Revelação: O desejo de saber 1

“A verdade não machuca quando vem acondicionada no afeto. A experiência nos ensina que o que não é anunciado, com certeza, será denunciado”. (Luiz Schettini Filho).

Todos nós temos uma história que antecede o momento de nossa concepção. A médica e psicanalista francesa Françoise Dolto (1981 apud Paiva, 2004 p. 84), considera que “um ser humano, desde sua vida pré-natal, já está marcado pela maneira como é esperado, pelo que representa em seguida, pela sua existência real diante das projeções inconscientes dos pais”. Após o nascimento, a criança ainda está submetida às fantasias do contexto no qual está inserida – as pessoas falam com a criança e sobre a criança. É neste cenário, então, que se constitui o seu psiquismo. Partindo desse pressuposto, não há como esconder o que está inscrito em algum lugar. Não revelar significa, apenas, deixar nebuloso aquilo que está inscrito no inconsciente. Ou seja, inconscientemente, a criança “sabe” de suas origens. A adoção é permeada pelo desejo dos pais de exercer junto à criança a função de pai ou de mãe. E esse desejo é fruto de uma história que também deve ser compartilhada com a criança. Saber do desejo dos pais favorece que a criança sinta-se pertencente àquela família, como um novo componente que ajudará a reescrever uma nova história de vida. Somos sujeitos desejantes. Portanto, pensar na revelação, significa pensar numa via de mão dupla, em que o meu desejo de saber sobre a história da criança, deve ser complementar ao desejo dela saber − sobre sua própria história e sobre a história daqueles que a adotaram. Não é possível construir uma relação verdadeira baseada em segredos. O não dito é uma forma de controlar o outro. É decidir pelo outro sobre sua

Profª Ms. Rilma Bento – Psicóloga clínica. Professora da Universidade Ibirapuera. Mestranda em Serviço Social (PUC-SP). Pesquisadora Voluntária no Primeiros Passos – Grupo de estudo, apoio à adoção e espaço de convivência familiar de São Caetano do Sul.

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a revelação não deve ser entendida como uma ação meramente informativa. 1999. bonecos de pano. Schettini Filho. O primordial para qualquer relação afetiva é o estabelecimento da confiança. O resgate da história de vida possibilita uma ressignificação do presente em que a realização de sonhos e desejos pode eclodir como projeções futuras. materializado pelo silêncio pode ser entendido como algo inadequado. 1981. é o primeiro passo para o esgarçamento das relações.D. ou não. apesar de estar presente no inconsciente. sejam eles quais forem. São Paulo. Referências: DOLTO. narração de histórias. Rio de Janeiro: Campus. Adoção: Significados e Possibilidades. Enfim. Texto utilizado durante o encontro do Grupo de estudos. nem tão pouco. No entanto. PAIVA. M. é preciso uma conduta adequada no momento da revelação. L. com dados de realidade inerentes à existência humana. Portanto. mas sempre com o cuidado de adequar o recurso à faixa-etária da criança. como fantoches. uma vez que não há um manual com regras pré-estabelecidas sobre como proceder. O mais importante não é o que dizer. em 06 de junho de 2009. F. A utilização de recursos lúdicos e simbólicos. A Primeira Entrevista em Psicanálise. . também pode facilitar o momento da revelação. o como dizer. O não-dito. Uma das maneiras de revelar algo é por meio do resgate da história. mas sim. a intensidade dos sentimentos que podem eclodir. Ela está ligada a uma história de vida e. manter segredos sobre os acontecimentos da vida. Luiz – Adoção: origem. apoio à adoção e espaço de convivência familiar de São Caetano do Sul. filmes. portanto. lidar com emoções e sentimentos. desenhos. “Prefácio” In: MANONI. segredo e revelação – Recife: Bagaço.capacidade de lidar. faz parte da existência humana. Casa do Psicólogo: 2004. fotos. É importante considerar que não há como prever as reações diante de uma revelação.