IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR

Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012, Universidade de São Paulo – ECA/USP

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DA POTÊNCIA DA VELOCIDADE À EXPERIÊNCIA1 Consumo e biopolítica na cena de festivais de música independente Felipe Gurgel2 Universidade Federal do Rio de Janeiro/RJ Resumo: A velocidade é um imperativo que estimula a formação de público nos festivais de música, constituindo o fenômeno do “consumo de experiências”, embora a realização de eventos culturais dos ditos “circuitos independentes” pelo Brasil articule questões além da indústria musical e afinadas a um movimento biopolítico. Articulada essa hipótese, este artigo se divide em três tópicos. No primeiro, a velocidade, compreendida como a aceleração do tempo na sociedade, é debatida como fenômeno e valor constituinte do capitalismo pósindustrial. A abordagem analisa a potência desse aspecto e desnaturaliza esse valor como algo comum, intrínseco à observação contemporânea dos fluxos sociais. Para o segundo tópico, a argumentação textual segue, desta vez, relacionando o tempo produtivo da vida com o tempo de consumo generalizado, discutindo aí as aproximações entre consumo e a sua inserção em um ciclo midiático. Por fim, o terceiro tópico foca a formação de público dos festivais de música independente como um processo de consumo de experiências, “complexificado” pela força de um movimento biopolítico que está presente na articulação da cena musical na qual esses eventos culturais estão inseridos. Este trabalho é baseado no texto do projeto de pesquisa de mestrado “A ordem do tempo nas relações de consumo de música – um estudo sobre a formação de público nos festivais de música independente”, do Programa de Pósgraduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Palavras-chave: velocidade, consumo-cultural, contemporaneidade, música-independente e biopolítica

A VELOCIDADE E O CONTEXTO QUE PERMITE A ACELERAÇÃO DO TEMPO A aceleração do tempo sacramenta a velocidade como força imperativa de mediação social na contemporaneidade. Ao passo da impulsividade tecnológica e da urgência capitalista, a relação entre o tempo e o espaço urbano se desequilibra, situa a perda do valor de referências espaciais na distinção das culturas pós-modernas. Os locais citadinos, em declínio simbólico, são marcados por uma alta “taxa de rotatividade”, pois:
A representação da cidade contemporânea, portanto, não é mais determinada pelo cerimonial da abertura das portas, o ritual das procissões, dos desfiles, a sucessão de

Trabalho apresentado ao GT Nº 4: Mídia, música e mercado, do IV Musicom – Encontro de Pesquisadores em Comunicação e Música Popular, realizado no período de 15 a 17 de agosto de 2012, na Escola de Comunicação e Artes da USP, São Paulo/SP. 2 Mestrando do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Pesquisa as interfaces entre Comunicação e Música, com foco nas dinâmicas sociais como questão, e nos cenários musicais como objeto. Orientador: Prof.Dr. Micael Herschmann. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4353986Y2. Email: fgurgel@gmail.com.

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1993. a influência das instituições industriais e de seus ideais disciplinares por ora persistem – principalmente nas sociedades (apesar da circulação rápida de informações e capitais) que se revelam ainda a níveis brandos de relações potencializadas pela cultura digital.) Graças ao material imperceptível do tubo catódico. em um movimento de integração com as transformações do capitalismo. uma linha divisória entre aqui e além. aspecto que orienta o desenvolvimento dos meios de comunicação e legitima a velocidade como “uma grandeza primitiva aquém de toda medida. p. No entanto.. embora sua rotatividade provoque o retorno cíclico “a este ‘lugar’. tornou-se a programação de um “horário”. Universidade de São Paulo – ECA/USP 2 ruas e das avenidas. Dessa perda. a esta localização sem localização. essa situação não se afirma necessariamente como um questionamento à velocidade nas formas contemporâneas de sociabilidade. 13) A velocidade vem anulando a concepção tradicional de espaço na pósmodernidade e acompanha – enquanto fenômeno e valor . tanto de tempo como de lugar”. (VIRILIO. Observando os resquícios do modernismo na contemporaneidade.13). Desta maneira. 1993. há uma aceitação hegemônica do “efeito de real”. de lugar referencial. O espaço perde o sentido de permanência. sobre o sentido da tradição na obra do sambista Paulinho da Viola: . que “deporta” as estruturas sociais (antes bem assentadas nas localizações) para uma relação íntima e crescente entre o homem e os suportes tecnológicos na cidade. p.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. 10 e 11) Legitimando o que Virilio chama de “concentração pós-urbana”. a partir de agora.. como o discurso de orientação marxista que acolhe a problemática do espaço e do tempo na tese de Eduardo Coutinho. Unidade de lugar sem unidade de tempo. A forma urbana não é mais expressa por uma demarcação qualquer. E sim outras manifestações de “resistência moderna”. p. as dimensões do espaço tornam-se inseparáveis de sua velocidade de transmissão. A evidente dispersão social é amparada pelo conceito supracitado que alinha essa crise à liga firme entre o espaço e a velocidade de transmissão. relacionar-se com a abertura de um “espaço-tempo tecnológico”.as transições do sistema capitalista. de não-pertencimento aos lugares – o que faz o homem pactuar ainda de modo mais assertivo com a intensidade tecnológica e com a ausência de percepção sensível da realidade. a Cidade desaparece então na heterogeneidade do regime de temporalidade das tecnologias avançadas. a arquitetura urbana deve. o tempo contemporâneo redefiniu a posição do espaço urbano no contexto histórico da sociedade ocidental – em um segundo momento pós-esvaziamento do campo – à medida que a noção de dimensão física entrou em crise.” (VIRILIO. ao mesmo tempo em que as referências críticas ao processo de aceleração estimulam práticas e discursos. 1993. sobra a tendência de um comportamento humano de recusa. (. (VIRILIO.

2009. Essa potencialização se justifica através de marcos transitórios de uma fase à outra: uma nova composição de classe com a redução e a saída de trabalhadores das fábricas. mudança de um regime predominantemente industrial e justificado pelo lucro. p. o biopoder. pois banca uma sociedade em plena atividade e abundante. a aceleração do tempo tornou-se fundamento com a transição ao pós-fordismo: um elemento constituinte do capitalismo. seu comando por dentro dos processos. para uma nova lógica de acumulação alimentada pela transferência de patrimônios – o que justificaria afirmar que o capitalismo não é mais produtivo. modulando. Universidade de São Paulo – ECA/USP 3 A progressiva aceleração do andamento do samba (lembre-se que o espaço espetacular das escolas de samba chama-se Sambódromo. procura sua imanência por meio da captura das formas de vida. 147). Giuseppe Cocco conceitua biopoder: “O poder de segurança. e ainda a valorização do imaterial e dos conteúdos intangíveis produzidos pelo trabalho. (COCCO. tão indissociável como é na fase pós-industrial. E para alcançar essa plenitude. a desvalorização dos sujeitos por meio da proliferação de dispositivos – aspecto que acolhe o paradigma tecnológico.135). a transição do fordismo para o pós-fordismo atravessa “a fragmentação do estatuto do emprego. Se antes era impulso.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. Articulando os pensamentos de Foucault e Deleuze para elaborar uma reflexão sobre o contemporâneo como uma “era de subsunção real”. Este último aspecto abriga uma questão que mais se aproxima à discussão da aceleração do tempo: a velocidade dinamiza o sistema capitalista contemporâneo. transformando a soberania em governamentalidade” (2009. Até admitia uma sobrevida do espaço tradicional. ou seja. a potência da velocidade no desenvolvimento e para a “saúde” do sistema não era tão evidente. p. que em grego quer dizer corrida) e a consequente “anulação” das síncopes tem algo a ver com o ritmo da indústria. a nova perspectiva admite a precarização dos vínculos trabalhistas para conceber um mundo acelerado. na conquista do pleno emprego e na crença de que os assalariados estão incluídos. transformando “excluídos” do sistema em “incluídos como tais” através das tecnologias de poder. uma redefinição do controle dos meios de produção. a potência da vida afirmada pelo biopoder3 na dinâmica das lutas e da resistência. em função de sua difusão social para além do chão da fábrica e para além do marco jurídico contratual da própria relação salarial”. (COUTINHO. de dromos. considerando que a disciplina era um valor de mediação das relações modernas. 3 . com o aumento da velocidade dos processos econômicos e da vida social que está no centro da modernidade capitalista. p.176) Com o fordismo. motor de circulação de capitais e informações. 2011. e sim financeirizado. Se antes a sociedade assegurava a inclusão do indivíduo.

lazer ou ação política. A VIDA IMPLICADA PELA ACELERAÇÃO E PELO CONSUMO A manutenção de uma sociedade em plena atividade transforma a distinção normativa entre “tempo de trabalho” e “tempo livre”. (BAUDRILLARD. O processo é acompanhado pela questão de ir além da segurança das instituições industriais. organizado. em resistência à padronização da indústria. E ainda que este movimento propicie leituras políticas sobre uma sociedade abundante. Universidade de São Paulo – ECA/USP 4 A precariedade do trabalho contemporâneo tem em parte sua justificativa na ideia de que o capitalismo global de redes (e pós-fordista) captura um trabalho difuso no contexto de fragmentos sociais que competem entre si. Afinal. reunindo todos esses aspectos. a ideia de que existe uma força do sistema. hora a hora. inteiramente climatizado. se enfraquece e revela que “toda vida é mobilizada na valorização do capital”. segue a transgressão de normas e certa conivência dos homens com o ritmo sem interrupções. se encontra alinhada com os processos de engrenagem e de resistência ao capitalismo. Com a desvalorização da lógica fabril. na possibilidade de capitalizar formas de atividade livre. em que o “envolvimento” é total. em que o canal das satisfações se encontra previamente traçado. 2009.162). segue ocupando o mesmo espaço contemporâneo que define o tempo de vida produtiva e o tempo de consumo generalizado como um só. reorganizando a sociedade de modo que a perspectiva de mobilidade e transitoriedade das relações trabalhistas não tenda a significar necessariamente “precariedade e risco”. as jornadas e outras convenções trabalhistas adquiriram amplas flexibilidades: tempo livre e tempo de trabalho fundiram-se num único tempo de vida produtiva – seja esta de trabalho. 2008. p. (COCCO. culturalizado. até “formas de uma nova escravidão (de subordinação de toda a vida na dinâmica da população)”. Chegamos ao ponto em que o consumo invade toda a vida. E até uma perspectiva híbrida. sob a expansão do capital pelas relações humanas. exercendo pressões externas e submetendo o indivíduo. P.146). Essa nova dinâmica trabalhista transita entre extremos.18) . p.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. O estímulo à aceleração da vida. (COCCO. em que todas as atividades se encadeiam do mesmo modo combinatório. 2009.

113).” (2008. numa multiplicidade de ‘instantes eternos’(. Evidenciando que a possibilidade de consumo tornou-se uma experiência imediata. e se encontre expandido através de estímulos diversos. Zygmunt Bauman recorre a Michel Maffesoli e define como “pontilhista” o tempo acelerado: “fragmentado. E ainda segue o ciclo de um sistema de comunicação de signos permutáveis e descartáveis. segundo o autor. 2008. endossado pela velocidade.).” (2008. ordens. até de sexo. sequências de desenvolvimento. demora ou tampouco a percepção de que exista algum limite para a velocidade empenhada em determinada ação. 2008. Portanto. o movimento consumista se redefine sem cessar – legitimado pela ideia de que “quando volumes crescentes de informação são distribuídos a uma velocidade cada vez maior. destruí-los é parte desta lógica social. inserida em um fluxo comunicacional quase improvável sem a mediação tecnológica. 4 . Universidade de São Paulo – ECA/USP 5 Baudrillard aproxima a abundância. de ideologia. e na definição de consumo como “sistema de comunicação e de permuta. 57). p. 46).” (ERIKSEN apud BAUMAN. não há segunda oportunidade.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012.. p. como linguagem. Para cada ponto. cada qual reduzida a um ponto cada vez mais próximo de seu ideal geométrico de não-dimensionalidade. Embora seja potencializado por um vasto consórcio. Embora a sociedade de consumo encontre sentido na apropriação dos objetos.. de um “desperdício violento”4 dos objetos e dos demais referenciais consumíveis. é neste “instante” vazio de singularidades que a ideia desenvolvida por Bauman se afina com Baudrillard e com a compreensão supracitada de que tudo se transforma em material de troca. como conceituou Baudrillard. A constituição fluida da engrenagem do consumo leva a uma constante renegociação do significado temporal – orientação introdutória deste artigo. o “vasto consórcio do consumo” eliminou a qualidade original e permitiu-lhe a distinção como material de troca – é o que acontece com as diferenças reais entre as pessoas. a onipresença do consumo. torna-se mais difícil criar narrativas. Mesmo aquilo que não se permutava antes. ou mesmo pulverizado. com último fim de substituir. de nascimento. p. não passaria de um “termo intermediário” (BAUDRILLARD. parcelas distintas. como código de signos continuamente emitidos. O que aproxima o ato de consumir e a produção midiática na pós-modernidade é a rapidez dos fluxos de circulação e difusão da informação. O motivo da pressa seria adquirir e juntar. Este fenômeno encontra bases em um ciclo midiático. mercadoria. p. 46) entre a produção e a referida destruição. conforme o autor. recebidos e inventados. O consumo.

265). p. a exclusividade do consumo) deixa lugar ao compartilhamento (COCCO. indicando pontos de transformação: A tendência no mercado da música. 2008. a teoria de Baudrillard reforça o reconhecimento da presença do público nos festivais de música independente como uma situação de consumo. sentidos mercadológicos podem ser atribuídos a experiências de vida. Universidade de São Paulo – ECA/USP 6 A CENTRALIDADE DO CONSUMO DE EXPERIÊNCIAS NA FORMAÇÃO DE PÚBLICO DOS FESTIVAIS DE MÚSICA INDEPENDENTE A transformação social afinada à lógica do consumo generalizado. O que vale é a relação e o uso que se criam a partir dos objetos.. signos. A nossa época é a primeira em que tanto os gastos alimentares correntes como as despesas de ‘prestígio’ se apelidam de ‘consumir’” (BAUDRILLARD. E Micael Herschmann situa a questão em um contexto de crescente desmaterialização da música e da produção cultural. 136. nem o dar festas se chamavam consumir. A rivalidade entre os bens (quer dizer.. se aproxima do objeto aqui articulado.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. E a partir do escopo de “modelos consumíveis”. (HERSCHMANN. p. É o caso da música ao vivo crescentemente consumida e valorizada. no âmbito da desmedida. e não as suas dimensões materiais em si. a valorização se desloca da produção para a própria transação (circulação). 138) Através de uma leitura que. No processo consumista contemporâneo.) A escassez é substituída pela abundância. Ele define: “Nem o comer raízes. para Baudrillard. cenário que se posiciona além dos esquemas comerciais vinculados às gravadoras multinacionais. portanto. pois a relação dos bens de consumo na transição para o capitalismo pós-fordista sofre uma mudança crucial na questão do valor: o conteúdo tangível é menos valioso que o intangível. constitui-se uma prática social que interessa à análise do objeto deste artigo: o “consumo de experiências”. os “mercados derivados” estão adquirindo mais relevância. por definição. Da concepção do produto ao consumidor final. Além disso. pois. 2010.72) Destacando que o fenômeno é mais claro quando a análise parte com foco na dinâmica de produção e consumo do universo independente da música no Brasil. pode-se dizer que. é que o consumo de downloads conviva naturalmente com outras formas de consumo que permaneçam valorizadas pelo público. Estamos. modelos consumíveis. indica que o “sentido mais profundo” dessa relação é a espetacularização evocada por imagens. p. (. Herschmann avalia que a indústria musical dá sinais de recuperação com a força do mercado . diante da queda das cifras de venda de fonogramas em suporte físico. 2009.

compreendendo a sociedade como uma arquitetura. no relacionamento com políticas públicas de incentivo à cultura. os encontros esportivos e musicais [tais como concertos. a ser construído artificialmente e separado do intuito conceitual que acompanha o fato. O autor recorre a Michel Maffesoli para fundamentar a centralidade da experiência na sociedade contemporânea. da exposição e comercialização de produtos relacionados à cena local e à programação de shows ofertada. Universidade de São Paulo – ECA/USP 7 de concertos ao vivo e ainda mobiliza seus públicos em virtude da possibilidade de vender “experiências únicas e memoráveis geradas” (HERSCHMANN.. Seja através da cobrança de ingressos. movimento que permitiria uma reatualização do sentimento de comunidade: “Estas relações tácteis [presenciais] (. 2010. 2009). em especial.): as redes sexuais. 2010. as diversas formas de solidariedade.) não deixam de criar uma ambiência especial (. por critério associativo. que funciona “pautado pelos princípios da economia solidária aplicados às cadeias produtivas da economia da cultura. os festivais vinculados à Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin). p. Desde 2005 (por isso . Alinhado ao pensamento foucaultiano. consequentemente. A situação descrita acima se insere como prática social de um momento distinto deste cenário: o desenvolvimento de um “mercado médio”. a exemplo dos quiosques de alimentação do público. A “ambiência especial” supracitada por Maffesoli é uma definição que identifica o cenário musical independente brasileiro e dialoga com Foucault: deste.81). e evocam um sentido de responsabilidade socioambiental e de projeção de artistas sem suporte da grande indústria musical. p. é uma forma de poder que constitui o espaço contemporâneo e “se exerce sobre o conjunto da população. um milieu. no Brasil. da música independente” (PORTAL FORA DO EIXO.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. que deve ser planejado em função dos eventos que o atravessam e estruturam” (FOUCAULT apud COCCO. 2009. Ao mesmo tempo em que ganharam espaço na cena de eventos culturais desde meados da década de 1990.79). estas produções também estimulam o consumo. o processo se dá dentre outros estímulos consumíveis que estruturam os eventos. a dinâmica espacial da realização dos festivais supera a noção disciplinar e moderna que adequa o evento cultural a um espaço vazio. p. festivais] são todos indícios de um ethos em formação. a ideia de “dispositivo de segurança”..128). Em articulação política..” (MAFFESOLI apud HERSCHMANN.. são produzidos através da organização de grupos engajados na promoção da produção cultural e.

2007. 2007. p. Portanto. estimulado por valores distintos que coexistem à medida do escopo pós-moderno. (MAFFESOLI. o desejo do grupo. de ampla circulação. Com efeito. em velocidade. é uma tendência de fundo. e se constituindo quase que como um projeto de política cultural à parte dos vínculos oficiais.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012.” (MAFFESOLI. aquilo que chamei de ideal comunitário. os observadores sociais limitam-se a recitar a ladainha do individualismo. sob a dinâmica das lutas e da resistência. à manifestação de tribos e comunidades “unidas por um forte sentimento de pertencer. Universidade de São Paulo – ECA/USP 8 eis a menção ao “momento” distinto) o Circuito Fora do Eixo firmou-se como uma rede de coletivos de produção cultural pelo Brasil e como movimento social com foco no desenvolvimento da cena da música independente nacional. em que o sujeito contemporâneo se compraz com o instante. Para conceber essa ambiência plural. um clímax de toda essa articulação biopolítica e aparece como um produto híbrido. e ainda combinando tempo de vida e trabalho num único espaço produtivo. Nunca será demais insistir nessa forte característica da pós-modernidade: a reafirmação dos fatores impessoais exatamente onde. O cenário é problematizado . mediado pela influência tecnológica e quiçá ideológica. Na fruição da experiência mediada pelos eventos culturais em análise. e sim conflituais: do apelo mercadológico à consciência política. do culto à experiência daquilo que é vivenciado “aqui e agora”. por exemplo). o Fora do Eixo dialoga forte com uma perspectiva biopolítica: a compreensão de toda a vida implicada em contexto político. numa perspectiva de horizonte curto. O ritmo de movimentação e articulação da rede acompanha o próprio dinamismo do mercado. cabe identificar uma reunião de tendências nem sempre convergentes. E se posiciona em disputas e parcerias políticas (em relacionamento com a própria Abrafin. o processo rápido e individualista do consumo absorve variações que ocupam espaços na discussão sobre o que seria predominante e o que seria alternativo nessa relação. a presença do público pelos festivais de música independente segue um movimento de ocupação de espaços urbanos. p. O festival é simbólico.97). através de discursos e de ocupações espaciais no ambiente de produção cultural no país.82) Ao passo que os processos comunicativos fundamentados na velocidade condicionam a relação de consumo entre a música e seus potenciais públicos. embora não esteja sozinho neste sentido e justifique suas preocupações com a música (e com seu valor artístico) sobretudo em ações mais práticas e pontuais.

(.. natural e artificial. Esse milieu híbrido da população. BAUMAN. E se há tais preocupações. _______________. 2008. MundoBraz: o devir-mundo do Brasil e devir-Brasil do mundo.) A população funciona.. A sociedade de consumo. . memórias futuras: o sentido da tradição em Paulinho da Viola. Afinal. diz Foucault. Ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. Giuseppe. baseada em valores do imaginário pós-moderno e reanimada pela ideia de que a diversidade da cultura pode coexistir com padrões de consumo imediato na contemporaneidade. p. pois o meio ambiente assegurado pela reflexão biopolítica é constituído pela própria população: uma hibridização entre cultura e natureza. COCCO. ao mesmo tempo há movimentos de resistência nesta relação. tende a reavaliar a crise do pensamento simbólico e uma suposta mortificação do corpo envolvido pelo imperativo de “estar conectado”. nas suas bases. como um sujeitoobjeto (FOUCAULT apud COCCO. climático. eis mais um ponto de distinção do público no processo analisado. é múltiplo: constituído no cruzamento dos corpos e das almas. Zygmunt. físico e a espécie humana”.128) A sequência confirma a “tendência de fundo” teorizada pelo pensamento de Maffesoli. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998. 2011. Lisboa: Edições 70. Universidade de São Paulo – ECA/USP 9 a partir da evidência de que se há pressão de valores de consumo imediato no convívio social. Velhas histórias. BIBLIOGRAFIA BAUDRILLARD. rev. a população se apresenta como uma “imbricação perpétua entre um milieu geográfico. 2009. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.. COUTINHO. considerando que. 2008. O mal-estar da pós-modernidade. 2. entre determinantes biológicos e culturais. e ampl. as tensões da pós-modernidade têm delineado um cenário de reenergização dos imaginários culturais – que embora não se apresente ainda como situação hegemônica. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Modificada pelas interações com as tecnologias de poder.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. Jean. os festivais se organizam a concepção de ideias de associativismo e preocupações socioambientais. 2009. Eduardo Granja. Rio de Janeiro: Record..

SÁ. Indústria da música em transição. Acesso: 29/05/2012. VIRILIO. 34. Universidade de São Paulo – ECA/USP 10 HERSCHMANN. . 1993. Rumos da cultura da música: negócios. 2010. Micael. São Paulo: Estação das Letras e Cores.br/institucional/carta-de-principio-do-circuito-fora-doeixo-2009>. Saturação. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Paul.org. 2010.IV ENCONTRO DE PESQUISADORES EM COMUNICAÇÃO E MÚSICA POPULAR Linguagens e identidades da musica contemporânea 15 a 17 de agosto de 2012. Carta de Princípios do Circuito Fora do Eixo 2009. 2007. linguagens e audibilidades. Simone Pereira de (organizadora). estéticas. Disponível em: <http://foradoeixo. ________________. 2010. Rio de Janeiro: Record. Porto Alegre: Sulina. PORTAL FORA DO EIXO. MAFFESOLI. Michel. Rio de Janeiro: Ed. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural. O espaço crítico.