You are on page 1of 164

1

P O R U M A O U T R A G L O B A L I Z A Ç Ã O ( d o p e n s a m e n t o ú n i c o à c o n s c i ê n c i a u n i v e r s a l ) M i l t o n S a n t o s Neste livro, Milton Santos propõe uma interpretação multidisciplinar do mundo contemporâneo, em que realça o papel atual da ideologia na produção da história e mostra os limites do seu discurso frente à realidade vivida pela maioria das nações. A tirania da informação e a do dinheiro são apresentadas como os pilares de uma situação em que o progresso técnico é aproveitado por um pequeno número de atores globais em seu benefício exclusivo. O resultado é o aprofundamento da competitividade, a produção de novos totalitarismos, a confusão dos espíritos e o empobrecimento crescente das massas, enquanto os Estados se tornam incapazes de regular a vida coletiva. É uma situação insustentável. O autor enxerga nas reações agora perceptíveis na Ásia, mas também na África e na América Latina e nos movimentos populares protagonizados pelas camadas mais pobres da população, a semente de uma evolução positiva, que deverá conduzir ao estabelecimento de uma outra globalização. A tônica desta hora é a mensagem de esperança na construção de um novo universalismo, bom para todos os povos e pessoas. Este novo livro de Milton Santos trata da globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade aberta ao futuro de uma nova civilização planetária. Os atores mais poderosos desta nova etapa da globalização reservam-se os melhores pedaços do Território Global e deixam restos para os outros. Mas a grande perversidade na produção da globalização atual não reside apenas na polarização da riqueza e da pobreza, na segmentação dos mercados e das populações submetidas, nem mesmo na destruição da Natureza. A novidade aterradora reside na tentativa empírica e simbólica de construção de um único espaço unipolar de dominação. A tirania do Dinheiro e da Informação, produzida pela concentração do capital e do poder, tem hoje uma unidade técnica e uma convergência de normas sem precedentes na história do capitalismo. O seu caráter globalmente destrutivo acaba porém sendo contraditório, levando à resistência parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos lugares . O velho otimismo do grande geógrafo brasileiro reaparece em relação às 2

cidades, como espaço de liberdade para a cultura popular em oposição à cultura midiática de massas, como espaço de solidariedade na luta dos de baixo contra a escassez produzida pelos de cima . A visão de uma nova horizontalidade na luta dos oprimidos contra a verticalidade dos opressores é comovedora e estimulante, já que conduz a uma nova utopia. Produz-se assim, diz ele, uma nova centralidade do social que constitui a base para uma nova política. Não podendo a esmagadora maioria consumir o Ocidente globalizado em suas formas puras (financeira, econômica e cultural), aumentará a resistência à dominação ultraliberal e consumista propagandeada pelas grandes organizações dos meios de comunicação de massas. A alienação tende a ser substituída por uma nova consciência, uma nova filosofia moral, que não será a dos valores mercantis mas sim a da solidariedade e da cidadania. A unificação da técnica e das normas instrumentais poderá servir então, dialeticamente, de trampolim para uma nova humanidade, para novos valores simbólicos que em sua interfecundação e espalhamento abra caminhos a uma nova civilização planetária. A História Universal seria então a da nossa humanidade comum e não mais a dos dominadores. M a r i a d a C o n c e i ç ã o T a v a r e s Milton Santos é geógrafo, professor emérito da Universidade de São Paulo, ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud em 1994 e autor de mais de 30 livros e 400 artigos científicos, publicados em diversos idiomas. 3

globalitarismo 22 A competitividade. Competitividade. a ausência de compaixão 22 O consumo e o seu despotismo 23 A informação totalitária e a confusão dos espíritos 24 Do imperialismo ao mundo de hoje 24 Globalitarismo e totalitarismos 25 9. O motor único 13 5. consumo.Sumário Prefácio 06 I . A violência estrutural e a perversidade sistêmica 26 O dinheiro em estado puro 27 A competitividade em estado puro 27 A potência em estado puro 27 A perversidade sistêmica 28 10. A tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico 18 A violência da informação 18 Fábulas 19 A violência do dinheiro 21 As percepções fragmentadas e o discurso único do mundo 21 8. I n t r o d u ç ã o G e r a l 0 8 1. A P r o d u ç ã o d a G l o b a l i z a ç ã o 1 1 Introdução 11 2. O mundo O mundo O mundo O mundo como fábula. Da política dos Estados à política das empresas 29 . A convergência dos momentos 13 4. Um período que e uma crise 15 I I I . U m a G l o b a l i z a ç ã o P e r v e r s a 1 8 Introdução 18 7. como perversidade e como possibilidade 08 tal como nos fazem crer: a globalização como fábula 08 como é: a globalização como perversidade 09 como pode ser: uma outra globalização 09 I I . A cognoscibilidade do planeta 15 6. A unidade técnica 11 3. confusão dos espíritos.

três definições da pobreza 33 A pobreza incluída 33 A marginalidade 34 A pobreza estrutural globalizada 34 O papel dos intelectuais 35 12. Em meio século. globalização e história sem sentido 31 As empresas globais e a morte da política 32 11. O que fazer com a soberania 36 4 .Sistemas técnicos. sistemas filosóficos 30 Tecnociência.

I V . O T e r r i t ó r i o d o D i n h e i r o e d a F r a g m e n t a ç ã o 3 8 Introdução 38 13. O espaço geográfico: compartimento e fragmentação 38 A compartimentação: passado e presente 39 Rapidez, fluidez, fragmentação 40 Competitividade versussolidariedade 41 14. A agricultura científica globalizada e a alienação do território 42 A demanda externa de racionalidade 42 A cidade do campo 43 15. Compartimentação e fragmentação do espaço: o caso do Brasil 44 O papel das lógicas exógenas 44 As dialéticas endógenas 45 16. O território do dinheiro 46 Definições 46 O dinheiro e o território: situações históricas 46 Metamorfoses das duas categorias ao longo do tempo 47 O dinheiro da globalização 47 Situações regionais 48 Efeitos do dinheiro global 49 Epílogo 50 17. Verticalidades e horizontalidades 50 As verticalidades 50 As horizontalidades 52 A busca de um sentido 53 18. A esquizofrenia do espaço 54 Ser cidadão num lugar 54 O cotidiano e o território 54 Uma pedagogia da existência 55 V . L i m i t e s à G l o b a l i z a ç ã o P e r v e r s a 5 7 Introdução 57 19. A variável ascendente 57 20. Os limites da racionalidade dominante 58 21. O imaginário da velocidade 59 Velocidade: técnica e poder 59 Do relógio despótico às temporalidades divergentes 60 22. Just-in-time versus o cotidiano 61

23. Um emaranhado de técnicas: o reino do artifício e da escassez 61 Do artifício à escassez 62 Da escassez ao entendimento 63 24. Papel dos pobres na produção do presente e do futuro 63 25. A metamorfose das classes médias 65 A idade de ouro 65 A escassez chega às classes médias 66 Um dado novo na política 67 5

V I . A T r a n s i ç ã o e m M a r c h a 6 8 Introdução 68 26. Cultura popular, período popular 68 Cultura de massas, cultura popular 69 As condições empíricas da mutação 70 A precedência do homem e o período popular 70 27. A centralidade da periferia 71 Limites à cooperação 72 O desafio ao Sul 72 28. A nação ativa, a nação passiva 74 Ocaso do projeto nacional? 74 Alienação da nação ativa 74 Conscientização e riqueza da nação passiva 75 29. A globalização atual não é irreversível 76 A dissolução das ideologias 76 A pertinência da utopia 77 Outros usos possíveis para as técnicas atuais 79 Geografia e aceleração da história 79 Um novo mundo possível 80 30. A história apenas começa 82 A humanidade como um bloco revolucionário 82 A nova consciência de ser mundo 83 A grande mutação contemporânea 83 6

. Somos muitíssimo gratos a todos os que colabo raram para esse diálogo e até mesmo àqueles que desconheciam estar participando de uma troca. mas sobretudo deseja alcançar o vasto mundo. O trabalho intelectual no qual ele assenta é fruto de nossa dedicação ao entendimento do que hoje é o espaço geográfico. Diferentemente de outros livros nossos. sua exp eriência em diferentes momentos do século e em diversos países e continentes é também a experiência do s outros a quem leu ou escutou. que leu o conjunto do manuscrito. quer também ser uma men sagem portadora de razões objetivas para prosseguir vivendo e lutando. Fábio Contel. levando. desde 1983. isto é. Tais livros enfocavam questões da sociedade. E é também. ao pequeno mundo dos colegas. Lídia Antongiov anni. dirigidas sobretudo à seara acadêmica. a forma individual de combinar o que existe e o que é vislumbrado: a própria definição do que co nstitui uma idéia. por isso. Não quer isso dizer que o autor imagine haver sozinho redescoberto a roda. Flávia Grimm. Sem dúvida. Dentre o s primeiros. Este livro resulta de um longo trabalho. árduo e agradável. o autor a fazer. dem onstrações sustentadas e ambiciosas. assim como as doutorandas Adriana Bernardes. verdadeiras teses. venho conduzindo no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo: minha incansável colaboradora. de algum modo. apesar das dificuldades da era presente. conferências.Prefácio Este livro quer ser uma reflexão independente sobre o nosso tempo. Mas. este livro também se dirige a estudioso s. q uantas vezes ociosas e até mesmo ridículas. Todo mundo s abe que esta se tornou quase uma obrigação de scholarship. Mas a originalidade é a interpretação ou a ênfase própria. A maioria grande dos seu s capítulos é inédita em sua forma atual. uma vontade de explicar os proble mas e dores do mundo atual. já que a academia gosta muito de citações. quero destacar os atuais companheiros do projeto acadêmico ambicioso qu e. Ci lene Gomes e Mônica Arroyo e os mestrandos Eliza Almeida. entrevistas à mídia. uma reescritura de aula s. artigos de jornais e revistas. e a professora doutora Maria Ângela Faggin Pereira Leite. doutora María Laura Silveira. a concessão das bibliografias copiosas. cada qual oferecendo um nível de discurso e a respectiva dificuldade. mas é também tributário de outras realidades e disciplinas acadêmicas. o leitor não encontrará aqui listagens copio sas de citações. um pensamento sobre os seus fundamentos materiais e políticos. o que dispensa a obrigação cerimonial das ref erências.

Essas agências não contribuíram diretamente para este trabalho. Aos colaboradores gratuitos. tanto é possível continuar a fazer do planeta um inferno. Rosa Ester Rossini e Ana Clara Torres Ribeiro. Sou. reprodução e manutenção da globalização atual. de outro lado. de um lado. Nossa insistência sobre o papel da ideologia deriva da nossa convicção de que. Letras e Ciências Humanas que me acolhe e estimula e particularmente ao Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental (Lapoban). de Souza. o que buscamos foi. conforme no Brasil estamos assistindo. A assistência da geógrafa Paula Borin outra vez mostrou-se valiosa. disseminação. uma palavra especial vai à geógrafa Flávia Grimm. Estes também incluem os cole gas Maria Adélia A. e quem preferir os últimos. isto é. com quem colaboro há cerca de 20 anos. apontand o suas linhas de fraqueza e de força. poderá imaginá-lo um otimista. sou também devedor pelas suas i ntervenções e sugestões. Ainda no capítulo dos agradec imentos. meus agradecimentos. Daí a relevância da política.Pauloe ao CorreioBraziliensepela autorização para republ icação de artigos meus na sua forma original ou modificada. Ao Departamento de Geografia da Facul dade de Filosofia. coordenado po r meu velho amigo Armen Mamigonian. A ênfase central do livro vem da convicção do papel da ideologia na produção. tratar da realidade tal como ela é. Sou grato à FolhadeS. Se alguém ler inicialmente ou separadamente os primeiros capítulos. como sempre. pode considerar o autor pessimista. Paula Borin e Soraia Ramos. uma novidad do nosso tempo. devo fa zer uma outra advertência. no prefácio ao seu livro Le Macroscope. sugerir a realidade tal como ela pode vir a ser. vão. muito sensível ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desen volvimento Científico e Tecnológico (CNPq). que. foi muito precio so. Esse papel é também. o estímulo recebido de minha mulher. Na realid ade. que teve a paciência de acolher os cansati vos ditados de manuscrito de que resulta este livro. Também. ainda que para os cét icos nosso vaticínio atual apareça risonho. e. ainda que se mostre pungente. encontrados em inúmeras viagens pelo país ou participantes de conferências. Ao contrário de um autor francês Joël de Rosnay. também. da arte de pensar mudanças e de criar as condições para to rná-las 7 . da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). também.Marcos Xavier. mas a produção intelectual é sempre unitária. Marie Hélène. como também é viável realizar o seu contrário. uma oba ou pesquisa sendo sempre um subproduto das de mais. diante dos mesmos materiais atualmente existentes. debates e congressos. Daí a necessidade de analisar seus princípios fundamentais. sugeriu aos seus leitores começar a leitura por onde quiserem.

.

efetivas. fundada na tiran ia da informação e do dinheiro. os temas ve rsados realçam as manifestações pouco estudadas do país de baixo. busca explicar por que a globalização atual é perversa. r aciocínio que se aplica também à própria periferia do sistema capitalista mundial. E se o que estiver mudando for o mundo? Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima. nos primeiros projetos de redação havia o intuito de ded icar um capítulo exclusivo à atividade intelectual genuína. É. uma espécie de conclusão. eficazes mas ainda pouco estudados. acarretando o desfalecimento da política feita pelo Estado e a imposição de uma política comandada pelas empresas. e o território. A terceira p arte. por meio da noção de esquizofrenia do território. exatamente. Este t ema já havia sido tratado de alguma forma em outras publicações e livros meus. sobretudo as finanças. Esta parte é constituída de seis capítulos. É essa idéia de limite à história atual que se impõe na quinta parte. Podem objetar-nos que a nossa crença na mudança do homem é injustificada. Aliás. sempre que a ocasião se levantava. porque esses ator es. das quais a primeira é a introdução. o papel do pensamento livre. Aqui. os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas. a emergência de novas variáveis centrais e o papel dos pobres na produção do presente e do futuro. a transição em marcha. tendo como atores principais os países subdesenvolvi dos e não os países ricos. A segunda inclui cinco capítulos e busca mostrar como se deu o processo de produção da globalização. são largamente presentes. nesta passagem de século. em filigrana aparecerá como constante o papel intelectual no mundo de hoje. isto é. A sexta parte. as transformações que a história ultimamente vem mostrando permitem ent rever a emergência de situações mais promissoras. pois. é ded icada ao que imaginamos ser. Todavia achei melhor discutir esse papel em diferentes momentos da redação. mostramos como o espaço geográfico constitui um dos limites a essa globalização perversa . em que são mostrados ao mes mo tempo os descaminhos da racionalidade dominante. formada por seis capítulos. na competitividade. desde a cultura até a política. Por isso. o indivíduo liberado participe das novas massas e não o homem acorrentado. A quarta parte mostra as relações mantidas entre a economia contempo rânea. Como acreditamos na força das idéias para o bem e para o mal nesta fase da história. o pensamento livre e não o discurso único. cuja centrali dade apresentamos como um novo fator dinâmico da história. dos qua is o último poderia também se incluir na parte seguinte. O livro é formado de seis partes. na confusão dos espíritos e na violência est rutural. que acreditamos não ser a globa lização atual .

8 .irreversível e estamos convencidos de que a história universal apenas começa.

sobre essa base material. porém. Seus fundament os são a informação e o seu império. Todos esses. que se aproveita do alargamento de todos os cont extos (M. De outro lado. A natureza do espaço. todavia. das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais qu e autorizam a precisão e a intencionalidade. devemos cons iderar a existência de pelo menos três mundos num só. são dados de um mundo físico fabricado pelo homem. e se põem ao serviço do império do dinheiro. visto como fábula. é abusivamente mencionado o extraordinário progresso das ciências e das técnicas. Explicações mecanicistas são. Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo veraz. 1999). insuficientes. em aldeia global p ara fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à contin uidade do sistema. cuja repetição. fundado este na economização e na monetarização da vi a social e da vida pessoal. O mundo como fábula. para todos. e o terceiro o mundo como ele pode ser: uma outra globalização. como perversidade e como possibilidade Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. A partir desse mito e do para aqueles que realmente podem viajar também se difund encurtamento das distâncias e a noção de tempo e espaço contraídos. cuja utilização. O m u n d o t a l c o m o n o s f a z e m c r e r : a g l o b a l i z a ç ã o c o m o f á b u l a Este mundo globalizado. O primeiro seria o mundo tal como nos f azem vê-lo: a globalização como fábula. há. Santos. Damos aqui alguns exemplos. permite qu e o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa. entretanto. a começar pela própria velocidade. Haveria nisto um paradoxo pedindo uma explicação? De um lado. erige como verdade um certo número de fantasias. o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações. É a maneira como. que encontram alicerce na produção de imagens e do imaginário. De fato. se produz a hi stória humana que é a verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era global izada. 1996) para consagrar um discurso único. acaba por se tornar uma base aparentemente sóli da de sua interpretação (Maria da Conceição Tavares. também. aliás. É como se o mundo se houvesse tornado.I -I N T R O D U Ç Ã O G E R A L 1 . referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria. por exemplo. o segundo seria o mundo tal como ele é: a globalização como perversidade. ao al cance da . Destruiçãonãocriadora. Fala-se. se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim apresentado é verdadeiro.

e. na verdade. ao serviço dos atores hegemônicos. as diferenças locais são aprofundadas. igualmente. na morte do Estado. mas o mundo se torna menos ante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Um mercado avassalador dito global é apresentado como laneta quando.mão. capaz de homogeneizar o p Há uma busca de uniformidad unido. mas o que estamos vendo é 9 . timulado. Enquanto isso. com insistência. tornando mais dist o culto ao consumo é es Fala-se.

Novas enfermidades como a SIDA se instal am e velhas doenças. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. graças aos progressos da informação. O m u n d o c o m o p o d e s e r : u m a o u t r a g l o b a l i z a ç ã o Todavia. diante da presença de uma ideologização maciça. M as. se forem postas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos. gostos. A isso se acrescente. a convergência dos momentos e o conhecimento do planeta. Parece que as condições históricas do fim do século XX ap ontavam para esta última possibilidade. a unici dade da técnica. a corrupção. podemos pensar na construção de um outro mundo. É nessas bases técnica s que o grande capital se apóia para construir a globalização perversa de que falamos acima. supostamente extirpadas. mediante uma globalização mais humana. raças. os cinismos. de fato. O salário médio tende a baixar. entre outras. a despeito dos progressos médicos e da informação. O m u n d o c o m o é : a g l o b a l i z a ç ã o c o m o p e r v e r s i d a d e De fato. Considerando o que atualmente se verifica no plano empírico. não estaríamos. em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil. fazem seu retorno triunfal. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais. a mistura de fil . Tais novas condições tanto se dão no plano empírico quanto no plano teórico. para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. O primeiro desses fenômenos é a enorme mistura de povos.seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes intere sses internacionais. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caract erizam as ações hegemônicas. A pobreza aum enta e as classes médias perdem em qualidade de vida. recolhidos numa lista interminável. podemos. como os egoísmo s. O desemprego crescente torna-se crônico. permitem indagar-se. A mortalidade infant il permanece. culturas. em primeiro lugar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. reconhecer um certo número de fatos novos indicativos da emergência de uma no va história. no lugar do fima da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presente s processos de globalização. Esses poucos exemplos. As bases materiais do período atual são. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presen te processo de globalização. em tod os os continentes. essas mesmas bases técnicas poderão servir a outros objetivos. segund qual a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações.

10 . é a produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores. Trata-se da existência de uma verdadeira sociodiversidade. ganham uma nova qu alidade em virtude da sua aglomeração exponencial e de sua diversificação. em detrimento do racionalismo europeu. o que permite ainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias. historicamente muito mais significativa que a própria biodiversidade.osofias. 1937). indicativo da po ssibilidade de mudanças. As massas de que falava Ortega y Gasset na primeira metade do século (Larebelióndelasmasas. Um outro dado de nossa era.

permitindo-lhe exercer sobre esta última uma verd adeira revanche ou vingança. A população aglomerada em poucos pontos da superfície da Terra constitui uma d as bases de reconstrução e de sobrevivência das relações locais. abrindo a possibilidade de utilização ao serviço dos homens. A universalidade deixa de ser apenas uma elaboração abstrata na mente dos fi lósofos para resultar da experiência ordinária de cada homem. um novo grande relato. de uma nova metanarrativa. em um mundo datado com o o nosso. se pode constatar a existência de uma u niversalidade empírica. que permite conhecer as possibilidades existentes e escrever uma nova histór ia.Junte-se a esses fatos a emergência de uma cultura popular que se serve dos meios técnicos antes exclusivos da cultura de massas. pela primeira vez na história do homem. afinal descoberta pe las massas. De tal modo. É sobre tais alicerces que se edifica o discurso da escassez. também. No plano teórico. Esse novo discurso ganha relevân cia pelo fato de que. a explicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de uma história concre ta. É isso. 11 . o que verificamos é a possibilidade de produção de um novo discurso. do sistema técnico atual.

aqui. Essas famílias de técnicas transportam uma história. que passaram a exercer um papel de elo entre as demais. Só que a globalização não é apenas a existência desse novo sistema de técnicas. o ancinho. a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história. Nunca. Há uma tendência a separar uma coisa da outra. como. há dois ele mentos fundamentais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política. aparece uma técnica isolada. analisando rapi damente alguns dos seus aspectos constitucionais mais relevantes. cada sistema técnico representa uma época. de certa foma. na história do homem. Ela é também o resultado das ações que asseguram a emergência de um mercado dito global. unindo-as e assegurando ao novo sistema técnico uma presença planetária. num dado momento. interpretações da história a partir da política.I I -A P R O D U Ç Ã O D A G L O B A L I Z A Ç Ã O I n t r o d u ç ã o A globalização é. A unidade técnica O desenvolvimento da história vai de par com o desenvolvimento das técnicas. por outro lado. A cada evolução técnica. de resto. a enxada. Em nossa época. No fim do século XX e graças aos avanços da ciência. Kant di zia que a história é um progresso sem fim. Para entendê-la. Ess e é o debate central. o único que nos permite ter a esperança de utilizar o sistema técnico contemp orâneo a partir de outras formas de ação. produziu-se um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação. Daí muitas interpretações da história a partir das técnicas. nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. enfrentar essa discussão. a qualquer fase da história. Isso poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. a convergência dos momentos . que constituem. uma famíl ia de técnicas. E. respo nsável pelo essencial dos processos políticos atualmente eficazes. Pretendemos. representado pela maisvalia globalizada. verdadeiros sistemas. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas r esulta nessa globalização perversa. Um exemplo b anal pode ser dado com a foice. o que se instala são grupos de técnicas. N a realidade. As técnicas se dão como famílias. o que é representativo do sistema de técnicas atual é a chegada . uma nova etapa histórica se torna possível. Os fatores que contrib uem para explicar a arquitetura da globalização atual são: a unicidade da técnica. o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. acrescentemos que é também um progresso sem fim d as técnicas. 2 . As técnicas são oferecidas como um sistema e realizadas combinadamente através do trabalho e das formas de escolha dos momentos e dos lugares de seu uso. É isso que fez a história.

a c onvergência dos momentos. por meio da cibernética. que antes não era possível. da informática. assegurando a simultaneidade das ações e. A técnica da informação assegura esse comércio. em todos os lugares. Por outro lado. acelerando o pr ocesso 12 . por conseguinte. permitindo.da técnica da informação. da eletrônica. Ela vai permi tir duas grandes coisas: a primeira é que as diversas técnicas existentes passam a se comunic ar entre elas. ela tem um papel determinante sobre o uso do tempo.

Tudo se ju nta e articula depois mediante a inteligência da firma. As técnicas características do nosso tem po. Na história da humanidade é a primeira vez que tal conjunto de técnicas envolve o planeta como um todo e faz sentir.histórico. a estrada de ferro instal ada em regiões selecionadas. O princípio de seletividade se dá também como princípio de hierarquia. aliás. Estas funcionam a partir de uma fragmentação. escolhidas estrategicamente. as outras não desaparecem. pois. com a intermediação da política. Na verdade. as técnicas não hegemônicas são hegemonizadas. isto é. tornando-se história. alcançava uma parte do país. têm uma influência marcante sobre o re sto do país. uma relação estreita entre esse aspecto da economia da globalização e a natureza do fenômeno técnico correspondente a este período histórico. As técnicas apenas se realizam. Agora não. instantaneamente. mas o novo conjunto de instrumentos passa a ser usado pelos novos ato res hegemônicos. Esse é um fenômen o novo na história das técnicas e na história dos territórios. outro na Malásia. o que é bem diferente das situações anteriores. Continuam existindo. A técnica da info rmação alcança a totalidade de cada país. Por outro lado. outro ainda no Paraguai. um ator de menor importância no período atual. o sistema técnico dominante no mundo de hoje tem uma outra característica. da política das empresas e da política dos Estados. Há. Ao surgir uma nova família de técnicas. na produção e no território. torna-se. Senão não poderia haver empresa transn acional. Antes havia técnica hegemônicas e não hegemônicas. como. mas é essa sua vocação. as empresas globais . a técnic não pode ser vista como um dado absoluto. mas não tinha uma influência direta determinante sobre o resto do território. enquanto os não hegemônicos continuam utilizando conjuntos menos atuais e menos pode rosos. sua presença. isto é. Cada lugar tem acesso ao acont ecer dos outros. por isso mesmo. Se a produção se fragmenta tecnica . que é também fundamento da ação dos atores hegemônicos. cont amina a forma de existência das outras técnicas. Isso. mas isto apenas é possível porque a técnica hegemônica de que falamos é presente ou passível de presença em toda a parte. direta ou indiretamente. a de ser invasor. Ele não se contenta em ficar ali onde primei ro se instala e busca espalhar-se. Quando um determinado ator não tem as condições para mobilizar as técnicas consideradas mais avançadas. mas como técnica já relativizada. presentes que sejam em um só ponto do território. conjunta ou separadamente. isto é. porém. Por exemplo. já que um pedaço da produção pode ser feita na Tunísia. Pode não o conseguir. hoje. porque todos os out ros lugares são avaliados e devem se referir àqueles dotados das técnicas hegemônicas. por exemplo. tal como usada pelo homem. mais atrasadas.

do outro lado. há. sem a mais-valia globalizada e sem essa unicidade do tempo. poder-se-ia dizer que o mercado global não existe como tal. Cada empresa comanda as respectivas operações dentro da sua respectiva topologia. princi pal responsável pela imposição a todo o globo de uma mais-valia mundial. que surge a possibilidade de existir uma finança universal. seria também impossíve l a atual unicidade do tempo.mente. Por outro lado. isto é. Essa unidade política do comando f unciona no interior das firmas. Há uma relação de causa e efeito entre o progresso técnico atual e as demais condições de implantação do atual período histórico. uma unidade política de comando. É a partir da unicidade das técnicas. a unicidade da técnica não teria 13 . mas não há propriamente uma unidade de comando do mercado globa l. Levando ao extremo esse raciocínio. enquanto a ação dos Estados e das instituições supranacionais não bas a para impor uma ordem global. Sem ela. da qual o c omputador é uma peça central. d o conjunto de lugares da sua ação. o acontecer local sendo percebido como um elo do acontecer m undial.

e todos os lugares a partir de um só deles. ao mesmo tempo. permitindo ao respectivo mercado que funcione em diversos lugares durante o dia inteiro. o que estamos chamando de unicidade do tempo ou convergência dos momentos. seja onde for. ele é excelente e assegura exclusividades. A aceleração da história. os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. pe lo menos. Como ele é utilizado por um número reduzido de atores. A história é comandada pelos grandes atores desse tempo real. a operação planetária das grandes empresas globais vai revolucionar o mundo das finanças . chama-se de tempo real e. em ambos os casos. utiliza em seu favor esse tempo real? A quem. quem. potencialmente. E. A ideologia de um mundo só e da al deia global considera o tempo real como um patrimônio coletivo da humanidade. Nunca houve antes essa possibilidade o ferecida pela técnica à nossa geração de ter em mãos o conhecimento instantâneo do acontecer do outro. ou. cuja busca se acelerou com a Segunda Guerra. isto é. Ess a é a grande novidade. os momentos vividos. Com essa grande mudança na história. convergem. E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós? Esta pergunta é um imperativo para que possamos melhor compreender nossa época. que o fim do século XX testemunha. mas que podemos usar esses relógios múltiplos d e maneira uniforme.eficácia. privilégios de uso. Fisicamente. será chamado de inte rdependência e solidariedade do acontecer. Mas a informação instantânea e globalizada por enquanto não é generalizada e veraz porque atualm ente intermediada pelas grandes empresas de informação. isto é. vem em grande parte disto. do ponto de vista histórico. Mas ainda estamos longe desse ideal. A convergência dos momentos A unicidade do tempo não é apenas o resultado de que. Mas efetivamente. todavia. Resultado do progresso científico e técnico. socialmente. todavia alcançável. cabe a mais-valia criad a a partir dessa nova possibilidade de utilização do tempo? Quem pode e quem não pode? Essa discussão leva-nos . nos mais diversos lugares. de fato. Os homens não são i gualmente atores desse tempo real. Tomada como fenômeno físico. devemos dis tinguir entre a noção de fluidez efetiva. a percepção do tempo real não só qu er dizer que a hora dos relógios é a mesma. a hora do relógio é a mesma. do ponto d e vista da física. de ter conhecimento do que é o acontecer do outro. também. Não é somente isso. Se a técnica cria aparentemente para todos a possibilidade d a fluidez. que são. Se a hora é a mesma. de forma concatenada e eficaz. O tempo real também autoriza usar o mesmo momento a partir de múltiplos lugares. ele existe para todo s. tornamo-nos capazes. 3 . é fluido realmente? Que empresas são realmente fluidas? Que pessoas? Quem. realmente. Há uma confluência dos momentos como resposta àquilo que.

instalado sobre um planeta informado e permitindo ações igualmente globais. na fase atual do capitalismo.a uma outra. O motor único Este período dispõe de um sistema unificado de técnicas. Até que ponto podemos falar de uma ma is-valia à 14 . representado pelo que aqui estamos denominando de motorúni co. 4 . ao tomarmos em conta a emergência de um novo fator determinante da história.

impondo-se mutuamente. que eram todos motores do capitalismo. uma vocação a um padrão único. a mencionada mais-valia universal. Esta tornou-se possível porque a partir de agora a produção se dá à escala mundial. o que seria devido. porque em nenhum lugar. Pretendemos que a história. à mundialização da mais-valia. combinações diferentes. estamos impelidos a ofer ecer às grandes . da informação. As que resistem e sobrevivem são aquelas que obtêm a mai s-valia maior.. Esse conjunto de mundializações. modalidades diferentes. agora. Esse motor único se tornou possível porque nos encontramos em um novo patamar da internacionalização. de outro. da dívida. mudando. embora não seja propriamente mensurável. diversos motores. do dinheiro. na universidade. continuar a proceder e a competir. contém e é contido pelo outro. atuando como um motor único de tais ações? Havia. do crédito. mais progresso científico e técnico. que se torna fugidia exatamente porque deixamos o mundo da competição e e ntramos no mundo da competitividade. El a é mundial porque entretida pelas empresas globais que se valem dos progressos científi cos e técnicos disponíveis no mundo e pedem. Tudo isso é realidade. mas empurravam as máquinas e os homen s segundo ritmos diferentes. uma sustentando e arrastando a outra. houve completa internacionalização. é também um fato novo. Cabe. somos solicitados todos os dias a trabalhar para melhor ar a produtividade como se fosse algo abstrato e individual. o motor inglês. assim. o e spanhol etc. A atual competitividade entre as empresas é uma forma de exercício dessa mais-valia universal. como jamais existiu. impõe outro. Quando. Ela existe e se impõe como coisa real.escala mundial. do consumo. O exercício da competitividade torna exponencial a briga entre as empresas e as conduz a alimentar uma demanda diuturna de mais ciência. Esse sistema de forças pode levar a pensar que o mundo se encaminha para al go como uma homogeneização. com uma verdadeira mundialização do produto. de um lado. de melhor organização. Um elemento da internacionalização atrai outro. o motor português. Será ele abstrato? Que é essa mais-valia consider ada ao nível global? Ela é fugidia e nos escapa. seja movida por esse motor único. em nenhum país. Hoje haveria um m otor único que é. cada qual com sua força e alcance próprios: o motor francês. isto é. assim. indagar qual seria a sua natureza. que competem entre si segundo uma concorrência extr emamente feroz. permitindo-se. todos os dias. para manter-se à frente da corrida. exatamente. por intermédio de empresas mundiais. de mais tec nologia. mas não é abstrata. O que há em toda parte é uma vocação às mais diversas combinações de vetores e formas de mundialização. mas também e sobretudo tendência. o belga. já que está sempre evoluindo. o motor alemão. à mundializaçã da técnica. com o imperialismo.

Um corte no tempo é idealmente possível. mas está longe de expressar a realidade atual cruelmente instável. tal mais-valia está sempre correndo. outra do mesmo ramo solicita inovações que lhe permitam passar à frent e da que antes era a campeã. desse modo. 15 . fugin do para a frente. Se ela pode par ecer abstrata. medi-la. as novas soluções organiza cionais e políticas que permitam às empresas fazer crescer a sua produtividade e o seu lucro. A cada avanço de uma empresa. Por isso não se pode. mas ela existe.empresas possibilidades ainda maiores de aumentar sua mais-valia. os novos materiais. objetivo. quer dizer. quan do utilizada no processo da produção e como resultado da competitividade. Novos laboratóri os são chamados a encontrar as novas técnicas. a mais-valia agora universal na verdade se impõe como um dado empírico. Por isso.

que seja também uma forma de conhecimento concreto do mundo tomado como um todo e das particular idades dos lugares. Sem isso não teri sido possível fazer os satélites que fotografam o planeta a intervalos regulares. porque nos chegam como objetos em si. permiti ndo uma visão mais completa e detalhada da Terra. que incluem condições físicas. assim. os processos históricos que movem o mundo. Sem isso. A cognoscibilidade do planeta constitui um dado e ssencial à operação das empresas e à produção do sistema histórico atual. valorizam diferentemente as localizações. corremos o risco de não ultrapassar uma interpretação coisicista de algo que é muito mais que uma simples coisa. exatamente. Por meio dos satélites. aos progressos da ciência e da técnica (melhor ainda. Os objetos retratados nos dão geometrias . Não é qualquer l ugar que interessa a tal ou qual firma. 6 .5 . pedaços de tempo marcados por . passamos a conhecer todos o s lugares e a observar outros astros. podemos captar momentos sucessivos. não mais apenas retratos momentâneos e fotografias isoladas do pla neta. não propriamente geografias. aos pro gressos da técnica devidos aos progressos da ciência). Estes estão sempre mudando de significado. estamos mais perto de construir uma filosofia das técnicas e das ações correlatas. e precedem a produção dos objetos. Com a globalização e por meio da empiricização da universalidade que ela possibilitou. O sentido que têm as coisas. naturais ou artificiais e condições políticas. mas fic amos mais perto de identificar momentos dessa evolução. A cognoscibilidade do planeta O período histórico atual vai permitir o que nenhum outro período ofereceu ao homem. com o movimento das sociedades e por intermédio das ações humanas sempre renovadas. e deve-se. Mas a partir de agora podemos conceber os objetos que dese jamos utilizar e então produzimos a matéria-prima indispensável à sua fabricação. As em presas. Um período que é uma outra crise A história do capitalismo pode ser dividida em períodos. O funcionamento do sistema solar torna-se mais perceptível . isto é. a possibilidade de conhecer o planeta extensiva e aprofundadamente. isto é. Isto n unca existiu antes. Esse período técnico-científico da história permite ao homem não apenas utilizar o que encontra na natureza: novos materiais são criados nos laboratórios como um produto d a inteligência do homem. pelo fato de que os satélites repetem suas órbitas. como os objetos da histór ia. é o fundamento da co rreta interpretação de tudo o que existe. na busca da mais-valia desejada. Até a nossa geração. utilizávamos os materiais que estavam à nossa disposição. enquanto a Terra é vista em detalhe. seu verdadeiro valor. sem a sociedade v ivendo dentro deles. isto é. Isso não quer dizer que tenhamos.

a 16 . Torna-se impossível harmonizá-las quand o uma dessas variáveis ganha expressão maior e introduz um princípio de desordem. O período atual escapa a essa característica porque ele é. Essa foi a evolução comum a toda a história do capitalismo. ao mesmo tempo. até recentemente. também. é comprometida. mediante uma organização. que evoluem diferentemente. mas dentro de um sistema. um período e uma cris e. mas não podemos esquecer que os períodos são. Um período sucede ao outro. momentos em que a ordem estabelecida e ntre as variáveis. isto é. antecedidos e sucedidos por crises.certa coerência entre as suas variáveis significativas. isto é.

porém. o controlador do uso do tempo. cada ator pessoa. que constituem fatores de mudança. direta ou indiretamente. Trata-se. empresa. Daí o papel avassalador do sistema financeiro e a permissividade do comportamento do . cegos. Este período e esta crise são diferentes daqueles do passado. as suas variáveis características instalam-se em toda parte e a tudo influenc iam. Os fatores de mudança acima enumerados são. as pessoas. Sem o controle dos espíritos seria impossível a regulação pelas finanças. Daí a denominação de globalização. como outrora. a crise é estrutural. porque os dados motore s e os respectivos suportes. porque. neste período histórico. neste ou naque país. Por intermédio do dinheiro. os grupos sociais. Essa mul tiplicação do tempo é. incontroláveis. as mesmas variáveis construtor as do sistema estão continuamente chocando-se e exigindo novas definições e novos arranjos. lugar utiliza diferentemente tais possibilidades e realiza diferentemente a velocidade do mund o. trata-se de uma crise global. que avassala tudo. Por outro lado.superposição entre período e crise. nem tampouco são o privilégio de alguns continentes e países. não se instalam gradat ivamente como antes. leva a toda parte um nexo contábil . mas para pr oduzir o novo estágio de crise. de uma crise persistente dentro de um período com características duradouras. Na verdade. Como período. como coisa nova. neste ou naquele momento. a época atual mostra-se. ainda que a presteza e o alcance desse contágio sejam diferen tes segundo as empresas. típicas do processo de globalização. os fatores hegemônicos de m udança contagiam os demais. potencial. instit uição. quando se buscam soluções não estruturais. revelando características de ambas essas situações. o que temos são crises sucessivas. Então. Tirania do dinheiro e tirania da informação são os pilares da produção da história atual do capitalismo globalizado. Defrontamo-nos. Tai s fatores dãose concomitantemente e se realizam com muita força em toda a parte. de fato. cuja evidência tanto se faz por meio de fenômenos glob ais como de manifestações particulares. O que é considerado solução parte do exclusivo interesse dos atores hegemônicos. e graças sobretudo aos progressos das técnicas da informática. na verdade. agora. m esmo se novos contornos aparecem. pela mão dos atores hegemônic os. o contágio das lógicas redutoras. Como crise. aliás. tendendo a participar de sua própria nat ureza e de suas próprias características. Nada é duradouro. os lugares. O computador é o instrumento de medida e. Como período e como crise. ao mesmo tempo. o resultado é a geração de mais crise. Por isso. egoisticamente contraditórios. cuja documentação tornou-se possível por meio das técnicas contemporâneas. como uma subdivisão extrema do tempo empírico. O processo da crise é permanente.

isto é. enquanto os demai s processos acabam por ser deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente. seja porque os respectivos agentes são permanentemente ameaçados pela concorrência das atividades mais poderosas. A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação conduz.s atores hegemônicos. mas de forma subordinada. isto é. Mas tal situação é sempre precária. à aceleração dos processos hegemônicos. Em outras palavras. os processos não hegemônicos tendem seja a desapa recer fisicamente. legitimados pelo pensamento único . 17 . tornand o-se hegemonizados. seja a permanecer. seja porque os resultados localme te obtidos são menores. levando ao aprofundamento da situação. que agem sem contrapartida. da crise. desse modo. exceto em algumas áreas da vida social e em certas frações do território onde podem manter-se relativamente autônomos. ca pazes de uma reprodução própria.

todos os países. O mesmo sistema ideológico que justifica o processo de globalização. Aí está. Como. Na verdade. também. aumenta a inflexibilidade dos comportamentos. a própria política acaba por instal se em todos os interstícios do corpo social. como se tal crise fosse a mesma para todos e co mo se a receita para afastá-la devesse ser geralmente a mesma. ainda que os famosos equilíbrios macroeconômicos se instalem. conduzidas por atores privados que i gnoram o interesse social ou que o tratam de modo residual. ao fato de que a era presente se caracteriza pelo uso extrema do de técnicas e de normas. mas d simples acúmulo de normatizações particularistas. a organizar sua ação. porém. acaba. ajudando a considerá-lo o único caminho histórico.No período histórico atual. por impor uma certa visão da crise e aceitação dos remédios sugeridos. social. as atividades hegemônicas tendem a uma centralização. Em virtude disso. lugares e pessoas p assam a se comportar. A isso se acrescente o fato de que. Isso se deve. moral que caracteriza o nosso tempo. É uma outra razão pela qual a sit uação normal é de crise. acarretando um mal-estar no corpo social. porém. consecutiva à concentração da economia. política. seja como necessidade para o exercício das ações dominantes. a única cris e que os responsáveis desejam afastar é a crise financeira e não qualquer outra. na verdad e. seja como reação a essas mesmas ações. o estrutural (dito dinâmico) é. entre outras razões. crítico. O uso extremado das técnicas e a proeminência do pensamento técnico conduzem à necessidade obsessiva de normas. também. 18 . Mas não é propriamente de política que se trata. uma causa para mais aprofundamento da crise real econômica. Essa pletora normativa é indispensável à eficácia da ação. graças ao casamento entre as técnicas normativas e a normalização técnica e política da ação correspondente. isto é.

dos globalitarismo . facilmente visível nas formas de agir dos Estados. Há um verdadeiro retrocesso quanto à noção de bem público e de solidariedade. A v i o l ê n c i a d a i n f o r m a ç ã o Um dos traços marcantes do atual período histórico é. São duas violências centrais. Dentro desse quadro. das empresas e dos indivíduos. do qual é emblemático o encolhimento das funções sociais e políticas do Est ado com a ampliação da pobreza e os crescentes agravos à soberania. intimamente relacionadas. A tirania da informação e do dinheiro e o atual sistema ideológico Entre os fatores constitutivos da globalização. influenciando o caráter das pessoas . Tem as mesmas origens a produção. o que também constitui uma incitação a que adotem. a percepções fragmentada ao discurso único do mundo.I I I -U M A G L O B A L I Z A Ç Ã O P E R V E R S A I n t r o d u ç ã o Os últimos anos do século XX testemunharam grandes mudanças em toda a face da Terra. 7 . as pessoas sentem-se desamparadas. a emergência de uma dupla tirania. mais facilmente aceitos graças à confusão dos espíritos que se instala. ao mesmo tempo. as novas condições técnicas deveriam permitir a isto é. entretanto. base dos novos totalitarismos s a que estamos assistindo. em seus comportamentos ordinários. bases sólidas para uma ação humana mundializada. Esta. juntas. A competitividade. na base mesma da vida social. é a fonte de novos totalitaris mos. enquanto se amplia o papel p olítico das empresas na regulação da vida social. Conforme já vimos. Consideramos. pois. sugerida pela produção e pelo consumo. em seu caráter perverso atual. em primeiro lugar. fornecem as bases do sistema ideológico que legitima as ações mais características da época e. Ambas. o papel verdadeiramente despótico da informação. encontr amse a forma como a informação é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro como motor da vida econômica e social. O mundo torna-se unificado em virtude das novas condições técnicas. práticas que alguns decênio s atrás eram moralmente condenadas. A perversidade sistêmica é um dos seu s corolários. buscam conformar segundo um novo ethos as relações sociais e interpessoais. a do dinheiro e a da informação. de uma violência estrutural. impões-se à maior parte da humanidade como u ma globalização perversa. alicerces do sist ema ideológico que justifica as ações hegemônicas e leva ao império das fabulações.

ampliação do conhecimento do planeta. dos objetos que o formam. as técnicas da in formação são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus objetivos par ticulares. das sociedades que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia. Essas técnicas da informação (por enquanto) são apropriadas por alguns Estados e por alg umas 19 . nas condições atuais.

confunde. não apenas pela chatice e mesmice das fotografias e dos títulos. já. Falsificam-se os eventos. Hoje. isto é. Numa sociedade complexa como a nossa. É desse modo qu e a periferia do sistema capitalista acaba se tornando ainda mais periférica. cujo título é O retorno de fato (in História: Novos problemas. mas pelos protagonistas mais presentes. pois. o resultado de uma manipulação. na medida em que a publicidade se transf ormou em algo que antecipa a produção. hoje. Há uma relação carnal entre o mundo da produção da notícia e o mundo da produção das coisas e das normas. a informação constitui um dado essencial e imprescindível. 1974). o consumo. ou na educação. e a própria política é. uma penetração muito grande em tod as as atividades. seja por que não dispõe totalmente dos novos meios de produção. que se tornou o nervo do comércio. em um bonito texto. havia uma incompatibilidade ética entre anunciar e exercer cert as atividades. somente vamos saber o que houve . seja porque lhe escapa a possibilidade de co ntrole. As mídias nacionais se globalizam. e um outro. que realidade e ideologia se confundam na apreciação do homem comum. Este é o trabalho da publicidade. uma informação manipulada que. lemb ra que. em grande parte.empresas. Antes. O fato de que. sobretudo porque a ideologia se insere nos objetos e a presenta-se como coisa. no mundo de hoje. A publicidade tem. a cara do convencer se torna muito mais presente. O que é transmitido à maioria da humanidade é. nas condições a tuais da vida econômica e social. hoje. aprofundando assim os processos de criação de desigualdades. de fato. Se a informação tem. já qu e não é propriamente o fato o que a mídia nos dá. a produção. um pelo qual ela busca instruir. Mas na me dida em que o que chega às pessoas. subordinada às suas regra. já ue a informação atual tem dois rostos. essas duas car as. em lugar de esclarecer. mas uma interpretação. como na profissão médica. Pierre N ora. Não é de estranhar. em função da competitivi dade. tal informação se apresenta como ideologia. Brigando pela sobrevivência e hegemonia. propaga-se tudo. no qual do discurso e a retórica são o princípio e o fim. Esse imperativo e essa onipresença da informação são insidiosos. o discurso antecede quase obrigatoriamente uma parte substancial das ações humanas sejam elas a técnica. como também às empresas e instituições hegemonizadas. as empresas não podem existir sem publicidade. na aldeia. o testemunho das pessoas que veiculam o que aconteceu pode ser cotejado com o testemunho do vizinho. Estamos diante de um novo encantamento do mundo . Isso tanto é mais grave porque. a notícia. é. o poder explica o porquê da presença generali zada do ideológico em todos esses pontos. pelo qual ela busca convencer.

v isões. deix ando saber instantaneamente o que se passa em qualquer lugar. permitiu que fosse cunh ada essa expressão. na verdade.1996). fábulas e mitos.na rua ao lado dois dias depois. Quando essa comunicação s e faz.Teoriasda globalização. O fato de que a comunicação se tornou possível à escala do planeta. 20 . quando. preconceitos e interesses das agências. ao telespectador. F á b u l a s Uma dessas fabulações é a tão repetida idéia de aldeia global (OctávioIanni. O evento já é entregue maquiado ao leitor. é freqüe ntemente mais fácil comunicar com quem está longe do que com o vizinho. ao contrário do que se dá nas verdadeiras aldeias. e é também por isso que se produzem no mundo de hoje. ao ouvinte. simultaneamente . mediante uma interpretação marcada pelos humores.

esse mercado re gulador? Será ele global? O fato é que apenas três praças. coisas. entre os quais a politização das estatísticas. concentram m ais de metade de todas as transações e ações. de uma humanidade desterritorializada. de tal forma que. outra vez. as empresas transnacionais são responsáveis pela maio r parte do comércio dito mundial. Um outro mito é o do espaço e do tempo contraídos. pelas mãos do mercado global. De fato. A humanidade desterritorializada é apenas um mito. . o chamado Produto Nacional Bruto é apenas um nome fantasi a do que poderíamos chamar de produto global. religiões. senão interesseira.3% em 1960 (Y. Fala-se. No fundo. GEMDEV. segundo as possibilidades de cada um. em lugar dos 2. 25 de abril de 1993). aos prodígios da velocidade. Tudo seria conduzido e. mesmo se avança a noção de moralidade internacional. na medida em que o próprio exercício das ativ idades globalizadas não prescinde de uma ação governamental capaz de torná-las efetivas dentro do território. um fato que de pende da presença e da ação dos Estados nacionais. Será. a começar pela forma pela qual é feita a comparação da riqueza entre as nações. enqua nto 40% do comércio dos Estados Unidos ocorrem no interior das empresas (N. ainda. uma interpretação interessada . já agora. Berthelot. Globalisation et régionali sation: une mise en perspective . como se as pa rticularidades tecidas ao longo de séculos houvessem sido todas esgarçadas. todavia. graças. ao mesmo tempo. o exe rcício da cidadania. g ostos largamente se difundem por sobre continentes. as fronte iras mudaram de significação. as distâncias têm significações e efeit os diversos e o uso do mesmo relógio não permite igual economia do tempo. ela se dá com a intermediação de objetos. nas condições atuais. A informação sobre o que acontece não vem da interação entre pessoas. Nova Iorque. uma de suas características sendo o desfalecimento das fronteiras como imperativo da globalização. dinheiros. raças. in L'integration régionale dans le monde. Aldeia global tanto quanto espaço-tempo contraído permitiriam imaginar a realização do sonho de um mundo só. mas nunca estiveram tão vivas. os 47 países menos avançados representam juntos apenas 0.na realidade. Londres e Tóquio. línguas. Folha de São Paulo. 1994). mas do que é veiculado pela mídia. Chomsky. e a essa idéia dever-se-ia uma outra: a da existência. Em mundo como fábula é alimentado por outros ingredientes.3% do comércio mundial. já que. dos fatos. já que as quantidades que entram nessa contabil idade são aquelas que se referem às operações que caracterizam a própria globalização. também. relações. Por outro lado. de uma cidadania universal. Só que a velocidade apenas está ao alcance de um número limitado de pessoa s. é. homogeneizado pelo mercado global regulador.

Sem essas fábulas e mitos. na medida em que permitiria a ampliação da liberdade de produzir. sem o qual a globalização. de c onsumir e de viver. Tal neoliberalismo seria o fundamento da democracia. constituindo sua própria lei. no fim do século XX. Este só se torna violento e tirânico porque é serv ido pela violência da informação. a lingua gem ganha autonomia. em sua forma atual. este período histórico não existiria como é: Também não seria possível a violência do dinheiro. Esta se prevalece do fato de que. enquanto a desiguald ade entre os indivíduos aumenta. também. Observando o funcion amento concreto da sociedade econômica e da sociedade civil. que a morte do Estado melhoraria a vida dos homens e a saúde das empresas. não é difícil constatar que são cada vez em m enor número as empresas que se beneficiam desse desmaio do Estado. não se explicaria. Isso facilita a entronização de um subsistema ideológico.Afirma-se. 21 .

Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico. É o dinheiro co mo. pagamento de se rviços ou remessa de lucros volta como crédito e dívida. graças aos processos técnicos da nossa época. Por isso. . recentemente. ao sistema. Essa presença do dinheiro em toda parte acaba por const ituir um dado ameaçador da nossa existência cotidiana. é lícito falar de tirania do dinheir o. Essas empresas financeiras das multinacionais utilizam em grande parte a poupança dos países em que se encontram. as megafirmas devem. inventa sempre novos instrumentos. entre o que agora se chama ec onomia real e o mundo da finança. recriando seu fetichismo pela ideologia. O que se ria poupança interna transforma-se em poupança externa. que são formas sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos especuladores. É o tempo real que vai permitir a rapidez das operações e a volatilidade dos assets. Na fase histórica atual. Nas condições atuais de economia internacional. intrínseco. um enorme terreno nos últimos 25 anos. dá lugar àquilo que Marx chamava de loucura especulativa. Quando expatriado. Quando uma firma de qualquer outro país se instala num p aís C ou D. multiplica o que chama de derivativos. As grandes empresas são. A aceitação de um modelo econômico em que o pagamento da dívida é prioritário im lica a aceitação da lógica desse dinheiro. O sistema finan ceiro descobre fórmulas imaginosas. obrigatoriamente. Este se torna o centro do mundo. O que sai do país como royalties. preocupar-se com o uso financeiro do dinheiro que obtêm. A monetarização da vida cotidiana ganhou. f undada no papel do dinheiro em estado puro. Essa é a lógica atual da internacionalização do crédito e da dívida. Por isso. ladeadas por grandes empresas financeiras. por intermédio das grandes empresas globais. as poupanças internas passam a participar da lógica financeira e do trabalho finance iro dessa multinacional. O result ado é que a escalação exponencial assim redefinida vai se tornar algo indispensável. E a finança move a economia e a deforma. inteligência comprada. quase que compulsoriamente. pela qual os países recipiendários devem pa gar juros extorsivos. o financeiro ganha uma espécie de autonomia. isso também se deve ao fato de que tudo se torna valor de troca. no mundo int eiro. por várias razões. esse dinheiro pode regressar ao país de origem n a forma de crédito e de dívida. quer dizer. a relação entre a finança e a produção. levand o seus tentáculos a todos os aspectos da vida. simplesmente.A v i o l ê n c i a d o d i n h e i r o A internacionalização do capital financeiro amplia-se. dinheiro.

uma presença indiscutível. de um lado. ela se apresent a como uma necessidade universal. dotada de uma força quase divina à qua l os 22 . de outro. na cultura de massa e no mercado global. pode estabelecer-se um discurso ún ico do mundo . Como tudo parece dela depender. se multiplicam as percepções fragmentadas e. As bases materiais históricas dessa mitificação estão na realidade da técnica atual.A s p e r c e p ç õ e s f r a g m e n t a d a s e o d i s c u r s o ú n i c o d o n d o m u É a partir dessa generalização e dessa coisificação da ideologia que. a técn ica é mais aceita do que compreendida. com implicações na produção econômica e nas visões da história contemporânea. A técnica apresenta-se ao homem comum como um mistério e uma banalidade. De fato.

aponta-nos pa ra formas de relações econômicas implacáveis. a concorrência se estabelece como regra. O consumo comanda nossas formas de inação. A concorrência atual não é mais a velha concorrência. consumo. A competitividade comanda nos sas formas de ação. Tais características alimentam seu imaginário. Há. de imprensa. 8 . agora finalmente aparece aos olhos de todos. Agora. sobretudo porque chega eliminando to da forma de compaixão. já que a identidade dos atores. o consumo. para tomar seu lugar. por conseguinte. mas seus fundamentos e seu alcance escapam à percepção im ediata. do país. sem a qual os atores são expulsos da cena ou permanecem escravos de uma lógica indispensável ao funcionamento do sistema como um todo. A c o m p e t i t i v i d a d e . ao serviço do merc ado. É um fato comum no cotidiano de tod os. globaritarismo Neste mundo globalizado. Quando o sistema político formado pelos governos e pelas empresas utiliza os siste mas técnicos contemporâneos e seu imaginário para produzir a atual globalização.homens acabam se rendendo sem buscar entendê-la. utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mun do. Essa guerra como norma justifica toda forma de apelo à força. do lugar. a todo custo. grandes fusões. a competitividade toma o lugar da co mpetição. tudo isso fazendo crer na sua inevitabilidade. na sua exigência de racionalidade. mas é também indicador do seu paroxismo. É uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa. a confusão dos espíritos constituem baluartes do presente estado de coisas. Ora. até então mais ou menos vi sível. no absolutismo com que. utilizado para dirimir os conflitos e con seqüência dessa ética da competitividade que caracteriza nosso tempo. Competitividade. um apelo não dissimulado. a competitividade. porque se baseia em noções que parecem centrais à própria idéia da democracia liberdade de opinião. uma banalidade. alicerçado nas suas relações com a ciência. Esse movimento marca um ápice do sistema capitalista. po rque neles se realizaram grandes concentrações. a a u s ê n c i a d e c o m p a i x ã o Nos últimos cinco séculos de desenvolvimento e expansão geográfica do capitalismo. que não aceitam discussão e exigem obediência imediata. é isso também que justifica os individualismos arrebatadores e possessivos: individualismos na vida econômica (a . da sociedade e de cada um de nós mesmos. e do que são os países e os lugares. tanto na órbita da produção como na das finanças e da informação. confusão dos espíritos. a que assistimos em diversos países. que vence r o outro. Os últimos anos do século XX foram emblemáticos. daí seu mistério. conforma os comportamento. esmagando-o. tolerânc ia -. E a confusão dos espíritos impede o nosso entendimento do mundo. A competitividade tem a guerra como norma.

individualismos na ordem da política (a man eira como os partidos freqüentemente abandonam a idéia de política para se tornarem simplesmente el eitoreiros).maneira como as empresas batalham umas com as outras). as regiões reclamando soluções particularistas). Também na ordem social e individual são individual ismos 23 . individualismos na ordem do território (as cidades brigando umas com as outras.

se constituíram entroniza a lógica dos inst das finalidades. E novas formas financeiras e da contabilidade nacional. Falava-se. Nesse caso. afinal. Mas. de autonomia da produção. a maneira como as rumentos. Esta. a chamada autonomia d a produção cede lugar ao despotismo do consumo. a cada relação. na cadeia casual. Daí o empobrecimento das ciências humanas e a conseqüente dificuldade para interpretar o q ue vai pelo mundo. e esse é o caso de tantas . Essa nov a lei que é uma lei ideológica do valor é uma filha dileta da competitividade e aca do valor ba por ser responsável também pelo abandono da noção e do fato da solidariedade. Tal remédio teria 1% de medicina e 99% de publicidade. também contribuiu a perda de influência da filosofia na formulação das ciências sociais. Daí as fragmentações resultantes. uma das bases da sociabilidade a classes médias. cujas diversas parcelas. uma disciplina da administr ação das coisas ao serviço de um sistema ideológico. mas todas as coisas no comércio a cabam por ter essa composição:publicidade + materialidade. Compo desrespeito às pessoas são. antes. Então. mas é tomado como parâmetro. É assim que se implantam novas concepções sobr e o valor a atribuir a cada objeto. possessivos. formando u ma constelação que tanto orienta e dirige a produção da economia como também a produção da vida. a cada indivíduo. hoje. e convoca os pragmatismos a que se tornem triunfa Para tudo isso. legiti mando novas modalidades e novas regras da produção e do consumo. que acabam por constituir o outro como coisa. para significar que uma empresa. Aliás. as empresas hegemônicas produzem o consumidor antes mesmo de prod uzir os produtos. ao assegurar uma produção. O c o n s u m o e o s e u d e s p o t i s m o Também o consumo muda de figura ao longo do tempo. o fato gerador do consumo seria a produção. Daí todas as novas formas perversas de sociabilidade que já existem ou se estão preparando neste país. Um dado essencial do entendimento do consumo é que a produção do consumidor. apenas. Daí a ampliação do desemprego. se reduz a ser. já que a ciência econômica se torna. de modo a assegurar sua sobrevivência imedia ta. Está é uma das bases do subsistema ideológico que comanda outros subsistemas da vida social. serão jogadas umas contra as outras e convidadas a uma batalha sem quartel. Daí o abandono da educação. cuja interdisciplinaridade acaba por buscar inspiração na economia. a cada lugar. em lugar da lógica ntes. publicidade + serviços. Daí o desapreço à saú como um bem individual e social inalienável. o império da informação e da publicidade. algo que inexiste de fato. no Brasil. precede à produção dos bens e dos serviços. cada vez mais. buscava também manipular a opinião pela via da publicidade. atualmente.arrebatadores e rtamentos que justificam todo tual. um nome fantasia de u ma suposta contabilidade global. para fazer dele ainda mais uma país fragmentado. Daí. aliás.

do ponto de vista da lógica. por esse sistema ideológico tecido ao redor do consu mo e da informação ideologizados. pela sua eficácia atual sobre a produção e o consumo. muito débil. Tais operações podem tornar-se simultâneas diante do tempo do relógio. Há toda essa maneira de organizar o consumo para permitir. é a produção da informação e da publicidade que precede. por todos os lados. de out ro lado. desde que encontremos a maneira de defini-lo como um dad o de um sistema 24 . Esse par é. Esse consumo ideologizado e essa informação ideologizada acaba m por ser o motor de ações públicas e privadas.mercadorias cuja circulação é fundada numa propaganda insistente e freqüentemente engano sa. ao mesmo tempo. em seguida. De um lado é muito forte. mas. ele é muito fraco. fortíssimo e fragilíss imo. a organização da produção. Desse modo. Mas. viv emos cercados.

Como as atividades hegemônicas são. Por isso. ela não poderia ter. o discur so aparece como algo capital na produção da existência de todos. pela sua própria constituição. produtor ou encorajador de imobilismos . E isso é um dado essencial do entendimento do Brasil: de como os partidos se organizam e funcionam. também. em grande parte. Eles se apresentam diante de nós não apenas como um discurso. a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão. também. um veículo de narcisismos. econômicos e sociais. todas elas. es sa discussão talvez não tenha sequer cabimento. Hoje. a mbos fundados no mesmo sistema da ideologia. A i n f o r m a ç ã o t o t a l i t á r i a e a c o n f u s ã o d o s e s p í r i t o s Tudo isso se deve. ao fato de que o fim do século XX erigiu como um dado central do seu funcionamento o despotismo da informação. por meio dos seus estímulos estéticos. era corrente discutir-se a respeito da oposição entre o que era real e o que não era. o entendimento do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade. É certo que no Brasi l tal oposição é menos sentida. E aí também as camadas intelectuais têm responsabilidade. a essência e a aparência. porque em nosso país jamais houve a figura do cidadão. o consumo e o poder abre a po antecede a tudo ta à ideologia. e aparece como o grande fundamentalismo do nosso tempo. a produção. lutando pela ampliação dos direitos políticos. fundadas nessa técnica.mais amplo. O consumo é o grande emoliente. à condição da classe média européia. jamais quiseram ser cidadãs. em certa medida. que nos convoca. Essa imprescindibilidade de um d iscurso que a começar pela própria técnica. Os objetos são coisas. para o caso brasileiro e atribuindo. hoje. sociai s. à redução da personalidade e da visão do mundo. porque a ideologia se torna real e está presente como re alidade. os pobres jama is puderam ser cidadãos. mas como um discurso ideológico. por equívoco. de como a política se dá. malgr ado nós. o erro e a verdade. incluindo as classes médias. sem maior imaginação e originalidade. de como a sociedade se move. Antes. sobretudo por meio dos objetos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direit os. As classes cha madas superiores. assim. entre o erro e o acerto. porque alcança e envolve tod a gente. tão necessitada de um dis curso. Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pesso a. a . são reais. morais. relacionando. à classe média brasileira um papel de mo dernização e de progresso que. convidando. Ele é. com o próprio nível alcançado pelo desenvolvimento da técnica atual. porque trasladaram.

tínhamos em torno de nós alguns objetos. E são objetos carregando uma ideologia que lhes é entre gue pelos homens do marketinge do designao serviço do mercado. Hoje. meio século depois . todos ou quase todos querendo nos comandar. D o i m p e r i a l i s m o a o m u n d o d e h o j e O capitalismo concorrencial buscou a unificação do planeta. os quais comandávamos. Até a Segunda Guerra Mundi al. o que há em torno é uma multidão de objetos. Uma das grandes diferenças entre o mundo de há cinqüenta anos e o mundo de agora é esse papel de comando atribuído aos objetos. mas apenas obteve uma 25 . E esse império dos objetos tem um papel relevante na p rodução desse novo homem apequenado que estamos todos ameaçados de ser.uma forma de comportamento.

tal característica sendo conseqüência da subordinação do mercado à política. seja a política internacional. As situações eram dif erentes segundo os continentes e países e. Na fase atual de globalização. uma certa convivência de níveis diferentes de formas técnicas e de formas organizacionais nos diversos impérios . mais controle social e. Passamos de um uso imperialista . lugares. sem que as diferenças de poder entre os impérios fosse causa de conflitos duráveis entre eles e dentro deles. o seu uso escapa. as técnicas se tornam mais eficazes. aprofundada sob o capitalismo monopolista graças aos progressos téc nicos alcançados nos últimos dois séculos e possibilitando uma transição para a situação atual de neoliberalismo. isto é. assim como a sua realização política e jurídica. Até recentemente. havia a busca de u m relativo reforço mútuo das idéias e da realidade de autonomia individual (com a vontade de produção de in divíduos fortes e de cidadãos) e da idéia e da realidade de uma sociedade solidária (com o Esta do crescentemente empenhado em exercer uma regulação redistributiva). falar numa vontade de unificação abs oluta alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte situações nas q uais tudo. um uso desigual e combinado. que era. de alguma forma. idéias morais e filosóficas se difundem. se o quadro acima referido não constituía uma reali dade completa.unificação relativa. levariam à eclosão de egoísmos. as leis. sua presença se confunde com o ecúmeno. paralelamente à evolução das técnicas. limitando a ação daqueles vetores que. sob muitos a spectos. comportamentos. ao domínio da política e se torna subordinado ao mercado. de modo que os costumes. coisas. a uma presença obrigatória em todos os países dos sistemas técnicos hegemônicos. mais controle sobre as ações individuais. as instituições jurídicas e estatais buscavam r ealizar. os regulamentos. Ao longo da história passada do capitalismo. também. homens. o uso das técnicas conhece uma importante mudança qualitativa e quantitativa. são diferentes as relações entre o indivíduo e a sociedade. é atingido. G l o b a l i t a r i s m o s e t o t a l i t a r i s m o s . deixados sozinhos. seja a política interior a cada país ou a cada conjunto imperial. Agora se pode. idéias. Com a globalização. Em cada um desses momentos. também. essa era uma aspiração generalizada. ao exercício d a força bruta e a desníveis sociais cada vez mais agudos. seu encadeam ento praticamente espontâneo se reforça e. ao mesmo tempo. relações. O próprio imperialismo era dif erencial . segundo os continentes e lugares. ao mesmo tempo. pela via da política. graças ao papel unificador das técnicas de informação. O uso imperialista das técnicas permitia. entre o mercado e a solidariedade. Tal situação permanece praticamente por um século.

considerada. é uma das fontes do poder do pensamento único. ela própria. Nas condições atuais. e como sua utilização se dá ao serviço do mercado. de novas realidades . aliás acelerada. Tudo o que é feito pela mão dos vetores fundamentais da glo balização parte de idéias científicas. 26 . já que.Como as técnicas hegemônicas atuais são. todas elas. idéias do que fazer . Essa. filhas da ciência. sobretudo. enquanto as situações se tornam entre si mesmas idéias . infalível. as ideologias se transf ormam em situações. aliás. a ideologia é reforçada de uma forma que seria impossível ainda há um quarto de século. primeiro as idéias e. esse amálgama produz um ideário da técnica e do merca o que é santificado pela ciência. indispensáveis a produção. de tal modo que as ações assim criadas se impõem como soluções únicas.

P. porém. dos narcisismos. escorre ndo para a esfera política e das relações interpessoais e invadindo o próprio mundo da pesquisa e do ensin o universitários. Cabe-nos. do imediatism o. opinião pública. É dessa forma que a sociedade e os indivíduos aceitam dar adeus à gene rosidade. a ciência cada vez mais redutora e reduzida. instalam-se a competitividade. n um mundo agrícola modernizado onde os atores subalternizados convivem. da qual acaba por ser uma das formadoras. condições para a difusão de um pensamento e de uma prática totalitárias. mediante um cerco às idéias cada vez menos dissimulado. São. Desse conjunto de variáveis decorrem. O totalitarismo não é. as pesquisas perfilam-se como um aferidor qu antitativo da opinião. o salve-se-quem-puder. É também a partir desse quadro que se pode interpretar a serialização de que falava J. sobretudo nos lugares onde essas categorias nunca foram claramente definidas nem totalmente exercitadas. levantam-s e utilitarismos como regra de vida mediante a exacerbação do consumo. Critique de la Raison dialectique. por exemplo. levando tudo isso ao empobre cimento do debate de idéias e a própria morte da política. Enquanto esta é reduzida a uma democracia de mercado e amesquinhada co mo eleitoralismo. do abandono da solidariedade. do egoísmo. limitado à esfera do trabalho. Satre em Questions de méthode. indagar diante dessas novas realidades sobre a pertinência da presente utilização de concepções já ultrapassadas de democracia. A violência estrutural e a perversidade sistêmica Fala-se. muito em violência e é geralmente admitido que é quase um estado. outras condições da vida contemporânea. de volta. consumo de eleições. mesm o. fundadas na matematização da existência. todas essas. como num exército. um uso mágico das estatísticas. a maior parte é . hoje. Nossa grande tarefa. senão desmanchar. com a implantação. dentre as violências de que se fala. é a elaboração de um novo discurso. cidadania. Em tais condições. e impregnam. também. capaz de desmitificar a competitividade e o consumo e de atenuar. Esses totalitarismos se dão na esfera do trabalho como. Todavia. acumulando dificuldades para um convívio social saudável e para o exe rcício da democracia. 1960. a supressão da solidariedade. isto é. conceitos que necessitam ur gente revisão. carregando consigo uma crescente sedução pelos números. de uma ética pragmáti ca individualista.ideologia . a confusão dos espíritos. hoje. Na esfera da sociabilidade. galopante. uma situação característica do nosso tempo. 9 . à solidariedade e a emoção com a entronização do reino do cálculo (a partir do cálculo econômic ) e da competitividade. a volta ao canibalismo. submetidos a uma disciplina militar. mais distante da busca da verdade .

cuja associação conduz à emergência de novos totalitarismos e per mite pensar que vivemos numa época de globalitarismo muito mais que de globalização. acabamos por apenas condenar as violências per iféricas particulares. Parale lamente. que está na base da produção das outras e constitui a violência central original. nessa era da globalização. enquanto a atenção é menos voltada para o que preferimos chamar de violência estrutural.sobretudo formada de violências funcionais derivadas. evoluímos de situações em que a perversidade se manifestava de forma isolada para uma situação na 27 . Ao nosso ver. do dinheiro em estado puro. a violência estrutural resulta da presença e das manifestações conjuntas. Por isso. da competitividade em estado puro e da potência em estado puro.

firma-se um círculo vicioso dentro do qual o medo e o desamparo se c riam mutuamente e a busca desenfreada do dinheiro tanto é uma causa como uma conseqüência d o desamparo e do medo. O resultado objetivo é a necessidade. Nessas condições. Num mundo globalizado. regiões e cidades são chamadas a compet ir e. até mesmo. o dinheiro e o consumo aparecem como reguladores da vida individual. a competit ividade se torna também uma regra da convivência entre as pessoas. na medida em que a d esobediência às suas regras implica perder posições e. é duvidoso-e as empresas certamente competem por um quinhão sempre maior no mercado. tornado um denominador comum para todos os indivíduos. ao mesmo tempo. o result ado dessa busca tanto pode levar à acumulação (para alguns) como o endividamento (para a m aioria). uma nova ética pervasiva e operacional f . Criamse. e. atribui um papel central ao dinheiro nas suas diferentes manifestações. Na realidade.qual se instala um sistema da perversidade. legitimada por uma ideologia largamente aceita e difundida. reforçando a vocação para considerar a acumulação como uma meta em si mesma. A c o m p e t i t i v i d a d e e m e s t a d o p u r o A necessidade de capitalização conduz a adotar como regra a necessidade de competir em todos os planos. das empresas e das nações. O d i n h e i r o e m e s t a d o p u r o Com a globalização impõe-se uma nova noção de riqueza. é resultado e cau sa da legitimação do dinheiro em estado puro. consagrando. sejam quais forem. Mas a estabilidade de uma empresa pode depender de uma pequena ação desse mercado. como este. real ou imaginada. novos valores em todos os planos. Diz-se que as nações necessitam competir entre elas o que. A sobre vivência está sempre por um fio. afinal. a liás. de prosperidade e de equilíbrio macroeconômico. em seu estado puro. já se encontram antecipad amente justificadas. deste modo. O novo dinhei ro torna-se onipresente. conceitos fundados no dinheiro em estado puro e aos quais todas as economias nacionais são chamadas a se adaptar. é indispensável à existência das pessoas. todavi a. esse dinheiro sem medida se torna a medida geral. A noção e a realidade da dívida internaci onal também derivam dessa mesma ideologia. de buscar mais dinheiro. as formas pelas quais ele é obtido. Fundado numa ideologia. diante das regras atuais da produção e dos imperativos atuais do consumo. da competitividade em estado puro e da potênci a em estado puro. A necessidade de competir é. desaparecer do cenário econômico. juntos. que. O consumo. o fim da ética e o fim da política.

Já a competitividade se funda na invenção de novas armas de luta. sua prática provoca um afrouxamento dos valores morais e um convite ao exercício da violên cia. A p o t ê n c i a e m e s t a d o p u r o 28 . Concorrer e competir não são a mesma coisa. exige o respeito a certas regras de convivência preestabelecidas ou não. desse modo . num exercício em que a única regra é a conqui sta da melhor posição.ace aos mecanismos da globalização. A concorrência pode até ser saudável sempre que a batalha entre agentes. A competitividade é uma espécie de guerra em que tudo vale e. para melhor empreender uma tarefa e obter me lhores resultados finais.

Nunca na história houve um tão grande número de deslocados e refugiados. Por exemplo. cujo entendimento é indispensável para compreender. A pobreza também aumenta. isso vem acompanhado pela desne cessidade de responsabilidade perante o outro. já que ela é indispensável para competir e fazer mais dinheiro. curiosidade na pr imeira metade do século XX. presente em todas as grandes cidades do m undo. Não há outro telos. sem exceção. questões como a dívida social e a violência funcional. Tais números podem ser. mas estrutural. sabemos que 14 milhões de pessoas morrem todos os dias. outra finalidade que o próprio uso da força. Tal medo se espalha e se aprofunda a partir de uma violência difusa . originada dessa confusão. Ao mesmo tempo. A fome deixa d e ser um fato isolado ou ocasional e passa a ser um dado generalizado e permanente. antes do quinto ano de vida. medo da fome. O fenômeno dos sem-teto. O uso da força acaba se to rnando uma necessidade. Quando os progressos da me dicina e da informação deviam autorizar uma redução substancial dos problemas de saúde. Dois bilhões de pessoas sobrevivem sem água potável. acabar com o analfabetismo. ain da aqui. O abando no da idéia de solidariedade está por trás desse entendimento da economia e conduz ao desamp aro em que vivemos hoje. No fim do século XX havia mais 600 milhões de pobres do que em 1960. o poder (a potência) deve ser também exercido em estado puro. típica do nosso tempo. ampliados porque. O desemprego é algo tornado comum. na verdade. a idéia de que o desemprego é o resultado de um jogo simplório entre formas técnicas e decisões microeconômicas das empresas é uma simplificação. os métodos quantitativos da estatística enganam: ser pobre não é apenas ganhar menos do que uma soma arbitrariamente fixada. ficou mais difícil do que antes atr ibuir educação de qualidade e. hoje tão presentes no c otidiano de todos. E essa condição se amplia para u . A p e r v e r s i d a d e s i s t ê m i c a Seja qual for o ângulo pelo qual se examinem as situações características do período atual. a realidade pode ser vista como uma fábrica de perversidade. com um a posição relativa inferior dentro da sociedade como um todo. e 1. a coletividade próxima e a humanidade em geral. de maneira mais adequada. Jamais houve na história um período em que o medo fosse tão generalizado e alcançasse todas as áreas da nossa vida: medo do desemprego. ser pobre é participar de uma situação estrutural.4 bilhão de pessoas ganham menos de um dólar por dia. hoje é um fato banal. medo do outro. Ela atinge 800 milhões de pessoas espalhadas por todos os continentes. medo da v iolência.Para exercer a competitividade em estado puro e obter o dinheiro em estado puro. como se a nação não devesse solidariedade a cada um dos seus membros. mesmo.

a parte de trabalho na renda nacional ca i de 36% na década de 1970 para 23% em 1992. inerente ao seu próprio processo. Vivemos num mundo de exclusões. Ao nosso ver. agravadas pela desp roteção social. criador de insegurança.m número cada vez maior de pessoas. Junto ao desempreg o e à pobreza absoluta. a ca usa essencial 29 . registre-se o empobrecimento relativo de camadas cada vez maio res graças à deterioração do valor do trabalho. que é também. Na verdade. porém. apanágio do modelo neoliberal. para se estabelecer como um sistema. O fato. No México. atribuídos a distorções da personalidade. a perversidade deixa de se manisfestar por fatos isolados. é que a pobreza tanto quanto o desemprego agora são considerados como algo natural .

da política. com a u tilização de qualquer que seja o meio para obter o fim colimado. também generalizada. de classes. Os papéis dominantes. o caminho fica aberto ao abandono das solidariedades e ao fim da ética. isto é. aparece como um obstáculo à realização dos fins de cada um e deve s r removido. instituição ou indivíduo. da competitivid ade como regra absoluta. com os nomes de tática e estratégia. a corrupção. Assim elaborado. a dissimulação e o cinismo. e a instalação sem contrapartida de uma ordem ent rópica. legitimados pela ideologia e pela prática da competitividade. de outro subproduto da competitividade. a banalização da guerra de todos contra todos. Decorrem daí a celebração dos egoísmos. somam-se novas. 1988) . um dado importante no movimento de alienação trazido com a substituição do debate civilizatório pelo discurso único do mercado. competir e. Para o triunfo das novas virtudes pragmáticas. por lei geral da vida social. negando a generosidad e. o alastramento dos narcisismos. É uma situação na qual se produz a glorifi cação da esperteza. Daí o ensinamento e o aprendizado de comportamentos dos quais estão ausentes objetivos finalísticos e éticos . também. O outro. com a produção natural da desordem. s eja ele empresa. dentro do qual se instalam consumidores mais que perfeitos (M. o menosprezo quanto à liberdade. com o nome de segredo da marca. uma competitividade que escorre sobre todo o edifício social. internacionais . o sistema da perversidade legitima a preeminência de uma ação hegemônica mas sem responsabilidade. Esta reacende egoísmos e é um dos fermentos da quebra da solidariedade entre pessoas. Santos. Junte-se a is so o processo de conformação da opinião pelas mídias. classes e regiões. Para tudo isso. com o nome de marketing. isto é. e a glorificação da avareza. também contribui o estabelecimento do império do consumo. o engodo. Daí a difusão. isto é. levados à negligência em relação à cidadania e seu corolário. nessa lista dos processos característicos da instalação do sistema da perversidade. mas. regionais.da perversidade sistêmica é a instituição. Desse modo. vencer. Esse sistema da perversidade inclui a morte da Política (com um P maiúsculo). são a mentira. se possível. por isso sendo considerado uma coisa. negando a sinceridade. Oespaçodocidadão. Incluam-se também. na qual a distribuição do poder é tributária da rea . já que a condução do processo político passa a ser atributo das grandes empresas. ujo culto é substituído pela preocupação com a incolumidade. Às antigas desigualdades. a ampliação das desigualdades de todo gênero: interpessoais. o ideal de democracia plena é substituído pela construção de uma democracia de mercado.

Nesse começo dos tempos. Poder-se-ia considerar que existia uma territorialidade genuína. a linguagem era uma emanação do uso do território pela economia e pela 30 .lização dos fins últimos do próprio sistema globalitário. Não havia praticamente intermediações. muito breve. 1 0 . é a mãe de todas as outr as violências. Nas sociedades que os antropólogos europeus e norte-americanos orgulhosamente chamaram de primitivas. Da política dos Estados à política das empresas Façamos um regresso. aliás. constrói a história. política. economia. ao começo da história humana. Estas são as razões pelas quais a vida n ormal de todos os dias está sujeita a uma violência estrutural que. relacionando-se diretamente com a natureza. os laços entre território. quando o homem em sociedade. cultura e linguagem eram transp arentes. A economia e a cu ltura dependiam do território. a relação entre setores da vida social também se dava diretamente.

Isso criava um sentido de identidade entre as pessoas e o seu espaço geográfico. definidas pelas possibilidades que criam. no século XVIII. . por conseguinte. Para manter a identidade e os limites. S i s t e m a t é c n i c o s . A política do território tinha as mesmas bases que a política da economia. proporcionando ao ho mem um menor esforço na produção. um contexto limitado no espaço. Havia. da c ultura. pois. do território e do fenômeno do poder. surgem as técnicas d as máquinas. diversificando e avolumando ao longo do tempo. que lhes atribuía. No século XVIII. permitem a conquista de novos espaços e abrem horizontes para a humanid ade. era preciso ter clara essa idéia de domínio. da linguagem. de poder. Daí o desencantamento progressivo do mundo. Um é a produção das técnicas das máquinas. no sentido que. uma visão mais racional do mundo e também dos lugares que conduz a uma organização sociotécnica do trabalho. Nos últimos sécul os. e a política também estava com ele intimamente relacionada. de alguma maneira. aconteceram dois fenômenos extremamente importantes. os moradores pertenciam àquilo que lhes pert encia. Essa previsib ilidade de comportamento assegura. paralelamente. o território. uma noção particula limites. até que. Esse século marca o reforço do capitalismo e também a entrada em cena do homem como um valo r a ser considerado. em todas as manifestações essenciais de sua existência. A vida assim realizada por meio dessas técnicas é. que revalorizam o trabalho e o capital. conhecemos um avanço dos sistemas técnicos. As técnicas oferecem respostas à v ontade de evolução dos homens e. isto é. no transporte e nas comunicações. o reforço da condição técnica na vida soc ial e individual e as novas concepções sobre o homem se corporificam com as idéias filosóficas que se iriam tornar forças da política.cultura. o que também produz ia uma idéia de domínio. a idéia de comunidade. cada vez menos subordinada ao aleatório e cada vez mais exige dos homens comportamentos previsíveis. que mais tarde vão se incorporar ao solo como próteses. Criava-se. uma compartimentação do espaço. em função da produção necessária à sobrevivência do grupo. são a marca de cad a período da história. alte rando as relações entre países e entre sociedades e indivíduos. paralelamente. Este é um outro dado importante. acarretando. uma territorialidade absoluta. formando um conjunto indissociável. requalificam os territórios. s i s t e m a s f i l o s ó f i c o s Toda relação do homem com a natureza é portadora e produtora de técnicas que se foram enriquecendo. O nascimento da técnica das máquinas. mudando a face da Terra.

com uma prática mais avassaladora do lucro e da concorrência. foi estabelecida a possibilidade de enriquecer moralmente o indivíduo. se as técnicas houvessem sido entregues inteiramente às mãos capitalistas sem que. Se ao lado desses progressos da técnica a serviço da produção e do capitalismo não houvesse a progressão das idéias. surgissem as idéias filosóficas (que também eram idéias morais).O século XVIII produziu os enciclopedistas e a revolução americana e a Revolução Francesa. A mesma ética glorificava o indivíduo responsável e a coletividade responsável. Num momento em que o capitalismo ta mbém se reforçava. o mundo ter ia se organizado de forma diferente. respostas políticas às idéias filosóficas. Ao contrário. Indivíduo e coletividade eram chamados a criar j untos um 31 . pelo outro lado. teríamos tido uma eclosão muito maior do utilitarismo. Ambos eram responsáveis.

Como. A nova situação. vai se alicerçar em duas colunas centrais. por intermédio do Estado Nacional. trata-se de uma técnica e de uma ciência seletivas. é produzid . Uma tem como base o dinheiro e a outra se funda na informação. A cidadania plena é um dique contra o capital pleno. como se voltássemos a ser animais da selva. desde os séculos anteriores. Dentro de cada país. Essa globalização tem de ser encarada a partir de dois processos paralelos. durante os chamados trint a anos gloriosos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E essa quase plenitude era pa ralela à quase plenitude da democracia. quando esse progress o técnico alcança um nível superior. talvez. e não à humanidade em geral. Por conseguinte. A informação é centralizada nas mãos de um número extremamente limitado de firmas. o progresso técnico e científico não é sempre um progr esso moral. dos transportes e das comunicações. reduz as noções de moral idade pública e particular a um quase nada. a globalização se realiza. mas quase alcançou esse estágio em certos países. ou seja. o essencial do que no mundo se lê. a ciência passa a produzir aquilo que int eressa ao mercado. Finalmente. essa tecnociência. conforme já acentua mos. mesmo. Certamente a cidadania nun ca chegou a ser plena. informação e dinheiro mundializados acabam por se impor como algo autônomo face à sociedade e.enriquecimento recíproco que iria apontar para a busca da democracia. das relações entre países e dentro de cada nação. Pior. De um la do. tanto em jornais como em livros. à econ omia. dá-se a produção de uma materialidade. e para a produção da cidadania pl ena. O período atual tem como uma das bases esse casamento entre ciência e técnica. tornando-se um elemento fundamental da produção. freqüentemente. devolve o homem à condição primitiva do cada um por si e. como uma condição para realizar essa sonhada gl obalização com a mais completa humanização da vida no planeta. sobretudo entre os mais pobres. das condições materiais que nos cercam e q ue são a base da produção econômica. isto é. classes e pessoas. mas não a serviço da humanidade. do que isso: a ausência desse progresso moral e tudo o que é fe ito a partir dessa ausência vai pesar fortemente sobre o modelo de construção histórica dominante no último q uartel do século XX. De outro há a produção de novas relações sociais entre países. É irônico recordar que o progresso técnico aparecia. g l o b a l i z a ç ã o e h i s t ó r i a s e m s e n t i d o A globalização marca um momento de ruptura nesse processo de evolução social e moral que se vinha fazendo nos séculos precedentes. do Estado de Direito e do Estado Social. e ao mesmo tempo da geopolítica. reivindicação que se foi afirmando ao longo desses séculos. A globalização mata a noção de solidariedade. Hoje. cujo uso é condicionado pelo mercado. T e c n o c i ê n c i a .

Além disso. 32 . mas as reescreve m de maneira específica. O mundo se torna fluido. Todos os contextos se intrometem e superpõem. na realidade.o a partir de meia dúzia de empresas que. o território deixa de te r fronteiras rígidas. o que leva ao enfraquecimento e à mudança de natureza dos Estados nacionais. corporificando um contexto global. no qual as fronteiras se tornam porosas para o dinheiro e para a informação. por causa dessa intermediação deformante. acabamos na realidade por não sabê-lo. Apesar de as condições técnicas da informação permitirem que toda a humanidade conheça tudo que o mundo é. mas também ao dinheiro. não transmitem novidades. graças à informação.

Quem não tem visão de conjunto não chega a ser político. em que as empresas privadas assumiriam um trabalho de assistência social antes deferido ao poder público.O discurso que ouvimos todos os dias. ao serviço da economia dominante. o Estado acaba por ter menos recursos para tudo o que é social. mas sua base essencial é o fato de qu e os condutores da globalização necessitam de um Estado flexível a seus interesses. nem finalísticas. Os atores são as empresas globais. A s e m p r e s a s g l o b a i s e a m o r t e d a p o l í t i c a A política agora é feita no mercado. se o Estado não pode ser solidário e a empresa não pode ser altruísta. As priv atizações são a mostra de que o capital se tornou devorante. Quando uma grande empresa se instala. mais ágil. privilegiando uma parcela da sociedade e deixando a maior parte de fora. e de um modo geral. a sociedade como um todo não tem quem a valha. A política. E não há política apenas para os pobres. Como essas normas rígidas são assoc iadas ao . quase todas extremamente rígidas. Mas a política tem de cuidar do conjunto de realidades e do conjunto de relações. chega com suas normas. Não é que o Estado se ausente ou se torne menor. Dir-se-á que. Só que esse mercado global não existe como ator. ou se é ca da vez mais individualista. Ele apenas se omite quanto ao interesse das populações e se torna mais forte. Ela apenas se realiza quando existe a consideração de todos e de tudo. a própria lógica de sobrevivência da empre sa global sugere que funcione sem nenhum altruísmo. no mundo da competitividade. Nas condições atuais. por definição. que não têm preocupações éticas. De tal forma. para nos fazer crer que deve haver menos Estado. sobretudo as maiores. mais presen te. exigindo sempr e mais. que financia as empresas estrang eiras candidatas à compra do capital social nacional. sobretu do no caso das privatizações caricatas. Caber-lhes-ia. isto é. A eliminação da pobreza é um problema estrutural. a instalação desses capitais globalizados supõe que o território se adap te às suas necessidades de fluidez. Essa política das empresas eqüivale à decretação de morte da Política. como no modelo brasileiro. Haveria frações do territór io e da sociedade a serem deixadas por conta. Agora se fala m uito num terceiro setor. mas como uma ideologia. Mas. desse modo. vale-se dessa mencionada porosidade. um símbolo. estamos assistindo à não-política. escolhidos segundo os interesses dos doador es. escolher quais os beneficiário s. Fora daí o que se pretende é encontrar for mas de proteção a certos pobres e certos ricos. à política feita pelas empresas. investindo pesadamente para alterar a geografia das reg iões escolhidas. querendo tudo. Então. guloso ao extremo. ou se desaparece. é sempre ampla e supõe uma visão de conjunto. Além disso. como não há apenas para os ricos. desde que não convenham ao cálculo das firmas.

soc iais. quando uma se impõe cria-se a necessidade de trazer outras. Muda a estrutura do emprego. por conseguinte. Pelo fato de que as técnicas atuais são solidárias. sem as quais aquela não funciona bem. envolve suas próprias regulamentações e. o mundo das normas se adens a porque as técnicas em si mesmas também são normas.uso considerado adequado das técnicas correspondentes. Um pequeno número de grandes empresas que se in stala 33 . assim como as outras relações econômicas. O mesmo se dá com as empresas. traz para os lugares novas formas de relacioname nto. afetando igualmente o orçamento público. culturais e morais dentro de cada lugar. É assim que também se alteram as relações sociais dentro de cada comunidade. Cada técnica propõe uma maneira particular de comportamento. ta nto na rubrica da receita como no capítulo da despesa.

três formas de dívida social. as situações de pobreza podiam ser definidas como reveladoras de uma pobreza acidental. Daí a crença de sua indispensabilidade. com o abandono da noção e da prática da solidariedade. Assim. claramente visíveis no país. pelo me nos a médio prazo. intersticial. a pobreza estrutural. estamos. reconhecida e estudada como uma doença da civilização. uma pobreza intersticial e. comp elido. portanto voluntária da dívida social. À medida que os institutos encarregados de cuidar do inter esse geral são enfraquecidos. três definições da pobreza Os países subdesenvolvidos conheceram pelo menos três formas de pobreza e. arrastado. E agora chegamos ao terceiro tipo. estacional. na maior parte do planeta. Mas é tam bém uma produção científica. presente em toda a parte do mundo. que de um ponto de vist a moral e político eqüivale a uma dívida social. às vezes residual ou sazonal. produzida em certos momentos do ano. Então chamada de marginalidade. o poder público passa a ser subordinado. residual. internacional ou interna. por meio do comportamento dos territórios. o que era buscado pelas mãos dos governos. sobretudo. A primeira seria o q ue ousadamente chamaremos de pobrezaincluída. ameaçando ir embo ra quando não atendidas em seus reclamos. Admitia-se que poderia ser corrigida. isto é.acarreta para a sociedade como um todo um pesado processo de desequilíbrio. para a qual. ainda que esteja mais presente nos países já pobres. paralelamente. nem mesmo naci onal. À medida que se impõe esse nexo das grandes empresas. no último meio século. já fortemente implantada no Brasil. 1 1 . produzindo as precondições da fragmentação da desordem. instala-se a sement e da ingovernabilidade. Há uma disseminação planetária e uma produção globalizada da pobreza. ainda que sua dimensão não tenh a sido adequadamente avaliada. Todavia. da crise praticamente geral dos e stados e dos municípios. Em meio século. uma pobreza acidental. de sua atitude de chantagem frente ao poder público. fator da presente guerra entre lugares e. tornase globalizada. tais empresas são apresentadas como salvador as dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e modernidade. A p o b r e z a i n c l u í d a Antes. não se buscam remédios. vista como desadaptação local aos pro . Ela é estrutural e não mais local. mediante o discurso oficial. sem vasos comunicantes Depois chega uma outra. em muitos casos. tal pobreza era produzida pelo processo econômico da divisão do trabalho.

nem a própria sociedade eram exclusiva ou majoritariamente movidos por driving forces compreendidas pelo processo de racio nalização. nem a cidade. e política. ou como inadaptação entre condições naturais e condições sociais. assim. nem o território. Desse modo. coladas ao território ou inerentes à vida social. a eficácia dos processos racionalizadores porventura vigentes na vida econômica. Era uma pobreza que se produzia num lugar e não se comunicava a outro lugar. A presença das técnicas. social.cessos mais gerais de mudança. era relativamen te pouco expressiva. cultural. a racionalidade da existência não c onstituía um 34 . Então. reduzindo.

graças às formas modernas de difusão das inovações. no qual nos encontramos. saídas. assim. com a luta contra a pobreza e suas manifestações. Além da pobreza absoluta. A p o b r e z a e s t r u t u r a l g l o b a l i z a d a O último período. a pobreza é identificada como uma doença da civilização. assistencialistas. torna-se. e pela forma como o fazem. considerada indesejável. as condições materiais e psicológicas necessárias. Para superar tal situação. Mesmo em países como o nosso. e a pobreza era freqüentemente apresentada como um acid ente natural ou social. Agora. Daí poder-se falar de pobres incluídos. A ampliação do consumo ganha. cuja produção acompanha o próprio processo econômico. O êxito do estado do bem-estar em tanto s países da Europa ocidental e a notícia das preocupações dos países socialistas para com a população em geral funcionavam com inspiração aos países pobres. todos comprometidos. limitando-se a alguns aspectos isolados da s ociabilidade. resultante de um sistema de ação deliberada. ao . o consumo se impõe como um dado importante. general izada a preocupação dos governos e das sociedades nacionais. e de outro. revela uma pobreza de novo tipo. cria-se e recria-se incessantemente uma pobreza relativa. ao menos ideologica mente. a informação constitui um dado revolucionário nas relações sociais. Em um mundo onde o consumo ainda não constituía um nexo social obrigatório. A produção da pobreza iria buscar suas causas em outros fatores. que leva a classificar os indivíduos pela sua capacidade de consumir. locais. uma pobreza estrutural globalizada. Havia uma certa vergonha de não enfrenta r a questão. Examina ndo o processo pelo qual o desemprego é gerado e a remuneração do emprego se torna cada vez pior. dando à pobreza novos con teúdos e novas definições. considerado grave mas não insolúvel. de um lado. O radiotransistor era o grande símbolo. Na situação que estamos descrevendo. as soluções ao problema eram privadas. O estabelecimento de índices de pobreza e miséria utiliza esses componentes. o poder público é forçado a encontrar fórmulas. por meio de suas elites intelec tuais e políticas. o que leva a uma busca de soluções de Estado para esse problema.dado essencial do processo histórico. pois constitui o centro da explicação das diferenças e da percepção das situações Dois fatores jogam um papel fundamental. com o fenômeno da pobreza. também. A m a r g i n a l i d a d e Num segundo momento. arremedos de solução. a pobreza era menos discriminatória. que coincide com a generalização e o sucesso da idéia de subdesenvolvimento e das teorias destinadas a combatê-lo. Ainda nesse segundo momento. os pobres eram chamad os de marginais. Ampliam-se. as possibilidades de circulação. ainda que não lhes fosse possível alca nçar a realização do estado de bem-estar.

é lícito considerar que a atual divisão administrativa do trabalho e a ausência deliberada do Estado de sua missão socia l de regulação estejam contribuindo para uma produção científica. trata-se de uma pobreza pervasiva.mesmo tempo em que o poder público se retira das tarefas de proteção social. globalizada e voluntária da pob reza. admitir a existência de algo como um p lanejamento centralizado da pobreza atual: ainda que seus autores sejam muitos. generalizada. o seu motor essencial é o 35 . global. Agora. de algum modo. permanente. Pode-se. ao contrário das duas fases anteriores.

isto é. que. querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos. como é o caso do Banco Mundial. Hoj e. um resultado necessário do presente processo. Alcançamos. considerado até mesmo um fato natural. mas onde o valor médio do salário caiu. contrariamente às situações precedentes. em proporção talvez pior do que antes. e acabam por ser o que hoje são. como. o Nessa última fase. Uma das grande diferenças do ponto de vista ético é que a pobreza de agora surge. então. trazida não apenas pela expansão do desemprego. a diferença entre o uso da palavra pobreza e da expressão dívida social nesses cinqüenta anos. Agora não. E essa qued a do desemprego não atinge igualmente toda a população. excluídos. Mas é uma pobreza produzida politicamente pelas empresas e ins tituições globais. se gmentadas. pela redução do valor do trabalho. Saímos de uma pobreza para entrar em outra. Os pobres. também. Essa produção maciça da pobreza aparece como um fenômeno banal. com a convivência de intelectuais contratados u apenas contratados para legitimar essa naturalização. marginalizados. que seria politicamente produzida pelos atores globais com a colaboração consciente dos governos nacionais e . aqueles que são o objeto da dívida social. e as populações de origem latina se encontram na bas e da escala salarial. parcializadas. impõe-se e explica-se como algo natural e inevitável. um fenômeno inevitável. por exemplo. existindo como vasos comunicantes e como algo racional. quando. Vejam. algo mais ou menos espontâneo. porque os negros continuam sem empr ego. enq uanto estruturalmente se cria a pobreza ao nível do mundo. ela obedece a cânones científicos por isso a consideramos uma divisão do trabalho administ rada e é movida por um mecanismos que traz consigo a produção das dívidas sociais e a disseminação da pobreza numa escala global. é o grande produtor da pobreza. for am já incluídose. pagam para criar soluções localizadas. funcionalmente. é uma pobreza quase sem remédio. est ruturalmente. Deixa-se d e ser pobre em um lugar para ser pobre em outro. depois. de um lado. E isso se dá com a colaboração pass iva ou ativa dos governos nacionais. dos Estados Unidos. os pobres não são incluídos nem marginais. em diferentes partes do mundo. Acatam-se. A divisão do trabalho era. assim. manifestações da pobreza. Esta exclusão . Nas condições atuais. É o caso. Estas. apresentado como o país que tem resolvido u m pouco menos mal a questão do desemprego. uma espécie de naturalização da pobreza. eles são excluídos.mesmo dos outros processos definidores de nossa época. isto é. até recentemente. A pobreza atual resulta da convergência de causas que se dão em diversos níveis. financia programas de atenção aos pobres.

O p a p e l d o s i n t e l e c t u a i s O terrível é que. poderá ser a base intelectual da política. um mundo no qual na da de importante se faz sem discurso. Este. obedece a um processo racional.atual. Os excluídos são o fru dessa racionalidade. nesse mundo de hoje. Por aí se vê que a questão capital é o entendimento do nosso tempo. com a produção de dívidas sociais. uma racional idade sem razão. mas que comanda as ações hegemônicas e arrasta as demais ações. aumenta o número de letrados e diminui o de intelectuais. E isso é central no mundo de hoje. 36 . sem o qual será impossível construir o discurso da liberação. desde que seja simples e veraz. Não é este um dos dramas atuais da sociedade brasileira? Tais letrados .

pois. Ao contrário. partindo das realidades e das necessidades de cada nação. até mesmo com a re formulação da federação. para isso. . deixando-se de lado o papel d o território utilizado pela sociedade como um seu retrato dinâmico. a partir de uma visão de conjunto. Essa realidade obriga a discutir algumas das soluções propostas para o problema. jogan do para um lado a busca de soluções estruturais e limitando-se a propor paliativos. Santos. ou não pensam para encontrar a verda de. não se podem encontrar com o futuro. no médio e no longo prazos. que não são verdadeira mente transformadores da sociedade. não podem substituir a política social. como também constituir uma promessa de reformulação da própria ordem mundial. é lam entável que políticos e partidos ditos de esquerda se entreguem a uma política de direita. hoje. Anaturezadoespaço. com o. houvesse redistribuição dos pode res e de recursos entre diversas esferas político-administrativas do poder. renegando a função principal da intelectualidade. 1996). estados a Não se trata. deve não só entendê-las . um grande complicador vem do fato de que a globalização é freqüentemente considerada uma fatalidade. Mas. porque serão inócuos. com a morte da esperança e da generosidade. e este não pode ser uma formulação automaticamente derivada do projeto hegemônico e limitativo da globalização atu al. baseada num exagerado encantamento pela s técnicas de ponta e com negligência quanto ao fator nacional. acaba por consagrar a ad oção de um ponto de partida fechado e por aceitar como indiscutível e inelutável o reino da nec essidade. Exclusão e dívida social aparecem como se fossem algo fixo. No caso brasileiro. territorial etc. isto é. por exemplo. o casamento permanente com o porvir.). a pobreza. encontrando a verdade. quando se imagina poder compensar uma política neoliberal no plano nacion al com a possibilidade de uma política social no plano subnacional. Nas condições atuais. Assim como o território é hoje um território nacional da economia internacional (M. O desejável seria que. as ações mais dinâmicas estão orientadas cada vez mais para a produção de pobreza. é necessário haver um projeto nacional. não a dizem. municípios. considera da um elenco coerente com as demais políticas (econômica.equivocadamente assimilados aos intelectuais. assim como uma redistribuição das prerrogativas e tarefas entre as diversas escalas territoriais. Tal visão do mundo. de deixar aos níveis inferiores de governo busca de políticas compensatórias para aliviar as conseqüências da pobreza. uma espécie de volta à velha noção de technologicalfix(uma única tecnologia eficaz). quando existentes. Nesse caso. é a pobreza nacional da ordem int ernacional. por meio da busca incansada da verdade. ou. As cha madas políticas públicas. ao nível federal. enquanto.

volta e meia. a produção de meiasverdades é infinita e somos freqüentemente convocados a repeti-las sem maior análise do problem a.imutável. fim das fronteiras. Há os otimistas e pessimistas. indeclinável. como qualquer outra ordem. quem se arrisque a falar de desterritorialidade. ocupa os espíritos. 1 2 . como em muitos outros. aind a que 37 . O que fazer com a soberania De que maneira a globalização afeta a soberania das nações. pode ser substituída por um a ordem mais humana. Nesse terreno. mesmo. seja em função de fatos concretos. quando. seja teor icamente. mort e do Estado. Tomemos o caso particular do Brasil para discutir mais de perto essa questão. os defensores e os acusadores. Há. as fronteiras dos países e a governabilidade plena é uma questão que.

as normas públicas que o regem são da alçada nacional. a contradição entre o externo e o interno aumentou. de trabalho. tornouse corriqueiro entregar a direção desses bancos centrais a personagens mais comprome tidas com os postulados ideológicos da finança internacional do que com os interesses concretos d as sociedades nacionais. automático. a começar pelo próprio mercado e incluindo também as infra-estruturas geográficas de apoio. Sem dúvida. a noção de soberania teve de ser revista. regula o mundo financeiro e constrói infra-est ruturas.nossa realidade se aparente à de muitos outros países do planeta. cujo exercício violent o acentua a porosidade das fronteiras. atribuindo. ainda que as forças mais ativas do seu dina mismo atual tenham origem externa. Mas a vida de uma emp resa vai além do mero processo técnico de produção e alcança todo o entorno. Nações Unidas. Mas a cessão de soberania não é algo natural. Banco Mundial. o Estado continua forte e a prova disso é que nem as empresas transnacionais. isto é. o que temos é um território nacional da economia internacional. sem as quais os poderosos fatores externos perdem eficácia. cuja a fluid ez se multiplica graças às maravilhas da técnica contemporânea. a grandes empresas escolhidas a condição de sua viabilidade. nem as instituições supranacionais dispõem de força normativa para impor. em última análise. freqüentemente. a informação e a finança. Todavia. sozinhas. sobretudo. cujos editos ou recomendações necessitam de decisões internas a cada país para que tenha m eficácia. Mas é um equívoco pensar que a informação e a finança exercem sempre sua força sem encontrar contrapartida interna. P or isso. pois depende da forma como o governo de cada país decide fazer sua inserção no mundo da chamada global ização. É o Estado nacional que. inelutável. sem o que ela não pode ter êxito. essa correia de transmissão (situada acima do Parlamento) entre uma vontade política externa e uma ausência de vontade interior. o território continua existi ndo. Po r intermédio de suas normas de produção. face aos sistemas transgressores de âmbito planetário. as empresas transnacionais arrastam outras empresas e instituições dos lugares onde se instalam. é o Estado nacional. O mesmo pode ser dito das instituições supranacionais (FMI. impondo-lhes comportamentos compatíveis com seus interesses. O Banco Central é. que detém o monopólio das normas. . assim. sua vontade política ou econômica. são. de financiamento e de cooperação com outras firmas . Em outras palavras. dentro de cada território. afinal. Estes. Esta depende d e uma vontade política interior. Ao contrário do que se repete impunemente. Organização Mundial do Comérc o). Com a globalização. capaz de evitar que a influência dos ditos fatores seja a bsoluta.

todavia. não é verdade que a globalização impeça a constituição de um projeto naciona . 38 . Este parece ser o caso do Brasil atual. Cremos. Por conseguinte. mesmo num mundo globalizado. que sempre é tempo de corrigir os rumos equivocados e.O Estado altera suas regras e feições num jogo combinado de influências externas e realidades internas. Mas não há apenas um caminho e este não é obrigatoriamente o da pas sividade. Sem isso. fazer triunfar os interesses da nação. os governos ficam à mercê de exigências externas. por mais descabidas que se jam.

Hoje. o espaço geográfico ganha novos contornos. com a globalização. Essa esquizofre nia do território e do lugar tem um papel ativo na formação da consciência. Numa situação de extrema competitividade como esta em que vivemos. A agric ultura moderna. O espaço geográfico não penas revela o transcurso da história como indica a seus atores o modo de nela intervir de maneira consciente. cientifizada e mundializada. uma nova importância. E. regional ou local. O dinheiro usurpa em seu favor as perspectivas de fluidez do território. Os atores mais poderosos se reserva m os melhores pedaços do território e deixam o resto para os outros. No co meço havia ilhas de ocupação devidas à presença de grupos. Ao longo do tempo e à medida do aumento das popu lações e do intercâmbio. os lugares repercutem os embates entre os diversos atores e o território como um todo revela os movimentos de fundo da sociedade. onde se associam e se chocam o movimento geral da sociedade planetária e o movimento particular de cada fração. O espaço geográfico: compartimentação e fragmentação Ao longo da história humana. olhado o planeta como um todo ou observado através dos continentes e países. A globalização. tribos. novas características. constitui um exemplo dessa tendência e um dado essencial ao entendimento do que no país constituem a compartimentação e a fragmentação atuais do território. Esses movimentos são paralelos a um processo de f ragmentação que rouba às coletividades o comando do seu destino. com a proeminência dos sistemas técnicos e da inform ação. buscando conformar sob seu comando as outras atividades. Outro fenômeno a levar em conta é o papel das finanças na reestruturação do espaço geográfico. Os territórios tendem a uma compartimentação generalizada. nações.I V -O T E R R I T Ó R I O D O D I N H E I R O E D A F R A G M E N T A Ç Ã O I n t r o d u ç ã o No mundo da globalização. também. já que os lugares escolhidos acolhem e beneficiam os vetores da rac ionalidade dominante mas também permitem a emergência de outras formas de vida. tal como a assistimos se desenvolver em país es como o Brasil. 1 3 . pode-se . subverte o antigo jogo da evolução territorial e impõe novas lógicas. enquanto os novos atores também não dispõem de instrumentos de regulação que interessem à sociedade em seu conjunto. porque a eficácia das açõ está estreitamente relacionada com a sua localização. o espaço geográfico sempre foi objeto de uma compartimentação. cujos espaços de vida formariam verdadeiros arquipélagos. Produz-se uma verdadeira esquizofrenia. essa trama foi se tornando cada vez mais densa. da sociedade nacional. novas definições. Mas o território não é um dado neutro nem um ator passivo.

39 .

o valor do dinheiro e as forma s de governo. nem a possibilidade de cooperação na diferença. a ord em interna a cada um desses impérios e a ordem internacional. os compartimentos eram soldados por regras. a superfície da Terra é inteiramente compartimentada e o respectivo caleidoscópio se apresenta sem solução de continuidade. Dentro de cada área. Por intermédio da política. Já a fragmentação reve um cotidiano em que há parâmetros exógenos. dos transportes.dizer que a totalidade da superfície da Terra é compartimentada. O . Redefinida em função dos característ icos de uma época. assegurando. por exemp lo o império português ou o império espanhol. cada país imperial regulava a produção própria e a das suas colônias. sem referência ao meio. usos e apetites de Estados e empresas nesta fase da história. Pode-se dizer que a política compensava a diver sidade e a diferenciação do poder técnico ou do poder econômico. tanto se pode dizer que toda a superfície da Terra se tornou ecúmeno quanto se pode afirmar que essa palavra já não se aplica apenas ao planeta efetivamente habitado. um ac ontecer solidário identificado com o meio. a velha noção de ecúmeno perde a antiga definição e ganha uma nova dimensão. O mesmo pode ser dito em relação ao que se passava n a escala internacional. fundado cada qual numa base técnica diferente. Nenhuma fração do planeta escapa a essa influência. o comércio entre estas e os ou tros países. mas sempre revelam um cotidiano compartido e complementar ainda que também conflitivo e hierárquico. portador das técnicas mais avançadas da produção material. Desse modo. Eram ritmos diversos. não apenas pela ação dire ta do homem. a humanidade vivia o mundo da lentidão. A assimetria na evolução da s diversas partes e a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de regulação. o que não impedia a sua coexi stência. Seu conteúdo e definição variam através dos tempos. A c o m p a r t i m e n t a ç ã o : p a s s a d o e p r e s e n t e Até recentemente. com impérios desse ponto de vista menos avançados. Desse modo. Tal solid ariedade e tal identificação constituem a garantia de uma possível regulação interna. constituem uma característica marcante. mas não incompatíveis. no qual a prática de velocidades diferentes não separava os respectivos agentes. a compartimentação atual distingue-se daquela do passado e freqüentemente se dá como fragmentação. C om a globalização. das comunicações e do dinheiro. ainda que sem excluir relações distantes. Durante um século conviveram impérios como o britânico. todo e qualquer pedaço da superfície da Terra se torna funcional às necessid ades. ao mesmo tempo. o fluxo de produtos. é o da constitu ição dos impérios. mas também pela sua presença política. aind a que não houvesse contigüidade entre eles. desde o último quartel do século XIX. tanto inter na quanto externa. O melhor exemplo. mercadorias e pessoas.

todas praticamente relacionadas com o território: uma economia territorial.famoso pacto colonial acabava por compreender todas as manifestações da vida histórica e os equilíbrios no interior de cada império se davam paralelamente ao equilíbrio entre as nações imperiais. a compartimentação dos territórios. mas também de costumes. na forma de leis e de tratados. De algum modo. Por meio da regulação. Dentro de cada país. na escala nacional e internacional. uma cultura territorial. regidas por regras. a ordem internacional era produzida por meio da política dos Estados. permite que sejam neutralizadas diferenças e mesmo as oposições sejam p acificadas. 40 . igualmente territorializadas. a compartimentação e a solidariedade presumiam a presença de certas condições.

a solidariedade. conforme vimos antes. tornando-se. incluindo toda a superfície do planeta. todavia. No plano i nterno. e dessa forma acrescentando ao processo de compa rtimentação nexos verticais que se superpõem à compartimentação horizontal.mediante um processo político que se renova. logo. sobretudo os sistemas da informação. na verdade. É por meio dessas linhas de menor resistência e. e de uma fluidez efetiva. f l u i d e z . os detentores efetivos da velocidade. A fluidez potencial aparece no imaginário e na ideo logia como se fosse um bem comum. desse modo. O chamado mercado global se impõe como razão principal da constituição desses espaços da fluidez e. mediante processos q ue levam à busca da unificação e não propriamente à busca da união. R a p i d e z . que o mercado globalizado procura instalar a sua vocação de expansão. paralelamente. desse modo. nacionais. por conseguinte. Trata-se de uma fluidez virtual. send o que esta é empreendida tanto pelas instituições públicas. pois. a busca de solidariedade conduz ao enriquecimento dos direitos sociais com a instalação de dife rentes modalidades de democracia social. No plano internacional. intranacionais e internacion ais. f r a g m e n t a ç ã o Hoje. realizada quando essa fluidez potencial é utilizada no exercício da ação. Assim. tudo hoje está compart imentado. . e os portadores da s velocidades extremas buscam induzir os demais atores a acompanhá-los. Criam-se. esse processo cumulativo de adaptações leva às modificações do estatuto colonial. apenas alguns agentes têm a possibilidade de utiliza-la. O exercício desta é. separando os espaços d a pressa daqueles outros propícios à lentidão. característica da história h umana até data recente. vivemos um mundo da rapidez e da fluidez. O fenômeno é geral. aceleradas com o fim da Segunda Guerra Mundial. adaptando-se às realidades emergentes p ara também renovar. procurando disseminar as infraestruturas necessárias à desejada fluidez nos lugares que consideram necessários para a sua atividade. quando. de maior fluidez. da sua utilização. uma fluidez para todos. o resultado da disponibilidades materiais e técnicas existentes e das possibilidades de ação. incompatibilidades entre velocidades diversas. como pelas empresas privadas. Há. possível pela presença dos novos sistemas técnicos. de outro. sempre. a política atual. uma seletividade nessa difusão. i mpondo. As atuais compartimentações dos territórios ganham esse novo ingrediente. o mundo da rapidez e da fluidez somente se entende a partir de um proce sso conjunto no qual participam de um lado as técnicas atuais e. já que. pelas empresas e instituições hegemônicas.

por meio de tais lugares, um funcionamento que reproduz as suas próprias bases (Jo hn Gray, Falso amanhecer, os equívocos do capitalismo, 1999), a começar pela competitividade. A lit eratura apologética da globalização fala de competitividade entre Estados, mas, na verdade, tr ata-se de competitividade entre empresas, que, às vezes, arrastam o Estado e sua força normati va na produção de condições favoráveis àquelas dotadas de mais poder. É dessa forma que se potencializa a vocação de rapidez e de urgência de algumas empresas em detrimento de outras, uma competitividade que agrava as diferenças de força e as disparidades, enquanto o terr itório, pela sua organização, constitui-se num instrumento do exercício dessas diferenças de poder. Cada empresa, porém, utiliza o território em função dos seus fins próprios e exclusivamente em função desses fins. As empresas apenas têm olhos para os seus próprios 41

objetivos e são cegas para tudo o mais. Desse modo, quanto mais racionais forem regras de sua ação individual tanto menos tais regras serão respeitosas do entorno econômico, político, cultural, moral ou geográfico, funcionando, as mais das vezes, como um elemento pertubação e mesmo de desordem. Nesse movimento, tudo que existia anteriormente à instalação

as social, de dessas

empresas hegemônicas e convidado a adaptar-se às suas formas de ser e de agir, mesmo que provoque, no entorno preexistente, grandes distorções, inclusive a quebra da solidar iedade social. C o m p e t i t i v i d a d e versus s o l i d a r i e d a d e Pode-se dizer então que, em última análise, a competitividade acaba por destroçar as antigas solidariedades, freqüentemente horizontais, e por impor uma solidariedade vertical, cujo epicentro é a empresa hegemônica, localmente obediente a interesses globais mais pod erosos e, desse modo, indiferente ao entorno. As solidariedades horizontais preexistentes refaziam-se historicamente a partir de um debate interno, levando a ajustes inspirados na vo ntade de reconstruir, em novos termos, a própria solidariedade horizontal. Já agora, a solidariedade verti cal que se impõe exclui qualquer debate local eficaz, já que as empresas hegemônicas têm apenas dois ca minhos: permanecer para exercer plenamente seus objetivos individualistas ou retirar-se. Como cada empresa hegemônica no objetivo de se manter como tal deve realçar tais interesses individuais, sua ação é raramente coordenada com a de outras, ou com o pode r público, e tal descoordenação agrava a desorganização, isto é, reduz as possibilidades do exercício de uma busca de sentido para a vida local.

Cada empresa hegemônica age sobre uma parcela do território. O território como um todo é objeto da ação de várias empresas, cada qual, conforme já vimos, preocupada com sua s próprias metas e arrastando, a partir dessas metas, o comportamento do resto das e mpresas e instituições. Que resta então da nação diante dessa nova realidade? Como a nação se exerce di nte da verdadeira fragmentação do território, função das formas contemporâneas de ação das empres hegemônicas? A palavra fragmentação impõe-se com toda força porque, nas condições acima descristas, não há regulação possível ou esta apenas consagra alguns atores e estes, enqua nto produzem uma ordem em causa própria, criam, paralelamente, desordem para tudo o ma is. Como essa ordemdesordeiraé global, inerente ao próprio processo produtivo da globalização atu al, ela não tem limites; mas não tem limites porque também não tem finalidade e, desse modo, nenhu ma regulação é possível, porque não desejada. Esse novo poder das grandes empresas, cegamente

exercido, é, por natureza, desagregador, excludente, fragmentador, seqüestrando auto nomia ao resto dos atores. Os fragmentos resultantes desse processo articulam-se externamente segundo lógicas duplamente estranhas: por sua sede distante, longínqua quanto ao espaço da ação, e pela sua inconformidade com o sentido preexistente da vida na área em que se instala. Desse modo, produzse uma verdadeira alienação territorial à qual correspondem outras formas de alienação. Dentro de um mesmo país se criam formas e ritmos diferentes de evolução, governados pelas metas e destinos específicos de cada empresa hegemônica, que arrastam com sua presença outros atores sociais, mediante a aceitação ou mesmo a elaboração de discursos nacionaisr egionais alienígenas ou alienados. 42

entre os grupos humanos e a natureza. geralmente. responsável por mudanças profundas quanto à produção agrícola e quan o à vida de relações. Os últimos séculos marcam. para a atividade agrícola. na antiga Iugosláv ia. Criam-se. em certos casos. à constitu ição de um meio geográfico a que podemos chamar de meio técnico-científico-informacional. 1 4 . Quando a produção agrícola tem uma referência planetária. junto a uma vontade política regional já exercida como poder? Esse problema se torna mais agudo na medida em que as compartimentações atuais do território não são enxergadas como fragmentação. uma capacidade cada vez mais crescente de alterar os dados naturais quando possível. ela recebe influência daquelas mesmas leis que r egem os outros aspectos da produção econômica. característica das ativ idades de caráter planetário. cujo exe mplo emblemático nos vem da Espanha. quan do o passado não ofereceu como herança conjunta a existência de culturas particulares solid amente estabelecidas. entronizando o que se poderiam chamar regiões-países. ou autonomias ampliadas. É desse modo que se instala uma agricult ura propriamente científica. . Isso se dá. A agricultura científica globalizada e a alienação do território Desde o princípio dos tempos. quando a interpretaç do fato nacional é entregue a visões aparentemente totalizantes.Outra reação conduz à elaboração paralela de discursos reativos dotados de conteúdo específico e destinados a mostrar inconformidade com as formas vigentes de inserção no mundo . que não se apropriam da noção d o território considerado como território usado e visto. uma considerável mudança de qualidade. desse modo. por exemplo. de modificar a importância dos seus resultados. Como resolver questão de dentro de um mesmo país. por meio do aprofundamento das técnicas e de sua difusão. por meio da organização social. reduzir a importância do seu impacto e. mesmo. da ciência política. recentemente. a competitividade. como estrutura dot ada de um movimento próprio. O avanço da civilização atribui ao homem. Podemos agora falar de uma agricultura científica globalizada. tanto nos países avançados como nas regiões mais desenvolvidas dos países pobres. No começo da históri a tais relações eram. porque nele tudo o que é vida está representado. com a humanização e a mecanização do espaço geográfico. cara cterístico não apenas da vida urbana mas também do mundo rural. também. mas na realidade parti cularistas. leva a um aprofundamento da tendência à instalação de uma agricultura ci entífica. novas soberanias. a bem dizer. como certos enfoques da economia e. como. É melhor fazer a nação por intermédio do seu território. chegando-se. a agricultura comparece como uma atividade revelador a das relações profundas entre as sociedades humanas e o seu entorno. Assim.

de assistência técnica. como vimos. inseticidas. também. Por sua natureza global. levando ao aumento exponenc ial das quantidades produzidas em relação às superfícies plantadas. O dinheiro passa a ser uma informação indispensável. corr etivos) e. A d e m a n d a e x t e r n a d e r a c i o n a l i d a d e Nas áreas onde essa agricultura científica globalizada se instala.Esta. verifica-se uma importante demanda de bens científicos (sementes. Os produtos são escolhidos segundo uma base mercantil. fertilizantes. o que também implica 43 . é exigente de ciência. con duz a uma demanda extrema de comércio. técnica e informação.

como é o caso dos brasiguaios. igualme nte elaborados de fora. registra-se uma tendência a um duplo desemprego: o dos agricultores e outros empregados e o dos proprietários. a despeito das diferenças existentes entre os diversos agente s. dentro do próprio país ou no estrangeiro. o custo do dinheiro e o peso sobre o produtor dos lucros auferidos por tod os os tipos de intermediação. uma certa militarização do trabalho. a uma certa homogeneização. que conjuntamente movem e são movidas pela sociedade. ainda que as produções predominantes se assemelhem. na realidade. É atender a tais imperativos ou sair. Tal experiência é tanto mais sensível porque decorre de uma demanda externa de racionalidade e das respectivas dificuldades de oferecer uma resposta. armazenamento. empacotamento. propondo a instalação de sistemismos. Resta. improvável. As situações assim criadas são variadas e múltiplas. técnicas e operacionais pre existentes. A c i d a d e d o c a m p o . Nas áreas onde tal fenômeno se verifica. de que depende o valor interno da produção. até cert o ponto abstrato. aprofundamento e difusão de processos de racionalização que se contagi am mutuamente. também. colheita. heterogeneidade e complementaridade. Se entendermos o território como um conjunto de equipamentos. uma concorrência de certo modo invisível . eles vivem em comum certas experiências. de instituições. Desse modo. para outros componentes do cotidiano. também. É dessa maneira que se enri quece o papel da vizinhança e. Da-se. como. na verdade. levando. por exemplo. moderna e globalizada acaba por atribuir aos agricultores modernos a velha condição de servos da gleba. sem cuja utiliz ação os agentes recalcitrantes acabam por ser deslocados. como o valor externo da moeda (câmbio). que tanto se p odem dirigir às cidades quanto participar da produção de novas frentes pioneiras. por isso . Há. a agricultura científica. transportes e comerc ialização.uma estrita obediência aos mandamentos científicos e técnicos. a subordinação ao mercado distante. com a racionalização das práticas. a heterogeneidade é de regra. que atravessam o território e a soci edade. preços internacionais e nacionais so bre os quais não há controle local. como conseqüência. a tomada de consciência da importância de fatores externos : um mercado longínquo. levando à introdução. São essas condições que regem os processos de plantação. Numa mesma área. produzindo uma tipologia de atividades cujos subtipos dependem das condições fundiárias. pode-se fa lar na existência simultânea de continuidades e descontinuidades. forma-se no mundo rural em processo de modernização uma nova massa de emigrantes. práticas e normas. já que o critério do sucesso é a obediência às regras sugeridas pelas atividades hegemônicas.

A cidade é um pólo indispensável ao comando técnico da produ a cuja natureza se adapta. ligada à atividade agrícola e produzindo uma atividade urbana de fabricação e de serviços que.A agricultura moderna se realiza por meio dos seus belts. e é um lugar de residência de funcionários da administração públi ca e das empresas. Nessas localidades dá-se uma oferta de informação. mas a sua relação com o mundo e com as áreas dinâmicas do país se dá por meio de pontos. fruto da produção regiona l. são tam bém 44 . áreas. paralelamente. por exemplo. imediata e próxima. É o que explic . é largamente especializada e. sendo agrícolas. um outro tipo de atividade urbana ligad a ao consumo das famílias e da administração. spots. mas também de pessoas que trabalham no campo e que. o importante relacionamento existente entre cidades regionais e São P aulo.

Examinand o que significa na maior parte dos estados do Sul e do Sudeste e nos estados de Ma to Grosso e Mato Grosso do Sul. isso é. regionais. influenciando o comport amento da moeda. a indústria. as áreas agrícolas se transformam agora no lugar da vulnerabil idade. Mas. cujo papel é duplo: ela é um regulador do trabalho agrícola. . matizada. atitudes e valores. urbano-residentes. Às atividades e profissões tradicionais juntam-se novas ocupações e às burguesias e classes médias tradicionais juntam-se as modernas. os tr ansportes e os serviços. São visões do mundo. verifica-se que o campo modernizado se tornou praticamente mais aberto à expansão das formas atuais do capit alismo que as cidades. por intermédio de suas relações determinantes sobre o comércio. incidindo sobre o funcionamento da econom ia regional e urbana. incompleto e ndireto. Tal cidade.urbanas. Desse modo. sob muitos aspectos e com diferent es matizes. mas essas lógicas são internas aos setores e às empresas globais que as mobilizam. Tal processo é cria dor de ambigüidades e de perplexidades. Trata-se de uma produção local mista. formando uma mescla de formas de vida. os diversos atores têm interesses diferentes. embora arrastando comportamen tos locais. seq uioso de uma interpretação do movimento do mundo. Paralelamente. esse papel político é limitado. bem como em manchas isoladas de outros estados. Compartimentação e fragmentação do espaço: o caso do Brasil O exame do caso brasileiro quanto à modernização agrícola revela a grande vulnerabilidade das regiões agrícolas modernas face à modernização globalizadora . externas em relação à área da ação. tem também um papel político frente a essa mesma produção. confusamente enxergado a partir desses lugares. Sem dúvida. O p a p e l d a s l ó g i c a s e x ó g e n a s De tais áreas pode-se dizer que atualmente funcionam sob um regime obediente a preocupações subordinadas a lógicas distantes. O mundo. 1 5 . do país e do lugar elaboradas na cooperação e no conflito. do gasto público e do emprego. como o lugar da resistência. certa mente complementares. nacionais em todos os domínios da vida. mas também de uma certeza dada pela emergência da cid ade como um lugar político. e é a sede de uma sociedade local compósita e compl exa. às vezes convergentes. cujo papel de comando técnico da produção é bastante amplo. Daí se criarem situações de alienação que escapam a regulações locais ou nacionais. do crédito. contraditória de idéias. enquanto o urbano surge. na medid a em que a produção agrícola tem uma vocação global. é visto como um parceiro inconstante. alteram-se os comportamentos políticos e administrativos e o conteúdo da informação. cuja diversidade constitui um permanente convite ao debate.

enquanto as determinações fundamentais vêm de fora. num mesmo país ou em outro continente. politicamente ajudada pelas manipulações do comércio exte rior ou 45 . Assim. idêntico movimento pode ser também rapidamente implantado em outras áreas. a noção de competitividad e mostra-se aqui com toda força.Esse processo de adaptação das regiões agrícolas modernas se dá com grande rapidez. Num mundo globalizado. impondo-lhes. num pequeno espaço de tempo. sistemas de vida cuja relação com o meio é re flexa.

relacionada com o comércio. a cidade ganha uma nova dimensão e um novo papel. às novas áreas de agricultura globalizada do estado de São Paul o no caso da mudança internacional da conjuntura da economia da laranja. o custo do dinheiro etc. mediante um desses processos. O processo produtivo reúne aspectos técnicos e aspectos políticos. em maior ou menor grau. A s d i a l é t i c a s e n d ó g e n a s Há. poderão reagir a região.das barreiras alfandegárias. em fatores exógenos. baseia-se. justificados pela necessidad e de defesa das condições de sobrevivência regional. O produto ( ou produtos) com a responsabilidade de comando da economia regional inclui atores c om diferentes perfis e interesses. A parcela política do processo produtivo. Cabe perguntar. uma dialética interna a cada um dos fragmentos resultantes. características da população. Os primeiros têm mais a ver com a produção propriamente dita e sua área de incidência se verifica morment e dentro da própria região. É uma diversidade regional de novo tipo. por exemplo.. É isso que leva à tomada gradativa de consciência pela sociedade local de que lhe esca pa a palavra final quanto à produção local do valor. força e conômica e política. informação. Que acontecerá. Nessas circunstâncias.). seja pela sociedade local. o estado de São Paulo e a nação? A apreciação das perspectivas abertas a essas áreas modernizadas. do açúcar ou o álcool? E como. deve levar em conta o fato de que o sentido que é impresso à vida. seja esvaziada do seu conteúdo econômic o. mediante . os subsídios. diante de tal mudança. os preços. mesmo que isso tenha de se dar à custa da idéia de in tegridade nacional. tem sua sede fora da região e seus pro cessos freqüentemente escapam ao controle (e até mesmo ao entendimento) dos principais inte ressados. em que se agravam as disparidades territoriais (em equipamento. com tendência a particularizações extremas. todavia. produzem-se egoísmos locais ou regionais exacerbados. redefine-se uma diversidade regional que agora não é controlada nem controlável. em todas as suas dimensões. seja pela sociedade nacional. Dentro de cada região. Esse caldo de cultura pode levar à quebra da solidariedade nacional e co nduzir a uma fragmentação do território e da sociedade. nessas circunstâncias. o que pode acont ecer a uma área agrícola que. Ao menos em um primeiro momento e sob o impulso da competitividade globalizadora . recursos. De um ponto de vista nacional. cujo índice de satisfação também é diferente. níveis de vida etc. as alianças e acordos e os contratos sociais implícitos ou explícitos estão sempre se refazendo e a hegemonia deve ser sempre revista. ao contrário.

sua relatividade. das atividades e dos fragmentos do território com o país e com o mundo . sua in eficácia. O que reclamar do poder local vistos os limites da sua competência. por revelar sua debilidade. tais políticas acabam. Es se papel de encruzilhada agora atribuído aos centros regionais da produção agrícola moderni zada faz deles o lugar da produção ativa de um discurso (com pretensões a ser unitário) e de uma política com pretensão a ser mais que um conjunto de regras particulares. que solicitar eficazmente aos agentes econômicos globais. cuja densidade inclui as tarefas ligadas à produção globalizada.uma vida de relações também renovada. sua nãooperacionalidade. no longo prazo e mesmo no médio prazo. Todavia. que reivindica r aos estados federados. q uando se sabe que estes podem encontrar satisfação aos seus apetites de ganho simplesmente mudando o lugar de 46 . Por isso. a cidade se torna o lugar onde melhor se esclarecem as re lações das pessoas. das empresas.

O que está em jogo é o próprio sistema de rel constituído. o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos per tence. O território do dinheiro A queda-de-braço entre governos municipais e estaduais e o governo federal é mais qu e uma discussão técnica para saber quem deve arcar com o ônus das dificuldades financeir as dos 27 estados e dos mais de 5. D e f i n i ç õ e s O território não é apenas o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem.500 municípios. O dinheiro é uma invenção da vida de relações e aparece como decorrência de uma atividade econômica para cujo intercâmbio o simples escambo já não basta. O território é o chão e mais a população. o primeiro passo é regressar às noções de nação. depois.sua operação? Para encontrar um começo de resposta. De um ponto de vista prático. de Estado nacional decorre dessa relação tornada profunda. de logo. povo. Quando se fala em território deve-se. solidariedade nacional. da residência. 1 6 . agora que face à globalização produz um embate entre um dinheiro globalizado e as instâncias político-administrati vas do Estado brasileiro. também. social de estados e municípios e a manutenção do conteúdo normativo do território. a federação seria refeita de baixo para cima. das trocas materiais e espirituais e d a vida. Quando a compl exidade é um fruto de especializações produtivas e a vida econômica se torna complexa. Um faz o outro. um dado do processo. à maneira da célebre f rase de Churchill: primeiro fazemos nossas casas. sobre os quais ele influi. depois elas nos fazem. O d i n h e i r o e o t e r r i t ó r i o : s i t u a ç õ e s h i s t ó r i c a s . Na verdade. f acilitando seu aprofundamento. já que ele se torna representativo do valor atribuído à produção e ao trab alho e aos respectivos resultados. isto é. Estado nacional. já expressa por nós em outra ocasião. pelos novos conteúdos demográfico. da constituição de uma federação de lugares. nação e. o dinheiro constitui. Desse modo. feita de forma a que o território naci onal venha a conhecer uma compartimentação que não seja também uma fragmentação. O território é a base do trabalho. pois. o dinheir o acaba sendo indispensável e termina se impondo como um equivalente geral de todas as coi sas que são objeto de comércio. A questão é a federação e sua inadequação aos tempos a nova história com a emergência da globalização.. utilizado por uma dada população. ao contrário da tendência a que agora está sendo arr astada pela subordinação aos processos de globalização. de um lado. voltaríamo s à idéia. econômico.. A idéia de trib o. com a recons trução da federação brasileira a partir da célula local. entender qu e se está falando em território usado. uma identidade.

abrangente de contextos geográficos limitados ou para atender às necessid ades de um comércio e de uma circulação longínquos. nas mãos de comerciantes itinerantes. expressivo de um horizonte come rcial elementar. mas um 47 . avalistas d o valor das mercadorias.Num primeiro momento trata-se do dinheiro local. Tal mundo é caracterizado por compartimentações muito numerosas.

inclusive o dinheiro. às quais os homens se adaptam. existiriam paralelamente. Quanto mais movimento. fundados sobre uma lei do valor que tanto deve ao caráter da produção prese nte em cada lugar como às possibilidades e realidades da circulação. Mas a lei do valor também se estende aos próprios lugares. ass im. o alargamento do seu âmbito e a freqüência do seu uso. a existência pode ser interpretada a p artir de relações observadas diretamente entre os homens e entre os homens e o meio. com pequena intermediação técnica. não é apena s o comércio internacional. O dinheiro é. cresce o número de objetos e valores a tr ocar. as próprias trocas estimulam a diversificação e o aumento de volume de uma produção destinada a um consumo longínquo. o interno. simples e pouco densas. se expande e se torna mais complexo e denso. O territór io usado pela sociedade local rege as manifestações da vida social. o que cresce. O entorno dos homens acaba por lhe ser conhecido e os seus mistérios são apenas devidos às forças naturais desconhecidas. M e t a m o r f o s e s d a s d u a s c a t e g o r i a s a o l o n g o d o t e m p o Com a ampliação do comércio produz-se uma interdependência crescente entre sociedades até então relativamente isoladas. em dada circunstância e em função do comércio de que participam. o funcionamento do território deve muito às suas feições naturais. também. Tais condições materiais terminam por se impor sobre o resto da vida social. Assim. valorizado cada vez mais pela troca do que pelo uso e. um certo índice de valor que é. Assim. cada vez mais. Paralelamente. cada qual representando. tanto desse escambo quanto da produção de cada grupo. mas. o território se apresenta como uma arena de movimentos cada vez mai s numerosos. maior se torna a complexidade das relações internas e externas e aprofunda-se a necessidade de uma regulação. numerosas. também. o dinheiro aumenta sua indispensabilidade e invade mais numerosos aspectos da vida econômica e social. a base dos movimentos que deles partem ou que a eles chegam. Nesse primeiro momento. O dinheiro se instala como condição.mundo sem movimento. As relações soci ais presentes são pouco numerosas. Na realidade. cada vez mais coisas tendem a tornar-se objeto de intercâmbio. um dado essencial para o uso do território. numa situação na qual o valor de cada pedaço de chão lhe é atribuído pelo seu uso. mas sem o princípio geral sugerido por Leibni z. reclamando uma medida homogênea e permanente. lento. Tais mônadas. tornando-se instrumental à regulação da vida econômica e assegurando. estável e cujos fragmentos quase seriam autocontidos. Assim. da qual o dinheiro constitui . dess e modo.

tem a cara do país e é regulado pelo país. apesar de um comércio externo crescente.um dos elementos. 48 . Este é atribuído à categoria estado. ainda que o seu papel não seja o papel central. Há. cuja necessidade se levanta como um imperativo. atribuindo-se limites externos (as fr onteiras estabelecidas). o Estado nacional. regem o dinheiro. limites internos (as subdivisões político-administrativas em diverso s níveis) e conteúdos normativos (as leis e costumes). categorias interdependentes: o Estado territorial. o territóri o nacional. em conjunto. um dinheiro nacional que. em matéria de competências e recursos. por conseguinte. É assi m que se instalam na história. São eles que. Dir-se-ia que esse dinheiro é rela tivamente comandado de dentro.

ao mesmo tempo em que ganha uma existência praticamente autônoma em relação ao resto da economia.O d i n h e i r o d a g l o b a l i z a ç ã o Com a globalização. a partir deste caráter ideológico. Talvez por isso sua existência concreta e sua eficácia sejam resultado das normas com as quais se impõe aos outros dinheiros e a todos os países. o uso das técnicas disponíveis permite a instalação de um dinheiro fluido. por meio de uma escolha arbitrária de variáveis que apenas contempla certa parcela da produção. mobilizados em função da sobrevivência e da expansão de cada firma em particular. a lógica dos governos financeiros globais. objeto que ele é de uma permanente instabilidade. em estado puro. Por isso. cu ja base é um conjunto de parâmetros segundo os quais aqueles governos globais medem. é um equivalente geral dele próprio. É por in termédio deles que as finanças se dão como inteligência geral. também. pode-se dizer que. agentes financeiros. e não mais o capital como um todo. que o dinheiro global é também despótico. o dinheiro se torna um equivalente realmente universal. rendições. o principal regedor do território. bancos travestidos em regionais como o BID. Como equivalente geral. foçando mimetismos. deixando praticamente de lado o resto da econom ia. av aliam e classificam as economias nacionais. praticamente abstrato. É. em uma dupla acepção: o dinheiro sendo representativo do território que o abrigava e sendo. há. Banco Mundial. são. Fundo Monetário Internacional. adotado esse critério de avaliação. o Produto Nacional Bruto apenas constitui um nome-fantasia para essa famosa contabilidade global. Tais lógicas se dão segundo duas verte s: uma é a do dinheiro das empresas que. da qual os divers os agentes apenas constituem testemunhas passivas. adaptações. também. relativamente invisível. desse modo. hoje. mas. aliás. Assim autonomizado. sob influência do dinheiro global. em parte. Nas condições atuais. equivalente a uma verdadeir a falsificação do critério. regulado pelo terri tório. Antes. permitind o-se. . Essa inteligência global é exercida pelo que se chamaria de contabilidade global. a elaboração de um discurso. pode-se até dizer que esse dinheiro. sem o qual sua eficácia seria infinitamente menor e a sua força menos evidente. considerado como território usado. se torna. É por meio desse mecanismo que o dinheiro global autonomizado. o território continha o dinheiro. o conteúdo do território escapa a toda regulação interna. Hoje. responsáveis por um setor da produção. as lógicas do dinheiro impõem-se àquelas da vida socioeconômica e política. tanto o território nacional como suas frações.

em virtude dos seus efeitos sobre a vida econômica. a finança global instala-se como a regra das regras. a finança global se exerce pela existência das pessoas. sobre a vida administrativa. sobre a totalidade do edifício social. ignorando as estrut uras vigentes. No lugar. criando perplexidades e sugeri ndo interpretações. gerando ingovernabilidades. S i t u a ç õ e s r e g i o n a i s 49 . imperioso. um conjunto de n ormas que escorre. das empresas. para melhor poder contrariá-las.A ação territorial do dinheiro global em estado puro acaba por ser uma ação cega. ma s também. impondo outras estruturas. No território. que podem conduzir à ampliação da consciência. das instituições.

A constituição do Mercado Comum Europeu. também. isto é. Desse modo. porém. essa unificação e equalização intra-européia acaba por ser mais um episódio de uma guerra. Na verdade. das quais. porque destinadas a fortalecer a Europa para competir com os outros membros da Tríade e tirar proveito de suas relações assimétricas com o resto do mundo. O caso latino-americano e brasileiro é diferente. Sem isso e sem o reforço da idéia de cidadania uma cidadania agora multinacional para os signatários do Trata do de Schengen -. por enquanto. da Comunidade Econômica Européia. segundo os espaços socioeconômicos e políticos. O próprio Mercosul mantém. buscando o que lhes parece necessário a cobiçada hegemonia. constitui o símbolo. a instituição da ASEAN e o pretendido estabelecimento da ALCA obedecem a ess e mesmo princípio. em Bruxelas. a constituição do mercado comum financeiro. e xitoso no mundo globalizado. com o florescimento de certo número de empresas voltadas para o comércio regional. inclusive nos países menos desenvolvidos. É verdade que o processo de unificação européia se inicia após a Segunda Guerra Mundial e vem realizando etapas sucessivas. seu processo tende a ser diferente. isto é. Há. de modo a que a Europa como um todo se pudesse tornar um continente igualmente fluido. conseqüentemente. em data. do qu al a moeda única. sendo a última. já que a fluidez financeira é considerada uma necessidade para ser competitivo e. uma prática limitada ao comércio. após uma concertação. As etapas precedentes constituíram uma espécie de pr eparação para unificação financeira e incluíram medidas objetivando a fluidez das mercadorias. mediante uma divisão de trabalho renovada. seria impossível pensar numa moeda única sem aumentar as diferenças e dese quilíbrios já existentes. a unificação monetária é considerada um fator indispensável ao estabelecimento de uma economia européia competitiva ao nível global.A vontade de homogeneização do dinheiro global é contrariada pelas resistências locais à sua expansão. e seu próprio projeto é menos abrangente qua nto às relações sociais. que possam participar de modo mais agressivo do comércio mundial. mas sobretudo aos Estados líde res e às empresas neles situadas. de modo a permitir às respectivas economias. . Não há uma clara preocupação de buscar um desenvolvi ento homogêneo e as iniciativas de investimento têm muito mais a ver com o crescimento do produto. culturais e políticas. segundo a qual alguns países vêem reforçadas algumas d e suas atividades e devem renunciar a outras. da mão-de-obra e do próprio território. o euro. às vezes longa e penosa. dos homens. A Europa é o subcontinente mais avançado no que toca a essa questão. uma vontade de adaptação às novas condições do dinheiro. Completando esse pano de fundo.

cujo desvalimento aumenta face à globalização. nem comunicáveis diretam ente entre elas.aliás. as moedas nacionais não são propriamente conversíveis. E f e i t o s d o d i n h e i r o g l o b a l Esta é uma das razões pelas quais a decisão de participar passivamente da globalização 50 . tanto quantitativa como qualitativamente. Sua relação com o mundo é pobre. diferente mente do caso europeu. constituindo um ele mento a mais de agravamento de sua própria dependência. Por outro lado. já que são moedas dependentes. algumas são igualmente inseridas no comércio mundial.

Vamos agora abordá-lo segundo novos ângulos e ambicionando uma visão prospectiva. Essa si tuação é ainda mais grave nos países complexos e grandes. O dinheiro regulador e homogeneizador agrava heterogeneidades e aprofunda as dependências. Verticalidades e horizontalidades O tema das verticalidades e das horizontalidades já havia sido tratado por mim no livro A natureza do espaço. Quanto melhor é o exercício do modelo. E p í l o g o A questão que se põe como uma espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças é a seguinte: vamos reconstruir a federação para servir melhor ao dinheiro ou para atend er à população? Agora.1999). esse problema é constituído pelas formas atuais de compartimentação do território e o seu novo conteúdo. sobretudo no capítulo 12. da população. que inclui as formas de ação do dinheiro internacional. que orientam as grandes reformas ora em curso. Tal noção foi recentemente reapropriada por Manuel Castells. A idéia. em favor de formas de regulação estranhas ao sentido local da vida. nos preparar para a nova etapa que. num território. levantam-se problemas cruciais para estados e municípios. O conteúdo do território como um todo e de cada um dos seus compartimentos muda de forma brusca e. Razão e emoção (1996). rapidamente perde uma parcela maior ou menor de sua identi dade. também. desse modo. A questão é estrutural e. A s v e r t i c a l i d a d e s As verticalidades podem ser definidas. Esse esp aço de fluxos . o problema de estados e municípios é. crian do ou aumentando as fraturas sociais e territoriais e ameaçando a unidade nacional. 1 7 . na medida em que a vocação homogeneiz adora do capital global vai ser exercida sobre uma base formada por parcelas muito dif erentes umas das outras e cujas diferenças e desigualdades são ampliadas sob tal ação unitária. um só. É assim que ele contribui para quebrar a solidariedade nacional. São o Banco Central e o Ministério da Fazenda. remonta aos escritos de François Perroux (L'économie du XX siède. isto é. a partir d esses dois recortes superpostos e complementares do espaço geográfico atual. no fundo. É por esse prisma que deveria ser vista a questão da federação e da governabilidade da nação: na medida em que o governo da nação se solidariza com os desígnios das forças externa s. já se anuncia a da reconstrução do arcabouço polític territorial do país ao serviço da sociedade.acaba por ser danosa. aliás. de certo modo. Devem os. então. pior é para o país. quando ele descreveu o espaço econômico. como um conjunto de pontos formando um espaço de fluxos. 1961). Técnica e tempo. em combinação com as institu ições financeiras internacionais. tudo está sendo feito para refazer a federação de modo a que seja instrumental às forças financeiras. (Asociedadeemrede.

já que para os efeit os dos respectivos atores o que conta é. esse conjunto de pontos adequados às ta refas produtivas hegemônicas. sobretudo.seria. um subsistema dentro da totalidade-espaço. na realidade. características das atividades econômicas que comandam este pe ríodo 51 .

que plenamente participam do processo. Tais espaços de fluxos vivem uma solidariedade do tipo organizacional. Dentro desse quadro. cujo ritmo depende do númer o e do poder correspondente a cada macroagente. é ver ical. destinada a favorecer os atores hegemônicos. em certos casos. que estão sempre mud ando. na verdade. a tendência é a prevalência dos interesses corporativos sobre os interesses públicos. Na situação acima descrita. em grande número de casos. sua policy aspira e consegue. Tomada em consideração determinada área. tais forças centrífugas são. Tal integração. da economia e das sociedades locais. as re lações que mantêm a agregação e a cooperação entre agentes resultam em um processo de organização. enquanto os demais raramente tiram todo prove ito da fluidez. Trata-se d e uma regulação freqüentemente subordinada porque. tornar-se política. instalam-se forças centrífugas certamente determinantes. determinantes e dominantes. os quais de uma forma ou de outra dependem da sua regulação. Junte-se a esse control e a ação explícita ou dissimulada do Estado. exigente de fluidez e sequioso de velocidade. O fato de que cada um deva adaptar comportamentos locais aos interesses globais.histórico. todavia. já que as decisões essenciais concernentes aos processos lo cais são estranhas ao lugar e obedecem a motivações distantes. pois deixa a construção d o destino de uma área entregue aos interesses privatísticos de uma empresa que não tem compromissos com a sociedade local. mediante uma governance. quanto à evolução do território. São os atores d o tempo rápido. Por intermédio dos mencionados pontos do espaço de fluxos. a política das empresas isto é. uma política cega. no qual predominam fatores externos às áreas de incidência dos mencionados agentes. Tal dominância é também portadora da racionalidade hegemônic a e cujo poder de contágio facilita a busca de uma unificação e de uma homogeneização. em última análise. em todos os seus níveis territoriais. ao mesm o tempo. As frações do território que constituem esse espaço de fluxos constituem o reino do . as macroempresas acabam por ganhar um papel de regulação do conjunto do espaço. com maior ou menor força. quand o conseguem contagiar o todo ou a maioria do corpo produtivo. o espaço de fluxos tem o papel de integração com níveis econômicos e espaciais mais abrangentes. Nessas condições. cabe direta ou indiretamente a tarefa de organiz ar o trabalho de todos os outros. E. isto é. É a es ses macroatores que. O sistema de produção que se serve desse espaço de fluxos é constituído por redes um sistema reticular -. do conjunto de comportamentos. leva o processo organizacional a se dar com descontinuidades. dependente e alienadora. Chame mos macroatores àqueles que de fora da área determinam as modalidades internas de ação.

Se considerada 52 . pois a empresa se esforça por esgotar as virtualidades e perspectivas de sua ação racional . é exercida em sua forma limite. o espaço de fluxos tem vocação a se r ordenador do espaço total. em sua ação individual. à força das empresas implicadas e à resistência do espaço preexistente. porém. Desse modo ordenado. subordinando-se a um relógio universal. comparada à de outras empresas e de outros lugares. O modelo econômico assim estabelecido tende a reproduzir-se. tarefa que lhe é facilitada pelo fato de a ele ser superp osto. ainda que mostrando topologias específicas.tempo real. O modelo hegemônico é planejado para ser. Mas este de algum modo se opõe à plenitude de ssa hegemonia. aferido pela temporalidade glo balizada das empresas hegemônicas presentes. ligadas à natureza dos produtos. indiferente a seu entorno. O nível desse limite define a operação respectiva do pon o de vista de sua rentabilidade. Esta.

a ação atual do Estado. mais rápidos ou mais vagarosos. e os respectivos tempos. são imbricados. As verticalidades são. ainda que estejam presentes empresas com diferentes níveis de técnicas. cuja convocação incessante a segui-la representa um convite ao estranhamento. por Stephan Hymer e agora multiplicado e potencializado a p artir da globalização. mudadas as condições políticas. mais os espaços respectivos se tornam alienados. Todos os agentes são. são espaços que sustentam e explicam um conjunto de produções localizada s. dentro de uma área cujas características constituem. é nesse espaço banal que o poder públi co encontraria as melhores condições para sua intervenção. o conjunto sendo formado pela ex istência comum dos agentes exercendo-se sobre um território comum. mas tal movimento pode ser visto como uma continuidade. Assim. pois. interdependentes. permite o aprofundamento da personalidade das h orizontalidades. Valemo-nos. Na verdade. Em tais circunstâncias pode-se dizer q ue a partir do espaço geográfico cria-se uma solidariedade orgânica. para sua efetivação. além de suas funções igualmente banais. leva à ampliação das verticalidades e. às quais oferece regras de natureza geral que desconhecem particularidades criadas a partir do meio geográfico. de uma forma ou de outra. paralelamente. Information sur les Sciences Sociales. Nesse espaço banal. O espaço banal seria o espaço de todos: empresas. pessoas. instituições. As verticalidades realizam de modo indiscutível aquela idéia de Jean Gottmann ( The evolution of the concept of territory . essa extensão continuada. exatament e em virtude do papel central que é jogado pelo mencionado meio geográfico local. enquanto a grande força motora seria aquele instinto animal das empre sas mencionado. O elenc o das condições de realização das verticalidades mostra que. é limitada. devem sua criação e alimentação às ofertas do meio geográfico local. 197 5) segundo a qual o território pode ser visto como um recurso. O fato de que o Estado se preocu pe sobretudo com o desempenho das macroempresas. há decênios. justamente a partir do uso pragmático que o equipamento modernizado de pontos escolhidos assegura. implicados. Tais atividades. Tal conjunto indissociáv l evolui e muda. A s h o r i z o n t a l i d a d e s As horizontalidades são zonas da contigüidade que formam extensões contínuas. não impor ta o nível. Esse espaço banal. quanto mais modernizados e penetrados por essa lógica. ter um sentido é desnecessário. outra vez.insatisfatória. em que os atores são considerados na sua contigüidade. de c . Nestas. também. um fato r de produção. do vocabulário de François Perroux quando se referiu a existênc ia de um espaço banal em oposição ao espaço econômico. leva à sua migração. o espaço das vivências. portadoras de uma ordem implacável.

A sobrevivência do conjunto.apital e de organização. obtida mediante solidariedades horizontais internas. depende desse exercício da solidariedade. cuja natureza é tanto econômica. social e cultu ral como propriamente geográfica. da produção local de uma integração solidária. aqui. indispensável ao tr abalho e que gera a visibilidade do interesse comum. Trata-se. não importa que os diversos agen tes tenham interesses diferentes. o princípio que permite a sobrevivência de cada uma é o da busca de certa int egração no processo da ação. Tal ação comum não é obrigatoriamente o resultado de pactos 53 .

Estas. pelos atore s hegemônico e da obediência alienada dos atores subalternizados. Por meio de encontros e desencontros e do exercício do debate e dos acordos. sempre crescente e c ada vez mais invasor. diversas temporalidades. Na verdade. ao contrário da ordem imposta. implacável. A b u s c a d e u m s e n t i d o Ao contrário das verticalidades. seja capaz de elimi nar o espaço banal. características da racionalidade hegemôn ica típica das verticalidades. são contra-racionalidades. confundindo-se todos num espaço geográfico restrito. que é permanentemente reconstituído segundo uma nova definição. regidas por um relógio único. ao mesmo tempo. dos atores hegemônicos. sustento de uma organização em segundo nível. busca-se explícita ou tacitamente a readaptação às novas formas de existência. ist o é. vários relógios. no sentido de apreender as mudanças e descobrir as so luções indispensáveis. acaba por exigir de cad a qual um permanente estado de alerta. ao serviço dos atores hegemônicos. nos e spaços banais se recria a idéia e o fato da Política. A própria existência. Pode-se dizer que tal situação assegura a permanência de forças centrípetas. A presença dessas verticalidades produz tendências à fragment ação. paralelamente. nos espaços de fluxos. ao mesmo tempo. Pode-se dizer que. a base de sua atuação. Esse processo dialético impede que o poder. com a constituição de alvéolos representativos de formas específicas de ser horizontal a parti r das respectivas particularidades. que é. . pois. além das racionalidades típicas da verticalidades que as admitem a presença de outras racionalidades (chamadas de irracionalidades pelos qu e desejariam ver como única a racionalidade hegemônica).explícitos nem de políticas claramente estabelecidas. Trata-se de um espaço à vocação solidária. formas de convivência e de regulação criadas a partir do próprio território e que se mantêm nesse t erritório a despeito da vontade de unificação e homogeneização. enquanto sobre ele se exerce uma vontade permanente de desorganização. As horizontalidades. fundados nos espaços de fluxos. dentro de uma área específica. adaptando-se a situações cujo comando freqüentemente escapa aos respectivos atores. hegemonizados. realizando-se. pa ra providenciar os ajustamentos necessários ao funcionamento do conjunto. Tais forças centrípetas garantem sua sobrevivência pelo fato de que o âmbi to de realização dos atores é limitado. ainda que não sejam determinantes (já que as horizontalidades recebem influxos das v erticalidades) são dominantes. cujo exercício se torna indispensável. nas horizontalidades assim particularizadas funcionam .

por isso. constitui um abrigo. o movimento determinante. com tendência a uma d ifusão 54 . que é também de Jean Gottmann. permitir vocações generosas. ao mesmo tempo. para utilizar uma expressão. Neste ca so. Os dois moviment os são concomitantes. O território se m etamorfoseia em algo mais do que um simples recurso e.O processo acima descrito é também aquele pelo qual uma sociedade e um território estão sempre à busca de um sentido e exercem. o território não é apenas o lugar de uma ação pragmática e seu exercício comporta. Nas condições atuais. a mesma fração do território pode ser recurso e abrigo. uma vida reflexiva. também. que permite aos valores representar um papel. Na realidade. um aporte da vi a. uma parcela de emoção. pode condicionar as ações mais pragmáticas e.

Em conseqüência. Como os atores globais eficazes são. como um conjunto de essências e de possibilidades.avassaladora. prerrogativas e obrigações. uma promessa. uma nova estruturação político-territorial. A verdade. o cidadão do lugar pretende instalar-se também como cidadão do mundo. pode constituir. S e r c i d a d ã o n u m l u g a r Nas condições atuais. empiricizado. no qual o comportamento do espaço de fluxos seja subordinado não como agora à realização do dinheiro e encontre um freio a es sa forma de manifestação. Eles são singulares. individuais . nas condições atuais. 1 8 . instal a uma enorme variedade de quadros de vida. não existe para ele próprio. a possibilidade de cidadania pl ena das pessoas depende de soluções a serem buscadas localmente. o cidadão só o é (ou não o é) como cidadão de um país. pois. e apenas o faz para os outros. Pode-se. a ser alcançada nas escalas sub-nacionais. Trata-se. em que a realização d a cidadania reclama. A partir do país como federação de lugares será possíve . em ambas as etapas. trazida com a globalização. uma perspectiva de cidadania integral. Esse é o caso brasileiro. de modo que os espaços ban ais aumentem sua capacidade de servir à plenitude do homem. anti-homem e anticidadão. manifestações da totalidade-mundo. que eles reproduzem de modos específicos. a possibilidad e de existência de um cidadão do mundo é condicionada pelas realidades nacionais. Ser cidadão de um país . isto é. A multiplicidade de situações regionais e municipais. dentro da nação. seja instit uída uma federação de lugares. uma revalorização dos lugares e uma adequação de seu estatuto político. de uma construção de baixo para cima cujo ponto centra l . o mundo. é que o mundo não tem como regular os lugares. isto é. cuja realidade preside o cotidiano das pessoas e deve ser a base para uma vida civilizada em comum. Os lugares são. todavia. num segundo momento. tornando-se subordinado à realização plena da vida. Assim. porém. da qual são formas particulares. mas são também globais. a expressão cidadão do mundo torna-se um voto. enquanto a produção do es paço banal é residual. diversos. apenas. tornando-o historicizado e geografizado. desde que. sobretudo quando o território é extenso e a sociedade muito desigual. A esquizofrenia do espaço Como sabemos. uma possibilidade distant e. com a indispensável redist ribuição de recursos. Na verdad e. construir um mundo como federação de países. imaginar outro cenário. o mundo. a começar pelo nível local. É o espaço. é o da criação da ordem da racionalidade pragmática. que realizam e revelam o mundo. os lugares. em última análise.

porém. Est amos. então. porque de um lado acolhem os 55 . Como. poderemos alcançá-lo? O c o t i d i a n o e o t e r r i t ó r i o O território tanto quanto o lugar são esquizofrênicos. A base geográfica dessa construção será o lugar. muito longe da realização desse ideal.é a existência de individualidades fortes e das garantias jurídicas correspondentes. considerado como espaço de exercício da existência plena.

local e diretamente experimentadas. a partir do s lugares e das pessoas juntos. ele se dá com variações segundo as coletividades e os subespaços. sobretudo quando há. por exemplo. com freqüência podem se entrega r a manifestações que são a contraface do pragmatismo. Tal esquizofrenia se resolve a part ir do fato de que cada pessoa. enquanto a mediação política. entre campo e cidade. excluídos. A existência naquele esp aço exerce um papel revelador sobre o mundo. junto à busca da sobrevivência. frequentemente exercida de longe e cujos objetivos nem sempre são evidentes. paralelamente. firma. contra-racionalidades. a instituição constituem o de dentro do lugar. A medi ação técnica e produção correspondente. produção de pobreza. isto é. hoje. ao mesmo tempo. com o qual se comunicam sobr etudo pela mediação da técnica e da produção propriamente dita. N a cidade as irracionalidades se criam mais numerosa e incessantemente que as racionalidades. um modo de insurreição em relação à globalização. um pragmatismo mesclado com a emoção. as diferenças. Mas esta se propaga de modo heterogêneo. marginal izados. Esse é. isto é. podemos também desejar ser ou tra coisa. instituição realiza o mundo à sua maneira. segundo Sartre. na base da sociedade. É este o fundamento da esquizofrenia do lugar. vemos produzir-se. A pe ssoa. que neles se instalam para impor sua nova ordem. Nisso o papel do lugar é determinante. equivocadamente e do ponto d e vista da racionalidade dominante. exige uma interpretação mais filosófica. de experiência sempre renovada. mas são vividas como um dado imediato. deixando coexistirem outras racionalidades. porque há uma produção acelerada de pobres. Se este é um dado geral. a firma. os lugares ganham um quinhão (maior ou menor) da racionalidade do mundo .vetores da globalização. a que. as racionalidades da globalização se difundem mais extensivamente e mais rapidamente. É soment partir de tais irracionalidades que é possível ampliação da consciência. Ele não é apenas um quadro de vida. o grupo. g rupo. isto é. Mas a conformidade com a Razão Hegemônica é limitada. Assim. instituição como o de fora do lugar e por intermédio de uma mediação política. se chamam irracionalidades . Globais. e. Crescentemente reunidas em cidades cada vez mais numerosas e maiores. também. Vejam-se. podem não ser int eiramente compreendidas. com a descoberta de que. o que permite. é reveladora). e experime ntando a situação de vizinhança (que. por isso. mas um espaço vivido. neles se produz uma contra-ordem. enquanto a produção plural de irracionalidades é ilimitada. firma. essas pessoas não se subordina m de forma permanente à racionalidade hegemônica e. enquanto o mundo se dá para a pessoa. a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. No cam po. de outr o lado. . a despeito de sermos o que somos. grupo.

a questão central reside no encontro do caminho que vai 56 . não é tudo. Este é um d ado comum a todas as pessoas. da não-autonomia das ações e dos seus resultados. De um ponto de vista das idéias. não importa a diferença de suas situações. todavia. U m a p e d a g o g i a d a e x i s t ê n c i a Isso. sem alcançar a defesa de um sistema alte rnativo de idéias e de vida. A consciência da diferença pode conduzir simplesmente à defesa individualista do próprio interesse. autorizada pelo cotidiano. Mas outra coisa é ult rapassar a descoberta da diferença e chegar à sua consciência.Uma filosofia banal começa por ser instalar no espírito das pessoas com a descoberta .

eleitoralismos interesseiros e apenas provisoria mente eficazes) e alcançar a busca política genuína e constitucional de remédios estruturais e duradouros. A informação mundializada permite a visão. o problema crucial é: como passar de uma situação crític a a uma visão crítica e. 57 . mas. também. O conhecimento de outros lugares. autoriza a visão da história como uma situ ação e um processo. se for ajudado por um conhecimento sistêmico do acontecer global. mesmo superficial e incompleto. o problema é ultrapas sar as soluções imediatistas (por exemplo. segundo novos moldes. mas também como um paradoxo: obed ecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. Para isso. afirma-se. Então a existência é produtora d e sua própria pedagogia.do imediatismo às visões finalísticas. ambos críticos. em seguida. mesmo em flashes. Depois. aguça a curiosidade. de ocorrên cias distantes. Nesse processo. é fundamental viver a própria existência como algo de unitário e verdadeiro. a antiga oposição entre o mundo e o lugar. e de um ponto de vista da ação. alcançar uma tomada de consciência. Ele é certamente um subproduto de uma informação geral enviesada.

Também como em todo período. cada vez mais pressurosa. Preferimos considera-lo um período. A variável ascendente Os fenômenos a que muitos chamam de globalização e outros de pós-modernidade (Renato Ortiz. de que resultam tantos inconvenientes para a maior parte da humanidade. atingindo as classes médias e criando mais pobres. a par tir de certo momento há variáveis que perdem vigor. isto . 1994) na verdade constituem. cada vez mais numerosos e carentes. verdadeiras variáveis descendentes. A promessa de que as técnicas contemporâneas pudessem melhorar a existência de todos caem por terra e o que se observa é a expansão acelerada do rein o da escassez. verificar os limites dessa evolução e reconhecer a emergência de certo número de sinais indicativos de que outros processos paralelamente se levantam. a compreensão do que se está passando chega com clareza crescente aos pobres e aos paíse s pobres. Mundialização e cultura. juntos. As populações envolvidas no processo de exclusão assim fortalecido acabam por relacionar suas carências e vicissitudes ao conjunto de novidades que as atingem.V -L I M I T E S À G L O B A L I Z A Ç Ã O P E R V E R S A I n t r o d u ç ã o A análise do fenômeno da globalização ficaria incompleta se. Por i sso. após reconhecer os fatores que possibilitaram sua emergência. A vida cotidiana também revela a impossibilidade de fruição das vantagens do chamado t empo real para a maioria da humanidade. Daí o repúdio às idéias e às práticas políticas que funda entam o processo socioeconômico atual e a demanda. São as variáveis ascendentes que revelam a produção de um novo período. o denso sistema ideológico que envolve e sustenta as ações determinantes parece não resistir à evidência dos fatos. e as disparidades no seu uso garantem a exacerbação das desig ualdades. au torizado pensar que vivemos uma verdadeira fase de transição para um novo período. 1 9 . como na atual fase da globalização. agora. para encont rar no próprio homem a base e o motor da construção de um novo mundo. Em primeiro lugar. um mome nto bem demarcado do processo histórico. Cabe. Estas não mais seriam centradas no dinheiro. Como em qualque r outro período histórico. Uma tomada de consciência torna-se possível ali mesmo onde o fenômeno da escassez é mais sensível. A velocidade não é um bem que per mita uma distribuição generalizada. apenas nos detivéssemos na apreciação dos seus aspect os atualmente dominantes. e out ras que passam a se impor. de novas so luções. funcionam de forma concertada diversas variáveis cuja visão sistêmica é indispensável para entender o que se está realizando.

58 .

O deboche d e carência e de escassez que atinge uma parcela cada vez maior da sociedade humana permite reconhecer a realidade dessa perdição. regras. as pessoas constituiriam sua principal preocupação. num processo de vida. Junte-se a esse dado o fato de que. isto é. Os limites da racionalidade dominante O Projeto Racional começa a mostrar suas limitações talvez porque estejamos atingindo aquele paroxismo previsto por Weber (Economía y sociedad. permite pensar que se estão produzindo as condições de realização de uma nova história. Daí a proliferação de ilegais . Essa incapacidade mistura. aqui. práticas e teorias herdadas e inovadas. 2 0 . no conjunto do processo. Um deles é o crescente desencanto com as técnicas. renunciamos . apesar da c apacidade invasora das técnicas hegemônicas. 1922) para realizar-se q uando o processo de expansão da racionalidade capitalista se tornasse ilimitado. i sto é. em que a população. o anúncio de um novo período históri co. a fornecer uma lista exaustiva dos fenômenos. Pode-se ar riscar um vaticínio e reconhecer. um verdadeiro período popular da histór ia. apontam para o futuro. nos diversos níveis da vida econômica. não é mais capaz de obedecer a leis. já entremostrado pelas fragmentações e particularizações sensíveis em toda parte devidas à cult ura e o território. Produz-se dessa . É nesse caldo de cultura que numero sas frações da sociedade passam da situação anterior de conformidade associada ao conformismo a uma etapa superior da produção da consciência. Tudo indi ca que estamos atingindo essa fronteira. Isso. Uma boa parcela da humanidade. vivemos uma racionalidade totalitária que vem acompanhada de uma perda da razão. Outro dado significativo s e levanta com a impossibilidade relativamente crescente de acesso a essas técnicas. em oposição ao senso comum. individual. ma s não a apontar alguns fatos que nos parecem bem característicos das mudanças em curso. isto é. Estaríamos na aurora de uma nova era. a conformidade sem o conformismo. normas. irregulares . acompanhado por uma gradativa recuperação do b om senso. costumes derivados dessa racion alidade hegemônica. mandamentos. religiões tradicionais e novas convicções. substituto do atual período.é. em oposição à pretensa racionalidade sugerida tan to pelas técnicas em si mesma como pela política do seu uso. exatamente. Por enquanto. por desinteresse ou incapacidade. O momento atual da história do mundo parece ainda indicar a emergência de numerosas variáveis ascendentes cuja existência é sistêmica. sobrevivem e criam-se novas técnicas não hegemônicas. informais . social. em virtude do aumento da pobreza em todos os continentes. agora que.

econômicos e geográficos também não conformes à racionalidade dominante. Na esfera da racionalidade hegemônica. nas outras esferas. contr a-racionalidades e racionalidades paralelas corriqueiramente chamadas de irracionalidades. que desse modo conseguem escapar ao totalitarismo da racionalidade dominante. Estas são produzidas e mantidas pelos q ue estão embaixo . para quem a escasse z é que torna a 59 . Enquanto isso. a espontaneidade. a criatividade.maneira a redescoberta pelos homens da verdadeira razão e não é espantoso que tal desc obrimento se dê exatamente nos espaços sociais. Recordemos o ensinamento de Sartre. sobretudo os pobres. pequena margem é deixada para a variedade. mas que na realidade constituem outras formas de racionalidade. surgem.

de outro. Outro dado objetivo é o fato de que a realização cada ve z mais densa do processo de globalização enseja o caldeamento. Na verdade. por exemplo. o resto da humanidade prod uz. mas esta é uma coisa que ninguém sabe para o que r ealmente serve. porém. da técnic a. que é o bisavô das idéias de racionalismo tecnocrático hoje dominantes. por meio da justificação de um modelo de civilização. somente al gumas pessoas. circula e vive de outra maneira. e são ainda em menor número as que u tilizam todas as virtualidades técnicas das máquinas. V e l o c i d a d e : t é c n i c a e p o d e r Pode-se dizer que a velocidade assim utilizada é duplamente um dado da política e não da técnica. já que esta poderia ser usada diferentemente em função do conjunto de escolhas sociais. para as quais o sentido de urgência não é uma constante. firmas e instituições são altamente velozes. Essa transformação de uma fluidez potencial numa fluidez efetiva. graças exatamente à força do imaginário. O imaginário da velocidade Na família dos imaginários da globalização e das técnicas. testemunhamos a ampliação do número de pobres. Pensemos. ao contrário. no século do imperialismo. todavia não tem e nem busca um sentido. Graças à impostura ideológica o fato da minoria acaba sendo rep resentativo da totalidade. em detrimento do racionalismo europeu. ela serve ao exercício de uma competitividade desabrida. por meio da velocidade exacerbada.história possível. No passado. das fil osofias produzidas nos diversos continentes. graças à unidade negativa da multiplicidade concreta dos homens . Os . Sem dúvida. ainda que elementar. Na verdade. trata-se de uma escolha relacionada com o poder dos agente s e. encontra-se a idéia. De fato. sobretudo ao alcançar os paroxismos dos tempos atuais. assim como o estreitamento das possibilidades e das certezas que as clas ses médias acalentavam até a década de 1980. da legitimação dessa escolha. Mas é a partir desse e de outros compor tamentos que a política das empresas arrasta a política dos Estados e das instituições supranacio nais. 2 1 . de que a velocidade constitui um dado irreversível na produção da históri a. difundida com exuberância. propriamente. Tal situação é objetivamente esperançosa porque agora assistimos ao fim das espectativas nutridas no após-guerra e. De um lado. o uso extremo da velocidade acaba por ser o imperativo das empresas hegemônicas e não das demais. a ordem mundial se construía mediante uma combinação política que conduzia à não-obediência aos ditames da técnica mais moderna. É nesse sent do que estamos afirmando tratar-se mais de um dado da política que. nos cem anos que vão do quarto quartel do século XIX ao terceiro do século XX.

utilizando. o uso do conjunto dos recursos técnicos era coma ndado por um conjunto de normas relacionadas ao comércio. Mas isso não imedia sua convivência com outros impérios. cada qual. à produção e ao consumo. em sua qualidade de grandes conjuntos políticos e territoriais. o que permitia a c ada bloco uma evolução própria. O império britânico estava à fren te dos demais quanto à posse de recursos técnicos avançados. dentro dos seus domínios.impérios. Dentro de cada um. viviam e e voluíam segundo idades técnicas diversas. conjuntos de avanços técnicos disparatados e que mostravam níveis diferentes. não perturbada pela existência em outros impérios de avanços técnicos m 60 .

existindo apenas na vitri ne. uma grande empresa de Manaus. O imperativo é político. não há uma inelutabilidade face aos sistemas técnicos. No fundo. à menor fricção da distância. A natureza do espaço. também. Quando nos referimos à histor icização e à geografização das técnicas. É o mercado interno que freia a vontade de velocidade de que já falava M. a velocidade atual e tudo que vem com ela. obriga a aumentar a velocidade. com a interdependência globalizada dos lugares e a planetarização dos sistemas técnicos dominantes. D o r e l ó g i o d e s p ó t i c o à s t e m p o r a l i d a d e s d i v e r g e n t e s É fato. o que torna essas empresas menos dependentes de uma única norma para subsistir. porque todos os atores dele participam. por exemplo. estes parecem se impor como invasores.significativos. De sse modo. mas historicamente inexistente. estamos cuidando de entender o seu uso pelo homem. 36-37 e pp . graças. os dois mercados são inter correntes. equivaleria a uma abstração. isto é. os supermercados menores). a politica comercial aplicada dentro de cada império ass egurava a política do conjunto do mundo ocidental (M. sua qua lidade de intermediário da ação. ela não beneficia nem interessa à maioria da humanidade. não é inelutável nem imprescindível. uma e outra são dad as como indispensáveis à participação plena no processo histórico. Mas o território resiste. 1948). sua relativização. com suas exigências de competitividade. o cir cuito superior busca destruir as formas preexistentes. 1996. Santos. interdependentes. Assim. pois podem alca nçar uma parte significativa da cidade (por exemplo. os pobres e os que vivem longe dos grandes mercados obrigam a combinações de formas e níveis de capitalis mo. Invadindo a economia e o território com grande velocidade. a técnica somente é um absoluto enquanto irrealizada. Mas. As pequenas e médias empresas locais têm mais acesso potencial que. Sorre (Annal esdegéographie. O exemplo mostra não ser certo que haja um imperativo técnico. No período da globalização. o mercado externo. nem muito menos um determinismo . e que del a decorre. . da modernidade atual. sobretudo na gra nde cidade. Na verdade. pp. Todavia. servindo como parâmetro na avaliação da eficácia de outros lugares e de outros sistemas técnico. 152-153). Mas a população em seus diferentes níveis. que. entre outras coisas. com a globalização e seu imaginário comum ao da técnica hegemônica. É nesse s entido que os sistema técnico hegemônico aparece como algo absolutamente indispensável e a ve locidade resultante como um dado desejável a todos que pretendem participar de pleno direit o. Todavia. Aliás. Contribuirá também para esse maior acesso potencial o fato de estarem num meio que é um tecido e um emaranhado de normas concernentes.

Para quê, de fato, serve esse relógio despótico do mundo atual? As crises atuais são, em última análise, uma resultante da aceleração contemporânea, mediante o uso privilegiado, por al guns atores econômicos, das possibilidades atuais de fluidez. Como tal exercício não responde a um objetivo moral e, desse modo, é desprovido de sentido, o resultado é a instalação de situações em que o movimento encontra justificativa em si mesmo como é o caso do mercado de capitais especulativos tal autonomia sendo uma das razões da desordem característica do período atual. Quando aceitamos pensar a técnica em conjunto com a política e admitimos atribuir-lh e outro uso, ficamos convencidos de que é possível acreditar em uma outra globalização e e m um outro mundo. O problema central é o de retomar o curso da história, isto é, recolocar o home m no seu lugar central. Tal preocupação de mudança inclui uma revisão do significado das palavras-chave do 61

nosso período, todas contaminadas pelo respectivo sistema ideológico. Fiquemos com a questão da velocidade, que pode ser vista como um paradigma da época, mas também como o que ela representa de emblemático. Na verdade, seja qual for o corpo social, a velocidade hegemônica constitui uma das suas características, mas a definição da realidade somente pode ser obtida considerando-se as diversas velocidades em presença. E, seja como for, a eficácia da velocidade não provém da técnica subjacente. A eficácia da velocidade hegemônica é de natureza política e d epende do sistema socioeconômico político em ação. Pode-se dizer que, em uma dada situação, tal velocidade hegemônica é uma velocidade imposta ideologicamente. Como em tudo mais, a interpretação da história não pode ser deixada ao entendimento imediato do fenômeno técnico, exigindo entender como, nessa mesma situação, se relaciona m a técnica e a política, atribuindo a esta o papel central no entendimento das ações que co nformam o presente atual e que podem tornar possível um outro futuro. 2 2 . Just-in-time versus o c o t i d i a n o O tema das verticalidades e das horizontalidades pode comportar numerosas reinterpretações. Uma delas, refletindo o jogo contraditório entre essas categorias, é a verdadeira oposição existente entre a natureza das atividades just-in-time, que trabalham com u m relógio universal, e a realidade das atividades que, juntas, constituem a vida cotidiana . No primeiro caso trata-se da vocação para uma racionalidade única, reitora de todas as outras, desejosa de homogeneização e de unificação, pretendendo sempre tomar o lugar das demais, uma racionalidade única, mas racionalidade sem razão, que transforma a existência daqu eles a quem subordina numa perspectiva de alienação. Já no cotidiano, a razão, isto é, a razão de viver, é buscada por meio do que, face a essa racionalidade hegemônica, é considerada como irracionali dade , quando na realidade o que se dá são outras formas de ser racional. O mundo do tempo real, do just-in-time, é aquele subsistema da realidade total que busca em sua lógica nessa mencionada racionalidade única, cuja criação é, todavia, limitad a, atributo de um pequeno número de agentes. O mundo do cotidiano é também o da produção ilimitada de outras racionalidades, que são, aliás, tão diversas quanto as áreas consideradas, já que a brigam todas as modalidades de existência. O funcionamento dos espaços hegemônicos supõe uma demanda desesperada de regras; quando as circunstâncias mudam e, por isso, as normas reguladoras têm de mud ar, nem por isso sua demanda deixa de ser desesperada. Tal regulação obedece à consideração de interes ses privatísticos. Já o cotidiano supõe uma demanda desesperada de Política, resultado da co nsideração

conjunta de múltiplos interesses. No caso das atividades just-in-time, uma só temporalidade é considerada: é a fórmula de sobrevivência no mundo da competitividade à escala planetária. Como dado motor, uma só existência, a dos agentes hegemônicos, é, ao mesmo tempo, origem e finalidade das ações. A vida cotidiana abrange várias temporalidades simultaneamente presentes, o que permite c onsiderar, paralela e solidariamente, a existência de cada um e de todos, como, ao mesmo temp o, sua origem e finalidade. O conjunto das condições acima enunciadas permite dizer que o mundo do tempo real busca uma homogeneização empobrecedora e limitada, enquanto o universo do cotidiano é o mundo 62

a potência criam desigualdades e. na política. 2. Nessa situação. As técnicas estão. na circulação. em uma dada situação. necessidades. Tal solidar iedade não é. aliás. três tendências: 1. fundadas na ciência e obedientes aos imperativos do mercado. as técnicas a velocidade. mas também pela soma d os seus impossíveis. Elas estão ta bém e permanente no corpo e no espírito do homem. depois. relações. é a base primeira da produção de carências e de escassez. há igualmente tendência à hegemonia de uma p rodução racional de coisas e de necessidades. porque não há satisfação para todos. O homem. mas que o outro mais bem situado na sociedade possui. O reino da necessidade existe para todos. relações e idéias. já que uma parcela considerável da sociedade não pode ter acesso às coisas. propriamente. dominante -. mas o fruto da vida solidária da sociedade. torna-se viável. Esta. quando registra que não há bastante para todo o mundo . uma incorporação limitada de modos de vid a ditos racionais. idéias que se multiplicam na base da racionalidade hegemônica. produzindo-se a partir do respectivo sistema certas coisas. A situação contemporânea revela. Enquanto as técnicas hegemônicas se dão em redes. para os não possuidores Quanto aos possuidores . paralelamente. em toda parte: na produção. pois. Vivemos todos num emaranhado de técnicas . Mas. entre as técnicas. uma produção limitada de carência e escassez. Por isso o outro consome e não eu. na cultura. e desse modo uma produção excludente de outras produções. Um emaranhado de técnicas: o reino do artifício e da escassez Sabemos já que as técnicas presentes em uma dada situação não são homogêneas. Na medida em que as técnicas hegemônicas. Cria-se u m verdadeiro totalitarismo tendencial da racionalidade isto é. A idéia vem de Sartre. é afinal definido pela soma dos possíveis que lhe cabem. 2 3 . serviços.da heterogeneidade criadora. uma produção acelerada e artificial de necessidades. o que em outras palavras significa que estamos todos mergulhados no reino do artifício. Daí a sensação e. com a multiplicação de objetos técnicos estritamente programados que abrem espaço para essa orgia de coisas e necessidades que impõem relações e nos governam. cada homem. mediante possibilidades reais ou artifícios . a consciência de escassez: aquilo que falta a mim. além delas outras técnicas se impõem. todas as técnicas presentes acabam por ser inextricáveis. as quai s simplificamos mediante duas situações tipo: para os possuidores . D o a r t i f í c i o à e s c a s s e z Hoje. Não é que a produção necess seja globalmente impossível. serviços. mas segundo formas diferentes. dessa racionalidade h egemônica. entre outras coisas. no território. 3. tanto os objetivos quanto as ações derivam da técnica. são hoje extremamente dotadas de intencionalidade. Mas o que é produzido necessária ou desnecessariamente é desigualmente distribuído.

impõe-se uma readaptação permanente.renovados. Cria-se um círculo v cioso 63 . Como o proc esso da criação de necessidades é infinito. a fuga à escassez e a superação ainda que provisória da escassez.

a certeza de que cada dia é dia de uma nova escassez. A noção de escassez se materializa. a parce la de consumidores contumazes obtém uma convivência relativamente pacífica com a escassez. Po r isso não há lugar para o repouso e a própria vida acaba por ser um verdadeiro campo de batalha . As negociações para regressar ao statu s de consumidor satisfeito conduzem à repetição de experiências exitosas. mais também rec lamando explicações. mediante o mercado e a publicidade. já agora. viver na esfera do consumo é como querer subir uma escad a rolante no sentido da descida. mais aumentam. quanto mais se distribuem. individualmente. A sobrevivência só é assegurada porque as experiências imperativamente se renovam. E como a surpresa se dá como rotina. constitui um instrumento primordial na percepção da situação de cada um e uma possibilid ade de conhecimento e de tomada de consciência. Por isso. M as a busca permanente de bens finitos e por isso condenados ao esgotamento (e à substit uição por outros bens finitos) condena os aparentemente vitoriosos à aceitação da contrafinalidade cont ida nas coisas e em conseqüência ao enfraquecimento da individualidade. Para eles. e. O nosso tempo consagra a multiplicação das fontes de escassez. a riqueza dos não-possuidores é a prontidão dos sentidos. Cada dia acaba oferecendo uma nova experiência da escassez. a ssim como. não há negociação possível para eles. não h orça de negociação. nessa época de globalização. A sociedade atual vai dessa maneira. mais idéias do mundo aí estarão para ser levantadas . enriquecendo o movimento intelec tual. apresenta-se um objeto novo. D a e s c a s s e z a o e n t e n d i m e n t o A experiência da escassez é a ponte entre o cotidiano vivido e o mundo. É com essa força que eles se eximem da contrafinalidade e ao lado da busca de bens materiais finitos cultivam a procura de bens infinitos como a solidariedade e a liberdade: estes. seja pelo chamado incessante ao co nsumo. Desse modo. Alteridade e individualidade se reforçam com a renovação da novidade. seja pelo número avassalador dos objetos presentes no mercado. Quanto mais dife rentes são os que convivem num espaço limitado. mas quando não é satisfeita ela acaba por se impor como diferente da de ontem e da d o outro. Dir-se-ia que tal movimento se repete. se aguça e se reaprende cotidianamente. Quanto aos não-possuidores sua convivência com a escassez é conflituosa e até pode ser guerreira. Cada dia.com a rotina da falta e da satisfação. para essa parcela da sociedade a falta já é criada como a expectativa e a perspectiva de satisfação. Na realidade. que nos é mostrado para p rovocar o apetite. criando desejos insatisfeitos. Na briga cotidiana pela sobrevivência. A escassez de um pode se parecer à escassez do outro e a escassez de hoje à escassez de ontem.

cotejadas e. mas também uma ponte entre a necessidade e o entendimento (M . nessa fase da globalização. o trabalho acaba por ser. mas como sua presença na vida de todos os dias é o resultado de uma metamo rfose também permanente. 64 . tanto mais rico será o debate silencioso ou ruidoso que e ntre as pessoas se estabelece.. já que. a escassez é um dado p ermanente da existência. desse modo. exibe a multiplicidade de formas de escassez contemporânea. a aceleração contemporânea é também aceleração na produção d escassez e na descoberta da sua realidade. Nesse sentido. Para os pobres. Santos. pode-se dizer que a cidade é um lugar privilegiado para essa revelação e que. o lugar de uma descoberta cotidiana e de um combate cotidiano. para eles. as quais vão mudando mais rapida mente para se tornarem mais numerosas e mais diversas. multiplicando e apressando os c ontatos.

nas faculdades. quando. cria e recr ia uma cultura com a cara do seu tempo e do seu espaço e de acordo ou em oposição aos donos do tempo . não . Num mundo tão complexo. Eles eles enfrentam e têm repouso intelectual sentimento de urgência. uma e o utra se encontram e confundem. e é conduzida pelo cálculo dos partidos e das empresas. A memória seria sua inimiga. que nada tem a ver com a política institucional. mas na realidade esse palco. pobres e não pobres. de vida ativa. por motivações concretas e abstratas. É dessa forma que. se fala em estratégia de sobrevivência. a política dos debaixo. também. em que a tomada de consciência é possível. junto com seus atores. constitui a própria vida concr eta da maioria das populações.04. Miseráveis são os que se confessam derrotados. q ue são também os donos do espaço. Nos lugares. na convivência com a necessidade e com o outro. um motor do conhecimento. e é alimentada pela simples necessidade de continuar existindo. alimentados pel a ideologia do consumo. ao serviço das forças socioeconômicas hegemônicas. constituído por causas próximas e remo tas. Mas não aos atores ativos do drama. 06. buscam remédio para suas dificuldades. para prosseguir vivendo. entre a explicação das coisas e a sua propaganda.1997). por exemplo. da globalização etc. A socialidade urbana pode escapar ao seus intérpretes. sobretudo qua ndo. ou quase. Assim. mas também de lu ta. Papel dos pobres na produção do presente e do futuro O exame do papel atual dos pobres na produção do presente e do futuro exige. com o aniquilamento. A herança do passado é temperada pelo essa consciência do novo que é. pela confusão entre os discursos e as situações. pronta a enfrentar seu tempo a partir do seu espaço. 2 4 . um estado vivo. daí a presença simultânea de comportamentos contraditórios. suscitando neles expectativas e desejos que não podem contentar. A política dos pobres é baseada no cotidiano vivido por todos. distinguir entre pobreza e miséria. são obrigados a lutar todos os dias. Este lhes aparece nebuloso. ou aos seus vigias. Trata-se de uma política de novo tipo. Haverá quem descreva o quad ro material dessa batalha como se fosse um teatro. A pobreza é uma situação de carência.constituída a partir das suas visões do mundo e dos lug ares. em primeiro lugar. pode escapar aos pobres o entendimento sistêmico do sistema do mundo.JornaldoBrasil. se elabora uma política. A cidade. também se entranha na vida os pobres. se entregam. Esta úl tima se funda na ideologia do crescimento. da pessoa. . Este. Mas os pobres não descobrem cada dia formas inéditas de trabalho e de luta. A miséria acaba por ser a privação t otal. Nessa condição de alerta permanente. nas delegacias de polícia.

Mas há também a desilusão das demandas não satisfeitas, o exemplo do vizinho que prospera, o cotidiano contraditório. Talvez por aí chegue o despertar. Num primeiro momento, este é, apenas, o encontro de uns poucos fragmentos, de algumas peças do puzzle, mas também a dificuldade para entrar no labirinto: falta-lhes o próprio sistema do mundo, do país e do lugar. Mas a semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em a titudes de inconformidade e, talvez, rebeldia. Sem dúvida, os brotes individuais de insatisfação podem não formar uma corrente. Mas os movimentos de massa nem sempre resultam de discursos claros e bem articulados , nem sempre se dão por meio de organizações conseqüentes e estruturadas. O entendimento sistemático da s 65

situações e a correspondente sistematicidade das manifestações de inconformidade constit uem, via de regra, um processo lento. Mas isso não impede que, no âmago da sociedade, já se est ejam, aqui e ali, levantando vulcões, mesmo que ainda pareçam silenciosos e dormentes.

Na realidade, uma coisa são as organizações e os movimentos estruturados e outra coisa é o próprio cotidiano como um tecido flexível de relações, adaptável às novas circunstâ as, sempre em movimento. A organização é importante, como o instrumento de agregação e multiplicação de forças afins, mas separadas. Ela também pode constituir o meio de negoc iação necessário a vencer etapas e encontrar um ovo patamar de resistência e de luta. Mas a obtenção de resultados, por mais compensadores que pareçam, não deve estimular a cristalização do mo vimento, nem encorajar a repetição de estratégias e táticas. Os movimentos organizados devem imit ar o cotidiano das pessoas, cuja flexibilidade e adaptabilidade lhe asseguram um autênt ico pragmatismo existencial e constituem a sua riqueza e fonte principal de veracidade. 2 5 . A metamorfose das classes médias Cada época cria novos atores e atribui papéis novos aos já existentes. Este é também o caso das classes médias brasileiras, desafiadas agora para o desempenho de uma imp ortante tarefa histórica, na reconstituição do quadro político nacional. A i d a d e d e o u r o

O chamado milagre econômico brasileiro permite a difusão, à escala do país, do fato da classe média. Na realidade, entre as muitas explosões características do período, está esse crescimento contínuo das classes médias, primeiro nas grandes cidades e depois nas c idades menores e no campo modernizado. Essa explosão das classes médias acompanha, neste me io século, a explosão demográfica, a explosão urbana e a explosão do consumo e do crédito. Tal conjunto de fenômenos tem relação estrutural com o aumento da produção industrial e agrícola , como também do comércio, dos transportes, das trocas de todos os tipos, das obras públicas, da administração e da necessidade de informação. Há, paralelamente, uma expansão e diversificaçã o emprego, com a difusão dos novos terciários e a consolidação, em muitas áreas do país, de um a pequena burguesia operária. Como a modernização capitalista tende ao esvaziamento do c ampo e é sempre seletiva, uma parcela importante dos que se dirigiram às cidades não pôde parti cipar do circuito superior da economia, deixando de incluir-se entre os assalariados form ais e só encontrando trabalho no circuito inferior da economia, impropriamente chamado de setor inform al . Vale realçar que no Brasil do milagre, e até durante boa parte da década de 1980, a classe média se expande e se desenvolve sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para a melhor ia do seu poder

aquisitivo e do seu bem-estar material. Todos iam subindo juntos, embora para an dares diferentes. Mas todos das classes médias estavam cônscios de sua ascensão social e esperançosos de conseguir ainda mais. Daí sua relativa coesão e o sentimento de se haver tornado um poderoso estamento. A competição foi, na realidade, com os pobres, cujo o acesso aos bens e s erviços se torna cada vez mais difícil, à medida que estes se multiplicam. Vale a pena lembrar as fac ilidades para a aquisição da casa própria, mediante programas governamentais com que foram privilegiad os, 66

Tais dificuldades chegam em em um tropel: a educação dos fil hos.enquanto os brasileiros mais pobres apenas foram incompletamente atendidos nos últ imos anos do regime autoritário. abril de 1999) o acesso ao crédito transfo rma-se em instrumento para alcançar a estabilidade social . Tudo o que alimenta a classe média dálhe. Ribeiro ( A dúvid a da dívida e a classe média . e mais apegada ao consumo que à se cidadania. de uma moeda de troca. a democracia se instala incompletamente na década de 1980. o que poderá levá-la a uma reinterpretação de sua situação. O modelo econômico importava mais que o modelo cívico. A gênese e as formas de expansão das classes médias brasileiras têm relação direta com a maneira como hoje se desempenham os partidos. Nos anos recentes. quando a classe média começa a conhecer a experiência da escassez. A classe média é a grande beneficiária do crescimento econômico. a aquisição ou aluguel da moradia. as próprias esquerdas são levadas a dar mais espaço às preocupações eleitoras e menos à pedagogia propriamente política. Barreto e Ana Clara T. o cuidado com a saúde. tudo isso levantado à ampliação do seu bem-estar (o que hoje se chama de qual idade de vida). A e s c a s s e z c h e g a à s c l a s s e s m é d i a s Tal situação tende a mudar. também um sentimento de inclusão no sistema político e econômico e um sentimento de segurança. aliás. Seguindo essa lógica. sócia despreocupada do cr escimento e do poder com os quais se confundia. Lastro. aumenta seu poder aquisitivo e melhora qualitativamente por meio das oportunidades de ed ucação que lhe são abertas. ao mesmo tempo em que se diversifica profissionalmente. na r ealidade. Daí a tolerância. Tais incertezas são agravadas pelas novas . Conforme mostraram Amélia Rosa S. pri meiro de forma lenta ou esporádica e já agora de modo mais sistemático e continuado. dessa maneira. a possibilidade de pagar pelo lazer. Forma-se. IPPUR. a deteorização dos salários. uma classe média sequiosa de bens materiais. condições objeti vas necessárias a um crescimento econômico sem democracia. guardando todos esses vícios de origem e sustentando um regime representativo falsificado pela ausência de partido s políticos conseqüentes. Tratava-se. Tal classe média. a poupança negativa e o crescente endividamento estão levando ao desconforto quanto ao presente e à insegurança quanto a o futuro. estimulado pela constantes medidas do poder público em seu favor. conduzindo-a a acreditar que a preservação das suas vantagens e perspectivas estivesse assegurada. tanto o futuro remoto quanto o imediato. Eram essas. a começar pela propriedade. a falta de garantia no emprego. senão a cumplicidade com o regim e autoritário. Quando o regime militar esgot a o seu ciclo. nº 6. ano 3. a class e média conhece dificuldades que lhe apontam para uma situação existencial bem diferente daq uela que conhecera há poucos anos. já que a classe média constituía uma base de apoio às ações do governo. do mo delo político e dos projetos urbanísticos adotados.

perspectiva da previdência social e do regime de aposentadorias. ou de que já não participam da partilha do poder. a apreensão d os filhos em relação ao futuro profissional e as manifestações cotidianas desse desassossego. A tudo isso se acrescentam. Já que não mais encontram os remédios que lhe eram oferecidos pelo mercado ou pelo Estado como solução aos seus problemas individuais emergentes. Acostumada s a atribuir aos políticos a solução dos seus problemas. agora. as classes médias ganha m a percepção de que já não mandam. seu descontenta mento. da prometida reforma dos seguros privados e da legislação do trabalho. proclamam. 67 . dentro do próprio lar.

O importante é que se instale. sobretudo televisiva. a tarefa histórica de forçar os partidos a complementar. assim. são muito os que ainda aceitam as tentações do triunfalismo oposicionista sempre que as ocasiões se apresentam e se rendem ao oportunismo eleitoreiro. fruto de reflexão mais profunda. mas. quando o consumidor assume o papel de cidadão. não o faz igualmente. Vist o esquematicamente. a partir de um entendimento mais amplo do processo social e de uma visão sistêmica de situações aparentemente isoladas. o trabalho. a preocupação de defe nder situações individuais ameaçadas e que se deseja reconstituir. isto é. pode se limitar a novas manifestações de individualismo. da informação e da interpretação do processo social. Mas seu papel não estará completo enquanto não se identificar com os clamores dos pobres. agora mais ilustradas e. tal processo pode ter. U m d a d o n o v o n a p o l í t i c a Seja como for. quando a reação corret a poderia e deveria ser exatamente a oposta. agravada com a fragmen tação pela mídia. as classes médias brasileiras. mais despojadas materialmente. a desejar menos política e menos participação. que. A atual experiência de escassez pode não conduzir imediatamente à desejável expansão da consciência. em sua condição atual. O passo seguinte po de levar à decisão de participar de uma luta pela sua transformação. não raro. inclusi ve os partidos do progresso. Elas já não vêem espelhadas nos partidos e por isso se instalam num desencanto mais abrangente quanto à política propriamente dita. podem alcançar um nível qualitativo superior. levando-as. desgarrando-se. retomando o consumo e o conforto material como o principal motor de uma luta. a r eagir negativamente. também. E quando esta se impõe. e feridas de morte nos seus interesses materiais e espirituais. de implantação de uma democracia que não seja apenas eleitora l. do seu papel de formador es não apenas da opinião mas da consciência cívica sem a qual não pode haver neste país política verdadeir a. em parte. constituem. um d ado novo da vida social e política. A certez a de não mais influir politicamente é fortalecida nas classes médias. para o rearranjo e a regeneração dos partidos. limit ando-se às respectivas mobilizações ocasionais.distanciando-se deles. Não importa que esse movimento de tomada de consciência não seja geral. nem igu al para todas as pessoas. É num segundo momento que tais reivindicações. apenas começado. pela visão de consumidor desabusado que alimentou durante décadas. segundo as pessoas. contribuindo. As classes média brasileira. desse modo. Isso é justificado. agora. já não mais aduladas. no Brasil. Dentro destes. juntos. como primeiro degrau. têm. .

A experiência da escassez. Nas condições brasileiras atuais. que incluam uma maior responsabilidade ideológica e a correspondente representatividade político-eleitoral dos partidos.também. desse modo. um revelador cotidiano da verdadeira situação de cada pessoa é. política e social. as novas circunstâncias podem levar as classes médias a forçar uma mudança substancial do ideário e das práticas políticas. econômica. 68 . um dado fundamental na aceleração da tom ada de consciência.

para entender o processo que conduziu à globalização atual. No caso do mundo atual. exatamente porque as condições de sua realização mudaram radicalmente. influência sobre todos os aspectos da existência: a vida econômica. freqüentemente. a v ida cultural. Chegamos a um outro século e o hom em. exclusivamente. provi denciada pelo que se está chamando de técnica informacional. por meio dos avanços da ciência. o processo de globalização acaba tendo. freqüentemente. temos a consciência de viver um novo período. sistemas técnicos e sistemas de ação se confundem e é por meio das combinações então possíveis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a história e a geografia se fazem e se refazem continuadamente. É some nte agora que a humanidade está podendo contar com essa nova qualidade da técnica. direta ou indiretamente. de modo quase imperceptível para os contemporâneos. amadurecem e morrem. Essa idéia de movimento e mudança é inerente à evolução da humanidade. tendência a separar uma coisa da outra. separação entre as duas coisas. É dessa forma que os períodos nascem.V I -A T R A N S I Ç Ã O E M M A R C H A I n t r o d u ç ã o A gestação do novo. é necessário levar em conta dois elementos fundamentais: o estado das técnicas e o estado da política. já que suas sementes começam a se impor quando ainda o velho é quantitativamente dominante. Na verdade. na história. dá-se. Ele não se verifica de modo homogêneo. t anto em 69 . Cultura popular. Na prática social. unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo sistema técnico. Todavia. Há. na história humana. Não se pode dizer que a globalização seja semelhante às ondas anteriores. 2 6 . período popular Para a maior parte da humanidade. as relações interpessoais e a própria subjetividade. A história fornece o quadro material e a polític a molda as condições que permitem a ação. apoiado por formas institucionais igualmente nov as. Estas passam a exercer um papel de elo entre as demais. produz um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da i nformação. Daí nascem as muitas interpret ações da história a partir das técnicas ou da política. Mas a história se caracteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas. mas o novo que mais facilmente apreendemos é a utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência p elas novas formas do grande capital. nem mesmo uma continuação do que havia antes. nunca houve . É exatamente por isso que a qualidade do novo pode pass ar despercebida.

.

cada vez mais freqüente. cuja difusão encontra obstáculos na diversidade das pessoas e na diversidade dos lugares. mostraria. jamais é compl eta. indiferente às heranças e às realidades atuais dos luga res e das sociedades. pois encontra a resistência da cultura preexistente. a partir de uma classificação arbitrária. tornada capaz de rivalizar com a cultura de massas. técnica e cultural. de uma revanche da cultura popular sobre a cultura de massa. a que chamamos de período demográfico ou popular (M. Um esquema grosseiro. Nesse caso. Mas há também e felizmente a possibilidade. por meio da exaltação da vida de todos os dias. mas também. das minorias. e o próprio fato de que seja criador de escassez é um dos motivos da impossibilidade da homogeneização. c u l t u r a p o p u l a r Um exemplo é a cultura. dando-lhe mesmo um caráter ai nda mais estrutural. quando. Santos. por exemplo. dentre as quais. indispensável. Uma das conseqüências de tal evolução é a nova significação da cultura popular. 1979). ela s e difunde mediante o uso dos instrumentos que na origem são próprios da cultura de massas. Constituem-se. homogeneizador. com maior ou menor força. Os individuos não são igualmente atingidos por ess e fenômeno. conduzido por um mercado cego. já que sua base se encontra no território e na cultura local e herdada. como ela é. Na realidade. oferecida como espetáculo. e paralelamente. uma cultura popular domesticada associ ando um fundo genuíno a formas exóticas que incluem novas técnicas. em toda a parte. as r eações desta cultura popular. Sem dúvida. e a expansão paralela das formas de globalização econômica. nem a incitação pr ira é o chamado mercado global. apontando para o surgimento de um novo período históri co. a cultura popular exerce sua qualidade de discurso dos de baixo . o mercado vai impondo. assim. Es sa conquista. mais ou menos eficaz segundo os lugares e as sociedades. forma de expressão que associ . aqui e ali. Espaçoesociedade. elementos mais ou menos maciços da cultura de massa. ao reino do merc ado. Um primeiro movimento é resultado do empenho vertical unificador. a presença e a influência de uma cultura de massas busca ndo homogeneizar e impor-se sobre a cultura popular. Tais expressões da cultura popular são tanto mais fortes e capazes de difusão quanto revela doras daquilo que poderíamos chamar de regionalismos universalistas. Outra é a produção das condições neces sárias à reemergência das próprias massas. dos excluídos. pondo em relevo o cotidiano dos pobres. C u l t u r a d e m a s s a s . a globalização a heterogeneidade. todavia. Se aqui o s instrumentos da cultura de massa são reutilizados. global . formas mista s sincréticas.extensão quanto em profundidade. financeira. o conteúdo não é.

essa cultura endógena impõe-se como um alimento da política dos pobres. Mas sua cultura. um discurso te rritorializado. no trabalho e no cotidiano. que aca ba por ser um alimento da política. por ser baseada no território. gerada d e dentro. Gente junta cria cultur a e. a questão da escassez aparece outra vez como central. a ex periência da escassez e a experiência da convivência e da solidariedade. uma política territorializada. Os de baixo não dispõem de meios (materiais e outros) para participar plenamente da cultura modern a de massas. É desse modo que. que se dá 70 . cria uma economia territorializada. paralelamente. Essa cultura da vizinhança valoriza. ali mesmo o impacto da cultura de massas. ganha a força necessária para deformar. uma cultura territorializada.a a espontaneidade própria à ingenuidade popular à busca de um discurso universal. ao mesmo tempo. No fundo.

são substituídos. É essa a simbologia ideológica da cultura de massas. já que se realiza. A cultura de massas produz certamente símbolos. desse mo do. Ist seria. já ser visto como cadáver desde o seu nascimento. mas na realidade é uma força. Da divisão do trabalho por cima cria-se uma solidariedade gerada de fora e depende nte de vetores verticais e de relações pragmáticas freqüentemente longínquas. tendo como base de operação um mesmo lugar. a partir das migrações políticas ou econômicas.independentemente e acima dos partidos e das organizações. A primei ra prende-se ao uso obediente das técnicas da racionalidade hegemônica. Frente ao movimento social e no objetivo de não parecerem envelhecidos. A racionalidade é mantida . Tal cultura realiza-se se gundo níveis mais baixos de técnicas. segundo os lugares. fixos. op eram em diferentes graus de qualidade e de quantidade. uma fraqueza. Da combinação dessas duas tendências pode-se supor que o processo iniciado há meio século levará a uma verdadeira colorização do Norte. religiões. de capital e de organização. Já os símbolos de baixo . são portadores da verdade da existência e reveladores do próprio movimento da sociedade. uma integração orgânica com o território dos pobres e o seu conteúdo humano. a ampliação da v ocação atual para a mistura intercontinental e intranacional de povos. na música e na riqueza das formas de intercurso e solidariedade entre as pessoas. E tudo isso evolui de modo inseparável. mas por uma outra simbologia também fixa: o que vem de cima está sempre morrendo e pode. A s c o n d i ç õ e s e m p í r i c a s d a m u t a ç ã o É a partir de premissas como essas que se pode pensar uma reemergência das massas. o que assegura a permanênc ia do movimento. Tal sociedade e tal economia urbana dual (mas não dualista) conduzirão a duas formas imbricadas de acumulação. essa urbanização concentrad já revelada nos últimos vinte anos. aparentemente. direta ou indiretamente ao serviço do poder ou do mercado. a cada vez. gostos. Para isso devem contribuir. produtos da cultura popular. duas formas de divisão do trabalho e duas lógicas urbanas dist intas e associadas. O fenômeno já entrevisto de uma divisão do trabalho por cima e de uma outra por baixo tenderá a ser reforçar. Mas estes. assim como a tendência crescente à aglomeração da população em alguns lugares. daí suas formas típicas de criação. por antecipação. à infomalização de parte de sua econom de suas relações sociais e à generalização de certo esquema dual presente nos países subdesenvolvidos do Sul e agora ainda mais evidente. enquanto a segunda é fundada n a redescoberta cotidiana das combinações que permitem a vida e. manifestados na fala. são. Daí a expressividad e dos seus símbolos.

Na divisão do trabalho por baixo. implacáveis. uma adaptabilidade endógena. Aqui são as rel ações de proximidade que avultam. Por baixo há maior dinamismo intrínseco. radicais. este é o domínio da flexibilidade tropical com a adaptabili dade extrema dos atores.à custa de normas férreas. há um novo reequilíbrio em favor da sociedade local e regulado por ela. a rigidez das normas econômicas (privadas e públicas) impede a política. exclusivas. Sem obediência cega não há efi cácia. A cada movimento novo. A divisão do trabalho por cima é uma campo de maior velocidade. 71 . Nela. o que se produz é uma solidariedade criada de dent ro e dependente de vetores horizontais cimentados no território e na cultura locais.

em suas formas mais agressivas. Sem dúvida. impondo uma nova ética. Dessa forma. um dinheiro em estado puro sustentado por uma informação ideológica. destarte. Assim o interresse social suplantaria a atual precedência do interesse econômico e tanto levaria a uma nova agenda de invest imentos como a uma nova hierarquia nos gastos público. Num mundo em que fosse abolida a regra da competitividadecomo padrão essencial de relacionamento. Nas presentes circunstâncias. e a idéia de mercad o interno . Dessa forma.reduzindo as fraturas sociais. empresarais e privados. Tal esquema cond uziria. um a nova base para a afirmação do reino da política. a vonta de de ser potência não seria mais um norte para o comportamento dos estados. A p r e c e d ê n c i a d o h o m e m e o p e r í o d o p o p u l a r Uma outra globalização supõe uma mudança radical das condições atuais. impostas por meio da publicidade e do consumo conspícuo. o homem acaba por ser considerado m elemento r esidual. durante o qual reajustamentos sucessivos se im porão. e alcançando a valoração íntima de cada pessoa e a própria constituição do espaço geográfico. essa desejada m udança apenas ocorrerá no fim do processo. uma nova economia. a centralidade é ocupada pelo dinheiro. com a qual se encontra em simbiose. conforme já vimos. O ponto de pa rtida para pensar alternativas seria. Daí a brutal distorção do sentido da vida em todas as suas dimenções. maoir complexidade. de modo que a centralidade de todas as ações seja localizada no homem. o Estado-nação e a solidariedade social também se tornam resi duais. estarão assegurados o império da compaixão nas relações interpessoais e o estímulo à solidariedade s ocial. e. a ser exercida entre indivíduos. Com a prevalência do dinheiro em estad o puro como motor primeiro e último das ações. capaz de garantir para o maior número a satisfação das necessid ades essenciais a uma vida humana digna. também. paralelamente. ao estabelecimento de novas relações internacionas.maior movimento espontâneo. a prática da vida e a existência de todos. entre o indivíduo e a sociedade e a vice-versa e entr e a sociedade e o Estado. A nova paisagem social resultaria do abandono e da superação do modelo atual e sua substituição por um outro. como um dado filosófico e como uma inspiração para as ações. A primazia do homem supõe que ele estará colocado no centro das preocupações do mundo. mais riq ueza (a riqueza e o movimento dos homens lentos). mais encontros gratuitos. relegando a uma posição secundária necessidades fa bricadas. segundo a fórmula sugerida por Ana Clara Torres Ribeiro. o que constitui. assenta ndo bases sólidas para uma nova sociedade. o território. um novo espaço geográfico. Produz-se uma nova centralidade do social. mais combinações. então. incluindo o trabalho e o lazer.

Isso. fundamentam e presi dem as atuais práticas econômicas e políticas hegemônicas. todavia. deixaram-se de lado políticas sociais que amparavam. poi s. uma das formas com as quais se materializa o chamado mercado global. Agora. tem trazido como conseqüência par todos os países uma baixa de qualidad e de vida para a maioria da população e a ampliação do número de pobres em todos os continentes. com a globalização atual.será uma preocupação central. Assim. dentro dessa racionalidade viciada. a busca de um futuro diferente tem de pa ssar pelo abandono das lógicas infernais que. o que está sendo privilegiado são as relações pontuais entre grandes atores. em passado recente os 72 . A atual subordinação ao modo econômico único tem conduzido a que se dê prioridade às exportações e importações. mas falta sentido ao que eles fazem.

se a preocupação central é o homem. em conjunto ou separadamente. o presente estado de coisas interessa. é mais representativa do interesse próprio das grandes potências que de uma vontade de efet iva colaboração. arrastando os países nessa com petição. não importa onde e teja. entre a hitória geral e as histórias particulares. sob o argumento de que os recursos sociais e os dinheiros públi cos devem primeiramente ser utilizados para facilitar a incorporação dos países na onda globalitár ia. de que a história seria sempre feita a partir dos países centrais. é impossível descuidar do interesse das populações ou suprimir inteiramente direitos adquiridos m ediante lutas seculares.menos favorecidos. Entretanto. Então. L i m i t e s à c o o p e r a ç ã o Quando. A centralidade da periferia A idéia da irreversibilidade da globalização atual é aparentemente reforçada cada vez que constatamos a inter-relção atual entre cada país e o que chamamos de mundo . O limite da cooperação dentro da Tríade (Es tados Unidos. isso também tem haver com a idéia. isto é. Na verdade. Japão e Estados Unidos. porém. Mas. O que permanece como lembrança do Estado de bem-estar basta para contra riar as pretensões de completa autonomia das empresas transnacionais e contribui para a em ergência. a luta entre elas se agrava. também estabelicida. da qual participam como parceiros mais frágeis os países subdesenvolvidos. Estas põem em ação suas força s e incitam os governos respectivos a apoiá-las. da Europa e dos Estados Unidos. Trata-se. enquando no seu âmago reina uma disputa entre Europa. aos quais. dentro de cada nação. abandona r a idéia de ampliar sua própria área de influência. Nessa guerra. hoje indiscutível. na verdade. política e militar sobre as nações que lhes são mais diretamente tributárias sem. todavia. os organismos internacionais capitaneados pelo Fundo Mone . Europa. 2 7 . a experiência dos mercados comuns regionais já mostra aos países chamados emergentes que a cooperação da tríade. já que nesses países a idéia de cidadania ainda é forte. de modo que cada um não perca terreno fren te ao outro. que lutam para guardar e ampliar sua parte do mercado global e afirmar a hegemonia econômica . tal modelo não terá mais razão de ser. Japão) é essa mesma competição. assim co mo a interdependência. qualquer fração de mercado. se torna fundamental à competitividade exitosa das empresas. Agora mesmo. verificamos que o centro do sistema busca impor uma globalização de cima para baixo aos demais países. Como as empresas tendem a exercer sua vonta de de poder no plano global. de novas contradições. observamos de perto aspectos mais estruturais da situação atual. de uma guerra. protagonizada tanto pelos Estados como pelas respecti vas empressas globai. de modo geral.

O d e s a f i o a o S u l 73 . pelo Banco Mundial. pelo BID etc. Tais realidades levam a d uvidar da vontade de cada um e do conjunto desses atores hegemônicos de construir um verdade iro universalismo e permite pensar que.. à Europa e ao Japão. em sua qualidade de intérpretesdos interesses comuns aos Estados Unidos. essa dupla competição perdurará.tário. exercem um papel determinante. nas condições atuais.

nele s. Jungidos sob o peso de uma dívida externa que não podem pagar. desse modo. tornam-se evidentes os limites da aceitaão de tal situação. sincrônica a vontade de mudança frente a esse tipo de relação. Globalização e desnacionalização. Como a m aior parte da humanidade é direta ou indiretamente do interesse deles. no quadro da globalização atual. que nada têm de simple s . também. uma parte da população dos países ricos) (Samuel Pinheiro Guimarães. Esse mundo globalizado produaz uma racionalidade deter minante. Daí a inutilidade dos esforços de associação dependente face aos países centrai s.Os países subdesenvolvidos. forçados que estão a transferir para o setor econômico recursos que deveriam ser destinados à área social. os píses subdesenvolvid os assistem à criação incessante de carências e de pobres e começam a reconhecer usa atual si tuação de ingovernabilidade. de alguma fo rma inclui. o terceiro-mundismo. muito menos será. mas. sem contar com a s formas particulares de inclusão da Índia e da China na globalização atual. parceiros cada vez mais fragilizados nesse jogo tão desigual.1999). pouco a pouco. admi tir que. no entanto. Há. deixando de ser dominante. É certo que a tomada de consciência dessa situação estrutural de inferioridade não chegará ao mesmo tempo para todos os países subdesenvolvidos e. Todavia.1999). Quinh entos anos deperiferia. em tudo isso. também. É uma racionalidade que comanda os grandes negócios cada vez mais abrangentes e mais concentrados em poucas mãos. Haverá. uma grande contradição. a Malásia. Esse grandes negócios são de interesse direto de um número cada vez menor de pessoas e empressas. mas que vai. a unidade de obediência hoje pre dominante. mais cedo ou mais tarde as condições internas a cada país. Abandonamos as teorias do subdesenvolvimento. está ressurgindo algo muito forte: a história da maioria da humanidade conduz à consciência da sobrevivência dessa tercermundização (que. provocadas em boa parte pel as suas relações externas. o Iraque. que eram nossa bandeira nas décadas de 19 50-60. levarão a uma revisão dos pactos que atualmente conformam a globalização. o Paquistão. graças à globalização. uma vontade de distanciamento e posteriormente de desengajamento. já são muito numerosas as manifestações de desconforto com as conseqüências da nova dependência e do novo imperialismo (Reinaldo Gonçalves. Pode-se. con forme sugerido por Samir Amin. então. as manifestações de irredentismo já são claramente evidentes em p aíses como o Irã. Por d iferentes razões e meios diversos. rompendo-se. pouco a pouco essa rea lidade é desvendada pelas pessoas e pelos países mais pobres. Na verdade. mas cedo ou mais tarde compreenderão que nessa situação a cooperação lhes aument a a dependência. o Afeganistão.

com um terço da população mundial e uma presença internacional cada vez mais ativa. porém. havia sugerido em seu livro OdesafioaoSul. Uma reação em cadeia poderá ensejar o renascimento de algo como o antigo élan terceiromundista tal como o presidente Nye rere. dificilmente aceitarão. jogar o papel passivo de nação-mercado para os blocos economicamente hegemônicos. uma ou outra. Além dessa tendência verossímil. como a propagando ocidental quer fazer crer. assim como a Rússia.obediência ou conformidade. até quando será possível manter o modelo econômico globalitár o e ao mesmo tempo acalmar as populações crescentemente insatisfeitas. da Tanzânia. considerem-se as formas de desordem da vida social que já se multiplicam em numerosos países e que tendem a aumentar. O Brasil é emblemátic o como exemplo. não se sabendo. Países como a China e Índia. 74 .

apesar das divergências pela competição quanto ao mercado global têm interesses comuns que as incitarão a buscar adap tar suas regras de convivência à pretensão de manter a hegemonia. poderá permitir que preocupações de ordem social. como em outras fses de ruptura na margem de capitalismo. econômica e cultural). Uma coisa parece certa: as mudanças a serem introduzidas. as diferentes áreas dentro de um mesmo país. a busc a de outras soluções. a vida local se manifesta ou mesmo tempo como uma resposta e um a reação a essa globalização. Sua realidade revela um mov imento globalizador seletivo. uma globalização constituída de baixo para cima. modelos alternativos. assim. A combinação hegemônica de que resultam as formas econômicas modernas atinge diferentemente os diversos países. exigente de novas definições e vocabulário renovado. com a maior parte da popuação do planeta sendo menos diretame nte atingida e em certos casos pouco atingida pela globalização econômica vigente. em que a busca de classificação entre potências deixe de ser uma meta. Japão). 2 8 . a partir de características próprias. todavia. Na Ásia. no sentido de alcançarmos uma outra globalização. A nação ativa. o país deve ser visto como uma situação estrutural em movimento. reclama a explicitação clara e coerente dos seus t ermos. . Como. É o caso do próprio debate naci onal. as diversas culturas. hoje. cultural e moral possam preval ecer. não viram do centro do sistema. nem tão p ouco proibirá que associações de tipo horizontal se dêem entre países vizinhos igualmente hegemonizado s. sem o que se pode facilmente cair no vazio ou na abigüidade. Então. a globalização atu al é um período de crise permanente. as respectivas áreas acabam po r ser os lugares onde a globalização é relativizada ou recusada. atribuindo uma nova feição aos blocos regionais e ultrapassando a etapa das relações mer amente comerciais para alcançar um estágio mais elevado de cooperação. as idéias e também com as pa lavras. Não podendo essas populações majoritárias consumir o Ocidente globalizado em suas formas puras (financeira. Qualquer que seja o debate. A diversidade sociogeográfica atual o exemplifica. As mudanças sairão dos países subdesenvolvidos. na qual cada elemento está intimamente relacionado com os demais. Europa. a nação passiva A globalização atual e as formas brutas que adotou para impor mudanças levam à urgente necessidade de rever o que fazer com as coisas. a renovação do papel hegemônico da Tríade levará a maiores sacrifícios para o resto da comunidade das nações.As potências centrais (Estados Unidos. nestas. na África e m esmo na América Latina. Como sempre. Mas não impedira que cada país elabore. É previsível que o sistemismo sobre o qual trabalha a globalização atual erga-se como um obstáculo e torne difícil a manifestação da vontade de desengajamento. incentivando.

no mundo da globalização. de um jeito ou de outro. porém. do mesmo modo que a vizualização de um projeto nacional pode tornar-se obscura. em acordo ou não com as instâncias públicas freqüentemente dóceis e subservientes. Talvez por isso. os projetos das grandes empresas. impostos pela tirania das finanças e trombeteados p ela mídia.O c a s o d o p r o j e t o n a c i o n a l ? Agora. acabam. deixando de lado o desenho de uma geop olítica 75 . o reconhecimento dessa estrutura é difícil. guiando a evolução dos países.

A opção brasileira. entrópica. de duas nações. é . cuja única preocupação é o conformismo frente às determinações do process atual de globalização. necessita de um sotaque doméstico e por isso estimula um pensame nto nacional associado produzido por mentes cativas. A nação ativa aparece como fluida. se está chamado de nação ativa seria. Daí a produção sem contrapartida de desequilíbrios e distorções estrut is. tem seu modelo conduzido pelas burgu esias internacionais e pelas burguesias nacionais associadas. A l i e n a ç ã o d a n a ç ã o a t i v a Tomemos o caso do Brasil. enquanto a nação passiva seria formada por tudo ou mais. a grande ironia é que passa a considerar como nação a tiva aquela que obeece cegamente ao desígnio globalitário. de fato. cabe lembra que velocidade não é dinamismo. a nação passiva. Uma nação passiva e uma ativa. enquanto o resto acaba por costituir. aquela que comparece eficazmente na contabilidade nacional e na contablilidade internacional. É mais que uma simples metáfora pensar que uma das formas de abordagem da questão seria considerar. pregam e conduzem uma modernização que dá preeminência aos ajustes que interessam ao din heiro. Será ela dinâmica? C omo essa idéia é muito difundida. isto é. Serão mesmo adequadas essas expressões? Ou aquilo a que. 1998). a existência. os partidos políticos nacionais raramente apresentam plataformas conduzi das por objetivos políticos e sociais claros e que exprimam visões de conjunto (cesar Benjamin e outro s. pe las razões já expostas. as noções de destino nacional e de projeto nacional cedem freqüentemente a frente da cena a preocupações menores. a nação ativa seria a daqueles qu e aceitam. imediatistas. a produção da conformidade. A idéia de história. enquanto a nação chamada passiv a seria. sentido.propria a cada nação e que leve em conta suas características e interesses. Esse movimento não é pró rio. a nação passiva. paralelamente. pragmáticas. na realidade. A fazer valer tais postulados. inclusive porque. dentro da nação. A nação chamada ativa a limenta sua ação com a prevalência de um sistema ideológico que define as idéias de prosperidade e de riqueza e. desse modo. Assim. a nação ativa? A chamada nação ativa. internamente desarticuladora. subvencionadas ou não. não tem finalidade . destino é amesquinhada em nome da obt enção de metas estatísticas. É verdade. mas atribuído. acarretando mais fragmentação e desigualdade. externamente articulada. v eloz. para ter eficácia local. que o seu discurso globa lizado. tanto mais graves quanto mais abertos e obedientes se mostrem os países. ele não é genuíno. tomado emprestado a um motor externo. Do fato de serem as contabilidades nacionais globalizadas e globalizantes! -. também. desse ponto de vista. na reali dade.

um projeto equivocado. O pensamento que define e compreende os seus atores é o d o intelectual 76 . C o n s c i e n t i z a ç ã o e r i q u e z a d a n a ç ã o p a s s i v a A nação chamada passiva é constituída pela grossa maior parte da população e da economia.desprovido de tecnologia. aqueles que apenas participam de modo residual do mercado global ou cu jas atividades conseguem sobreviver à sua margem. todavia. sem. Trata-se de uma agitação cega. um d inamismo do diabo. entrar cabalmente na contabilidad e pública ou nas estatísticas oficiais.

Num primeiro momento. A nação passiva é estaticamente lenta. Aqui. que também constitui um alicerce. num se gundo momento. Mas. além de ser dotada d e um dinamismo próprio. Essa nação passiva mora. o império dos interesses imediatos que se manifes tam no exercício praguimático da vida contribui. é considerado a nação passiva. Daí. já no presente. enquanto o que. o papel dos intelectuais será. As atividades dessa nação passiva são freqüentemente marcadas pela contradição entre a exigência prática da conformidade. ali onde vive e evolui. daí o encontro cotidiano de uma situação de inferiorização. o que reforça em seus participantes a noção de escassez e convoca a reinterpretação da própria sit uação individual diante do lugar. isto é. endógena.público engajado na defesa dos interesses da maioria. a necessidade de participar direta ou ind iretamente da racionalidade dominante. na verdade. para tal desarticulação. utilizando os lugares como mais um recurso a seu serviço. localmente enraizada e orgânica. talvez. torna possível a produção de um projeto. e a insatisfação e inconformismo dos atores diante de resul tados sempre limitados. Sua emergência será tanto mais viável. u ma cultura própria. enquanto a outra apenas circula. a verdadeira nação ativa. coloda às rugosidades do seu meio geográfico. mediante o jogo de espelhos da globalização. resistente. cuja a viabilidade pro vém do fato de que a nação chamada passiva é formada pela maior parte da população. desarticulada pela nação ativa . a nação passiva não pode alcançar um projeto conjunto. a tomada de coinsciência trazida pelo seu enraizamento no meio e. contitui. mas sobretudo n a ótica do futuro. nas atuais circunstâncias -. autêntico. tornada permanente. sobretu do pela sua experiência de escassez. p lo mesmo parâmetros. tanto à so . muito mais do que promover um simples combate às formas de ser da nação ativa -tarefa importante mas insuficiente. uma base sólida para a produção de uma política. Aliás. sua veracidade e riqueza. do país e do mundo. rápida e eficaz se se reconhecem e revelam a confluência dos modos de existência e de trabalho dos respect ivos atores e aprofunda unidade do seu destino. relações cotidianas que criam. Podemos desse modo admitir que aquilo que. fundado em sua própria existência. Tal visão renovada da realidade con traditória de cada fração do território deve ser oferecida à reflexão da sociedade em geral. espontaneamente e à contracorrente. ainda se chama de nação ativa é. dentro do todo n acional. a vida sistêmica da nação passiva e suas manifestações de resitências a uma conquista indiscriminad a e totalitária do espaço social pela chamada nação ativa. a nação passiva. sem dúvida. devendo empenhar-se por mostrar analiticamente. mas sem outro compromiss o. É também a nação que mantém relações de simbiose com o entorno imediato.

muito mais. sindicatos. vem acompanhada de uma forte ideologização. 77 . igrejas. recentemente alcançada. o resultado de uma ideologia restritiva adrede estabelecida. têm como base contruções intelectuais frabricadas ant es mesmo da fabricação das coisas e das decisões de agir. A intelectualização da vida social. 2 9 . oriundas de ações hegemônicas. Já vimos que to das as realizações atuais. que encontrarão nessa nova interpretação os elementos necessários para a postulação e o exercício de uma outra política. mas condizente com a busca do interesse social. partidos como à sociedade desorganiza da. A globalização atual não é irreversível A globalização atual é muito menos um produto das idéias atualmente possíveis e.ciedade organizada nas associações.

o conjunto de formas particulares de realização de apenas certo número dessas possibilidades. ou examinado isoladamente. ali. O mundo datado de hoje deve ser enxergado como o que na ver dade ele nos traz. Isso também tem a ver com a força com a qual o fenômeno se revela e instala em todos os lugares e em todas as esferas da vida.A d i s s o l u ç ã o d a s i d e o l o g i a Todavia. um mundo verdadeiro se definirá a partir da lista completa de possibilidades presente s em certa data e que incluem não só o que já existe sobre a face da terra. mas não são verdades eternas. situações como a que agora defrontamos parecem definitivas. mas é empiricamente factível. para agravar essa sensação de que agora não há outro futuro senão aquele que nos virá como um presente ampliado e não como outra coisa. O mundo definido pela literatura oficial do pensamento único é. juntos. visto pelas lentes do sistema econômico a que deu origem. em toda parte). outros elementos d a ideologia do pensamento único perdem força. ali. mas pelo que pode efetivam ente existir (aqui. Além das múltiplas formas com que. o conjunto presente de possibilidades reais. até mesmo uma densa camada de intelectuais. a partir de sua contestação. em toda parte). No entanto. o discurso da globalização serve de alicerce às ações hegemônicas dos Estados. concretas. ainda não realizadas. aparece menos aceitável e. devemos considerar que o mund o é formado não apenas pelo que já existe (aqui. O próprio credo financeiro. isto é. essa visão repetitiva do mundo confunde o que já foi realizado com as perspectivas de realização. o papel da ideologia na produção das coisas e o papel ideológico dos o bjetos que nos rodeiam contribuem. contaminando os jovens e. somente. No ent anto. levando a pensar que não há alter nativas para o presente estado de coisas. no período histórico atual. Por isso. o que agora estamos assistindo em toda a parte é uma tendência à dissolução dessas ideologias no confronto com a experiência vivida dos povos e dos indivíduos. das empressas e das institu ições internacionais. somente. em cada país. É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a forma atuais da globalização seriam irreverssíveis. A p e r t i n ê n c i a d a u t o p i a . todas fac tíveis sob determinadas condições. Para exorcizar esse risco. Daí a pesada ond a de conformismo e inação que caracteriza nosso tempo. como também o que ainda não exis te. Tais possibilidades. já estão presentes co mo tendência ou como promessa de realização.

fundadores do homem. que se torna possivél retornar. é lícito dizer que o futuro são muitos. surgem os valores contingentes. essenc iais. A densidade e a factibilidade histórica do projeto. dependem da maneira como empreendamos sua combinação. de outro lado. devidos à história do presente. Por isso. de maneira concreta. e resultarão de arranjos diferentes. válidos em qualquer tempo e lugar. à historia atual. a idéia de utopia e de projeto. De um lado. Este s erá o resultado da conjugação de dois tipos de valores. estão os valores fundamentais. a dignid ade. como a liberdade. fundada na história real do nosso tempo.É somente a partir dessa constatação. 78 . isto é. hoje. a felicida.

as formas p resentes de existência e as perspectivas das pessoas. a politização generaliz permitida pelo exesso de normas ( María Laura Silveira. A identificação das etapas e os ajustamentos a empreender durante o caminho dependerão da necessária clareza do proj eto. cuja a acessibilidade se torna. ao mesmo tempo que até os consumos tradicionais acabam sendo difíceis ou impossíveis para uma parcela impor tante da população. o peso da ideologia nas contruções históricas atuai . improvável. ao circuito superior da economia. permitindo contrariar a fo rça das estruturas dominantes. desse modo. sejam elas presentes ou herdadas. à media que.segundo nosso grau de coinsciência. dentro de um mundo de coisas e serviços abundantes. uma região. desde já. em vista de que as soluções até a qual o único dinamismo possível é o da grande economia. Esse é um dado relevante p ara compreender a mudança na visibilidade da história que está processando. entre o reino das possibilidades e da vontade. atinge cada vez mais as classes médias. também. os esforços para restabelecer o emprego dirigem-s e. cuja definição. essa evolução pode parecer impossível. a expansão de desemprego e a baixa do salário médio constituem um contraste em relação à multiplicação d s objetos e serviços. Mas esse não é o único cami . que um dos elementos. Fim de sécu lo e modernidades na Argentina. o empobrecimento relativo e absoluto das populações e a perda de qualidade de vida das classes médias. o grau de relativa docilidade das técnicas contemporâneas. Conforme já mencionamos. com a qual muito têm a ver a vida de todos os dias e suas repercussões a produção. a vocação para uma urbanização concentrada. De tal modo. 1999). c omo também já vimos. Essa recriação da necessidade. ao mesmo tempo ideológico e empiricamente existencial. às visões oferecidas pela propaganda ostensiva ou pela ideologia contida nos objetos e nos discursos opõemse as visões propociadas pela existência. quando não exclusivamente. alguns dados do presente nos abrem. da presente forma de globalização é a centralidade do consu mo. Um país. É por meio desse conjunto de movimentos. É como se o feitiço virasse contra o feiticeiro. passam a conhecer a experiência da escassez. entre outros: a tendência à mistura generalizada entre povos. que se reconhece uma saturação dos símbolos pré-construídos e que os limites da tolerância às ideolo ias são ultrapassados. se renova. Lembramos. com base nos reclamos do sistema financeiro. e a realização possivél do homem com a grande mutação qu e desponta. Mas as atuais relações instáveis de trabalho. Nas condições atuais. o que permite a ampliação do campo da consciência. a perspectiva de um futuro diferente. agora. Por exemplo. É assim que iniciativas serão articuladas e obstáculos serão superados. sobretudo.

Santos. 1978). tudo é p olítica. graças às técnicas ultilizadas no período contemporâneo e ao papel centralizador dos agent es hegemônicos. levando em conta uma divisão do trabalho vinda de baixo . acabamos por viver uma pol itização generalizada. por con seguinte. segundo a orientação político-ideológica dos responsávei s. A rapidez dos processos conduz a uma rapidez nas mudanças e. Por outro lado. Neste fim do século XX. E. mas que agora também se verific a no mundo chamado desenvolvido. Isso se dá nos diver sos níves da vida social. Oespaçodividido. aprofunda a necessidade de produção de novos entes organizadores. torna-se ubíqua a presença de processos distorcidos e ex igentes 79 .nho e outros remédios podem ser buscados. na medida em que as técnicas cada vez mais se dão como normas e a vida se desenrola no interior de um oceano de técnicas. Nada de relevante é feito sem normas. que são planetários. fenômeno típico dos países subdesenvolvidos (M.

direcionado.de reordenamento. seguindo-se a massividade e a concentração dos capitais e do próprio sistema técnico. As técnicas conteporâneas são mais fáceis de inventar. atinge. levando a um uso limitado. também. Não é r aro que as regras estabelecidas pelas empresas afetem mais que as regras criadas pelo Es tado. a materialidade simbolizada pelo computador é capaz não só de assegurar a liberação da inventividade como torná-la efetiva. mas também ao conflito entre elas. assim. da inteligência e da criatividade. As denecessi dade. O investimento necessário pode ser fragmentado e torna-se possível sua adptação aos mais diversos meios. superando as clivagens socioeconômicas preexistentes. incluin do o papel cada vez mais dominante das normas privadas na produção da esfera pública. abrangendo praticamente a totalidade das ações. o risco de que distorções e desequilíbrios sejam agravado E a idéia de distância cultural. de adotar universalmente c omputadores de última geração afastará. . A materialidade que o mundo da globalização está recriando permite um uso radicalmente d iferente daquele que era o da base material da industrialização e do imperialismo. Pode-se até falar da emergência de um artes anato de novo tipo. do Homem. também. pela sua própria natureza. Dir-se-á. servido por velozes instrumentos de produção e de distribuição. Sob condições políticas favoráveis. Daí a inflexibilidade física e moral das operações. O u t r o s u s o s p o s s í v e i s p a r a a s t é c n i c a s a t u a i s Os sistemas técnicos de que se valem os atuais atores hegemônicos estão sendo ultilizados para reduzir o escopo da vida humana sobre o planeta. A técnica das máquinas exigia investimentos maciços. Assistimos. símbolo dasd técnicas da informação. reclama capitais fixos relativamente pequenos. abrem possibilidades para sua disseminação no corpo social. logo. que o computador reduz tendencialmente o efeito da pretensa lei segundo a qual a inovação técnica conduz paralelamente a uma concentração econômica. nas sociedades complexas e socioeconomicamente desiguais. No entanto. Já o computador. mas levando os que não sucumbem inteiramente ao seu império à busca da consciência quant o ao destino do Planeta e. produzindo uma atmosfera de insegurança e até mesmo de medo. Por isso a política aparece como um dado indispensável e onipresen te. enqu anto seu uso é mais exigente de inteligência. então. ao império das normas. imitar ou reproduzir que os modos de fazer que as precederam. Tudo isso atinge e desnorteia os indivíduos. seu limite. ja mais houve na história sistemas tão propícios a facilitar a vida e a proporcionar a felicidade dos h omens. subjacente à teora e à prática do imperialismo. Os novo s instrumentos.

80 . a técnica pode voltar a ser o resultado do encontro do engenho humano com um pedaço determinado da natureza ca da vez mais modificada -. aliás. de modo a assegurar a restauração do homem em sua essência. com a retomada da cr iatividade. sobretudo oferecem a possibilidade de superação do imperativo da tecnologi a hegemônica e paralelamente admitem a proliferação novos arranjos. a produção do novo e o uso e a difusão do novo deixam de ser monopoli zados por um capital cada vez mais concentrado para pertencer ao domínio do maior número. permitindo que essa relação seja fundada nas virtualidades do ent orno geográfico e social. Desse modo. já está se dando nas áreas da sociedade em que a divisão do trabalho se produ z de baixo para cima. Isso.As famílias de técnicas emegentes com o fim do século XX combinando informática e eletrônica. poss ibilitando afinal a emergência de um verdadeiro mundo da inteligência. Aqui.

raças. levando. Se a realização da história. inspirar soluções que conduzam ao desejado e hoje possível renascimento da técnica. o indivíduo refortificado pode. Por outr o lado. graças. igualmente. A partir desses efeitos de vizinhaça. com o fenômeno de urbanização concentrada. as aglomerações populacionais serão valorizadas como o lugar da densidade humana e. típic do último quartel do século XX. gostos etc. A primeira supõe uma visão limitada e unidirecionada. poderão. em todos os países. paralelamente. é ainda dominante. junto ao desemprego crescente e à depressão dos salários. o uso consciente e imaginativo. quando as metamorfoses do trabalho informal serão vivid as também como expansão do trabalho livre. mostram aspectos que poderão se mostrar positivos em futuro próximo. Dessa maneira. que se observarão a renascença e o peso da cultura popular. em cada lugar. o grau de docilidade das técnicas contemporâneas. ao contrário do período histórico anterior . do desamparo a que as pop ulações são relegadas. que se apresentam mais propícias à liberação do esf ao exercício da individualidade e à floração e multiplicação das demandas sociais e individu ais. torna-se possível a identificação. de p articipar plenamente da ofertas materiais da modernidade. a precariedade e a pobreza. o lugar de uma coabitação dinâmica. v isto pela mesma ótica. Para isso contribuirá o fato histórico concreto que é. enquanto a segunda inclui a elaboração de visões ab rangentesl e sistêmicas. a partir dos vetores de cima . a impossibilidade. assegurando a seus portadores novas possibilidade . na vida material como na ordem intelectual. de todo tipo de oferta tecnológica e de toda modalidad e de trabalho. a realização de uma outra história a partir dos vetores de baixo é tornada possiivel. A aglomeração da pessoas em espaços reduzidos. todavi a. a um maior reconhecimento da condição de escassez e a novas possibilidades de ampliação da consciência. isto é. num segundo momento. Na cidade sobretudo na grande cidade -. o que é perseguido é a reconstrução das condições materiais e jurídicas que permitem fortalecer o bem-estar individual (ou familiar) sem. os efeitos de vizinhaça parecem impor uma posibilida de maior de identificação das situações. também. mostrar preocupação com o fortalecimento da individualidade. culturas. a mistura de povos. por isso. isto é. Será também aí. à melhoria da informação disponível e ao aprofundamento das possibilidades de comunicação. e as próprias mutações nas relações de trabalho. ultrapassar sua busca pelo consumo e entregar-se à busca da cidadania. enquanto a busca da cidadania a pontará para a reforma das práticas e das instituições políticas.G e o g r a f i a e a c e l e r a ç ã o d a h i s t ó r i a A própria geografia parece contribuir para que a história se acelere. E para isso contribuirão. Frente a essa nova realidade. religiões. No primeiro caso. pela carência de recursos.

sociais e políticos produzidos de baixo para cima possam desenvolver-se eficazment e. cultura). no mundo e no lugar . As condições atuais permitem igualmente antever uma reconversão da mídia sob a pressão das situações locais (produção. uma informação veraz poderá dar-se dentro da maioria da população e ao serviço de uma comunicação 81 . deixa rá de representar o senso comum imposto pelo pensamento único. consumo. as pessoas. A mídia trabalha com que ela própr a transforma em objeto de mercado. Nesse caso. Como em nenhum lugar as comun idades são formadas por pessoas homogêneas. isto é. a mídia deve levar isso em conta.s de interpretação do mundo. do lugar e da respectiva posição de cada um. Desde que os processos ec onômicos.

isto é. um papel diametralmente oposto ao que lhe é hoje conferido no sistema da mídia. por intermédio dos mitos. nem segundo os lugares. ainda que possa parecer ao seu portador um caminho penoso. ou seja. à medida das re sistências circundantes a esse novo modo de pensar. mostrando sua interdependência. a possibilidade de enxergar as situações e as causas atuantes como conjuntos e de localizá-los como um todo. além disso. de c rítica e de proposição.imaginosa e emocionada. tudo aquilo em que ainda não nos tornamos. mas também a fraqueza da respectiva construção. e a possibilidade de ultrapassar o reino da necessidade. com a produção indígena de imagens. tudo aqui lo que a nós mesmos nos projetamos como seres humanos. essa nova maneira de en xergar a globalização permitirá distinguir. junto à elaboração de um novo ethos e de novas ideologias e novas crenças políticas. na totalidade. um considerável passo à frente. das escolhas. põe à mostra não apenas a perversidade. filoso fias. nem segundo as classes sociais ou situações profissionais. Nas condições históricas do presente. tanto quanto a profundidade e coerência dessa apropriação. pode-se pensar na produção local de um entendimento progressivo do mundo e do lugar. A partir daí. amparadas n a ressurreição da idéia e da prática da solidariedade. Isso. aquilo que já é dado e existe como um fa to consumado. já está levando ao descrédito dos discursos dominantes. já. conform e vimos. Lembremo-nos da lição de A. mesmo que outro discurso. O processo de tomada de consciência já o vimos não é homogêneo. 1971) quando diz ia que a realidade é. assim. atribuindo-se. O passo seguinte é a obtenção de uma visão sistêm ica. a discussão silenciosa con sigo mesmo e . até agora comandadas pel a ideologia dominante. das decisões e das lutas . e aquilo que é possível. nem quanto aos i ndivíduos. Schmidt (The concept of nature in Marx. ab rindo lugar para a utopia e para a esperança. A crise por que passa hoje o sistema. A descoberta individual é. A dialética entre essa univer salidade empírica e as particularidades encorajará a superação das práxis invertidas. em diferentes países e continentes. O mundo de hoje também autoriza uma outra percepção da história por meio da contemplação da universalidade empírica constituída com a emergência das novas técnicas planetarizadas e as possibilidades aberta a seu uso. vistos um e outro de form a unitária. U m n o v o m u n d o p o s s í v e l A partir dessas metamorfoses. discursos. A velocidade com que cada pessoa se apropria da verdade contida na história é diferent e. ainda não haja sido elaborado de modo sistêmico. mas ainda não realizado.

cada pessoa. É a partir dessa visão sistêmica que se encontram. jun com uma nova apreciação de nosso próprio papel como pessoa. o que inclui u ma apreciação filosófica da nossa própria situação frente à comunidade. É desse modo que. em que cada situação se inclui numa rede dinâmica. à nação. poderemos alcançar a idéia de homem integral e de 82 . mas também cada coisa . interpenetram e completam as noções de mundo e de lugar. até mesmo a partir da noção do que é ser um consumidor. ao planeta. cada relação dependem do mundo. permitindo enxergar as relações de causa e efeito como uma corrente contínua. à escala do mundo e à escala dos lugares. Tais raciocínios autorizam uma visão crítica da história na qual vivemos.o debate mais ou menos público com os demais ganham uma nova clareza e densidade. permitindo entender como cada lugar. estruturada.

países. Mas isto não é definitivo. A h u m a n i d a d e c o m o u m b l o c o r e v o l u c i o n á r i o O ecúmeno era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta. graças à força com a qual a ideologia p enetra objetos e ações. Nos últimos cinqüenta anos criaram-se mais coisas do que nos cinqüenta mil p recedentes. A evolução que estamos entrevendo terá sua aceleração em momentos diferentes e em países diferentes. continentais. social e político. ainda que as condições sejam diversas segundo continentes. valo rizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história. Chegava-se a dizer de tal ou tal po vo que ele era sem história ... marcado na ordem material pela multiplicação incessante do número de objetos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que a os objetos nos unem. As histórias podiam ser. países. A reconstrução vertical do mundo. que. considerados bárbaros ou irrelevantes. Por isso mesmo.cidadão. assegure uma reforma do mundo. ela apenas começa. a história não acabou. lugares. passando da escala do lugar à escala do pla neta. tal como a atual globalização perversa está realizando. servindo de alicerce a uma nova civilização. O q ue até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros. graças à interdependências das economias. conduza à realização de uma vida coletiva solidária e. como a que estamos hoje assistindo e deplorando. mais do que qualquer outra antes . Antes o que havia era uma história de lugares. Essa valorização radical do indivíduo contribuirá para a renovação qualitativa da es ie humana. quando faz sua entrada na cena histórica como um bloco. Vivemos em um mundo complexo. e será permitida pelo amadurec imento da crise. A história apenas começa Ao contrário do que tanto se disse. ao mesmo tempo e rapidamente. a partir de uma nova distribuição dos bens e serviços. a era da globalização. Somente agora a humanidade pode identificar-se como um todo e reconhece r sua unidade. dos lugares. O movimento do mundo r evela uma só pulsação. 3 0 . pretende impor a todos os países normas comuns de existência e. mas uma edificação cuja trajetória vai se dar de baixo para cima. por intermédio de outra maneira de realizar a globa lização. regiões. Esse mundo novo anunciado não será uma construção de cima para baixo. É uma entrada revolucionária. em função dos impérios que se estabeleceram a uma escala mais ampla. no máximo . As condições acima enumeradas deverão permitir a implantação de um novo modelo econômico. Nosso mundo é complexo e confuso ao mesmo tempo. se possíve l. dos governos.

que une e norteia os objetos técnicos. Juntas. natural ou artificial. de modo a permitir que cada coisa.dela. elas autorizam uma leitur a. é exigente de uma interpretação sistêmica cuidadosa. A grande sorte dos que desejam pensar a nossa época é a existência de uma técnica globalizada. Essa totalidade-mundo se manifesta pela unidade das técnicas e das ações. e de uma políti ca planetariamente exercida. direta ou indiretamente presente em todos os lugares. seja redefinida em relação com o todo planetário. ao mesmo tempo 83 .

pelo que podem oferecer. m esmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual.geral e específica. Por isso. tanto pelas realiz ações atuais como pelas perspectivas de futuro. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural. tudo o que existe constitui uma perspectiva de valor. logo depois. o resto da humanidade. ou lhe atribui valor e sentido. o u so do entorno imediato pode ser menos aleatório. aliás. Pensamos ousadamente as soluções mais fantasiosas e em seguida busc amos os instrumentos adequados à sua realização. filosófica e prática. pela experiência própria e pela do vizinho. o mundo fica mais perto de cada um. É isso. desde que se possam combinar adequadamente técnica e política. Nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo. isto é. vind a de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas. de fato. isto é. por meio de suas ações já realizadas. para todos. são paralelamente o caldo de cultura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política . Os gestos valem pela adequação às coisas a que se dirigem. o que. representado pelo lucro à escala global. de cada ponto da Terra. se cria é omundocomo realidade histórica unitária. O outro. ainda que ele seja extremamente divers ificado. Todo s os lugares fazem parte da história. Ele é datado com uma data substantivamente única. Para sermos ainda mais precisos. Ampliam-se e diversificam-se as escolhas. não importa onde esteja. Aumentam a previsibilidade e a eficácia das ações. a consciência de ser mundo e de estar no mundo. afinal . Na era da ecologia triunfante. Funda-se. assegurará a cada lugar a com . agora mais enriqu ecidas. pela presença maciça de uma humanidade misturada. Criam-se. A denominação de era da inteligência poderia ter fundamento neste fato concreto: os materiais hoje responsáv eis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados e não mais matériasprimas naturais. o coti diano de cada um se enriquece. a certeza e. junto a informação generalizada. é o homem quem f abrica a natureza. parece estar próximo. o homem pouco a pouco descobre suas novas forças. As pretensões e a cobiça povoam e valorizam territórios desertos. As dialéticas da vida nos lugares. que ao mesmo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim. graças aos traços comuns de sua constituição téc nica e à existência de um único motor para as ações hegemônicas. que. As coisas valem pela sua constituição. O próprio mundo se instala nos lugares. em cur so ou meramente imaginadas. A n o v a c o n s c i ê n c i a d e s e r m u n d o Graças aos progressos fulminantes da informação. Um dado importante de nossa época é a coincidência entre a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza. sobretudo as grandes cidades. um novo mundo.

Aqui. desse modo. cujas mudanças são marcadas pela irrupção de novos objetos. cada geração encontra disponível. Como o relógio. a folhinha e o ca lendário são convencionais. o que. materiais e intelectuais. O que conta mesmo é o tempo da s possibilidades efetivamente criadas. pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas. para superar o endeusamento do dinhei ro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. não se trata de estabelecer datas. à sua época. nem de fixar momentos da folhinha.unhão universal com todos os outros. marcos num calendário. Ousamos. repetitivos e historicamente vazios. de novas ações e relações e de novas idéias. 84 . isso a que cha mamos tempo empírico.

po rque aderem ao território e ao cotidiano. quando sua utilização for democratizada. também hoje presentes. 85 . A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação. que conduziriam a uma mutação do homem biológico. Mas. flexívei quais ao contrário das técnicas das máquinas dóceis. começando. finalmente. do planeta. De um ponto de vista existencial. elas podem obter u m outro uso e uma outra significação. Pouco. mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveita das pela política. também. atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso. adaptáveis a todos os meios e culturas. A globalização atual não é irreversível. essas técnicas doces estarão ao serviço do homem. como disponibilidade e como possibilidade. acredita mos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação. unicamente corpórea. Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana. se fala das condições.A g r a n d e m u t a ç ã o c o n t e m p o r â n e a Diante do que é o mundo atual. A mesma materialidade. capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pe ssoa e. Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética. ainda que seu uso perverso atual seja subo rdinado aos interesses dos grandes capitais. Na sua forma material. as são constitucionalmente divisíveis. pode-se dize r que uma história universal verdadeiramente humana está. no entanto. pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. que podem a ssegurar uma mutação filosófica do homem. algo que ainda é do domínio da história da ciên ia e da técnica. as técnicas talvez sejam irreversíveis.