princesa viúva tivesse lido as quatro linhas que nela se continham.Compreendo qual é a intenção da rainha.. 208 Dizendo estas palavras. Entre a parede e a cama da princesa viúva. dobrando o papel com enorme sangue-frio. mas não julgava que fosse tão medroso para recear uma mulher velha e doente.Senhora . perturbado. o seu silêncio ameaçava tempestades. o que podia dar lugar a que viesse um mensageiro do rei procurar as princesas de Chantilly. que entrara por uma porta secreta que havia no entabuamento do quarto de Lenet. . Cheguei a Nantes sendo portador de uma mensagem para a rainha. .. apesar de envolvida em palavras polidas: o senhor é o meu carcereiro. O pós-escrito da mensagem recomendava o mensageiro a sua majestade. senhor . tão . A alva mão. qualquer que ela fosse.. e nela depositou respeitosamente a carta de Ana de Áustria. o senhor Bourdelot. atrever-me-ei a dizer que não a solicitei.replicou a princesa . A princesa viúva fitara nele os seus grandes olhos pretos. com um respeito que bem se via não ser somente ditado pela etiqueta. e então a tapeçaria de pesadas franjas que envolvia o leito. a comissão. o qual estava impaciente por saber. .207 Bourdelot acabava de se apartar da cabeceira. cuja fisionomia lhe pareceu agradável. agitou-se imperceptivelmente durante dois ou três segundos. a que o oficial correspondeu do mesmo modo. segundo toda a probabilidade. e.que Mazarino era capaz de muitas violências indignas. fez-lhe uma cortesia muito cerimoniosa. O oficial deu três passos no quarto e inclinou-se. se os reis fossem pessoas capazes de sofrer uma recusa.Presa fácil de guardar. pois presumo que a ordem de que é portador também diz respeito a minha filha e ao duque meu neto. teria necessidade dos meus serviços. estava a jovem princesa de Conde.disse o mancebo . um guarda severo.visto que não estou em estado de fugir para muito longe. como viu quando aqui entrou.

contra toda a probabilidade. que possa servir de intermediário entre ela e mim. contudo. não permita Deus que me esqueça da distância que me separa de vossa alteza.respondeu o oficial . . abstendo-se de mortificar um homem que não é mais do que um instrumento passivo. Além disso. 210 . . que receba um dos meus oficiais.e esse quarto será o seu. Eu não teria pedido um tal emprego. como o fazem ao meu pobre filho em Vincenas? Terei o direito de escrever? E serão abertas ou não as minhas cartas? Se. é aqui o senhor. Para mim.. Eis. senhor continuou o mancebo. senhor! Diga-me sem mais demora a verdade. A princesa ouvira esta narração com o solícito cuidado que se emprega para surpreender uma nota diplomática nos sentidos que muitas vezes resultam de uma palavra colocada nesta ou naquela posição. . ou de uma vírgula posta neste ou naquele lugar. No entanto. o que não foi mencionado nas instruções que me deram. que sou um pobre oficial e sobretudo um mau cortesão. esta doença permitir que me levante. entendo que já disse o bastante. e obedecerei como o senhor.a princesa mordeu os lábios. e disse: . Rogo-lhe.. que vossa alteza poderia dar provas de generosidade. senhor. limitar-se-me-ão os meus passeios?.Garanta a minha prima de Conde disse-me sua majestade .Retiro bons indícios dessa explicação. como bem o disse. E o oficial ergueu a cabeça com um vermelhão nas faces que fez subir ao rosto altivo da princesa uma igual cor. e mais cómodo lhe pareça para desempenhar o seu encargo .será o senhor. e lisonjeio-me agora por poder ficar doente em repouso.seja qual for a graduação em que estejamos colocados. Porém.isto é: uma espionagem à queima-roupa . nada.Senhora .são estas as instruções que a própria rainha em pessoa se dignou dar-me: .Senhor . é muito penoso ter de fazer o que faço. Todavia. deve compreender quanto é cruel não poder uma pessoa receber em sua casa um digno gentil-homem como o senhor.. Depois. sempre com as mesmas demonstrações respeitosasquais foram as próprias palavras de sua majestade. Vossa alteza continuará a dar as suas . A partir deste momento. e não ter a faculdade de fazer à sua vontade as honras da casa. parece-me. estou perigosamente colocado. eu. vendo sem dúvida na mensagem tudo quanto nela desde logo receara encontrar . Serei vigiada no meu quarto.respeitosamente como o fizera da primeira. Este oficial -ajuntou a rainha. devemos obediência a sua majestade.respondeu o gentil-homem. senhora. e dar-me-ia por muito feliz se o tivessem dado a outrem. uma vez que a rainha assim o ordenou. franzindo um tanto as sobrancelhastive a honra de expor a vossa alteza alguns pormenores. O oficial saudou profundamente a princesa e replicou: .Senhora. Eu seguirei o exemplo que me dá. Entre a cólera de vossa alteza e a vontade da rainha. para as mensagens que tenha de enviar-me.replicou ela . é meu dever obedecer religiosamente às suas ordens. por esta carta. conforme os desejos da rainha. nada de falsa vergonha. e do respeito que devo à sua casa. Dê as suas ordens. dirá qual é o quarto que mais lhe agrada.Alojar-se-á em Chantilly.que eu farei em favor 209 dos príncipes tudo quanto a segurança do Estado me permitir que faça..Senhora . passado um momento de reflexão.

fez esta um movimento de sobressalto. e eu serei o primeiro dos seus servidores. Enfim. a mulher em quem o nome do barão de Canolles produzira tão singular efeito. com o socorro da pouca luz que derramava. Quem direi a sua alteza que a procura? . Baixando precipitadamente com a mão direita a touca sobre os olhos. Depois do que duas camareiras. saudou. Como. E. que a suposta princesa ouviu da cama. debaixo das pesadas cortinas de um leito. se as maldições tivessem a faculdade de matar como os projécteis. que. chegou à porta da câmara da princesa. se retiraram.respondeu o mancebo. consente em recebêlo. tenha a bondade de seguir-me.disse ela . que punha a salvo o orgulho das princesas. O gentil-homem encontrou.A princesa . na antecâmara. senhor .a princesa de Conde. esperou. e deu ainda outros três passos. da parte de sua majestade a rainharegente . só de Mazarino se falou na conversa que se travou entre as pessoas que se encontravam entre cama e parede. Não era a Canolles que pertencia encetar o diálogo. e mostrou-se tão agradecido ao favor que lhe fazia. a princesa parecesse . com voz alterada: . 211 . cintilavam as três flores-de-lis de ouro. a que bastava tirar a banda para se fazer delas as três flores-delis de França. e dando a mão a um menino. aproximando-se. XVI SENHORA DE CONDE CANOLLES foi introduzido num vasto quarto guarnecido por uma tapeçaria sombria. sem altivez. enquanto com a esquerda aproximava do queixo a cortina do seu leito. portanto. se fosse visto. O gentil-homem tornou a começar as formalidades do uso . ordenou. e Canolles ficou só com a princesa. no fundo de uma grande alcova. Ali chegados. proferindo estas palavras. O oficial compreendeu este subterfúgio. que sem dúvida tinham ajudado a princesa a meter-se na cama. teria excessivamente comprometido a sua identidade. e alumiado apenas por uma lamparina colocada em cima de um bufete entre as duas janelas.isto é: deu os três passos de rigor.meteu-se na cama. o gentil-homem retirou-se.Diga-lhe que é o barão de Canolles. aproximando-se do mensageiro . deixando a princesa viúva agitada de uma cólera mais intensa. Nas cornijas dos quatro ângulos. recebê-lo-á deitada como está. porém. o camareiro tornou a fechar a porta. ao voltar da caça. sem servilismo. pôde distinguir por cima da lamparina um grande retrato representando uma mulher pintada.Agora. a quem pediu audiência da parte da rainha. Atravessando os quartos.ordens como dantes. precisamente por não poder queixar-se de um mensageiro tão discreto e tão respeitoso. Ao proferir este nome.disse este. durante aquela tarde. que lhe falassem. o criado voltou-se. como se este favor não fosse imposto por ordem superior. guiado pelo criado. conversa que teria fulminado o ministro. em pé. o lacaio que o havia introduzido. . distinguia-se. contudo. O oficial entrou. onde apenas penetrava a fraca e trémula luz. sem acanhamento.Mande entrar. e como está fatigada. Este foi o motivo por que.

E enquanto essa boa harmonia se não se restabeleça.. existem provas em contrário nas masmorras da torre de Vincenas. e que contribua quanto me seja possívelpara o estabelecimento da boa harmonia entre os príncipes de sangue real. dando-me a conhecer. quanto a mim. e a princesa. a rainha manda-me espiar.Eu nada pretendo. escutou-se uma voz que se deixou ouvir quase sufocada. por um aceno. inclinando-se pela terceira vez. e que tinha de expor-se a uma segunda cólera da parte daquela princesa.Sem motivo?! -exclamou a princesa. Agora quererá vossa alteza levar ao cúmulo as suas bondades.. contudo. . afirmou." Neste lapso de tempo. não me fale já da amizade que reina entre sua majestade a rainha e a casa de Conde. senhora.sou um espião! Eis em mim a palavra que proferiu! Agradeço a vossa alteza a sua franqueza. a fim de assegurar a vossa alteza o desejo que tem de continuar convosco as suas boas relações de amizade. segundo a circunstância . senhor. uma audiência a vossa alteza.isto é. . por uma palavra. nada quero.. o jovem oficial entendeu que seria melhor pôr de parte as formalidades e não se conservar mais tempo numa posição tão incómoda.. que se dignou fazer reparo em mim e que está pronta a ouvir-me? Um movimento nas cortinas. ainda mais temível do que a primeira. por indigno que eu seja desta honra. interrompendo o orador. em que o mensageiro não reparou graças ao embaraço em que o punha a sua situação.replicou Canolles.. favor que se dignou conceder-me. senhor . não deixava. da parte de sua majestade a rainharegente. Um movimento visível teve lugar entre a parede e o leito. Mas o próprio excesso da afronta que se lhe fazia deu alentos ao jovem gentil-homem.Senhora.Sua majestade a rainha .parece que se combinaram.eu presto-lhe atenção. senhora .disse Canolles endireitando-se.Sua majestade a rainha é quem me ordena que entre neste castelo.disse Canolles. tamanha era a sua comoção. . eu tive a honra de pedir.Entende que o [nosso rompimento seja sem motivo?.Perdoe-me. . e que me repetirão todos a mesma coisa. advertiu Canolles de que iam responder-lhe.disse ele . um novo movimento. Canolles tomou o tom oratório e principiou: . . com uma saudação compassada e pouco profunda. não sou juiz.Senhor.Explique-se. . . desunidos sem motivo num tempo tão doloroso. que quer? . nem sou mais do que intérprete.Quer dizer .Fale. A princesa continuou: .215 por seu turno querer guardar um obstinado silêncio. . que faça. senhora .disse Canolles consigo . com voz comovida e palavras cortadas: . e. de reconhecer que a tempestade que se continha neste desdenhoso silêncio rebentaria às primeiras palavras que o rompessem. Com efeito. e debaixo das cobertas. sob o pretexto. registava-se entre o leito e a parede. presságio de mau humor que queimava o seu cérebro de gascão. 216 "Pelo que vejo . exasperado .envia-me para junto de si.disse esta voz . pois era moça e mais interessante.Eu. adiantou: . [ companhia a vossa alteza.

Canolles estremeceu. não sabia o que dizia. senhor?. a sombra das cortinas. Canolles fez um daqueles belos movimentos que os pintores buscam com tanta avidez para os seus retratos inanimados.que seja intenção minha insultar um tão bravo gentil-homem como o senhor. e porque julgou respirar de novo um perfume cuja simples lembrança o embriagava. ocultando sem a mínima demora a mão. como fora possível ver-se a sua fronte branca sob a sua touca. não. Não. estridentes como uma repreensão. estava deslumbrado. senhor de Canolles. involuntariamente.Não permita Deus . que está colocada em tão alta graduação pelo nascimento. mão trémula. . dê por não ditas as palavras que proferi. Havia alguns momentos que a agitação de Canolles era tal. durante o rápido clarão de um relâmpago que alumiava todo o passado. senhora. trate-me como são tratados tais miseráveis: esqueça-se de que sou o enviado de uma rainha. os olhos húmidos e meigos . que dele fugira. porém. pelo merecimento e pela desgraça! Estas palavras. Canolles. os lábios muito vermelhos. Os seus olhos fixaram-se mais segura e claramente no leito da princesa. arrastada sem dúvida por um instinto generoso que lhas arrancava do coração.disse a jovem senhora. reconheceu na princesa que via deitada diante de si o visconde de Cambes. fascinado. e fazendo um gesto angustioso ao mensageiro: .Portanto. Mande expulsar-me pelos seus lacaios. que a falsa princesa a atribuiu àquela penosa repreensão que tanto a fizera sofrer. E como o movimento que tinha feito não durara. deviam produzir -e produziram . a princesa levantou-se um pouco.disse ela. reconheço-o.estava a ponto de faltar ao respeito e de . .E com o desespero que principiava a apoderar-se dele. e que de novo o vinha procurar. as ideias redemoinhavam-lhe na cabeça. como tivera o cuidado de buscar. com os olhos cintilantes. o senhor é um nobre cavaleiro. pois. de que esta rainha responde por todas as minhas acções. porque acabava de lhe passar por diante dos olhos uma espécie de visão. pois. escapadas do coração. Não. ponha diante de mim homens a quem eu possa responder com o bastão ou com a espada! Mas digne-se não insultar tão cruelmente 217 um oficial que desempenha ao mesmo tempo o seu dever de soldado e de vassalo. . Pareceu-lhe que uma daquelas portas de ouro pelas quais passam os belos sonhos se abria. eu faço-lhe justiça plena e completa. .o seu efeito. para além da sombra formada pelas densas cortinas. senhor barão. Não desconfio da sua lealdade. de que não sou mais que um átomo obediente ao seu sopro. perdia a memória. e os actores para os seus retratos vivos. E como. não sem abalo. dolorosas como um gemido.Dizia. no curto espaço de um segundo. está decidido: sou um espião . e eu não queria ofendê-lo. continuar a conversa no ponto em que a deixara.. Ouvindo-as. para dar passagem a um enxame de risonhos pensamentos e a todas as alegrias do amor. as visões passavam e repassavam por diante dos seus olhos.continuou Canolles. os seus louros cabelos divididos em tranças. não. senhora. mais do que um instante. mande matar-me pelos seus gentishomens. tão branca e delicada que a teria podido dar a conhecer . no mesmo momento. 218 como deixámos dito. São ofensivas. para pronunciar estas palavras. mas pelo menos sem inquietação. e.. apoiada no cotovelo. encobrindo de novo os olhos. a princesa se adiantara.Ora.tentou.

olhou em volta. a ventura de toda a sua vida.. deixar de dar um ligeiro grito. em que o espírito vacilante e turbado busca alguma coisa que lhe sirva de apoio. mau grado seu. dando um suspiro de alívio. e a que as mulheres dão o nome de timidez . . Não ajuntou um único gesto. graças a um título real. no seu castelo de Chantilly.que quer isto dizer!? Ou foi a princesa que encontrei na estrada de Bordéus. que não perdesse o seu sonho. \ quando se tratava de uma princesa de sangue? (• "Mas . por sua vez.ajuntou Canolles cravando um olhar penetrante na senhora da cama.e afinal não é mais do que avareza . que não comprometesse. . graças a um título oficial. mas o golpe estava dado. nem uma palavra mais. vossa alteza sossegada . grande Deus! se esta magnânima princesa o reconhecesse repentinamente. ao que [desejara dizer ou fazer. atónito. 220 ... e quando.Reconheci . se para ele olhasse com horror.disse ele de súbito ..agora sei o que devo pensar do seu silêncio. fique. e os seus olhos fixaram-se no retrato daquela mulher segurando o filho pela mão. isso é mais do que indignidade!. e carregando em cada palavra .. e não é ela quem está na cama." ..O que não posso . deu um passo para se aproximar do retrato. Canolles.que esperasse. A falsa princesa não pôde. aquele talvez que Deus pôs no coração das pessoas que amam. Oh! senhor. porém.Deste modo -exclamou a princesa... é que tenho de ficar no castelo..que tive a desgraça de lhe inspirar a mesma opinião que já tinha inspirado à senhora princesa viúva. viu que o seu rosto já velado. Canolles observara o movimento de angústia que o interrompera. Um único instinto. . estava agora absolutamente mascarado.disse consigo subitamente.exclamou com vivacidade a senhora do leito. . .nem no meu quarto poderei estar só?.deixar de dizer a vossa alteza. se renovasse a acusação já esquecida.replicou Canolles .aconselhou Canolles a que ainda dissimulasse. mas insolentes e quase criminosos.será possível que uma princesa deste nome e desta graduação tenha andado a viajar só. e até não viesse muito a propósito. Canolles se voltou. Em todo o caso. ao ouvir este grito.Eu disse a vossa alteza quais eram as minhas instruções.não pôde de deixar de dizer a voz da suposta princesa. 219 Quando tal viu.. apesar do desgosto que isto lhe possa dar.continuou o oficial .interrogar. cumpre-me deslindar este negócio.Ah! . "Oh! oh! -perguntou Canolles a si mesmo. e proferida com demasiada precipitação.pois deve saber melhor do que ninguém que eu sei obedecer à súplica de uma mulher.. e. e reconheci.Que é que reconheceu? . O que seria dele..Senhora . [ quereria continuar solicitações desculpáveis talvez para o visconde ou viscondessa de Cambes. oh. por uma palavra imprudente." E como sempre acontece em semelhantes ocasiões. sem mais companhia do que a de um criado!?. e de acompanhar vossa alteza a toda a parte para onde queira ir. uma iluminação súbita lhe passou pelo espírito. A frase de Canolles talvez não fosse muito lógica. ou sou alvo de algum logro. como desconfiara [na estalagem de Biscarros. . e o movimento de júbilo com que foram recebidas as suas últimas palavras. e acreditasse que.

Os meus agradecimentos. sejam elas quais forem. 221 .. senhora -volveu Canolles.juro-lhe que não sairei de Chantilly sem que lho participe..eu não quero que incorra em falta.. por assim dizer. . que se lhe não apagara da lembrança. com um acento em que havia mais turbação do que espanto. diante dele.. o cabelo negro e os olhos encovados da princesa. não tinha os olhos encovados. barão .Farei exactamente o que a minha consciência me disser que devo fazer.mostrou ao barão. Desta vez. e.. Digne-se dar-me a sua palavra de que não sairá do castelo sem que eu a acompanhe. com ares do mais profundo respeito.Senhora -continuou o oficial.Senhora .. cujos olhos.disse a princesa com vivacidade . com uma alteração que recordava a Canolles certa entoação muito irritada. ao mesmo tempo que. .Na realidade. . .disse a voz. A princesa pareceu sossegada.por muito mal alumiado que este estivesse . ignoro como se persegue uma mulher. Tenho.Eu? -exclamou a princesa. o nariz era .Em tal caso. Canolles pensou que se havia adiantado bastante. agradeçolhe. senhor? . que.Senhor . . a voz..Mas em tal caso. .replicou ele. tal como a matéria com o positivo. a honra de repetir a vossa alteza o que disse à senhora princesa viúva: que sou um seu muito humilde servidor.replicou a voz. .. sem já poder enganar-se. que não sei o que quer dizer. ignoro a que circunstâncias faz alusão.Eu acreditava que. fada caprichosa que se alimenta com a idealidade. pois.Vá. esforço superior da imaginação.eu julgava que o criado da câmara que me introduzira tinha dito o meu nome a vossa alteza. .por felicidade minha. deve ser odiosa a vossa alteza. senhor . com voz firme . vá. havendo já tido a ventura de ser agradável a vossa alteza. execute as suas instruções à risca. o nariz aquilino dos Maillés. como se ofende uma princesa. aquela noite em que o cavaleiro desconhecido lhe viera entregar a ordem do duque d’Épernon.disse a princesa. Eram aquelas subtilíssimas emanações que perfumam o ar respirado pela mulher amada. com uma expressão de alegria que pareceu ecoar entre a cama e a parede. Amanhã terei o gosto de tornar a vê-lo. senhor. Eu sou o barão de Canolles.disse a voz . era aquele tépido vapor semelhante a um corpo cujos contornos uma alma apaixonada julga abraçar. lhe escapara das mãos.Senhor de Canolles .disse ela.replicou Canolles . .que me importa isso. . Vossa alteza só tornará a ver-me quando me mandar chamar. o barão reconheceu.perdoe-me por haver sido a causa involuntária da sua cólera momentânea. e ficará livre da minha presença. inclinando-se.. . os sorrisos indizivelmente voluptuosos do ente encantador que. a mulher que acabava de representar o primeiro acto do papel tão difícil que tomara à sua conta. quase que estava inteirado do que pretendia averiguar.Ora pois! . além disso. Uma vista de olhos que por fim lançou ao retrato .não executará as ordens que recebeu. se iam habituando àquela meia escuridão. muito bem compreendo. além disso. mas muito receosa ao mesmo tempo. . com maior razão ainda.A mim?! E como assim!? Rogo-lhe que mo diga .Não executando estritamente as instruções que me deram .

disse Canolles. o gentil-homem atirou-se ao lacaio. . se levantara quando o viu.que faz aí com esse roupão? .. eu o livrarei dos meus serviços. .respondeu Castorin.disse-lhe ele . e recolheu ao seu quarto.. estava naquela noite mais rabugento do que o costume. Canolles largou Castorin.. decerto que. como costumam fazer as pessoas indecisas.O senhor não faz conta de se deitar? .Então quando faz o senhor conta de se deitar? .Não sei quando largarei o meu fato. sendo um criado caprichoso por natureza. e por isso.Repita o que disse! .Que lhe importa isso? .está muito cansado?. e eu desembaraçá-lo-ei do meu serviço . . . com o mesmo respeito devido na presença da princesa. e aquelas faces arredondadas que afastam toda a ideia das laboriosas meditações. quando precisar de si. tocarei a campainha. sim?.disse-lhe ele.que se o senhor não está contente comigo.Se o senhor entende que um patife não é digno de ser seu lacaio. saudou-a. Castorin compreendeu qual era a intenção. .Previno o senhor de que se tardar muito tempo. O gentil-homem leu visivelmente no semblante do seu lacaio 223 aquela expressão insolente dos criados desejosos de serem despedidos.disse Castorin. Por esta razão. por muita pressa que tivesse de se ver em liberdade. com a mesma imprudência . . Canolles sabia tudo quanto queria saber. Canolles encolheu os ombros. é muito razoável que me deite.Espero que o senhor dispa o fato. e espere. . . ..Então o senhor não quer despir o fato? -perguntou Castorin. .Na minha cama: parece-me que depois de haver caminhado duzentas léguas.direito. entrando no quarto. .Importa-me muito..Muito cansado! . pois. parando e encarando Castori . e tomando um dos botões do seu sobretudo entre o polegar e o índex.Ah. basta que o senhor diga uma única palavra.e deixe-se ficar na antecâmara. Ponha esse roupão numa cadeira.. e se Castorin tivesse podido vislumbrar apenas a sombra da tempestade que ia engrossando no espírito do amo. sem reparar que Castorin. o qual lhe encobria o corpo.Senhor Castorin . compondo um ar majestoso. movimento que depois se tornou familiar a um homem mais célebre do que jamais o foi Canolles. XVII CANOLLES não havia tomado qualquer resolução definitiva.é um patife. não me encontrará já na antecâmara. ordenou: . .Saia daqui . porque estou bastante cansado.disse Canolles .Faça o favor de me dizer onde o encontrarei. Canolles não tinha nesse momento paciência.Não. ao acaso. e Canolles voltou-se. e foi com toda a gravidade pegar no seu bastão. a boca um tanto aberta por hábito do sorriso.Repito . pôs-se a andarde um lado para outro.Então .respondeu Castorin. e o seguia segurando nas mãos um roupão todo desdobrado. que. teria esperado outro momento para lhe fazer a proposta que acabava de proferir. . . à espera que ele voltasse. . Castorin esbarrou num traste.

Oh! . Se algumas ainda restavam a Canolles.. . Eu não sou já um simples lacaio. deixou-o fechado no quarto antes que tornasse a si do sobressalto.. e estes quatro homens eram conduzidos pelo mesmo camareiro que o introduzira nos aposentos das princesas. 225 .disse Castorin. senhor. senhor?..Como!? O senhor quer ajudar-me?!. endireitando-se.Sim. . o barão despiu-lhe o casaco. dando duas voltas à chave.. . e deves obedecer-me.. Canolles começara finalmente a compreender todo este mistério..E daqui até amanhã pela manhã? .Sem dúvida. senhor. adiantarem-se quatro homens. tirou-lhe o chapéu.De muito bom grado! Que ordena o senhor? . que pôs na sua cabeça.disse Castorin. Diz-me somente quando é que deve começar o teu serviço. sem se atrever a pegar no dinheiro . faz muito bem em deixar o meu serviço. que eu vou ajudar-te..ah! está ao serviço da princesa?. não lhe parecia perfeitamente natural.. deveria ser cada vez mais vigilante. eis aí tudo. se bem que uma parte dos acontecimentos ainda se encontrassem para ele envolvidos numa densa nuvem. A união de Pompeu com o visconde de Cambes aclarava muitas dúvidas. . Tudo quanto vira. e dis-porem-se a entrar pela mesma porta que acabava de franquear. mas sim de obedecer.que quer isto dizer?.Então porque não havia de dizer isso logo!?.Daqui até amanhã pela manhã. .Pois bem! Eu dou-te a liberdade a contar de amanhã pela manhã. e. Não posso compreendê-lo. e desceu rapidamente a escada. há um quarto de hora . que te dispas e te deites na minha cama. . Estou ao serviço da princesa.No momento em que o senhor me tenha dado a liberdade. assim que entrou no quarto. visto que tens vontade de dormir. . viu. sim. Sim.Ordeno. parecia-lhe que quantas pessoas encontrava representavam um papel. . O senhor quer zombar de mim?. meu amigo. continuas a ser meu lacaio.Longe de mim tal pensamento! Antes pelo contrário: levo muito a bem que sejas lacaio da princesa.O senhor Pompeu. seu mordomo.. .Senhor .exclamou Canolles. apesar da profunda escuridão da noite. baixando o bastão . E sem esperar pelo acordo do seu lacaio. de duas horas a essa parte... pois já que vais fazer o papel de cavaleiro de Canolles. . . e os incidentes tinham por base uma harmonia geral que dava a conhecer ao vigia enviado pela rainha que se não quisesse cair em algum engano..Como!?.exclamou ele ..E quem o ajustou nesse serviço? ... . 224 . e eis aqui vinte libras para indemnizá-lo das bastonadas que estive a ponto de lhe dar. acabaram por se dissipar quando. Outro homem. . . que logo vestiu.Nenhuma necessidade tens de compreender.disse Castorin.Sim. cumpre-me fazer o de Castorin. tudo quanto ouvira.. .tome cuidado com o que vai fazer. .. resolvendose a pegar nas vinte libras. Que quer dizer com isso. Despe-te.disse Canolles.O senhor Pompeu?! .Ah! ah! . A atitude de toda a gente em Chantilly era compassada.

já é tarde. cuja base era tanto mais escura quanto mais resplandecentes estavam as janelas à altura de seis ou sete pés do chão. iniciemos a nossa ronda. depois de se ter certificado de que executavam as suas ordens. no corredor.disse este. visto que foi quem o introduziu.pois talvez que o despeito os obrigue a pagarem-me na mesma moeda. Canolles ocultou-se cuidadosamente no ângulo em que a noite lançava a sua sombra mais densa. subiu a um pilar. onde quiser." No mesmo instante. e chegou à ala do edifício por detrás da qual estavam situadas as estrebarias. Coloque os seus homens na escada. A casa dos arreios retumbava com o tinido dos freios e dos jaezes. e por um canto da vidraça lançou um olhar penetrante. dali. meteu-se por baixo de uma abóbada. Vamos. 226 viu desaparecer debaixo da abóbada os cinco guardas que lhe eram destinados. dirigindo-se ao camareiro. era fácil adivinhar que grande quantidade de tochas estavam acesas no interior delas.Sabe onde o alojaram . agarrou-se com uma das mãos a uma argola. e algumas vozes. e ali era o foco da empresa. Com efeito. com voz imperiosa. e. esteja guardado. Toda a vida do castelo parecia ter-se refugiado nesta parte do edifício. as janelas térreas brilhavam com uma luz muito viva. sem que o enxergassem. sem que disso tenha a mínima suspeita. de maneira que não possa sair. contanto que ele. Atravessou todo o espaço compreendido entre uma e outra ala. o desculpavam. depois de lançar em torno um olhar investigador. o pequeno grupo parou. Canolles hesitou em surpreender o segredo que lhe queriam ocultar. com precaução. pousou os pés num ressalto da parede. Fiz mal em não lhe pôr uma mordaça. atravessou o pátio. derramando grandes sombras e largas listras luminosas pela relva do jardim. voltou pelo mesmo caminho por onde viera. ia atrás deles. e o mais atento que jamais tinha penetrado no recinto de uma conspiração. esperando pelas ordens do homem encapotado. sufocadas pelo susto.. e a responsabilidade que lhe impunha esta comissão.Conhece-o bem. Agora. mas cujo sentido se podia colher aprestando o ouvido. Canolles compreendeu que ali estava o centro da actividade. mas em breve reflectiu que o seu título de enviado 227 da rainha. isso pouco importa. enquanto o homem encapotado. No limiar da porta. portanto. Adiantando-se. . desgraçadamente. a chamar. seguindo-o com os olhos. em vez de ser ele quem guarde a suas altezas. Canolles. Não podia ter a mínima dúvida: tudo se aprontava para uma partida. Ouvia-se o estrépito dos cavalos e os passos apressados da gente. O pior de tudo é se aquele diabo do Castorin se põe a gritar. e cosido à parede. Tiravam as carroças das cocheiras.. Ao princípio. Vigie-o. chamavam-se mutuamente e respondiam-se.embuçado num capote. . pois.pensou Canolles. e se faz alguma asneira!. e chegou à fachada do castelo. e como essas tochas se moviam de um lado para o outro. Eis o que viu: . Canolles ficou um momento à escuta. e com outra à borda da janela. preciso de muito mais para me esclarecer . mesmo para com as consciências mais escrupulosas. onde parou. "Isto nada me diz. portanto.

foi beijar respeitosamente a mão de Clemência de Maillé.continuou Canolles. para isto não me é preciso mais do que subir ao terraço. a que se dá o nome de toucador. os lábios frescos. na realidade. etc. Mas ainda não é tudo: desprezar-me-ia. brincava e corria por entre os atarefados criados. algumas criadas acabavam de vestir um menino em trajos de caça.Zombam comigo. e era agora a mais encantadora viscondessa que se poderia imaginar. e os olhos inteligentes do visconde de Cambes. mas em vão aplicava o ouvido à vidraça: nada mais ouvia do que um sussurro ininteligível. entre os quais Canolles reconheceu o camareiro.Junto de uma mulher em pé. Nos que a rodeavam. durante este tempo. metiam em malas. a prontidão em responder à voz da sua soberana . mas eu. os movimentos arrebatados da sua cabeça. visto que ela obedece à princesa. e duas pessoas. e a beijava na testa. pelo contrário. prenderão as princesas. Ao ver isto. jóias. tudo nela denunciava a soberania. que vestiram uniformes de oficiais superiores. Alguns oficiais da casa. A única diferença consistia em que o visconde tinha o trajo próprio do seu verdadeiro sexo. ou finge dormir. inchado de orgulho. Sim. e outros guardavam o grande arsenal das mulheres. que. e darão garrote a todos estes oficiais que riem sorrateiramente. e que pregava o último alfinete destinado a segurar na cabeça o seu chapéu de viagem. com uma . mas aquela que dorme lá em baixo.. . recomendando-lhe alguma coisa que fazia rir todas as pessoas que a rodeavam. e agora falava com o coração e não com os lábios . semelhantes a cariátides. com um aceno. e. duzentos homens penetrarão neste castelo. O principezinho. ofereceu aos olhos de Canolles o original exacto daquele retrato que há pouco vira na parede do quarto da princesa: era. as saudações. um homem de cinquenta anos e uma mulher de vinte. Canolles não pôde ver-lhe o rosto.disse ele entre dentes. A senhora. dinheiro. contudo. dizendo que levei até ao fim o meu ofício de espião. que.. o coração de Canolles parecia quererlhe subir aos olhos. porém. a boca severa. abriu-se uma porta do quarto de vestir da princesa. cujo rosto era alumiado pelo clarão de dois candelabros de seis braços que a ambos os lados do toucador dois criados em pé seguravam.pois é.. Por uma fatal singularidade.tudo dava mostras de obediência. Acabava de reconhecer o belo cabelo. 228 "Eu bem suspeitava . olhar-me-ia com ódio. sorrindo ainda." Neste momento. que apenas viu o seu cabelo louro. o nariz aquilino e imperioso de mulher cuja viva imagem Canolles agora reconhecia: o seu gesto atrevido. a precipitação em trazer-lhe o objecto pedido. e desta vez com um ódio bem merecido. porém. entraram muito alegres e apressados. posso converter esta cena de logro em cena de luto. princesa de Conde. o menino tinha as costas voltadas para Canolles.. e dentro de cinco minutos. esta última voltava para os quartos de cerimónia com alguns oficiais subalternos. Canolles teria dado dez anos de vida para ouvir a conversa. e que. como se o acaso tivesse querido combater este impulso de resolução. por que razão não havia eu de obedecer à rainha?. o seu olhar cintilante. Viu que a princesa fazia um gesto de despedida à jovem senhora. o rosto comprido. perdê-la-ia para sempre. esta gente faz preparativos de partida. ao áspero som que ele der. em baús e em caixotes. tocar três vezes este apito de prata. depois.. Pois é . até viu que o digno Pompeu.

e fundava a sua sorte futura. sobre as ruínas desta casa. zeloso como um dragão. Canolles saltou logo do seu observatório. por fim. viu então passar todo o acompanhamento encaminhando-se em silêncio para as estrebarias. os Guitauts e os Miossens. que era aberta por dois oficiais com as espadas desembainhadas. em circunstâncias talvez menos importantes para a salvação da realeza. principiou a desfilar sem ruido a escolta da princesa. o clarão da lâmpada nocturna que estava acesa na câmara da falsa princesa. Canolles voou para o terraço que dominava o parque e chegou aos lábios o apito de prata.229 farda cor de laranja agaloada de prata. porque também era uma mulher aquela senhora de Longueville que largara fogo aos quatro cantos de Paris. e. como outrora o haviam feito os Vitrys e os Luynes. sem que ela e a sua escolta fossem envolvidas por uma força três vezes superior. a qual levantava com suma graça o longo vestido de cetim. recentemente. e alguns maços de papéis. a ideia dos deveres que lhe eram impostos pela comissão de que a rainha o encarregava apresentou-se ao espírito de Canolles. após ela.é suficientemente rico para perder todos estes príncipes e todas estas princesas que lhe escapam. Lenet. cujas luzes se haviam. todos os cálculos do egoísmo. e julgou que via desenhar-se aquela sombra querida no forro branco do cortinado. "Mazarino . Canolles desempenhava a sua comissão sem correr o menor risco. mas eu não sou tão rico que possa perder o tesouro que desde já me pertence. como à \ primeira claridade do dia desaparecerem todos os sonhos e todos (os fantasmas da noite. porque assim mo prometeu. brilhava. e que de novo ia dilacerar as entranhas da França. apagado. e com este mesmo golpe. e dependendo de mim. ou. entretanto. e esta também começou a sua marcha. Gorados ficavam todos estes preparativos. Esta mulher que estava ao ponto de sair era a guerra civil armada. inclinando-se airosamente com uma enorme farrusca à cinta. eu guardo-a. à esquerda. mas sim uma rainha. levando ao colo o pequeno duque de Enghien. Canolles. debaixo de cortinas de veludo vermelho. desapareceram ante este raio de agradável luz. . Que me importa a mim que a rainha seja enganada e que Mazarino se enfureça! Disseram-me que guardasse a princesa de Conde. e.disse ele com um impulso apaixonado . se o fizesse. iam pôr-se a caminho. a todas as horas do dia e da noite posso entrar no seu quarto. seguiu o escudeiro Vialas. envolvido num capote. dando-me a sua palavra sagrada. destruía a fortuna e a sorte futura da casa de Conde. A senhora de Conde não teria saído de Chantilly. fechando a marcha. levantou os olhos para o quarto onde. tendo nas mãos um cofre lavrado. deste modo. e correu para a abóbada. Então todas as resoluções do raciocínio. doce e melancólico. Agora ela está só. deste modo. estabelecia a sua própria 230 fortuna. Nenhuma dúvida havia que para um homem não era vergonhoso ser o espião e o carcereiro de uma mulher. não fugirá sem que mo diga. Neste momento. não parecendo uma mulher fugitiva. depois. não teria caminhado cem passos. que ele deixava escapar. de um só golpe. em meu poder. Toda esta gente saiu por um corredor secreto. o capitão do castelo. acompanhava sua ama. por uma porta oposta. porém. e que guardarei.

.e que deu um grito de terror. .. quando tudo tinha desaparecido.Pode ir anunciar agora mesmo à princesa que meu amo lhe deseja falar? . . onde reinava. estimulado ao mesmo tempo pelo respeito e pelo medo .Sim. Canolles não pôde evitar. como na abóbada. a mais profunda escuridão. meu querido amigo? .. e ir diminuindo o estrépito da cavalgada.Da parte do rei. vá dizer-lhe isto.A esta hora? .Eu lá vou. dos meus parece-me que não dou má.E o senhor quem é . o criado do barão de Canolles?.Assim o julga? . eu lá vou.A mim? .eu sou Castorin. ou encarregaram algum espião mais hábil do que eu?.Quem! ? Quem é! ? .Castorin. vendo que não chegava.Por que razão não me deram os seus sinais.. e aguardou o resultado do passo que ele próprio acabava de dar.O mordomo da princesa? .se não dou boa conta dos negócios de Mazarino.Estou certo disso.disse Canolles .perguntou a personagem. porém.Eu sou Pompeu. ao chegar ao corredor.disse Pompeu.É coisa impossível! . E Pompeu desceu impetuosamente a escada. ." E Canolles tornou a meter o apito na algibeira. . . .Então não quererá receber meu amo?. nem pessoa alguma em lugar dele. . .. mas. . . .Sim.Assim é preciso.. contra a sombra da ventura.aposto que lhe meti grande susto.disse o gentil-homem. 231 Apesar. rodar as carruagens ao longe. visão e rumores.continuou Pompeu. com voz assustada.. depois. e que parecia estar a escutar à porta . na ponte do parque. isto é. Canolles foi continuando o seu caminho..exclamou Pompeu. . . e recolheu-se ao quarto. Tornou a vestir o seu uniforme de oficial..Ah! que feliz casualidade! . . passados dez minutos." Canolles esperou debalde a volta de Pompeu.Sim! Sim! O mordomo da princesa.Da parte do rei! .. . "Pela minha fé! .que se introduz como um espião nesta escada?. tomando um certo ar de importância.disse consigo.Ele mesmo em pessoa. sem se lembrar de que acabava de pôr em jogo a sua vida contra o amor de uma mulher. onde foi dar com Castorin.. Pompeu. . visto que nunca foi soldado! Posso ser-lhe útil em alguma coisa. 232 . . de todas as suas precauções. introduziu-se no pátio deserto e subiu com cautela a escada. e não é de admirar. .dois galgos que são capazes de fazer correr uma tartaruga.Ah! meu caro Castorin . que ressonava estendido magistralmente numa grande poltrona.. decerto.Não. tomou a resolução .Fale então. Ouviu ranger os gonzos. o encontro com alguém em quem esbarrou.

Contudo..Então que horas são? . .balbuciou trémulo o lacaio. senhor?! . .É preciso dar-lhes tempo para que vistam a farda de camareiro a alguém. não posso. Canolles levou a mão ao apito.disse em voz baixa Canolles." Ainda bem Canolles não tinha acabado de fazer esta reflexão.Andaram na caça todo o dia .Quero fazer os meus cumprimentos à princesa de Conde. . insolente? . que eu espero aqui. . 234 . : O barão encontrou à porta um criado de muito mau humor. senhor? . onde já Pompeu. . se me apresso.. através de cujos vidros descobria. .disse entre dentes o lacaio.disse ele. O lacaio partiu a correr. vale mais esperar.Muito bem." Depois. e foi dar rebate no castelo. como Castorin. . é ser assassinado. "Não . ao clarão das luzes quase apagadas. destacando-se como uma sonora e nebulosa massa. ao passo que.Que quer. Acordou portanto Castorin. e encaminhou-se para os aposentos da princesa. que ia principiar um sono restaurador de um dia de tamanha fadiga. . vá. prestou ouvidos e abriu os olhos... posso deitá-la a perder. Está na cama.Que diz. 233 .bradou Canolles.A esta hora. o pior que me pode acontecer. permita-me que vá acordar um camareiro.. em tom de suprema altivez. o que de modo nenhum me convém. porque acabava de ouvir tocar a campainha no momento em que terminava o seu serviço. e deu ordem para que não deixasse entrar na sua câmara pessoa alguma. cuja bílis uma hora de sono havia serenado. Canolles. enfim. acabava de derramar um indizível espanto. viu abrir-se uma porta e aparecer uma nova personagem. assustado com o mau encontro que tivera. Ouviu então correr pelas salas e pelos corredores.. ficando só. e chegou-se a uma janela. esperando.perguntou o criado ao ver aproximar-se Canolles.O rei governa em toda a parte.O senhor quer. em que julgava por fim. sucedesse o que sucedesse.disse ele. . em voz alta: . ordenou-lhe que estivesse pronto. . viu.A mim parece-me que é muito tarde. senhor .mas eu não passo de um pobre criado. senhor. o cimo das corpulentas árvores junto das quais mandara emboscar os duzentos homens que trouxera consigo. Aqui só a princesa governa.Disto havia de resultar infalivelmente um combate.de se ir apresentar só. eu quero! . "É muito justo .Os camareiros costumam deitar-se às onze horas no castelo de Chantilly… .. em tom que não admitia réplica. . portanto. sentiu em toda a parte um murmúrio ameaçador substituir o silêncio da estupefacção que um momento antes reinava no castelo.. .Eu não peço. com uma precipitação que nem sequer lhe deu tempo para saudar o gentil-homem. homens armados de mosquetes colocarem-se nos ângulos das escadas.Perdoe-me.disse o recém-chegado.A princesa não está visível . tomar a responsabilidade de abrir a porta do quarto da princesa. Da parte do rei! O lacaio estremeceu e baixou a cabeça.

medindo dos pés à cabeça esta estranha personagem . ." ..Ora.Até em sua casa Sua Alteza não é a primeira súbdita de Sua Majestade? Senhor. muito humilhado...Muito violento! Assim lhe asseguro! .Capitão da guarda.. seguirei o exemplo de urbanidade que me deu. capitão. como pode ver pelo meu uniforme.. eu tenho duzentos..Senhor!. segundo obedecerem ou desobedecerem às ordens de Sua Majestade. Está decidido a pôr-se em rebelião aberta contra Sua Majestade?. capitão . . .Não.disse o indivíduo.perguntou Canolles. [ O capitão executou a primeira parte do mandado de Canolles. e reconhecera que não podia deixar de ser algum despenseiro ou copeiro de barriga larga. . Contentou-se em responder-lhe com aquele sangue-frio mais temível que uma ameaça. recuando altivamente o passo. o capitão das guardas de Sua Alteza. Com efeito. .Sim. que são a vanguarda de um exército real. ou a sua barriga avantajada.respondeu com viveza o homem rechonchudo. aconselho-o a que não queira valer-se da força: eu tenho cinquenta homens prontos a vingar a honra de Sua Alteza. não! .Quem é você? . na qualidade de camarada.. e que. Canolles não lhe quis dizer que os seus cinquenta homens não eram mais do que outros tantos lacaios e ratos de cozinha. .. não há dúvida que é belo.se não quer rebentar o último dos seus atacadores..e quem lhe deu o atrevimento de falar a um gentilhomem com o chapéu na cabeça?.. conduzi-lo-ei ao quarto da princesa viúva que ainda não .disse Canolles.. .Senhor. Canolles sorriu. interrogando. e venho como embaixador em nome do rei. e que mais? . Canolles fez-lhe saltar o chapéu da cabeça. . senhor?!.Muito bem.Um carácter violento?!.Sou. àquela hora ia correndo com ela pela estrada de Bordéus.Não se enfune tanto.. . ..replicou Canolles... Sou capitão no regimento de Navaille. tivera tempo de apreciar com a vista o homem que assim lhe falava..continuou Canolles .. -exclamou o falso capitão.respondeu ele .Perguntei-lhe quem é. . e que tão habitual é nos homens bravos e acostumados aos perigos: . como homem que tinha estudado aquela bela máxima da disciplina militar: "Para saber comandar.levante o seu chapéu do chão e responda. . senhor. não permitia que se compusesse devidamente. empertigando-se.Mas enfim. a quem a falta de tempo. revestido de um carácter pacífico ou violento.sou.Se tem cinquenta homens de armas. quem é o senhor? .É na realidade o menos que lhe proporcionaria. e responderei à sua pergunta como respondeu à minha. senhor.Deus tal não permita! Mas peço-lhe que me sirva de testemunha em como eu só à força cedo. pois. é mister saber obedecer. . relativamente à honra da princesa. . E com a ponta do bastão. . por seu turno. e ver caírem-lhe aos pés os calções.. capitão da guarda .Violento. 235 . o que seria um desastre. dignos de servirem sob as ordens de um tal capitão.perguntou o suposto capitão.cáspite! É um belo posto! ..disse Canolles .exclamou o outro. algum robusto criado envolvido num sobretudo de oficial.

"Se ela me enganou .. por entre duas sentinelas que tremiam. monto a cavalo. imprimiu um movimento retrógrado às suas grossas pernas. Mas em vão buscou duas coisas: o retrato da verdadeira princesa. 236 O capitão das guardas abaixou outra vez a cabeça. Canolles não teve necessidade de reflectir para avaliar o medonho perigo que lhe oferecia esta cilada.Senhora . e por uma precaução um tanto tardia. e que abrira o seu pensamento à primeira suspeita do logro em que queriam fazêlo cair.é dever meu. mas sim a princesa donzela. haviam-no tirado dali. mas dela se livrou arrebatadamente com o socorro da sua omnipotência. . mas.disse consigo. e a quem o anúncio da chegada de duzentos homens esteve a ponto de fazer abandonar o posto. que com ele se assustou.peço perdão a Vossa Alteza de vir deste modo à sua presença. mas sim um verdadeiro movimento de terror.se apesar da palavra solene que me deu.Não tenho ordem de procurar a princesa viúva.E . como se tivesse em pouca conta quem a procurava. 237 A pessoa deitada estremeceu. e quis no mesmo instante certificar-se da identidade da pessoa que ocupava o leito. e sobretudo depois de haver dado a minha palavra de que esperaria pelas suas ordens: mas acabo de ouvir um ruído no castelo. Desta vez não foi já um simples estremecimento. Passados dez minutos. e tornou a passar majestosamente o limiar da porta. de que me não posso dispensar. na macia espessura dos colchões e das cortinas. durante esta cena. em cuja câmara foi introduzido sem ter de sofrer novas delongas. os móveis. certificar-me de que neste leito se encontra a mesma pessoa com quem tive a honra de conversar há meia hora. voltava com inumeráveis cerimónias para acompanhar Canolles ao quarto da princesa. chamando em seu socorro o poder supremo de que o revestia a sua comissão. que muito bem havia observado. foi-lhe todavia impossível reconhecer mais do que a forma de uma pessoa deitada. Este movimento não escapou a Canolles. e o rosto da falsa princesa.disse ele.. que vira na sua primeira visita. no meio das ondulações das rendas. Canolles reconheceu o quarto. ponho-me à frente dos meus duzentos homens. o leito e até o perfume daquela câmara. e sem dúvida em consequência desta mesma precaução. pela qual acabava de fazer um tamanho sacrifício. . Duas mulheres estavam em pé no espaço entre o leito e a parede. inclinando-se profundamente . eu saio do castelo.continuou Canolles . e. mas não respondeu. O retrato. . os cabelos arrepiaram-se-lhe na cabeça. seguido de dois guardas. o capitão. como receasse que alguma nova substituição permitisse à senhora de Cambes fugir como tinha fugido a princesa. Canolles buscou algum sinal pelo qual pudesse reconhecer se na verdade a pessoa que buscava era a que tinha diante dos olhos. fugiu. O gentil-homem teria de boa vontade desculpado esta falta deatenção. arrastou a comprida espada pelo sobrado.pegou no sono. tão pouco dispostos estavam a ser mártires da fidelidade no castelo de Chantilly. o rosto da pessoa deitada na cama estava voltado para a parede. e alcanço decerto os fugitivos ainda que tenha de lançar fogo a trinta aldeias para alumiar o meu caminho!" .

Canolles ainda esperou um momento, mas a pessoa deitada nem respondeu nem se voltou; era evidente que queria ganhar tempo. - Senhora - disse por fim Canolles, com uma impaciência que não tinha já a coragem de dissimular- rogo a Vossa Alteza que se queira lembrar de que sou o enviado do rei, e que em nome do rei reclamo a honra de ver o seu rosto. - Oh! que insuportável inquirição!- disse então uma voz trémula, e que fez estremecer de alegria o jovem oficial, porque acabava de reconhecer o som de uma voz, que nenhuma outra podia imitar. - Se, como diz, senhor, é o rei quem o obriga a proceder assim, o rei, que não é mais do que uma criança, ainda não sabe quais são os deveres de um gentil-homem; obrigar uma mulher a mostrar o rosto é fazer-lhe o mesmo insulto que, estando mascarada, se lhe arrancasse a máscara. - Senhora, há uma palavra ante a qual se curvam os homens quando esta palavra vem do destino; é preciso. 238 - Ora, pois, já que é preciso - disse a jovem senhora - já que estou só e sem defesa contra a ordem do rei e a exigência do seu mensageiro, obedeço, senhor: olhe-me! Então, um movimento arrebatado desviou o baluarte de travesseiros, de cobertas e de rendas que a defendia, e através da brecha improvisada, como o vermelhão mais de pudor do que de indignação, apareceu a cabeça loura e o rosto encantador que de antemão haviam sido denunciados pela voz. Com o rápido olhar do homem habituado a avaliar situações, senão semelhantes, pelo menos equivalentes, Canolles ficou certo de que não era a cólera o que conservava baixos aqueles olhos velados por pestanas de veludo, e que fazia tremer aquela mão que sustinha, sobre um pescoço de nácar, as ondas de um cabelo fugitivo e a cambraia dos lençóis perfumados. A falsa princesa ficou um instante nesta posição, que teria desejado tornar ameaçadora, mas que só saíra irritada, enquanto Canolles fixava os olhos, respirando deliciosamente e comprimindo com ambas as mãos as pulsações do seu coração, que pulava de alegria. - Ora, pois, senhor- disse, passados alguns segundos, a formosa perseguida- não será suficientemente grande a minha humilhação?. .. Examinou-me à sua vontade? Que mais quer? Não é completo o seu triunfo?... Seja, pois, um vencedor generoso, peço-lhe que se retire. - Bem o quisera, senhora, mas cumpre-me desempenhar as minhas instruções até ao fim. Só preenchi, até agora, a parte da comissão que diz respeito a Sua Alteza; mas não é bastante tê-la visto, é preciso que veja agora o duque de Enghien. A estas palavras, pronunciadas no tom do homem que tem o direito de mandar e quer ser obedecido, sucedeu um terrível silêncio. A falsa princesa levantou-se um pouco, apoiando-se na mão, e fixou em Canolles um daqueles olhares estranhos que pareciam ser somente próprios dela, tantas eram as coisas neles contidas ao mesmo tempo. Este queria dizer: "Reconheceu-me? Sabe quem eu 239 sou, na realidade?... Se o sabe, poupe-me, perdoe-me; é o mais forte, compadeça-se de mim!" Canolles compreendeu tudo quanto este olhar queria dizer, mas endureceuse contra a sedutora eloquência, e respondeu-lhe de viva voz:

- É impossível, senhora - disse ele.- A ordem é precisa. - Faça-se, pois, tudo à sua vontade, como o deseja, senhor, visto que não tem a mínima condescendência, nem para com a posição, nem para com a graduação; vá, estas senhoras o encaminharão ao príncipe meu filho. - Estas senhoras - disse Canolles- não poderiam, em vez de encaminhar-me a seu filho, trazê-lo para junto de Vossa Alteza? Isto, no meu entender, seria infinitamente melhor. Porque, durante esse tempo, eu darei a saber a Vossa Alteza uma parte da minha comissão, que só a si pode ser comunicada. - A mim só?... - A si só - respondeu Canolles, com uma cortesia mais profunda do que nenhuma das que já fizera. Desta vez, os olhos da princesa, que haviam sucessivamente passado da dignidade à súplica, e da súplica à inquietação, cravaram-se em Canolles com a fixidez do terror. - Que pode haver nesta conferência privada entre nós que tanto a assuste, senhora? - disse Canoles. - Não é princesa, e não sou eu gentil-homem? - Sim, tem razão, senhor, e eu não tenho de que recear. Sim, apesar de ser esta a primeira vez que tenho o gosto de vê-lo, a fama da sua cortesia e da sua lealdade tem chegado aos meus ouvidos. Vão buscar, senhoras, o duque de Enghien, e voltem aqui com ele. As duas mulheres afastaram-se da cama, adiantaram-se para a porta, voltaram-se ainda uma vez, para saberem se esta ordem era bem positiva, e a um aceno que confirmava as palavras da ama, ou pelo menos da que fazia as suas vezes, saíram do quarto. 240 Canolles seguiu-as com a vista até que tivessem fechado a porta. Depois, fixou na suposta princesa os seus olhos cintilantes de alegria. - Vejamos - disse esta, sentando-se na cama e cruzando os braços - senhor de Canolles, porque me persegue deste modo? E, dizendo isto, encarava o jovem oficial, não com aquele olhar altivo de princesa, que ensaiara, e que não lhe fora de vantagem alguma, mas, pelo contrário, com uma expressão tão tocante e tão significativa, que todos os encantadores incidentes do primeiro encontro, todos os embriagantes episódios do caminho, todas as recordações daquele amor nascente, tudo, enfim, surgiu de tropel, envolvendo com embalsamados vapores o coração do barão. - Senhora - disse ele, dando um passo para o leito - eu a quem persigo em nome do rei é à princesa de Conde, e não a si, que não é a senhora princesa. Aquela a quem estas palavras eram dirigidas deu um leve grito, tornou-se muito pálida, e levou uma das mãos ao coração. - Então, senhor, que quer dizer, e quem pensa que eu sou!? - exclamou ela. - Oh! quanto a isso -replicou Canolles- ver-me-ia embaraçado se tivesse de lho explicar, pois seria talvez capaz de jurar que é o mais belo visconde, se não fosse a mais adorável viscondessa. - Senhor! - disse a falsa princesa, com a esperança de impor respeito a Canolles, recordando-lhe a sua dignidade- de tudo o que me diz só compreendo uma coisa - e é que me desobedece, que me insulta! - Senhora - volveu Canolles - não faltemos ao respeito que a Deus devemos quando o adoramos; não insultemos os anjos quando l ante eles nos ajoelhamos. E, dizendo estas palavras, Canolles inclinou-se como se quisesse

ajoelhar. - Senhor! - impediu-o com viveza a viscondessa, detendo Canolles. Senhor! A princesa de Conde não pode consentir... - A princesa de Conde, senhora - respondeu este- vai a estas 241 horas correndo num cavalo, com o seu escudeiro Vialas, ao lado de Lenet, seu conselheiro, com os seus gentis-homens, com os seus capitães, e com toda a sua casa - enfim, vai correndo, digo, pela estrada de Bordéus, e nada tem com o que se passa agora entre o barão de Canolles e o visconde ou viscondessa de Cambes. - Mas... que diz, senhor!?... Dar-se-á o caso de ter perdido o juízo!?... - Não, senhora, eu só digo o que vi, nem faço mais do que contar o que ouvi. - Então, se já viu e ouviu o que diz, a sua comissão deve estar terminada... - Como pode crer em tal, senhora!? Será, pois, preciso que eu volte para Paris, e que vá confessar à rainha, que para não desagradar a uma mulher a quem amava (eu não nomearei ninguém, senhora: não me olhe, portanto, com olhos coléricos), não cumpri as suas ordens, consenti que fugisse a sua inimiga, fechei os olhos ao que via, atraiçoei enfim... sim, atraiçoei a causa do meu rei?!... A viscondessa pareceu comovida e olhou o barão com uma compaixão quase terna. - Não terá a melhor desculpa de todas - disse ela - que é a impotência? Podia, sozinho, deter a escolta respeitável da princesa?... Tinham-lhe ordenado que combatesse sozinho contra cinquenta gentis-homens... - Não - volveu Canolles, abanando a cabeça. - Tinha, e tenho ainda, ali no bosque, a quinhentos passos de nós, duzentos soldados que posso reunir com uma só apitadela; nenhuma dificuldade, portanto, se me apresentava para deter a princesa, que, pelo contrário, nenhuma resistência podia opor. E, além disso, que a minha escolta fosse mais fraca do que a dela, em vez de ser quatro vezes mais forte, eu sempre podia combater, sempre podia fazer-me matar combatendo; isso ter-me-ia sido tão fácil -continuou o mancebo, inclinando-se cada vez mais- quanto seria doce tocar esta mão, se a isso me atrevesse. 242 Com efeito, aquela mão em que o barão cravava olhos ardentes, aquela mão fina, fofa e branca, aquela mão aristocrática que caía fora da cama, estremecia a cada palavra que saía da boca do mancebo. A viscondessa, cega ela mesma por aquela electricidade do amor, cujos efeitos ela sentira na pequena estalagem de Jaulnay, não pôde lembrar-se de que devia recolher a mão que proporcionara a Canolles um ponto tão feliz de comparação; esqueceu-se, portanto, dela, e o jovem oficial, deixando-se cair de joelhos, imprimiu a sua boca com voluptuosa timidez na mão, que ao sentir o contacto dos seus lábios, se retirou como se um ferro em brasa lhe houvesse Jocado. - Eu agradeço-lhe, senhor de Canolles - disse a jovem senhora. - Sim, do íntimo do coração, agradeço-lhe quanto a meu favor fez; creia que jamais o esquecerei. Duplique, porém, o preço do serviço que me rendeu, e apreciando a minha melindrosa situação, retire-se. Não temos nós de separarmo-nos, visto que a sua comissão está terminada?... Este nós, pronunciado com uma ênfase tão meiga que parecia ter alguma

Digo-lhe que trate de lhe escrever. que tão pouco lhe custa a manter na minha presença.. pois.Já que assim é preciso!.243 Perdê-lo. . E Canolles apresentou um papel à viscondessa.. .Escreva pois . . é preciso que eu date a minha carta de junto à sua cama.Nesse caso vou escrever a Mazarino.Eis as minhas instruções. mas não perca tempo. . Canolles . no seu coração pelo menos. nunca! A que preço posso eu salvá-lo? Fale. podia tirar de semelhantes instruções.. que me permitisse representar o meu papel até ao fim. . de aqui ficar? . . o sentimento de dor quase sempre existe no fundo das grandes alegrias. 244 . . que.. e não do que sei. . eu?! Oh! nunca. mas compreendeu também que serviço rendia à princesa prolongando a seu respeito o engano da corte.. Com efeito. que a seu pesar escapava à bela presa. O coração do mancebo dilatou-se: aquele bem-aventurado nós vinha a ser decididamente a fórmula favorita da senhora de Cambes.disse ela. mas sim para talvez lhe evitar um remorso. Clara compreendeu todo o partido que um homem enamorado. que este se convenceu de que era o mais feliz dos homens. .Terei. por meu turno. pondere bem! Senhora volveu Canolles. .Sim. um imperceptível sorriso.disse ele. e que desse conta a Mazarino do que vejo.disse ela. senhora: leia-as. mas um olhar fugitivo. porque fui um traidor.. e quem sabe se não serei fuzilado. que parecesse haver sido enganado por si. senhora.disse Canolles. . e ficarem certos de que não fui enganado. serei vítima da minha condescendência. e pegou ela mesmo na mão de Canolles.À vista . que leu: O barão de Canolles guardará à vista a princesa. se chegassem a saber que nós já nos tínhamos encontrado noutra parte. não creio que deixasse escapar um segredo. .à vista do seu ar tão frio.Obedeço-lhe. não existe.À vista.. E tudo isso é coisa muito natural. . responderam a Canolles. não para deixar de lhe obedecer... eu é que.sombra de pesar. a si. Seria preciso. com uma melancolia perfeitamente representada ...Não posso fazê-lo: é preciso que eu lhe escreva daqui. . fez vibrar dolorosamente as fibras mais secretas do coração de Canolles.continuou ela.. de modo.Como assim?. vá já. Declaram-me traidor.Far-lhe-ei somente observar. além disso. que logo tornou a deixar cair com uma graça encantadora. que se lhe obedecer fico perdido.. No momento em que eu confessar a minha falta.Sim. encerram-me na Bastilha. Clara guardou silêncio. como estava Canolles.Mas isso não é decente.Seria preciso. e o duque de Eughien seu filho. que já me tinha visto.Perdê-lo.Que faremos nós então? .. que tão generoso é?! . . com um indizível sorriso. não há dúvida que estas palavras estão aqui. . mas se descobrissem que por amor de mim faz tudo isto. como lhe disse.perguntou ela. do seu quarto. em tom de mulher resignada. Clara deu um grito. da sua dignidade.. ficaria perdida. fale! . senhora .

.Vai vê-lo.. parece-me que minto.E seu filho. senhor barão -respondeu Castorin.. onde se continha quanto era preciso para escrever. licença para sentar-se. e a princesa cansada de haver durante o dia assistido a uma grande caçada.respondeu Clara. .disse Canolles.mas seu filho.disse Canolles. Com efeito. . parecia muito desagradável . .E também em nome da princesa é que lhe transmiti esta ordem.dignar-se-á confirmar as minhas palavras? Sabe muito bem qual a importância de que esta carta seja entregue imediatamente. apresentei-me a Suas Altezas. diga-lhe que o envie a Paris por um expresso. 245 ... pelo que claramente verá que fiz toda a diligência. a qual lhe foi concedida. ... estendendo para Canolles as suas pequenas mãos juntas e suplicantes. . E continuando a carta no ponto em que a interrompera: Do próprio quarto da princesa.Vá chamar o meu lacaio . dada a meio da noite. a quem a execução de uma tal comissão. vai já vê-lo.disse-lhe Canolles. apenas acabou de proferir estas palavras. a princesa viúva gravemente enferma. que no mesmo instante despediram todos os convidados..respondeu Clara a rir. ..retirar-se-á.Perdoe.Sossegue .respondeu Canolles . venha avisar-me.Aqui tem . pediu. vieram avisar o barão de que Castorin havia chegado. Vossa Alteza . Castorin inclinou-se até ao chão. Foi o 246 [cardeal de Richelieu quem. voltando-se . . sem dúvida por causa do amor que tinha aos .E seu filho. . e ela também com os olhos lhe mostrou um cofrezinho. puxou pelo cordão da campainha: um criado de quarto entrou imediatamente. senhora?. tenho a honra de escrever esta carta a Vossa Eminência. sorrindo. . . e chegou-a para o pé de si o mais que lhe foi possível. e escreveu a Mazarino o seguinte despacho: Senhor: Cheguei ao Castelo de Chantilly as nove horas da noite. o mancebo abriu-o.. . pois tive a honra de me despedir de Vossa Eminência às seis horas e meia. como se Clara fosse sempre a princesa.replicou Canolles voltando-se para a viscondessa. . Ora.interrogou-a com os olhos.Se ainda não viu meu filho. segundo o costume daqueles tempos.Vá . em tom e gestos cheios de majestade. Segundo as instruções de Vossa Eminência. contudo.disse Clara. e partiu. e. não é assim? .Tem razão . ..continuou Canolles a rir.Agora . ouviu-se esgaravatar à porta.disse a falsa princesa... e após ter pedido com todo o respeito licença a Clara.Vá levar este bilhete ao oficial que comanda os meus duzentos homens.Mas.. retirou papel. Depois assinou-a. Encontrei as duas princesas na cama. e neste momento guardo à vista a senhora Princesa e seu filho. colocou tudo em cima de uma mesa. Passados cinco minutos. pena e tinta. e sentado à cabeceira do seu leito. .julgava terlhe dito que o senhor Pompeu me ajustara para entrar no serviço da princesa.e quando ele chegar à antecâmara. bem quisera não mentir..

portanto. um imperceptível sorriso de ironia deslizou-lhe pelos lábios. no meio do riso sufocado dos circunstantes. mas sem que lhe visse o rosto. . pelo movimento dos lábios da viscondessa. . dê a sua mão a beijar ao senhor de Canolles. Eram as mulheres. i Canolles arredou a mesa. e. e. tal como prometera à princesa.disse ele.Muito bem.ao ser-me dada a honra de apresentar as minhas homenagens ao duque de Enghien.disse ela com um cálculo de maldade que fez estremecer Canolles. A senhora de Cambes. que fora convenientemente doutrinado por Lenet. Pedrito. que não era em atenção a ele que lhe haviam vestido o esplêndido trajo em que o apresentavam aos seus olhos. Apressaram-se a obedecer. enviado por Sua Majestade. que não tivera tempo nem modo para converter em mão de gentil-homem. ainda quando fosse menos esperto nesta matéria do que Canolles. que já adivinhava.Entre! . ainda que só fosse a título de herdeiro natural.o oficial que vê diante de si é o senhor de Canolles. durante algum tempo e em silêncio. o jovem príncipe foi introduzido no quarto. pensou. . pois. . e talvez que também para de algum modo exercer aquela malícia eternamente oculta no mais íntimo do melhor dos corações femininos. se encarregara da educação do garoto.foi-se acordar o duque de Enghien. Nesse caso. e. e deixou-se ficar respeitosamente a quatro passos do leito da princesa. portanto.Tragam aqui o duque de Enghien. No mesmo instante. e como lhe pareceu que Canolles observava todos os incidentes desta cena com suma atenção: . em quem o menino tinha cravado os olhos fez-lhe sinal com a cabeça para que saudasse. tirou a cadeira. à de Mazarino. pusera em voga este modo de bater à porta. esgaravatado à porta de Richelieu. estendeu a mão. todos os que estavam empregados no serviço ordinário da princesa. A ideia que já tivera de que o príncipe partira com a mãe. muito bem -esgaravatar-se à porta da princesa. Podia. ela ordenou: . Ao ouvir esta ordem. um beijo naquela mão.gatos. tornou-se. e. sem que o respeito que impusera a toda a sua pessoa sofresse a menor quebra. isto o que combinámos?" Este olhar. passado um momento. A única coisa em que reparara fora no seu trajo. revisto-me do meu carácter oficial.Dou-me por muito feliz . foi compreendido maravilhosamente. finalmente. inclinando-se. receber agora o mensageiro de Sua Majestade.disse a viscondessa. que consistia num simples trajo de caça. pois. em agradecimento de tudo quanto Canolles fizera. Durante o seu dilatado valimento. tomou a pegar no chapéu. teria . os camareiros. depois à do senhor de Chavigny. Um olhar de Canolles à senhora de Cambes disse-lhe mais claramente do que o teria podido fazer a voz: "Era. que ia ser vítima de alguma traição feminina . que um homem. sem dúvida. Dissemos que o barão. tinham. em que se encerravam todas as súplicas de um coração angustiado. O senhor verá meu filho na minha presença. o herdeiro do ilustre príncipe de Conde. que andava brincando e correndo. quase em certeza: examinou. que. observando com todo o cuidado os últimos 247 preparativos da partida da princesa. pode. pusera os olhos no jovem príncipe. o mais cerimonioso acompanhamento que se podia ver entrou no quarto.Senhora . portanto.Ei-lo que vem . os oficiais. pois.disse a senhora de Cambes.disse o primeiro criado da câmara .Meu filho . . e Canolles viu-se obrigado a imprimir. que sem dúvida tinha direito a esta sucessão.

Canolles.disse a viscondessa de Cambes." 248 pagar-me-á este E inclinou-se respeitosamente ante o Pedrito.. sem que ainda tivesse baixado até à superfície das . se é que pode chamar-se dormir ao febril delírio que sucedeu à vigília. até me jurou . . contudo. foi um ardente penhor de amor.disse Canolles consigobeijo!. pois. aqui. quase desmaiada. a minha comissão está terminada por esta noite. pois a loucura é uma fadiga para qualquer outro espírito que não seja o de um louco. pôs um joelho no chão. para lhe agradecer a honra que lhe concedera. dormir descansado. .que não sairia do castelo sem que disso me prevenisse. a última do programa.seria coisa impossível. dizer as razões que a si próprio deu para se convencer de que agia acertadamente .disse Canolles em voz submissa levantandose . de lhe pedir licença para me retirar. afirmou. "Ah! senhora de Cambes . lhe era impossível ficar mais tempo na câmara de uma mulher. tenho. portanto. . um comprido beijo. a sua trémula mão ao senhor de Canolles. e retirou-se com o paraíso no coração. senhora. dizer os projectos que fez para sujeitar o futuro aos cálculos do seu amor. que todos atribuíram ao respeito.perguntou a senhora de Cambes com inquietação.Que me conceda a mesma graça que acabo de receber do príncipe seu filho.E pode tê-la. Era tarde quando Canolles adormeceu. e ao capricho da sua fantasia.Vá. Entendendo então que depois de haver passado por uma tal prova.. A senhora de Cambes estendeu. não havia modo de recusar a um oficial do rei o cerimonioso favor que desta maneira pedia à vista de todos. a viscondessa não podia escapar-lhe. dizer como a vigília e o sono não passaram de um sonho constante. apenas o dia alumiava os cumes dos álamos. . . pegou com a ponta dos dedos na mão que se lhe oferecia.Que favor? . senhor . senhor . voltando-se para o leito: . e que.. tentou descobrir nos olhos da formosa prisioneira a confirmação da esperança 249 que lhe dera o tom da voz. tenho de pedir-vos. Dizer como essa noite se passou para o gentil-homem.Senhora. e imprimiu naquela pele fina. para a viscondessa somente. .Prometeu-me. tornando a cair sobre o travesseiro. a quem a expressão da voz fizera estremecer. pois.Antes disso.disse Clara. Tenho toda a confiança na sua promessa e no seu juramento. Este adiantou-se para a cama como se teria adiantado para o trono de uma rainha.. Desta vez. Pode. Canolles pensou que os cofres fechados são os que encerram os mais preciosos tesouros. durante o qual ponderou e tornou a ponderar todas as circunstâncias da quimérica aventura que lhe dava a posse do mais precioso tesouro que avarento algum tenha jamais abrigado sob as asas do seu coração. Mas os olhos da viscondessa estavam hermeticamente fechados. . porque compreendia pela entoação da voz do barão que se dispunha a tirar a sua desforra.facilmente reconhecido não pertencer à aristocracia. um grande favor.Vê que estamos muito sossegados. branca e estremecida. e.

e descia para o jardim. A sua primeira visita foi ao lado do edifício ocupado pela princesa. Pompeu estendeu o braço. o primeiro olhar para a janela do seu quarto. o certo é que uma luz demasiado viva para que fosse a de uma lamparina avermelhava as cortinas de damasco corridas hermeticamente. e Pompeu. diante das 250 quais qualquer outro que não ele teria passado com indiferença.. que sem dúvida receava constipar-se. embora o seu primeiro movimento fosse de uma grande alegria. -exclamou Canolles consigo. mas nas grandes alegrias dos namorados nunca deixa de haver uma certa apreensão. já Canolles saltava da cama. tornou a fechar logo a janela.. aquele eterno diálogo dos corações amorosos. cujas flores só ao sol se abrem.. procurou o abrigo do pedestal de uma estátua que o ocultava de forma conveniente. é não ser já feliz. a que talvez represente o maior encanto dela. o bilhete em causa não podia deixar de conter alguma fatal notícia. Estes dois homens entendiam-se.. olhando com indizível ventura para aquelas cortinas. Canolles estava tão convencido disso que nem sequer chegou o papel aos lábios. que lhe poderia querer dizer a viscondessa. às mil maravilhas.. Mas Pompeu. o qual desde logo reconheceu nesse ponto branco um papel enrolado. O que quer isto dizer?. assim. sobretudo quando este bilhete é inesperado não há razão alguma a temer. sem dúvida. e pôs-se a olhar em torno. Canolles deteve-se perante a descoberta. e encetou a sós com a sua fantasia. Tudo quanto se relacionasse com a viscondessa inspirava um poderoso interesse em Canolles. de um assobio .belas águas onde dormem os nenúfares de largas folhas. acompanhou os sinais. e. a qual. procurando logo o abrigo de um caramanchão para o ler à vontade. sem prolongar o passeio. a não ser algum ataque 251 à sua felicidade.o qual teria parecido insolente da parte de um escudeiro para com um embaixador de Sua Majestade o rei da França. Com efeito. Antes pelo . lhe inundou o espírito com um bom número de conjecturas insensatas. nenhum homem pode ler sem algum receio o primeiro bilhete da mulher a quem ama. o primeiro deixou cair o bilhete. para lhe chamar a atenção. que encontram o objecto amado em todas as poéticas emanações da Natureza. quer tivesse já despertado.ela escreve-me. "Um bilhete!. Pompeu mais se arriscava a mostrar o papel.. desviou os olhos das cortinas tão atractivas. e acreditou ver que Pompeu tentava estabelecer com ele uma correspondência de sinais. como costumam fazer os amantes em tais circunstâncias. que observou a dúvida em que o barão estava. vestindo-se à pressa. estar convencido da sua felicidade. quer não tivesse ainda adormecido. como bem se vê. Ao princípio. por fim. Havia talvez meia hora que o barão estava no seu observatório. e essa janela quase no mesmo instante servir de moldura ao honrado rosto do senhor Pompeu." E aproximou-se todo trémulo. e Canolles o chapéu. e o segundo recebeu-o com muita destreza. se não tivesse sofrido alguma alteração o programa entre eles concertado na véspera? Portanto. À medida que Canolles se aproximava.. pois. Canolles duvidou de que os sinais lhe fossem dirigidos. se esse assobio não fosse justificado por uma espécie de ponto branco quase imperceptível para todos e quaisquer olhos que não fossem os de um namorado. quando viu abrir-se uma janela da galeria. Todavia.

esta mulher zombara dele. Além disso. cuja vibração se fizera sentir no íntimo do coração do mancebo . com um receio que cada vez mais crescia. Devo dizer-lhe que. em primeiro lugar na estrada. como mais tarde ou mais cedo acabaria por ver o que se lhe escrevia. se assim for possível. despedida. eu não dissimulo. caso se encontrasse no meu lugar. enfim. Com o dia. depois de ter pronunciado duas vezes aquele nós. do meu lado. mas. há-de magoá-lo muito passar aos olhos de toda a gente da casa por um desagradável vigia. supondo que lhe agradará. e leu: Senhor: Ficarmos mais tempo na situação em que nos encontramos . Não havia a mínima dúvida de que o retrato seria posse muito grata. e o meu reconhecimento acompanhá-lo-á a toda a parte. autorizo-o. se me prometer anuir à minha súplica. eis tudo. receio recebê-lo melhor do que o faria a princesa. e quando podemos não o largar? Sim. Tomando o lugar da princesa de Conde. Abanou a cabeça. o muito que dependo de si. Separe-se. Dirá que este retrato foi por si descoberto numa das suas rondas nocturnas. deu-lhe mil voltas. se partir esta mesma manhã. cujo desenlace seria a perda certa da minha reputação. Contudo. depois em Chantilly.arrepiar caminho. por outro lado. Qualquer que seja o favor contido numa carta de despedida.e entendo que pensará como eu . obedecia a uma ordem que lhe davam. uma . nem a si mesmo. Bem o vê.adeus. escrever. por muito açucarada que seja uma recusa ou um adeus . não podia agir de outra maneira. depois de haver dado mostras de apreciar o seu fervoroso zelo. e desembaraçava-se de um companheiro incómodo. não reconhecer a sua bondade.é coisa absolutamente impossível. a guardar a miniatura. Na estrada ela não o conhecia. todos os sonhos dourados desapareciam. abriu-o.contrário. e continuou: Finja que descobriu o ardil de que nos servimos. e que eu mesma lhe oferecerei. sem me tornar a ver. quando o temos à mão. quando o original ali se encontra. dando-lhe na véspera uma esperança que lhe roubava no dia seguinte! Mas de todos os desenganos este era o mais cruel. recusa. qual o valor do retrato. para chegar a essa conclusão há um meio muito simples. Canolles enxugou a testa: os seus pressentimentos não o tinham enganado. fazendo as vezes da princesa. Canolles leu de novo o bilhete e ficou atónito. Se aceder aos meus rogos. mas Canolles. mas o motivo pelo qual era oferecido roubava-lhe grande parte do seu valor. em memória da dívida agradecida que guardarei no íntimo do coração. não deixam por isso de ser um dos mais cruéis logros que se possam atirar ao coração. que não tinha recuado ante a cólera da rainha e de Mazarino. e que por ele ficou a saber que eu não era a princesa. enviar-lhe-ei um retrato em que figuram o meu nome e as minhas 252 armas. desempenhava um papel prescrito pela sua senhora e ama. de mim. socorreu-se de toda a sua coragem. por fim. arrancou um suspiro do peito. Contudo. desta vez 253 que o conhecia. negar o seu agradecimento. e. tremia ante um franzimento de sobrancelhas da senhora de Cambes. pois. esse grande caçador de fantasmas. a recordação da sua pessoa me acompanhará como a de um dos mais nobres e mais leais gentis-homens que conheci na minha vida. enquanto. e que adivinhem representarmos nós uma duplicada comédia.

replicou Pompeu. . bateu majestosamente no bolso do seu casaco. por que se encolerizou. . O mesmo que fiar-me na constância do vento e na calmaria do mar! Ah! senhora. tudo isso era aos olhos de Canolles mais do que crueldade.Contudo. .a verdadeira .É você o mordomo de Sua Alteza? . -Vá. se possível. ao entrar no quarto... Canolles ainda esperou coisa de meia hora. na câmara da viscondessa.. .Sim. dizendo estas palavras.disse-lhe ele.Está levantada.. é uma despedida muito regular. Prefiro o seu ódio a este suposto reconhecimento que me promete. fechou os olhos para refrescar as ideias e expulsar.. . quem lhe . uma poética esperança convertida em brutal desengano. repassado de um doloroso despeito. porém. Foi esta a razão por que se agastou. tendo partido com um cento de gentis-homens. A muito custo. viu que apenas eram sete horas. a sua importância sofrera grande quebra: havia perto de doze horas que a princesa . um grande acontecimento coroado de um desfecho vulgar. Canolles atirou consigo para cima de uma poltrona. os fantasmas que dançavam em torno dele. senhora -continuou Canolles.. uma espectadora oculta pelo damasco observava a pantomima do seu desespero e talvez se deleitasse. Sua Alteza. não me prestarei a fazer o ridículo papel que me reservam. a quem dava conta das suas campanhas na Picardia sob o comando do rei defunto: .A minha partida dependerá da conferência que vou ter com Sua Alteza. .tal carta. se outra ocasião semelhante se me oferecer. senhor .Mas. Por maior que fosse a diligência com que Canolles fizesse marchar a sua gente. onde 254 em breve tudo era movimento e ruído. Deram oito horas.Sim.Digo isto porque não tenho ordem de minha ama. sem observar que. Aproximou-se de Pompeu." E Canolles tornou a subir ao seu quarto. e começaram a despertar no castelo. quase que uma zombaria. gesto que adoptou como o mais satisfatório de quantos pudera empregar na véspera. sim . Ah! sim.. por detrás daquelas cortinas. Todavia. não me escapará terceira. não pôde já conter-se. .partira. com a intenção de vestir-se e de entrar. . e estaria portanto a vinte ou vinte e cinco léguas de Chantilly. "Sim.. acompanhando o seu pensamento de gestos análogos ao sentimento que o preocupava.. e desceu. por força ou às boas. . como se o dia a tivesse tornado inútil. não podia de modo algum alcançá-la. Ninguém ainda estava levantado no castelo.Vá dar parte a Sua Alteza de que desejo ter a honra de lhe apresentar os meus respeitos.E eu digo isto porque tenho ordem do rei. senhor. Eu. fiar-me agora na sua promessa!.Eu julgava que a partida do senhor. voltando-se para a janela . desde a véspera. atónito. Mas... o nosso negociador via que lhe ia faltando o alento.pensava ele. que respirava muito ufano o ar fresco da manhã no grande pátio.por duas vezes que me escapa. ao mesmo tempo que tentava esta atrevida empresa. E Canolles. Mas eu lhe juro. e não os abria senão para consultar de cinco em cinco minutos o relógio. e lançando os olhos ao pêndulo. e caso a alcançasse. onde toda a luz se apagara. como se fosse a primeira vez que visse Pompeu. Com efeito. rodeado de lacaios. devia sem dúvida ter caminhado toda a noite. muito formal. por fim.

disse a viscondessa. e impor-lhes deste modo o sofrimento da sanguinolenta pena dos seus caprichos amorosos? Se na véspera se tivesse enganado relativamente aos sentimentos da senhora de Cambes para com ele. a quem fala em nome do rei?. de que esta entrevista seja a última.muito pior que tudo isso .Em tal caso. dignar-se-ia consentir em ficar mais tempo em Chantilly. sobretudo. é coisa que se torna impossível. o interesse da princesa.. o recurso de se fazer matar.Esquece-se então de que tudo é possível. nunca mulher nenhuma amou aquele a quem por um só momento teve a intenção de tornar ridículo. que lhe dava a certeza de que a senhora de Cambes não zombaria abertamente dele? Então. grandes olheiras. Enquanto volvia e revolvia todos estes pensamentos no seu espírito. se a perturbação dela não fosse mais do que uma comédia.disse Canolles . e não abusará da posição em que me colocou o meu extremoso afecto a Sua Alteza. . Serei pois eu. vestida e em pé. a perturbação inevitável da posição em que me encontrava.Bem vê.mas em consequência da nossa conversa de ontem. marcavam no seu belo rosto.Senhor de Canolles. Veremos se me quer deter por força. . Pompeu veio de cabeça baixa dizer-lhe que a princesa o aguardava. suplico-lhe! . tenho reflectido: uma demora maior de si ou de mim neste castelo. confessoo. denunciavam que os seus lindos olhos se não haviam fechado. mas com a esperança... . por seu turno. quem. Vestígios de insónia. e expor-nos ambos a um estrondoso escândalo.). esperava menos rigor nas suas exigências. 256 a grandeza do sacrifício que fez por mim.continuou a viscondessa. congratulo-me que antes de tudo seja gentil-homem. Desta vez todo o cerimonial fora banido.ruína para o seu amor nascente. lembrar-se-á de que . senhor .inclino-me perante o seu desejo.Sim. não senhor . ai de mim! só um louco podia fazer o que eu fiz. embora o contrarie. e confiava em que. creio que me compreenderá. já percebeu isso muito bem. haveria apupada dos lacaios.. . como na véspera dissera. a viscondessa esperava-o numa salazinha contígua ao quarto. com um acento que Canolles ouvia vibrar pela primeira vez .Perdoe-me. durante esta longa noite. .. também cederá ao meu desejo. como remuneração pelo que fizera por amor de si (de si somente. o restituo ao desempenho dos seus deveres. mas teria ele o direito de consigo fazer matar os homens que o acompanhavam. sem lhe dar tempo de ser quem primeiro falasse. mas. Não deixará de ponderar que não pode ficar eternamente em Chantilly. e . . Não. confesso . apupada dos soldados ocultos na floresta.não. senhora?! -estranhou Canolles..disse-lhe ela.antes de tudo sou um louco.no primeiro momento. porquanto.. desvalimento para com Mazarino. senhor.assegurava que a escolta da fugitiva não contasse àquela hora trezentos ou quatrocentos partidários? Restava sempre a 255 Canolles. que em vão diligenciara apagar. Pois então compadeça-se da minha loucura: não me desterre da sua presença. serei eu quem se ausentará daqui.Senhora . e de que o senhor.. pois que não conheço a princesa de Conde.Impossível. puderam arrancar da minha boca algumas palavras que não estavam de acordo com o meu pensamento. senhor.. cólera da rainha.respondeu Canolles . a quem muito importava que eu ganhasse tempo. senhora . senhor.

. mas o que sei é que não posso separarme de si. ela dizia consigo mesma: "Sou para o senhor de Canolles uma distracção de espírito.Esquece-se.Oh! não.disse Canolles.Oh! . que não o ama. Aquela resolução matutina de fazer afastar Canolles.. É portanto impossível que deixe ficar junto de mim um homem que ama outra mulher. se com ele convivesse mais tempo... não é assim? 258 .disse Canolles. em que se via obrigado a sair da Guiena. para onde se encaminhava naquela tarde em que nos encontrámos.de que me deu a palavra de não se ausentar sem primeiro me avisar da partida. mas sim pelas recordações do passado.Como!? -exclamou a viscondessa.. . eu não sei o que farei... Aquela insónia não era causada pelas ansiedades do presente. e seguiu-me como o viajante segue o fogo-fátuo. Canolles estremeceu.. Sim.. com efeito. . que brilhou como um relâmpago aos olhos de Canolles. e então descobriu qual a razão para tudo aquilo.. violência -respondeu Canolles.Deter-me-ia pela força?!. se não se ausentar.Então estou presa e é o meu carcereiro. recordou-lhe a cena da estalagem de Biscarros. 257 um silêncio momentâneo.A senhora é uma mulher que já por duas vezes perdi. e a quem eu. encontrou-se comigo no momento. mas o seu coração ficou naquela pequena casa rodeada de árvores. mas. Houve então entre os dois seres. "Ciumenta! -dizia Canolles. que clama pela liberdade.. Compreendeu que era chegado o momento de se aventurar a tudo ganhar.E crê que eu consinta em tal?. que o detesta!.exclamou a senhora de Cambes . sim! Quer certificar-se de que a amo bastante para lhe sacrificar outro qualquer amor! Quer experimentar-me.se não tiver outro processo de mantê-la aqui. . sem dúvida. ou tudo perder..que felicidade. não era o resultado da reflexão. ausento-me eu.Pois então.Senhora. durante este silêncio. que falava em seu peito com as palpitações do coração. . mas sim a expressão do ciúme. .Sim. respondendo ao seu próprio pensamento: . não? .. se tivesse a baixeza de amar o agente dos seus perseguidores!" E por isso exclamou subitamente. . dou-lhe parte de que vou sair de Chantilly neste mesmo instante. senhor. a descoberta que a senhora de Cambes fizera sobre a ligação de Nanon com o mancebo." Por sua vez. .Em tal caso. a de guardar uma mulher que geme. temos violência. não. e a quem não quero perder terceira vez.. senhora. e esforçou-se por distinguir rapidamente o que havia na palavra e o que havia no pensamento.Senhora . . cada um deles escutava a palavra do seu próprio pensamento. mas atraiçoaria também os interesses da princesa. com um acento tão verdadeiro que não é possível enganar-me quanto ao seu .em outra parte o esperam. de pé em frente um do outro. senhora . é preciso ausentar-se. talvez tivesse a fraqueza de amar. Esta insinuação. Oh! não só atraiçoaria a minha honra.disse ele .Ciumenta! Oh! desde este momento tudo compreendo. senhor.as palavras que acaba de pronunciar.

neste castelo como em qualquer outra parte. 260 . senhora!? . se tornara depois real e dolorosa. Dentro de dez minutos terá reconquistado toda a liberdade. que me detesta?. Não. O seu braço. como as tempestades.para sempre! 259 E Canolles. não me ama!.pois se eu o detenho é para que não nos separemos deste modo.. e até se olhasse com indiferença. A senhora de Cambes estava diante dele. A senhora de Cambes não esperava uma tal obediência da parte de Canolles. se me amasse. Canolles deu um grito.significado.. chamara em seu socorro todas as suas forças para uma luta. não lhe tocavam só.disse a viscondessa . não ter compreendido que pudesse ser maçador um homem que ama com tanto ardor. e repetindo a palavra adeus com um acento tão profundamente pesaroso. sentiu pousar-lhe no ombro uma firme mão. ainda lhe tocava no ombro. com pressão mais do que significativa. rainha. procurando a porta com que não acertava. mas sim dos perigos que ambos corremos se aqui ficarmos.será possível que ainda me tenha enganado outra vez?.Que me diz. é para que ao menos veja em mim uma amiga. porquanto é boa pessoa. . . estendendo os braços ao acaso. Adeus. . o guarda de uma mulher que me não ama. mas agora não é já com a indiferença que tenho de lutar. A si cumpre ficar. e arrancando uma espécie de soluço.disse ela . é para que não vá com a ideia de que sou uma ingrata.é assim que obedece à rainha?. ficou confusa e atónita. e desde logo tudo muda.. Perdoe-me somente. e encostou a sua fonte ardente às duas mãos que ela lhe estendia. ou deixa-me partir. Eu. me indemnizaria deste sacrifício concedendo-me o favor de algumas horas que sem dúvida nunca mais se me oferecerão. senhora. . tamanha era a felicidade que experimentava quando a via. o repouso da consciência. senhora. As verdadeiras aflições têm. de fingida que era no início. que. e a momentânea expressão de dignidade que antes tinha impressa no rosto. adeus . Tem razão..Ah! não se regozije ainda . é para que me desobrigue voluntariamente da palavra que lhe dei. Gemendo. senhor . visto que os nossos partidos opostos obstam a que eu jamais possa ser para si outra coisa. senhor barão. vejamos: ou parte o senhor. o futuro. e quando o mancebo já dera dois passos para a porta. e teria feito por compaixão o que outra faria por amor. fique sossegada: tal não acontecerá.Então. estendido com graça. Seria capaz de atraiçoá-la a ponto de partir quando tem ordem de ficar aqui?. mas com o ódio. retiro-me...Oh! meu Deus! -queixou-se Canolles. põem termo a todas as minhas incertezas.. senhora..Não falemos dos nossos sentimentos.. tornara-se em delicioso sorriso. Eu acreditara. por seu turno. assim é necessário. e não para uma vitória. e.exclamou ele.. escrava?. rodou nos calcanhares. Voltou-se então. Tudo isso era possível. depois de haver perdido a consideração.. uma voz que lhes é própria. por fim saudou a senhora de Cambes. eu é que tenho de retirar-me e. vendo tanta resignação acompanhada de tanto amor. portanto.Oh! não sei como não morro de alegria! .. consolara-me com a ideia de que. a honra talvez. detinham-no. senhora e livre. partindo do coração... que lhe não era desagradável a minha presença. caiu de joelhos. numa perturbação que. . penetrava o coração.

Um novo acordo. o acaso cansar-se-á. peça-me que morra por si. será preciso repetir-lho?. não morrerá. .Então. -exclamou Canolles. Em breve. ou.. se eu lhe permitir que fique hoje aqui. Mas peço-lhe que se lembre de que apenas a tenho visto. . bálsamo nos bosques.. . que estava tão pálida. . não tornarei jamais a encontrá-la. nada mais. Ajudá-lo-ei em tudo quanto de mim depender. . e com a voz mais doce e mais meiga..Não.Os meus cavalos. diga à rainha o que lhe aconteceu.... senhora.O acaso colocou-me no seu caminho. .Oh! senhora. em troca da minha palavra . a morte é um instante de dor. . Já não tem diante de si mais do que um escravo pronto a obedecer-lhe. Estava de pé. e volto pela herdade.Nada prometo.Então. visto que recebeu de sua majestade a rainha ordem de não me perder de vista. senhor de Canolles.Isto faz parte das atribuições do seu cargo. à sombra de árvores misteriosas.A verdade. e quase sem vontade. e se eu me separar de si. promete-nos um dia delicioso: há orvalho na relva. parta! .. Mas não torne a pedir-me que me aparte de si. perfumes no ar. Dême as suas ordens. cujos ramos caíam flutuantes na sua fronte descoberta. disselhe: . colocou-a já por duas vezes no que eu seguia... deixou-se conduzir sem oposição.. no meio de um bosque encantador. se assim for eu é que o procurarei. para ir dar um passeio . . bastante perto para tudo ver. abriu de novo os olhos às coisas materiais. e sem dúvida tão feliz como ele.. e pouco lhe tenho falado. com o seu ar de princesa. ficará satisfeita. diga a Mazarino. nem eu tão-pouco.. E o único compromisso que consigo tinha contraído era o de avisá-lo do momento em que tivesse de partir.Terei então que fazer tudo o que quiser? Terei de obedecer-lhe em tudo e por tudo? Terei de fazer abnegação de mim mesmo para seguir cegamente a sua vontade?..Separar-me de si é morrer! .Pois então.. dar-se-á por contente? Diga! . porém. senhor barão . Deixe-me aqui.continuou ela. Uma nuvem de júbilo sufocador cegava o mancebo. onde almoçarei. .disse ela. Acompanhar-me-á. . volte para Paris. estava arquejante. embriagado. Pompeu caminhava após eles.Juro-lhe que sim! . senhora. . tão muda. para melhor dizer. partirá às nove horas?.Mas. pois conservará a esperança de que nos tornaremos a encontrar em tempos mais felizes. venha comigo! O céu azu! e sem nuvens.. que sem dúvida recebera ordem de não se arredar da porta. 261 Clara estendeu a mão ao barão.Se eu não me separar de si desde este momento até às nove horas da noite.Vou esta manhã aos lagos. Sendo assim. Pompeu! O digno mordomo..Em tal caso. Saiba pois que parto dentro de uma hora.disse a senhora de Cambes. e convenientemente longe para nada ouvir. via-se caminhando de mãos dadas com a senhora de Cambes. com o coração apertado de uma alegria quase tão pungente como a dor. parta. entrou no mesmo instante. se todo o dia puder verme e falar-me. Vem cá. já que tanto é preciso. mudo. Com esta única ideia sinto despedaçar-se-me o coração. louco. . e envolvia-o como aqueles vapores que outrora arrebatavam os deuses do céu. não.

que me chama para junto dela. que passavam como relâmpagos diante dos olhos do mancebo. quando voltara para terra.Agora são horas.. senhor de Canolles .Ai! senhora -replicou Canolles. quando à sobremesa uma dama de honor trouxe Pedrito. Cada uma das ruas do parque fora enriquecida com uma palavra. . com uma lembrança da viscondessa. quando chegou a noite. com tristeza. A cada um destes deslumbramentos. E tirou da algibeira uma carta que recebera no momento de se sentar à mesa. por sua vez. . . suspirando: . iluminada por um clarão fantástico. um olhar. um gesto. até se esquecera da promessa que fez de se retirar. um dedo posto na boca.Ainda que não tivesse recebido esta carta.De quem é essa carta? . tê-lo-ia lembrado à hora combinada. 263 da etiqueta.. e nisto não pode deixar de concordar. Canolles não devia separar-se da viscondessa durante todo o dia. se esta separação é para si tão cruel como dá a entender.Quanto mais não seja. não são as de uma princesa perseguida com o seu perseguidor. não só no seu todo. do mundo. No meio de todo o esplendor com que a falsa princesa devia receber o enviado de um rei. contudo. . como acabo de fazê-lo. O mancebo esqueceu-se dos criados. Todavia. e tenho de agradecer-lhe a lisura com que me trata.termo deste dia inebriante chegou como sempre chega o fim de um sonho. e sentara-se. tudo tinha o seu significado. . diligenciando sorrir.. e que se aproveitara da circunstância para comer tanto como o teriam feito quatro príncipes de sangue juntos.. .perguntou Canolles. . acabou do mesmo modo que se tinham cumprido todos os outros actos desse dia isto é: numa inefável alegria. de que ele seria o Adão e ela a Eva. quando a ceia também. e tentando rebater com um gracejo uma grande desgraça.. parecia-lhe que adquiria neste simples dia recordações para três existências vulgares. e julgou-se estabelecido por toda a ditosa eternidade naquele paraíso terrestre. e ao jantar convidara-o a cear.Horas de quê? .Horas de cumprir a palavra que me deu. as horas haviam-se passado como segundos para o afortunado gentil-homem.Da princesa. e. mas também nas mais ligeiras circunstâncias. 264 Mas agora.Não se iluda. sempre disfarçado de duque de Enghien. . conservara-se presente na sua memória. da vossa partida.disse ela . sentira-se cansada.respondeu a viscondessa. e a senhora de Cambes. Canolles distinguiu as meigas atenções da mulher enamorada. com uma tristeza que não tentava ocultar. a paisagem..mas eis algo que me restitui a memória. sempre é um pretexto.. Crê que as pessoas que nos rodeiam deixariam em breve de observar a nossa mútua inteligência?. ela apertara-lhe a mão. Entrando no barco. . quando o som do pêndulo começou a ecoar.então de nada se esquece?. .perguntou Canolles. . ficou certa de que iam dar nove horas. As nossas relações. levantando os olhos.Talvez me tivesse esquecido. como o senhor . disse-lhe. costeando o muro do parque. encostara-se ao seu braço. ao almoço convidara-o a jantar.

. eís tudo.permita-me que lhe diga.Oh! então nada receie. . sendo um enviado do rei. encarregado de uma missão de confiança por Sua Majestade a rainha-regente. .Entre nós há guerra: isto é demasiado.E onde? . fique certo disso.Oh! senhora. peço-lhe para o futuro. que. (Canolles corou.. se as coisas são como as diz? . tem razão . porém. Sou oficial. quem é que. os meus pressentimentos assim mo dizem. de um modo muito especial..Pois não adivinha?. . consentiria em acompanhar-me?. .Não posso. que me importa a mim que o golpe seja daqui ou dali? Eu não conheço a corte.insistiu Canolles.replicou Canolles.perguntou num tom arrebatadora a viscondessa. . ..disse a senhora de Cambes .. a pode ter? Quando a espada estiver desembainhada. . nesta carta .disse ele. . quando ao mesmo tempo não há amor.A senhora mesma não acredita no que diz neste momento .Fale! oh! fale! . honrado com a benevolência do duque D’Épernon.É o único em que eu tenho toda a certeza de haver vivido desde que existo no mundo. nesta guerra. segundo me asseguram. . e também agradeço a perturbação com que me faz tal proposta.É esse o único obstáculo que o detém? . que só de si depende que não nos separemos. . portanto.perguntou Canolles. Não é isso? . preste-me atenção. não insistirei mais..Não o creio. senhora . ambas têm o mesmo valor. .Mas porque não. não conheço os príncipes: independente pela minha fortuna.Não. tornar-nos-emos a encontrar.Não o posso saber.Concordo consigo.Juro-lho.Nesse caso. .. nada espero nem de uns nem de outros.Ela própria me fala disso.e. levantando o dedo e sorrindo. a primeira palavra não soa tão mal. e pelo primeiro-ministro.Não peço para amanhã. tenho de partir esta noite. para depois de amanhã. . Canolles abanou tristemente a cabeça. teria tentado fazer com que abraçasse a causa dos príncipes.Então. vê perfeitamente que é um ingrato.Um trânsfuga é sempre um traidor. seja quando for. pelo contrário.Agradeço que essa lembrança não lhe ocorresse a si. o protege. .disse com viveza a senhora de Cambes. senhor barão: nós não nos separamos para sempre. apesar das desconfianças que eu logo concebera. pondo de parte os interessados. Caso se encontrasse numa posição 265 neutra. e que vá consigo reunir-me à princesa. .. . escolha o lugar que quiser. . Mas.Conceda-me um segundo dia semelhante a este . . senhora. muito bem o adivinho! Quer falar-me em acompanhá-la. . senhor barão.Não tem significado para si?. . não me sinto dominado por convicção alguma. mas decerto tornaremos a ver-nos. .) Serei portanto o mais discreta possível. da minha parte. eu. .exclamou Canolles.E o dia de hoje? . . sem ambição. Marque o tempo que quiser. mas. Não que a minha consciência se indigne com a ideia de servir este ou aquele partido.Porque baixaria na sua estimação. Não..

disse a viscondessa.Oh! muito agradecido! .exclamou Canolles. muito teria ainda a sofrer se não tivesse mais do que uma esperança. . onde deve estar o meu regimento. e para tudo estou pronto. se lhe dá algum prazer o pensamento de me haver tornado feliz. . no domingo. tirando do peito um retrato. as palpitações desiguais e precipitadas do seu peito. demorar-me-ei lá todo o dia.Leve-o. por amor de mim vai cair no desagrado da corte. .Talvez para a Bastilha. diga que. onde estará a princesa. que apresentou a Canolles. .E com simpatia. . uma recompensa que se concedesse com tanta facilidade não seria uma paga digna dos seus sacrifícios. . Sim. pode acreditar-me! Ficar-lhe-ei eternamente agradecida. bem o sei.E eu para Bordéus. .Conheço uma. senhor barão . eu é que. .Volto para Libourne.. Clara estava tão comovida que Canolles apercebia. Conhece alguma aldeia pouco frequentada no caminho de Bordéus para Libourne? .ainda temos de representar a nossa comediazinha.. .Espero as suas ordens.É tudo quanto tinha que me dizer? . mas. vai ser julgado com toda a severidade. E. Depois.E depois? .Jaulnay? . .Para Paris. causa-me um horrível remorso. sim! a comédia que deve tornar-me ridículo aos olhos de toda a França. quando sofre. sim.E nada mais?.E agora . pelo menos preparei o desfecho que a coroa. . comprimindo nos lábios a mão da senhora de Cambes.. senhor..disse ela.repetiu Canolles.perguntou Canolles. O que lhe peço. mas pelo Santo Nome de Deus.Jaulnay . A senhora de Cambes baixou os olhos.contanto que eu viva com uma certeza.Ah. é por amor daquela cuja imagem tem nas mãos.disse sorrindo a viscondessa. .. -É tudo?.Faz por mim um enorme sacrifício. dizendo estas palavras.Farei. .Essa fria dor a que o vejo entregue.disse Canolles.Creia-me. dando um suspiro de pudico sofrimento. hoje é terça-feira.continuou a senhora de Cambes. é que tudo isso despreze. tudo o que de mim depender. que esta não tivera o ânimo de retirar.Mas supondo que não irá para lá. Clara baixava os olhos. sob o vestido de veludo.. . . Talvez que outras o recompensassem mais amplamente do que 267 eu faço. .Para onde vai agora? . impassivelmente.Agora diga-me o que tenho de fazer . dar conta da minha missão. e que cada um dos seus sofrimentos é pago com pesares. cuja recordação quase que me é tão cara como Chantilly.Pois então.Aqui tem . e a cada mágoa que lhe causar este desgraçado negócio. . . são precisos quatro dias para chegar a Jaulnay. olhe para ele. Mas não tenho de que me queixar: eu é que assim o quis. senhor. . se não escolhi o papel que nela represento. passado um momento: . .Com estimação. . senhora. 266 .

e abriu a boca para ajuntar: "E com amor. acompanhado de Pompeu. tem toda a liberdade de ficar em Chantilly. 268 .Dê mostras de espanto .De ambos.que represente ainda no espaço de um segundo o papel da princesa.Que eu não sou Sua Alteza a princesa de Conde. à entrada do quarto. e eu vou ter com ela. .Volte para Paris. tenho o atrevimento. para dar alento a Canolles. Dirá ao rei que as pessoas perseguidas recorrem à astúcia. para São Germano. a frase é sempre a expressão do pensamento. . Canolles. que não saí. mas tão-somente a viscondessa de Cambes. receba a minha saudação de despedida.Então o rei foi enganado?!. . O gentilhomem teve um sorriso de lástima que a si próprio dirigia..Vou partir. Contudo. . e o suposto capitão dos guardas apresentou-se a uma delas.. enfim: a sua comissão terminou aqui. que estava em pé à porta..a carruagem de Vossa Alteza está pronta para partir. Quero agradecer ao barão de Canolles em nome das ilustres pessoas que saíram desta casa.Que dificuldade pode ter em fazer-me completamente feliz?. de crer que Vossa Alteza é deste 269 parecer.Senhora . . Clara fez um movimento rápido para o mancebo. a sua comissão terminou.Ah! senhora. . e de esperar. É tudo quanto se me oferece dizer-lhe. e resmungando em tom de repreensão: . uma palavra mais! -exclamou Canolles. . por conseguinte. estendeu-lhe a mão.disse em voz baixa Clara a Canolles. ou do pensamento? . ..Que quer dizer com isso? .Para onde vai Vossa Alteza? . . o que malogra o emprego da força. olhando para a viscondessa. . A princesa partiu ontem à noite.Mas Vossa Alteza não se lembra que recebi de Sua Majestade a comissão de me não separar de si um só momento? .Em Jaulnay direi o resto . era visível a sua repugnância em continuar a representação desta comédia diante de uma plateia de lacaios. para me vigiar a mim.Ordenei a Pedrito que tornasse às suas mantilhas . nem sairei deste castelo.disse a viscondessa. teve apenas força para se inclinar. senhora. Esta voz era a da princesa viúva. sua primeira dama de honor. envolveu-o então num terno olhar. vermelho de vergonha. o respeito e a delicadeza com que se houve no desempenho de uma comissão tão difícil. e ouviu as palavras." Mas ao mesmo tempo que abria a boca.. . volte para a corte. A senhora de Cambes. encostada a duas damas. olhar que lhe deu alguma coragem.disse uma voz grave. que se dignará juntar aos seus agradecimentos os meus.. senhor barão. abriram-se as portas.Oh! senhora! senhora! A viscondessa compreendeu este olhar. dirigindo-se à princesa viúva.Senhor.disse ela. e o duque de Enghien onde está!? .Da frase.disse o capitão das guardas. para Nantes. Canolles ficou imóvel.Permita-me Vossa Alteza .perguntou ele. porque tal é o meu desígnio.

e o nosso luxo chega a ponto de termos bolsas. as fileiras dos criados do castelo.Toda a receita do cobrador régio se converteu em arreios. que. Eu não sou daqueles que se comprometem a uma coisa e fazem outra. desencantado do belo sonho com que Pompeu o embalara no seu falso papel de mordomo.. . portanto. nada mais.disse Cauvignac. aparência!. O senhor Lenet deu-me dez mil libras para levantar uma companhia: hei-de levantála.dizia um dos seis homens. 271 . Oh. "nimium satis est" -como dizia a Antiguidade o que se pode traduzir por estas palavras: . não sem algum receio de por eles ser insultado. capitão. e que o tenente Ferguzon leva o preso ao arção da sua cela.Só o demasiado-é bastante. mas quanto a si.Assim será. atravessando. tal como o som dos tambores e dos instrumentos alenta o soldado nas marchas.. que depois de se ter inclinado defronte da janela onde se encontrava a princesa viúva. verdade seja dita que nada tão dentro. .Dez mil libras é uma boa soma. . chegou ao pátio. com uma voz não isenta de certa comoção. sobretudos e bordados: estamos tão brilhantes como fidalgos.que seria uma boa soma. esquecimento. ou compreenderam mal o que acaba de dizer Ferguzon acerca das nossas obrigações para com a princesa. nosso amo e senhor. Estas palavras fizeram curvar todas as frontes diante de Canolles. .não ouviram..A princesa viúva. restava já a Canolles senão partir. era esta a despedida irremissível. Castorin. abalada por ouvir estas palavras tão firmes.Não importa.Sem dúvida -respondeu Ferguzon.Amigo . por tudo o que fez a favor da minha casa. Depois. rodeado por cinco companheiros. e a quem a sua profunda sagacidade talvez revelasse uma das faces deste novo segredo acrescentado ao anterior. caso daqui se não devesse nada a ninguém. parecer homem de bem! . senhor. reconhecimento.replicou Barrabás . . E no dia em que ela estiver organizada. Tal "melodia" agrada e faz temer o grupo. recolheu pois. ao seu quarto. onde já tinham um cavalo pronto. Canolles pôs um joelho no chão. de cabeça baixa. montado num bom cavalo. quanto a nós. . há-de . não importa . . meu querido Barrabás..tem a bolsa e dentro dela dez mil libras. dando-lhe parte de quanto se passara nos termos mais furibundos que lhe ocorreram: com este relatório esperava evitar os primeiros repentes do seu sobressalto ao receber tal notícia. percorre a estrada real de Paris a Bordéus.. uma voz imperiosa proferiu estas palavras: . as seguintes palavras: . e foi à pressa escrever a Mazarino. No momento de pôr um pé no estribo.De tudo o que fez contra nós.disse Cauvignac. tal como ia fazer a senhora de Cambes. deu de esporas ao cavalo e desapareceu de cabeça levantada. IV VOLTEMOS agora a falar de um dos intervenientes mais importantes desta história.. seguiu o amo. Ora.. pronunciou então. mas deve-se uma companhia à princesa.. diante da princesa. cujos olhos se arregalam ao mais leve tinido de um saco recheado de escudos de ouro.Sai muito caro.Façam as honras ao enviado de Sua Majestade o rei. Era este o complemento da cena. que lhe deu a beijar aquela mão que Henrique IV tantas vezes beijara. que me leve o Diabo. nós não temos aquele famoso bastante que corresponda a demasiado.

Isto já é bom presságio.disse um dos cavaleiros. somos necessários.Então quem? . . é você quem ocupará aquele posto. não se me tira da cabeça que a minha companhia me fará honra. Não tardarão a vê-lo. era único de toda a companhia que parecia convencido de que Cauvignac alcançaria o resultado prometido.declarou Ferguzon..E quem é que lhe juntará alguma coisa? . parou respeitosamente..Deve ser algum burguês: usa um capote preto. compreendo muito bem que está empenhado em preencher as suas obrigações. Mas não sabe fazer a continência militar.Não hei-de ser eu . Graças à pobreza que acaba de ouvir. então. Barrabás. depois. como diz Falstaff. e agora não será mais do que sargento. se não pagar essas quarenta mil libras. . veremos.O miserável raciocínio que acaba de fazer priva-o do posto que eu lhe destinava nesta companhia. . . meu amigo Carretel.sim. .perguntou uma voz.perguntou Barrabás. aproximando-se de Cauvignac. isso já é outra coisa! Ferguzon. e 272 não é esta a primeira vez que lho digo . levantar uma companhia com dez mil libras?. contudo. e a nós. sendo enforcado Fer-guzon.E nada mais? ... e já que nada disse. . mandar-lhe-iam oficiais de confiança. ... . . O grupo deu de esporas para alcançar o burguês.Ora essa não é má! O primeiro que aparecer! Ali vem um.Sim . mesmo a calhar. mas se a companhia amanhã estivesse organizada. chegando-se para o lado da estrada. e é de suma importância que a companhia se componha de boa gente. .Espera.disse Ferguzon.Com dez mil libras?!. . capitão.Você é um grande pedaço de asno. .. deu pelos belos cavaleiros a galope.. que já descubro lá em baixo.dar-me outras quarenta mil. Mas não percamos de vista o meu primeiro soldado. ombro com ombro: .. em tal caso tanto melhor: recrutamos para o serviço dos príncipes. qualquer coisa serviria. quem sabe se não perderíamos algo ao sermos demasiado honrados. até que.O homem é cortês .Sim . colocando-se ao seu lado. Quando aquele digno homem. e saudando Cauvignac.Pois não o vê? O vento levanta-lho de um dos lados. desde logo o nomearia alferes. .. . que montava numa boa mula. Se fosse para aquele bigorrilha do Mazarino.Se traz capote negro.Nenhuma. Garrotei.Já compreendo .perguntou Ferguzon. que ia muito pacificamente seguindo o seu caminho pelo meio da estrada.exclamaram em coro quatro vozes irónicas. não o vêem lá em baixo. Então.ainda que a essa quantia se tivesse de juntar alguma coisa. pois é evidente que nós seremos os seis oficiais de um tal núcleo de exército..disse Cauvignac . na estrada?. capitão? . é algum burguês rico. Hoje. . Eu. . . que tinha toda a confiança no engenho do chefe. É que Ferguzon.Tem alguma ideia de quem seja aquele homem. despedir-nos-iam.. mas para os príncipes..Está certo disso? .replicou Cauvignac. . . ensinar-lha-emos. Cauvignac respondeu à sua saudação. seja promovido por direito de antiguidade. que tivemos o trabalho a levantá-la.perguntou Cauvignac.disse este.

cada vez mais atónito.continuou Cauvignac com ar muito risonho . ou marechal da França. principiando a olhar para Cauvignac com uma certa desconfiança.Que quer dizer com isso? . eu já servi Sua Majestade na guarda urbana e pago pontualmente os meus tributos. o motivo por que me perguntava se amava Sua Majestade? .Às mil maravilhas! -volveu Cauvignac. Eu nunca as tive.Em toda e qualquer ocasião. faço questão! . . tenho advogado muitas causas na minha vida.respondeu o burguês.Digne-se dizer-nos.Rolando de Cauvignac..Qual é. .Cada vez melhor! E Mazarino? . isto é. e o motivo disso talvez seja porque . Cauvignac continuou sem dar mostras de ter reparado nesse movimento. seria então para mim tão sagrado como se meu irmão.. . pois. senhor: é soldado. senhor.Ah! tanto pior. senhor. que tem de acompanhar-nos.A rainha!. se ama o rei. e admiro-o! . senhor. senhor -continuou Cauvignac.. verdade seja. tanto pior. só costumo viajar em companhia de pessoas a quem conheço! .e alegro-me de que nenhuma antipatia terá para connosco. Agora. e por estes dois senhores. imposições. . meu sargento. senhor. capitão de uma companhia -ausente.Mas enfim.Eu sou . como o senhor de Turenne. meu alferes.Cada vez melhor ainda. O burguês fez um movimento.Disso. arregalando os olhos arrebatados de júbilo.E a rainha? ... . se não amasse o rei.Acompanhá-los aonde. taxas.Quero dizer. .É muito justo. .E por isso..respondeu o burguês.disse ele. meu senhor.. . senhor.Que dúvida pode haver nisso! ?. .E pronto a testemunhar-lhe o seu zelo.. Então -continuou Cauvignac-tivemos a sorte de encontrar um bom servidor de Sua Majestade . etc.mas dignamente representada por Luís Gabriel Ferguzon. senhor. e o outro meu quartel-mestre.Não. que dava indício de já o haver adivinhado. tem inteira liberdade para chegar a ser capitão. dizer-lhe quem nós somos..E como isto vem tanto a propósito! O certo é que só as estrelas reais podem oferecer tão felizes encontros.Porque. -exclamou o burguês. 273 . por Zeferino Garrotei..Eu. senhor. um dos quais é meu furriel. .. eu de modo nenhum o teria desviado das suas ocupações. por Jorge Guilherme Barrabás. senhor. por conseguinte.Senhor. como eu. se blasfemasse de Mazarino.Para o serviço dos príncipes inimigos do rei?!. mas sim para o dos príncipes.. O burguês deu um salto na cela.Para dizer a verdade. de surpresa e susto: . senhor? . que assim deve fazer todo o homem prudente. . ainda não sei muito bem aonde vamos. o hábito das demandas é um mau hábito. . 274 Mas. senhor. vou.. ficou a conhecer-nos .. senhor. eu não sou um escravo. . não sou um servo!. .perguntou o burguês.não é para o serviço de Sua Majestade que pretendo alistá-lo. . meu tenente. de quem sou indigno representante. .Mazarino é um grande homem. se acusasse a rainha.. . Venero-a de todo o meu coração! .

.Por uma demanda perdida. . .Nós contávamos consigo! E far-nos-á muita falta. Quatro mil libras!. .Eu estou munido de uma autorização.Quatro mil libras. para negócios de dinheiro. E Cauvignac tirou o chapéu com todo o respeito. senhor. senhor! .. há dezoito mil setecentas e setenta e duas leis. que saiba dezoito mil e setecentas e setenta e . Ei-la aqui. .. . que monte uma mula com os pés para fora como o senhor. .Para isso é preciso muito tempo. por motivo da morte do marechal d’Ancre.Eu..É justamente a quantia que desembolsaria. .estudei para ser letrado. e também terá provavelmente ocasião de servi-lo. E que fruto colheu do conhecimento dessas leis. que desde as Pandectas de Justiniano até ao acento do Parlamento que declara. . Saiba.Em Orleães.Não há dúvida de que é um terceiro rei. se. porque considero um dever alistá-lo para o seu serviço.De quatro mil libras. eu.E para que negócios? .. . senhor! ...Sim.. não? 276 ..-exclamou o burguês. senhor. aprendi as leis do Reino. senhor! Esperam-me para certos negócios. porém. na França!. . a caminho..O fruto.Não.Por alguma demanda que ganhou. . sim.E quem o espera? . advogando. que ia pagar. 275 . senhor. senhor. .Que ia receber? .. como diz. caso os príncipes consentissem que os seus serviços fossem substituídos pelos de um mercenário.Onde? .Com efeito.. . .Pelo que vejo há dois reinos..E que quantia? .De Sua Alteza em pessoa. .. . que nunca poderá um estrangeiro ser ministro de Estado em França.Ao seu procurador? . senhor? . .Mas isto é impossível. A nossa política é larga. . sem contar os ordenanças. .Quem substitua um homem da sua catadura... isso é coisa digna de consideração. o fruto de saber que sem autorização não se anda obrigando pelas estradas a assentar praça.. . e eis a razão por que tenho a honra de lhe pedir preferência. senhor.. Vamos.Para negócios de dinheiro. se encaminhava a Orleães para negócios de dinheiro.O primeiro negócio é o serviço do Estado.Precisamente. ..Acaso não podem passar sem mim? .O meu procurador.Essa agora! Poderei achar um homem que me substitua por trezentas libras.Eu apelarei para o Parlamento! . Pico de Ia Mirandola falava doze línguas aos dezoito anos. na verdade! Contudo.Sim. .Da senhora princesa?. mas enfim há mentes privilegiadas que têm uma memória espantosa.

Que miserável! Fazer-me condenar ao reembolso de tal soma!.E por isso dou-lhe a minha palavra que prefiro ver esse dinheiro nas vossas mãos do que nas dele.Venha connosco. Ora! Deixemo-nos disso.Um roubo à mão armada! . . trezentas libras seriam sem dúvida suficientes.Que lhe não devia?.disse Ferguzon. . .Contra quem? . senhor! Se fosse algum homem comum.Já lhes disse que era uma condenação em resultado de uma demanda perdida. Aceita.Os senhores? Mas. não valeria a pena fazer concorrência ao rei.disse Cauvignac. .Assinado por ele? . um recibo em forma.Vejo perfeitamente qual é o seu fito! . senhor: dê-nos as suas quatro mil libras.não é um estalajadeiro dos arredores de Libourne? . Precisamos de homens do seu mérito. Foram continuando a caminhar para Orleães. e dê-nos algumas informações mais.Bem o vê. . .. nada mais é do que uma necessidade. . mas que tinha toda a esperança de nunca lhe pagar.Ali mesmo.. e o meu recibo? . Cauvignac fez um aceno sorrateiro com os olhos. e recebê-lo-á em boa firma. .. . julgo que ficará satisfeito. .Agora. que são indispensáveis.Sim. isso é outra coisa.e esfolá-lo-íamos em vida para reparação desse insulto.É esse mesmo..O caso é digno de atenção! ..Então.. entregar-me-ão um recibo dele?. O burguês conduziu os angariadores de recrutas 278 . . e da sua estatura.E quem há-de então pagar ao meu procurador!? -Nós.exclamou o burguês. senhor. visto que o não posso evitar. que era orleanesa. aonde chegaram passadas duas horas.Biscarros . Que diabo! Não se menospreze: parece-me que vale bem as quatro mil libras! .Mas." . então-..Muito bem.Sendo assim. insulta-nos . . que é autor nesta demanda como herdeiro da mulher.Senhor. . diga-nos onde vive o procurador.Isso fica por minha conta. .Como farão para almoçar? . que eu estou alerta. que tem a sua habitação entre essa cidade e Saint-Martin de Cubzac. .duas leis?!.Contra um certo Biscarros.continuou Cauvignac . da sua graduação.Não tanto assim.Que remédio tenho eu. . compreendo que isso é coisa dura. Conhece-o? -Tenho ouvido falar dele. se não nos gabássemos de que os exércitos dos príncipes conservam a boa reputação de que gozam.Assinado por ele. mas não acredite que isto seja uma extorsão.. . 277 . Não. sim. .Na estalagem Bezerro de Ouro? . mas se nos contentássemos com substitutos ordinários.. que queria dizer: "Nada receies. ...

Meia hora depois..O recibo está então em forma.Entregar-lhe-ás esta quantia. e do melhor .para a estalagem mais vizinha do seu procurador.Manda-nos trazer vinho. ..Quando lhe apresentarmos o seu recibo.Virá na forma que pretendíamos? E Cauvignac entregou ao burguês o pedaço de papel selado.Ora.perguntou o burguês. que tão grato era ao paladar gascão de Henrique IV. O burguês assim fez. O burguês obedeceu. .E que mais!? Ponha-lhe a data e a assinatura. eis o recibo.Nenhum.É tudo. estou resgatado?. enfileirou as pilhas sob os olhos espantados do burguês.Não tem. . pois... Cauvignac arrecadou-as nos seus alforjes. . portanto. por isso mesmo será mais bem desempenhada a comissão.Perfeitamente.Nenhuma! Mas sem dinheiro.E então? .disse o burguês . .perguntou Cauvignac. .Nisso não haverá a mínima dúvida. Era um verdadeiro covil de bandoleiros. sim.disse Cauvignac. parte em ouro e parte em prata. Conhece a letra do seu procurador? . . e por isso.Vem. e vai a casa do procurador.Eu adiantarei esta quantia . voltou.E que farei em casa do procurador? . e encontrou Cauvignac sentado à mesa com o burguês.Agora .Tanto melhor.disse ele . .Bem. . e arrecadarás o recibo. .disse Cauvignac a Ferguzon. . . não terá então dificuldade alguma em nos entregar o dinheiro? . .Agora .disse Cauvignac. Senhor Rabodin: Envio-lhe as quatro mil libras de despesas e juros que fui condenado a pagar ao senhor Biscarros. Tenha a bondade de entregar ao portador um recibo em forma. .Agora . .Chama-se Rabodin. . Ferguzon tinha grande confiança no capitão. onde foram ocupar o lugar das quatro mil libras ausentes. -É tudo? .. . O burguês contou as quatro mil libras.como faremos? Bem que eu não queria desapossar-me das minhas quatro mil libras. o meu procurador não quererá passar recibo: eu conheço-o muito bem. e estou desconfiado que queira fazer delas mau uso. a não ser em troca do recibo. E no mesmo instante. .Sem dúvida alguma que está..O senhor há-de ter sede. .. sem mais réplica. tirando dos alforjes quatro mil libras.E que mais? . fazendo ambos honra ao famoso vinho de Orleães. 279 .pega nesta carta e neste dinheiro. pejo algum em dar-me o seu dinheiro em troca deste recibo? .disse o burguês. . . pegue numa pena e escreva.como se chama o seu procurador? . . em cuja tabuleta se via pintada uma pomba com este letreiro: "A Pomba da Arca". encaminhou-se para a porta.Dê-mo então..Não posso compreender. disfarça-te em maleiro.E então. Ferguzon fez uma cortesia em sinal de obediência e saiu. ..

iremos caminhando a passo. . . . mas de quem. pois se assim não fosse..Tenho. . pôr-nos-emos a caminho amanhã de manhã..Eu pessoalmente não.. 280 . . 281 Garrotei fez uma pirueta sobre si mesmo. . não é assim? Envie-me o afilhado com o sobrinho.disse Barrabás.Veja como andam bem vestidos. Carrotel! ..Então. e nunca mais o importunarão..Não.Com todo o gosto. no meu entender. Pergunte a estes senhores como eu os alimento. .Sem dúvida. .talvez me respondam que basta um só para desempenhar essa comissão.. .Quinhentas libras?! Não posso compreender. mas. como bem compreende.É possível -aceitou o burguês. . Bar-rabás.Uma vez que tenham tomado gosto ao serviço sob as minhas ordens. e pelo qual me vejo obrigado a pagar uma avultada pensão. completamente sossegado com a posse do recibo.Realmente. . . . eles desconfiariam de alguma coisa..disse Cauvignac. Dê-nos as quinhentas libras. não é assim? .-Tenho cá um certo pressentimento de que não nos separaremos sem termos concluído outro negócio.Boa vontade tenho disso... se não tivéssemos algum pretexto para fazê-lo. . se poderia fazer um excelente soldado..Rapaz indócil e bulhento.O certo é que não se pode deixar de admirar o seu asseio. e é negócio concluído. .Dar-lhe-á a eles as outras duzentas e cinquenta libras. .disse o burguês. hum.Mas . que eu farei dele um herói.. . porém. .Alistá-lo-ia? . é muito lisonjeiro o que me diz. não trocarão a sua posição pela do imperador da China. sim! A não ser que esteja absolutamente decidido a assentar praça. responde. Responde.Mas o quê? Vejamos . e dará a cada um cento e vinte e cinco libras.Diga-lhe que venha ter comigo.De maneira que preferia que ele tomasse uma espingarda. um sobrinho. e nada mais.Não há dúvida . de que depois será embolsado pelo respectivo soldado. Mas.Dir-lhe-á que os caminhos não estão seguros.que vivemos como uns fidalgos.E de quem quereria desembaraçar-se. para lhes dar tempo de nos alcançarem. . Demorar-se-ão muito tempo aqui? .Tanto não quero dizer. e isso servirlhe-á de pretexto para mós enviar.Oh! meu Deus.Então? Enviar-me-á os seus dois rapazes? .Tenho também um afilhado. . a fim de mostrar por todos os lados o seu esplêndido trajo. E estarão eles bem? . e é preciso pagar logo que entrarem no serviço.. O burguês arregalou os olhos de maravilhado. isso custar-lhe-á apenas quinhentas libras por ambos. .São razões particulares. .. porque quer que eu pague para não entrar nele? .. o seu sobrinho e o afilhado pagam cada um deles duzentas e cinquenta libras..Não tenho mais que duzentas e cinquenta. um rapaz de mérito que quer tomar ordens sacras.Hum.

animal que os sábios modernos olham como fabuloso. Barrabás saiu e voltou passado dez minutos.Um privilégio do seu emprego? . . . sou oficial de justiça de Sua Majestade. Cauvignac acreditou por um momento ter encontrado o basilisco. está muito enganado.Em breve me compreenderá. .Oficial de justiça de Sua Majestade?! -Tenho essa honra. Cauvignac atravessou a antecâmara. .senhor Barrabás .. e pegue nessa patente.. senhor.O conceito. . Encaminharam-se ambos para casa do procurador. não falaremos deles.Bem.. bem sabe.peço-lhe que me desculpe se me apresento deste modo diante de si sem primeiro anunciar a minha chegada. .Eu.. . . e levantou a cabeça. deixou Barrabás no escritório.disse Cauvignac . Ouvindo o ruído dos passos de Cauvignac. e. .. onde tinha uma antecâmara. mas acrescentou ele . escrituras e sentenças.Tenha a bondade de dizer-me qual é o seu emprego. . o conceito que dele faço é julgá-lo um homem muito honrado. Vista o fato de recebedor. VI .Faça o favor de dizer-me o conceito que dele faz? . .O conceito que dele faço?. tal como a pele da enguia lhe está pegada ao corpo. Era um homem alto. . mas como não estavam abertos aos clientes. O senhor Rabodin estava sentado a uma mesa tão carregada de maços de papéis que o procurador parecia na realidade enterrado em meios de autos. seco e pálido. com uma casaca preta tão justa que parecia colada aos ombros.é este um privilégio do meu emprego. que fingiam estar escrivinhando. .disse ele. muito bem! E sem dúvida tem a patente dele.. encantado por haver arranjado processo de acomodar..Senhor . senhor. Sim. senhor. e que lhe dê ares de algum empregado na cobrança dos impostos?. Encontrou Cauvignac todo vestido de preto. . pela diminuta soma de quinhentas libras. e passou para o "sanctum sanctorum". guardei-a com todo o cuidado. pois..O tenente Ferguzon disse-me que não a perdesse. um sobrinho e um afilhado. senhor. a quem nós.disse Cauvignac .Ora.não há senão os militares para vencer quantas dificuldades possam apresentar-se! E depois de ter contado as duzentas e cinquenta libras a Cau-vignac.O tenente Ferguzon é o homem mais previdente que tenho conhecido. o senhor Rabodin vivia no terceiro andar..não tem (na sua mala algum fato menos elegante do que o que usa.. Não é verdade que conhece o senhor Biscarros? . retirou-se. . com quem despendia mais de mil francos por ano.Não o compreendo.Tenho o do cobrador. portanto.. completamente transformado. tanto refulgia nos pequenos olhos do procurador o sombrio esplendor da avidez e da cobiça.disse Rabodin.Sem dúvida que o conheço: é meu cliente. que então surgiu por entre a papelada de que estava rodeado. endireitou as costas curvas.Na verdade ..Sim. parecendo um oficial de justiça. .. um escritório e um gabinete. o conceito. sem dúvida que mais alguns quartos ocupava. e lançou ao passar um olhar de reconhecimento aos dois 283 escreventes. mas que se divertiam a contar petas.

. se eu declarar que nenhumas relações tenho com aquele miserável do Biscarros.continuou Cauvignac ..Está bem de ver. .. foi "tratado".Como assim!? Pois engano-me?! . .Um homem que deu a sua palavra de envenenar o rei. como muito bem compreende. que mandaram comigo para receber as diferentes quantias que o desgraçado Biscarros assim andava espalhando. Contudo. . Mais não fiz do que examinar se estava certa a conta. tanto pior. neste mesmo instante. confessa que 285 a recebeu.E com efeito tenho-a em meu poder. . mas há apenas um instante que a recebi. queira reunir todos os seus recursos para se fazer chefe de partido. O dinheiro ainda ali está no saco em que mo entregaram.Ainda não é tudo. deixando-se cair na sua poltrona.Não. o que é uma prova contra si. . com efeito.Tanto pior. . . -A minha pessoa?! .E que eu acabo de prender. pois não estou autorizado a cobrar o dinheiro de Sua Majestade. senhor?! .. aniquila-me! . senhor.Porque me verei forçado a deter a sua pessoa.Além disto. . como réu de crime de lesa-majestade.-Faço já a entrega.Verdade é. o senhor está comprometido neste negócio. senhor. enfiado. . senhor.continuou o falso oficial de justiça. O procurador ficou sem pinga de sangue.E. se por acaso se apeassem na sua estalagem.disse Rabodin. que aquele infame Bis-carros destinava ao pagamento de um exército de rebeldes. .Eu.Sim.De nada. de nada.Conte-o. . para as reunir quando fosse preciso.. senhor . recomendou-me muito que logo que eu recebesse estas quatro mil libras. aquele cobarde. . se eu lha entregar.Diga-me. Mas trago o cobrador de Libourne.Eu. devo dizer-lhe que a entrega imediata do dinheiro.. senhor. senhor.O seu honrado homem é um rebelde. . senhor.. senhor. .. senhor: se eu consentir em restituí-la.Ah! se não tivesse recebido aquele dinheiro . . .Senhor. . porém. Que miserável! E o senhor de nada desconfiava.E então porque será tanto pior? . e conduzir à prisão de Libourne.284 .Quem havia de dizer!. . ..Tem em seu poder uma certa soma. que essa soma devia estar nas suas mãos.. e confessou. conte-o o senhor mesmo. .Uma soma de quatro mil libras. tal não farei. sabe já sem dúvida que a princesa fugiu de Chantilly e se encaminha para Bordéus. . um rebelde que se valia da posição isolada da sua estalagem para dela fazer um foco de conspirações. comprometido?! E como é possível!? .o negócio seria muito diferente.E está certa? . que não o conheço!. . que recebi por conta dele.Já agora. tratasse de as fazer chegar às suas mãos quanto antes.exclamou o procurador. a rainha e Mazarino. -Um rebelde?! Será possível!? . .Não deixará por isso de haver graves suspeitas contra si.Sem dúvida: o acto de acusação designa-o como cúmplice. neste mesmo instante!-exclamou Rabodin.Palavra!? . por fim.

que as ordens de que sou portador são muito severas. e só uma vez lhe escrevi. . confessa que se corresponde com Biscarros. senhor.Eu.continuou Cauvignac. senhor. .disse Cauvignac . Barrabás contava o dinheiro .. que sois procurador. . .Senhor. . senhor. .disse Cauvignac.são precisas provas. . . apontando com o dedo para a carta do burguês. senhor. senhor recebedor . .repetiu Cauvignac. 286 Rabodin leu com voz trémula: Senhor Rabodin: Envio-lhe as quatro mil libras que fui condenado a pagar ao senhor Biscarros. . senhor.Provas. . em justiça não é bastante a afirmativa.Um mau uso! .. . essa não é má! Leia. não querendo fazer a desfeita de a ler. por fim.. . e estou pronto a entregar-lhes.O senhor confessa tudo . sabe-o melhor que ninguém.disse Cauvignac.Sim. Que prova? ..Ninguém o havia avisado? . e estou desconfiado de que queira fazer delas mau uso. que estou inocente. a horrorosa reputação do seu cliente já por cá havia chegado.Senhor recebedor . .Façamos as coisas com toda a regularidade ..Como?.. Barrabás apresentou a sua patente ao procurador. .mostre a sua patente. estou aterrado! .Não posso ocultar-lhe. . conte este dinheiro. aproximando-se da porta: .disse Cauvignac.Então que me está dizendo.Digo-lhe que estou pronto a entregar-lhe o dinheiro! Ei-lo aqui. com receio de algum engano.O senhor confessa que tem na sua mão dinheiro que pertence ao acusado. . não quero mais vê-lo em minha casa. não lhe disse já que havia suspeitas contra si? . .Eu repito o que já lhe disse: que não estou encarregado de cobrar o dinheiro do rei.Cada qual deve desempenhar o seu ofício.Ei-lo aqui. Barrabás entrou..Agora .Ninguém... no meio dos outros papéis. . enquanto. o senhor. eu as darei. e passe um recibo em nome de Sua Majestade. Então. . mas. quando o senhor mesmo me dá uma prova em contrário?. .Juro-lhe.Como pode dizer tal!? Que confesso eu!? . que a repeliu com a mão. enquanto lhe não deram tratos.Como muito bem vê.Mas que me está dizendo?.é preciso que me acompanhe.Que o acompanhe?.disse ele. .. 287 .Mas eu. sempre mudou de linguagem.O caso não está em afirmá-lo. que ficara aberta na escrivaninha. . Nunca recebi por conta dele mais do que estas quatro mil libras. senhor. pegue nele.disse o procurador.Sem dúvida. nunca recebi dele senão duas cartas. .Outro tanto dizia Biscarros.exclamou o procurador.Ora.Venha cá. . juro-lhe que Sua Majestade não tem um súbdito mais fiel do que eu.

. fazendo outro sinal semelhante ao primeiro.Mas decerto! .mas decerto.Isso ainda não basta. .E quais? .Mas muito torto nos olhos.De boa vontade o faria. verá ao mesmo tempo para a direita e para a esquerda..disse Cauvignac. . .E então? .Sim. ao rei. ..Parece-me que.Fale.. porque os seus negócios estão muito embrulhados.disse o procurador. . e com sumo gosto eu lhos dou. sacrifício! Cauvignac e Barrabás olharam um para o outro. o senhor. a guerra a tiros de canhão custa mais cara do que a guerra de palavras..E o outro? . senhor... .O quê.. que seria um triste soldado. Venha cá. . senhor.disse Rabodin . e como olho de esquerda. seria precisa uma garantia para o futuro.E porque não? .Isso é impossível. senhor. ..se não é preciso mais do que isso 289 para provar o meu zelo pela causa real.O rei tem muita necessidade de procuradores.continuou ele. Fricotin.se tomo parte na discussão. do seu soldo.Tem quinze anos. por conseguinte. Não faz pouco em se encarregar da sua instrução. .. senhores . e então as assinaturas? . Cauvignac fez um sinal com a mão. senhor! Que posso eu oferecer ao rei? .perguntou Cauvignac.Tanto melhor.Se o senhor oferecesse ao meu amigo.Encontra-se neste mesmo momento em Orleães um capitão meu amigo que alista uma companhia para o serviço do rei. . mas deve compreender que o rei se encontra em grande aperto quanto a dinheiro. 288 . quinze anos! E toca tambor às mil maravilhas. . eu farei um . . enquanto os outros vêem para diante. um procurador?!.Eu.. pô-lo-á de sentinela. O rei não pode encarregar-se do armamento destes dois mancebos.É uma vantagem.Fá-lo-á reger pelos seus escrivães. Venha cá. e fá-lo-ei.Dezoito anos. .disse o procurador. para dar a entender que desejava que deixasse ficar Fricotin onde estava.Perdoem-me. ora... senhor. segundo me parece . e. fale. . tem razão: muito triste . e o meu escritório?. senhor.Os seus dois escrivães. . . senhor recebedor? . tanto melhor...Imdique-me o que posso fazer.disse Barrabás . Prepara-se para assentar praça no corpo dos alabardeiros.Senhor .Qual? . são dois belos moços.Que lhe parece. assentaria praça nessa companhia.Toda a minha vida passada.. cinco pés e seis polegadas.. bem sei. . ou antes.Um deles pareceu-me uma criança. . mas. Chalumeau. senhor. já sabe o manejo da alabarda. . . se estivesse no seu lugar.Há um meio de provar de um modo incontestável o seu zelo pela causa real.exclamou o procurador . . . pois. . .E então.

aqui o senhor Rabodin encarrega-os de uma comissão de confiança. sob qualquer pretexto.Assim é de esperar. oferece a Sua Majestade. dir-lhes-á que façam uma saúde ao rei.consinto nisso. . Fricotin. de carácter desconfiado. olhou ao mesmo tempo para Cauvignac e para o procurador. .que eu não me obriguei a dar as cinquenta libras. O procurador chamou os dois mancebos. Agora.. seria melhor que fosse fora de Orleães. .. devemos tratá-lo com toda a consideração. porém .E. . amanhã pela manhã..Muito bem. . beberão com entusiasmo: e ei-los soldados.. aceitá-lo-ão. e reforçado. Chalumeau.Cuja quantia . com uma expressão de dúvida que o tornava ainda mais vesgo do que o costume. um rolo de documentos relativos a uma demanda que o capitão Cauvignac tem com o senhor de La Rochefoucauld. travesso. Fricotin era um rapazinho que não tinha mais de quatro pés de altura. . 290 . . para permitir maior sigilo.Ficarão contentíssimos. Rabodin abaixou a cabeça: daqui não podia fugir.disse Cauvignac . os quais. O senhor Rabodin dará a cada um vinte e cinco libras de gratificação por este trabalho. Mas estarão de acordo os seus dois escrivães?.continuou o falso oficial de justiça . por exemplo. e para que os orleaneses não se lembrassem de açoitá-lo como Camilo mandou fazer àquele mestre-escola da Antiguidade. não é assim? . .Sim. .Mas ao menos. deu um grande pulo..Um recibo em que se declare que são para o armamento de dois jovens soldados. .Não serei inquietado? . .. seria bom não lhes dizer..Senhores . .Repare. .Sem dúvida que estou.Está certo disso? . oferecer-lhes-á um copo de vinho.Na primeira estalagem.Na estrada real de Orleães e Turones. por conseguinte. à primeira estalagem que se encontra na estrada de Orleães a Blois. .Sim.disse com viveza Rabodin . . .disse o procurador .Capitão Cauvignac.Penso que o senhor dá ares de quem fala com franqueza-respondeu Barrabás..A coisa é muito simples: envio-os ao vosso amigo. mas espero que me darão um . aí encontrarão o capitão Cauvignac. a qual consiste em irem buscar..Enviá-los-ei ao vosso amigo capitão Cauvignac.Ordenar-lhes-ei que vão ter com ele fora da cidade. Contudo.Vamos . à mesa. rapaz crédulo. .Apelaria para o meu testemunho. delgado como um espargo e vermelho como uma cenoura.Assim o creio.. . mediante este sacrifício.A honra que se lhes reserva. Dê ao senhor um recibo de quinhentas libras.Isso seria mais prudente. . era necessário passar por esta porta ou pela prisão. Chalumeau era um grande simplório de cinco pés e seis polegadas. pode chamá-los. Como se chama ele? .E então como se há-de fazer? .. poderei ficar sossegado?. vivo. instigado pelo zelo.o senhor Rabodin se pagará lançando-a em conta nas despesas do processo do capitão Cauvignac com o duque de La Rochefoucauld. .E se contra toda a justiça eu fosse perseguido? .

que falava de um desembarque na Escócia para reconquistar os seus estados. e a Chalumeau que leve a sua alabarda. o que.. porque já ali fora uma noite levar uma ordem a Canolles. e como era de infantaria a companhia que Cauvignac estava encarregado de organizar. Além disso. mas estas mesmas se aplanaram ante as ameaças de Cauvignac. alguma discordância nas reclamações. só a custo pudera sujeitar às regras da obediência passiva. segundo dizia Cauvignac. como muito bem se vê. . Cauvignac procurava um centro: chegou a uma aldeiazinha situada entre Chantellerault e Poitiers. tudo se passou como Cauvignac previra: o sobrinho e o afilhado não tardaram a chegar.contínuo e necessário. não! . depois deles. um com o seu tambor e o outro com a alabarda.-Diga a Fricotin que pegue no seu tambor. No dia seguinte. A uns fazia abraçar a causa do rei da Inglaterra. . mui fiel súbdito de Sua Majestade. onde se recordava de haver ceado muito bem naquela noite. . reconheceu-a. já compunha uma bela patrulha. e dando-se por muito feliz ao sair dele por tão pouco. . Ao princípio. .porei os dois escrivães no recibo. no momento em que lhes declararam que tinham a honra de ser alistados para o serviço dos príncipes. 293 apesar de toda a sua persuasão. O cavalo em que o sobrinho e o afilhado vinham montados. Era a aldeia de Jaulnay.Não. as promessas de Ferguzon. essa não é má!. tanto de uma como de outra parte. os dois novos alistados nada tiveram que dizer. A marcha de Cauvignac assemelhava-se a um triunfo. sempre será outra poupança. ao feliz êxito da operação soldados e oficiais iam avançando. ajudado por um certo mistério .disse o recebedor. ambos montados no mesmo cavalo. algumas dificuldades. sob pretexto de se irem distraindo pelo caminho! Dito isto. Não deixaram de se levantar. E entregou-lhe o papel. e a lógica de Barrabás. Tornaram a pôr-se a caminho. não deixou de haver alguma disparidade nas cores.Veja se eu não havia previsto o seu desejo. e acreditou ter encontrado ali o que buscava.disse com viveza o procurador . Contudo. e estabeleceu o seu quartel-general na estalagem. que o tenente Ferguzon. chegaram Fricotin e Chalumeau.Mas sob que pretexto quer que lhes faça essa recomendação? .Ei-lo aqui . Cauvignac tinha reunido vinte e cinco homens.disse Barrabás . 291 .recibo da dita quantia. têm origens menos majestosas.A propósito-recordou Cauvignac ao senhor Rabodin. deixando o senhor Rabodin espantado pelo perigo que correra. foi destinado ao transporte da bagagem..está muito bem assim. o falso oficial de justiça e o recebedor retiraram-se. não . O engenhoso bandoleiro encontrava meio de conduzir para a guerra os mais obstinados partidaristas da paz. Muitos rios. a quantia de quinhentas libras para ajuda na sua guerra contra os príncipes. sem saberem o que iam fazer. a título de oferecimento voluntário. Quatro dias depois de sair de Chantilly.Ora.Se lhe parece necessário . que fazem grande alvoroço ao lançarem-se ao mar. onde estavam escritas estas palavras: Recebi do senhor Rabodin.

o objectivo que se propunha era formar um núcleo de cem homens. evitando arvorar bandeira alguma antes do momento ideal. A senhora corou. que. .lhe era permitida a escolha. . seguida por um escudeiro. pouco mais ou menos. sorrindo-se.Ah! se é sob esse aspecto que encara a coisa. . estava triste e de mau humor. um médico. como era seu costume. estava.Isto não está nada mal! Já temos um sobrinho que havia de ser letrado. Cauvignac tinha atrás de si as tropas do senhor de La Rochefoucauld. como já dissemos. viu surgir na extremidade da rua uma jovem senhora a cavalo. e pela frente as do rei. a qual lhe respondia do quarto. Um dia em que Cauvignac.Oh! oh! bem o sabe. mas o nosso tesouro ainda não passa de vinte e cinco mil libras (fácil é de ver que o tesouro. e o pior do negócio é que em breve teremos de combater. dois escreventes de procurador. .Decerto que não me engano! Antes pelo contrário. visto que a estalagem. apontando para a passageira: . . para dele tirar o melhor partido que pudesse. a cavalo como ela. . Cauvignac aproximou-se da jovem senhora. depois de haver andado toda a manhã à caça de homens. que se concentravam na Guiena. um afilhado que se destinava à Igreja.Sim.disse a senhora.Silêncio! Vais ver. senhor .Eis o quinquagésimo soldado do regimento de Cauvignac. tão certo como estarmos aqui! . portanto. 295 . parece-me que não teríamos que dar por mal empregue o nosso tempo.Sim. . conversando com o seu tenente e com o alferes.O senhor mesmo. Pôs a mão no braço de Ferguzon. e completar as trinta mil. interrogava a estalajadeira. levando a mão ao chapéu. e aprovo completamente.Pode ter a certeza de que se engana.respondeu ela. belo visconde. que. Situado deste modo a cavalo na principal estrada de Paris a Bordéus. O garbo com que a formosa amazona conduzia o seu cavalo. .Sou um seu criado. a mão a cada um deles.Meu gentil-homem. e se pudéssemos arredondar essa quantia. à espreita na porta da estalagem. tendo parado defronte de uma das janelas da estalagem. portanto. três padeiros e dois guardadores de perus. sem que se lhes junte uma mulher. eu!? . o recrutamento ia-se adiantando. sentindo-se indisposto naquele dia. era a única que ali havia. e disse-lhe. no meu entender. não o duvides. senhor. Estendendo. e por dois machos carregados de bagagem. meu gentil-homem .Quem? Aquela senhora? . e Cauvignac já havia levado a efeito quase metade do seu projecto. . dois droguistas. ela.crescendo todos os dias). e o ar arrogante do escudeiro que a acompanhava.disse ele com toda a urbanidade.Não sei o que quer dizer. que sitiava Saumur. ora. . assim como a tropa. suscitaram 294 a Cauvignac uma recordação. sei maravilhosamente o que digo. e a prova disso é que já tem nas faces bastantes cores. nada tenho que dizer. maus soldados já temos bastantes. .

296 . ei-lo justamente aí! Diga também que eu não conheço aquele querido senhor.. senhor.Mas.Não lhe farei o mesmo cumprimento.. . e mande aprontar a ceia . senhora? . senhor. como é de justiça confessar.se a sua conversa não fosse misturada com algumas palavras sensatas. como muito bem o sabe. com uma perturbação que em vão fazia por disfarçar . . . na estrada de Saint-Martin de Cubzac. . Além do que. já lho disse.E a segunda? .A primeira vez. pois espero uma pessoa. explique-se. mas já não me lembra onde. . senhor. não pode haver qualquer certeza de que fossem amigos todos os que ali estavam.disse Cauvignac. . pois dar-me-ia uma singular ideia de si.Mas.Não. senhor..No dia da caçada? .E por que razão? . uma noite.e além disso.. . com o trajo do seu sexo.Que se apeie. Tive a honra de encontrá-la haverá umas três semanas. sim .Ah! então está a ver claro. senhor Pompeu.Que quer que faça. nada de zombarias.disse ela -parece-me que o vi em alguma parte. senhora. .Ter a honra de propor-lhe que descanse nesta estalagem. foi em Chantilly. e. . não. enfim: que deseja? .Só naquele dia é que eu estava disfarçada.perguntou Pompeu. . senhor . Tem ainda consigo o senhor Pompeu? Ah! sim. nesse dia. senhora. . pois entendo que é coisa muito razoável uma pessoa disfarçar-se quando conspira. para malograr todas as diligências.Em tal caso. . . na realidade julgaria que está completamente louco. O escudeiro e a jovem senhora olhavam estupefactos um para o outro. .Pondere as suas palavras.Eu não zombo. .. a um quarto de légua da estalagem do senhor Biscarros?.Oh! pode fazer a ideia que quiser. .creio que é a mim que compete .para que são essas mostras de tamanho espanto? Atrever-se-á a dizer que não é aquele que encontrei.Com efeito.. .Agradeço.Havia ali muita gente. portanto.Vamos.Justamente. contudo. já nada tenho a recear. foi nas margens do Dordonha.. senhor.. .disse a viscondessa. peça um quarto. . . iremos conversando.continuou Cauvignac . . senhor.Senhor . . e se quer uma prova. pois é um dos nossos. vou dar-lha. hoje é que está.Não nego esse encontro.replicou a viscondessa . .Muito bem: apeie-se. seguido pelo seu fiel escudeiro.. é fácil compreender que julgará mais prudente. e enquanto não chega essa pessoa. assentalhe muito bem. visto que os sinais do visconde de Cambes foram mandados a toda a parte na Guiena. A jovem senhora cravou os olhos em Cauvignac com uma inquietação que cada vez mais se acentuava.Parece-me.Sim. não posso aceitar o seu oferecimento.Porque estava em casa da princesa. .Dê-me licença que lhe diga que isso não é uma razão. adoptar momentaneamente esse trajo . eu não sou desconfiado. nas margens do Dordonha.A segunda.

Tu. embrulhado num grande capote forrado. o que.É provavelmente o gentil-àomem por quem se espera. .. os dentes eram pequenos e brancos.perguntou a jovem senhora. Desde o momento em que os quatro homens tinham rodeado a sege. se chegou a ele. fazendo sinal ao seu estranho interlocutor para que a seguisse. faz o que eu disse.Então. não percas de vista a porta. a quem pudesse pedir a explicação para o modo singular como a sua gente o tratava.Assim farei.Obedeço. e entrou na estalagem. .Não é tanto assim. Com efeito. visto que.E como é possível que tal aconteça!? . e essa pessoa é um oficial do rei. e a inferior do rosto . aceite o meu braço. . agora. 298 Um gentil-homem. e deu alguns passos. senhor visconde. aliás. deixa-te ficar neste corredor.Sim. Deixa entrar toda a gente. A viscondessa compreendeu que nenhuma resistência podia opor. não deixara de lhes fazer repetidas perguntas. e ia entrar atrás dela.disse Cauvignac. beleza e espírito. parecia terse resignado a esperar. e dois lacaios às portinholas.Ah! espera-se algum gentil-homem?.isto é: a parte superior da fronte. Pompeu. . e que desde logo a haviam escoltado. senhor visconde. não era possível avaliar a impressão que este acontecimento produziu no jovem viajante. . . Mas tenha a bondade de se apear. que a haviam encontrado a um quarto de légua da vila. Mas sempre quero preveni-lo de uma coisa: é que a pessoa a quem espero não tardará a chegar.Capitão: uma sege tirada por três cavalos. mas que ninguém saia. conduzida por quatro homens da companhia de Cauvignac. dependerá da conversação em que vamos entrar.revelavam mocidade. não tenho meio algum de resistir.. o que a máscara deixava ver . e terei muito gosto em conhecê-lo. não conseguia obter resposta alguma. estava mais deitado do que sentado no fundo da sege. senhor.Isso. tal como disse. e através . capitão. Em todo o caso. se quisesse. uma sege de viagem acabava de deter-se à porta da estalagem. Para além disto. Pompeu abaixou a cabeça. um mascarado dentro. visto que sou eu quem comanda em Jaulnay.. .Em tal caso. e tenho cinquenta homens à minha disposição.Muito bem .dar essas ordens. quando Ferguzon. Os criados da estalagem levarão o seu cavalo para a estrebaria. 297 . . prende-me.. Muito bem. senhora. . que por mais instantes que fossem essas perguntas. pelo que vejo. vendo porém. e lhe disse ao ouvido: . subindo rapidamente a escada. é o mais forte. . senhor visconde. far-me-á a honra de me apresentar. em consequência de uma máscara de cetim preto que lhe ocultava metade do rosto. e só de vez em quando levantava a cabeça para ver acaso se aproximava algum chefe. vestido de veludo azul. senhor. Cauvignac acompanhou-a até à porta do quarto que Pompeu lhe mandara preparar. estava muito em moda naquela época. Talvez que assim seja. e vou descer ao seu encontro.

seja muito bem-vinda.Para onde me encaminho?. vê muito bem pelo meu trajo que sou um homem. A menina de Chevreuse é o general do senhor de Beaufort. pelo contrário.Eu não lhe disse já? Uma mulher. e pareciam grudados aos seus cavalos. . Quando tivermos conversado um momento acerca dos nossos mútuos negócios. parecendo ficar mais sossegado logo que se certificou. .. . 299 porém.. como dissemos.. tem todo o ar de ser o general do duque D’Épernon.que. olhou para o viajante como homem acostumado a descobrir a intenção oculta.que isso. e resulta daí que sob esse trajo enganador reconheci. ainda que nos gestos mais dissimulados. quando. e a senhora.Mas antes de irmos mais longe. tirando o chapéu com uma graça muito especial. visto que já me não é permitido continuar a minha viagem. afirmou: . Vou para onde me conduzir. eu faço questão de ser um sábio.da máscara viam-se cintilar os olhos. poderia chamar-se a Guerra das Mulheres. com um espanto quase igual ao que manifestara o cavaleiro vestido de veludo azul. Ora. .Bela senhora. estremeceu. . 300 e a si.perguntou o viajante com impaciência.respondeu o viajante. A rainha e a princesa de Conde são as duas potências beligerantes. porque me detém? .O quê? .replicou o jovem viajante. avisado por Ferguzon apareceu à porta .. principiaremos por rectificar um erro. e levou com vivacidade a mão ao rosto. apesar de armados com mosquetes.Essa não é má! Porque no tempo em que vivemos as mulheres são mais perigosas do que os homens. a estalagem. Deve saber melhor do que eu.Não ignora decerto o provérbio latino: "Ne nimium crede colori". e. . a senhora de Longueville. bela senhora. O quadro poderia passar por uma cena de salteadores acometendo algum viajante.lhe observe .Para onde vou?.Para onde se encaminha desse mdo? .continuou Cauvignac. e a serenidade dos supostos ladrões. com franqueza e a rosto descoberto.Mas se eu sou uma mulher.peço-lhe desculpa . pálidos e trémulos. conservavam-se aos lados -da sege. . Os olhos do viajante brilharam de espanto através das aberturas da sua máscara. cada vez com mais urbanidade . não é responder. a senhora de Montbazon. Finge tomar-me por mulher. Logo serenou.. . tornará a continuar o seu caminho. Fixando os olhos em Cauvignac . a figura risonha de Cauvignac.continuou Cauvignac. . .. e respondeu somente à sua pergunta. sem embaraço algum.. a não ser o dia claro... Por muito rápido que fosse este movimento. não fazendo caso da saudação de Cauvignac. Dois lacaios. depois. e. A sua detenção é só momentânea. O sábio não julga pelas aparências. . a seu pesar. junto às duas portinholas. como se quisesse certificar-se de que a sua máscara lho cobria. senhora de Longueville é o general do senhor de La Roche-foucauld. a nossa guerra. falando com propriedade. .o mancebo detido deu um pequeno grito de sobressalto. Tomaram por tenentes-generais a senhora de Chevreuse..Dê-me licença que. não havia escapado a Cauvignac. por isso.

e que parecia estar a ponto de desmaiar.Olhos grandes e azuis? . encolhendo os ombros. maliciosa. o que contribuía para que.Justamente. adopte o trajo que \ bem lhe parecer: não deixará por isso de ser o visconde de Cambes. o está de homem. senhor de Canolles . dezassete a dezoito anos. aquele malicioso. senhor . minha bela senhora. . que reconhecera o meu gentil-homenzinho. . de um modo sinistro. girar à roda da estalagem do Biscarros. ... cujos lábios se cobriam de uma palidez mortal. conhece toda a gente!..Nada de gracejos . segundo me parece. . se tornara mais sóbrio de gestos e mais avaro de palavras. . à medida que Cauvignac.Ele está aqui? .E como é que se chama? A fronte de Cauvignac enrugou-se com um complicado pensamento que pela primeira vez se apresentava ao seu espírito.Meu jovem amigo.É provável que o seja. . "Oh! oh!. Eu.Ele .-O senhor de Canolles..repetiu o jovem viajante.disse o jovem viajante.Como é que se chama? .exclamou o jovem viajante..replicou Cauvignac.. .Muito louro. observando atentamente as partes visíveis do rosto.Sim. . .É esse mesmo. tome o nome que quiser.Não acreditarei mais em si.Espere um momento-replicou Cauvignac-espere. .Ah! vejo que este nome. . produzia uma autêntica revolução no seu cérebro. .Muito grandes e muito azuis.Um gentil-homem? .Muito louro? . carregando em cada uma das suas palavras diz que tem de se encontrar aqui com um dos seus amigos.Talvez tenha querido manter que ela era um homem.respondeu Cauvignac. ainda mais sobressaísse o negro da sua máscara sobre a alvura da pele. como também me não deixo enganar com o seu casaco azul. e a revolução que se operava em todo o corpo do mancebo. quanto muito.. chapéu e botas..Que terá. toucas e voz aflautada.Um barão? -Talvez que o seja. . .Um homem muito jovem que quase parece uma criança?.Um dos seus amigos? .. a quem todo o corpo tremia. .O visconde de Cambes?! .balbuciou o mancebo..O senhor de Canolles?! .Está louco. e disse-lhe: . •dar-se o caso de o conhecer? .disse ele consigo . .. O nome acaba em olles.exclamou o jovem viajante. pelo contrário. não me deixei enganar com as saias. e que penetrando nele.Onde está essa senhora? . disse muito bem.Disfarçado de mulher. . como a senhora. . do que há um momento acreditava num belo mancebo que me fazia o mesmo cumprimento. com uma veemência e turbação que cada vez se tornavam mais 301 visíveis. . o impressiona.? ..E que vem ele aqui fazer? .será isto um enredo premeditado?" ..Está ali. . porque já o havia visto numa certa tarde dos princípios de Maio.E diz que está.exclamou o jovem cavaleiro. . conhece o senhor de Canolles? Pelo que vejo. Então.

exclamou Nanon.. apertando convulsivamente a mão de Cauvignac. . e dá a rédea ao seu lacaio. . seguido por um lacaio que parece de papelão?. só falando seriamente se concluem os bons negócios..E eu que ia ter com ele a Paris ... estou perdida!. sem sequer reparar em que algumas gotas de sangue lhe saíam de uma ligeira ferida. . .Ah! fazer sacrifícios. . . O jovem viajante lançou-se ao vidro da frente da carruagem com tamanha precipitação. . com a fleuma mais imperturbável. manazinha . não era suficiente ocultar o rosto.Oh! tal não acontecerá .continuou o mancebo. enquanto com a outra arrancava a máscara. .disse Cauvignac . vai encontrá-la.302 . e por um ingrato! Na verdade. em pessoa.exclamou o viajante. o que dirão eles? O que farão? .No mesmo instante em que a vi. pelo menos quando quiser disfarçar-se.Na realidade. 305 .Ainda não.É ele! É ele! .Ah! vê-se agora bem que é uma mulher! . querida Nanon. mas isso não lhe serve.Que quer que lhe diga? O que suponho é que vão amar-se muito. mas o mancebo fez-lhe um sinal imperioso com uma das mãos. .e será o senhor o tal Canolles que ela espera! Ou não será antes o senhor de Canolles aquele belo cavaleiro que aí vem chegando a trote..exclamou Nanon. Ah! ele também foi visto daquele lado. devia também encobrir esse lindo sinalzinho. . e então viu-se o rosto pálido de Nanon apresentar-se. . que o fez em pedaços. pode empregar melhor os seus favores.Falemos a sério. oculte-se.disse Nanon em tom imperioso. .Oh! desgraçada! Ele chega. . Nanon deitou-se para trás. .Isso é o que eu quero.Naquele quarto.. Cauvignac queria ensaiar um novo gracejo. . cujas cortinas são amarelas.. . Ah! dá um grito de alegria. e esses dentes de pérola. estendendo a mão à jovem senhora.Ela mesma. .. incomoda-me com semelhante pergunta disse Cauvignac. apeia-se. roendo com raiva as unhas. que olhava para ela com ar de paterna compaixão. olhe: é a terceira janela a contar desta. se não quer deitar tudo a perder.Oh! oh! ter-me-ia eu enganado . . O senhor de Canolles corre para a casa. e a cabeça da viscondessa que se mostra. aos calmos olhos de Cauvignac. torcendo os braços. Não há dúvida de que me reconheceu.E que o senhor de Canolles entra agora mesmo na estalagem? .BONS-DIAS. mana.Eles tinham aprazado um ponto de reunião . ..Eu que a tudo me arriscava para tornar a vê-lo.Diz então que está aqui a viscondessa de Cambes? .Basta! .disse Cauvignac a Nanon.. minha garrida menina. lisas como marfim.Bons-dias.Oh! vingar-me-ei.Agora que estão reunidos. todo ele ameaças. . ponha uma máscara completa.Quero vê-la! . mana-zinha. Eis a janela de cortinas amarelas que se abre.exclamou.

. . Ah! minha querida Nanon.pois Ferguzon. que me tornariam o mais feliz dos homens. . pelo contrário. mas permita-me que eu também.Sim. mas cujo rosto e voz me são estranhos.respondeu a jovem senhora. com toda a probabilidade.disse Nanon . Canolles.que fazer é justamente o que se torna necessário. Bertrand .respondeu Cauvignac . Cauvignac fez sinal a quatro dos seus seis homens que andavam à roda da estalagem.Assim julga! Pois então.replicou Clara.Eis palavras. conversando ao sol. a viscondessa e o barão de Canolles estão dizendo mil gentilezas. Parece-me ter ouvido a sua voz na noite e neste mesmo quarto. se a sua palidez e a sua perturbação me não dissessem claramente que não é só por amor de mim que me espera. .Qual? .disse ela.Assim julga .replicou a jovem senhora.e. senhor. . atraído pelo grito de alegria que ao avistá-lo dera a senhora de Cambes.continuou Nanon. não tendo recebido ordem alguma relativamente a Canolles. e Cauvignac. entrara correndo pela estalagem dentro. Espere. junto de mim. com o seu encantador sorriso e quero dever-lhe mais uma obrigação. . a quem abra-zava o fogo do seu pensamento. tome lugar na sege.Bom . Clara dirigiu-se à porta e correu o ferrolho.É muito justo que assim faça.Então ficará satisfeito . dando com os olhos nele venha depressa. e vá colocar-se naquele arvoredo que deixamos à nossa direita quando entrámos na aldeia. voltando-se para Cauvignac: . voltando-se da porta.Por um homem. .Ah! senhor . dirigindo-se a um dos seus portamosquetes .Um perigo? . por meu turno. que tinha ordem de não deixar sair ninguém. . que se encontrava de pé no corredor. mas nem por isso deixando de dar profunda atenção às propostas que tencionava fazer a sua irmã.exclamou a senhora de Cambes. entendo que tal acontecerá . rodando sobre si mesma. levou Nanon.diga ao cocheiro que dê volta sem afectação. chegou muito tarde. e fazendo mil afagos e carícias um ao outro. sossegado e frio na aparência. . com uma expressão indefinida de profunda tristeza e malícia odienta. talvez que possamos dar-lhes que fazer. e chegara ao quarto da viscondessa.E por quem? . . tome as minhas precauções. Neste mesmo instante. mas que. .Ouça. leve seis de preferência a quatro. .Faz bem em levar consigo esses homens .disse Cauvignac . nenhuma dificuldade teve em deixá-lo entrar.Sim.Fui reconhecida .. 306 se me der crédito.A de me pôr a salvo de não sei que perigo que me ameaça. E a sege. cujo nome ignoro. que é grande a impaciência com que o espero. recebeu a ordem de partir sem a mínima .E eu. Pobre diplomático ! Cauvignac obedeceu. nenhuma recebeu para se opor à entrada. . .Não estaremos nós ali bem para conversar? . senhora. tem razão . Depois. . Durante este tempo.Muito bem.disse ela. sem reparar em Ferguzon.

Tenho a certeza. como lhe pagarei jamais tamanhas obrigações? Que provas lhe darei . 308 . Recolhi-me à minha estalagem. e pensei que talvez me esperasse.. e.Tenho grande receio de não poder oferecer-lhe outra defesa. que este beijou com transporte. Então.que restituíam ao jovem cem vezes mais do que perdera . muito pelo contrário.O conceito que dele faço é ser um agente do duque D’Épernon e. visto que vou ser ditoso com a sua presença e rico com o seu amor.Diga-me . . . sem partido. e que mais tarde ou mais cedo seria um dos nossos. . a não ser a da minha espada.Ai! .disse Canolles. por conseguinte. Chamou-me pelo meu nome.Decidi mandar pedir a minha demissão. porque me lembrei do que me havia prometido. um inimigo. Estes arredores estão cheios de oficiais do partido real. l e quase sem dar preferência a coisa alguma. Ao cabo de vinte e quatro horas ocorreu-me aquela boa reflexão. Disse-me que eu era uma cabeça sem miolos. não cabendo em si de alegria.Deste modo.disse-lhe ele . visto que vou segui-la.E que conceito faz de semelhante homem? . do lugar onde a encontrasse.Oh! não será preciso muito tempo. com uma lágrima .Oh! livre! livre! está livre! Já pode abraçar o partido da justiça.exclamou Clara.Desde este momento. a mimha demissão será datada de Jaulnay. E Clara estendeu a Canolles a sua mão.desde este momento. nem outra protecção. perdeu o posto.E diz que foi conhecida?. .o que deu lugar a isso? O que é que se passou? Informe-me de tudo o mais circunstanciadamente possível. senhora. Pôs-se a rir. . de todo o dever. respondi-lhe que a dele é que tinha falta de juízo. E como a encontrei. . de uma só me lembrei: e era de que a amava. sem empenho. é do mesmo partido que eles seguem. no dia em que representei o papel de princesa de Conde. Esperei que se dignasse mandar-me encerrar na Bastilha. além dos montes.disse Canolles. Elevou a voz. O senhor mesmo é oficial. do meu reconhecimento? E com um sorriso. sabem que sigo o partido dos príncipes. da lealdade.Fala verdade?! . creio ter reconhecido o seu rosto na caçada de Chantilly. respirando o ar livre. .Será possível?! . visto que de si não mais me apartarei. e já nada receio.. recebi ordem de ir a casa dele. . Oh! eu sabia muito bem que era um muito digno gentil-homem.307 demora para Nantes. .isto é: a de toda a nobreza.Ah! senhora . será a minha salvaguarda.a senhora de Cambes fez Cair Canolles a seus pés. ainda que não fosse senão o espaço de um segundo. deixei de estar ao serviço do rei. chegado a Nantes. . teimando unicamente em que eu era um homem.Como assim!? . . . E a si também a devo. Já pode servir a causa dos príncipes . e que lho podia agora dizer. portanto. . alta e afoitamente. e está arruinado por amor de mim! Querido senhor de Canolles. caiu em desagrado. e talvez estejam resolvidos a inquietar-me. e ele esperou que alguma boa reflexão me fizesse sair de Nantes. sou rico e feliz. senhora. Escrevi desde logo ao senhor Mazarino. desobrigado de toda a responsabilidade. e eu agastei-me. e eu mandei-o para a terra dele.disse-lhe ela . . a inteirá-lo do que se tinha passado. Mas ei-lo aqui.

a fim de que possamos pôr-nos a caminho.abram! E a fraca porta voou logo em estilhaços. com inquietação.Então não há coisa alguma que o detenha? .Sem dúvida que o sou.disse Canolles. mas já um homem lha tolhia. e não lhe cabe parte alguma nos terrores que sinto. volvendo os olhos em torno de si. nada receie.Não. Reservava para mim a honra de ter de obedecer-lhe. .Então quem receia? Que pode recear? .disse uma voz . .Sim. enviou a sua demissão? 309 . . confesso-lhe a estada nesta estalagem não me inspira a mínima confiança.. Canolles quis lançar mão à espada. em nome do rei e de Sua Majestade a rainha-regente. será considerado um trânsfuga. senhora.Enviado com uma comissão pelo duque D’Épernon? Canolles fez um aceno afirmativo com a cabeça. barão. Queria tornar primeiro a vê-la. não se preocupe.se me não engano. Mas escreva. falo do presente.Portanto.perguntou o barão.Do passado é que sem dúvida quer falar.Ainda não. . . . parece-me [que o conheço. pois! Escreva antes de tudo! Se não escreve. a inaptidão que demonstrei em Chantilly não lhes deixa muitas saudades minhas. . e guardando para mim o seu coração. . mas indemnizá-lo-emos do conceito que fizeram de si.Em nome do rei . Hoje.Sem dúvida que pode fazê-lo. bateram três vezes na porta.É todo meu. .Ah! meu Deus! Quem sabe? Neste momento. A sua acção em Chantilly será mais bem vista em Bordéus do que em Paris. Canolles e a viscondessa guardaram silêncio olhando um para o outro. agora que tornei a vê-la. 310 . até deve esperar. senhor . . . pode acreditar-me. e interrogando-se mutuamente. está preso. restituindo o papel.Onde está a ordem? . rindo-se . e não sei para que se há-de assustar tanto com meras recordações! . como lhe disse. como para justificar os receios da viscondessa. porquanto. escreva depressa. vou escrevê-la aqui.Que quer isto dizer!? .Sim. .Escreva. que a sua demissão seja aceite.Neste caso.Querida diplomaticazinha. havendo-se arremessado de permeio. . antes de dar algum passo decisivo. conceder-ma-ão.ajuntou Canolles. Não me disseram eles . Mas.Mas.Não é o senhor de Canolles? .que era um cabeça sem miolos? .Capitão do regimento de Navailles? . . neste mesmo momento. não é já de si que receio. e fixando-os numa alcovazinha com duas camas que já por diferentes vezes haviam chamado a sua atenção. depois de haver corrido por ele os olhos .Não.disse Canolles.Ei-la aqui. posso oferecer o seu braço à princesa? . com uma gravidade solene. até de muito bom grado. .

Adeus.exclamou a senhora de Cambes estendendo os braços para o preso.disse Canolles.Para onde me conduz.e os outros quatro para diante. e. havia já tomado posse do melhor quarto que pôde encontrar. tinha conhecido o indiscreto interrogador. . Clara abateu-se e foi cair debulhada em lágrimas numa cadeira. chegando-se à porta: . inclinando-se com respeito diante da senhora de Cambes. "Livre .Quatro homens para escoltar o capitão! . ao lado do nariz de águia. viu a guarda que acompanhava Canolles. chamando Pompeu. indeciso. da parte do [duque d’Epernon. a cabeça e resignou-se.mas um só. tão acerba. senhor? . Conduzimo-lo à fortaleza da Ilha de São Jorge. Naquela época. cuja mão estava pousada com uma espécie de amor-próprio na coronha de uma pistola. minha senhora . que o respectivo peso esmagava-o. Algumas vezes. .. um dos dois olhos também dormia .. 311 . portanto. De modo que. vamos .E a mim? . a fim de que não pudessem estas boas disposições dar lugar a ordens contrárias. a comissão de partir para a corte? O seu futuro dependia do bom êxito desta comissão..respondeu Cauvignac . E ela.tanto pior para si. partamos . Com efeito.-Ou também o proibiram de me dar a consolação de saber para onde vou?. tão inesperada. redondos. as palavras Em nome do rei ainda tinham toda a sua magia. o cavalo.-Adeus! "Vamos.Não. e preparou tudo para a partida.disse ela . um falso ar de liberdade. e ninguém se atrevia a resistir-lhes. O caminho tornou-se para Canolles ainda mais triste do que esperava.disse ele. e muito próprios para as observações nocturnas. contente por fazer um alto de dois ou três dias. mal sucedido .resmungou Canolles. tinha esperanças de surpreender a vigilância do novo Argos. fora substituído por um velho e pesado carroção. por muito guardado que esteja. parecia estar a ponto de enlouquecer. está livre. foi .A senhora . para qualquer lado que se voltasse. chegando à janela. Enquanto dormia. . ordenou-lhe que fosse preparar tudo para a partida. mas. Clara não se movia.bradou ele .E a mim. di-lo-ei a Nanon. de só dormir com um dos . e isto dar-lhe-á prazer.pode retirar-se. senhor. brilhavam dois grandes olhos de mocho. Canolles.disse Cauvignac.disse Cauvignac consigo mesmo . vou dizer-lho." Depois. da sua parte. que lhe trouxe. levando consigo o barão." E. senhor. disse-lhe adeus com a mão pela última vez. A senhora de Cambes levantou-se. meu gentil-homem. para onde me levam? Pois se o barão é culpado. partamos. Canolles via sempre aqueles dois olhos redondos luzirem na direcção do seu olhar. . que dá ao preso.Mazarino vinga-se . era uma faculdade que a Natureza dera àquele homem.Sem dúvida que me conhece! Não foi nesta mesma aldeia onde hoje lhe dou a voz de prisão. oh! eu o sou muito mais do que ele! . além disso. reanimada por um raio de esperança. durante a : noite.Vamos. tinha os joelhos travados nos de um homem que tinha nariz de águia. A sua desgraça era tamanha. que. . chamejantes. . E saiu.as coisas não estão tão adiantadas como eu o julgara. curvou.então poderei não o perder de vista.

todos aqueles que amaram duas mulheres ao mesmo tempo . e que o resultado da falta que cometera nessa ocasião era terrível. de tão magnificamente amoroso no engraçado cavaleiro da estalagem Bezerro de Ouro? Como podia a senhora de Cambes ultra-[ passar Nanon de um modo tão triunfante? Dar-se-ia o caso de os . e em vez de se vingar. todos aqueles que amaram duas mulheres ao mesmo tempo. enquanto. a sua fortuna.à medida que o os remorsos iam invadindo mais profundamente o seu coração. é comum entre nós. porque Canolles mergulhava ao íntimo do seu coração com ingenuidade. Acontecia assim. Sentia remorsos. ressoara aos seus ouvidos com a doçura acariciadora de um favor quase régio. mas ainda a mais ardente e extremosa das amigas. vinte vezes pusera em risco a sua posição. Por isso. Pois esta mulher. e dão lugar a passageiros despeitos. no momento em que o tinha na sua lembrança. fortaleza que não . Nanon ia recobrando 314 cada vez mais no seu espírito aquela influência que ele julgava perdida. que nunca tiveram senão um amor. ao passo que. a senhora de Conde era uma princesa rebelde. Bela e perdida. Que havia feito Nanon para que a abandonasse? Que havia feito a senhora de Cambes para que a seguisse? O que havia. e o seu nome. em lugar de se apresentar com o acento da repreensão. que não empregara o seu crédito senão para protegê-lo. Outro remorso ainda sentia mais secreto. nesse mesmo estado. talvez mais pungente. Canolles porque a aterrar. outra coisa não vira do que um engrandecimento de fortuna e de consideração para o homem que trazia constantemente presente no seu espírito. a qual vendera barato aos seus amores. este fenómeno. espirituosa. a senhora de Conde não era mais do que uma mulher fugitiva. Em Bordéus. porque sabia por tradição de que sombrias vinganças era capaz uma Ana de Áustria encolerizada. armado de todas as suas fruições terrestres.peço perdão às minhas leitoras. Em Chantilly. não só a mais encantadora das amantes. Existia neste mundo uma mulher jovem. fortaleza da Ilha de São Jorge. incompreensível para elas. pelo contrário. num momento em que decerto Canolles teria preferido um desfavor. o amor material ocorre à memória. Enfim. que não deixam de ter o seu preço. boa e enganada . Verdade é que este favor chegara num mau momento. receio e 313 passou assim dois dias e duas noites em fúnebres reflexões. do que o primeiro. o seu porvir. bela. mas era isso culpa de Nanon? Nanon.eis o que parecia agora Nanon a Canolles. uma mulher que não empregara a sua influência senão para promover a sua melhoria. sem motivo. é triste ter de dizer-se que o amor etéreo que só promete favores se volatiliza quando isolado. uma mulher que pelo amor que lhe tinha. porque compreendia que a sua comissão junto da princesa fora uma comissão de confiança. concedera-lhe novas graças.por isso. As angulosas asperezas do carácter que ferem no contacto da intimidade. fora por ele brutalmente abandonada. pelo contrário. Sentia receio. de tão apetecível. sem desculpa. pois. compreenderão que à medida que Canolles se engolfava nas suas reflexões. era para tomava aos seus olhos umas proporções medonhas. certas recordações mais doces recobram a sua intensidade com a ausência. os homens . digo eu.olhos. e não com a má vontade daqueles acusados a quem obrigam a fazer uma confissão total. apagam-se com a distância. nesta comissão junto de Sua Majestade. porém.

Cabeça desmiolada. nada responderei. quem ma pagará?" E Canolles encolhia os ombros. e enviar-me-ão todo desconjuntado para a companhia dos tais ratos e dos sapos. como o príncipe de Conti. e certas praças de armas onde eram arcabuzados os desertores. o que é uma coisa muito feia. A verdade é que fui um grandíssimo toleirão. olhava-o com espanto. que resposta poderia eu dar? Que não gostava de Mazarino? Então não devia servi-lo. causticar-me-ão acerca da minha estada em Chantilly.. restavam ainda certos cadafalsos onde eram decapitados os rebeldes. quando interrogam. pela minha fé! talvez que ainda ame. muito brutal. tudo quererão investigar. e não se dava por convencido. "Vou ser punido . para a qual não haveria expiação bastante." Além do governador. que me lerá.cabelos louros merecerem uma tal preferência sobre os cabelos pretos. oh.não responderei.o que se compreende. pelo movimento que fazia. e que me mandará sepultar num profundo subterrâneo em companhia dos ratos e dos sapos .sem outro fim do que trocar tranças pretas por tranças louras? E. e florescer ao sol. que os espíritos diabólicos te levassem! Porque havias tu de servir de envoltório a uma tão encantadora viscondessa!? Sim. e a quem. Mas tudo isto nada era para um belo mancebo como Canolles . nada mais me rendeu do que três beijos na mão. se julgarem que sou traidor. à interrogação do seu pensamento.. mas que. das torturas. não podia compreender esta pantomima. respondendo com desprezo. querem que lhe respondam. Maldito viscondezinho. certas forcas onde eram enforcados os traidores. nos braços de uma mulher que me amava. como bem se vê. do alto 315 da sua dignidade de carcereiro-chefe. Que amava a senhora de Cambes? Bela razão para dar a uma rainha e a um primeiro-ministro! Portanto. para que um homem seja perjuro e ingrato para com a amante.prosseguiu Canolles . a quem eu amei. nenhum uso dela fiz. como disse Mazarino. e que não soube fazer-se recompensar pela traição! E agora. que fazem a ventura dos amantes e o desespero dos filósofos. supondo ainda 316 que a clemência de Sua Majestade me acuda . dos sapos. uma ordem de Mazarino.enquanto poderia ter vivido em pleno dia. pensando que a punição apaga a falta. muito insolente. E o pior é que todo o mal não está no governador. que me indicará com o dedo uma enxovia. pois tendo a força. e na sua enxovia subterrânea.dizia consigo. dos ratos. Todavia.em comparação com a hipótese de . Deslocar-me-ão estes delicados joelhos de que tanto me ufano. mas haverá no mundo uma viscondessa que valha o que esta me vai custar?. que foi traidora. traidor e desleal para com o seu rei . e se repreendesse com aspereza. que por muito perspicaz que fosse. contudo. -Tanto melhor! Irei encontrar-me com algum bom capitão. miséria da condição humana! Canolles fazia para si mesmo todos estes raciocínios. convenho. muito rude.o que decerto não fará. O homem dos olhos redondos. "Se me interrogarem . Mas os juizes são entidades muito susceptíveis. muito assizados. se houvesse sido mais frutuosa. e podendo dela abusar. ao fim e ao cabo. O coração está cheio de mistérios semelhantes a estes. O resultado de tudo isso será ficar manco toda a vida. isto não impedia que Canolles se indignasse contra si mesmo. Torturar-me-ão.

Se não responder?.E se eu não responder? .Ah!.. Assim..Pelo menos. nunca reflito. .ser acusado de crime de Estado. . e à excepção dos quartos do governador. . . .Tem razão. . julgo que sim. senhor.. Canolles aproveitou-se do momento em que uma carantonha. forma uma habitação bem triste. senhor. senhor. porque tenho boa vontade de me queixar. . E que quantidade de água? .Senhor. conforme a gravidade da acusação. encher-lhe-ão a barriga de água. . . Água.. senhor.disse Canolles . recorre-se à tortura.Ordinária ou extraordinária. decidiu esclarecer-se. .. ..Então a água é o que está em moda..Normal? .De quê. o nariz de águia. que não é coisa muito bela. .Por certo que sim.. senhor. . Mas se tiver a cautela de suavizar o carcereiro. bem o sabe. a fim de me conduzirem não sei para onde. .Não tem de que pedir-me desculpa. se o arranco às suas reflexões.Quanta puderem fazer-lhe beber. é impossível que não haja momentos em que se desenrugue um pouco... que acabam de mandar renovar e que são muito confortáveis. gozará das torturas extraordinárias. . . .. que se assemelhava a um sorriso.É muito justo. Julga que me farão perguntas? . passava pelo rosto do esbirro subalterno que tão cuidadosamente o guardava.Então. não é assim. visto que nunca ali entrei. na Ilha de São Jorge? . Os olhos redondos. e o ar carrancudo do indivíduo não encorajavam o preso a iniciar o diálogo.. . ao que parece.De que assim me levem à força.Posso assegurar-lhe.Ignoro... uma feliz organização.Bem o sabe.Ora pois. o resto do edifício. senhor? . outro tanto não me acontece a mim.Não conheço o interior..respondeu o esbirro.E então? .Isso mesmo. . e mais água.disse ele.Não tenho razão de queixa. . incharei.. senhor.Receio . .Não é de espantar. no momento em que menos pensava. . pelo que vejo.Não conhece aquela fortaleza? . . .. . .Como!? Água e mais água?.Então.Desculpe-me.Olá! Possui.Em tal caso. têm a coisa à mão. Vamos para a Ilha de São Jorge.Senhor.Então? .Crê que eu fique ali muito tempo? 317 . é coisa muito feia.Ah! nesse caso. assim é costume. pois que já lho disseram. dado que por muito impassível que seja um rosto..Belo. Contudo. . . . . mas pelo modo como me foi recomendado. compreenda que no Garona.ficar manco.. e interrogar a este respeito o companheiro de viagem. a Ilha de São Jorge? .Sim. senhor? . a coisa tornar-se-á mais suportável.

Senhor Barrabás .E servem o rei? .. graças ao azeite que lhe havia preparado convenientemente as vias.Que diabo está dizendo!? Não está certo disso? . compreendo . sem queimar.Na realidade.Então o azeite é um tonificante? .Julga isso? .. senhor.E em que consiste.Pode fazer-lhe beber azeite. . houve muitos enforcados e queimados. 319 Barrabás desatou a rir. Com efeito. porque havia conquistado o seu guarda. senhor! .Barrabás. .Isso é o que eu quero dizer. de uma companhia de soldados.replicou o interlocutor. .Armada pelo ministro?... . senhor. mas huguenote muito ignorante. .Falo por experiência. senhor. . por hábito.. . ou far-me-á a honra de continuar na minha companhia? .Sim.Belo nome. pelo capitão Cauvignac. Nisto consiste o essencial da segunda parte da operação. submergir-me-ão. o senhor é huguenote? . é muito pouca coisa.disse Canolles. mas. antigo nome..Ajudante.. ..Muito bem.E soberano.Não.Não. Acredita que apenas sei uns três mil versos dos salmos?. . Verdade é que inchou. o serviço que o carcereiro pode prestar-me? 318 . senhor. Na minha família. .Não.Na Paixão. .Alegro-me de que ao senhor não o espere uma tal sorte! ..Ah! ah! E o senhor chama-se. não? . tenha a bondade de dizer-me. . se este carcereiro interino viesse a ser o seu carcereiro permanente. .O senhor era talvez executor da Alta Justiça.teremos nós em breve de nos separar. senhor! . o mesmo que teve a honra de o prender. então faz parte de uma companhia de guardas? .Não. .Eu aprendia melhor a música. O coração de Canolles estremeceu de alegria. . . Lembre-se bem destas palavras: Aquentar. então.Senhor.disse ele . uma vez que cheguemos à Ilha de São Jorge. servi-me de outra palavra. hoje há mais tolerância. não era mais do que um simples curioso. terei o vivo pesar de me separar de si. com uma modéstia acompanhada de urbanidade.Não. .Creio que sim. como sempre acontece. mas com um bom fogo fizeram-no desinchar sem que sofresse grandes avarias. .O senhor prefere as Escrituras.Muito bem. vi um homem beber enorme quantidade de água com extrema facilidade... tinha todas as probalidades de alcançar o azeite. porque tenho de voltar para a companhia. e com isto se darão por contentes. . Decidiu dar seguimento à conversa no ponto em que a deixara. . senhor. muito bem conhecido nas Escrituras. talvez.

. e a aldeia é uma das suas propriedades.respondeu o camponês .O senhor não o tem.Assim o suponho. muito solicitada. Em resultado disto. Canolles estremeceu e passou num instante do mais vivo rubor a uma palidez quase lívida. agradeço-lhe o cuidado. no declive de uma montanha.Com quê? . no ar límpido da manhã dourada pelos raios de Sol. o qual afugentava uns restos de vapores semelhantes a gases ondulantes. nada mais lhe disse.é desta terra? . deveria. PRINCIPIAVA já a romper o dia quando o carroção chegou à aldeia mais próxima da ilha. a viagem reassumiu.a minha bolsa desapareceu.Sim. . e muito cómodo para o interceptar aos presos. se tem dúvidas.ter-seá por acaso ferido nesse postigo? 323 .Cem efeito . .aquele castelo é o de Cambes.Senhor .disse Barrabás.Isso não é possível.Para que o senhor não me pudesse corromper.Qual? ..perguntou ele. . continuando a interrogar o camponês: . tendo os dois viajantes mantido novamente o silêncio. e dominada por um castelo. quem lançaria mão dela? . 320 .E a quem pertence esta propriedade? . .À viscondessa de Cambes.perguntou Canolles . caminhava junto dele.E para quê? . Canolles levou a mão com viveza às algibeiras.Mas eu pagar-lhe-ei muito honradamente a sua complacência. aquele aspecto melancólico que tivera no início. . postigo destinado a dar espaço às pessoas livres. fazendo-lhe uma saudação respeitosa. . Depois. Que casa branca é esta? Que lindas choupanas são aquelas? .Eu senhor . . .E por conseguinte.Então deve conhecer esta aldeia. senhor.. Nesse momento. e como lhe parecesse que o argumento não tinha réplica.Permitir que me evada.A uma jovem viúva? . . ao aproximar-se do fim.Não. a fim de se decidir. fazer uma coisa. Apenas Canolles o sentiu deter-se. senhor.Com que há-de ser? Com dinheiro! . e o respectivo cocheiro. composta por cem casas apinhadas em torno de uma igreja. . Uma linda aldeiazinha.A gente de nada está certo neste mundo.respondeu Barrabás. passou a cabeça através de uma pequena seteira. o carroção subia uma encosta.Muito linda e muito rica.disse ele . .Meu amigo . a cujos olhos redondos nada escapava .Senhor .Então. Canolles olhou para o digno esbirro com admiração. . tendo-se apeado. .Quem lhe disse que não o tenho? . . sou de Libourne. ofereciase à vista.

que todas as vezes que se lembrava de Clara. perto dela.disse consigo Canolles.Pararemos aqui para almoçar? . O carroção.Sim. .Um demónio. saltou em terra. que tinha uma fechadura.mas na verdade não sei.perguntou o sargento. 324 .esperam-me e tomaram precauções. . nela pensava com transportes de adoração. viveu muito tempo neste sítio.disse Barrabás. que tenho a honra de falar? . e o condutor fez um sinal com a mão para pedir licença de se sentar no seu lugar. recolheu a cabeça para o interior da portinhola. Falta-nos somente atravessar o rio. No fim de um quarto de hora. Canolles entrou dentro dela e colocou-se no meio dos seus dois guardas: os dois soldados e o sargento entraram depois dele.respondeu Canolles.Boa reputação? . e desembarcaram no momento em que Canolles se apeava. durante o qual. está com os príncipes.Senhor. . . lá vem gente ter connosco .É verdade .A ele mesmo .Bem desejaria responder acertadamente ao senhor. depois de ter dado um sinal que foi repetido pela sentinela de guarda à porta do carroção. . os oito soldados e o sargento entraram na barca.Efectivamente.Tão perto.perguntou ele em voz alta a Barrabás. e. e mostrou com a ponta da sua lança a barca..Raras vezes. . e saudou-o militarmente. No mesmo instante.Pararemos aqui definitivamente. senhor. aproximou-se dele. parece-me que assim ouvi dizer.São esses os meus novos guardas? . um grupo de oito homens e um sargento. depois de ter subido a encosta. a Canolles. que não perdera de vista. Logo do outro lado de um braço do rio bastante caudaloso. O sargento voltou-se imediatamente para os seus homens. Com isso nunca faltam pretendentes." Depois. e abriu a portinhola. Canolles voltou os olhos." . Nesse momento. cuja chave estava na mão do guarda. atravessaram o Garona. sempre sob a vigilância de Barrabás. capitão do regimento de Navailles. Atrás do posto. . ordenou-lhes que aperrassem as armas. admirado pela polidez do homem. Agora. porém. .É ao senhor barão de Canolles. do pequeno castelo branco. o carroção parou. "Bom . elevavam-se as obras da cidadela.disse Canolles . que estava sentado junto do cocheiro. ia iniciar a descida. estamos chegados. O marido nele a deixou. vendo um oficial. que era o melhor andamento possível. Canolles ficara mergulhado nas mais sombrias reflexões. viu uma barca.perguntou Canolles. e tão longe! . e a barca .. O segundo guarda de Canolles. Canolles. .murmurou Canolles. que receava levantar suspeitas continuando o interrogatório. .. e continuaram o caminho a trote.Ela reside aqui algumas vezes? .disse Barrabás . senhor. . e enquanto ela aqui esteve foi a bênção da terra. um verdadeiro demónio! "Um anjo .Apreste-se a apear-se.Sem dúvida alguma: bom dote e bonita mulher. senhor. em voz alta: .Um anjo. segundo dizem. para a fortaleza que ia ser a sua morada. Eis a Ilha de São Jorge. o sargento. mas fanática partidária dos príncipes.

"Que quer isto dizer?" . senhor. .gritou ela. que não se há-de enfastiar. senhor. e disse-lhe algumas palavras. o oficial tirou o chapéu. diante da qual passeava de um para outro lado a sentinela. não estava aqui tudo: Canolles não observara que no momento em que se apeara da sege.parece.Na realidade .Senhor . pois todos aqueles preparativos mais pareciam honras feitas a um superior.disse Canolles ao vê-lo .. .. .Senhor . Sen a mínima demora. sou o barão de Canolles. com a cortesia de um oficial para com outro. dominava todas aquelas obras. contra-escarpas e bastiões.eis o comandante da praça que vem reconhecer o inquilino.Ah!. como certas pessoas a quem deixam oito dias inteiros num vestíbulo. um pequeno forte. . senhor. porém. estou à sua disposição. Entrava-se nela por uma porta arqueada. senhor . tomarei a . sem dúvida. uns vinte homens. Contudo.. quando viu que Canolles acabava de pôr o pé na ilha.a sua habitação é a melhor que possa ser. do que cautelas tomadas contra um preso.disse o sargento a Canolles. E aproximou-se do forte. Arranjar-lhe-ão lugar imediatamente. fizeram-se nele todos os reparos possíveis. . não me desgostaria obter certas informações. acudindo muito apressados.Se o ordenar.respondeu o preso .respondeu o oficial . Entretanto. e aloje-me o menos mal que puder. Deus me livre de caluniar Sua Majestade.. como se quisessem prevenir os seus desejos. e que um oficial observara atentamente os movimentos da barca.Quem vive? ..Às armas! .E a quem devo eu agradecer estas precauções desusadas? .afastou-se da praia enquanto pela derradeira vez Canolles lançava os olhos para Cambes. A pequena tropa fez alto. saíram de um corpo de guarda.disse o mancebo consigo. em muito bom estado. .É ao senhor barão de Canolles a quem tenho a honra de falar? perguntou ele. e a recepção que se fizera ao preso e aos seus dois beleguins.Venha. de que se compunha o posto. que estava a ponto de desaparecer por detrás de um outeiro.. . agora trate-me. O tambor principiou a tocar a marcha.disse Canolles. desceu rapidamente. . não compreendendo já nada do que ali se passava. pois. Ainda.Tanto melhor . uma janela da casa do governador se abrira. Canolles tomou a atitude altiva e digna de um homem perseguido. puseram-se em linha diante da porta.perguntou Canolles sorrindo-se.disse Barrabás .Ao rei. e saiu-lhe ao encontro. Sim. . o oficial ia-se aproximando. 326 À distância de alguns passos de Canolles. o sargento separou-se. 325 Quase toda a ilha estava coberta de escarpas.. . e. peçolhe. sobretudo nesta ocasião! Todavia.. .tanta urbanidade da vossa parte deixa-me na realidade confuso. Aquele oficial. ..gritou a sentinela. aproximou-se da sentinela.

Está bem certo de que não há engano?. em voz alta: . que por pouco não saiu por terra. Nesse momento.perguntou Canolles. . Então.. senhor .sou governador da Ilha de São Jorge?. "Que tal.e pronto para segui-lo aonde quiser levar-me. Canolles não podia conceber semelhante acontecimento. leu a nomeação. .Não fazemos mais do que cumprir o cerimonial costumado. e de todos os habitantes da fortaleza. Quando tal viu.continuou o oficial .. . dando a si próprio os parabéns por haver caído nas mãos de um homem tão cortês.uma guarnição [inteira para reconhecer um preso. seguindo.. e referendada pelo duque D’Épernon.Sim. senhor . cujo espanto era indizível.perguntou o barão.Por quem é.Então . No mesmo instante. . saudava. foi colocar-se atrás da primeira.Daqui a um momento . pôs-se em marcha. . Canolles olhou para Barrabás.respondeu o oficial .Eu é que estou às suas ordens. cujos olhos fixos estavam plantados nele com uma expressão de estupefacção impossível de descrever.E que mais? . saindo daquela abóbada.Governador da Ilha de São Jorge. e dos soldados que 328 apresentavam as armas. escrita em boa forma.. e ali verá a sua nomeação. Foi tal a perturbação de Canolles.murmurou Canolles. . por entre o som dos tambores.balbuciou Canolles . "Tantas cerimónias.e Sua Majestade fez-nos grande favor com uma tal escolha. hem?.." Depois. não pôde manter-se de pé.. e creio que me não engano: pelo senhor barão de Canolles. . . pálido e trémulo.Que quer isto dizer!? . o oficial que o conduzia desembainhou a espada.terei a honra de entregar ao senhor governador os despachos que recebi esta manhã. Chegando ao pátio da cidadela. pois . para a direita e para a esquerda. tendo chegado a uma sala bastante elegante. .Senhor .Então por quem me toma!? . assinada pela rainha. Finalmente. e inclinou-se diante dele. e de cujas janelas logo notou que se podia avistar o castelo de Cambes. Canolles deparou com uma parte da guarnição em armas. o oficial.digne-se acompanhar-me aos seus aposentos. sem dizer palavra.disse consigo Canolles .liberdade de lhe observar que a guarnição o espera para o reconhecer. e caiu estupefacto numa poltrona. . o oficial apresentou duas chaves a Canolles.que vá adiante de si. 327 Canolles voltou-se e uma grande fileira de soldados.replicou ele . que erguiam aos ares as aclamações.respondeu o oficial . ouviu-se o tambor na abóbada vizinha. ..Permita-me. .-perguntou Canolles. que tão longe estava de se assemelhar ao que ele esperava. meu Deus?" .que faz? . para fazer as honras.disse o oficial . acompanhados desta carta que me anuncia a sua chegada hoje mesmo. e interrogava Barrabás com olhos espantados. segundo as mais rigorosas leis da etiqueta. Canolles seguiu-o. que lhe mostrava o caminho.

senhor governador. Deus me defenda disso! Não sou dotado.. . há nela excelente vinho. porém..Muito obrigado . se me tivesse corrompido. e vá a casa do pagador.. e se tivesse fugido. é que quando eu lhe falava de torturas extraordinárias. representavam a Eloquência com cadeias de ouro que lhe saíam dos lábios. senhor Barrabás .ousaria observar que seria inútil passar por casa do pagador. pois...Sou eu mesmo..E agora formou alguma opinião acerca do que me acontece? .Pelo menos.Ei-la.E fiz muito bem.A explicação que lhe posso dar. Tratarei de seguir os seus concelhos. .disse Canolles. senhor. .Não. para ser rodado. . bom peixe. Passado o primeiro momento de cólera.Poderá explicar-me o que acaba de se passar.. e levantou os olhos. tudo isto é milagroso! .? . vejo alguns cordões .Parece-lhe que seja inadmissível?.Sim. e as mulheres de São Jorge. receba lá este papel como testemunho da sua eloquência. das descargas de mosquetaria. por quem sou. graças à Providência. estremecendo a seu pesar. senhor. teria naturalmente perdido a elevada posição a que chegou. . depois de todos os clarins. e como.De que o conduzia até aqui. Sua Graciosa Majestade tê-lo-á recompensado por o haver castigado com demasiado rigor. . senhor governador. Já notei que era fortíssimo em lógica. que todas as marés trazem nos barcos de Bordéus.disse-lhe ele. .respondeu Canolles. que durante algum tempo tivera pregados no pavimento.Isso é inadmissível! . senhor Barrabás. senhor. ao fim e ao cabo.Mil vezes bem pensado. o favor de me dizer qual é.exclamou Canolles. . 329 ter-se-á arrependido. o que me resta é apresentar-lhe os meus humildes respeitos.Sim. não menos estupefacto do que ele.Contudo.porque. e sobretudo depois do primeiro sobressalto que estas demonstrações lhe haviam produzido.Ah! é você.Faça..Muito bem. que se tornara em seu muito humilde servo. senhor. como muito bem o sabe. inverosímil. ao fim e ao cabo. não é homem aborrecível. .exclamou Barrabás . que lhe entregará cem libras.Nesse caso. visto que por prudência me tirou o meu dinheiro.Senhor . Ah. teria fugido. senhor: a rainha terá conhecido quão difícil era é comissão de que o encarregara.Inverosímil? . Pode ser feliz como um rei na Ilha de São Jorge. . . do que nunca me teria consolado. Entretanto. senhor. julgava. porém. Canolles desejou saber a razão por que a rainha lhe confiava o posto.. caça que fornecem os campos.. que muito me custa a não tomar por um sonho? . . . .. senhor! . Eu mesmo de boa vontade lhos daria em mão própria. de tão falsos orgulhos. que lhe dourava a pílula. . . . Receba esta ordem assinada por mim. das homenagens militares. Os Antigos. das estrondosas demonstrações. o seu excarcereiro.Estava então convencido de que. . admirado.replicou Barrabás ... Viu então diante de si.Como!? Recusa?! ..

porém. estendendo o dedo para uma porta que efectivamente Canolles ainda não tinha aberto. pedindo explicações acerca de todos os recursos da localidade. Talvez ela o protegesse com um interesse muito terno.Então vamos!. que me desculpe: estou muito cansado de ter viajado dia e noite. não vendo já coisa alguma... a rainha tinha então vinte anos mais do que no tempo de Buckingham. Canolles chamou o oficial.Ah.Sim. de prata e ornado de esmaltes.. peço-lhe. .disse Canolles. o qual saiu fazendo as mais repetidas e respeitosas cortesias. muito admirado. visto que o esperam. por trás de alguma cortina.. muito bem . . e esta manhã não me sinto muito bom da cabeça.Que diz? .disse-lhe este aproximando-se misteriosamente . E com extraordinárias palpitações de coração. .) Infelizmente. é ali.Óptimo.O quarto dessa pessoa é ali . . conduzido por eles. .. composto pelas outras principais individualidades da cidadela. contra sua vontade. AL Barrabás saiu.disse o oficial. e dentro desta dez mil libras...Sem dúvida alguma.disse Canolles. e viesse de onde viesse. ..Também. as meias-luas. as recordações de Buckingham ocorreram-lhe à mente. Canolles meteu a mão na bolsa.perguntou Canolles. .. as casamatas. e os celeiros. os subterrâneos.disse ele.disse Canolles. as esplanadas. -É. e Canolles ficou só com o oficial que ao princípio encontrara. e dela tirou cem libras.só falta ao senhor governador ver um quarto e uma só pessoa. fosse lá como fosse.Cos diabos! . Canolles fez um movimento como se voltasse do país das abstracções. o favor de se explicar um pouco mais claramente.. é ali? . A escolta retirou-se então... . . À porta.Da pessoa. Todavia.. creio que me percebe. .Agora . sentindo-se confundirem-se os seus receios e os seus desejos a ponto de . O oficial colocou-se imediatamente às suas ordens. que entregou a Barrabás.o quarto. com o mais fino sorriso . pois. sim. conversando com eles.330 que saem de um cofre colocado no seu fogão.-A rainha faz as coisas muito bem feitas! E.disse Canolles. senhor Barrabás .. Canolles levantou a tampa do cofre e. . deparou com uma espécie de estado-maior. viu os bastiões. corando.continuou o oficial. . (lem-bremo-nos de que Canolles era gascão.Ora. 333 . pois efectivamente via-se embutido na lareira um cofre antigo. Talvez.É bom entendedor em matérias de cordões.acrescentou Canolles. e que me parecem ser de uma bolsa.Vejamos se as suas previsões são exactas. senhor governador . .. com este bilhetinho: Para a caixa particular do senhor governador da Ilha de São Jorge.. e pediu-lhe que o guiasse na revista que queria passar aos seus novos domínios. talvez que a rainha tivesse visto.. que o espera.. achou uma bolsa. faça. de facto. .. Agora. . pois..E a pessoa também está ali? .. a figura vitoriosa do formoso capitão.-E posso entrar ali?.

.Tem razão. Mas não falemos mais nisso.disse ele . quero-o para mim! Fiz bem? Diga. A propósito (tinha-me esquecido de dizer): é meu irmão.Ia ter consigo a Paris. aquela ausência era muito grande. que deu um grande grito. de braços pendentes e olhos fixos. . A recordação das suas culpas apresentou-se ao espírito de Canolles. uma dama de honor. . é o meu anjo da guarda. e aplicou os lábios na linda mão que se lhe oferecia. Tive notícia da sua desventura. . . e viu atrás de uma tapeçaria a risonha e ardente Nanon. Por muito preocupado que estivesse com a recordação da viscondessa. Canolles empurrou uma segunda porta. Canolles ficou inerte. . a pretexto de que havia atraiçoado o rei.disse ele . . .não o sei. . Será verdade o que me contaram? Mostraram-lhe. Canolles sentia a febre subir dos trémulos dedos ao extravazado cérebro. uma camarareira. o senhor D’Épernon 335 não fazia mais do que aumentar a monotonia da minha vida. . minha querida amiga. como fez para se deixar enganar por aquelas delambidas princesas? Canolles corou. Levara-lhe a nomeação.Você! ..Também assim penso. não sabia?. porém. que.. pois na verdade creio que me livra do cadafalso. porque sou um demónio ..ter medo de enlouquecer. com todos os demónios! Quando se encarrega alguém de uma missão tão difícil como aquela. .Eu bem desconfiava disso. tão 334 perspicaz.. quem era? . enquanto eu me perdia como um insensato.disse Nanon. Não sabe que aquele indigno Mazarino.foi quem me salvou. Canolles. ao espírito que refulgia nos mais lindos olhos do mundo. .. . ficou esmagado ao peso do remorso e do reconhecimento. e apesar de trazer sobre o peito o seu retrato.Oh! é porque elas são astuciosas.balbuciou ele. abaixou a cabeça.Ah!.disse ela. tão fino.Eu! ..Ah! pobre rapaz! A culpa é daquele traidor de Mazarino. segundo creio. pois. Ah! meus senhores. . e foi lançar os braços ao pescoço do gentilhomem.não a conhecia.. confesse-o! . oh! barão. em lugar da jovem princesa. adivinhando imediatamente o novo favor daquela fiel amante.Julguei ver a princesa . para o trazer para aqui.. dá-se-lhe um retrato! Se tivesse possuído ou visto um retrato da princesa.. querem fazer a guerra às mulheres!.E então.disse ele . Nanon tomara o partido de não ver nada daquela confusão. . não sei o quê!.Na verdade . redobrando de risos e de beijos. o senhor. .Uma dama de honor.E veio esperar-me aqui? . Pois. ou mesmo não o posso compreender. Mas. velava por mim. queria dar-lhe cabo da pele?. decerto a teria reconhecido. como se quisesse assustá-lo. não pôde resistir a tão delicada bondade.Não me chame o seu anjo.Mas eu disse: pois não há-de ser assim.Só apareço nos bons momentos.

faremos ideia do seu amor. No mundo. Depois de haver beijado as suas brancas mãos.Muito obrigada .meu nobre cavalheiro. pobre Canolles! E agora.a Ilha de São Jorge. cobrindo lugubremente a cabeça.Escolhi. .Desde então . diga que me ama! E a encantadora sereia. . Um secreto pressentimento dizia-lhe que havia alguma coisa mais do que amor em Nanon. o que nele se passava. senhor.disse ela . como bem sabe. e morrerei. só o senhor me ama um pouco. eu juro-lhe. O mancebo fez um sinal com a cabeça. Quem.Não há dúvida. que não podia tornar-se insensível a tão extremoso zelo. sorrindo . Ei-lo quase casado. mas sim. meu caro amigo.e há-de esquecer. "Agora é preciso que ele esqueça.bem quereria estar igualmente certa do seu amor! . que estava à vista de Coutras. estamos protegidos pela mais legítima união. Nanon ." NO dia em que Canolles fora preso em Jaulnay sob os olhos da senhora de Cambes. abrandei a ira de Mazarino.continuou ela .pode ter toda a certeza. que havia generosidade. Canolles deixou-se arrastar pelo incrível atractivo desta mulher. porque. muito bem . o seu amigo. ou.Parece-me adivinhá-lo. e a minha pessoa. inclinou a cabeça sobre o peito arquejante do mancebo. para melhor dizer.cortou Nanon. .continuou Nanon .a sua pessoa e os seus bens estão em segurança junto de mim. A carta que lhe escrevi cairá em más mãos. tinham-nos atraiçoado. .exclamou ele .. que respondia à pergunta de Nanon. . Finalmente.. a guerra que inflama e que embriaga.Bem. com obras. pois . como se quisesse penetrar-lhe o pensamento no mais profundo do coração. Nomeei-o. para a salvar do menor perigo. pelo que fizer. mas que também lhe perdoava.disse ela consigo . velará cuidadosamente por tudo isso? Será fiel amigo e fiel guarda? Neste momento. lançando os braços ao pescoço de Canolles.disse Canolles . querido amigo. Vejamos. escolhi para meu retiro São Jorge. O duque chegou furioso.. e que não somente ela o amava. para pôr em segurança o meu dinheiro. . A sombra da senhora de Cambes teve de fugir. meu querido Canolles.disse eu comigo . cravou o seu olhar ardente nos olhos do mancebo. . meu pobre amigo. em que Nanon procurava ler. existência e riquezas. pois com a boca não ousaria dizer-lhe que a amava.poderá 336 defender a minha vida? Quem melhor do que o meu senhor pode conservar os meus tesouros? Tudo está nas suas mãos.previ tudo e determinei tudo: fiz do senhor d’Épemon o seu protector. e declarei-o meu irmão. tão certa estou do seu valor como da sua generosidade. ao ler a sua carta. uma trombeta retumbou no pátio e vibrou no coração de Canolles.Oh! sim. e a cem passos de distância a guerra ameaçadora. Ah! -acrescentou ela. ainda que no fundo do seu peito todas as recordações advogassem a seu favor. E passando à roda do pescoço de Canolles os mais lindos braços do mundo.. sempre me querem apedrejar. Canolles sentiu naquele coração. tinha diante de si o amor mais eloquente que jamais existira. as minhas jóias.Oh! . beijou os olhos pretos.. esta partira com Pompeu ao encontro da princesa.Amor não se prova com juramentos. . a não ser o homem que me ama . .

apesar de todas as suas jactâncias. na Gronelândia. O facto é que. graças às duas mil libras que recebera de Nanon para somente se ocupar do barão de Canolles. e gozava com delícia aquelas alegrias infinitas que só as crianças e os amantes conhecem sobre a Terra. como o tinham provado no assédio de Montauban e na batalha de Corbie. teria ela só. servira de pretexto ao príncipe de Marsillac para tirar da Picardia e outras províncias toda a nobreza que conseguia detestar Mazarino mais ainda do 340 que era afeiçoada aos príncipes. nas índias. menos facilmente persuadível do que Pompeu julgara ao princípio. entre boas muralhas. cumpria dizê-lo. graças aos acontecimentos subsequentes. meigos e corteses para com os compatriotas. o que fizera. Eram aqueles mesmos gentis-homens que voltavam do famoso enterro do duque de La Rochefoucauld. Na realidade. já se sabe.O primeiro cuidado do digno escudeiro foi querer provar à ama que se o bando de Cauvignac não exigira resgate algum. graças à reflexão filosófica de que o ciúme é a mais magnífica das paixões. seguindo um caminho transversal. uns traziam o braço ao peito e outros uma das pernas rodeada . e que excelentes fortificações. encerrariam também a senhora de Cambes. enterro que. observou-lhe que durante mais de uma hora ele desaparecera de todo. à sua catadura resoluta. e não foi sem grande susto que. Porém. muito pouco acessíveis aos soldados do rei. Pompeu explicou-lhe que durante aquela hora ficara escondido num corredor. esquecera o querido Pompeu e deixara continuar a senhora de Cambes o seu caminho para Bordéus. Ora. sem de tal desconfiar. estava bem longe de tranquilizá-la. viu surgir. e como Canolles e Nanon se tinham encontrado de novo na Ilha de São Jorge. com o auxílio de uma escada. Pompeu. onde. Ela bem teria querido que a viscondessa se achasse no Peru. porém. para o futuro. não faziam empenho os soldados 339 contemporâneos. com o fundamento de render as honras devidas ao pai. uma coisa singular causou admiração à senhora de Cambes. nem cometera violência alguma contra a bela viajante. porém. quando Nanon se lembrava de que. o seu querido Canolles. e sobretudo a Pompeu: entre aqueles cavaleiros. terríveis para o inimigo.mas que precisara de fazer frente a dois soldados desenfreados que lhe disputavam a posse da escada. Esta conversação permitiu muito naturalmente a Pompeu fazer o elogio dos soldados do seu tempo. que tinham mudado o curso das ideias do capitão. sentia-se dominada. peito largo. Por outro lado. um considerável bando de cavaleiros. sobre a tarde do dia em que partira de Jaulnay. A senhora de Cambes. salientara-se logo aos olhos de Cauvignac. e que é necessário aproveitá-lo quando o encontramos no nosso caminho. e à sua experiência da guerra devia ela atribuir tal ventura. qualidades em que. preparara uma fuga certa para a viscondessa . prisioneira na sua rebelião. a senhora de Cambes viajava triste e trémula. Nanon bem quisera que Bordéus não estivesse tão perto de Canolles. porém. Pompeu acabava de escapar a um imenso perigo: o de ser alistado por força. inteiramente militar. com aquele invencível denodo de que todos sabiam ser dotado. e ar marcial. pelo seu lado. Como marchava por costume com olhos radiantes. Vimos como aquele sonho se realizara.

perguntou Pompeu.. palidez biliosa. de noite teria inspirado terror.É justamente o que estava a ver .volveu Pompeu com orgulho. Lance.Que lhe parece.Regressa.disse a senhora de Cambes. Porém.Eis um enterro que teve lugar por bem maus caminhos. um cavaleiro de mediana estatura. e porque digo a verdade a mim mesmo. . senhor. pois..Digo que voltamos derrotados.. Olhe. não há contudo perigo algum..exclamou Clara. empertigando-se orgulhosamente na sua sela . fomos derrotados. aquele cavaleiro inspirava tristeza em pleno dia. lábios delgados e móveis. e em trajos de afectada simplicidade.. tão desfigurados. boas ou más.disse Clara. minha senhora.. É forçoso que a maior parte deles tenham caído dos cavalos abaixo! Olhe como vão maltratados. ou sobre o flanco da tropa. e o chefe bem podia mostrar-se. o oficial marcha no centro com os seus oficiais..Está enganado.Senhor príncipe de Marsillac! ..Não vejo nada...respondeu Pompeu.. vão inscrever-se as acções da minha vida. Porém.. no esquadrão. . . porque. Isto não deixa de ser singular.disse atrás do pobre escudeiro que esteve a ponto de cair de costas. os ligeiros e formosos caçadores que haviam caçado o veado no parque de Chantilly. a dois passos de si. senhora. Não. herdei o seu nome. pois. . senhor Pompeu . o medo tem olhos penetrantes: Pompeu e a senhora de Cambes reconheceram sob daquelas tiras ensanguentadas alguns dos seus conhecimentos. mas sim os bravos a quem levavam.aqueles gentis-homens não são comandados por ninguém? Não têm um chefe? Esse chefe teria morrido. aqui não é como em Corbie.Ah! seja muito bem-vindo. Pompeu. era. senhora? . a fronte carregada. pois não o vemos. com hesitação. Clara voltou apressadamente a cabeça. uma voz estridente e trocista . .Diga duque de La Rochefoucauld... . que olhava para ela com uns olhos radiantes e encovados como os da raposa. ninguém. com um certo receio pela empresa que se apresentava sob de tão tristes auspícios . muito agitada.. olhe para trás. agora que o duque meu pai morreu. necessário olhá-los de muito perto para reconhecer naqueles gentishomens. senhora . mas parece-me que nos seguem.. . Não. Aquele cavalo malhado. como a digo aos outros. com medo de efectivamente ver alguém. Com os seus densos cabelos pretos. Não.. . .. 341 Mas espere! O chefe não será aquele de penacho encarnado?. semelhante ao do senhor de Turenne?. . . e ficará elucidada. e viu. sob o qual. marcha atrás.Voltamos derrotados. minha senhora.perguntou Clara. os olhos para os diferentes lugares que designo. . poderia dizer que voltávamos vencedores. se assim não fora. daquela vez não era os bravos que voltavam. .Minha senhora . visto que os nossos projectos acerca de . mas sem se voltar.está enganado: é pior do que em Corbie. . . Aquela espada dourada?. muitos tinham na fronte ligaduras ensanguentadas.Isto recorda-me o regresso de Corbie .Derrotados?! Oh! céus! . mas. na realidade.Não. Normalmente..nada há mais fácil do que reconhecer um chefe no meio da gente que comanda.de chumaços. porque eu sou pouco fanfarrão por natureza.Oh! não.Mas .disse Pompeu tossindo. na acção. .

. com uma espécie de orgulho.deixe-me fazer-lhe os meus cumprimentos.Porque encontramos algumas tropas reais . enganou admiravelmente um pobre diabo.O senhor.continuou o duque .Ao menos não está ferido? .A sua extrema habilidade. e foi o senhor duque quem deu o exemplo! .. como se lhe prometeu. fizera a guerra aos reis. Vitória fácil. tão frio e tão sisudo?! . . para uma defesa. senhora. julgava ter recebido lição suficiente da guerra civil para não me meter mais nisso. sim. 342 o que significa o que vemos e porque é que todos esses cavaleiros estão assim feridos? . Todavia. senhor . . A senhora de Cambes sorriu.Saumur se malograram. Então.Não..Viajar assim só.E porquê? 343 . Não havia meio algum para a senhora de Cambes fazer uma retirada honrosa. Este sorriso não escapou ao duque. que não pôde dissimular apesar do domínio que tinha sobre si mesmo.se. e.que o primeiro sangue francês já foi derramado por franceses.Digo fácil . senhora. . . contaram-me a sua linda actuação em Chantilly. De agora em diante. pelos lindos olhos da senhora de Longueville..juntou o duque. Que quer? O homem sempre forma projectos sem consultar a paixão. a capitulação teve lugar sem que se disparasse um tiro.porque não combatia com armas iguais consigo.Fui eu.disse ela.E houve combate? .Fale. perdemos aquela importante praça que Jarzé acabava de entregar. não é assim? . E com mais pertinácia do que nunca.. oficial do exército real. com aquele sorriso e olhar que nele queriam dizer tantas coisas. Desta vez fui mais feliz do que nas linhas de Paris.disse La Roche-foucauld.. senhor duque .Como assim!? .perguntou Clara . torno-me por vezes muito pouco razoável. supondo que a princesa tenha Bordéus. . quando não o derruba inteiramente.murmurou a viscondessa . como me pareceu compreender.. Preparou-se. minha senhora . toda a guerra vai concentrar-se na Guiena. o oficial já tinha . não dando tempo à viscondessa de fazer seguir o pensamento àquele sorriso que lhe dera lugar: . o único e verdadeiro arquitecto da sua vida. se é verdade o que me disseram. senhora.Quer dizer .Mas. . Segundo me referiram. Cheguei muito tarde. tão sossegado.Oh! meu Deus.Que foi que o admirou tanto? . porque na verdade é um modelo de valor. Porém. . Oh! a propósito. muito agitada.perguntou Clara. que reforma o seu edifício. e a faria aos deuses. como uma Clorinda ou uma Bradamante!.Quando se defende um partido injusto contra mim. com efeito. em fazer aquele pequeno papel cómico. à força de me apaixonar pela razão. . com um único escudeiro. . que decidiu fazer com todo o vigor que pudesse.Mas. por consequência. uma coisa me admirou no relato que me fizeram dessa aventura. o duque cravou os olhos na viscondessa.continuou ele . havia-me enganado. .perguntou com vivacidade a senhora de Cambes. lembrava-se de que o senhor de La Rochefoucauld dissera que.

e justamente diante de uma pessoa que entende essas duas línguas?.. como dizem os italianos. . Estas últimas palavras. mas que a entrevista não fora longa. senhor duque . uma infidelidade à senhora de Longueville. e até me parece que a si mesma.disse Clara . o príncipe de Marsillac fizeralhe a corte tão assiduamente quanto o permitiam aquele carácter . sumamente agitada já não sei na verdade o que quer dizer. entendamo-nos. ainda que proferidas com toda a habilidade ciscunspecta de um homem de tacto.Por isso..replicou o duque .. . não sou eu quem o diz. Será. e ao poder destes dizeres os reis estão sujeitos como os últimos dos seus súbditos.E então? .Tem razão. .visto o seu escudeiro. a coisa era impossível. com fingida ingenuidade .. Efectivamente.tem um garbo e um rosto que devem deixar uma profunda impressão. como não me reconheceu ele então? . diz o senhor? . perdoe-me.. . parece-me que o inglês e o italiano são tão pobres como o francês. numa aldeia chamada Jaulnay. senhor duque.estas duas palavras traduzem-se em francês pela de "rendez-vous". estava quase sufocada.E que será então? . senhora.Mas.replicou a viscondessa. ocorria-lhe uma coisa de que sempre desconfiara: de que o senhor de La Rochefoucauld fizera.Mas isso não era possível . antes dessa entrevista.. e que ao falar assim era um sentimento de ciúme que o obrigara. .não digo eu uma parvoíce em duas línguas estrangeiras.continuou o duque. que em vão procuro uma palavra que exprima a minha ideia.Desta vez.. eu não faço mais do que repetir o que outros dizem.Tenha paciência. Na verdade. quem se engana.. como dizem os ingleses. senhor duque.Ah! segundo o famoso dizer de que ainda agora lhe falava. senhora . ainda que na sequência de um encontro momentâneo. afinal. e é forçoso confessar que se defende habilmente. a tivesse já visto. além de que..replicou a viscondessa . tendo o mancebo recebido ordem do senhor D’Épernon para partir no mesmo instante rumo a Nantes.Já me tinha visto. como vê. se não me engano.-Pondere as suas palavras. que significa o encontro de um instante?. pois. . A não ser. . Minha senhora. sou eu. . e que para tudo tem resposta pronta.E onde me tinha ele visto? . 345 Clara apertou o coração com a mão esquerda para poder respirar mais livremente. todavia.Então . a nossa querida língua francesa é tão pobre. pelo menos em pensamento e em desejo e por amor dela. . uma "assignation". não vou mais longe. dois anos antes.talvez tenha sido mal informado.Mas se aquele gentil-homem me tinha visto.visto que o senhor mesmo diz que a entrevista teve lugar nas trevas. senhora. um "appuntamento". supondo que assim seja.. 344 . que aquele mancebo. a aventura de Jaulnay já não seria exactamente um encontro. não deixaram de impor uma profunda sensação à senhora de Cambes..respondeu Clara...ajuntou cortesmente o duque . . então.Dizem que foi na estrada de Libourne para Chantilly. visto que a entrevista tivera lugar nas trevas. . senhor duque .

sobretudo nas circunstâncias em que estamos. senhora.E de Lenet? ... e aqueles eternos acanhamentos. em cujo ódio não é bom incorrer.disse ela . dir-me-á que o segredo não saiu da família. e. senhor duque? .De maneira nenhuma: está tão bem colocado naquele lugar.disse ele .dissimulado.parecer-me-ia muito com esse ministro. tinha que receber os correios da senhora de Longueville.. aproximando-se dela. e até um segredo de mulheres. que não conheço. e que Mazarino. na realidade. . . que.replicou o duque de La Rochefoucauld .disse o duque.Na viagem que me fizeram empreender. . . não sabe qual era o companheiro que a princesa me destinava? .Não.e de Richon? e do senhor de Tour-ville? e até de um certo visconde de Cambes. quando não era o amigo mais reconhecido. que se preza de ter uma boa polícia.oxalá tivesse feito aquela viagem consigo! ..Entendamo-nos. .. não a tem.Não sabe senhor duque .Ah! . . todavia.Então. por negócios indispensáveis. La Rochefoucauld olhou com vivacidade para a viscondessa. lembra-me que a princesa me mandou perguntar se podia servir de escolta a uma pessoa que voltava de Libourne para Paris. prometo-lhe que serei tão discreto como a senhora e que o não direi senão ao meu estado-maior.disse ele. cujas sobrancelhas já começavam a franzir-se. e se é um segredo. em vez de censuras. só tem direito a esperar louvores.Encontrava-me então detido no Poitou. replicou: . minha senhora . visto que. um segredo? . tão boa como a sua?. senhor duque.disse ela.. .Embora assim o faça. então.Sabe uma coisa.Com efeito. Verdade 346 é que quanto a este último. Esta boa defesa aguçava a sua perspicácia. mas diga-me. tanto melhor. que faziam dele o mais rancoroso inimigo. . ainda que com isso eu corra o risco de me tornar inimiga de uma grande princesa. O duque sorriu.Não. O encontro era um acaso.que é um homem precioso.E recusou-se a isso. senhor duque. A viagem era um segredo. como para sondar o íntimo do seu coração antes que o rasto dessas palavras tivesse desaparecido. . só eu e a princesa sabíamos dela. sendo seu irmão. . . . Clara pôs-se a rir para não irritar o duque.Era o senhor mesmo.. O duque corou imperceptivelmente. suspirando contra vontade . se elas os tivessem?. esse segredo? . . . . aquelas perpétuas incertezas.Sim. e de quem pela primeira vez ouvi falar naquela ocasião. Aquela viagem e aquele encontro eram.Até dos segredos das suas aliadas.Censura-me por causa disso? . e então nenhum motivo teria para fazer guerra. porque só em parte tem razão. E por isso é que trato de estar pouco mais ou menos inteirado de tudo..Acaba de proferir uma palavra que se interpretaria muito mal se a ouvissem: um segredo de mulher.Se eu de nada soubesse. Por isso a viscondessa preferiu não romper abertamente com um homem que tanto tomava a peito os negócios públicos como os interesses mais familiares. .

continuou o duque . .347 .perguntou Clara. Porém.Sim. . . para os corações nobres.. . Conhece Jaulnay?. o duque saudou cortesmente a viscondessa.. e terá pago com a vida o seu erro.Por ora não. e tomou. sabe bem que.. Oh! meu Deus. . mais felizes do que eu. 348 .desejara ter a honra de escoltá-la mais longe. visto que dela resulta uma felicidade pública.Porquê? É alguma pessoa sagrada? . . desculpe-me..perguntou o duque. porventura tenho eu tempo de ter compaixão. a passo lento. Clara olhou furtivamente para o pálido rosto de La Rochefou-cauld..continuou ainda o duque . ... o oficial. ele. não o faria a pessoas que se encontram pelas estradas. porém. tenho de deixar uma guarnição em Montrond.respondeu o duque.Morto de amor? . Vinte gentis-homens. o meu contrário é muito forte.. e não pôde deixar de estremecer. a senhora não terá encontrado aquele oficial.. Aliás.Ele. esse homem era ele.. Ditas estas palavras. diz a senhora? Ah! pondere. que a fortuna (tão evidente é que Deus protege a nossa causa) quis que fosse o mesmo que Mazarino enviou a Chantilly. corando. "Richon é que lhe há-de ter dito tudo" . quando vi um grupo de gente armada que prendia um homem e o levava.Ah! senhor duque . não é nessa mesma aldeia que segundo os boatos que correm. Digo-lhe que aquele infeliz foi preso hoje mesmo por ordem de Mazarino. com uma voz sufocada por dolorosa e recente recordação . ou não queria dá-la. num tom que dava a entender que tinha outra resposta pronta. ao caminho da sua tropa de cavaleiros.Porque não teria ido a Saumur .Oh! meu Deus! sim. e para os seus delgados lábios arrepiados por um sorriso sem irradiação. por Jaulnay. pois. senhor. eu?! -exclamou o duque.admirou-se o duque. Clara seguiu-o com os olhos.Não vai para Bordéus? .não me queixo da minha desgraça particular.Deve sê-lo agora. bem. . mas que não ousava. .Quero dizer que se tivesse estado consigo.-E como sabe disso? Por algum novo encontro? . senhor duque . vou-me reunir-me na Turenne com o senhor de Bouillon.respondeu Clara. senhor duque.Preso?! . . senhor.Perfeitamente: recebi aí uma cutilada no ombro. murmurando: .E porquê? . a quem lhe peço que tenha a bondade de apresentar os meus respeitos. pois.disse ele.Senhora . -Ah! senhora..exclamou Clara. Rivalizamos. senhora! . são sagradas como as grandes fortunas.. Passava eu. como é profundo! Ponha de parte as suas espertezas e se não tem compaixão por aquele infeliz. .Porém . Esse oficial estará talvez morto a estas horas. se desse o meu coração a alguém. porque as grandes desgraças. Passava então por Jaulnay. se me separo de si. sobretudo por homens que não conheço?.Deixemo-nos de boatos. . servir-lhe-ão de guarda até que se tenha reunido à princesa. Eu passava por Jaulnay.Que quer dizer. . .não graceje acerca daquele infeliz oficial! . quero vencê-lo e ficar seu tenente. a ver qual de nós será general desta guerra.pensou Clara..Compaixão.. senhor duque? Não o compreendo.Falemos seriamente. ou o seu ardente zelo.

esta suposição retirava à princesa de Conde a parte de merecimento que julgava haver desenvolvido na execução do ardil. Mas para os reconciliar tenho um plano da senhora de Tourville. trazendo o seu rolo de papel com uma tal gravidade. sem margem para dúvidas. no que poderia resultar de um ódio como o do senhor de La Rochefoucauld. e que se deve deixar ao povo. a nada quis dar crédito.Sim. que ele se inquietara a seu respeito a ponto de estar inteirado de tudo.não me lisonjeie muito acerca da suposta destreza que mostrei nessa ocasião. a ver qual dos dois será generalíssimo dos nossos exércitos. antecipou-se-lhe.Sim. acordou muito tarde. sorrindo ao ouvir este nome. já que não deixa de haver quem assegure que o oficial enganado sabia muito bem a quantas andava. A senhora de Cambes havia pensado muitas vezes. compreendo muito bem: hoje. quando fizermos a paz. minha querida Clara . por infelicidade sua.disse ela .Oh! oh! . quando a senhora de Cambes soube." Dois dias depois. mais direito terá a fazer pagar cara a sua reconciliação. e necessita da paixão para fazer as coisas. reconhecendo ser jovem.disse a viscondessa. e com o resto da tropa ir. que só serve para enfraquecer o coração. porém.respondeu ela.Então Vossa Alteza reconciliou-se com a sua conselheira costumada? .. afectando recusarem essa honra. bem o sei. fruto de laboriosas vigílias. . mas abstermo-nos de a ter. andam a competir. não entendia que aquele ódio . "Posto que Vossa Alteza . Com efeito.disse à princesa. venho oferecer o meu tributo à associação . senhora.Que lhe contou ele de novo? . a fim de se entender com o senhor de Bouillon. . foi ter connosco a Montrond. pensativo.supondo. a senhora de Cambes reunia-se à princesa. Apesar disso. há uma luta entre eles.pudesse ter uma influência funesta na sua vida. esta frase bastante singular num filósofo moralista: "Creio que é necessário contentarmo-nos em mostrar compaixão. instintivamente."A sua compaixão! Eu invocava a sua compaixão!. Como." Viu então um grupo de cavaleiros destacar-se ao encontro dela. com as rédeas lançadas no pescoço do cavalo.Sim. que nunca executa coisa alguma pela razão. É esta uma paixão que para nada é útil no interior de uma boa alma. bela e válida. . que eu e Lenet não pudemos deixar de rir. . pois esperou por cair em desgraça para assim proceder. 349 que mais tarde inscreveria. .Que ia para a Turenne. no princípio das suas memórias. quanto mais temível tiver sido o rebelde.nenhum caso faça destas reflexões. que o nosso gentil-homem vê que o enganámos.Senhora .. aquele homem de olhar falso e mãos brancas. Ele disse bem: não tem tempo para isso.Não houve remédio.Sim. Mas. quereria dar a entender que nos favoreceu. porém. relativamente à verdadeira ou falsa princesa de Conde. todavia. em resposta aos elogios que lhe eram feitos . e deu conta disso à princesa. . que existisse . a propósito: não me disse que 351 tinha encontrado o senhor de La Rochefoucauld por esses caminhos? . sim. .

. pois.... "Senhora .generosa". mas sim o senhor de Turenne. senhora . e isso pouco nos importa! .A da senhora de Tourville. senhora. a causa da frieza que o duque lhe testemunhou? . e. era um verdadeiro discurso? . cedi a palavra a Lenet. minha senhora. pondere bem. nem o senhor de Turenne.O espírito está. e ainda menos das suas luzes. . e o nosso plano exige que marche sobre Paris quando Mazarino e a rainha marcharem sobre Bordéus. que entrava justamente naquela hora com um rolo de papel.. .Ora.disse ele . nem o senhor de La Rochefoucauld. Que diz a isso. o senhor de Turenne não pôde ausentar-se do exército do Norte.O duque de Enghien não deve assinar um tal papel! É uma criança. Lenet. não é nem o senhor de Bouillon..Bom! Bom! . Porque não seria na casa dos Condes como na casa de França?.. que a princesa e eu todos os dias por elas suspirávamos". Numa palavra: disse-lhe ainda um mar de coisas lindas.A qual deles respondeu Vossa Alteza? .Digo que a viscondessa tem razão. . . . senhora.Contanto que lá esteja o espírito.. salvo algumas necessidades de redacção..Já ponderei. Esses senhores querem fazer a guerra: façam-na então! . senhor Lenet? .O primeiro já disse. senhora. . é Lenet! Que tem aí Vossa Excelência? Alguma proclamação? . . bem entendido. . . a letra pouco deve importar. bem sabe.. . e que junta um voto mais às nossas deliberações .Mas então. . hâ-de saber a coisa quando ela estiver feita.Sim. . portanto.Não nomearmos generalíssimo nem o senhor de Bouillon.. e foi-se embora depois de ter dito.O senhor de La Rochefoucauld há-de assinar a seguir ao duque de Enghien. senhora! Quando o rei morre. o delfim sucede-lhe.disse Lenet. o nosso generalíssimo.Sobre três pontos.Qual é?.Mas o que dirá o senhor de La Rochefoucauld? O que dirá o senhor de Bouillon? . O estilo de chancelaria. que Lenet é o homem das impossibilidades. 353 .Isto não é dizer-me onde há-de assinar o senhor de La Rochefoucauld.respondeu Lenet. 352 .disse rindo a princesa.E o senhor de Bouillon.nós nunca duvidámos do seu zelo. .Sim.. que a seduziram a ponto de acabar por lhe oferecer o plano. Por isso. o qual segurava tão gravemente como teria feito a senhora de Tourville.Deixe-o frio. . onde deve assinar? . ainda que não tenha senão um dia.. . .Ele aquecerá com os primeiros tiros de artilharia que nos atirar o marechal de La Mille-raye. são para nós tão preciosas. o segundo.Infelizmente. dirá o que quiser.Há-de reparar.. nem o senhor de La Rochefoucauld. minha querida amiga.parece-me desta vez que a conselheira aconselha assizadamente. pois .A nenhum. .Na mesma linha que o senhor de La Rochefoucauld.acrescentou Clara .Eis.

Quer dizer ..Pois essa é a condição "sine qua non".respondeu Lenet. caso tornássemos a cair no dos parlamentos?.perguntou a senhora de Tourville.Ora.Bordéus está então ameaçada? . Adiantou-se com vivacidade.que nos fez fugir de Chantilly. .O que toma por uma afronta. A senhora de Tourville mordeu os lábios.Tenhamos todo o cuidado em não os descontentar demasiado.E eles não têm senão o seu nome.perguntou Lenet. .. e os outros entrarão atrás de si. dentro de quinze dias. desde o primeiro até ao último.Sem dúvida. . e os nomes daqueles senhores seguir-se-ão ao do príncipe. será assinada pelo duque de Enghien. . Havia já alguns segundos que a senhora de Tourville entrara.Não temos senão eles. e então fique sossegada: far-se-ão matar pela sua causa. fez-nos correr cento e cinquenta léguas.disse a princesa . adoram o duque de La Rochefoucauld. . Lenet! . senhora.. deixe-se de parlamentos. .pois está aqui uma carta do presidente de Bordéus. do que ver que a recebam a ela. . de que tem medo. senhora. pode haver de mais lisonjeira para a princesa de Conde. . e verá quanto tempo se aguentam. e nem sequer conhecem o duque de Enghien. deixe as portas abertas.. . Que coisa. senhor? .O plano que propus a Vossa Alteza teria a desgraça de não alcançar a aprovação do senhor Lenet? . . e..Vossa Alteza quer entrar em Bordéus? .. será também o parecer do Parlamento. que tentem combater por conta deles.. sorrindo.E até conservei cuidadosamente a maior parte da sua redacção. e daqui a quinze dias chamá-lo-á para se defender.Mas os bordeleses amam o duque de Bouillon. tirou um papel daquela algibeira cujo conteúdo sempre 354 causava admiração à princesa . .Ah..Só a Vossa Alteza receberão.exclamou a princesa. . e ao ar radiante e alegre do seu rosto sucedera uma sombra de inquietação... quando entrar. . entre de um modo ou de outro. que aumentou com as múltiplas palavras do conselheiro sem rival.Pelo contrário. e.Quer comprometer o jovem príncipe. . Lenet recomendou a princesa. Nada de hesitações. a única diferença é que em lugar de a proclamação ser assinada pelo duque de La Rochefoucauld. Terá então o duplo merecimento de ter feito duas vezes o que os bordeleses lhe hajam pedido. e não aos outros?.Não nos é possível passar sem eles.Que vantagem nos traria escapar ao poder da rainha e de Mazarino.O que posso eu fazer só? . que segundo o seu costume.É muito justo que se comprometa. visto ser por amor dele que combatemos. meu Deus! Entre.respondeu Lenet. para recebermos uma afronta dos bordeleses?. senhora .Está enganada .Este é o meu parecer. não dar um tiro por qualquer outro que não seja o duque de Enghien. . . é uma honra. os bordeleses nem sequer receberão os dois duques? . .Então. Bordéus repele o seu exército. na verdade. . e afirmou: . na qual me roga que faça assinar as proclamações pelo jovem duque. .

Neste momento estão recrutando para o exército real. .Já lhe disse que ignorava completamente quem ele fosse. senhora. a Ilha de São Jorge. atónita.exclamou Clara. segundo o seu costume. . Enquanto lá não estivermos. perante meus olhos! .Ele mesmo. visto que têm de se medir com as melhores tropas do rei. senhor? . na minha presença. antes que os bordeleses tenham sofrido uma derrota.E de onde procede a sua inimizade? . Bordéus pode. e na qual me exprime o seu pesar por Vossa Alteza o não ter despachado a ele próprio para a Ilha de São Jorge.O senhor de Canolles?! . uma vez que lá estejamos.Ora..Muito ameaçada-respondeu Lenet. Bordéus não pode.Mas não seria mais acertado chamar ao nosso partido o tal governador. adivinham quem? 356 .Está bem certo disso. pois: é o tal oficial. senhora. sem comprometer a honra. . Os bordeleses tentarão apoderar-se da ilha. . chamarão em altos brados pelos duques de Bouillon e de La Rochefoucauld. isso é coisa impossível. Então.disse rindo a princesa. a rainha e Mazarino.O senhor de Canolles governador da Ilha de São Jorge?! . os nossos inimigos tomam posição. sem se desonrar. terá esses dois duques nas suas mãos. .Se estiver em Bordéus quando essa derrota se registar. senhora. como convém a paisanos que querem fazer as vezes de soldados. por uma inexplicável incúria. minha pobre Clara! .perguntou Clara. e que. .. . recusar abrir-nos as suas portas. meteu a mão na famosa algibeira.É verdade.Impossível?! E porquê? . e imporá as suas condições aos parlamentos.Meu inimigo pessoal? .E quem ameaça Bordéus? . e é muito natural que sejam repelidos. quanto a subornar o governador.355 . nada terá que temer. . isto é. .A princesa despachar Richon para a Ilha de São Jorge?! .que me dá todos os pormenores sobre a posse do novo governador.Isso não é possível! Eu vi-o ser preso.disse ele . acaba de receber um reforço. e dela retirou um papel.Sim. em pessoa. deixou fugir Vossa Alteza de Chantilly. de quem tanto se têm rido. expulsar-nos dos seus muros. . e a prova é que mandou para a Ilha de São Jorge.Ele nunca perdoará a Vossa Alteza o logro de que foi vítima em Chantilly.Está aqui uma carta de Richon . Lenet. para a melhor posição ao país.E se o julgava já morto.Porque esse governador é inimigo pessoal de Vossa Alteza.O rei.Sim. e a sua desgraça converteu-se em graça. Oh! Mazarino não é tolo. Mas deve sem dúvida ser poderosamente protegido. como o julgam. . um abastecimento de munições. . . . que só dista umas três léguas da cidade.É por isso que se torna indispensável tomar ali posição. Devidamente desancados. e um novo governador. . senhoras. apesar de que eu não cesse de repetir-lhes o contrário. que talvez os desanime?.disse a . .

Ora! Que vale isso? .Então de qual? A senhora de Tourville estremeceu vendo que Lenet aproximava a mão da algibeira.Aquela rapariga?!. sempre estamos a tempo. . como a Ilha de São Jorge sobre o Garona? .Aquela insolente rapariga não se contentou em dizer: "Mais prudência".certamente que não deixa de haver algum mistério em tudo isto.Talvez que no lugar de Sua Alteza . e que a rainha. a esta hora. que nada ouvira do que há cinco minutos se dizia.disse a princesa.disse Lenet . senhora . .Aquela rapariga que Vossa Alteza não quis ver.é a nomeação de que precisávamos para evitar. não me lembrava.Nanon de Lartigues?! . recebera.É verdade. senhora .Sem dúvida. . . e confirmada por Richon . e que só ficara ciente da notícia dada por Lenet. senhora. . . 357 .exclamou a princesa. mas que decerto em Ana de Áustria há mais prudência do que na princesa de Conde. ou então quer poupar-me .a tivesse recebido com reverência.disse a princesa .que 358 será essa mulher que lhe fará a guerra mais encarniçada.de encaminhar os governadores aos seus governos. o que justificou que ela respondesse ao vosso camarista que era possível ser Sua Alteza de Conde senhora de mais distinção do que Ana de Áustria.A memória não o ajuda. com desprezo.respondeu Lenet.senhora de Tourville.respondeu Lenet . Lenet. menos severa do que a senhora relativamente às leis da etiqueta. e nada mais. A rainha terlhe-ia enviado soldados a quem combater.disse com aspereza a senhora de Tourville a Lenet .negou Lenet. .E a chave desse mistério talvez nos possa ser dada pela menina Nanon de Lartigues.Tê-la-ia recebido rindo. com um riso triunfante. eu ouvi-a do princípio ao fim. .Sim . senhora . .de que é o mesmo Canolles que foi preso em Jaulnay quem agora governa a Ilha de São Jorge? .corroborou Lenet.e é quanto basta. . sempre estamos a tempo. E a posse da Ilha de São Jorge. .Tenho toda a certeza absoluta.replicou Clara.Este pedaço de papel. é a nossa salvação: enfim: haverá alguma outra praça sobre o Dordonha. . o preço há-de provavelmente ser demasiado alto para a nossa bolsa. Nanon mandar-lhe-á inimigos a quem será preciso esmagar.Sem dúvida que há .continuou ela . . .Mazarino tem um modo singular . senhora . pois. .Então fácil será compreender. . se somente se trata de comprar. .E está certo . . . .disse Lenet .Ora. . Um pedaço de papel.A assinatura em branco do duque D’Épernon! . a quem uma terrível lembrança acabava de trespassar o coração.Sim.. e tê-la-ia comprado. . o que acaba de se fazer. com a única diferença de que.Acaso dispomos nós das nomeações de governador para as praças de Sua Majestade? . senhora .Dispúnhamos de uma.disse desdenhosamente a senhora de Tourville.exclamou a viscondessa de Cambes.exclamou a princesa.Não. . quando solicitava ser-lhe apresentada.

. . se realmente Vossa Alteza quiser encarregar-me das suas instruções.Senhora.se a Ilha de São Jorge tem de custar tão cara como diz Lenet.Mas tu estás louca! .Antes de tentar esse meio .E hoje? . . enquanto Lenet olhava para Clara com a mesma atenção como teria podido 359 fazer o senhor de La Rochefoncauld. um dos melhores diplomatas da sua época. adopte o meu plano. sim. .Minha querida amiga. . por tal preço eu compraria Mazarino! .disse a princesa. é ele! . . rindo . . -Talvez .Entremos primeiro na Ilha de São Jorge.Mas . . entendia ser essa profissão a mais difícil de todas. senhora . . . conhece as localidades.. . mas agora acompanhada de benevolência.exclamou a senhora de Tourville. o senhor 360 de Tourville. será necessário lançar mão dela! .deixe-me tentar a aventura! E se eu for mal sucedida. que sempre se inclinava aos meios violentos .. antes da guerra. .Não.e.Acompanhada por Pompeu.É possível .Um milhão. e depois entraremos na Ilha de São Jorge. faria um verdadeiro serviço a Sua Alteza.Quinhentas mil libras. mas dificilmente será possível. apoderar-nos-emos dela como se a tivéssemos comprado. . então .Terá algum plano? . .disse a senhora de Tourville. Todavia. creio que a tomaremos.Não se comprará . não .insistiu a senhora de Tourville. contudo. então. não nos ocupemos agora disso.E não receia coisa nenhuma? . com o ar de mulher que receia ver a casa assaltada. ele é desta terra.Por meio da força. talvez não sejamos suficientemente ricos. entremos desde já em Bordéus. e que é preciso fazer um longo estudo dessa ciência. .disse Clara. .perguntou a senhora de Tourville.respondeu Clara . . que julgam ser tão importante.A mim parece-me que os diplomatas não se improvisam deste modo.Como!? .perguntou a princesa.disse a princesa.farei contudo a experiência.exclamou Clara.atrever-te-ás a ir à Ilha de São Jorge? . saída do fundo do coração da viscondessa fez com que as duas mulheres se voltassem para ela. -Só? .se não a pudermos comprar. .Irei como parlamentar.Ordenaremos a Richon que vá sitiar São Jorge.Porém.Então.disse Clara . . .As coisas já vendidas e revendidas baixam de preço.Irei. visto que se ignora absolutamente onde se encontra. e se há alguém que seja capaz de tomar aquela fortaleza.disse Lenet.É isso .É possível . .volveu a princesa. se a princesa o permitir.Seja qual for a minha insuficiência.Bem vês que Lenet diz que a praça é inconquistável. se conseguisse tal resultado. .Ah! eis uma coisa nova . da mesma forma que era um dos melhores guerreiros.esclareceu Clara . Esta exclamação.disse a princesa admirada .. . .Mas . farão o que entenderem. quanto vale ela? .Mas.disse Clara.

Querem-me. .. eu terei Vayres.exclamou ela..E eu . graças à assinatura em branco do duque D’Épernon.disse Lenet.tanto faz.disse Lenet . .. que domina o Dordonha. 361 .disse a princesa .. .E eu . visto que foi a primeira a quem ocorreu essa ideia.porque. entretanto.disse a senhora de Tourville.. o exército?.Se é uma mulher que vai à Ilha de São Jorge . Quanto a Lenet.disse Lenet . . se há no mundo pessoa alguma que possa sair-se bem de uma tal empresa.terei São Jorge.Mas os duques.Sem dúvida alguma que a princesa lho permitirá . senhora? .Ah! . ficou no mesmo lugar com a sua costumada fleuma. As duas mulheres aproximaram-se. que é a chave do Garona. . . que fará a senhora que outros não possam fazer? .. .replicou a senhora de Tourville . Era portador de uma carta do Parlamento de Bordéus.Um homem. . feito que um homem não poderia tentar sem correr o risco de ser lançado pela janela. Neste momento. .disse Clara .é sem dúvida a resposta à minha inquirição.disse a senhora de Tourville.. e até vale mais que seja a senhora do que outra. lançando um olhar à princesa de Conde. .mas. se.terei os duques e o exército. esse alguém é a senhora.Não .E estou convencido de que.Entrará francamente em ajuste com o senhor de Canolles. . vá lá . me der tempo para isso.disse Lenet .exclamou a princesa . com um acento de triunfo. movidas por um sentimento de curiosidade e interesse. . sabendo sem dúvida de antemão o que continha a carta. .Ah! . chamam-me.Então ficamos sem forças . A princesa leu avidamente...Não dizem palavra a este respeito. um mensageiro entrou no aposento da princesa.Então. esperam-me! .mas uma mulher.