FACULDADE DE DIREITO DA UFBA MATÉRIA: HISTÓRIA DO DIREITO ALUNO: GABRIEL V. C.

FERNANDEZ PROFESSOR: JÚLIO ROCHA

COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Ed. das Américas. São Paulo, 1961.

Resenha Crítica

Fustel de Coulanges é um historiador francês do século XIX. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é o livro A Cidade Antiga que irá dissertar sobre o direito e as instituições de Grécia e Roma associando-os aos fenômenos da cultura e religiosidade. No capítulo X do livro dois dessa obra, Fustel de Coulanges propõe elucidar o fenômeno dos gens na Grécia e Roma antigas com a perspectiva de derrotar, no campo das ideias, uma vertente de opinião que tende a perceber as gens como uma organização artificial, mera convenção política de famílias aristocráticas para manter sua supremacia, e consolidar a interpretação que advoga a origem familiar em comum como o elo que une esse agrupamento social. É a partir desse objetivo que Coulanges constrói sua narrativa. Há de se advertir, e o próprio autor faz isso, que o trabalho de reconstituição das gens “primitivas” no trabalho citado não é feito a partir de fontes primárias. O método de Coulanges é, em minhas palavras, dedutivo e regressivo. Dedutivo, pois acessa o fenômeno a partir de deduções advindas muitas vezes de fontes secundárias (aquelas que falam, pela boca de terceiros, sobre o fenômeno). Regressivo, pois faz inflexões sobre o fenômeno estudado a partir dos supostos “resquícios” das gens na Grécia e Roma “pós-revoluções”. No momento em que apresenta seu método de estudo, Coulanges chega a inferir que, seguindo rigorosamente esse método, se poderia reconstruir da história de

partilhado pelos membros da gens e a própria terra usufruída pelos gentios (assim como outros tipos de propriedade) seria legada pela tradição familiar. antecederia a sociedade política. Feita essa observação. A gens teria um forte caráter de autonomia. As consequências . iniciada por um patriarca. e.um tempo sem resquícios primários “uma ideia que não fica tão distante da verdade”. que se constitui como deus familiar e centro da religião gentílica. Essa organização. vamos ao modelo de gens proposto por Coulanges. finalmente. o chefe da gens acumularia as funções de sacerdote. própria das cidades. para o autor. suposições do que seriam “resquícios” de um determinado fenômeno social. prépolítica. que tem caráter iniciático e não permite a intromissão de pessoas de fora da gens. O modo de ver a história e o desenvolvimento humano de Fustel de Coulanges está bastante associado ao tempo em que ele escreveu. um complexo sistema de obrigações mútuas. o quanto todo conteúdo produzido está sujeito aos deslizes e falsos caminhos que a mera cogitação nos impõe. segundo o olhar sui generis de Coulanges. Esse antepassado teria um túmulo familiar. O evolucionismo apregoado pelo autor impacta outros aspectos da obra. de origem familiar. Segundo o autor. de quão problemático é utilizar como fonte de estudo. uma vez que tais fenômenos são passíveis de ressignificação social no decurso do tempo. Nela. Nesse momento temos então Foulages como adepto da racialização do evolucionismo. Após esses apontamentos. Esquece. e critérios para a verdade. o autor de lembrar a seus leitores o quanto as fontes que ele utiliza estão carregadas de parâmetros e preconceitos de uma época ulterior à estudada. supostamente da raça ariana. haveria uma jurisdição própria da gens – que na teleologia de Coulanges antecederia a jurisdição das cidades. a unidade gentílica teria uma origem familiar remota. juiz e comandante militar. Vai mais além e chega a acrescentar um teor racista à suas colocações na medida em que percebe um roteiro histórico especial para o caso estudado. entre os gentios. dessa forma. Coulanges é evolucionista e percebe a história humana como uma sucessão de etapas. Ao perceber a gens como um estágio evolutivo inerente ao desenvolvimento das sociedades humanas Coulanges “universaliza” essa categoria social. Os direitos de herança e o imperativo de não testemunhar contra membros da própria gens em lides judiciais denota.

o que se sabe sobre os gens gregos poderia nada mais ser que uma expectativa calcada a partir do modelo romano de organização gentílica. Ao invés de fazer estudo comparativo. Ora. percebe os modelos e estruturas gregas dos passados assim partir de seus referenciais? Se considerarmos que o conhecimento que temos a respeito da sociedade grega e de sua produção cultural se deve. que possui fontes majoritariamente romanas. carregada de um romanismo que. associados a elementos encontrados nos gens gregos. mas que não são devidamente contextualizados para serem enquadrados como categorias sociais similares e passíveis de analogia. . por anos e anos. que. Com base nessa perspectiva. ou. na verdade. um emaranhado de informações que correspondem somente a eventos próprios do gens romano. Coulanges coaduna informações e argumentos em prol de sua interpretação do fenômeno da gens. e ainda eventos supostamente correlatos aos dois tipos de gens. da qual se apreendem possíveis semelhanças e diferenças no desenvolvimento dos fenômenos emparelhados. não seria difícil imaginar que parte das informações obtidas sobre a Grécia arcaica estejam viciadas pelas lentes romanas. obviamente. em muito. O modelo de gens proposto por Fustel nada mais é que um Frankenstein formado a partir de seu pré-concebimento das etapas evolutivas ao qual estaria fadada a sociedade humana. então seu conceito de gens é. nasceram em contextos históricos e atendendo à demandas sociais diferentes. Um ponto final a esse questionamento só poderia ser dado a partir de um debate mais aprofundado sobre a história de Grécia e de Roma. Explico-me melhor: enquanto o estudo comparativo propõe o estudo anterior dos eventos tidos como análogos e depois a comparação contextualizada desses eventos. ao se debruçarem sobre Grécia e Roma trataram uma e outra como parte de um mesmo complexo social. ao sucesso político do império Romano. ou mesmo daqueles que. a raça ariana. Outro ponto ainda é passível de problematização. Não seria a interpretação de Coulanges. pois eliminam-se as particularidades de cada um desses fenômenos sociais.disso ao estudar a organização gentílica grega e romana tem efeitos nocivos. o estudo de Fustel constrói seu conceito de gens a partir da associação indiscriminada das particularidades dos entes estudados sem percebê-los como únicos. ao abraçar a cultura grega. na melhor das hipóteses.

embora não seja fútil a ponto de não ponderar essa possibilidade. e esquece de questionar as particularidades e os objetivos implícitos de cada um desses fenômenos. nessas sociedades existe uma intrínseca relação entre religião e legislação. Um ponto interessante na abordagem do autor é perceber o poder associado ao rito e a significações que transcendem o pragmatismo político puro. Outro problema de seu texto está na associação pouco fecunda entre a vontade divina e as semelhanças no processo de eleição dos magistrados em Atenas e Roma. O magistrado uniria as funções de chefe religioso e político sendo. mesmo que en passant. como se tais processos fossem análogos. Veremos a repetição desse padrão interpretativo no capítulo seguinte. Muito bela é a passagem em que o autor discute a lei como parte da tradição religiosa familiar. Coulanges privilegia o aspecto religioso. O autor vê a magistratura como herdeira dos referenciais religiosos do período “pré-revoluções”. Isso estaria comprovado pela confluência dos cargos de pontífice e jurisconsulto em Roma. pela não separação dos dispositivos “leigos” e “religiosos” nos códigos escritos. Mais interessante que perceber a utilização do divino para a justificação do poder terreno (que está inculcada até mesmo na legitimação do estado moderno) é entender como se dá esse processo e onde estão alocadas as disputas que definem o que é e o que não é vontade divina. entre outros argumentos. pela imutabilidade da lei. O direito seria expressão do sagrado também em sua ritualística. . percebendo a importância da oralidade. das palavras ritmadas e dos cantos para a perpetuação das regras. Mais uma vez Fustel de Coulanges cai no reducionismo. “A lei”. responsável pelos sacrifícios rituais. que seria considerada como legado divino. que discutira o direito nas sociedades de Grécia e Roma. quando se prende a um modelo pós e prérevolucionários para entender a figura do magistrado em Grécia e Roma. em contraposição a efemeridade do homem. que deságua na sua percepção das comunidades antigas integralmente vinculadas ao sagrado. Segundo Fustel. Coulanges fala sobre a magistratura em Grécia e Roma.No capítulo X. Por outro lado deixa pouca margem para discutir o quando da ritualística compõe o universo discursivo de legitimação do poder vigente. próprio de sua maneira de entender o desenvolvimento histórico. do livro número três. onde a liturgia jurídica estaria banhada de conteúdo mágico e sagrado. inclusive.

ultrapassada e com sérias inflexões conservadoras. mesmo que pesem suas afirmações de cunho racista e evolucionista. embora a meu ver.Falta mais uma vez ao autor desenvolver a crítica contextual. seu trabalho é ímpar se comparado ao positivismo e a história político-militar que passa a vigorar no século XIX. . A interpretação de Fustel foge do reducionismo economicista e pragmático para cair num reducionismo religioso e metafísico na interpretação do fenômeno do direito antigo. assim como o peso demasiado do fator místico-religioso. Além da erudição e da habilidade discursiva que lhes são patentes. no entanto. Também. é exemplo antecipado de um novo tipo de historiografia que iria triunfar com sobre os escombros do positivismo. devemos exaltar Fustel como um estudioso adepto da história-problema. Embora datado. Mesmo com todas as críticas podemos. dizer que o trabalho de Fustel de Coulanges possui muitos pontos positivos. não podemos lhe imputar o defeito da unicausalidade. Afirmar unicamente que o direito antigo estaria envolto de conteúdo religioso não ajuda muito a compreender profundamente a negação da possibilidade de legislar feita aos tribunos da plebe pelos patrícios romanos. Nem mesmo entender amplamente o fenômeno de exclusão dos estrangeiros e até mesmo dos plebeus da tradição de dizer o direito. A história produzida por Coulanges.