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Viste-O Chegar na Noite de Natal? Era noite de Natal. Fazia frio e as ruas estavam desertas.

Tomé voltava para casa a pé e ia pensativo. Os seus passos ecoavam na rua deserta e, de vez em quando, passava um automóvel… Mas ele não ouvia nada. Estava irritado. Desde miúdo que lhe tinham dito que Cristo vinha na noite de Natal. E desde miúdo que ele sempre achara a noite de Natal igual a todas as outras. Os presentes e os fritos sempre lhe pareceram uma forma de esconder a verdade evidente: Cristo não viria. Ele fartara-se de esperar. Esta noite perdera a esperança. De tal forma estava embrenhado nos seus pensamentos que, sem notar, começou a falar alto e, olhando para o céu, acusou: “E tudo mentira, não é? Tu já não vens, pois não?” As suas palavras ecoaram na noite dos prédios silenciosos. Então, uma voz respondeu-lhe: “Porque estás a falar para o céu? É cá para baixo que deves falar!” Tomé parou, surpreendido. Depois notou que, sentado num de grau de uma porta, estava um pobre andrajoso. Fora ele quem falara. Tomé dirigiu-se-lhe: “Que dizes? Porventura viste alguma vez Cristo aqui, na Terra? Viste-O chegar na noite de Natal?” O pobre ficou sério, e respondeu: “Por acaso vi, sim! Foi o ano passado. Era noite de Natal e eu estava cheio de fome. Passou um homem e deu-me uma enorme esmola. Depois olhou-me e disse-me: “O reino de Deus está no meio de nós”. Eu tive medo que fosse uma daquelas seitas malucas, ou que me viesse pregar um sermão. Mas não. O homem foi-se, deixandome com o seu dinheiro e as suas palavras. Então eu compreendi: só Cristo faria uma coisa daquelas, desinteressada e salvadora. Hoje estou aqui à espera, a ver se O vejo outra vez: “Oh! Isso não era Cristo! Era eu!” disse Tomé. “Estou agora a lembrar-me. O ano passado passei por aqui na noite de Natal e dei esmola a um pobre e falei com ele. E sabes porque fiz isso? Porque pensei que fosse Cristo que me aparecia na figura de um pobre, na noite de Natal.”

“Realmente, Ele disse que aquilo que fizéssemos aos mais pequeninos era a Ele que o fazíamos”, respondeu o pobre, pensativo. “Pois. Mas quando cheguei a casa vi a tolice disto tudo. O pobre não era Cristo, mas sim apenas um pobre. E agora vejo bem que tinha razão: o pobre eras tu.” Tomé levantou os braços desanimado, e repetiu a sua descrença: “A noite de Natal é uma noite igual a todas as outras. Cristo já não vem neste nosso tempo miserável.” Tomé, então, tirou duas notas da carteira, mais do que dera no ano anterior, e entregou ao pobre. O pobre agradeceu, mas insistiu: “Ele disse que estaria connosco todos os dias até ao fim do mundo.” “Disse, mas isso devia ser uma figura de expressão. Hoje Cristo já não vem. Tu vês bem o Natal à tua volta? Só se fala de compras, de comidas e de festas. Já nem se vê os presépios. Estão substituídos pelo Pai Natal e pelos cartões de crédito. Provavelmente, nós os dois somos os únicos que estamos a falar de Cristo, em toda esta rua, cheia de prédios altos, cheios de gente, que se acham cheios do espírito de Natal.” O pobre abanou a cabeça e respondeu: “Pode ser que tenhas razão. Mas eu às vezes penso: neste nosso tempo, em que já não se respeita nada e não se presta ouvidos aos valores, é no Natal que toda a gente se esforça por ser simpática e prestável. É verdade que muitos são os que não o fazem com o espírito que devem, e ainda mais os que só o fazem nesta época. Mas o facto é que o fazem. E fazem-no no dia dos anos de Cristo. Podem nem saber quem Ele foi, mas todos são bons neste dia. Porque é Natal.” “Não vês que publicitário?” tudo isso é um truque

“É verdade”, respondeu o pobre. “É o maior golpe publicitário de todos os tempos. Cristo, além do mais, é um grande publicitário. Conseguir que mesmo aqueles que O desconhecem, e até aqueles que O odeiam, se esforcem por ser bons no dia dos Seus anos é notável. Neste dia todos fazem aquilo que Ele queria que eles fizessem. É o maior sucesso publicitário da História! A bem de ver, como Ele é Deus, não admira que saiba tanto de publicidade.” Tomé ficou pensativo. A argumentação do pobre era demasia forte para um pobre normal. Os pobres que ele tinha conhecido pouco falavam. A

dúvida voltava ao seu espírito. Seria aquele pobre Cristo disfarçado? E decidiu enfrentar a questão claramente. Quer fosse Cristo, quer fosse apenas um pobre eloquente, queria ver respondido o que o perturbava. “Mas alguma vez viste Cristo vir na noite de Natal? Aquilo do ano passado era só eu! Viste-O a Ele alguma vez?” “Realmente”, respondeu “nunca O vi.” o pobre pesaroso,

Proposta de trabalho: → Que desafios os temas de reflexão te têm lançado e como concretizas esses desafios neste tempo de Natal?

“Aí está!”, afirmou Tomé triunfante, “Cristo não vem na noite Natal.” “Querem ver Cristo na noite de Natal?” disse uma voz atrás deles. Os dois tiveram um sobressalto de susto. Virandose, viram um homem, com chapéu e sobretudo. Era ele quem falava. “Tu viste Cristo chegar na noite de Natal?”, perguntou Tomé. “Sim”, respondeu simplesmente o homem. “Está ali em baixo. Vinde ver.” O pobre levantou-se rapidamente e começou a seguir o homem pela rua. Tomé hesitou. Mas, encolhendo os ombros, acabou por seguir os outros dois. Começaram a descer a rua. Tomé, rindo interiormente, perguntava-se se iria entrar em alguma gruta. Chegou a olhar à volta, à procura dos pastores. Um pouco adiante parou, surpreendido. Podia ser a sua imaginação, mas parecia-lhe ouvir os cantos dos anjos. Apressou o passo intrigado. O homem que os guiava entrou numa rua lateral e depois numa pequena igreja. Era de lá que vinham os cânticos que Tomé ouvira. Na igreja, a “Missa do Galo” estava a começar. Tomé e o pobre ficaram de pé, ao fundo. O padre dizia: “Cristo é a videira, e nós os seus ramos. Um ramo de uma videira não vê a videira. Apenas vê os o ramos, como ele. Esses ramos fazem a videira. Mas a videira é mais do que os ramos, porque só enquanto os ramos permanecem na videira é que produzem muito fruto. E esses são os frutos de Cristo.” Depois, o padre dirigiu-se para o altar e tomou o pão e o vinho. E Cristo apareceu ali, naquela noite de Natal. Como estivera presente na Terra, todos os dias, desde o primeiro Natal.