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Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR, 9, 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS - ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________

MULHERES, POESIA E A INVENÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO Carla Ramos (TV Escola-MEC) 1

“Eu acho que qualquer escritor, qualquer poeta, o que vai na alma de um poeta é o respirar de um país. Não digo que as obras, na sua maioria seriam auto-biográficas, não! Mas a vivência do autor, o ambiente que o circunda, o seu dia a dia, tudo aquilo que é preocupação daquelas pessoas que não têm voz vai ser a voz do poeta, vai ser a voz do escritor.” Odete Semedo “Como eu disse, o meu país foi primeiro um lugar na literatura, para depois ser uma realidade na geopolítica. O meu país foi inventado por poetas como Alda Lara, com Antônio Jacinto, como Antônio Cardoso. O meu país existiu em forma de verso antes da proclamação da independência no dia 11 de novembro de 1975”. Ana Paula Tavares

Esse artigo teve uma origem pouco comum dentro do ambiente de pesquisa pautado por metodologias características das ciências sociais. Isso se deve muito ao fato de a minha inserção profissional ser, ela mesma, pouco comum entre os meus colegas de formação, sejam eles antropólogos, sociólogos ou cientistas políticos. Eu trabalho num programa de televisão, o Salto para o Futuro, da TV Escola, canal do Ministério da Educação. A minha atuação está ligada diretamente ao que diz respeito aos conteúdos que são veiculados em cada série de programas. No final de 2007, decidimos aproveitar um evento de literatura que acontecia na Faculdade de Letras da UFRJ para entrevistar três escritoras africanas. A nossa intenção foi reunir depoimentos para utilizá-los mais tarde. O problema é que não tínhamos um programa previsto, cujos temas já estivessem definidos. Isso nos levou a elaborar uma pauta com perguntas mais gerais, sem deixar de pontuar certos assuntos considerados relevantes para uma discussão sobre História da África, a partir de um recorte de gênero. Ressalto, no entanto, que a dinâmica da entrevista obedeceu aos critérios e urgências ditados por um fazer televisivo comprometido sobremaneira com a realização técnica do vídeo. Isso pode acarretar, muitas vezes, uma sobrevalorização de toda a composição da imagem com os seus detalhes de luz e som em detrimento da entrevista propriamente dita. Então, muito embora as perguntas fossem geradoras de respostas e reflexões mais demoradas, o “tempo” definido como o “tempo da televisão” foi um fator limitador no
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Mestre em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ). Analista Educacional do Programa Salto para o Futuro/TV Escola, canal do Ministério da Educação (MEC).

melhor. O bilinguismo significava o acesso. . quando verifica o campo de atuação das elites bilíngues. promotor de símbolos de identificação daquelas populações. foi a elite intelectual que assumiu os postos de comando nos novos Estados-nacionais. A entrevista com a escritora Conceição Lima foi igualmente inspiradora. que terminava por colocá-las em contato e em circulação com e por diferentes culturas. na cobertura de um hotel. aos modelos de nacionalismos. (…) Os líderes do nascente movimento nacionalista finlandês eram “pessoas cuja profissão consistia em larga medida no manuseio da língua: escritores. As entrevistas orientadoras desse texto foram realizadas nessas condições. em Copacabana. geografias e línguas. através da língua oficial europeia. é a presença de poetas assumindo o papel de destaque na liderança de movimentos em oposição à colonização. com Odete Semedo. Amílcar Cabral (engenheiro agrônomo) foi dos fundadores do Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC). tanto na Guiné-Bissau quanto em Angola. na Guiné-Bissau. a refletir e a agir na política do cotidiano. visando me deter mais especificamente em dois contextos sócio-históricos. em particular. foi o primeiro presidente da recém-emancipada Angola.116). 9. professores.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ transcorrer de cada depoimento. pastores e advogados (ANDERSON. Agostinho Neto. De um lado. de outro. 2008. Mas o grande fascínio aconteceu quando as ouvi contar sobre como a literatura esteve presenta na constituição dos Estados nacionais. em Angola e em São Tomé 2. educadas sob os auspícios da administração colonial. (…) Costuma-se concordar também que o papel de vanguarda dos intelectuais provinha da alfabetização bilíngue ou. Um fator de conexão emblemático entre as narrativas históricas das lutas pela descolonização. O lugar ocupado por esse grupo confirma a variante salientada por Anderson (2008). 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . Nesses contextos. Desde aquele encontro. de sua alfabetização e de seu bilinguismo. p. E como que no interior desse processo artesanal. estavam as mulheres a falar. 2 Optei por trabalhar neste artigo somente com as entrevistas de Ana Paula Tavares e Odete Semedo. eu já havia me impressionado com a força de suas percepções acerca da história recente dos seus respectivos países. Ana Paula Tavares e Conceição Lima.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. à cultura ocidental moderna no sentido mais amplo e.

os depoimentos das poetas revelam a articulação entre a condição nacional e a literatura. para incorporarem e serem incorporados a uma variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas (Anderson. ao modo como colocou Anderson. Tomando as variantes que este autor leva em consideração para definir o modo pelo qual a nação é imaginada como limitada. Este artigo segue as pistas deixadas por três argumentos. manancial de saber e de criatividade populares. 2008. partindo também da tese das “comunidades imaginadas”. provérbios. Da mesma maneira. p. . 2008. tanto na Guiné-Bissau quanto em Angola. 30). 5 (. ao condensar a centralidade da poesia na fundação da Angola póscolonial: “eu sou de um país que foi inventado primeiro na literatura e só depois na política”. constituiu um espaço discursivo fundamental para a “imaginação” da condição nacional 4. na esteira dos modelos 5 gestados a partir do século XVIII em diversas partes do mundo. inclusive. 30). acervo transmitido apenas pela voz e pela memória... 9. principalmente porque estamos olhando para dois Estados nacionais que. A literatura.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ condição nacional [nation-ness] e Estado nacional criados em outros lugares no decorrer do século XIX (Anderson. soberana e como uma comunidade.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. o que fomenta um senso de pertencimento comum e fortemente coletivo. fazem parte da “última onda de nacionalismos”. 3 (…) A literatura oral ou oratura. esses produtos se tornaram “modulares”. O segundo é a abordagem feita por Stuart Hall. muito além da Europa ocidental. constituído pelas histórias tradicionais. de filosofia e sabedoria (Augel. quando somada à força da oralidade 3. O autor considera que as identidades nacionais têm sido deslocadas pelos processos de globalização. p. adivinhas. em certa medida. O primeiro deles é a conhecida tese de Benedict Anderson acerca do conceito de nação como uma comunidade política imaginada. Isso é um fator pertinente em nossa discussão. A primeira frase da entrevista com Ana Paula Tavares tem uma força explicativa incrível. 2007.) No entanto. cantigas. 4 Vai ser constante a referência a Benedict Anderson e sua obra: Comunidades Imaginadas (2008). 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . como bem demonstrou Anderson. p.167). capazes de serem transplantados com diversos graus de autoconsciência para uma grande variedade de terrenos sociais. Odete Semedo lembra: “o que eu posso dizer sobre isso é que a política e a literatura nos primórdios da Guiné-Bissau andaram de braços dados”. depois de criados.

em seu artigo: “Histórias Conectadas: Uma Proposta Teórica e Metodológica a Partir da Índia”. desenvolvida na obra do historiador Sanjay Subrahmanyam. ainda havia um aspecto metodológico bastante inspirador: a oportunidade de observar os contextos conectados e não compará-los.) Samir Amin.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. (. 34). de um estar na América do Sul e o outro na África do Sul. Quem me chamou a atenção para essa perspectiva foi o antropólogo Fernando Rosa Ribeiro. como costumeiramente é feito. em loci diferentes desse campo (RIBEIRO. p. mas não menos importante. busca-se o itinerário das conexões entre as histórias. (. apesar de um autor ser lusófono. Tendo visto isso.. Nesse artigo. conecta-se à Angola num “campo discursivo comum” de formação nacional e das inquietações próprias da condição de gênero. claro. em seu prefácio no livro de Boubacar Barry (1984).ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ Por último. os dois se encontram num campo social e discursivo comum. no período chamado de pós-colonialismo. Dessa feita. de maneira resumida. Então. de um ter estudado nos Estados Unidos. Ainda sob o argumento da “África conectada”. é bom lembrar que a ideia de um continente “isolado” é um discurso marcadamente europeu ocidental. o outro nos Países Baixos. faço um esforço de compreensão da proposta teórica e metodológica de investigação baseada na noção de “histórias conectadas”. as bases teóricas e metodológicas de um trabalho. da comparação. forjado em acordo com a perspectiva subalternizante orientalista e – por que não dizer –. e outro de língua afrikaans. afirma que a imagem de uma África isolada e fechada em si mesma . em lugar de partir do pressuposto da diferença. ele apresenta.) (Gilberto Freyre e Geoffrey Cronjé) em ambos os casos os respectivos ideários e projetos tentaram construir a nação a partir de um campo comum e conectado de ideias e noções. ultrapassando uma historiografia desde os Estados-nacionais. Assim. cuja contribuição tem sido a de ampliar os horizontes da pesquisa buscando os fluxos de “ideias e práticas culturais”. 2008.. ainda que. para efeito deste artigo. racialista. conectando e perpassando diferentes dimensões do mundo social. 9. portanto. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS ... a Guiné-Bissau submerge inteiramente na Senegâmbia e.

10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . forjou alianças e abriu espaço de expressão para as muitas línguas e modos de ver o mundo dos Balanta. na Lei n. Agora. públicos e privados. tendo o continente africano como desafio para a compreensão. 11. Não obstante essa batalha de tanto tempo e que custou milhares de vidas. 2008. exige do pesquisador uma “vontade de pesquisa” em consonância com o recente debate sobre a questão racial no Brasil e as questões de identidade no mundo.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR.639 7. a instabilidade política da República da Guiné-Bissau condena o processo de consolidação nacional e torna latentes inúmeras tensões envolvendo disputas entre as sociedades que compõem o espectro do seu território. O comércio de longas distâncias colocava em contato povos que não se conheciam. p. 266). torna-se obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena. técnicas. lê-se: “nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio. sempre houve intercâmbios e transações comerciais. 7 A lei foi modificada para a introdução da questão indígena. Trabalhar na perspectiva das “histórias conectadas”. ou seja. assim como boa parte dos seus produtos. Fula. na realidade.” 6 . revelava um certo tipo de racismo 6. 10. A literatura foi uma das ferramentas que engendrou ligadura.645. mais tarde (século XV). temos a Lei n. 1 .Representações: Odete Semedo e Ana Paula Tavares A Guiné-Bissau declarou independência de Portugal em 1973. Continuar defendendo o isolamento da África era um dos meios encontrados para legitimar não somente a colonização com seus corolários. durante este vasto período. 9. ao mundo europeu ter acesso ao ouro dos impérios do Mali e de Gana. tecnológicas e culturais entre a chamada África Negra e o Mundo Antigo. O autor afirma ainda que o período pré-mercantil estende-se de suas origens até o século XVII e que. línguas. que tornou ainda mais pertinente a produção e a disponibilização de conteúdos programáticos em que estejam incluídas a história e a cultura afro-brasileira e o estudo da história da África e dos africanos.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ não possui bases científicas. mas também justificar a sua não contribuição na civilização universal. (ALAIN. do Saara até o Mar Vermelho via o Mediterrâneo. Foi este comércio milenar trans-saariano que possibilitou ao Mundo Antigo. depois de anos de luta contra o poder colonial. práticas culturais e ideias diferentes. ao mundo árabe e. ao Mediterrâneo. No Brasil. tratando-se de uma teoria defendida pelos europeus que.

São Tomé e Príncipe (1975). Moçambique (1975) e Cabo Verde (1975).) Apesar da pequena extensão do território. não respeitando propriamente os limites das fronteiras nacionais estabelecidas 8. Ana Paula Tavares nos disse que a literatura estabeleceu uma relação muito forte com a afirmação da identidade naquele momento. O resultado disso é uma literatura realizada muito em função da luta pela independência. por exemplo. denunciando os crimes cometidos no regime de dominação colonial. entre a União Soviética e os Estados Unidos. (SEMEDO) No mesmo compasso histórico. Angola (1975). eles deram a conhecer a situação política do país através dos seus versos. simultâneo. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . 9 Guiné-Bissau (1973). e os critérios variam bastante (AUGEL. mas os autores não são unânimes nessa quantificação. suas línguas. ali vivem dezenas de grupos e subgrupos étnicos muito heterogêneos. como eu costumo dizer. chamando a atenção para o impacto da luta colonial na produção literária local. tanto na esfera internacional. A literatura operou no duplo registro. Luigi Scantamburlo refere-se a 27 grupos étnicos. p. em grande parte muito diferentes umas das outras. 9. Muito surpreendente é ter em conta que a maior parte deles circula e se estende por toda a Senegâmbia. (…) todos estes autores que levaram a voz da terra. . tal qual um ponto de união e conclamação/comunhão à luta de todos pela independência e autoafirmação nacional.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. Pepel e Mancanha. a década de 1970 foi de grande efervescência política nas colônias portuguesas que se opunham duramente ao regime colonial. com suas culturas próprias.. para outros campos do universo. quanto no interior da própria GuinéBissau. subgrupos.. É necessário dizer que os embates crescentes foram demasiadamente alimentados por ocasião da Guerra Fria. Odete Semedo atesta a forte relação entre a política e a literatura. de conformação do Estado nacional angolano e de lutas 8 (. Angola esteve implicada nessa complexa trama política. Nessa conjuntura superficialmente repartida entre nações comunistas e nações capitalistas. e isso porque há grupos. 76). foi possível divulgar a difícil condição sociopolítica da região. 2007. Há certa controvérsia quando a tarefa é determinar quantos “grupos étnicos” vivem na Guiné-Bissau. Mandjaco. os movimentos sociais das ex-colônias portuguesas no continente africano estavam alinhados dentro dessa perspectiva ideológica 9.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ Mandinga. a partir da qual. através dos seus escritos.

com o poder colonial. 9. podemos constatar esse papel da mulher: . Mesmo assim. do cuidar da família. o direito coletivo em que a mulher não herda dos maridos. Nas esferas de decisão. Embora tenha esse status subalternizado por razões que perpassam os costumes e a tradição e encontram um terreno fértil para a reprodução das desigualdades nos interstícios do capitalismo tardio. o direito costumeiro. Há uma profunda coincidência ligando a produção literária à busca de certa identidade nacional apta a disputar. apesar de serem as mulheres pertencentes a um grupo pilar familiar. ela é empurrada para o segundo lugar. Quando o tema passa a ser a condição da mulher como partícipe nesse concerto histórico e político. em que as filhas não herdam dos pais. mais uma vez Anderson coloca pistas importantes acerca da influência da literatura e o seu papel na formação de um imaginário comunitário que desemboca no esboço da condição nacional. vamos contar um número ínfimo de mulheres. as mulheres da Guiné-Bissau e de Angola foram sujeitos basilares. no meu país. ao mesmo tempo em que ela é pilar. O cimentamento da condição nacional não deixa de expor a presença de questões tão globais quanto as desigualdades de gênero. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . e com as leis que nos mostram que uma cidadã e um cidadão têm os mesmos direitos. mesmo sendo da linhagem materna. Ou seja. fez parte do Conselho superior de luta. Um efeito direto desse estado de coisas é a precarização da vida das mulheres guineenses. aparecendo em diferentes frentes de atuação e combate pela independência dos territórios ocupados por Portugal. a maneira como ela percebe esse lugar dá indícios de como certas dimensões da vida social têm sido delineadas no Estado-nação guineense e angolano. eu costumo dizer que é uma situação lamentável porque apesar de sermos 52% da população. (SEMEDO). são os sobrinhos que herdam.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ pela libertação nacional. foi combatente. por exemplo. eu acho que as mulheres. portanto. através do seu trabalho no campo. é a mulher que toma conta da casa. a mulher vai encontrar outros aspectos que vão lhe dificultar a vida.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. lavadeira. Então. Durante a luta de libertação a mulher foi cozinheira. como a mulher também ao nível de educação. a mulher é que através das suas atividades geradoras de rendimentos. nas palavras de Odete Semedo: (…) Bom. a situação da mulher vai ser qualquer coisa como um contra verbo. um território independente e soberano. mas é a mulher que vai ser prejudicada. Partindo da reflexão de Ana Paula Tavares. ao nível das letras. ela também é posta de lado. como.

a região local dependia dessa força enorme. Simultaneamente a isso. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS .Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. Eram elas que cuidavam dos vivos e dos mortos. esta mulher está presente nas letras guineenses e no meu trabalho a mulher está presente. esteve na guerra. não foram silenciadas. está presente. quer não. Nessas circunstâncias. aconteceu a dimensão institucionalizada da língua impressa. como não podia deixar de ser. criação e fruição estética. a vida social está presente. como foi proposto nas investigações de Anderson (2008). não traz garantias de supressão da dissonância existente entre uma proposta de liberdade e comunhão. como apontou Odete Semedo. tais como o canto e a dança. sobretudo. Na verdade. campo fortemente controlado que. é um espaço largo de representação. são mulheres que não sabiam e não sabem escrever nem ler. a política. porque é ela que gera a vida da população. quer queiramos. 9. Portanto. faz parte do elenco de elementos relevantes na constituição da “condição nacional”. A ideia de nação pós-colonial. o espaço de fala da mulher (africana) ocorre. Nós vamos encontrar mulheres que não sabem ler nem escrever. muito pelo contrário 10. são elas que sustentaram um país que.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ Desde cedo eu me habituei a olhar a volta e notar que o país. mas que declamam nos seus encontros. Os homens estavam a fazer a guerra. são elas que fazem as comidas. (TAVARES) Mas o fato de terem à sua frente inúmeras barreiras que as impedem de chegar “às letras”. nas suas danças. no âmbito das tradições orais onde também se passam as ações espetaculares. normalmente ancorada a normas constitucionais desses novos Estados nacionais. dessa energia enorme das mulheres. portanto. com que o país se reproduzisse. eram as mulheres que faziam com que o país funcionasse. mas que criam cantigas da coletividade feminina que são maravilhosas. São elas que inventam a água. 10 . o que está atrelado a um conjunto de circunstâncias de reprodução de desigualdade de diferentes tipos. não à toa. durante tantos anos. tal como está em destaque. (SEMEDO). como vocês sabem. Stuart Hall defende o argumento de que muito mais do que um “ponto Boubacar Barry (2000) nos faz atentar para formas de “expressividades” que são imprescindíveis no contexto africano. A tradição oral guineense eu costumo dizer que é uma das matrizes da moderna poesia guineense e das canções guineenses.

e as perguntas que elaboramos para as entrevistas partem desse pressuposto. Foi em crioulo que nós nos comunicamos. como uma arma de revolução. (. Compreende-se que o “nacionalismo colonial” – nos casos em questão – caminhou no sentido da resistência levada a cabo pela manutenção do intercurso das diversas línguas faladas em Angola e na Guiné-Bissau. p.. 2006. 2006..ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ de lealdade. . (. a cultura nacional “é também uma estrutura de poder cultural” (HALL. p. 60). As autoras reivindicam. ou seja. ficar atenta. tiveram línguas oficiais europeias. como é de uma determinada região. em suas formas particulares de expressão/imaginação. 59-60). vamos nos unir para o grito de pedido de busca de liberdade (SEMEDO). guardam esse traço processual de domínio. 9. o espaço característico da sua identidade de gênero e. como é de uma infância. o líder político que liderou a luta de libertação nacional. assim classificado por Anderson (2008). foi apenas ouvir. o meu trabalho nem sequer foi muito grande. O nacionalismo guineense.) E a língua portuguesa funcionou como língua de opressão durante a era colonial e durante a luta de libertação colonial. mas há todo um patrimônio da tradição oral e mesmo fixado em português que foi importante para eu chegar ao conhecimento dos locais. das regiões. e aí. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS .Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. entre os camponeses que falavam as várias línguas guineenses é que nós vamos nos concentrar e. de imposição e negociação constantes em função da homogenização e de unificação nacional. do meu país em suma. Ainda com Hall: “as nações são sempre compostas de diferentes classes sociais e diferentes grupos étnicos e de gênero” (HALL. essas mesmas línguas silenciadas durante todo o processo colonial. As mesmas mulheres que estão distantes do acesso formal à língua oficial do colonizador mantêm em pleno movimento as línguas faladas nas sociedades que partilham aqueles territórios. foi em crioulo que os combatentes foram buscados. ou do segundo pós-guerra. (TAVARES). o crioulo. em escala global. ao mesmo tempo. Eu penso que toda a gente é de um lugar. ele usou a língua guineense... união e identificação simbólica”. ou o angolano. Grande parte dos Estados-nacionais pós-coloniais.) É curioso porque eu vou dizer mais uma vez: foi em português que eu falei dessas mesmas línguas. elas foram só aparentemente silenciadas. ao seu modo. dessa maneira. falam sobre a sua forma de estarem inseridas no local/nação e. porque elas estavam lá.

Zygmunt. 82). consequência da expansão do colonialismo europeu (AUGEL. a língua do dominador. Rio de Janeiro: Record. 84). as línguas nativas foram proibidas. Rio de Janeiro: DP&A. Boubacar. que é uma ponte de comunicação ligando sociedades multilíngües. p. Infelizmente. Senegâmbia: O desafio da história regional. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. inclusive o crioulo 11. Referências ANDERSON. A identidade cultura na pós-modernidade. Stuart.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ Durante o período da colonização. 2008. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. não há espaço neste artigo para uma discussão de maior fôlego. Mas longe de ser uma justificativa simpática e comum. Trad. Modernidade Líquida. Amsterdan/Brasil. 2007. e as estruturas são resultantes dos substratos das línguas africanas (AUGEL. 2002. e também com Ana Paula Tavares só fez aumentar o desejo de seguir pelos circuitos abertos por essas histórias conectadas. 20087. Moema Parente. Seus Olhos viam Deus. p. algo tão incidente no Brasil. Zora Neale. AUGEL. 2000. identidades e póscolonialismo na literatura da Guiné-Bissau. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . Rio de Janeiro: Garamond. Universidade Cândido Mendes. (…) Os linguistas definem o crioulo como um sistema linguístico em que o léxico é tomado na sua maioria de empréstimos da língua base. 9. HALL. A disputa política em torno da língua foi mais um aspecto importante na imaginação da condição nacional. São Paulo: Companhia das Letras. gostaria de marcar a minha posição em busca de aprendizagens que remetam ao continente africano e que possam contribuir para a complexificação das imagens “congeladas” e folclorizadas daquele continente. 2007.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. O Desafio do Escombro: nação. Ter conversado com Odete Semedo. HURSTON. 11 . Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. SEPHIS-Centro de Estudos Afro-Asiáticos. 2006. BARRY. 2001. BAUMAN. Benedict R.

RIBEIRO. Dividir para dominar: a partilha da África (1880-1914). Lorenzo. Das administrações francesas ao Senegal pós-colonial". Curitiba: Fundação Araucária. Editora Revan. "O Islã e os poderes políticos.). SCHERMANN. Histórias conecatadas e dinâmicas pós-coloniais. Alain Pascal . In: MACAGNO. 1998. 9.ISSN 2177-6350 _________________________________________________________________________________________________________ KALY. Fernando Rosa. 2008. 265-305.Universidade Estadual de Maringá – UEM Maringá-PR. p. WESSELING. (Orgs. L. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 10 e 11 de junho de 2010 – ANAIS . Patrícia. .