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Grão de Areia

R. Duccini

“Era de manhãzinha. Abraão levantou-se, abraçou Sara, companheira de sua velhice, e Sara deu um beijo em Isaac, que a havia preservado do escárnio e era seu orgulho e esperança para toda a posteridade. Caminharam em silêncio. Abraão conservou o olhar obstinadamente fixo no solo até o quarto dia. Só então levantou os olhos e vendo no horizonte a montanha de Morija, baixou-os de novo. Em silêncio preparou o holocausto e ligou Isaac; Em silêncio puxou a faca; então viu o carneiro que Deus provera. Sacrificou-o e regressou... A partir desse dia, Abraão envelheceu; não pode esquecer aquilo que Deus exigira. Isaac foi crescendo, mas os olhos de Abraão haviam perdido o brilho; nunca mais tornou a ver a alegria. Quando o menino, já crescido, tem de ser desmamado, a mãe, pudicamente, oculta o seio e o menino já não tem mais mãe. Feliz o filho que não perdeu a mãe de outro modo!”. (Kierkgaard – Temor e Tremor. Atmosfera, II.)

[Sem Título] em póstuma (des)homenagem a Carlos Drummond de Andrade Quando nasci, nenhum anjo veio, apenas um espírito de fogo, desses que vivem no coração dos homens ao pé do ouvido me sussurrou: Não consigo entender.

As pernas que passavam em 1930 agora estão decrépitas, mas novas pernas surgem assumem seu lugar no trem. Meu coração, contudo, ainda pergunta.

O homem agora questiona sobre o Ser. Não tem certeza alguma. Mas ainda é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos. O ante-homem, atrás dos óculos e dos bigodes.

As tardes todas são azuis Se você é uma estátua de costas para Copacabana. Sem desejos, sem óculos, apenas com uma marca de tinta na testa. (E fotos esdrúxulas em redes sociais).

E não importa o abandono de Deus se você era o Deus de si mesmo, Dioníso ou Javé, mas ainda assim, fraco.

Não há rima, contudo, não há solução.

Se eu tivesse outro nome, seria outra metáfora. Mas o mundo, permaneceria o mesmo. Meu coração é um balde despejado na amplitude de uma ervilha.

Eu não devia te dizer, mas essa lua mas esse cognac Deixa a gente triste como o diabo.

A Metafísica do Som
M E b o s Sons (sons) d e s c e m Sons fazem espirais entre meus dedos, E e m s a c p a à idéia do toque; Minha filosofia é frá- g - i ...L E a Poesia se dá entre sinos, flautas e flautim, Surda à cegueira do Mundo Que se despedaça do terceiro ANDAR.

Polifonia

"- Me chama pra pegar quando você tiver nessa viagem. Você ainda 'tava nessa viagem [quando você pegou ela?]

Me chama quando você Me chama quando você estiver nessa viagem. Me chama O choro. Nessa viagem (me chama)

"- Você não vê porque você não quer. [- Eu não vejo então não tem] - Eu vejo, eu não sou cego.

Cego (nessa viagem) Você vê (Me chama)

- A viagem, você vê? - Sou cego, não sou? - E que horas? - Acorda? - Pendura e acorda. (nessa viagem)

- Que viagem? Sou só sons. - Eu não sou cego.

- Eu não sou. (sou) - Cego?

- Eu não sou cego ('tô pensando ainda)

"- E qualquer coisa, tô deixando a chave na porta".

Eu tô pensando em sair sem vocês.

Falsos Haikais e Ferrovia

“Anjos sobre Berlim, O Mundo desde o fim, E no entanto era um sim, E foi e é e será sim” (Caetano Veloso)

I Estrelas cálidas sobre o jardim O Mundo desde o fim: Um trilho que nunca para.

II Derramam sobre os trilhos qualquer coisa linda Que não é fogo, que não é lava, que não é brasa, Antes é fumaça, estrela fugidia que se esconde por entre as nuvens e dentro do asfalto; Num bule de café se perdura a verdade quente e amarga com alguma coisa de ácida e forte. Antes havia uma corrente onde hoje é coração.

III Yasujiro Ozu, Tela em preto-e-branco Suspiro que nunca cessa.

[Sem número] A canção toca ao longe, E a noite a terra desolada. Disseram que por entre as sombras se esconde o perigo. No entanto, eu nada vi. Recobro o instante e observo novamente: Há apenas um lago entre-coberto por algas e azaleias: Visco preto que se sobrepõe à imagem; Adianto. Sem recuo, sem regresso, Aprofundando o olhar na treva desalmada. Cuidadosamente vejo meu rosto sobre o abismo.

Valsa n° 1

Aparece em no do com nos de
a z u l n o i t e s c

vestido pórtico partido Imaginário Cabelos emaranhados A VEN TA T O vermelhobatom. S sentada C
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E I R A S aos p a s s o s de

de café-moinho

Pina Bausch.
Dança, Eurídice, a p s s a r o contente! Dança, com a (im)permanência da memória...

Mémorias nº1
O tempo levou

meus (nossos)

sorrisos os assuntos

Carregou o mangue (que permanece no mesmo lugar) as praias de areia cinza, e as cervejas derramadas (quando ainda eram baratas); Anoiteceu todos os nomes edifícios e tardes sem porvir; O tempo levou as despedidas (embalou-as) em seu manto pardo e embrulhou-as para Nunca mais. E chega: de saudade (no meu peito)! - Mas se fazem presentes ‘inda: Todas as ausências as falhas da humanidade (e do mundo ao seu redor); e só ficam fotografias (empoeiradas) em megabits arquivadas com senha em (pastas) e secretos nomes que me desarmam e disparam todo o choro derradeiro e calam a voz...

Que Tempo

o leva flui escorre;

que o Tempo vai.

A Song Hearted Stone
A Rafael Lemos

O bicho-homem não têm oito pernas ao amar: Tem quatro, mãos e pés enlaçados na madrugada dos lábios; ou acalentados por olhos e verdes e tristes na manhã loira de cabelos embalados nos travesseiros do tempo, Que escorrem nas engrenagens da Vida que derramam a Angustia que reside ne existência e na proposição de uma nova vida para os destemidos que morreram em Terra, nas mentiras de cada linha e na lírica irracional das décadas do pós-apocalipse-virada-do-século. O amor tem oito patas e é uma aranha que tece suas teias nas quinas esquálidas das casas escuras e abandonadas e devora a amizade como uma presa fácil, acorrentada nas correntezas de seu ímpeto. O bicho-homem se propõe à uma paixão e deixa-se queimar noite à dentro, embalando gemidos de saxofone e solos unilaterais de guitarra e insones instantes de êxtase e frenesi e pranto e lamento, para fugir hoje e sempre da solidão que foi instaurada aonde essa aranha residiu. Mãos, dedos, beijos e gritos e mais um acorde, compõem essa sinfonia biônica e preenche a luz das casas nas ruas inabitadas da cidade pequeno-hostil-escura. E dá de beber, como gota

de orvalho, nesta terra desolada. - E o bicho-homem urra e toca e rasteja nos banheiros no aproximar do meio-dia escuro e chora... O Bicho-Homem têm oito patas ao amar, mas não é a aranha que observa na cabeceira da cama: o Bicho é a própria aranha que se contorce nos lençóis, e aprisiona sua vítima em seu texto de querer e desejo, e envolve-se no leito do instante: Morte que nunca acaba e sempre tarda a chegar, junto ao sono, seu irmão mais antigo e magnânimo. O Bicho-Homem tem oito, quatro patas, ao cair na beira do abismo.

Flores Astrais
“Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio”. (Alberto Caeiro)

Girassóis com o miolo verde verde verde verde verde verde verde girassóis que giram o sol sem se curvar para ver o sol se pôr; em 1989, Neil Gaiman escreveu Sandman (enquanto o Muro de Berlim era derrubado); e Em 1992, se ergueu sob o sol de áries um vento rompante, ascendendo o horizonte nas linhas de touro, enquanto minguava (suave) a lua em peixes: em suma, um acidente astrológico. Gira gira gira gira o sol a lua o cosmos os girassóis com miolo verde o vira o fado o brado o homem o lobo o lobisomem enquanto passeia sob a lua cheia vermes de proporções astrais.

Vertigem
“auf einmal brennt ein Feuer in mir und der Rest der Welt wird scharwz” (Die Toten Hosen).

É uma inquietação, um fogo, um verme que devora (e habita) lentamente contigo o meu pensamento. algo que cega na medida que enlaça o que até então não tinha posse. O corpo, matéria fixa e perecível. O vento, suspiro agudo , prece vã, que rompe a barreira intitulada do silêncio E o sono, que vela o sim. No mundo só se mantêm o que é chama, fugaz momento de explosão e morte, o que é sólido não convém, pois impele à necessidade de cinzas falsa fênix que se ergue. E ins-tanto, momento por sobre o tempo, ruptura, rompe a corda e o delírio, Afasta os lábios, e prende a língua (Gaiola) Pois tudo ao desmoronar: É O(s)C(ul)O e escuridão. não semântica

Vidas Breves
Ele foi embora, no entanto, sou eu quem resigna sua partida, quem espera à beira da escada sua entrada a passos largos, Sua alegria desmedida... Seu conforto, que nunca mais virá.

Ele foi embora, Sem volta, ou retorno, Guardando na brisa do café (quente) Sua presença imediata; Como um vulto invadiu os corredores E se apossou deles em todo o seu comprimento, Como alguém que nunca descansa Ou nunca se põe a dormir.

Ele foi embora, Seu olhos, entretanto, permanecem com os meus, Como um (abraço-afago) que nunca cessa, Como uma melodia que nunca termina; Um feixe de luz que não se dá para tocar... Ele foi embora. No entanto, Encrostado à eu sua permaneço lembrança: Permanente presságio de fim

Em sua perpétua aurora-boreal.

Dezembro

Chove s o b r e n ó s d o i s em D e z m b r o e

Chove nós dois, (em) Dezembro.

Canção de Despedida
A Bárbara Biolchi "Seu coração é um porto alegre Onde só cabem dois navios". (Igor Roosevelt)

Em Porto Alegre sob o céu de Dezembro, Violentado pela vida Inserido no desdém súbito e próprio daquilo que é belo. Desço pela esteira de embarque em meio a um empurrão que mais (é) um abraço Sob a fúria do sol, estrela cintilante, e ronco do motor da aeronave: Duas lágrimas (escondidas) por cima do meu ombro E dois lábios [guardados] juntos com os meus. A figura (da) Cidade distancia-se em baixo de meus pés (...) E então, Eis-me aqui Rio de Janeiro.

De Costas Para o Mar
Carlos, Você não viu o muro ser derrubado; (Hoje percebo isso) Você foi embora antes, Quando o mundo era ainda Repartido em dois, E o grande império capitalista Dividia seu poder de Fome e Terror. Carlos, Você não viu o muro cair; Você ouviu os apelos Das armas anti-heróicas do RAF, Comeu na mesa do grande urso branco, Bebeu das bandeiras e do Tempo, Despediu-se com grande altivez dos Ícones nazistas. Mas, Carlos, Por que você não esperou mais um pouco?... Dois anos e se romperia Dois anos, e a cortina de ferro Iria se abrir com a promessa De um mundo só... Dois anos. E você continua de costas para o mar... - Se foi cumprida? Se foi verdade? Se a primavera chegou, e todas As crianças colhem ramalhetes no asfalto? Não sei. A promessa é sempre espera, que lânguida, se planta no coração dos homens. Mas, a sua flor, nasceu, Carlos. Em cada canto Do país, se desbota essa nova espécime que Rompe o asfalto e ilude a polícia: Carlos, Sua flor nasceu na rua!

Falsos Haikais e Haikai Completo
I Sobre meu túmulo Adormecem, Um lobo e uma flor de cerejeira.

II Naquela noite, Estavam cravados seus olhos Sobre meu peito.

III Vindo das profundezas, Me perseguiam, Dois globos de escuridão.

IV E diante de tantos mistérios, somente posso concordar: Tudo é.

Um Chiste...
A vida não passa de um suspiro o p r o Flerte delicado com as estrelas que cruzam os céus e MORREM Sem nada dizer, sem nada deixar, Se não, o brilho pálido de uma eternidade que se APAGA.

Balada Marítima

Só, o mar é pleno. Emanto o corpo e a corda Que desfragmentam entre braços A suave canção que me aninha. Sou arremessado Entre rochas e Vazio, enquanto inerte de qualquer ação, se não Céu. Não me empenho em lutar: aceito a água como se aceita o sol em dias de verão, [como se aceita o verão em dias de sol] Sem tormenta ou exaspero, Apenas regozijo brando e branco, E então, esqueço-me de tudo. (Não pensar se torna o princípio de tais coisas) Na ausência se instaura: O sentido, Segundo frígido e frágil, Em que tudo torna a acontecer De maneira inesperada e mecânica; Como as ondas que se chocam E me alimentam com sua força e violência, Rodam dos relógios os ponteiros, Ossos que explodem em engrenagens E tornam-se se não areia, Fina calidessência do mar e do pano Que cobre o tempo e o cosmos. Sem que eu possa ter sequer reação... Fecho-me os olhos, deixo-me afundar...

(...)

Abro os olhos e acalanto, Ultramarino decomponho-me em sal.

Beijada é minha face sobre a superfície, Tenho (entre os dedos) uma gaivota; Em cima de uma pedra Com um relógio preso ao corpo Desfiguro as horas fugidias e sorrio; - Agora eu sei como é morrer no mar: É morrer e encontrar-se vivo.

Fábula
Canta sobre a mágoa serena a correnteza, Fluida, suave, carregando em si a existência mais forte; A clareza, véu transbordado, se alinha ao sentido e à forma, onde tudo se compromete e embarga. Houve dias em que a canção se fez muda, Suas notas eram quebradas, arrastando-se a fundo. Suas pausas, seus instantes eram todos solo, indo como foz: redemoinho para um M A R bravio. Houve dias em que a correnteza era nada. Transmutava-se em lagoa serena, reflexo da noite, ou poça rasa onde as rochas podiam ser pegas com as mãos.

Houve dias em que tudo era breu; Houve torrentes, tempestades, cadências de raios ensandecidos, e a canção era um grito: receptáculo para a fúria do Universo;

- O mundo era um trovão bravio. Mas houve dias. Dias longos, dias curtos, dias em que a canção encontrou o rio: entrou límpida, clara, como um visitante há muito esperado, E navegou, como um almirante louco, seguindo o rumo da correnteza com as próprias mãos: Sua voz tão suave. Essa mesma voz, que entrou na garganta do rio E tornou-se Logos da correnteza. Canção dúbia que se alonga do seio turvo, sua origem. Manancial que revoga a espera e vinga-se do Tempo.

Tangendo em azul as cordas da barca da vida.

Uma Explicação
O Tempo, presente ação perpétua constante consignada dentro do gênero Humano escorre sua foice sua flor seu sêmen e desperta na carne vidamortemortevidasó. O instante que jaz e falece e se ergue pó: uma verborragia (de) acontecimentos. A fagulha que se parte é a luz morta de uma estrela correndo o céu.

Outras Palavras (ou ensaio sobre a Musa ante-ouvidada)
A Raquel Messina Cukierman

Vasculho No peso da memória o esquecimento; Os dias de sol laranja As ladeiras intermináveis O peso sobre o corpo (indefinido) Como um cego tateio, labirintos sem portas (cem) espelhos refletindo o sol o céu o Mar (as Margens do Azul) o fogo que lambe e ascende as fendas do escuro. Como Orpheu, Lira em mãos: Oh, Poeta! carrego o Terrível no peito e abro essa boca ao inferno a derramar o fel mais sórdido sob o céu infinito que me é negado. E deixo... Bota(r)fogo sobre a pele; Calabar: madeira rubra no firmamento enquanto averiguovelo minha própria canção de vento. E levo. Me elevo: leva... Porque Selvagem v Vida e t n o É.

“There's a light that never goes out...”
Há uma luz Há uma luz que nunca Há Luz que (nunca) Sei; Vai. Há uma luz que nunca se vai.

- Aberto 24horas -

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