LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES.

Relatório crítico de leitura de alguns fragmentos da obra de Boccaccio

Discente: João Luís Leite Pinho [100708019] Línguas Literaturas e Culturas Unidade curricular: Literatura Portuguesa do Barroco e do Neoclassicismo Docente: Zulmira da Conceição Trigo Gomes Marques Coelho Santos Ano letivo: 2012/13

que possa denotar falha ou desatenção da parte do autor do relatório. e restaura-lo de uma forma a que não soasse tão enfadonho e antiquado. condicionando a devida leitura e seguramente a sua interpretação. equacionando de que modo. para a arte poética barroca. Traçadas as linhas gerais. “Deixar o texto falar” foi o pressuposto que mais orientou na elaboração deste trabalho. as ideias fulcrais dessa obra maior do italiano Giovanni Boccaccio datada de 1360. trazê-lo à luz do dia.«LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES» JOÃO PINHO FLUP INTRODUÇÃO Intentarei se o engenho e a arte me permitirem. fez todo o sentido. recorri à edição em castelhano preparada por Mª Consuelo Alvarez e Rosa Mª Iglesias. evocar o passado. facultada pela docente. ser um campo de interesse na minha área de estudos. . sob o título Genealogia deorum gentilium libri. Para tal. condensar em escassos parágrafos. ou na exposição. chegando até mesmo aos nossos dias. resta salvaguardar qualquer escape mirabolante na compreensão. ou como essa antecipação viria a dar frutos nas épocas vindouras. e dado a temática da poesia. esses postulados poderiam vir a ser transpostos.

dotados de uma sensibilidade acrescida. Boccaccio critica severamente os detratores dos poetas. evocando alguns dos mais ilustres. Corrompem a sociedade que se deixa inebriar «con su verso que suena dulcemente. e também passagens da Sagrada Escritura. era o livro central. que os envolve num subtil misto de encantamento e terror. que os conduzirá ao verdadeiro conhecimento. Portanto os poetas são criaturas especiais. O autor intenta aniquilar certos preconceitos que giravam em torno dos poetas. Por isso mesmo. no qual se colhia o saber mais profundo sobre o Homem e o Mundo. demovendo os espíritos menos treinados. algo que o próprio autor trata de desmistificar. por seu turno os filósofos apenas escrevem sobre o que condenam ou aprovam servindo-se por isso mesmo. pelos quais jamais deveria caminhar.«LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES» JOÃO PINHO FLUP Estranha premissa que invoca nitidamente o espírito revolto e invejado dessa que é a matéria. que como se sabe. nesta época. protegidos por um véu celestial. uma vez que os poetas servem-se do seu diálogo engenhoso para exaltar a beleza do seu artifício e das suas composições recorrendo ao estilo métrico para tal efeito. «con el cuerno lleno de ficciones». con sus agradables palabras. Outra das ridículas acusações lançadas pelos ignorantes aos poetas é a de que «son monos de imitación de los filosófos». e que se prendiam sobretudo com o facto de estes serem entendidos desde a Antiguidade como seres nefastos para a sociedade. vagueando sempre impregnados de um certo misticismo. as «efabulações histéricas» que os seus ditames alimentam. Esses indivíduos que aparentemente se deslocam num limbo superior. não apenas as que transpõem para as suas composições poéticas como ainda as que se criam em prol das suas figuras intrigantes. que lhes permite juntar palavras de um modo singular e apartado da linguagem comum. . Além disso ambas práticas são completamente distintas. uma vez que supostamente «son seductores de las mentes». no que respeita aos seus métodos de apreensão e interpretação da realidade. a um súbito deleite. o labor dos poetas. do estilo prosaico. con su cuidada y adornada expresión» arrastando-a até lugares perversos.

assim que não é algo que se consiga repentinamente.«LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES» JOÃO PINHO FLUP No seguinte capítulo volta-se para a questão do pecado partindo da perspetiva dos caluniadores que tinham uma visão muito drástica sobre o tratamento que estes livros horrendos deveriam ter. dos textos poéticos sagrados. . quemadlos en las llamas y entregad sus cenizas a los vientos para que las conserven! (XVIII. Acrescenta ainda. serve-se de uma argumentação precisa e demolidora. Por tal razão. para polir o discurso. Assim sendo. e nos firmamentos achar a devida eloquência para arrebatar os leitores. Os poetas criam versos harmoniosos. com evidentes rasgos renascentistas. oscilando determinantemente segundo o que ele condena e o que promulga. para enumerar os ilustres feitos dos espíritos místicos. para exaltar a mestria da poesia. acabam por ser duas formas de arte. Desse jeito conclui «en modo alguno los versos de los poetas son alimento de los demonios». 849) Louva ainda certas «ficciones que llevaban muy a menudo en su entraña frutos gratísimos y recomendables» destes poetas cuja a leitura era tida como um pecado mortal. que merecem permanecer na urbe e os cómicos desonestos. São canções luminosas que saem dos lábios dos Deuses (que os poetas apenas tratam de perscrutar e apontar). que devem ser rapidamente expulsos desta. repelindo a doutrina filosófica. a poesia é uma atividade que exige muito estudo e dedicação. Mesmo que descrevam situações hediondas de feitos históricos ou religiosos do passado. como se não houvesse margem para meios-termos. arrojad estos nefastos libros de los poetas. Todo o discurso do autor situa-se entre o binómio bem e mal. elas não devem ser entendidas como um ato de pecado para quem as observe. que concebem uma visão da realidade específica merecendo por isso mesmo serem lidas/contempladas. que conforme o gosto de cada um. por puro prazer. Nesta instância estabelece um pertinente paralelismo entre a poesia e a pintura. os bons e honestos. no capítulo posterior distingue entre dois tipos de poetas. de acordo com os postulados da religião cristã: ¡[…] si hay en vosotros algún temor a Dios. e só os mais doutos são dignos de os compreender. que são testemunhos poderosos do tempo. que a teologia se serviu muitas das vezes.

tomando eu a ousadia de destacar uma passagem que me chamou particularmente a atenção: ¿Acaso no llamamos hombres a todos. unos agarenos y otros cristianos y algunos hasta tal punto de perversas costumbres que más bien han de ser considerados crueles bestias que hombres? (VIII. Nos subsequentes capítulos trata de colmatar e justificar certas posições defendidas anteriormente. vai exemplificado com os adornos que algumas pessoas (nobres) carregam ostentosamente. otras Israelitas. existem umas doces (honestas) e outras mais amargas (desonestas). dado ser tão ténue a barreira entre aquilo que nos une (sermos humanos) daquilo que nos separa (a nossa individualidade enquanto membros de uma cultura). as amargas evidenciam as cómicas narrações (inferiores) de cariz teatral. ou daquilo que até mais recentemente se entende como o diálogo complexo e exigente que se intenta estabelecer entre as diferentes religiões. que sentem um enorme deleite ao contemplar tamanhos decoros. 886) Completamente atual esta pregunta retórica. de modo a suscitar a admiração e o espanto naqueles menos afortunados. bem como as pinturas que mandam fazer nos seus majestosos aposentos com um propósito meramente decorativo. com o objetivo de defender tal premissa. que poderá além do prazer estético retirar algum útil ensinamento para a vida. o que geralmente desencadeia alguns desacatos. Isso transposto para a conceção de poesia (concretamente a barroca).«LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES» JOÃO PINHO FLUP Alude ainda às musas. as que têm mais valor”. apelará ainda à consciência do leitor. abre a porta e estalando o trinco. que poderia servir como mote pressagiador da Contrarreforma que viria a assolar a Europa séculos mais tarde. vem elucidar-nos que esse tipo de prática exige que sejam mobilizados por parte dos poetas múltiplos recursos retóricos e estilísticos. que além de apelar aos sentidos. que apesar de atuarem todas de igual modo segundo as mesmas leis. o autor propõe uma peculiar ideia a de que “as coisas menos úteis são por vezes. a doçura das primeiras polvilha as composições mais dignas e altas. sabemos que todos los mortales constan de alma racional y cuerpo aunque unos son paganos. Já no primeiro capítulo do décimo quinto e último livro. . unidos a um exaustivo trabalho sobre a palavra.

uma irrefutável conclusão. mas afinal onde se situa a poesia? Num campo inexplorado. cabendo ao poeta colhê-las e dá-las a provar aos outros homens. atirando-a para uma esfera palpável. que se empreendeu sobretudo vocacionado para as letras. sem nunca esquecer “a era em que nos compete viver” mas é fundamental reler o passado para compreender essa oscilação entre o avanço. Difícil é reconhecer os mal logrados avanços. e aquilo que de alguma maneira merecia ser equacionado para presentemente levar a cabo um “retrocesso” tendo em vista uma maior fruição não só da poesia mas de tudo que nos rodeia. Entre o sagrado e o profano. que coloca então a poesia numa espécie de “limbo superior” ao qual poucos (escolhidos) poderão aceder. Explicações precisas e excessivamente detalhistas no que respeita à materialidade textual retiram à poesia as intrincadas ficções. tampouco quem as lê. Não será pagão quem as escreve. que se afasta determinantemente da visão clássica e renascentista. abrangendo não apenas os dotes literários. repleto de mistérios e místicos encantamentos. . e para aquilo que hoje poderíamos apelidar.«LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES» JOÃO PINHO FLUP CONCLUSÃO Passaram exatamente setecentos anos desde o nascimento de Boccaccio. de estudos humanistas. que deixa brotar inexplicavelmente palavras da terra. como ainda uma outra matéria mais profunda e complexa. a teologia. e do jovem ao artista. terá sido percorrido um longo e solitário caminho. no sentido amplo do termo.

Giovanni (1983). . Editora Nacional – Madrid (España).«LA POESÍA CAMINA SIEMPRE CON EL CUERNO LLENO DE FICCIONES» JOÃO PINHO FLUP REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOCCACCIO. 792-887. p. Edición preparada por Mª Consuelo Alvarez y Rosa Mª Iglesias. Genealogia de los dioses paganos.