You are on page 1of 263

Para Álvaro Pacheco Joaquim Campelo Napoleão Sabóia Pedro Paulo de Sena Madureira da família dos ultraboasgentes

.

Ouro debaixo da rede. Os calores de Caiena. 91 13. Um preço a pagar. 109 16. 105 15. 13 2. 61 9. Saraminda. 21 3. Uma bola de safira. 67 10.Sumário O cenário. 27 4. 51 7. Um riacho amarelo. Um vestido de noiva. O feitiço de uma noite. 97 14. Os dias em que o céu era vento. 57 8. 79 12. 37 5. Um amor em viagem. A navalha de ouro. 75 11. La couleur. Uma viagem no Gazelle. 11 1. 45 6. Um pensamento fugindo. Os relógios que não andam. 115 . Uma lenda de sangue.

211 30. Os amores pelos cachorros. A morte que não chega. 247 . Os presentes chegaram. 221 33. Noite de Saraminda. 217 32.17. 179 24. Um bretão na gaiola. 189 26. A prisão dos sonhos. 143 20. Um bilhete de letra redonda. Uma paixão que voltou. Uma luz no cais do Havre. A noite das decisões. 203 28. Um velho ourives. 243 Tábua de Personagens. 213 31. A procissão do morto. 167 23. 207 29. 159 22. Um francês da Bretanha. 153 21. O garimpo morto. 241 36. 185 25. 199 27. O sudário. A decisão na viagem. 237 35. Uma visita de amiga. 127 18. A dama de espada. 133 19. Os inimigos chegaram. As luzes do Havre. 229 34.

mergulhado na escrita de sua Suma teológica.’ Ele levantou-se e foi à janela ver. ouviu um frade chegar à janela e dizer: ‘Olha..” PATRICE MOUREAU-LASCAUX “Santo Tomás.” ANTONIO ALÇADA BATISTA ..“La Guyane est une terre où la passion est souvent presente. um boi a voar.

.

ou para o Atlântico. de grandes e encachoeirados rios. hoje Estado do Amapá. aventureiros. até o fim do século XIX. É uma região de imensas florestas. heróis e vagabundos correm para a região: franceses créoles de Caiena e brasileiros do Pará e Maranhão. desbravadores. de violência e paixões. desconhecida. que reconheceu o direito brasi leiro. mítica. a leste. na direção do Amazonas. disputavam o território entre os rios Oiapoque e Araguari. Foi nesse mundo e nessa época de magia. que viveu Saraminda. A questão foi resolvida pela arbitragem da Suíça. de 1713. entre a realidade e a fabulação.O Cenario O Brasil e a França. embusteiros. Abre-se na solidão daqueles vazios uma fronteira sangrenta. Depois da descoberta das minas de ouro. mulheres. aventura e riqueza. que correm para o sul. onde se luta por ter ritório. que estabelecia os limites da América portuguesa. no vale do lendário rio Calçoene. interpretando o Tratado de Iltrech. .

.

.

E junto ao mar. o presídio sopra no silêncio um murmúrio negro. . em masmorras. As ruas são sinuosas. São destinos que se consomem entre o rancor e a solidão. Uma brisa leve. ao lado da Ponta das Amendoeiras. que canalizou as nascentes do lago Rorota. sons de sofrimento e morte. Tudo cheira a decadência e dor. sem traçado. onde os pretos vão buscar alimento. tem casas de tábuas cobertas de palha. no meio da praça. A cidade. vinda de Paris. Em frente. lembra Tardy de Montravel. que vem dos cárceres. Vivem do extrativismo e das poucas indústrias dos alambiques de rum. As histórias que se contam são de condenados ou de assombrações nas matas. com poças de água estagnada. Silenciosos adormecem os edifícios símbolos do poder da metrópole francesa: a Alfândega e o Palácio dos Governadores. sopra na boca do Canal Laussat.1 La couleur∗ Caiena é triste. aberta como uma flor minando águas. pequena e abandonada. uma fonte de ferro. ferros. quase imperceptível. madeira e zinco. O casarão da Oficina dos Mineiros Guianenses e do Serviço das Minas está abandonado e as águas que batem no monótono  Termo com que se designa o ouro na Guiana Francesa. febres e torturas. mosquitos e vermes fermentando o lixo que se espalha por toda parte.

descendentes de escravos da Martinica e de Guadalupe. A Guiana vegeta na miséria da canela e paus-de-tinta. estão com as tintas desbotadas. Tudo é sombrio. Naquele mundo de silêncio. tocaia dos piratas que cruzavam o mar das Antilhas e ali se escondiam. Não escapavam também da pilhagem os galeões 15 . foram sendo esquecidas. Nem boatos e sonhos de novas riquezas minerais circulam na cidade tonteada pelo desânimo. O ouro desapareceu. A escuridão que cobre as ruas esconde o desencanto. após a guerra de 1870. as fechaduras enferrujadas. quando se acharam rios com leitos de areias amarelas. Sumiram as calçadas onde as mulheres circulavam. são acenos frágeis da colonização agrícola e da nova política indígena. os negros da floresta. Ninguém lembra a velha Guiana. que era só o ouro desde sua descoberta. saramacas. A noite não consegue esconder o desmoronar da vida. em 1854? Os tempos bons estão distantes e a lembrança deles remanesce apenas nos relatos contados da euforia das descobertas. Não há noites de alegria. cheio de melancolia e saudade. onde o velho Louis. caindo e quebrando como cerca velha. um som solitário e renitente. fechados há tanto tempo.rebojo das marés vão derrubando seus muros. que mandavam os despojos para terras de Espanha. As esperanças quase não existem e os únicos alentos. As portas dos velhos bares. salvo de um navio que naufragou na barra. Mesmo as lembranças sobre os enfrentamentos da descoberta e da conquista. época de invasões. onde o reino nadava em riquezas e Deus recebia sua quota nas talhas douradas dos altares da Catedral de Sevilha. Os aventureiros que fizeram a glória da colônia emigraram para fugir dos tempos. sempre difusos. ou vindos dos quilombos do Maroni: bonis. de cauda rachada. ou do fantástico espoucar dos preços do ouro. assaltando caravelas bojadas de ouro. num piano de cordas partidas. vem do Chez Martin. Restam os pretos. E a Guiana. cobre e prata saqueados dos impérios destruídos por Cortês e Pizarro. toca uma antiga canção da Bretanha. sítios e saques.

O corpo musculoso dava-lhe uma imagem de solidez. holandeses que nos porões traziam escravos chineses. Eram também ingleses. a mãe e o padrasto. Clément Tamba era um deles. nariz anguloso. finalmente. Sempre se envolveu com negócios de franceses. vendia cocadas de mel de cana em pregões de rua e. mandingas. gatos-do-mato e papagaios. tinha os cabelos repartidos de lado. rosto largo. Saint-Malo e Cancale. roupas cuidadas. Inglaterra e Portugal. acumulou algum dinheiro. mais adiante de tecidos e. Crescera na miséria de um casebre de tábuas. resistiu e domesticou a todos. peito saliente como se estivesse sempre com os pulmões cheios. ao Palácio do Governo e às autoridades coloniais. fornecendo vinhos e carnes de caça ao presídio. olhos perdidos longe. Todas as vezes que algum freguês europeu visitava sua loja. a descrição das luzes de gás. sabendo que algum dia se jogaria na aventura da riqueza. lábios finos. esticados com brilhantina. E ficava ouvindo. Era alto. peles de onças. mãos alongadas. pedia: “Conte-me histórias de Paris”. 16 . Os corsários dos mares quentes buscavam Caiena e lá mantinham feitorias. Moreno. dos cabriolés. junto com as irmãs. onde nunca estive”. começou a vida de biscateiro. Menino. Mas Clément Tamba sofria da cobiça do ouro. abriu uma futrica de frutas. Vestia-se limpo. das mulheres de perfume e de viajar. Não eram só franceses de Dieppe. loja de mercadorias sortidas que incluíam produtos comprados na França. “Tenho saudades das avenidas de Paris. Toda essa gente deixou marcas que se misturaram ao forte sangue negro que dominou. adquiridos dos flibusteiros que freqüentavam e negociavam desde as costas do Orinoco até o Amazonas. e seu semblante era triste. geges e congos para os engenhos nascentes para o trabalho braçal de todas as serventias. costumava pensar na evocação do seu pai bretão perdido para sempre. ombros fortes. bantos. jovem. madeiras de tintas. pele lisa. olhos pequenos.portugueses carregados de açúcar do Brasil. depois de aguardente.

preta escrava do Daomé. princesa de um reino vencido e vendida aos mercadores que freqüentavam o Forte de São Jorge. fugiu. Em Caiena. Seus antigos estavam na memória do sofrimento da imigração africana. Clément Tamba viveu a infância entre as lágrimas da mãe e as desordens do pai. punido. francês desregrado e bruto. judeu sefardim. por mau comportamento. Possidônia Biarritz. em Paris. Depois se entregou à polícia. enforcoua com uma corda feita de um lençol de rendas encharcado de lavanda. C Cadê meu pai. na Costa da Mina na África. Augustin Ruppert. bailarina de cancã.dos espetáculos de cancã e das mulheres que apanhavam fregueses na Rue Saint-Denis. judia preta que acabou sua flor de menina num romance de violências. no mercado Les Halles. Um dia. Edith Mourreau. Deus o faça morrer no mar C respondeu a mãe. tremendo de medo de suas brutalidades. 17 . que não chega mais bêbado pelas madrugadas? C Viajou para a França. jurando amor eterno à sua memória. que com ela se amasiou depois de perder todas as suas crenças religiosas e mergulhar nos desejos que o atormentavam na solidão dos vapores quentes do setentrião. ainda jovem. A história familiar remontava à tragédia dos navios negreiros. a servir nas colônias.  Língua e raça créole da Guiana Francesa. ouvindo os gritos dele na velhice da noite. foi embora atrás da mulher. René d'Orville. onde urinava pelas esquinas e gritava palavrões em créole∗. Até que um dia ele desapareceu. que tinha chegado para cumprir pena de vinte anos por ter matado a mulher. Dessa linha perdida vinha sua mãe. foi comprada por Jacob Biarritz. logo se casou com um egresso da prisão do Maroni. nas mãos de um soldado do Forte de Cépérou. afogado de ciúmes. na lembrança distante de uma avó. Possidônia Biarritz. Deu-se a beber e passava a noite cambaleando pela Rue du Port. um certo Augustin Ruppert.

Clément não acreditou. Falou de aventuras. mas de muitos garimpeiros e faiscadores da região. território disputado pelo Brasil e a França. do Carnot. se mostra e fica na cara da gente. situado num platô aurífero. As duas mais velhas foram para a Martinica e delas só restou. a notícia de Mazi. Firmino deu-lhe detalhes sobre a rota das cachoeiras que tinham de ser vencidas até as nascentes de riachos que vinham do monte Salomoganha. Revelou que o segredo não era somente seu. Os caminhos eram freqüentados por andantes misteriosos e estranhos que escondiam sua ambição sem revelar para onde iam. Olhei para a água limpa e ele brilhava no fundo. Eu sonhei com ele. foi um bom companheiro para Possidônia e com ela teve três filhas. do Cunani e do Caciporé. no Oiapoque. casada com um inglês plantador de cana que vivia em Marigot. C ClémentTamba. acostumado a tantos anúncios desses achados que jamais se confirmavam e que aumentavam os desenganos daqueles tempos. de velhos pioneiros farejadores. Para despertar a curiosidade de Tamba. Marie. Tem tanto ouro nas grotas que a gente está juntando com as mãos. ouro não se esconde. dormi na beira do córrego que deságua no rio Carnot e ele apareceu. Foi numa noite desses anos de solidão e decadência que a cabeça de Clément Tamba ficou transtornada quando viu brilhar uma luz de ouro no relato que lhe fez o brasileiro Firmino Amapá sobre descobertas nas cabeceiras do rio Calçoene. dos veios embrenhados na floresta que já estavam em mineração. Minhas ventas estavam inchadas de tanto farejar. e a notícia corria como fogo no campo.Calado e triste. que morreu cedo. alguns anos depois. encheu-se de 18 . mas todos sabiam que estavam na caça de nova estrada do ouro. Mazi e Marthe. desde as margens do Araguari até SaintGeorges. derramando ouro pelas bacias do Calçoene. de onde desciam córregos de águas douradas e de pepitas. na região do Contestado. perto das montanhas.

Clément Tamba sentiu que alguma coisa definitiva estava para lhe acontecer. então. e se dirigiram para o quarto de dormir. Firmino aumentou a sedução com um pedido: C Quero a confiança de entrar em sua casa. Quero saber sua revelação. princesas encantadas. C Firmino C disse Tamba. sua sorte está nas suas mãos. só nós dois trancados no seu quarto. Os dois passaram pela cancela que ficava no fim do balcão. começou a falar palavras dúbias que sugeriam coisas ocultas e perguntou-lhe. florestas de montanhas que brilhavam. cruzando o compartimento de trás. 19 . sem testemunhas. com sua palavra de guardar só para você o que vou lhe mostrar e que não mostrei a ninguém. C Não me tente falando dessas visões C Tamba pediu. Firmino. que dava para um corredor comprido. Vim a Caiena em busca de um companheiro. Ouro não gosta de solidão. Relembrou os sonhos indecifráveis que andava tendo de dragões dourados. Nem sei por que resolvi relatar estes mistérios. doulhe certeza de honra. Para arrancar ouro é preciso gente e recursos.suspicácia. cheio de curiosidade C . Firmino? C A lei de São Tomé. C Aqui estamos. olhou para um lado e para o outro. bem junto à parede. coisas de menino e de aventureiro. enquanto enrolava com cuspe seu cigarro de palha: C Você quer ver? C Ver o quê. C Feche a porta com chave. Firmino. como se não quisesse mais alargar revelações. podemos entrar. como se falasse num esconderijo. devagar. e caminharam por dentro da loja. mergulhou num longo silêncio e abriu o pensamento: C Clément Tamba. a voz baixa.

Os dois ficaram em pé. ambos do tamanho de um bolso de paletó. sem vacilações. 20 . precedida por um silêncio tático. brilhante como uma estrela. marca de uma casa sem mulher. Tamba não entendeu o que estava acontecendo e achou vulgar a figura que surgiu. devagar. ao lado de uma cama desarrumada. deixe-me vê-los de perto C mais uma vez pediu Tamba. uma peça de sola larga e dois compartimentos. junto à janela. Firmino trazia na cintura. veja bem. foi desdobrando a conversa. É coisa de ver. retirou e depositou a estranha cinta em cima da cama. Entregue-me. Firmino não teve pressa. e soletrou cada sílaba: C La couleur. Quero segurá-los nas mãos C e avançou. dependurados. Firmino? Fale o que tem a falar. Em seguida.Clément Tamba obedeceu. Firmino. nada de pegar. C Não. Num ritual cuidadoso e pausado. Olharam-se com um silêncio de indagação. Clément olhou. C E agora. um ao lado do outro. De dentro da peça sacou dois vidros transparentes. amarrada na barriga. os lábios encostados junto ao ouvido de Clément Tamba. e levantou-os em contraste com a claridade forte que entrava pela janela. com abas presas por colchetes. um em cada mão. C Sabe o que é? C retornou Firmino de pé. Calmo. olhe apenas. que é coisa de mistério revelado! C Entregue-me. Por cima da ceroula. desabotoou o cinto e tirou a calça. não é de tocar. cheios de uma areia amarelada. contemplou os dois objetos com mais atenção e fixou os olhos na luz amarela que foi crescendo. ofuscante como o sol. e tossiu seco antes de falar: C Esta é uma prova de grande confiança. veja C sacudiu os vidros e arrematou: C Veja de novo. desatou as duas fivelas. olhe apenas. Pegou-os. C Você sabe o que é isto? C Deixe-me ver. C Não.

para dentro de si mesmo. Estava vencido. onde as bateias não apuram menos de cem gramas. Isso teria de acontecer algum dia. mais baixo do que a voz que acabava de perder. suspensos. C É la couleur! É la couleur! C falou. É um novo Approuague∗! 20  O rio onde. Tinha os olhos vidrados de cobiça. e acrescentou: C Tem mesmo ouro do lado do Contestado do Brasil. como se fossem arrombar-lhe os tímpanos.Clément Tamba parou o olhar entre as mãos de Firmino. cheio de suores. Clément viu seu destino. Em algum momento de sua vida ia encontrar o caminho da aventura. C Onde você encontrou esse ouro? C Venha comigo C retrucou Firmino C que eu lhe mostro onde correm os rios de ouro. Os dois vidros ali. Aquelas palavras não entraram em seus ouvidos. tem ouro em todo lugar. 21 . ficaram zoando espetadas. em 1854. foi descoberto ouro na Guiana Francesa. as areias são amarelas. Clément Tamba foi invadido por um calor imenso.

C Clément. Os anos o haviam transformado. Abri a porta. eu estou só. secou. as chuvas de fevereiro. . junto com a noite e a brisa. o perfume do jasmim-estrela me lembra. as janelas estavam escancaradas e o cheiro de jasmim enchia aquela cama de alfombras. como nos anos em que sua beleza encantava os bailes de Caiena. aquelas árvores de verdes profundos. sumiu no tempo. perfume que invadia meu quarto. C Morreu também a luz dos meus olhos. quando eu lhe disse: “Lucy você está só. sempre de janelas abertas C disse Clément ao responder ao que Lucy lhe pedia. C É difícil recordar o pé de jasmim-estrela branco que brilhava como lua de agosto e cheirava. C Clément. o pé de jasmim-estrela já morreu. você continua bela. as poucas vezes em que visitei sua casa no garimpo. um esqueleto do garimpo de Calçoene. pedindo corpo de mulher. vir deitar no meu quarto perfumado. E convidei você a caminhar pelo corredor longo. não sei por quê. Foi esse cheiro que fez você me visitar. quando o viu trôpego a buscar o jarro de água. C Estamos velhos e despedaçados. Vamos esperar a morte juntos”. Lembra.2 A navalha de ouro Clément Tamba chegou solitário e delirante ao fim da vida. as tábuas cedendo aos nossos passos pesados.

nesse fim de tarde. Tudo morreu. Tudo se perdera. ali vegetando como empregada havia mais de vinte anos. de Bach.C Não me pergunte por ninguém. escondida num mofado saco debaixo do colchão. Nessa tarde. C Seu Clément. o colchão cheirando a mijo. era só poeira e teias. Pediu-lhe também que desse corda na caixa de música que tocava o Minueto. o tempo. caminhou para o corredor que levava aos seus aposentos. brasileira velha. Ainda era o velho cofre de sua loja. Clément Tamba era o trapo da solidão que ele mesmo construíra ao longo dos anos. Clément chamou-a e pediu que trouxesse a chave. para o qual não teve comprador quando a liquidou. Clément. aprisionado aos pequenos pinos que levantavam as alças de flandres. A solidão invadia os cômodos: uma sala de móveis velhos e gastos. C Lucy. Era um objeto de duas partes. observado por Raimunda. diferente das outras. no seu silêncio guardando a sala. que pertencera a Louis e que ele comprara como relíquia. A outra 23 . Acabaram-se os anéis. no quarto ao lado. viúva de um vendedor de cana. uma cama suja. um pardieiro destroçado na Rue d'Estren. A casa de Tamba era uma soturna edificação de madeira consumida pelos anos. a morte é uma coisa difícil. a mesa de sulcos afastando as tábuas ressequidas. tateando a própria sombra. as cadeiras com os assentos de palhinha rasgados e uma cristaleira sem copos nem taças. recebe a chave de Raimunda e vamos abrir meu cofre. O velho piano. olhos cerrados. A de cima tinha duas colunas trabalhadas que sustentavam as engrenagens pesadas onde repousavam as dobradiças. C Meu destino foi buscar o meu destino C dizia. Todos já morreram. Eu e o senhor a esperamos faz tempo C dizia com voz vacilante. o urinol de ágata com os beirais feridos pelo baque dos anos. Essa era a única música ouvida na casa. de onde escorria o som de um plim que tinha o ritmo do tempo. as plantas.

bordado em cores tênues de amarelo e verde-claro. acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do 24 . embaixo. a maçaneta grande que manejava as quatro barras roliças de segurança. É uma relíquia que me custou a alma. nesta tarde. A parte de baixo era uma caixa fechada. no meio de um temporal imenso. “Por que Clément. Solitária. que morreu na Argélia. guarde este embrulho. Ficou ali. com as formas desdobradas em alças que se enrolavam numa composição de flores. fiscal do governo. as goteiras mostrando pela casa o péssimo estado do telhado. Peça que seja colocada no seu caixão. Lucy também guardava recordações. O marido foi assassinado numa rixa. no cais de desembarque. Era a memória amarga daqueles anos. aceitou viver com Clément. É uma jóia eterna cuja guarda só é dada a amigo C e acrescentou: C Clément. Nada revele sobre ela. entre soluços: C Clément. Simetricamente colocados. Não buscara a aventura do ouro. quando. quer abrir o cofre. Até hoje não sabia qual teria sido a decisão de Cleto Bonfim quando uma noite. e juntos estavam. as jóias e as apólices do Tesouro francês que ele comprara e cujos rendimentos recebia pela agência da Banque de Ia Guyane. sem saber a conta dos anos. bem como o saco de pepitas de ouro. Ela passou a morar com Clément quando ele voltou para Caiena depois da destruição do garimpo. o segredo. Seu dinheiro ficava na gaveta do criado-mudo. presa às marcas de sua beleza de moça. A você tenho confiança de entregá-la. o bocal da fechadura. Ao lado. coisa de que nunca falou?” perguntou-se. com sua roda de números.era decorada com um desenho quadrangular. Clément queria ver-se livre do peso daquele segredo. e. pediu-lhe. Clément nunca dissera o que nele guardava. Pesava duzentos quilos. solitária. A marca gravada na ruela do segredo: Coffres Smith: Sécurité Totale . sem outra função senão dar suporte ao verdadeiro cofre que estava em cima. com o filho. multava um contrabandista de rum.

é uma notícia ou é ordem de viajar? C Não. o maior de Saint-Laurent. veja entre minhas coisas o papel que tem o número do segredo do cofre. um impresso amarelo.Brasil. N. mãos trêmulas. Aqui ninguém lhe faz nenhum agravo. Clément Tamba voltou ao quarto. cidade de Caiena. o guerrilheiro das selvas do Contestado. Volte e pare no 14. Segredo do mesmo pertencente a Clément Tamba. Introduza a chave. C Lucy. É meu inferno. Quero apenas lhe entregar este objeto. Foi uma decisão da Suíça. podia ser o anúncio da morte ou do saque. Clément. no Café Tour d'Argent. O soco daquela notícia. de repente.º 11 728. Coffre fort. onde se faziam os leilões das mulheres que aceitavam a aventura e o caminho do garimpo. inquieta. Lucy. Afinal. É uma desgraça que quero afastar. É uma obsessão e um martírio. Eu lhe darei proteção. você que tem olhos. Me dói na consciência. O armazém de Clément Tamba. com a emoção de quem lidava com o 25 . Não posso estar com ele mais um dia. Continue. que é uma parte de minha vida. Uma volta à esquerda. Amanhã. com a bandeira azul. Lucy fez as operações recomendadas e tomou-se de emoção e curiosidade. Continue até 71. Desde o nome France de Calçoene. branca e vermelha tremulando no mastro. mas é uma dúvida que quero longe. eles vão querer expulsá-lo. pare no 20. Duas voltas para a direita até o zero. Ela abriu o saco onde ele guardava papéis velhos. Não consigo que durma comigo mais uma noite. só vai haver uma bandeira. Dentro. Clément pensava quando conhecera Bonfim. dê duas voltas na fechadura e torça a maçaneta para abrir. Siga as instruções. comece a desvendar o verdadeiro mistério deste cofre. C Lucy. era francês. ele era francês da Guiana e aliado dos rebeldes que enfrentavam Veiga Cabral. Você é francês. pare no zero. a do Brasil. C Bonfim.

Ela tem uma história triste. O tecido estava velho.desconhecido. tateando com os dedos. na parte que guardava a lâmina. As gavetinhas de aço entreabertas. no centro. com seus cães. o corpo. quando pôs as mãos. seu sortilégio. quase imperceptível. guarda de novo essa navalha. C Lucy. C Abra. Lucy tocou a navalha e abriu-a. no fundo. com um olho-de-gato refulgindo. Clément pediu para tocar a navalha. recuperaram a visão e ele pôde reconhecer a mão de Cleto Bonfim segurando o cabo. Ao lado delas. trabalhada em sulcos com desenhos de pássaros. curvas desdobradas em fundo de sereias. tomado de mofo e de caruncho. uma safira. Todas as pedras se acendiam ao mesmo tempo. 26 . O ouro polido faiscava na penumbra da luz do quarto. Esticou-lhe as pontas e deixou exposto o segredo. seu perfume. Dentro. Era uma jóia de beleza misteriosa. encontrou um mofento pacote. C Clément. Seu olhar distante pôde ver. Lucy desdobrou o pequeno embrulho em cima da cama. uma dúzia de diamantes e. é esse troço aqui que você está procurando? Era um embrulho de pano desbotado de veludo com um objeto dentro. Seus olhos. Retirou-o. um perfil de mulher. como um milagre do pensamento. O compartimento de cima estava vazio. Brilhava como se o tempo não tivesse passado. abriu o cofre. na sua beleza créole. O cabo tinha incrustada nos dois lados. uma navalha de ouro. a lâmina mais fina do que papel. desenrole. Na ponta.

.

águas represadas das chuvas e outros rios maiores. Naquele mundão de mato. aqui e ali recebendo afluentes. savanas. nas terras de Roraima e Maracaçumé. pequenos riachos. pântanos. Era um rio de águas cristalinas que vinha do platô das Guianas e caía em degraus. o que não podia ser feito sem arregimentar braços. . atravessando densas florestas. Desaguava no oceano. como nas grandes navegações. Mesmo a notícia que ia aos poucos caminhando até Belém do Pará não mobilizara senão velhos garimpeiros e antigos aventureiros que. numa boca larga de areia e lama. campos. menor ainda. dedicavam-se à mineração em decadentes minas. o Carnot o maior deles. poucos voltavam. contornando as elevações. Acertara com Firmino avaliar o garimpo. buscando seu leito. o ouro se escondia embaixo das montanhas e fugia escondido nas nascentes que escorriam para todos os lados. Dos que iam aos garimpos. fazendo baixios e alagados. A população do território pertencente ao Brasil era muito pequena e a da França. quase esgotadas. mais perto. voltar a Caiena e contratar homens para a lavra.3 Um riacho amarelo Clément Tamba voltou a Caiena depois de seis meses embrenhado nas selvas da bacia do rio Calçoene e de ter subido as sete cachoeiras que serviam de escada para o rio descer e chegar ao mar. O trato era organizar uma sociedade para explorar o garimpo.

e vinham as doenças dos ossos. A direita trazia um rifle. quando chegou perto do primeiro garimpo. quando ali já estavam. os mosquitos picavam e abriam feridas. C Quando ele chegou? C Há seis meses. Para esquecê-lo. dizendo que acharam o ouro”. depois de famílias desfeitas. Freira e santo não vêm tirar ouro”. a desgraça. Tinha olhar sombrio e determinado. e sou o vigia da porteira. Viemos do Chiqueirão. C Mas este garimpo tem dono. 29 .As doenças. é de Cleto Bonfim. Vivem de mentira. as pernas inchavam. Vim com ele. empregado dele. Os homens dali não sabiam mais rezar. segurava com a mão esquerda o joelho. Depois. encontrou uma porteira de paus cruzados vedando o acesso. o sonho de mulheres e o cantarolar. os catarros. lá no Pará. C Quem é Cleto Bonfim? C perguntou Firmino. Era um sofrimento que não passava. Tamba. Era guardada por um homem de uma perna dura. C Para onde pensam que estão indo os senhores? C perguntou o vigia. só a cachaça e o rum. fugas ou crimes cometidos. Para facilitar o andar. C Viemos ver a garimpagem. a selva. a violência e a morte. levantou a arma como se quisesse dizer que falava para ser obedecido. “Garimpeiros são os maiores sofredores que Deus já botou no mundo. desencantados da lavoura. que nunca estivera na varação. dia e noite com os pés dentro da água. as lutas com os índios e o isolamento dizimavam os grupos. e aqui só se entra com sua ordem C respondeu. o não poder parar e a convivência com o medo. C É meu patrão. E com um gesto que devia ser muito constante. tal a naturalidade com que o executou. pois fui eu quem descobriu este ouro C retrucou Firmino. que depois veio a ser o do Limão. falava Firmino e acrescentava: “É gente que não sabe fazer nada. ou levados pela sorte.

surgiram do mato cinco homens. por trás da porteira. C Seu Cleto. Não faça isso. C Não atire.. É o nosso sinal de alerta. Eles virão logo ver o que é. todos armados. Os senhores fiquem sem receio. Falei que só entravam com sua ordem. Meia hora depois. Deu um espaço para falar e disse: C Espere um pouco. passos largos. aguardem e logo virão. O vigia ficou bem calmo. mas desconfiança. de barba rala com barbicha. Não viemos para morrer nem para matar! O homem tranqüilizou-os: C Não vou matar ninguém. C E onde está o Seu Bonfim? C No barracão. Não inspirava medo. dirigindo-se ao seu empregado e ignorando os visitantes. 30 . um pé levemente torcido para dentro. O que não podem é nem sonhar em passar. diz que é Firmino Amapá. detido pelos gritos de Firmino e Tamba. cabelos raspados em cuia. na retaguarda dos visitantes. C Quero falar com ele. recolheu o dispositivo de armar e parou. levou-o para a frente e para trás. Vou atirar para avisar ao patrão que tem gente por aqui. meteu a bala na agulha. olhava sempre para baixo. frágil de rosto e corpo. De estatura mediana. aqui estão estes senhores com uma conversa de querer visitar o garimpo. Nossa conversa é de paz. parecia som de fuzilamento.. o único que portava revólver. segurou o ferrolho. C E o que eles disseram? C perguntou. O homem manobrou o rifle. ele deve saber minha fama.C Quantos vocês são? C Uns cinqüenta. C Vá lá. falava sem empatia. Olhou para cima. O tiro ecoou na solidão da floresta e. À frente deles. uma figura magra. para Firmino e Clément. Posso? C Não é fácil. É homem que só recebe conhecido e avisado.

C É claro que eu sei que foi você quem descobriu o ouro no Calçoene. como se conhecesse Cleto: C Olhe. E Cleto convidou-os a irem com ele ao barracão. na solidão das lembranças.C Nada. A noite avançava e os olhos não fechavam. que vinha 31 . incluindo os vigias e o capataz. Clément Tamba vegetava ali. quem é que saberia como chegar a este lugar? C E acrescentou. sou Firmino. mas quero lhe dizer que descobrir este veio me custou demais. Se quiser. Eu sei que aqui tem lugar para todo lado. Só restavam as lembranças amargas e o fantasma de Cleto Bonfim. Todas as coisas do seu tempo tinham desaparecido. Mas você tem direito e minha amizade. aqui só se conta essa história. e veio se esconder nestas bandas. Foi uma grande descoberta. Eram uns cinqüenta homens na bateia. você chegou primeiro. Tem ouro para todo mundo. o que falta aqui é gente. Havia mais de cem anos ele esperava morrer. Firmino. Você sabe como garimpo chama cabra ordinário. Se não fosse. Celestino Gouveia. Fui eu quem descobriu ouro nesta região. C Eu sou Firmino Amapá. no velho casarão ao lado de Lucy. Cleto. * * * Quantos anos se passaram desde aquela manhã longínqua? Agora. Nosso ouro desapareceu de todo lado. Todos sabem disso. vim com meu sócio Clément. Esses três homens que nos acompanham são de nosso trato e não estamos para brigar com ninguém. C Quem é mesmo o senhor? C perguntou Cleto e repetiu: C É o Firmino? C Sim. Todo garimpeiro daqui sabe disso. no Pará. e ao que eu sei também no Approuague. Deulhes comida e depois mostrou o garimpo. João está aqui para não deixar entrar bandido nem forasteiro ruim. Fique tranqüilo.

Você tinha o rosto fino. quanto mais gente garimpasse. mas matou Firmino. achei que você era aventureiro explorador. Quando se contraria a vontade do ouro.levantar na memória esburacada sua outra vida. Eu lhe indiquei o barranco do Limão. Clément”. me convidou a visitar Caiena. o remédio e a força dos meus homens. Não tinha nada conosco. a que vivera nos garimpos do rio Calçoene. fiquei com receio de você naquele dia. “Não. respondeu Cleto. Nunca disputei nada com você. Você não entendia nada de ouro. Tudo tem seu sentido. mas eu fiz o caminho com terçado. Sua cara disfarçada me dizia que de você se podia esperar uma cilada. homem de ferro. Mas isso tudo passou. se ele voltou. descobridor do ouro no Calçoene. Clément. muito esperto. e este tem mistérios. olhe-me. Eu tinha o domínio da estrada. Pensei logo que. Ninguém podia fugir de mim. Você não me inspirou confiança. Firmino descobriu o ouro. você me ensinou créole. De você. aprendeu tudo. não. Aqueles seis meses que eu e você passamos juntos fez nossa amizade a maior de dois homens. “Cheguei. Eu sabia que o ouro do Calçoene estava chamando Firmino. Estou aqui. chamou Firmino. Nos tornamos os melhores amigos e passamos a vida juntos. Foi lá que você enricou. Assim é o ouro. jeito de cabra esperto.” C Bonfim. Nos garimpos. Pouco tempo 32 . tinha respeito pela fama de Firmino. Também. Clément. a mais forte de todas. a comida. não era garimpeiro. ele foge e acaba. como garimpeiro. no mesmo sofrimento. “Nunca fui homem de matar veado em espera. mais eu tinha para comprar. e você.” E disparou a falar: “Firmino não pôde tirar o ouro que descobriu porque não quis. a gente aprende a sentir as mensagens e o desejo do ouro. eu não gostei de sua cara. era porque o ouro o havia chamado. Eu sabia que ali tinha ouro para todo mundo. Eu lhe expliquei. as ferramentas. Só eu tinha os aviamentos.

Meu sangue já era amarelo. O rei do ouro mandou essa prenda para ele.” C Não. “Mas eu mandei apurar três bateadas para ele levar na morte. antes de morrer. 33 . Vendo você. em três dias estava liquidado. Mas. coisa difícil. “Você não precisa me olhar. eu vejo o dia em que voltei a Caiena.” C Senti muito a morte de Firmino C disse Clément. coisa de rapidez que eu nunca vi. Anuncia alto. com todos os poderes e vinganças. Mandei avisar todos de minha chegada. Eu já estava doente pelo ouro. Ele é mau. com sua ordem para que eu me estabelecesse no novo garimpo. Não foi fácil subir e fazer aquele buraco comprido lá em cima. o filé nunca é para o dono do boi. Homem sério. ele foi um irmão de aventura e companheiro. O ouro para mim sempre foi um rei encantado.convivi com Firmino. pediu desesperado para ser enterrado no topo da montanha Salomoganha. Caiena inteira  Rejeito da garimpagem. Só ele sabe por que se revelou ao Firmino e depois o matou. Morreu não querendo morrer.” Seus olhos embaciaram. Mas eu sempre respeitei a vontade do ouro. Ele faz a alegria. apaga o candeeiro da cozinha. Cova em pé. Clément sussurrou: C Lucy. na rocha. mas também faz a desgraça. Cada uma delas deu mais de cem gramas. Chamei Raimundo e disse: Avisa ao ouro do barranco que vocês vão dar três bateadas para Firmino Amapá levar na sepultura. coisa de gente que não queria que nem a alma saísse dali. A vida é assim. “Eu também. sem falha. tinha muita pedra. Levei numa lata de azeite e fui espalhando. É para o ouro ouvir. Quando desceu em pé no buraco. Vomitando sangue. Aquela febre que ele pegou.” C Nós fizemos o que ele pediu. em pé. Nunca pensei que ela pudesse ser contrariada. Ouro tem poder de Deus. Bonfim. o tempo me dissolveu. Com a luz mais baixa eu olho melhor Cleto Bonfim. eu derramei o pó de ouro e xerém ∗ em sua cabeça. Ele se vingou do Firmino.

A mesa grande da sala estava sem toalha. O que não será quando nós colocarmos os lontanas que nós. Nosso destino vai ser outro. Retirei a rolha de cada uma e. Estou chegando das terras do Contestado do Brasil. Lembrome do olhar de Linderfo. Eu. Passaram as vacas magras. Vocês podem se juntar a mim e vamos para lá. falei dos caminhos. Já tenho um garimpo aprazado. a área do Contestado. na cabeceira. sob olhares de espanto. Quando terminei. a falar: “Caiena. Vieram muitos amigos e conhecidos. se quiserem. E nós  Como os franceses chamavam o Amapá. já usamos no Approuague?” E. Agora vai mudar. dando por fora a impressão de areia. fui derramando devagar numa travessa de louça branca. Lá tem ouro para todo lado. Lá. O ouro do Mapá∗* é muito. e fui fazendo um monte que ia aumentando a cada garrafa derramada. Naquele tempo. disse: “São cinco quilos de ouro! La couleur. A tábua preta polida. da selva. 34 . Estavam cheias. das montanhas e saí para o meu quarto. no centro da mesa polida. aquela areia amarela. Todos me ouviam. Todos ficaram desconfiados. proclamei: “Agora. nossas vidas vão mudar e Caiena vai voltar a ter vida. bem lisa. Arrumei dois bancos grandes. créoles. foi triste. em pé. seis homens e a bateia. meio grossa.ficou sabendo. parados e curiosos. Vai circular dinheiro e riqueza como antigamente”. Precisa de gente para arrancá-lo do chão. um de cada lado da mesa. minha gente. aquilo que sempre foi o símbolo e o sonho da Guiana. acreditem. Eu mesmo tinha acompanhado o serviço de limpeza para que ficasse brilhando. Conversei mais. Vamos ficar ricos. Ninguém dá conta de tirar. Voltei com três garrafas de vidro verde. criando um suspense. Todos estavam sentados. minha loja era na Rue d'Enfer. o cuidado de não deixar farpas. não acaba como acabou aqui. com ar de mistério. Dois meses. sem arranhões nem rachas. o costume é pôr na bacia de alumínio e dividir com caneca. descrevi as localizações. Era esbugalhado e vermelho. num gesto entusiasmado.

batia no cano para esvaziá-lo. Sacudia a espingarda e. vasilha de guardar o pó. Eu a troquei no caminho com um caçador e dentro dela. rico de matas.. foi ao quarto de novo e trouxe uma espingarda velha de caça que colocou sobre a mesa e continuou C que eu trouxe esta espingarda para mostrar a fartura. Só vendo como é rico o Mapá.franceses temos de ir para lá. Eles não gostam dos pretos créoles. de ouro e de tudo. que insultam como fez o sábio Coudreau. apenas desejava que o comércio de Caiena se expandisse com nova fonte... senão os brasileiros ficam donos. mas era um homem de negócios realista. mas nós somos pretos franceses C disse Jean-Pierre. porque nós vamos dar a eles um território que é um terço da França. Não era nenhum patriota nem estava interessado nas disputas territoriais francesas. abrindo outro futuro. C O que nós queremos da França? A França nos abandonou. Clément Tamba estava contagiado pela aventura. Ali a terra é da França e o ouro da gente”. que sabia ver longe. dentro dela C tornou a dizer C o cano está cheio de ouro! Nem os caçadores têm onde colocar pólvora. trouxe a balança e começou a pesagem de tudo:  Franceses da metrópole. que era vendedor de fumo e açúcar. 35 . ocupar a terra. É cheio de ouro o cano das espingardas. Depois. negociante na área do Cépérou.. num gesto teatral. C Os metrôs∗ vão gostar e apoiar C retrucou Tamba C . E tirou a rolha da boca do cano da arma e derramou o ouro na mesa. Só prestamos para abrigo de criminosos. C Tem tanto ouro no Mapá que eu C levantou-se. E fez um gesto espetacular para impressionar a todos.

o Carsuène. Contenac. As localidades foram sendo povoadas e a mais importante de todas era a vila de Calçoene. o Guyane. Outros navios navegavam na rota do ouro. roupas feitas. papel-abade para cigarros. que se incorporou à do Firmino. A partir das notícias da nova frente de ouro. arrumados. o chefão. conhaque. e iam até a Vila do Cunani. fumo pauronca. cereais e quinquilharias de todos os tipos. Moscatel. Fui de cabeça e alma para o desconhecido. C Cleto. Primeiro os panos. prontos para liquidar. chapéus. Guignolet. com uma pequena igreja e algumas casas. Ali. Lá ficamos os dois: você. o francês. cheios de gente e de mercadorias.C Cinco quilos e duzentos e doze gramas! No dia seguinte anunciou o desmonte de sua loja. Depois foi a vez das cordas. pregos. a maioria já era de franceses e a bandeira da França estava hasteada em frente à casa do capitão Trajano Benítez. tabaco. no dia seguinte fechei a loja e liquidei tudo. o Cunani. vinhos Saint-Julien e Saint-Estephe em garrafões. azeitonas. arame. eu. Não eram só navios franceses como o Belle de Martinique. como o Admiral e o Meteor. Iam em mar aberto até a foz do Calçoene e subiam daí até a primeira cachoeira. brasileiro que aceitara ser representante da França e delegado do governador de Caiena. desmontou a prateleira das bebidas. onde ficava a vila que lembrava o descobridor do ouro. Com saudade. e até um holandês. que ficava num barranco alto. caixas de doces. Madeira. mas ingleses. conservas de aspargos. Começou a retirar das prateleiras as mercadorias e empilhou os lotes. calçados. 36 . o Catupania. leite condensado. fósforos. E os navios que vinham da Europa não demoraram a estender suas linhas para novas escalas. chocolates Meunier. biscoitos de Reims. a do Firmino. Bordeaux e caixas de Syracuse. caixas de açúcar. os barcos que chegavam a Caiena tinham um destino certo: o rio Calçoene.

Cleto. C Onde ele está? C Aqui C e apontou com o dedo para a parede. C Olhe C disse Raimunda C . você me trouxe para Caiena. C Raimunda. Raimunda viu crescer aquelas pernas finas e um rosto magro de barba rala. para levar mulheres para a brincadeira de alegrar nossas noites no garimpo. Toda noite quer ir a Calçoene. com quem o senhor está conversando? C Com Cleto Bonfim. Ele não gosta de conversar sobre o passado. Aqui. que iam e vinham. onde nasceu um grande comércio com lojas que vendiam de tudo e a moeda era o grama de ouro. não fale a Seu Clément mais nada. Depois estendeu seu domínio e fez casa no Limão. Trouxe a bilha de água e resmungou: C Seu Clément. A porta bateu. cobrando comissão e ganhando o que queria e o que não queria. namoradas daqui. comprando ouro e vendendo máquinas de garimpar. Tamba está preparando a morte dele. montei casa e me acostumei a gozar a vida. porque eu não gosto de apanhar mulher de cabaré. Mas não se igualava a Cleto Bonfim. fazendo parcerias. vá para a sala. Foi lá que Clément Tamba instalou a sua primeira casa de negócios e montou a nova loja. “Clément. Raimunda entrou. não se incomode. Deixe-me receber os amigos C resmungou Clément. Levava sempre minhas conhecidas.e das duas fizeram uma. que passou a comprar meu ouro. até aquele dia em que nós fomos ao Tour d'Argent.” C Você só. 37 . ferramentas. C Raimunda. Lucy chegou. na margem esquerda do rio. me apresentou à Société Equatoriale. Eu não o acompanho porque minhas pernas estão fracas e lá tem cheiro de defunto.

Seu pensamento parou num latido de cachorro. banhando-se na cachoeira.Tamba fechou os olhos. 38 . Saraminda estava nua.

de serviço cativo no Mosteiro dos Jesuítas. entre negro-limpo e branco-sujo. Os quadris eram firmes. baixos. Tudo como pelúcia. Tinha o tronco um pouco alongado. a créole Balbina. que não se dobravam na ventania. Sua filha Julienne. escravo forro que fugiu da Jamaica e aportou em Caiena. e. Trazia no olhar um enigma que passava aos lábios carnudos. médios. mãe de Saraminda. cabelos lisos que escorriam nos ombros. como se escorregassem na linha do corpo. A pele era lisa. que pareciam castanheiras eretas. que vinha da avó. linheiras.4 Saraminda Tinha olhos verdes. marca do sangue índio. macia. . elevados. peitos firmes. os dentes aparecendo num risco breve. com a força do carisma no falar e no sorrir. acetinada. com quem viveu até que morresse na epidemia da gripe. Viúva. filha de um holandês de nome Jansen e uma índia waiapi. pernas roliças e cheias. no conjunto daquele olhar e boca. a ponta de vida que vinha do rosto. aos quatorze anos foi prostituta no bordel do cais. de onde saiu levada por um preto da Guiné. levemente repuxados na parte superior. que montara um bordel para marinheiros de longas travessias. de cones finos. harmoniosamente ajustando-se e engrossando as coxas. definidos nas saliências. O rosto era de uma beleza parda. Balbina deixou grande descendência. a pele cafusa. com quatro filhos. no sorriso.

aos quinze anos. Desse romance nasceu Saraminda. mulheres. estava na casa noturna de Marie Turiu. A noite passava. e onde tocava Jean-Marin. um violino e um piano velho. Na volta levava companhias arrematadas para alegrar as noites e espantar os carapanãs no barracão do seu garimpo. Bordeaux ou Bourgogne. Tinha grande gosto por mulheres. Viveu na mais completa miséria. que a levava para longos passeios atrás do cemitério. Descoup nunca quis visitá-la em casa. que se espalhavam na nova fronteira do ouro. onde se realizavam leilões e festas de encontro para recrutar mulheres que iam para as noites dos garimpos. estava ali. entre disputas. para que seus chefes militares não soubessem que era amante de uma creole. apaixonou-se pelo Sargento Descoup. um bosque de favas. sem preferências. conseguira ser o dono do mais rico garimpo. num cabaré da Rive Gaúche chamado La Nuit de Lyon. com vergonha dos filhos. aviamentos. Sua mãe desde logo descobriu-lhe pintas da avó. De muitas conseguiu escapar. de outras pagou os dias e achaques. nem ela queria a visita. os brasileiros desejosos de bebidas destiladas e os franceses pedindo vinhos. de onde fossem. O cheiro de cigarro. bebiam e jogavam os copos. e ele. Enfrentara índios e aventureiros. a Tour d'Argent. até que. e a outras mandou 40 . Era vivido. Conhecia as manobras e os trejeitos de todas para arrancar o seu dinheiro. no Contestado do Brasil. e para depositar o ouro que retirava daquelas terras. da região do Calçoene. a fumaça que subia. o frege de homens que pediam rum e aguardente.vivendo de uma venda de peixe e caça. freqüentada por garimpeiros e boêmios de Caiena. Nessa noite. e os créoles bebendo uns e outros. Cleto estava bêbado. que havia sido músico em Paris. bebidas e a música que escorria de um saxofone. aquele mesmo salvo de naufrágio no cabo Orange. Cleto Bonfim. de onde saía de meses em meses rumo a Caiena em companhia de Clément Tamba. por fim. e a ele entregava-se num amor maduro. na busca de mercadorias. mas. Era noite de festa grande.

embora com esporão e raiva. A noite era de grande alegria. Já subira a euforia do vinho, a música era frenética, as mesas turbulentas, e começou o leilão das mulheres. Marie Turiu, dona da casa, conhecida cafetina, abriu os lances: C Estas moças bonitas estão querendo conhecer os garimpos. Aceitam convites e ofertas. Nada na vida se faz sem a felicidade de mulheres bonitas C deu uma grande risada. Abriu os braços e fez o pregão: C Quem mais oferece por esta prenda, quinze anos, pele de deusa? Saraminda entrou no tablado com passos seguros e um jeito de quem fazia teatro. Era como ninguém podia pensar. Destacou-se no meio das duas colegas, uma ruiva francesa e outra bela créole. Todos repararam em seus seios sem prisões, coxas e pernas grossas, cabelo estirado, liso e brilhante, no olhar aquela coisa de um verde de esmeralda, contrastando com a pele escura. Não esperou ofertas. Bonfim estava cercado de acompanhantes, gente de confiança, capangas e amigos. Eram homens de vários tipos, de cabelos longos ou curtos, todos de olhar firme, armados e copos na mão. Cleto Bonfim, como era de seu costume, trazia pendurado no pescoço um quilo de ouro, as pepitas que se estiravam num cordão grosso que descia pelo peito cabeludo, aberto, para que todos vissem o que sempre gostava de mostrar e ostentar. Contrastava com seu corpo franzino a expressão de um rosto cujos pêlos não eram uniformes. Vestia um dólmã de brim desbotado. Saraminda, sem pensar nos amores passados, resoluta e desinibida, avançou no rumo da audiência e levantou a mão direita, com o indicador para cima, e avisou: C Não sou do leilão. Sou de Cleto Bonfim. Vou com ele e quero ser dele. Eu sei onde ele está e de minha parte o leilão está resolvido. Marie Turiu olhou-a com espanto. Cleto, na sua mesa, ficou tomado de grande espanto. Não conhecia aquela mulher, 41

não tinha relações maiores na cidade nem conhecidos que pudessem dar informações a seu respeito, nem se julgava um tipo alvo de sedução. Mesmo com a cabeça tonteada procurou arrumar as idéias e entender o que acontecia. Seria um golpe de Marie Turiu ou brincadeira de um de seus amigos? Recobrado do susto, levantou-se, ocupou o corredor, entrou no jogo da festa e replicou com arrogância: C Não aceito mulher que se oferece. Quero escolher e sempre escolhi bem. Foi uma risada geral e um hurra! Saraminda não se perturbou. Impressionou pela firmeza e pelo jeito de quem tinha estudado o papel. Coisa diferente naquelas festas de gestos e gostos primitivos. C Não sou mu7lher que se oferece. Já escolhi. Sou sua, Bonfim. Houve um silêncio seguido de muitas palmas. Os bêbados recobraram a razão, a atenção voltada para os cantos da sala. O lampião de querosene ardia numa luz amarela, que ganhava o teto e se espalhava pelo ambiente. Todos trocavam olhares curiosos, que convergiam para Bonfim. A banda de três instrumentos voltou a tocar frenética e dava, a cada resposta, uma batida geral. C Mulher, de onde você tirou essa história de jogar-se para o meu lado? C disse Bonfim, do meio do salão. C Não pergunte o que não se pode perguntar C disse Saraminda. E adiantou: C Não sei por quê, mas meu desejo é esse e C trocou de tática, transformou-se em tímida, amaciou a voz, concluindo melosa C quero ir ao seu garimpo, junto... contigo... Bonfim já não sabia quantas garrafas de vinho tinha na cabeça, nem se o que estava acontecendo era fruto de bebedeira. Dirigiu-se ao palco, olhou para Saraminda e falou: C Mulher, se você quer o meu ouro, eu lhe dou, mas não venha com essa história de me engabelar. Saraminda o olhou com sedução, torceu os lábios e não se

42

deu por achada: C Bonfim, não quero seu ouro. Ouro sou eu. Eu nunca tive nada nem sei o que é ter. Alguma coisa me diz que eu devo ser sua. Esta foi a missão que meu destino me deu. Vem. Cleto Bonfim perturbou-se. Nunca tinha visto mulher desse jeito, já que a iniciativa era sempre dos homens. Disseram-lhe uma vez que a mulher créole tinha por hábito procurar, e não ser procurada. Mas, ao viver essa situação, não achou normal. Subiu no tablado, tirou seu conhecido cordão de pepitas pesadas e colocou-o no pescoço dela. “Se é isso que você quer, aqui vai.” Foi um aplauso geral. Saraminda, o colo adornado, começou a chorar, e ele viu de perto a beleza do seu busto e da sua pele. Depois, encolheu-se, fechou-se como a flor-de-onze-horas, os olhos murcharam e de seus lábios saiu, modificada como por encanto, adocicada, cercada de mensagens, a palavra molhada, que mais parecia uma dança de acasalamento de juritis: C Obrigada, Bonfim... Ela poderia ter esperado os homens começarem a oferecer pelas mulheres o ouro que explodia no Contestado do Amapá no Brasil. Mas não quis. Ofereceu-se e arrematouse sem preço, antes do leilão, o que foi surpresa até para Marie Turiu. Ninguém soube como ela descobriu quem era Bonfim, aquele homem que, quando vinha a Caiena, comprava toneladas de alimentos, carnes e peixes secos, mercadorias de todos os tipos para o consumo e o dia-a-dia do garimpo. Do querosene até os perfumes da França, em vidros populares; potes de vaselina para pentear os homens nos dias de festa, vinhos, conservas, remédios, ferramentas e sacos de estopa, as sarrapilhas. Às noites, visitava as casas de alegria, bares, pensões de mulheres e bailes. Nessa noite estava no Tour d'Argent para assistir ao desfile das mulheres, tão falado na cidade. Não era a primeira vez. Era cliente festejado, sempre acompanhado do seu séquito e invariavelmente de Clément Tamba, que todos sabiam ser 43

seu amigo e participante dos negócios do Contestado. Depois de colocar o cordão de pepitas em Saraminda, Bonfim voltou para a mesa de onde saíra. A audiência brindava. Os homens e as mulheres se excitavam entre fumo, bebida, música e o prazer da sedução. Saraminda permaneceu imóvel junto a suas companheiras, tímida, sem deixar o tablado, com uma decisão a ser concluída. Nem parecia a mulher que havia pouco aparecera. Não acompanhou Bonfim. Ficou imóvel, desfrutando dos olhares, escondendo a alma. Marie Turiu, então, passou adiante, pegou no braço de Lucienne, uma loura de cabelos longos, francesa da metrópole, filha de um egresso da prisão de Saint-Jean du Maroni: C Quem deseja levar esta princesa para conhecer o rio Calçoene, cantar e dançar para os homens do ouro? Mulher bela e pessoa de trato. Quem é o felizardo? C Quatrocentos gramas C gritou Gérard, um rapaz de Caiena. C Não é para ficar aqui uma hora, Gérard, é para viajar para o Brasil C disse Turiu. C Eu sei, Turiuinha, é para morrer de febre e matar carapanã... C Para lá, boca maldita... C disse Lucienne. C Minha filha C respondeu ele C , fica aqui, vai lá para casa. Tem lá uma coisa que não tem no mundo. O Gérard! Todos se divertiam. O leilão continuou: C Quem vai com Lucienne? C Vai comigo C disse Zacarias, um comprador de ouro do Cunani. C Dou um quilo de ouro e dois meses na minha casa, com direito a vinho e amor... C Vai ser feliz, minha filha. Vai com você, Zacarias! C Bateu o martelo a dona da casa. Novas palmas foram ouvidas. Turiu segurou a mulata Wiabo e apresentou-a.

44

C Não vou falar nada. Vejam que saramaca ∗ bonita. É uma peça rara. Que rosto, que lábios, que quadril! Que felicidade ter este amor de raça... Quem? Houve uma sucessão de lances, e Juvenal, dono de uma casa de aviamentos no Cunani, dirigiu-se para o tablado, pegou-a pelo braço e gritou: C Um quilo e cinqüenta gramas, sem prazo para voltar... Marie Turiu ficou sozinha com Saraminda no tablado. C Cleto Bonfim C disse ela C, você ainda não estabeleceu quanto vai pagar para levar esta menina, a mulher mais linda que eu já vi. Vejam C e pegou no rosto de Saraminda, como se quisesse arrancá-lo como uma máscara e mostrá-lo ao público C, olhos verdes, rosto de Santa Ifigênia, fino, sedutor, precioso... Bonfim, meio cambaleante, levantou-se e gritou com a força de sua fama: C A mulher já é minha, é falta de respeito comigo abrir o leilão de novo. Ela tem preço. Dou dez quilos de ouro e vai viajar para sempre. Saraminda contraiu os lábios, levou as mãos ao rosto e chorou. Por uma escadinha lateral abandonou o palco, andou entre as mesas, sob o aplauso de todos, a música arremedando um cancã, e dirigiu-se para o grupo onde estava Bonfim. Ele levantou-se, agarrou-a e deu-lhe um beijo que parecia de noivado. Ela pediu, num gesto macio de carinho: C Abanque-se, Seu Bonfim. E sentou-se no seu colo, passou a mão no seu pescoço, descansou a cabeça na sua cabeça e murmurou no seu ouvido: C Você sabe, Seu Bonfim, por que pagou dez quilos de ouro por mim? C Não quero saber, porque já sei C respondeu com a voz engrolada pelo vinho.

Tipo de preto guianense

45

A noite continuou.C Pois. isolado. quando estivermos a sós. punha-se a tocar uma antiga canção da velha Caiena. Qualquer homem daria o mundo. enquanto o piano. 46 . É mistério. vou mostrar.

.

5 Um preço a pagar Cleto era proprietário de uma grande casa em Caiena. Desacostumado dessa reação. afastava a mão dele do corpo e do rosto. você é mulher de bordel. que acabavam em sua casa. com a língua enrolada numa boca de rum e vinho. nega fogo? Saraminda não se deixava mais tocar. onde as festas continuavam com amigos e mulheres. quando saiu com Saraminda do Tour d'Argent. Era um ponto de alegria. reclamou: C Que está havendo com você? Depois de tanta provocação. testemunho da explosão de riqueza das novas minas. que terminavam em sua cama. não tem que pensar. nem romance. pouco a pouco ele sentiu que a mulher estava esquiva. onde passava largas temporadas quando vinha trazer e vender ouro. na rua deserta. acertar contas com seus representantes de comercialização e exportação. o maior deles a Société Française de l'Amérique Equatoriale. envolvendo-a no seu desejo. A madrugada ia alta e. que dominava os negócios do ouro. C Tire a roupa. trazia uma idéia confusa. Aproveitava esses tempos para noitadas. não o deixava avançar no seu modo de sempre. quero ver seus peitos C falou . sem saber o que fiz C respondeu. Cleto. C Estou pensando.

apertando os mamilos C. C Que é mesmo o que estou vendo? C balbuciou Cleto. Se sou mercadoria. Não sou coisa suja. Cleto insistia. C Mulher. C Não sei C retornou Saraminda C. C Você não sabe quem eu sou? Cleto. segurou-o.. de um amarelo intenso. você arrematou mas não pagou C respondeu Saraminda. C Não é sua palavra. que eu não jogo fora. Aprecio modos. me trate com respeito. derramado. Deixa de sestro. rara da natureza. Podemos desfazer o negócio. Seu Bonfim C abriu a blusa e mostrou os seios. 49 . ao mesmo tempo. Sentiu-se aliviada com essa hipótese. Bonfim! E trato que eu faço não se desmancha. C Apanhar não estou acostumada. a mesma cor das pequenas flores da ucuuba. a voz pastosa: C Arrematei você por preço alto e quero receber a mercadoria. sem bebida e sem brutalidade. Veja o valor deles e me trate de outro jeito. senão entra na minha taça. resoluta: C Seu Cleto. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha. E trato de compra tem norma C voltou ela a argumentar. disfarçando o medo e querendo encontrar saída para a indecisão. Estacou. Veja lá. para que não caísse por causa da bebedeira. Assim é melhor que a coisa acabe agora. Cleto abriu bem os olhos e viu nos seios escuros as pepitas incrustadas. É coisa minha. Sou assim e não sei esperar. sou mulher para ser tratada com gosto. Já estou me chateando.cambaleando.. e dez surras em vez de dez quilos. afastou a mão de Cleto e. você está me cobrando e duvida que a palavra de Cleto Bonfim vale mais do que ouro? C E concluiu: C Deixa de ser besta. Pago mulher para ela ser como eu quero. isto não é mercadoria para ser comprada assim. é minha sorte. Minha vontade é de ouro! Estavam chegando à casa dele. Saraminda retrucou. isso é questão sua. C Pois fique calmo.

“Que mulher misteriosa”. E avançou. Cleto Bonfim! E eles apareceram fosforescentes. C Eu pago. Bicho ordinário e abelhudo. alucinado. que estava bêbado demais: C Onde é que vou arranjar. acompanhando a fagulha de luz que girava ao redor. agora de madrugada. Cleto pensou que ela falasse do pagamento. imersa na vaidade de mostrar os seios raros. É jóia minha que só eu sei usar. C Nem isso. Se o ouro só tem amanhã. conhecedor dos ruídos da casa. Aqui não se faz nada. Ele avançou para tentar tocar os seios. C Não sei C ela pegou na desculpa para fugir. Saraminda espantou-se. não é nada. C Mas vou beijar. ainda pôde concatenar em meio às tonturas da cabeça. os mamilos brilhando como ouro trabalhado e polido. C Cleto. os lábios abertos. e continuou: C É gato. 50 . C O que sei é o que você sabe. isso não se pega assim. C Pois veja. Saraminda. mulher enfeitiçada? C falou alto. C Não. C Não tenho pressa em receber. eu tenho coisas de ouro que dinheiro não paga. C Não é nada. Os olhos dele corriam em círculo. não se perturbou: C Veja. só amanhã você tem o que quer.quase caindo. dez quilos de ouro. Cleto Bonfim. percebendo. são almas do outro mundo querendo olhar você C disse Cleto. Um gato quebrou o silêncio derrubando caixas na cozinha.

naquela tarde. Cleto. e chorei com os olhos e com a alma? “Como vou me lembrar se eu era o defunto?” disse Cleto. 51 . Foi quando surgiu a discussão sobre se você devia ser enterrado com seu cordão de pepitas de um quilo de ouro. que era sua vaidade. sempre pendurado no pescoço. não quero ser vagabunda ao seu lado. quero estar com você como mulher tem direito de ter homem. As pepitas não podem ficar no pescoço dele. C Pois naquele dia eu fui até o cemitério e lá ouvi o saxofone do velho Esode tocando a canção francesa que você gostava de ouvir. Como é que você me conta agora. sentadona cama. Era tanta gente. em casa de Clément. só retinha na memória azulada pelos anos. a idéia foi minha. Você morreu. Cleto. ponderei. Saraminda ao lado. Você não lembra que eu fui em seu enterro. Então. romanceada pelo esquecimento. depois de uma vida de tantos anos juntos. La routine des jours . cambando para seu ombro. morreram suas paixões. o preço que você pagou merece respeito de mercadoria de coisa boa. com voz macia disse-lhe dentro dos ouvidos: “Olha. quando você está morto? Não me censure. Vou dizer e você pode não acreditar. senão hoje mesmo vão arrebentar a sepultura para tirar”. o momento em que. que parecia ladainha na quaresma. isso não pode ser. Fêmea como sou. É coisa de fêmea. essa história me perturba C disse Clément. não é coisa de puta”. “Quem vai roubar o cadáver de Cleto?” “Não. tanto tempo depois.” Era a procissão dos palpites vindos de uns e outros. um choro só. C Cleto. ele. quase de noite.C Estes teus seios são de ouro ou eu estou doido? C perguntou Cleto. * * * Naquela noite. “Não pode. estas coisas que você não sabe mais se aconteceram.

A noite caía. você está morto. quero logo. Recordava-se de que se tomou de valentia.” Abriu a camisa e mostrou para Tamba o peito de cabelos dourados. Uma lua nova botava a cara. eu vou embora. Eu espero pelo seu ouro amanhã. 52 . abriu a boca buscando a outra boca e foi levantando sua saia. Cleto sentiu. e você lá embaixo. A cabeça rodopiou. jogar na cova. eram as últimas lembranças da saída de Saraminda naquela noite. me mostra a navalha que entreguei a você.. pela primeira vez. C Não. o ouro desceu e se juntou no meu peito? Grudou.” Bonfim voltava na memória. misturar na terra. Não me entrego a você. C Seu Bonfim. Não há força que me obrigue.tomei a decisão e todos aceitaram: “Mandem buscar um martelo e um moedor de pilão. você foi sepultado. É tempo de você curar essa bebida e pagar os dez quilos de ouro. o ouro misturado. você não me pagou. C Venha logo. C Meu corpo é meu. Perdeu a sensibilidade dos braços. os olhos embaciaram. compadre. que pareciam de espantalho. Foi o único ouro que você levou. então. Não há como ladrão roubar”. Minha casa é na Rue Madame Payé. Não mostre nada. Lembrava a primeira noite com Saraminda: Cleto. bem moídas. rasgando sua blusa. faltoulhe força. depois de alguns meses de chuva. apertou-a. sentindo-o acompanhá-lo na morte. empurrando-a para a cama. não me force C falou com decisão e raiva. No lusco-fusco da memória. o poder dos mistérios daquela mulher. “Mas você não sabe que. Avançou. veja. “Estou aqui. não é seu. para reduzir as pepitas a pó.. quero vê-la. esse peito já não existe. Lembro as pazadas de terra no caixão. seu corpo era uma carne morta. imóvel. nós todos começamos a misturar o pó da pepita com terra e.

Quando acordou na manhã seguinte. o sol já ia alto. 53 . Saraminda havia sumido.

.

. ele está tocando sozinho. o moço de Saint-Malo. Não fale desse homem. que tinha o desembarcadouro de condenados e foi transformada em leprosário. não é ninguém. Kemper. Eles pensam que ser guianense é ser só de Caiena. desses que eu não sabia que habitavam cabeça de homem. é o Barba-de-Fogo. a Guiana é uma terra de paixão. o cheiro daquela mulher me persegue até hoje. É a floresta de lendas e sortilégios. É o sofrimento da escravidão. nas madrugadas quentes desta Caiena. Mas eu  Ilha dos Cabritos. Tipo nojento e asqueroso. mas não é Louis que toca. Fedia a traição. Nunca mais quero ouvir esse nome. em frente a Caiena. Devia ser descarregado como leproso na Ile des Cabris∗. mas aquele foi a pior raça de gente que passou pela Guiana. A Guiana era de criminosos e aventureiros. vá embora. o remoer da ingratidão da França. Não sei qual foi o diabo que o levou ao nosso garimpo. Tudo o que passei a fazer foi por desejo e paixão. “Não me mate de novo.” C Compadre Bonfim.6 Um pensamento fugindo “Compadre Clément. paixão ou aventura. O piano de Louis eu comprei para fazer minhas noites serem passado. É Caiena. Somos todos franceses nascidos de uma noite de porre. O resto são os outros povos.” C Bonfim. Ninguém saltou aqui sem ódio. Quando acordo.

“Eu não. Lucy. Saraminda foi a única mulher que existiu na Guiana. que foi condenado à pena de morte. Bonfim. Eu furtei o ouro do movimento para formar as volantes francesas. Aquela voz e aquele canto negro surgiram claros e melodiosos no silêncio da noite. compadre. ficaram encarcerados mais do que os deportados para o presídio de Saint-Laurent du Maroni. suas ilhas. 56 . nem de fazer penitência. Choram. gemem. Eu não deixei que saíssem. são assombrações. escorrendo lentos e tristes. É um desejo que não chegou ao fim. Saraminda nasceu no céu. Acabe seus dias em silêncio. eu vou libertar meu mais preso pensamento. eu também amei Saraminda. demônios que permanecem algemados na minha alma.” C Mas Saraminda era francesa. eu sou brasileiro. Eu seduzi Denara. Lucy. C Lucy. “Olhe. O piano começou a tocar. C Clément. quase que a estuprei. A sombra de Bonfim perambulava pelo corredor. As armas não chegaram porque não as comprei. eu quero libertar meus pensamentos C disse Clément. Clément Tamba. suas matas. C Eles estão presos.. Era Lês miroirs d'argent. gritam. C Lucy. presos dentro de mim.” Clément Tamba achou que os anos tinham feito com que ele pudesse participar dos mistérios da vida e da morte.. C Estou cansado de viver. filha de minha tia Greba. você não está na idade de se amaldiçoar. Ela não queria. pedem socorro. Eu a possuí. como se brotassem de lágrimas surdindo de muito longe. ela fez tudo para libertar-se do meu desejo. Tudo já passou. editada em 1847 e que ele possuía desde que chegou a Caiena. Você esquece que. não me mate uma vez mais. Não são segredos. na beira do mar. velha canção da Bretanha que tocava na sebenta partitura de Diougan.amo Caiena.

Era choro. Clément tinha os olhos nublados pelo tempo. Exalava um fedor grande que empestou Caiena e ninguém sabia o que era. C Lucy se lembra da chegada dos mortos da luta de Veiga Cabral. Quantas vezes pedira para morrer. C Fale. a espremer a saudade e fazer sofrer com o relembrar dos anos. C Um piano do passado. no remoer do tempo antigo. Mas esse sofrimento era tudo que lhe restava. Lucy assistiu ao desembarque. bem ali. O enterro foi à noite. Clément e Bonfim ficaram calados. quando segurava o rosto em suas mãos e passava longo tempo mastigando pensamentos. “Que sons são esses? Que piano toca?” indagou Bonfim. do sacudir dos ventos. e os dias se repetiam numa monotonia destruidora.Até hoje ele está. lamentação e tristeza. do Limão. compadre Bonfim C pedia. as horas eram outras. Bonfim. Ao longe.numa magia de sons. Está tocando dentro de sua 57 . ao sul do cemitério. Todos queriam vingança. Mais de cem anos. C Lucy. do Calçoene. Eram os corpos apodrecidos dos soldados franceses que chegavam com três dias de viagem. feridos e torturados. Essa guerra me trouxe de volta a esta casa. do Cunani. A corveta Bengali se aproximava do Canal Laussat. A cidade se revoltou. Eles trouxeram como despojos os mais ricos brasileiros do Amapá. ouvia-se no piano uma melodia francesa. depois para o direito. Tantas noites se levantava e punha os ouvidos em alerta. Caiena era só sofrimento. A noite ia e voltava. ali ao seu lado. No casarão da Rue d'Estren. é Jacques Kemper quem está cantando. trazendo a reboque um batelão misterioso. Era um troféu para o Governador Charwein. dos pássaros e do silêncio da casa. Foi nesse tempo que a visita de Bonfim quebrou sua solidão. Velas por todos os lados e depois um movimento para erguer um monumento aos mortos. Ninguém existia mais. estava cansado de viver. pintando na cabeça as paisagens desbotadas da Vila do Lourenço. a cabeça arriada para o ombro esquerdo. tentando ouvir os sons da mata.

jogando beijos. “Clément.. “Ah.” C Não. rabo comprido. fazendo bico de chamada. não quero macaco para ficar nos meus ombros. Bonfim. olhando. Ela recusou: Não.sepultura. me beija. as mãos batendo. Até que trouxeram um macaco-prego. Ele era todo faceiro e sem-vergonha. ouro ela teria de quem quisesse. Veio um meriquiná. um sorriso largo. Com vergonha. Lembrar-me de que Saraminda o amou mais do que a mim. ficam balançando. Ela lhe botou o nome de Nicomedes. e outros mais. Você foi o homem dela. é o piano do Louis. pediume um macaco de presente: Bonfim. Clément. dos pretos. dos que enrolam a cauda nos galhos e. Ela achou engraçado. outro jupará. Primeiro. outro macaco-de-cheiro. me dilacerou mais a alma do que aquele francês. “Aquele francês nojento. encomendava aos caçadores que me trouxessem macacos. não quero macaco pequeno. com ela esticada. Saraminda ficava na janela do quarto. nada me ficou de mais triste. Depois dos cachorros. Uma mulher como aquela não ficava como ficou.. no dia em que recebeu o vestido de Paris. se não fosse por uma grande paixão. no meio da solidão do garimpo. de longos braços. mas eu me lembro do olhar dela para ele. balançando. trouxeram um sagüi. Amarram-lhe uma corda comprida na cintura para não fugir e. de cabeça para baixo. das nossas noites no Chez Martin. “O ouro. dentro daquela casa. quero um macaco para pular nas árvores e eu ficar olhando. depois um macaco-cabeludo. compadre. compadre. E eu mandei pegar outro macaco. E eu mandei pegar um macaco na mata. sua.” C Não. Saraminda amou todos os homens. Foi longo amansar o macaco. pulava e brincava nos galhos de árvore em árvore. e Nicomedes pulando. só você. compadre. mas quem foi dono dela foi você. Bonfim. soltando 58 . Eu quero que você me dê um macaco para me fazer companhia.” C Não.

só créole. Nicomedes. Mas vai falar mais’. de tanto ouvir Saraminda chamar Nicomedes. o macaco parava.uivos. E depois de algum tempo. E sem ninguém saber por quê. Bonfim. você quer? ‘Me beija. mas gostava. a bicha dizia. ‘Saraminda. soltou um palavrão: Patate to maman ∗.”  Vamos embora. a papagaia chegou: ‘Saraminda. Ela sabia que eu não falava francês. tudo bem. merda. ∗ Puta que pariu. Ela já sabe dizer non ka pati. Ritinha tem uma papagaia. Quatro meses depois. lavadeira vinda de Caiena. pula’. tinha gosto em fazer seus desejos. E Saraminda ria. mas ela pediu em francês. E eu fui e fiz assim. E eu contratei a velha Ritinha. eu tinha pena de mim. Dei-lhe o nome de Xaxá. papaco’. desses que falam. todos se divertiam. eu tenho uma papagaia fêmea. emerde. Compadre Clément. me traz um papagaio. Mas pede para ela ensinar a chamar Saraminda’. eu quero. para ensinar créole ao papagaio: ‘Seu Bonfim. enquanto Nicomedes pulava e Leão da Rodésia rosnava. fingia que tinha medo. Os cachorros latiam. Ela ria feliz e brincava. sachant déjà quelques mots de créole’. De outra vez ela quis um papagaio: ‘Bonfim. misturava: ‘Saraminda. feliz. urupaco. pa ni problem bom e to ka emerde mo ∗. 59 . ‘Vou saber de Saraminda se ela aceita papagaio fêmea e depois respondo’.

.

7 Os relógios que não andam A noite voltava e o amanhecer não chegava. Quando eu quebrei a caixa do meu amor por Saraminda. Mas o tempo parou e voltou a anoitecer. tem ciúme. Tocavam os relógios horas próximas do amanhecer. tem amizade. Foi uma festa em Caiena. Clément Tamba estava exausto. C Lucy. Saraminda era um desejo que não se sacia. O cansaço de viver arrastava-se com os pés. Só ficou esse cofre que Ledério. Os ponteiros davam voltas contrárias. dominava seus movimentos e a solidão da alma. coloca a navalha dentro do cofre. O fio da sua lâmina me corta o pensamento. E como se os relógios recuassem. é vender a sorte”. não entendi por quê. Nada queimava mais o pensamento dos homens do que imaginar seu corpo nu no varandão da casa. Eu não devia têla tirado de lá. . disse. Ali começou a minha loucura. não me deixou vender. tem de tudo. Clément quis abrir a janela para ver a alvorada. Dentro do amor tem desejo. A noite voltava. tinha apenas silêncio dentro dela. cantarolando e se remexendo. Recordo-me de quando cheguei do Calçoene e fiz a reunião na minha casa para levar gente para garimpar. a obsessão de deitar-me com ela. Lucy. iam e vinham. tem carinho. não era amor. tem paixão. C Você amou aquela créole vagabunda? C Não. Vendi tudo. retrocedendo as horas do dia e da noite. “Cofre não se vende. Dentro do silêncio.

dormindo. C Ledério me acompanhou sempre C recordou Clément. não. meu pensamento parou no seu corpo. Era de um preto-azulado claro. cuja alma não se libertava de Clément. mas me convenceu de que tinha de ser diferente. era la couleur. O sorriso era manso. Até hoje não sei se foi feitiço. sem qualquer erro. Quando a vi. não a recebemos de graça. a língua dos bonis. que brilhava. Quando a vi nua. ele falava taki-taki.” C Você entregou o ouro a Saraminda na noite em que dormiu com ela? “Não. mas preso. estranho. as curvas e todas as partes arrumadas. Sempre se recusava a ser chamado de créole e justificava: “Nós lutamos pela liberdade. Aí ela foi para minha cama. Eu morava na Rue du Fort. foram livres por lei”. Às vezes. Voltou depois que acertei o pagamento. Era mais do que mulher. até o dia em que desapareceu no labirinto da floresta. Mas eu estive com ela no outro dia. era ouro. Era mais uma vez a presença de Cleto Bonfim. Os créoles. para fugir da escravidão dos homens e ficar na escravidão da floresta. Mas eu não sei partir.Ledério era um preto marrom. aquela grande curva que circundava o pé do morro da fortaleza. A porta rangeu. você de novo? “De novo. Clément. ela não quis deitar comigo. eles fugiram da luta. os boschs que tinham fugido do Suriname e se embrenhado na floresta. C Ficou comigo a vida inteira. Tamba. C Compadre Cleto Bonfim. faz remoer meu ódio e minha paixão. Mulher estranha. cujo avô trabalhou na expedição de La Condamine. assim como se fosse ajuntamento de noivos. Trazia de um modo estranho toda a carga do feitio dos pretos do bosque. abrindo-se lentamente. o piaille ∗. Você sempre me tira da paz. Eu já estava bom. Quis me levar à loucura: tirou a roupa e deitou-se ao meu lado. Nada mais belo do que a mulher negra. 62 . Quanto pesava?  Magia negra feita de encomenda. como já lhe disse. ou se ele quis voltar à selva. como seus avós.

Coitado do Jean-Louis. Disse-lhe que queria dez quilos de ouro em barra. As lágrimas desciam lentamente. Para cumprir meu trato e as exigências dela. Será que Saraminda aceitaria um certificado de depósito? ‘Seu Cleto. Laurence. indaguei: ‘Saraminda. matou-se porque sua mulher. que é velha sabida’. fugiu de volta para a França com um oficial da Gendarmerie. Clément. Eu sempre trazia ouro. Nosso embarque para Paris foi ontem. foi nesse dia que eu vi pela vez primeira que ela era toda livre. A caixa quebrada de seu amor abria mais esse desejo de ter vivido aquela noite. pergunto se você aceita um certificado do ouro que lhe devo. passado pela Companhia. no navio Dauphine’. Mas eu não tinha 63 . respondeu. É a mesma coisa que ouro’. Era um cavalo preso. como é bonita a mulher créole!” Clément começou a chorar. sem acompanhamento. tem a garantia. Tinha nome de flor. Meu desejo era forte. Eu nunca esqueci o nome desse navio. como fazendo pouco caso. sem poder me mexer. ‘Me entregue e eu vou falar com minha avó. O gerente me recebeu com as mesuras de sempre. mirando o passado. O homem que falava era o Monsieur Jean-Louis Lefèvre. ‘Seu Cleto. Ela era muito fêmea e tinha os cabelos puxados a fogo. encantado pelo seu feitiço. O senhor sabe o cuidado que nós temos. Quanto o senhor quiser. Um dia na sua casa tomei um vinho de Bordeaux e vi que seus olhos inquietos eram de mulher que ainda não acalmara a alma. o valor que quiser. nós lhe damos o certificado de depósito. Pode sacar francos ou libras. Por isso aquela coisa que ninguém no garimpo compreendia e o gosto dos cachorros. nós não temos. hoje. pois é grande vendedor nosso. Ele ficou espantado. fui à Companhia. os olhos fechados. até das vestes. Mulher de desconfiança e cheia de nós. “Quando ela voltou. ‘Não sei muito dessas coisas’. tem todas as regalias e confiança de nossa casa’. é muito perigoso o senhor sair com ouro assim. mas ouro. Tempos depois desse encontro. “Clément. agora queria levar.Cinqüenta quilos? Eu ia pagar dez.

Não era pelo ouro. Saí à porta. por causa do sofrimento das almas dos reis bantos. Coisas da África antiga. A cidade estava dormindo para mim. olhei para Caiena. Eu lhe entreguei o documento. Estava engaiolado. era por ela. Ela não quis ir à Société.como fugir. tão bela na sua tristeza. Foi uma longa espera da minha vida.” 64 .

Ouvira do companheiro. mas guardava as marcas dos seus tempos do cais. Saraminda recorreu a ela para aconselhar-se. o relato do sofrimento das viagens. não entendo dessas coisas. C A senhora guarda o valor que recebi enterrado debaixo de seu catre. quando as mulheres ficaram escravas de compra como os negros. Na pensão. Não entendo nem quero entender o que foi essa sua sorte. Mas leiloar mulher para ser de homem é coisa nova para mim. nunca ninguém viu ouro. minha sorte me persegue e não vou me libertar. Eu vou para o garimpo. sofrera a penúria dos anos de decadência. por tradição oral. C Saraminda. no caminho da morte. onde recebia a visita dos filhos. dos netos e dos amigos antigos. C Arrematada? Isso acontecia no tempo da escravidão branca. São dois quilos de ouro e um papel do banco. o preto saramaca Wandero. Se eu . C Fui arrematada por dez quilos de ouro C disse a neta. eram frações de franco.8 Ouro debaixo da rede Balbina era velha. Recolhida por velhice e invalidez. Dona do mais antigo bordel da cidade. Sua avó está velha. a perseguição na selva e nos quilombos. eles não pagavam nada. conhecia bastante essa vida. De onde você tirou essa história de ouro de banco? No meu tempo. a não ser nos cordões sujos e pequenos de metal falso. com quem nunca se casara mas tivera oito filhos. morava num cortiço sujo. histórias dos escravos trazidos para os engenhos do Suriname e.

ela dizia: ‘Como você é liso. o seu corpo escuro dentro dela. coçando a barbicha: C Para que você quer ouro em barra? C Coisa minha C e não falou mais nada. no número 30. o senhor pagou caro. Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda. Bonfim fez a sua vontade. Sou mulher de vergonha. e uma camisola de dormir.não voltar. a voz macia. ela ponderou: C Seu Cleto. Ele continuou: “Eu soube o que era o amor. Recordava aquele dia. editado em Paris. Ele indagou. mas quero dois quilos de ouro em barra C foi assim que Saraminda acertou seu trato com ele. “Foi assim que ela me convenceu a comprar um vestido de noite. enrolado em veludo. parece couro de lontra. bordado de miçangas. cor da lua. desconfiado. recebo o papel. Prazer de coisa de amor de gente que se junta. já sou sua. Suas mãos me cobriam escorregando. Lê Seul. ela pedia como quem rezava. * * * C Seu Bonfim. e um riso de quem não tinha pecado. Bonfim’. depois de receber o ouro e o documento do banco. Me beija. C Paguei. Não posso esperar mais. Como brilhava naquela noite. entre branco e azul. C Você me tem na hora que quiser. quero receber. na loja que distribuía na Guiana o jornal de modas de senhoras. quando. da Rue de Lille. compre casas para seus netos. E eu fui 66 . cheirando a patchuli.” Cleto parou. Clément esfregava as mãos. que era a referência das costureiras da cidade. a mais cara que tinha no comércio pobre de Caiena. Não acha que nosso encontro não deve ser um negócio de bicho? Eu quero que você tenha alegria e felicidade. de brilhante branco. que comprei na Rue Lallouette.

Ali estavam os bicos dos seios que eu apenas tinha entrevisto. Lembrome de ter trazido o copo de água. E ela: ‘É para você descansar e não passar o tempo’. Não quis beijá-la. ‘Bonfim. Tremia. estou suando’. Eu não via direito e levantei para aumentar o morrão. Ela ficou quieta. Não me lembro de ter ouvido sons. Saraminda. e sua pele era quente. O candeeiro estava ao pé da cama. artista do bonito. ‘Bonfim. assim junta e sussurrando. subindo e descendo. enlaçando o pescoço. acariciando os ombros e as costas. roliças. O quarto foi invadido por raios de luz de fim de tarde. não’. altas. Quando baixei a vista no seu corpo e vi aquilo. vem devagar’. faiscavam como tição. Meus desejos galopavam. Sua luz caía. E via as pedras verdes. quero um copo de água. As pontas eram grandes. amarelos como ouro bruto tirado da terra. deslizavam na sua pele. cor de noite enluarada. estou com sede. Minhas mãos deslizavam. Libertei minhas mãos para que me guiassem a cabeça. encostei a cabeça no seu pescoço para descobrir os caminhos que me conduziriam até o garimpo. quero seu suor’. passeando no ventre. é melhor devagar. com medo de ser trapaça de meus olhos. Saraminda’. quero ver teus olhos’. A luz do quarto estava forte. não quero você com água. duras. Beijei-as. E minhas mãos recomeçaram. E ela quis refrescar-se com o resto da água e eu gritei: ‘Não. Bonfim’. ‘Vem devagar. Elas encheram minha boca e se derreteram. 67 . Eu estava frio. ‘Não. Procurei a pele da barriga para apertar. e ela era uma cobra sucuri que se enrolava em mim e fugia sem fugir. ‘Saraminda. alumiava alto e diminuía. ‘Bonfim. mas ainda não chegavam à beira da montanha do Salomoganha. e mudavam para um lado e para o outro. encostei a vista. E minhas mãos frias desceram sobre seu corpo. mas não achei. água agora. venha devagar’. Baixei bem a cabeça. passavam por caminhos já percorridos. ‘Bebe. mas do brilho trabalhado por mãos de ourives. Mas não ficou aí minha devassidão.implorando para ela se entregar. deixei que eles parassem bem em cima. Era frenética a emoção da chama do candeeiro.

muitas e fortes. Não quero saber. Olhei. quero que veja o dia e a noite dos meus olhos. a voz macia de reza que era tão boa de ouvir. andorinhas na ventania. babosa. Eles fazem muito gosto disso. sem terra. quando elas amam. Nas partes altas de mulher. “Você precisa saber. Minha ansiedade começava a ser coisa-feita.Olhei para dentro de mim e vi o olhar de felicidade e de plenitude de Cleto Bonfim. “ E eu mais ainda. ‘Você é índia’? ‘É pinta que vem de minha avó. com suas confissões e picardias. Minhas mãos tocaram. ‘Saraminda’! gritei. desceram aquela corredeira de limo molhado. Volte para seus infernos. ouvindo esta conversa do que ela dizia. Bonfim. avalie Deus o sentimento de loucura que me 68 . “Clément. lisa e mais escorregadia do que semente de linhaça. e volta a honra. nervoso. Mas. só ouro. nem minhas noites de turbilhão e mistério. Eu já não tinha cabeça. Não quero ouvir suas intimidades. a virgindade volta. a virgindade para os homens é mais forte que para as mulheres. C Mulher de bordel virgem? Você ficou besta demais. “Saraminda era virgem!” exclamou Cleto Bonfim. nem água. que me perturbam C disse Clément. ‘Seu Bonfim’. Minhas mãos estavam soltas. preciso descarregar.” C Cleto Bonfim. amores loucos. eu estava invadido por uma felicidade-surpresa que não tinha limites. eles faiscavam. mesmo possuídas. É coisa que em mulher não pesa nem aparece. amor. As surpresas e novidades vieram como as chuvas de janeiro. Era como se eu tivesse aberto um garimpo novo.” C Bonfim. Não se sabe quando tem ou não tem. ‘o senhor é meu dono. Ela está é na cabeça. você está contando coisas que não deve. compadre. Sabe o que aconteceu?” C Não me conte. Não posso guardar meus sonhos nem minhas passagens. Isso tudo está dentro de mim. pesa. escorregaram. Era como costas de jeju. paixão. nem plantas. Saraminda não tinha pêlos. coisas de seus romances. Ela também é assim’.

aberto. Saraminda entregou-se na flor da pureza. mais aninhada do que juriti.” Cleto baixou a cabeça. Depois a ergueu bruscamente e disse devagar: “De noite chegou. 69 . goteiras na madrugada. Os tormentos e lamentos da doce mistura faziam a felicidade limpar meu rosto. tropas. Fiquei alucinado. “Foi verdade. ondas. Cleto. Clément. tomado de uma comoção sem freios. garças voando. ventos e marrecos nas carícias. Naquela noite. e fui eu que corri e apaguei o candeeiro. mentiroso devasso. ela em minha cama. batendo. Saraminda era a cobra e a anta nova. Lucy perguntou: C Que aconteceu com você. sem fim.” Clément levantou-se e chorou. batendo. e a boca do dia mais longe. Amanheceu. Era um campo verde. homem? C É dor de quem não se banhou na água da cachoeira nem jamais sentiu o gosto de uma abelha-rainha. cachoeiras. tudo de amor. era mulher”. As guas caíam. Era destino. o coração disparou. frio das gotas da noite. chuva que não acabava. era moça.invadiu. tropeiros. cale-se. Guardou-se para mim. C Não.

.

Era tudo diferente. o meu ouro. As luzes da noite passavam e seus rostos já não eram mais os mesmos.9 Um amor em viagem Como eu recordo a viagem para o garimpo do Lourenço. Quando chegava. e eu em mandá-las embora. não. A mulher se tornava uma boneca frágil. mudava o ambiente. Não era uma viagem. Minha força impunha a ordem e as desordens. secos. a curiosidade surgia. Não . falhados. Eram garimpeiras da alegria triste. os homens se excitavam. da aventura. As mulheres estavam feias. e isso não saía da cabeça de todos. Não era nada que na verdade justificasse distrair a cabeça de um homem. Ponta da minha vaidade. porque ali era proibido mulher e jogo. dentes desalinhados. Nunca foi uma viagem. Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar. Quantas vezes fui a Caiena? Quantas mulheres levei para Calçoene? Era sempre uma festa. e eu gostava de trazer as mulheres para o garimpo. depois que ela veio para mim. da tristeza. amarelas. preparava tudo para que me divertisse. Eu podia tudo. Mas eu podia. As mulheres vinham sonhar com o futuro cheio de gramas de ouro. Nada disso se percebe na noite. Eu. Sabia quando eu chegava. Elas embarcavam pensando na volta. Marie Turiu se encarregava de arrebanhá-las e enfeitá-las. Eu estava numa felicidade que crescia cheia de coisas estranhas.

” E foi agarrando meus cabelos. e me deu uma sujeição tão grande. Logo eu. E eu vi. não sou mulher costurada. como alguidar. a voz de reza. aquele campo sem capim. não. Era um beijo gordo. quebra-se e compra-se outro. Recebiam em Caiena. Se já não houvesse um feitiço mudando Cleto Bonfim. eu nasci sem um grama. surra de cinto. me olhe. Eu. Os olhos verdes no corpo preto. Mulher nenhuma me prendeu. E ela. empurrando minha cabeça. me amarrou nem teve coragem de levantar a voz ou dizer não.tinham que ir à bateia. puxando e abaixando. Bonfim. Mas me deu felicidade.” Sempre julguei que elas eram como prato de louça. Sou como a natureza 72 . Seu Bonfim. “Quem lhe ensinou essas coisas. e isso vale. Mas ela falava como se tivesse de morar firme no garimpo e ficar comigo. Eu sou. Mas eu não era mais eu. troca-se. coisa de ajuntamento para valer. Que história é essa? Paguei para dar vida ao garimpo. Mulher nenhuma nunca pensou que eu não fosse mão aberta com elas. fiz coisa nojenta que nunca pensei fazer. beijando porcaria de mulher. “Sou sua. como essas moças de Caiena que querem enganar os homens. me veja”. pontapés. eu sou sua. sempre quis mulher no meu ouro e não no meu coração. você me fez coisa sua. eu era Cleto Bonfim.” “Minha. o escorregadio de cobra me enfeitiçaram. ela suspirou pedindo ar. Tudo mudou quando Saraminda me disse que eu não deitava com ela. os seios amarelos. bogues e mandava embora. O caro foi minha vida e essa mulher pregar-se em mim. senão depois de receber o ouro. você pagou”. eu sentindo o cheiro do seu corpo. que eu beijei. A voz de Saraminda: “Seu Cleto. Mas ela pediu: “Cleto. põe-se outro no lugar. “Me beije com vontade. passando a mão em minhas costas. se você era mulher que homem nenhum tinha conhecido?” “Bonfim. Dez quilos de ouro não foram nada. Foi a bebedeira que me custou a vida. uma vontade de fazer carinho. eu tinha lhe dado uns tabefes. Só é meu o que eu quero e eu nunca quis mulher minha. Quase sempre eu me enjoava delas e as mandava embora.

Eu. barris de banha de porco. Tive muitas. pólvora. barba de fogo. sacos de farinha.fez. espingardas. Cleto. tive mulheres dos chinos de Caiena e marajoaras do Pará. Eu sempre fui macho. peguei aquela mão de dedos curtos. Mas enjoava logo. paneiros e mais paneiros de gurujuba seca. Uma vez me juntei com uma índia e com outras de que não me lembro. as alouradas me cansavam os olhos. mesmo da vida. até aquele dia em que eu desconfiei de Kemper. e mulatas de trejeitos e caboclas abertas. que fosse na nossa frente para ter o domínio das águas. tinham a pele de osga. temperos e muito sal. Uns 73 . eu quero entrar na canoa. Uma dessas. Bonfim. baixas de corpo bem-feito. feijão. esperamos que o leito subisse. Ela sentou no banco perto da popa da canoa. me lembro do desembarque no porto do Calçoene. Eu conheço muitas bruxas que fazem tricô em mulheres. Eu. bonitas de rosto. mulher livre de garimpo. e muitas eram enxeridas. Os remos começaram a deslizar e iniciamos a viagem até a segunda cachoeira do rio. Os garimpeiros ficavam de cabeça alaranjada. muitas vezes tive mulheres de todos os tipos. Carreguei nos meus braços mulher comprada. agordados. “Me segure pela mão. um grupo saiu para atacá-la na mata e foi oito vezes possuída. Eu respeito mulher e mulher nunca tomou liberdade comigo. fez tanta coisa que.” Com cuidado. quando voltou. e outras guianas sararás. arrebitadas.” Eu não gostava de créoles e gostei dessa. se deve respeitar. outras holandês. Algumas de sangue francês. aquele nojento. com a palma cheia. de nome Tatie. Mulher. cabelos longos. que colava na mão da gente como se fosse o corpo todo. Eu soube e mandei dar em cada homem trinta chicotadas de pau de goiaba para punição e exemplo. Ficou muito machucada e apostemada da bondade. dessas que vinham atrás de condenados. de aventura mesmo ou deserdadas da sorte que eu levava para meu barracão. irmãs. charque. Eram muitas embarcações com mantimentos. caixas de querosene. Lá. Seu Bonfim. mulheres deles ou da família deles. Esse foi meu jeito.

Aí eu vi outra bondade. Não é da minha conta”. Não sei por que fui comprar penico. Comprei também um penico grande de tampa para que Saraminda não fosse no mato. coisa que nunca fiz com ele. “Compadre Cleto. De manhã. beijar com força. Confecções de tipo variado. mas queria que ela não mostrasse suas partes. Era um penico alto. sentou-se num banquinho e se encolheu toda. Trago o que quero. pousada numa estaca. mas me controlei. Bonfim. no buraco da latrina com aquele cheiro danado e as minhocas fervendo embaixo. Bonfim. meu amigo. ficar deitado nele. fico calado. Estava como se fosse uma andorinha molhada. Tive vontade de beijar. os empregados vinham e levavam a porcaria para despejar e lavar com água fervida. Tudo nela era beleza. Eu. você só trouxe essa créole?” perguntou Astrolábio. moscas. já estava perdido. e ela depois quis a novidade de lavar o urinol com água de hortelã. O pescoço era de um preto esbranquiçado e brilhava. nunca sentei em penico. varejeiras. Nossos homens atolaram até o joelho no porto de atracar. Mas fui duro com Astrolábio. aonde todo mundo ia. Eu. nem para o chão. não dei modos para não verem onde estava minha bestitude. O cabelo descobria-lhe o cangote roliço. quando desembarquei: “O que houve? Aqui no meu porto você nunca voltou senão com um batalhão?” Era meu representante. não gosto de liberdade. também azul. Ele saiu de lado: “Pois bem. Sempre fui homem de força e não gosto de mesuras. cortei o comentário: “Compadre. Mas levei. Não sou fresco para mijar sentado. onde se pegava para suspender. de beira azul e tampa com uma bolota no meio. sem dar satisfações a ninguém”. toda triste. Mas ficou tão contrariado que ainda me lembro de sua cara. Não lhe dou o direito de falar da minha vontade nem da minha vida. fazendo necessidades no chiqueiro.fardos de brim de algodão grosso para dólmãs e calções. mosquitos. Seguraram o bote e foram retirando a mercadoria para preparar a 74 . grosseiro. Saraminda saiu. Iam também os remédios e purgantes Le Roix e Água Inglesa Aubert. dono do comércio no lugar.

mercadoria minha? Por que perguntar? Logo senti que meus pensamentos mudavam e que agora minha mente era um depósito de perguntas de desconfiar e duvidar. racharam os pés. ela perguntou. que era como mulher qualquer de alegrar as noites quentes do garimpo. indefesa para aqueles lugares. molhado e frio. Era um caminho longo. quero dizer. capaz de enfrentar tudo. “Saraminda. mais de semana de viagem. dormir debaixo dos paus. Eu já estava certo de que ela jamais voltaria. cheia das surpresas da floresta. uma pergunta que me deixou sem resposta: “Seu Bonfim. eu disse. preocupado com aquela créole. você já andou nos caminhos da mata?” “Nunca. Mas agora eu só pensava nela. pegaram malária.” Que diabo. Seu Bonfim. atravessar rios. os dias de subida do rio. Saraminda não perguntava nada. poderia gastar os pés. riachos e alagados e lutar com os mosquitos. julgando ser Cleto Bonfim: “Quanto eu quiser”. Eu não devia ter falado o que falei. que eu era dela e não a largaria nunca. entre a mataria grande. sentir o silêncio aterrador da floresta. arrependido. de onde muitos não retornavam. a estrada de pântanos. andaram. Queria que fosse sempre minha. Em minha cabeça a felicidade estaria quando eu fosse leiloado: “Quanto dão por Bonfim?” e ela dissesse: “Dou vinte quilos de ouro e toda a minha vida”.viagem na mata. me parecia frágil. na sua cabeça não estava ficar comigo para sempre? Como falar de tempo para voltar? Sem me assustar. Por que ela perguntou? Era para saber de meus desejos sabendo da minha fama? Ela não tinha dito que era minha. Quando que me preocupei com viagem de mulher? Quantas vieram. Minha resposta devia ser: “Nunca você me abandonará”. quanto tempo o senhor vai querer de mim?” Tomei um susto. E eu. ou voltaram do meio ou não voltaram? Isso nunca foi minha preocupação. caminho sujo. Será que já estava pensando em me deixar. Ela ficou calada e eu. Bonfim. ficaram na estrada. queria que 75 . Aquela créole que me inspirava ser uma força de aventura. O garimpo ficava longe umas trinta léguas.

“Bonfim trouxe uma créole na taboca. Seu Bonfim. que não pegasse febre. Celestino.” Mulher danada. toda dengosa!” Isso era vergonha. Dona Saraminda. apalpando seu corpo e. senhor. Foi quando me veio a idéia de levá-la na taboca. Do jeito que o senhor quiser. Como poderia beijá-la ali? “Aqui não pode. E recrutar os homens? Teriam que ser no mínimo oito carregadores para as oito horas diárias de viagem. Todos foram para o barracão de comer. resoluto e enérgico. providencie oito carregadores bons. como se transportam os doentes e velhos. dando ordens: “Preparem uma rede nova. Bonfim. mulher de garimpo.” Ah. Cleto e Saraminda caminharam para dormir na casa de Astrolábio. Mas eu. Dona? Onde Cleto estava com a cabeça? * * * A noite chegou. você vai na taboca. no quarto onde tantas vezes ele ficava nas paradas de 76 . acariciando seu rosto. Não por carregá-la. uma taboca grossa e firme.não ferisse os pés. mas pelo tratamento de ‘Dona’. com mosqueteiro de filo e abanos de pindoba. que não tivesse medo.” “Sim. Me beije. que estivesse sempre alegre de minha proteção. os homens a olhavam desconfiados com cara de sorrir e sem dúvida matutando: “Que diabo Bonfim está fazendo com essa mulher?” Mas ela era ardilosa: quando dei por mim estava beijando seu pescoço no quarto da quitanda. que seu sangue não fosse comida de carapanã. “Saraminda. E mais dois para o eventual de alguma baixa. depois.” “Me leve para o depósito da quitanda. Essa créole. o que já era muito. de passo macio para levar Dona Saraminda para o garimpo nas etapas de chão”. Foi uma surpresa geral. ter coragem de falar aos homens que ia levar aquela mulher na taboca? O que não iam pensar e dizer? Era comprometer minha autoridade no garimpo com essa fraqueza por mulher.

de varandas de renda. 77 . no outro dia. Dela retirou uma rede branca de algodão. Cleto se espantou: “De onde você trouxe essa rede?” “Comprei para dormir com você. abriu-a lentamente. deitou-se. Foi aquela a primeira noite em que sentiu o selvagem calor da floresta.desembarque. coisa estranha. Bonfim. bela e fina. feita de linha inglesa que luzia como se fosse engraxada. sob a luz da lamparina de morrão. De manhã cedo.” Armou-a com fortes nós nas escapulas. Cleto olhava. coisa rara naquele mundão perdido. o suor grosso do corpo de Cleto Bonfim. Saraminda pegou sua trouxa e. madrugada escura e o encontro do sol no caminho. despiu-se. a úmida vaselina da carne derretendo nos vapores da mata. era a hora de pé na canoa e na estrada. apagou a luz e suspirou: C Vem.

.

de lapada. atrás dos coriscos. enfeitiçado com os engonços dessa créole. Cubra o espelho. Fugia o sol. aqueles carneiros pretos crescendo. enchendo de lã escura o horizonte do céu. Tudo começava quando eles vinham. me beije”.” E suas mãos postas em reza enquanto pipocavam no céu os rojões da morte. essa minha paixão que me tomou os ossos. carregadas pelo vento. E lá vinha a chuva. Era nas tardes que sempre chovia. começava uma luz triste. Venha deitar mais eu.10 Os dias em que o céu era vento Quando foi o dia em que nasceu meu desvario. era uma cortina de . olhados caindo em pingos e não pareciam água. logo depois aqueles rebanhos de montanhas pretas gigantes passando para lá e para cá e o vento acompanhando forte. Eu. As chuvas no garimpo. aqui na cama. os pássaros fugiam. aqueles riscos que ligavam o céu e a terra. A mataria era só agitação. as tempestades e os trovões. “Seu Cleto. quebrou as pernas de minha cabeça e me fez charco? Deve ter sido quando apaguei o candeeiro. Cleto Bonfim. espanando as árvores. “Seu Bonfim. de rajada. a gente via a bicha chegando. voavam na frente das nuvens pretas. faíscas cruzando a mata e os ribombos dos elementos. os galhos balançando como se fossem quebrar e as folhas correndo loucamente. tenho medo de raio. ao sabor dos redemoinhos. depois um cinzento de nuvens. e não me deixava dormir.

borbotões grossos. porque ela tinha seus dias em que só me recebia de manhã. querendo que não fugissem de minha cabeça. e eu na rede. como saias. e os demais à noite. preso pelas amarras daquela fêmea que tinha o cheiro da chuva. “Eu não tive mãe de carinho. tudo escuro. vestidos feitos de água. “Seu Bonfim. os estalos dos raios fedendo a enxofre. segurava suas mãos. escondia as árvores. Larga tudo. e sua boca abrindo. e a caravana de nuvens troteando no alto do nosso barraco. me proteja. com o carinho todo. E eu deitava e assim queimava a sarrapilha da minha lontana. tudo triste. e pedia que não tremesse. invadia a floresta. Quem me deu afeto e ternura foi minha avó Balbina. me cubra com meu vestido de seda. de quando você era criança. me leva para cama. outros à tarde. e chovia chuva de tarde inteira entrando na noite. que espanta raios. eu tenho medo de trovão.” E ela debruçava a cabeça no meu colo. o tempo todo. Os 80 . filhinha. E então o chuvaréu descia. um leito de gotas em fumaça. E quando ela mandava portador me chamar no barracão: “Diz a Cleto Bonfim para vir urgente aqui”. “Seu Bonfim. querendo ficar ali a manhã toda.” E depois. deita comigo”. protegendo-lhe o corpo. guardadas a sete chaves em cofres de chumbo. em pencas. derramando palavras que eu juntava nos meus ouvidos e brincava com elas.” A voz era de anjo. e alisava. E era tudo cinzento. “Me conta. zoando nas folhas. tapava tudo. um chiado firme. me olhando. eu. Bonfim. sem vontade de sair para o trabalho. e surgia o pé de trovão. como se fosse carícia mas de mãos violentas. me guarde. o garimpo me esperava. história de tua vida.” E eu a cobria enrolando os pés.véus cinzentos. eu sentado ao seu lado. as manhãs abertas de sol. o dia todo.” Era de manhã. “Bonfim. besta que nem tamanduá. E eu ia e ela me dizia: “Cleto. e eu mirava os olhos verdes de onça preta me olhando. não se enxergava mais nada. besta que nem jumento em beira de rio. eu estou desejando você.

e eu ficava doido. 81 . galinha velha. Depois: “Seu Bonfim. embaixo. Não sei se foi feitiço ou bobeira de homem enrabichado. atrás de rezadeira. Vila Nova e Aporema.” Ela se mostrava e contava essas histórias para me prender. raiva de ter ciúme. que preferia morrer de morféia a perder Saraminda. mais besta do que boi morto. Foi a primeira vez em que me falou em ter um filho e nunca encheu a barriga de menino. desde o garimpo do Chiqueirão. Só então vi meus peitinhos que nasciam.tempos de suas crenças nos astros foram outros difíceis. passando pelo Lourenço. eu não quero o senhor de bigode”. mas não tinha jeito. e eu deixei. sem suas noites. Seu Cleto. Bonfim. Não era por mim. e o besta foi raspar. Eu precisava matá-la. Foi no dia em que me falou do seu corpo de menina que ela me pediu o vestido. jacaré no choco. Foi quando comecei a me perguntar: “Será que Kemper alguma vez tocou o corpo dela?” Só essa idéia me levava à loucura de cachorro perdido. Eu. porque nunca nasceu. Depois que Saraminda se entregou para mim. deixe crescer o bigode”. Sempre fui despojada. vaca atolada. Bonfim. Queria seguir as educações da benzedeira em que ela acreditava. Bonfim. tomando banhos de erva. Eu. outra mulher não tinha mais gosto. eu via que não era igual às outras mulheres. “Seu Bonfim. Descobri meu corpo quando tinha oito anos. Meu ódio por ela eu não sei quando foi. Minha raiva era amor. que aquela miserável bruxa me receitou. Tinha lua nova e lua cheia. Fui me banhar no poço e me olhei nua. já despontando o amarelo dos bicos e. Eu. sem suas rezas. antes que ele a tocasse. pois emprenhei oito mulheres. não podia me receber no quarto minguante. “Vou lhe contar a minha infância. mas eu não podia viver sem tocá-la.

.

vou matá-la’! Eu. os paus serrados que eram os bancos. ‘Saraminda. as flores do mato. pelo amor de Deus.” Clément interrompeu: C Compadre Bonfim. ela estava tomada de um pavor estranho ante uma aranha-caranguejeira preta. Seu Bonfim’! E quando eu vi. Seu Bonfim’. o olhar no espelho. essas histórias já estão perdidas no . onde passava o dia todo mirando-se. Cleto Bonfim. com as pernas alongadas. um cheiro bom que invadia o barracão. que em passos intermitentes caminhava perto de seus pés. nunca mulher nenhuma me fez cócegas. não tenha medo. e tudo foi ganhando um perfume delicado e longo. sujeito a esses modos delicados que jamais pensei ter. Eu. indefesa: ‘Bonfim. coisa que não tinha fim. “E o que aconteceu um dia depois da sua chegada? Ela chorava. que sempre fui duro e firme. virando o pescoço. Eu achava que aquilo era bonito e simples. e perguntava: ‘Você está feliz’? ‘Estou. os enfeites de galhos de árvores e o encanto do espelho pequeno que ela pregara na parede de tábua.11 Um vestido de noiva “Nos primeiros dias. E ficava cismando. as mãos começavam a colocar os objetos. E comecei a pensar como seria guardar aquela mulher naqueles silêncios da selva perdida. vendo que vendo a si mesma. Primeiro. deslocando a cabeça. a mata cheirava.

cacau pilado. pára de falar só. Rejeitava a luz. uma figura de mulher. “Quem é você?” “Sou Artônia. quando voltei do Calçoene. O negócio que mais rendia era a babugem de vender para a França nozes de perfume. Não gosto de ouvir o passado. O incêndio de 1888 tinha acabado com a zona do comércio. Você está caducando e repetindo sempre essa história que todo mundo sabe de sua volta a Caiena com notícia do ouro. água-de-rosa. estas coisas me causam tristeza e abalam minha velhice. ninguém acreditava que tinha mais ouro na Guiana. O mistério da minha morte me persegue. alma penada C disse Clément. bordada a fogo com flores de rosa. trouxe cinco quilos de ouro. * * * Ao lado de Bonfim. grandecinzento e grande-grosier empalhados.passado.” C Vai em paz. e foi preciso eu colocar em cima da mesa para que vissem que havia ouro no Contestado do Brasil. Por que ele mandou me matar? Se eram ciúmes de Kemper por parte de Saraminda ou de Bonfim com medo de eu matá-la. C Estou conversando com Bonfim. que tinha medo do meu poder de adivinhar. o mercado. aquele navio que fazia a linha da França e tinha como comandante o Capitão Edouard. Caiena tinha onze mil almas. Você não se lembra.” “Por que você veio me visitar?” “Porque eu estou atrás de Bonfim. do mestre Francelino. Lucy pegou a toalha velha e caminhou para a bacia de cristal azul. urucu em pasta e rapapa. Seu rosto estava coberto e ela escondeu-se nas sombras. 84 . Era pequena demais. e eu chamei o povo todo. pássaros como aigrette e grande-branco. se foi ele ou Saraminda. e pediu: C Clément. a polícia e a Prefeitura da Place Gambetta. Pare. a feiticeira. Eu tinha chegado de Calçoene no barco chamado Fé. O tempo antigo é sempre cruel. Quero saber quem mandou me degolar. e em Caiena estava atracado o Meteor.

Ela queria que a varanda lateral fosse toda fechada na frente.* * * “E os dias seguintes à chegada? Saraminda pediu uma casa. Tudo que ela pedia eu fazia. onde pudesse botar persianas para o vento entrar. de teto de madeira em losango. com aberturas de portas para dentro. conforto que não fazia parte das coisas do garimpo. que o seu quarto ficasse no antigo lugar da varanda. e os mestres ficavam sem saber como ela queria. pintadas. exigiu que a porta fosse recuada. de varanda alta e corredores amplos’. duas janelas abertas embaixo. tendas e malocas. os alísios do mar não chegam. E ela explicou como queria a residência: o corredor circulando a casa. modificava. E mandei fazer. que tinha somente barracos e barracões. Mas quem sabia construir uma casa dessas ali? Mandei buscar um mestre em Caiena. Quero pintada de verde bem vivo. Clément. e depois não quis mais que a varanda fosse tapada na frente. que seu quarto desse para a mata. que fosse construída no alto. e que tivesse uma vista para baixo. ‘No estilo das tábuas cruzadas. aqui não é Caiena. que tivesse um alambrado de ripas encruzadas. Quero os parapeitos de grades com tábuas de paurosa’. fazia e desfazia. E assim se fez. do jeito da capela créole de Caiena. que tivesse um só pavimento. aberta. pelo lado da queda do riacho. E eu pensei logo em fazer a casa. ‘Mas você constrói lá em cima e eu vejo na minha cabeça o mar de Caiena e o vento vem. de amarelo e de vermelho. igual àquela casa que existe na Rue d'Enfer. gente especialista e oficial reconhecido. pediu. 85 . Gastei mais de ano para que ficasse pronta. com uma só porta. ‘Saraminda. é só vento da floresta’. Ela queria que fosse toda de pau-rosa e pau-roxo. Contratei carpinas de longe e trouxe todo o material. para ver o formigueiro do garimpo. que fosse de andiroba pelo cheiro da tábua. queria construir uma casa. uma casa. ‘Quero uma casa créole’. para ver as casas de palha e os barracões. moradia de Caiena no Limão. Várias vezes ela mudou de vontade.

É meu sonho desde menina. eu lhe comuniquei que ela ia ficar como mulher minha. Bonfim. ‘Não fala isso. encomenda de capricho. sempre desejei um vestido de noiva. do meu carinho. escorrendo água fria e cristalina. No final até que resultou bonita. ‘Não. com suas massas de mato de cada lado. eles sabendo que era coisa de estimação. ‘Não estou falando em casamento. minha alma já está casada com você. ela me pediu. Os caminhos para ela subiam em vê e por trás da mata grande vinha o córrego. Se vou ser mulher de respeito sua. “E eu. e usar quantas vezes eu tiver vontade. ‘Eu não comprei você.“A casa ficou escondida na mataria. guardado numa caixa de madeira. ‘Mas eu não vou casar. que não é coisa de meu costume e aqui não tem padre’. vai ser de novo como no primeiro dia. em canoas. pregado na parede para eu olhar e pensar no dia em que me casei com você. Então. foi um presente meu’. coberto com meaçabas contra chuva. ‘mande buscar em Caiena um vestido de noiva. eu não esqueço da emoção do leilão’. lá em cima. levado para sua rede. eu quero um vestido de noiva. que eram os de Saraminda? Lembro-me da minha felicidade ao ver esse vestido branco acariciado nas suas mãos. Olha o vestido’. não. meio enviesada para que seus olhos pudessem ter a vista que queria. esse vestido vale mais do que o ouro com que você me comprou. Bonfim. quero um vestido de noiva’. passando quase debaixo de sua janela. Quando ele chegar. protegido por esteiras de buriti. “Algumas semanas da casa concluída. Bonfim. E o vestido tinha uma saia longa de organdi. Ele subiu sete cachoeiras. O que eu quero é ter um vestido de noiva. mandei buscar o vestido. bem bonito. Até que ela me segredou: ‘Cleto. carregado em cabeça de pretos saramacas. bordados rendados e uma grinalda de flores de 86 . recebendo beijos. estendido em seus braços. onde os pássaros iam beber e os cachorros chegavam após algum tempo. Cleto. E quem não respeitava as vontades e mandados de Cleto Bonfim. que se tivesse algum dano pagariam caro.

é uma idéia que me faz pensar que eu teria tido mais esse presente que não tive. com os cantos e as velas na noite de Toussaint e as flores multicoloridas. dançou comigo. Morreu conosco. Ela piava e eu só temia que o pio acordasse o sonho de Saraminda. Não sabia que era agouro. Depois me agarrou. Rodopiava como uma criança dentro do quarto. Saí para matá-la. tanto que não houve como acordá-la. você também já morreu? C Isso não faz nenhuma diferença. Ninguém soube que você se casou C disse Clément. desdobrando anáguas de linho. Mandamos as empregadas embora. C Lucy. Nós estamos mortos. respirando fundo. Retire seus pensamentos da morte. Lembro-me de que nessa noite. o povo todo rezando? É o dia mais bonito de Caiena. Clément. a festa das luzes. Você se recorda da cantoria no cemitério. largava as mãos. Melhor seria se tivesse me casado. abrindo a saia. Deitei-me ao seu lado. “Eu não me casei. Ela somente se vestiu de noiva. ela respirava fundo. piou uma coruja agourenta que não saía do canto da casa e que me perturbou o matutar naquele encanto. Mesmo que depois fosse agonia. ajudada por Maruanda e por mim. Ela não entendia como se podia falar sozinho. Ninguém está mais 87 . “Aquele maldito vestido!” C Cleto. o dia em que nós lembramos nossos mortos.laranjeira feitas de cera. esticando o véu. Era um sono de felicidade. me beijou. só agora eu sei por quê. eu marido dela. Até que se deitou e pediu que a despisse. rodando por todo o quarto. e eu fiz o que ela pediu com todo o jeito e ela foi adormecendo. Ficamos sós. com toda a cerimônia do ato. mas não a encontrei.” Lucy lavava as mãos na bacia de cristal azul. e pediu-me para não tocá-la. eu não sei do que você está falando. Caiena já morreu. abria os braços e tomava ar. sem saber que sozinho Clément Tamba não estava. minha esposa. sorria. “Ela vestiu-se. mas dormia.

C Mas fomos nós que o exploramos. C Clément. troles. Estavam estriadas. Como essa mulher mudou? Quando eu a levei e ela saiu do Tour d'Argent era toda espevitada. Eu tive vergonha de mim. comandando de Caiena os barcos de Belém do Pará. C Isso nada tem a ver com nossas vidas. entrando na conversa. “A França me entregou Saraminda. saber do meu ouro C divagou na memória embaralhada. com aquele rebolado de prostituta. O chape-chape nas tábuas de nossa casa. a pele seca. C Lucy. C O ouro do Contestado era mais nosso do que dos brasileiros. não existe mais a Banque de la Guyane. Num dia assim. 88 . que eles descessem o vale e só voltassem depois da chuva. caindo com espumas do céu. me escondi no quarto e quis vestir meu calção. Preciso ir a Paris. tipo lontana. “Nós descobrimos o ouro do Calçoene”. que nunca aprendeu a falar direito o português. Levamos para Calçoene navios. C Então. C Nosso ouro não tem mais valia para nada. mande tirar uma passagem no Belle de Martinique. E foi chegar na  Máquina artesanal de garimpar.aqui. ele é areia. Levamos as chanquées ∗ e todo o equipamento para tirar ouro das jazidas C repetiu a mesma conversa que enchia os vazios das reuniões no garimpo. fugi. “Como eram tristes os dias de chuva. que nos expulsaram e nos botaram para fora C falou Clément. procure minhas apólices da Banque de la Guyane. “Que vidas?” disse Cleto. Clément viu as mãos encolhidas. que eram canoas grandes. Mandei expulsar todos os criados. ela me pediu para tomar banho na bica do nosso telhado. e a água do céu corria sobre o seu corpo em cachoeira. vocês não sabiam o que era o lontana. só conheciam a bateia. os ossos inchados nos artelhos. Veja suas mãos. E ela se banhava. disse Cleto. Ela chorou. jeito de vigarista.

Honfleur. “Os seios amarelos acenderam. Eu me banhava em felicidade só em pegar um dedo de sua mão e passar na minha barba. O Louvre. C Que Bonfim? C É uma cobra que está mordendo. É de demônio atormentado. e. e então cabelos balançaram em meus olhos e eu não vi mais nada.’ ‘Saraminda. um canhão. que Sena’? ‘O rio deslizando. Ele vai bater em Le Havre. Saraminda tinha os olhos verdes faiscando no meio da escuridão. As bateias rendiam mais de cinqüenta gramas. quando dei por mim. “Voltou a chover no garimpo e a manhã era escura como o fim da tarde. já estava mordido..minha casa. Lucy. Talvez eu tenha sido ingênuo. Não só o meu corpo. era minha alma.. Passou a falar dos palacetes de Paris. trejeito de dengosa. O rio deslizando. senão você vai ficar surda.” Cleto aumentou a voz. Foi um grito tão forte que Clément tapou os ouvidos para que não estourassem.. Cleto.’ “De madrugada.” * * * O garimpo do Limão ficava meia légua antes do Lourenço e era só ouro. Place dês Voges. O berro de Bonfim é um estrondo. deixou cair a vestimenta da mulher depravada para entrar na minha vida. um grito de raiva. ‘Olhe o Sena. a mexida que aconteceu na cabeça. Eram encontradas pepitas por todo canto. um trovão. mudou e veio com vozinha de reza. eu. até nos 89 . O vestido estava pendurado na parede.. ela que nunca esteve lá. Ela foi me desmontando. Só podia ser espírito que baixou. gritou: “Cleto Bonfim”. Não era para acontecer a moleza que me deu. ela acordou. no mar. A Place de La Concorde. Ela sonhava andando. “Aquela noite. Bonfim. e Lucy não ouviu nada: C Tapa os ouvidos. me coloca na rede e vem dormir mais eu.

palmeiras de todos os feitios. Saint-Laurent. os franceses créoles logo fundaram sua vila. corrutela trepada na crista dos morrotes. da primeira cachoeira do rio Calçoene. Caciporc.grotões tinha ouro. o tucum. Cleto residia na outra povoação. Ananás. e logo se descobriu ouro também nas bacias dos rios Cunani. eram trinta léguas. na febre das descobertas que fizeram a ascensão e a decadência da Guiana. Os franceses já conheciam os mistérios de explorar minas. a caxirama. Carnot. na variedade de espécies. o cumaru. cercada de vales onde se entremeavam os barrancos. e o pé da montanha era só cumaru de fava cheirosa. a paxiúba. Depois do brejo. assim como vinham da Guiana os franceses créoles. onde as árvores cresciam até o céu. a canarana. o mururé. a bacabeira. a andiroba. Os brasileiros do Pará e do Maranhão chegavam em bandos. nos pântanos. e o caminho da mata. e. a aninga. saboeirana. Todos os barrancos eram bons. onde Saraminda quis morar. a subida e a descida dos ondulados. na área do Calçoene. incluindo a viagem no rio. pois o acesso era mais fácil. depois Lourenço. Desde a Vila do Firmino. surgia misteriosa a montanha do Salomoganha. todos auríferos. a corrutela do Limão. e a munguba grande vigiando as bordas. caudais soberbos que desciam dos contrafortes do Tumucumaque correndo na direção leste. na explosão e na exaustão do ouro. o buriti. Suas raízes suavam ouro. a castanheira. o miriti. do atoleiro do Cruz-Credo. acostumados a lavrar o rio Approuague. macacaúba. No Contestado do Brasil. o anajá. atraiu mais gente. o guajará. do Limão e do Lourenço. Travessão. O cumaru só dá onde existe ouro. * * * 90 . imensa floresta entre os rios Oiapoque e Araguari. rumo do mar oceano. Caiena ficava mais perto. o aguapé. enfrentando as corredeiras da Queda da Morte.

ela me disse: “’Cleto. minha e de Saraminda. aquela coisa de sussurro de água. no meio deles. eu não falo português. numa casa grande. feita com bom gosto na melhor classe da casa créole. Ali. no dia em que saí do Limão e vi minha casa em chamas. junto das árvores. E nós fomos abandonados pela França. Melhor para mim lá. eu chorei. brasileiro de Cametá. E vinha a voz de reza. seu Clément”. Disse-me ele: “Guarde aqui. Ninguém desrespeitava a lei dos homens. que me deu para guardar. * * * Cleto Bonfim lembrava-se de como estava atordoado no dia em que soube como Saraminda andava. enfeites de oficiais carpinteiros que mandei buscar? Tudo para me matar. “E eu. que é melhor do que as de Caiena e parece com as de Paris. a galinha saiu 91 . que você fez com madeira cheirosa e de lei. chorei por dentro e por fora. tive os dias melhores de minha vida. rei do ouro do Calçoene. Cleto. Mas. meu anjo’. mas era bonita. beijava e babava de besta. agradeço a felicidade de morar aqui. Cleto Bonfim. ‘Obrigado. cabeça do Lourenço. Quantos quilos de ouro transformei em tábua. Era uma sexta-feira.” C Mas eu achava minha casa mais bonita C disse Clément. Em frente ao barracão. Nasceu ódio nas pessoas contra a França. em talhas trabalhadas. para que todos digam sempre que é a mais bonita. atrás do morro. Foi ali que vi o chinês Li Yung arrancar aquela pepita de dezessete quilos. Cleto Bonfim. Foi cruel. Bonfim. porque era sua gente.“Eu. “Quando lhe fiz a vontade. compadre Bonfim. C Era pequena. que é coisa sua. aceitei morar no Limão no meio dos créoles? Fiz casa. onde minha língua é geral. me beija’. Ninguém furtava nada. e eu caía. Todos sabiam que ninguém saía com vida de qualquer roubo. Estava suja e suas mãos tremiam com o peso. Meu barracão do Lourenço ficou como local de trabalho e habitei a outra casa.

” “Então. Não acreditava no que via. “Bonfim. fugindo de algum bicho que quisesse mordê-la. pensativo. “A mulher enlouqueceu!” Como. Bonfim. Nua. aqui não tem comida para muita gente. Pode ser até bosta de porco com feijão de corda”. raça baé. de pintas esbranquiçadas em couro preto. só quero pensar. agora eu vou fazer o almoço que quiser.batendo asas. com aquela paisagem na cabeça. mata esse porco. cantou esganiçada. ao espantar o porco que entrava pelo batente da casa? “Taíta. os raios de sol atravessando as janelas e. A varanda alongada. que estava perto. falou? Você não tinha perdido a voz?” Ela tinha todas as liberdades. O porco esfregou o focinho no chão. clara. arrastou-se. Como podia ser? Espantou-se. cheirando e tentando descobrir comida.” Taíta pediu-lhe conselho sobre como devia fazer o almoço. Ao entrar em casa. com medo de ser sujo pelos grunhidos do animal. Acompanhava-o na dispensa e cozinha do acampamento desde que chegara ao Calçoene. com castanhas marrons e muitos papa-capins pulando de galho em galho. Era paraense de Alenquer. sem nada entender. “Por que hei de falar. Cleto Bonfim estava pensativo e não falava. Saraminda nua. acostumou-se a cozinhar em garimpo e não sabia fazer outra coisa. Olhou de novo e de novo não entendeu. Terêncio voltou ao banco onde esperava as ordens. quero conhecer essa 92 . afastava-se. Mais adiante a munguba grande. por que ter sempre para os bichos?” A manhã era morna. faz cozido dele e serve para os homens. viu aquilo. limpou a garganta e resmungou: “Se você não quer falar. não fale. Cleto não dizia nada. Nuvens escuras e baixas produziam uma sensação de umidade e abafamento. ele nada respondeu. “Como Taíta não põe comida para os bichos?” “Olhe. O porco veio atrás. completamente nua. Ela cuspiu no chão. Desviou o olhar para a janela e viu o galho da sororoca que crescia do lado de fora com as folhas verdes e esguias. no meio da habitação. O cabra Terêncio. ele podia falar com Taíta sobre o almoço. Voltou o olhar.

Mas me conta como era Saraminda. Os dias passavam e ela nua. O que vão falar? Todos vão saber. Saraminda tornou-se índia e andava nua e ia para a janela nua. cada vez mais pretos. O chão era sujo.mulher que você trouxe. Que mulher estranha. cuida do seu serviço. esta casa é tão afastada e eu sou tão só. mas nunca lhe perguntei. Só posso dizer que foi difícil para mim. Seus olhos verdes pareciam mais verdes. Desconfiava de que era por isso que seus jagunços guardavam as duas estradas que subiam para sua casa e a ordem de ninguém subir. C Mas não se chora morto. compadre Bonfim. Saraminda morta? Essa palavra era um baque. e Taíta a perguntar por Saraminda e eu a pensar nela com seu corpo. muito difícil.” “Taíta. ele me sufoca e eu penso em morrer. e seus cabelos ficaram mais longos. todo mundo sabia. Lucy não pode vê-lo assim. que parecia ter descido para minha barriga e pulava como se eu estivesse prenho.” * * * “Aquela palavra aumentou as batidas do meu coração. este segredo é meu. você não pode fazer isso. lama. como Deus botou no mundo. Cleto. Nunca me conformei. Nem se pode descrever. eu tenho muito calor. Melhor assim. cheia de cheiro bom. e eu com os receios de que fosse vista e de que a notícia chegasse ao domínio das conversas do garimpo.” C Compadre Bonfim. “Saraminda. o porco baé grunhia e fuçava. eu ouvi essa lenda da Saraminda nua que corria no garimpo. no meio da sala. na sua cabeça. Dizem que é formosa e que você está besta. “Na memória. desse dia de loucura. É meu sangue índio. que preciso ser feliz. eu trabalhava com ela na minha 93 .” E soluçou. que fêmea roliça! E a partir da casa nova. e os seios com as pontas mais amarelas.” E Saraminda nua. “Não. Era coisa de não acreditar.” “Bonfim. na minha frente.

mais vontade. O canto chegou perto. As galinhas correram em sua direção.cabeça e fazia as contas melhor. tinha mais força. Um uirapuru começou a cantar longe. mais gosto. “O porco sumiu.” 94 . porque ele só canta ao amanhecer. Eu saí da casa. construindo o ninho. Taíta saiu com os restos de comida. coisa rara. procurei no ar aquele solfejo e fui andando para o lado do chiqueiro. Um cheiro insuportável de bosta podre me fez recuar e eu perdi a direção do canto do uirapuru. Era de fazer nossa boca encher de música.

e os homens só queriam me dar em Caiena cinco francos. nessa idade eu já era mulher plena. tinha quinze anos. ele deu por mim dez quilos de ouro.12 Uma bola de safira Enganei Cleto Bonfim. comecei a perder o sentido da luz e minha virgindade começou de novo a voltar. No dia em que fitei os olhos azuis de Jacques Kemper e eu vi aquela bola de safira dentro do branco dos seus olhos. mas sabia que se me entregasse não sairia mais dessa prisão. mas a vida tinha me ensinado a ser mulher. para o bordado que estava costurado no corpete e tinha um azul que era o mesmo dos olhos de Jacques Kemper. coisa de passarinho e cobra. que gostasse de ouvir suas palavras. Eu estava atraída por ele. Tive sete homens de xodó. Eu o desejei. que não pudesse perder. Mas decidi não me entregar a ele. Era quase uma criança. meu corpo estremeceu. Na noite em que me entreguei a ele. e sete vezes voltei a ser virgem como tinha nascido. eu estava como se nunca tivesse tido homem. que tivesse ódio e ciúme dela. Mas eu nunca soube ao certo se era amor. coisa de desejo de ter uma pessoa como coisa sua. que não se apartasse hora nenhuma do seu lado. Peguei o vestido de Paris e olhei para ele. E naqueles mundos. Eu não era virgem. desejar seu corpo e ter prazer. Gostei de Bonfim porque ele me deu valor. minha alma levantou os braços e. . sentir seu cheiro. então.

Obrigada. Era o esbelto homem de Caiena em noite de festa.” Lorette roubou meu ouro.” “Quero que ele fique comigo na rede. Mas o papel ela guardou. Seus cabelos fogoió brilhavam na meia-luz da varanda. como se estivesse debaixo da janela. Eu vivia prisioneira da floresta e do ouro. “Lorette. eu sentia as garras do bicho arranhando o punho da rede. com pedaços de tradições e viagens. “Saraminda. Bonfim não desconfiou de nada. O urro da onça batia em meus ouvidos. Às noites surgiam fantasmas. numa viagem que fiz a Caiena. em nome da empresa e da moda francesa. a Société Equatoriale mandou-me aqui para trazer o coche que o Senhor Cleto encomendou e me fez portador deste presente que é dado à senhora. E o francês?” “Já se foi. O Limão era para mim um dia de cor de chuva que nunca acabava e se derramava pela manhã. no banco. você roubou minha defunta avó. Fiquei tão perturbada que a cabeça virou.“Senhora Bonfim. Apenas falou: “Você está pálida”. Repeti mèrsi.” “Onde está seu marido Roger. Seu sotaque era outro e eu falava mais o créole. Teu ouro está debaixo da minha rede. Não era como os dólmãs do garimpo. mèrsi. Mas minha avó não morreu no dia que eu sonhei. Seus olhos azuis me queimaram. Foi nesse tempo que sonhei que minha avó tinha morrido. que um dia foi me visitar no garimpo?” “Ele fugiu com uma saramaca e foi 96 . Respondi sa ou té.” Não ouvi toda a palavra. ela me devolveu. em que as palavras são agrados e ternuras. Ela o levou no dia seguinte da morte de minha avó. “Onde está meu vestido de Paris?” “Está ali. passei a ser escrava da minha sorte e a fugir de mim mesma. vim te dizer que fui enterrada hoje.” Ele trajava uma roupa de paletó e gravata. nascida nos campos da escravidão e do trabalho do negro. Eu mandei que ela comprasse casas para vocês. Desmaiei. língua do amor. língua do meu povo. Quando acordei estava na rede. Bonfim abanando meus pés mergulhados numa bacia de água morna. e depois. pela tarde e pela noite.

Não digo que não gostava.morar em Rémire Montjoly. Eu queria que ele se enjoasse logo e me mandasse embora. No princípio me enfadava. Coisa de onça no cio e guariba na chuva. “Onde você está. e eu não era.” Passei a ter ódio dela. debaixo da 97 . e me perseguia e só me abandonava quando suas forças acabavam. Mas ele ficou agarrado comigo. Eu furtei você porque sabia que você não voltaria mais do Calçoene. Eu era uma criança. me perseguindo no amor como eu jamais soube que existia de homem por mulher. quer fosse de dia quer fosse de noite. Ele para mim era a lembrança de um lençol limpo. Depois eu soube que ele foi viver no Suriname e disse: “Saraminda morreu”. Ela era rameira. mas depois caí no vício e minhas forças também sumiram e passei a dormir nas tardes e me esconder nas madrugadas. Cleto. Nossa avó Balbina me contou a história do leilão. para me comunicar?” “Porque eu já o tinha despachado para me amasiar com nosso primo Koron. Mas não fiz para que ele ficasse besta. Eu falava e ele pensava que era cantoria e vinha montando em mim. Eu não queria que Bonfim pensasse que eu era mulher ordinária. No dia do leilão no Tour d'Argent. procurei saber quem estava ali e me decidi por ele. Nunca me esqueci de Koron. quis fugir. abandonar aquele inferno. mas por Koron. Por isso eu falava com ele com voz de reza. Saraminda?” Eu ficava dentro do guarda-roupa. Mas nunca esqueci Koron. Ele não me aceitou num dia em que eu quis ter ele. Quantas vezes pensei em pedir: “Bonfim. Ele vinha com o candeeiro: “Onde você está. Eu nunca quis viver com ele. me liberta. me manda embora”. Lorette o sujou. Quando vi onde tinha me metido. Não pelo ouro. mas foi o único homem por quem eu tive desejo de me entregar por mim mesma. Não amaciei a voz para mudar o meu jeito.” “E por que você não veio com Roger. que sabia onde eu estava. Eu não queria cair na mão de qualquer um. Saraminda?” Eu estava enrolada nos sacos de sarrapilha e me disfarçava em sombra. Nunca soube se por amor ou desejo.

nem carne de caititu. Fingia que enjoava da comida e pedia: “Estou com saudades da comida créole. eu quero comer um bouillon d'aouara ∗. não vem bichinho. frito com banha de anta e conhaque.” E às vezes ele batia no penico e no canto da cama: “Vem. “Miau. com legumes frescos.. Gosto de cheirar a fumaça que sai. O arroz e o feijão não faltavam. E eu entrava no jogo e respondia: “Chega meu cavalo preto”. minha poldra castanha”. mas era vontade de sumir mesmo. Caititu. Comecei depois a pedir coisas para ele não dar e eu ir embora. E depois fiz fastio: “Não agüento mais veado moqueado. Era para pensar que eu fugi. carne de porco novo. Até que ele me encontrava e ficávamos até o dia raiar.. das melhores que tiverem.. clarear.cama.. ele não sabia onde eu estava. minha gatinha. e peixes de água doce eram abundantes nos lagos e rios próximos. E a comida do garimpo era sempre caça e peixes. “Para que  ∗  ∗∗ ∗∗ Cozido de carnes com pasta de tucumã. Era coisa de vício mesmo. Ele adivinhava e me dava tudo que eu pedia.” E eu: “Estou aqui. Prato típico da Guiana. Ave de caça. nem fígado de anta. que havia muito. um hoko ∗ e um assado de cochon bois ∗ . no escuro do quarto. manda buscar na Vila do Firmino”. Saraminda?” “Um brochete de rabo de jacaré. vindas da costa. Ele pensava que era coisa de esconde-esconde. com aquele gosto de fogo das sete horas cozinhando”. vem pelo meu cheiro”. miau. arruma pimenta verde e vermelha. Ele ficava de menino. Gurijubas secas. E eu pedia: “Cleto. e mantas de pirarucu. e eu dizia: “Fecha os olhos. Cleto. e manda matar um boi para ter carne boa. não vem. Estou enjoada de tudo”. nem paca cozida. nem paçoca. 98 . “O que você quer. Às vezes eu ficava calada. e ele ficava como na cabra-cega. E ele mandava apanhar tucumã para fazer a polpa e colocar no cozido.

” Não tinha dinheiro. se o que quero é ir embora?” E eu dizia para dentro: “Não pede mais. Cleto não me deixava sair do sítio. ficar ao seu lado no trabalho pegando no ouro. “Cleto. Mas eu sabia que não poderia ir. tudo se pagava em ouro. pede só para ir embora”. Ele tinha ciúme até do pé de jatobá onde eu gostava de ficar abraçada no tronco largo. um quilo de beiju. 99 . Ele se matava. e assim ficava. De um lado a balança das mercadorias.” Ele deixava morrer um sorriso. “Deixa eu sair deste silêncio. um grama. olhando a mercadoria. pesar ouro. do outro o ouro.essas coisas. deixa eu ir para a loja. e me mataria antes. como as mulheres dos créoles do Limão fazem. Mandava fazer o serviço ou me degolava.

.

Quando chegou a notícia do ouro no Mapá. toda a Caiena foi transformada em aventureira. onde montei minha lontana com gente de Caiena. o ouro era demais. O feijão custava dois gramas. A Guiana era a guilhotina seca sem o espetáculo da Place de la Concorde. Eu fui um dos fundadores da corrutela do Limão.13 O feitiço de uma noite Eu. amava as terras do Mapá. cinco. foi mandado para nos governar. Cem gramas. duzentos. uma roupa de brim. tomar da França e do Brasil. Todos foram. no desejo da fortuna. A Guiana tinha a fama de ser morada de criminosos e deportados políticos. que eles chamavam Lourenço. E Jeannet Odin. Foi aí que quisemos ficar com aquela terra. Não existia dinheiro. Comecei então a trazer mercadoria e matalotagem para trocar pelo ouro. onde eram despejados os presos políticos. com as batinas sujas. e destinados a morrer. o sobrinho de Danton. sem outras vestes. Lá éramos “os negros de Caiena”. Trouxe tanto sofrimento ao nosso povo que dele se escreve o nome na areia e se cospe. Os brasileiros no Laurent. e o açúcar. homens e mulheres. E o governador de Caiena fez um plano . uma espingarda de caça. Ainda se contava a história dos cento e sessenta padres que foram banidos por Robespierre e desembarcaram na ilha La Mère ou dos Cabritos. Ninguém dava valor a nada. Clément Tamba.

uma moeda e uma bandeira do Cunani. Até o Presidente dos Estados Unidos. Por causa do ouro. Grover Cleveland. Ela entreabriu a porta do quarto que dava para a sala e ficou à mostra. A reunião foi marcada para a Vila do Cunani. E ali. fingindo de escondida que 102 . nós fundamos essa república. Ele foi chamado de aventureiro de fancaria. Jules Gros C um aventureiro de muita cabeça e sonhador C chamou-me para fundarmos uma república naquele mundão. Mandamos fazer selos e cunhar moedas. deu vontade de tomar aquelas terras sem gente C os poucos que ali moravam morriam de escorbuto. ela se livraria do peso da Guiana e dos créoles. Cleto estava de costas. não viu nada. de caso pensado. Na noite em que viajei para a reunião do Cunani. Eu via. A França acharia bom. Jules era um tipo político que tinha conversa de coisas grandes. Ele seria Presidente da República do Cunani. Nós não tínhamos nada. dos brasileiros.” Mas nós não queríamos nada de política. a notícia de nossa República do Cunani. no meu cofre. “Está na maior riqueza de ouro do mundo. Foi nessa noite que eu vi Saraminda do jeito que ela veio ao mundo. malária e doenças da vida. criamos uma bandeira e comunicamos às nações nosso ato. em 1876. Os brasileiros acharam que era uma república de brincadeira. assinar o nome e lia soletrando. Ela fez de propósito. mandou ao Congresso americano. Cursei o liceu. mas Cleto só aprendeu a contar. cinqüenta homens. Eu não sabia nada de política nem o que era república. para me atentar. no entrefusco do candeeiro. na margem do rio Cunani. Nós lhe demos ouro e ele foi a Paris. Até hoje eu tenho aqui. queríamos era o ouro que nos levou às terras do Mapá. com vinte casas. onde criou a Embaixada do Cunani e falou nos jornais. Coisa errada. no meio da floresta. nua. um selo. “Onde está sua República?” lhe perguntaram. engalicados.para expulsar os brasileiros. fazer um novo país. Só a cabeça do Jules Gros. fui até a casa de Bonfim. o corpo vermelho de luz.

” Saraminda não me quis. não com o próprio olhar. Não tinha grade. eu não conseguia ficar contida. Era ser homem para Saraminda. Saraminda. Mas eu a quis.nem alma do mato. Eu tinha a voz de freira. Você era chefe e eu queria os grandes aos meus pés. Eu não conseguia ser a mesma mulher. Ninguém podia fugir dele. Mas eu queria ser mulher e cumprir meu vício com o fogo de minha carne. Ela era mocinha. Fiquei me queimando. mas fiquei. sem medo. Ela já estava curtida dos cortejos. de noite e de dia. O garimpo tinha dois ouros: eu e la couleur. e tudo lhe era dado.” C Fala. atrás do macho. não pensei noutra coisa. mas possuía o desejo de ter voz capaz de dizer tudo que queria. diz do seu desejo. As coisas que se queriam no garimpo eram coisas da terra. mas amei. Eu falava. senão em deitar com ela. tinha a possessão do ouro. Depois dessa visão. com feitiço. Era diferente. Mas o único que amei de amor foi Kemper: foi a desgraça da vida dele. julgando-a presente. livre dos afetos. Fiquei possuído pelo demônio. O ouro foi a armadilha que lhe cortou o 103 . Não era que quisesse tomar a mulher de Cleto. “Eu via seus olhos me comerem. Eu nunca tinha conhecido o amor. Eu nunca soube se Saraminda tinha a ambição do ouro. E ouviu: “Eu quis você aos meus pés. Ele gostava de puta e eu não era puta. O garimpo era uma prisão. Eu a quis. Comecei a gostar de seduzi-los. uma anta na mata. gritando. Era um bicho. Você me quis? C perguntou Clément. coisa de mistério. Ela tinha tudo. queria tudo. E os homens me fizeram ser desejada. oferecida. a ser atirada. Mas eu nunca pude ser eu. de inferno. voz de diabo. Eu estava possuída pelo vício de ser a mulher que Cleto me ensinou. Mas só encontrava prazer com os pequenos. berrando. Eu quase levei Celestino Gouveia à loucura. com o desejo. no jogo da minha traição a Bonfim. Como chegar até ela? Era impossível. e todos caíam. mas mulher fêmea. voz de prazer.

Coitado de Cleto Bonfim. Ela estava nua. me beija. mas tinha muito do Limão. estava deserta. Era uma casa créole. umas tocando as outras. que não cheguei às águas do rio Cunani. sobre o qual fiz uma pequena ponte para a entrada do meu terreno. podem ser anos. índia. que tinha grandes árvores. “Clément Tamba. perdendo as chaves 104 . Tinha muitos quartos. baixar a bandeira da França. Ficou calada. cujas copas se fechavam em arcos. Todos fui fechando. tremendo. como se fosse uma cachoeira do rio Calçoene. como se nada houvesse entre nós dois. Ela. Em pé. Saraminda era ouro e era terra. Comprei um grande terreno do notário Ronjon. “Quero você. quartos que eram os tempos da minha vida. toda. que passa no centro da Place dês Palmistes. meio selvagem. a que eu mandei fazer era a afirmação do meu orgulho. A vegetação primitiva ainda estava intacta. Como foi doloroso para mim ver o que iria acontecer. a França já não estava na minha alma.destino. Matar Bonfim. largue tudo. Eu só pensava em Saraminda. com um vau para drenar águas. Fugi. Coitado de mim. A Rue Lalouette. Não pense que vão ser dias. O ouro queima as pessoas desde que foi escondido por Deus misturado com a terra. Caiena para mim era uma cidadela abandonada. Desci a estrada da corrutela e cheguei com a sensação de estar salvo de um incêndio. mas com o fogo queimando meu rosto e minhas partes. mas pediu: “Clément Tamba. Quando Veiga Cabral chegou dizendo que eu deveria baixar a bandeira da França. de chão batido. mas levar Saraminda. eu lhe disse entre instantes de pavor quando me aventurei a ir a sua casa numa tarde em que Bonfim estava em Calçoene.” E aí mostrou-se para mim. Abri espaços para jardins e plantas. na Rue d'Estren.” E eu beijei. toda. fique comigo”. vai passar muito tempo para você deitar comigo. Mas eu queria ter lá uma grande casa para mim. Eu.

mas para não me meter em coisas que eu não entendia. raivoso. Mas eu o pegarei. e eu dei. Só falava em pátria. Era a mão no coldre e a cabeça na derrota dos franceses. Foi ele quem levantou toda a região e depois tomou a 105 .’” C Sujeito possesso. “Compadre Clément Tamba”. Ali estava trancando meus derradeiros vestígios. Aqui não tem França nem Brasil. em Brasil. esse Veiga Cabral C disse Clément. eu ponderava.do fechamento para que não fossem abertos nunca mais. acuado. “Sujeito elétrico esse Veiga Cabral. Pediu-me armas. parecia ter coração de terra. “Veiga Cabral recuou: ‘Se é com você. com aquele bigodão de pontas derramadas. Ficarei contra. Cabral. mas me afirmou: ‘Clément é do ouro. ‘Mas ele. nem suas traições. ‘Eles são nossos irmãos. magnético. olho enviesado. insistia: ‘Quem eu não puder matar. esperando a morte. Veiga Cabral me procurou aquela noite em que chegou ao Limão. Ele sempre repetiu sobre os franceses do Contestado: ‘vou expulsá-los todos!’ ‘Cabralzinho. Passou o ouro. passou o Mapa. deixa com você’.’ “Respondi duro a ele: ‘Não fará isso. Não por mim. da Bretanha e da Normandia. Disse que você era o articulador da França no Calçoene e eu não apoiei. acalma’. Fiquei no fim só com a sala. Baixinho. ouvindo Louis tocar as velhas canções das travessias. eu vou capar. passei eu. ouro para comprá-las. Tem ouro para todo mundo. Os anos pesam e passam. Cleto pediu. que aceitara ser o delegado do governador de Caiena e que não hasteava mais a bandeira do Brasil. e não tinha limites. Disse que ia ao Cunani para prender Trajano Benítez. também tenho o meu exército. “não me revele seus segredos. é de la couleur. Tem o ouro e a nossa amizade’. Guarde com sua alma. traidor dos brasileiros. colérico.

Mas ele não gostava dos créoles. As viúvas gritavam puxando os cabelos. a ver nascer e a começar já não existia mais. o temor e a luta. Talvez debaixo da serra do Tumucumaque. “Ele também perguntou por Saraminda. Todos já não eram as mesmas pessoas.república do Jules Gros. Tudo deu errado. fez suas ordenanças e nomeou patentes. A região do Calçoene que ajudei a desbravar. Charwein. Acabado para mim. Nós que ficávamos no garimpo não sabíamos o que estava acontecendo longe na Vila do Amapá. Ele mandou soldados para ocupar terras. disse-me Celestino Gouveia”. era de lá que os rios nasciam com as areias amarelas. Gostava dos franceses brancos. falou Cleto: ‘E a mulher do Bonfim? Diz que é índia e anda nua com um bando de cachorros?’ ‘É senhora de respeito. Ele podia continuar funcionando. proteger os franceses e parar com a briga dos brasileiros. Ficamos ameaçados de abandonar nossas casas e voltar a Caiena. desapareceu. Escreveu manifestos. mas a Société Equatoriale já não era a Companhia. Já estava sem o desejo do ouro. bem que quis que não nos expulsassem. Tem suas coisas e vontades de mulher. Eu voltei para Caiena depois de tudo acabado. que na minha imaginação estava sentada em ouro. Todos se tornaram 106 . o governador. Eu queria me ver livre do sofrimento que surgia. O caminho de ferro que eu vi construir estava parando. Os brasileiros reagiram e botaram nossos soldados a correr. o gosto de ser aventureiro. os homens ficaram iguais a homens cheios de ambições e de medos. Nessa invasão. que foi saqueada. foi o que Celestino respondeu”. que devia existir naquelas florestas sem fim. Quantos voltaram mortos? Ninguém sabe. Minha vontade era de abrir um garimpo novo. mataram muitos brasileiros. insultando Charwein. disse que quem xingasse nome da mãe tinha três anos de cadeia e quem violentasse uma mulher donzela iria para a morte. A aventura. Editou leis. encerrou Cleto.

nossos inimigos. Fui expulso. jarros de samambaias por todos os lados. respondi. “E o que fez Doriques?” “Disse que não ia atrás. Eles eram meus amigos e me viam como inimigo. a cabocla Raída. primeiro um. era para ouvir os pássaros. tomava minha xícara de café quente. E vinham os guriantãs. os vivis. os sabiás. as marias-lecres. quando acordava sem o sol nascer. frutas. Na verdade. a mulher de Doriques. Foi aí que eu vi que a coisa não tinha jeito: “Clément Tamba. que eu fiz para eles. Não era para ver a luz. Eu lhe disse que ia embora. sentava na varanda e esperava a primeira luz do dia. no meio da mata inteira. agora era a maldita da política. que não ficava mais. os guaxes. O rosto deles foi se transformando na minha cabeça. Quem sempre aceitava o meu peso na compra de ouro. e nós tínhamos sido sempre um só. Não sei como tive coragem. O coxo de comida. e depois toda a passarada. aquela fogoió. Bonfim sabia. Ela era bela.” “Tinha que dar nisso”. Eu passei a ver os brasileiros como um bando de malvados. pássaros que vinham comer nas varandas e beber no tanque. mulata cambraia. aquele do barranco da Taquaira”. os cantos se perdendo nas folhas e no seu próprio mistério. que era do Maranhão. até o dia em que eu disse para mim mesmo: vou embora. alpiste. as mães-da-taoca. Desapareceu. meus preços e minha mercadoria. Comecei a guardar meus garrafões de ouro. parece que foi furtada pelo Joaquino. depois dez. jamais deixou de ter milho. me disse meu empregado. colocar dentro das barricas e esconder. brigar e minha vida foi virando um inferno. Como a gente se transforma. armazenados dentro do quarto da minha casa. Outrora era só ouro. 107 . vou voltar para Caiena. os japiins e. tinha varandas abertas. eu não voltei. Nossa vida mudou. os bem-te-vis. dois. as pombas-do-ar. fugiu. desconfiar. começou a resmungar. Eram dois lados.

Teve banzo do Joaquino. como fugia com qualquer um. O ouro gruda. não tem desejo nem coragem. 108 . Foi nesse dia que eu senti. mulher não foge. Vinha para aluguel. Conheci a Raída quando ela chegou no garimpo. fugiu. Passou comigo um mês na minha cama.Tudo estava acabando. Em garimpo novo. O garimpo do Calçoene estava morrendo. Depois Doriques arrumou um xodó.

.

Todos obedeciam ao mesmo ritmo. e depois era aquela quantidade de tochas. com o sol. outra além. nos barracões grandes e nos barracos de pouca gente. A lamparina de morrão era a primeira luz. a pioche. primeiro nas dormidas. drenar os buracos de lavra para que estivessem secos quando o dia clareasse. dividindo o ouro e o rancho. lontaninhas e chanquées. as latas. Muitos trabalhavam no sistema de meia-praça. a pá. Os primeiros sinais do reboliço do formigueiro de homens eram. o fogo das trempes para ferver água para o café. na escuridão. Ao levantar. de bucho forrado. uma. que os créoles . a criminela. aparecendo aqui e ali. os apetrechos do trabalho. as areias pudessem ser bateadas no poço esvaziado. a bateia. Para eles era a tarefa de grupo para abastecer as lontanas. depois no caminho dos barrancos. Cada um tinha o seu. o vermelho das brasas. que era passado no bule de ferro amassado e servia para o dia inteiro. Era a lamparina do lado. era pegar a lata. o café com farinha de puba ou cuscuz de arroz e.14 Uma lenda de sangue O garimpo acordava às três horas da manhã para a faina de bater água. Viam-se. mais outra. o encher e o derramar para que. a pealha e o inseparável terçado para começar o dia.

nervoso. no ralo de flandre. que era pioneiro nos garimpos de Roraima. Era a lei da casa. na sarapilheira que aos sábados é queimada para apuro e receber outra nova.trouxeram da mineração do Approuague com suas caixas reco. Era quase um bicho. em meio a eles fugitivos e desordeiros da Ilha de Marajó. Cleto o trouxe como braço forte. Carutapera e Gurupi. dizia Alexandre. Celestino Gouveia era o capataz de Cleto Bonfim. Na saída. ora de ziguezague. e logo dava explicação 111 . Tinha seus homens de confiança e juntos vigiavam as equipes. violento. dia e noite. Os costumes do garimpo são feitos na hora. A função era vigiar e policiar os que trabalhavam na garimpagem. Não eram poucos os que levavam sua garrafa de cachaça para beber e jogar nos barrancos. que era feijão com charque. escravos da ambição. Viseu. Quando o garimpo baixava de produção. Fiscalizavam os veios de culote e botas. pelo medo e pelo sangue. com elas em série. Por cada ladrão que encontrassem. sempre recebendo o cascalho e segurando o ouro nas taristas. arma na cintura. O ouro gosta de violência”. ora de dala. A crença geral. farinha e algumas vezes. era de que a encantação do ouro estava querendo alguma desgraça. do Balique e de Santana. Outra coisa de que ele gostava era sangue. o cuidado com a lenha que devia aquecer a panela que ficava no fogo para cozinhar o almoço e o jantar. comandando quarenta e três homens recrutados entre trabalhadores. quando as bateias estavam secas. modo do ouro embebedar-se e aparecer. peixe seco. recebiam a metade do furto em seu poder. Outros de Santarém. Quando abriu sua lavra e comprou o garimpo. chicote na mão. As leis são criadas pela aventura. “Sem homem macho e capataz duro não se faz extração de ouro. era ele quem ficava excitado. Celestino Gouveia nunca sentiu qualquer sombra de medo. operando a lavra.

misturava o sangue à riqueza e à tarefa do sucesso. que invade o cotidiano desse mundo de vinganças. das chaves dos baús de ferro. Cleto. era macio. num emaranhado estranho de ambição. tratava da pesagem. Mas Celestino tinha obsessão desta lenda que se ajustava ao seu temperamento violento. é de um para dez C dizia Bonfim. discreto. mas é bom. Cleto era comedido. Nessa busca. Os garimpos do Calçonene não reclamavam de sangue. Celestino era o batalhão da guarda. Este sempre corria nos choques entre grupos e nas tramas. você vai ter que alugar uma tropa de burro para carregar seu ouro que está nas minhas mãos. Nosso negócio não é de meia. mais que isso. tinha gosto em descobrir barrancos onde a produção descia e seu primeiro pensamento se voltava para o desejo do ouro por sangue. quando o garimpo fechar e formos embora. costume nessas fronteiras da cobiça. com a cabeça nas mãos.para o gosto do ouro pelo sangue: C A terra que tem ouro só se abre com a cor vermelha. escondido nas instruções e comandos. Ninguém como ele para essa tarefa. Sempre forçava a descoberta de barrancos atacados pela escassez do ouro. Ele se sentia o sócio privilegiado e. Celestino ajudava-o com silêncio e fidelidade. nos homicídios quase diários. no Maranhão. E assim. C O veio da Ponta Negra está secando. depositário da amizade e da confiança do chefe. de fiscalizar a escrituração e a contabilidade diária. Inventava. Os olhos de Celestino brilhavam. misérias e magias. o aluvião do Chuvisco acabou. Por isso era temido e sua presença despertava pavor. Quando eu trabalhava no garimpo do Maracaçumé. botaram um feitiço tão grande que o ouro sumiu e tivemos de degolar três homens em dois dias para voltar a produção. ao contrário. C Celestino. Eu nunca tinha visto garimpo secar daquele jeito dizia Celestino a Cleto Bonfim. esfregando-as de 112 .

esquivando-se. Parava. Tirou a navalha. Ele conhecia a tarefa de esconder-se. Vai se recuperar a produção C falava Celestino a Cleto. Acariciava a navalha que trazia no bolso. protegido pela escuridão. minha confiança está na sua entrega C respondia Bonfim. Da última vez. A noite descia.ansiedade. onde todos dormiam. C Celestino. Celestino passou como uma sombra. De manhã. lançando uma escuridão profunda sobre os barracões compridos. O cansaço não permitia àqueles homens fatigados qualquer insônia. Celestino farejava a vítima. abriu a lâmina. Um primeiro e um segundo golpes rápidos cortavam o pescoço e os punhos da rede. Então Celestino iniciava um rito de demência. 113 . visava a sombra de pés esticados. armados em paralelo às redes de batalhões de garimpeiros sujos. o ouro apareceria. a notícia corria os barrancos. Não havia luz. Já saindo de rastro. Uns sons de galhos quebrados vinham do mato grande. Alguém tossiu. ganhava a floresta. A loucura de buscar um pescoço anônimo tomava-lhe a alma. suarentos. com o corpo amassado pela faina diária e trágica de procurar riqueza. Era um ritual que o excitava. C Foi o fantasma do ouro que veio buscar a sua parte. monstruoso. Ressonava com a cabeça levemente jogada para fora. de espreita. misturado com o calor sufocante que nem a noite melhorava. as lamparinas estavam longe e eram poucas. Ele. atirava o corpo no chão. perdendo um dos lados. Saía sorrateiro entre as redes de um barracão. procurou distinguir um corpo todo. Nem o rosto devia ser visto. No dia seguinte. Estava de calção. como um guincho de porco. deitados em cruz. procurava uma presa. Celestino esperava o despontar das madrugadas. Ouviu-se um ronco grosso. Todos conheciam o ritual da tragédia. que. A mão rápida voou no escuro. Um cheiro de corpo sujo exalava. que dominava nos seus esconderijos. você é quem sabe como a produção aumenta.

Não sei. garimpeiro do Pará. . Ontem à noite. ele veio buscar a sua parte C disse Juventino. No outro dia foi achada uma pepita de meio quilo.Todos se alimentavam de sua própria crendice. Cleto limpou a pepita. C Qual é o nome da guia? C perguntou. C Tem a cor de um amarelo-avermelhado. como o sangue que o ouro pedia. 114 .

os olhos azuis e o cabelo louro fizeram-no um bicho estranho naquelas bandas. não teve nenhum gesto de carinho ou proteção. Ao recebê-lo. Jacques Kemper não era mais menino. e não conseguira permanecer em Cancale. que não se apagavam nem nos dias de verão. fronteiras sangrentas do Amapá. os quartos. Era um estorvo para a família. recebeu o apelido de Barba-de-Fogo no garimpo do Calçoene. Primeiro. trazendo a consciência da sua orfandade. Seu sotaque afetado. quando foi contratado pela Société Française de l'Amérique Equatoriale. seus dias eram de luta e miséria. Depois da morte do pai. assaltou-o o novo casamento da mãe. Transformou-se em presa de revolta e tristeza. Ao chegar da Bretanha. Não conseguia superar a desgraça que para ele era saber que um estranho . com seus três filhos. a mistura das palavras de créole. francês e português. tinha quatorze anos. Lucile. Paris era como se fosse uma casa onde morava o vazio e da qual não conhecia os cômodos. dois gatos e um marido que fumava charuto o dia todo. empregada na limpeza do metrô. na busca do ouro.15 Uma viagem no Gazelle Jacques Kemper era de Cancale. a casa da tia. Nunca entendeu por que a vida o trouxera ao inferno de Caiena como peça daquela ambição do Contestado. Tudo começou em Paris. onde os homens corriam com as bandeiras da França e do Brasil.

ia ao quarto da mãe para descobrir intimidades e realimentar o ciúme. com sede em Paris. ele não é meu pai. Tinha um excelente relacionamento com o chefe. Vou fugir. Sua fama era de sair sempre acompanhado de colegas e desfrutar de belas companhias nos cafés e passeios pelo Bois de Boulogne. que não lhe permitiu fugir. sua avó. Viveu muitos outros romances de gente nova e era tido pelas moças como conquistador insinuante e dado a mulheres. Jamais a esqueceu. Em Paris. C Deixe de remexer nosso quarto. sair. menino besta C disselhe o padrasto quando ele. vagar sem rumo. naquele vício enfermo. então. C Você tem de obedecer a André. esquecendo André. C Não lhe devo obediência. Seus olhos eram só raiva. aos dezoito anos apaixonou-se pela prima e acabou expulso da casa da tia. e. desfrutava de prestígio. vou matá-lo. Levava as correspondências aos correios e às casas 116 . Agora. trata bem sua mãe. C Não. Annie. Charlotte viu a profundeza do abismo que separava Jacques do padrasto. A única fonte de afeto era a irmã. suas mãos tremiam. ele ficou no lugar de seu pai. onde começara como contínuo. tenho ódio dele. você não é meu pai C respondeu. você não presta C disse à mãe. Recebeu uns tabefes e isso o fez consolidar a decisão de ir embora. Talvez lá ele estudasse e começasse a trabalhar. de auxiliar nos serviços internos. Seu trabalho era dos despachos. A surra mudou-lhe a vida. C Não fico mais aqui. Doía na alma. andar. sua irmã. da Guiana Francesa. dez anos passados. Na firma.dormia no quarto que era do seu pai com sua mãe e tudo mais que de sua cabeça nascia com aqueles tormentos. no desejo de abandonar aquela tortura. trabalhava na Société Française de l'Amérique Equatoriale. já estava no setor administrativo. tomou a decisão de mandá-lo para a casa da irmã em Paris.

Quer um coche francês naquelas paragens. viajará bem protegido e será seu companheiro de viagem.. mostrando o quanto prezamos o freguês. eu que nunca viajei? C ponderou Kemper. que o chefe o chamou: C Temos um trabalho para você. A nossa Casa em Caiena pede que lhe remetamos. quando em Paris nevava e todos reclamavam do aquecimento. sempre cheias de excentricidades. C Kemper.bancárias e cumpria os mandados que apareciam. E como todas as mulheres têm vontades. para o nosso maior fornecedor de ouro.. acompanhado de um representante. Foi num dia de janeiro. é velho freguês com uma ficha muito boa. Pensamos. É coisa de nosso maior interesse. Dentro de alguns dias estará pronto.. C Sim. remetê-lo com todas as pompas. e você pegará o navio no Havre. É um homem que se apaixonou por uma mulher. C Mas eu nunca andei de coche C disse Kemper. C Mas eu precisava pensar um pouco. pela confiança que nos inspira e o desejo de que cresça na Companhia. Como vou me deslocar para Caiena. Vamos fazer uma cena grande para agradá-lo. Frivolidades e paixão de brasileiro. assim. Coisa que em apenas dois meses está resolvida. Você não precisa andar nem conhecer coche.. e não podemos despachar o coche como mercadoria qualquer. para que o coche seja entregue ao Senhor Bonfim e ele fique satisfeito e agradecido. você é rapaz jeitoso e de confiança da nossa 117 . Você voltará e terá uma gratificação especial pela viagem e um serviço a mais na empresa. Ele será colocado numa armação. rumo a Caiena. com direito a progredir. um tal Senhor Bonfim. trabalho de artista. Precisamos muito desse homem e com ele já ganhamos muito dinheiro. Basta dizer que é quem mais nos vende ouro. mas estamos providenciando tudo. com adereços dourados e enfeites de ouro. Você sabe como são as mulheres. um coche.

Sua missão será mostrar ao Senhor Bonfim nossa consideração por ele. com lantejoulas. Foi nesse dia que Jacques Kemper foi mudado pelo destino. um vestido que mandamos confeccionar na Maison d'Amour.firma. com o vestido que lhe entregaram numa caixa forrada de veludo. O navio desatracou à noite. C Não. de consideração. bordados e babados.. de surpresa em surpresa.. Kemper viajou para o porto do Havre.. chegou ao cais. Encomendamos uma peça de efeito.. com recomendações muitas. para. O coche foi despachado numa embalagem forte.. ter notícias de que sua viagem não terminaria ali. apresentar ao Senhor Bonfim nossas homenagens e também.. subiu a escada e foi encaminhado pelos rapazes de bordo a seu aposento. C aí o Senhor Foucaud teve um sorriso de ironia C entregar à sua senhora nosso presente especial. não só no embarque como no desembarque. as luzes do porto afastando-se e Jacques pensando na viagem como um prêmio de férias. para deixá-lo cheio de vaidade. terá de entregá-lo. que todos dizem ter grande influência em sua vida e é motivo de tudo que ele faz naquele garimpo C disse o chefe. onde. embrulhada em vários papelões. C Mas minha função será só acompanhar o carro? C perguntou Kemper. coisas de vaidade para senhoras. depois de guiado pela cidade. para conhecer novas terras e voltar a Paris enriquecido no seu 118 . em que não faltaram reforços de cantoneiras de ferro para evitar qualquer choque. mas de que iria embrenhar-se nos caminhos desconhecidos dos garimpos do rio Calçoene. que será um elegante brinde de nossa empresa. e a melhor maneira de vinculá-lo mais a nós é agradar sua mulher. Embarcou no Gazelle. de mau gosto. ao chegar a Caiena. e que devia manter no camarote como coisa de arte e beleza que não podia peregrinar em bagagens de despacho nem ser descuidada de sua vigilância permanente. já se adaptando aos costumes de viajar.

onde eu vou ficar. uma que mora em Caiena e se chama Laurence. As luzes do Havre não se viam mais. Então perguntou: C Como se chama?.. Me parece que este navio vai para Caiena não? C Sim. sem cara de frivolidades. mas incorporando à sua vida uma experiência colonial. C disse a senhora. C Tenho duas sobrinhas. C Sim C disse Kemper. ao regressar. C Este é. C Vou à Martinica. achando que a vida lhe estava sendo dadivosa. é minha terra. Tudo ficou longe e o apito da saída era acompanhado pelas ondas que cresciam.. Procurou saber como era a região. Depois chegou uma moça de cabelos compridos e crespos. ficou debruçado no balaústre. Só obteve informações do seu exotismo e do degredo.. De tudo isso esqueceu. Guiana e Caiena eram palavras distantes que não diziam nada. C Geneviève C apresentou-se. e a outra viaja comigo. nariz fino. e o navio iniciou um balanço mais forte. C Nunca viajei de navio C confessou Kemper.prestígio.. Ia passar pouco tempo por lá.. sem querer esticar conversa. seu conceito seria outro e mais alto. com vestido de gola fechada e cabelos esticados. 119 . Certamente.. C Jacques Kemper. lugar de punição e sofrimento. alourada. C Vai para Caiena? C perguntou-lhe uma senhora idosa que passava ao seu lado no tombadilho. lábios bem definidos. C Muito prazer em conhecê-la. mas passa na Martinica. Feliz. mas inspiravam e sugeriam tudo. que os ventos da sorte iam chegando. C Sim.

.

colocado embaixo da cama. rumou para o porto de Caiena. que abria para dentro. Depois. Dele não se afastara durante a viagem. O navio parou na Ile Le Père ou dos Calangos.16 Os calores de Caiena Kemper chegou a Caiena num sábado. Em sua cabeça. diretor local da Société Française de l'Amérique Equatoriale. pobre. As recomendações do Senhor Foucaud não lhe saíam da cabeça: “Cuidado com o coche e o vestido. guarnecidas com ferragens de mola e outra do centro em arco. vestido longo e saia estreita. a gente. cabelos levemente pendentes para o lado e caídos no ombro. no camarote. de chapéu de aba. recortada com o buraco da chave. onde estava sendo esperado pelo Senhor Lefèvre. num pequeno chaveiro. é . Beijar a mão ele não sabia. Não tire os olhos dele. a maior de todas. que para fechar dava duas voltas. Em cima da mala colocou o pacote da caixa embrulhada com reforço de proteção contendo o vestido da Senhora Bonfim. Os passageiros foram embora para seus destinos. Ele ficou no cais com a mala de madeira. cantoneiras e dobradiças laterais longas. Sentou-se na mala e olhou a paisagem de Caiena. imaginou Madame Bonfim como uma daquelas damas parisienses. reforçada por ferros e braços de flandres pintados de preto. Ensaiou gestos de cumprimentá-la. Ele a guardava presa na cintura. A cidade era pequena. Era um simples empregado da Société. bem pintada.

. perguntou pelo resto da bagagem. O primeiro transtorno foi que não viu ninguém à sua espera. ele não sairia sem o caixote do coche descido no pau-de-carga. Kemper sabia o valor dessas recomendações e informações que não lhe saíam da cabeça. Disse que não. Amanhã é domingo. Apareceu um trabalhador do porto e perguntoulhe se não queria que levasse a bagagem. “Não vamos descarregar nada.. Foi quando surgiu o Senhor Lefèvre. Ao comandante. Teria de assistir à sua descarga e acompanhá-lo até o depósito da empresa. e nós queremos tê-lo sempre bem tratado. Seus patrões mandaram fazer para ele um paletó de linho branco.. perto do nosso escritório. invariavelmente nele vestido todos os dias. camisa de gola alto e uma gravata de cores claras. C É o Senhor Kemper? C Sim. sapatos de verniz. Encantado. Ele dá dinheiro aos agitadores do Amapá e os controla. que não trocava no frio de Paris. sentia um calor insuportável. muito prazer. acompanhado da mulher. ninguém trabalha. Ele se sentia o próprio dono da empresa.um presente de menagem. mas vim buscá-lo. Sua mulher é francesa e tem grande ascendência sobre ele”.” falou o comandante. Laurence. Nosso negócio é ouro e não política. Hoje é sábado. O Senhor Bonfim é nosso grande fornecedor e tem muita força com os brasileiros. quando muito cedo ia para o escritório. No cais. mesmo de roupa branca e leve. apropriado para o clima equatorial. Estamos na Guiana. Kemper tinha se preparado para desembarcar. pois não vira o desembarque da outra carga.. Os funcionários da Société ficam na hospedaria. com sua mala e o vestido. Agora. na Rue 122 . metido naquele fardamento que não era dos seus costumes. C Atrasei-me. que descera em sua companhia. Só segunda-feira. bonachão. exposto ao sol. Transpirava. habituado ao paletó de lã. Senhor Kemper! Que diabo o senhor tem nessa caixa que não larga?” “É um vestido!” “Presente de namorada! É assim.

O Senhor Lefèvre avisou: C Pode deixar que ele leva. C Trago também um coche C disse Kemper. querendo ressaltar que sua missão era maior. Laurence concluiu. pegue a mala dele e leve para a pousada da empresa. Então perguntou: C Um vestido? com esse cuidado todo? C É um presente para a Senhora Cleto Bonfim. Kemper rumou para a hospedaria. O Senhor Kemper é um enviado da empresa. as recomendações que tenho são de não deixar esta caixa. C Não. Senhor Lefèvre. esta Société Equatoriale está perdendo a vergonha C disse ela. Embora nunca tivesse 123 . ridícula!!! Jean cortou a conversa: C Tem gente lá para receber a bagagem? C Nós mesmos estaremos lá C adiantou Lefèvre. C Senhora Bonfim? Aquela piranha? Não é possível. e a empresa sabe o que está fazendo. C Senhor Lefèvre. C Aqui.de la Liberte. prolongando as palavras: C Que coisa ridícula. nem ouro a gente carrega. Kemper vacilou. C O que tem essa caixa? C Um vestido. O Senhor Lefèvre ficou vermelho e retrucou: C Não diga bobagem. É para lá que o senhor vai C e imediatamente chamou um homem escuro: C Jean. C Um homem atravessar o oceano para trazer um vestido para a Senhora Bonfim. Pode deixar. Kemper segurou a caixa do vestido. as recomendações do Senhor Foucaud são de não me afastar deste pacote. Laurence sorriu e fez uma expressão de curiosidade. é pessoa de confiança. rindo: C Agora a coisa ficou pior. Um coche? Também para a Senhora Bonfim? C afetou a fala. C Isto é ridículo C disse a Senhora Laurence.

Kemper olhou Laurence. a floresta. O clima. como se tivesse alguma mágoa. olhar sorrateiro. que encobria os cabelos caídos. São negros. Caminharam pela Rue du Port. passando ao lado da Place dês Palmistes. nos gestos e no falar. o não se saber ao certo o que se faz. Veja os tipos. O navio não balançou tanto. Jean já levava a mala na cabeça e ele a caixa do vestido debaixo do braço. Ela tinha uns olhos azuis. os miasmas. mas. Laurence não deixava de opinar: C É um erro pensar que a Guiana é a França. numa construção simples de quem imprimia nos beirais e nos telhados saudades da metrópole.viajado de navio. Na Martinica. Apenas nos primeiros dias. pouco sofrera. mas há mais de dez anos vivo em Paris. ficou a maioria dos passageiros do Gazelle. seguindo a Louis Blanc. 124 . dobrando a Rue Malovet e chegando à Rue de Ia Liberte. tomando a Christophe Colomb. uma leve tontura. as febres. todos ordinários. glamourosa. da cor dos seus. com a fileira de árvores altas onde. Saint-Paul-de-Vance. C Eu sou da Riviera. ao fim. despontavam as casas irregulares. Boulevard de Cayenne. O vestido era bem parisiense. Ele ajeitou os cabelos. quente e abafada passou pelo rosto de Kemper. tudo isso é uma coisa que a gente esquece. É lá que os pintores gostam de passar férias e de gastar suas experiências. Laurence disse-lhe: C O senhor vai se acostumar com esta brisa que é constante em Caiena. Aqui o calor e a umidade não nos abandonam nunca. índios. C O senhor. O Senhor Lefrève tratava-a com uma certa arrogância que era um misto de raiva. saia comprida. de uma cidade muito pequena e muito bela. de onde é? C Sou de Cancale. cintura apertada e uma gola engomada bastante alta. Uma brisa firme. Aqui só pensamos na França e essa gente não é francesa. leve. O jeito dela era de mulher difícil.

um dos homens do ouro e também nosso cliente. sem a brisa que corria lá fora. C Senhor Kemper. C Olhe. Tirou a roupa e resolveu descansar. não diga essas coisas ao Senhor Kemper C cortou Lefèvre. Se você.C Laurence. “com que roupa iria sair?” Não havia outra solução senão usar a que acabara de tirar do corpo. É fedor por todo lado. Kemper foi para o seu pequeno quarto. com energia. vamos providenciar sua viagem. Quero ver aquela vagabunda vestida de roupa de Paris no cafundó do Laurent. C Senhor Kemper. pára de falar. Laurence começou a rir de novo. mulher é curiosa. e ele deve ser de um enorme mau gosto. C Onde é Calçoene? C É o lugar das minas de ouro C respondeu Lefèvre. jamais me casaria com você. Kemper manteve-se em silêncio. o senhor vai me mostrar esse vestido que o senhor trouxe. Laurence C disse Lefèvre. C Não repita mais isso. O Senhor Lefèvre viu o desconforto em que Kemper se encontrava. Segunda-feira descarregaremos o coche e veremos qual a melhor maneira de levá-lo. sentia um calor insuportável. Sabe. Agora. em algum momento. Ele jamais abriria a caixa com o vestido que lhe tinha sido confiado. C Digo. e é verdade. Para ele um martírio. Dizem que é nojento. Chegaram à hospedaria. disse-lhe na despedida o Senhor Lefèvre. tivesse me dito que eu viria parar aqui. nós nos habituamos a tomar vinho e não transpirar. O Saint-Julien tem essa virtude. Desviou a conversa: C Veja aquela casa! É de Clément Tamba. “O senhor vai almoçar conosco”. O Senhor Lefèvre fechou a cara. Eu nunca tive coragem de ir lá. naquele sol e naquele calor infernal. Senhor Kemper. Deve sair esta semana um navio 125 . O senhor vai vê-lo no Calçoene. preso dentro daquele traje que agora o assustava.

no outro dia. Depois volta. Mandarei em sua companhia um empregado nosso da maior responsabilidade e confiança. Ele devia passar mais alguns dias em Caiena. vai acabar logo e morrer? C perguntou para o companheiro. dói tudo. Na hospedaria havia apenas um empregado da Société que. quero ver o vestido”. Ali não conhecia ninguém. Entre suor e sonhos. Aqui 126 . à espera do navio. indo ao Calçoene.para o Calçoene. C Será que eu posso. na mesma hora. Tem duas. O diabo é saber qual delas você pegou. da outra a gente pode escapar. “A febre chega. que mata logo. mas menos que no garimpo. Aí passa e dá uma suadeira dos infernos. e então a gente não tem mais forças. até a gente ir sentindo a carne saindo do corpo. sem resistência para essas moléstias. C Como se sente que a doença vem chegando? C Não se sente. viera tratar-se. “Por que diabo eu aceitei trazer estas drogas do Senhor Bonfim?” C E em Caiena também tem? C Tem. sim senhor. Tinha a sensação de que ainda estava no mar e as vozes que ouvia eram de Laurence. tomado pelo perigo da próxima viagem. A primeira noite de Jacques Kemper foi terrível. dizendo: “Abra a caixa. Se não me engano. Já estava em convalescença e tinha os olhos amarelos do horror de quinina que tomou depois de alguns dias entre a vida e a morte. pegar uma febre dessas? E o meu organismo.” Kemper não escondia o medo. Foi com espanto que Kemper ouviu o seu relato. os ossos. não conseguia dormir. Jamais pensou que ela pudesse envolver sua saúde. é o Meteor. toda noite. quando você dá por si. E aí vai caminhando todo dia. que está no porto. Uma. ficando só pele e ossos. acometido de malária. com um calafrio que faz tremer todo o corpo e não há lençol que baste. Mas é mais rara. A febre de macaco é a que acaba logo. os ouvidos e os olhos. a febre já está instalada. Kemper passou a interessar-se mais.

mesmo sabendo que estava a sete mil quilômetros da França. que muito tem pesquisado sobre a doença. Febres. disenteria. As doenças tropicais são terríveis. nada demais. Kemper quase desmaiou. continuava: C O pior é o tifo. mas Bizene. Deu-lhe vontade de voltar. só a graça de Deus. numa tal missão Choiseul. cai o cabelo. com um sadismo involuntário.também não é lugar de muita saúde. Kemper não estava gostando nada da conversa. Andaram pela cidade velha. tifo e outras doenças desconhecidas. de saúde. fortificante e Cholagogue índio. dou-me bem com o lugar. Essa era uma maneira de ele fugir dos receios quanto à saúde. C Madame Lefèvre. que nada tinha a ver com a Guiana. Para mim. nem conhecia nada sobre ela. olharam a Ponta de São José e 127 . e desejava apenas envelhecer em Paris? Laurence convidou-o para conhecer Caiena e eles saíram. com o corpo despreparado. é o que tem salvo a gente. que começou a sentir dores no corpo. mas estraga o figado. principalmente para quem vem da metrópole. O melhor remédio é a Flavoquina. Como poderia acontecer uma coisa dessas com ele. Mas muita gente já se deu mal. o companheiro doente. Estas palavras soaram como uma sentença aos ouvidos de Kemper. que tem matado muito. C E os remédios que existem fazem efeito? C Fazem. Depois a gente tem de tomar. Suas palavras o tranqüilizaram um pouco. mas a parte final abriu a porta para o medo voltar. a senhora já adoeceu aqui? C Coisa pouca. É febre. Remédio para ele. durante dois meses. Até hoje se conta que no século XVII morreram doze mil colonos. graças às descobertas da Fonsidar. isto é. E os presos? Estes morriam logo. vinte e dois dias de viagem em alto-mar e sem garantia de não estar infectado. e o sofrimento é danado.

Quis entrar. a data de 1645 e três flores-de-lis sobre um céu azul. Embaixo estão três vitórias-régias. para sugerir a beleza das florestas e campos deste imenso território. ficava encostado na parede. O sofá. jogadas na cama e em cima de uma cadeira velha. uma canoa cheia de ouro. Anos depois. um edifício de dois andares com uma mansarda. ainda mais se tratando de moda. toda gentil. voltando a ser a mulher da véspera: C Símbolo bem da terra: preguiça e formiga. para mostrar os minerais todos que a colônia tem. Embaixo. sua principal riqueza. estou muito curiosa. ao lado de uma mesa de pau-ferro. Ali ela se sentou. Kemper ouvia aquilo com a cabeça longe. bonita planta que vive nos pântanos e rios. O prédio central era o antigo Convento dos Jesuítas. deslizando num fundo vermelho. Na entrada.ficaram um bom pedaço na praça do Governo. dois tamanduás-bandeira. numa maneira de juntar a Guiana à França. começou a explicar: .Veja aqui o brasão da Guiana. para dizer que é francesa. pensando nas febres. Laurence levou-o já no fim da tarde para a hospedaria. o teto bastante inclinado. essa perdição dos homens e das mulheres que enche o chão da Guiana. com as unhas grandes agarrando tudo? Esse bicho preguiçoso. Kemper relembraria essa conversa que expressava o sentimento dos funcionários coloniais sobre a Guiana. C E acrescentou. Primeiro. O quarto estava desarrumado e as roupas meio desalinhadas. Mulher é sempre assim. O senhor é um moço 128 . única mobília. Todos sentiam-se desterrados. Laurence. e ele não teve como evitar. nem parecendo mais a mulher agressiva do almoço. que só come formiga. o brasão da Guiana. C Senhor Kemper C Laurence falou mais alto. E a Guiana tinha um fascínio e um mistério que eles não entendiam. C Senhor Kemper. e ele despertou da apatia. C Veja agora o atraso: olhe o que eles colocaram segurando o brasão. Mas não ficou na porta.

bonito, tem um porte macho e uns olhos que a gente vê e não esquece. Kemper ficou perturbado, sentiu calafrio, avaliando aonde ela queria chegar. “Essa mulher é um perigo. Varia do sério para o grosseiro, e agora com essa investida. Nunca me aconteceu coisa dessa. Nunca nenhuma mulher me seduziu.” Olhou para ela e só pôde dizer: Obrigado. “E se o Senhor Lefèvre chegar aqui? Com essa mulher sentada, sozinha comigo? O que vai acontecer? Esse vagabundo mal chegou e já se tornou amante da minha mulher. Vou matá-lo”. A Guiana para ele passou a ser uma terra de absurdo. C Senhor Kemper, mostre o vestido que o senhor trouxe de Paris. Passei a noite toda pensando nele. Quero vê-lo, Jacques. A voz de intimidade assustou-o. C Madame Lefèvre, as recomendações que eu trouxe são muito severas. Eu não posso faltar à confiança dos meus patrões. É meu emprego. Como eu poderia abrir esta caixa, que não sei o que tem. Eu nunca vi esse vestido. Como abrila? C Kemper, você não pode negar uma alegria à curiosidade de uma mulher como eu... Não saio de seu quarto sem ver o vestido! C Madame Lefèvre... Laurence, por favor. C Pois bem, eu vou para o quarto e vou vesti-lo. Se você quiser, me agrida, me rasgue, me impeça. Kemper ficou sem saber o que fazer. Laurence caminhou para o quarto. Ele a seguiu. Ela viu o pacote sobre a cadeira e começou a abri-lo, sem vacilações. C Madame Lefèvre, não faça isso. Não me obrigue a ir atrás do seu marido, pedindo que ele venha aqui buscá-la. C Pode ir, ele me encontrará nua, na sua cama... Kemper não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Depois, com o correr da vida, ele foi se convencendo pela idéia da magia daquele vestido. C Pois irei. 129

C Vá C e começou a despir-se. Kemper retirou-se do quarto, sentou-se no sofá e não sabia o que fazer. Ouvia pela porta aberta os ruídos da caixa sendo aberta e imaginava que Laurence já estava sem roupa e, pelo que sentia, pensou: ela não queria só ver, mas vestir o vestido da Senhora Bonfim. Foi uma espera angustiada na sua vida, que até então tinha caminhado sem coisas assim. O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhadas pelas dobras até a barra da saia, circundada por uma cinta de rendas e franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados. A blusa de renda, por baixo, subia, branca, em contraste com as cores fortes, e fechava no pescoço, numa gola de sedas e babados que combinavam com os punhos das mangas longas. Era um vestido sem saias apoiadas por armações, destacando as formas finas. Enfeitando o tecido, pérolas e lantejoulas. Era uma bonita obra da moderna costura francesa. Laurence voltou à sala, deslumbrante. Era outra mulher. O traje que Kemper levava para a Senhora Bonfim dava-lhe uma aura de encanto, parecia um céu estrelado. As lantejoulas e pérolas que salpicavam o corpete e a saia enchiam de luz a sala. Kemper esqueceu seu drama e ficou fascinado. C Kemper, dê a mão. Ela rodava vagarosamente em torno dele, levitando, possuída pelo gosto da vaidade e encantada pelo seu próprio corpo. C Eu nunca me imaginei vestida numa roupa destas, coisa de vitrine para mim C disse Laurence, sussurrando no ouvido dele: C Kemper, veja como é belo uma mulher feliz. Meu marido é um porco. Venha me ajudar a despir este vestido que vai ser ultrajado pela Senhora Bonfim. Leve uma roupa minha para ela, deixe este comigo. Ela não saberá de

130

nada. A créole vagabunda!... Kemper ficou parado na sala. Ela começou a tirar o vestido, afrouxou a cintura, desabotoou, suspendeu-o, puxou os ombros para a frente, esquivou-se para um lado e depois para o outro e foi puxando os braços de leve, lentamente, para libertá-los das mangas compridas. Abaixou-o até o chão e delicadamente retirou as pernas. Kemper ajudava. Apareceu o corpo de mulher madura bem delineado e ajustado pelas meias altas, uma pequena gordura no ventre, quase imperceptível. Os seios ainda firmes, os cabelos longos e os sapatos altos compunham uma silhueta esbelta, sensual e provocante. Laurence pegou na mão de Kemper, atraindo-o lentamente. Ele fazia que resistia. Sentia bem perto o perfume dela e seu olhar corria as curvas do corpo. C Kemper, veja-me sem vestido e como ainda sou bonita. Você logo me verá mais bonita ainda. E pouco a pouco conduziu-o para o quarto. Levava ao ombro o vestido de Saraminda. Em cima da estreita cama de solteiro de Kemper estava jogado o seu próprio vestido. Ela colocou o que trazia na cadeira perto da parede, em cima do assento, deixando-o cair atravessado de um lado para outro. Fechou a porta. Kemper estava imóvel, lívido. Laurence tomou a iniciativa de colocá-lo à vontade: “Deixe-me abrir sua roupa e as mãos deslizaram sobre o peito dele, enrolando os pequenos cabelos. Depois, retirou-lhe a camisa com cuidado e afagos e pediu: C Desabotoe meu sutiã, é fácil... as pequenas presilhas... assim... Kemper jamais ficava à vontade. Era tudo estranho. Laurence desinibiu-se e realizou todos os avanços. C Onde vai ficar o vestido que está em cima da cama? C perguntou Kemper. C No chão C respondeu ela C, com as minhas meias e a minha calça íntima. 131

Viu-a deitada, madura, rija, carente de todos os afetos. C Kemper, só temos uma vida. Não pense em nada, pense neste instante. Não há coisa melhor do que uma mulher entregue a um amor impossível e inesperado. Uma sineta tocou na rua. Bateram na porta, Kemper tremeu. Laurence suspirava e, quase sem falar, disse: “Não é nada, é um pregão de garrafas vazias... Deite-se... seu suor me enlouquece”. Kemper viu a noite baixar de leve sobre Caiena e levou Laurence à porta. C Agora vou colocar na caixa o vestido da Senhora Bonfim. Ficou belíssimo na senhora. Nunca pensei que existisse uma mulher tão encantadora nos calores de Caiena. C Kemper, amanhã eu volto para vermos de novo os tamanduás do escudo de Caiena C e sorriu.

132

17 Os presentes chegaram

“Compadre Clément, só depois comecei a montar as coisas e conhecer o caminho do sofrimento. Eu, Cleto Bonfim, fiquei prisioneiro dessa paixão, uma cadeia sem limites. O francês trouxe o vestido, mas ela não queria vestir. Ficou fascinada de ver e tocar. Tirava da caixa, olhava, cheirava e suspirava, como se encontrasse um perfume mágico, e tornava a cheirar e me obrigava a cheirá-lo. Depois se deitava e fazia como fez com o vestido de noiva, botava na rede, ao lado dela, e o vestido era de uma cor rosa que contrastava com sua cor escura, e achei que tinha um jeito de usado, mas era bonito. Depois vi o tamanho e me pareceu ser maior que Saraminda. Mas ela não via nada, não estava atenta aos defeitos. Para ela era o fascínio de um vestido de Paris, presente que ela julgava de Kemper e não da Equatoriale, pois ela não atinava o que era a Société. Tudo isso eu senti quando ela me disse: Esse moço de olhos azuis veio da França para me trazer esse vestido, sem me conhecer. Quem disse para ele que eu estava aqui? ‘Saraminda, esse homem é o portador da empresa que compra e vende meu ouro e viaja por ordem dela. Eles querem me agradar e, para me agradar, têm que começar por você. Ele trouxe, também, uma caleça que mandei buscar para você’. ‘Meu Deus, Cleto Bonfim, você me deu um carro para andar?’

com as rodas douradas. sai de nossa casa até meu barracão. para ser puxado por dois cavalos. Uma casinha com duas janelas. coisa já fora de uso que eles remeteram para enganar você. E eu. e todo mundo até hoje ouve seu trote nas ruas. e o francês não sabia. do lado de fora. Cleto. e dentro almofadas de veludo vermelho e franjas amarelas. Você vai e volta. Chegou um cabriolé. para dar conforto aos dois homens. carregando o palanquim. Eu queria que ela fosse deusa. Mais do que coche. Saraminda. Saraminda. Eu fiz isso e ela não ficou satisfeita e me pediu para mandar gravar embaixo 134 . Mandei vir tudo que uma dama de sociedade tinha em Paris. Bonfim?’ ‘É um coche de duas rodas. Eles sabiam que aqui no Laurent não tinha caminho para carros puxados por cavalos. Eu gostava muito da chamada liteira de Saraminda.’ C É mentira. Veio com o carro. ‘E como vai passar nestes caminhos?’ ‘Vou mandar abrir uma estrada só para você.’ ‘Eu vou ter um carro com dois cavalos?’ ‘Vai. mandei buscar um ourives e mandei gravar em ouro. bancos de couro. e o povo de Caiena ia para a porta vê-lo. não chegou caleça. esperando transporte para cá. é preciso abri-los. de sombrinha e vestida com essa roupa de Paris. Estava montada em dois caibros dourados com alcochoados nas pontas. E aqui não tem caminhos para ele. batia palmas e dizia: Viva Clément e o progresso de Caiena. com uma coberta de lona. ninguém nela vai andar.‘Sim. está desembarcado no porto do Firmino. o nome Saraminda dos dois lados. puxado por uma parelha de cavalos brancos. “Mas eu mandei também trazer uma cadeira de trono para ela. um na frente e outro atrás.. landau eu mandei buscar para Caiena. Cleto Bonfim. ‘Como é caleça. com cortinas.. uma de cada lado. com portas bordadas de ouro.

Saraminda’. a cadeira e o coche. E eu beijei. E ela foi buscar.. com meus ouvidos abertos na direção das portas. você não pode matar o Lefèvre. Bonfim. Bonfim C interrompeu Clément. Chorava. Seu corpo nu estava mais belo que nunca e então me perguntou: ‘Onde está o francês que me trouxe o vestido?’ ‘Viajou esta manhã’. eu mato a morte. 135 .Amor de Ouro . Ela devia me agradecer por tudo e me amar muito mais. Logo um vestido que atravessou os mares’. aqui.” C Você está morto. sem bordas esgarçadas. com aquela voz. ‘Mande buscá-lo de qualquer jeito. “Então.” C Aquilo era um cabriolé. Eu não sabia que aquilo já era uma artimanha e conhecido machavelismo ∗ dela. “Compadre.”  Esperteza. ‘Me mostra’. Vou continuar.. na carta tinha escrito o nome coche.” C Não é coche. me respondeu: Sou eu. Mulher bandida. eles enganaram você e cobraram muito mais ouro do que valia C tornou a falar Clément. E ela repetiu: Manda buscar esse francês. que não parecia rasgado mas cortado como se fosse de tesoura. “Era. Tinha um corte. e eu implorava: ‘Me recebe. o vestido. Cleto. E me pediu: me beija. se for isso. que o seu soluço eu ouvia. coisa que não me agradou. “Depois que ela recebeu as coisas. junto com o vestido. e a resposta era o silêncio dos seus soluços. se trancou em casa e botou o trono na varanda e depois no quarto. ele também está morto. O vestido que ele me trouxe está rasgado nas costas. De manhã ela abriu a porta e apareceu. E eu mandei no meu cavalo de sela Celestino Gouveia botar trote e trazê-lo de volta de qualquer maneira. Corruptela de maquiavelismo. reto. E eu perguntei: Por que amor de ouro? e ela simplesmente. Passou um dia e uma noite e não me recebeu. Fez o contrário. eu vou matar esse homem na França e começo pelo Lefèvre. Depois que ela recebeu meus presentes.

que falava francês. Empurrei-o. veja o que Dona Saraminda está pedindo’. mas respondeu: ‘Eu vou levar de volta e a Société Equatoriale vai mandar outro’. olhei com muita raiva e disse: ‘Dona Saraminda quer devolver o vestido. e foi logo dizendo: ‘Seu francês.. e aqui 136 . besta como besta. grande para seu tamanho. e via. de Paris ao garimpo do Calçoene. vestida no vestido com a saia arrastando. ‘Eu. Eu. Bonfim. “Mais ou menos ao meio-dia. ‘Eu apenas trouxe a encomenda.’ Nesse momento. sob ordem. levo o vestido para vir sem defeito de Caiena’. é aqui. ‘Não sei fazer. homem sem modos nem educação. Vi que o francês começou a tremer. não é preciso. seu francês. e ele foi tremendo. ele abriu a boca e fez como se quisesse fazer espanto e apenas balbuciou.. Não sei se ele viu o rasgão ou se fechou os olhos. ele está rasgado!’ Eu desde o princípio não topei com a cara dele. o senhor vai fazer um cerzido no rasgão’. nojento. eu disse para mim mesmo. ‘Fale. nunca tinha visto o vestido. aparteou Saraminda. Ela queria era ver o francês. Ficou mais branco do que cal virgem e mal gaguejava. a voz de Saraminda foi ouvida: ‘Bonfim.“Não diz isso de Saraminda. não maldei nada. porque não podia ser vista do jeito que andava e só eu tinha o direito de ver. e bobo daquele jeito. minha senhora?’ disse Kemper. e com ela só tratavam as duas crias da casa. E quando ela apareceu. ‘Não. o Kemper chegou de volta. ‘Não. com a boca de babão: ‘ÓÓÓ’. dificultando a tradução de Maruanda. seu francês. Saraminda é tudo para você”. vacilante. mandado numa missão tão importante e de responsabilidade. meio folgado na cintura. mandando fechar todas as portas. ‘Não. Era muito almofadinha para meu gosto. Saraminda estava no quarto. queria lhe dar uns bofetes. abre a porta. veja aqui no meu cangote o rasgão’. Eu já estava com raiva. Eu mandei que se trancasse de todo. que ela mesma escolheu. quero falar com ele’. você está louca?’ E aí fui entrar no quarto e ela já vinha saindo. as saramacas Gedina e Maruanda. seu francês. “Ele chegou.

sujo. não deixa esse francês viajar.. com o francês assistindo. Compadre Clément. Acreditei. que é o que ela queria. compadre. branco que nem osga. tive um pressentimento. E mandei encomendar na Vila do Firmino. Tenho certeza. acompanhar uma mulher do Limão contratada para fazer o serviço. Ah.. Deixe-o sempre perto de você’.” C Não diga isso. não sabia nem enfiar agulha. Deixe ele preso. e guardei na cabeça aqueles uivos que eu nunca ouvira de manhã de chuva e de dia. Ele a viu nua. O bicho era uma lesma. e os cachorros ao longe latiam e latiam de dia. É uma trama. mas do jeito que ela estava no cio e que eu não via. e ele era chamado para ir todo dia. compadre Clément. e o rasgão do vestido era o motivo de retê-lo. depois ela foi enrolando. Ninguém tinha coragem de me dizer. canalha. Bonfim. desculpa esfarrapada que eu. então. o Kemper teve de costurar o vestido? “Não.” C Mas. E Saraminda fazia o diabo e nunca estava contente. que batia na nossa casa como se alguém estivesse chegando. compadre. nunca com 137 . obrigado a fiscalizar e ajudar. que ela me pediu pela primeira vez que mandasse buscar mais cinco cachorros para vigiar nossa casa. sem saber que ela queria era que o francês não viajasse. em tudo botava defeito. para mim é uma raiva eterna. ele já deve ter morrido. eu que via nesse francês uma baboseira de gente.de casa o vestido não sai’. Logo para aquele bobo. “Morreu para você. ela se entregou para ele. com um ar de espanto e uns olhos esbugalhados de medo. de manhã e de tarde. Foi. Francês nojento.. Ele é espião que veio para ver o ouro e deve estar a serviço da tal Société para roubar você. procure saber. abestalhado. chovendo. Eu.. E ela pediu: ‘Cleto. engoli como se come mosca. como me queima não saber se ele se agarrou com ela naqueles dias e se a viu nua e se foram para a cama. costureira. moleirão. lembro que um dia choveu uma chuva triste. compadre. fazia e desfazia.

ele não viajou. O tal espião que ela descobriu era o amor que teve por ele. e eu não senti. por determinação minha. voou na minha cara.” 138 . Assim. Passou debaixo de minha janela. cobra que se enrolou na minha perna. E eu não vi. com ordem de não sair.capacidade de espião.

.

Não me dava vontade de me entregar. que amaciasse meus seios. Com Clément Tamba fui mais longe. mas eu fazia mais. Eu brincava com eles como com as bonecas. A caça mais certa de apanhar. Dei leite de árvore-da-vaca para ele. coisa de irmão. que segurasse minha carne. Deu-me a sedução de saber o que eu sentiria depois de tê-lo. Deixei que ele me beijasse. Mas resisti e não resisti. Fiquei feliz quando ele. Eu brincava com eles. educado. e eu com carinho . Eu queria sempre que eles tentassem de novo. Mas Tamba era homem de bons modos. de ter gestos de delicadeza. de quem eu gostava e que era amigo de Cleto. o bicho cresceu. Eram sujos. mas não me entregava. de amaciar as mulheres.18 A prisão dos sonhos Eu nunca soubera o mistério que se esconde dentro de um homem desejado por uma mulher. tinham cheiro de trabalho e pingavam ouro. pequeno. me enviou um veado-catingueiro. sentisse o calor dela. levá-los ao desejo insaciável. com as pintas brancas começando a aparecer no pêlo castanho. o segredo deles me verem nua e fecharem os olhos com medo. e estive à beira de sucumbir. Os homens são fáceis. Fiquei com medo de me enojar dele. sabia a arte de seduzi-los. desmamado. de agradar. Eu tinha o prazer de me mostrar. que mandei tirar na floresta. sabendo de meu gosto por bichos. Minha fidelidade a Cleto era não querer deitar com outros homens.

com Tamba tinha Cleto no meio. Eu nunca soube o que era ter ciúme. porque todas as mulheres tinham de ser de um homem. da maneira que pode ser. com outros homens eu fazia e desfazia. sem demora. não deixei que ele me possuísse toda e fiquei feliz. Eu pensava em um dia largar aquilo e ter um homem meu. vem. Eu nunca tinha sabido o que era amor. a planta está morta. me assustei. até o dia em que o chamei e disse: “Cleto. No bordel. com medo de me perder e enganado. vai aumentando. mas para ser de um homem. Eu disse a Bonfim que me deixasse ser eu. como pensavam na minha fama. Eu logo fui de poucos fregueses. Jacques Kemper não pode abandonar mais o garimpo. 141 . só pelo gosto de danar. Bonfim tinha medo de ter ciúme de mim. todos os homens eram de todas e todas eram de todos os homens. saí correndo. quando vi o amor. Algumas gostavam de xodó. Com Clément eu tinha esse cuidado. sem nunca me ver ou provar. mas nunca podem cumprir. forma batatas. Nada por amor. eu também queria. Tamba voltava sempre com a desculpa de ver o animal. ele me acompanhava. tira o verde das folhas e seca. dizendo que nunca fui de Tamba? Eu fui. e Clément ficou mais desvairado de vontade e pedindo: Saraminda. As pessoas estavam por perto e eu queria deixar que todos pensassem em mim. Ele queria mais.fazia-o comer na minha mão. Mas não foi de caso pensado meu fazer as coisas de outro jeito. e quando eu ia ao quintal. Me recordo de sua cara apalermada. no quintal. O ciúme é uma coisa que cresce nas pessoas como mandioca. que me deixasse ser cobiçada pelos homens. Por isso. de pouco. Quando se arranca o ciúme. Ele me aceitou assim. Acho que as mulheres todas dizem para os homens que eles são os melhores amores de sua vida. Por que estou mentindo para mim mesma. era de plano. dentro do galinheiro. para onde eu fosse. juram fidelidade. babando. mas que eu era dele e só dele. não por hábito meu de não gostar. Cresce pelas raízes. e eu sabia que aquilo era despiste. mas eu queria respeitar Bonfim. fugi. só deixei ele provar.

e eu iria ver todo dia se ele estava vivo. me tornando azul. Cleto. Eu vivia acordada com ele. mas. mas vou mandá-lo de volta para a França.” Então ele resolveu prendê-lo e eu concordei. então. “Eu não o matarei. Mas não menti quando falei que não sonhava.” “Eu me mato também. cachorro. e o prendeu. e eu tive pena dele. Eu pensei que ele. me pagou dez quilos de ouro. no desejo de desejar. Queria uma guarda de capangas para protegê-lo e meus cachorros. Eu disse a Cleto que Kemper não sabia nada de mim. no embarcadouro do Firmino. eu vou me matar”. mandou fazer um barraco reforçado. que. me saciando sem saciar. Ele respondeu: “É cachorro. ele para mim é um bicho de estimação que eu quero preso. “Você sonha com ele?” perguntou. Mas comecei a pedir a Cleto que se banhasse antes de ter comigo e que botasse alvaiade no sovaco e essência no cabelo. onde atracam os navios. Mas ele não compreendeu e ficou desesperado. Minhas noites eram de insônia.não é questão de ser espião nem nada. cachorro”. ia sofrer e me matar. que eu nunca conversara com ele sobre coisas de homem e de mulher. Não digo que era só por isso. eram mais de cinco. dominado pelo meu feitiço. Acho que ele pensou em matá-lo e voltou atrás depois que eu disse: “Se Kemper morrer. Era meu dono. botou cinco homens vigiando Kemper. Eu queria morrer. assim como se fosse um cachorro”. e não me fizesse pensar em cheiro de Kemper. Cleto ficou feliz quando falei cachorro. todo de paus de angelim. não sonho. Menti: “Não. mas com uma obrigação: a prisão tinha de ser no quintal de casa. era também pelo costume que ele me ensinou. para que o cheiro fosse dele. e lá colocá-lo num navio para ele voltar para a terra dele. na verdade. 142 . me fazendo ser luz. Então ele ficou com medo e começou a chorar. Mas nunca deixei de receber Bonfim. só vivia a pensar nele. Eu sofria. Escoltado daqui à Vila do Calçoene. Nunca pensei nessas horas que ele era Kemper. é que estou querendo ele”. vendo os olhos azuis entrarem pelo meu corpo e me invadirem toda.

Foi então que me veio à cabeça dizer a Tamba: C Você e Cleto passaram a vida atrás de ouro. e vi a pedra suja. logo depois que meu trono chegou. cheia de buraquinhos. Saraminda. afastando um pouco a cortina. fechada de cadeado reforçado e tranca. que vai ter o nome dele? Vocês devem tirar dele. Quando cheguei perto da lontana de ziguezague de Clément Tamba. Quis ver a pepita de dezessete quilos que o chinês Li Yung achou. Tinha uma mesa comprida e estreita. Duas balanças. “É esta a pepita?” “Sim. e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens. como é feia. e é esse chinês que acha a pepita maior. pus o vestido de Paris.” Vi quando os homens perceberam que eu não estava nua. entrei no palanquim. Os homens todos largaram a garimpagem e vieram para a beira da passagem e eu os via. agradeço que tenha trazido Saraminda para ver a pepita do chinês”. Mas Clément Tamba acendeu um candeeiro e suspendeu no mais alto de seu braço. baixei as cortinas e os dois saramacas que trabalhavam comigo me levantaram e desci a colina da casa. eu quis parar. com os barrancos lá embaixo. Bonfim ia na frente e depois um capanga atrás. Clément Tamba me recebeu. Fomos para o barracão. C Tirar como. entrou um pouco de luz e dava para distinguir as coisas. como se eu fosse rainha. meio porosa.” Não achei que fosse ouro. “Foi perto dali que foi achada a pepita. Não me faltou o respeito. de cor avermelhada. pelos caminhos do garimpo. com a porta forte de pausanto. Pensavam que eu estava nua e quase fechei o garimpo. tem cara de ouro morto. Havia um quarto escuro cheio de barricas com garrafões de ouro. e me levou ao quarto escuro. e pegou na minha mão. me embelezei toda. e fui. passei nos caminhos entre as pedreiras. “Bonfim. Ao abrir a porta.” “Mas é a maior que já apareceu em todos os garimpos destes rios.Só saí uma vez de cadeirinha. Saraminda. Então me preparei. Saraminda? 143 .” “Não parece. de tão feia.

Clément sentiu por um instante a ambição de ficar com a pepita de Li Yung. coisa para chinês. Eu sabia das histórias que corriam e das lendas que falavam de mim. respondeu Gedina. de longe no silêncio da noite. eles sabem como é? 144 . aquele espaço que me separava dele. belisquei Tamba e. Lá fora o vozerio dos garimpeiros era forte. Passei a mão. Ficava de longe. Por que eu devia matar Bonfim? Eu era dele. Eu não teria coragem para matá-lo. Meu coração batia forte todas as tardes.” “Só pelo rasgão do vestido de Dona Saraminda? Eu não fui culpado. Mas não foi essa a única vez que andei de trono. vendo as árvores que conheciam meu caminho. o que falam? C Na beleza do seu corpo. Olhei mais uma vez a pepita. Me preparava de tarde. tomei enjôo por Bonfim e comecei a matutar. Entrou maldade em meu coração. Chegava. “Talvez uns vinte. Eu não era mais eu. verificar se estava vivo. e quis me libertar. era coisa para Celestino Gouveia. C Minha pele. Eu andava todo dia. nos seus olhos. Elas vinham misteriosamente. Um dia eu soube que ele perguntou: “A quantos anos estou condenado?” “Cleto é quem sabe”. isso é coisa de vocês. arrematei: C Deixa. mas resistiu. batiam em meus ouvidos e soavam como súplicas de amor. libertar Kemper e me livrar de Bonfim. Não lhe deixava faltar nada.C Não sei. os saramacos me levavam para ver Kemper. entrava nele no meu quintal. Clément. Quando comecei a ouvi-las. matando-o. C Gedina.” Depois Kemper tomou por hábito cantar na madrugada canções da Bretanha. ele me fez a mulher mais afamada do vale do Calçoene. Meu trato com Bonfim. rondava a prisão. é feia. e que os cachorros são possuídos pelo demônio. Ele não era disso. ele me deu valor. Todos queriam esperar a hora de Saraminda sair. olhava de longe pelas grades da portinhola e via seu vulto. com malícia.

Eu pedia. Sua barbicha não me agradava. Eu pensava que a felicidade era sair do bordel. O acerto do apuro era feito no fim da 145 . é muita beleza para minha cabeça. E não era. deitado. vi o vale. Mas ele também cobrava. e o resto era de Bonfim. C Não olho. diz como é. amarelos de febres. Dona Saraminda. Isso me agrada. Quando ali cheguei. trinta por cento era deles. Ele me prendeu na mata. nunca comentaram? C Não. fala de meus peitos. C O meu sangue índio. Fica vendo. Gedina. Gedina. Todos trabalhavam de comissão. Mas todos trabalhavam com as ferramentas que eram de Cleto. e ele. forma de escravizar todos.C Não. O garimpo era quase todo no pé da montanha. Debaixo dela se escondia o mistério das águas e do ouro. enxadas. C Pois descreva a quem perguntar como eu sou. olha para mim para você contar para eles. C Então. Eu falava: C Diz. C Deus me livre. E ela passava a mão no cachorro Tupã. Bonfim não me deu o que eu sabia que as mulheres precisavam: um homem pelo qual tivessem paixão. se virava. cercada de gente podre. Gedina. Bonfim me deu tudo. Dona Saraminda. Eu não falo nada do que vejo. como formiga. minhas partes despojadas. Do ouro que achavam. Deixa essa gente ficar imaginando. Agora eu via que ele era feio. pás. diz como eu sou. não sabem. cinco por cento de Celestino e dos seus homens que vigiavam o trabalho. só ele podia ser dono. Cleto tinha no seu mando mais de quinhentos. C Pois conta. catando ouro. terçados e as lontanas. coçava sua barriga. espalha. caindo de doenças. ele me dava. milhares de gente. Então eu via que não gostava dele. de pernas inchadas pelo batimento da água. dono das criminelas. C Mas eu não falo da senhora. Olha para mim.

às quatro da tarde. Bonfim sempre dizia: “Garimpeiro é gente que tem conta a pagar. Os cipós que se entrelaçam. balançando. foge para o garimpo. bonita. Bonfim dizia com ciência: “Está cheio de doença da vida”. Podia ser velha. E de roupa lavada eles iam para as corrutelas e para os cabarés.semana. descem do alto das árvores e ficam pendurados. A cabeça destempera e o desejo. Aí corria cachaça e dança e arrasta-corpo e tudo o mais. E os homens. No sábado. o garimpo fechava. com doenças. parecem coisa viva. Onde corre bebida e mulher corre muita coisa. feia. quando alguém cai  Masturbação. engalicados. Se alguém faz um mal. os homens iam para cima delas. mas o ouro era todo dia pesado no barracão do dono. me pesava. sujos. ou então era só ficarpensando-em-ti∗. Crescia dentro de mim uma tristeza que me matava. Eu já não tinha mais vida como nos dias da minha chegada. cheios de piolhos e chatos. E os mandava para a Vila do Calçoene tomar injeção. Era no mato. com todos os seus perigos. A selva impenetrável. e o castigo é de morte. As mulheres usavam chá de cabacinha para abortar e não encher barriga. de todo tamanho e grossura. como bicho. Eu estava presa. Todos iam lavar suas roupas. é castigado ali mesmo. que se entranhavam nos seus fundos. encajibados. Se mata. misteriosa. amarelos. Quando ficavam magros demais. mesmo assim foram muitas as que morreram. com os jacarés negros e as sucuris que ficam no caminho dos veios e. As cobras de terra e dos charcos. que não eram passadas a ferro porque não tinha ferro no garimpo. moça ou rapariga. Na tristeza deles qualquer uma serve. sem fim. fedendo a gonorréia. Tudo gente que não tinha boa cara. se rouba. Mas eles não tinham posse de mulher nos barracões porque era tudo aberto. a cobiça e o ciúme se encarregam de fazer desgraça. Mesmo doentes. 146 . esse desejo danado que ataca no garimpo por falta de mulher. Mas no garimpo não tem lei nem autoridade. Algumas ficavam com restos e tomavam Água Inglesa para limpar. foge para o garimpo”.

deslocam queixos e suportam qualquer vivente. Bonfim nem precisava matá-lo. o homem ia farejar e saberia onde ele está. Bastava um caboclo daqueles do seu mando para degolá-lo. O garimpo é de uma solidão imensa. Como se pode escapar de uma prisão se em volta não tem nada. água parada. Quando a gente olha. As plantas de veneno. que cheira a podridão. E isso me abriu uma janela de voltar a viver. de raízes enterradas da mugueta. e isso me tornava escrava. com sua doidice. O ouro não tem cheiro. o açacu. que vi os olhos azuis de Kemper. Eu não iria nem ao fim do caminho que leva ao atoleiro do Cruz-Credo para tomar o caminho do embarcadouro da Vila do Calçoene. e não podia resistir. e Gedina me encontrou assim: “Dona Saraminda. puxar os cabelos. me botou o vício de ser mulher. comecei a gritar. cercada. receber os cinco francos e nada mais. das tiúbas que embriagam. parece que não é no mundo. o que baixou 147 . Mas como ir embora? Eu tinha tudo e não tinha nada.na travessia. por que matar Bonfim? Ir embora e levar Kemper. Eu já ficava esperando. eu já vinha me doendo. o cunambi. quebram os ossos e engolem. os espinhos de iuruparipina que têm veneno que nem dente de cobra. O cheiro era da terra. Eu daria tudo na vida para voltar para o bordel. nem Celestino Gouveia. Se tivesse. e as pessoas passam a mijar vermelho. E como tenho medo das cobras. Mas Bonfim. misturando o corpo numa gosma que lambem. elas enrolam. da cascavel que pica. sem saída. Eu queria ir embora. abrem a boca. Eu precisava botar lenço de cânfora no nariz. da cor do vinho! Até o mel pode matar. Eu tinha nojo do ouro. Só em pensar nisso. Tudo é perigo. o anda. cheia de ará bicolor e parecendo as flores roxas. o tingui. e a terra estava suja pelo ouro. Mas eu era como um pântano de tristeza. Foi nesse tempo. toda a vontade se entranhava em meu corpo como reumatismo. é vazio? E Kemper? Ele seria o primeiro a morrer. no meio dessa escuridão. chorar. destinada a apodrecer.

no seu corpo? Virgem Maria!” E eu caí no assoalho de minha casa e só então senti que não era mais Saraminda, eu era uma pobre novilha amarrada no caminho do matadouro. Foi nesse momento que pensei no vestido de Paris e desconfiei de que tinha sido coisa-feita que me mandaram. E falei para Gedina: “Vai, traz uma lata de querosene que eu preciso fazer uma fogueira”. Mas antes me enfiei no vestido, passei a mão nele, beijei, vi os olhos de Kemper e passei trajada horas e horas, sentada no meu banco de maçaranduba. Depois me despi, fui para o quintal, coloqueio estirado, como se fosse uma mulher deitada. Vi com meus olhos eu mesma ali, no chão, envolvida na minha morte. Fui buscar um lençol, cobri tudo e fiquei velando a mim mesma. Na minha cabeça, as labaredas do desgosto subiram, e senti um alívio na alma, como se estivesse dormindo com um feitiço. “Saraminda, que vestido bonito, ele é de maravilhas, mais esplêndido do que as quaresmas na semana santa.” “Veja como ele brilha, tem as cores todas da noite.” “Não, Saraminda, por que queimá-lo? Guarde-o. Ele não tem nada com o seu destino. Olhe as mãos de Kemper costurando o rasgado, os olhos enviesados, buscando seu busto, pensando em seu corpo. Saraminda, não queime Kemper.” “Não, não vou mais queimá-lo. Ele é meu. Pode até ter desgraça, mas eu quero me vestir da desgraça pelas mãos de Kemper. Este vestido é ele. Atravessou os mares, veio de Paris.” Eu conversava comigo mesma. O pica-pau cutucou no pé de anajá, repetiu, andou rápido, parou e bicou, tornou a catarear. C Saraminda, que diabo está acontecendo? Foi a voz de Bonfim. Acordei do meu delírio. O meu vestido, o meu feitiço. Já queria morrer vestida com ele, no caixão, segurando com as mãos cruzadas meu peito, o peito do vestido que não era o

148

vestido, era o presente que Kemper me trouxe de Paris. C Não, Bonfim, estou vendo como vai ser quando eu morrer. Quero ser enterrada com meu vestido de Paris. Mas eu estava dizendo que queria ser enterrada com Kemper. Ele não ouvia. O sabiá cantou no galho da faveira repleta de pequenas favas. No chão, o maracujá-brabo com aquela flor vermelha. O galo Zeca cantou. Um vento quebrou um ramo seco que saiu rodando no terreiro. Bonfim me indagou de novo: C Que é isso, mulher? Acordei e dormi de olhos abertos, mergulhada no meu delírio. De repente, tive medo. Olhei para Bonfim, ele parecia estar lendo tudo que eu pensava, e eu ia pedir perdão. Sua mão levantava um tacape grosso, com toda a força para rachar minha cabeça, e iam aparecer no chão os pedaços da minha traição, as castanhas da minha perdição. C Que é isso, mulher? Peguei tudo, vestido, lençol, e saí correndo para o meu quarto. Bonfim parado: C Que diabo mordeu você, Saraminda?

149

19 Um bretão na gaiola

Por que o meu destino se acabou? Saí de Cancale, abandonei minha mãe para fugir do meu padrasto. Larguei o berço. O castigo seria esse? Eu amava minha mãe, mas tinha ciúme dela. Meu pai estava morto, e eu achava que minha mãe, ao ter outro homem, traía meu pai. Eu a abandonei por amor demais, não por ódio. Eu não podia permanecer naquela casa. Fiquei com medo de matar meu padrasto. Minha mãe viu isso. Nós dois não caberíamos ali. Paris foi um lugar de descanso e felicidade, até o dia em que Foucaud me mandou para Caiena. Desde a viagem, senti que as mulheres destas bandas têm mistério. O calor equatorial já mexia com minha alma. Depois, Caiena, Laurence a me dizer: “Veja aqui o brasão da Guiana... dois tamanduás-bandeira... com as unhas grandes agarrando tudo” e “Não saio de seu quarto sem ver o vestido”. A tarde na hospedaria, o cheiro daquela mulher, o fervor dos seus desejos, a loucura desordenada de seus hábitos, e eu sem saber o que estava surgindo, com medo de febre, mas o que iria me matar era o feitiço dessas fêmeas. A minha chegada ao garimpo, impacto da nobreza do rio Calçoene, com margens alternadas entre florestas e savanas, corredeiras e cachoeiras, os animais selvagens, a anta, a onça, o gambá, o tatu, a lontra, a cutia. As noites na selva, a cantoria dos pássaros no fim da tarde, todos juntos, aquelas

vozes aumentando, descendo das árvores e subindo, conjugadas com o fim do sol e com o manto negro chegando, e, num lampejo, todos parados a um só tempo, num contraste de sons, da algazarra para o silêncio, silêncio tão forte de não se ouvir nada, nem o vento, nem as águas, nem as plantas. A solidão dessas noites, no meio do mundo perdido de folhas mortas, dói nos ossos. Depois, o choque do garimpo, a miséria, o exército de homens pegando terra, quebrando pedras, jogando cascalho nas peneiras, e tudo sujo, e um cheiro de suor de axilas abafadas, e o unzunzum ensurdecedor da ambição de la couleur. A difícil viagem conduzindo o coche e o vestido, a subida no rio, o arrastar as canoas para atravessar as corredeiras, o andar em terra, carregando fardos, logo embarcados, adiante desembarcados, depois reembarcados, alternando rio e caminho, para vencer a distância até as montanhas que surgiram depois do Grand Dégrad. A apresentação de Cleto Bonfim. C Senhor Cleto, eu sou Jacques Kemper. Vim em nome da Société Française de l'Amérique Equatoriale trazer a encomenda do carro para sua senhora e sou portador de um presente que o presidente manda, pelo respeito que tem pelo senhor, nosso freguês, um vestido da Maison d'Amour para Madame Bonfim. Quantas vezes decorei essas palavras, escritas pelo Senhor Lefèvre, já com o nome da Senhora Bonfim, e o meu medo de errar. Minha surpresa quando vi o Senhor Bonfim, magro, esguio, baixo, de barbicha, e no pescoço aquele cordão de pepitas compridas, com olhar de congre, ignorante e rude que não me deu nem bom-dia e foi logo dizendo grosserias em créole que eu entendia pela metade: C Deixe essas coisas aqui. Minha curiosidade é ver o tal cabriolé. O vestido você leva para a senhora quando formos para a casa. Tire o paletó e fique de camisa, isso não é 151

vestimenta de homem aqui no garimpo. Aqui é lugar de macho e não de almofadinha. Eu me preparara para cumprir a missão, ser pessoa de categoria, representante da Société Equatoriale, e tinha feito um esforço para naquele calor suportar aquela roupa, que guardei na viagem com cuidado, subindo rios e caminhos que nunca pensei existir. C O senhor se senta e me espera. E passei das onze da manhã até as quatro da tarde sentado ali, vendo entrar e sair gente, pesando ouro, recebendo vales, e ele não me deu nem um copo d'água nem me mandou dar comida. C De noite você vai dormir no barracão do Celestino Gouveia, meu encarregado. Lá tem bóia. Que homem mal-educado. Mas ele não sabia o que eram modos. Só conhecia a dureza. Quando cheguei na casa e me deparei com Dona Saraminda, vi que era mulher de sedução. Tipo diferente e estranho. Seus olhos eram provocativos, e eu não tive coragem de fitá-los. Eram verdes, o rosto negro, os cabelos lisos. Fêmea de encanto. Mas eu, que estava já com medo do Bonfim, fiquei com mais medo da mulher. C Como é seu nome, senhor francês? C perguntou com aquela voz macia que nem óleo perfumado passando no meu corpo. C Jacques, Jacques Kemper. Trouxe este presente do presidente Foucaud da nossa empresa para a senhora. C Senhor Kemper, sente-se. C Obrigado. Está aqui a encomenda. Senhor Bonfim C dirigi-me ao marido C, está cumprida minha missão. E entreguei o vestido. Ela, então, ordenou: C Senhor Kemper, abra a caixa. Cleto Bonfim já era outro homem. Na presença dela, ele tinha o tamanho do assoalho. Sorria, olhava para os olhos dela, acompanhando sua reação enquanto eu abria a caixa. Ela

152

como se me desse um sinal de mulher. e um corpete enfeitado de lantejoulas baratas. E apareceu a caixa. as mãos tremendo e eu tomado de um pânico que me esquentava o corpo e a alma. Era um vestido vermelho. um amplo enfeite de laçarotes. C Oh! C foi o que consegui exclamar e senti o sangue todo subir para meu rosto.fitava rente meus gestos. dentro dele. Mirava. Na cintura. e me lembrei da maluca Senhora Lefèvre. uma peça só. saia de roda sobreposta às duas anáguas engomadas. passava as mãos. deixe que eu veja. não o que eu trouxera. seu francês? C perguntou Bonfim. C Que beleza! C disse Saraminda. encantou-se. estava enrolado o vestido. C Tire da caixa. Meu medo era de que Saraminda se desse conta de que não tinha cheiro de vestido novo nem vindo de longe. para garantir o balanço. com uma expressão 153 . e deixou. C Oh! de que. E seus olhos verdes invadiram os meus. Não sei como pude fazer. com as pontas de babados azul-claros. em papel de seda. os olhos embaciados. Mas ela não entendia de vestidos e ficou muito feliz. de decote rendado. me despertando do estupor. alcochoada de tafetá branco. meias-mangas largas e arredondadas. escorrer seus dedos nos meus. suspenda em suas mãos. e dentro dela. Laurence o trocara! Ela voltara aos meus aposentos e fizera a tramóia. nem fosse coisa de arte. Coisa de diaba. num desses momentos. que tinha feito essa desgraça. Tomei-me de espanto e medo quando os meus olhos viram um outro vestido. que nunca trajara roupa de efeito. C Abra o papel. Desfiz o laço de fita cor-de-rosa largo e comecei a tirar o papel esverdeado todo enfeitado com flores amarelas e vermelhas. Senhor Kemper. Saraminda. E surgiu o momento mais inusitado para meu destino. final de uma lista larga que nascia do decote e acabava ali. Logo se percebeu que era maior que ela.

comecei o caminho de volta. apenas encarregado de trazer a encomenda. Na madrugada seguinte. de que se trata? C e pensei: “Estou perdido”. C Alguma coisa contra mim? C Não sei. Pensei de imediato no vestido. é questão de uma encomenda que o senhor trouxe. C Seu Cleto. Senhor Bonfim? C Não. Não sei como engoli o café. gritou: C Você trouxe um vestido rasgado para minha mulher. Meu medo era Saraminda. C Posso ir. “Será que ele ficou com ciúmes de mim e não gostou dos trejeitos de sua mulher para o meu lado?” O certo é que voltei. Quando estava no pântano do Cruz-Credo. Quem mandou esse desaforo? C Eu não vi o vestido. um caboclo forte. Bonfim. ouviu-se o tropel de cavalos. me consolei para não pensar na surra e na morte que ia ganhar de Bonfim. Dona Saraminda não deve ter gostado e vai devolver. O meu patrão queria que o carro viesse acompanhado e me encarregou de 154 . Num deles. manda que o senhor volte comigo. mas que queimava como fogo. tentando avançar no lamaceiro. chapéu de abas longas. Bonfim não me assustava mais. Senhor Kemper. revólver na cintura e um vozeirão de gente má: C Cadê o francês? C Estou aqui. meu patrão. tome um café com biscoitos Pilar. “No mínimo.que eu não sei o que era. Sou empregado da empresa. de bigodes vastos. Ia incorporado a mais uma expedição. feitos no Brasil C disse Saraminda. “Descobriram que o vestido que eu trouxe não é novo.” Logo antevi as complicações que eu estava arranjando para minha vida. das tantas que diariamente saíam e voltavam levando ouro e trazendo mercadorias. ao receber-me. vou terminar no Presídio do Maroni”.

bem perto da abertura fechada por botões cobertos de pano e casas de alças. “Veja aqui. mentindo. C Não. e eu não teria como justificar a mudança. Chamou-me e mostrou o lugar. Eu não conhecia nada de vestido. posso levar de volta. abriu um sorriso de felicidade e repetiu o jeito com que me encarara da primeira vez. O meu medo era que. é coisa de pouco tempo. cercado pelo inferno do garimpo. Mas como eu ia conseguir fazer aquilo? Então. verificasse que era outra. Combine com ela. se não gostou. quando o Senhor Foucaud visse a peça. Saraminda saiu do seu quarto. e agora essa outra a querer me enlaçar. C Acho que deve ter sido defeito da casa que vendeu. e ela me falava como se eu fosse o costureiro.” E sua cabeça quase roçava a minha. Daqui o vestido não sai. olhou-me. Senhor Kemper. na hora da devolução do vestido. com um certo sentimento de homem. C Senhor Kemper. bem aqui. Ela mesma tinha cortado o vestido e me mandado chamar para que eu não fosse embora. tive certeza de que era desculpa arranjada. E advertiu-me: 155 . quero que costure o rasgão aqui em casa. e a Société mandará outro. C A senhora.trazer o vestido. A casa de moda que fez o vestido é a melhor de Paris. Nunca vi o que tinha na caixa C disse. Cleto Bonfim sentenciou: C Esse negócio de consertar é coisa de mulher. Vou ao barracão. Que diabo de mulher ardilosa. C Pois o senhor vai falar com Saraminda e explicar. Não sei como explicar esse defeito. no meio daquela gente violenta. em plena selva. Nosso desejo é que a senhora fique satisfeita. o vestido está rasgado nas costas. Não bastara Laurence.

C Maruanda. é coisa simples que não vai deixar defeito. E saiu. Senhor Kemper. Depois de um breve suspiro. senão. a mostrar o corte. que estou caída por você.” C Dona Saraminda. Me beije. que eu 156 . no colo liso e brilhante. E mais trêmulo fiquei. Saraminda foi ao quarto e voltou com uma peça de roupa: C Veja. Quase desmaiei. “não somente trocou o vestido. Maruanda afastou-se. Senhor Kemper. C Muito obrigada.. C Já vi. tentando revelar os seios soltos. Ela então me disse numa cantoria de sereia afogada: C Me olhe. ela colocou essa peça íntima para complicar minha missão e gozar o presente da Société”. rosa e lilás. Caí em grande perplexidade. tudo que Saraminda quiser. O vento leste soprava pela janela.. O senhor veio para me fazer feliz C e levantou a peça e a cheirou como se fosse uma flor.. veja aqui. bordada com flores de cores esmaecidas. quando Bonfim desceu a escada. Senhor Kemper. Saraminda aproximou-se. “Laurence”. Senhor Kemper. Não soube avaliar o que estava acontecendo. Era Saraminda que começava. “Me beije. sem nada a segurar. A outra coisa eu nunca disse a ninguém. vá à cozinha buscar café e biscoito Pilar para o moço. não tinha fôlego para nada.. Dona Saraminda. trazendo um cheiro de canela. sei que foi seu C e mostrou uma calça íntima. acerte bem as coisas.. pensei.. bem aqui. C Senhor Kemper. Não falei nada. falou: C Me beije. como fiquei feliz com seu presente. com seus olhos azuis. de lingerie creme. E curvou-se.C Seu francês. coloque o vestido na caixa.

. C Não. a voz desaparecera. a garganta seca. C Fique na cozinha.. Caminhei para a casa de Celestino 157 . que Cleto deixara para me acompanhar. Me beije. mas de ajoelhar diante deles. sua criada. C Dona Saraminda.. Senhor Kemper.levo de volta. Esse vestido é de ouro para mim. Senhor Kemper. É presente seu. voltasse? Se tivesse visto os modos de Saraminda? Se tivesse ouvido o que ela disse? Se Bonfim passasse a desconfiar dessa história de vestido rasgado. tem gente na varanda. o rapaz que Seu Cleto mandou me acompanhar. C Eu vou saber dessa história. Eles tinham os bicos amarelos. é da Société. minha senhora. Zerido. C Que imbecil o senhor é. C Eu sei. Do lado de fora.. C Me beije. Quando cheguei. E se a saramaca. mas estou falando baixo. Senhor Kemper. Maruanda entrou. disse ao rapaz: “Me leve de volta”. Amanhã falo com ele. leva o francês para dormir na casa de Celestino. na varanda da sala. como ouro. sumir. refulgindo fosforescentes. o que iria acontecer? C Não. C Ela o entregou? C Não. nem de beijá-los. Já era o entardecer. E abriu de vez a blusa e mostrou os seios. cadê o vestido? C Está com ela. não fale alto. estava o ajudante. Meu Deus.. Saindo para a varanda. C Société. essa visão me acompanhará na morte. Saraminda foi ríspida. Bonfim me inquiriu: C Que disse Dona Saraminda? C Que o vestido está rasgado e eu vou costurar. Zerido. Se vai costurar. Não dava vontade de tocá-los. Só volte quando eu chamar.. quem é Société? Me beije. Eu quis correr.

de onde se via tudo o que se passava ao redor e que era guardado por dois guardas. foi a única pessoa que. Me visitava e tentava descobrir o que ocorrera. conforme o trato de Bonfim com Saraminda. Depois vim a saber que os guardas não eram para evitar minha fuga. Seu Celestino? Eu vim trazer o carro que ele encomendou e um presente que a empresa mandou para a mulher dele. Não vi mais Cleto Bonfim. As histórias que correram sobre minha prisão encheram o garimpo. Naquele tempo ele ainda não sentia ciúmes dela. Pessoa difícil. Não sei o que aconteceu. fazer as necessidades. teve pena de mim. que o carro era feio e ele resolveu me prender. Não posso dizer que Celestino Gouveia tenha sido cruel comigo. que me acompanhavam quando eu ia. o senhor sabe por que estou preso? C Não sei. Talvez acerto de contas com a empresa da França. Eu acredito no senhor. até que chegasse outro. eu sem saber o que estava acontecendo nem os motivos da minha prisão. no buraco do mato. Fiquei com receio de contar sobre o rasgão do vestido. C Seu Kemper. C Então é outra coisa. para a fossa. naquele momento. Entreguei tudo. Ao contrário. Bonfim é homem de trato duro. C Eu. Não acho que tenha cara de ladrão. mas para garantir que eu não fosse morto por ninguém. coisas de negócio. eu estava preso num quarto de paredes de tábuas retas. e C o que foi mais preocupante C que eu 158 . Na mesma noite. e ele está retendo o senhor como garantia. Os dias se passaram. C Seu Celestino. para que Cleto não soubesse que eu estava comentando intimidades dele. Disseram que o senhor veio trazer umas encomendas que Cleto fez para Saraminda em Paris e que o senhor roubou a metade. Disseram que eu respondera mal a Cleto e ele não gostou.como se fosse para a última noite da minha vida.

replicando que ela não entendia de moda. por atalhos dentro da mata. Levaram-me para outra prisão. O certo é que passei duas semanas ali. Amarrada nos esteios. 159 . Uma noite.faltara o respeito com Dona Saraminda. uma rede. Achei que seria para ser morto. mas as paredes eram de tábuas cruzadas e permitiam ver de fora para dentro e de dentro para fora. Quando amanheceu. ao lado. Era melhor. Cedo chegou a criada trazendo café e biscoitos Pilar. C Onde estou? Só então soube que minha prisão ficava na mataria para onde davam os fundos da casa de Bonfim e Saraminda. um chinelo e um urinol. vi a luz do sol entrar amortecida. vieram me buscar. ao lado de uma cacimba e apesar de uma privada que fazia tudo cheirar mal.

Ela ia pelos trinta anos e conservava o rosto bonito e fino que os negros marrons têm. Ela me disse que o senhor lesse. Ela manda dizer que nunca desejou ninguém como o senhor. Há tanto tempo sem sentir cheiro de mulher. C Quem me chama? C Sou eu. manda dizer que é ela que quer o senhor preso aqui. Minha patroa.. Maruanda entrou. Maruanda. Vou abrir o cadeado para lhe entregar um bilhete que ela mandou. Olhei seus olhos. Dona Saraminda. C Seu Kemper. Foi nesse momento que pela primeira vez pensei em . e eu o queimasse na lamparina. para ela vir lhe visitar. C Que cilada a senhora está me preparando? C É isso. me devolvesse. Seu Kemper. achei-a no lusco-fusco capaz de interromper minha solidão. Seu Kemper.20 Um bilhete de letra redonda Foi numa noite logo após minha chegada à nova prisão que a criada Maruanda me chamou. A escuridão descera completa e a luz era apenas a de uma lamparina de querosene que eu mantinha acesa num canto. perto dela. no embarcadouro de Calçoene. que nada de mau vai lhe acontecer e que ela espera apenas que Seu Cleto viaje para a Vila do Firmino. E Dona Saraminda sabe o que quer.. Ela tem planos para o senhor.

Lá perto do Presídio de Saint-Jean. Ela dirigiuse à lamparina e queimou-o. letra infantil. os motivos de minha prisão. Ninguém a engana. pedir seu auxílio. sem rumo. Mas como confiar nela? Isso seria obra do tempo e de minha capacidade. em uma linha: “Me beije. 161 . Conta tudo. Ela contou: C Nasci no Maroni. me beije.fugir. C Maruanda. que ela é a mulher mais atraente que eu já vi. C Tudo que eu quero. Evadir-me. mas liberto daquela angústia. Kemper. que ela tem encantos. Eu precisava seduzi-la. Ali estava uma mensagem. senta aqui. sem saber o que vai acontecer comigo. esperar chegar a noite para Maruanda conversar comigo. a partir de hoje. Abri. Conte sua vida. é que não me deixem sozinho. Nada disso. C Não posso ficar muito tempo. C Me conta sua vida. Esperei que fosse uma pista para minha saída. Minta. senta aqui. as condições de minha libertação. Preciso de alguém para falar alguma coisa. aqui está o bilhete. e vou ter que dizer tudo. que lá eu fico com ela. A criada me pareceu boa cúmplice. dando um sinal de cortejo. mais confuso do que antes. e acrescentado: “Três vezes”. me beije. alguma palavra. C Seu Kemper. fazêla participante do meu drama. me mande para Caiena e vá depois. E a partir de agora terei uma motivação para o passar das horas. sair daquele emaranhado sem sentido e penetrar na floresta. Dona Saraminda sabe tudo. Ela sentou no chão. Kemper. e o entreguei à criada. Que ela me solte daqui. solto. morrer nos seus perigos. C Maruanda C pedi-lhe outra vez C. Que eu disse que só penso nela. C Ela sabe tudo e adivinha. Estou muito só C disse-lhe. redonda. Diga que me entregou o bilhete e que eu chorei. C Não faz mal. Kemper”. Dobrei o papel.

passar mais oito anos solto na Guiana e depois voltar para a França. A pessoa enrica. ele me trouxe para serviço dela. Conta como é Caiena. se torna difícil. No princípio me fez mulher dele. Vem na varação desde Roraima e já sofreu muito. Ele está nesse negócio desde sempre. mato seco. fica no veio e nunca sai. Jamais está satisfeita. O presídio ficava cheio quando os navios dos criminosos chegavam. Mas ser garimpeiro é mania. porque muitos morriam de febre. Quem era condenado na França até oito anos podia cumprir a pena. restos de cascalho e os fantasmas de garimpeiros que morreram. mas logo esvaziava. de doenças. É só buraco. Eram os liberados. É de dia e de noite. Se fosse como nós. Mas não deita de logo. Depois não me quis mais. C Quando você chegou no garimpo? C Quando cheguei. C E morre muita gente? 162 . amasiada. Meu pai era guarda da prisão. Mas ninguém voltou. Quando Dona Saraminda ficou sua mulher de casa. Eu nunca tive coragem de ver aquela gente. Todo homem que olha quer agarrar. Mas é mulher viciosa. Saraminda gostou do meu trabalho e me tem no seu serviço. Quem era condenado a mais de oito anos cumpria a pena aqui. Nunca vi coisa assim. Trabalhava com ele. basta olhar seus peitos. de sujeira. Meu pai também morreu de doença que pegou lá. Seu Bonfim já era o dono do garimpo todo. quando chegava embriagado. Garimpo morto é a coisa mais horrível do mundo. mas não podia voltar mais para a França.Ouvi as histórias de infelicidade dos presos. C Eu vim para cá trazida por Seu Bonfim. Prometeu me dar uma casa em Caiena e um quilo de ouro. eles ficam doidos e bestas como ficou Seu Bonfim. C Eu não quero ouvir coisa triste. dos desgraçados que vinham morrer na Guiana. já tinha apanhado muito. Faz assim porque é fêmea diferente. Tira ouro e sempre quer descobrir um garimpo novo.

tudo com resto de barro. mas. Foi para um garimpo morto. dela não sai. Ouro tem dono. mora onde nós moramos e trabalha mais do que nós trabalhamos. Ficaram os buracos. Apodrecemos nos buracos de onde se arranca la couleur. o grito escorre na clareira e entra no mato e vai varando. lugar da morte de alguém. O garimpo até estava dando. Todo dia índio matava garimpeiro com flecha e garimpeiro matava índio com tiro. atrás de ouro. pelo que ouvi ele contar. Aí. Muita coisa acontece no garimpo.C Morre tanto quanto no Presídio do Maroni. soando como vento. depois. Parou um pouco e logo continuou: C Ele saiu de Cametá criança. ele morre e vira uma desgraça. De tanto beber. e se alguém grita para espantar alma penada. ele fica bêbado e deixa arrancar o ouro. Eles resolveram abandonar e sair na varação da mata. e aqui e ali uma cruz quebrada. Seu Bonfim nasceu com o dom do ouro. nessa sua mania de ouro. Seu Cleto. entrando nela. bebe o que nós bebemos. É uma sepultura viva. sem saber rumo. cheios de uma água esverdeada. e o mato crescendo entre os montes de pedra e restos de barracos. é quem compra. Não tem nome. Ouro não fede nem é rastreado por cachorro. até chegar a Roraima. está mentindo. C Brigas? C Muitos ficam na miséria. é a solidão. com alguns companheiros foi abrir um garimpo lá para as bandas da fronteira com a Venezuela. Seu Bonfim começou a comprar e não tem mais onde colocar dinheiro. Só leva o terçado. Quando ele conta história de felicidade. tinha muito índio. ele se acaba e acaba o ouro. Gente desse tipo vive embrenhada na mata. Todo dia tem que dar cachaça para o barranco. Todo garimpeiro tem uma vida de sofrimento e. desceu o rio e subiu outro rio. Mas o nariz de Seu Bonfim parece saber farejar ouro. Quem ganha dinheiro não é quem tira o ouro. A desgraça do garimpo não é somente o ouro. um 163 . Para que serve? Ele come o que nós comemos.

ela está em cima do senhor C respondeu. comprimidos de quinina e nitrato para enfrentar febre. você me deu tanto prazer. Ouviu os primeiros pássaros cantarem com os sons da noite e só pela manhã descobriu a insônia e levantou-se. Foi quando ouviu o latido grosso. pólvora. Não se esqueça de mentir para Saraminda. o tempo está passando. A semi-escuridão completava suas formas. 164 . Olhou Maruanda mais uma vez. Kemper não dormiu. C Do seu lado ela não está. seus olhos passaram como uma sombra de luz sobre o corpo dela. Kemper ouvia cada palavra da saramaca como se lesse um livro de aventura. uma cuia de ferro. farinha. muito menos ler. Há muitas semanas não sabia o que era falar. espingarda. C Maruanda. volte amanhã. Ela precisa estar do meu lado. a bateia. remoendo o destino. tronitruante. Seu Kemper. e Dona Saraminda me espera. no Maranhão. Gostei de sua conversa. ele não vira livro em lugar nenhum. sal e um pote de ungüento. o cachorro mais devoto de Saraminda. e ele a despiu em pensamento. do Leão. Foi assim que Seu Bonfim chegou no garimpo do Chiqueirão. Maruanda interrompeu o relato: C Olhe. com voz maliciosa. Ali.ferro comprido para furar e ver o fundo do terreno. Depois eu conto o resto. em Maracaçumé.

.

E ele mandou vir da Vila do Firmino um cachorro comprado de um velho morador. vai mudar a cor. Saraminda mandou lavá-lo. É bom cachorro. não queria ficar só. Esse sistema evitava que ele entrasse no mato e facilitava manejá-lo. Saraminda não gostou dele quando o viu: C Não aprecio a cor cinzenta. C Dona Saraminda. de orelhas empinadas. Era magro. que do seu pescoço se alongava numa vara de meio metro que. As informações sobre ele eram muito boas. por sua vez.21 Os amores pelos cachorros O gosto pelos cachorros nasceu quando Saraminda teve a sua casa concluída. rabo médio. amarrar no quintal. quero que você me arrume um cachorro. No princípio. C Cleto. quando ele envelhecer mais e engordar. tinha uma outra corda que ficava com o condutor. bicho de estimação e carinho. a senhora pode confiar C falaram. quero cachorro especial para mim. com as empregadas e os capangas. Não é desses daqui. Quati chegou ofegante da viagem. Tido como bom vigia. Quati chegou preso numa velha corda. na outra ponta. latia muito e não suportava estranhos. dar comida e tomou a decisão: . de nome Quati.

ele acordou e a acompanhou. Bonfim mandou saber. e não falava noutra coisa: C Cleto. um branco e um preto. mas cachorro de raça. Cleto mesmo tinha cuidado com ele: C Cachorro chaleira. encarregou pessoas e finalmente 167 . colocou a cabeça virada no chão e ressonou. que agora queria cachorros e mais cachorros. aposentado. tem a rola de osso e. deitou. não faz outra coisa senão bajular Saraminda. em Caiena. ficou parado. quando vai ventar. traga-o aqui. todos falavam da mania de Dona Saraminda. No garimpo. Quero que você me compre cinco cachorros. quero agora que você mande buscar não cachorro da terra. Quati é bicho pequeno. Aconteceu coisa nunca vista.e concluiu a ordem: C Depois de banhar Tupã. Está cansado C disse. Algum tempo depois. C Deixa ele dormir. mastins e dogos e um casal de pastores belgas. dono dos mais bonitos cães da cidade. Saraminda pediu: C Cleto.C Esse nome de Quati é muito feio. sacudiu as patas dianteiras. Tupã”. Tupã não pode ficar só. Quando ela fez o gesto de levantar-se. e eu soube que em Caiena tem. que começou a correr naqueles lugares em busca de comprá-los. A Vila do Firmino não tinha mais cachorro do jeito que Cleto queria e então foram buscar em Caiena e Belém. assovia que nem gente . e ela pediu outros cinco e depois mais cinco. E Cleto começou a despachar portador atrás de cachorros. e para todo canto a seguia. enfurecia-se e só se acalmava quando Saraminda gritava: “Pára. Cleto contratou um especialista em cachorro. Quando o cachorro chegou junto dela. Ficou dócil. galgos. Muda para Tupã. Saraminda teve notícia de um velho capitão de navio. Mas quando alguém se aproximava dela. Ela passou a ter essa idéia fixa. Chegaram os cinco.

pare com essa besteira de cachorro. Eles todos ao redor e ela passando a mão na cabeça de uns e outros. Toda mulher tem desejo. Foi quando Clément Tamba o repreendeu: C Compadre Cleto. olhar de guarda. me beija! Saraminda. pior se fossem outros. O dela é cachorro. Dê um jeito em Saraminda. Então. é para fazer a felicidade dela. Saraminda ia sempre para lá antes do almoço. onde se dividia em pequenas correntes que se juntavam abaixo. minha querida. Seus cães tinham nomes que só ela sabia colocar. deixando o corpo enxuto. caminhando na direção das minas e fornecendo água para desmontar o cascalho que abastecia as lontanas. altivos. Cleto. Passava a mão provando a temperatura da água e molhava a nuca. entrava debaixo da queda-d'água. dava nas pedras e pulava de uns cinco metros. Ninguém se aproximava. Tirava a roupa. levava a cabeça para baixo da cachoeira e rodeava os ombros para 168 . que descia entre as encostas da mataria. Eu quero um Leão da Rodésia. manda buscar um Leão da Rodésia. C Cleto. ficava no terreiro. Saraminda pediu a Cleto: C Quero o maior cachorro do mundo! Cleto mandou um portador a Caiena levando uma carta. C Veja. Era o riacho Saringuê. pelas dez da manhã. Me beija. numa laje escura. com seus cachorros. depois a sola dos pés. A cachoeira onde ela tomava banho ficava a uns dois quilômetros da casa. os cachorros em volta e vigiando as margens. C Compadre Clément.fez tudo para adquirir os cães do capitão e por eles pagou meio quilo de ouro. a resposta chegou: o maior cachorro do mundo é um tal Leão da Rodésia. Saraminda começava o banho pelos cabelos. debaixo das árvores. pedindo que da França lhe mandassem dizer qual era o maior cachorro do mundo.

retirava as mãos dos seios e colocava embaixo de suas partes. Abria um pequeno cesto com manjericão. derramava a garrafa sobre a cabeça. misturando às mesmas ervas patchuli e hortelã dentro de uma garrafa de álcool durante quinze dias.um lado e outro. decorada nas pontas com desenho de flores e folhas pintadas em vermelho. dentro da cuia marajoara. Nunca permitiu que a acompanhassem. alfazema. Só quase no fim punhase de frente para a queda. e jogava o corpo para a frente e para trás. cravinho. Enchia a tina de água. Nela. escorrendo nas coxas e pernas. Uma vez o corpo seco. Ao sair da cachoeira. arrebitava as nádegas. abria os braços. Em outras ocasiões. deixava a água cair firme nelas. para defender-se da luminosidade. que ela protegia com as mãos espalmadas para não doer. cascas de paurosa. na delícia do corpo. afastava as pernas para melhor equilíbrio. entre os cães e o canto das arapongas. pipirioca. Era como uma dança. Depois. descansando como se dormisse. a água caindo entre os seios. e. quando se pensava que ia acabar. erva-doce. retirava lentamente a água com mãos delicadas e gestos leves e a derramava na cabeça e por todo o corpo. os olhos para cima. Os cachorros latiam e ela permanecia com os olhos fechados. com as pálpebras semicerradas. O aroma a impregnava toda. as mãos espalmadas. barril cortado ao meio. Depois. pétalas de rosa. colocava as ervas fervidas que trazia de casa. Lentamente baixava a cabeça. Ela adorava seu banho de cheiro. sorvendo o gosto do banho. suspirando. como se desejasse que a água batesse assanhada. o tempo de maturação. dela com ela. virava de costas. Era um ritual solitário. jogava o ventre para diante e levantava a cabeça e olhava a cachoeira massagear sua carne. Saraminda se dirigia à margem. contemplando a copa das árvores e o céu. Então. Expunha-se toda. variava a infusão. preta. Tão logo as folhas exalavam seu perfume. misturava as ervas. 169 . ver o jirau onde estava uma tina.

cortada em rolete. Ele estava envergonhado. Os cachorros latiram e correram até um pé de tamboril grande. ela era como bicho da selva. Clément desceu. concentrou-se nos olhos. latindo. C Saraminda. e se deixava acariciar pelo vento. pela luz. trepado. e vai embora. Os outros cachorros troteavam na frente. me salva. Me pedia e eu me mostrava. Só uma vez foi perturbada. afinou os lábios. Clément saiu pelo caminho sujo de plantas rasteiras. Clément Tamba. não precisava se arriscar tanto. deu-lhe sorte e sedução. Depois. você. sentava-se no banco de toco de árvore grossa. Os cachorros afastaram-se. Os cachorros silenciaram. Tamba. disse: C Clément. judeu. pelo mistério. índio. Leva os cachorros. Na solidão do seu corpo. de copa larga: lá em cima. A pele créole era macia. iluminada pela luz dissolvida na copa do tamboril. sem dobras nem pregas. O chiado da cachoeira se misturava aos suspiros de Saraminda. para me ver. C Não. Não gostei de você me espiar aqui. Saraminda. com os olhos voltados para o sol. você desce. puxando a corda de Tupã. alongou-lhe o pescoço. 170 . mas ninguém se arriscava a olhá-la e ser devorado pelos cães. ela olhou para a árvore e deu com Clément Tamba. Nela o sangue bretão. trêmulo. Todos sabiam do seu banho. banto. misturou-se ao longo dos séculos. Não era o preto profundo e opaco dos bonis. engomada. pelo calor. sem poder desfrutar da visão da nudez de Saraminda: C Me beija. entre galinhas que voavam e jabutis que lentamente cruzavam o terreiro limpo de cueiras e tamarindos. e Saraminda voltou pela estrada larga.gozando o odor de sua carne. Saraminda veio ver o que era. mais secreta do que a noite. Eles não vão lhe fazer nada.

você viu Saraminda nua?” Clément Tamba baixou a cabeça e começou a chorar. Lucy ouviu os soluços. Eu até pensei tirá-la de você. “Clément. Ela só amou Kemper e só teve afeto por Nicomedes. Ela não deixava. se você quer saber. Nós. era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas. não vamos falar daqueles tempos. “Clément. Clément? C Estou cansado de viver. que não acaba nunca. Xaxá e seus outros cachorros. devíamos tê-lo matado. coisa de bicho. e me fez fugitivo de um lugar que eu desbravei. o Leão da 171 . me responda de novo. enchendo o corredor de tábuas velhas. Mas ele não existiu. C Bonfim. eu. Aquele Cabral me fez abandonar minha casa. pelo qual trabalhei e lutei. eu nunca possuí Saraminda. “Compadre Clément. compadre.” C Não.” C Não. você viu Saraminda?” C Não. Bonfim. foi no vento. Eu sofri demais. veja a que ponto cheguei. quase em desespero. Eu queria viver ali. as mãos no rosto. Eu não queria terra do Brasil.* * * Na casa de sombras. Perguntou-lhe: C Por que está chorando. nunca vi C e recomeçou a chorar. “Compadre Clément. Mas nós não amávamos a França e a França não se lembrava de nós. Maldito é o amor proibido. Só resta nossa maldita solidão. ela tinha desgosto dos homens. mas Cabral era um fanático. eu vi. Olha aqui. Cleto Bonfim! Mandei trazer cachorro da Europa. você me traiu. Era desejo. Cleto. “Maldito é meu compadre Clément! Só morto eu podia ouvir estas coisas. Cleto Bonfim. tudo que era meu. encoberta por nuvens negras! “Compadre. não adianta nada. Era linda como a deusa da lua. Agora. franceses. Você viu Saraminda?” C Vi.

Ele tinha com ela o mesmo comportamento dos 172 . Saraminda e o Leão pareciam velhos conhecidos. nós chegamos à Vila do Firmino. que trazia o cachorro. ‘Cleto. triunfal. puxando sua matilha de mais de vinte cachorros. com sede em Bruxelas. e estava dócil. com umas incrustações em prata de um escudo que ninguém sabia o que era. “Clément. como a que veio no Leão da Rodésia. dando um aspecto de medo e ferocidade que ele só mostrou uma vez e foi o bastante para inspirar pavor. O bicho deu mais trabalho do que tudo. dois dias antes da atracação do navio holandês Catupania. acho que não’. “Quando ela entrou no garimpo com o cachorro de raça.” C Eu me recordo quando ele chegou. rédea comprida de sola entrançada. carinhoso. a corrutela parou. que ela só conhecera agora. manso. como é o Leão da Rodésia? É como qualquer cachorro? Será que se parece com o pastor alemão. com o couro luzidio de um castanho-escuro alaranjado. quase da sua mesma cor. servidas por carnes arriadas que caíam de cada lado. “O cachorro tinha uma coleira larga. largas.” “Foi nesse tempo que eu contratei no Cunani um soleiro.Rodésia. o Ferote?’ ‘Não sei. os homens da Société cobraram a dificuldade de contratar navio para trazer o animal. recebendo suas ordens. Parecia que era uma autoridade. só para fazer a coleira de todos os cachorros. Saraminda. saía com orgulho. Todos saíram de casa. e que parava quando ela mandava. mandíbulas fortes. deitava quando ela pedia e ficava ao seu lado. cara larga. oficial de primeira competência. onde fica o porto. eles me comunicaram que tiveram de mandar buscar na África. Saraminda. mas logo leram que era da Associação dos Criadores de Leão da Rodésia. de couro alaranjado. e era coisa de admirar como aquela mulher podia conduzir um cachorro tão grande. e não se sabia.

parecia jantar de São Lázaro. Fiapo. comoveu-se. você se lembra? E ele subiu com ela. eu. e eu.” 173 . toda cheia de orgulho. era dia de confraternização. chorou e disse: Me beija. “Compadre Clément. Leão da Rodésia não gostou e levantou-se nas patas traseiras. E eu beijei. mostrando o gigante que era. Levantamos um tablado.outros cachorros. rosnou tão forte que todos pararam de falar e um silêncio bateu no ar com o recado de intimidação: ninguém podia tocar em Saraminda. quando os cachorros não se estranham. garimpeiro do meu serviço. convidei o garimpo inteiro para a apresentação do cachorro. os outros cachorros latiram a noite inteira. Cleto Bonfim. Quando Saraminda ia descendo do tablado. “Ela sentiu a devoção e a fidelidade do cachorro. Mandei servir cachaça para a rapaziada. Cleto. Ela fez uma festa para sua chegada. mas não brigaram.” “Foi nesse dia que ele disse a que veio. fez um gesto de ajudá-la e segurou seus braços. feliz.

Maruanda. Quando ela se deita. com a mentira toda. A noite estava pegada. Ninguém sabe até hoje se ela se entregou para o garimpo inteiro. Nunca vi homem tão besta como Cleto Bonfim. Ela sussurrou entre as tábuas: C Sou eu. mas é um perigo ser dela. . C Como? Ela é assim? C É a mulher mais caprichosa que Deus colocou no mundo. Corre a lenda que depois ela manda degolar. Ela não deixa rastro. C E Cleto? C É enfeitiçado. Mas eu vim. Por que você não veio ontem? C Porque Dona Saraminda não deixou. C Maruanda. e chegou à prisão de Kemper. e ele cumpre. Seus pensamentos e vontades. Ela faz com ele tudo que quer. C Estava ansioso. As histórias são muitas. tateando as trevas. Ela não fala conosco coisas dela e de seus amores. os cachorros não saem da ronda do quarto. Meu medo são os cachorros. Me proibiu de ver você e me disse que só podia vir com permissão dela. mas nunca é possível saber toda a verdade. Mas o falatório é grande. Tem todos os desejos.22 Uma visita de amiga Maruanda aproximou-se lentamente. você disse o que mandei dizer? C Disse.

Lá. Chega todo dia. não quero ver. eu não vi nada.C Mas você ia me contando a história dele e. o ouro era pouco. C Veio gente e ele pôs no serviço. C Eu disse que ele ficou no Maranhão. escondido no meio dos garimpeiros que estão saindo daqui. Ele explorava o seu e comprava o dos outros. e vão tentar descobrir um novo garimpo. 175 . livre. C Não. O que falta é gente. engajar-se numa varação. Todos ganhavam porque o ouro era demais. vai ser difícil. Maruanda sentia uma vontade curiosa de contar a história de Cleto. no Garimpo do Maracaçumé. Jacques Kemper pensou que.. Em todo córrego dava ouro. Não me deixaram ver. aqui. O senhor não vê as barricas que levam para Calçoene? Dentro vai o garrafão cheio de ouro. Foi subindo rios até que se estabeleceu aqui.. quem quiser pode entrar para garimpar? C Todo mundo.. Ele tinha uma grande sorte e aliança com o ouro. que é a mãe do ouro. sempre apareceu em todo lado. Maruanda. Eles sempre descobrem. que ela admirava. entraria no negócio do ouro. Falava como se participasse de sua aventura. Eles organizaram o garimpo. C De que eles fogem? C perguntou Kemper. e ele veio para o Amapá. na encosta da montanha Salomoganha. mas agora nada podia fazer. porque se meteram em alguma dificuldade de mulher ou de briga. coçando a perna picada por um carapanã. entra de meia e aprende a tirar o ouro que não acaba. O ouro. eu quero é que você me tire daqui C disse Kemper. Até que chegou Clément Tamba e depois voltou a Caiena e trouxe os franceses créoles e todo o povo de lá. Tornou-se amigo de Bonfim e com ele aprendeu muita coisa. É homem de instrução. C Seu Kemper. varando até encontrar o rio Calçoene. C É assim. comandavam e dirigiam. onde Firmino descobriu ouro. Só tem um jeito.

quis puxá-la. C Veja se você ajeita que eu entre numa fuga dessas. eu também estou. Marco a viagem e o senhor vai junto. Estava trêmula. talvez fosse de gente bêbada. Eles saem de desejo próprio. Maruanda estava calada. Um bicho fez barulho fora. Maruanda ficou calada. é porque não querem ficar. Era um mucura. Mas era mucura mesmo.” Maruanda ficou perturbada. some. pontaria de algum caçador. têm medo da degola ou sempre estão andando atrás de aventuras. Mas adiantou: C Eu vou saber se é possível libertá-lo. Maruanda não conseguia esquecer o barulho do mucura. Pensava. de mulher. Kemper segurou-lhe o braço. É como lhe disse: briga de barranco.” “Pegou o quê?” “A galinha. Foi examinar a escuridão. foi mucura mesmo. fica mais um pedaço C pediu Kemper. Levantou-se. senão é morto. A galinha cacarejou abafado. o sujeito fica jurado. Estão jurados. Se não era de caça. C Não é fuga. Deite aqui. um arranhar de unhas em casca de pau. nada de causar receio. Mas vou me arriscar. ficou nervosa. C Foi mesmo mucura C disse a Kemper. de trabalho ou de bebida. Um tiro foi ouvido. Ali todo tempo se ouviam tiros. Viu um vulto que cresceu esquivo. O silêncio voltou. Tem que ser fuga de verdade. Aqui. porque o senhor está preso por Saraminda e Cleto. Me corta o coração ver o senhor nessa situação sem culpa nenhuma. 176 . Ela se encolheu. C Não sai. Ela. Não direi nada dos meus arranjos. sem fugir. “Já pegou. Kemper recomeçou sua súplica. se tem discussão C disse a saramaca C.C Coisas de brigas. O estampido dissolveu-se na escuridão. C Se você está com medo. que come galinhas nos quintais. Coisa longe. Meto o senhor numa varação. C Quem será? C Ninguém. É um caso diferente. é coisa de vontade de dois ou três que se juntam para sair. contudo. Ficam cismados. O vulto diluiu-se. Pensou que pudesse ser outra coisa.

A treliça das paredes 177 . Saraminda tinha dado ordens para que todos os cães a acompanhassem. Não confessou e a ela se juntou como um bicho. Ela a abriu e Saraminda entrou. Os homens que Cleto deixou para me guardar durante sua viagem. O corpo estava exausto. Kemper passou a mão nos braços dela. Os cães rodearam em parelhas minha prisão. e ela o aceitou. Kemper sabia quando as mulheres estavam vencidas. A luz da lua clareava o chão. Naqueles dias. O desejo era maior. em silêncio. Cleto viajou para Calçoene. Era tempo de lua. As créoles do garimpo não se faziam de rogadas para o amor. seu olhar era triste pela alegria de não ter dormido. * * * “Duas noites depois. e a escuridão os acompanhou a noite toda. comandada por Leão. Mas superou os receios. uma zoada surda e o latir dos cachorros. e dali só saiu de madrugada. Os seios tinham caimento delicado. Maruanda vinha com ela. quando viram a matilha desenfreada e ululante. correram mato adentro. elas também sofriam com a solidão. portadora da chave da tranca. Maruanda consumiu sua vontade. Estava banhada e o corpo exalava cheiro de mata e água. Maruanda apagava-se pelo medo. Das reações de Saraminda ou Cleto ao descobrir suas tramas com Kemper. Maruanda chegou e contou-lhe dos planos de Saraminda: C Aguarde que Dona Saraminda só está esperando essa viagem para vir aqui. deslocados dos músculos que os seguravam para o alto. Apagou a luz para que ninguém pudesse vê-los pelas treliças. muitas com mulheres maduras que procuravam jovens. armando tudo. Na rede. Eu fiquei imóvel. uma pele com a marca de carne amadurecendo.fique comigo aqui do lado. Ela está excitada. Ele também estava com medo e desejo. Maruanda deitou na rede. um movimento diferente. A atração pelo francês de olhos azuis mexia nas suas entranhas. Kemper lembrou-se de suas aventuras de Paris.

não vi. Mas. Beijei como nunca antes tinha beijado. Deixe que eu saia’. numa volúpia de dominação. ódio. e eu comecei a acariciá-la.deixava entrever o terreiro e a sombra das árvores. “Pobre Maruanda. “Ela me enlaçou. a vitória daquela luta da noite inteira. passou até a madrugada me fazendo carícias e eu junto com ela. os cachorros começavam a latir baixo. ‘Me beija. tomando respiração sem querer e com sofreguidão... não é assim. queria ficar preso ali. ‘Seu francês. que me perdeu. à sua espera. Ela entrou nua e. um coelho fugindo. Eu me modifiquei todo. suor. Era como se a luz da lua cobrisse minha alma e essa mulher fosse a própria lua que se envolvesse em nuvens e sofresse seus encantos e seus mistérios. e era tudo calor. beijei-a e me arriei com todo o meu peso e minha loucura sobre ela. na verdade. comigo não é assim. Eu me descontraí. dor. não queria mais nada. seu francês’. gemendo. cada vez mais zonzo. me beija. queria me libertar e eu me prendi. ali. ‘Me aceita . esguia. com ela. Aguarde. já fui longe demais. Como uma cobra ela esquivou-se e levantouse. Ela relaxou os braços. ‘Não pode ser assim. Saraminda. ‘Me aceita. foi me agarrando e me enlaçando como uma cobra. Kemper. Kemper. eu amei Saraminda com desespero. E se isso é o que se chama de desespero de amor. Kemper. ‘Não force. Saraminda’. Bonfim para me fazer mulher dele me deu dez quilos de ouro’. E eu beijei. como se avisassem que a luz do dia aparecia. então. com voz de sussurro: ‘Me beija. fogo. Kemper.’ E Maruanda do lado de fora ouvindo aquele sussurrar. tormento. sem deixar esse instante passar pela vida inteira. meu desejo tem que ser de mistério. E eu já não conseguia pensar. A madrugada chegava. ‘Me beija. não queria mais fugir. Kemper’. Vi. A mulher tinha feitiço. senão a escravidão e sentir a 178 . E aperteia para que não fugisse do meu laço. prazer. me beija’. um beijo sem tempo de acabar. escorregando pelo meu pescoço e dizendo. ‘Não. amoleceu o corpo. eu não suporto mais’.

ela adivinhou. “Maruanda então me entregou um bilhete de Saraminda. “Desmontei-me. repetiu-se a mesma coisa. ‘Ela sabe que você deitou comigo? ‘Foi ela quem mandou. já que a minha paixão não tinha como ser. No dia seguinte. Além da prisão. Amanhã Severino vem buscar você. “Aquelas palavras não significavam mais nada para mim. Amanhã. Sempre eu esperando chegar ao fim da cachoeira e ela fugindo na margem. você contou a Saraminda o seu plano? ‘Não. 179 . à espera do milagre da volta de Saraminda. Ela sabe tudo. eles vão para perto do porto dos navios que aportam no Calçoene’.’ ‘O senhor foge. Meu desejo passou’. a fuga está pronta. Severino vem buscar o senhor. não lê mão. “Cleto chegou. Eu fiquei desde essa noite dominado pela angústia de querer Saraminda. que não tinha tido. ‘Cleto vai me buscar onde eu estiver. Foi neste emaranhado de infelicidade que Maruanda voltou: ‘Seu Kemper.navalha no meu pescoço. Ela é assim. Desejo apodrecer aqui. ‘Como posso ir? Não quero mais fugir. na vontade mórbida de amar com o desejo da morte. Eu não queria abandonar minha prisão. morto nessa possessão.’ ‘Eles descobriram um garimpo novo e vão para lá’. e assim consumiram-se sete noites. Não vou. que vai com mais três na varação do Cunani. Mas fique tranqüilo. a letra redonda e infantil: ‘Kemper. pela madrugada. Amanhã Severino vem esperar no poço grande e eu levo o senhor até lá’. O que me restava então? ‘Maruanda. lê cabeça’. Voltou o silêncio à minha prisão e desapareceu de mim o gosto de viver. esqueça tudo. o desespero. Ninguém nunca sofreu tortura maior.

Cedo. esperei Maruanda. Não entendi nada. destroçado. vagando sem vontade. devia ser Maruanda. Só ouvi a voz da outra saramaca que com ela trabalhava. Olhei pela treliça. que se encostou nas tábuas cruzadas e soprou entre soluços e lágrimas: ‘Maruanda amanheceu degolada. Não tinha ansiedade. sem nenhum sinal. Gedina.’” 180 . À noite. ouvi passos. trouxeram minha comida. Nenhum aviso me veio. ela não chegou. “Amanheceu.“No dia seguinte. sem saber o que se passava.

.

por volta de uma hora da madrugada. mas sabia que ao meu lado estava alguém. Sentia sua respiração. Eu me libertaria dessa morte que atormentava meus dias. C Você não está morta? . Era a minha degola? Seria a mão invisível que alimenta o ouro com sangue que me preparava o fim. Eu não vi. No terceiro dia.23 O caminho aberto Dois dias passei sem dormir e comer. Até onde teria eu provocado a morte de Maruanda? Seria Saraminda por ciúmes. sua presença. Era como se estivesse pronto para ser imolado. Foi quando surgiu a voz de Maruanda: C Seu Kemper. E Cleto? Por que teria sido ele? Estas coisas remoíam em minha cabeça e eu não sabia como tinha me envolvido nessa teia de paixão e desgraças. seria Cleto por vingança? Seria a descoberta do plano e sua conivência? Mas Saraminda de tudo sabia e articulava a minha fuga. Não tinha coragem de indagar. Como podia ouvi-los se a porta estava fechada e ninguém me chamara? Meu coração acelerou. Os pêlos arrepiaram. ouvi passos dentro do meu quarto. seu corpo e seu calor não me abandonavam. que queria me ver partir. Eu já não tinha nenhum significado para ela. Tomei um susto. Vim cumprir nosso trato. não se preocupe. sua memória não me saía da cabeça. Meu pensamento último era para Saraminda.

gafanhotos. Parecia que se agitavam dentro de minha cabeça muriçocas. ombros largos. só lembro de mim dentro da selva. içás. Era fria como a água da cacimba e pegava e não pegava. Não eram lágrimas. Passei a mão no rosto e senti a barba crescida. Eu escutava as histórias das coisas que se devia saber quando se andava perdido na floresta misteriosa e traiçoeira: 183 . dissolvendo-se no gesto de amaciar com carinho. Senti sua mão na minha cabeça. não sei quantos dias viajando. uma quentura que me entrava pelos olhos. Era o suor que escorria dos meus olhos. e comecei a suar. escorria como se fosse gelatina. Ouvia o rumor de que faziam fogo e comiam broto de samambaia fervido. porque os cachorros estão me farejando. C Maruanda. não posso levar o senhor no caminho do poço. Não sei como saí do delírio. Ainda pude ouvir a voz de Severino: C O francês de barba de fogo está com febre de macaco. pés inchados. junto com farinha de nó de tronco de palmeira sagüeiro. Prometi a Maruanda que você ia conosco para o garimpo novo na beira do Cunani. Não sei mais nada. tremendo de um calor frio no meu corpo. Às cinco da manhã Severino estará aqui. Peguei no meu próprio braço e senti que estava com febre. Tenho a missão de ajudar o senhor na fuga. Aconteceu um vazio e fiquei tomado pela sensação de que sonhara sem ter sonhado. aranhas e grilos. de chapéu de palha. tanajuras. taturanas. os olhos pequenos escondidos num rosto fundo: C Sou Severino Boião. molhada. que sempre se leva para grandes viagens na mata. é você? C Sim. sou eu. que se instalou de repente. Só despertei desse torpor quando começou a clarear e na minha frente estava um homem forte. varejeiras.C Aqui todos morrem e vivem. escorrendo pelos sovacos e pelas pernas. Os besouros zuniam e caíam na bacia de água colocada perto da lamparina. É o purgatório. Meu corpo todo se liquefazia.

mamoeiro selvagem e cobra. um pé de andiroba. Saraminda estava ali ao meu lado e era uma cobra com a língua titilando. Mas eu não comia nada. tentando morder meu pescoço. bichodo-coco. querendo respirar. como última luz. e a carne é gostosa e branca. Meus pensamentos fugiam. voltavam para fugir de novo. 184 . tudo isso se come cortando a cabeça e o rabo. puxava. Eu ia atrás deles. Capim e plantas cozidas. Consegui olhar. O centro não faz mal. Ele levantava os braços em busca de sol. as presas à vista. taquara.C Só comer fruta que macaco come. Talos e batatas de raízes de açucena-branca. E eu pedindo para ela morder. jacaracatiá.

.

baixando até o pé das árvores. que descia lentamente. escorrendo. e deslizava pelas samambaias e trepadeiras que pendiam por cipós e raízes aéreas. de gota em gota. As flores eram as amarelas e mínimas pétalas da copaíba esparramadas no chão. A trilha em que Kemper se arrastava era uma puída escamoteada entre plantas baixas. pela mataria de todas as espécies. finas e sinuosas. das imbaúbas para as ucuubas e destas para as palmeiras. estriadas. arfando em busca de ar.24 Um francês da Bretanha Caía uma chuva fina das árvores altas da densa floresta. Era água constante. que chegava ao chão filtrada por muitos galhos e folhas. As folhas podres da cor de barro tornavam o chão pegajoso. de onde exalava sujeira e podridão. que suavam em seus troncos roliços e cansados. Sua febre comungava com as . Suas narinas se abriam como ventas de poldros desembestados no campo. um suor viscoso e acre de cavalo. que só podia ser vista por olhos que tinham o mistério de descobrir ouro no fundo dos riachos. um tapete de lodo amolecido pela chuva. Kemper era um fantasma dentro do próprio corpo. mais triste e sombria do que a própria selva. O tempo fazia que a luz embaixo das árvores fosse escura. que se enrolavam nos caules. que pingava como um ruído de vento quando foge escondido nas clarabóias que se abrem nos verdes da mata. também. imprecisa e suja.

Jogado ao chão. seus ossos se contorciam. C Você acha que nós amamos a França? No delírio ressuscitavam os navios saídos de Cancale. guardava os traços longínquos da descendência da índia caribenha. mas permanecia o olhar selvagem na sua postura bretã: “Charlotte ainda é muito nova para gostar de 187 . a única irmã. Era o mesmo aperto que os dois trocaram quando o homem de bigodes longos e ruivos disse na Igreja que queria casar-se com sua mãe. C Saraminda? O silêncio fugia intermitente pela chuva e pelos sons das arapongas. espermas e óvulos. doloridos e tiritantes de frio. A voz delirante já não podia ser ouvida nem pelos próprios ouvidos. O cadáver do pai ainda estava quente no caixão aberto. Os olhos e a boca aberta e seca exprimiam desespero: C Saraminda? Chega. O resto de sua consciência estava morta. Saraminda. Em dois séculos seu sangue fora diluído entre homens e mulheres. Nada de portas para sair. sempre de homens. apertava as pequeninas mãos de criança nas dele.plantas. E ninguém lhe dizia por quê. de banha de porcos. falava como matraca. Eram sons estrangulados. Tudo fora consumido pela desgraça. Rabugenta. não tinha mais forças para levantar e mover o corpo. C Saraminda? Barba-de-Fogo recusava-se a morrer. Soavam como dobrados de defuntos. de dinheiro. tocando as invisíveis marteladas que caminhavam léguas até os ouvidos espantados dos bichos e dos pássaros. óleos e ostras. os dentes aparecendo levemente. Por que chegara a Caiena? Sua cabeça era só interrogações. Annie. piratas e aventureiros. sua avó. laçada e jogada na caravela por causa da beleza de seus seios e de seu cabelo e trazida para Saint-Malo. não servia para pensar mais nada. com o tempo sempre sombrio. A velha bruxa.

Tudo acabara. Quem não agüentasse ficava no caminho. A ânsia e a quentura da febre. pegando-lhe nos seios e amaciando o corpo dela. Seria comido pelos pebas e pelas formigas. era o destino. o ouro. fazendo congre quessant.” A viagem. e o mar na frente da casa. Mas não justificava a ida para Caiena. Seis meses desde a morte do pai era pouco tempo. Jurou jamais aceitar intruso em sua casa. As pernas trôpegas agüentaram apenas uma semana em companhia do bando. Nem quantos dias há por andar nem se iam descobrir ouro. Nasceu e cresceu dentro de si o ódio. e Saraminda. xale preto e corpo sem carinho”. na praia suja. “São as mais baixas condições do homem. esgotara-se a farinha e eram poucos os cartuchos de pólvora e chumbo. Pôs as mãos nas suas narinas. Os primeiros sinais de luz apareciam na copa da floresta em vacilantes raios de sol.viuvez. o combate. Barba-de-Fogo. C Levanta. Pensar em vê-lo deitado com sua mãe. a trama misteriosa que o fez chegar à miserável condição de fugitivo e garimpeiro. As sacolas de sal estavam vazias. velho francês nojento! Anda. Velha cretina essa avó. a bandeira francesa arrancada. e naquele dia pousou na chama vermelha das velas que ardiam no campanário da aldeia. Ele não sentia mais nada. Chegara à exaustão e ao delírio. Nunca perdoou tudo o que passou a acontecer e foi imaginado. O dia em que atravessara o Oiapoque? A descoberta do ouro acima das Sete Cachoeiras? O instante em que 188 . É desgraça. Restavam suas interrogações. miséria e doença. la couleur dos créoles. Crescêncio veio ver se respirava. Nas andanças da varação ninguém sabe o fim. depois da parada da noite. No raiar da manhã. Ninguém sabia quantos dias ainda caminhariam. crêpe e galette salgado com trigo sarraceno. Era necessário fugir. miserável! E ele tinha somente vinte e cinco anos.

Saraminda. Não vejo flores. O rio Amapá estava de maré vazante? Onde estavam as canoas do resgate? Aquele aleijado. enxuga meus olhos! C Está tresvariando C disse Crescêncio. Mas as moscas pousavam. O dia vinha nascendo. C Me levanta. Era o fim. Achava que 189 . C Saraminda. C E vai morrer logo. Gabriel recolheu o facão e a velha espingarda. o corpo escuro e olhos verdes. A vida é desse jeito. Sua hora chegou. atirava no corneteiro: “Entrega o teu corpo de índia para mim. C Você não pode mais nos acompanhar e nós não podemos carregar você nas costas. fitou-o pela primeira vez e leu sua mão: “Seu destino é de espinhos cravados. Os companheiros concordaram. de fuzil na mão. Barba-de-Fogo tentou soerguer-se. A navalha. Vai ficar aqui. O frio e a febre possuíam-lhe o sangue e a cabeça. francês nojento? Barba-de-Fogo ainda teve um alento para passar levemente a mão trêmula na barba. Severino o empurrou e puxou seu corpo para uma folhagem mais alta. na tocaia. A selva é assim. C Qual é o gosto da sua boca. vejo sangue”. Deram-lhe água. Estava condenado. Por que o destino? As corredeiras com as cobras que engoliam jacarés? A sucuri do rio Carnot? Tudo enrolado nas indagações do fogo eterno. as labaredas da febre acendiam fachos em seus olhos. Seu cuspe estava podre e fedia. As histórias que me contaram. Os olhos de Kemper ficaram mais abertos. A caminhada tinha de prosseguir. Dois quilos de ouro por uma noite”. Sua língua era mais áspera do que a de pirarucu. O grupo tomou a decisão: C Ele vai morrer! Não tem jeito. E o tiro na madrugada. O cheiro de sua pele espantava os besouros e os carapanãs. com as pernas quebradas.Saraminda. A malária de macaco era dona do seu corpo. Então. Só chegam ao garimpo novo os que são escolhidos pelo Diabo. O gosto era amargo como fígado de jabota.

que pode matar um caititu para o almoço C respondeu Severino. O dia ia começando. C Não será melhor a gente dar um tiro de misericórdia para ele não sofrer mais? C disse Crescêncio. 190 . Todos se benzeram.seria mais a gosto da morte. C Temos poucos cartuchos e não vamos desperdiçar um dos últimos. Botaram os apetrechos nas costas e começaram abrindo a facão o aceiro por onde deviam andar. arrematando: C Deixa ele acabar em paz. Mas aconteceu. Ninguém olhou para trás.

.

Mais outro. e Cleto quis. o desejo passou. como sempre. estava . e comecei a ficar doida e de novo sonhava com os olhos dele e chamei Cleto: “Manda alguém atrás do francês”. agora por desgraça. Nunca pensei na vida que ia emprenhar. que eu sabia como fazer. Ele fugiu com minha ajuda. Então. Saraminda. nada. mas agora repetia e me lembrava do Kemper e ficava feliz porque a preta Maruanda tinha morrido e porque tinha deitado com ele. fazer carícias e depois acontecer sem acontecer. Minha regra. Pedi a Bonfim para trazê-lo de volta. dei o caso por fechado. e fiquei com enjôo dele. E fiz aquela cena toda. que nunca tinha tido ciúme. você emprenhou? Você emprenhou do francês Saraminda?” Como emprenhei? Só se fosse coisa de moça. Com a morte de Maruanda. não chegou. Fiquei desconfiada. Me contaram uma vez em Caiena que uma virgem tinha emprenhado com essas brincadeiras de namorado. não chegou. começou a crescer dentro de mim o amor que tive logo que vi seus olhos azuis e me desesperei. Mas.25 Uma paixão que voltou Aconteceu comigo o que nunca tinha acontecido. e eu. Depois. Eu que nunca tinha emprenhado e quis. Voltei a desejar Kemper. quando pensei assim. estava com ciúme de uma defunta. que nunca falhou um dia. meu pensamento voltou para o francês e o enjôo passou. No dia seguinte. e a semente tinha subido pelo cio.

mas. de sentir o corpo. Celestino? C Está no jacá onde levei a matalotagem para a viagem. tem que sentir que ele tem vontade por ela. para sentir um homem e entregar-se a ele. eu morria também. Queria que ele fosse embora. Me arrependi de não ter me entregado mais a Kemper. Eu me fiz mulher pela vida e só amei os olhos de Kemper. ninguém sabia. nem depois. Quando Celestino Golveia arriou o jacá no chão da prisão e estirou o corpo de Kemper. e o momento vai para o fundo do poço e o tempo passa. mas tinha enjôo de todos os homens. era meu modo de viver. Eu não sabia o que era o amor. e aí não acontece mais. Eu não tenho juízo para falar sobre essas coisas. mas nunca me tiveram. Eu ficava me perguntando. Ninguém sente a alma sem sentir o corpo. Coisa de mulher como eu. mas depois amei Cleto. Mas está morto. que pedra arrebentou minha cabeça? C Onde ele está.sem querer e sem motivo. que até ouvi o latido dos cachorros e Celestino Gouveia gritando: C O homem está de volta. espera. privada do amor. Eu desejava ter um homem. Se respirava. Comecei na vida. tinha que amar o serviço. não deu certo. No bordel. mas de vez em quando soluçava nos estertores da morte. para levá-lo à loucura. que acontecera. A gente pensa que pode esperar. ele estava mais branco do que cal. Eu chorava e pensava que a paixão de Kemper voltou e que dentro de mim estava um pedaço dele. o amor está na alma e no corpo. tem de amar logo. Não se pode amar antes. Desgraça minha que não queria. essa vontade do corpo. e não ele. Que faca transpassou meu coração. Uma mulher. Eles me queriam por uma noite. estava prenha. Amei como nunca tinha pensado 193 . Fede que nem carniça! Quanta angústia. sabendo de sua morte. Meu jeito de deixar sempre um pedaço para depois.

Minha alma de mulher estava como uma onça. Primeiro. depois carinho. passar as mãos no seu cabelo. cheia de árvores de todas as espécies e formas. 194 . Ele me ensinou a ser fêmea e agora me ensinava a ser mulher de alma. por todas as coisas que eu quis e fiz. pedir um beijo. Antes nunca tinha pensado desse jeito e passei a pensar. Então. Enojada de mim mesma. nunca tinha me passado pela cabeça. aturou tudo. ele mereceu que eu tivesse por ele uma afeição maior. encontrei que ele era tudo para mim. perguntar pelo dia.que um dia pudesse amá-lo. Quando Celestino me disse que ele estava morto. menos um bucho que não fosse dele. quis matar o filho dele. depois desapareceu o costume do vício e passei a sentir o costume de viver com ele. Eu queria estar grávida de Cleto. Eu senti quando peguei o medo de estar grávida de Kemper e eu não queria. mas vivia dentro de mim. mas foi Kemper que ficou em mim. Essa transformação aconteceu depois que senti que tinha no corpo um filho de Kemper. as feras. tolerou todos os meus desejos. mas senti um alívio. fiquei enojada de mim. Mulher ordinária que eu era. bela. Mas o pensamento me fez voltar para o filho que era dele. as cobras. senti pena. O destino e Deus me libertavam dele. sofri. O que é o amor que tenho e penso? Comecei a remoer de novo. perigosa pelas maldades que me habitavam. Esperar que ele chegasse. os espinhos e a solidão que não passa. temer em pensar que um dia ele viesse a me deixar. que sem ele eu não existia e com ele eu já estava morta. Coisa que não entendia. desde esse momento descobri que amava Cleto. os pântanos. tentadora. Ele morria. Pensando em Cleto. Ele me fez tudo. A traição e o amor. Tudo isso fica confuso na minha cabeça. Podia fazer tudo com Cleto. Não era mais vício. Pobre Cleto Bonfim! Sofreu. A minha alma era como se fosse a floresta. Misteriosa. depois amizade. as formigas. Sofri. Soube então que o sentimento que me fazia prisioneira de Cleto era maior do que o de recebê-lo.

feroz. 195 .traiçoeira. entregando-se a quem quer e não a quem lhe dá ordens. Assim eu era. Minha alma era como o cumaru. Minha alma era como as flores: perfuma. devoradora. mas não estava no meu sangue. Minha raça tem a mulher como independente. mas tem alma. que só nasce onde tem ouro. Saraminda. senhora de todas as ciladas. forte. alegra. embeleza. O que fiz com Cleto Bonfim estava na minha alma. A mulher créole gosta do corpo. mas apodrece. comandando homem.

Tudo fedia. Baixava de novo o silêncio. Lariel. que ele está morrendo C falou Ovídio. depressa.26 A morte que não chega C Corre. de sua garganta brotava um soluço preto que pulava rápido em busca de ar e sumia num suspiro. Gedina. Ovídio sugeriu que se fizesse o diga-jesus. As pessoas em volta tinham as mãos no nariz. amarrada na cintura por pedaços emendados de corda. a boca aberta. o hortaliço. para abreviar- . apanha água na lata e joga no homem. lívido. testemunho dos meandros dos espinhos e cipós que lhe enlaçaram o caminho. Foi um alvoroço. Vez ou outra. o queixo caído de quem não tem mais o domínio do corpo. que cuidava da horta de vinagreira. chegou e viu estendido no chão Jacques Kemper. cujos farrapos se colavam aos sovacos. Os pés estavam metidos no resto de sapato. Um suor amarelo escorria do rosto dele. todos esperando o último estertor. o pessoal correu para ver o francês que morria e não morria. e não dava para distinguir pele e poeira. Ninguém queria pegar-lhe o pulso ou sentir-lhe a respiração. roto em todos os lados. seguros por antigas mangas. que do lado de fora pareciam bolotas sujas. de onde escapavam os dedos e as partes inchadas. Da camisa só pedaços soltos. da calça não existiam mais os canos desbotados das pernas e tudo era uma sujeira pardacenta.

Ela não mandara buscá-lo? Todos pensavam que estava de paixão pelo francês jovem que lhe trouxera um vestido de Paris.lhe a passagem. consistia em montar-lhe sobre o peito. O ritual.” Kemper soltou outro soluço. Ovídio imediatamente correu em direção ao poço e trouxe a lata na cabeça. Não parecia coisa de ser tomada opinião. esse soluço é de morto. para livrar um ser do sofrimento. Mandou apanhar uma vasilha na casa. O primeiro bocado. Gedina disse a Ovídio: “Não demora a trazer a lata de água. C Se morreu. Vou derramar essa água na cara dele para afogar o soluço. entrou Celestino Gouveia. o medo de pegar a doença. deixou cair todo o líquido. vamos enterrar logo. fugindo dos respingos que se espalharam. de leve. para que caísse como uma cachoeira rápida. fechá-los no tórax e pedir para dizer o nome de Jesus. Repetia-se o gesto algumas vezes. Varou-lhe então como um raio a idéia sobre o que estaria pensando Saraminda àquela hora. porque Celestino Gouveia jogou a água com força e 197 . Mas ninguém teve coragem. Vacilou de novo. como se faz com pinto”. Os presentes afastaram-se. O cheiro ruim. “Será que ela não vai pensar que eu apressei sua morte?” O medo lhe fez as mãos tremerem. Pela cara. joga em cima dele. colocou-a no chão e só então percebeu que faltava a cuia e não teve coragem de jogar o conteúdo da lata direto. tomar-lhe as mãos. Foi quando. está morto. C Já morreu? Todos responderam: C Está nas vascas da morte. até Jesus chegar e levá-lo. “Não tenho coragem de jogar a água no rosto dele. em seguida. Junto já estava a vela acesa para iluminar o caminho do outro mundo. a sujeira e a baba amarela afastavam todos. para salvá-lo dessa indecisão. Abaixou-a. abrir-lhe os braços com força.

como afastando o braço de Zeduco. A convulsão diminuiu aos poucos. exalando uma fumaça de evaporação. Kemper jogou a mão. e um bando imenso de baratas saiu dos trapos do francês e correu pelo chão. espantai quem tá maligno. Fez uma careta tão horrenda que Celestino Gouveia recuou amedrontado: C Nunca vi um bicho tão feio para morrer. 198 . Satanás. nunca vi coisa assim! É coisa do Diabo. Um cachorro latiu longe. O cheiro de podre desapareceu por encanto. ouviram sair dos seus lábios. E todos começaram a rezar. a cor branca foi substituída pela amarela. oi. depois marrom. encarregado da horta. e seu corpo foi tomando vida. os braços jogavam e o rosto se contraía. mãe do Céu. cada vez melhor. para surpresa.de bem alto. mãe da Terra. Gedina cantarolou uma incelência: C Oi. Saraminda. numa voz de súplica quase desaparecendo: C Saraminda. e todos. que ouviu bem claro. Kemper gemeu e se retorceu todo. e a respiração. o chão molhado foi secando. as pernas se levantavam. Saraminda. o rosto de Kemper voltou ao normal. E. foi se normalizando. parece que é o Cão que está saindo dele. Zeduco. E o coro dos presentes respondeu: C Fora. se fez de surdo e perguntou a todos: C O que esse francês está falando? Ninguém respondeu. Kemper abriu os olhos. de um vermelho tão forte que os presentes abriram a boca e bateram as mãos de surpresa: C Meu Deus. tornando-se rosa e avermelhada. estarrecidos. Celestino Gouveia. descontrolada. socorrei quem ta preciso. Celestino Gouveia perguntou de novo. acendeu a vela e foi colocála na mão dele.

E só o trouxe porque sabia que estava morto ou iria morrer na viagem. Sacou do trinta-e-oito da cintura. e tiro de misericórdia é um gesto de caridade. Mas Celestino Gouveia não quis arriscar. de quem não sabia o pensamento sobre aquilo tudo. “Nunca matei ninguém numa roda de reza”. Ele está chamando o nome de Dona Saraminda. C Quem? C De Dona Saraminda C insistiu Zeduco. Saiu ainda de revólver na mão.C Cruz credo. que tinha conquistado Saraminda. os urubus de olho no que 199 . quando viu o estado em que se encontrava. C Seu Celestino. do testemunho de todos que ali estavam. foi generoso com ele. Até que. O que esse francês está falando? E ninguém respondeu. Não sei por que Cleto não me autorizou a matar esse nojento na viagem. e todos acharam que ia voltar da porta e dar fim a Jacques Kemper. Sabia que ele não estava morto. fedendo. E ele não tinha nenhuma caridade a oferecer-lhe. Seu sentimento era o ódio de Kemper. era o de trazer o cadáver e jogálo. quando o viu preso. C O melhor é eu dar um tiro de misericórdia nele e acabar com essa agonia. apontou para o rosto de Kemper. Celestino Gouveia. Ficou com receio da reação dos outros. passou a ter rancor. era o que pensava. ciúme e sabe lá o que mais. Sua intenção. não faça isso. desde que desconfiou do amor de Saraminda por Kemper. na sua chegada ao garimpo. Celestino abaixou o braço e disse: C Vou falar com ela e contar o que está acontecendo. pelo amor de Deus. A prova da maior fidelidade que tinha dado a Cleto foi a de cumprir a ordem de trazer Barba-de-Fogo vivo. no terreiro de Cleto. pois os testemunhos eram muitos e ele temia a vingança que podia sofrer de Saraminda.

C Celestino. C Ela disse o que quer? C Não falou nada. Mas “o miserável resistiu. Preciso combater um resfriado que quer me pegar C uma desculpa de ocasião para quem não tinha na vida desculpa para nada. que ela precisa muito lhe falar C disse Ludgero. era safadeza o que ela queria. Remoía-lhe na memória o acontecido. de sentimento. cobrar-lhe tudo que ela tinha feito. se oferecendo e brincando com sua fama de homem forte. sua diabólica trama. alucinados pelo seu corpo e prontos para cometer todas as coisas. “para me agarrar”. Depois pensou que ela quisesse um serviço de degola. Queria fazêlo sofrer. e agora ainda estrebuchava”. Sua decisão agora era ir a Saraminda. Ele não perdoava Saraminda. sua sedução. E assim caminhou. mas de homem de coragem. que era fiscal de grupo. por ele próprio e por Cleto. C Ludgero. aceitando trair Bonfim e fazendo com ele um jogo de bandida. esse o pensamento verdadeiro de Celestino Gouveia. Precisava de um acerto de contas com ela. Mas não. Bateu na porta. agüentou a viagem e chegou até ali. estimulando-o a ser canalha. Foi com essa raiva que saiu para falar com Saraminda. encarcerá-los à sua vontade. Dona Saraminda mandou que eu desse um recado para o senhor ir lá na casa dela. Matá-lo com raiva. Mas queria mesmo era esquentar-se. dizer-lhe que ia dar um tiro no francês. C Traz um trago. pensou Celestino. na qual quase foi envolvido. e os cachorros correram para ele como guarda vigilante. Mas ela queria desmoralizar todos. você tem cachaça? C Tenho. pois pressentia o que ia acontecer.podia ser carniça. não de misericórdia. 200 . esperando a ordem dela. O chamado já era coisa pensada por ela.

Os seios. mas o ouro que enfeitava o colo e os dedos das mulheres. Depois. C É coisa de pra já? C perguntou ela de dentro. eram amarelos como ouro. C Vou mandar abrir a porta. com as bochechas e o dorso preto. eram uma lenda que corria no garimpo. não posso trair Cleto. Por que você me escolheu para isso. e. olhou Celestino e subiu a escada da varanda com ele. só então ele viu. Tremendo. a carne escura refletindo como luz em que o branco da rede eram uma moldura para enfeitar um altar. Lembrou-se do dia em que ela entreabriu a porta para que a visse nua. ela mandou que entrasse em seu aposento. e ela estava nua na rede branca. e ele foi. me olhasse. porque você sempre está me olhando com vontade de me ver. C É coisa de ontem. não faça isso comigo. do tamanho de um bezerro. C Não. quando chegou. Saraminda estava no quarto. preciso falar urgente C gritou Celestino. C Celestino. mas ninguém que os vira contava. sou eu C bateu palmas C. menina? Quando ele falou ‘menina’. Saraminda estranhou os modos de Celestino. C Saraminda. sentiu que a palavra revelava um sentimento oculto de ternura que podia ser a barreira a transpor contra sua lealdade. Fixou-se na pele dela e percorreu o caminho de suas formas. quero falar logo. Celestino tremeu. tentou baixá-lo. a outra tarde em que ela mandou um recado por Ludgero para que ele fosse lá.C Saraminda. Celestino Gouveia recuou o olhar. ele entrou. mandei chamar você para que me visse. E ela pediu: 201 . Jamais o vira assim. E o grande cachorro alaranjado. Leão C gritou ela C acompanha Celestino. como se fosse um escravo. não o ouro sujo do garimpo. mas não conseguiu. Leão. Saraminda. não.

C Me beija. deixa ele sair e vem cá. E pensou: se Saraminda fizesse com ele o que fazia com Cleto. Sentiu um gosto de veneno e saiu correndo. que nem sonhava que era escravo. nem no ouro. Desse dia ele não esqueceria nunca. o desejo e a lealdade que já não era a Cleto. e Cleto. Queria dizer-lhe que ia matá-lo. não pensava mais no trabalho. era um instrumento para exercer o seu modo de seduzir e levar os homens à devassidão e loucura. Isso aconteceu com ele. verificando que ele. mandando recado para que a visitasse e atiçando seu espírito de modo a levá-lo à loucura. Kemper. que tivera medo de matá-lo. Era como se estivesse ressuscitando e. E Celestino fraquejou. 202 . amor e ciúme. Ficou com raiva. mas com a cabeça da morta. Pensou. um mágico. mas não passou da varanda. camada a camada. era a si mesmo. entre a sedução. joalheiro e comprador de ouro que teve de fugir. o maior de todos. proclamar-se dono do garimpo. em ir embora. Não dormia mais. Celestino. em delírio. Todos achavam que Saraminda estava possuída de uma grande paixão por ele. também. Celestino. repetia seu nome. Diria. mas isso não resolvia. O cachorro afastou-se e Celestino seguiu o seu caminho. que ele rapidamente entendeu. mandaria degolá-la e espetar sua cabeça no meio da vila. Lembrou outra vez a insistência de Saraminda. com esses pensamentos sobrepostos. e mais Ricardo. o jovem de cabelos longos. Clément. Celestino queria dizer a Saraminda que Kemper sobrevivera e a chamava. para que todos vissem a que ponto um homem pode ser levado por uma mulher. Ele iria embora. contido pelo rosnar forte de Leão. sedimentados. C Leão. Arquitetou matar Cleto. queria vê-la chorando. Agora estava ali. beijou-a. só pensava no corpo de Saraminda. também. além de Carlindo.

O francês. mas quando o ouvi chamar você. Kemper não morreu. seu amor. vim aqui para levar você lá. você fez comigo. C Não. Celestino? Me respeita. Saraminda estava vestida. Eu ia dar nele um tiro de misericórdia. Celestino! Do lado de fora. mandar buscar para satisfazer seus desejos. C Celestino. Em pé. C O quê.confessando sua fraqueza. mas não chamei Saraminda. Celestino. apenas nos estertores da morte saiu para mostrar que você o levou à beira da cova. Leão latiu grosso. para ver até onde chegou sua maldade e para matá-lo na sua frente. soltar. me respeita! Celestino Gouveia sacou do revólver da cintura. pior do que cachorro. acabada. também me fez sofrer. Saraminda. Celestino. que ele bem conhecia. Que a chamava. C Saraminda. C Por mim? C disse. agora está no fim. Você vai comigo agora. Está ressuscitando e chamando por você. e repetiu: C Por mim? C Sim. de mistério. chama você. Não aparentava emoção. você está doido? Me respeita. que ela fosse e visse o que era o seu parceiro. C Saraminda C disse firme C. C O que ele quer? C Não sei. com certo temor. para mostrar-lhe que todos sabiam como ela tratava os homens e dizer-lhe que o seu amor pelo francês estava ali numa posta de carne podre. confrontada com o seu caso. me fez ficar doido. Entrou. C Celestino. C Não. arranca a máscara. 203 . Aquele francês que você fez Cleto prender. fedorenta. Não lhe dei essa liberdade. e eu ressuscitei. por você. C Me respeita. junto à rede. com aquele olhar de desdém e ainda naquela postura. E gritou forte: C Respeita.

atrás. Ela ficou parada. Celestino. Ao cachorro não podia dizer: “Se afaste. com uma expressão de terror tão grande. sempre ao seu lado. disse-lhe: C Manda todos embora. fora do seu costume. C Saraminda. Os cachorros se afastaram. e teve uma leve noção dos sentimentos que cresceram nos homens que ela seduzira. C Pára. Lá fora.Saraminda engoliu todo o ar da sala. Ele abalara sua vida. Mas Leão não se afastou. Colocou-a na frente e. Leão! O cachorro emudeceu. levando-a para ver Kemper. afasta o cachorro. C Saraminda. afasta. Empurrado pelo ódio e ciúme. com o revólver nas costas dela. apontando.. senão eu mato Saraminda”. mão segura. Foi assim que ela começou a descer a escada e pôs os pés no caminho. Celestino queria humilhá-la. baixa essa arma. Saraminda era só pavor. manda esse cachorro embora. Leão voltou a rosnar. Seu estado era de perplexidade e pânico.. vou matar o francês na sua frente. C Saraminda. C O francês está chamando você. Vamos para encontrar ele vivo e ajudar a morrer. Celestino achava que vingava Bonfim. Vamos. Seus olhos faiscavam. sua mão era forte. C Leão. junto. Saraminda. C Vamos. perturbado com a presença de Leão. caminha. 204 . manda esse cachorro parar. jamais pensou em ser morta por Celestino. Pensou em Kemper. Apareceu na varanda. que. Foi nesse dilema que ele foi se enrolando. menos Leão. e não tremia no cabo do revólver. muda. Saraminda. senão eu atiro nele. Eu vou matá-lo. não rosnava nem latia. Saraminda. Saraminda foi sendo empurrada e andou. Celestino. C Não faz isso. sabendo do seu poder sobre os cachorros.

o cachorro jogava o corpo de Celestino para lá e para cá. Ia me levar para o mato e me forçar. não teve caridade: “Um homem como esse.. o terreiro ficou sujo com o sangue e os pedaços do corpo de Celestino... Cleto. Leão pulou no braço com revólver e tudo. bandido e traidor de você. Gedina. quando viu a cena. Todo o garimpo desceu. Os cães saíram.Rápido desviou a arma das costas dela e apontou para Leão. derrubou-o. que fez tanta perversidade. Cleto.. quando viu a cena. fui salva pelo Leão. fechou a cara de raiva e foi ao encontro de Saraminda: C Você viu a desgraça dessa sua mania de cachorro? C Não. Foi coisa de um relâmpago. C Canalha! 205 . C Leão C gritou Saraminda. Criou-se um alvoroço. Saraminda subiu correndo a escada e trancou-se no quarto. a primeira a chegar. E todos pararam. Veio aqui para me estuprar e deu nisso. eu resisti. Cleto. soluçando. É castigo de Deus”. avançou e começou a mordê-lo e a estraçalhá-lo. só podia morrer assim. Saraminda gritou: C Parem. Os outros cachorros entraram no ataque. na boca de cachorro. C Celestino Gouveia? C Sim. Foi ele o culpado. ele me ameaçou e me obrigou a sair com ele. Cleto Bonfim. aproveitando a agonia do francês. C Estuprar você? C Sim. O próprio.. Quando ele descia. Voraz. C Leão.. Celestino terminava seus dias antes de Kemper. Invadiu meu quarto. mordeu os lábios.

Cleto Bonfim gritou para todos: C Morreu como devia. canalha.Ao descer a escada de volta. traidor! 206 .

e ele sempre aparecia. . O ouro continuava saindo. Eu sentia no ar que meu destino estava acabando. Foi um grande erro a visita que o Governador Charwein da Guiana fez ao garimpo. disse Bonfim com irritação. mas foi o desastre C Clément divagava. disse Cleto. compadre Bonfim. Clément e Cleto conversavam na eternidade. C Os brasileiros o consideraram traidor. “E ele era”. Mas o veneno da política entrou nos homens. Escolheu um brasileiro. “Eu vi tanto ouro que agora comecei a enjoar dele. As pessoas não me olhavam mais como me olhavam sempre. de manhã cedo. Você sabe que o ouro tem dono. “Não me fale mais de ouro”. tudo que conversamos veio dele. as lembranças não paravam. Havia desconfiança e fui ficando com medo. mas todo dia. aChando que assim dava segurança a estes. ele vive na terra e é viciado em sangue e cachaça. C O garimpo já estava diferente. Eu nunca lhe dei sangue.” C Não vejo motivo.27 Os inimigos chegaram No velho casarão das sombras. Não era o ouro. Bonfim. eu mandava derramar nos meus barrancos dez litros de cachaça C lembrou Clément. Como o xerém C respondeu Clément. E continuou: C A mãe do ouro se embriagava e os homens podiam tirá-lo. Ele falou que aquele território era da França e nomeou Trajano seu representante.

Veio à frente daqueles homens e me falou ríspido: Clément. Veio a notícia do Cunani de que prendeu Trajano com mulher e filhos. disse Cleto. E você chegou e viu a coisa como estava difícil. “compadre Clément. baixa a bandeira da França! Aqui é Brasil! Clément parou de falar. depois de um tempo largo.C Nós. Era um gesto pessoal. Mas depois vi que eu não era gente de Gendarmerie. “Eu baixei. comecei a arrecadar ouro entre os franceses para comprar armas. “Ora”. que vivia fazendo desenho dos rios. me aconselhou: “Compadre Clément. esposa do 208 . que é o nosso trabalho e o nosso ouro”. se Eleutério e os brasileiros estão achando que essa bandeira é mastro de governo. fui eu que fui lá. Cleto. prosseguiu: C Eu ponderei que não estava querendo ser dono de terra. e Madame Coudreau. e vamos trabalhar no que interessa. Eu nada tinha a ver com isso. mas fiquei chateado e. compadre Bonfim. na verdade. Eleutério era meu amigo. ou nós vamos baixar”. franceses. “Cabral chegou com seu bando e fez aquele alvoroço. Mas naquele dia ele estava diferente. Foi meu companheiro de farra em Caiena. fomos para ali para retirar ouro. para acalmar os ânimos e lhe pedir para fazer o que você fez”. Foi aí que eu mandei lhe chamar. Eu soube que Trajano passou chorando. Era madura. Fiquei com o ouro e não armei ninguém. C Eu sempre botei na frente da minha loja a bandeira da França. o nome dela era France de Calsuène. segurando um cigarro na mão. de quem desejava que os produtos da França. recolhi a bandeira. Ficou olhando vazio para a parede. amarrou-o pelas mãos e levou-o para a Vila do Amapá. séria. Mas não era por política. que eu importava. baixa. fossem mais vendidos. mas bonita. esse tempo eu já estava me juntando com Lucy. compadre. mas ele foi duro: “Baixa. a partir daquele dia.

que tinha casa no garimpo e na Vila do Firmino. atravessando as corredeiras até a Vila do Firmino. descendo o rio Calçoene. veio para cima de mim dizendo que eu o tinha matado. Não mandei todos de uma vez. Comprei oito barris de Zaqueta. e embalava tudo para não quebrar.cientista. enrolava o garrafão em lençol de morim branco. nosso negócio era bom. de Belém do Pará. eu. Antes. O francês fugiu e Saraminda. Eu jurei. depois no batelão. foi no meio dessa luta que eu vivi o momento mais difícil de minha vida. Genibaldo Pereira. qualquer comerciante coloca a bandeira do seu país na frente da loja. onde morreu de febre. de caso pensado. Mas não tinha perigo. Mas lá. Ele disse que eu era o chefe da causa francesa. Eu. porque. vendeu quinhentos quilos de ouro para lá nos três anos que negociou nos garimpos do Calçoene. num saco de pano grosso. Era terra contestada. não. é coisa normal. aquele créole que importava cachaça que eu conheci na Guiana como arrancador de dente. acompanhados dos meus homens. Só serviria se algum doido roubasse para misturar de novo com a terra. de navio até Caiena. “Eleutério me denunciou a Cabral. Pedro Nolasco e Teodoro Leal. Dali. Iam de dois e três. Cleto Bonfim. você. Roubar ouro ali era perda de tempo: não tinha onde esconder nem a quem vender.” “Compadre Clément. se quebrasse. Tudo pela infeliz bandeira que eu coloquei na frente da loja. para o depósito da Société Equatoriale. cana-forte. Nós controlávamos todo o comércio. “A vida era tranqüila. tive de implorar a Saraminda para não me acusar de ter morto o 209 . briga de governos. E fechava os tonéis que iam em carros-de-boi. Mas ficou com gosto ruim depois da briga e da conversa de que vinha guerra. Em qualquer lugar. Eu tinha uns dez tonéis. assistiu à saída. depois. Comecei a encher os garrafões e depois a forrar os barris com folhas secas de guarumã e araruta brava. o ouro não saía. Então resolvi mandar todo o ouro que eu tinha para Caiena.

não fui eu. Eu mandei Celestino atrás do francês e disse para ele: Traz o homem. mas. fazia tudo. manda então buscar o francês. você sabe quem degolou a negra Maruanda?” C Foi você. onde andava Celestino podia sair qualquer crime de sangue. “Mas. Eu estou de noite. mas traz vivo.homem. deixo só o Tupã. Saraminda. Cleto. Vivia com o comandante e furou o couro. Depois.. até então. eu não fiz aquilo. mas não fugiu..” C Cleto. sumiu. não quero saber mistério acontecido em casa de ninguém. Coisa de quem se embeiçou. Mas Saraminda gostava de fazer desgraça. eu gostava da saramaca.” C E quem a matou? “É mistério para mim. mas foi meu campo verde. mas não fazia coisa de morte. Leão e Fogo-Ferro. Eu fiquei por uma sirigaita francesa que foi expulsa de um navio. isso é coisa de não se saber. Homem de confiança. Eu sabia que ele ia fugir. de revólver na mão. encosto a cabeça na mão. Era mulher de cama e sabia tresvariar um homem. fedia 210 . se o francês fugiu. meus cachorros vão junto. compadre. Como me pergunta uma coisa dessa? “Não. Mas até hoje eu sinto o cheiro daquela mulher. do meu conhecer. Mande atrás. aquela mulher me chamou e disse: Cleto. não fale em mulher quando pronunciar o nome de Saraminda. Clément. Foi minha desgraça. “Compadre. Não sei se ela queria o francês ou me machucar e submeter. e eu. porque é de homem quando fica besta por mulher. era Celestino. dou um cochilo e lá vem o cheiro dessa francesa. Gritou. Foi coisa que durou dois meses. só que estava podre. chorou e chamou os cachorros. que até foi mulher minha. esse Leão da Rodésia me olhando e eu olhando para ele.” C Compadre Cleto. você deve saber. E Celestino o trouxe. Quando o jacá desceu na frente da prisão de que saíra. que latiam em cima de mim. Se sumiu. Eu fiquei doido por ela. Compadre Clément.

” 211 . besta. Cleto? “Dela. Mas não se salvou. E eu.mais do que gambá. Ninguém se salvou dela. o queria salvo.” C Como não se salvou.

cercando a linha das faces. pretos. de um branco-amarelado.28 A dama de espada C De onde você é? C Sou de Belém do Pará. tenho trabalho de prestígio. uns cabelos vastos. . que eu só penso em encher minha barriga com você”. cara de cavalo. e. mas nasci em Ananindeua C respondeu Artônia. e Cleto dizia. Cleto Bonfim não simpatizou com ela. manda buscar remédio. tomou-se de amores novos por Bonfim e pedia. Daí a necessidade de chamar Artônia. a feiticeira que mandou buscar a peso de ouro para tratar Saraminda. que precisava de uma benzedeira para espantar feitiços da casa. depois do acontecido com Celestino Gouveia. Foi história que nunca entrou direito na cabeça de Cleto e só apareceu depois que ele desconfiou de sua ligação com o francês. C Onde você aprendeu essas artes? C É dom. mistério de Deus. que não emprenhava. vivo lá. célebre por seus trabalhos de fazer coisas impossíveis. escondendo o verdadeiro motivo. encaracolados. coisa que nunca tinha feito: “Quero ter um filho seu. um garimpeiro que veio do Pará. Artônia tinha um rosto comprido. Rodrigo. mostra de quem não dormia. e que. informou-lhe de Artônia.

que encobriam as orelhas e um pedaço da testa. para que não entrassem nem a luz nem o olhar de espiadores.crespos. que morreu. com duas sobrancelhas longas. mas não participava de adivinhações e trabalhos. bem como os gastos do dia-a-dia. que atendia pelo nome de Querida. ficavam por conta do contratante. quero ter filho. Andava acompanhada de uma mulata forte. ficou com os dois quilos de ouro da avó. acreditei. porque eu botei barriga em muitas mulheres. As despesas e ajustes da viagem. Será que ela estava prenha e queria me enganar? Como já lhe disse. “Saraminda me fez chorar. ela nunca emprenhou. porque só assim sabia trabalhar. ‘Bonfim. Cleto. de grandes nádegas. aceitando suas condições de passar uma lua. me beija. eu sinto. que assistia. E eu. Cleto mandou buscá-la. Saraminda me disse que passara a ter outra paixão muito grande por mim. escuras. com ripas nas juntas. A prima dela. vigarista e grande puta. você vê. Pediu também que tivesse liberdade de atender outros fregueses. de vinda e ida. parecendo juba de leão. Estou pura. comecei a ficar donzela de novo. ela me dizia. “Cleto. também comecei a pensar em ter um filho com ela. voltados sempre para o chão. este * * * 213 . o documento era em nome dela e estava com sua avó Balbina. receber um quilo de ouro e ter um tapiri próprio. a Lorette. não por minha causa. mas trouxe e entregou-lhe o certificado de depósito dos oito quilos de ouro que eu paguei. Artônia era a mais afamada vidente feiticeira daquelas bandas. mas nunca me responsabilizei por filho. terras que têm muitos ramos de pagelança indígena. Ela me chamou. comida e bebida. que não emprenhava. Clément. porque ninguém podia receber. trancou-se comigo no quarto e me mostrou o certificado. cercado de tábuas sobrepostas. senão ela. Os olhos baços.

“Quando o cachorro comeu Celestino. Pára. os fios amarelos molhados. Estou virgem de novo e menstruei. então baixei os olhos e vi a sua natureza.” Clément ficou excitado. “’O ouro é seu. começo a me desesperar pela lembrança da cachoeira. brilhando.. É o ouro que me comprou para você. Ela acariciou minha cabeça e pela primeira vez eu lhe disse: Me beija. quis retirar-se. eu me revoltei. Saraminda. Levantou-se. Cleto. vestida de madras. Bonfim. Vi que Saraminda era minha desgraça. Bonfim.. “Saraminda mostrou o corpo.. Por ele vim para cá e comecei esta vida de Semana da Paixão.. tirou o certificado de depósito dos meus oito quilos de ouro e disse: ‘É seu.  Foliões com as fantasias tradicionais do Carnaval de Caiena. Saraminda.papel é tudo que eu ganhei na minha vida. “Eu me lembro. Clément?” C Lucy. Ela estava arrependida. mas quero emprenhar’. vim com você agora por vontade e sem ouro. Eu não posso viver mais sem você. 214 . as lágrimas caindo sobre os seios. começou a cantarolar uma música de touloulous ∗. ela chorava. Cleto. mas não me manda embora. “Saraminda abriu seu baú. Um pedaço de papel amarelo e desbotado. Eu finalmente tinha entrado na sua alma.’ “’Não me serve para nada.’ “Mas eu já estava me libertando da paixão por ela. com desconfiança desse desejo de ter filho. Perdi todas as forças e mais uma vez cedi à tentação. Comecei a beijá-la. Não tem mais francês.. Eu já estava doido com essa novidade de emprenhar. Eu quero ser sua’. “Do que você está falando. Clément. chama um pintor. manda pintar esta janela aqui. “Cleto. Por que surgiu essa vontade?” Lucy. acreditei que Saraminda era mulher que queria ser só minha. gritava de dor e pedia: ‘Me mata.. não tem mais ninguém. me beija. C Pára.

Tirou um baralho já gasto do bolso da saia. entrando na conversa. Quero uma janela preta. “Olhei a carta. Puxou uma carta. Um dia ela virá. Tem coisa mais longe do que o senhor pensa’. “’Artônia me olhou e perguntou:’ “’Qual é o trabalho. “Ela quem. “’Seu Bonfim. Clément?” perguntou Cleto. O senhor quer saber tudo que as cartas vão dizer’? “’Pode falar. ninguém. Ela é que vai salvá-lo. Colocou um copo de água sobre a mesa. Cleto voltou a sua história. Seu Bonfim’? “’Saraminda quer ter um filho’. mas recebeu na vida um diabo fêmea’. Entrei meio desconfiado. 215 . porque nunca tinha tratado com esse tipo de mulher de desvendar mistérios. desejava iniciar os trabalhos. Era Saraminda. bruxa feiticeira. Seu Bonfim.esta aqui da varanda. C Nada. “’Então vamos começar o trabalho. mas só digo se o freguês quiser. botou nele folha de pião-roxo. sua desgraça está aqui’. eu vejo. Nunca quis saber o futuro nem fui dado a rezas. “Nesse mesmo dia. Artônia me pediu para ir a sua vivenda. pegou-a com as duas mãos e levou-a até os olhos abertos: ‘O baralho sabe onde estão todas as verdades. de preto: a moldura e as rótulas. retomou as lembranças. tem o dom do ouro. As cartas revelam coisas que muita gente não quer saber’. não tenho medo’. e atirou na mesa uma dama de espada. aberta para sempre. “’E prosseguiu: “Vejo uma navalha de ouro. “’Pode falar. “’Olhe. o senhor nasceu em Cametá. Fechou os olhos e abriu o baralho. Seu Bonfim. “Eu não gostava da cara dela.

“’Continue no plano da navalha. Não quero mais serviço nenhum. Só ela poderá cortar os cordões que estão no seu pescoço’. também. era um diabo fêmea. “’Dona Artônia.“Tremi. não tire mais nenhuma carta. Como ela podia saber que eu estava pensando na navalha? E esse mistério escondido? Ela.’” 216 . Prepare sua mala para viajar. “’O que devo fazer’? perguntei.

mas era também a infelicidade.. Então eu mesmo vou cortar essas cordas e cipós.” Foi então que pensou em ser livre. clarão fosco. tudo parou. Tomou o candeeiro. O ouro o destruíra. Saraminda era a felicidade que conhecera. que veio a idéia da navalha.A chuva despencava. A cabeça era um corisco. Depois. acendeu a luz e logo espevitou o morrão para que ficasse fogo baixo. Bonfim não dormia. Seu cheiro de açucena se expandia na escuridão. sem filhos. Aquele caso foi o despenhadeiro. Estalava e dava riscos de tremer. na cama de Saraminda para alumiar . sem nada. Levantou-se. “Eu me fiz e me desfiz. Na escuridão do quarto. A solução passava por ali. Pensava na vida. o que nasceu e cresceu Bonfim. Ele queria ver a sombra da escuridão. Torceu a ruela do pavio. depois do acontecido com Carlindo. E levantou-o bem alto. invadida por um silêncio triste. Ela ressonava num suspiro quase de brisa noturna. Bonfim vai ser Bonfim. sem esparramar pelos lados. O primeiro passo qual seria? “Quem me enrolou nessas cordas? Eu. Passou a vida atrás dele e continuava a procurá-lo.” Ele sempre teve coragem de decidir. sem família. que ficava embaixo da rede com a caixa de fósforo. o mágico. sem mulher. ele sentia Saraminda deitada. junto ao revólver.29 A noite das decisões Foi nessa noite. no vazio em que a transformara.

Sempre a espantava. Tinha que ser um segredo. Uma idéia que ninguém além dele próprio poderia ter ou executar. Só que não poderia consumar a desgraça com uma navalha de barbeiro. Será como o sol. percorreu-o devagar com o candeeiro dos pés à cabeça. no descanso da cabeça. feita de ouro e de vento. que ninguém podia desconfiar. Não se firmavam. de pedras ricas. Brilhante. A luz lhe expunha agora uma parte da nuca. dos musgos. Só ele poderia feri-la. mas tinha de libertar-se. desenhos bonitos. que ele nunca imaginou. cacos que pensava juntar. 218 . em que o ouro jamais pensou em transformar-se. assim como se escondessem um segredo. Essa navalha será uma jóia de não existir. jogado para um lado. Essa sedução tinha muitas vezes passado pelo seu pensamento.bem seu corpo. Esperou e alumiou de novo. Ele não admitia que alguém pudesse tocar em Saraminda. das folhas. esticado. que ela jamais podia pensar. incapaz de se turvar. das cachoeiras do Grand Dégrad. sobretudo depois que desconfiou dos olhares de Saraminda para ele e do seu ventre. “Vou a Caiena para mandar fazer uma navalha de ouro. da cor do mato. do mar. Ele pôs a mão no facho de luz. mudavam de lugar. Veio a idéia já construída aos pedaços. O ouro não podia exigir-lhe esse sangue tão puro. dessas usadas no garimpo para serviços de costume. O pescoço era a estrada por onde iria sair do labirinto. para ninguém ver. mas com a morte dela encontrar o Bonfim que desaparecera. Parou no pescoço. encobrindo o clarão.” E imaginou uma jóia de navalha. nem tocar. Esses olhos verdes que se debruçavam no seu rosto e ali cruzavam os braços esperavam tardes e noites. esse orvalho vermelho que caía nas suas manhãs de amor. A idéia o aterrorizava. coisas de alucinação crescente. nem suspeitar. Ela virou-se. Foi crescendo dentro dele esse monstro que era um mistério. cheia de labirintos. límpida. Seu desejo não era matá-la. de sonho e de nada. como se sentisse a luminosidade. vacilavam.

onfim e Bonfim. conversando consigo mesmo. Vou matar o meu amor. matando o que mais amei.Mas com ela vou me matar. já ouvi dizer. 219 . Eu sou covarde porque vou matar quem não me ama. Ouviu o cantar dos pássaros acordando o dia. que não morre. Amanheceu. Todos os homens matam aquilo que amam. A noite passara sem que ele notasse.

.

Ricardo ficou entre os passageiros de segunda classe. desatracava agora do cais do Firmino. estatura baixa. feições largas. Em sua companhia ia Ricardo. com um curso de enfermagem. . os subordinados. Bonfim não tratava com ele seus assuntos pessoais embora tivessem longas conversações sobre pessoas. subiu para o camarote. onde viajavam. fazendo companhia e fiscalizando a escrituração. Bonfim. e dali no rumo das Antilhas. Havia muitos passageiros. Era um homem típico do Marajó. ajudandoo nos negócios. cabelos lisos de cor avermelhada. a maioria para Caiena. Vinculou-se a Cleto Bonfim e logo abandonou a profissão para ocupar um lugar bem próximo a ele. que estudou em Belém do Pará e que. Outros. viera ao garimpo para ganhar dinheiro. iam em busca de tratamento na Guiana. velho vapor inglês que fazia a linha de Calçoene a Caiena.30 A decisão na viagem O Evangelina. Deu os apitos de saída e todos ficaram no tombadilho com sinais de despedida. na parte baixa do Evangelina. passava em muitos portos. rapaz novo. na rígida hierarquia da região. mas de todos os rios e riachos da região onde se encontrara ouro. muitos dos quais pessoas envolvidas nos negócios de venda de mercadorias para as lojas que se estendiam por todos os caminhos na demanda dos garimpos. não só do Lourenço. Vindo da Europa. logo que o navio se movimentou. doentes.

para ajustar as medidas da largura do banheiro. Em cima de uma diminuta cômoda. a navegação para Caiena enfrentava as ondas do cabo Orange.negócios e a vida em geral. embora houvesse pessoas conhecidas com quem poderia conversar em créole. Como entrada de luz. Deitou-se. Bonfim. Entrou no camarote. sem entender nada do que se falava. Na linha do quarto. “Bonfim. um pequeno depósito para malas e roupas.” Mar aberto. num milagre de aproveitamento. À frente. uma escotilha. onde um pequeno vaso sanitário branco. uma bandeja com um jarro de bordas onduladas. respondeu o outro. embaixo de um espaldar muito simples de ferro trabalhado. Parou de pensar um pouco para lamentar que tivesse de viajar num navio inglês. Em cima. pintado com tinta naval. com a abonação de prestígio Manchester-England. que dava para o estreito corredor que circundava o segundo andar do modesto navio. tendo na ponta um puxador de madeira. ocupava a metade do espaço. No outro canto. Dava para o pequeno banheiro. uma porta abaulada nas extremidades. No canto. com uma bacia redonda de ágata. com um espelho quadrado. também de ferro. que funcionava com uma pequena corda. que fugiu de mim. a casa de comando. “Então. continue no seu martírio”. A cama estreita estava arrumada. ficou de calção e continuou o monólogo que não lhe saía da cabeça. Tudo muito apertado. um lavatório de ferro. “Sei. disse o primeiro. eu vou voltar a ser você. Williams. Eu sei que já tomei a decisão”. 222 . pintada de branco. “Não é nada de martírio. Tirou o dólmã. você sabe o que está fazendo?” falou um. a caixa de descarga.

Nada no terreiro. com paus. pouco a pouco. um sussurro que se perdia indefinido na distância. nenhum vigia. nem dos porcos nem das galinhas. Mas era só receio. era som mesmo. porta escancarada. Restava um silêncio imenso que entrava nos meus ouvidos. Severino vem buscar o senhor”. como se fosse de vozes assustadas. coisa que estava acontecendo bem longe. Não apareceu nada. saí e ninguém me deteve. parecendo que todos tinham fugido. O sussurro permaneceu distante e só eu o ouvia. a voz de Maruanda: “Pela madrugada. bati nos joelhos para ver se sentia algo. Nem sombra dos cachorros. Olhei em torno e vi apenas uma rolinha sangue-de-boi que arrulhava perto da parede de treliça. tive a impressão de que os sons se aproximavam e logo pensei que vinham em grupo em busca de mim. espingardas. pedras. Fui acordado do medo por um murmúrio de coisa longe. nada. Nem o balançar do vento e o canto dos passarinhos.31 A procissão do morto Saí do sono da morte sem saber. Eu estava no chão. Nenhum som penetrava em meus ouvidos. . Levantei. Lembrei-me de quando foi armada minha fuga. Entendi que estivesse surdo para sempre. sem ninguém por perto. como deixada em correria. Esfreguei as mãos para aquecê-las. Não era um zumbido nem um sino na cabeça.

Chegou e viu tudo vazio: “Kemper. Ficou calado e trancado em casa uma semana. Tornou-se alma do outro mundo. que os via. Kemper”. Na taboca. juntando mosquitos e febres. Dentro da prisão estava escondida uma preguiça preta. Do jeito que ele estava não podia andar”. Depois. Para onde eu poderia fugir? Eu estava livre. que eu não gosto de ver se arrastar. Desapareceu. refugavam os altos e invadiam a floresta.Eu não sabia fugir nem desejava. mas estava preso dentro de mim. C Bicho feio. Gedina sentiu um calafrio. e vi que era a direção da corrutela do Lourenço. Os homens caminhavam silenciosos. ela gritou. “Por que vão enterrar no Cemitério Velho. o animal se encolheu. abandonado. Gedina. nos baixios. contornando os caminhos sem rumo. Chegou na cozinha e falou para 224 . que entrara pela porta aberta e ali ficara. fui entrando na mata. Ninguém teve coragem de enterrá-lo no Limão ou no Lourenço. por ele. na passagem do atoleiro e charco do Cruz-Credo. Foi Gedina quem se lembrou de procurar por mim. trocando silêncios durante os dias e as noites. Bonfim. Mas Bonfim não tinha como decidir. disse que não falaram nada. Desciam para o cemitério velho. Foi largado porque alagava e submergia nas cheias grandes quando as águas desciam. Ali apareceram assombrações. “O francês tinha o diabo no corpo. E saiu rezando e se benzendo. Desvendei o alto do Jacu. Mas não era luto. queria que os restos do corpo ficassem ali para comida dos cachorros e dos urubus. parecia um defunto. quando vi a procissão descer e sumir. Ninguém falava nem chorava. numa rede. Fiquei no alto olhando a procissão que se estreitava e alongava para passar nas barreiras do caminho fechado. abestalhado. Saber como eu ressuscitara. Com a presença de Gedina. ele e Saraminda. juntei as coisas e tive certeza de que era o enterro de Celestino Gouveia. e ninguém sabe nem nunca soube o que conversaram nesse tempo. vi uma procissão. retorceu o corpo e ficou imóvel. Saí andando sem saber como e. estagnadas. se ele está esquecido?” me indaguei.

Leve-me daqui. que eu devia procurar em Caiena. Vi o Calçoene nascer e prosperar. Ele me deu um anel. que é seu pai. C Eu sou Domingos. A morte de Celestino ninguém podia pensar que fosse antes da minha. Eu estava mais branco do que o leite do algodão-bravo. era sonho. Meus olhos não fechavam. no posto do Cunani. Não conhecia a lei da sobrevivência no mato nem tinha coragem de aparecer. com um papel no qual estava escrito o nome da Société Equatoriale. Estou fugindo. Começou a morrer. Jamais voltarei. sumiu. Que vá para os infernos fazer companhia para o Capeta. “Esse francês chegou e trouxe muita desgraça. Está com febre. Ele vai levá-lo em paz. encontrei Domingos. Ele ficou comovido comigo. C Quem é você? C Kemper. desses que ele vendia. tinha um cheiro de catinaa. fui assassinado. Cachorro já come gente. 225 . Era pequeno. o vendedor de anéis. As coisas aconteceram muito depressa. Saí da sepultura. com jeito de coisa encantada e espírito mau. não há nem sinal”. e me recomendou: C Não o tire do dedo. eu caminhava sem destino. Eu era uma visagem. C Não sei quem eu sou. mas era encantado.Zeduco: “O francês desapareceu. ao entrar num tapiri abandonado. Olhei para o anel. Perdi o tempo e a memória do que sou e de quando aqui cheguei. Só me recordo de ter embarcado no navio. Domingos levou-me. só o nome.” Faminto e fora do mundo. Tudo acontecera tão veloz e mágico que não parecia verdade. Foi aí que.

.

Tenho ainda que adquirir as pedras e os brilhantes. A não ser que o senhor queira a navalha somente para enfeite e não para o serviço que ela faz da barba. Aqui em Caiena não há ourives melhor que eu e já trabalho no ofício há mais de quarenta anos. Fio de ouro. É para trabalho. Seu Bonfim. não. os óculos de aros redondos. Seu Bonfim. Quero é o trabalho feito e que seja peça de beleza. Tenho que me socorrer dos colegas de profissão. porque jóia desse porte só eu mesmo tenho ciência para tocar. As outras. Pago quanto for necessário. . C Eu quero com o fio melhor que tiver. não é como o de aço. C O tempo será o mesmo. caídos na ponta do nariz.32 Um velho ourives C Em quantos dias o senhor prepara a jóia que estou lhe encomendando? C Um mês. os cabelos brancos. O ouro não agüenta o fio. C O problema é a lâmina. retorcidos levemente pelos anos. por mais que se trabalhe. C Não se atrase por falta de dinheiro. A esmeralda eu tenho. de um velho anel que comprei há muitos anos e não encontrei freguês. Aqui não é fácil. Só o aço. Cleto olhou Jean-Baptiste. Um homem de uns setenta anos. O senhor sabe que tem que ser trabalho de artista.

Trouxe aqui o Ricardo. quero navalha que corte. Seu Cleto? C Não. C Mas o senhor já sabe que o ouro não se compara com o aço. trabalho de quem sabe fazer. C O senhor não pode usar uma lâmina de aço. a melhor na sua missão. mas deixando o fio livre. é para uso sagrado. C Estou mandando um emissário procurá-lo e já dei várias queixas à polícia francesa. C Não é para presente. C Pois assim é. C Quero ver a minha conta. C Ele chegou lá há quatro anos. até recebê-la. O gerente era novo e me perguntou onde andava o rapaz Jacques Kemper. que são as melhores. e dar um banho de ouro? C Isso pode. C Deve ter entrado na aventura do ouro. do desgosto com a Laurence. * * * A navalha me ficou na cabeça desde que saí da joalheria e não me abandonou mais a imaginação. C Pois daqui a um mês pode mandar buscar. das navalhas alemãs. que tinha ido para levar o carro e nunca mais dera notícia.para não irritar. de minha 228 . pago quanto for. É muito tempo para lembrar. Não podia ficar um mês em Caiena. Fui à sede da Société Equatoriale e lá soube do acontecido com o Lefèvre. cortar de uma vez só. C Só o vi no dia em que recebi o carro. C Não sei C respondi seco. O preço só lhe digo depois de saber o que vou gastar de material e mais o meu serviço. C Pois faça assim. Já recebi quatro cartas do nosso presidente Foucaud e da família dele perguntando pelo seu paradeiro.

não quis pegá-la. com todo o meu ouro. mas o fio continuava de aço. cortante. Saraminda o escolheu porque eu. A esmeralda no meio parecia tanto uma visão verde de gente. Recebi ordens da matriz de atendêlo sempre em tudo. brilhantes e outras pedras que eu desconhecia. Entrei no meu aposento do barracão onde estavam as sarrapilhas e comecei a abri-lo. que ela não percebia. Era dourada.” Recebi um pacote de papel de embrulho enrolando uma caixa. O sol se 229 . “Quem é?” “É um homem que traz uma encomenda que o senhor contratou. Embrulhei tudo. Deixei-a repousando no estojo. Ele era bonito e louro. que eu me lembrei do olho de Saraminda. Circundando. Tomei coragem. Meus anos já pesavam na falsidade de Saraminda. Tinha um brilho que não esmorecia. Queimava. C Seu Bonfim. coloquei debaixo do braço e saí. e ele vai ficar vendo os livros. não encantava seus olhos. Mas eu tinha meu sentimento. abri a lâmina. se o senhor tiver alguma notícia do Kemper. Nada paga o ódio de um homem que foi traído. frio. Quando vi a navalha. Foi numa sexta-feira que me procuraram para dizer que um portador de Caiena estava à minha procura.” “Que venha!” Meu coração batia. Peguei a jóia. Disponha e use a nossa empresa. Recoloquei a navalha no estojo forrado de veludo vermelho. que é sua. Nada respondi. o senhor sabe que nós temos a maior consideração pelo senhor. com a história do Kemper na cabeça. Francês nojento. prevendo que era a navalha. que trabalha comigo. Ela não me dizia nada. C Senhor Bonfim C quando ia me retirando. avise-me.confiança. ouvi a solicitação C. Jean fizera um trabalho de artista. fino. “Aqui está. C Obrigado C respondi direto. Uns desenhos de sereia e de curvas de mulher enfeitavam um lado e outro. eu era feio e caboclo. por favor. Meu ódio pelo francês não passava.

Senti que o meu caminho estava sem touceiras. Perguntei a Taíta: “Quando vai ser a lua cheia?” Ela me respondeu: “Na quarta-feira”.escondia. Saraminda tinha de virar pó. A navalha era como se fosse um garimpo novo. 230 .

.

A realidade é que eu estava ali. . O navio avançava lento. Nunca mais soube o que é ter lágrimas. o navio se aproximava e com ele a noite. Observava o horizonte que se escondia nos últimos suspiros do dia e o que eu via era a imensa névoa dos morrotes da Vila de SaintLaurent. com mistura de céu e purgatório. que passava falhado no horizonte. de libertação de um inferno. No tombadilho do Belle de Martinique. aumentavam. Era um brilho pequeno e fácil. Não me recordava mais de quando saí do porto do Havre a caminho de Caiena. Desde o momento em que larguei a rampa da Vila do Firmino e olhei pela última vez as barrancas de que um dia saltei para o desconhecido. As luzes baças. eu repousava. Tantos anos. moroso. As luzes agora eram outras. Eu estava no sarcófago da minha esperança. os olhos revirados para o passado. de querosene. Não tinha mais condições de chorar. Minha sensação era de fuga. Quanto tempo? Era impossível calcular. e contei um por um os vinte e oito dias da travessia. Elas caíram todas em meu destino das Guianas. ocasional e efêmero. e podiam ser poucos. começaram a aparecer.33 As luzes do Havre Eu não chorei. eu só tinha gosto de eternidade e ressurreição.

Onde estaria Anne. Tudo estava deserto. quando acordado. Romperam-se os muros do silêncio e passei a ouvir. via o horizonte aparecer e esconder-se. Apitos breves e próximos e outros distantes e fortes eram ouvidos. Cleto proibiu que fosse enterrado no Limão. Era um som triste. Tudo era ausência de sons. Minhas orelhas abanavam como ventarolas. Saí caminhando entre as árvores. Andei e andei como pude. era o enterro de Celestino Gouveia”. Levantei-me. ouro e mulheres. Parecia que todos tinham fugido de repente. A prisão acabara e eu ressuscitara. Atrás dos morros estavam os caminhos. Saí. Quando acordei do sonho. Por que abandonei minha mãe? Ela estava ali. florestas. Não era movimento de vento ou de folhas. Pensei que tivesse perdido os ouvidos. não podendo levar nada. Um silêncio me invadia a cabeça sem perturbação.” As luzes do Havre se aproximavam. de árvores. minha irmã? Todas as recordações da infância chegavam primeiro. nem do ar ou dos bichos. como um encantamento a me chamar. Lembrei-me do momento em que Maruanda me disse: “Pela madrugada. Paris. Eu levitava. ali é a França. Levantei-me como um fantasma. Foi uma sensação brutal. A porta estava escancarada. Subia e descia os morros. já se podia ver as fileiras que se alongavam acompanhando a terra firme. não sabia como sobreviver a ela.Havia em mim lembranças de Cancale. nem a sombra. Depois na noite. 233 . Subi o morro. perdi a noção e memória de tudo. o vento passando livre. vi ao longe uma procissão. bichos. Minha cabeça está limpa de pensamentos. mais nada. Agora eram mais brilhantes. trazendo um murmúrio de longe. não me lembro de nada. Não conhecia a floresta. “Morreu?” “Foi comido pelos cachorros. Severino vem buscar o senhor”. Fui me aproximando deles.” “Celestino Gouveia?” “Não. sem recompor o acontecido. “Jacques Kemper.” Minha cabeça estava cheia de terrenos vazios. Maruanda apareceu e confirmou o que eu já sabia: “Seu Kemper.

bisogós e lambe-olhos. mutucas. dois ajudantes e um caixeiro. cordões. Comerciante em Belém do Pará. braceletes. tiaras. Quando abri os olhos. As luzes aumentavam. “Quem é você?” “Kemper. e saía com eles.” * * * Domingos Eleutério de Barros era aventureiro. com quatro oficiais.” “Eu estou perdido. e que me apresentara. viera ao Calçoene em procura de Ricardino Merenda. e ali. comercializando nos 234 . Domingos tinha ourivesaria no Pará. de faces rosadas. naquele lugar. e me pedia para ser tolerante.” “Eu sou Domingos e parece que nós dois estamos saindo do Lourenço. castigados pelas chuvas. estava uma moça que se chamava Geneviève. Não sabia onde pousar nem o que fazer. Meus olhos começaram a ficar sombrios e essas luzes não eram como as de Caiena. Continuei andando na mata. devendo-lhe meio quilo de ouro. Depois voltava à sua casa e se punha a transformar o ouro em anéis. Tolerante a quê? Eu não sabia. junto estava um homem baixo. brincos e pingentes. como todos os que andavam naqueles mares de árvores e rios e ouro. com uma maleta na mão e tão assustado quanto eu. de nada me lembro. forte. fracas. bela. A travessia do oceano foi agitada. Andava pelos garimpos comprando ouro e vendendo jóias. Pela manhã fui ao corredor de bombordo. Ali repousei. uma tempestade não deixou ninguém dormir e o navio cavalgava o mar como nos atoleiros das margens do rio Carnot. com a mãe cujo nome não lembro. Veio outra lembrança desembrulhada da minha cabeça. cabelos longos. Lembrei que já tinha feito outra viagem. jogadas no chão frio das calçadas através das janelas e se espraiando nos calçamentos irregulares. financiado por ele e que fazia seis meses não aparecia. Lembrei-me do seu pescoço quando ela descia da escada no porto da Martinica.presente no meu lembrar. Vi uma tapera abandonada. picado pelas caçadeiras.

garimpos e nas vilas. Sempre ia em tropa de mascates, seus amigos, que levavam tecido, roupas, calçados, remédios e perfumes para a tarefa do escambo, como de costume naquelas bandas. Vendia remédio Óleo Elétrico, ungüento recomendado contra dores, pílulas Kemp, para estupor, e antibiliosos, como Ostrog e pílulas de nitrato. Foi ao Lourenço para tentar receber uma velha conta. Como de praxe, financiava os aviamentos, ferramentas e o custeio de um barranco, recebendo em troca um percentual do ouro apurado. Há três anos era sócio e emprestava dinheiro a Ricardino, paraense como ele, velho conhecido e envolvido nas artes de comércio do garimpo. Fazia seis meses ele não voltava para acertar as contas, e o costume era fazer o acerto de dois em dois meses. Disseram-lhe que ele saíra do Lourenço para o Cunani, onde Domingos não o encontrou. Disseram-lhe que havia voltado ao Lourenço, onde então estava à sua procura. Domingos chegou num dia de sábado. O pessoal do garimpo largava o serviço às quatro horas e começava a folga, que se estendia até segunda-feira. Era o tempo de lavar as roupas para a troca da semana. O sábado era o dia das festas, em que os pés descalços recebiam as botinas de couro cru compradas em Belém ou sapatos de lona, vindos da França, calçados rasos, pé-de-anjo, e, de calção lavado, com o desodorante de alvaiade debaixo dos braços, eles iam para as corrutelas gastar seus gramas de ouro nos cabarés, onde as mulheres mais pobres que os bichos eram apanhadas para juntar-se nos matos, porque os terreiros de baile eram barracões sem tapumes.

* * *
O navio mantinha a marcha. As caldeiras rodavam as hélices cansadas de travessias. As luzes se aproximavam, cada vez mais nítidas e mais fortes. Ninguém o esperaria no cais e ninguém sequer esperava que ele estivesse vivo. Foi Domingos 235

quem o levou para a Vila do Firmino e que, tomado de compaixão, o embarcara para Caiena. Lá, o gerente da Société Equatoriale, quando o viu, gritou: “Você está morto, a empresa já pagou sua vida para a família”. “Não sei se estou morto. Queria voltar à França.” Maruanda lhe dissera: “Kemper, afastese da Guiana, do Contestado, vá embora, não posso atravessar o oceano porque as almas dos garimpos não se livram do ouro”.

* * *
Domingos conhecia bem essa vida. Reconhecido por uns, desconhecido para muitos, perguntou por Ricardino: “Passou seu barranco adiante tem uns quatro meses e se largou para o Cunani”. “No Cunani ele não está, de lá venho eu.” “Pois aqui não está mais. Qual é o negócio?” “É que somos sócios e, como ele não voltou mais, vim atrás para saber das coisas.” “Pois é, ele até era homem forte nessa região. Bamburrou umas três vezes e parece que foi embora por desavença com Cleto Bonfim e que foi para as bandas do rio Carnot”, disse uma das muitas pessoas que abordou. “E onde está Bonfim?” “Teve, há três dias, um inferno danado. Morreu Celestino Gouveia, seu homem de confiança, estraçalhado pelos cachorros de sua mulher. Está trancado em casa e ninguém sabe dele.” Domingos lembrou-se da última vez em que estivera com Cleto Bonfim, havia dois anos, e fora convidado para jantar na sua residência, uma casa créole, parecendo um palácio no esconderijo do mato. Conheceu sua mulher, lembrou-se da cachorrada que estava do lado de fora. Era uma mulher bonita, créole bem-feita, e de uma expressão desconfiada. Recordava-se bem da conversa quando ela o viu com sua mala preta, dessas que todo mundo sabe que é de vendedor de jóia, e foi logo assuntando: C O senhor vende jóias? C Vendo e compro ouro, Dona Saraminda, a vida inteira. C Pois é, vi pela sua mala. Mulher é bicho curioso.

236

C Mas não vim aqui para esse fim, minha senhora, vim pelo prazer do convite de Bonfim. C Mas eu gostaria de ver suas jóias. C Não posso negar o seu desejo, se assim permitir meu amigo Bonfim. C Mostra, Domingos. O ouro é feio, mas fica bonito quando feito anel, brinco, pulseira, relógio e cordão pelos ourives. E as mulheres gostam muito disso C respondeu. Pegou o estojo, dividido em retângulos, forrado de veludo vermelho e cheio dessas bugigangas que se vende em toda parte. Nada que pudesse encher os olhos da mulher do maior dono de garimpo do Calçoene. Mas o dever era mostrar, meio encabulado. Ela pegou uma medalha e perguntou: C Que santa é essa? C Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará. C De Belém do Pará, não é... C Sim, senhora... C O senhor sabe que o nome Caiena era de um príncipe índio que casou com a princesa Belém? Essa é a história de minha avó... C Não sabia, não, Dona Saraminda. C Já pedi a Cleto que me levasse a Belém para assistir a uma festa dessa santa... C O Círio de Belém, minha senhora. É uma beleza de procissão, tem meio-dia de gente passando nos seus olhos e um mundão de devotos puxando o andor dentro de uma corda. Coisa bonita de muita fé. C Pois Cleto me prometeu um dia aparecer por lá... C Vai ter muito tempo pela frente, Saraminda C cortou Bonfim. C Pois é, Seu Domingos, em Caiena as maiores juntações de povo são em 14 de julho, na Place dês Palmistes, e em setembro, na festa que é de majuri e dos bailes. É um jardim cheio de flores, de lanternas chinesas e lampiões junto do 237

Carrefour de Jean-Paté-Banane, com as corridas de saco, de jumento e perna-de-pau. Tem outra alegria que é o Carnaval e tem outra triste que é La Nuit de Ia Toussaint, com velas acesas, flores e aquele turbilhão de gente levando lembranças para seus mortos, no cemitério. É triste, mas é como se fosse o baile das almas. O cemitério era conhecido, a capela com um velho sino na entrada. O túmulo primeiro é bonito, com uma coluna de mármore partida, do Governador Louis Massin, capitão-demar-e-guerra que morreu na peste de 1851, e a sepultura de Soeur Norbert, que fazia caridade em Caiena.

* * *
A memória recente era melhor. Kemper via os olhos de Domingos, sua mão calejada e dura apertando-lhe o ombro e dizendo: “Vá, não volte mais, eu também não voltarei”. Retomava as reminiscências. Todos os que conhecera na chegada estavam desaparecidos. Lefèvre estava morto, ele próprio se matou. Laurence fugiu, seguiu um novo amor, libertou-se “dos calores da Guiana”. O medo de ser perseguido e encontrado. Sua cabeça estava com os pensamentos embaciados e as idéias atropelavam-se. Havia vácuos imensos. Principalmente sobre seu tempo no garimpo. Lembrava-se da chegada e tinha algumas janelas na memória. Não compreendia com clareza quem fora Saraminda e Cleto Bonfim, nem se recordava das febres e do ouro. Com grande esforço, abriu as portas da memória para lembrar o passeio que teve em Caiena com Laurence. Tudo era difuso. Deu-lhe desejo de rever os tamanduás do escudo da Guiana. Foi ao forte de Saint-Michel de Cépérou e estava em sua cabeça o relato de Laurence de que o sino do forte tocou oito dias e oito noites, em 1888, no grande incêndio que destruiu a parte comercial da cidade velha. “Olhe o Palácio do

238

Governo e o Hotel de Ville, no princípio eram no velho convento dos jesuítas”, ela repetia, pois gostava, para encher o tempo, de passear com a ajuda das referências da cidade. Kemper se lembrava de Laurence e de sua visita à cidade. Reviu as palmeiras gigantes no fim da antiga Esplanada, agora das Palmeiras, transplantadas de Guizambourg, trazidas sabe Deus como, gigantes, para aquele local. “Veja esta palmeira, não há no mundo nada igual a ela, tem dois troncos! Palmeira de duas cabeças, só na Guiana...” Era a voz de Laurence, nas artes de seduzi-lo. Todas essas imagens eram referências que afloravam, como bóias escapadas do fundo do mar para a superfície. Tudo de que se lembrava começava com Laurence, vestido de saia rodada, ela dançando e, depois, levando-o para o quarto, despindo-o, resoluta, beijando-lhe todo o corpo, os ombros, o peito, as pernas, as costas, todo o corpo, com sua boca perfumada, a saliva saciando-lhe o prazer. Ela estava excitada pelo vestido que devia ser de outra e lá foi dela. Caiena era um mistério que se revelava, cidade modesta com a beleza das pequenas coisas. Seu povo era alegre. Nas ruas explodia a diversidade das raças, com predominância do belo sangue negro, cor que se revela fúlgida aos vento leste e o desconhecido das florestas do setentrião. Os longos dias de espera. A quarentena antecipada. A internação no Hospício Civil e Militar, o Hospital Geral, que desde o século XVIII ajudava os enfermos. Os olhos piedosos de admiração das Irmãs de Saint-Paul de Chartres para com sua cor amarela de uma palidez intensa, resto dos males da ressurreição na prisão do garimpo. Numa volta confusa, Kemper, aos poucos, recobrava a memória, embaciada, escura, numa visão sombreada pelas manchas que ainda cobriam os olhos. Embarcou. A travessia, o navio jogando, a tempestade, a falta de vontade de comer e, pior de tudo, a perda do gosto de voltar a ver a terra de onde partira.

239

As luzes do Havre o ajudaram a abrir os olhos. 240 .

penetrava nos aposentos de dormir com um sabor doce e amargo. os troncos de manchas esbranquiçadas. cumpro o destino . as folhas retorcidas e esburacadas. nesses anos cheios de mofo? C Clément. não estou feliz nem triste. ambulante das sombras dentro daquela casa de madeira velha que os anos tinham carcomido. escondendo o capim-de-burro que crescia lento e apodrecido. quando pensei que você me acompanharia nessa vida que não se acaba. os ciscos pelas estreitas passagens abertas nas sarjetas laterais.34 Noite de Saraminda Caiena estava encharcada de chuva. em demanda dos canais construídos para receber as inundações dos grandes temporais. O jardim e os canteiros que davam para os quartos estavam todos com as árvores cheias de fungos. Os jasmineiros sustentavam-se sem pernas. as folhas. de drenagem. minha querida Lucy. arbustos sobre o chão. com o peso dos anos. C Lucy. Clément Tamba vagava solto. que levava os sujos das ruas. fundas. Os pingos grossos juntavam-se em feixes e não deixavam espaço onde não corresse uma língua de água. Resistia o cheiro bom das estrelas-lírios que invadia a casa. caídos em touceiras.

dezoito. você tem ouvido o som dos sinos da catedral? C Sim. Era um companheiro de colégio. ele. O Diabo me causava medo. depois fomos ao bosque. Sempre acreditei mais no Diabo do que em Deus. Eu o namorava há seis meses e ele já conhecia todos os caminhos do meu corpo. eu tinha dezessete anos. Eu recusei.. O Deus do Padre José me amedrontou. que tentou me converter um dia. C Lucy. prometa arrepender-se dos seus pecados e nunca mais se curvar às tentações do Demônio. Ele desprotegeu-me.de ficar ao seu lado. eu sofri quando tive que confessar ao padre a primeira vez que me entreguei a um homem. percorrido por suas mãos meninas. Levou-me a passear atrás do prédio. Sempre fui recatada. com a voz baixa.” Eu nunca tinha sido tentada pelo Demônio. Coisas em que não mandamos. Cleto Bonfim disse: “Eu nunca me confessei na vida. mas Deus nunca me ameaçou.” Lucy. quando tocam nas aleluias e nos dias que anunciam o funeral de algum cristão. Dividimos o mesmo badalar das horas. como o piaille.” “Reze três padres-nossos e duas avemarias. Sempre fui arredio às coisas da Igreja. As pajelanças para mim eram coisas do Demônio. Não me incomoda sua presença nem me conforta. fez revelações: C Tamba. Deus para mim era aquele pai que me protegia e que não era de me jogar no fundo dos infernos.” “Já negou ajuda aos pobres?” “Não. Lembro do Frei José. que me confessou pela primeira vez: “Como cumpre os deveres com os mandamentos?” “Já conheceu o pecado da carne?” “Não. C Onde está o Padre João. pedindo que me batizasse e pedisse perdão dos meus pecados? C Eu não sei. Não sei como aconteceu. Até que um dia acariciou meus seios e disse que me queria.. Eu passivamente aceitei. Frei José me 242 .

Eu disse que não me lembrava. O exterior era preto com frisos prateados. Uma casa bela que eu não queria desvendar quem construiu C resmungou Tamba. Hoje. de marroquim e couro grená. 243 . desenho de Alfred Gabriel Count. durante dois anos. molejos bons. Era um carro de classe. um amor antigo que eu não tinha desejo de saber. “Foi a primeira vez?” “Sim. “Ele estava frenético?” “Não sei. sem filhos. não sei por que não continuamos.” “Como não sabe?” “Eu não sei se ele estava. Quando nos juntamos. C Meu passado é hoje. Eu abandonei. assim. ao seu lado. Tinha quatro rodas. e possuía duas lanternas. uma de cada lado. Meu namorado não foi rude. Depois.” “Diga a verdade. vazio. mas eu achava que estava em pecado e pedi a Frei José que me aconselhasse. Os degraus podiam ser recolhidos. coisa pequena para meu ouro de Calçoene. C Lucy.perguntou como ele reagiu quando me viu. puxados por uma parelha de cavalos brancos que adquiri. mastigando o tempo. me encheu de cortes e ficamos amantes. mandei oleá-los e os atrelava luzidios para que percorressem as ruas de Caiena. de seda-cetim. nesse varandão sem brisa. que não se esgotou no confessionário. O Demônio estava dentro de você?” Eram tantas perguntas e eu só me lembro de que saí com um sentimento de culpa danado. não me fale dos homens que teve. não me arrependo de ter me entregado a Juvêncio. C Um dos momentos mais felizes que tive em Caiena foi quando chegou o landau quadrado que encomendei em Paris. você era para mim uma vida nova. Tinha botões no teto com rosetas douradas. Custou-me vinte mil e oitocentas libras. Ele me conduziu com ternura. Ele me acariciou. sem memória. fabricado pela Million Guiet Cie. célebre projetista de carruagens. Frei José. As maçanetas da porta tinham meu monograma. ele me respondeu: “Abandone o pecado”. O interior.” “O que você sentiu?” Frei José me perguntava demais. está aqui. Não quero saber do seu passado.

Apodreceu no meu quintal. C Mas não fomos nós C Clément respondeu C. com cristais nas janelas. Lucy. sua barbicha e os braços compridos. que usava boné e se preparava para andar na carruagem. saquearam. e a terra era nossa”. Depois o povo achou que era vaidade minha. Com o tempo. trovão. Era muito melhor do que aquele que Cleto mandou levar para o Lourenço. cheios de veias. Livrar-me de outras lembranças minhas”. “estou necessitando falar. em pé. A chuva prolongava-se.Carro bonito. disse Cleto. que 244 . Vergonha de Cleto. que recebeu um cabriolé para Saraminda. com seu velho e conhecido chapéu. Invadiram a Vila do Amapá e mataram todos. “os franceses foram bandidos. “Clément”. Tudo inveja. tocaram fogo nas casas e não deixaram nada. vagabunda que nem rezar sabia C disse Lucy.” reapareceu a sombra de Cleto Bonfim. que eu era ridículo e queria parecer o que não era. Eu mandei fazer uma farda com botões dourados para o cocheiro. Até hoje atormenta nossas cabeças. Está lá. as pessoas foram perdendo a curiosidade e todo mundo se acostumou e não foi mais novidade. foram os soldados mandados por Charwein. C Pare com isso. as mãos alongadas. C Não me pronuncie o nome dessa mulher. Eu sobrevivi mais do que ele e do que os cavalos.. ela era um fantasma no centro do garimpo. créoles. estirados. Pilharam. Nunca ninguém tinha visto um carro vindo da França em Caiena.. ferido pela velhice. em pedaços. desmanchado. Clément Tamba. com amigos e namoradas. Nós. “Compadre Clément Tamba. Eles próprios ficaram com vergonha do que tinham feito. Estava ali. Uma vez ou outra ouvia-se o som de um. C Não. Todos iam para as portas de suas casas para ver-me dentro. e raios cortavam a escuridão.

Clément.. mergulhado na minha desgraça. mas não caiu sobre os outros garimpos. eu estava em casa e ali fiquei.” C Eu não assisti a esse tempo da morte do garimpo. Cabral desfilando nas estradas do Lourenço. Charwein é odiado na Guiana. “Respeita. E depois. Eu estava escondido. Cabral é herói. Bonfim. os cavalos galopando. todo mundo indo embora. de Winchester na mão. dentro dela. os caminhos enchendo de mato. minha alma começou a se partir e a casa foi queimando e. “Para mim tudo está misturado. Foi o governador da Guiana. a poeira levantando. Muitos garimpeiros fugiram atemorizados.” C Meu último dia foi aquele. Clément. e Cabral. os garimpeiros gritando vivas. Bonfim. e ele a gritar: Onde está o homem da Casa da França? E cercaram minha casa. com seus capitães. revistaram tudo e retiraram a bandeira que estava escondida no meu baú. Tudo começou quando aquele francês chegou. o povo todo apoiando. arriscou a vida. o garimpo começou a secar. Você está misturando as coisas. invadindo o Lourenço e gritando: Liberdade. não tínhamos nada contra os brasileiros. minhas saudades.estávamos no Contestado. olhando de cima. Muitas águas viraram sangue.” C Você está ouvindo a gritaria. franceses. A maldição caiu sobre o Lourenço. “Sim. Saraminda se apaixonou por ele e por aquele vestido eivado de mandinga. minhas coisas.. Eu vi a mãe do garimpo trancar as portas do ouro. quando vi aquele rolo de fumaça. Eu fugi. Depois que conversei com a feiticeira e que ela foi degolada. lá na montanha. ele mostrou sua generosidade perversa mandando dar às viúvas das vítimas do Mapá dois garrafões de vinho SaintJulien. 245 . ele deixou tudo. Cabral é herói nas terras brasileiras. As bateias passaram a vir com lama e tijuco. Cabral era o Brasil. Bonfim C disse Clément. Os barracões foram caindo. Cabral não era o Brasil.

num tronco seco de imbaúba. como tendo de novo a visão do fogo. Eu ouvia quando o fogo estalava minha mesa. 246 . Ia matar tudo que eu mais amava. com os quilos fraudados. Estava cansado. C Quase me atirei ladeira abaixo. os caminhos. Andava soluçando. Eu conhecia as pessoas. Clément. Fiquei só. Quando viram o garimpo com febre. Comecei a chorar. Ele queria só expulsar. Bonfim. Depois olhei para o mato e lá. Mas. tomei a decisão. e tive comigo muitos créoles fugitivos.meu passado. Mulher que só me trouxe anúncios maus. Mas eu não podia fazer nada. pensando bem. que pedia: Quero meu corpo. as contas adulteradas. Fechei os olhos. aqueles sapos no coachar. Aquela gente morrendo. Saí do barracão de baixo e fiquei no que eu possuía perto da mina. nós pagamos pelo mal que fizemos àquela gente. foi Cabral que me fez sair daquele inferno. e nós roubando comida dos desgraçados. “Um galo cantou. a cabeça da feiticeira Artônia. duas cabeças. não tinha forças. estava a cabeça da Artônia. as febres. As bateias eram de sangue. vi entre os mururus. de braços abertos. meus barracões ficaram vazios. os pés inchados. Minha fuga não foi difícil. Olhei para a montanha e lá no alto estava o corpo dela sem cabeça. eu morri duas vezes. em cima da vitória-régia. Cabral não fez questão de nos perseguir. Quando passei no pântano. Ela estava em toda parte. tanto querer pelo Calçoene. os brasileiros fugiram com medo da morte do ouro. Era o dia. Eu não sabia que tinha crescido dentro de mim tanto amor pelo Lourenço. Nem as mercadorias eu pude levar de volta. minha cabeça era só coisa ruim. e repetia: Quero meu corpo. com Ricardo. que disseram que era amante de Saraminda. Era um som cortante que feria meus ouvidos. Larguei tudo e caminhei para casa. a miséria. para minha cabeça jogada aqui. o choro da minha mesa C Clément soluçava fundo. Meu caminho foi o exílio de Caiena. Nesse dia. enchi os bolsos de pepitas e tomei o caminho. “Mas. seis horas da tarde.

” C Cleto.. você degolou Saraminda? Diga-me. A traição. Sangrava um silêncio que se diluía no espaço como fumaça. Ele não respondeu de novo. Foi ela quem botou feitiçaria no garimpo. Bonfim? “Aquela que eu sabia que ia tomar um dia. 247 .. E ria. C Lucy. Tamba suava e suspirava. C Raimunda. Está chegando.Coisa feia. C Monsieur Clément Tamba. minha verdade.” C Compadre Cleto. “Pensei em sair das correntes do ouro. Até hoje ninguém sabe. Bate. Os cavalos silenciaram. Passos firmes saltaram e foram ouvidos no corredor.” C Que decisão. Bonfim desapareceu. O quarto foi invadido pelo forte cheiro de cravo amarelo de defunto. Manda abrir a janela preta para ela entrar. traz. Lucy veio correndo. Foi quebrado por um rinchar que vinha da rua a todo trote e parava na porta.” C Por quê? “Foi o canto do galo que me confirmou aquilo que eu já sabia. vi. você viu isso e não correu? “Vi.” C Que verdade? “O canto três vezes.. traz a vela que está na gaveta da cômoda. mas já estava com a decisão na cabeça.. toca o landau com quatro cavalos brancos. Acende. Estava branco. C soluçou Lucy. à beira de desmaiar. manda galopar. Aonde vamos?  Estou pronto. Repetiu: C Clément? Ele não respondeu. je suis prêt ∗.” C Você pensou no canto do galo. C Clément.

248 .C disse o cocheiro.

.

e nós lutando com as canoas vazias. as trilhas. As noites de Caiena. o que você fez de sua vida? Como encontrou tantos espinhos para pisar? Cleto. as cachoeiras galopando nas pedras. onde está meu corpo. quero pegar você. tudo cheirando a dinheiro. não bebi ouro. Bonfim. “Saraminda. Tantos mortos. o repisar das lembranças. os navios.35 O sudário “Cleto Bonfim. Eram sempre as mesmas agonias. o florescer das casas. beijar você e depois sentir o seu corpo de . a vinda das mulheres. quero minha mão descendo nas suas coxas. desgraça minha. não me acuse. me acompanha na decisão final. O garimpo de Roraima. Cavei ouro e ele me atormentou os dias e as noites. minha cabeça está rolando de chão em chão. babar seus seios. a chegada dos franceses. O garimpo novo. Por que. as flechas cruzadas e tiros. os índios pintados gritando. você me degolou? Eu vim chamada para perder minha cabeça?” “Não. para que serve? Não comi ouro. onde começou a vida. o encontro com Saraminda: Oh. Os caminhos do Calçoene. Artônia. e suas vontades sendo levadas a todos os cantos. deita aqui. Para que viver? Ouro. o rio se escondendo aqui e acolá para passar nos estreitos. Correndo do ouro e procurando o ouro.” O vozerio dos fantasmas era um zumbido de abelhas em seus ouvidos.

os veios. Cleto olhou a cama. não conteve os soluços.” Cleto Bonfim pegou a caixa. A cabeça. um no outro. Cleto Bonfim avançava. a mão direita apoiada pela esquerda. suar e sentir o gosto quente de um só corpo. e eu suspirar em você. e retirou a navalha. Saraminda dormia. descansava do abandono da alma para dormir e sonhar. Abriram-se as janelas. Os pés de cumaru que florescem onde tem ouro.ariranha roçar no meu. Queria tê-la pela última vez. “Onde está minha navalha. O quarto estava inundado pela penumbra. Abriu a navalha e segurou-a com força. os calores do Calçoene eram muitos. com suas favas perfumadas. O corpo era um resplendor. As pedras reluziam e o ouro brilhava. de ouro e brilhantes. amou o francês sujo e entregou-se a ele. secaram as bateias. O garimpo está morrendo. Saraminda não se movia. no silêncio de nossos gemidos e gosma de nossos gostos. e voltou com a navalha na mão. firme. dava para ver os peitos dourados e as partes despojadas. uma prisão sem grades. Ele construíra aquele instante. o mato e até a montanha de Salomoganha estão secos. A mão tremia. desembrulhou-a. Restaram seus seios amarelos e seus olhos verdes. Quis vê-la iluminada. na simplicidade mágica da sua nudez. entrou a luz opaca da lua. seus olhos se fechavam e abriam nervosos. Ela estava como queria. Seus olhos. Bonfim recuou. Quis prolongar esse instante de sua vida. Tremiam ao olhar Saraminda. poderia te levar para o sono dos mortos. dois em um. mesmo fechados. Estava como na 251 . Saraminda dormia. respirou um pouco mais. caída para o lado. os lábios tiritavam de medo. foi à janela. eu quero você e você me traiu. escondida pelas nuvens. agora fedem que nem catinga de bode. Saraminda. enrolar-se. Cleto Bonfim trouxe o candeeiro para mais perto. todos os músculos dos braços contraídos. A respiração era um suspiro brando. misteriosamente brilhavam de medo e terror. jóia feita para essa noite? Só essa peça rara.

Aproximou-se e ajoelhou-se. Só se ouvia o silêncio da matilha que se embrenhava na floresta. Os cachorros corriam em desespero e uivavam. C Saraminda! Saraminda! 252 . silenciaram. Fechou os olhos. Os cachorros.primeira noite. de repente. As mãos de Cleto Bonfim desmaiaram e os olhos começaram a chover. A lâmina da navalha emitia raios de luz verde que faiscavam nos estranhos olhos fechados de Saraminda. Havia no ar um cheiro de alfazema e enxofre.

.

longos. Pareciam milhares. Tudo escureceu. Os pássaros e os bichos. Os rios amarelos ficaram vermelhos. O garimpo estava morto e exalava fumaça com o cheiro da mugueta. As águas corriam acotoveladas para o lago dos rejeitos do garimpo. . tristes. profundos. desorientados. Cleto não aparecia. escutam o troar trazido do mar e das entranhas da terra C afirmou Ricardo. Os cachorros latiam e uivavam em todas as direções. invade as matas e seu estrondo espanta os bichos. muito longe. Os trovões eram soluços. corriam e voavam em círculos desordenados.36 O garimpo morto O céu encheu-se de um rebanho de carneiros de lãs negras. Um vento frio soprou. acompanhado do espocar de tabocas queimadas. de ouvidos no chão. e ninguém via nenhum. lançando poeira no infinito. A chuva irrompeu inverneira e não parou por três dias. monótonos. Quando está chegando na costa. C É a pororoca que zoa assim. Não se sabia o que acontecera na casa assombrada. O dia virou noite. que. O povo abandonava os barracões e fugia. C São lágrimas de Cleto Bonfim C disse alguém. nuvens vindas de longe. Todos indagavam por ele.

C E Saraminda? C insistiu Domingos. Era conhecido. C Vim à procura do Cleto Bonfim. C Também sumiu. a febre. C Não é Domingos? C indagou Manira. com uma maleta de jóias. Agora. cruzou com os garimpeiros que fugiam destroçados pelo caminho do Cruz-Credo.C Que mistério existe no mormaço da tarde. 255 . a última mulher de bordel que ali permanecera. a loucura do calor dos meses de verão e o nada nenhum C acrescentou uma sombra. C Alguma degola? C Ninguém sabe. Todos olharam para o céu e. há três dias chove e ninguém sabe o que aconteceu com ele. C É. C O garimpo morreu de banzo . o mesmo que fugira na varação do Cunani com Jacques Kemper e depois voltou.declarou Crescêncio. que havia três dias não fechavam e não choravam. no meio da chuva. ficar aqui é a fome. que Cleto sumiu? C indagou Taíta com os olhos abertos. macacaúba preta que queimou na capoeira velha. Mas foi assassinado C disse Taíta. C Domingos. O garimpo está morto. quero comprar ouro. As nuvens ardiam como lenha em brasa. viram uma fogueira. Um vulto de chapéu largo. C Acabaram todos os ouros.

E as luzes do Havre. estabelecimento penitenciário. . Os apitos se sucediam no porto vindos de todos os lados. Os passageiros carregavam a bagagem para o tombadilho e os corredores do Belle de Martinique. Sua cabeça era um tabuleiro de xadrez com as peças tombadas. que ele  No ultramar. refletiam a palidez do rosto. desbotadas e brancas. pintada de amarelo. estibordo. Poucas roupas. Kemper era a carcaça de si mesmo. Era o último prisioneiro de um hagne ∗ invisível que voltava da Guiana. para onde eram mandados os condenados a trabalhos forçados. cada vez mais próximas. todas compradas em Caiena. Um ranger de correntes e motores invadia seus ouvidos. cansado de tantas travessias.37 Uma luz no cais do Havre Kemper voltou ao camarote. Sua memória eram pedaços cortados que não se encaixavam. o corpo em postas sangrentas. cometas de vozes gritavam: Bombordo. Kemper pegou sua mala de madeira. Suas mãos. Os fatos que lembrava entravam numa caixa misteriosa. com as cantoneiras pretas e os cercos da fechadura de ferro batido. como de um jogador que não conhecesse nem as figuras nem as regras do jogo. Nenhuma memória dos infortúnios. nenhum objeto que recordasse aqueles anos.

nos banhos de cheiro. os cachorros em torno. o corpo dela imerso nas águas da cachoeira. Foi nessa angústia que percebeu um suor frio varrer-lhe o corpo. tornava a quebrar e surgia mais outra. Seus olhos se embaciaram. a ré. o ouro em tudo. o garimpo. Kemper tremia. o suor aos borbotões. As tempestades. cobra-d'água que se enrolava no vento quente dos vapores da floresta. Eram ordens: Baixar ferros. 257 . Atordoado. Recordou a paixão que. um terremoto na cabeça. vestiu uma camisa de algodão. a morte. o vestido. Desfez-se o delírio. na Velha Caiena. como um fantasma lavado. O corpo escuro. a fuga. A memória se confundia para voltar pouco a pouco. As luzes próximas. a ressurreição. a febre. e as amarras jogadas em meio às águas revoltas. jogava lavas em todas as direções: “Quem tomou minha decisão de voltar? Saraminda. apressada. Maruanda. Celestino. Laurence. liso. e parou com ela nas mãos. O pensamento e as pernas tremiam. reconstruía-se a teia da vida: a partida. comprada na Rue Pichevin. como um vulcão em erupção. como se quisessem abandonar-lhe o rosto para ver tudo. tomado de azeda comoção. Cleto. que girava. brilhantes. Quando deu por si. o navio se aproximava. e nunca chegava ao fim. Tudo voltava. derrubando tudo. as hélices em rotação contrária. torcidos. Seu passado clareava. com o fim da viagem. os olhos saltavam das órbitas. sacudindo-lhe a memória e reconstruindo aqueles campos de ruínas que não se juntavam. Era como se sentisse mais uma vez a malária na noite da fuga. atracar.quebrava e encontrava outra. e os motores freavam. C Desembarcar C foi a ordem que ouviu do marinheiro. saíam em feixes. como as chuvas de Caiena. A algazarra aumentava. quero ficar eterno com você”. gelando a alma. estrebuchavam. só que voltados para dentro.

. com a força da araponga. mas. Ninguém o esperava. de onde partira para aquele sonho. Enfrentou. Era uma voz longe e perto.batendo nas suas costas doloridas. aberto para o mundo. No meio do saguão. à luz do sol. faziam tudo cinzento. uma mulher. Parou em frente dele. Tremia. a fila da escada.. invadiu todo o espaço da estação do desembarque. na misteriosa nudez dos seios de ouro: Saraminda. sineiro da selva. Jacques Kemper pegou a mala. Nenhum rosto. rompendo caminho. os passos trôpegos a descer em meio aos outros passageiros e à gente estranha que os esperava. quase não podia segurá-la. reverberavam como um arco-íris. levantavam as chuvas. C Jacques Kemper. trazia a demência do amor perdido para sempre. Só as águas. águas fortes. Ergueu o rosto e deparou-se com o Calçoene e a montanha Salomoganha. da Vila do Calçoene! Jacques Kemper. as pedras e o redemoinho da memória. Pôs sua triste mala no chão. Na cabeça. A multidão descia. Kemper esticou o olhar no rumo do espaço de solidão que boiava no porto do Havre. O enigma da beleza nos olhos verdes. Tapou os ouvidos. não sabia mais os sentidos dos sons. crescendo em avalanche. Um chamado de espanto encheu seus ouvidos. como as águas dos rios encachoeirados que ele tanto subiu e navegou. que chicoteavam as pedras. 258 . cambaleando. Abriu os olhos. Levou as mãos ao rosto.

.

soldado francês Créole. avó de Saraminda.Tábua de personagens Alexandre André Annie Arthur Artônia Astrolábio Augustin Ruppert Balhina Bizene Carlindo Celestino Gouveia Charlotte Charwein Clément Tomba Cleto Bonfim Coudreau Crescéncio Danton Dono do garimpo em Roraima Padrasto de Jacques Kemper Irmã de Kemper Mestre morto da expedição francesa ao Amapá Feiticeira Representante de Cleto Bonfim na Vila do Firmino. nomeou o sobrinho Governador da Guiana . francês nascido em Caiena que vai para os garimpos da bacia do rio Calçoene Chefe do garimpo que arrematou Saraminda Cientista que passou alguns anos no Contestado estudando o curso dos rios Garimpeiro Revolucionário de 1789. dona de bordel Companheiro de hospedaria de Kemper em Caiena Joalheiro Capataz de Cleto Bonfim Mãe de Kemper Governador da Guiana em 1895 Guianense. porto do rio Calçoene Pai de Clément Tamba.

tia de Clément Tamba Jacob Biarritz Judeu. cachorro de Saraminda Firmino Amapá Brasileiro que descobriu o ouro do Calçoene Foucaud Funcionário da Société Française de l’Amérique Equatoriale em Paris Frei José Padre para quem Lucy se confessou pela primeira vez Gabriel Garimpeiro Gedina Empregada de Saraminda Geneviêve Passageira do navio Gazelie Genibaldo Pereira Negociante nos garimpos do Calçoene Gérard Pena Rapaz de Caiena que participou do leilão de Saraminda Greba Mãe de Gertrudes. avô de Clément. vinda da África como escrava Jacques Kemper Apelidado Barba-de-Fogo. Laurence Jean-Marin Pianista do Tour d’Argent Jeannet Odin Sobrinho de Danton enviado a governar Caiena Jean-Pierre Vendedor de fumo e açúcai negociante na área do Cépérou em Caiena João Vigia da portaria do garimpo de Cleto 261 . francês de Cancale.Denara Prima de Clément Descoup Pai de Saraminda Domingos Eleutério Mascate de jóias de Barros Doriques Marido de Raída Edith Mourreau Primeira mulher de René d’Orville que foi assassinada por ele Esode Tocador de saxofone no enterro de Cleto Bonfim Ferote Pastor alemão. arrematou sua avó. bisavô de Saraminda Jean-Baptiste Ourives Jean Negro carregador do cais de Caiena Jean-Louis Lefèvre Gerente da Société Equatoriale. funcionário da Société Equatoriale Jansen Holandês. pai de Balbina. suicidou-se por causa de sua mulher.

com quem foi morar em Paris aos quatorze anos Mulher de Clément na velhice Fiscal de grupo Esposa do cientista Coudreau Dona do bordel Tour d’Argent Empregada de Saraminda Macaco de Saraminda Responsável pela horta de Saraminda Comprador de ouro Mãe de Clément. judia e preta Ajudante da feiticeira Artônia Cabocla maranhense que fugiu do garimpo Empregada de Clément Garimpeiro 262 .Joaquino Jules Gros Julienne Juvenal Juvêncio Juventino Koron Lariel Laurence Leão da Rodésia Ledério Li Yung Linderfo Lorette Louis Lucienne Lucile Lucy Ludgero Madame Coudreau Marie Turiu Maruanda Nico medes Ovídio Pedro No/asco Possidônia Biarritz Querida Raída Rajmunda Raimundo Garimpeiro que desapareceu com Raída Fundador da República do Cunani Mãe de Saraminda Dono de casa de aviamento na Vila do Firmino Primeiro namorado de Lucy Garimpeiro do Pará Primo de Lorette Hortaliço Esposa de Jean-Louis Lefèvre Cachorro de Saraminda Fugitivo do Suriname. empregado de Clement Chinês que descobriu uma pepita de dezessete quilos no rio Calçoene Amigo de Clément Prima de Saraminda Pianista do bar Chez Martin Mulher leiloada no bordel de Marie Tia de Kemper.

mulher de Cleto Bonfim Garimpeiro Cozinheira do garimpo Prostituta do garimpo Comprador de ouro Empregado de Bonfim Representante da França e delegado do governador de Caiena no Contestado Chefe da revolta do Amapá contra os franceses do Contestado Mulher leiloada no bordel Papagaio de Saraminda Comprador de ouro que participou do leilão de Saraminda Importador de cachaça Galo Trabalhador de casa Ajudante da loja 263 .René d’Orville Ricardino Merenda Ricardo Ritinha Rodrigo Roger Saraminda Severino Boião Taíta Tatie Teodoro Leal Terêncio Trajano Benítez Veiga Cabral Wiabo Xaxá Zacarias Zaqueta Zeca Zeduco Zerido Padrasto de Clément Garimpeiro Ajudante de Bonfim Lavadeira de Caiena que ensinou créole ao papagaio Garimpeiro que veio do Pará Marido de Lorette Créole de Caiena.