You are on page 1of 7

Recensão

Texto de:

Cardoso, A. (2008). "Desenvolver Competências de Análise Linguística". In


Desenvolver Competências em Língua Portuguesa (p. 159). Otília Sousa e
Adriana Cardoso (Eds.). Lisboa: Centro Interdisciplinar de Estudos
Educacionais da Escola Superior de Educação de Lisboa. 1ª ed. Novembro
Na muito útil e oportuna compilação de artigos coligidos em Desenvolver
Competências em Língua Portuguesa 1, Adriana Cardoso apresenta o seu
ensaio: "Desenvolver Competências de Análise Linguística". Texto bem
estruturado, cruzando, agilmente, reflexão teórica com considerações práticas
e propostas de actividade, a autora não deixa de nos surpreender com a sua
qualidade e minúcia de análise. Trata-se de um trabalho organizado em quatro
“secções”: 1. Às voltas com as gramáticas; 2. Desenvolvimento da consciência
linguística; 3. Princípios orientadores de intervenção pedagógica ao nível da
reflexão metalinguística; 4.Considerações finais.

Adriana Cardoso motiva de imediato o leitor com um poema de Carlos D.


de Andrade, “Aula de Português”, para nos colocar uma questão fundamental:
a ruptura entre “escola e realidade” que, muitas vezes, o professor de Língua
Materna provoca quando inadequa o seu discurso ao da vida dos seus
discentes. Nesse caso, não constituirá espanto o “desalento de muitos alunos
e, arriscaria, de muitos professores, relativamente à “gramática”, (…)” 2. Ora, tal
choque levou a ensaísta à elaboração do texto em questão. Evidencia, então,
várias questões pertinentes, algumas desmistificadoras de lugares comuns
como: não ser por “imitação” que as crianças “começam por falar”, mas
3
construindo “a sua gramática, (…) ; daí a importância do conceito de
“aprendizagem” e não “aquisição”. Esquecemos, muitas vezes que o aluno, ao
chegar à escola, é possuidor de uma “gramática implícita” que, não existindo
“nos livros”, é “antes uma realidade “mental” 4. Deste modo, é importante que o
professor perceba bem quão determinante é a oposição entre “gramática
implícita” e “gramática explícita”, pois deve ser consciente de que não ensina
nada “aos alunos que lhe seja externo e estranho” 5. Assim, a nossa função

1
Otília Sousa e Adriana Cardoso (Eds.). (2008). Desenvolver Competências em Língua Portuguesa. Lisboa: Centro
Interdisciplinar de Estudos Educacionais da Escola Superior de Educação de Lisboa. 1ª ed. Novembro

2
"Desenvolver Competências de Análise Linguística". (2008). Cardoso, Adriana. In Desenvolver Competências em
Língua Portuguesa (p. 139). Otília Sousa e Adriana Cardoso (Eds.). Lisboa: Centro Interdisciplinar de Estudos
Educacionais da Escola Superior de Educação de Lisboa. 1ª ed. Novembro

3
ibid.,p. 139
4
ibid., p. 139
5
ibid., p. 139
deverá ser levar o discente “a explicitar um conhecimento interiorizado e
inconsciente” 6. Surge então a importância de lembrarmos que a língua não é
imutável, um “produto acabado”. O esquecimento ou negação desse facto leva
a práticas de ensino ineficazes trabalhando-se exteriormente à realidade do
aluno. Considera-se, por exemplo, a “variação linguística” sendo “uma forma de
“corrupção”, vista como resultante, de certo modo, “da ignorância dos falantes”
7
. Surgem assim as perspectivas “normativas”, as quais pretendem veicular a
forma correcta de falar e escrever uma língua, (…).

De seguida, são abordadas as concepções “puristas” língua que têm


assumido uma grande preponderância “quer no ensino da língua materna, quer
8
na opinião pública em geral” . Concretizando, são fornecidos exemplos
específicos considerados “desvios da norma” como trocar “ovelha ranhosa” por
“ovelha ronhosa”, quando o problema reside no facto de estarmos na presença
de um “falante de reduzida escolaridade que produz formas como ovelha
ranhosa…” 9. Que fazer então? Recorrer à gramática descritiva uma vez que
explica a “língua tal como ela é”. Tendo isto em conta, o papel do professor
deve ser o de “promover uma progressiva consciencialização das estruturas
linguísticas que os alunos já dominam” 10. Após estas considerações sobre “as
gramáticas”, são abordados os diferentes níveis de “Desenvolvimento da
consciência linguística”. A saber, com base em Sim Sim (1998), refere como
etapas desse desenvolvimento: 1º nível – domínio implícito da língua; 2º -
consciência linguística; 3º - conhecimento metalinguístico. Revelando
coerência, apresenta, seguidamente, propostas de actividades, centrando-se
na “consciência fonológica” 11.

No sentido de clarificar as expressões “ensino da gramática” e


“explicitação do funcionamento da língua”, passa à “secção” na qual se

6
ibid., p. 139
7
ibid., p. 141
8
ibid., p. 142
9
ibid., p. 143
10
ibid., p. 145
11
Ver pp. 147-150
dedicará ao “ensino da gramática”/ “explicitação do funcionamento da língua”.
Seguindo Richter (2003), convocado pela autora, afirma esta que uma das
razões de polémica quanto ao “ensino das línguas” reside no “dilema” entre
“comunicação ou gramática”. Isto para dizer que alguns perspectivam o ensino
focalizando-o não “na forma, mas sim no significado e, como tal, rejeitam a
apresentação prática por parte de professores, de itens gramaticais isolados”
12
. Para estes, o enfoque na “comunicação” basta para que o discente adquira
13
“a competência gramatical básica” . Concordando com Ritcher, defende que
“a reflexão formal sobre o funcionamento da língua é fundamental (…) não
devendo existir “uma oposição entre comunicação / gramática e forma /
sentido” 14. Dá então o exemplo de não ser incorrecto reflectir sobre os erros, já
que poderão permitir ao professor gerir os mesmos de modo a superá-los. A
propósito cita, então, Folra Azevedo, a qual considera importante a “análise do
erro” no domínio da “língua materna” e não no “ensino de uma língua segunda”.
De um modo inteligente, Adriana propõe uma alternativa para evitar que a
“atitude de correcção” seja “confundida com a de penalização”. Consiste ela na
selecção para o “trabalho em grande grupo” de “erros” que sejam mais usuais
“produzidos por um número significativo de alunos” 15. Deste modo, a correcção
do erro deve constituir um momento de “análise e reflexão”.

Demarcando-se de uma polémica estéril, a autora revela a sua


discordância face aos que se opõem à “abordagem formal da língua”, referindo
o facto de a “comunicação” não ser suficiente para que o aluno “que não
16
domine a norma padrão, aceda à variedade padrão da sua língua” . Chama
ainda a nossa atenção para a relevância que “vários autores” têm dado à
“reflexão sobre o funcionamento da língua para o desenvolvimento da
17
competência de escrita” . Neste contexto, propõe alternativas práticas que
superem a abordagem “clássica” da gramática, das quais destaco: “utilizar as
12
ibid., p. 151
13
ibid., p. 152
14
ibid., p. 152
15
ibid., p. 153
16
ibid., p. 153
17
ibid., p. 153
produções dos alunos” e “promover a pesquisa, tratamento e produção de
informação”. Neste momento, levanta uma questão pertinente: como associar,
na prática, “texto a gramática”, demonstrando que “a partir do texto podem ser
18
estudados todos os elementos constitutivos da língua” ? Mais uma vez,
revelando pragmatismo e sentido de oportunidade, disponibiliza “abordagens”
práticas a partir de “problemas detectados”, de modo a ser possível reflectir
sobre diversos “aspectos da língua”. Nesse sentido, convido o leitor a observar
19
essas oportunas abordagens , as quais acompanha de análises, reflexões e
pistas para o trabalho concreto da prática pedagógica.

A completar este trabalho, nas Considerações Finais, no curto espaço de


cerca de uma página apresenta acertadas e actualíssimas conclusões-
reflexões. Entre elas sublinho o facto de em Portugal se ter enraizado a
“tradição de não se ensinar gramática” e o comentário sobre formação inicial.
Nele, alude à não existência de uma “clara articulação entre teoria e prática
(…) aliada ao número cada vez mais reduzido de horas dos cursos de
formação inicial consagrado à reflexão sobre o funcionamento da língua, (...) ”
não fazendo “acreditar numa alteração desta situação”. Afirma ainda serem
necessárias, uma vez que os alunos entram no ensino superior “sem o treino
de reflexão sobre a língua, (…) alterações imediatas e radicais na formação de
professores para que as próximas gerações de professores possam de alguma
forma introduzir e desenvolver práticas mais inovadoras e eficazes neste
20
domínio ”. Concluindo, considera determinante que se “transponha
didacticamente a relação que existe entre “gramática implícita” e “explícita”, de
modo a serem alteradas as “práticas vigentes” no que diz respeito ao “ensino
da gramática como algo exterior aos alunos, (…) 21 ”.

Citei exaustivamente estas palavras da autora, pois são de uma clareza


e pertinência determinantes, para que sejam tomadas, de uma vez por todas,

18
ibid., p. 153
19
ibid., pp. 157-159
20
ibid., p. 168
21
ibid., p. 168
medidas eficazes que alterem o rumo da situação gravosa a que chegou o
ensino da Língua Portuguesa.

Finalizando, faço notar o seguinte: Desenvolver Competências em


Língua Portuguesa de Otília Sousa e Adriana Cardoso (Eds.) é o livro onde
consta o artigo recenseado. Constitui um recurso essencial para que
Formadores e professores no terreno possam dar resposta a várias questões
colocadas ao ensino da Língua Materna, quer a nível teórico, quer decorrentes
da situação concreta da prática pedagógica. Não é um “livro de receitas”, como
é óbvio, nem tal poderia acontecer, mas é, de certeza, uma compilação a ter à
mão por qualquer agente educativo, especialmente os que trabalham no
terreno. i
i
No sentido de contribuir para o aperfeiçoamento do artigo em questão, refiro a falta de um (s)
na palavra “contraste(s)”; pág. 153, 1º parágrafo, linha 9.