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FRACIONAMENTO DE COMPRAS COMO FORMA DE BURLAR A OBRIGATORIEDADE DE LICITAÇÃO E SUAS CONSEQÜÊNCIAS À LUZ DA LEI 8.

429/92 JOSÉ FRANCISCO SEABRA MENDES JÚNIOR

1. Introdução. A carta constitucional de 1988 introduziu no Direito Público Brasileiro a figura da improbidade administrativa. Até então, a ordem jurídico-constitucional apenas previa o perdimento de bens por danos causados ao erário ou no caso de enriquecimento ilícito no exercício de função pública. Em possibilidade da seu art. 15, inc. V, a CF de 1988 previu a de direitos políticos, no caso de

suspensão

improbidade administrativa. A norma do art, 37, § 4º, da CF, por sua vez, dispôs a respeito das sanções cabíveis aos atos de improbidade administrativa, a saber, suspensão dos direitos políticos, perda da função pública, indisponibilidade dos bens e ressarcimento ao erário. Oportuno observar que a verificação de atos de improbidade administrativa pressupõe a compreensão dos princípios informadores da administração pública, que constam expressamente do catálogo do art. 37, ‘caput’, da Constituição Federal. No âmbito da normatização infraconstitucional,

compras e alienações pela administração pública. 9o. à luz da Lei 8. em seus arts. e consagrando a objetividade dos julgamentos na apreciação das propostas. na esteira do movimento social que exigia maior transparência na administração pública. adveio a Lei nº 8. a qual passou a regrar todas as licitações e contratos administrativos nas esferas federal. estadual e municipal. e atos de improbidade administrativa que atentem contra os princípios regentes da administração estatal. distinguindo.666/93 foi o da obrigatoriedade da licitação para a contratação de obras. da Constituição Federal. ratificando a exigência já estabelecida anteriormente no art. atos de improbidade administrativa que causem prejuízo ao erário. De outra banda. XXI. . três categorias de condutas a serem reprimidas: atos de improbidade administrativa que importem enriquecimento ilícito.429/92 constituiu um marco no controle dos atos da administração pública. de modo a dotar de total transparência os contratos administrativos.666/93. Um dos princípios basilares trazidos pela Lei 8. trazendo consigo um catálogo tipológico dos atos que configuram improbidade administrativa e das respectivas sanções. fraudulento de forma a consubstanciado tentar legitimar no a fracionamento contratação de direta indiscriminada. especificamente nos casos de dispensa pelo pequeno valor do contrato. serviços.666/93.a Lei 8. 37.429/92. O presente estudo visa abordar as conseqüências. em relação aos quais é dispensada a realização de licitação. adequando-a aos valores previstos na Lei 8. onde tenha sido utilizado expediente despesas. da dispensa indevida do processo de licitação nas compras da administração pública. 10 e 11.

deve ser examinada. valor. O art. para os fins restritos a que se propõe este estudo. 24 e 25 Lei 8. primeiramente. O presente trabalho restringe-se à análise dos casos em que o administrador utiliza-se do expediente fraudulento de fracionar indevidamente determinadas despesas relativas a compras. com redação dada pela Lei 9. em cada caso. e. possibilitar a escolha objetiva da proposta mais vantajosa para a Administração.2. os valores individuais de cada contrato não ultrapassem os limites da dispensa de licitação face ao pequeno valor contratado.A obrigatoriedade de licitação e as exceções legais. a fim de permitir que.666/93. da Lei 8.666/93. concomitantemente.666/93. 3o da Lei 8. cumpre sejam examinados apenas os incisos I e II do art. com o parcelamento. inc. 24 da Lei de Licitações. trazidas nos arts. 24. eventual incidência das hipóteses de dispensa ou inexigibilidade de licitação. Assim. Para que seja analisada a eventual ocorrência de improbidade administrativa pela não-realização da licitação obrigatória. I. desde que não se refiram a parcelas de uma mesma obra ou serviço ou que se referem especificamente à possibilidade da dispensa de licitação face à contratação de pequeno . dispõe que a licitação é dispensável “para obras e serviços de engenharia de valor até 10% (dez por cento) do limite previsto na alínea ‘a’ do inciso I do artigo anterior. A obrigatoriedade da realização da licitação. nos termos do art. visa assegurar a igualdade de oportunidades entre os interessados em contratar com o Poder Público.648/98.

justificando-se para impedir a onerosidade decorrente do tempo despendido e dos recursos materiais e pessoais utilizados na realização de um certame licitatório. imperativa é a observância rigorosa dos requisitos legais. desde que não se refiram a parcelas de um mesmo serviço.648/98. nos casos previstos nesta Lei. inc. Para que haja a dispensa da licitação face ao pequeno valor do contrato. para obras e serviços de engenharia. Já o art. 24 da Lei 8. reza que a licitação é dispensável “para outros serviços e compras de valor até 10% (dez por cento) do limite previsto na alínea ‘a’ do inciso II do artigo anterior.ainda para obras e serviços da mesma natureza e no mesmo local que possam ser realizadas conjunta e concomitantemente” (o grifo é nosso). que não se trate de parcelas de uma mesma obra ou serviço. A respeito. também com redação dada pela Lei 9. 24. a . No caso do inciso I do art. quando desproporcionais tais custos em relação ao valor do contrato a ser firmado. 24.666/93. exige o legislador. da Lei 8. compras e alienação.666/93. da licitação para contratações de A dispensa pequena monta nada mais é do que conseqüência do princípio da economicidade. entretanto. 24 da Lei 8. nos casos em que o “custo econômico da licitação é superior ao benefício dela extraível”. para a dispensa da refrega licitatória. reza a Lei de Licitações que o certame só pode ser dispensado para cada parcela se o serviço.666/93 dizem respeito à “manifestação de desequilíbrio na relação custo/benefício”. ou de obras e serviços da mesma natureza e no mesmo local que possam ser realizadas conjunta e concomitantemente. quando ressalta que as hipóteses previstas nos incisos I e II do art . ou seja. II. e para alienações. que trata de serviços diversos. oportuno transcrever a lição de MARÇAL JUSTEN FILHO. Já na hipótese do inciso II do art. compra ou alienação de maior vulto que possa ser realizada de uma só vez” (o grifo é nosso).

Insta gizar que toda e qualquer dispensa de licitação . ao efetuar a realização das despesas os atinentes a compras. licitatórios. o ensinamento de MARINO PAZZAGLINI FILHO. deve ser devidamente apresentada pela autoridade justificativa adequada que contenha “as razões pelas quais não foi possível efetuar a compra ou alienação ou contratar a prestação de serviços de uma só vez”. Com efeito. É imprescindível que este não seja parcela de outro que deva ser regularmente licitado. No mesmo sentido. 8o. Nesses casos. com um apaniguado de sua preferência”. LUIS CARLOS ALCOFORADO preleciona que “o escopo da regra foi o de coibir o fracionamento irregular ou imotivado da licitação. salvo se presentes inafastáveis razões de natureza técnica. o pequeno valor do objeto a ser contratado. Como ensina JORGE ULISSES JACOBY FERNANDES. tática.compra ou a alienação não puder ser realizada de uma só vez. Em conclusão. no dizer de MARIA SYLVIA ZANELLA DI PIETRO. A compra deve ser feita de uma só vez. deve planejar a adequadamente procedimentos segundo disponibilidade de sua dotação orçamentária. não é lícito destacar pequenas obras e serviços de ínfimo valor. muitas vezes. de maneira ímproba e ilegal. Ao comentar ditos dispositivos legais. “as compras promovidas pela Administração Pública devem ser precedidas de planejamento e ocorrer em oportunidades/períodos preestabelecidos. para contratar. MÁRCIO FERNANDO ELIAS ROSA e WALDO FAZZIO JÚNIOR: “Não basta. pela modalidade compatível com a estimativa da totalidade do valor a ser adquirido. mas sempre permitida a cotação por item”. pois. de um conjunto de obras e serviços necessários ao bem comum. traçada pelo mau administrador. o administrador público. §1º)”. ainda que de forma sucessiva ou simultânea. inclusive para maior competitividade (art.

como burla do certame licitatório. que pode encontrar tipificação tanto no catálogo da norma do art. A dispensa é excepcional.000. VIII. Na primeira hipótese. da Lei 8. 3. já que. para que se possam confrontar os declinados pela Administração Pública com os efetivamente existentes na realidade empírica”. 3.429/92. 10 da Lei 8. A impossibilidade licitatória é ditada pelo interesse público e por isso deve ser devidamente justificada.429/92 como no da norma do art. É requisito da seriedade e da validade dos atos administrativos que haja a explicitação dos motivos da dispensa da licitação. ocorrida a partir do irregular parcelamento de despesas.429/92. 10. Fracionamento de compras e a Lei 8.1. configura improbidade administrativa. A não-realização de licitação.429/92. “a regra é a licitação. de modo a adequar fraudulentamente cada contratação direta individual ao limite de R$8.666/93. segundo a lição de WALDO FAZZIO JUNIOR. 11 da Lei 8. a não-realização de licitação é acompanhada na segunda de prejuízo a ao erário.A improbidade administrativa nos casos de fracionamento da despesa. lamentavelmente. Todavia. não-realização licitação improbidade administrativa por ofensa aos princípios que informam a .00 estabelecido pela Lei 8. quando obrigatório o certame público. constitui prática corriqueira na administração pública a dispensa indevida e injustificada de licitação. configurando de improbidade configura administrativa justificada pela norma do art.deve estar prévia e formalmente justificada. hipótese.

.administração pública e também por violação aos deveres de honestidade. ‘caput’. Consoante a lição de EMERSON GARCIA e ROGÉRIO PACHECO ALVES. Assim. sejam visualizadas em conjunto. de um fornecedor selecionado a partir do certame público exigido em lei. em determinado período. ao invés de efetuar uma compra programada de determinado material. mediante procedimento licitatório. conforme se pode inferir da norma do art.666/93.000. para que o valor individual de cada uma delas esteja abaixo do limite de R$8. o fracionamento irregular das despesas relativas a compras pode ser detectado a partir da constatação da sucessiva contratação de aquisição de mercadorias. 11. imparcialidade. Com efeito. para viabilizar a dispensa de licitação. o administrador opta por fragmentar a aquisição em pequenas compras. no fracionamento indevido de despesas. para que determinadas operações. a identificação do procedimento fraudulento.00. de modo a restar demonstrado o seu fim juridicamente ilícito. a dispensa de licitação. ao invés da realização de licitação única para oportunizar a compra destas mesmas mercadorias durante o mesmo período. oportunizando. no intuito de manter o valor de cada aquisição individual dentro do limite imposto pela Lei 8. Em regra. bastante comum é o procedimento administrativo de fragmentar as compras.429/92. que individualmente seriam lícitas. legalidade e lealdade. destarte. da Lei 8. deve ser feita com a análise individualizada das situações fáticas que serviram de elemento deflagrador de cada um dos contratos. bem como com o exame da natureza dos objetos das sucessivas contratações e a proximidade temporal entre as transações.

nas hipóteses que menciona”. em detrimento dos demais”. 23. 23. §5º da Lei de Licitações. sucessivas aquisições de medicamentos. evitando a estocagem de produtos. 23. no dizer de JESSÉ TORRES PEREIRA JÚNIOR . como. da Lei 8. também. §5º. aplicável apenas aos casos de obras e . Tal hipótese. estabelecer uma diferenciação entre o fracionamento de contratações previsto no art. indispensável é a verificação da identidade de objeto em cada uma das compras. durante certo período. sendo que “a especialização derroga a vedação porque resultaria preservada a regra geral de evitar o parcelamento da execução que favoreça determinado licitante.Para seja examinado se que houve se analise eventual ocorrência excepcional de a irregularidade no fracionamento de despesas. primeiramente cumpre alguma circunstância caracterizar a emergencialidade em cada uma das contratações. recomendável a demonstração da proximidade temporal entre os contratos. Como visto. com o fracionamento realizado apenas para burlar a obrigatoriedade de licitação nas compras da administração pública. de modo a evidenciar a intenção do administrador de não realizar licitação. Cumpre. Depois. por exemplo. refere-se aos casos em que parcelas de natureza específica de uma obra ou serviço podem ser executadas por pessoas ou empresas de especialidade diversa daquela do executor da obra ou serviço globalmente considerado. §5º. Além disso. o fracionamento excepcional admitido no art. constitui exceção à vedação do “uso do convite ou tomadas de preços para licitar a execução de parcelas de obra ou serviço. O fracionamento contemplado pelo art.666/93. da Lei de Licitações. e de utilizar a contratação direta como única forma de aquisição de determinado bem material.

sendo previsíveis diversas aquisições de objetos idênticos. especialmente quanto ao princípio da moralidade. A regra subordina a Administração ao dever de prever todas as contratações que realizará no curso do exercício. Significa que. considera-se seu valor global – tanto para fins de aplicação do art. Não se admite. I e II. seu lapidar escólio: “Ou seja. elucida com clareza o fundamento da vedação do fracionamento das despesas que podem ser realizadas conjunta e concomitantemente. Depende das circunstâncias. Estabelecido. Novamente socorremo-nos da lição de MARÇAL JUSTEN FILHO. . porém. que o expediente de compras pode vir a configurar procedimento fraudulento para dispensar a licitação de realização obrigatória. não se confunde com o fracionamento indevido ora objeto de estudo. fracionamento de pois. em verdade. nenhum vício existirá em tratar-se os dois contratos como autônomos e dissociados”. Existindo pluralidade de contratos homogêneos. incs. como relativamente à determinação da modalidade cabível de licitação. Não se vedam contratações isoladas ou fracionadas – proíbe-se que cada contratação seja considerada isoladamente. tal como exposto a propósito do art. que. Não se admite o parcelamento de contratações que possam ser realizadas conjunta e concomitantemente. deve considerar-se o valor global. Se a contratação superveniente derivar de evento não previsível. ao tratar do somatório de parcelas. para fins de determinar o cabimento da realização de licitação ou mesmo para escolha da modalidade do certame licitatório conforme o valor. é perfeitamente válido (eventualmente. de objeto similar. É inadmissível que se promova dispensa de licitação fundando-se no valor de contratação que não é isolada. para fim de determinação do cabimento de licitação ou da modalidade cabível. obrigatório) promover fracionamento de contratações. o fracionamento é válido.serviços. §5º. 24. contanto que as contratações fracionadas não sejam consideradas de forma isolada. salientando que. porém. que o fracionamento conduza à dispensa de licitação. Seria permitido o parcelamento para contratações sucessivas? Não há resposta absoluta. Vejamos. pois. 23.

na medida em que não é viabilizada a livre concorrência de mercado. da legalidade. não é raro que reste constatada a sobrevalorização dos produtos adquiridos em contratos realizados sem prévia licitação. com o nítido intuito de frustrar a realização do certame licitatório. Está ele jungido às restrições impostas pela lei. Além disso. o Poder Público contrata diretamente junto a determinado fornecedor.cumpre examinar especificamente a caracterização do dano ao erário e da violação dos princípios da administração pública. busque as condições mais vantajosas para o erário. como forma a assegurar a observância dos princípios da impessoalidade. evitando. Aliado a isso. Efetuando sucessivas contratações diretas. O agente público não possui livre arbítrio para contratar.2 Improbidade administrativa por dano ao erário. de modo a viabilizar o enriquecimento ilícito de terceiros. o administrador causa manifesto dano ao erário. pelas leis da economia. pagando preços superiores aos que poderia obter em uma licitação. tende a reduzir os preços. o princípio da economicidade também impõe ao administrador que. da publicidade e da moralidade nos contratos administrativos. entre as quais a obrigatoriedade da licitação. da eficiência. ao contratar. nesse tipo de conduta administrativa. por não se permitir conhecer quais seriam as condições de preço e pagamento propostas pelos demais fornecedores do mercado. que. que este possa sofrer qualquer tipo de prejuízo na relação contratual. em geral apaniguados do . ao contrário do administrador privado. 3. Com isso. assim. mesmo nos casos de dispensa de licitação.

na execução de seu mister. 21. 37. o dever jurídico do administrador de obedecer aos princípios regentes da administração pública. na legislação ordinária. do mesmo estatuto. em cotejo com os preços de mercado da época do contrato. 11. no mínimo. 4o da LIA. ‘caput’. podendo ser aplicado. na espécie. da LIA. Por certo que em cada caso deverá ser analisada a efetiva ocorrência do dano ao erário.3 A improbidade administrativa por ofensa aos princípios da administração pública. não se aplicando. inc. propiciada pelo expediente fraudulento da dispensa indevida de licitação. Uma vez constatada a sobrevalorização dos produtos adquiridos através da contratação direta. 3.administrador. desde que reste demonstrada a existência da conduta dolosa ou. já que a existência do resultado danoso é elemento integrante do próprio tipo que prevê a infração. a previsão do art. inc. O art. VIII. 10 da LIA. 10. da Lei 8. Isto porque incumbe ao gestor . Isto porque. O exame da ocorrência de lesão ao erário é viabilizado a partir da análise minuciosa dos preços praticados nos contratos realizados sem prévia realização de licitação.429/92 nada mais é do que uma decorrência lógica do art. o art. estará caracterizado o dano ao erário. para fins de tipificação das condutas previstas no art. da CF e também do art. no dizer de FRANCISCO OCTAVIO DE ALMEIDA PRADO. a este artigo. que instituiu. com culpa grave por parte do administrador público. é imprescindível a efetiva ocorrência de dano ao patrimônio público. I. ‘caput’.

ademais. quando burla a exigência de licitação. Recurso não conhecido” (o a orientação grifo é nosso). não pode deixar de ser responsabilizado criminalmente.666/93. Se o ordenamento jurídico exige que a compra de determinados bens. como o fracionamento de despesa ou. no exercício da atividade estatal. A correção desta assertiva pode ser demonstrada a partir da norma do art. com propostas contendo data anterior à do convite. com a aplicação do art. com violação do princípio da legalidade. impessoalidade. da Lei nº 8. 89 da Lei 8. A respeito da conduta administrativa de fracionar compras ao longo do exercício. quando frauda o próprio certame. como ordenador de despesas. como com a aplicação da LIA. convém . observar rigorosamente a juridicidade de sua conduta administrativa. nos termos do art. com o intuito de não realizar o procedimento licitatório exigido em lei. pela administração pública. diversas da descrita no art. ainda. a indevida e deliberada dispensa do certame público configura prática de ato ilegal. através de expedientes fraudulentos. XI. A respeito do princípio da legalidade. 89. segundo a qual a administração pública deve obedecer aos “princípios de legalidade.666/93. moralidade. publicidade e eficiência”. em sede de responsabilidade civil. de modo a não macular os ditames constitucionais indissociáveis dos padrões de probidade administrativa de todos os atos do Poder Público. é clara jurisprudencial: “O Prefeito Municipal.público. seja precedida de licitação. 1º. com clara repercussão tanto na esfera criminal. condutas estas. pelo que não há falar em bis in idem. do Decreto-Lei nº 201/67. 37 da Constituição Federal.

viola. e deles não se pode afastar ou desviar. a partir da contratação direta de determinado serviço. como mero gestor da res publica. 4º da Lei nº 8. ensina Marino Pazzaglini Filho et al. sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum. quando salienta que ”o administrador público está. o agente infringe o princípio da moralidade e o dever de honestidade. O agente que privilegia indevidamente determinado fornecedor. em toda a sua atividade funcional. não fazer seu ou de alguns aquilo que é de todos”. ao utilizar o poder no qual foi investido e beneficiar indevidamente os fornecedores por mandato popular. obra ou aquisição de produto. é lapidar o . também. conforme o caso”. o comportamento administrativo que desborda desse padrão de observância rigorosa dos parâmetros legais viola. que a moralidade administrativa consiste “no conjunto de regras de conduta tiradas da disciplina da Administração”.consignar o magistério de HELY LOPES MEIRELLES. o princípio da impessoalidade. também restam maculados com a inobservância da realização obrigatória de licitação. também. civil e criminal. A respeito do dever de honestidade. Portanto. Ensina JOSÉ AFONSO DA SILVA. agraciados com as contratações diretas. a teor do art. E se a expectativa normativa é de que o administrador público paute sua conduta em conformidade com o disposto no ordenamento jurídico. tendo o “administrador o dever de. senão vejamos. ínsitos a todo administrador público. que este é “decorrência direta do princípio democrático”. Além disto. sob pena de praticar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar. assim como o dever de honestidade.429/92. Sobre o princípio da impessoalidade. o princípio da moralidade. a moralidade administrativa. para dispensar indevidamente o imprescindível certame licitatório. citando Hauriou.

a Lei de Improbidade Administrativa trata de responsabilidade subjetiva. . 9o e 11. administrativa e elemento Conforme lição de BENEDICTO PEREIRA PORTO NETO e PEDRO PAULO DE REZENDE PORTO FILHO. vale dizer. o exame da eventual existência de dolo. 10 da LIA. nos casos dos arts. sendo “a probidade administrativa o dever de o ‘funcionário público servir a Administração com honestidade. a contrariedade ao ordenamento jurídico deve ter ocorrido em condição especial. sem aproveitar os poderes ou facilidades delas decorrentes em proveito pessoal ou de outrem a quem queira favorecer”. com vistas à caracterização ou não do ato de improbidade administrativa. ao instituir as sanções para as práticas ímprobas. a Lei 8. nos casos do art.escólio de FRANCISCO OCTAVIO DE ALMEIDA PRADO. Isto porque “a imoralidade administrativa não pode ser tida apenas como violação de uma norma jurídica”. a vontade direcionada ao atingimento de resultado ilícito e imoral.). isto é. e.. que vem a ser um aspecto da moralidade administrativa(. sendo imperativo. 4. já que não se pode reduzir a noção de ato ímprobo à de ato ilegal. no mínimo. quando preconiza que este “é conseqüência direta do princípio da probidade administrativa. para que determinada conduta possa ser tachada de ímproba. destarte. procedendo no exercício das suas funções. é indispensável que a violação da norma esteja qualificada pelo elemento subjetivo do agente administrativo. como de regra no direito moderno.429/92. Aliás. Improbidade subjetivo. Para que reste configurada a conduta ímproba. deve ofender a moralidade administrativa. de culpa grave. Como é sabido.. também trouxe consigo a exigência da análise do móvel da conduta do agente.

conforme a demanda dos postos de saúde e hospitais. sendo imprescindível a constatação do vínculo subjetivo entre a ação e o resultado prejudicial.00 estabelecido pela Lei 8. As compras de medicamentos são fracionadas.666/93.000. é bastante comum o fracionamento das despesas com aquisição de medicamentos. de modo a suprir constantemente seus estoques.Isto porque. Assim. pelos Municípios. resta claramente descumprido o preceito constitucional da obrigatoriedade da licitação. o valor individual de cada compra não supera o limite de R$8. onde a responsabilidade civil é subjetiva. é imperativo que o Município realize periódica programação de compras. Observe-se que em se tratando de medicamentos. A responsabilidade pessoal do administrador que deliberadamente fraciona despesas atinentes à aquisição de um determinado produto e ignora o somatório das parcelas. sendo realizadas. a fim de que não faltem medicamentos à população necessitada e para que não tenha de adquirir produtos diretamente . onde resta clara a intenção do administrador em não realizar certame licitatório. em alguns casos. O expediente utilizado é bastante simples. todos os dias . de modo a beneficiar indevidamente seus apaniguados. para viabilizar a indevida dispensa de licitação. somados os valores de cada compra individual de medicamentos durante determinado período. não é suficiente a só comprovação da relação de causalidade entre a conduta do agente e o resultado. resulta evidenciada a partir do exame das condições fáticas em que descumprida a obrigatoriedade do certame. Todavia. em se tratando de improbidade administrativa. Com efeito. principalmente aqueles integrantes da listagem dos remédios de atenção básica.

e considerando cada compra isoladamente. Ademais. de imparcialidade e de legalidade. resta indubitável que o agente público tem a clareza de que a sua decisão administrativa representa indisfarçável favorecimento a determinados fornecedores em detrimento de outros. qual seja. evidencia o dolo do gestor público. Conclusão. A Lei Federal 8. resultando também violados os deveres de honestidade.666/93. a vontade livre e consciente do agente público de violar os princípios da administração pública ou então. valendo-se da inobservância do somatório geral dos valores das compras relativas ao mesmo objeto. preocupou-se em vedar o parcelamento indevido do objeto a ser adquirido pela Administração. da publicidade. Isto tendo em conta a indivisibilidade do objeto. para dispensar indevidamente o imprescindível certame licitatório. de beneficiar indevidamente determinados fornecedores. de modo a viabilizar a imputação de ato de improbidade administrativa. que fraciona valores de compras. configurando. da impessoalidade e da moralidade administrativa. 5. além de possível dano ao erário. assim. agraciando-os com sucessivas contratações diretas. ao preço de balcão. não ultrapassem o limite para o qual está autorizado legalmente a dispensar o certame licitatório. individualmente. mais além. no caso da contratação sem precedência de licitação. ao não realizar licitações para compra de remédios. Eis aí a prova do dolo que se deve buscar no inquérito civil e posteriormente na ação de responsabilidade por ato de improbidade administrativa. com hialina clareza. Tal expediente fraudulento. que deve ser mantido íntegro.nas farmácias. de modo a evitar fragmentação de despesas que . grave infração aos princípios da legalidade. da eficiência. para que.

Conclui-se. impõe-se. no caso de fracionamento de compras. Cumpre ao Ministério Público. portanto. de modo a impedir a disseminação das fraudes no fracionamento de despesas. ignorando o somatório das parcelas das demais compras dos produtos da mesma natureza. que haja o somatório de todas as parcelas previstas para o exercício. para viabilizar a contínua e reiterada dispensa de licitação pelo pequeno valor. Resta claro que não está vedado ao administrador adquirir determinado produto de forma parcelada. de modo que o total de cada compra não seja considerado isoladamente para fins de definir a necessidade da realização de licitação. Desta feita. com o propósito de . examinar com rigor e bom-senso os casos de fracionamento de compras pela administração pública. Desta feita. bem como de sua modalidade. consoante a quantidade suficiente para suprimento das necessidades já existentes e previsíveis da Administração Pública. o parâmetro para definir a correção de eventual dispensa de licitação deve ser o objeto da contratação em sua integralidade. na condição de defensor da ordem jurídica e do patrimônio público.dão margem a dispensas indevidas de licitação. tendo também a atribuição de zelar pela responsabilização dos agentes tidos como ímprobos. Uma vez constatado o indevido fracionamento das compras. durante determinado período. que ao administrador público está vedado fracionar compras de produtos de idêntica natureza e considerar o valor isolado de cada aquisição. desde que esta fragmentação nas compras relativas a objetos idênticos esteja prevista em um planejamento de despesas para o exercício. a fim de que se viabilize a programação prévia da realização de licitação.

Secretário Municipal da Saúde). . o caso é de ajuizamento de ação de responsabilidade por ato de improbidade administrativa contra os ordenadores da despesa (Prefeito Municipal. tanto por eventual lesão causada ao erário. como pela violação dos princípios regentes da administração pública.burlar deliberadamente a obrigatoriedade da realização de licitação.