São Paulo, segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

FRAUDE

Gabarito seria transmitido por mensagens de texto
Alunos são flagrados com celular nos sapatos em vestibular no Rio
ALFREDO JUNQUEIRA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, NO RIO A polícia do Rio de Janeiro prendeu quatro estudantes que tentavam fraudar o vestibular de medicina da Universidade Gama Filho. Antonio Luiz de Argolo Filho, 23, Diogo Lécio Dupin Zwan, 25, Jane Lopes Soares, 23, e Renata Bispo Arruda, 21, foram flagrados com celulares escondidos na palmilha dos sapatos. O esquema foi desmontado a partir de uma informação do Disque-Denúncia. O delegado Luiz Antonio Ferreira explicou que três dos quatro estudantes foram abordados através do Orkut, página de relacionamentos da Internet. A quadrilha analisava o perfil dos usuários e entrava em contato quando encontrava pessoas com perfil adequado para o golpe. O acordo era fechado pelo telefone. Ainda segundo o policial, todos são de fora do Rio. Jane morava em Rondônia e já era estudante do 5º período de medicina de uma faculdade da Bolívia. A quadrilha teria cobrado entre R$ 10 mil e R$ 15 mil pela transmissão do gabarito do exame por meio de mensagens de texto. A polícia ainda não sabe quem são os responsáveis pelo golpe. Dos quatro estudantes presos, apenas Renata negou que pretendia fraudar o exame. Segundo Ferreira, ela confessou que foi abordada pela quadrilha, mas alegou que havia desistido do plano. A polícia encontrou um celular e uma caneta para anotar o gabarito em seus sapatos. Todos foram indiciados por estelionato e, se condenados, poderão pegar até cinco anos de prisão.

São Paulo, segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

MOACYR SCLIAR

Torpedos
Apesar do fracasso dos quatro vestibulandos que haviam tentado fraudar a prova mediante mensagens pelo celular, ela decidiu fazer a mesma coisa. Em primeiro lugar, porque morava numa cidade muito menor que o Rio, na qual as medidas de segurança não eram tão rigorosas. Depois, não recorreria a quadrilha nenhuma, coisa que, segundo imaginava, tornava a operação vulnerável. Em terceiro lugar, não tinha outra opção: não sabia quase nada, e era certo que seria reprovada. Por último, havia uma coincidência favorável: estava com o antebraço esquerdo engessado. Nada preocupante, e na verdade ela até poderia ter tirado o gesso, mas não o fizera e agora contava com um ótimo esconderijo para o celular. Quem mandaria o gabarito? O namorado, claro. Rapaz inteligente (já estava cursando a faculdade), ele só teria de perguntar as questões para alguém que tivesse terminado a prova e enviar o gabarito por torpedo. Quando ela fez a proposta ao rapaz, ele pareceu-lhe um tanto relutante, incomodado mesmo. O

não tinha dinheiro para isso. publicaria um livro por conta própria. ofereceuos a jornais e revistas. simples empregado de uma pequena loja. Moacyr Scliar escreve às segundas. o dia em que o mundo tomaria conhecimento de seu talento. que lhe pareciam os melhores. 2. em vão. se rendeu a essa onda e decidiu propor que as mensagens enviadas por esses aparelhos virem um gênero literário. não queriam que ele se transformasse em escritor. Considere terminada a nossa relação. incomodado mesmo. vendendo-o depois em entradas de museus. Infelizmente. Apanhou o celular. Procurou editoras. repassassem as mensagens literárias. ofereceu-os a jornais e revistas. o escritor francês Phil Marso. o aparelho estava sem bateria. ele só teria de perguntar as questões para alguém que tivesse terminado a prova e enviar o gabarito por torpedo. que acabariam chegando a um grande crítico ou a um grande editor. Mas ele teimava. mas não posso continuar namorando uma pessoa tão desonesta. respirou fundo. de teatros. 43. simples empregado de uma pequena loja. o escritor francês que havia lançado a ficção como mensagem de celular. e até aconselhavam-no a tentar outra coisa. e até aconselhavam-no a tentar outra coisa. Mas. convencido de que o Destino. Aquilo deixou-o entusiasmado: era exatamente a solução que procurava.. Tinha certeza de que um dia seria reconhecido como escritor. O torpedo na literatura Escritor transforma torpedos em gênero literário. E nada impedia que os leitores. Nada. Se pudesse. de teatros. Os torpedos não foram disparados. em vão. o escritor francês que havia lançado a ficção como mensagem de celular. claro. ele pareceu-lhe um tanto relutante. divulgar seus trabalhos literários. e baseava-se no exemplo de autores cujo talento não fora reconhecido em vida. Aquilo deixou-o entusiasmado: era exatamente a solução que procurava. não tinha dinheiro para isso. alguns não passavam de uma frase. Com o que ela foi obrigada a concluir: tão importante quanto o torpedo é aquele que dispara o torpedo. publicaria um livro por conta própria. Depois de tentar em vão moderar a paixão de seus compatriotas pelos celulares. 30 de janeiro de 2006 Durante anos ele tentou. Ninguém queria saber de seus contos. Se pudesse. Mas. Quando então o caminho do sucesso estaria aberto para ele. um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal. Foi então que leu sobre Phil Marso. Rapaz inteligente (já estava cursando a faculdade). nesta coluna. Tinha certeza de que um dia seria reconhecido como escritor. E aí chegou o grande dia.tinham o tamanho ideal para se transformarem em torpedos. vendendo-o depois em entradas de museus. Foi então que leu sobre Phil Marso. e os celulares.namorado. Mas ele teimava. e baseava-se no exemplo de autores cujo talento não fora reconhecido em vida. Preparou cinco textos. O torpedo na literatura Durante anos ele tentou. Nada. Procurou editoras. divulgar seus trabalhos literários.. Folha Online. Seus contos -na verdade minicontos. "Sinto muito. PS: boa sorte no vestibular". . Ninguém queria saber de seus contos. Quando ela fez a proposta ao rapaz. entusiasmados. Foi dormir.

que acabariam chegando a um grande crítico ou a um grande editor. e os celulares. entusiasmados. não queriam que ele se transformasse em escritor. Preparou cinco textos. . respirou fundo. Infelizmente.. repassassem as mensagens literárias.. o dia em que o mundo tomaria conhecimento de seu talento. alguns não passavam de uma frase. o aparelho estava sem bateria. Apanhou o celular.Seus contos -na verdade minicontos. Foi dormir. que lhe pareciam os melhores. Os torpedos não foram disparados. convencido de que o Destino. E nada impedia que os leitores. Quando então o caminho do sucesso estaria aberto para ele.tinham o tamanho ideal para se transformarem em torpedos. E aí chegou o grande dia.