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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA DEPARTAMENTO DE LETRAS CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO/DOUTORADO DISCIPLINA: A CIÊNCIA LINGUÍSTICA E O ENSINO DE LÍNGUA

PROFESSORA DR.ª GRAZIELA LUCCI D’ÂNGELO DOUTORANDA RAQUEL DA SILVA GOULARTE MELO, Gladstone.C. Vicíos do nosso ensino gramatical. In: Iniciação à filologia e à Linguística Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1971. (capítulo IV, p.285 - 290) _________________. Como se deve estudar a língua. In: Iniciação à filologia e à Linguística Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1971. (capítulo V, p.291 - 298)

DESCRIÇÃO DA OBRA: Texto editado pela primeira vez em 1949, depois em 1956, em 1965 e, por fim, em 1970.

Capítulo IV - Vícios do nosso ensino gramatical Em outras tentativas, o autor buscou as causas para a “decadência da língua literária” e aponta como um dos fatores desse fracasso (“descalabro”) “o emprego de métodos defeituosos no ensino da língua vernácula”. (p.285) O autor defende um combate (“modesto e tenaz”) contra a gramatiquice. Nesse senti do, afirma que o objetivo do livro é denunciar os vícios do nosso ensino gramatical e propugnar métodos racionais e à altura da ciência linguística atual (1970). (p.285) O autor destaca que a partir de 1816, com a publicação da monografia de Franz Bopp, novos horizontes se abriram à empírica ciência da linguagem. Melo considera que a soma de materiais acumulados, sistematizados e estudados, os quais permitiram levantar poderosas sínteses, representam um significativo avanço dessa ciência. Esta deixa de pertencer à Lógica para tornar-se uma ciência positiva e histórica. Apesar disso, em Portugal e no Brasil, conforme Melo, o estudo da língua ainda é formalístico e marcado pela obsessão do erro. Essa concepção é falsa, na opinião de Melo, e só leva à “vaidade de saber o que os outros não sabem”. As atividades dos seguidores dessa perspectiva, essa "triste gente”, como refere Melo, provocam dois efeitos : os discípulos (que aceitam e praticam esse tipo de literatura gramatical prejudicial) e os sensatos e desorientados (que não se importam com o bem escrever, desprezando a língua literária e inspirando-se exclusivamente na linguagem coloquial). Essa dualidade provocou uma reação contra a decadência da língua literária. Tal reação foi favorecida principalmente pelos concursos do DASP, os quais resgataram a conhecida gramatiquice, revestida de nova cara, a partir do processo de correção de textos. Quanto a isso, Melo defende que “ninguém pode aprender a manejar com firmeza a língua depois de ter se debruçado amorosamente sobre centenas de frases erradas ou monstruosas”. Ou, ainda, afirma que “a obsessão do erro só pode gerar insegurança, inquietação e, pior do que isso, perda do senso estilístico” (p.287). Outro defeito apontado por Melo nessa metodologia é a “sistemática ignorância da situação linguística”, ou seja, algumas construções normais e certas que estejam entre as frases erradas, como refere o autor, devem ser corrigidas. Nesse caso, Melo questiona quem deveria ser reprovado o candidato que não corrigiu a frase ou o redator da frase. O autor destaca que , nos colégios e ginásios, o que se via

). com inteligência e bons métodos. da língua adquirida. língua familiar / língua culta integram a mesma unidade linguística. excessivamente. [. os aleijões. Língua transmitida . a propriedade das diversas construções. Mostrar o que está certo.é a língua que recebemos do nosso meio social. seu sotaque. Há.. Nunca haverá superposição perfeita. incluindo até escritores. (291) O gênio de uma língua é o que nela existe de mais íntimo. acrescenta. a aprendizagem da língua culta. o verdadeiro método de estudo da língua deve partir do gênio da língua. Como é feito o nosso ensino gramatical? parte. portanto.292) Exemplo: emprego de ser e estar. chamar a atenção para o que está bem.. originalidade e senso do atual”. a fim de ela descobrir que para cada uso linguístico há uma linguagem .Como se deve estudar a língua O autor destaca a distinção entre Língua transmitida e língua adquirida. o erro. o lado negativo. um fundo comum entre a fala popular e a fala culta.frequentemente era o tempo desperdiçado com regras porque se partia “da terminologia. despertar e fomentar o senso de distinção. mas são diferentes no modo e no fim.é a língua culta. Língua transmitida /adquirida. continua e termina. (292) Para Melo. A língua culta representa o ideal linguístico da comunidade (. (p. Aprimorar o gosto. exercitar a plasticidade da inteligência. porque a dicotomia repousa em condições naturais do viver social e em situações psicológicas reais e permanentes.” Ele justifica isso com o exemplo de Machado de Assis que soube “imitar a pureza dos antigos. é a língua literária com suas leis. mas com gosto. numa palavra. por herança. fazer apreciar a justeza.. seja no domínio da palavra lógica. renovados verdadeiros. da armação ou das muletas para os conceitos e funções”. Para o autor. Língua adquirida .289) Capítulo V . que aprendemos na escola por esforço consciente. (291. suas normas. de mais difícil de penetrar para um estranho e que o nacional possui instintivamente. Possuir o gênio da língua é ter o sentimento da linguagem e da vernaculidade. é preciso “fazer renascer o culto da língua. que a maior parte das pessoas ditas cultas. com seu acento particular. (conceito pobre) (292) Como deve ser o nosso ensino? todo ensino de língua deve consistir em apurar o sentimento da linguagem. o ponto de encontro das variedades dialetais. tendo em vista. com arte. sua tradição. ainda. escreve mal porque “são incapazes de encontrar a forma adequada à expressão do pensamento ou do sentimento”. suas riquezas. seja no domínio da palavra estética. para os nacionais. Escrever bem seria escrever sem erros. à altura dos progressos da Filologia e da Linguística modernas.] fazer sentir as tonalidades semânticas.. Eis o elemento positivo de onde deve partir e por onde deve continuar. é o nosso dialeto ou variante local. Ele conclui que a língua vai sendo “esquecida e espezinhada”.

As noções de técnica e nomenclatura se vão dando aos poucos. muda inopidamente de sentir. compreender a fundo que a língua participa do homem e que. com os termos devidamente compreendidos em procurados no dicionário pelo próprio aluno”. o exercício de composição de frases. selecionando. odeia. se liberta e se escraviza. feminino). celebra a paz de alma ou se entrega soturnamente ao desespero. “deve visar a fortalecer e requintar o sentimento da linguagem e jamais a deformáló ou a enfraquecê-lo. a transportar a teoria para os casos concretos. como acontece quando se desperta no discente a obsessão do erro”. (metade eu escrevi metade peguei do resumo) . com ele hesita. Ele conclui que o ensino de língua deve ser “positivo. se corrige. Muito cuidado há de merecer o professor de redação. mas vivos [. ao flexionismo. Para isso. enfim. ri com ele. plurais.especial. canta o seu triunfo. (296) O intuito é convencer o aluno de que o texto literário é um instrumento de expressão. Fazer. (292) O autor questiona levar tanto a sério as regras e não poder apreciar a beleza de versos literários como os de Fagundes Varela ou de Herculano. Necessário combater o vício do palpite (jogo do bicho . de tal modo que não é possível estabelecer esquemas rígidos. Insistir na naturalidade e na verdade da expressão. como se faz invariavelmente com a bitola em qualquer ponto da via férrea. à sintaxe. bendiz. “importância capital deve ser dada às aulas de leitura e comentários de textos”. à estilística.pensando no que vai se escrever. Fazer redigir coletando material primeiro. construtivo e inteligente”. pragueja. planejando e dispondo o material segundo o plano.. para que o aluno exercite a palavra (no sentido saussuriano) e também para ele crer na realidade da coisa. ama. gagueja. grosseiramente aplicáveis a todos os casos. O autor defende o exercício de leitura em voz alta: “ é necessário insistir na leitura corrente e expressiva. (294) Como fazer o ensino dessa forma? 1º fazer conhecer com segurança as flexões da língua (verbos. às frases de medalhão. à formação de palavras. à etimologia e à semântica. aos clichês. procura angustiada a verdade. chora com ele. Por isso. Na opinião do autor.evitar a decoreba). Ministram-se conhecimentos assistemáticos. portanto. a vocabulário analógico. de libertação e nunca um aparelho inibitório.] mediante a um paralelo ensino discreto e racional de gramática. sempre à vista do exemplo e racionalmente. com discreteia serenamente. aos adjetivos fatais. O texto (inteligentemente escolhido) passa a ser o centro de interesse e ponto de partida para mil comentários relativos: à prosódia. à grafia. é preciso que o aluno se habitue a refletir.. Incurtir horror ao lugar-comum.

) é um dom.. mas todos devem escrever decentemente.Para o autor. que recebemos por herança e que nos integra no mundo civilizado”.. apurando o senso linguístico. (296) “Assim. coisa que hoje se tornou virtude heroica”. escrever com arte (. desenvolvendo o que já existe de positivo e de bom. “nem todos podem escrever bem. amar e cultivar esta bela língua portuguesa. hão de vir resultados satisfatórios e compensadores. “Tratemos de sentir.” (297) .