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SAMIZDAT

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julho 2013 ano VI
ficina

A

Poesia LatinoAmericana

SAMIZDAT 37
julho de 2013
Edição, Capa e Diagramação Henry Alfred Bugalho Editor de poesia Volmar Camargo Junior Autores Cristina Garcia Lopes Alves Tatiana Alves Joaquim Bispo Thomas Rodolfo Brenner Adriane Dias Bueno Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior Rafael F. Carvalho Rodrigo Domit Dayvson Fabiano Claudiomiro Machado Ferreira Cinthia Kriemler Edweine Loureiro Priscila Lopes Leandro Luiz Eduardo Macedo Felipe Garcia de Medeiros Lohan Lage Pignone Andréia Pires Silvana Ramos Vanessa Regina Setúbal Leonardo Siviotti Antonio Fernando Sodré Júnior Ricardo Thadeu Vander Vieira Textos de: Jorge Luis Borges Mário de Sá-Carneiro Leopoldo Lugones José Martí Pablo Neruda Octavio Paz Foto da Capa: Pablo Neruda

Editorial
Há meros seis anos escrevo poesia – gosto de acreditar que é o que faço. Toda minha produção pode ser acompanhada desde a primeira edição da SAMIZDAT. De tudo o que escrevia, tomava o cuidado de selecionar o que julgava mais adequado ao espírito, à vibe da SAM. Há alguns meses, o “patrão” Henry deu-me a incumbência de receber os poemas submetidos à revista. Nos últimos meses, recebemos ­ uma quantidade significativa de textos, bons, muito bons e, ufa, alguns de tirar o fôlego. No princípio, foi muito, muito difícil pensar nos critérios para fazer a triagem do que iria ou não ser publicado. Enfim, precisei submetê-los ao mesmo crivo que estabeleci para escolher os meus: o que queremos dizer aqui, o discurso dessa publicação. Isso não significa que aqui se encontra uma elite. Não somos o mainstream da poesia lusófona contemporânea. Somos independentes, irreverentes de certa forma. Nesta 37ª edição, encontramos uma amostra do melhor que recebemos. Um grande motivo de orgulho, mas também de preocupação: fico aflito quando os poemas começam a chegar, e preciso fazer cortes; mas, acreditem, é gratificante ver que existe uma assustadora leva de bons poetas em português, vivos, ativos, procurando espaço para suas melhores coisas. Aqui, uma edição de boa poesia independente, irreverente. Impactante. ­ Boa leitura. Volmar Camargo Junior

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112). As ideias expressas são de inteira ­ responsabilidade de seus autores. A revista adota a ortografia do Novo Acordo Ortográfico. A aceitação da revisão proposta depende da ­ vontade expressa dos colaboradores. ­

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Sumário
Por que Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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ENTREVISTA Mainak Dhar, o autor indiano que se tornou um dos mais vendidos da Amazon 10 RECOMENDAÇÕES DE LEITURA Há Sombras no Circo
Edweine Loureiro

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AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA Poemas de Mário de Sá-Carneiro

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CONTO Cândido ou O Otimismo – A resolução de voltar à América do Sul e o encontro com o astrónomo turco 22
Joaquim Bispo

No meio da corrida...
Rafael F. Carvalho Silvana Ramos

25 26 27 28 30 34 36

Navegação em Casquinho Céreo
Eduardo Macedo Setúbal

Kitsching A Entrevista
Lohan Lage Pignone Tatiana Alves

Balanço do Vento Barbárie
Rodrigo Domit

Segunda Voz
Andréia Pires

38 40 42 46

Polaroide da Alma
Dayvson Fabiano Cinthia Kriemler

O Rato Jane Doe
Adriane Dias Bueno

TRADUÇÃO Versos Simples
José Martí

50 52 53 54 55

Poema 6
Pablo Neruda Octavio Paz

O Pássaro Lua Maligna
Leopoldo Lugones Jorge Luis Borges

As Ruas TEORIA LITERÁRIA A Maldição da Língua Portuguesa
Henry Alfred Bugalho

56

ARTIGO O Download de Livros
Claudiomiro Machado Ferreira

60

CRÔNICA As Boas-Vindas
Antonio Fernando Sodré Júnior Leandro Luiz

64 66

Ao Vivo

POESIA o cheiro inconfundível da terra do porão
Volmar Camargo Junior Volmar Camargo Junior Priscila Lopes

68 69

As regras para conservar a saúde Projeções Resíduo
Vanessa Regina

70 71 72 74 75

A Rosa Glacial
Felipe Garcia de Medeiros

Dum poema escrito num apartamento qualquer
Vander Vieira

Londres
Cristina Garcia Lopes Alves

CONCURSO Ganhadores do I Concurso de Minicontos Autores S/A
Cinthia Kriemler Leonardo Siviotti Ricardo Thadeu Thomas Rodolfo Brenner

76 76 77 77 78

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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Participe da Revista SAMIZDAT 38
A Revista SAMIZDAT conta com a sua participação para manter o alto padrão das publicações. Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, g ­ êneros e textos. Por favor, aguarde o período de um mês após receber a resposta antes de enviar um outro texto. http://revistasamizdat.submishmash.com/ submit Não aceitamos mais textos enviados por e-mail. 4 - Os textos selecionados serão publicados na edição 38 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de outubro de 2013, no site www.revistasamizdat.com ou poderão aparecer no site, caso a edição em .PDF já esteja fechada. ­ 5 - Os textos serão publicados sob licença Creative Commons Atribuição-Uso ­ Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado. O envio de textos implica na aceitação por parte do autor destes termos. 6 - Os organizadores da SAMIZDAT se reservam o direito de não publicar a revista, caso o número de submissões não seja o suficiente para o fechamento da edição. 7 - O não cumprimento dos itens acima poderá implicar na desqualificação da obra enviada. Contamos com a sua participação! Atenciosamente, Henry Alfred Bugalho Editor

Instruções para envio de obras
1 - Cada escritor poderá inscrever, nos respectivos campos, somente 1 (um) texto literário para publicação, de qualquer gênero - conto, crônica, poesia, microconto - ou um (1) texto teórico, como artigo de teoria literária, resenha de livros, ou entrevista, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre. O autor também deve enviar uma breve biografia na primeira página do arquivo. 2 - O limite máximo para cada texto literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos enviados, da qualidade literária e da disponibilidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus autores. O texto não precisa ser inédito. 3 - Os textos devem ser enviados até o dia 30 de setembro de 2013 através do nosso gerenciador de submissões (link abaixo) em um arquivo anexo, em formato .DOC, .DOCX ou .TXT.

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” ­ Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

Inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. ­ Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma ­ de governo humanitária, igualitária, mas

logo se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa – que esti­ pulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo –, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas ideias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as p ­ assando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que ­ nada mais significa em russo do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural – e o mercado literário faz parte dela – também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ­ ter valor de mercado. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. ­ Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos – como TV ,

revistas, jornais – onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escrevem (quando há) surge em questão de minutos. ­ A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, od ­ iálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da ­ grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há

­ randes tiragens que subsg tituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum ­ movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ­ ou q ­ ualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores ­ interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da ­ escrita: ser lido por alguém. ­

SAMIZDAT é uma revista eletrônica ­ ratuita, escrita, editada e publicada pela g novíssima geração de autores lusófonos. ­ Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens e ­ scritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Entrevista

Mainak Dhar
o autor indiano independente que se tornou um dos mais vendidos da Amazon
Mainak Dhar trabalha num escritório durante o dia e é escritor pela noite. Seu primeiro trabalho “publicado” foi uma coleção grampeada de respostas de matemática e poemas que ele vendeu para seus colegas de sétima série, que ele torrou em sorvete e quadrinhos. Mainak foi um autor best-seller na Índia com títulos publicados por grandes casas editoriais, como Penguin e Random House, sendo que um de seus romances (Herogiri) foi adaptado para o cinema. No começo de 2011, ele começou a usar a Amazon para alcançar, com seus ebooks, leitores internacionais e se tornou um dos proeminentes autores independentes do mundo, com mais de 100 mil livros vendidos no primeiro ano. Mainak é um dos autores mais vendidos de Terror na Amazon e, em março de 2013, se tornou o número 1, temporariamente ultrapassando Stephen King neste posto. Escreveu treze livros, incluindo a série “Alice no País dos Mortos”. Saiba mais sobre ele e contate-o em mainakdhar.com

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1 - Conte-nos um pouco sobre sua carreira como escritor, Mainak. Como você começou e quais eram suas influências? Stephen King tenha talvez sido a mais importante influência para que eu desse os primeiros passos para tornar-me um escritor. É isto que faz com que o meu marco de ultrapassá-lo momentaneamente em março de 2013, tornando-me o número 1 dentre os escritores de terror na Amazon, tão especial. Escrevo desde que eu possa me lembrar, e ainda criança eu tinha uma porção de poemas que escrevi guardada na minha gaveta. Lembro-me de ter lido uma entrevista com Stephen King, na qual ele dizia algo como que “no momento que alguém paga um centavo por sua escrita, você é um escritor profissional”. Então, na sétima série, quando eu estava vivendo no Canadá, solucionei os exercícios de matemática do período seguinte e grampeei as respostas junto com meus poemas (imaginando, talvez corretamente, que ninguém pagaria somente por meus poemas), e as vendi para meus colegas. Ganhei 12,50 dólares, que rapidamente gastei em sorvete e quadrinhos. Naquele dia, voltei para casa e anunciei para minha mãe que eu tinha me tornado um escritor profissional. Infelizmente, não tenho mais aqueles poemas (nem as respostas de matemática) que iniciaram minha jornada como escritor. 2 - Você se tornou um dos autores mais vendidos da Amazon ao autopublicar o livro “Alice no País dos Mortos” (Alice in Deadland), um romance juvenil sobre uma caçadora de zumbis chamada Alice. Terror é um gênero popular na Índia, ou você tinha um público mais vasto em mente? Terror é ainda um gênero muito incipiente na Índia, e eu não comecei a escrever neste gênero tendo especificamente os leitores indianos em mente. Minha primeira incursão no gênero foi o romance

“Zumbistão” (Zombiestan). Sempre adorei ficção pós-apocalíptica, com clássicos como “A Dança da Morte” (The Stand) e “Lucifer’s Hammer” entre meus livros favoritos. Um dia, comecei a pensar que tipo de mundo pós-apocalíptico eu gostaria de criar e dar vida para personagens e enredos. Como o usual, eu estava fazendo um brainstorm de uma pessoa só, e a palavra Zumbistão pipocou em minha mente. Uma coisa levou à outra e, como se diz, o resto é História. Uma vez que Zumbistão começou a ter boas críticas e leitores na Amazon, decidi explorar o gênero ainda mais, e a ideia de uma versão distópica de Alice nasceu – e isto se tornou um dos pontos de virada de minha carreira. 3 - No mercado de livro atual, alguns experts comparam o caminho da autopublicação a uma “corrida do ouro”, quando autores estão tentando garantir seu quinhão antes que esta via se esgote. Como foi a experiência de autopublicar nos EUA? Você divulgou seu livro, ou o sucesso foi devido ao boca a boca? Você recomendaria a autopublicação para autores estrangeiros tentando inserir-se no mercado norte-americano? Autopublicação, especialmente com Amazon e ebooks, pode mudar o jogo em se tratando de alcançar os leitores. Meu único alerta para qualquer escritor é que não existe uma mina de ouro pronta. Os princípios básicos da publicação continuam os mesmos: escreva o melhor livro que puder, faça uma edição profissional, faça uma ótima capa e se apresente aos leitores. Muitos escritores pensam que isto é um atalho para o sucesso; mas não há tal atalho. Autopublicação é trabalho duro; muito mais duro que a publicação tradicional, pois, além de você ser o autor, você terá de ser o editor/empresário, gerente de marketing, etc. Certifique-se que você compreende tudo isto antes de pensar que é um atalho e mergulhar de cabeça. Eu havia sido amplamente publicado na Índia

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por grandes editoras como Random ­ House e Penguin antes de começar a veicular meu catálogo de livros para o alcance de leitores internacionais na Amazon. Meus resultados iniciais foram modestos – 118 ebooks vendidos no primeiro mês, mas quando o boca a boca entrou em ação, as coisas deslancharam e, em seis meses, eu estava vendendo mais de 5 mil ebooks ao mês. Logo, comecei a escrever livros e a pô-los diretamente na Amazon, como ocorreu com “Zumbistão” e, depois, com a série “Alice no País dos Mortos”. 4 - Como você interage com seus leitores? E, depois de tal sucesso, como você lida com a inevitável crítica? Há muita interação um a um. Recebo pelo menos uma centena de e-mails de leitores por mês. Como um escritor, isto é imensamente gratificante e eu trago para casa a verdadeira magia dos livros – conectar pessoas, às vezes milhares de milhas distantes, através de palavras e ideias. Eu também tenho um grupo muito ativo e maravilhoso no Facebook para o “Alice no País dos Mortos”, onde eu interajo com leitores todos os dias, compartilho ideias, recebo feedback e, na verdade, crio cooperativamente meu trabalho. Estes leitores se tornaram mais amigos do que somente leitores. 5 - Você escreve seus livros diretamente em inglês? Quem é o seu primeiro leitor, aquela pessoa na qual você confia e que sempre será sincera com você? Escrevo em inglês e minha maior fonte para conselhos imparciais e meu mais precioso retorno é minha esposa, Puja. 6 - Seu sucesso na Amazon despertou a atenção de agentes ou editores americanos? Você considera a possibilidade

de acomodar-se num contrato tradicional de publicação, ou preferiria a liberdade e os barrancos da autopublicação? E a pergunta de um milhão de dólares: você consegue viver somente da escrita, ou ainda mantém seu trabalho (por enquanto)? Eu fechei com uma grande agência (Pontas) para explorar os direitos internacionais e de tradução, e estou bastante aberto para ofertas de traduções para alcançar leitores de outros idiomas, mas, para ser honesto, a oferta de 70% de direitos autorais de autopublicação da Amazon e o tipo de vendas que tenho significam que o contrato de publicação tradicional teria de ser tremendamente atrativo para eu pensar sobre isto. Eu ainda mantenho meu trabalho – por

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que não fazê-lo, se você pode? Eu floresço na multitarefa (normalmente, leio pelo menos dois livros ao mesmo tempo, por exemplo) e a complexidade e adrenalina de equilibrar ao mesmo tempo tudo é o que me mantém estimulado. 7 - Voltando ao gênero apocalipse zombie: até onde percebo, histórias de zumbis não são apenas sobre matar, decapitar e mutilar os mortos-vivos. Normalmente, há uma mensagem mais profunda nelas. Qual é sua visão sobre isto? Penso que as pessoas hoje em dia estão bastante conscientes de como estamos ferrando com nosso mundo – poluição, superpopulação, ingerência econômica, e assim por diante. Como resultado, penso que as pessoas são fascinadas com o que poderia ocorrer se a sociedade, que consideramos como certa, colapsasse – daí o fascínio pela ficção distópica. Zumbis são uma manifestação disto, um inimigo aparentemente imbatível, determinado a pôr um fim à civilização humana como nós a conhecemos. Eu também uso os zumbis como uma metáfora para como nós mesmos somos a maior ameaça para nosso mundo. Em “Alice no País dos Mortos” e em “Zumbistão”, os zumbis (ou mordedores, como eu os chamo) são o resultado direto do que as pessoas fazem em suas buscas pelo poder. 8 - Quais são seus conselhos para um escritor iniciante? O que você aprendeu sobre o ofício e também sobre o negócio editorial? ­ Escrever um livro não requer criatividade somente, mas a disciplina para ver através dela. Então, se você deseja escrever, esteja pronto para comprometer-se com esta disciplina e trabalhar duro. Também você precisa ter uma casca dura e persistência para prosseguir, porque inevitavelmente enfrentará rejeição e obstáculos.

Não quero dissuadi-lo, mas siga com os olhos bem abertos. Construir uma carreira literária não se trata de ter uma ideia legal e sonhar em escrever um livro. Converter isto para realidade é trabalho duro, e você precisa fazer um esforço consciente para tornar a escrita uma parte importante de sua vida e de sua rotina. 9 - Você está trabalhando em traduções de seus livros? Podemos esperar uma tradução para português em breve? “Alice no País dos Mortos” foi traduzido para turco, outro romance (Line of Control) foi traduzido para francês e meus livros sobre negócios foram traduzidos para japonês e vietnamita. Tenho uma maravilhosa agência europeia (Pontas) me representando para trazer meu trabalho para leitores em outras línguas, então não tenho dúvida que atingirei leitores de outros idiomas. Sobre português, tudo dependerá dos editores locais interessados em meu trabalho. Muito obrigado por seu tempo, ­ ainak, e estaremos sempre torcendo M por seus sucessos.

Entrevista e tradução por: Henry Alfred Bugalho

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Recomendação de Leitura

HÁ SOMBRAS NO CIRCO
Edweine Loureiro
http://www.flickr.com/photos/dhammza/466145690/

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Se existe o Teatro Absurdo, por que também não falarmos de uma “Literatura Absurda”? Ou seja, um tipo de texto que expõe o ridículo das situações cotidianas, sem perder a ternura por estes seres tão complexos e fascinantes que constituem a Humanidade. E se existisse tal vertente literária, com certeza teríamos que nela incluir o escritor português F. Seriot Barbosa – ou simplesmente Sério Barbosa. Num estilo que em muito nos lembra as literaturas de Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes, Sério Barbosa, vencedor do Prêmio Eça de Queirós em 1992, apresenta-nos em seu livro de contos, intitulado “Há sombras no circo” justamente o que o título nos sugere: esse palhaço triste que, no fundo, todos nós representamos, e que pode proporcionar com a mesma maestria espetáculos burlescos e tragédias dilacerantes. E a primeira parte do livro é justamente a do circo. E num desfile de tipos hilários que representam as mais diversas facetas do povo e do governo português. Assim temos, por exemplo, o ministro que sempre responde uma pergunta formulando outra (em “A Entrevista”); um proprietário orgulhoso de sua casa, um modelo de arquitetura arrojada (em “A Casa sem Paredes”); e um

­ ate-boca entre duas Amélias, b uma peixeira e outra verdureira, com notas em rodapé para não ofender as “senhoras bem-nascidas” (em “A Rua da Virtude”). Além de outros personagens inesquecíveis, como o Doutor Kapa Kapa, de “Psiquiatras”, e o Aniceto (no conto de título homônimo). Todos eles nos são apresentados por Sério Barbosa, mas de uma forma que só os grandes autores sabem fazer: ou seja, rindo com, e não de suas personagens. E, então, quando pensamos que estamos diante de um livro na mais bela tradição satírica, o autor faz as sombras desfilarem na segunda parte do livro. E aqui, particularmente, três textos chamaram-me a atenção, tanto por sua força dramática quanto pelo final arrebatador. São eles: “A Partida”, um texto curto que fala da ida de um filho para a guerra; “O Forasteiro”, uma reflexão sobre a desilusão; e o magistral “A Oração”, nada menos que milagroso. Os risos e suas sombras. D ­ elas compõe-se a vida… e um grande livro de contos. ­ Sério que sim!

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Autor em Língua Portuguesa

Poemas de

Mário de Sá-Carneiro

Álcool
Guilhotinas, pelouros e castelos Resvalam longemente em procissão; Volteiam-me crepúsculos amarelos, Mordidos, doentios de roxidão. Batem asas de auréola aos meus ouvidos, Grifam-me sons de cor e de perfumes, Ferem-me os olhos turbilhões de gumes, Desce-me a alma, sangram-me os sentidos. Respiro-me no ar que ao longe vem, Da luz que me ilumina participo; Quero reunir-me, e todo me dissipo – Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar... Tudo oscila e se abate como espuma... Um disco de oiro surge a voltear... Fecho os meus olhos com pavor da bruma... Que droga foi a que me inoculei? Ópio de inferno em vez de paraíso?... Que sortilégio a mim próprio lancei? Como é que em dor genial eu me eternizo? Nem ópio nem morfina. O que me ardeu, Foi álcool mais raro e penetrante: É só de mim que ando delirante – Manhã tão forte que me anoiteceu. Paris – maio de 1913

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Fim
Quando eu morrer batam em latas, Rompam aos saltos e aos pinotes Façam estalar no ar chicotes Chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro Ajaezado à andaluza A um morto nada se recusa E eu quero por força ir de burro!

Quase
Um pouco mais de sol – eu era brasa, Um pouco mais de azul – eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído Num baixo mar enganador de espuma; E o grande sonho despertado em bruma, O grande sonho – ó dor! – quase vivido... Quase o amor, quase o triunfo e a chama, Quase o princípio e o fim – quase a expansão... Mas na minh ’alma tudo se derrama... Entanto nada foi só ilusão! De tudo houve um começo... e tudo errou... – Ai a dor de ser – quase, dor sem fim... Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que, desbaratei... Templos aonde nunca pus um altar... Rios que perdi sem os levar ao mar... Ânsias que foram mas que não fixei... Se me vagueio, encontro só indícios... Ogivas para o sol – vejo-as cerradas; E mãos de herói, sem fé, acobardadas, Puseram grades sobre os precipícios... Num ímpeto difuso de quebranto, Tudo encetei e nada possuí... Hoje, de mim, só resta o desencanto Das coisas que beijei mas não vivi... ............................................... .............................................. Um pouco mais de sol – e fora brasa, Um pouco mais de azul – e fora além. Para atingir faltou-me um golpe de asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Paris – maio de 1913

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http://www.flickr.com/photos/eleart/3620251548/

MANUCURE Na sensação de estar polindo as minhas unhas, Súbita sensação inexplicável de ternura, Todo me incluo em mim – piedosamente. Entanto eis-me sozinho no café: De manhã, como sempre, em bocejos amarelos. De volta, as mesas apenas – ingratas E duras, esquinadas na sua desgraciosidade Boçal, quadrangular e livre-pensadora… Fora: dia de maio em luz E sol – dia brutal, provinciano e democrático Que os meus olhos delicados, refinados, esguios e citadinos Não podem tolerar – e apenas forçados Suportam em náuseas. Toda a minha sensibilidade Se ofende com este dia que há de ter cantores Entre os amigos com quem ando às vezes – Trigueiros, naturais, de bigodes fartos – Que escrevem, mas têm partido político E assistem a congressos republicanos, Vão às mulheres, gostam de vinho tinto, De peros ou de sardinhas fritas… E eu sempre na sensação de polir as minhas unhas E de as pintar com um verniz parisiense, Vou-me mais e mais enternecendo Até chorar por mim… Mil cores no ar, mil vibrações latejantes, Brumosos planos desviados Abatendo flechas, listas volúveis, discos flexíveis, Chegam tenuemente a perfilar-me Toda a ternura que eu pudera ter vivido, Toda a grandeza que eu pudera ter sentido, Todos os cenários que entretanto fui… Eis como, pouco a pouco, se me foca A obsessão débil dum sorriso Que espelhos vagos refletiram… Leve inflexão a sinusar… Fino arrepio cristalizado… Inatingível deslocamento… Veloz faúlha atmosférica… E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço

Por inúmeras interseções de planos Múltiplos, livres, resvalantes. É lá, no grande espelho de fantasmas Que ondula e se entregolfa todo o meu ­ passado, Se desmorona o meu presente, E o meu futuro é já poeira… Deponho então as minhas limas, As minhas tesouras, os meus godés de verniz, Os polidores da minha sensação – E solto meus olhos a enlouquecerem de ar! Oh! poder exaurir tudo quanto nele se incrusta, Varar a sua beleza – sem suporte, enfim! – Cantar o que ele revolve, e amolda, impregna, Alastra e expande em vibrações: Subtilizado, sucessivo – perpétuo ao infinito!… Que calotes suspensas entre ogivas de ruínas, Que triângulos sólidos pelas naves partidos! Que hélices atrás dum voo vertical! Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténis! – Que loiras oscilações se ri a boca da jogadora… Que grinaldas vermelhas, que leques, se a dançarina russa, Meia nua, agita as mãos pintadas da Salomé Num grande palco a ouro! – Que rendas outros bailados! Ah! mas que inflexões de precipício, estridentes, cegantes, Que vértices brutais a divergir, a ranger, Se facas de apache se entrecruzam Altas madrugadas frias… E pelas estações e cais de embarque, Os grandes caixotes acumulados, As malas, os fardos – pêle-mêle… Tudo inserto em ar, Afeiçoado por ele, separado por ele Em múltiplos interstícios Por onde eu sinto a minh ’alma a divagar!… – Ó beleza futurista das mercadorias!

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– Sarapilheira dos fardos, Como eu quisera togar-me de ti! – Madeira dos caixotes, Como eu ansiara cravar os dentes em ti! E os pregos, as cordas, os aros… – Mas, acima de tudo, como bailam faiscantes A meus olhos audazes de beleza, As inscrições de todos esses fardos – Negras, vermelhas, azuis ou verdes – Gritos de atual e Comércio & Indústria Em trânsito cosmopolita: FRÁGIL! FRÁGIL! 843 – AG LISBON 492 – WR MADRID Ávido, em sucessão da nova beleza atmosférica, O meu olhar coleia sempre em frenesis de absorvêla À minha volta. E a que mágicas, em verdade, tudo baldeado Pelo grande fluido insidioso, Se volve, de grotesco – célere, Imponderável, esbelto, leviano… – Olha as mesas… Eia! Eia! Lá vão todas no ar às cabriolas, Em séries instantâneas de quadrados Ali – mas já, mais longe, em losangos desviados… E entregolfam-se as filas indestrinçavelmente, E misturam-se às mesas as insinuações berrantes Das bancadas de veludo vermelho Que, ladeando-o, correm todo o café… E, mais alto, em planos oblíquos,

Simbolismos aéreos de heráldicas ténues Deslumbram os xadrezes dos fundos de palhinha Das cadeiras que, estremunhadas em seu sono horizontal, ­ Vá lá, se erguem também na sarabanda… Meus olhos ungidos de Novo, Sim! – meus olhos futuristas, meus olhos cubistas, meus olhos intersecionistas, Não param de fremir, de sorver e faiscar Toda a beleza espectral, transferida, sucedânea, Toda essa Beleza-sem-Suporte, Desconjuntada, emersa, variável sempre E livre – em mutações contínuas, Em insondáveis divergências… – Quanto à minha chávena banal de porcelana? Ah, essa esgota-se em curvas gregas de ânfora, Ascende num vértice de espiras Que o seu rebordo frisado a ouro emite… É no ar que ondeia tudo! É lá que tudo existe!… … Dos longos vidros polidos que deitam sobre a rua, Agora, chegam teorias de vértices hialinos A latejar cristalizações nevoadas e difusas. Como um raio de sol atravessa a vitrine maior, Bailam no espaço a tingi-lo em fantasias, Laços, grifos, setas, azes – na poeira multicolor –. Poemas Dispersos, Lisboa – Maio de 1915. [Publicado no número 2 da revista Orpheu – 1915]

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6 – (Sete Canções de Declínio)
Um frenesi hialino arrepiou P'ra sempre a minha carne e a minha vida. Foi um barco de vela que parou Em súbita baía adormecida... Baía embandeirada de miragem, Dormente de ópio, de cristal e anil. Na ideia de um país de gaze e abril, Em duvidosa e tremulante imagem... Parou ali a barca – e, ou fosse encanto, Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento, Não mais aparelhou... – ou fosse o vento Propício que faltasse: ágil e santo... ...Frente ao porto esboçara-se a cidade, Descendo enlanguescida e preciosa: As cúpulas de sombra cor-de-rosa As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando, Praças de honra libertas sobre o mar... Jardins onde as flores fossem luar; Lagos – carícias de âmbar flutuando... Os palácios a rendas e escumalha, De filigrana e cinza as catedrais – Sobre a cidade a luz – esquiva poalha Tingindo-se através longos vitrais... Vitrais de sonho a debruá-la em volta, A isolá-la em lenda marchetada: Uma Veneza de capricho – solta, Instável, dúbia, pressentida, alada... Exílio branco – a sua atmosfera, Murmúrio de aplausos – seu brou-há-há... E na praça mais larga, em frágil cera, Eu – a estátua "que nunca tombará..." Paris – julho e agosto de 1915

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Mário de Sá-Carneiro (1890 – 1916)
Escritor português, natural de Lisboa. A mãe morreu quando Sá-Carneiro tinha apenas dois anos e, em 1894, o pai iniciou uma vida de viagens, deixando o filho com os avós e uma ama na Quinta da Vitória, em Camarate. Em 1900, entrou no liceu do Carmo, começando, então, a escrever poesia. Entretanto, o pai, de regresso dos Estados Unidos, levou-o a visitar Paris, a Suíça e a Itália. Em 1905 redigiu e imprimiu O Chinó, jornal satírico da vida escolar, que o pai o impediu de continuar, por considerar a publicação demasiado satírica. Em 1907 participou, como ator, numa récita a favor das vítimas do incêndio da Madalena, e no ano seguinte colaborou, com pequenos contos, na revista Azulejos. Transferido, em 1909, para o Liceu Camões, escreveu, em colaboração com Thomaz Cabreira Júnior (que viria a suicidar-se no ano seguinte), a peça Amizade. Impressionado com a morte do amigo, dedicou-lhe o poema A Um Suicida, 1911. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Iniciou, entretanto, a sua amizade com Fernando Pessoa e seguiu para Paris, com o objetivo de estudar Direito na Sorbonne. Na capital francesa dedicou-se sobretudo à vida de boémia dos cafés e salas de espetáculo, onde conviveu com Santa-Rita Pintor e escreveu, de parceria com António Ponce de Leão, em 1913, a peça Alma. Em 1914, publicou A Confissão de Lúcio (novela) e Dispersão (poesia). No ano seguinte, durante uma passagem por Lisboa, começou, conjuntamente com os seus amigos, em especial Fernando Pessoa, a projetar a revista literária que se viria a publicar com o nome de Orpheu. Nesse mesmo ano, o pai partiu para a então cidade de Lourenço Marques e Sá-Carneiro voltou para Paris, regressando novamente a Portugal, com passagem por Barcelona, após a declaração da guerra. Depois de algum tempo passado na Quinta da Vitória, voltou a Lisboa, onde conviveu com outros literatos nos cafés, alguns dos quais membros do grupo ligado à revista Orpheu, cujo primeiro número, saído em Abril de 1915 e imediatamente esgotado, provocou enorme escândalo no meio cultural português. No final do mesmo mês, publicou Céu em Fogo. Em Julho desse ano saiu o Orpheu 2 e, pouco depois, Sá-Carneiro regressou a Paris, de onde escreveu a Fernando Pessoa comunicando a decisão do pai de não subsidiar o número 3 da revista. Agravaram-se, por esta altura, as crises sentimentais e financeiras do poeta (já por várias vezes tinha escrito a Fernando Pessoa comunicando o seu suicídio). Sá-Carneiro suicidou-se, com vários frascos de estricnina, a 26 de Abril de 1916, num hotel de Paris, suicídio esse descrito por José Araújo, que Mário Sá-Carneiro chamara para testemunhar a sua morte. Deixou a Fernando Pessoa a indicação de publicar a obra que dele houvesse, onde, quando e como melhor lhe parecesse. Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico. Aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paúlismo, do sensacionismo e do intersecionismo, apresentadas por Fernando Pessoa. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia autosarcástica, expressa em poemas como Serradura, Aqueloutro ou Fim, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado, como em Caranguejola. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava (veja-se o poema Quase), que o levou a uma tentativa de dissolução do ser, consumada na morte. (http://www.astormentas.com/PT/biografia/ M%C3%A1rio%20de%20S%C3%A1-Carneiro) Obras principais: Amizade, 1912; Princípio (novelas), 1912; A Confissão de Lúcio (romance), 1914; Dispersão (poemas), 1914; Céu em Fogo (novelas), 1915; Indícios de Oiro (póstuma), 1937. As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes, em 1958 e 1959. As suas influências literárias são de Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Fiódor Dostoievski, Cesário Verde e António Nobre. Por seu turno influenciou vários ­ outros escritores, entre eles Eugénio de Andrade.

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Conto

Cândido ou O Otimismo
Joaquim Bispo
Candide, ou l’Optimisme é uma novela filosófica em tom de sátira publicada pela primeira vez em 1759 por Voltaire, filósofo do Iluminismo. A narrativa já foi traduzida em centenas de línguas e, em Português, o seu título é: Cândido ou O Otimismo, ou simplesmente Cândido. Foi realizada, ao que parece, em três dias, em 1758, ainda sob a impressão do terramoto de Lisboa, com assinatura de um pseudónimo, “Monsieur le docteur Ralph”, literalmente, “Senhor Doutor Ralph”. Narra a história de um jovem, Cândido, vivendo num paraíso edénico e recebendo ensinamentos do otimismo de Leibniz, através de seu mentor, Pangloss. A obra retrata a abrupta interrupção deste estilo de vida quando Cândido se desilude ao testemunhar e experimentar eminentes dificuldades no mundo. Voltaire conclui a obra-prima com Cândido, se não rejeitando o otimismo, ao menos substituindo o mantra leibniziano de Pangloss, “tudo vai pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis”, por um preceito enigmático: “devemos cultivar nosso jardim.” Cândido é caracterizada pelo tom sarcástico, bem como pelo enredo errático, fantástico e veloz. Este texto picaresco com uma história semelhante à de um romance de formação mais sério, parodia diversos clichés do romance e da aventura, cujas lutas são caricaturadas em um tom que é, mordazmente, matéria de facto. Ainda assim, os eventos discutidos no livro são muitas vezes baseados em acontecimentos históricos, como a Guerra dos Sete Anos e o já citado terramoto de Lisboa de 1755. O problema do Mal, tema comum aos filósofos da época, é exposto também nesta história, de forma mais direta e irónica: o autor ridiculariza a religião, os 22 SAMIZDAT julho de 2013

teólogos, os governos, o exército, as filosofias e os filósofos por meio de alegorias; de maneira mais conspícua, chega a roubar Leibniz e seu otimismo. Conforme esperado por Voltaire, Cândido desfrutou de grande sucesso e causou grande escândalo. Imediatamente após a sua publicação secreta, o livro foi amplamente proibido por conter blasfémia religiosa, sedição política e hostilidade intelectual escondidas sob um fino véu de ingenuidade. Graças a sua inteligência afiada e a seu retrato profundo da condição humana, influenciou diversos autores, nomeadamente o 1984 (1948) de Orwell, o Admirável Mundo Novo (1932)

de Huxley e a reflexão sobre pessimismo e otimismo em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891) de Machado de Assis. Nos dias de hoje, Cândido é reconhecido como a magnum opus de Voltaire, e considerada parte do Cânone Ocidental; é possível, segundo alguns, que tenha transmitido mais ensinamentos substanciais do que qualquer outra obra da literatura francesa. Personagens: Cândido, o protagonista

Cunegundes, esposa de Cândido Dr. Pangloss, mestre de Cândido Cacambo, criado de Cândido Martinho, companheiro de viagem de Cândido Paquette, criada da família de Cunegundes O Barão, irmão de Cunegundes A Velha, criada de Cunegundes Jacques o Anabatista, benfeitor de Cândido Frei Giroflée, frade a quem Paquette servia (Wikipédia)

XXXI - A resolução de voltar à América do Sul e o encontro com o astrónomo turco
[A deambulação sofrida e desencantada das personagens da obra “Cândido” de Voltaire por várias partes do mundo termina com o capítulo XXX em Constantinopla, onde o grupo se resigna a viver da agricultura sob o lema: Devemos cultivar nosso jardim. Trabalhemos sem filosofar – é a única maneira de tornar a vida suportável. Neste pastiche-sequela introduzi um matemático, como forma de homenagear o amigo escritor e matemático Alian, de Curitiba, a quem o texto foi oferecido no natal de 2008.] Embora tivessem acreditado, durante algum tempo, que a vida e o trabalho na quinta os libertava de três calamidades – o aborrecimento, o vício e a necessidade –, o certo é que Cândido, Pangloss, Alian, Cunegundes e os outros não aguentaram muito tempo aquela vida demasiado rural e preferiram arriscar sujeitar-se às sevícias da necessidade, a fim de voltarem a saborear os estímulos do vício urbano e, sobretudo, livrarem-se da assoberbante prevalência do aborrecimento. Venderam a quinta a um felá que tinha um negócio de hortaliça porta-a-porta, dirigiramse ao porto de Constantinopla e compraram passagens no cargueiro Payflower que se dirigia à colónia portuguesa do Sacramento,

Joaquim Bispo

no estuário do Rio da Prata. Tencionavam, a partir desse destino, viajar para norte e, quiçá, voltar a encontrar o Eldorado, de grata memória, ou mesmo Curitiba, que as lendas diziam ser ainda mais fabulosa. A viagem foi longa e Pangloss entretinhase a perorar sobre os efeitos e as causas no melhor dos mundos possíveis. Dizia que Deus escrevia direito por linhas tortas, pois, se quisesse que eles se transformassem em amáveis agricultores, não lhes tinha inculcado enfado na alma e calos nas mãos. Cândido aprovava e apalpava o interior das ditas. Alian dizia que Deus era uma criação humana e que portanto era efeito e não causa. E que o livre arbítrio existia, não por maquinação sub-reptícia de um deus mal assumido, mas pela ausência desse mesmo Deus, fosse bondoso, como o mito cristão gosta de o pintar, ou cruel e vingativo como o do Velho Testamento. Cunegundes, enjoada com os balanços do navio, passava a maior parte do tempo dentro duma nebulosa etílica. A bordo seguia também um matemático e astrónomo turco que raras vezes se via, porque passava as noites no convés a admirar as estrelas. Certa vez, envolveu-se numa troca de opiniões com Alian e Pangloss.

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– A grande demanda da minha vida – dizia ele – é conseguir realizar a quadratura do círculo. Estou convencido que em breve a alcançarei. – Ah, caro amigo – retrucava Alian – temo desiludi-lo, mas tal é impossível. É que Π (Pi) é um número transcendental e como tal não pode ser construído um segmento de reta equivalente, usando somente régua e compasso. Esta resposta, avançada para o seu tempo, levou a uma longa discussão que seria ocioso transcrever, mas que, duas horas depois, evoluiu para: – Também hei de provar que Fermat não tinha razão – arrazoava o turco. – A ­ grande

demanda da minha vida é encontrar um expoente diferente de 2 que sirva a equação apresentada por ele. Pangloss, adiantava-se: – A harmonia pré-estabelecida não pode ser alterada, sem que o mal apareça. Tudo está bem como está. E outros cumes de elegante argumentação. Por fim, aportaram à colónia do Sacramento, às primeiras horas de 26 de Dezembro, onde se viviam dias de grande inquietação, pela iminência de mais uma invasão por tropas espanholas.

Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007 . Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico e colabora na revista Samizdat desde o número 7 . Contacto: episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

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Conto

dar ­ rasteiras no coelho, pregar peças nele e vaiá-lo. De tanto fazerem, o coelho parou para ­ No meio da corrida, a tarpensar por que todos estavam taruga, em seu passo lento e constante, recebia aplausos dos contra ele. Arrependeu-se de outros animais, que não aguen- toda a sua arrogância e quis estavam mais as fanfarronices do perar pela tartaruga, para juntos chegarem à linha de chegacoelho. Quiseram até ajudá-la, empurrando ou até carregando- da. Mas ele acabou dormindo, e como todos nós conhecemos, a a inteira. A tartaruga, calma tartaruga ultrapassou-o e vendo jeito que era e que sempre ceu a corrida. Ninguém quis foi, recusou toda a ajuda diouvi-lo nem deixar que ele chezendo que, se saísse do passo gasse perto da vencedora para em que estava, ela se cansaria dizer o que sentia. e não chegaria nunca ao final da corrida. Alguns tentaram Rafael F. Carvalho
Rafael F. Carvalho

Autor do livro A Estante Deslocada, é paulistano, nascido em 27 de Fevereiro de 1978. Foi publicado em antologias de novos escritores e em jornais universitários, e é formado em Letras pela Universidade de São Paulo. - See more at: http://www.revistasamizdat.com/p/quem-faz-samizdat.html#sthash.2EZW5I4F.dpuf

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Conto

NAVEGAÇÃO EM CASQUINHO
Silvana Ramos

Silvana Ramos

Nasceu na Amazônia. Nasceu com a faculdade de escrutar comportamento humano.

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Dada vez, trafeguei malmente, alojando-me de modo instável num casquinho que temivelmente se agitava. Num afã de espairecer no que tal condição importava, eu falava vividamente ao ribeirinho que remava. Do que me lembro

dessa ­ conversa que ia tendo meramente para não afundar no calado vazio, é que, enquanto o casquinho corria por cima duns córregos barrentos e sombrios, esse ribeirinho remando esse casquinho me asseverava que a vida é um rio.

Conto

nasceu em Fortaleza, em 12 de maio de 1978. É poeta, xilógrafo e compositor. Artista autodidata, lançou seu primeiro folheto de Cordel em 2009, intitulado de “A intriga do gato com o cachorro por um palito de fósforo”, cuja xilogravura da capa foi entalhada por ele mesmo. Foi contemplado pelo Ministério da Cultura, através do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel 2010 – Edição Patativa do Assaré, com a publicação do livro “O Boi Morre-Não-Morre e os primeiros folhetos”. Como xilógrafo, teve a gravura o “Jangadeiro Voador”, feita para a capa do folheto homônimo, utilizada no filme “Não se preocupe, nada vai dar certo”, de Hugo Carvana. Outro título, a “Gangorra do Afonsin”, foi utilizado pela Editora Pearson na publicação de títulos. www.eduardomacedo.com.br

Eduardo Macedo

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Vinha andando só, da bodega para casa. Tinha matado o bicho, estava valente feito o diabo. A noite era escura. As réstias da lua nova pouco e ruim aclaravam o caminho. Cambaleando, por efeito da meiota barata, deixou a rodagem e se embrenhou numa veredinha estreita. Aquela curva lhe deixara mais brabo ainda. Resmungou cuspindo. Súbito, surge alguém em sua frente,

braços abertos, ao alto, impedindo a passagem. Êh, cão! Foi a conta; “dois bicudos não se beijam”. Com a mão bamba, arrancou a faca do cós e agarrou-se com o sujeito para lhe esfaquear as costas. Mas fora furado primeiro. Uma, duas, três, dez vezes! Peito, abdômen, coxa, braços... Pra lá de cem facadas de Cereus jamacaru.

Céreo

Eduardo Macedo

Conto

Kitsching
Nem lembro como começou, sabe, acho que foi na escola, a professora mandando fazer versinho, coração rima com paixão, amor com dor, carinho e beijinho, e vai lá, tomei gosto, fiz comunhão, crisma, entrei em grupo de jovens, lá descobri a música, descobri Cirlene, descobri a paixão, ela não queria nada comigo, eu era feio, um bicho envergonhado, e amor não-correspondido é carro desgovernado descendo ladeira, levando tudo o que encontra no caminho, não é?, vai muro, parede, mãe e dois filhos dormindo, cachorro
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Setúbal

O destino da humanidade é morrer amando, trepando e mandando rosa vermelha pra destravar paixão ou curar briga, minha filha, o que eu faço não tem prazo de validade, não, graças a Deus que amar é feito gripe, dá mais que uma vez, deixa o nariz escorrendo, é sempre choro quando ele acaba.

latindo, sofá velho. ­ Bom, daí em diante foi sempre paixão que não acontece em minha vida, amor platônico, dá pra dizer que sou PhD nisso, sabe, no meu caso as letras deviam ser tudo maiúscula, PHD, porque meu conhecimento no assunto ganha fermento todo dia, cresce cada vez mais. Sempre o sujeito imaginando o beijo que não acaba, a mãozinha que sonha em ganhar vida no cinema, homenagear primeiro com punheta, depois com carro de som e outdoor, essas coisas que o povo fala que é vergonhoso, mas se pega fazendo quando a alma gêmea verdadeira, a univitelina, surge faiscando no metrô, na internet, corridinha pela praia, ou trazida pelos amigos em comum, não é? De rima em rima fui musicando os sentimentos, primeiro a Edislaine, nessa época eu já animava festinha da turma

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na escola, ela troçava da minha paixão e agarrava o Tonhão na minha frente, o olho me chamava de pateta, a boca invadia ele, o olho me buscava de novo, sabe, jogava na minha cara um vocême-qué-sei-disso-mas-não-vai-tê, é, isso doía, e os versinhos que eu criava davam nisso, ela-não-gosta-de-mim-masnão-tem-fim-o-meu-jeito-de-amar. Depois dela teve a Lisete, ela namorava o Duval, Duval galinha, amava qualquer perna que passava, e Lisete nada, confiava até a última espinha do rosto, se enganava, a bichinha, até descobrir tudo. Então era choro no meu ombro, cabelo dela embaixo do meu nariz faminto, é, e eu querendo aquele riacho de lágrima só pra mim, abraçava, consolava, tirava casquinha, discreto feito viúva grã-fina no velório do finado, na cabeça dançava a musiquinha esquecedele-olha-pro-lado-olha-pro-outro-dosdois-tem-eu-pra-ti, assim surgiu Dois Lados, meu primeiro sucesso, tocava em bailão, depois foi pra AM da cidade, depois pegou o mundo. Em seguida a Lisete vieram todas, minha filha, cada chaga uma música, o sorriso de Jussara que guardei no bolso, era um talismã batendo contra as moedas, riqueza de Deus!, então o cheiro de Fábia, ô, mulher-perfume-de-excesso, rendeu versos com memória de goiaba, Lindalva, Rogéria, Anastácia, Teresa, Maninha, Berenice, Loreta, Gilvanete,

Cassiane, dezenas, talvez até mil com todos esses shows que já fiz, cada amor uma vela para acender em forma de ritmo, som, versinho safado ou melodramático. Todos esses meus sucessos vieram assim, desse partido político que é o amor, filiados espalhados pelo mundo inteiro, em qualquer ponto do planeta você encontra um levantando a bandeira, não é? Claro que sempre existem os descornados, aqueles que acreditaram e beberam desilusão, nesse amor é óleo de rícino, não é?, desce a garganta, promete cura, mas o que faz é destruir fígado, rim e aquele tiquinho de esperança que o programa do partido prometia. ­ Uma mensagem final, deixa eu pensar, podia dizer que todo amor é eterno, afirmar Vinícius, eterno enquanto dure, ou melhor, melhor, encerrar com trechinho da minha nova música, certeza que entra em abertura de novela, hein, minha filha, anota aí, vamos terminar essa entrevista com algo que essa gente de nariz torcido não gosta, jeito kitsch, brega, eles falam, não é?, escreve aí, se amar fosse um pirulito eu ­ chupava devagar pra nunca acabar.

é Luciana Iser Setúbal, professora, redatora e revisora publicitária. É leitora e escrevinhadora desde a mais imatura idade. Culpa do pai, jornalista, que sempre a incentivou a ler. Deu nisso, uma metida a besta que assume não ter carteira de motorista nem saber nadar, mas que se orgulha de escrever (acredita) muito bem. Participa do projeto literário www.coletivoclaraboia.com.br e tem textos publicados nas coletâneas Nem Te Conto (contos, 2012, Ed. Gazeta), Abigail (contos, 2011, Ed. Terracota) e Unisc: uma Trajetória e Muitas Lembranças (crônicas, edições 2004 e 2005, Edunisc).

Setúbal

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Conto

A Entrevista
Lohan Lage Pignone

Meu tio, pra cima e pra baixo. Hipermetrope, sedento pela leitura de sua entrevista. Resmungão, foi atazanar a tia na cozinha. Ela picava a cebola. – Meus óculos, Janete, quede os meus óculos? – Deixa eu chorar em paz, Hilde. O espelho do corredor deu como encerrada a sua aflição matutina. Tirou os óculos da gola da bata, sentou, cruzou as pernas operadas de varizes, abriu a página da entrevista. – Cabra da peste, escolheu a pior foto.

– Sente-se confortável aqui, Sr. Hildebrando? – Como não? Nesta confeitaria eu vivi os meus melhores dias no Rio de Janeiro! Lá de fora, pelo vidro, eu vi a rainha Elizabeth não sei das quantas tomar o seu sorvete de bacuri. Eu tinha 20 anos, recém-chegado de Ilhéus. Era tanta pompa que eu queria também. Eu, numa larica do diabo, querendo tomar sorvete de bacuri, ora veja só! – riu-se, com o gosto da memória. – Sorvete de bacuri? Bacuri não é

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– Meus óculos... Onde estão?

O jovem todo engravatado, cheirando a talco, defronte o Sr. Hildebrando Perez.

peixe? ­ – Bacuri é fruto, rapaz. Das bandas do Norte. – Minha mãe sempre me chamou de bacuri... – sorriu, em falsa nostalgia – sempre achei que fosse por causa dos meus olhos caídos, de peixe morto. – A curiosidade fez o gato subir no telhado, menos você. – Às vezes é bom não saber. Mas... Que tal começarmos nossa entrevista? Largou o jornal sobre o sofá e foi andar, de um lado pro outro. – Ô, Janete, aquele filho de uma égua foi falar do sorvete de bacuri no começo da entrevista, acredita nisso? Não existe mais edição, desconheço isso hoje em dia! Janete. Picando o tomate. – Deixa eu sangrar em paz, marido. – Ah vá, mulher, pare com essas literatices... Tornou a ler, inquieto. Ligou o gravador. – Quantos anos você tem? – Eu? Eu tenho... – posicionou o gravador sobre a mesa – Vinte e quatro. – Eu tenho quase o seu dobro de expediente, rapagote. Com Mestrado e Doutorado. – Não me intimide, Sr. Hildebrando. Eu conheço bem a sua fama de mau e, se acreditasse nela, jamais teria proposto essa entrevista. – Pois eu digo que propôs porque acredita nela. Dá audiência pra muita TV falida. Mas vá lá, inicie essa joça de uma vez. – Ok, vamos. Inicio aqui a entrevista com um ilustre colega de ofício, um dos mais experientes e polêmicos do jornalismo brasileiro: Hildebrando Perez. Caro Hildebrando, muito obrigado por ter

aceitado o meu convite, é uma honra. O que te levou a ser jornalista? – Herança genética. Meu pai foi um grande jornalista, em Ilhéus. Pouco conhecido nacionalmente. O ilustríssimo Armando Perez Martins plantou no meu DNA a semente da curiosidade, da busca pelo novo, da indagação permanente. – Sendo assim, devemos agradecer ao seu pai por ele não ter sido médico! – Não, não agradeça nada não, rapaz. Eu teria sido um médico tão bom que agora você estaria me entrevistando do mesmo jeito. A campainha. – Pode atender, Hilde? Tio Hildebrando ensurdecia durante suas leituras. – Conrado! Entre, se acomode. Tô preparando uma moqueca daquelas, fique pra comer conosco. Dá licença, vou para a cozinha. Aceita um cafezinho? Companheiro dos velhos tempos de batalha, Conrado valia a interrupção daquela leitura insatisfatória. – Li sua entrevista. – Minha entrevista não, que minha entrevista? Aquilo foi uma tentativa de papo furado. – Ele só deu ênfase no seu lado explosivo. E que porra foi aquela de suruba urbana, Hildebrando? – Noutros tempos, eu seria censurado por publicar um disparate desses. E demitido! Os jornais eram sérios, Conrado. Afrontávamos o governo com poesia! Hoje contratam qualquer fedelho xiguilingue e transformam, o que ontem foi censura, em sensacionalismo dos mais podres. – Noutros tempos, meu amigo, tu não era brocha também. O olhar surpreso, tomado por uma súbita onda de resignação. “Eu não admito

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o inadmissível”... Podia ouvir a voz do pensamento do tio Hildebrando... A pergunta mais aguardada. – Caro Hildebrando, o senhor tem demonstrado, em seus últimos trabalhos jornalísticos, uma tendência extrema para o conservadorismo. Reli todas as suas últimas críticas, artigos, seu último livro, suas colunas dominicais, enfim... Ao longo de sua história, o senhor foi esquerdista confesso, combatente incisivo contra o sistema ditatorial. Devo concordar com a alcunha que lhe deram: o maior vira-casaca do jornalismo brasileiro? ­ – Já concordou, rapaz, já concordou. E não sou? Me orgulho disso. Napoleão venceu os ingleses virando a casaca. – Foi um ato estratégico, e não ideológico. – E quem garante que meus atos também não sejam estratégicos? Você acha que seria bonito ver um velho como eu mandando atear fogo em universidade? Isso é sandice! – Então o senhor admite que os jovens podem, e devem, criar revoluções? – Depende do tipo de revolução que você está falando. Eu não admito o inadmissível. Do que você fala? Do vandalismo, da morte? Isso não, isso não é pôr ponto final, isso é acúmulo de vírgulas e reticências na história do país. Revolução é feita através da arte e do bom senso. – Arte e bom senso combinam? – Depende do artista que você é. Se você for um artista borra bosta, não. Esse tipo de artista gosta de jogar merda no ventilador pra ser espalhada numa tela em branco. Pronto, depois diz que aquele pedantismo todo é arte conceitual. Quer aprender como enfrentar um sistema? Vai ouvir Chico, Caetano, Tom Zé. Vai ler

Henfil e larga desse miolo de pote, rapaz. – Desculpe, mas – tomando nota rapidamente – o que seria a expressão “miolo de pote”? – Essa eu arranquei lá de minha terra, das falas aporrinhadas de meu saudoso pai, o deus do jornalismo de Ilhéus. O que você acha que seja? Confusa hesitação. – Uma coisa mesquinha, suja... – Papo furado, lero-lero. Agora pode prosseguir com sua... Entrevista. Próximo capítulo: religião. – Ter aderido a uma religião, no caso, o catolicismo, foi um ato importante pra essa mudança de postura sobre a sua visão de mundo? – Foi, claro que foi. Eu não passei a tomar o corpo e o sangue de Jesus Cristo só pra despachá-lo numa privada depois. É transformador. E devo isso a minha fiel esposa Janete. Depois que a conheci, eu conheci a Deus. Conheci Deus através dos olhos dela, naquela mesa ali, aqui nessa confeitaria. Ela tomava chocolate quente, num calor de fritar os neurônios! Indignado, larguei o meu sorvete e fui parar na mesa dela, perguntando que diabo era aquilo. Estivesse um dia frio eu não teria casado, nem tido uma filha que hoje trabalha na PUC. – Então o senhor se considera um convertido? O que pensa sobre as outras religiões? – Não penso sobre outras religiões, rapaz, a minha já é complexa demais pra eu ficar reparando nas preces das outras ovelhas. Sou um convertido em todos os sentidos. Sabe o que é isso, rapaz? É pular de um barco antes que ele afunde. – E o senhor sabe nadar? – Pode repetir sua pergunta? – O senhor disse ter pulado do barco antes que ele afundasse. Suponho que

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tenha pulado n’água. O senhor soube nadar nessas águas? – Não, rapaz. Eu deixei me afogar nelas. Antes jazer num túmulo só do que acompanhado de uma patota do inferno. – Jornalista tem que ter uma mente aberta. Essa máxima vale pro senhor? – Se na sua concepção mente aberta significa pernas abertas, ah, rapaz, tu vai te catar. Quer o quê, que a nossa nação vire um rebuceteio? – Perdoe, senhor Hildebrando, mas eu tenho vinte e quatro anos. Sob o meu ponto de vista jovial, não seria nada mal que toda a sociedade virasse uma suruba urbana, em todos os sentidos, longe de qualquer hipocrisia. Meu tio apontou o dedo nas fuças do entrevistador. – Ô, seu afetado, pois então vá soltar tua franga noutro quintal porque eu tenho uma filha, uma moça tão jovem quanto você, mas que preza pelo respeito e pelos bons modos, visse? E em nome de todas as mulheres deste país, vomitarei teu nome nos autos da imprensa. Seu pixote de merda! Apeou os talheres sobre o prato

­ audoso da moqueca que ali estava. s Gargalhava. ­ – Esses novatos não são de nada, Conrado. Tudo borra bosta. Saí da confeitaria e ainda dei um beiço nele de dois capuccinos e um bolo de laranja! Bora fumar um cigarro? A tia a lavar as louças, cantarolando alguma canção imperceptível. Tio Hildebrando e Conrado, vagarosos pela ­ calçada, esfumaçando o dia clarividente. – Vai foder com esse jornalista? Um trago. Dois. – Tenho meus pauzinhos pra mexer, visse... Mas não. Quando aceitei essa entrevista, eu já sabia que bicho ia dar. – Então por que aceitou? – Não me queimo mais não, Conrado. Que falem de mim, eu sou blindado, sou doutor. E aquele novato precisava disso. Aquele pixote tinha que conhecer ­ Hildebrando Perez tête-à-tête pra só assim, um dia, poder ser um genérico de Hildebrando Perez. Original só eu e ponto. Que tal um birinaite?

Graduado em Letras (Port./Lit.) pela Universidade Estácio de Sá. Publicou, em 2011, o livro “Poesia é Isso” (Ed. Multifoco) e, por dois anos consecutivos, foi eleito destaque em arte e cultura na cidade onde reside, Trajano de Moraes (RJ). Escreve para o blog coletivo Autores S/A. Organizou, por dois anos consecutivos, o Concurso de Poesia Autores S/A. Organizou a antologia poética do 1º Concurso de Poesia Autores S/A, intitulada “Poesia.com” (Ed. Multifoco). Em 2010, ocupou as quatro primeiras colocações do Prêmio Safo de Poesia, da Universidade Estácio de Sá (Campus Nova Friburgo). Em 2012, ficou em segundo lugar no Concurso de Poesia Poesiarte; sagrou-se campeão do concurso de poesia Língu’afiada, além de ter sido selecionado para três importantes antologias: Concurso de Minicontos da UNISO (com dois minicontos); Prêmio Escriba de Poesia (com um poema) e Prêmio UFF de Literatura (com um poema). Ainda em 2012, ocupou a quinta colocação no XXVII Concurso de Poesia Brasil dos Reis (Angra dos Reis). Autor das peças teatrais “A Cor do Céu” e “Comprar, rezar e amar”.

Lohan Lage Pignone

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Conto

Balanço do vento
Tatarana, meu líder e amigo, Riobaldo, meu amor, Estamos perto do momento de encontrar a corja do Hermógenes, e não sei como isso tudo vai acabar. Como vosmecê, não sei nada, mas também desconfio de muita coisa. E tenho algo pra lhe revelar, mode vosmecê compreender meu comportamento estranho. Riobaldo, desde que o encontrei às margens do rio, naquele barco, quando nós éramos dois moleques, eu soube que vosmecê fazia parte do meu destino. Mesmo quando segurei sua mão gelada de medo, sabia que seu sangue Não concordei com a sua decisão de trazer esse menino e esse cego pra andar com o nosso bando. Criança e inválido não guerreiam, só servem pra atrasar o grupo. Mas quando vi os dois andando emparelhados com vosmecê, um de cada lado, eu entendi. Eles são seus guias, Riobaldo, e estarão ao seu lado mesmo quando eu não estiver mais por aqui. Eu guardo um segredo, Tatarana. Um segredo que poderia mudar a nossa vida, mas que eu não podia revelar. Até hoje. Sei que vosmecê pensa que sou filho de Joca Ramiro, o maior chefe que o
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Tatiana Alves

(carta endereçada a Riobaldo encontrada em meio aos pertences de Reinaldo, jagunço do bando, e entregue ao chefe, lacrada)

era ­ quente, e que vosmecê só não conseguia ainda trazer o calor da coragem pra ponta de seus dedos. Ainda não era a hora de vosmecê descobrir tanta coisa, não de uma vez, mas sei que não terei muito tempo e que nossa tropa vai se desfazer logo.

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­ ertão já conheceu. E lhe afirmo, Rios baldo, que Joca Ramiro nunca foi pai de filho homem. Ele é meu pai, sim, antes que vosmecê me tome por impostor. Mas a menina que Joca Ramiro pegou nos braços no primeiro choro deixou de existir, Riobaldo. Maria Deodorina, ou Diadorim, como vosmecê conhece, calou seu choro e secou nas pedras das veredas. Sou como o cacto do deserto, Riobaldo. A umidade de meu choro está escondida, e só poderia mostrar a vosmecê. Jagunços só podem ver meus espinhos, que escondem e protegem meu segredo mais precioso. Cego Borromeu descobriu tudo, e tenta lhe contar o tempo todo. Mas vosmecê é homem prático, acostumado à secura do sertão, e não entende a música que ele canta. Ainda bem. É mais seguro assim. Ele fica triste por vosmecê, mas sabe que caminho é que nem cruz, é coisa pra ser trilhada pelo próprio, e que não dá pra fazer pelo outro. Moleque Guirigó acho que também desconfia. Faz muitas perguntas, sem parar. Às vezes, anda atrás de mim até que Borromeu o chama. Prometa que sempre os trará ao seu lado, Riobaldo. Cegos veem o invisível, e vosmecê precisa treinar os olhos da alma. Leve Guirigó também. Vosmecê vai casar com a senhorinha – ai, como dói dizer isso –, e lá na fazenda sempre terá lugar para o menino. Cultive a sabedoria e o silêncio do velho e a curiosidade espontânea da criança. Caminhe no vão entre a escuridão da cegueira, mas que vê a alma, e os olhos abertos, que denunciam. Com a

serenidade do velho e a leveza do menino, não haverá trilha ou vereda que vosmecê não consiga transpor. Sei que a senhorinha o fará feliz. Depois que eu não estiver mais aqui, sua jornada será ao lado dela. Eu não sou nem a mulher-dama nem a donzela, Riobaldo. Eu sou o Tudo e o Nada, mas não há lugar pra mim na sua vida. Mire e veja. Não carece explicar mais. Aquele pacto que vosmecê pensa que fez com o tinhoso está só na sua cabeça. Que o demo, quando surge, não marca hora nem lugar. Ele vige o tempo todo, no meio do redemoinho que arranca as coisas de nós. Ele está nos crespos do homem. Não o alimente, que ele deixa de existir. Um senhor chegará, e pedirá a sua história. Conte a ele. Não deixe que outras pessoas tenham que viver escondidas dentro de si como tivemos que fazer. E aí vosmecê ouvirá minha voz e saberá que estou bem. Quando o vento soprar na curva do rio e vosmecê se lembrar de mim, será com o alívio das frutas cheias de sumo, não com secura e aridez. Quando o vento soprar na curva do rio, imagine meus cabelos longos, que tive que sacrificar, e mire a liberdade que terei então. Deixeos balançar ao sabor do vento e, como eles, permita-se ser feliz. Da sua (embora sem vosmecê saber) Diadorim

Tatiana Alves
é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui nove livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

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Conto

Rodrigo Domit

BARBÁRIE

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O sapatinho do bebê jazia no meio da rua, enquanto ele permanecia estático, em estado de choque. Os outros membros da família estavam sendo carregados para a calçada pelos vizinhos que se aproximavam. Dois dos corpos já estavam cobertos por panos improvisados. Incrédulo, ele observava a cena, esfregava os olhos e passava as mãos nervosas pelos cabelos. Enquanto uma multidão de curiosos aproximavase, atraída pela freada, pela batida no ponto de ônibus e pelos gritos, ele permanecia perdido em seus próprios pensamentos. A consciência lhe transbordava, dando
Rodrigo Domit

­ nsias e tonturas. Decidiu â sentar-se e, após retornar ao banco do motorista, abaixou a cabeça e tentou segurar entre dedos trêmulos o turbilhão de ideias e o peso da culpa. Naquele momento, pensou: “Como é que eu vou viver com isso?”. A primeira pancada, seca, dissipou a dúvida. Os gritos da multidão abafaram quaisquer outros questionamentos: – Assassino!

foi criado em Londrina – PR e reside atualmente em Jaraguá do Sul – SC; escreve contos e poesias desde 2003. É coautor do livro Vem cá que eu te conto (2010) e autor do livro Colcha de Retalhos (2011). Administra o blog Concursos Literários e publica exercícios literários – em prosa e verso – no blog Tiro Curto.

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Conto

Segunda voz
Destino é invenção de gente insegura. Diná, às vezes, tinha vontade de mandar fazer uma camiseta com a sentença estampada em caixa alta. Em vermelho sinaleira, para não restar dúvida e evitar a aproximação da turma do “Deus sabe o que faz”. Consciente de que andava azeda, entendia também que a fossa era inevitável. Tinha obrigação de cumprir o ciclo cinza até o final, esgotar a dor, antes de retomar o colorido. Podia lidar com contratempos, com imprevistos, com problemas, com tragédias, até, mas não contava Realizava tarefas cotidianas como máquina, porque alguém deveria fazêlas, mas era como se mandasse apenas o corpo para a rua. A alma ficava perdida entre as gavetas do armário, cheia de nada. Segundo dia do mês, péssimo para ir ao banco. Era isso ou arcar com uma multa gorda e o beiço do marido. Senha na mão, Diná sentou-se na cadeira vaga na área de
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Andréia Pires

com a sequência de catástrofes em sua vida. Estava sufocando debaixo de tanto infortúnio e não alcançava as tintas para se repintar.

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espera. Perderia coisa de uma hora naquela bobagem. O senhor ao lado puxou conversa, ignorando sua cara de não-quero-papo. Entre sorrisinhos e concordâncias, lá pelas tantas o homem profere, hoje em dia tem filho a mulher que pode e não a que quer. Depois dos trinta a capacidade de engravidar cai pela metade e a mulher tem tantas tarefas, tantos compromissos, que vai deixando a formação da família em segundo plano e quando vê não dá mais tempo, perdeu o bonde. Por que raios ele entrou nesse assunto?, pensou Diná, enquanto respondia ah é?, para o falante senhor, não por acaso obstetra aposentado. Saiu com a conta paga e a resistência por um fio. – Chega, sabe? Não posso acreditar que estou nessa vida para colecionar perdas feito troféus ao avesso. Perdi o viço buscando a colocação que eu merecia na empresa, depois de anos de dedicação e estudo. Perdi a confiança no meu marido, que provavelmente me trai com alguma ordinária da firma e pensa que me engambela com a conversa da hora extra, da pilha de relatórios para amanhã ou de que ficou preso no trânsito ou. Perdi o emprego para uma criatura mais jovem, mais magra e mais alta, com quilômetros de lattes. Perdi a criatividade. Perdi a energia. Perdi meu filho na sexta semana da gestação, pela segunda vez. E já passei dos trinta. Impressionante como nada

evolui, nada nasce de mim. – Voltou a pé para casa. Subiu os seis lances de escada. Entrou. Num impulso, foi até a sacada e sentou no parapeito. A vista dava para os fundos do prédio, circundado com grades pontiagudas e cerca elétrica. Despencar dali era morte indiscutível. Comum em duplas sertanejas, a segunda voz normalmente é feita pelo sujeito menos expressivo e mais discreto, que tem o papel fundamental de dar o eixo à voz principal. É quem faz pouco sucesso com fãs, mas segura as pontas e apara os exageros do protagonista, não deixa a canção se perder em agudos, não descompassa, pelos dois. Diná não cantava, literalmente, mas é possível que sua ladainha mental tenha encorajado uma segunda voz. Pensa melhor, Diná, disse o rapaz quase transparente, debruçado ao lado dela. Olha bem, olha fundo, olha ao redor. O que mais fazes é gerar. Apavorada com a ideia de estar louca, para completar a derrota, desceu de onde estava, correu para a cama, cobriu-se com o lençol até a cabeça e ferrou no sono. O rapaz fez sua parte. Regou as violetas, o pé de salsa, o de manjericão e o tomateiro de Diná, que recém-dava as primeiras flores amarelas, e sumiu.

mora em Rio Grande (RS), é jornalista, mestre em História da Literatura (FURG), doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS) e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular, uma vez por mês com a revista Samizdat, e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.

Andréia Pires

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Conto

Polaroide da alma
Dayvson Fabiano

Em morte-vida: a Roland Barthes (Duas imagens que se eternizam) Ao som de “Resposta ao tempo”, na voz de Nana Caymmi Era setembro, início da primavera. Alberto tentava colocar em ordem as fotos que estavam espalhadas no chão. Cada foto falava uma história de sua vasta tão vasta vida. Não era um profissional das imagens, porém dedicava-se ao máximo para tirar a foto perfeita. As fotos no chão pareciam flores de espécies variadas. Algumas até espinhos possuíam devido às lembranças um pouco castigadas e fatigadas, mas apesar dos pesares continuavam sendo flores. Ele estava só. Não exatamente só: havia uma sinfonia. Ele fechava os olhos e essa sinfonia se

Há no mundo da fotografia, a câmara clara e a câmara escura; nesta não existe a influência da mão humana; na outra, se faz necessário um toque de humanidade. E essa outra também é conhecida como câmara lúcida, porém a lucidez de Alberto é mais que louca. Uma loucura que o fascina, engrandece-o. Prefere a loucura a o nada. O nada não existe, é preferível a escuridão. Na escuridão sempre encontramos alguém para nos salvar ou para nos acompanhar. E a luz só chega com a mão do homem. No último estágio para a visualização da foto há a luz. Alberto vai revivendo todo aquele

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Em vida: à amiga Cícera Buendía

tornava um filme. Talvez um filme de sua vida: ora algo em equilíbrio, ora algo dissonante. As imagens sempre presentes em sua vida. Saía suturando a sua dor daquela foto que o castigava. A ferida sempre abria e ele não sabia como curála, nem ao menos tinha forças para jogar a foto dolorosa.

instante-infinito olhando dentro de uma caixinha àquela foto que só ele vê e só ele sabe o significado. Era uma dessas fotos que estavam espalhadas no chão e que ele guardou na caixinha para que a luz não a penetrasse: uma flor não sobrevive sem luz e nem pode realizar a troca dos gases: ele não gostaria de respirar aquilo novamente, apesar de insistir desafinado aquela canção. Olha-se ao espelho: sua imagem é subvertida nos estilhaços daquele espelho com rachaduras e só tem aquele espelho velho com bordas douradas. Talvez a sua aura fosse dourada, pelo menos naqueles momentos ao se olhar, só que uma aura dourada não subverteria uma imagem estilhaçada. Saiu em disparada até uma pracinha junto à sua casa. Sentou no banco e colocou a caixinha com a foto ao lado: era o seu luto mais silencioso e as flores daquele jasmim caíam em suas vestes por causa do vento que insistia em aproximá-las. Havia ali um espaço limítrofe entre o pretérito-perfeito e entre o pretérito-imperfeito e ele não sabia conjugar. As horas se passavam nuas subvertendo em expressão aquela imagem fragmentada, pois a imagem da caixinha ia se completando com as suas andanças nos lugares que os uniam na época em que existia o amor e aí sim ele sabia conjugar: só que apenas na primeira pessoa do singular. Entra em sua casa e vai ao quarto com a caixinha na mão. Abre uma gaveta e coloca a caixa. Dorme. Ao acordar, vai até aquela gaveta e pega a caixinha com

a foto. Alberto sentia saudades e abria a caixinha para contemplar aquela foto: tinha saudades até do que poderia ter acontecido. E o tempo é que tentava dar conta de suas aflições. Sempre o tempo: ele às vezes mata com lentidão. E Alberto resistia à morte com dignidade. Alberto às vezes olhava aquela caixa e a referia como a “boceta de Pandora” e fazia cara feia. Decidiu que precisava se desfazer daquela foto o quanto antes. Não que fosse cometer algum assassinato, mas sim, dar uma morte real aquilo que havia morrido desde o começo, e que só ele insistia nisso: a câmara escura já havia dado o seu toque desde sempre: era a mão de Deus, ela era escura. Pega a caixa e começa a queimá-la, talvez realizando o processo de cremação daquela imagem que um dia foi sua. Apenas cinzas sobraram daquela imagem. Talvez se houvesse uma lápide estaria escrito: Tenho saudades até da sua ausência presente. Ele pegou com a mão o pó de uma vida acabada, levantou a mão ao alto e a abriu e numa grande lufada desapareceram as cinzas, misturando-se com as flores daquela primavera. Havia certa perfeição naquela aparente nova imagem. Era um estado melífluo que permanecia agora no tempo e Alberto, de luto, chorava a despedida. Apesar de que o sofrimento agora seria outro: o de desvencilhar desse luto, pois ele havia fotografado o perfume dessa imagem em sua alma e desaguou nas horas nuas num tempo que insiste em voltar sempre e sempre e sempre...

Formado em Letras pela Universidade Católica de Pernambuco, com especialização em Literatura Brasileira e Interculturalidade também pela Universidade Católica. Aspirante a escritor e poeta. Amante do cinema, da praia e especialmente da literatura.

Dayvson Fabiano

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Conto

O rato
Cinthia Kriemler

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Nunca tivera um animal de estimação. Nem em criança. Nada de cães, gatos, passarinhos, tartarugas. Por isso se desconheceu naquele desejo desenfreado de ter para si um rato. Bicho feio, cinza, cheio de bigodes sombrios, dentuço. Ele mesmo tinha sido dentuço em criança... Será que... Não, não era isso. Identificou-se com o bicho por outro motivo que não sabia qual. Não importava. Decidiu: queria o rato; teria o rato. Encurralou o animal num canto, o mais gentilmente que pôde, e entre pedidos de desculpa e pedaços de queijo conseguiu prendê-lo em uma caixa de sapatos em cuja tampa havia feito pequenos furos. Dia seguinte, saiu cedo e foi para a loja de animais. Olhou, olhou, mas não comprou a casinha de vidro transparente cheia de buracos simétricos para entrar o ar. Pensou na quantidade de luz e calor que o material devia concentrar. Teve pena do bicho. Claridade demais para um ser das sombras! Deixou o pequeno dentro da caixa mesmo e começou a alimentálo com tudo o que havia lido que um roedor pudesse gostar. A casa improvisada foi instalada em cima da cômoda do seu quarto. A cada três dias, removia o bicho para outra caixa, nova e limpa. Era a única ocasião em que se viam. Cara a cara. Cara a focinho. E ele confessou a si mesmo que já amava Carrapato. O nome caíra bem. A intimidade caíra bem. Na verdade, era ele quem não desgrudava do

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animal, mas gostava de pensar que a recíproca era verdadeira. Ele precisa de cuidados, de um lar melhor. Amanhã eu vou ver isso. Levou o rato ao veterinário na manhã seguinte, evitando os olhares surpresos da maioria dos clientes. — Não, ratos não tomam vacina. A gente pode fazer uns exames de sangue para investigar a saúde dela — disse o doutor. — É uma fêmea. Saiu de lá carregando, finalmente, a casa de vidro de dois andares e rezando para que o exame de sangue não acusasse nada. Mesmo sem saber por quê, sentiu-se desconfortável com a notícia de que Carrapato era uma fêmea. O animal pareceu ficar feliz com a nova casa. Adaptou-se logo ao novo lar e em pouco tempo já dava voltas na escadinha circular colocada no segundo piso. Ele teve certeza de que havia feito a coisa certa. Agora, podia enxergar o bicho comendo, bebendo, brincando, dormindo. Companhia dia e noite. Não se dava bem com gente, essa massa complicada e cheia de humores e vontades e dissimulações e ódios. Definitivamente, as pessoas o assustavam. Não que elas prestassem atenção a ele. Nem o notavam. Mas era a mera possibilidade de um dia o notarem que o apavorava. A cada vez que um olhar mais prolongado cruzava com o seu na rua, no mercado, no ponto de ônibus, sentia os pelos dos braços e das pernas

se eriçando como se tivesse levado um choque. Deixava de pegar um ônibus, virava uma esquina antes do quarteirão de casa, desistia de comprar leite e pão, e fugia assustado para bem longe daqueles olhares pousados. Por isso, preferia a noite. A ausência da luz enjoada do sol o acalmava e confirmava a invisibilidade que escolhera para si. Quando o breu tomava o céu, abria as janelas de casa e se sentava no jardim iluminado por apenas duas lâmpadas instaladas em um canteiro. Às vezes cuidava das flores, que plantara num desenho ousado, e da pequena horta doméstica onde algumas verduras brotavam bem cuidadas. A pouca iluminação permitia que sombras engraçadas fossem projetadas na parede branca da fachada da casa e nos muros altos que faziam limite com a esquina da rua, à esquerda, e com a casa de um vizinho, à direita. Naquela noite, sentou-se ao sereno e colocou ao seu lado, sobre um banco alto, a casa de vidro. Primeiro, Carrapato agitou-se, mas de repente ficou muito quieto, como se a noite o tivesse acalmado. Ou não. Assustado, ele achou que o animal poderia estar passando mal. Abriu a porta da casinha, ansioso, e pegou o bichinho, segurando-o bem em frente ao rosto. Viu os olhos brilhantes, maliciosos, quase ao mesmo tempo em que levou a mordida. Não gritou. A dor maior foi por dentro. Dor de mágoa, de surpresa. Soltou o animal

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e levou a mão rapidamente ao rosto. Sangrava no nariz, onde os dentes afiados tinham se fincado. Carrapato aproveitou o momento e fugiu. Desconsolado, desorientado, sofrendo, ele não sabia se procurava o bicho ou se cuidava de si mesmo, prática incomum. Relutou por mais de uma hora até perceber pelo tamanho do inchaço no rosto que teria de ir a um hospital. — O que houve? — perguntou a enfermeira na triagem. — Mordida de rato. — Capturou o animal? Capturar? Engraçado pensar em Carrapato como um animal de captura. Não, ele não sabia onde o bicho estava. Queria saber. Mas não naquela noite. Sob o efeito das injeções que precisou tomar, dormiu um sono pesado. Pela manhã, acordou cheio de culpa. Eu devia ter procurado por ela ontem mesmo! Nem percebeu que chamou Carrapato de “ela” pela primeira vez. Vasculhou todo o jardim, procurou nos bueiros perto de casa, nas latas de lixo, mas nada. Depois de muito tempo, exausto, convenceu-se de que o bicho tinha ido embora. No quintal, pousou a casa de vidro no canteiro e, mais pela Cinthia Kriemler

saudade que pelo hábito, limpou o bebedouro, o comedouro e trocou o forro do fundo daquele latifúndio de dois andares. O nariz ficou curado. A crença nos bichos, nunca mais. Nocauteado pelo que acreditava ser uma grande ingratidão, deixou de comer, de beber, de tomar banho. Evitou mais ainda o sol, a luz das lâmpadas e até mesmo os espelhos. Abandonou as noites de sereno, as flores e as verduras. E convenceu-se de que os animais eram exatamente como os homens: desprezíveis, egoístas, interesseiros. Sem vontade de pensar ou de sentir mais nada, encolheu-se na cama imunda de cheiros e fluidos, até que primeiro morreu, depois deixou de respirar. No quintal apagado, sem sombras na parede, dois olhos pequenos e maliciosos brilharam na noite. O focinho de bigodes sombrios cheirou insistentemente o ar, procurando por algo. Na casinha de vidro abandonada no canteiro, escondidos em um ninho bem construído no segundo andar, oito filhotes amontoados abraçavam-se no sono dos recém-nascidos.

Contista, cronista e poeta. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca” (Editora Patuá, 2012). Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro da Academia de Letras do Brasil, Seccional DF, do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Graduada e pós-graduada em Comunicação Social. Analista Legislativo na Câmara dos Deputados.

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Conto

JANE DOE

Adriane Dias Bueno

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Acontecia assim, de repente, como se nada fosse, como se não importasse realmente. Simplesmente ela sentia que tudo ficava lentamente calmo, como a calmaria que ocorre antes de uma calamidade. E aí acontecia. Ela estava na sala ouvindo músicas de diferentes estilos como de hábito. Ela estava sentada no sofá onde seu gato dormia diariamente e, às vezes, também usava como banheiro. Gatos velhos sofrem de incontinência urinária, eventualmente. Ela havia lavado o sofá que ia se desfazendo aos poucos, fosse pelo ataque das garras do felino, fosse pela necessidade de ter que lavá-lo mais seguidamente devido ao problema do bichano, fosse porque o tempo passava, embora ela nem sempre percebesse. Então ali estava Jane Doe (que nome seus pais escolheram!) deitada no sofá, lendo e escutando música. Ela bem poderia ter optado por estar dançando, mas isso fora algo de que abrira mão fazia algum tempo. Ela estava ali, tentando ouvir a música sem balançar os pés e curtir a leitura, quando ocorreu o fato costumeiro. Jane Doe simplesmente evaporou. Sumiu. Talvez tenha deixado de existir. O fato importante é que ela desapareceu sem deixar rastros. Algo banalmente se apagou (seriam as luzes baças utilizadas nos abajures para deixar o ambiente mais aconchegante, mesmo que ela percebesse que ali isso não seria possível?). Jane Doe se foi e ninguém notou. Não havia ninguém no apartamento de dois quartos para sentir sua ausência, além do gato embrutecido pelo tempo que sua vida animal lhe concedia. E talvez ele somente sentisse a falta da dona quando a comida em seu prato terminasse ou a água em seu pote ficasse choca. Jane Doe não era exatamente uma pessoa insignificante, sem características que a

distinguissem. Ao contrário, possuía alguns hábitos e gostos meio exóticos, que a tornariam meio inesquecível para as pessoas com quem convivesse. Mas justamente por isso, ela fazia questão de ser invisível. Jane Doe já tinha experiência suficiente para saber como as pessoas esquisitas são vistas pelas demais. E foi por isso que num dos cadernos, em que costumava fazer apontamentos durante a faculdade, ela escrevera: “Às vezes, eu gostaria de não ter pena de quem não tem pena de mim”. Suspirou e fechou o caderno. Nunca mais o usou. Um dia, fazendo uma faxina, ela redescobriu a frase. Fez o caderno desaparecer. No fogo. Ela tinha gravado a frase a ferro e fogo na sua memória, embora não conseguisse lembrar porque a havia escrito. A causa tinha sido obliterada de sua mente. Fora escrita na primeira vez que ela morreu. Numa outra ocasião em que desapareceu ela rabiscou outras palavras esquisitas, que depois apagou meticulosamente, embora as marcas do que tinha escrito tenham sido impressas nas cinco folhas seguintes e pudessem ser relidas por alguém mais atento, ou que empregasse a técnica certa. Jane Doe escreveu nessa ocasião: “Eu já morri faz tempo. Só me esqueci de aceitar”. É, Jane era estranha mesmo. Seria por isso que ela costumava desaparecer? ­ Era isso que estava ocorrendo outra vez. Ela estava desaparecida já há cinco minutos. Não havia indicação de que ela retornaria, ou quando, ou se. Apenas a ausência poderia ser sentida, embora ninguém houvesse percebido. É como aquela história da árvore na floresta: Se uma árvore tomba no meio da mata, algum som será produzido, ou ouvido? ou coisa parecida, não lembro bem de como foi escrita essa frase, mas o sentido é

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esse. Será que alguém perceberia que Jane Doe sumira se nenhuma pessoa estava presente, ou convivia intimamente com ela? Será que seu gato sentiria sua falta ou apenas da comida que ela lhe dava, como alguns céticos costumam argumentar sobre bichanos alheios ou próprios? Será que Jane Doe sentiria sua própria ausência? Sua provável morte ou abdução seria alvo de tristeza? Então o fato é este: Jane Doe desapareceu já faz 1 hora, de seu sofá velho e levemente fedorento. Alguém duvida? Alguém percebe o silêncio dessa falta? O deslocamento dos átomos quando algo desse tipo ocorre? Alguém consegue pressentir que uma pessoa está ausente do planeta? Por que minha experiência me diz que, quando essas coisas ocorrem, a falta pode ser notada por qualquer um, pois parece que sobra um pouco mais de oxigênio na atmosfera, que existe mais espaço livre para transitar, que algo é deslocado no tempo? Toda ausência pode ser sentida. Mas acredito que poucos são aqueles que percebem os desaparecimentos súbitos de pessoas aparentemente invisíveis, prémortas. Jane Doe está desaparecida, quem sabe agora morta, há 24 horas. Ninguém ainda percebeu, ninguém acionou nenhum socorro, ninguém questionou os indícios do desaparecimento. Ontem ela havia escrito em um guardanapo de papel, na padaria em que habitualmente tomava seu café, no intervalo

do trabalho num escritório onde nenhum funcionário possui um rosto específico: “Eu vou desaparecer de vez. Agora eu aceitei os fatos.” Jane Doe se levantou e foi embora. A moça que recolheu a louça que ela usou no lanche e que a via sem ver todos os dias leu a frase, enrugou a testa, ficou meio preocupada. Olhou ao redor e viu uma moça se afastando, mas não tinha certeza se era a mesma que estava sentada ali. Quis chamá-la, pois sentiu uma leve inquietação, mas a cliente silenciosa se misturou com os fregueses mais conhecidos da padaria e a atendente a perdeu de vista. Releu a frase, deu de ombros e pensou: “Deve ser uma bobagem.” O gato fugiu pela janela da cozinha, que ela deixava entreaberta para ele poder entrar e sair, quando a comida e a água afinal acabaram. Foi acolhido pela vizinhança que o alimenta e cuida com pena dele, que não tem ninguém por si. Jane Doe já está desaparecida há cinco dias quando termino de escrever isto, sabendo e tendo sentido todos os indícios de sua abdução. Volta e meia o gato retorna ao seu antigo lar, fica miando alguns minutos e cheirando a roupa da dona desaparecida. Ninguém mais se importa. Somente o felino sente a falta de Jane Doe.

Adriane Dias Bueno
nasceu em Rio Grande/RS, é casada e exerce a profissão de advogada. Participou de diversas antologias da Ed. CBJE em 2010 e 2012. Participou com “Crônica Transitiva”, na edição nº 34 da Revista Samizdat, e com o poema “Multiplamente”, na edição nº 36 desta mesma revista eletrônica. Publicou dois livros: “Casa de Ventos e Sussurros”, CBJE, 2010, e “Estranhamento”, Ed. Scortecci, 2012. Tenta rabiscar em dois blogs: www.avessasingularidade.blogspot.com.br e www.br392.blogspot.com.br. Pretende escrever por toda a vida.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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ficina
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Tradução

Versos Simples
José Martí
trad.: Henry Alfred Bugalho

Eu sou um homem sincero De onde cresce a palma. E antes de morrer quero Extrair meus versos da alma. Eu venho de todas as partes, E a todas as partes vou: Arte sou entre as artes, E nos montes, monte sou. Eu sei os nomes estranhos Das ervas e das flores, E dos mortais enganos, E de sublimes dores. Eu vi na noite escura Chover sobre minha cabeça Os raios de luz pura Da divina beleza.

Asas vi nascer nos ombros Das mulheres graciosas: E sair dos escombros, Voando as mariposas. Vi viver um homem Com o punhal ao costado, Sem dizer jamais o nome Daquela que o havia matado. Rápida como um reflexo, Duas vezes à alma vi, duas: Quando morreu o pobre velho, Quando ela me disse adeus. Tremi uma vez – na relha, Na entrada da vinha, – Quando a bárbara abelha Picou na fronte minha menina.

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Gozei uma vez, de tal sorte Que gozei como nunca: quando A sentença de minha morte Leu o alcaide chorando. Ouço um suspiro, através Das terras e do mar, E não é um suspiro. É Que meu filho vai despertar. Se dizem que do joalheiro Tome a joia melhor, Tomo a um amigo sincero E ponho de lado o amor. Eu vi a águia ferida Voar no azul sereno, E morrer em sua guarida A víbora do veneno. Eu sei bem que quando o mundo Cede, lívido, ao descanso, Sobre o silêncio profundo Murmura o arroio manso.

Eu pus a mão ossuda De horror e júbilo hirta, Sobre a estrela apagada Que caiu frente a minha porta. Oculto em meu peito bravo A pena que me fere: O filho de um povo escravo Vive por ele, cala e morre. Tudo é bonito e constante, Tudo é música e razão, E tudo, como o diamante, Antes de luz é carvão. Eu sei que o néscio se enterra Com grande luxo e grande pranto, – E que não há fruto na terra Como o do campo-santo. Calo, e entendo, e me quito A pompa do rimador: Prendo a um arbusto murcho Minha capa de doutor.

José Martí
(Havana, 28 de janeiro de 1853 — Dos Ríos, 19 de maio de 1895) foi um político, pensador, jornalista, filósofo, poeta e maçom cubano (iniciado em 1871 no Grande Oriente Lusitano Unido, atual Grande Oriente Lusitano), criador do Partido Revolucionário Cubano (PRC) e organizador da Guerra de 1895 ou Guerra Necessária. Seu pensamento transcendeu as fronteiras de sua Cuba natal para adquirir um caráter universal. Em seu país natal, também é conhecido como «El apóstol».

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Poema 6
Lembro-me como eras no último outono. Eras a boina cinza e o coração em calma. Em teus olhos pelejavam as chamas do crepúsculo E as folhas caíam na água de tua alma. Agarrada em meus braços como uma trepadeira. As folhas recolhiam tua voz lenta e calma. Fogueira de estupor que em minha sede ardia. Doce jacinto azul retorcido sobre minh ’alma. Sinto viajar teus olhos e está distante o outono: boina cinza, voz de pássaro e coração de casa até onde emigravam meus profundos anseios e caíam meus beijos alegres como brasas. Céu desde um navio. Campo desde os cerros. Teu recordo é de luz, de fumo, de estanque em calma! ­ Mais além de teus olhos ardiam os crepúsculos. Folhas secas de outono giravam em tua alma. (Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)

Tradução

Pablo Neruda

trad.: Henry Alfred Bugalho

Pablo Neruda
(Parral, 12 de Julho de 1904 — Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno, bem como um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX e cônsul do Chile na Espanha (1934 — 1938) e no México.

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O Pássaro
No silêncio transparente o dia repousava: a transparência do espaço era a transparência do silêncio. A imóvel luz do céu sossegava o crescimento das ervas. Os insetos da terra, entre as pedras, sob a luz idêntica, eram pedras. No tempo no minuto se saciava. Na quietude absorta se consumava o meio-dia. E um pássaro cantou, delgada flecha. Peito de prata ferido vibrou o céu, se moveram as folhas, as ervas despertaram... E senti que a morte era uma flecha que não se sabe quem dispara e num abrir os olhos morremos.

Tradução

Octavio Paz

trad.: Henry Alfred Bugalho

Octavio Paz
(Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990. Escritor prolífico cuja obra abarcou vários gêneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos.

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Lua Maligna
Leopoldo Lugones
trad.: Henry Alfred Bugalho
Com pérfido aparato De amorosa fadiga, Luz seu ouro na intriga Poetas, seu recato Não passa de sua liga; Evite que os consiga Seu fácil celibato. Seu doce Shakespeare canta Sua distinção de infanta de laranja; Mas, quando sua alma aduna Com Julieta infeliz, Swear not by the moon, diz: “Não jurei pela lua”…
http://www.flickr.com/photos/aigle_dore/6225531455/

Tradução

E no olho do gato.

Leopoldo Lugones
(13 de Junho de 1874 — 18 de Fevereiro de 1938) foi um escritor e jornalista argentino.

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As Ruas
Jorge Luis Borges
trad.: Henry Alfred Bugalho
As ruas de Buenos Aires já são minhas entranhas. Não as ávidas ruas, incômodas de turba e alvoroço, mas as ruas enfadadas do bairro, quase invisíveis de habituais, enternecidas de penumbra e de ocaso e aquelas mais afora alheias de árvores piedosas onde austeras casinhas apenas se aventuram, abrumadas por imortais distâncias, a perderem-se na funda visão do céu e da lhanura. São para o solitário uma promessa Porque milhares de almas singulares as povoam, únicas diante de Deus e do tempo e sem dúvida preciosas. Até o Oeste, o Norte e o Sul se hão despegado – e são também a pátria – as ruas; oxalá nos versos que traço estejam estas bandeiras. (Fervor de Buenos Aires [1923])

Tradução

Jorge Luis Borges
(Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.

http://www.flickr.com/photos/larrymyhre/5959440184/

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Teoria Literária

A Maldição
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Henry Alfred Bugalho

da Língua Portuguesa

Qualquer escritor sabe, ou pelo menos deveria saber, que um título pode mudar toda a recepção de seu texto.

Pessoa, arrisco-me a dizer que “a minha pátria é a língua portuguesa”. Não há como escapar disto: somos moldados por nossa família, pelo país Um título como “A Maldição da Língua Portuguesa” é destes que atrai- no qual nascemos, pela escola, mas rá todos os tipos de revoltados, profes- também pela língua que falamos, pois sores de português e outros escritores, é através dela que apreendemos o com sete pedras na mão, prontos para mundo e por intermédio dela que nos expressamos. linchar o heresiarca. Então, passado o furor inicial, é hora de botar panos quentes e tentar esclarecer o mal-entendido (?).
A Benção

Já tentei escrever alguns contos em inglês e traduzir outros, mas é antinatural. O português está em minhas veias e em minha mente, é a essência de quem sou como escritor, não há alternativa, é um caminho de via única. Admiro aqueles escritores como Nabokov ou Beckett, que adquirem competência e maestria suficiente em outro idioma para serem capazes de escrever romances em inglês ou francês. Acredito que sejam necessárias décadas, pelo menos para mim, vivendo e convivendo com falantes de outro idioma, para um dia adquirir tal habilidade. O português está enraizado dentro de mim, fatal e inevitavelmente. Todavia, literariamente, o português é uma maldição.

A língua portuguesa é belíssima e, sonoramente, talvez seja uma das mais agradáveis. Há seis anos que moro fora do Brasil, e se há uma sensação que eu gostaria de ter pelo menos uma vez na vida, é a de ouvir o português com o ouvido que os gringos o escutam. Os americanos são fascinados pela Bossa Nova e nos dizem que o português brasileiro é como se estivéssemos cantando, talvez porque a Bossa Nova é quase como se os cantores estivessem falando com este jeito malemolente do brasileiro. Já os argentinos são deslumbrados com o Brasil e muitos arriscam um português rudimentar com sotaque brutal. Dizem que é uma língua linda e são fãs da Xuxa e da Daniela Mercury. A rivalidade conosco é somente no futebol mesmo, de resto, eles adoram e consomem quase tudo que sai do Brasil e, quando podem, embarcam nas férias de verão para algumas das praias catarinenses. O português realmente é uma língua linda e, assim como F ­ ernando

A Maldição

Somos a ilha portuguesa na América Latina e Portugal é a ilha portuguesa na Europa. Somando todos os países falantes de português no mundo somos 236 milhões, a sexta língua mais falada no planeta e oficial em nove países, o que não seria nada desprezível se a maior parte destes países não fosse atrasada, pobre e com um número pequeno de leitores potenciais. ­

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Além disto, não existe unidade entre estas nações, ao ponto de o português falado em outros países chegar a ser, em alguns casos, quase incompreensível entre si. As variações históricas e de colonização criaram vertentes deste idioma, com vocabulários próprios e até uma ortografia diferente, que uma medonha reforma ortográfica tentou unificar, sem sucesso até o momento. Temos grandes autores canônicos, sem sombra de dúvida, como o próprio Fernando Pessoa já mencionado, que ouso afirmar ser o melhor escritor em português de todos os tempos e um dos maiores do mundo também. Há Camões, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e o ­ nosso único prêmio Nobel, Saramago. Esta lista é imensa, eu lhe asseguro, mas somente para nós, falantes de português, porque fora de nossas fronteiras, fora de nossa pátria linguística, pouquíssimos deles são conhecidos, e muitos menos ainda os lidos. Os únicos autores realmente presentes no exterior, isto onde quer que você ponha os pés, são Paulo Coelho e Saramago. O primeiro, ainda a maior vergonha para a intelectualidade brasileira, é um fenômeno inquestionável de vendas. Seus enredos simplórios, a escrita pouco rebuscada e os temas espiritualizados atraíram uma legião de fãs e cruzaram as fronteiras do Brasil, quase num projeto de dominação global. As pessoas leem Paulo Coelho e se sentem bem consigo próprias, esta é a natureza do que ele escreve e imagino que seja parte do que o tornou famoso. São poucos os que gostam de ler, ou ver um filme, para se sentirem

mal, para ficarem desconfortáveis, para se angustiarem, ou serem tomadas pelo “desassossego”. Num mundo como o nosso, tão violento e sem esperanças, talvez muita gente necessite deste alento, falso suponho, de encontrar respostas na Literatura: que nem tudo está perdido, que existe algum sentido e que podemos ser felizes. Já Saramago, porque um prêmio Nobel nas costas pode catapultar a carreira e as vendas de qualquer escritor, mesmo que a escrita dele seja a extrema oposta da de Coelho, densa, inquietante, confusa e que exige grande esforço do leitor. Excetuando estes dois nomes, e algumas publicações esporádicas por editoras ou por universidades estrangeiras, a língua portuguesa praticamente inexiste fora dos países lusófonos. E neste ponto estamos muito atrás dos países hispânicos da América Latina, e também de países com muito menos falantes do que nós, como a Alemanha, a Itália, ou o Japão, mas que proporcionalmente possuem um público leitor muito superior ao nosso. E também corremos atrás de paisotes, como a Irlanda, com vários grandes autores reconhecidos mundialmente, quatro prêmios Nobel de Literatura, vindos de uma ilha com menos de 5 milhões de habitantes, mas que falam inglês, a língua hegemônica em nossos tempos. Mesmo assim, uma língua literária não se faz através de seu número de falantes, mas através de seu número de leitores de fato. E some-se a isto uma educação precária, desde as primeiras letras, uma escolha equivocada de autores extemporâneos no ensino da Literatura em

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língua portuguesa, famílias sem hábito de leitura, escritores sem hábito de leitura (o que para mim é o mais surpreendente), e um mercado literário totalmente provinciano e colonizado, então é possível ter um vislumbre da maldição que a língua portuguesa é na vida de seus escritores. Escrevemos mal, escrevemos para poucos, escrevemos sem perspectivas algumas de publicação, e se o sucesso um dia ocorrer, será localizado regionalmente e quase insignificante. A nossa língua é belíssima, repito, mas ser um escritor de língua portuguesa é praticamente um suicídio

literário. Pois uma obra sem leitores não existe. Resta-nos pouco a fazer... Continuaremos escrevendo, uma letra após a outra, palavra após a outra, construindo frases, parágrafos, páginas, livros, sempre insuflados por esta esperança que algum destes poucos leitores desta nossa pátria da língua portuguesa deite seus olhos sobre nossos escritos, e nos alegraremos genuinamente quando isto ocorrer.

Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, “O Covil dos Inocentes”, “O Rei dos Judeus”, da novela “O Homem Pós-Histórico”, e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca” e do “Nova York, Bairro a Bairro”, cidade na qual morou por 4 anos, e do “Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!”. Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires e outra de oito meses na Itália, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry Alfred Bugalho

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Artigo

O Download de Livros
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Claudiomiro Machado Ferreira

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De tempos em tempos precisamos nos deparar com a realidade, mesmo que ela seja virtual. Um fato do qual não podemos fugir é o de milhares de sites disponibilizarem no mundo virtual livros digitados ou digitalizados. Vários deles o fazem gratuitamente, mas também há os que cobram pelo download. Direta ou indiretamente essa prática atinge de forma negativa a todos. Os mais prejudicados acabam sendo as editoras e os autores. Não há como negar: todo site que libera, para download, livros sem autorização dos detentores dos direitos patrimoniais comete um ato ilícito, ou seja, uma ação contrária à lei e que resulta dano a outrem. Um grande esforço para combater a prática do download ilegal tem sido feito pela Associação Brasileira dos Direitos Reprográficos, ABDR (http://www.abdr.org.br/). Segundo o site Aristoteles Atheniense Advogados (http://www.atheniense.com.br/), só em 2010, no mês de fevereiro, foram localizados 2.203 links que ofereciam download ilegal de livros na internet. Destes, 2.151 foram retirados do ar depois de serem detectados pela entidade. De todos os links registrados no mês, 2.144 foram localizados após buscas da ABDR, outros 59 foram denunciados. Desde que começou a fiscalização em agosto de 2009, setembro de 2010 havia sido o mês recorde, com 3.914 links detectados. De janeiro a junho de 2010, 24.365 mil sites para download ilegal de livros no Brasil foram identificados, com 92,4%

deles (22.524 mil) sendo removidos. Esta ação resultou da campanha Combate à Pirataria Digital, que teve ­ seu próprio departamento instalado na segunda metade de 2009, resultado de uma parceria entre a ABDR e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, SNEL (http://www.snel.org.br/). Uma das alegações de quem defende a disponibilização e o download de livros na internet se baseia em uma corrente que advém dos Estados Socialistas, que adotaram a ideia de que o Direito Autoral era um direito da coletividade. Se nenhuma criação é em verdade original e sofre ou sofreu alguma influência, então, o resultado da criação deveria pertencer ao meio, ou seja, à coletividade. Sendo de todos, deveria retornar a todos. Esse conceito foi reavivado e tem em Lawrence Lessig (http://www. lessig.org/), criador das licenças Creative Commons, seu maior ex­ poente na atualidade. Já a Cultura Livre é um movimento social que se baseia na liberdade de distribuir, modificar trabalhos e obras criativas. No Brasil a Cultura Livre (http://www.culturalivre.org.br/) tem como seu difusor a Fundação Getúlio Vargas, FGV (http://portal.fgv. br/). Creative Commons (http://creativecommons.org.br/), por sua vez, é uma organização não governamental sem fins lucrativos voltada a expandir a quantidade de obras criativas disponíveis, através de licenças que permitem a cópia e compartilhamento com menos restrições. Os mais sinceros apenas dizem

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que não querem pagar e que não estão nem aí para os autores ou editoras. Querem apenas ter acesso ­ e ler. Não se importam com os aspectos que envolvem a produção literária como um todo. Infelizmente, muitos têm distorcido os conceitos de Lessig e do movimento Cultura livre para seus propósitos. Desses aspectos que envolvem a produção literária podemos citar os esforços dos autores em pesquisar e produzir, os custos das gráficas, das editoras e das distribuidoras e os ganhos (lícitos) advindos da venda dos livros. Ganhos estes que em vários casos são usados para custear ações assistenciais, como é o caso de várias instituições espíritas que sobrevivem dos direitos patrimoniais de livros cujos direitos foram a elas doados. Uma destas instituições é o Grupo Espírita Emmanuel, GEEM (http://www.geem.org.br/), que de tão prejudicada por downloads ilegais de seus livros, obrigou-se a divulgar um Comunicado cujo título é Violação de Direitos Autorais, onde lamenta o ocorrido, descreve as dificuldades de manter sua produção e chama a atenção para o uso que faz dos recursos das obras que edita. Analisando a questão do GEEM, o Prof. Jáder Sampaio levantou importantes considerações sobre a disponibilização e download de livros espíritas, em particular, e que se aplicam a livros em geral. Em seu blog Espiritismo Comentado (http:// espiritismocomentado.blogspot.com. br/) Sampaio considera sete aspectos. Destes, destacamos como o mais

importante o perigo de uma obra mal digitada. Sampaio é uma dessas pessoas que publicou um livro (Voluntários, Ed. UNIFRAN/EME, 248 p., R$ 28,00) e doou os direitos para uma instituição, daí entende-se o apoio que dá ao GEEM. Como aspectos legais inquestionáveis podemos destacar a Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/L9610.htm), que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais. Nela temos: o conceito do termo “contrafação”, ou seja, a reprodução não autorizada (sem definir se física ou digital); que são obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro; e, que depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, para reprodução e distribuição (novamente sem fazer alusão ao suporte, se físico ou digital). Já do Código Penal (http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848. htm) podemos destacar os artigos que tratam dos crimes contra a propriedade imaterial e intelectual. Do artigo 184 ao 186 estão descritas as ações e penas para quem violar os direitos do autor, sejam reprodução, depósito ou oferecimento ao público. As penas podem ser de detenção ou reclusão e podem variar, dentro destas, de 03 (três) meses a 4 (anos). A aplicação de multa também é prevista neste código.

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Quem considerar exagerada a penalidade para o download pode analisar o magnífico texto de Valdomiro Soares, Os Perigosos Rumos da Pirataria, publicado no Jornal do Comércio, de Porto Alegre, em 1 de agosto de 2012, e disponível para leitura on-line no endereço eletrônico http://jcrs.uol.com.br/site/noticia. php?codn=99894. Nele são expostos todos os prejuízos que a pirataria proporciona. Entre estes estão os prejuízos financeiros, qualitativos e de desemprego. Segundo Soares a Polícia Internacional, Interpol, definiu a pirataria como o Crime do Século, pois esta movimenta cifras superiores ao tráfico de drogas, entre US$ 500 e US$ 600 bilhões anualmente. Se o consumidor de drogas sustenta todo o tráfico atrás de si, o violador individual de direitos autorais, também. O conceito de Crime Menor ou de Crime de Pequena Monta não pode ser aplicado nesses casos, pois receptação de roubo e apropriação indébita também tem punições já previstas. Assim, defendemos penalidades para todos esses casos, apesar do consultor jurídico da ABDR, Dalízio Barros, afirmar em uma reportagem de um portal de

notícias que o usuário não é punido se baixar um livro digital ilegal, mas sim quem o publicou na web. Defensores que somos dos Direitos Autorais em sua integralidade apoiamos o GEEM, mas acreditamos que ele deve ir além, validamos o que diz o Prof. Sampaio e convocamos a todos, autores ou não, para que denunciem os casos de disponibilização de livros. Para isso a ABDR disponibiliza os endereços eletrônicos copyrigth01@abdr.org. br e copyrigh02@abdr.org.br, mas as denúncias também podem ser feitas através do formulário on-line acessível em http://www.abdr.org.br/ site/denuncie.asp. O fornecimento de dados pessoais não é obrigatório e a ajuda prestada será muito valiosa, pois como afirma a própria ABDR, “o respeito ao direito autoral é fundamental para ampliar a cultura, a educação e a circulação do conhecimento de um país.”

Natural de Pedro Osório/RS, reside em Rio Grande/RS e trabalha como servidor público em São José do Norte/RS. Publicou a tradução História da Liberdade de Pensamento pela Editora da UFPel/RS, escreveu o livro Figuras & Vícios de Linguagem e o texto As Bibliotecas Públicas Municipais e a Administração Pública Direta, publicado na Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, RDBCI, da UNICAMP. Traduziu o texto Para Falar e Escrever Bem publicado na Revista Literária SAMIZDAT. Desde 04 de setembro de 2012 é parceiro da Empresa VILAGE Marcas e Patentes. Solicitou inscrição no Painel de Colaboradores do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, ligado ao Ministério da Justiça. Ministra palestras, presta consultoria e assessoria na área de Direitos Autorais e Registro de Obras. Edita livros para terceiros e o blog Direitos Autorais e Registro de Obras, acessível em http://direitosautoraiseregistrodeobras.blogspot.com.

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Crônica
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Antonio Fernando Sodré Júnior

AS BOAS-VINDAS
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“Não sejam medíocres...” Entre os discursos que não conseguiram marcar algo em minha consciência, a não ser, o diálogo de negação e entusiasmo de uma professora de literatura brasileira, aquele conselho e afirmação premeditada de um veterano, deixou-me pensativo o dia todo. Aquele período simples, forma imperativa de pouco mais de dois segundos, deixou-me perplexo. Eram as boas-vindas a mim, calouro, sobretudo na vida. A mediocridade... Todos fugimos dela. Alguns a têm como simplicidade, mas não é isso. Não se iluda ou se engane dessa forma. Medíocre é o meiotermo, o que fica entre o bom e o mau, passível de desprezo, de pouca expressão, mediano, o comum. A simplicidade abarca muitos meandros, menos o comum. Drummond, quem me ensinou o que é simplicidade, é tudo, menos comum. Até os versos que não gosto do itabirano, têm esse aspecto de novo e inconfundível. Talvez por dentro, já existisse em mim um fracasso que é apenas sentido, a dúvida, o medo. O talento existe dentro e fora de nós. Dentro, porque inteligência é aptidão; e fora, porque necessita ser estimulada. O fracasso surge quando acreditamos ser incapazes. Daí, aquele choque. Tinha, então, um desafio duplo: vencer o preconceito de mim mesmo e construir uma identidade feita até então de retalhos de personalidade, e conseguir ser notado naquela grande multidão de seres ávidos pelo sucesso, fosse ele qual fosse.

O desafio imediato daqueles que adquirem alguma maturidade é, mormente, ser feliz. Apenas isso: ser feliz. Pelo menos, é o que a maioria diz e o que todos os pais desejam aos seus filhos. A felicidade é talvez o maior desafio de todos, porque abarca mundos, desejos, sonhos, que também pertencem a outras vidas. A grande preocupação é a idealização desse sentimento ou estado, que possui significados muito relativos. Eu posso ser feliz sendo medíocre (ou não?). Minha noção de felicidade ou sucesso pode ser o comum: uma promoção, um desconto em alguma compra, um beijo do marido ou da esposa ao chegar do trabalho... Nada mais que a quietude, a perenidade do sossego. Sucesso e felicidade são ideias individuais. E, muitas vezes, andam de mãos desunidas por uma alameda de curta extensão e intensa rotatividade. Pode-se alcançar o sucesso e não a felicidade; ou vice-versa. Nesse caminho-metáfora, que uso para significar a vida, esbarramos em alguns álamos, ultrapassamos a velocidade permitida, até encontrarmos o ritmo certo: aquele que bate em descompasso ao que não é próprio de nós mesmos; acharmo-nos no meio de tantos ritmos ou inventarmos uma nova musicalidade. E ao final dos dias de incerteza, podermos ouvir em paz e tranquilos a saudação de nós para nós mesmos: seja bem-vindo! Eu estava lá, recordo-me, presente e ausente de tudo. É uma das memórias mais férteis que tenho...

Antonio Fernando Sodré Júnior nasceu em 1982, em São Luís do Maranhão, onde reside. Começou a escrever na adolescência, incentivado por professores e amigos, mas apenas em meados de 2011 começou a se dedicar mais ao fazer literário. É formado em Letras e tem textos publicados em diversas antologias e coletâneas.

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Crônica

Ao vivo
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Leandro Luiz

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Existe, sim, esperança para uma vida melhor. E é para lá que eu vou. Quero ir para onde estão as promessas dos políticos, andar entre pessoas felizes, sem trânsito, sem estresse, onde tudo funciona perfeitamente. Quero poder acordar ao som dos pássaros em uma enorme cama, sem me preocupar em arrumar os cabelos ou com o meu hálito. Quero depois tomar um belo café da manhã com uma mesa farta de guloseimas, acariciando meu lindo Golden Retriever. Quero sair de casa e, com apenas o cheiro do meu perfume, vou atrair as mulheres mais gostosas do bairro. Em seguida, quero pegar meu carro, ou melhor, meu luxuoso sedan 3.0 sport e percorrer estradas, ruas e avenidas, tendo à frente apenas o infinito. Vou sujá-lo sem dó e, por incrível que pareça, ele continuará espetacular. É para esse lugar que eu quero ir. Lá, vou poder curtir uma praia, onde todos os dias fazem sol, a cerveja está sempre gelada e o bronzeador nunca falha. Vou rir, Leandro Luiz

vou sonhar, vou gargalhar. Serei bem atendido em bancos, não enfrentarei filas em restaurantes, a internet nunca vai cair. Quero tomar milk shake e emagrecer sete quilos por mês. Quero ter o prazer de fritar comida sem óleo e ainda vou elogiar o sabor. O lanche vai vir bem arrumado na bandeja. O celular terá sinal. Vou fazer perguntas inusitadas para meus amigos sem me envergonhar: como anda seu intestino? Quero pôr um fim à minha calvície. Terei abdômen definido. Ficarei bem com roupas listradas, com roupas xadrez, sem roupas. Esse lugar não é sagrado, mas promete milagres. Finalmente, o meu cartão de crédito vai me trazer felicidade. Não terei mais que ligar todo mês no banco ameaçando cancelá-lo. Essas são algumas das leis que fazem esse mundo funcionar tão bem. Tudo é como você queria. Não, não é minha imaginação. Você também pode vir para cá e viver o que estou vivendo agora, basta não desligar o seu televisor. Agora, vamos lá. Sente-se. O show já vai começar.

31 anos, publicitário e, nas horas vagas, escreve sobre tudo, todos e o que acha ser interessante. Entre seus trabalhos literários, a crônica “Vamos fazer compras?” foi eleita pela Academia Jundiaiense de Letras uma das melhores crônicas da cidade de São Paulo, em 2011. Nesse mesmo ano, a crônica “Chega de au-au” foi considerada como destaque nacional no XVI Concurso Literário Internacional.

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Poesia

o cheiro inconfundível

da terra do porão
Volmar Camargo Junior
senti nele um cheiro inconfundível de terra não de terra ao ar livre ou terreiro ou pátio era o cheiro do porão da casa onde cresci onde descobri o pudor e o medo dos mortos a sensação de romper com as vigilâncias cheiro da escuridão das coisas esquecidas por sabe lá quantas famílias antes da minha foi por uns momentos que o desejei quis ter a fragilidade de seus ossos e músculos cedendo ao meu abraço a discreta penugem branca e resistente no contorno de sua cabeça em meus dedos quis beijá-lo perceber com a boca a textura do seu rosto eu desejei naquele homem velho os anos que lhe faltam para a morte com a mesma culpa da primeira masturbação quis conhecer como haveria de ser o odor de seus humores ou que gosto poderiam ter seus lábios sua língua sua glande eu o desejei na umidade e escuridão de minhas memórias sozinho com a luz de férias escolares entrando pelos buracos onde houve uma fechadura eu desejei a mim sentindo-me jovem fodendo-me velho saber quão feliz serei quando meus músculos forem frágeis e o cheiro de minha pele trouxer a alguém a lembrança de porões esquecidos

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Poesia

as regras para conservar a saúde
Volmar Camargo Junior
a assepsia nos dá boas razões para continuar vivendo ora vejam tudo é potencialmente doentizável logo para tudo há um remédio
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a alegria está em entregar-se avidamente aos prazeres da pesquisa médica compreender todas as etapas do processo e dar nomes a cada uma delas entendendo como cada partícula da existência é afetada em que período do ciclo e por que agente causador de tais males abstrusos a administração parenteral das defesas permite-nos abrir um sorriso largo nas injeções de uma liberdade docemente hipócrita para o que nos faz tão incorruptíveis e imunes a quase tudo ah, belo é o estado da arte dessa coisa higiênica que se tornou a vida

Volmar Camargo Junior
V ., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros, professor não praticante, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio, O balcão das artes impuras e Verbo. Escreve agora o Pragas Urbanas Renitentes. Seu primeiro livro em papel é O Balcão das Artes Impuras (Multifoco, 2012).

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Projeções
Priscila Lopes

Poesia

Duas luas me encaram; dentro delas, um eu ausente que sente, às vezes ignora a palidez das horas – em que viagem te perde aquele que te segue? Estou pensando. Quase sempre é dia. Quando noite eu não tinha esses olhos enluarados, essa boca de tinta. Quando noite eu rezava o que tinha aprendido, e o que tinha aprendido nunca fora uma lição. Eu não. Nas noites de chuva lembro-me de minha mãe.

Priscila Lopes
(Florianópolis/SC) nasceu ao final do inverno de 83. Foi destaque em concursos e seletivas literárias, como o Prêmio Canon de Poesia e o Concurso de Contos Luís Jardim, promovido pela prefeitura de Recife. Em 2009 teve seu conto “O intangível” publicado na Revista Cult (138). Mais adiante foi contemplada com a Bolsa para Autores com Obra em Fase de Conclusão, recebida da Biblioteca Nacional com a qual pôde publicar seu primeiro livro de contos “Uns traços, todos imponderáveis”. Organizadora da coletânea nacional “XXI Poetas de Hoje em Dia(nte)”, publicada pela editora Letras Contemporâneas com apoio do FUNCULTURAL/SC. FanPage: fb.com/priscilal0pes

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Resíduo
Vanessa Regina

Poesia

minimamente me despeço da tua habilidade
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em esculpir memórias. fui teu retrato de sonhos e me desfiz – cinzas no teu peito aberto – agora sou matéria envelhecida, um amor em desuso que nunca morre.

Vanessa Regina
alegretense, é Mestranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Tem poemas publicados em jornais locais como Gazeta de Alegrete, Em Questão e Zero Hora; e nas coletâneas “Tubo de Ensaio”(2005), “I Concurso de Poesia Amigos do Livro / Flipoços” (2010) e “Poetas de Pijama” (2012). Obteve premiação no “Concurso Literário Histórias Infantis General da Educação” (2004) e no “I Concurso de Poesia Amigos do Livro / Flipoços” (2010). Atualmente, reside em Rio Grande, escreve em seu blog pessoal Na Ponta da Língua (http://napontadalinguasa.blogspot.com.br) e colabora com a coluna Literatura de Quinta, no blog do Coletivo Fita Amarela (http://coletivofitaamarela.blogspot.com.br).

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A Rosa Glacial
Felipe Garcia de Medeiros
A flor glacial derrete sobre o país o percussor sombrio na mesa, jogamos cartas e poemas são as dez pragas do Egito os sete pecados capitais a voz do infinito sagaz, os prados de concreto, a paz, o olho secreto de Hórus, – a flor fervilha pelos poros e a multidão brilha como o outono deita a névoa sob suas folhas e a primavera rompe os botões no espaço “o parâmetro do desamparo da garganta dos jovens o sopro é o agito” ninguém vê senão grito na variedade do milagre, saímos da hipótese urram, tentam impedir, dão pimenta para Adão – dão vinagre para Cristo crucificam, bebem, riem nas estripulias, e o raio cai dos céus e o nosso reino se eleva a Deus elevando os grãos e os galhos às veredas das cinzas e da ressurreição corre nos pulmões embaralha cadeias e destrói em chamas os corações de palha

Poesia

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como o templo do sol ninguém vê senão atrito estamos aqui, amigo, segue o rito. Foucault finge libelos no gabinete infinito da sua escrita eo esquete de Maiakóvski agita o burguês na rua o povo mira os olhos contra o sol e nos esquecemos de abandonar o corpo para, no dia através da noite surgirmos, anônimos, como a brisa de outubro e atingir o tamanho dos demônios da desolação. Os tempos são frios e as horas obtusas doce dínamo dessa candura! junto ao líquido cálido destes tempos, desta fúria, dessa flor que se desfaz no ócio das esferas e gira sobre as sequelas, a perna que se estica no universo do panteão das estrelas, para abrir-se são homens que se empilham na cidade um a um somos nós (o homem só descansa quando vive ou após) as formigas se aglomeram nas curvas, mirmidões, não são peixes, insetos, bichos – é por isso que cada um se levanta do poente os trens, os ônibus, as luas, ninguém aqui está contente –
http://www.flickr.com/photos/marko_k/56830577/

e borra as paredes, os prédios,

Felipe Garcia de Medeiros
nasceu em Imperatriz, MA, em 1989. Formado em Letras pela UFRN e mestrando pela mesma instituição. Atualmente, mora no RN, Caicó. É autor do livro de poemas Frio Forte, publicado em 2012 pela Editora Multifoco. Poeta e professor de português do IFRN.

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Poesia

Dum poema escrito num apartamento qualquer
Vander Vieira

Saio da cama e vou até a cozinha: forço a vista para ver um pedaço de céu. Nesses apartamentos cubo-futuristas ver o céu se tornou um luxo. Nesses céus de concreto e asfalto viver em apartamentos se tornou um lixo. Há quem afirme que sem janelas a felicidade não penetra a casa. Pobres-diabos, esses homens todos encaixotados. Não há vestígios de corpos nem pedaços de céu ou de mar: faltam pedaços que completem pontes entre margens opostas. O céu não cabe em caixotes. Mas construtoras empreitam a felicidade.

(José) Vander Vieira (do Nascimento), mineiro do interior, 24 anos, residente em Vitória/ES. Jovem poeta, músico e estudante de Filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo, escreve no tumblr “O Caso é o Ocaso” (http://ocasoeocaso.tumblr.com/) e já escreveu para as revistas Samizdat (http://www.revistasamizdat.com/) e Desenredos (http://www.desenredos.com.br), além de contribuir com o programa “Poetas no Espaço – Poesia Coletiva” da Rede Cultura Jovem de Vitória.

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LONDRES
Cristina Garcia Lopes Alves haverá outra linguagem uma sílaba indizível para as coisas de ontem uma palavra que descreva
http://www.flickr.com/photos/_zahira_/4998545986/

Poesia

a ressonância a visão que antecedo: sob as asas de chumbo um hemisfério desigual de letras emparelhadas surge na superfície

Cristina Garcia Lopes Alves
nasceu em Leopoldina, MG, em setembro de 1965. É formada em Nutrição pela Universidade Federal de Viçosa/MG e, atualmente é professora do curso de Nutrição da Universidade Federal de Alfenas/MG. Tem um único livro de poemas, O Continente e outros poemas, publicado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura Murilo Mendes, da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora, cidade onde a autora residiu. Teve poemas publicados no jornal literário Poiésis, de Petrópolis/RJ, e na revista de literatura Jandira, de Juiz de Fora/MG.

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Concurso

Abaixo, os leitores terão o prazer de apreciar os 4 primeiros colocados de um concurso que movimentou o mundo virtual nos últimos dois meses: o I Concurso de Minicontos Autores S/A. Organizado por Lohan Lage Pignone, o concurso obteve mais de 700 inscritos. Após uma longa jornada, sob os olhares de jurados como André Sant’Anna, Leila Míccolis, Marcos Pasche e Paulo Fodra, quatro autores se destacaram e, nesta edição, serão publicados. Os minicontos, a seguir, foram produzidos durante o certame. Boa leitura!

Cinthia Kriemler (1º colocada no I Concurso de Minicontos Autores S/A) Título: Vestida para matar
No closet, separou seus números prediletos. Armani n° 36, Louboutin nº 38, Chanel nº 5, Taurus calibre 22.

Título: Fonte dos desejos
Na Fontana Di Trevi, jogou uma moeda por cima do ombro esquerdo, esticando com vírgulas, em tom de deboche, um pedido-mantra: "Que eu fique eternamente jovem, que meu peso nunca aumente, que meus seios jamais caiam.". Amanheceu manequim. Cinthia Kriemler é formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

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Leonardo Siviotti (2º colocado do I Concurso de Minicontos Autores S/A) Título: Natimorto
Apertou o pequenino cão contra o peito, como se faz com um bicho de pelúcia. Porque o cão, como um bicho de pelúcia, não tinha qualquer sinal de vida.

Título: O Abraço
Desconheciam-se até aquele dia. E, no entanto, quando os bombeiros finalmente abriram a porta do elevador acidentado, encontravam-se agarrados num fraternal abraço retorcido de seus corpos ensanguentados. Leonardo Siviotti nasceu no Rio de Janeiro em 1981. Foi premiado em concursos literários como Histórias de Trabalho, FC do B – Ficção Científica Brasileira, Prêmio Maximiliano Campos e Nelson Rodrigues & as Tragédias Cariocas Hoje, organizado pela Editora Nova Fronteira para contos inspirados em peças teatrais do autor. Além de publicar contos em coletâneas de vários desses concursos, participou do livro “Ficção de Polpa – Volume 2” e colaborou com textos para a revista Café Espacial e o blog Terroristas da Conspiração.

Ricardo Thadeu (3º colocado do I Concurso de Minicontos Autores S/A) Título: Mofina Mendes
Casou-se com um ricaço que lhe tirou das ruas. Um automóvel invadiu a calçada.

Título: Elo familiar
Depois do banho, pai e filha se sentiram mais sujos do que nunca.

Ricardo Thadeu (03/06/1989) é natural de Riachão do Jacuípe – Ba. Graduado em Letras com Língua Espanhola pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), onde também fez o curso de Especialização em Estudos Literários e atualmente cursa o Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural. Publicou os livros “D’ANTES” (2009), “durantes” (2010) e “Camisa de Marte” (2012), além do livreto “Cópia Oculta” (2011). Participa das coletâneas “O segredo da Crisálida” (2011), “Sangue Novo: 21 Poetas Baianos do Século XXI” (2011) e “Poesia.com” (2012). Foi 6º colocado no I Concurso de Poesia Autores S/A (2011). Participou, como escritor convidado, da 10ª edição da Bienal do Livro da Bahia. Site Oficial: http://www. ricardothadeu.com.br/

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Thomas Rodolfo Brenner (4º colocado do I Concurso de Minicontos Autores S/A) Título: Viúva ao revés
Rejeitado pelo diabo: “Cumpriste a pena em vida, meu caro”. Voltou de mala e cuia pra casa da diaba.
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Título: A amazona
A guerreira persegue um jovem pela campina. Ele tropeça em uma pedra e se estatela no chão. Ela salta da montaria e aperta seu pequeno pé sobre o peito do rapaz. A vulva é desvelada. Ela monta, agora, em sua presa e cavalga com violência. Saciada, ela retorna à aldeia. O gozo escorrendo pelas coxas. Do mancebo, pela garganta, escorre um gozo outro – rubro. A beldade e sua natureza bélica. Thomas Rodolfo Brenner nasceu em Curitiba (1982). Graduou-se em musicoterapia pela Faculdade de Artes do Paraná. Especializou-se em psicanálise pela Faculdade Dom Bosco. Em 2008, publicou um haicai na Folha de Santa Felicidade. No mesmo ano, contribuiu como letrista para a trilha sonora da peça “Um homem, uma casa e seus fantasmas” de Roberto Froes e Josemar Vidal Jr. Fez parte, em 2012, da antologia “Os Cem Melhores do TOC140 – Poesia no Twitter”, prêmio da Festa Literária de Pernambuco/Fliporto. Em 2013, publicou seu primeiro livro de poesias – “Desaforos, aforismos & outros foras” – pela editora Penalux.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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ficina
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Também nesta edição, textos de

Cristina Garcia Lopes Alves Priscila Lopes Tatiana Alves Joaquim Bispo Thomas Rodolfo Brenner Adriane Dias Bueno Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior Rafael F. Carvalho Rodrigo Domit Dayvson Fabiano Claudiomiro Machado Ferreira Cinthia Kriemler Edweine Loureiro Leandro Luiz Eduardo Macedo Felipe Garcia de Medeiros Lohan Lage Pignone Andréia Pires
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Silvana Ramos Vanessa Regina Setúbal Leonardo Siviotti Antonio Fernando Sodré Júnior Ricardo Thadeu Vander Vieira

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