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CAIS DO PICO A VERMELHO E NEGRO Setembro de 1930. Ainda não se soletrava “Estado Novo”, ou “União Nacional”.

Depois do golpe militar do general Mendes Cabeçadas, em 28 de Maio de 1926, Salazar, depois de umas duas semanas como Ministro das Finanças nesse ano, só começaria a “endireitar” as contas públicas a partir de 1928 – tarefa que deu como cumprida em 1932. O seu Estado Novo viria logo em 1933, vestido a preceito com uma Constituição e um Partido, único, à medida, a União Nacional. Óscar Carmona era Presidente da República (1930-31). Setembro de 1930. O regime, que ainda não era salazarista e estadonovista – fascista –, vinha a “dar neles” desde o tempo da monarquia constitucional, e depois, mais feramente, durante os tempos que se seguiram à República implantada em 1910: “davam” nos anarcosindicalistas, mistura vermelha e negra: Bakunine, ideologia libertária, comunismo. “Dar neles”, forte e feio, queria dizer, feridos, mortos, deportados – para a morte certa. Setembro de 1930. Um destacado militante anarco-sindicalista, Mário Castelhano – nascido em Lisboa, em 1896 – é deportado para a ilha do Pico; a morte, essa, foi ter com ele ao campo de concentração do Tarrafal. Outubro de 1930. A 16 de Outubro, Castelhano e mais quatorze seus companheiros deportados atravessou o Canal entre o Faial e o Pico, a bordo de um pequeno gasolina, como refere nas suas memórias (Quatro Anos de Deportação, 1931). O mar estava terrível e só chegaram ao seu destino, o Cais do Pico, depois de passarem por S. Mateus. O Cais teria, segundo ele, cerca de mil habitantes. Sem iluminação pública ou água canalizada. Os quinze deportados vermelho-e-negro foram recebidos com carinho e simpatia pelos habitantes. O Governo de Lisboa não tinha providenciado alojamento para aquele grupo de portugueses empurrados para uma terra estranha. Viveram uns tempos em precárias condições de alojamento, higiene e alimentação; até que apareceu o senhor Manuel Garcia da Rosa e lhes cedeu o primeiro andar da sua casa, que ficou conhecida como a Casa dos Deportados. Aqui viveram, apesar das enormes dificuldades de sobrevivência, aliás, semelhantes à generalidade da população do Cais, na melhor harmonia, anarquistas, sindicalistas, comunistas e republicanos. Os ideais deste heterogéneo grupo não eram de todo estranhos a alguns dos homens do Cais, embora por diferentes motivações e estados de espírito. Castelhano recorda com carinho os nomes de Francisco Ramos da Silveira, Tristão de Brito, Almério Tavares, Emílio Rodrigues Ferreira, Manuel Soares, Celestino Augusto de Freitas, Gustavo Goulart… Nesta sua vida, além de alguma participação na vida local, um ou outro passeio, algumas vezes até junto dos deportados que estavam nas Lajes (como o célebre secretário geral do Partido Comunista Português, Bento Gonçalves). A sua vida era calada oficialmente – como no jornal local O Picoense, onde o Administrador do Concelho impunha a censura, chegando ao cúmulo de riscar das provas tipográficas a palavra “democracia”. Os laços de simpatia entre os deportados e a população chegaram a ser muito estreitos. Essa «solidariedade moral», como lhe chama Mário Castelhano, foi eloquente na partida (Abril de 1931): no pequeno cais juntou-se gente do Cais do Pico e arredores, de S. Roque, Santa Luzia e outros pontos e a despedida foi feita com mulheres e homens «com os olhos marejados de lágrimas». «Abraços sinceros remataram a despedida.» Os meses de convívio com a população picoense e a despedida comovente, tocou profundamente a sensibilidade dos deportados da ditadura. Do Faial, enviaram uma

E como se nos secaram as lágrimas. estava de novo à frente do secretariado da CGT e faz parte do grupo que organizou o 18 de Janeiro de 1934. como já não sabemos chorar. este texto não obedece à actual Norma Ortográfica. onde participou na insurreição da ilha contra o Governo. para o campo de concentração do Tarrafal. estas linhas traduzem o preito do nosso reconhecimento pela vossa inconfundível atitude. população do Cais do Pico. Cabo Verde. um grande abraço de despedida. com destino à Fortaleza de S. a terra picoense que durante cerca de 7 meses se vestiu solidariamente a vermelho e negro. a vós. povo de sentimentos altruístas. ilha de Santiago. onde veio a morrer em 12 de Outubro de 1940. João Baptista. E vale a pena transcrever o seu final: «A vós.» Mário Castelhano foi do Pico enviado para a Madeira. embarcado clandestinamente no porão do navio Niassa. onde sobrelevam os ideais humanistas da sua luta revolucionária. fugiu da ilha. Em 1933.saudação escrita. Embarcou em Setembro de 1934. três dias antes do movimento. Não sabemos como ficaram os homens e as mulheres do Cais. Preso a 15 de Janeiro. escritor e editor da Companhia das Ilhas Por vontade expressa do autor. com a derrota deste movimento. daqui lhes enviamos (…) a nossa sincera saudação. Carlos Alberto Machado. em Angra do Heroísmo. e em Outubro de 1936. . foi condenado pelo Tribunal Especial Militar a 16 anos de degredo. A todos.