FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS Pedro Cezar Dutra Fonseca e Cássio Silva Moreira

O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo.
Texto para Discussão Nº 10/2012

Junho 2012

Universidade Federal do Rio Grande do Sul Reitor: Carlos Alexandre Netto Vice-Reitor : Rui Vicente Oppermann Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas: Hélio Henkin Chefe do Departamento de Economia e Relações Internacionais: Karen Stallbaum Departamento de Economia e Relações Internacionais Av. João Pessoa, 52 - Porto Alegre - RS Tel.: (51) 3308 3324 E-mail: decon@ufrgs.br Projeto Pastas Projetado e elaborado pela Gráfica UFRGS Capa: Lucianna Pisani e Natalia Vittola Núcleo de Publicações da Faculdade de Ciências Econômicas Tel.: (51) 3308 3513 E-mail: tdeconomia@ufrgs.br Coord. Núcleo de Publicações: Ricardo Dathein Acompanhamento editorial: Isabel Cristina Pereira dos Santos Editoração: Thainá Ribeiro Loureiro Normalização: Lílian Maciel Revisão: Carolina dos Santos Carboni DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Responsável: Biblioteca Gládis W . do Amaral, Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS
F676p Fonseca, Pedro Cezar Dutra O projeto do governo Goulart e o II PND : um cotejo / Pedro Cezar Dutra Fonseca, Cássio Silva Moreira. -- Porto Alegre : UFRGS/FCE/DERI, 2012. 25 f.: Il. -- (Texto para Discussão / Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências Econômicas ; n. 10/2012). 1. Governo João Goulart : 1961-1964. 2. Planos econômicos. 3. História econômica. 4. Política econômica. 5. Formação econômica. I. Moreira, Cássio Silva. II. Título. III. Série. CDU 33:94(81)

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** Professor titular do Departamento de Ciências Econômicas da UFRGS e pesquisador do CNPq. também. Palavras-chave: Economia brasileira. como o avanço da industrialização para os bens de capital e intermediários e os investimentos na área de energia. Goulart administration. Triennial development plan. há notáveis semelhanças entre o projeto econômico do governo João Goulart (1961-1964) e o Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) do governo Ernesto Geisel (1974-1979). Geisel administration.com. são retomadas e consideradas imprescindíveis diante da fragilidade que o país se encontrava após o choque do petróleo. uma década depois de interrompidas pelo golpe militar. Para tanto. as well as presidential messages to the National Congress in both periods. many proposals are resumed as the country faced a weakness after the oil debacle. Plano Trienal. In order to demonstrate this. Agradecem. Abstract: The paper shows that there are remarkable similarities between the economic project of the João Goulart administration (1961-1964) and the National Development Plan (2nd Plan) of the Ernesto Geisel administration (1964-1969). Este artigo sugere que uma racionalidade histórica parece se impor ao constatar que. ambos acadêmicos do curso de Ciências Econômicas da UFRGS. primary sources – the official documents regarding the Triennial Plan and 2nd PND – are used. The paper assumes a historical rationality by verifying that.ifrs. aos bolsistas de Iniciação Científica/CNPq Leonardo Staevie Ayres e Jayme Tolpolar Anchante. 2nd PND. Governo Goulart. * Os autores agradecem a Eleutério da Silva Prado os comentários e sugestões valiosos. when they are exposed and justified.br>. Doutor em Economia do Desenvolvimento pela UFRGS.br 3 . a decade after being suspended by the military coup d’état. Such proposals include the advancement of industrialization of capital goods and investments in energy. E-mail: pedro. despite the different economic contexts and political and ideological differences. E-mail: cassio.fonseca@ufrgs *** Professor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). nas quais os planos são expostos e justificados.cassiomoreira. foram utilizadas como fontes primárias os documentos oficiais sobre o Plano Trienal e o II PND. embora em contextos econômicos distintos e com marcantes diferenças políticas e ideológicas. Governo Geisel. Página eletrônica: <www. Keywords: Brazilian economy. conquanto assumam total responsabilidade pela versão final do trabalho. além das mensagens presidenciais remetidas ao Congresso Nacional de ambos os períodos.edu.moreira@poa.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo* The Goulart Administration’s project and 2nd PND: a comparison Pedro Cezar Dutra Fonseca** Cássio Silva Moreira*** Resumo: Este artigo mostra que. muitas propostas. II PND.

Se a história.uma força externa que condiciona o processo -. como processo racional.. que é uma construção humana.] reconhecer por toda parte as determinações do conceito lógico. p. p. 1979. na maior parte das vezes são fatos cuja conexão não é imediatamente perceptível. essa racionalidade não é imediata e muitas vezes contraria o senso comum e surpreende mesmo o analista experiente. 26). Destarte. xx). Com o idealismo que lhe era peculiar. assevera na Introdução à História da Filosofia (HEGEL. p. mesmo por tortuosos caminhos. sua preocupação consistia em buscar os nexos dos processos reais e. manteve em parte essas asserções da reflexão hegeliana sobre a racionalidade histórica. mesmo que de outra forma e circunscrito ao materialismo. mas em apreender a lógica específica do objeto específico” (LUKÁCS. é o entendimento da história como um processo racional. Todavia. manifesta-se como história. A máxima “o que é racional é real e o que é real é racional” impõe a necessidade da identidade entre razão e realidade e desconfia do contingente e das “coincidências históricas”: Os fatos constitutivos desta história não são aventuras. grifo nosso). não é uma coleção de fatos contingentes. argumenta Hegel. 1980. o que lhe confere o caráter racional e necessário de seu processo (HEGEL. O problema do empirismo não era em si afirmar a existência de uma realidade empírica ou factual.. segundo a qual compreender que o desenvolvimento da sociedade não consiste em “[.. 4 . para o historiador seria uma hipótese. o espírito se exterioriza e. da mesma forma. Daí podermos captá-lo. mas negar o suprassensível. assumia que na história o espírito é uno e idêntico à natureza. onde domina a razão. pode-se interpretar que para Marx a necessidade histórica não se impunha como força intransponível. através da práxis. do mesmo modo que a história do mundo não é uma história romanesca. tratava-se de uma convicção. A autoconsciência se exteriorizava e. de viagens de cavaleiros errantes que se batem ao acaso [. em ambos os autores. como tal. grifo do autor).. segundo Arantes (HEGEL. empiricamente: “o que deve ser verdade deve estar na realidade e conhecer-se por meio da percepção”. Mas as mesmas impressionaram negativamente autores como Marcuse. o marxismo compreende a história como um processo racional e também propõe que coincidências ou contingências.] há um nexo essencial no movimento do espírito pensante. mas no movimento e nos desdobramentos do próprio processo histórico. 1979. 77. a qual deve ser captada não pelo desdobramento do “espírito” .. e ainda demarcadora de approaches nos estudos epistemológicos. 334. mesmo rejeitando o idealismo. Cássio Silva Moreira 1 Introdução Uma das proposições mais marcantes e radicalmente iluminista do pensamento de Hegel. assumiria caráter transformador. mas como “concreticidade objetiva” (LUCKÁCS. p.] revela os traços sombrios de um mundo controlado pelas forças da história. Todavia. tal prevalência do espírito “[. para quem. Trata-se da racionalidade do processo histórico. Já Lukács (1979) adverte que é preciso lembrar a tese de Marx. 1980. por isso. mais que a lógica do conceito. ou fazer uma separação radical entre o conceito e a matéria. em lugar de as controlar”.. ainda que possíveis. Assim.Pedro Cezar Dutra Fonseca. Marx. 1969).

liderada 5 . os quais são tratados como “necessidade histórica” no discurso presidencial. assumiu como Presidente da República o então vice-presidente constitucional João Goulart. dez anos depois de sua interrupção pelo golpe civil-militar de 1964. com ênfase no setor energético. Com a pós-modernidade. depois de conturbada crise política. resistem e se revelam mesmo em conjunturas históricas bem específicas. Fundamentalmente. ao setor privado. e as medidas elencadas e parcialmente implementadas. o qual identificamos como seu “projeto econômico”. Essas duas seções servirão como base para a análise comparativa que será desenvolvida na quarta. inclusive com a mesma prioridade nos bens de capital e na busca de fontes alternativas de energia. Esses alicerçam a afirmação segundo a qual Goulart pretendia aprofundar o processo de substituição de importações. Na segunda apresenta-se uma breve análise do Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social e das mensagens ao Congresso Nacional de Goulart. Já na terceira seção apresentam-se os objetivos do II PND. na matriz energética e na correção dos desequilíbrios regionais. Em ambos os casos. mais que criticado. e mediante a descentralização espacial desses investimentos. ensejou a Campanha da Legalidade. nestes incluídos o marxismo e o estruturalismo. quando as semelhanças são expostas de forma mais detalhada. O artigo encerra com uma conclusão. previa-se a presença do Estado como indispensável para levar adiante os investimentos. na direção dos bens de capital e intermediários. Todavia. Esta consiste no mais rico material empírico para evidenciar a intencionalidade do governo em continuar o processo de substituição de importações e a descentralização espacial dos investimentos. 2 O Plano Trienal e da Mensagem ao Congresso Nacional de 1964 No dia 7 de setembro de 1961. tornou-se desnecessário sob o entendimento da validade da história como relato e da legitimidade da diversidade de leituras associado à crítica aos assim chamados “paradigmas totalizantes”. o que se pretende assinalar é a semelhança dos objetivos do II PND com os explanados principalmente no Plano Trienal e na Mensagem ao Congresso Nacional de 1964 do governo Goulart. o II PND foi lançado como um audacioso programa de investimentos em infraestrutura focado exatamente nesses setores. por mecanismos diversos. ora em desuso. Dez anos depois. associadas à tradição epistemológica hegeliano-marxista. As ponderações de ordem filosófica dos parágrafos anteriores retomam uma prática comum na produção acadêmica de História Econômica. com o veto militar a sua posse. propõe-se fazer uma análise comparativa entre um conjunto de propostas do governo de João Goulart (1961-1964).O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. O contexto político. ademais. No caso. que consistia em preceder o trabalho factual inerente aos estudos históricos pela definição do marco epistemológico no qual o material empírico seria analisado. seja pela indução. tal procedimento. pois auxilia ao mostrar como as considerações anteriores. seja diretamente por empresas estatais. o objetivo deste trabalho torna o procedimento absolutamente necessário. na conjuntura adversa marcada pelo choque do petróleo e pelo fim do ciclo do “milagre” (1968-1973). pelo II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) do governo Geisel (1974-1979). principalmente a de 1964. com destaque nos bens de capital. Este artigo possui três seções além desta introdução e das considerações finais.

SIMONSEN.95 1956 1957 1958 1959 Anos 1960 1961 1962 0. como a inflação e a crise do balanço de pagamentos.15 6. pesquisas mais recentes têm contribuído para a formulação de novas interpretações sobre essa política. o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. Diante desse quadro adverso. MACEDO.6 47. Cássio Silva Moreira por Leonel Brizola. 1982. então governador do Rio Grande do Sul. mas com a perspectiva de que o mesmo seria superado. Em relação à conjuntura da economia brasileira no início da década de 1960. salientando suas dificuldades políticas e contrariando a visão tradicional. elaborado pelo futuro ministro Celso Furtado.4 79.8 6 4 2 0 1954 1955 Taxa de crescimento do PIB (em %) Taxa de inflação (IGP-DI) Fonte: Bacen. Durante aquele período.46 6.Pedro Cezar Dutra Fonseca. Em relação às análises sobre a política econômica adotada na conjuntura.Inflação e taxa de crescimento do PIB (1954 – 1964) 12 10 8. 1962) exploravam o fato de que o governo avançava e depois recuava em muitos momentos: exemplo disso foi o fim e a volta dos subsídios de derivados do petróleo e do trigo que estavam nas medidas de combate à inflação do Plano Trienal.7 9. cujo desfecho impediu que tal veto se consumasse.8 9.79 39.8 8 PIB 100 10. LEFF. 1989. que durou até janeiro de 1963. LESSA. o país foi governado por primeiros-ministros indicados pelo presidente Goulart e aprovados pelo Congresso Nacional.6 51.38 30. Moraes (2010). foi lançado.8 7. 1977. os trabalhos de Monteiro (1999).9 24. quando um plebiscito determinou. composto por um conjunto de reformas estruturais voltadas a dar novo direcionamento de longo prazo à economia. (2006). ainda sob a vigência do parlamentarismo. Gráfico 1 .4 8. posto por imposições da conjuntura. WELSS. destacam-se o arrefecimento do crescimento e a aceleração inflacionária. Esse plano propunha como metas o controle da inflação e a manutenção de elevada taxa de crescimento econômico.44 25. Fonseca (2004).57 12. conforme ilustra o Gráfico 1. Em especial. Todavia.6 1963 1964 24.12 90 80 Inflação (IGP-DI) 70 60 50 40 30 20 10 0 7.6 3. no final de 1962. Essa combinação pode ser identificada como típico fenômeno de estagflação. A solução política encontrada foi a adoção do sistema parlamentarista. o plano também propunha um projeto econômico de envergadura. ou até mesmo “irracional” e “aleatória”. O recurso ao modelo de credibilidade usado por Monteiro (1999) contribuiu para mostrar o desfecho da condução da 6 .87 2. o retorno ao presidencialismo. ao lado dessas medidas que podemos denominar como de “curto prazo”. por ampla margem. Moreira (2011) e Loureiro (2012) resgatam as ações implementadas e as tentativas do governo de enfrentar os problemas.91 92. 1977. Melo et al. Fonseca e Monteiro (2005). 1975. Esses autores (ABREU. a qual geralmente assinalava que política econômica era “ambígua”.

Mesmo sem ter sido executado. o plano não foi abandonado no que tange às reformas e à política industrial. mesmo com as dificuldades na execução das políticas de estabilização. Conforme o seu principal elaborador. política econômica do período. o documento resume seus principais objetivos. A análise da documentação oficial permite antever que o plano. cabe lembrar que. para garantir os investimentos planejados e. Esse crescimento seria puxado pela indústria por meio de modificações estruturais que visassem uma maior participação da produção de bens intermediários e. a qual ele intitulou Caminho Brasileiro.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo.. as chamadas reformas de base. mesmo que apontasse o déficit público como uma das causas da inflação. cuja superação exigia mudanças estruturais que visavam romper com a dependência externa (financeira.] a indústria do país estará contribuindo com mais de 70% dos bens de capital de que necessita a economia nacional para manter sua elevada taxa de crescimento” (BRASIL. 1962. A ideia associada a isso leva a duas interpretações complementares. o Estado deveria assumir o papel determinante de regulador e de promotor do desenvolvimento. O primeiro objetivo era manter uma elevada taxa de crescimento do produto. Como já se mencionou. porém não os entendia como autônomos. o plano arrolava objetivos conjunturais e estruturais. e consoante à tradição do estruturalismo latino-americano. O segundo objetivo pode ser analisado conjuntamente com o terceiro. Em sua introdução. 1964). a estabilidade monetária. para a superação da dependência tecnológica e financeira. Ao contrário. principalmente. de bens de capital. fomentando um clima de polarização política crescente a culminar na deposição de Goulart. “[. é que a inflação deveria ser controlada sem abrir mão do crescimento econômico. justamente quanto mais avançava o tempo mais as reformas estruturais firmavam-se na ordem do dia e radicalizava-se a retórica presidencial no sentido de levá-las adiante. Ao contrário. O segundo.. aliava medidas de curto prazo necessárias para enfrentar a inflação e os gargalos nas contas externas a um modelo dependente. passo entendido como necessário. não via como dilema intransponível o trade off entre crescimento e 7 . Por outro lado. monetária e cambial adequadas. O plano apontava a necessidade de criar condições de financiamento. diante da pressão de inúmeros segmentos sociais. por meio de políticas fiscal. 9). produtiva e tecnológica). o plano é documento importante para a análise histórica. tendo como ponto seminal as reformas institucionais (GOULART. assim. junto com outras reformas. A primeira era que o descontrole do setor público era importante fator de pressão inflacionária. a qual configura uma crise de legitimidade. posteriormente detalhados ao longo do texto. pois mostra a direção proposta pelo governo João Goulart. p. Posteriormente. contrapondo-se à tese da aleatoriedade. no que se afastava da ortodoxia. Conforme uma meta do plano. como a agrária e a bancária. Costuma-se atribuir que o plano fracassou ou foi abandonado sob a evidência de que as tentativas de estabilização não lograram êxito. As análises sobre o Plano Trienal geralmente enfocam o dilema entre o crescimento econômico e a estabilidade monetária. com o afã de dar continuidade ao processo de substituição de importações de bens intermediários e de capital. os trabalhos de Fonseca e de Loureiro associam a aparente hesitação e ambiguidade às dificuldades de compor um pacto político capaz de dar sustentação às reformas pretendidas.

7). Acreditava que. p. não via como regra necessária para atingir a estabilidade o decréscimo dos salários. percebem-se dois pré-requisitos fundamentais para a realização do plano. especialmente por meio do desenvolvimento de um sistema financeiro capaz de promover os investimentos produtivos privados e financiar o Estado para dispensá-lo do recurso de emissão monetária. Em outra passagem.. p. a distribuição dos frutos do crescimento econômico seria mais equânime. Propunha que estes devessem crescer a taxas “[. Finalmente. demais dos ajustamentos decorrentes da elevação do custo de vida” (BRASIL. No sétimo objetivo. Esse entendimento já aparece em Goulart antes mesmo de chegar à presidência: “[. Os objetivos seguintes reafirmam o papel do Estado na condução de reformas. pode-se especular a intenção do governo em transferir tecnologia. Cássio Silva Moreira estabilidade monetária. importante inclusive por ocasião de sua posse. 1962). a qual impunha restrições ao balanço de pagamentos. percebe-se a importância das mudanças estruturais.] a elevação do salário mínimo faz subir o custo de vida? Faz sim. O primeiro é a necessidade de refinanciar a dívida externa com vencimento no curto e médio prazo. 116). pois propunha aumen- 8 . como forma de revitalizar a formação de capital e qualificar a mão de obra. o último objetivo arrolado aponta para uma mudança institucional e ao mesmo tempo instrumental. 1962. como forma de diminuir as disparidades regionais. Outra preocupação institucional é com a questão da concentração da propriedade da terra no Brasil. Mais uma vez. A questão-chave desse entendimento estava na forma de financiamento. mas também é uma conseqüência de encarecimentos anteriores” (TEJO. O plano sinaliza a necessidade inadiável de uma reforma agrária. e manutenção do nível das importações mediante refinanciamento da dívida externa são componentes necessários de todo planejamento da economia brasileira que vise a manter uma elevada taxa de crescimento e a recuperar progressivamente a estabilidade. p. afora um período inicial de estabilização. Da mesma forma. Nesse ponto. 1962.. o plano explicita essas duas pré-condições: Os dois objetivos básicos indicados: captação adicional de recursos para o setor público. Em outra passagem.. assim como melhorar a assimilação de novas técnicas. 22). a qual deveria permitir uma diminuição do déficit público em conjunto com os investimentos pretendidos pelo governo. O segundo seria formas sustentáveis de financiamento do setor público. visando à construção de um novo desenho organizacional para o aparelho governamental. e certamente com vistas na base sindical do governo. Para o cotejo com o II PND. visto que se percebe no plano a intenção de desenvolver o departamento de bens de capital.. já que este mais tarde também associará a exploração dos recursos naturais com a descentralização espacial dos investimentos e proporá que o Estado promova uma série de investimentos em exploração e ampliação da extração de recursos naturais.] pelo menos idêntica a do aumento da produtividade do conjunto da economia. 1957. embora houvesse preocupação com a expansão monetária. ressalta-se o enumerado em quinto lugar. por meios não inflacionários. registra-se a menção de que o crédito ao setor privado deveria crescer em montante corresponde à elevação de preços mais o crescimento real do PIB (BRASIL. por meio das mudanças estruturais. (BRASIL. e com forte conteúdo político. mas descentralizando-os. Já o sexto objetivo mostra claramente a intenção de mudar a ordem institucional do país.Pedro Cezar Dutra Fonseca.

16). é interessante. b) fortalecer o papel do Estado. principalmente após a Revolução Cubana (BANDEIRA. 8).O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. Constitui. ainda. focado no setor de bens intermediários e de capital. como instrumento para direcionar a formação de capital e a distribuição de renda. LOUREIRO. Podemos organizar os objetivos estruturais de longo prazo do Plano Trienal em cinco: a) institucionalizar a planificação econômica. d) corrigir os desequilíbrios regionais. assinalar o diagnóstico do qual partia e as mudanças estruturais dele decorrentes. e) implementar reformas institucionais para melhorar o uso dos fatores de produção e gerar crescimento econômico com melhor distribuição de renda. especialmente em setores estratégicos. e (b) orientar esses investimentos para que a estrutura da produção se ajustasse. Todavia. já que estas permitem antever projetos que mais tarde serão retomados. 2011. ou seja. às necessidades de substituição de importações determinadas pelas limitações da capacidade para importar (BRASIL. Como ponto mais importante de seu diagnóstico. p. Esse projeto seria implantado por meio das reformas e da planificação da economia brasileira. na consecução de um mesmo projeto para o país. p. principalmente com a política norte-americana para a América Latina. para o propósito deste artigo. O objetivo da planificação da economia brasileira como instrumento de Estado para melhorar o uso da alocação dos fatores de produção está estreitamente interligado com as propostas das reformas vistas como necessárias pelo governo: “A planificação econômica não é um objetivo que possa ser alcançado de uma vez. frente o aguçamento tanto do conflito e das pressões de diferentes grupos sociais internos quanto também na área internacional. sobretudo. tar a centralização das decisões com vistas a enquadrar todos os órgãos do governo num só objetivo. BASTOS. com mínimo desperdício de recursos. 2012). à medida que o quadro político. nesse contexto a ação do governo seria exercida por meio de um conjunto de medidas orientado para dois objetivos: (a) assegurar a realização do montante de investimentos requeridos para que fosse alcançada a taxa de crescimento prevista. que é menos avaliar resultados e mais resgatar percepções e intenções. 1962. e como tal deve ser introduzida progressivamente. em particular. em última instância. A análise do Plano Trienal com enfoque principalmente em suas diretrizes de longo prazo e voltadas ao desenvolvimento mostra que estas dependiam de condições políticas difíceis de serem viabilizadas na conjuntura. como os de energia e riquezas minerais. o plano entendia como inconcluso o processo de industrialização por substituição de importações e atribuía os desequilíbrios existentes à ausência de um planejamento que fosse capaz de antecipar as modificações estruturais. Conforme a 9 . Em suma. mas mantendo a livre iniciativa. 1962. c) continuar o processo de substituição de importações. institucional e administrativo o comportasse” (BRASIL. à evolução da demanda e. 2001. Era entendida. uma técnica de governar e administrar.

Na seguinte passagem esse ponto é mencionado: O crescimento do consumo decorre. por meio da elevação do consumo. iniciam-se modificações na estrutura da produção que. inseparável do desenvolvimento atual da economia brasileira. interno. há evidências que comprovam ser essa a percepção do plano. pelo menos parcialmente) pelo II PND: As modificações estruturais implícitas na substituição de importações podem. como é o caso do artigo de Maria da Conceição Tavares (1963). obtendo-se uma utilização ótima da capacidade produtiva. Macedo (1975). o plano permite perceber que o fator impulsionador do crescimento econômico é o investimento. combinadas com alterações na composição das importações. Mas esse processo de substituição de importações. enquanto predominava nas análises de cunho cepalino a causa da estagnação na estreiteza dos mercados e na demanda de consumo. Diferentemente da visão subconsumista. Se inexiste esse impulso.cuja intenção manifesta é que fosse preferencialmente interno. É necessário projetar o crescimento do consumo afim de que os investimentos diretamente relacionados com a satisfação desse consumo possam ser orientados. Entretanto. é particularmente difícil. Em adição. pois qualquer expansão da renda monetária logo se traduzirá em maior demanda de importações. para assim tentar orientar o investimento privado. enfatizava a necessidade de aumentar a produção dos bens de capital. necessariamente. assegurar um fluxo de recursos capaz de manter a formação de capital dentro das dimensões requeridas e com a composição adequada. caso isso fosse verdadeiro. mesmo coetâneo de teses defensoras do referido esgotamento. A produção de equipamentos com densidade tecnológica cada vez maior exigia mais volume de capital e trazia à tona a questão do financiamento . ser observadas de outro ângulo. entretanto. substituí-lo por outro. Persistindo o impulso interno durante algum tempo. da elevação do nível da renda pessoal e da forma como esta se distribui. Essas modificações estavam intrinsecamente ligadas às reformas de base. a menos que a economia seja submetida a um planejamento que permitisse antecipar as modificações estruturais (BRASIL. Entretanto. percebe-se o caráter de modificar a estrutura de oferta da economia. o plano. permitirão aumento da oferta global capaz de satisfazer ao incremento da demanda monetária. havia a preocupação de. Essa análise setorial mais refinada constitui. tais como na área fiscal e no setor financeiro. o aumento das exportações significa um impulso de crescimento vindo de fora. etapa avançada do trabalho de planejamen- 10 . A ideia consistia em direcionar o padrão de consumo. 31-32). que não pode ser satisfeita. p. não se pode realizar sem pressão inflacionária.Pedro Cezar Dutra Fonseca. Cássio Silva Moreira passagem abaixo. com o fito de não aprofundar a dependência. por meio da planificação do desenvolvimento. com teor semelhante ao enunciado (e realizado. sem afastar-se desse entendimento. por meio de distribuição de renda. propósito que demonstra a pretensão de certa autonomia com relação ao exterior e o diferencia em relação à forma de financiamento do II PND. Para uma economia subdesenvolvida. Isso induziria à necessidade de se substituir o financiamento externo por interno. pois a produção interna de parcela crescente dos bens de capital necessitava de elevado esforço de financiamento. Entretanto. se a pressão inflacionária daí resultante não acarretar maiores transtornos à economia. seria um equívoco do governo insistir em tal modelo de industrialização. em determinados setores. questiona se havia consciência de que o processo de substituição de importações estivesse esgotado e. inclusive na tentativa de retomar o rápido crescimento da indústria nos últimos anos anteriores a ele. igualmente. tenta direcioná-lo. entretanto. 1962. Auge e Declínio do Processo de Substituições de Importações.

sendo que essas modificações deveriam germinar a partir dos bens de produção. Para isso. nas palavras de Goulart. O governo federal adotaria medidas para viabilizar as condições acima delineadas. principalmente o aperfeiçoamento de formas de crédito para o financiamento da fabricação e das vendas de bens de capital (BRASIL. metalurgia dos não ferrosos. siderurgia. pois até o início dos anos 70 do século XX o processo de industrialização carecia de segmentos significativos da indústria de bens de capital e insumos básicos. 40). inicia-se um processo mais intensivo de substituição de importações no setor de produção de equipamentos. 11 . 1962. Há plena consciência. cuja execução estava diretamente relacionada com a reforma fiscal e financeira. O primeiro seria a disponibilidade de maior número de profissionais qualificados. p. Assim. 101) tem esse entendimento. enquanto Castro e Souza (1985) defendem que o II PND foi um programa de substituição de importações. 174). ou com financiamento.. diferentemente da fase inicial da industrialização. pretendia-se atacar o principal entrave ao processo de substituição de importações: os pontos de estrangulamento. e. mas uma fase do mesmo. Independentemente da controvérsia se o processo substitutivo de importações esgotara-se ou não com o bloco de investimentos superior à demanda corrente do Plano de Metas1. facilitar-se-iam as adaptações da estrutura produtiva às transformações da procura decorrentes do próprio crescimento. o planejamento visava orientar o processo de formação de capital a fim de direcionar o fluxo necessário de recursos para os setores estratégicos. o que exigia a alavancagem para outro ciclo: [. parece claro que esse entendimento exposto por Goulart vai ao encontro da afirmação de Bandeira: 1 Dentre as análises “clássicas”. existindo larga margem para o prosseguimento do processo com ênfase na substituição de importações. O terceiro seria a ampliação e implantação de novas unidades produtivas.. p. 47). intensiva em mão de obra de mais baixa qualificação. o processo de industrialização da economia brasileira ainda está longe de atingir sua plena maturidade. O segundo era a criação de linhas de fomento para a aquisição de equipamentos em unidades da indústria mecânica. Enfim. 1962. Tavares (1986. que a própria execução do plano permitirá aperfeiçoar. o quarto era a criação de facilidades para o financiamento da fabricação e da venda de bens de capital. 1964. Dessa forma. Esse programa de fomentar a indústria nacional de bens de capital dependia basicamente de quatro fatores. to. p.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. de que não se esgotara o modelo de substituição de importações. Outra passagem do plano assevera tal entendimento: Não obstante o progresso realizado nos últimos anos. a dependência de importação ainda é elevada e o país tem base de recursos para reduzi-la ainda mais (BRASIL. mecânicas e de material elétrico. e que possam ser supridos satisfatoriamente pela indústria nacional (GOULART. por fim. o programa remetia diretamente à reforma educacional que propunha implementar. p. é peça estratégica a adoção de critérios inflexíveis para a aprovação de importação de máquinas e equipamentos sem cobertura cambial como investimento de capital estrangeiro. 1962). Nesse processo. indústrias químicas. e requer discussão direta e permanente com os dirigentes de cada ramo de atividade produtiva (BRASIL.] agora desenvolvidos os setores da indústria leve e lançadas as bases para o desenvolvimento de nossa infraestrutura. Especialmente no que se refere às indústrias de base.

10. a indústria de construção residencial. o que ocasionaria um círculo vicioso. beneficiando de preferência as regiões de mais baixo índice de desenvolvimento. 18). Para tanto. Ainda nessa direção. uma ação que vai além do plano das intenções foi a Instrução nº 242 da SUMOC. enxofre. Essa desconcentração teria com um dos instrumentos a adoção de medidas fiscais e financeiras que incentivassem investimentos em outras regiões do país.Pedro Cezar Dutra Fonseca. a indústria do petróleo. pela indústria nacional e que para as importações cobertas por financiamentos externos seria exigido prazo não inferior a sete anos. por meio da instrução citada. Em relação às importações. Goulart entende que as decisões integrantes da instrução vinculam-se “[. a agricultura. 12. para a produção de bens de capital. 1964. de 28/06/1963. retomar-lhe o caminho e reorientar o processo de industrialização. 13. O mapeamento dos recursos naturais estabelecia como prioridade a pesquisa daqueles minerais cujas crescentes importações contribuíam para o desequilíbrio do balanço de pagamentos. amianto.4%. em visita aos Estados Unidos: “Estamos procurando estabelecer um desenvolvimento harmônico do país para corrigir desequilíbrios regionais e evitar o pauperismo de certas áreas” (GOULART. recuperar o projeto de Vargas. visava-se evitar que a concentração de investimentos em certas áreas ocasionasse a convergência dos dispêndios públicos.6% e os demais setores. estanho. A primeira trata da intensificação dos investimentos relacionados com o levantamento e a avaliação dos recursos naturais.6%. antes sem cobertura cambial e financiadas no exterior. as indústrias de transformação. Cássio Silva Moreira Goulart procurou. com o objetivo de viabilizar um desenvolvimento mais equilibrado e autônomo do capitalismo brasileiro (BANDEIRA. bem como o fomento das exportações com a exploração de minérios. p. o governo adotou. a qual seria objeto da reforma tributária. 121).] à evolução natural do processo de substituição de importações de equipamentos pelos de produção nacional” (GOULART. estava previsto o mapeamento das reservas e a elevação da produção de cobre. níquel. um trabalho de zoneamento do país para embasar a política de incentivos diferenciais. a indústria de energia elétrica. Setorialmente. o princípio de que não seriam admitidas importações de máquinas e equipamentos que pudessem ser supridos. 18. Nota-se que tal preocupação também apareceu no II PND. em especial 12 . que subordinava a normas especiais o registro de operações referentes à importação de máquinas ou equipamentos. economicamente viáveis. Nas palavras de Goulart. satisfatoriamente. p. previa. Em relação à política de correção dos desequilíbrios regionais. 8. alumínio. mais duas medidas constantes no plano devem ser mencionadas. desse modo. A segunda seria intensificar os investimentos ligados ao “aperfeiçoamento do fator humano”. Assim. orientadora da localização das atividades econômicas no território nacional. o governo visava estimular os investimentos privados.. 1962. durante sua execução. que também aparecerá mais tarde no II PND. assim se distribuiriam os investimentos de capital fixo: os sistemas de transporte absorveriam 29%.7%. Por meio da chamada “política de favores diferenciais”. 41). Dentro dessa orientação. carvão.3% (GOULART. entre outros.4%. 7. 2001.. zinco. em benefício daquelas áreas com maior excedente estrutural de mão de obra. p. distorcido pela Instrução 113. iniciando-se a amortização a partir do terceiro ano. 1963). para os setores de base.

o plano arrola os referentes às áreas de transportes e comunicações. o Plano Trienal também previa o fortalecimento da indústria nacional de equipamentos agrícolas com a substituição dessas importações. A capacidade deveria ser expandida de cerca de 4. as defende como forma de permitir o ingresso de divisas para fazer frente ao estrangulamento externo. energia elétrica.. ocupava lugar estratégico no plano a elevação da participação da produção nacional na oferta do produto.4 milhões de kW. indústrias de bens de capital e indústria extrativa mineral (minério de ferro). esse setor era estratégico para corrigir as distorções resultantes da orientação anterior dos investimentos públicos no sistema viário brasileiro. mediante a conclusão das obras já iniciadas e a construção ou instalação de novas unidades. a elevação da produção nacional e das exportações dos seguintes segmentos: siderurgia. cuja produção se expandira de 1. seriam construídas as subestações necessárias. pode-se mencionar a fabricação de tratores.. com perspectiva de em 1964 alcançar 14 mil unidades (GOULART. Pela importância estratégica do setor de transportes. haja vista seu expressivo peso na pauta de importações. assim como para a expansão da capacidade de geração de energia com o uso de componentes nacionais. por meio da Política externa independente. 26). e b) a extensão das linhas de tensão igual ou superior a 66 kW. p. Complementarmente. Na área de energia elétrica e nuclear. e se propunha. Ainda em tom nacionalista.908. o governo assumia como prioridade a pesquisa e o “[. indústrias químicas. o Plano Trienal. metalurgia dos não ferrosos. em 1963. Como exemplo. tal como acontecerá no governo Geisel. Quanto aos investimentos em infraestrutura. petróleo e carvão mineral. Esses eram considerados matérias-primas necessárias para o desenvolvimento das atividades industriais.8 para 7. discorre que. setor então predominantemente de capital nacional. o governo promoveria a diversificação de mercados para as exportações 13 . eram vistos como necessários para permitir o desenvolvimento adequado dos demais setores. incentivando a indústria doméstica. Finalmente. Na Mensagem ao Congresso Nacional do ano de 1964. o ferro e o manganês (BRASIL. para 9. mas atender às necessidades de maiores inversões em portos e marinha mercante. fundamentalmente. Quanto ao petróleo.678 unidades. 1963. por suas características. com vistas. Especificadamente em relação à energia elétrica. Isso permitiria não só adequar os esquemas ferroviários à nova realidade estrutural da economia brasileira. Assim. energia nuclear. à integração dos sistemas.] tombamento dos recursos naturais do país” (GOULART. 1962). os programas a serem executados objetivavam: a) a expansão da capacidade das usinas geradoras. os quais.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. Tal como neste. assim como Goulart em sucessivos pronunciamentos. em 1961. incluíram-se diretrizes que permitissem obter a maximização da produtividade econômica e social e assegurar a interligação das regiões com grande potencial econômico. Como futuramente no II PND. ele era visto como prioritário para a substituição de importações. em relação à elevação e à diversificação das exportações. havia a previsão de criação de fundos voltados ao financiamento. 1964).

A segunda foi um audacioso plano de investimentos.2 80.6 5.0 10.6% no mesmo período (ver Gráfico 2). Ademais.0 10. de 1974. do Planejamento. p. em 15 de janeiro de 1974.3 40. ao contrário do plano. muito menos. 1963).8 Inflação (IGP-DI) 60. O Brasil.0 50. da Fazenda.151.0 2.8 30. no âmbito político. Ásia. Tais [são].0 6. embora estabelecesse metas de desempenho esperadas.0 0.0 4. 1964.0 5.0 6. a necessidade crescente de recursos externos. p. ou a um projeto de crescimento acelerado como proposta do grupo que ascendia ao poder – e.] sobretudo de medidas de política comercial. Goulart assume a tese cepalina de deterioração dos termos de intercâmbio e argumenta que a solução para enfrentá-la dependeria: [. consistiu no processo de distensão. e decisões conducentes à abertura de novos mercados. 37): Pesquisas em jornais (Folha de São Paulo e Correio do Povo.0 PIB 90. aprovado pela Lei n°. além de compatibilizar a capacidade de importar ao estilo de desenvolvimento proposto. sob pressão da reversão da conjuntura: o preço do barril do petróleo quadriplicou no último trimestre de 1973 e a taxa de crescimento do PIB caiu de 14. ocasionava uma relação direta entre a receita de exportações e a capacidade de importar do país (GOULART..2 34.0 38. A primeira. pouco 14 . a quem coube liderar a elaboração do plano.2 29.0 12. 6. Desse modo. precisamente. Este.0 10. e por João Paulo dos Reis Velloso.6% para 34. Duas ações marcaram seu governo. acreditava que o país poderia diminuir a dependência tecnológica e agregar valor às exportações.2% de 1973 para 1974.0 8. medida pelo IGP/FGV. bem como os demais países em desenvolvimento.9 40.4 46. de um aprofundamento da substituição de importações sob a égide do Estado.0 0.].. enquanto a inflação. que foi elaborado às pressas.6 8. tais como o estímulo à substituição de importações e à diversificação de exportações. que devem ser tomadas pelos próprios países em desenvolvimento.0 1973 15.0 1974 1975 1976 Anos 1977 1978 Taxa de inflação (IGP-DI) 1979 Taxa de crescimento do PIB (em %) Fonte: Bacen. encontrou resistência em segmentos das forças armadas.0 20. Europa Oriental).0 70. inerente ao processo de industrialização. por via indireta.. o II PND.3 77. A equipe econômica era chefiada pelo ministro Mário Henrique Simonsen. que. embora devesse ser lenta e gradual.. indo de 15. tem plena consciência das medidas que precisam ser adotadas (GOULART. Cássio Silva Moreira (África.8 4.Inflação e taxa de crescimento do PIB (1973-1979) 16. Gráfico 2 . 216).0% para 8. Esclarecem Fonseca e Monteiro (2008.Pedro Cezar Dutra Fonseca. de Porto Alegre) e revistas da época (Veja e Visão) não permitem detectar [antes da posse] qualquer menção ao II PND. dobrava.0 14.0 14. 3 O II PND e suas prioridades Ernesto Geisel foi eleito. A proposta de distensão aparecera quando ainda Geisel era candidato. as diretrizes que têm orientado e continuarão a orientar a ação do meu Governo [. assim como a diversificação de produtos (incluindo os industriais com maior valor agregado).

possivelmente devido às dificuldades visíveis da conjuntura. 1997. As dificuldades de financiamento consistiam seu principal gargalo.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. que o processo de substituição de importações não se encerrara ao final da década de 1950. Ademais. alumínio e aço. 1976.] consolidar um modelo brasileiro de capitalismo industrial” (BRASIL. COUTINHO. pois encampava a tradicional tese de que o estrangulamento externo incitava à continuidade do processo substituição de importações e. irrigação. execução e os resultados do II PND2. ao lado de investimentos na cadeia do setor primário. AGUIRRE. LESSA. Pode-se perceber um viés desenvolvimentista aos moldes da Cepal no plano. propunha o aumento de 2. se necessário. 1998. com isso.. 2003. MONTEIRO. 1986. como o fazem Castro e Souza (1985. que com os investimentos do II PND. FONSECA. 2005. Há uma controvérsia muito grande entre economistas sobre a elaboração. “[. 2002. em consonância com o diagnóstico do Plano Trienal. Subentendia. SADDI. HERMANN. estabelece como seu propósito “[. Todavia. contando internamente com a expansão do sistema financeiro nacional. Entre os trabalhos dedicados especificamente ao II PND (BATISTA. pode-se dizer. química pesada. menciona sobre as fontes de recursos para viabilizá-las. Diferentemente do Plano Trienal. 1983. se entendermos. além da ampliação de geração de energia hidrelétrica. 1999. 2008). a economia subiria rampa das indústrias capital-intensivas e tecnológico-intensivas”. pois ainda carecia alcançar inúmeros segmentos de bens de capital e intermediários. VELLOSO. BOARATI. BELLUZZO.. 12% na indústria e 7 % na agricultura. 1979.. 15 . Entretanto. 1977. GREMAUD. celulose. com crescimento de 10 % ao ano do PIB. caso tivessem sido implantadas tempestivamente. propôs com mais ênfase recorrer às fontes internacionais e ao endividamento externo. há certa tendência na literatura em reconhecê-lo como a mais ampla experiência de planejamento econômico no Brasil depois do Plano de Metas. ao lado de elevação da produção interna de petróleo. 2005). 1984.5 vezes no quantum das exportações entre 1974 e 1979. em marcha forçada. A lógica implícita no plano firmava que a crise decorria do desequilíbrio intersetorial – a prioridade aos bens de consumo duráveis estabelecida desde o Plano de Metas sobredimensionara o setor. PIRES. ferro. SOUZA. siderurgia. 1978. 76). p. por meio dos investimentos públicos. 37). Diante da crise do balanço de pagamentos. CRUZ. CASTRO. 1985. a economia brasileira encontrar-se-ia menos vulnerável diante do choque do petróleo. enquanto outros segmentos não acompanharam sua evolução quantitativa e qualitativa – e acenava para a diminuição da dependência externa em vários itens para enfrentar o desequilíbrio do balanço de pagamentos.] dali por diante. BALASSA. p. FISHLOW. CARNEIRO. que as propostas do Plano Trienal eram pertinentes e. 1986. que ganhara impulso com a reforma monetário-financeira do período de Castelo Branco e com a concentração bancária estimulada por Delfim Neto na época do “milagre”. MALAN. como no transporte ferroviário e no sistema de telecomunicações. metais não ferrosos e minerais não metálicos.VELLOSO. 2 Para análises da política econômica do governo Geisel (BONELLI. 1987. meta cujo cumprimento adviria pelo desenvolvimento de projetos de exportação de matérias-primas – notadamente.. construção de armazéns e centrais de abastecimento. A diminuição das importações viria com um programa de substituição de importações nos setores de bens de capital e insumos básicos – notadamente. 1974. além da realização de programas de eletrificação rural.

dominante nos governos militares desde 1964. Os investimentos estatais adquiriram inclusive uma dimensão regional. contrariando o discurso oficial anticomunista e alinhado com os Estados Unidos. 4 Análise comparativa Como já foi mencionado. Japão e América e. petroquímica. c) bens de capital: mediante garantias de demanda. Além disso. surpreendentemente. por isso fazia-se mister a mão do governo. petroquímica e farmacêutica. Assim como no governo Goulart. incluindo a implantação de indústrias de tecnologia naval. p. Da mesma forma. para autores como Froelich (2007) pode ser entendida. reservas de mercado (lei de informática) e política de preços. 78). papel e celulose. podemos perceber semelhanças na programação setorial de ambos. Nas palavras de Geisel: “a maior aproximação dos EUA com a União Soviética e a reaproximação daquele país com a China Continental têm levado a perspectivas concretas de cooperação entre Leste e Oeste. Em relação à diversificação das exportações. arrola a proposta de diversificação das exportações e ampliação dos mercados por meio do comércio com a África. ampliação da capacidade hidrelétrica (Itaipu) e substituição dos derivados de petróleo por energia elétrica e pelo álcool (Pró-Álcool). a principal semelhança entre os planos Trienal e II PND reside justamente no diagnóstico de fundo que os alicerça e do qual decorrem suas propostas de intervenção: a necessidade de aprofundar o processo substitutivo de importações. com a distribuição espacial dos principais projetos (ALMEIDA. 25). denominada “pragmatismo responsável”. por sua envergadura. No capítulo VII. aeronáutica. há outra semelhança entre o plano e a Política externa independente do governo Goulart. “Integração com a Economia Internacional”. com a URSS e a China (II PND. incentivos fiscais e creditícios. Ambos tratam essa decorrência do diagnóstico como uma imposição dos acontecimentos. a qual exigia uma mudança estrutural da economia brasileira cujo impulso não adviria das decisões descentralizadas do mercado. como integrante do conceito de distensão política. fertilizantes e defensivos agrícolas. Batista (1987) assinala como ponto a favor do plano sua determinação em avançar o processo de industrialização no Brasil por meio da implantação de um programa de substituição de importações no setor energético e de expansão da capacidade de produção de bens intermediários. b) infraestrutura e energia: ampliação da prospecção e produção de petróleo. 1974. energia nuclear. Cássio Silva Moreira As áreas prioritárias dos investimentos do II PND foram: a) insumos básicos: metais não ferrosos. Essa guinada na política externa. expansão das ferrovias e a utilização de carvão. 1974. pois a associa à busca de mercados terceiro-mundistas e de países socialistas.Pedro Cezar Dutra Fonseca. o papel das empresas estatais seria fundamental. já que estabelecem como foco da substituição de importações os bens 16 . com certo recesso da ideologia” (BRASIL. equipamento ferroviário. pois seriam os agentes impulsionadores do capital nacional e da indústria de bens de capital. 2004). p. exploração de minérios.

Em Geisel a questão distributiva não assumia a mesma ênfase. p. inclusive como Ministro do Trabalho no segundo governo de Vargas. Ambos tinham no Estado o propulsor do desenvolvimento econômico. o qual precedeu temporalmente a opção pelo II PND. ao esperado reforço da produção interna substitutiva. na acepção clássica de Max Weber: a pretensão do governante reconhecer-se como tal perante os governados. a qual via a industrialização do país e suas empresas estatais como estratégicas para a geopolítica do país. que antes fora presidente da Petrobras. Como mostramos anteriormente. Quanto à distribuição espacial dos investimentos. a substituição da importação de bens de capital permitiria a “[.. Conforme esta. seja por intermédio do BNDE. não se pode ignorar outro ponto comum. com mais ênfase. máxima de bens de capital” (GOULART. o II PND estabelecia como medida central para combater a crise e a dependência externa a substituição de importações de bens de capital (incluindo aviões. Nesse caso. Já as empresas estatais. como Golbery do Couto e Silva. tanto para aplacar a forte oposição civil-militar que tentara impedir a posse de Goulart e limitara seus poderes com o parlamentarismo. como Petrobras e Eletrobras. [a qual] obedece à diretriz do Plano Trienal. O II PND 17 .O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. uma vez que há muito constava de seu discurso. já foi visto que a mesma aparece no Plano Trienal e. Da mesma forma. petroquímica. 1977). cabe dizer. bem como a busca de fontes alternativas de energia. seja por meio das empresas estatais que implantariam e desenvolveriam os ramos de bens de capital. então dominante em círculos das forças armadas e com representantes no alto escalão do governo. Mas tampouco se pode subestimar a ideologia do “Brasil potência”. prevista nas importações. energia. bens intermediários e insumos básicos. no caso de Goulart a compatibilidade entre crescimento. O diagnóstico tanto da origem da crise quanto de sua solução com vínculos a um discurso recorrente à dependência externa já podemos perceber no conteúdo da Mensagem ao Congresso Nacional de 1963 e 1964 do governo Goulart. Essa aliança entre Estado e capital privado nacional “de ponta” por intermédio do BNDE também aparece nos dois governos. que financiaria as empresas nacionais para desenvolverem os ramos de máquinas e equipamentos. atuariam em áreas prioritárias. e era ponto programático do PTB. além da descentralização espacial dos investimentos. posto que o BNDE era entendido como a única instituição nacional com escopo para o financiamento de longo prazo. distribuição de renda e combate à inflação não pode ser vista como uma concepção emergente por estrita decorrência da conjuntura. 115). na Mensagem ao Congresso de 1964. de capital e intermediários. o crescimento poderia contribuir para um quadro político mais confortável. 1963. que era a defesa de longa data por parte de ambos de políticas ativas de desenvolvimento. quanto para viabilizar o projeto de distensão monitorada de Geisel.] contração. a opção pelo crescimento acelerado pode nos dois casos ser associada à carência de legitimidade de ambos os governos. sem contar o próprio Geisel.. Na interação entre economia e política. como antes assinalado. navios e computadores). Sem descartar tal hipótese como relevante para contextualizar as opções de ambos na conjuntura. partido do qual era presidente. como siderurgia. como infraestrutura. e por certo pesou para a rejeição de qualquer ajuste ortodoxo a viabilidade do projeto de distensão. insumos básicos e combustíveis (VELLOSO.

ao mesmo tempo. Itaipu (Paraná). não se pode deixar de registrar que o fato mais importante simplesmente é a menção à concentração de renda num documento oficial. “descentralizados”. próxima de onde foi construída mais adiante a hidrelétrica de Itaipu pelo governo Geisel. disseminados pelo território nacional. será gerado plutônio necessário ao início de uma segunda linha de reatores no ciclo tório-plutônio e tório-urânio 233. solicitou ao engenheiro Otávio Marcondes Ferraz a elaboração dos estudos para 18 . contando para sua viabilidade o fato de que os novos segmentos a serem estimulados dependiam. carvão (Santa Catarina e Rio Grande do Sul). ou seja. embora com parecer contrário de Simonsen. como mostravam os primeiros dados tabulados do censo de 1970. com previsão de ser instalado em 1964 na Universidade de Recife.. Essa central utilizará como combustível o urânio natural. em 1962 o governo Goulart criou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Estes são. à semelhança do que seria feito mais tarde no governo Geisel. que entraria em pleno funcionamento nos próximos anos no Instituto de Engenharia Nuclear. decisão já adotada e anunciada a 31 de dezembro de 1963. p. Cássio Silva Moreira apresenta a estratégia de desconcentração industrial. como meta governamental para o ano seguinte. quando foi criada a Empresa Nuclear Brasileira S.A. da construção da nossa primeira central nuclear. Além disso. petróleo (bacias do nordeste e Rio de Janeiro). o governo. fertilizantes potássicos (Sergipe). para o aproveitamento de Sete Quedas. o governo Goulart pretendia construir uma hidrelétrica que aproveitasse o potencial energético do Salto de Sete Quedas (trecho do Rio Paraná desde o Salto de Sete Quedas até a foz do Rio Iguaçu). Por fim. ambos os planos consideram o problema energético do país como o mais sério ponto de estrangulamento e apontam alternativas semelhantes para superá-lo. para o qual conta o País com suprimento próprio. Em 1963. Também outro reator. Todavia. voltada a formar uma estrutura governamental para a defesa e promoção de um programa nuclear. Goulart recomendava: [. sem perda de tempo. com 93% de componentes fabricados pela indústria nacional. (Nuclebras). soda de cloro/sal-gema (Alagoas) e fosfato (Minas Gerais). São os casos de minérios de ferro de Carajás (Pará). 1964. o que permitirá o aproveitamento de incalculável potencialidade energética (GOULART. no Rio de Janeiro. mais enfatizada por Goulart e por certo um dos aspectos de seu discurso que mais enfrentava resistência das elites civis e militares desde a época de Ministro do Trabalho. começou-se a construção de um reator de pesquisas.Pedro Cezar Dutra Fonseca. como fatores locacionais determinantes. Goulart.. quando ensejou o “manifesto dos coronéis”. alterou a lei salarial substituindo o reajuste anual pelo semestral e com indexação através de índices acima da inflação para as faixas de mais baixa renda. recursos minerais e hídricos. Em 1965. entre outros. pois implicitamente ia ao encontro da principal palavra de ordem da oposição aos governos militares: o “milagre” concentrara renda e fora uma fase de crescimento com exclusão social. aparece com menos ênfase no II PND. 69). totalmente projetado e construído no país. os pesquisadores brasileiros lograriam sucesso na construção de um reator nacional com a utilização de alguns desses minerais.] o início. Por fim. Já a desconcentração pessoal e funcional da renda. de fontes de matérias-primas. por natureza. por temer seu efeito inflacionário. O objetivo seria o desenvolvimento de tecnologias básicas destinadas a capacitar plenamente a indústria nacional para projetar e construir centrais nucleares. Em relação à energia nuclear. para fins de ensino.

8 milhões de toneladas.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. mil toneladas. insumos básicos.. Quadro 1 . 2001.. simultaneamente à manutenção do crescimento econômico aliado ao financiamento externo. a construção da usina. Autossuficiência na produção Triplicar a produção de alumínio. Recursos naturais Aumentar a produção de aço de Aumentar a produção de aço de 7 para 3 para 5 milhões de toneladas. o Itamaraty.. Aumentar a produção de zinco Aumentar a produção de zinco de 15 de 15 mil toneladas para 100 mil toneladas para 100 mil toneladas. 1964. Previa-se o prazo de 55 meses para o início da produção e de 100 meses para o término obra (GOULART. Para a “concretização do projeto. p. Dentro dos próximos trinta dias terei a oportunidade de inaugurar na região de Guaíra o campo de pouso.. pois reforçará os liames entre o Brasil e o Paraguai.Comparativo entre ações propostas no Plano Trienal. mente nas demais regiões). 19 . p. (minério de ferro). programada Objetivos de longo prazo Prioridade da industrialização Ajuste na estrutura de oferta. 1964). 51). além de gerar excedente exportável em torno de US$ 200 milhões. para o qual se elegeria a localidade de Itaipu. primeiro passo para a instalação do canteiro de obras da barragem de Sete Quedas (GOULART. Investimentos na Vale do Rio Doce e na região da Paraopeba Projeto Carajás (minério de ferro). Energia nuclear continua. Redução na participação das importações no setor de bens de capital e gerar excedente exportável. pelos prazos previstos pela mensagem presidencial. apresentamos um quadro-resumo comparativo entre ações propostas no governo João Goulart e as ações executadas no II PND do governo Geisel. Afirmava Goulart: [. iniciou os entendimentos com o governo do Paraguai” (BANDEIRA. com uma capacidade instalada de 10 milhões de kW (cerca de 150% de todo o potencial então existente no Brasil). a usina deveria ficar pronta aproximadamente na época em que ocorreu o primeiro choque do petróleo. 120).] o empreendimento terá significativas implicações internacionais. Taxa de crescimento econômico 7% ao ano. Interessante é notar que. Sete Quedas). Ajuste na estrutura de oferta. A seguir. Redução na participação das importações no setor de bens de capital de 52% para 40%. Continuar o processo de subsContinuar o processo de substituição tituição em bens de capital e em bens de capital e insumos básicos. simultaneamente à manutenção do crescimento econômico aliado ao financiamento interno. Energia nuclear (Central Nuclear do Centro Sul. de alumínio. bem como entre o nosso País e a Argentina e o Uruguai. na Mensagem ao Congresso Nacional de 1964 e no II PND Propostas João Goulart (1961-1964): Plano Trienal e Mensagem ao Congresso Nacional de 1964 Ernesto Geisel (1974-1979): II PND 10% ao ano.Energia nuclear (Nuclebras). posterior. Hidrelétrica Aumentar a capacidade hidroAumentar a capacidade hidroelétrica elétrica no Rio Paraná (Projeto no Rio Paraná (Projeto Itaipu). já àquela época.

Cássio Silva Moreira conclusão. Crédito do IPI sobre a compra de Instrução nº 242 da SUMOC.Agente principal das transformações ções estruturais. dependia das reformas de base. tratégicos pelo governo. Incentivos seriam dados ao setor Incentivos foram dados ao setor priprivado por meio do BNDE.Soda de cloro em Alagoas. Siderurgia Ampliação da capacidade das empresas de siderurgia: Cia SideConstrução de uma siderúrgica em rúrgica Nacional. Atender à pressão pela modernização das regiões não industrializadas por meio da descentralização espacial dos projetos de investimento. Prospecção de petróleo na plata. Sul. As empresas estatais sofreram restrição ao crédito interno e contenção tarifária. p. Transportes Incentivos Incentivos para ferrovias. depreciação acelerabarreiras à importação de bens de da como incentivo fiscal. Fortalecimento da empresa privaFortalecimento da empresa privada da nacional em associação com o nacional em associação com o Estado. principalmente de bens de principalmente de bens de capital. petroquímica na Bahia e no Rio Grande do Sul.Prospecção de petróleo na plataforma forma litorânea. de aeroportos e hidrovias. petróleo. Soda de cloro na região Nordeste via empresas privadas e investi. Forte ampliação na indústria química: soda cáustica. Propostas João Goulart (1961-1964): Plano Trienal e Mensagem ao Congresso Nacional de 1964 Ernesto Geisel (1974-1979): II PND Petróleo Ampliar a prospecção e produção Ampliar a prospecção e produção de de petróleo. fertilizantes potássicos em Sergipe e fosfato em Minas Gerais. forçando-as ao endividamento externo. Estado. Acesita e novos projetos como Cosipa e Usiminas. 20 . rodoIncentivos para ferrovias. Substituição de importações de celulose. litorânea do Nordeste. isenção do capital. Capital estrangeiro Fonte: Elaborado pelos autores com base em Moreira (2011. Belga-Mineira e Itaqui (MA). Favorável desde que direcionados para setores não considerados esFavorável. Reserva de mercado para novos Reserva de mercado para novos emempreendimentos (similar naciopreendimentos (ex: lei da Informática). As empresas estatais buscariam financiamento no sistema financeiro interno e em recursos do BNDE. mentos da Cia Nacional de Álcalis. capital. imposto de importação. limitação da remessa de lucros. papel e fertilizantes.Pedro Cezar Dutra Fonseca. Descentralização espacial dos investimentos Atender à pressão pela modernização das regiões não industrializadas por meio de projetos de investimento para a correção dos desequilíbrios regionais. Financiamento Papel das estatais Empresa nacional privada Agente principal das transforma. e fertilizantes. 365). captação no sistema financeiro privado (endividamento interno). Soda de cloro Química e petroquímica Petroquímica Polos na Bahia e no Rio Grande do Polos na Bahia e no Rio Grande do Sul. em especial a fiscal e a bancária. estruturais. transporte aéreo e construção hidrovias. celulose e papel. nal). com equipamentos. vado por meio do CDE e do BNDE. rodovias e vias.

mesmo transcorrida uma década entre um e outro. também marcada por alterações econômicas significativas. na conjuntura em que Geisel assumiu. discursos como este de Goulart. nesses termos. tais semelhanças podem ser interpretadas como coincidências. forçou retomá-las. fere o bom senso serem “apropriadas” por governo ideologicamente tão diferente. a consolidação e integração da indústria nacional de bens de produção [. no Quadro I. em consequência. muitas vezes tidas como esdrúxulas. cujos termos poderiam constar sem nenhuma alteração no II PND: O Plano Trienal. Resulta difícil atribuí-la a mera coincidência. exigirá.] a efetivação dos investimentos previstos no Plano Trienal estará condicionada pela possibilidade de apoiá-la. cuja gestação remonta às primeiras décadas do século XX. e por mais diferenças os separem no jogo político (o presidente deposto e um dos líderes da conspiração civil-militar responsável pela deposição). impuseram-se historicamente: a crise dos anos 70. dar prosseguimento e aprofundar o processo de substituição de importações nos setores econômicos estratégicos. todo o apoio governamental (GOULART. como no período do Paeg. 21 . e por uma fase de crescimento após 1968. mas em aspectos centrais do diagnóstico de ambos e das propostas deles decorrentes para a economia brasileira. possivelmente seja um mesmo projeto de país. A expansão adequada das indústrias receberá. Se admitido. que pretende sustentar o ritmo elevado de crescimento do produto. essa concepção nos leva a ponderar que parte significativa das propostas de longo prazo e de reformas estruturais de Goulart. sugerem que há elevada semelhança entre as propostas do governo Goulart e as formuladas e implantadas no governo Geisel. de forma crescente. autoritário e “antipopulista”. como se aguardassem o momento para sua concreção. mesmo que de imediato imperceptível. pois. por exemplo. 5 Considerações finais Se na história a manifestação da razão era uma hipótese a ser testada. a racionalidade do processo histórico. Não obstante. para ter êxito.. p. Para quem vê a história como um exercício de lógica formal. como ajuda revelar o material empírico analisado. que se impõe como necessário. nada disso impediu a semelhança de diagnóstico e de propostas. O caráter estrutural do estrangulamento externo e a situação de dependência presentes no Plano Trienal e nas mensagens de Goulart foram enfaticamente rejeitados por seus opositores. na oferta interna de bens de produção. 1963. principalmente. pois sugere haver na história algo que perpassa como imposição. ou tentar decifrar o possível nexo que uniria ambos os governos para apresentarem tantos traços comuns.. conforme a sugestão de Hegel citada na introdução deste artigo. o material anteriormente exposto e. inclusive na academia. o país passou por reformas institucionais de vulto.O projeto do Governo Goulart e o II PND: um cotejo. caso se queira. Entretanto. ou mesmo fruto de contingências. Nota-se que tais semelhanças não ocorrem em aspectos superficiais ou de menor importância. Será fundamental. 23-24). demagógicas ou populistas. a reflexão apoiada em Hegel do primeiro parágrafo deste artigo convida o leitor a outro tipo de interpretação. Claro que. Que possível espírito empresta racionalidade a essa semelhança? Sem recorrência a uma força externa. ou pelo menos não se procurar entender suas razões. mas na busca de sua concreticidade objetiva detectada no próprio processo histórico. Nesse ínterim. Surpreende o analista. algo permaneceu: por mais diferentes que fossem as condições históricas em que Goulart e Geisel assumiram.

As semelhanças são marcantes. um no alvorecer e outro na etapa derradeira da substituição de importações. compõem o projeto de Nação-Potência do governo Geisel. 53). com efeito acelerador no conjunto da economia: a consequência é uma mudança estrutural. inicialmente adaptativas e posteriormente criativas. e os difere da maior parte dos países latino-americanos em suas respectivas épocas. A análise do processo histórico sugere que essa. aos cruciais papéis reservados ao Estado e ao capital estrangeiro. 73) argumentam que grandes blocos de investimentos.. A “irracionalidade” da opção pelo crescimento num quadro de escassez de divisas e de crise internacional sempre foi alvo de ataque da ortodoxia. projeto que Goulart explicitou de forma mais acabada. Nota-se que o plano lembra a Lessa. que aparece com ênfase em Goulart nas várias reformas de base. o qual tanto empolgara vários “intérpretes” do Brasil e intelectuais da elite civil e militar de vários países latino-americanos. em situações como essas. ambos os governos entenderam que a saída deveria ser uma mudança estrutural da economia. parecer irracionais. podem. o aprofundamento da industrialização. apresenta conotações ideológicas assemelhadas (LESSA. na década de 1930. Por isso Castro e Souza (1985. de outro. Essas diferenças registraram-se na memória histórica como as faces mais visíveis de ambos os governos – o “reformista” e o “autoritário” –. todavia não apagam as diferenças. Cássio Silva Moreira com epicentro na industrialização como forma de superar seu “atraso” (termo que mais tarde. Entretanto. Nos dois casos brasileiros. ou mesmo extravagantes”.] inadequados. ou seja. tal como a Moniz Bandeira na passagem já citada. mesmo sem a retórica nacionalista ou com acenos à redistribuição de renda de antes de 1964. o fortalecimento da grande empresa nacional restabelecendo o ‘equilíbrio’ da organização industrial. diante de uma crise internacional que expunha a fragilidade do país ao estrangulamento externo. portanto. em suas articulações recíprocas. mediante uma decisão política. “[. no que tange ao financiamento e. como são costumeiramente conhecidos e reconhecidos. e o aprofundamento das relações externas com as retificações necessárias para aumentar o ‘grau de independência da economia nacional com relação a fatores externos. inviabilizadas com a deposição de Goulart. à redistribuição de renda. na década de 1950. Este projeto guarda grande semelhança com o projeto nacional desenvolvimentista da década de cinquenta e. se impunha. a bancária e a fiscal (impostos progressivos). antevista pelo Plano Trienal. sua implementação desencadeia reações. possivelmente o segundo governo de Vargas. se consagraria como subdesenvolvimento). de um lado. sem deixar de transparecer certo ar de surpresa: A colocação das indústrias básicas como setor líder da industrialização. e. embora sem poder realizá-lo. O desenvolvimentismo. p. p. Mas se pode acrescentar que o governo Geisel lembra também a postura do governo Vargas mesmo antes. como a agrária. à primeira vista. e que esta só seria possível através da presença atuante do Estado. 1988. talvez por isso.. afigurava-se como traço embedded na formação histórico-social brasileira. acabaram retornando à ordem do dia – e daí sua racionalidade histórica. na década seguinte. mas entendê-las exige que se traga à liça também as seme- 22 .Pedro Cezar Dutra Fonseca. no quadro de uma política mundial interdependente. medidas propostas por ele. cuja preferência recaiu em se ajustar à crise por meio de medidas ortodoxas. no estruturalismo cepalino. Estas são mais visíveis. permanecia – na linguagem institucionalista. em parte. não ocorrendo da mesma forma no período do II PND. sobredimensionados. e. Não por acaso assim se manifesta Lessa.

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