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Estudo do Desenvolvimento Humano

PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES

A DISCIPLINA DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO

A ascensão de uma nova disciplina
PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO MODERNA QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO

Questões sobre continuidade Questões sobre as fontes de desenvolvimento Questões sobre as diferenças individuais

Critérios de descrição científica Métodos de coleta de dados Delineamentos da pesquisa Delineamentos da pesquisa e técnicas de coleta de dados em perspectiva O papel da teoria
ESTE LIVRO E O CAMPO DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO

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O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

A pessoa madura é um dos produtos mais notáveis que qualquer sociedade pode produzir. É uma catedral viva, a obra de muitos indivíduos durante muitos anos. DAVID W. PLATH, Long Engagements

O estudo do desenvolvimento da criança é o estudo das mudanças físicas, cognitivas e psicossociais que as crianças sofrem a partir do momento da concepção. Cada um de nós inicia a vida como uma única célula, não maior que a cabeça de um alfinete. Quando nascemos, nove meses depois, somos organismos inacreditavelmente complexos, compostos de bilhões de células de muitos tipos diferentes. Respiramos por nós mesmos, exploramos o mundo com nossos sentidos, comemos, e começamos a assumir o nosso lugar na família e na comunidade que nos criou. Mas somos totalmente indefesos. Não conseguimos nos virar na cama, nos alimentar, nos manter limpos e aquecidos, ou nos comunicar, exceto para demonstrar nosso incômodo através do choro e da inquietação. Dois anos depois, conseguimos andar, falar, alimentar-nos (com ajuda, certamente) e brincar de faz-de-conta. Quando atingimos os sete, oito anos de idade, conseguimos transmitir recados, participar de jogos organizados sem a supervisão de adultos, e começar a aprender as habilidades especializadas que precisaremos como adultos. Alguns anos mais tarde, conseguimos raciocinar hipoteticamente, assumir a responsabilidade por nós mesmos e pelos outros, e até gerar nossos próprios filhos. A tarefa científica básica da psicologia do desenvolvimento é entender como esse processo notável acontece.

PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES
Embora muitos eventos pudessem ser identificados como o ponto de partida do estudo do desenvolvimento da criança, nossa história começa certa manhã, na França, no inverno de 1800, quando um menino nu e sujo entrou em uma aldeia na província de Aveyron, procurando por comida. Há alguns meses, algumas pessoas do local já haviam percebido o menino enquanto ele escavava procurando raízes, subia em árvores e corria sobre os quatro membros. Diziam que ele era um animal selvagem. A notícia espalhou-se rapidamente quando o menino apareceu na aldeia e todos foram vê-lo. Entre os curiosos estava um funcionário do governo, que levou o menino para casa e o alimentou. A criança, que parecia ter cerca de 12 anos de idade, parecia ignorar os costumes e os confortos da civilização. Quando lhe puseram roupas, ele as rasgou. Recusava-se a comer qualquer coisa que não fossem batatas cruas, raízes e nozes. Urinava e defecava quando e onde surgisse a necessidade. Os únicos sons que produzia eram gritos sem significado, e ele parecia indiferente às vozes humanas. Em seu relatório, o oficial responsável por ele concluiu que o menino havia vivido sozinho desde o início da sua infância: “um estranho às necessidades e práticas sociais ... Há ... algo extraordinário em seu comportamento, que o faz parecer próximo à condição dos animais selvagens” (citado em Lane, 1976, p. 8-9). Quando o relatório do funcionário chegou a Paris causou sensação. As pessoas ficaram fascinadas pela história bizarra da criança que os jornais aclamavam como o “Menino Selvagem de Aveyron”. Os estudiosos esperavam que, estudando a maneira como essa criatura não-civilizada mudou quando passou a participar da sociedade, pudessem resolver questões há muito tempo em busca de respostas sobre a natureza e o desenvolvimento dos seres humanos – perguntas como, por exemplo: Como nos diferimos dos outros animais? O que aconteceria se crescêssemos totalmente isolados da sociedade humana? Até que ponto somos produtos da nossa criação e experiência, e até que ponto nosso caráter é uma expressão de traços inatos?

Victor, o Menino Selvagem de Aveyron.

Jean-Marc Itard, que tentou transformar o Menino Selvagem em um francês civilizado.

MICHAEL COLE & SHEILA R. COLE

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No entanto, os planos para estudar o Menino Selvagem quase malograram. Os primeiros médicos a examiná-lo diagnosticaram-no como mentalmente deficiente e especularam que, por isso, seus pais o haviam abandonado para morrer. Recomendaram que ele fosse colocado num hospício. E, inicialmente, foi lá colocado, até que Jean-Marc Itard (1744-1838), um jovem médico, discutiu o diagnóstico de retardo. Itard argumentava que o menino só parecia ser deficiente porque havia sido isolado da sociedade e, por isso, impedido de se desenvolver normalmente. Na França do final do século XVIII, pelo menos uma em cada três crianças normais era abandonada por seus pais, em geral porque a família era pobre demais para sustentar mais uma criança (Kessen, 1965). Itard acreditava que o menino fosse uma dessas crianças. O fato de ele ter sido capaz de sobreviver sozinho nas florestas de Aveyron argumentava contra a suposição de ele ser mentalmente deficiente. Itard assumiu pessoalmente o encargo de cuidar do menino. Achou que podia ensiná-lo a se tornar um francês totalmente competente, com o domínio da língua francesa e o melhor do conhecimento civilizado. A França havia recentemente derrubado a monarquia e abraçado as idéias políticas de liberdade, igualdade e fraternidade. Itard e outros defensores da república queriam demonstrar que era possível melhorar o desenvolvimento dos filhos dos camponeses, educando-os. Para testar sua teoria de que o ambiente social é o responsável pelo desenvolvimento das crianças, Itard criou um conjunto elaborado de procedimentos experimentais de treinamento para ensinar o Menino Selvagem a categorizar objetos, raciocinar e se comunicar (Itard, 1801/1982). No início, Victor, como Itard chamou o Menino Selvagem, fez um progresso rápido. Ele aprendeu a comunicar necessidades simples, assim como a reconhecer e a escrever algumas palavras. Aprendeu a usar um urinol. Também desenvolveu afeição pelas pessoas que cuidavam dele. Mas Victor jamais aprendeu a falar e a interagir normalmente com as outras pessoas. Após cinco anos de trabalho intenso, Itard abandonou sua experiência. Victor não havia feito progresso suficiente para satisfazer os superiores de Itard, e o próprio Itard estava em dúvida se o menino poderia fazer mais progressos. Victor foi mantido sob os cuidados de uma mulher que era paga para cuidar dele. Morreu em 1828, ainda chamado de o Menino Selvagem de Aveyron. Suas experiências incomuns na vida deixaram sem resposta importantes questões sobre a natureza humana, sobre a influência da sociedade civilizada e sobre o grau em que os indivíduos são moldados por uma ou outra dessas forças que os estudiosos esperavam que fossem respondidas pela sua descoberta. A maior parte dos médicos e estudiosos da época finalmente concluíram que Victor, realmente, havia nascido com uma deficiência mental. Mas até hoje ainda há dúvidas quanto a isso. Alguns estudiosos modernos acham que Itard podia estar certo em sua pressuposição de que Victor era normal quando nasceu, mas que foi retardado em seu desenvolvimento como resultado do seu isolamento social (Lane, 1976). Quando foi encontrado, Victor já havia passado muitos de seus anos de formação sozinho. Ele já ultrapassara a idade que atualmente se considera ser o limite máximo para a aquisição normal da linguagem. Outros acreditam que Victor sofria de autismo, uma condição mental patológica cujos sintomas incluem um déficit de linguagem e uma incapacidade para interagir normalmente com as outras pessoas (Frith, 1989). Também é possível que os métodos de ensino de Itard tenham falhado e que abordagens diferentes pudessem ter tido sucesso. Não podemos ter certeza. As tentativas de Itard para educar Victor marcam o ponto de partida da ciência da psicologia do desenvolvimento porque Itard estava entre os primeiros estudiosos a ir além da especulação e a conduzir experiências para testar suas idéias. A ASCENSÃO DE UMA NOVA DISCIPLINA Embora na época de Itard ainda não houvesse uma especialidade científica chamada psicologia do desenvolvimento, o interesse nas crianças e no seu desenvolvimento

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O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

estava começando a aumentar entre os reformadores sociais e também entre os cientistas (Cairns, 1998). Durante o século XIX, a industrialização da Europa e da América do Norte transformou a organização social das pessoas. A industrialização também transformou o papel das crianças na sociedade e os ambientes em que elas se desenvolviam. Em vez de crescer em fazendas, onde contribuíam com sua mãode-obra e eram cuidadas por suas mães e pais até atingirem a idade adulta, muitas crianças foram empregadas em fábricas nas cidades industriais que se expandiam, juntamente – e às vezes no lugar – de seus pais (Clement, 1997). Foi nessa época que o ensino foi disseminado. As crianças urbanas que não trabalhavam eram, em geral, encaradas como uma responsabilidade da comunidade, que as encaravam como desordeiras. As escolas públicas foram criadas tanto para aumentar o controle social sobre as crianças quanto por qualquer razão acadêmica. Elas consistiam em locais para supervisionar o desenvolvimento das crianças, quando nem os pais nem os empregadores as estavam supervisionando. Para aquelas crianças que faziam parte da força de trabalho, o trabalho freqüentemente envolvia longas horas em fábricas ou minas, sob condições perigosas e insalubres. Quando essas condições se tornaram uma preocupação social, provocaram maior atenção social e aumentaram a atividade científica. O Comitê de Investigação das Fábricas na Inglaterra, por exemplo, realizou um estudo em 1833 para descobrir se as crianças conseguiam trabalhar 12 horas por dia sem sofrer danos. A maioria dos membros do comitê decidiu que 12 horas era um período de trabalho aceitável para as crianças. Outros, que achavam que seria preferível um período de trabalho de 10 horas, estavam menos preocupados com o bem-estar intelectual ou emocional das crianças pequenas do que com a sua conduta moral. Eles recomendavam que as duas horas remanescentes fossem dedicadas à educação religiosa e moral das crianças (Lomax et al., 1978). Essa pesquisa inicial envolveu mais que uma resposta prática às preocupações sociais. Os primeiros psicólogos do desenvolvimento e os médicos usaram os dados coletados para esclarecer questões básicas sobre o desenvolvimento humano e sobre como estudá-lo. Os primeiros estudos sobre o crescimento e a capacidade de trabalho

A mão-de-obra infantil proporcionava uma contribuição vital para a renda familiar em muitas famílias do século XIX. Estes meninos e meninas, fotografados em um apartamento em Nova York em torno de 1890, faziam flores artificiais. Se trabalhassem regularmente desde de manhã até a noite, conseguiam ganhar US$ 1,20 por dia.

Mais para o final do século XIX. e ao repouso e à nutrição inadequados. comparar o comportamento das crianças com o comportamento de primatas mais evoluídos para ver se as crianças passavam por um “estágio de chimpanzé” similar àquele através do qual imaginava-se que a espécie humana havia evoluído (ver Figura 1. Um acontecimento crucial que estimulou um maior interesse no estudo científico das crianças foi a publicação. Em vez de adultos imperfeitos – para serem vistos. de A origem das espécies. que não eram submetidas a essas condições de vida. Tais achados estimularam a continuação de um debate científico e social sobre os fatores primariamente responsáveis pelo desenvolvimento. mas não ouvidos –. as crianças que trabalhavam em moinhos têxteis tinham menor estatura e menos peso do que as crianças locais da mesma idade. Alguns deles tinham apenas seis anos de idade. em 1911. a idéia de que o desenvolvimento humano deve ser estudado como uma parte da evolução humana tem conquistado aceitação geral. COLE 27 As crianças constituíam mão-de-obra essencial em muitas indústrias. das crianças. por exemplo. Embora esses paralelos entre as espécies tenham se comprovado supersimplificados. de que os seres humanos evoluíram a partir de espécies anteriores mudou fundamentalmente a maneira de pensar das pessoas a respeito das crianças. que pareciam depender da origem familiar e da experiência individual. As avaliações de desenvolvimento intelectual mostraram grandes variações nas aquisições das crianças. as crianças passaram a ser encaradas como cientificamente interessantes porque seu comportamento proporcionava indícios sobre as maneiras como os seres humanos estão relacionados a outras espécies. em 1859. A tese de Darwin. até mesmo no início do século XX.MICHAEL COLE & SHEILA R. por exemplo. chegaram à importante conclusão teórica de que o efeito do ambiente sobre o desenvolvimento pode ser mensurado. Os pesquisadores descobriram que devido às suas longas horas de trabalho. a psicologia do desenvolvimento tornou-se uma forma legítima de pesquisa e prática. Estes meninos trabalhavam nas minas de carvão da Pennsylvania. de Charles Darwin. Tornou-se moda.1). Institutos e departamentos especiais dedicados ao estudo do desenvolvimento começaram a surgir nas principais universidades norte-americanas e tanto agências governamentais quanto fundações filan- .

assim. o progresso desse trabalho. Avaliam a situação do desenvolvimento infantil e prescrevem medidas para ajudar as crianças que estão experimentando dificuldades. e o que possibilita essa consciência? Quando as crianças começam a raciocinar sistematicamente. psicológicas e sociais que as crianças experimentam à medida em que vão crescendo. a antropologia. . PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO MODERNA A principal preocupação dos psicólogos do desenvolvimento contemporâneos é adquirir um entendimento sistemático do desenvolvimento da criança. Atualmente. Criam terapias para crianças que têm dificuldade para controlar seu temperamento e desenvolvem técnicas mais eficientes para ensinar as crianças a ler. poderemos entender melhor a nós mesmos e. em locais de recreação e em clínicas. Os psicólogos estão atualmente investigando uma vasta série de questões interessantes. Nas duas últimas décadas. acelerou-se muito. assim como a apoiar revistas especializadas no cuidado infantil e no papel dos pais. desde que começaram as preocupações com o estudo sistemático do desenvolvimento humano. da seqüência de mudanças físicas. em centros de atenção à criança. como a biologia. A disciplina da psicologia do desenvolvimento transforma esses objetivos pessoais em procedimentos sistemáticos para estudar. como berços que permitem que bebês prematuros se desenvolvam normalmente fora do útero materno. como muitos animais. sem treinamento especial? De que maneira o desenvolvimento cerebral é afetado pela experiência? O que provoca diferenças marcantes nos níveis e nas formas de agressão entre meninos e meninas desde bem pequenos? Quando as crianças se tornam conscientes de que outras pessoas também pensam. a lingüística e a sociologia. se conseguirmos entender nossas raízes e a história das mudanças que nos trouxeram até o presente momento.28 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE trópicas começaram a subvencionar esforços de pesquisa em desenvolvimento infantil. prever e dar forma ao processo de desenvolvimento. Aqui. enquanto outras requerem bastante ajuda? O conflito pais-filhos é uma parte necessária da adolescência? Os primeiros evolucionistas pesquisaram o desenvolvimento motor das crianças em busca de evidências que recapitulassem os estágios evolucionários. (b) usa seus pés para agarrar os objetos. cognitivas. O interesse no desenvolvimento da criança baseia-se na antiga pressuposição de que. Além de buscar as respostas para essas questões. e como essas influências afetam o seu desenvolvimento após o nascimento? O que possibilita aos bebês aprender sua língua natal tão depressa. desenvolvimento da criança A seqüência de mudanças físicas. cognitivas e psicossociais que as crianças experimentam à medida que vão crescendo – mudanças que começam com a concepção e que continuam durante a vida toda. Eles auxiliam na criação de ambientes e objetos especiais. os psicólogos do desenvolvimento são ativos na promoção do desenvolvimento saudável das crianças. e o que possibilita essa forma de pensamento? O que faz com que algumas crianças sejam agressivas? Por que algumas crianças aprendem a ler com pouco esforço. auxiliado por importantes avanços na tecnologia. 1931). 1990. 17). como fazem os primatas e (c) dorme enroscado como um animal (segundo Hrdlicka. p. Eles trabalham em hospitais. há uma ampla aceitação popular da idéia de que a condução de pesquisas científicas sobre crianças seja uma boa maneira de “tornar este mundo um mundo melhor através do desenvolvimento de pessoas melhores” (Young. os psicólogos descobriram muito sobre os seres humanos em todas as faixas etárias. começando mesmo antes do nascimento. em escolas. por exemplo. ou seja. antecipar o futuro e nos prepararmos para enfrentá-lo.1 Q Q Q Q Q Q Q Q Mudanças na dieta e na educação podem compensar anormalidades genéticas? Como os fetos ainda no útero são influenciados pelos acontecimentos do mundo exterior. No século XX. um bebê (a) engatinha sobre os quatro membros. como as seguintes: Q Q (a) (b) (c) FIGURA 1. Os psicólogos do desenvolvimento também estão reunindo conhecimento que contribua para – e se beneficie de – os insights das disciplinas afins.

Suas suposições diferentes sobre continuidade. Continuidade. quanta continuidade existe Embora os chimpanzés e os seres humanos compartilhem mais de 99% do seu material genético. QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Apesar da grande variedade de trabalho que realizam e das teorias que orientam sua pesquisa. para aumentar o entendimento da natureza humana e o seu desenvolvimento como um todo. Não há dois seres humanos exatamente iguais. O desenvolvimento é um processo gradual de mudança ou é pontuado por períodos de rápida mudança e da repentina emergência de novas formas de pensamento e de comportamento? 2. chamados teorias ou estruturas. É essencial ter em mente que o objetivo mais geral da investigação do desenvolvimento é: agregar os fatos acumulados a padrões maiores. . QUESTÕES SOBRE A CONTINUIDADE Os psicólogos do desenvolvimento formulam três questões básicas sobre a continuidade: (1) Qual a semelhança entre os princípios do desenvolvimento dos seres humanos e os de outras espécies? Em outras palavras. as diferenças entre as duas espécies são enormes. fontes de mudança e diferenças individuais deram origem a estruturas teóricas concorrentes.MICHAEL COLE & SHEILA R. Como uma pessoa vem a possuir características individuais estáveis que a tornam diferente de todas as outras pessoas? Os psicólogos estão profundamente divididos sobre muitos aspectos dessas três questões fundamentais. COLE 29 Os conhecimentos detalhados que os psicólogos do desenvolvimento têm acumulado no decorrer da sua pesquisa através de seus métodos e achados são importantes. Fontes de desenvolvimento. os psicólogos do desenvolvimento compartilham interesse em três questões fundamentais sobre o processo de desenvolvimento: 1. Quais são as contribuições da hereditariedade genética e do ambiente para o processo da mudança desenvolvimental? 3. Diferenças individuais.

entregando-os. Essas características parecem estar intimamente relacionadas a dois fenômenos gerais que há muito têm sido associados ao caráter distinto dos humanos. nos costumes e nas atividades que foram transmitidos de geração para geração. consistindo na acumulação gradual de pequenas mudanças quantitativas. nas crenças. os primatas não-humanos: Q Q Q Q Q filogenia A história evolucionária de uma espécie. Em seus hábitats naturais. O estudo da singularidade humana diz respeito à filogenia. não oferecem ativamente objetos a outros indivíduos. nos valores. palavras). 1859/1958. Não obstante. 1996. roupas. A questão da continuidade e da descontinuidade entre os humanos e outras espécies é fundamental para a maneira como os psicólogos pensam sobre as leis que regem o desenvolvimento humano. e tudo o que guia as interações dos adultos com o mundo físico. conhecimento. Esse ambiente especial consiste de artefatos (como instrumentos. A questão difícil é: Qual é esse algo? Várias características que distinguem os humanos de outros primatas foram observadas por Michael Tomasello (1999).30 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE entre o desenvolvimento dos seres humanos e de outra vida animal? (2) O desenvolvimento individual é contínuo. cultura O padrão de vida de uma pessoa codificado na sua linguagem e observado nos produtos físicos. crenças e valores. . Em primeiro lugar. 1948) e o “padrão de vida” que adquirimos da nossa comunidade (Kluckhohn e Kelly. Para testar a afirmação de Darwin de que a nossa espécie evoluiu continuamente como parte da ordem natural. não ensinam intencionalmente os outros. Quando Charles Darwin (1809-1882) publicou A origem das espécies. um com o outro e com seus filhos. ou é descontínuo. 1996). não apontam objetos para outros. Em sua opinião. o Homo sapiens desenvolve-se em um ambiente singular que foi moldado por inúmeras gerações anteriores de pessoas em sua luta pela sobrevivência (Bruner. 1945). foi verificado que compartilhamos 99% do nosso material genético com os chimpanzés (D’Andrade e Morin. Cole. os cientistas buscaram evidências de elos evolucionários – formas intermediárias que nos conectam com outras formas de vida – e compararam nossa composição genética e o nosso comportamento com aqueles de outros organismos. conhecimento sobre como construir e usar esses artefatos. de cultura. envolvendo uma série de transformações qualitativas à medida que vamos ficando mais velhos? (3) A maneira que o ambiente afeta o desenvolvimento é contínua ou há períodos na vida de uma pessoa durante os quais algumas experiências são críticas para dar continuidade ao desenvolvimento normal? Os princípios do desenvolvimento humano são distintos? Durante séculos. p. a história evolucionária de uma espécie. não tentam levar outros a lugares onde possam observar eventos. Do lado da continuidade entre nós mesmos e entre outros animais. Os antropólogos chamam esse acúmulo de artefatos. as pessoas têm debatido a extensão em que nós humanos nos diferimos das outras criaturas e a extensão em que estamos sujeitos às mesmas leis naturais que outras formas de vida. Cultura é a parte do ambiente “feita pelo homem” que nos saúda no nascimento (Herskovitz. crenças sobre o mundo e valores (idéias sobre o que vale a pena). 107). a idéia de evolução já era um tema de grande especulação. Em aspectos nos quais os seres humanos são distintos. 1996). a diferença entre Homo sapiens e nossos quase vizinhos evolutivos é “uma diferença de grau. Ele via a evolução como um processo de acumulação de mudança. os achados de pesquisa concernentes ao desenvolvimento de outras espécies podem ser enganosos quando a eles aplicados. não de tipo” (Darwin. o estudo de outros animais pode proporcionar evidências úteis sobre o processo do desenvolvimento humano. quando estão em ação os mesmos princípios. Darwin acreditava firmemente na continuidade entre as espécies. está claro que há algo distinto no que se refere às características da nossa espécie. não seguram objetos para mostrá-los a outros. Considerando similaridade na relação do Homo sapiens com outras espécies.

Tomasello. as habilidades para usar a cultura e a linguagem. 1976. um processo de acumulação contínua e gradual de pequenas mudanças. desde a Antigüidade. e.MICHAEL COLE & SHEILA R. mas nenhum animal consegue usá-la. o único sinal seguro do pensamento latente no corpo. Não surpreende. Aqueles que encaram a ontogenia como um processo pontuado por mudanças abruptas e descontínuas enfatizam a emergência de padrões qualitativamente novos em pontos específicos do desenvolvimento. Para andar. é permissível considerar a linguagem a verdadeira diferença entre o homem e a besta (Citado em Lane. a linguagem tenha sido proposta como uma característica definidora da nossa espécie. Até mesmo Darwin. os cientistas demonstraram que os chimpanzés e outros primatas têm rudimentos de cultura e de linguagem (Savage-Rumbaugh. consideradas como um conjunto. o filósofo René Descartes expressou eloqüentemente a perspectiva tradicional: A linguagem é. Quando acontece a mudança de um estágio para o seguinte. Os padrões qualitativamente novos que emergem durante o desenvolvimento são chamados de estágios de desenvolvimento. 2. Shanker e Taylor. O andar ocorre quase ao mesmo tempo que o apontar. a criança passa por uma total reorganização do movimento. Via de regra. O psicólogo John Flavell (1971) sugere quatro critérios que são fundamentais para o conceito de um estágio de desenvolvimento: 1. por isso. 1999). Em segundo lugar. antes de tudo. que não têm língua ou carecem dos órgãos da voz. No século XVII. fosse o resultado da nossa capacidade de nos comunicar através da linguagem. O contraste entre as perspectivas da continuidade e da descontinuidade está ilustrado na Figura 1. A transição do engatinhar para o andar é acompanhada por uma nova qualidade de ligação emocional entre as crianças e seus cuidadores. mesmo aqueles que são obtusos ou perturbados. como veremos nos últimos capítulos. A transição de um estágio para o seguinte é marcada por mudanças simultâneas em muitos aspectos – se não em todos – do comportamento de uma criança. que o expressar das primeiras palavras e que o estabelecimento de um novo relacionamento entre as crianças e seus pais. Nos últimos anos. como na mudança do balbucio para a fala. na verdade.2. que acreditava tanto na continuidade da espécie. requerida pelo aumento da mobilidade da criança. O desenvolvimento individual é contínuo? A segunda questão mais importante diz respeito à ontogenia. . no espaço de cerca de 90 dias. são bem maiores nos humanos que em outras espécies. o desenvolvimento de um organismo durante seu tempo de vida. enfatizam que a mudança quantitativa ocorre pelo aumento do vocabulário ou da capacidade de memória. usando diferentes músculos em diferentes combinações. que o acompanhar ao olhar de outra pessoa. COLE 31 ontogenia O desenvolvimento de um organismo durante seu tempo de vida. 3. estágio de desenvolvimento Um padrão de comportamento qualitativamente distinto e coerente em si mesmo que emerge no decorrer do desenvolvimento. 23). Os estágios de desenvolvimento são distinguidos por mudanças qualitativas. na medida em que o Homo sapiens é único. As muitas mudanças comportamentais e físicas que marcam o surgimento de um estágio constituem um padrão coerente. Entretanto. concordava que o nosso caráter distinto. A mudança na atividade motora associada com a transição do engatinhar para o andar ereto ilustra o que significa uma mudança qualitativa para um novo estágio de desenvolvimento. assim como por novas formas de relação entre a criança e o cuidador. O andar não se origina do aperfeiçoamento dos movimentos usados para engatinhar. todos os homens a usam. 4. ela é rápida. A transição do engatinhar para o andar ocorre. o Homo sapiens molda e transmite a sua cultura para as gerações que se seguem principalmente através da linguagem. os psicólogos que acreditam que a ontogenia é. caracteristicamente. portanto. 1998. p. que.

escreve ele. Jusczyk e Pisoni. psicólogo especializado no estudo do desenvolvimento do pensamento das crianças. Alguns psicólogos negam que o conceito de estágio seja crucial para entender o desenvolvimento. declara que a mudança desenvolvimental é basicamente contínua. Durante a maior parte do século XX. as mudanças que ocorrem quando as crianças começam a freqüentar a escola) ou na composição biológica das crianças (por exemplo. Robert Siegler. mas não entendem o que está sendo dito. as descontinuidades no desenvolvimento são ocorrências relativamente raras produzidas por mudanças abruptas no ambiente (por exemplo. 8). mas as . a maneira como percebem o mundo parece mudar fundamentalmente e assim também a natureza da sua interação com os outros.32 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE FIGURA 1. a maneira como a criança experimenta o mundo e a maneira como o mundo influencia a criança vai diferir de um estágio para o seguinte. Na perspectiva da descontinuidade. Nível de desenvolvimento Nível de desenvolvimento Nível de desenvolvimento Segunda infância Bebê Primeira infância 0 (b) 1 2 3 4 5 6 Idade (anos) 7 8 9 10 11 12 Os proponentes do conceito de estágio declaram que uma perspectiva de estágio é fundamental para se entender o desenvolvimento. e a maior parte das mudanças parece ser mais gradual do que repentina” (1991. 1998). A descontinuidade representada pela emergência da participação ativa da criança na conversa é tão notável que determina o final da etapa de bebê no desenvolvimento em um grande número de sociedades. o desenvolvimento é um processo de crescimento gradual (estrela-do-mar pequena.2 Estrela-do-mar: continuidade desenvolvimental Libélula: descontinuidade desenvolvimental Libélula adulta Pupa Larva (a) Idade Idade (a) Os cursos contrastantes do desenvolvimento da estrela-do-mar e dos insetos proporcionam exemplos idealizados de desenvolvimento contínuo e descontínuo. Na perspectiva da continuidade. p. o desenvolvimento é uma série de transformações que se processam por meio de estágios (larva. as teorias dos estágios do desenvolvimento foram mais numerosas e mais influentes que as teorias da continuidade. estrela-do-mar média. porque os processos pelos quais as pessoas aprendem novos comportamentos permanecem os mesmos em todas as idades. estrela-do-mar grande). adulto). os bebês são especialmente sensíveis a diferenças nos sons da linguagem (Aslin. Na sua opinião. Quando começam a entender e a produzir linguagem própria. (b) O desenvolvimento humano inclui elementos de continuidade e de descontinuidade. na medida em que o desenvolvimento é caracterizado por mudanças qualitativas descontínuas. faz uma declaração similar: “O pensamento das crianças”. por exemplo. pupa. “está continuamente mudando. as mudanças associadas com a maturação sexual). pois. Por exemplo. Albert Bandura (1986).

tornando muito difícil enxergar outro ponto de vista que não o seu próprio. do contrário. por isso. é provável também que as crianças ignorem as necessidades de um irmão mais moço. uma criança exibir comportamentos associados com diferentes estágios parece rebater a idéia de que estar em um estágio particular define as capacidades gerais da criança e sua composição psicológica. em geral é a FIGURA 1. aparentemente assumindo a perspectiva da criança menor e compreendendo que. Por exemplo. Segundo uma importante teoria dos estágios do desenvolvimento cognitivo. 1992). o que aconteceu ali antes de ter entrado. quando estão falando com uma criança de dois anos de idade. durante o qual eles criam uma ligação com o primeiro objeto em movimento que eles vêem. em algumas aves que podem caminhar assim que nascem – e. na verdade. por exemplo. ocorrem no decorrer de algumas horas. as crianças de quatro anos de idade estão em um estágio em que o seu pensamento é. COLE 33 período crítico Um período durante o qual eventos específicos. poderiam ficar separadas de suas mães –. há um período crítico imediatamente após o choco. durante o qual os filhotes ficam ligados ao primeiro objeto em movimento que eles vêem – que. seguiram-no na água enquanto ele nadava. em geral. que foram colocados na situação de ver Lorenz. ou que alguém que acabou de entrar na sala não sabe. é claro.3 O etologista Konrad Lorenz propôs a existência de um período crítico no desenvolvimento de gansos recémchocados. biológicos ou ambientais são requeridos para que ocorra um desenvolvimento normal. mas freqüentemente se tornem solícitas quando a criança menor parece perturbada (Dunn. dependendo da ocasião. em vez de um ganso adulto. O fato de. não conseguem entender que alguém que está olhando um objeto de um local diferente do seu pode não enxergar o objeto da mesma forma que elas mesmas enxergam.MICHAEL COLE & SHEILA R. Em alguns animais. Eisenberg. Um problema grave das teorias modernas dos estágios é que. as crianças de quatro anos de idade freqüentemente parecem limitadas à sua própria perspectiva – elas. egocêntrico. ela pode ter dificuldade para entendê-las. em determinado ponto do seu desenvolvimento. simplificam sua fala. 1988. com freqüência. como elas. Aos quatro anos de idade. em grande parte. quando saíram da casca. esses períodos de prontidão biológica e de sensibilidade aos eventos do ambiente são referidos como períodos críticos porque eles. as crianças freqüentemente parecem estar em estágios diferentes. . em geral. E. Há períodos de desenvolvimento “críticos” ou “sensíveis”? Outra questão sobre a continuidade do desenvolvimento humano individual é se há períodos de crescimento durante os quais os eventos ambientais ou biológicos específicos devem ocorrer para que o desenvolvimento proceda normalmente. Estes filhotes de gansos. teorias dos estágios são confrontadas com vários fatos que parecem violar um ou mais dos critérios para o desenvolvimento propostos por Flavell. Mas. ao contrário da sua descrição de mudanças qualitativamente consistentes e abrangentes no comportamento e no modo de pensar.

que deve aprender o seu caminho como um cavalo selado e ser moldado segundo o gosto do seu dono. Eram questões de profundo significado político. Rousseau dizia que. às vezes. Emile. na verdade.. Locke expressou o pressuposto central que guiou seu pensamento: As pequenas e quase insensíveis Impressões sobre a nossa mais tenra Infância têm Conseqüências muito importantes e duradouras: E são elas. que representa Toda Criança. eles debateram a fonte das diferenças físicas e comportamentais óbvias entre esses povos e eles próprios. elas recebem diferentes Tendências. fez tudo para que prendessem Rousseau. em que uma suave Aplicação da Mão transforma as águas flexíveis em Canais. nos séculos XV e XVI. livro que era em parte novela e em parte um tratado sobre educação. essas idéias sobre estágios de desenvolvimento foram. que as fazem seguir Cursos totalmente contrários e. Suas opiniões sobre as diferenças humanas e a desigualdade social estavam diretamente relacionadas às suas crenças sobre o desenvolvimento da criança. Ele destrói e desfigura todas as coisas. John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Em vez disso. Os europeus faziam perguntas similares uns sobre os outros. 1-2) Locke não negava que há limites que a “Aplicação da Mão” pode alcançar. Rousseau fugiu da França. Quando Victor. assumidas por psicólogos do desenvolvimento e permanecem influentes até hoje. as pessoas brincaram: “Se Rousseau pudesse ver seu nobre selvagem agora!” No entanto. declarava que as . é descrito não como um adulto incompleto que precisa ser aperfeiçoado através da instrução. Ele mutila o seu cão. a expressão aberta dessas idéias teria sido impensável. pensaram eles? Será que eram também filhos de Deus. 5) Nessa história da educação de Emile. Em cada um deles. Os camponeses e os príncipes eram diferentes por que Deus quis assim? Ou eram diferentes por que tinham sido expostos a experiências diferentes depois que entraram no mundo? Essas não eram questões abstratas. crianças nascem com uma percepção inata da virtude que gradualmente emergeria com o tempo. a sabedoria comum subjacente às visões de Locke e de Rousseau sobre o papel crucial da experiência na moldagem do comportamento humano permanece válida. ele não terá nada como a natureza fez. Jean-Jacques Rousseau O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) também declarou que as diferenças entre as pessoas são fundamentalmente resultado da experiência. suas atividades são apropriadas às suas necessidades na época e elas são guiadas por um adulto que usa práticas educacionais adequadamente reguladas. Uma indicação clara da importância política da crença de que os seres humanos podem moldar o curso do seu desenvolvimento organizando seus ambientes é o fato de que. por esta pequena Direção a elas dada de início na Fonte. uma árvore a dar os frutos de outra. o homem nasce puro e vai ser corrompido pela exposição à civilização moderna. Em Some thoughts concerning education (1699/1938). ridicularizadas nos séculos decorridos desde que os dois filósofos morreram. e chegam finalmente a Locais muito remotos e distantes. Como declarou William Kessen (1965). Ele obriga um solo a produzir os produtos de outro. mais tarde. a maioria das pessoas passou a aceitar a idéia de que a sociedade deve assumir alguma responsabilidade pelo bemestar das crianças – e. (p. Em 1776. e se eram.1 ANTECEDENTES FILOSÓFICOS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Quando os europeus tomaram conhecimento sobre os povos da África e da Ásia. Ele confunde e mistura tempo. de interesse apenas para os filósofos. mas sua visão das crianças e do papel dos adultos no seu treinamento diferia daquela de Locke. pelo fato de serem naturalmente superiores em virtude do seu nascimento.34 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE DESTAQUE 1. mas como um ser humano integral cujas habilidades são adequadas à sua idade. veio uma profunda obrigação de confrontar desigualdades óbvias nas condições de desenvolvimento das vidas das crianças. Finalmente. (p. dois filósofos cujos escritos teriam grande influência na história do desenvolvimento da criança. entramos no mundo com cérebros extremamente estruturados. quando reis e nobres eram regulados pelo “direito divino”. nem mesmo o próprio homem. na forma de adultos que “canalizam” os impulsos iniciais das crianças. quando o arcebispo de Paris leu Emile. comportou-se de maneira ultrajante durante uma de suas saídas com Itard. . A pesquisa moderna deixa claro que não somos folhas em branco quando nascemos. O homem se mistura com elas e elas se tornam más. Em Emile (1762/1911). o Menino Selvagem que realmente cresceu em um “estado de natureza”. como acontece nas Fontes de alguns Rios. é o fator-chave na criação das principais diferenças entre as pessoas. Durante séculos. os Estados Unidos da América foram fundados como uma república baseada em uma profunda fé na verdade “auto-evidente” de que “todos os homens são criados iguais”. Nem é plausível que algum dia tenha existido um estado puramente “natural” da humanidade. por que tinham uma aparência tão diversa e agiam tão diferente deles? Nos tempos modernos. Rousseau proporcionou uma visão da infância e da educação em que o papel do cuidador é proteger a criança das pressões da sociedade adulta. Será que essas criaturas eram humanas. John Locke O filósofo inglês John Locke (1632-1704) propôs que a mente da criança é uma tábula rasa. Locke. ou pelo menos não más. uma visão que permanece central às modernas teorias da educação. Rousseau e o mundo moderno A noção de tábula rasa de Locke e a visão do homem natural de Rousseau têm sido corretamente criticadas e. pelo bem-estar de todo o povo. o seu cavalo e o seu escravo. Ele acreditava que as crianças nasciam com “temperamentos e propensões” diferentes e aconselhava que a instrução fosse adaptada de modo a se adequar a essas diferenças. Alertado por amigos. não fosse sua exposição à civilização. os reis e os nobres declararam que tinham um direito concedido por Deus de governar os outros.. Além disso. Rousseau afirmava que as crianças não nascem como folhas em branco nem – como era comumente defendido por muitos pensadores da época – como seres pecadores por natureza. uma folha em branco sobre a qual a experiência escreve a sua história. como as árvores do seu jardim. Emile passa por vários estágios naturais de desenvolvimento. Rousseau apresentou sua opinião sobre as tentativas dos adultos de educar as crianças para a virtude: Deus faz todas as coisas boas. que o mundo moderno corrompe. Não se pode fazer a água correr rio acima. Em uma época anterior. Mas Locke afirmou claramente que a educação. em um estado natural. lugar e condições naturais. No início da era moderna. desafiaram o ponto de vista segundo o qual as diferenças humanas eram determinadas principalmente pelo nascimento. esse debate questionaria se essas pessoas de fora eram diferentes em sua natureza básica ou se eram diferentes devido às condições da sua educação. Com a aceitação da idéia de que as crianças nascem boas.

têm pouco interesse por matemática e ciências. Por exemplo. por outro lado. foi rápida e completa. período sensível Um período ideal para que ocorram alguns desenvolvimentos porque os eventos ambientais são mais eficazes para estimular seu desenvolvimento naquele período. Depois disso. e isso lhes causava problemas com as crianças japonesas que encontravam.1. educação refere-se às influências do ambiente social e cultural sobre o indivíduo. 1989). o risco de não conseguir adquirir linguagem aumenta (Grimshaw et al. em grande parte. mesmo que não sejam regularmente expostas à linguagem até os seis ou sete anos de idade. Natureza refere-se às predisposições biológicas herdadas do indivíduo. resultado da educação. tiveram grande dificuldade em se reincorporar à sociedade japonesa quando voltaram à sua terra natal como adolescentes. Um período sensível é uma época propícia para a ocorrência de algumas mudanças evolutivas e é quando as influências ambientais têm maior probabilidade de ser eficientes no estímulo da sua ocorrência. COLE 35 sua mãe – e. em seguida. mostrado na Figura 1. Os períodos sensíveis podem não se limitar a mudanças evolutivas que envolvem a prontidão biológica.MICHAEL COLE & SHEILA R. Grande parte das discussões sobre Victor. se o primeiro objeto em movimento que eles virem for um homem (como o etologista Konrad Lorenz. QUESTÕES SOBRE AS FONTES DE DESENVOLVIMENTO A segunda questão importante que preocupa os psicólogos do desenvolvimento é a maneira pela qual os fatores biológicos geneticamente determinados interagem com os fatores ambientais para produzir resultados desenvolvimentais. não é provável que sejam encorajadas por seus pais. embora não isenta de problemas. seguem o objeto para onde ele vá. eles não ficam ligados a nada. muitos psicólogos do desenvolvimento defendem a idéia de períodos “sensíveis”. supõe-se que os talentos matemático e científico são. Ela descobriu que as crianças japonesas que haviam residido nos Estados Unidos durante quatro anos.3). A reinserção das crianças menores na cultura japonesa. mas não há um período específico durante a infância em que se saiba que a produção de linguagem seja essencial. . parece que ainda são capazes de adquirila. uma sociedade pode treinar meninas e meninos igualmente nessas atividades. A natureza crítica desse período é ilustrada pelo fato de que.. o Menino Selvagem de Aveyron. Se forem impedidos de ver qualquer objeto em movimento durante um determinado número de horas após o choco. mas. Embora a noção de períodos críticos de “tudo-ou-nada” pareça restritiva com relação ao desenvolvimento humano. Johnson e Newport. educação A influência do ambiente social e cultural sobre o indivíduo. entre as idades de 9 e 13 anos. Elas haviam aprendido e aceitado uma maneira de pensar e sentir americana que fazia a maneira de interagir e pensar japonesa parecer estranha. aquelas que retornaram ao Japão relatavam que achavam difícil evitar ser abertos e explícitos sobre seus sentimentos. dizia respeito às influências relativas da natureza e da educação: Victor era incapaz de falar e de expressar outros comportamentos normais para um menino da sua idade devido a uma dotação biológica deficiente (natureza) ou por causa de uma educação inadequada? (As primeiras formulações filosóficas dessa questão estão discutidas no Destaque 1. natureza As predisposições biológicas herdadas do indivíduo. Não aconteceu o mesmo com as crianças menores que passaram um período de tempo igual nos Estados Unidos. por natureza. por exemplo. particularmente aquelas advindas da família e da comunidade. para as crianças desenvolverem habilidades de linguagem normais. Yasuko Minoura (1992) relata a existência de um “período sensível cultural”. As crianças parecem ser mais sensíveis à produção de linguagem nos primeiros anos da vida. é essencial que elas estejam expostas à linguagem durante a infância. Esta questão é freqüentemente colocada como um debate sobre a importância relativa da “natureza” (nature) e da “educação”(nurture).) As crenças sobre as contribuições da natureza e da educação para o desenvolvimento podem ter efeitos de longo alcance sobre a maneira como a sociedade trata as crianças. os filhotes ficam ligados àquela pessoa como ficariam à sua mãe. supõe-se que as meninas. Se. professores e outros membros da sociedade a se tornarem matemáticas ou cientistas. Se. mas que voltaram ao Japão antes dos 11 anos de idade. 1998. Por exemplo.

demonstrar essa estabilidade cientificamente – pelo menos desde muito cedo – tem-se mostrado difícil. 1997). às vezes. então. provavelmente não são apropriadas para avaliar os mesmos traços aos oito anos de idade ou em um adolescente.36 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Os psicólogos modernos enfatizam que não podemos descrever adequadamente o desenvolvimento considerando a natureza ou a educação isoladas uma da outra porque o organismo e seu ambiente constituem um único processo de vida (Gottlieb. todos os humanos são parecidos com algumas pessoas. talvez venha a se tornar uma criança irritável. nos últimos anos. Plomin et al. QUESTÕES SOBRE AS DIFERENÇAS INDIVIDUAIS Cada pessoa é. de que as crianças que eram tímidas e inseguras aos 21 meses de idade ainda têm probabilidade de ser tímidas e cautelosas aos 12 anos ou mais (Kagan. tem permitido que alguns investigadores encontrem diferenças individuais moderadamente estáveis em várias características psicológicas. na medida em que compartilham importantes características biológicas (os homens são parecidos um com o outro e diferentes das mulheres) ou características culturais (os aborígenes australianos são parecidos se em comparação com o povo Inuit da América do Norte). como todas as outras pessoas. como a memória ou a afabilidade quando bebê.. 1994. Lewontin. ou atentos desde bebês. é prática comum estudar os sistemas de vida tentando separar os efeitos dessas duas influências e analisá-las independentemente. Talvez por isso muitos estudos tenham falhado na observação de traços psicológicos estáveis na infância (Eaton. é duplo: (1) determinar as contribuições relativas da natureza e da educação para vários tipos de comportamento e (2) descobrir como a criança em desenvolvimento é criada a partir da interação da natureza com a educação. 1998. Até gêmeos idênticos. Os pais. Todos os humanos são parecidos porque todos nós somos membros da mesma espécie. 1994). persistem os desacordos entre a teoria e o fato (Gottlieb et al. mas não com outras. Se o bebê Georgia herdou uma taxa de metabolismo baixa. como alguma outra pessoa e como nenhuma outra pessoa. Na medida em que as características individuais são inatas e estáveis. A idéia que algumas das nossas características psicológicas permanecem estáveis durante períodos extensos de tempo é sugestiva. O problema. que têm exatamente as mesmas constituições genéticas. Não obstante. Contudo. não são parecidos em todos os aspectos. e que os bebês que processavam rapidamente . Determinar a extensão em que o passado proporciona um guia para o futuro é uma tarefa importante enfrentada pelos psicólogos do desenvolvimento. Se o bebê Sam é um inquieto inato. elas proporcionam um vislumbre do que as crianças deverão ser no futuro. 1997). Para se tentar entender a natureza do desenvolvimento devem ser levadas em conta duas questões sobre as diferenças individuais: (1) o que torna os indivíduos diferentes um do outro e (2) em que extensão as características individuais são estáveis no decorrer do tempo? A questão sobre o que torna os indivíduos diferentes uns dos outros é realmente outra forma de discutir as fontes de desenvolvimento: Somos diferentes um do outro principalmente por causa da nossa natureza ou por causa da nossa educação? Se o bebê Sam é extremamente inquieto é porque ele herdou uma tendência a ficar facilmente irritado ou porque seus pais o estimulam o tempo todo em excesso? Se o bebê Georgia está extremamente gorda.. por exemplo. comentam que seus filhos são amigáveis. o aprimoramento das técnicas de pesquisa. 1994). em alguns aspectos. isso é por que ela herdou uma tendência para a obesidade ou por que seus pais lhe dão alimentos que contêm muita gordura e açúcar? Embora importantes técnicas estatísticas e engenhosos métodos de coleta de dados tenham sido usados em um esforço para separar as fontes de variação fundamentais entre os indivíduos. Há evidências. O problema é que medidas que parecem apropriadas para avaliar traços psicológicos. talvez seja uma adolescente com excesso de peso. ou tímidos. e toda pessoa é psicologica e fisicamente única. No entanto.

22) A diferença entre estas duas formas de saber – uma baseada no conhecimento íntimo dos indivíduos e de suas biografias. mas que o leigo não sabe . se o objetivo de um determinado projeto de pesquisa é criar um ambiente benéfico para os bebês nascidos prematuramente ou entender o papel do jogo simbólico no desenvolvimento intelectual das crianças entre um e três anos de idade. Por exemplo. os psicólogos do desenvolvimento. se elas recebem uma atenção extra e estimulante por parte da equipe do orfanato ou se são adotadas por famílias carinhosas –. no decorrer do tempo. 1992). COLE 37 as informações visuais aos sete meses de idade exibem um processamento perceptual rápido quando testados aos 11 anos de idade (Rose e Feldman. sua condição melhora significativamente e muitas delas tornam-se adultos intelectualmente normais (Clarke e Clarke.. coisa ou criatura individuais. iniciam sua pesquisa com observações . Mas se o ambiente das crianças pequenas institucionalizadas é modificado – ou seja. Mas se o objetivo é ajudar Johnny. Essa divisão do trabalho científico cria um paradoxo. a psicologia é aquela que focaliza o ser humano individual. Quanto mais os psicólogos querem saber sobre os indivíduos. talvez. e a outra baseada nas características comuns a muitas pessoas – é uma fonte de constante tensão nas tentativas dos psicólogos de entender o desenvolvimento. os psicólogos tentam entender o desenvolvimento em termos da pessoa como indivíduo. mudanças recentes em sua vida familiar e. como qualquer outro cientista. 1997). depende do ambiente e da composição genética (Aspendorf e Valsiner. A DISCIPLINA DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Entre as ciências que estudam o desenvolvimento. mas somente na medida em que forem parecidas com outros indivíduos. Elas também correm o risco de experimentar dificuldades intelectuais e emocionais quando adultas. p.. estuda as pessoas em geral ou como membros de grupos. que dominou a psicologia durante o século passado. encarando-a em relação a outras formas de vida. 1986). menos podem generalizar seus achados para outros indivíduos. a tradição das ciências naturais. (1975. por outro lado. O segredo é: a ciência não pode proferir uma única palavra sobre uma molécula. mais precisam saber sobre a história de vida de cada pessoa e as circunstâncias atuais. Em contraste. são letárgicas e pouco inteligentes. até a mistura específica de crianças e atividades com que Johnny está lidando na escola. o psicólogo pode querer saber as circunstâncias do nascimento de Johnny. que de repente começou a faltar à escola e a se comportar mal na classe. enquanto as ciências biológicas estudam nossa espécie como um todo. não como indivíduos isolados e únicos (Danzinger. Alguns estudos revelaram que crianças que permanecem em um orfanato. a sociologia e a antropologia concentram sua atenção nos grupos humanos. CRITÉRIOS DE DESCRIÇÃO CIENTÍFICA Seja lidando com uma criança ou com um grupo de crianças. na medida em que sejam um indivíduo. As dúvidas sobre como tirar conclusões corretas com referência ao relacionamento entre as tendências gerais e os casos individuais ocorrem por todo o amplo espectro dos métodos que os psicólogos usam em sua pesquisa. 1990). pode ser apropriado tratar todas as crianças como equivalentes no que concerne à questão referida. Por um lado. que só proporciona um cuidado mínimo desde bebês até a adolescência. Esse paradoxo é eloqüentemente descrito pelo romancista e filósofo Walker Percy: Há um segredo a respeito do método científico que cada cientista conhece e assume como um fato lógico. quanto mais se concentram nas histórias individuais e nos padrões de influência. A estabilidade das características psicológicas das crianças. Mas.MICHAEL COLE & SHEILA R.

a amostragem representativa. caso o primeiro nível de aflição (medido em termos do choro ou da inquietação) encontrado seja mais ou menos o mesmo em ocasiões sucessivas em que a sucção do bebê for interrompida. isso pode significar que a hipótese está incorreta. amostra representativa Uma amostra de pessoas que reflita todas as características da população em geral que o pesquisador está interessado em conhecer. quando o mesmo comportamento é avaliado em duas ou mais ocasiões pelo mesmo observador ou por observadores diferentes. situação socioeconômica. não devem ser distorcidos por preconceitos do investigador. os dados devem ser coletados e analisados com objetividade. tentam testar suas idéias de maneira que proporcionem respostas claras e que permitam às outras pessoas comprovar seu raciocínio e seus procedimentos. Em primeiro lugar. Entretanto. Os psicólogos usam quatro critérios gerais para julgar as conclusões derivadas de investigações do comportamento das crianças: objetividade. As declarações são consideradas confiáveis no segundo sentido se observadores independentes concordam sobre a maneira como o bebê se torna aflito cada vez que se tira a chupeta dele. Isso porque conclusões extraídas de dados coletados de um grupo de pessoas podem não ser aplicáveis a outros grupos com características diferentes. as populações que os pesquisadores estão interessados em conhecer são grandes demais para serem estudadas em sua totalidade e. Mas a objetividade continua sendo um ideal importante com o qual trabalhar. validade A exigência científica de que os dados que estão sendo coletados realmente reflitam o fenômeno que está sendo estudado. etc. 146). as avaliações sejam consistentes uma em relação à outra. por exemplo. Para testar essa hipótese. Os dados de pesquisa devem exibir a propriedade da confiabilidade em dois sentidos. Quando os estudiosos do desenvolvimento estão analisando grupos. validade e replicabilidade. Se não se tornam aflitos nessas condições. Suponhamos que um queira saber como bebês inquietos comportar-se-ão quando uma chupeta for retirada deles enquanto estiverem sugando-na (Goldsmith e Campos. usando os mesmos métodos. A objetividade total é impossível de ser conseguida na prática porque todos os seres humanos – inclusive os psicólogos – já chegam ao estudo do comportamento com crenças que influenciam suas interpretações a respeito do que vêem. a quarta exigência. 1982). Nesses casos. sob as mesmas condições. confiabilidade A exigência científica de que. significa que outros pesquisadores podem usar os mesmos procedimentos que um investigador inicial utilizou e obter os mesmos resultados. ou seja. por exemplo. Para serem úteis na construção de um relato disciplinado do desenvolvimento humano. devem estudar amostras dessas populações. etnia. Depois. Nos estudos da capacidade de imitação dos recém-nascidos. alguns pesquisadores relatam que os recém-nascidos imitam algumas expressões faciais exageradas que eles vêem outra pessoa fazer diretamente na frente deles. um estudo da quantidade de ansiedade que os bebês exibem quando são brevemente separados de suas mães pode produzir um conjunto de resultados se o estudo examina bebês de famílias de classe média e um outro conjunto objetividade A exigência de que o conhecimento científico não seja distorcido por preconceitos do investigador. As declarações sobre o grau de aflição do bebê são consideradas confiáveis no primeiro sentido. poderia também significar que retirar um chocalho ou não manter um horário de alimentação não seja uma medida válida da frustração infantil. em geral entra em jogo. a replicabilidade. há a probabilidade de ser considerado firmemente estabelecido pela comunidade científica. que um pesquisador tenha formulado a hipótese de que a aflição que os bebês exibem quando sua sucção é interrompida reflita uma permanente predisposição para se tornar irritável quando frustrados. sexo. observadores independentes devem concordar em suas descrições dos resultados. Contudo. elas devem produzir os mesmos resultados. Por exemplo. por isso. um quinto critério. p. – da população geral do seu interesse. outros investigadores não encontraram evidência dessa imitação em recém-nascidos (ver Capítulo 4. Na maioria das vezes. confiabilidade. a cada vez que as condições que produziram os dados originais são repetidas. Na pesquisa científica. replicabilidade A exigência científica de que outros pesquisadores possam usar os mesmos procedimentos como fez um investigador inicial e obter os mesmos resultados. é importante que eles estudem uma amostra representativa da população do seu interesse. for obtido repetidas vezes por investigadores diferentes. . Em segundo lugar. o pesquisador deve observar como os bebês reagem quando um chocalho é removido da sua mão ou quando eles não são alimentados na hora. Digamos. uma amostra que reflita todas as características – inclusive idade. ou seja.38 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE e especulações do senso comum. A validade significa que os dados que estão sendo coletados realmente refletem o fenômeno que o pesquisador declara estar estudando. Somente se algum achado.

provavelmente.) Outra forma de manutenção de diário. Observações naturalistas A maneira mais direta de reunir informações objetivas sobre as crianças é estudálas através de observações naturalistas. No século XIX. os pesquisadores usam um ou mais métodos combinados para confirmar suas conclusões. 1998). Contudo. em geral. Essa dificuldade é óbvia no caso de crianças muito pequenas. são também extremamente suscetíveis a imprecisões. por exemplo. que ele registrou em uma biografia do bebê. observação naturalista Observação do comportamento real das pessoas durante sua vida cotidiana. Darwin esperava encontrar apoio para sua tese da evolução humana. Alguns pesquisadores proporcionam bipes aos adolescentes. 1998) e técnicas disciplinares dos pais (McGillicuddy-DeLisi e Sigel. proporcionam uma das primeiras descrições sistemáticas do desenvolvimento do bebê.4). ou seja. respostas das pessoas a perguntas sobre elas próprias. o qual serviu de base para sua importante teoria do desenvolvimento cognitivo.4 O naturalista Charles Darwin ficou famoso por sua teoria da evolução. os psicólogos aprimoraram vários métodos para a coleta de informações sobre o desenvolvimento das crianças. as experiências e as entrevistas clínicas. 1995) foram investigados dessa maneira. Os psicólogos. Freqüentemente. diários em que registravam observações de seus próprios filhos. 1993). Tópicos diferentes como o desenvolvimento de pensamentos e sentimentos dos adolescentes sobre si mesmos (Harter. do pesquisador) pode ser invasiva em muitas situações. a estratégia ideal é conseguir que as crianças sejam observadas por alguém que. que soam a intervalos aleatórios no decorrer do dia. MÉTODOS DE COLETA DE DADOS No último século. que podem não entender as perguntas que lhes estão sendo feitas.MICHAEL COLE & SHEILA R. Jean Piaget (1952b. de resultados se examina bebês de lares da classe operária da mesma localidade ou de lares da classe média de uma localidade diferente. mas podem também usar questionários escritos ou uma folha de verificação comportamental (uma lista dos comportamentos que o indivíduo assinala quando ocorrem). em que os pais lembram como era o comportamento dos seus filhos quando eles eram bem pequenos e quais eram suas próprias reações a ele. Suas observações sobre seu filho. Entre os mais amplamente usados estão os auto-relatos. observá-las durante suas vidas cotidianas e registrar o que acontece. passe algum tempo com elas – pai/mãe ou uma professora. (Vamos encontrar trechos dessa obra em vários momentos no decorrer deste livro. biografia do bebê Um relato detalhado feito pelo pai/mãe sobre o comportamento de um bebê durante um extenso período de tempo. 1954). . em que os pais documentam cuidadosamente o desenvolvimento das habilidades de lin- FIGURA 1. lembrando aos adolescentes de preencher um questionário sobre o que estavam fazendo e sentindo quando o bipe tocou (Larson e Richards. A memória seletiva dos pais também é um problema nos relatos retrospectivos a longo prazo. COLE 39 auto-relato Um método de coleta de dados pelo qual as pessoas relatam seus próprios estados psicológicos e seu comportamento. Andrews e Gotlib. vários cientistas começaram a escrever biografias do bebê. psicólogo do desenvolvimento. O mais famoso desses relatos é o registro diário de Darwin (1877) do desenvolvimento inicial do seu filho mais velho (Figura 1. também manteve um diário do desenvolvimento de seus filhos. Mas é também uma dificuldade séria com adultos. ou seja. em geral. serão seletivos naquilo que estão dispostos a relatar sobre si mesmos e sobre seus filhos (Brewin. Os auto-relatos obtidos por meio de entrevistas e questionários podem proporcionar informações detalhadas das experiências de vida da pessoa que. as observações naturalistas. do contrário. Documentando o desenvolvimento do seu filho e determinando que características ele compartilhava com outras espécies em diferentes idades. Auto-relatos Talvez a maneira mais direta de se obter informações sobre o desenvolvimento psicológico seja por meio de auto-relatos. Nenhum método pode responder a todas as questões sobre o desenvolvimento humano. poderiam escapar à percepção dos investigadores. realizam entrevistas para obter autorelatos. mas cada um tem um papel estratégico a desempenhar sobre o tópico. Como a presença de um estranho (ou seja. que.

evolucionárias do comportamento (Hinde. Por exemplo. Para os etologistas. essas hierarquias sociais regulam as interações que as crianças realizam umas com as outras. a um único contexto ou podem ser empregadas para reunir dados em muitos contextos. Percebendo a reação dela. especialmente quando escritas por estudiosos do desenvolvimento bem treinados. as situações que encontram e as conseqüências desses encontros (ver Figura 1. que estudam a organização cultural do comportamento. p. nessa tradição. Uma vez desenvolvidas. J. as dificuldades que encontram e as conseqüências desses encontros. Um achado sutil como esse pode não ser revelado em testes conduzidos por uma pessoa estranha. Winn e Morelli. 1992). Esse padrão. que parece tão estranho em relação às idéias ocidentais sobre criação de filhos. os papéis que desempenham. Um dos muitos momentos comoventes de revelação dessa evidência surgiu quando ela equivocadamente achou que ele havia urinado no pijama. Marilyn Shatz (1994) foi capaz de documentar o desenvolvimento de seu neto sobre a percepção dos processos de pensamento das outras pessoas porque ela passava muito tempo com ele e ele a conhecia bem. amamentados por várias mulheres. Apesar de suas virtudes. As observações naturalistas podem ser confinadas etologia Uma ciência interdisciplinar que estuda as bases biológicas e evolucionárias do comportamento. Esse último tipo de estratégia de observação é freqüentemente usada para estudar a ecologia de uma criança. 117). Observando e registrando quem interagia com quem e a natureza das interações. assim como as muitas maneiras que as crianças reagem a essa organização. Uma importante virtude das biografias do bebê escritas por familiares é que os autores passam muito tempo com seus pesquisados e têm a oportunidade de observálos tanto nas situações de rotina como em circunstâncias não-usuais. Santos (1996) realizaram observações naturalistas. Observação em muitos contextos. 1985). por exemplo. Em psicologia. Strayer e Santos descobriram que as hierarquias sociais desenvolvem-se espontaneamente nas classes de pré-escola. é essencial à maneira de viver dos forrageiros Efe e aceita pelas crianças Efe como naturais (Tronick. manter a objetividade quando descrevem seus próprios filhos. 1994. ecologia A variedade de situações em que as pessoas são atores e os papéis que desempenham. termo derivado da palavra grega que significa “casa”. ele disse: “Você pensou que eu tivesse feito xixi”. Como comenta o psicólogo William Kessen. Francis Strayer e A. Os etologistas enfatizam muito a observação naturalista porque acreditam que comportamentos biologicamente importantes que afetam o desenvolvimento humano são melhor estudados nos ambientes que são importantes para as vidas cotidianas das pessoas (Savin-Williams. documentaram como os bebês nascidos na tribo dos forrageiros Efe da floresta Ituri do Congo são rotineiramente cuidados por várias pessoas e. tem sido extremamente útil no estudo da aquisição da linguagem (Fenson et al.. Esse comentário claro indicava que ele havia atingido um marco no seu desenvolvimento cognitivo: a percepção de que as pessoas podem ter idéias que sejam contrárias ao fato. . F. provavelmente. etnógrafos Estudiosos que estudam a organização cultural do comportamento. Outras formas de observação naturalista são mais comumente usadas. a “casa” é o hábitat de uma população de plantas ou animais e a ecologia dessa população é o padrão do seu relacionamento com seu ambiente. a observação naturalista é um instrumento de pesquisa importante. quando estudaram a maneira como as crianças interagem em salas de aula de pré-escola. assim como acontece com algumas espécies animais. Edward Tronick e sua equipe. Tomasello.40 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE guagem dos seus filhos. A etologia é uma ciência interdisciplinar que estuda as bases biológicas. Nas ciências biológicas. 1987). em geral. A observação naturalista é também favorecida pelos etnógrafos. por exemplo. 1987). “ninguém consegue distorcer de maneira tão convincente quanto um pai/mãe amoroso” (1965. a ecologia se refere à variedade de situações em que as pessoas são atores. Nas mãos dos estudiosos do desenvolvimento. as biografias dos bebês devem ser usadas com grande cautela porque nem mesmo cientistas conseguem.5) (Bronfenbrenner e Morris. as descrições etnográficas proporcionam um conhecimento detalhado das maneiras que as experiências das crianças são organizadas pelos pais e pelas comunidades. 1998).

COLE 41 FIGURA 1. Todos esses sistemas são organizados em termos das crenças e ideologias dominantes da cultura (o macrossistema). enfatizam os elos entre o desenvolvimento das crianças e a comunidade nas quais elas nasceram. que são por sua vez ligados a ambientes e a instituições sociais em que as crianças não estão presentes. mas que têm uma importante influência no seu desenvolvimento (exossistemas). Barker e Wright descobriram que. envolvendo centenas de objetos e dezenas de pessoas. que têm estudado o desenvolvimento das crianças em vários países. em 26 de abril de 1949. Charles Super e Sarah Harkness (1997). Referem-se ao local da criança dentro da comunidade como um nicho desenvolvimental. 1955). o estudo mais ambicioso jamais realizado sobre a ecologia do desenvolvimento foi conduzido por Roger Barker e Herbert Wright (1951. (2) as práticas educacionais e culturalmente determinadas de criação dos filhos da sociedade na qual a criança se desenvolve e (3) as características psicológicas dos pais da criança.300 atividades distintas em uma grande variedade de ambientes. nesse único dia. até o momento em que foi dormir aquela noite. observaram um menino norte-americano de sete anos de idade desde o momento em que ele acordou. Descrições completas das experiências da vida real das crianças em seus contextos socioculturais proporcionam uma percepção da criança por inteiro e as muitas influências experenciadas. Esses ambientes são relacionados uns com os outros de várias maneiras (mesossistemas).5 A abordagem ecológica vê as crianças no contexto formado por todos os vários ambientes em que ela habita em seu cotidiano (microssistemas). Esses pesquisadores passaram centenas de horas observando e descrevendo a ecologia natural das crianças em idade escolar em várias comunidades dos Estados Unidos e do exterior.MICHAEL COLE & SHEILA R. o menino participou de aproximadamente 1. Essas observações deram alguma idéia da grande extensão de habilidades Go ver no ão caç uni com de ios Me Escola Crianças Pares Professores Esco la Vizinhança Crianças loc al Adultos Pares ssa ma de . Provavelmente. Essas descrições podem nos dizer que oportunidades e dificuldades as crianças enfrentam em suas vidas e como as circunstâncias podem ser mudadas para estimular o seu desenvolvimento. incluindo as práticas de criação de filhos e educacionais da sociedade. além das características psicológicas dos pais. MACROSSISTEMA EXOSSISTEMAS MESOSSISTEMAS o elh ns Co loc al Ind ús tria La r MICROSSISTEMAS Lar Crianças Irmão Pais Adultos Ambiente religioso Crianças Pares lar co es ioso relig iente Amb Vizinhança Local de trabalho dos pais Crenças e ideologias dominantes nicho desenvolvimental O contexto físico e social em que uma criança vive. Eles sugerem que todo nicho desenvolvimental seja analisado em termos de três componentes: (1) o contexto físico e social em que a criança vive. Em um desses estudos.

poucos estudos ecológicos se aproxiJASPER NÃO É JUSTA EM A PRÉDIZER. esse tratamento seletivo parecia aumentar a agressividade entre os meninos. mam do escopo do estudo de Barker e Wright. A SRA. em algumas escolas. Por exemplo. de atividades das crianças. observando em detalhes municiosos as interações face a face entre as crianças ou entre crianças e adultos. os pesquisadores descobriram que as professoras recompensavam o comportamento dependente das meninas prestando mais atenção àquelas que se sentavam mais próximo. 1998). decidem antecipadaNADA. por exemplo. Um importante destaque dessa linha de pesquisa tem sido a introdução. pegando lenha. ao mesmo tempo. novos padrões de interação puderam ser sugeridos às professoras a fim de estimular um comportamento mais adequado em alunos de ambos os sexos. tigadores que estudam as crianças em uma variedade de contextos CONSIGO DIZER é obrigada a ser mais eletiva. OS MENINOS FORTES TÊM COMO O QUE TODA A ATENÇÃO. examinou as interações dos professores e alunos em 15 salas de aula de pré-escola para ver se algum comportamento da professora poderia estar involuntariamente encorajando a agressividade nos meninos e a dependência nas meninas. MANDE O PAPAI. (Você vai obter mais informações sobre esse estudo no Capítulo 12). não importando onde eles estivessem sentados na classe. Com freqüência. de classes só femininas em algumas áreas do currículo. prestavam igual atenção a todos os meninos. Descobriu que. período em que Gaskins tentava realizar um registro NUNCA VAI OUVIR VOCÊ. Limitações das observações naturalistas. que talvez seja a atividade dominante das crianças sobre o fenômeno estabelecido na pesquisa de observação de que as pequenas nas sociedades industrializadas. pesquisa de desenvolvimento da criança e uma fonte fundamental de dados sobre . como matemática.. Em um conjunto de observações paralelas.42 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE que as crianças possuem aos sete anos de idade e das muitas exi. Esses achados foram confirmados em um grande número de estudos (Ruble e Martin. em geral. Os estudos de observação são um marco na professoras reagem diferentemente aos meninos e às meninas em suas salas de aula. ESTÁ BEM.. FORA NÃO DEIXAR AS MENINAS ALEX? ESCOLA. ELA uma hora. A própria amplitude da abordagem ecológica torna- a demorada e de aplicação dispendiosa. Cada período de observação durava MAMÃE.DOONESBURY Por Garry Trudeau gências sociais que são rotineiramente feitas às crianças. os psicólogos do desenvolvimento freqüentemente restringem suas observações a um único ambiente social. observando as crianças por um total de várias horas no decorrer de vários dias. ACHO. As professoras castigavam os meninos publicamente por uma proporção maior dos seus maus comportamentos do que às meninas pelos delas. como uma maneira de melhorar o desempenho educacional das meninas. EU QUER Por várias razões práticas. morando em uma afastada aldeia rural do sudeste do México. Um estudo clássico realizado por Lisa Serbin e sua equipe (1973). mente observar um tipo específico de comportamento em diferentes contextos ou escolhem alguns importantes contextos e observam os vários comportamentos que as crianças exibem neles. em comparação com as crianças que vivem nos Estados Unidos. detalhado de como as crianças estavam e o que estavam fazendo. Ela fez “observações pontuais”. Como resultado. as crianças pequenas maias que vivem na zona rural passam grande parte do tempo observando as atividades rotineiras dos adultos e começam a ter um papel ativo nas tarefas domésticas diárias desde tenra idade. em um estudo do papel do brinquedo nas vidas de crianças pequenas maias de diferentes idades. tirando água e ajudando na preparação de alimentos. Susan Gaskins (1999) usou a última abordagem. registrando o que as crianças estavam fazendo em momentos difeTALVEZ EU DEVA TER UMA CONVERSINHA rentes do dia para ter a certeza de haver captado toda a variedade COM ELA. que é amplamente observado e importante nas vidas das crianças. HMM. Observação em um contexto isolado. Verificaram que as professoras não prestavam igual atenção ao mau comportamento de meninos e meninas. as crianças maias passam um tempo consideravelmente menor envolvidas O Cartunista Gary Trudeau comenta em brincadeiras de faz-de-conta. A maioria dos invesQUE EU RESPONDER AS QUERIDA? NUNCA PERGUNTAS.. Em vista disso. Eles. Uma vez descobertas tais práticas..

Em seu estudo ecológico. COLE 43 correlação A condição que existe entre dois fatores. mas requerem um tempo excessivo para serem analisados. se as mudanças em um fator variam de acordo com as mudanças em outro. ela tem pouco valor científico. não-determinado (ver Destaque 1. quando as pessoas sabem que estão sendo observadas. Um observador não consegue escrever tudo e. Esse problema foi claramente demonstrado por um estudo de laboratório em que Zoe Graves e Joseph Glick (1978) pediram às mães para ajudar seus filhos de 18 a 25 meses a completar um jogo de quebra-cabeça. . hipótese científica Uma suposição precisa o bastante para ser testada e poder mostrar-se incorreta. consiste em introduzir alguma mudança na experiência de uma pessoa ou de um animal e. Mas não houve como saber. um objetivo básico da ciência. A desvantagem desses esquemas é que eles não são flexíveis o bastante para levar em conta eventos inesperados. Graves e Glick disseram à metade das mães que o equipamento de vídeo que seria usado para registrar suas interações não estava funcionando. 1995). quando as mudanças em um fator são associadas a mudanças no outro. Se não há como refutar a hipótese. esquemas de anotação pré-estabelecidos especificam o que observar e como relatá-lo. deve proporcionar um meio de confirmar ou não confirmar uma hipótese científica sobre as causas do comportamento observado. depois. ou seja. experimento Em psicologia. a pesquisa em que uma mudança é introduzida na experiência de uma pessoa e o efeito dessa mudança é medido. Os observadores entram em cena com expectativas sobre o que vão ver. segundo as nossas expectativas. Barker e Wright descobriram que as crianças agiam de maneira mais amadurecida na igreja do que em uma loja. de forma que os detalhes também são freqüentemente perdidos. Os registros do comportamento em fitas de vídeo ou filmes são úteis. limitado. Mas uma correlação não nos pode dizer se um fator causa o outro ou se ambos os fatores são causados por um terceiro fator. Eles descobriram que as mães que acreditaram que não estavam sendo filmadas foram de menor ajuda a seus filhos do que aquelas que acreditavam que suas ações estavam sendo registradas. Métodos experimentais Um experimento psicológico. por isso. Talvez o principal problema da observação naturalista seja o fato de ela raramente permitir aos pesquisadores estabelecer a existência de relacionamentos causais entre os fenômenos. muitas vezes se comportam diferentemente do que se comportariam normalmente (Hoff-Ginsberg e Tardiff. no entanto. O que podemos aprender com isso é. porque a lembrança seletiva das pessoas acentua o problema de uma observação também seletiva (D’Andrade. os psicólogos recorrem a métodos experimentais. e todos nós tendemos a observar seletivamente. Se uma experiência é bem planejada e executada. medir qualquer efeito que a mudança provoque no comportamento da pessoa ou do animal. Outra dificuldade da pesquisa de observação é que. algumas informações são inevitavelmente perdidas. Uma hipótese científica é uma suposição precisa o bastante para ser testada e poder mostrar-se incorreta. Se passa algum tempo entre um evento e a anotação. O ideal é que todas as outras possíveis influências causais sejam mantidas constantes enquanto o fator de interesse é variado para determinar se esse fator realmente produz uma diferença. As observações naturalistas podem estabelecer se existe uma correlação entre dois fatores. em geral. 1974). Para tentar resolver essas questões. por exemplo. As professoras castigavam os meninos por seu mau comportamento com mais freqüência do que castigavam as meninas porque tinham estereotipado os meninos como desordeiros que precisavam de disciplina para serem mantidos na linha ou porque simplesmente percebiam com mais freqüência o mau comportamento dos meninos do que das meninas? Questões similares podem ser levantadas sobre quase qualquer estudo de observação do comportamento. tal desenvolvimento. por exemplo. se isso acontecia porque a natureza do ambiente da igreja evocava um comportamento amadurecido ou porque os pais das crianças estavam ali para observá-las. Para determinar a influência do fato de estar sendo observado sobre o comportamento das mães. as observações podem ser ainda mais distorcidas. Em alguns estudos.2).MICHAEL COLE & SHEILA R. Questões similares surgem no estudo realizado por Serbin e sua equipe.

que as crianças se movimentassem em pequenos veículos que lhes permitissem explorar o ambiente sem nenhum movimento da sua parte. Algo parecia ter sido construído nas mentes dos bebês à medida que ganhavam experiência. é necessário realizar uma série de experimentos para isolar causas específicas porque as complexidades do comportamento humano excedem a capacidade do pesquisador de controlar todos os fatos importantes em um único experimento (Cole e Means. exceto pelo fato de não participar da manipulação experimental – não participaram de nenhuma experiência especial em locomoção. acreditou-se que o medo de altura fosse inato ao bebê humano. Campos e sua equipe inicialmente estudaram um grupo de bebês de seis a oito meses de idade que estavam engatinhando há uma ou duas semanas. todos os bebês engatinharam pelo abismo. Será que ainda assim elas sentiriam medo diante do abismo visual? Essas dúvidas sobre os resultados das pesquisas são quase inevitáveis. nas tentativas subseqüentes. Esse experimento demonstrou um forte apoio à hipótese de que o desenvolvimento da capacidade de locomoção desempenha um grande papel no aparecimento do medo de altura. Suponhamos. . mesmo sabendo que nada de mau lhes aconteceria.7). Selecionaram 92 bebês que estavam próximos da idade em que se espera que comecem a engatinhar e a mostrar medo de altura. Quarenta horas andando de um lado para o outro em uma sala com um andador pode não parecer muita experiência. mas. Para testar sua hipótese. Os pesquisadores começaram observando se os bebês conseguiam atravessar um “abismo visual”. realizadas nas várias semanas seguintes. Eles acreditavam que o medo de altura dos bebês é resultado da experiência especialmente adquirida quando os bebês engatinham pelo seu ambiente. Seria conveniente a realização de mais pesquisas para determinar outros fatores possíveis que essa pesquisa não aprofundou. 1984. As outras crianças. Joseph Campos e sua equipe discordaram dessa hipótese (Bertenthal et al. em geral os bebês do grupo experimental demonstraram medo em sua primeira exposição ao abismo visual. FIGURA 1. por exemplo. os bebês desse grupo tiveram mais de 40 horas de experiência se movimentando em andadores especiais para bebês. enquanto os bebês do grupo-controle não o demonstraram.. 1984). uma plataforma transparente que lhes dava a ilusão de uma queda abrupta na elevação (Figura 1. 1992). No entanto. os bebês dos grupos experimentais deveriam reagir ao abismo visual de maneira diferente dos bebês do grupo-controle porque os bebês do grupo experimental tinham mais experiência em se movimentar sozinhos. exceto pelo fato de não participar da manipulação experimental.. Durante vários dias. chamadas grupo-controle – o grupo em um experimento que é tratado da maneira mais parecida possível com o grupo experimental.6 Um bebê hesita diante da beira de um abismo visual: uma plataforma transparente que faz parecer ao bebê que há uma queda abrupta bem à sua frente. sem hesitação. antes de aprenderem a engatinhar (ver Figura 1. aparentemente. grupo-controle O grupo em um experimento que é tratado da maneira mais parecida possível com o grupo experimental. Mas o que foi construído e que experiência provocou isso? Para confirmar sua hipótese de que o início do medo de altura dos bebês resulta da experiência de se movimentarem sozinhos. Nas primeiras tentativas. Durante muitos anos. Um grupo foi designado como o grupo experimental – o grupo em um experimento cujo ambiente é modificado.6). 1981). emergindo de acordo com um programa de maturação por volta da época em que os bebês começam a se locomover. Em geral. Embora as reações tenham variado um pouco. Os bebês foram aleatoriamente designados a um de dois grupos.44 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Uma investigação sobre a emergência do medo em bebês quando em lugares altos demonstra como o método experimental pode ajudar a resolver dúvidas sobre os fatores causais no desenvolvimento. grupo experimental As pessoas de um experimento cuja experiência é mudada como parte do experimento. ou a se mover sem ajuda (Richards e Rader. fez uma grande diferença na maneira como os bebês do grupo experimental responderam ao abismo visual. 1983). Campos e sua equipe conduziram um experimento (Bertenthal et al.. Se Campos e sua equipe estivessem certos. os bebês se tornaram cada vez mais relutantes em transpor o abismo visual. Campos et al.

requerendo que os estudiosos do desenvolvimento tenham cautela na interpretação dos seus dados. produzindo uma correlação de 0. as crianças mais altas tendem a conseguir uma pontuação 6 4 2 0 0 2 4 6 8 10 Valores x (c) Valores y Em suas tentativas para identificar os fatores específicos que influenciam um aspecto particular do desenvolvimento. Similarmente. como que o fator X esteja causando o fator Y. Diz-se que dois fatores são correlatos um ao outro quando as mudanças em um estão relacionadas às mudanças no outro. indicando que pais altos tendem a ter filhos altos (Tanner. Os casos mais enganosos são aqueles em que o possível relacionamento de causa e efeito entre duas variáveis poderia plausivelmente atuar em qualquer direção. ou seja. e. podem surgir controvérsias que não tenham uma resolução clara. mas perceptível.50 entre a altura dos pais e de seus filhos. pode ser tão provável que o fator X seja causado pelo fator Y. o problema não é sério. como foi apontado acima. (c) Quando os valores de x aumentam. Um coeficiente de correlação permite aos psicólogos distinguir entre relacionamentos que ocorrem com significativa regularidade e aqueles que ocorrem por acaso. suas pontuações de QI. 1990). como a altura de pais e de seus filhos. a idade das crianças está relacionada à sua capacidade de se lembrar. foi encontrada uma correlação de cerca de 0. origem étnica e constituição genética) não podem ser controlados experimentalmente. Tendo como base essa associação. Correlações como essas podem proporcionar importantes sugestões sobre os fatores causais no desenvolvimento. pode ser que as mudanças correlacionadas em X e Y estejam sendo causadas por algum terceiro fator. impulsionando. A altura da criança obviamente não causa a altura de seus pais.00. Para isso. Em um caso.2 CORRELAÇÃO E CAUSA 10 8 Valores y Valores y Valores y O primeiro passo na determinação da possível importância de uma correlação é estabelecer sua força. A dificuldade em distinguir a correlação da causa é freqüentemente uma fonte de controvérsia científica. Quando r = 1. a correlação entre a idade e o peso seria 1. a correlação seria 0.00. como veremos. correlação não é o mesmo que causa. produzindo uma correlação de – 1. em vez disso. a realização na escola está correlacionada à classe social. mas. significando que. há uma correlação de 0. o peso não pode causar um aumento na idade. a aumentar. Entre as crianças em idade escolar. que proporciona um índice quantitativo do grau de associação entre dois fatores. ou seja. os psicólogos freqüentemente começam determinando se há uma correlação entre os fatores que parecem estar associados com o desenvolvimento em questão. Embora essa explicação se ajuste às idéias de muitas pessoas sobre o sucesso na escola. significando que quando o fator X muda. os valores de y diminuem.MICHAEL COLE & SHEILA R. mas não proporcionam evidências cruciais de causação. 10 8 6 4 2 0 2 4 6 8 10 0 0 2 4 6 8 10 6 4 2 0 Valores x (a) Valores x (b) 10 8 10 8 6 4 2 0 0 2 4 6 8 10 Valores x (d) Quatro relacionamentos possíveis entre duas variáveis: (a) Quando os valores de x aumentam. . algum outro fator (como nutrição. Se a idade e o peso não estão de modo algum relacionados. por exemplo. Um coeficiente de correlação que descreve o relacionamento entre fator X e fator Y pode variar tanto em tamanho quanto em direção. os valores de y mostram uma tendência fraca. os valores de y freqüentemente aumentam. COLE 45 DESTAQUE 1.50 entre as notas atuais das crianças na escola e suas pontuações nos testes de QI padronizados (Minton e Schneider. há uma correlação negativa perfeita entre o fator X e o fator Y.33. se cada aumento na idade em uma população fosse acompanhada por um aumento no peso. por exemplo) deve ser a causa de ambos. elas exibem uma maior capacidade para recordar listas de palavras. 1980). elas não conseguem especificar a causa real. 1990). Como nada em relação à altura das crianças pode. produzindo uma correlação de 1. quanto mais elevada a classe social dos pais. maior a realização de seus filhos na escola. À medida que as crianças vão crescendo. a correlação não estabelece que a ocorrência de um evento cause a ocorrência de outro. Ou seja. Em alguns casos. os valores de y aumentam. por exemplo. mas há algumas exceções. Se. Uma correlação pode apontar para um relacionamento causal entre dois eventos. ser considerado causa da sua inteligência. o fator Y muda na direção oposta. produzindo uma correlação de 0. Em outros casos.00. Os valores intermediários positivos ou negativos de um coeficiente de correlação indicam níveis intermediários de associação. Por exemplo. há uma correlação positiva perfeita entre os dois fatores. (b) Quando os valores de x aumentam. Como as correlações freqüentemente sugerem relacionamentos causais. O uso de coeficientes de correlação para descrever relacionamentos entre fenômenos é importante no estudo do desenvolvimento humano porque muitos fatores de interesse para os estudiosos do desenvolvimento (como classe social. as pessoas sempre perdessem peso à medida que envelhecessem. A idade em si não pode causar aumento no peso porque “idade” é simplesmente outro termo para o tempo que passou desde um ponto de partida estabelecido.00. Nem há probabilidade de haver confusão por causa do relacionamento entre a idade de uma criança e o seu peso. Por exemplo. mas. mas mais baixos (Tanner.30 entre a altura e a pontuação nos testes de capacidade mental.00. Outras causas são menos definidas. (d) Quando os valores de x aumentam. poderia ser tentador concluir que a inteligência causa sucesso na escola. Por exemplo. mais alta nos testes de inteligência do que seus companheiros da mesma idade. pode ser plausivelmente declarado que os alunos que conseguem boas notas estudam muito e aprendem mais. os pesquisadores usam um coeficiente de correlação (simbolizado como r).84. ou seja. o fator Y muda na mesma direção.00. há uma correlação de aproximadamente 0. e nada com referência à inteligência das crianças pode ser dito que cause a sua altura elevada. Quando r = – 1. a correlação seria – 1. quando o fator X muda.00. certamente. assim. plausivelmente.

Para proteger os direitos dos outros. pode ser difícil julgar. passe o lápis cromo” –. em geral. as questões éticas na pesquisa psicológica nem sempre são tão definidas quanto sugere esse princípio. Os pesquisadores. descobrem que as crianças requerem instrução extensiva por parte de um adulto para aprender uma palavra nova. As crianças. por isso.7 Um andador expõe bebês à experiência da locomoção antes de eles aprenderem a andar ou engatinhar. um experimento desse tipo poderia prejudicar os participantes e não deve ser realizado. Na verdade. quando a nova palavra foi introduzida casualmente – “Por favor. No entanto. Para evitar a possibilidade de que algumas crianças já soubessem o nome da cor. os métodos de entrevista clínica .46 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Em geral. todos os métodos de pesquisa discutidos até agora destinam-se à aplicação de procedimentos uniformes de coleta de dados a cada indivíduo observado. particularmente. Experimentos e artificialidade. Assim. (Voltaremos a seus achados no Capítulo 8. os pesquisadores têm superado em parte o problema da artificialidade. ele não deve ser realizado. Como o uso de um andador influencia o desempenho no abismo visual? uma situação experimental artificial do que se comportariam normalmente. Elsa Bartlett (1977) e Susan Carey (1978) fizeram uma professora de pré-escola introduzir uma cor incomum. esse problema é tão sério que o psicólogo Urie Bronfenbrenner (1979) descreveu os experimentos característicos de laboratório envolvendo crianças como estudos do “comportamento estranho das crianças em situações estranhas com adultos estranhos pelo período de tempo mais breve possível” (p. para investigar como as crianças pequenas adicionam novas palavras a seus vocabulários em circunstâncias normais. o princípio ético fundamental de toda pesquisa psicológica é que. Nesse aspecto. que. as pessoas se comportam diferentemente em FIGURA 1. Às vezes. introduzindo uma variação experimental nas situações que ocorrem naturalmente. Obviamente. a longo prazo. dois fatores importantes limitam sua utilidade como uma fonte de informação sobre o desenvolvimento: (1) por razões éticas. têm uma probabilidade maior de se comportar de maneira diferente em um ambiente de laboratório não-familiar. precisam demonstrar a um comitê constituído por colegas que não vão prejudicar as pessoas que participam de suas investigações e de que a pesquisa promete. No entanto. sem destruir significativamente o curso normal dos acontecimentos. se um procedimento de pesquisa causar dano a alguém. levanta dúvidas sobre o valor dos resultados experimentais. e (2) o simples controle do ambiente requerido pelos experimentos pode distorcer a validade dos resultados obtidos. Em alguns casos. O que é prejudicial e como avaliamos os riscos? Praticamente qualquer intervenção na vida de outra pessoa pode envolver algum risco e. as crianças adquiriram a palavra após poucas exposições. muitos tipos de experimentos não podem ser realizados. têm de conviver com a artificialidade do ambiente experimental porque os fatores que estão sendo estudados passam muito freqüentemente a ser estudados de forma sistemática na vida real. caracteristicamente. Na verdade. mas jamais se falasse com ela. contudo. Ética e experimentação. A maneira mais fácil de descobrir se a experiência de ouvir uma linguagem é necessária para aprender a falar seria criar condições de audição em que a criança fosse cuidada. Isso. verde-oliva. a professora se referia a ela como “cromo”. no seu ensino no decorrer da rotina normal da sua sala de aula. As pesquisadoras descobriram que.3). 19). Por exemplo.) Métodos de entrevista clínica Com exceção dos estudos de observação diária. alguns benefícios às pessoas (ver Destaque 1. Bartlett e Carey produziram uma mudança básica no entendimento dos psicólogos de um aspecto vital importante do desenvolvimento. os pesquisadores modernos são monitorados de perto por suas próprias instituições e pelas agências governamentais. Esse achado contrasta com os estudos de laboratório de aquisição de palavras. a força visível do método experimental é a sua capacidade para isolar fatores causais de uma maneira que nenhum outro método de investigação consegue. é claro. com pesquisadores que elas nunca viram antes. introduzindo novas palavras às crianças de uma maneira natural. Antes de expor sua pesquisa.

. eles. 7 anos de idade Piaget: . Piaget: Então pense na sua casa. A essência do método clínico é moldar as questões para a pessoa. Quando os psicólogos do desenvolvimento usam os métodos de entrevista clínica dessa maneira. Freud procurou identificar os fatores cruciais que produziram a dificuldade que essa pessoa estava experimentando. Por isso. como os médicos clínicos. a respeito do que seja pensar. de seus medos e de seus sonhos. a criança mais velha concebe o pensamento como algo invisível e não . Piaget: Onde está o sonho enquanto você está sonhando? Criança: Na cabeça. Piaget muda sua linha de questionamento para chegar à concepção da criança sobre o pensamento a partir de uma direção diferente. os métodos de entrevista clínica são freqüentemente usados para investigar os problemas de pessoas perturbadas ou doentes. Pode-se vê-lo acontecer. ele adaptou suas questões ao fluxo da conversa. Além dos diários que ele mantinha do desenvolvimento de seus filhos. Piaget: Os olhos ficam abertos ou fechados? Criança: Fechados. 1929/1979. (Extraído de Piaget. (Adaptado de Piaget. Piaget: Não está na sua frente? Criança: É como se (!) a gente conseguisse vê-lo. 1929/1979. O aprofundamento de Piaget nas entrevistas dessas crianças revelou dois padrões de percepção. verifique seu entendimento das respostas do indivíduo e penetre mais profundamente nos pensamentos e sentimentos da pessoa. Piaget: Com que você sonha? Criança: Com a cabeça. você vai ver seu pensamento? Criança: Não.) método clínico Um método de pesquisa em que as questões são moldadas ao indivíduo. COLE 47 John B.) 11 anos de idade Piaget: Onde está o pensamento? Criança: Na cabeça. Em contraste. diferem fundamentalmente dos outros. Para a criança menor. que acreditava que a história familiar inicial da criança fosse essencial para o desenvolvimento da sua personalidade posterior. ele usou um procedimento de entrevista clínica para se concentrar na percepção das crianças sobre a idéia de “pensamento”. pensar é um processo corporal – o ato de falar. 54. Em um dos seus primeiros estudos sobre o desenvolvimento do pensamento das crianças. A partir do relato de um paciente dos eventos da sua vida. 39. A mais famosa aplicação de métodos de entrevista clínica na psicologia desenvolvimental é encontrada no trabalho de Sigmund Freud. de suas fantasias. relacionados à idade. o psicólogo do desenvolvimento Jean Piaget freqüentemente usava técnicas de entrevista clínica para explorar o desenvolvimento das crianças no que se refere às percepções do mundo. Piaget: Se alguém abrir a sua cabeça. p. Com que você pensa? Criança: Com a boca.MICHAEL COLE & SHEILA R. Os métodos clínicos não são restritos à patologia. p. estão buscando um conjunto de alívios adequados. Nos exemplos que se seguem. (Neste ponto. observe que teria sido impossível para Piaget prever exatamente como as crianças iriam reagir.) Piaget: O que é um sonho? Criança: É um pensamento. Como indica o termo “clínico”. Watson e Rosalie Rayner realizando experiência com os medos dos bebês.. Você sabe o que significa pensar? Criança: Sim. Cada questão depende da resposta dada àquela que a precede. com cada questão dependendo da resposta da anterior. permitindo que o pesquisador acompanhe qualquer questão dada.

por exemplo. mas. políticas e humanas da sua pesquisa e devem ser especialmente cuidadosos na apresentação dos seus achados.48 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE DESTAQUE 1. Os investigadores devem ser criteriosos com relação às implicações sociais. O investigador é responsável pelas práticas éticas de seus colaboradores. além do consentimento dos pais para o estudo com a criança. O consentimento informado dos pais ou daqueles que atuam in loco parentis (por exemplo. todo esforço deve ser feito para que a retenção da informação não tenha conseqüências danosas para o participante. professores. O investigador também reconhece o dever de relatar achados gerais para os participantes em termos apropriados ao seu entendimento. Q Q Q Q Q Q Q Q Q N. tendo menos conhecimento e experiência. o investigador deve esclarecer para o participante da pesquisa quaisquer concepções errôneas que possam ter surgido. Ele acreditava. no decorrer da pesquisa. que as pessoas que vivem em sociedades pré-industrializadas. no entanto.T. alunos e empregados. A responsabilidade final do estabelecimento e da manutenção de práticas éticas na pesquisa continua sendo do investigador principal. o Conselho Federal de Psicologia (2000) editou a Resolução 016 sobre as exigências éticas para pesquisas em Psicologia. deve ser obtido também o consentimento da criança. um determinado estudo pode necessitar de sigilo ou dissimulação sobre seus objetivos. Quando se acredita que um tratamento experimental sob investigação é benéfico às crianças. chegarem ao investigador informações que possam afetar seriamente o bem-estar da criança. Embora aceitemos a idéia ética de plena revelação das informações. Quando o sigilo ou a dissimulação é considerado essencial para a condução do estudo. superintendentes de instituições) também deve ser obtido. assim como interromper a participação a qualquer momento. de preferência por escrito. O consentimento informado de qualquer pessoa cuja interação com a criança seja tema do estudo deve também ser obtido. de R.3 PADRÕES ÉTICOS PARA A PESQUISA COM CRIANÇAS Q Q As diretrizes que se seguem são adaptadas e condensadas dos Padrões Éticos para a Pesquisa com Crianças lançados pela Sociedade de Pesquisa de Desenvolvimento Infantil (Society for Research in Child Development – SRCD). um serrote. os investigadores devem provara um comitê de ética que seu julgamento está correto. categorizariam os objetos segundo a maneira como eles são usados na vida cotidiana. Não somente as crianças são freqüentemente encaradas como mais vulneráveis ao estresse. O consentimento informado requer que os pais ou outros adultos responsáveis sejam informados de todas as características da pesquisa que possam afetar sua disposição de permitir que as crianças dela participem. Além disso. Em um estudo. assistentes. de modo algum nega aos investigadores o direito de seguir qualquer área de pesquisa ou o direito de observar padrões adequados de relato científico. embora todos eles incorram em obrigações paralelas. em torno dos 10 a 11 anos de idade. onde há pouca ou nenhuma alfabetização e ensino. Quando valores científicos ou humanos podem justificar a retenção de informações. seus direitos são maiores que os direitos do investigador. As crianças como sujeitos de pesquisa apresentam problemas éticos para o investigador que são diferentes daqueles apresentados por pessoas adultas. observável. O investigador deve informar as crianças sobre todos os aspectos da pesquisa que podem afetar sua disposição de participar e deve responder às perguntas das crianças em termos apropriados para sua compreensão. Imediatamente depois de os dados serem coletados. para que os pais possam conseguir a necessária assistência para seu filho. são menos capazes de avaliar o que pode significar a participação na pesquisa. Recentemente. Alexander Luria (1902-1977). Seguem-se algumas diferenças importantes entre a pesquisa com crianças e a pesquisa com adultos. Ele acreditava que. Q Q Não importa o quão pequenas sejam as crianças. os grupos-controle devem receber outros tratamentos alternativos benéficos. O investigador deve respeitar a liberdade das crianças de decidir participar ou não da pesquisa. psicólogo russo. A maior parte de nós enxergaria dois . Q Q O investigador não pode usar procedimentos de pesquisa que possam prejudicar física ou psicologicamente às crianças. em vez de segundo algum critério abstrato. uma tora de madeira e uma machadinha – a um grupo de vaqueiros criadores de gado e perguntou-lhes quais dos objetos eram similares e qual não correspondia aos outros. Quando. um processo mental. No Brasil. a criança começaria a se tornar capaz de imaginar o pensamento como um processo mental que não pode ser visto. o investigador deve empregar medidas adequadas para corrigir essas conseqüências e considerar o replanejamento do procedimento. ele apresentou desenhos de quatro objetos – um martelo. os psicólogos do desenvolvimento utilizam a Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de Saúde para pesquisas com seres humanos (Ministério da Saúde. usou o método de entrevista clínica para revelar diferenças qualitativas no pensamento em ambientes culturais distintos. O investigador deve manter em sigilo todas as informações obtidas sobre os participantes da pesquisa. se disponíveis. em vez de nenhum tratamento. Piaget usou esses dados para defender a existência de um desenvolvimento que se processa por meio de uma mudança em etapas ou estágios na maneira como as crianças entendem e experimentam o mundo. Quando se percebe que os procedimentos de pesquisa podem resultar em conseqüências indesejáveis para o participante. Esse padrão. o investigador tem a responsabilidade de discutir essas informações com especialistas da área. 1996).

não é adequado para o uso com crianças muito pequenas. O ponto forte dos métodos de entrevista clínica é que eles proporcionam um insight na dinâmica do desenvolvimento individual. se quiser serrar realmente bem a tora. durante um período de tempo extenso. estamos cometendo um erro. Há dois delineamentos básicos de pesquisa usados pelos psicólogos para esse propósito: longitudinal e transversal. aqui tudo isso é ótimo. Como foi indicado pela entrevista acima. Todas essas coisas são necessárias para a tora. p. como está indicado pela seguinte conversa típica: Homem: Eles todos se correspondem! O serrote é para serrar a tora. Em primeiro lugar. que têm dificuldade para se expressar plena ou precisamente. o martelo para martelála e a machadinha para cortá-la. em geral. Não pode dispensar nenhuma dessas coisas. 58) A abordagem de Luria é um uso clássico da entrevista clínica. durante um período de tempo ampliado. Luria chegou à conclusão de que os vaqueiros tradicionais organizam seu pensamento em termos de conceitos que relacionam de perto os objetos com suas funções e não desenvolvem o pensamento tendo como base os objetos pertencerem à mesma categoria abstrata. Mas o método de entrevista clínica tem suas limitações. “similar” com referência aos objetos apresentados parecia significar “executar a mesma atividade”. Mas. pois as pequenas. DELINEAMENTOS DA PESQUISA Se o objetivo da pesquisa é esclarecer o processo da mudança desenvolvimental. Homem: Por que ele disse isso? Se dizemos que a tora não é como as outras coisas e a colocamos de lado. Cada pessoa entrevistada proporciona um padrão distinto de respostas que corresponde às suas experiências individuais. o clínico precisa ignorar as diferenças individuais entre as entrevistas a fim de poder chegar ao padrão geral. Aqui tudo funciona direito. que estão participando de um programa de aprendizagem baseado em computador. quando o padrão geral aparece. COLE 49 critérios óbvios pelos quais esses objetos poderiam ser categorizados: ou como “coisas necessárias para se conseguir lenha” (o que exclui o martelo) ou como ferramentas (o que exclui a tora). ela trabalha com alunos de ensino especial do ensino médio. Luria: Mas esse companheiro disse que o serrote.MICHAEL COLE & SHEILA R. o quadro individual desaparece. entendem muito antes de elas próprias conseguirem explicar o seu entendimento. O investigador testa a percepção do indivíduo desafiando suas respostas às perguntas e sugerindo pontos de vista alternativos (às vezes incorretos). Em segundo lugar. Não há nenhuma que você não precise. Os indivíduos de Luria viram os objetos em termos completamente diferentes. delineamento longitudinal Pesquisa na qual os dados são coletados do mesmo grupo de crianças à medida que elas crescem. E. Margaret Beale Spencer usou extensivamente os métodos da entrevista e da observação em seu trabalho sobre a auto-estima das crianças. (Luria. Aqui. o martelo e a machadinha são de algum modo semelhantes. para os indivíduos de Luria. Cada delineamento tem suas próprias vantagens e desvantagens. enquanto a tora não é. . ela deve ser planejada para revelar como os fatores responsáveis pela mudança atuam no decorrer do tempo – ou seja. Cada um leva em conta a passagem do tempo de uma forma diferente. 1976. como o método se baseia primordialmente na expressão verbal. Isso acontece especialmente quando se tenta avaliar a capacidade cognitiva das crianças. O pesquisador que usa o delineamento transversal reúne as informações sobre crianças de várias idades ao mesmo tempo. Esses delineamentos podem ser usados em conjunção um com o outro e com quaisquer das técnicas de coleta de dados já discutidas. Luria: Mas um companheiro me disse que a tora não pertence a este grupo. como a mudança é produzida nas diferentes idades. para chegar a conclusões gerais sobre o tópico da entrevista. delineamento transversal Pesquisa na qual crianças de várias idades são estudadas ao mesmo tempo. precisa do martelo. Contrapondo as respostas dos seus indivíduos às respostas dadas pelas pessoas que haviam freqüentado a escola e começado a participar das formas industrializadas da atividade econômica e das relações sociais. O pesquisador que usa o delineamento longitudinal reúne informações de um grupo de crianças à medida que elas crescem. Homem: E daí que não sejam semelhantes? Elas todas trabalham juntas e cortam a tora.

elas podem aprender a responder da maneira esperada.. 1994). 1995). . confundem (misturam) a influência das mudanças relacionadas com a idade e a influência de fatores relacionados especificamente à coorte do grupo da amostra. É também comum que algumas das crianças que começam um estudo desse tipo saiam dele. mudando. portanto. simplesmente. temperamento e inteligência (DeFries et al. é difícil saber se as mudanças nas respostas da pessoa no decorrer do tempo representam um desenvolvimento normal ou. o que enfraquece as conclusões a serem extraídas. Finalmente. e as pessoas de uma determinada coorte podem compartilhar experiências que difiram daquelas de pessoas nascidas antes ou depois. Outros estudos longitudinais importantes concentraram-se em tópicos variados. saúde mental (Werner e Smith. Infelizmente. de que as crianças que são tímidas e inseguras aos 21 meses têm probabilidade de ser tímidas e cautelosas até 12 e 14 anos. Requerem o compromisso a longo prazo de um pesquisador para com uma aventura incerta. Sem as mensurações longitudinais seria impossível descobrir se há continuidade nos padrões de comportamento ou se os processos mudam à medida que a criança cresce. econômico ou étnico do que em outro. Em outras palavras. Em conseqüência disso. elas são dispendiosas de realizar. as diferenças que coorte Um grupo de pessoas nascidas mais ou menos na mesma época. Esse estudo proporcionou a evidência. às vezes.50 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Os delineamentos longitudinais acompanham as mesmas pessoas através dos anos.. as pesquisas longitudinais têm algumas falhas práticas e metodológicas que restringiram seu uso. Outra dificuldade com os delineamentos longitudinais é que as pessoas da amostra podem ficar acostumadas com os vários procedimentos dos testes e das entrevistas. Além disso. 1992). Para começar. anteriormente mencionada. a amostra de várias maneiras. desenvolvimento da linguagem (Fenson et al. assim. 1994). 1994) e ajustamento social (Cairns e Cairns. Na pesquisa longitudinal. Se essas recusas são mais freqüentes em um grupo social. sendo provável. alguns pais se recusam a permitir que seus filhos participem de um estudo prolongado. particularmente se devem ser conduzidas durante vários anos. Os delineamentos longitudinais pareceriam ser uma maneira ideal de se estudar o desenvolvimento porque se ajustam às exigências de que o desenvolvimento seja estudado no decorrer do tempo. Delineamentos longitudinais Os pesquisadores que escolhem um delineamento longitudinal selecionam uma amostra representativa da população que desejam estudar e coletam dados de cada pessoa em duas ou mais idades.. tais como personalidade (Friedman et al. podem tornar a amostra não representativa da população do estudo como um todo. os delineamentos longitudinais. o efeito da prática em se submeter aos testes e em responder às entrevistas. que compartilhem algumas experiências. Por exemplo. Jerome Kagan (1994) conduziu uma equipe de pesquisa na Universidade de Harvard que acompanhou o comportamento de um grupo de crianças desde pouco depois do seu nascimento até o início da adolescência. Uma coorte é uma população de pessoas nascidas mais ou menos na mesma época.

25 20 Os mesmos indivíduos observados em idades diferentes 15 I UD NA L TRANSVERSAL Idade na época da observação 10 N LO GI T Indivíduos de idades diferentes observados ao mesmo tempo 5 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 . 20 e 60 anos. podemos primeiro testar amostras de pessoas de 4. (A Figura 1. um estudo longitudinal do desenvolvimento dos medos das crianças a partir do seu nascimento.) Na verdade. Ao comparar como as pessoas do grupo de quatro anos de idade realizam a tarefa e quais são os resultados dos seus esforços. em que o método longitudinal é replicado com várias coortes.MICHAEL COLE & SHEILA R. pode-se. passavam a temer que pudessem perder seus pais. as crianças desse estudo viveram durante a Grande Depressão. Para estudar o desenvolvimento da memória.8 compara delineamentos de pesquisa longitudinais e transversais. Alguns têm usado um delineamento seqüencial da coorte. cada uma delas estudada longitudinalmente. parecem estar relacionadas às diferenças na idade podem. formular hipóteses sobre mudanças desenvolvimentais nos processos de memória. surgir devido a diferenças na coorte. em torno dos nove anos de idade. ou ambos (Elder. Consideremos. COLE 51 delineamento seqüencial da coorte Um delineamento experimental em que o método longitudinal é replicado com várias coortes. os pesquisadores têm FIGURA 1. não seria possível determinar se as tendências da idade observada refletiam leis gerais do desenvolvimento – na verdade. Essa modificação do delineamento longitudinal permite que os fatores relacionados à idade sejam separados dos fatores relacionados à coorte. em 1932. Em seus primeiros anos. então. realmente. iniciado em Londres. em qualquer tempo e em qualquer lugar –. para ver como elas recordam uma lista de palavras familiares. Se os recursos permitirem. mais tarde. por exemplo. os pesquisadores podem usar vários meios para superar essas falhas. 10. Aos nove ou dez anos. 1998). por exemplo.8 A diferença entre os delineamentos de pesquisa longitudinal e transversal. ou se eram o resultado de experiências vividas em uma época e local particular. Se os resultados de um tal estudo indicassem que os medos das crianças concentravam-se inicialmente na fome e. em uma tentativa de mantê-las a salvo dos bombardeios noturnos da cidade. Delineamentos transversais O delineamento de pesquisa desenvolvimental mais amplamente usado é chamado de delineamento transversal (ou cross-sectional) porque os grupos que representam uma faixa de idade são estudados ao mesmo tempo. muitas delas perderam pai ou mãe ou ambos na Segunda Guerra Mundial e muitas outras foram separadas dos pais e enviadas para o campo.

tanto com os métodos longitudinais quanto com os métodos transversais. Esses resultados podem refletir uma tendência universal para o declínio da memória com a idade. Para serem adequadamente conduzidos. Uma segunda dificuldade dos estudos transversais é que. Mas a diferença pode também ser causada por diferenças na nutrição na infância. Além disso. quando os teóricos formulam hipóteses sobre o desenvolvimento partindo da base de um estudo transversal. Vygotsky. quando as pessoas de 20 anos de idade eram crianças. que têm mostrado afetar o desenvolvimento intelectual (Pollitt. não pode levar em conta o processo desenvolvimental pelo qual a capacidade e as estratégias de memória mudam no decorrer do tempo. eles devem utilizar extrapolação e conjetura com relação aos processos de mudança. 1996). Suponhamos que o estudo tenha sido conduzido em 2000. e foi demonstrado que a educação melhora o desempenho em testes de memória (Cole. Entretanto. os métodos microgenéticos são usados com crianças que se considera estarem à beira de uma importante mudança desenvolvimental. A possível presença desses efeitos desconcertantes da coorte significa que se deve tomar muito cuidado ao interpretar estudos transversais. Consideremos as possibilidades de um estudo hipotético de desenvolvimento da memória. consome menos tempo e é menos dispendioso que uma abordagem longitudinal. Siegler e Stern. como o desempenho da memória é mantido pela prática constante proporcionada pelo ensino. quanto na década de 1980. As pessoas de 70 anos também têm probabilidade de ter recebido menos educação que aquelas de 20 anos. etnia. O compromisso de curto prazo requerido dos participantes também torna mais provável que uma amostra representativa seja recrutada e que poucos participantes saiam do estudo. os desenvolvimentalistas. A nutrição em geral não foi tão boa na década de 1930. assim como os estudos longitudinais. os estudos transversais também têm falhas. é o fato de eles não proporcionarem evidências diretas sobre o processo de mudança no desenvolvimento.52 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE realizado muitos estudos transversais do desenvolvimento da memória que têm demonstrado mudanças desenvolvimentais tanto quantitativas quanto qualitativas. Apesar dessas características atraentes. às vezes. usam procedimentos especiais chamados métodos microgenéticos. por exemplo. se lhes for proporcionada uma densa experiên- método microgenético Um método de pesquisa em que o desenvolvimento das crianças é estudado intensivamente durante um período de tempo relativamente curto. Ou seja. As vantagens do delineamento transversal são visíveis. esses estudos precisam garantir que todos os outros fatores relevantes além da idade sejam mantidos constantes. Suponhamos também que o estudo tenha mostrado que as pessoas de 70 anos de idade tiveram um desempenho pior que aquelas de 20 anos de idade. que vamos examinar nos capítulos posteriores (Schneider e Bjorklund. eles cortam o processo contínuo de desenvolvimento em uma série de impressões breves e desconectadas. escolarização. a composição de todos os grupos de idade deve ser a mesma em termos de sexo. Métodos microgenéticos Uma preocupação comum. 1998). 1998. Uma formação universitária era muito mais comum na década de 1990 do que na década de 1950. os transversais podem confundir as mudanças e as características particulares relacionadas à idade com uma determinada coorte. Para tentar aproximar-se mais na observação dos processos de mudança. às vezes apenas algumas horas ou alguns dias (Miller e Coyle. Embora um estudo desse tipo possa ser usado para contrastar as maneiras gerais em que crianças de quatro e 10 anos de idade se lembram de uma lista de palavras. 1994). a partir dos quais estudam intensivamente o desenvolvimento das crianças durante períodos de tempo relativamente curtos. Assim. de tal forma que. 1999. através da amostragem do comportamento de pessoas de idades diferentes em um mesmo momento. 1978). Como ele realiza a amostragem de vários níveis de idade ao mesmo tempo. . condição socioeconômica. etc. é possível que as pessoas de 70 anos tenham tido um desempenho pior porque estão fora da escola há muito tempo. uma vez que não acompanha as mesmas crianças por esse período de tempo. Via de regra. quando as pessoas de 70 anos de idade eram crianças.

um registro da mudança mais ou menos contínuo.MICHAEL COLE & SHEILA R. Os métodos padronizados. as vantagens e os problemas dos vários métodos de pesquisa serão citados repetidas vezes. na medida em que se aplicarem a aspectos específicos do desenvolvimento. Os métodos microgenéticos podem revelar o processo de mudança em uma pequena escala de tempo. Desvantagens Validade inconfiável ou incerta. Os resultados podem ser confundidos com o tempo histórico. Deve-se tomar cuidado ao generalizar períodos de tempo mais longos. mas podem fragmentar artificialmente o processo de desenvolvimento. Dispendioso e difícil de usar. há um risco de que confundam idade com coorte e que as amostras sejam tendenciosas. mas são fracas quando se trata de estabelecer relacionamentos causais. Robert Siegler (1996) oferece uma analogia útil para se entender como os métodos microgenéticos diferem de estudos que fazem uma amostragem do comportamento das crianças em intervalos de meses ou anos. nos proporcionam impressões breves do desenvolvimento. às vezes. mas os resultados obtidos podem não ser generalizáveis além dos limites artificiais da situação experimental. a menos que sejam suplementados por procedimentos mais complexos. mas não é provável que nenhum delineamento ou método sirva a todos os propósitos (Tabela 1. Observações naturalistas coletadas de forma sistemática produzem informações essenciais sobre as atividades da vida real das pessoas. Acompanha o desenvolvimento como um processo que ocorre no decorrer do tempo. mas. Nos capítulos que se seguem.1). mas são. Observa o processo de mudança em períodos curtos de tempo. DELINEAMENTOS DA PESQUISA E TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS EM PERSPECTIVA Cada delineamento e cada método para coleta de dados tem seus usos. Os métodos de entrevista clínica podem revelar a dinâmica do pensamento e dos sentimentos do indivíduo. Os delineamentos longitudinais mostram o comportamento dos mesmos indivíduos no decorrer do tempo. Em contraste. Os experimentos podem isolar fatores causais em ambientes específicos. Dificuldade para generalizar além do caso único ou estabelecer relações causais. Microgenético Transversal . mas os resultados podem não ser generalizáveis para períodos de tempo mais longos. escreve ele. Entrevista clínica Delineamento Longitudinal Focaliza a dinâmica do desenvolvimento individual. Os delineamentos transversais são mais eficientes. Os achados são vulneráveis de se confundir com outras variáveis além da idade. TABELA 1. Difícil estabelecer relações causais. de validade questionável.1 TÉCNICAS E DELINEAMENTOS DA PESQUISA Vantagens Técnica Auto-relato Observação naturalista Experimento Proporciona acesso à informação singular. mas são difíceis de generalizar além do caso particular. Perde o sentido de continuidade no desenvolvimento. Revela tendências de idade. A repetição do teste pode invalidar os resultados. os métodos microgenéticos nos proporcionam um filme. Os auto-relatos proporcionam um insight único no processo de desenvolvimento a partir da perspetiva do indivíduo. Melhor método para testar hipóteses causais. será possível vê-las desenvolver formas de comportamento mais sofisticadas bem diante dos olhos do observador. Às vezes impossível por razões éticas Os procedimentos artificiais podem distorcer a validade dos resultados. Toma relativamente pouco tempo para administrar. Revela a total complexidade do comportamento e sua ecologia. COLE 53 cia em que encontrem a maneira certa de lidar com um desafio desenvolvimental complexo.

Para citar um exemplo ao qual retornaremos no Capítulo 11 (p.54 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE O PAPEL DA TEORIA Ao contrário da crença amplamente defendida. Um entendimento mais profundo do desenvolvimento humano não surge automaticamente do acúmulo contínuo dos fatos. por exemplo. em princípio. a prescrições diferentes sobre a maneira de lidar com esse comportamento preocupante. Os fatos que os psicólogos desenvolvimentais coletam só nos ajudam a entender o desenvolvimento quando são reunidos e interpretados em termos de uma teoria. Suas teorias diferentes e os dados que enfocam para avaliar essas teorias conduzem. p. as pessoas de duas culturas podem concordar que uma criança está se comportando de maneira selvagem e irreverente em uma sala de aula de pré-escola. A observação de Einstein aplica-se tanto às tentativas dos psicólogos de entender o mundo humano quanto se aplica vigorosamente às investigações do mundo físico. são controvertidas. temos omitido a abordagem psicodinâmica. em geral. o que ocorre é bem o contrário. Na realidade. A observação do mundo pode ser útil. de acordo com as respostas básicas que dão às três questões fundamentais do desenvolvimento anteriormente citadas: (1) Quais são as contribuições relativas da natureza e da educação para o desenvolvimento? (2) O processo da mudança desenvolvimental é contínuo ou descontínuo? (3) O que causa as diferenças individuais? Por todo este livro vamos nos referir a estas quatro abordagens amplas: maturação biológica. Atualmente.) Os psicólogos do desenvolvimento atuais usam medidas fisiológicas. Nenhum dos dois vem “primeiro”. Embora suas obras permaneçam influentes. à luz de uma teoria relevante. ambos encaravam. Os psicólogos do desenvolvimento (assim como os pais) do Japão e dos Estados Unidos defendem teorias diferentes sobre aquilo que faz com que as crianças se comportem mal. associada aos nomes de Sigmund Freud e Erik Erikson. Albert Einstein observou que a teoria está silenciosamente presente. mesmo quando achamos estar “observando objetivamente o mundo”. aprendizagem. 439). porque tanto Freud quanto Erikson derivaram a maior parte de seus dados de entrevistas clínicas realizadas com adultos sobre sua infância e porque. teoria Uma estrutura ampla ou um conjunto de princípios que pode ser usado para orientar a coleta e a interpretação de um conjunto de fatos. . Aqui. o desenvolvimento normal através do prisma da doença mental. Essas perspectivas podem ser agrupadas em quatro abordagens. Onde um investigador americano provavelmente verá uma agressão descontrolada. Em vez disso. É a teoria que decide o que podemos observar. mas. uma cientista da Universidade da Califórnia usa eletrodos para monitorar a atividade cerebral de um bebê de oito semanas de idade em resposta a padrões diferentes de cor e ao toque de um sino. para entender os fatores complexos que atuam no desenvolvimento. por sua vez. (Citado em Sameroff. uma estrutura de idéias ou corpo de princípios que podem ser usados para guiar a coleta e interpretação de um conjunto de fatos. virá através de novas tentativas para extrair sentido do acúmulo de evidências no desenvolvimento. sendo antes de tudo clínicos.9). diz ele. mas interpretam os mesmos fatos de maneiras muito diferentes. Em nosso uso de quatro estruturas amplas. Essas teorias fazem com que elas observem e enfatizem aspectos diferentes do mesmo comportamento. duas figuras fundamentais da psicologia desenvolvimental. Como a hereditariedade e o ambiente. eles surgem e existem juntos. o campo é abordado a partir de várias perspectivas teóricas. 1983. um investigador japonês provavelmente verá uma expressão de distúrbio da dependência. além de observações comportamentais. A dificuldade de qualquer categorização simplificada do estudo do desenvolvimento humano é a omissão de casos importantes. Em vez disso. é absolutamente errado tentar fundamentar uma teoria apenas em magnitudes observáveis. os fatos não “falam por si”. 243. construtivismo e contexto cultural (ver Figura 1. não há uma perspectiva teórica ampla e única que unifique todo corpo de conhecimento científico relevante sobre o desenvolvimento humano. os fatos e as teorias seguem juntos.

Nos capítulos que se seguem. ou . A abordagem da maturação biológica Todas as teorias sobre a maturação biológica compartilham uma visão central de que a fonte das mudanças que caracterizam o desenvolvimento humano é endógena. Na quarta. na emergência de novas formas do brinquedo na segunda infância e no desenvolvimento da capacidade de raciocinar hipoteticamente na adolescência. COLE 55 ABORDAGEM B FATORES CONTRIBUINTES Maturação biológica A B Aprendizagem A B Construtivismo A B Contexto cultural FIGURA 1. Nas três primeiras. As abordagens amplas que identificamos proporcionam maneiras distintas e valiosas de se encarar todo o processo do desenvolvimento. O que se segue aqui é apenas uma visão geral breve das quatro estruturas. CUA B = Fatores biológicos A = Fatores ambientais CUA = Características universais do ambiente C = Cultura (características historicamente específicas do ambiente) Cada uma das abordagens amplas abrange muitas teorias específicas que se concentram em aspectos particulares do desenvolvimento humano. encontraremos teorias sobre esses tópicos. endógeno O termo aplicado a causas de desenvolvimento que surgem como uma conseqüência da herança biológica do organismo. como as origens dos conceitos no início do desenvolvimento pós-natal. a estrutura do contexto cultural. vamos retornar a elas para explorar o que podem nos dizer sobre aspectos particulares da mudança desenvolvimental. os fatores biológicos e ambientais interagem diretamente um com o outro para moldar o indivíduo.MICHAEL COLE & SHEILA R. a herança biológica e as características universais do ambiente atuam indiretamente através da cultura.9 C Quatro abordagens teóricas para interpretar a influência da natureza e da educação. Nos capítulos posteriores.

um dos psicólogos do desenvolvimento mais influentes do início do século XX: O ambiente . (1940. as tendências humanas maturação Uma seqüência de mudanças que são fortemente influenciadas pela herança genética e que ocorrem quando o indivíduo fica mais velho. seja. . determina a ocasião. 239). quando consideramos o processo do desenvolvimento individual. Entre os teóricos do desenvolvimento. escreveu ele. Desse ponto de vista. Freud foi o primeiro a enfatizar a importância da vida emocional para a formação e o funcionamento da personalidade humana.56 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Arnold Gesell testando uma criança na sala de observação do Centro de Estudos da Criança da Universidade de Yale. como Gesell. Freud. “O fator constitucional”. atribuíram algum papel ao ambiente. Estas são determinadas por mecanismos inerentes à maturação. até a plena idade adulta. 1905/1953a. Em outras palavras. na concepção.. a principal causa de desenvolvimento é a maturação. “precisa antecipar as experiências antes de poder se fazer sentir” (Freud. A conhecida crença de Freud de que a gratificação de demandas biológicas básicas fosse o motivo primário do comportamento humano situa-o entre os teóricos da maturação biológica. p. Em sua opinião.. p. que a mudança vem de dentro do organismo como uma conseqüência dos genes que o organismo herda. Contudo. as idéias de Sigmund Freud (1856-1939) exerceram uma enorme influência sobre os conceitos modernos da natureza humana. a intensidade e a correlação de muitos aspectos do comportamento. 13) Como já mencionamos anteriormente. mas não engendra as progressões básicas do desenvolvimento do comportamento. Os psicólogos cujas teorias são embasadas na maturação biológica têm maior probabilidade de encarar o desenvolvimento psicológico como uma progressão em etapas que acompanham (e são causadas por) mudanças biológicas do organismo. uma seqüência de mudanças geneticamente determinadas que ocorrem desde um ponto inicial imaturo. Esse ponto de vista foi claramente expressado por Arnold Gesell (1880-1961). o papel do ambiente é secundário na moldagem do curso básico do desenvolvimento.

sim. assim. 1998).F. atuando através dos mecanismos de aprendizagem. A abordagem da aprendizagem As teorias que recaem na perspectiva da aprendizagem não negam que os fatores biológicos proporcionam uma base para o desenvolvimento. declaram que o ambiente. que moldam o comportamento e as crenças das crianças. a aprendizagem. Os estudos modernos da aquisição de linguagem são um exemplo proeminente disso. p. nas últimas décadas. inclinações. os pesquisadores têm mostrado que alguns aspectos da personalidade e da inteligência têm uma forte base genética (Plomin et al. particularmente dos adultos. Mônica nunca foi alimentada oralmente nem segurada no colo enquanto era alimentada quando bebê.. definida como o processo pelo qual o comportamento de um organismo é modificado pela experiência. A capacidade de usar a linguagem é herdada por todos os seres humanos e parece amadurecer em uma velocidade determinada. ou seja. De acordo com essas teorias. Além disso. negociante e. bem-formados. 1997). assim. tendências. (1930. capacidade. Dê-me uma dúzia de bebês saudáveis.. que não tinha o mesmo defeito. Watson (1878-1958). mas declaram que as principais causas da mudança desenvolvimental são exógenas. as personalidades individuais. que elas provêm do ambiente. vocações e raça dos seus ancestrais. e o meu próprio mundo especificado para criá-los. até mesmo mendigo e ladrão. As pesquisas também têm mostrado que a aprendizagem desempenha um papel importante em processos “biológicos”. é o principal mecanismo para o desenvolvimento. COLE 57 básicas são biologicamente determinadas mas é o ambiente social que dirige a maneira como essas tendências serão satisfeitas. moldando. parece que sua origem não depende de interações com o ambiente pós-natal (Baillargeon. 1998. colocandoas na mesma posição em que ela havia sido amamentada. Essa pressuposição é bem captada pela descrição metafórica de B. Seu enfoque no ambiente como a principal influência sobre o desenvolvimento conduz muitos teóricos da aprendizagem ambiental a enfatizar a natureza gradual e contínua da mudança. Quando ficou mais velha. independente dos seus talentos. A perspectiva da maturação biológica sobre o desenvolvimento humano foi esquecida nos meados do século XX mas. Diz-se também que várias habilidades intelectuais básicas estão presentes de forma rudimentar antes ou próximo ao nascimento. Spelke e Newport. particularmente dos adultos (que moldam o comportamento e as crenças das crianças) através de recompensas e punições. 104) exógeno O termo aplicado a causas de desenvolvimento que vêm do ambiente. artista. 1986). John B. dava a mamadeira para sua filha. A persistência do seu comportamento singular reflete a importância duradoura da primeira experiência de aprendizagem das crianças. é fundamental para a moldagem do desenvolvimento (Gewirtz e Pelaez-Nogueras. Skinner sobre a maneira como o ambiente . desfrutou de uma atenção renovada. Embora as teorias modernas da aprendizagem ambiental não mais compartilhem da visão extremada de Watson. aprendizagem O processo pelo qual o comportamento de um organismo é modificado como resultado da experiência. 1998. Essas pesquisas mostram que o enriquecimento das experiências sociais e cognitivas dessas crianças aumenta dramaticamente seu desenvolvimento social e cognitivo posterior (Clarke e Clarke. 1992). e eu garanto pegar qualquer um deles aleatoriamente e treiná-lo para se tornar qualquer tipo de especialista que eu escolha – médico. Patterson et al. 1998). Talvez a maior evidência em apoio a essas teorias venha de estudos realizados com crianças que viviam quase isoladas devido a alguma circunstância ou que foram criadas em orfanatos com pouco estímulo intelectual. ela alimentava suas bonecas e. advogado. como desenvolvimento do gênero e agressividade (Maccoby. sugerindo a alguns pesquisadores que o ambiente desempenha um papel apenas desencadeante da realização do potencial lingüístico (Pinker. 1994). tinha tanta certeza do papel primordial da aprendizagem no desenvolvimento que se vangloriava: Devido a um defeito de nascença que requeria que ela fosse alimentada através de um tubo diretamente ligado ao estômago. mais tarde. um dos primeiros teóricos da aprendizagem.MICHAEL COLE & SHEILA R.

Piaget e seus seguidores também afirmam que o ambiente não influencia as crianças da mesma maneira em todas as idades. Como veremos nos capítulos posteriores.. em um ambiente que o afeta tanto quanto o seu ambiente físico.58 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE molda o comportamento como um escultor molda um pedaço de argila. dependem muito.. o escultor pareça ter produzido um objeto inteiramente novo. muda a própria estrutura do indivíduo . as crianças constroem níveis de conhecimento sucessivamente mais elevados. Nesse sentido importante. acreditava que o papel do ambiente no desenvolvimento vai bem além do desencadeamento do potencial inato da criança: O ser humano está imerso. quer se trate de um grupo de pares de quatro ou de 14 anos de idade. Não obstante. ele. Piaget dizia que “o conhecimento não é uma cópia da realidade” (1964. similarmente aos teóricos maturacionistas. 8). Piaget iniciou sua carreira científica como biólogo e continuou a se preocupar com o desenvolvimento biológico. mas não conseguimos encontrar um ponto em que isso de repente apareça. Um importante defensor dessa perspectiva foi o psicólogo do desenvolvimento suíço Jean Piaget (1896-1980). os psicólogos contemporâneos que seguem a tradição estabelecida por Piaget aperfeiçoaram ou refinaram algumas de suas idéias. 1973. p. Um grupo de crianças de quatro anos difere muito de um grupo de adolescentes de 14 anos de idade. ainda. a abordagem construtivista supõe que os processos de mudança desenvolvimental sejam os mesmos em todos os grupos humanos: eles são universais na espécie. por mais insignificante que seja. porque tanto as circunstâncias do amadurecimento quanto as circunstâncias ambientais estão reciprocamente envolvidas no processo de mudança. Em nenhum ponto emerge algo que seja muito diferente daquilo que o precedeu. Piaget (1974) também acreditava que o desenvolvimento podia ser acelerado ou abrandado por variações no ambiente (como a presença ou ausência de ensino formal).. Eles afirmam que a natureza e a educação são igualmente necessárias para o desenvolvimento. em certo sentido. em algum ponto. Toda relação entre indivíduos (de dois em diante) literalmente os modifica. Segundo a maneira de pensar construtivista. lutando ativamente para dominar seu ambiente. O grupo de pares. 156) O que distingue especialmente as teorias construtivistas das teorias maturacionistas e das de aprendizagem é a importância que os construtivistas dão ao papel ativo das crianças na moldagem do seu próprio desenvolvimento. Em vez disso. estabelecer os estágios sucessivos pelos quais retornamos a essa condição. (Piaget. p. 91) A abordagem do construtivismo Em contraste com a maturação biológica e os teóricos da aprendizagem. mistura de gêneros e influências dependem da idade da criança. se assim o quisermos. grupo de pares. Contexto cultural Os psicólogos cujo trabalho recai em uma das três abordagens teóricas acima descritas supõem que o desenvolvimento surge da interação de dois fatores: herança biológica . os psicólogos cujas teorias recaem na visão construtivista acham inadequado atribuir mais importância à natureza ou à educação. São seres biossociais. enfatizando o fato de que o conhecimento que adquirimos resulta da maneira como modificamos e transformamos o mundo. mais ainda que o ambiente físico. mas que todas as crianças passavam pela mesma seqüência básica de mudanças. Baseado nos dados de outras culturas. A sociedade. podemos sempre seguir o processo de volta ao pedaço de argila original e informe e podemos. por exemplo. as influências do ambiente dependem do atual estágio de desenvolvimento da criança. esses investigadores concordam com a ênfase de Piaget no papel fundamental do envolvimento ativo das crianças no mundo e na sua insistência de que a biologia e o ambiente desempenham papéis recíprocos na mudança evolutiva. Embora. O produto final parece ter uma unidade especial ou uma integridade. assim como os defensores da aprendizagem. (1953.. p. Ao mesmo tempo. sua constituição. desde o nascimento.

Mas. essa abordagem não visa uma compatibilidade entre etapas de habilidades e comportamento.. Como está indicado na base da Figura 1. Lev Vygotsky. segundo a perspectiva do culturalismo. embora essas crianças consigam resolver com facilidade problemas matemáticos no mercado. Eles também dependem do próprio conhecimento que o adulto tem da matemática.MICHAEL COLE & SHEILA R. O desenvolvimento do conhecimento matemático também é influenciado pelos contextos no quais o conhecimento é usado. Os psicólogos que atuam dentro da abordagem culturalista também concordam que os fatores biológicos e experienciais têm papéis recíprocos a desempenhar no desenvolvimento e. preparando as condições nas quais interagem fatores biológicos e ambientais. um grupo que vive na selva da Nova Guiné. No entanto. elas aprendem a contar usando as partes do corpo. Mas diferem dos outros teóricos declarando que uma “terceira força” – a cultura – faz parte dessa mistura. até a existência ou não-existência de um estágio particular de desenvolvimento – pode depender das circunstâncias culturais e históricas da criança (Rogoff. a abordagem culturalista é mais aberta à idéia de que a seqüência das mudanças evolutivas que uma criança experimenta – e. 1993). como os construtivistas. acreditam que as crianças constroem seu próprio desenvolvimento através de um engajamento ativo com o mundo. por exemplo. aos valores. Em primeiro lugar. codificada em sua linguagem e incorporada aos artefatos físicos. Ela antecipa uma ampla variabilidade em um dado desempenho individual. a cultura contribuiu para o curso do desenvolvimento. 1978). Vygotsky. pelo qual a pessoa se move de um tipo de atividade para outra. a abordagem culturalista supõe que as crianças e seus cuidadores são agentes ativos no processo do desenvolvimento. parecem ter a mesma capacidade universal para captar conceitos numéricos básicos que as crianças que crescem em Paris ou Pittsburgh. teórico de destaque do papel da cultura no desenvolvimento. mas é perfeitamente adequado para lidar com as tarefas da vida cotidiana na cultura oksapmin tradicional (Saxe. Greenfield. observando crianças brincando. Os pontos de vista da abordagem culturalista e construtivista são similares em vários aspectos. eles diferem em três aspectos importantes. Esse sistema seria desajeitado para as crianças que precisam resolver problemas de aritmética na escola e.9. Ambos declaram que o indivíduo sofre mudanças qualitativas no curso do seu desenvolvimento e ambos enfatizam que o desenvolvimento é impossível sem a participação ativa do indivíduo. No Brasil. da criança e seu ambiente. As crianças que crescem entre os oksapmin. aos costumes e às atividades que são passadas de uma geração para a seguinte (Bruner. por sua vez. O desenvolvimento é. elas interagem indiretamente através da cultura. Em segundo lugar. nesse sentido. 1994). Em terceiro lugar. às crenças. COLE 59 Jean Piaget. As abordagens divergem no peso relativo que atribuem a cada uma dessas duas fontes de influência no desenvolvimento e também na maneira como as enxergam interagindo para produzir desenvolvimento. 1998). Em vez disso. mas em vez de aprenderem a usar um sistema numérico para contar. que. natureza e educação não interagem diretamente. 1998. co-construído. Em cada um desses casos. depende de sua herança cultural. têm dificuldade em resolver os mesmos problemas quando apresentados sob um formato acadêmico (Nuñes et al. na verdade. na economia monetária da cultura ocidental. as crianças que vendem objetos nas ruas desenvolvem habilidades matemáticas notáveis no decorrer do comprar e vender cotidiano. 1997. cujo trabalho teve uma influência profunda na psicologia do desenvolvimento. 1996. e sua filha. Uma maneira pela qual a cultura influencia o desenvolvimento aparece na aquisição de compreensão matemática das crianças. mais tarde. . Valsiner. Os tipos de pensamento matemático que a criança desenvolve não dependem apenas da sua capacidade para lidar com abstrações e dos esforços dos adultos para prepará-los para aprender conceitos matemáticos.

O quadro “completo”.60 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Nenhuma das teorias que esboçamos é suficientemente abrangente para proporcionar um quadro completo de todas as complexidades do desenvolvimento humano. como descrever as maneiras em que se associam e recombiná-los para constituir uma pessoa inteira e viva. Esse primeiro sorriso recíproco cria uma nova qualidade de contato emocional entre o bebê e os pais e é reconhecido. Ele surge a partir de mudanças que ocorrem nas fibras neurais que conectam o olho com o cérebro. sociais e comportamentais convergem para causar formas distintamente novas de comportamento. porque. essas teorias poderiam ser melhor encaradas como filtros. sociais e comportamentais dão lugar a formas distintamente novas de comportamento.2 esboça as mudanças biossociocomportamentais que parecem proeminentes no desenvolvimento da criança desde a concepção até a idade adulta. com cada teoria destacando algumas características do processo geral de desenvolvimento. desenvolvida por Robert Emde e sua equipe (Emde et al. da presença de adultos prontos para sorrir para a criança e da resposta emocional especial que essa nova forma de conexão evoca. Embora nem todos os pontos de mudança tenham sido igualmente bem estabelecidos. E como o desenvolvimento é um processo que emerge com o tempo. este livro adota uma abordagem integradora que possibilita apresentar e avaliar diferentes abordagens teóricas de uma maneira sistemática. toda mudança biocomportamental envolve uma mudança no relacionamento entre as crianças e seus mundos sociais. durante os quais uma convergência de mudanças biológicas. como um indicador de um novo estágio de desenvolvimento. Na verdade. enfatiza mudanças fundamentais que se processam por meio de etapas ou estágios. se pudesse ser constituído. A segunda é como manter o acompanhamento dos muitos aspectos do desenvolvimento que estão ocorrendo simultaneamente. este livro também adota uma abordagem cronológica como a melhor maneira de entender o processo envolvido. os bebês primeiro fazem um contato concentrado com o olho e sorriem em resposta ao sorriso da outra pessoa. Ao adotar a idéia de uma mudança biocomportamental. como observam Emde e sua equipe. Nossa solução para essas dificuldades tem sido adotar uma perspectiva que proporcione uma maneira determinante de observar os períodos da infância e. Como indica o início do sorriso social. enfatizar a ação simultânea de muitos fatores. mas também são tratadas de maneira diferente por outras pessoas. Não há uma causa para o sorriso recíproco. teria de ser uma perfeita coordenação das várias imagens do desenvolvimento vistas através de diferentes filtros. as crianças não somente experimentam de novas maneiras o ambiente social como um resultado das mudanças em seu comportamento e composição biológica. O protótipo para essa mudança é a transição que ocorre quando. usamos o termo mudança biossociocomportamental para nos referirmos a pontos de transição importantes no desenvolvimento. Emde e seus colegas referem-se a esse tipo de transição como uma mudança biocomportamental porque a reorganização resultante do funcionamento da criança emerge da interação de fatores biológicos e comportamentais. 1976).. em várias sociedades. Entretanto. acrescentamos a dimensão social do desenvolvimento. Essa perspectiva. Por isso. . ao mesmo tempo. ESTE LIVRO E O CAMPO DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Devido à falta de uma teoria do desenvolvimento amplamente aceita que unifique o campo. do aumento da densidade das células na retina do olho. eles proporcionam um meio proveitoso de organizar as discussões do desenvolvimento porque requerem que consideremos tanto as fontes de mudança quanto as mudança biossociocomportamental Um ponto de transição do desenvolvimento durante o qual as mudanças biológicas. A primeira é como segmentar a história do desenvolvimento em períodos específicos e quanta importância atribuir a cada um desses períodos. (A Tabela 1. às quais eles referem como “mudanças biocomportamentais” – pontos no desenvolvimento em que a interação da maturação biológica e das mudanças comportamentais resulta em uma reorganização do funcionamento da criança. dos dois e meio aos três meses de idade. contar a história do desenvolvimento cronologicamente apresenta duas grandes dificuldades.

uma menina trabalha ao lado de sua mãe e avó. as condições sociais e até mesmo a ocorrência de um período evolutivo podem ser fortemente influenciados por fatores culturais (Rogoff. mas dos processos de desenvolvimento em todas as idades. processando algodão para ser fiado. evidências relacionadas à continuidade e à descontinuidade desenvolvimental de uma maneira sistemática. Além disso. Dentro dessa estrutura cronológica. Burbank e Ratner. 1998. 1986). nosso objetivo é deixar claro como os aspectos biológicos. em alguns casos.MICHAEL COLE & SHEILA R. comportamentais e culturais . O conceito de mudanças biossociocomportamentais ajusta-se razoavelmente bem à uma convenção tradicional que divide o tempo entre a concepção e o início da idade adulta em cinco períodos amplos: o período pré-natal. levamos em conta como o contexto cultural das crianças influencia na velocidade e na organização não somente das mudanças biossociocomportamentais. as concepções culturais do que as crianças são e o que o futuro lhes reserva influenciam a maneira como os pais interpretam o comportamento de seus filhos e molda a sua experiência. Whiting. Cada período recebeu uma parte importante deste livro. a primeira infância. sociais. pais que acreditam que os homens têm de ser agressivos e rudes para sobreviverem no mundo têm maior probabilidade de tratar seus filhos meninos diferentemente do modo como os tratam aqueles pais que acreditam que a agressão dos homens seja um problema. a segunda infância e a adolescência. COLE 61 As abordagens culturalistas prestam atenção especial às variações no desenvolvimento das crianças decorrentes das diferenças nas partes do ambiente provocadas pelo homem. o período até os dois anos e meio. Por exemplo. Nos Sudas Menores da Indonésia. Desde as primeiras horas de vida. o momento. E como já mencionamos.

O que nos torna humanos? Pode a nossa natureza ser remodelada pela experiência. Através dos capítulos que se seguem. Ao contrário. enfatiza a natureza emergente da mudança e o incessante interjogo entre as fontes de desenvolvimento biológicas. sociais.62 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE No México. Também não implica uma “direção de causalidade” uniforme das características biológicas do indivíduo para os fatores sociais e culturais ou qualquer outra coisa. proporciona uma maneira sistemática de ter em mente o jogo de forças intrincado que se combina para produzir desenvolvimento. fundamentais do desenvolvimento estão entrelaçados no processo de mudança de um período para o seguinte. Estas crianças estão brincando sozinhas em frente ao prédio onde moram. marcados por importantes transições em que emergem formas de comportamento distintivamente novas e significativas. em três subperíodos. individuais e culturais. O livro subdivide o período que se estende até os dois anos e meio. ou as características inscritas em nossos genes por ocasião da concepção são relativamente fixadas? Podemos usar o nosso conhecimento do desenvolvimento para nos . no qual a mudança é particularmente rápida. Nossa adoção de uma estrutura biossociocomportamental para o estudo do desenvolvimento não implica um compromisso com uma teoria de estágios rígidos. as questões mais amplas do desenvolvimento que cativaram Itard e seus contemporâneos são temas de recorrência constante. crianças pequenas brincam perto de onde mulheres de sua família trabalham. Em vez disso. na cidade de Nova York.

diferenciação do self. COLE 63 TABELA 1. O que distingue os humanos dos outros animais? 2. até que e a menos que. 7 a 9 meses: consciência da novidade. instrução sistêmica. 1. e em que grau o nosso caráter é o produto de traços inatos? Q Tanto a fé de Itard na promessa de métodos científicos para resolver questões persistentes sobre a natureza quanto muitas de suas técnicas específicas serviram de modelo para o estudo científico do desenvolvimento humano. medo de estranhos. 11 a 12 anos: maturação sexual. PRIMEIRAS INVESTIGAÇÕES Q Um dos primeiros esforços no estudo do desenvolvimento da criança envolveu o trabalho de Jean Marc Itard com o Menino Selvagem de Aveyron. Final da terceira fase do bebê (24 a 30 meses): linguagem gramatical. Esse caso incomum colocou questões fundamentais sobre a natureza humana. emerja uma teoria unificada do desenvolvimento. Idade adulta (19+). Em que grau somos o produto da nossa criação e experiência. nova qualidade do sentimento maternal. Nascimento: transição para a vida fora do útero. raciocínio formal. Como seríamos se crescêssemos isolados da sociedade? 3. RESUMO Q O estudo do desenvolvimento da criança é o estudo das mudanças por que as crianças passam desde o momento da concepção até se tornarem adultas. Adolescência: atividade social orientada pelos sexos. Segunda infância: atividade em grupo de pares. ajudar a planejar nosso futuro e a guiar o crescimento de nossos filhos? É pouco provável que essas perguntas sejam satisfatoriamente respondidas.2 MUDANÇAS BIOSSOCIOCOMPORTAMENTAIS SIGNIFICATIVAS NO DESENVOLVIMENTO Ponto de mudança Concepção: o material genético dos pais combina-se para formar um indivíduo único.MICHAEL COLE & SHEILA R. . tentamos delinear cada capítulo para mostrar os fatos básicos. Como as questões são muito complexas e o conhecimento do campo ainda é limitado. jogo sociodramático. sorriso social. Novo período desenvolvimental Período pré-natal: formação dos órgãos básicos. 2 ½ meses: formação das conexões cerebrais corticais e subcorticais. Primeira fase do bebê: tornando-se adaptado ao ambiente. ligação. jogos baseados em regras. Primeira infância (2½ a 6 anos): níveis desempenho variados. integração da identidade. 5 a 7 anos: responsabilidade para a realização de tarefas sem a supervisão de um adulto. instrução deliberada. os métodos e as teorias de uma maneira que possa ajudar o leitor a pensar proveitosamente sobre as questões fundamentais da área de psicologia do desenvolvimento. identidade de papel sexual. Segunda fase do bebê: aumento da memória e da capacidade sensório-motora. Terceira fase do bebê: pensamento simbólico. 19 a 21 anos: responsabilidade primária sobre si mesmo e criação da próxima geração.

Esses métodos são delineados para garantir que os dados usados para explicar o desenvolvimento sejam objetivos. por meio de etapas ou estágios? 2. Como os aspectos inatos e o ambiente interagem para produzir desenvolvimento? 3. O desenvolvimento envolve o acúmulo gradual de pequenas mudanças quantitativas ou há estágios de desenvolvimento qualitativamente distintos? 3. Até que ponto somos parecidos e diferentes de nossos vizinhos do reino animal? 2. (c) experimentação e (d) entrevista clínica.64 Q O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Q A ascensão inicial da disciplina da psicologia desenvolvimental está intimamente ligada às mudanças sociais realizadas pela Revolução Industrial. (b) observação naturalista. Q São proeminentes entre os métodos de coleta de dados usados pelos psicólogos do desenvolvimento: (a) auto-relatos. Q O problema das diferenças individuais concentra-se em duas questões: 1. válidos e passíveis de replicação. confiáveis. da educação e do trabalho. Alguns delineamentos de pesquisa básicos são: . Há períodos críticos no desenvolvimento? Q As questões sobre as fontes de desenvolvimento deram origem a pontos de vista concorrentes sobre as contribuições da biologia (natureza) e do ambiente (educação) para o processo do desenvolvimento. que alteraram fundamentalmente a natureza da vida familiar. Como as pessoas desenvolvem características estáveis que as diferenciam umas das outras? Q As questões sobre a continuidade ramificam-se em aspectos mais específicos: 1. PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO MODERNA Q Os psicólogos do desenvolvimento modernos estudam as origens do comportamento humano e a seqüência das mudanças físicas. O que torna os indivíduos diferentes um do outro? 2. Até que ponto as características individuais são estáveis no decorrer do tempo? A DISCIPLINA DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Q Os psicólogos do desenvolvimento usam vários métodos de coleta de dados em seus esforços para conectar teorias abstratas às realidades concretas da experiência cotidiana das pessoas. O processo do desenvolvimento é gradual e contínuo ou é marcado por descontinuidades abruptas. cognitivas e psicossociais que as crianças sofrem à medida que vão crescendo. inspirando os cientistas a estudá-las em busca de evidências da evolução. Q Uma tarefa importante dos psicólogos do desenvolvimento é aplicar o conhecimento que adquirem para a promoção do desenvolvimento saudável. A tese de Darwin de que os seres humanos se desenvolveram a partir de espécies previamente existentes aumentou o interesse científico pelas crianças. QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Q Muitas questões científicas e sociais sobre o desenvolvimento giram em torno de três preocupações fundamentais: 1. Q Os delineamentos de pesquisa que incluem comparações entre crianças de idades diferentes permite aos pesquisadores estabelecer relações entre os fenômenos do desenvolvimento.

Ter sempre em mente esses fatores nos ajuda a manter um quadro do desenvolvimento integral da criança. proporcionando uma abordagem conceitual ampla dentro da qual os métodos e os delineamentos de pesquisa são organizados e os fatos podem ser interpretados. Delineamento transversal – diferentes crianças de várias idades são estudadas ao mesmo tempo. 3. De acordo com as teorias da aprendizagem. originando-se da herança biológica do organismo. p. p. Delineamentos microgenéticos – as mesmas crianças são estudadas repetidamente por um espaço de tempo curto durante um período de mudança rápida. p. 52 delineamento longitudinal. p. A teoria desempenha um papel importante na psicologia do desenvolvimento. 4. 38 experimento. 44 biografia do bebê. 56 correlação. p. COLE 65 Q Q Q 1. De acordo como construtivismo. p. p. 4. Quatro abordagens teóricas importantes organizam uma grande proporção da pesquisa do desenvolvimento da criança: 1. 49 mudança biossociocomportamental. 30 método microgenético. Da mesma forma que o construtivismo. fundamentalmente. p. ESTE LIVRO E O CAMPO DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Q O conceito da mudança biossociocomportamental destaca as maneiras pelas quais os fatores biológicos. 43 método clínico. 50 maturação. 47 cultura. p.MICHAEL COLE & SHEILA R. mas também enfatiza que as interações a partir das quais o desenvolvimento emerge são. p. p. p. 35 . 43 coorte. Nenhum método ou delineamento de pesquisa pode fornecer as respostas para todas as questões que os psicólogos do desenvolvimento procuram resolver. Delineamentos seqüenciais da coorte – o método longitudinal é repetido com várias coortes. p. 3. 60 delineamento seqüencial da coorte. p. 57 filogenia. 39 grupo experimental. 39 grupo-controle. p. p. 44 confiabilidade. Os papéis dos fatores ambientais e biológicos são de igual magnitude. A escolha do delineamento da pesquisa depende da questão específica que está sendo tratada. as fontes do desenvolvimento são fundamentalmente endógenas. p. Segundo a abordagem da maturação biológica. 2. 30 auto-relato. p. o desenvolvimento surge da adaptação ativa do organismo ao ambiente. a mudança do desenvolvimento é provocada principalmente por fatores exógenos que surgem no ambiente. p. o culturalismo atribui importância tanto aos fatores biológicos quanto aos fatores ambientais do desenvolvimento. Delineamentos longitudinais – as mesmas crianças são estudadas repetidamente durante um período de tempo. 51 natureza. 2. p. cada uma delas estudada longitudinalmente. moldadas pelos padrões de vida que compõem a cultura de qualquer grupo dado. sociais e comportamentais interagem em um contexto cultural para produzir mudança desenvolvimental. 43 aprendizagem. 38 hipótese científica. PALAVRAS-CHAVE amostra representativa.

40 educação. p. p. p. 40 exógeno. 38 QUESTÕES PARA PENSAR 1. p. p. 3. 28 ecologia. p. Partindo da sua experiência. p. Rotule essas diferenças como qualitativas ou quantitativas. 35 endógeno. p. 5. p. p. 54 validade. 55 estágios de desenvolvimento.66 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE delineamento transversal. 35 replicabilidade. 49 desenvolvimento da criança. p. 40 etologia. 2. Relacione três maneiras pelas quais a pessoa que você era aos cinco anos de idade se diferenciava da pessoa que você era aos 15 anos de idade. dê quatro explicações possíveis para o comportamento do Menino Selvagem de Aveyron. p. 38 teoria. Que fatores causais você acredita serem fundamentalmente responsáveis por cada uma dessas semelhanças e diferenças? . 39 ontogenia. 31 período crítico. dê um exemplo de como o estudo científico do desenvolvimento da criança tem afetado a maneira como estão sendo criadas as crianças da geração atual. p. 33 período sensível. p. p. 38 observação naturalista. Você tem alguma pergunta a fazer sobre o desenvolvimento das crianças? Como acha que os cientistas podem conseguir achar a resposta? 4. 41 objetividade. 31 etnógrafos. Relacione duas maneiras importantes nas quais você se parece com seu melhor amigo e duas maneiras importantes em que vocês são diferentes. p. p. 57 nicho desenvolvimental. p. Usando argumentos das quatro perspectivas teóricas descritas neste capítulo.