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Reality show: um dispositivo biopolítico

Ilana Feldman

A convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível pode levar-nos a interpretar a história por meio de lugares comuns. Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja. Hannah Arendt1

Distante das críticas à banalidade de um suposto “cotidiano” e longe dos discursos de adesão, as tentativas de compreensão dos contemporâneos programas de realidade teleprogramada, amplamente conhecidos por reality shows, movem-se em terreno pantanoso. Não é mesmo fácil, muito menos confortável, pensar aquilo que, sendo da ordem da movência, permanentemente escapa a categorizações fixas e julgamentos normativos. Não é mesmo fácil sermos contemporâneos a nosso próprio tempo, pois, como já escrevera Hannah Arendt, “somos contemporâneos somente até o ponto em que chega nossa compreensão”.2 Tal como nosso tempo, os reality shows requerem um escopo que contemple suas formas cambiantes, múltiplas e seus efeitos paradoxais - análise e diagnóstico que não implicam predizer, apontando o dedo em riste para a história e seus dispositivos culturais, mas, antes, como diria Deleuze, “estar atento ao desconhecido que bate a nossa porta”.3 Por isso, é sempre tão desafiante tentar analisar aquilo que é escorregadiamente vivo, ou, no caso da perspectiva aqui postulada, aquilo que faz da própria vida, biopoliticamente, matéria-prima de observação, instrumentalização e subjetivização compartilhada. Objeto que grita, ou sorri sarcasticamente, na mesa do anatomista...

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ARENDT, H. As Origens do Totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989, p.12. ARENDT, H. Compreensão e Política, Lisboa: Relógio D’água, 1993, p.53. 3 DELEUZE, G. “O que é um dispositivo?”. In: O Mistério de Ariana. Lisboa: Vega, 1996.

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Michel Foucault, pensador que fez do presente uma infindável superfície de investigação e do pensamento uma abertura à historicidade e às urgências de seu próprio tempo, dizia sentir-se, em sua escrita, como um anatomista que percorre o corpo do outro, fazendo nele incisões, levantando os tegumentos da pele, procurando trazer os órgãos à tona e, com isso, tornando visível, finalmente, o local da lesão. Foucault compreendera que o trabalho do analista não é matar seu objeto, asfixiá-lo, domesticá-lo, mas pressupor, antes mesmo da análise passar a operar (e para que ela possa operar), sua circunstancial morte4. A escrita foucaultiana partia assim desta premissa, de que toda análise - avaliativa e perspectiva - requer recortes, cortes, suturas e rupturas. Portanto, é sempre válido relembrar: para cada recorte tornado visível há um sem-número de outros obscurecidos. É nesse intuito que procuramos compreender, por meio de um recorte estético e biopolítico, o fenômeno dos reality shows. Fenômeno a ser tomado como um campo de investigação privilegiado, por fazer convergir, de maneira inaudita, diversos interesses e relações de força, como as demandas do capitalismo pós-industrial, pós-fordista ou

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FOUCAULT, M. “Eu compreendo porque as pessoas sentem minha escrita como uma agressão. Elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte. Na realidade, sou bem mais ingênuo do que isso. Eu não as condeno à morte, simplesmente suponho que já estejam mortas. É por isso que me surpreendo quando as ouço gritar. Fico tão espantado quanto o anatomista que sentisse redespertar de repente, sob a ação de seu bisturi, o homem sobre o qual pretendia fazer uma demonstração. Bruscamente, os olhos se abrem, a boca se mete a gritar, o corpo a se retorcer, e o anatomista se espanta: ‘Então ele não estava morto!’” In: “A palavra nua de Foucault”, entrevista publicada pelo Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 21/11/2004 (tradução a partir de entrevista concedida ao Le Monde, 1966).

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imaterial5 por perfis identitários, corpos ajustados e motivados, “intimidades” publicizadas, desejos de visibilidade e autenticidade, dentre tantas outras demandas. Os reality shows, assim como o capitalismo contemporâneo em sua vertente imaterial, fariam então da própria vida, “anônima” e “real”, o terreno mais fértil, “criativo” e rentável para seus dinâmicos investimentos.

Porém, quando falamos em “o” fenômeno dos reality shows, de modo algum queremos circunscrevê-lo, ou reduzi-lo, a um corpus homogêneo, desprovido de matizes e produtor de sentidos unívocos. De modo algum queremos obscurecer a singularidade dos objetos que constituem tal fenômeno, domesticando-os como mero e ilustrativo suporte para uma tessitura teórico-conceitual. Tendo em vista as relações de poder forjadas por esses programas televisivos, seria até mesmo pertinente perguntar: como não tiranizar objetos, no caso, também tirânicos? E como fazê-los falar - sem torcê-los, sem autoritariamente forçá-los -, a fim de que exprimam aquilo de que a linguagem, por sua precariedade e perplexidade, muitas vezes não dá conta? Nesse sentido, também seria o caso de nuançarmos a idéia de “fenômeno”, denominação tingida por ares de excepcionalidade. O “fenômeno” a que nos referimos indica que os reality shows, de uma tendência internacional no mercado do audiovisual, têm se transformado em presença permanente,
O regime de produção “pós-fordista” ou “pós-industrial” ensejou, segundo diversos autores, um novo modo de agenciamento capitalista, denominado “capitalismo imaterial” ou “cognitivo”, cujo núcleo da produção econômica é a própria vida, o conhecimento, a criatividade, o imaginário, a comunicação e a informação. Ver: COCCO, G. Capitalismo cognitivo - trabalho, redes e inovação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003; bem como NEGRI, A. e LAZZARATO, M. Trabalho imaterial. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
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mas espiar e premiar. Ver o texto seminal de Deleuze. por meio da pluralidade de gêneros e formatos. exibição e circulação e.das revistas de “gente” à pornografia. mobilizam simultaneamente diversos suportes tecnológicos e comunicacionais. É preciso que tudo se torne visível para que se possa não mais vigiar e punir . Em todas essas mídias.como nas modernas sociedades disciplinares -. fóruns. do livro Vigiar e Punir). constranger e liberar. consagrando a expressão “sociedade de controle” como denominação de nossa atual forma de organização sócio-técnica. eletrônicas ou tradicionais . da horizontalidade das formas de produção. In: Conversações. “Post-Escripum sobre as sociedades de controle”. nosso mais expressivo reality. é Gilles Deleuze quem vai conceitualizá-lo. vida Apesar do termo “controle” já aparecer na obra de Foucault (notadamente no capítulo “O Panoptismo”. no caso do Big Brother Brasil. prever. a telefonia fixa e móvel.manifestação massiva que se dissemina nos mídia. bem 6 4 . por meio do desenvolvimento galopante da chamada convergência de mídias. site. monitorar e simular. trata-se de fazer convergir um mesmo interesse: é preciso que tudo se torne visível para que se possa administrar. 2000. São Paulo: Ed. essa capciosa forma de incitação à adesão voluntária. que insere o BBB como o produto central dentre uma rede de tecnologias e serviços. controlar e estimular. passando por diferentes perfis de jornais. Binômios paradoxais moduladores da experiência e da vida nas contemporâneas sociedades de controle6. como a televisão aberta e fechada. além das publicações diárias e periódicas. por mais diversificadas que se apresentem. Serviços que. pautados por demandas de interatividade. nacionais e estrangeiros. 34. chats e canais de exibição na internet. programar.

em “A sociedade mundial de controle”. Nesse sentido. em reação e em relação às câmeras. Antes de prosseguirmos. por mais que naturalizem . é importante ressaltar que.os olhares vigilantes. pois nos reality shows não há roubo de imagem. Não se trata mais então de observar furtivamente. 5 . Pedro Bial: “vamos exercer nosso direito de espiar!”. à distancia e na solidão. mas de tornar explicito. que por sua vez implica uma relação de poder produtiva. agindo por modulação e modulando variações. o poder atua como uma força social dinâmica e microfísica que se como o desenvolvimento do conceito por Michel Hardt. para além de um possível voyeurismo. Éric (org. vida que reivindica a possibilidade de se furtar ao olhar alheio ao mesmo tempo em que solicita ser permanente observada. trata-se da interiorização da vigilância por meio de um pacto de encenação. a partir de um único ângulo (a clássica figura da fechadura ou da janela). 34. empregada muitas vezes para explicar brevemente nossa contemporânea “pulsão escópica”.) Gilles Deleuze: uma vida filosófica. 2000. não há uma observação sem consentimento e seletiva.que tanto escapa às dominações quanto demanda ser por elas reativada.e eventualmente esqueçam . transparente e democrático o modo como opera esse olhar. In: Alliez. Antes. não há alienação por parte dos vigiados. Como diz freqüentemente o apresentador. e não repressiva: encenando-se a si mesmos e interpretando seus tipos. vigiar ou espreitar é ressignificado. em um tipo de pacto em que o ato de espiar. Rio de Janeiro: Ed. não daria conta da complexidade das relações de poder em jogo no ato de “espiar”. a clássica definição de voyeurismo. os participantes de um reality show demandam ser constantemente observados.

7 6 . até mesmo. ver: FOUCAULT. bem como “O nascimento da medicina social”. bem como de seus mecanismos. a vida da população e dos indivíduos passa a ser politizada por meio da adoção de processos sócio-técnicos preocupados em garantir a reprodução e a sobrevivência da espécie. de subjetividades e de relações sociais -.. A partir do século XVIII. produção e gestão e. não é uma certa potência de que alguns seriam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica (. 89. não podemos perder de vista que esta produção é processual e relacional. de corpos. 8 Para um aprofundamento do conceito de biopolítica.. solicita e convoca nossa ativa colaboração . restritivo e punitivo. no domínio dos cálculos explícitos do poder. o incorporam e voluntariamente o reativam como uma função vital. a fábrica. seja por meio de nossa voluntária observação (em função da qual o gesto de espiar torna-se um “direito”). São Paulo: Martins Fontes. ao compreender o poder como produção . 1997. Um poder que. bem como por meio de diversas tecnologias de poder. atualização e reprogramação. de desejos.)”.dissemina e se multiplica capilarmente por todos os setores da vida. “Aula de 17 de março de 1976”. Rio de janeiro: Graal. de modo imanente.1. cujo alcance e penetração social só se efetivam com êxito porque o poder é exercido sobre sujeitos livres e por meio de sujeitos livres: são os indivíduos que o tomam para si. 2005. 1997. o abraçam. em História da Sexualidade . Rio de janeiro: Graal. como tão bem cartografou Foucault7. “O nascimento da biopolítica”. tomados aqui como um dos modos de operar da biopolítica: quando todas as dimensões da vida. Um poder produtivo. tornam-se o motor e o núcleo vital do capitalismo em sua faceta cognitiva e imaterial.seja por meio de renovadas estratégias de interação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2000. In: Em defesa da sociedade. cada vez mais seduz. em suma. In: Microfísica do poder. como as instituições disciplinares (a escola. In: Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1982). o poder “não é uma instituição nem uma estrutura. suas tecnologias de regulação. Dinâmica que tanto vale para as formas hegemônicas de produção subjetiva quanto para certa produção audiovisual televisiva. Um poder. p. suas formas de escape e liberação. que rege e regulamenta a vida social desde dentro. obsolescência.vol. além de infinitesimal e vascularizado por todo o corpo social. M. caso dos reality shows. a prisão e o hospital) focadas na administração Segundo Foucault.de imaginário. e não mais repressivo. Todavia. implicando a constituição de produtos (materiais ou imateriais) permanentemente inacabados: em contínua mutação. Cabe lembrar que a “biopolítica” foi definida por Foucault8 como a entrada da vida e do corpo.

da “criatividade”. instrumentalização que alimenta tanto uma economia imaterial. Dentre essas técnicas de auto-gestão. quando o indivíduo torna-se um empreendedor de si. ou mesmo como produto de seus rendimentos. inscritos em uma racionalidade política que irá determinar. muitas vezes. 7 . do “carisma”. compartilhada e. da “boa forma” e da “produtividade” . de padrões comportamentais e de perfis de consumo. agora além de politizada. pautadas por valores empresariais de custobenefício e por demandas de otimização do desempenho e atualização permanente. quanto uma produção audiovisual biopolítica. os poderes. se as outrora estatais biopolíticas nascem como uma modalidade de poder sobre a vida e de governo da vida. a partir de então cada vez mais diferenciados individualmente. ou biopoderes. foi também capitalizada em sua mais ínfima dimensão: tornou-se um feixe de informações.dos processos biológicos dos corpos humanos. teriam destaque as estratégias de “marketing pessoal” . de maneira horizontalizada. em sua vertente informática e tecnocientífica. A vida. Porém. privatizadas e hiper-individualizadas. tomando a si mesmo como seu próprio produtor de rendimentos.e a administração dos riscos que ameaçariam esses mesmos commodities. Desse modo. hoje.em que está em jogo o aumento da “auto-estima”. socialmente requerida. elas se disseminam como técnicas de auto-gestão. configuram-se como dispositivos de normalização enquanto “mecanismos de regulação da vida”. a forma de gestão das condutas dos indivíduos.

caso da matriz Big Brother. cotas de anunciantes e “retorno de mídia”. de um mesmo formato. cultural e operacional. de fato. nem da exportação mundial. “todas as máquinas são sociais antes de serem técnicas”10. Lisboa: Vega. podemos constatar que. a despeito de uma pluralidade de formatos narrativos. De fato. São Paulo: Brasiliense. ensejando relações sociais. G. dos lucrativos resultados adquiridos . isto é. Como escrevera Deleuze. Foucault. “pertencemos aos dispositivos e neles agimos”9. regulam e controlam novas multiplicidades de indivíduos. Antes. Enquanto dispositivo. antes mesmo de ser técnica. os reality shows são. processos de subjetivação. além de valores empresariais. enquanto um modo de operar dotado de uma lógica e de efeitos que lhe são próprios. tal semelhança (que de modo algum oblitera as diferenças) pode ser identificada por meio da presença de um tipo de dispositivo audiovisual que se efetiva como uma disseminada “tecnologia de poder” e como um hegemônico regime de visibilidade da atualidade. pois se constituem como arranjos descentralizados de poder que organizam. padrões corporais. 8 . 1996. In: O Mistério de Ariana. ainda. do Ocidente ao Oriente. DELEUZE. já que o dispositivo é uma máquina social. nem mesmo. 2005. G. e é aqui que reside nosso interesse maior. dramatúrgicos e tecnológicos.em números de audiência.Nesse sentido. demandas de visibilidade. valor de patrocínios. de efeitos de verdade e de interatividade. “O que é um dispositivo?”. para Deleuze. os reality shows se articulariam a outros objetos 9 10 DELEUZE. uma produção audiovisual atravessada por uma lógica comum. Similitude que não é identificada apenas em função das “vivas” estratégias de contínua adaptação e mutação dos programas.

privilegiamos o reality Big Brother Brasil como referência primeira. 2003. 11 12 JAMESON. Assim. 1997. FOUCAULT. dando conta das complexidades inerentes tanto ao aprimoramento narrativo quanto às condutas humanas em jogo – aproximação que não responderia aos anseios deste texto. Ditos e Escritos. M. quando falamos em reality shows. Pós-modernismo . também dupla. Rio de Janeiro: Forense. a fim de evitar qualquer tipo de envelhecimento de sua fórmula e desgaste de seus altos índices de audiência. transmissões esportivas televisivas e alguns filmes documentais e ficcionais -.audiovisuais contíguos . Estratégia. de auto-expressão e de exteriorização de si como personagem público.como a vigilância. IV. tendo em vista os limites deste texto. a regulação dos comportamentos e da dimensão libidinal da vida.com técnicas subjetivas de invidualização. de uma epidemia local. IV. Poder-Saber. vol. Sendo ambas as “técnicas” e “tecnologias” matéria-prima das estratégias biopolíticas. estamos designando um duplo movimento. a saber: a convergência de “técnicas políticas”12 que se pretendem objetivas e totalizantes . Rio de Janeiro: Forense. tal como o corpo que ressuscita nas mãos do anatomista. assim. por meio da qual operam. fotologs. não se trataria.como blogs. porém bastante plástico e plural. ou como uma “lógica cultural do capitalismo imaterial”. tendo sempre em vista de que se trata de um “mesmo”. o controle. capítulo a capítulo. F. e de modo ainda mais expressivo no caso do Big Brother Brasil. vol. simulação de flagras. Ditos e Escritos.a lógica cultural do capitalismo tardio. mas dos reality shows como um dispositivo biopolítico endêmico em nível global. de criação identitária. a punição e a premiação . regime de visibilidade. Dando então continuidade às metáforas clínicas foucaultianas. Estratégia. tanto os programas em si mesmos quanto a lógica. para adaptarmos o subtítulo de um livro do crítico marxista Frederic Jameson11. vídeos amadores. o BBB está sempre em mutação e em permanente atualização de seu formato. é necessário salientar que. 2003. 9 . transmissões via webcams. por meio das quais se realizam os processos de subjetivação. No entanto. O que significa que uma análise minuciosa precisaria acompanhar edição por edição. Neste ponto. ou “tecnologias do eu”13. 13 FOUCAULT. Poder-Saber. Rio de Janeiro: Ática. M.

Croácia. entre a interiorização dos poderes e da vigilância e a modulação dos processos de subjetivação. assim. Filipinas. sexual. Os programas: regulação policial e libidinal Tal endemia dos reality shows faz-se então evidente quando tomamos o caso da franquia televisual Big Brother. o contrato da Rede Globo com a Endemol segue até 2012.com. África do Sul. Segundo Segundo matéria publicada pela Folha Online. e.É habitando esse duplo vínculo político. Austrália. mais a vida é instrumentalizada. mais de 25 países. dispositivos e tecnologias. expropriada de sua existência propriamente política e reduzida a uma performance: comportamental. em sua dimensão “cotidiana” e “ordinária”. se não for renovado antes desta data. dos vizinhos nórdicos à Índia. México e diversos países europeus e latinoamericanos.shtml 14 10 . entre as técnicas políticas e as tecnologias de individuação. como uma espécie de formato audiovisual internacionalista. como o fundamento das democracias ocidentais modernas: pois. quanto mais investida e atravessada por poderes.uol. Rússia. Finlândia. Criado em 2000 pela empresa holandesa Endemol. Em: http://www1.folha. Configurado. que a vida agenciada pelos reality shows revela-se. pelo menos em princípio. além do Brasil14. Tailândia. em que empresas de comunicação nacionais pagam altas taxas pelos direitos de adaptação e exibição. negociado e atualizado. o formato narrativo Big Brother seria análogo à função ocupada pelo próprio gênero do romance durante o período colonial e imperial. midiática e profissional. Bulgária.br/folha/ilustrada/ult90u69997. Estados Unidos. os direitos autorais do Big Brother foram vendidos para. quanto mais rentabilizada e valorada como um “capital pessoal” a ser cuidadosamente administrado. quanto mais aparentemente valorizada. Sérvia.

reproduzia. em Cultura e Imperialismo15.Edward Said. mesmo quando nacionalizado pelos países dominados. em noite de “paredão”. Disponível em: http://p. essa “forma narrativa da dominação” se dá não apenas por sua disseminação horizontalmente globalizada.php. E. quando podia ser uma das eliminadas: “Estou nervosa como em SAID. das Letras. Cultura e Imperialismo São Paulo: Cia.1. em um nível macroeconômico. das irrestritas estratégias de marketing e dos fluxos capitalistas. “O pavor da carne” – entrevista com Paula Sibilia.br/tropico/html/textos/2853. como um produto histórico. No bojo desse dispositivo biopolítico. I. No caso do dispositivo Big Brother. 1999. Ver FELDMAN. em uma dinâmica de poder que faz da “motivação” e das “técnicas motivacionais” (com todos os afetos que elas implicam) o modus operandi desse dispositivo de produção subjetiva alterdirigida16 e simultânea produção capitalista. sobretudo. mas. de fato. contemporaneamente. em um nível microfísico. subjetivação e exclusão. jan. disse certa vez a personagem Nathália. haveria um deslocamento dos eixos em torno dos quais as subjetividades se constroem.shl 16 15 11 . hoje proliferara um tipo de subjetividade que precisa da confirmação do olhar alheio para consumar a sua existência: um eu que precisa aparecer para ser”. quando os modos ou “estilos de vida”. Em entrevista a revista eletrônica Trópico. In: revista Trópico. se tornam a fonte de energia que alimenta a permanente renovação das tecnologias da comunicação. o romance. pelo modo transversal com que ela atua sócio-culturalmente. É no âmbito da própria diegese do programa que se efetivam. as quais tenderiam a uma gradativa exteriorização do eu e a uma construção de si alterdirigida. patrão e psicólogo-chefe. “Assim.uol. em sua forma e linguagem. Paula Sibilia nos diz que. próximo a um departamento de RH em período de contratação de pessoal para grandes companhias.2007. as variadas formas de dominação. mesmo os mais singulares. a mentalidade da dominação.com. no qual Pedro Bial seria um misto de pai. do BBB5.

No entanto. assalariados. capítulos adiante. por vezes. considerada libertadora por esses programas. primeiro. e. portanto.voluntária . como “O Aprendiz”. uma adaptação da matriz norteamericana “The Apprentice”. pertencer ao regime de visibilidade em questão implica um outro tipo de . como Justus/Trump e.agora reconhecidos como sujeitos de direito aptos para a liberdade do capitalismo sem fronteiras. quem não tá vai pra fora”. o concorrente Paulo André. Interessante notar que o termo “apprentice” em inglês não se refere apenas ao caráter pedagógico do programa. nas colônias inglesas. Regime de visibilidade em que é preciso. por meio da entrada do indivíduo a um regime de visibilidade próprio aos aprendizes vencedores . a uma vertical mobilidade social e a um reconhecimento pessoal pela fama. Frases e posturas próximas a outros realities. programa do multimilionário Donald Trump. mas aos escravos libertos e livres . hesitantes.uma entrevista de emprego”. modestos. por sua vez.chamados. de fato. Bial (este com algum afeto) quer nos demonstrar. cujo bordão. não se restringe. mas se efetiva. inseguros ou fracassados. anônimos. autônomos. Quem tá comigo sobe junto. 12 .A: “Aqui é igual lá no emprego.prisão.porém sem direito à cidadania . A vitória. parecer bem-sucedido para tornar-se bem-sucedido e que condenaria todos os outros. é: “Você está demitido!”. Ao que responderia. pois eram submetidos a uma espécie de “estágio” até serem considerados “aptos para a liberdade”. também adaptado por Justus e seus “consultores”. à conquista do prêmio milionário. na TV Record. conhecido como P. de apprentices. nem à figura do aprendiz de um jogo capitalista sádico e amoral. a uma espécie de servidão do empregado. espécie de “MBA para as massas” apresentado e liderado pelo empresário paulista Roberto Justus.

. das Letras. UFMG. 2003 (cap. é preciso que ele demande e se submeta às novas e contínuas prisões . em constante observação. de O Processo. de modo oposto. estaríamos. G. aproximar a figura da porta que encerra os confinados no cativeiro de luxo do BBB à parábola de Kafka. conferindo visibilidade e existência social ao libertar o confinado da “aprisionante” condição do anonimato. G. sobretudo se pensarmos no dispositivo de convivialidade vigiada do Big Brother Brasil. Belo Horizonte: Ed. Em ambos os casos. assim como o personagem K. no “formato narrativo” Big Brother. O que significa dizer que. pela fama. Eterno jogo de espelhos entre a liberdade que impõe aprisionamento e o aprisionamento como condição de liberdade. aprisiona os que vivem fora18. como no romance. 2005. aliás. UFMG.diante da arbitrariedade do poder. 2002 e AGAMBEN. Um poder que. “A porta diante da lei”17. 13 .que nos evoca imagens kafkianas . F. quando a 17 18 KAFKA. pois nossa vida privada é permanentemente rastreada e digitalizada por cada vez mais difusas e renovadas estratégias de controle e vigilância. para que o anônimo candidato ao confinamento se “liberte” ou se “emancipe” socialmente. é requerida e consentida.o poder soberano e a vida nua.em que sujeitos demandam assujeitamento para que deixem de ser sujeitados? Não seria exagero. São Paulo: Cia.Do mesmo modo. a vigilância não mais coage. mas. ao encerrar quem está dentro. O Processo. Homo Sacer . Belo Horizonte: Ed. Presos do lado de fora.. porém agora desprovida da pauta ideológica e amalgamada por uma cultura democrática.exercidas pela casa do programa. pela empresa. Nesse estado de exceção19 em que se desenrolam os programas. mas na própria dimensão infinitesimal da informação digital. 19 AGAMBEN. IX). cuja matriz inspiradora é a distópica ficção-científica-política 1984.e da voluntariedade . Ou se trataria de uma estranha condição contemporânea . trata-se da espera . Estado de exceção. baseadas agora não apenas em regimes escópicos centrados na função primordial da observação.

já que.br/folha/ilustrada/ult90u361904.br/protocolos. http://www1. Belo Horizonte: Ed. matéria de Daniel Castro. C. interpretar seus tipos em outros meios e veículos.suspensão do ordenamento jurídico-constitucional. publicada no jornal FSP. mas como a exceção que teria se tornado norma vigente. até. esse grande motor narrativo. nas palavras do apresentador Pedro Bial23. a “personalidade”.o poder soberano e a vida nua. Caderno Ilustrada. tombos e vexames”.de ‘Páginas da Vida’ ao ‘Big Brother Brasil’ explicitam-se normas de conduta e comportamento’”. I. É por meio dela que podemos perceber certas práticas de poder não como extra-ordinárias.folha. 22 A respeito da administração do conflito no BBB. mar. In: revista Cinética. os participantes do Big Brother Brasil são considerados “personagens de ficção”20. ver: FELDMAN. 10/012008. controlando. pela vida-nua. Disponível em: http://www. UFMG. por tempo determinado.uol. o Big Brother brasileiro engendra uma sofisticada prática biopolítica de regulação policial e libidinal .shtml 20 14 .com. em “Casal do ‘BBB’ protagoniza cenas picantes sob o edredom”.com. não podendo. de modo algum. e EDUARDO. porém. 6/02/2008. “Protocolos do ‘bom senso conjugal’ e do ‘conflito cordial . G. Folha Online. normatizada e revertida em uma tecnologia de governo da vida. Produzindo e reproduzindo relações concorrenciais e competitivas baseadas na estimulação e contenção do conflito22. que constituirá a própria argila.uol. a forte figura do estado de exceção não significa. simultaneamente.shtml 25 Em: “Big Brother" embriaga participantes para produzir beijos. em 21/03/2005. 24 Como. a “honra” e. http://www1.folha. como a “intimidade”. a argamassa da produção audiovisual biopolítica. tombos e vexames”25. tal como a disponibilização total de direitos considerados constitucionalmente fundamentais e indisponíveis. como se a emissora assumisse contratualmente que suas identidades e personalidades agora pertencem à empresa tal como produtos de ficção. Diferentemente do formato pioneiro criado pela Endemol. 2007. essa vida que foi reduzida à sua condição biológica. por exemplo. incitando e.htm 23 Ver entrevista de Pedro Bial ao O Globo. corporal. Folha Online. ‘big brother’ é personagem”. libidinal e fenomenológica. Evocar.revistacinetica.br/folha/ilustrada/ult90u370073. a felicidade e a liberdade de cada participante se inscreverão no ponto exato de sua própria submissão. 21 AGAMBEN. o Big Brother Brasil se caracteriza não só pelo estímulo a “cenas picantes sob o edredom”24 ou por embriagar seus participantes “para produzir beijos. é naturalizada. 2002. Homo Sacer . como nos diz Giorgio Agamben21. juridicamente.com. “concebido originalmente para gerar conflito e sexo”.dos corpos. É essa espécie de “servidão voluntária”. Segundo Caderno. de sujeição ao assujeitamento. a “privacidade”. em 26/03/05. demandada pela vida “anônima” e “real”. metaforizá-la. mas por estratégias de Em “Para Globo. de suas condutas e de sua libido. a partir de práticas de poder teoricamente inconstitucionais.

a maior audiência da TV brasileira no verão e a maior fonte de lucros da Globo no período.uol.shtml http://www1. relativos a uma ética da competição. no início da veiculação dos reality shows nas televisões brasileiras.uol.nobre. historicamente. ao fato de ser veiculado pela emissora líder e em horário . No limite.br/folha/ilustrada/ult90u361635. agressivos e competitivos). Se pensarmos no melodrama como uma forma de regulação do olhar26 do espectador na sociedade de massa e como um gênero. agenciados tanto pela edição quanto pelos critérios de punição e eleição.com. São Paulo: Cosac&Naify. que começou com 37 pontos no Ibope.br/folha/ilustrada/ult90u361079. O olhar e a cena – Melodrama. sejam concorrenciais.folha.shtml 26 15 . sendo também importados e exibidos em seus formatos originais ou reproduzidos em versões nacionais. dois programas eram paradigmáticos dessa mistura Ver XAVIER. cujo impacto27 e repercussão no país devem-se. Nelson Rodrigues. os estratagemas moralizadores.com. afetivos. inúmeros outros reality shows participam dessa economia audiovisual biopolítica. com seus instintos e impulsos (sexuais. I. o que significa 62% e 72% de todos os televisores ligados só na Grande São Paulo. é a própria administração da dimensão libidinal da vida.br/folha/ilustrada/ult90u69997. de “correção” social. que é tornada matéria-prima dessa economia audiovisual biopolítica.sejam morais. em primeira instância.folha. Mesmo o BBB8. “a segunda menor audiência da história do reality” na Globo.shtml http://www1.com. os índices do ibope variaram de 42 a 52 pontos (cada ponto equivale a 55 mil domicílios).moralização folhetinescas. 2003 27 O Big Brother Brasil tem sido. que punem aqueles que passam dos “limites” . agenciados pela audiência. já a recuperou.uol. Porém. além do Big Brother Brasil. Lembremos que. relativos às aproximações sexuais. dos candidatos ao milhão.folha. Hollywood. a partir da criação de oposições morais e estereotipias. vinculadas aos códigos do melodrama. Ver: http://www1. Da primeira à sétima edição (2000 a 2007).do ponto de vista dos patrocinares . tradicionalmente. Cinema Novo. no BBB. oscilação que não implicou qualquer efeito nas cotas dos patrocinadores. ficam evidentes.

os participantes-personagens têm sua convivência assentada na relação paradoxal entre a crença unívoca em identidades fixas. um laboratório humano. como em uma moderna dramaturgia. o segundo vinculava-se à dimensão estritamente sexual da vida.bbc. acompanhado por psicólogos que. a lógica cultural dos reality shows diz respeito a um modo de operar. em http://www1.uk/2/hi/entertainment/5281220. em http://news. negros e latinos. sexo e experiência behaviorista: o inglês “Zoológico Humano”.stm.biopolítica entre conflito. Conformando. Folha Online. e o norte-americano “Ilha da Tentação”. Ver as matérias “Race a factor in US reality show”. moral e policial de um certo espetáculo globalizado. 2006. disparavam seus frios e normativos comentários. desse modo. Dinâmica essa que. Enquanto o primeiro era. em seu bojo. do outro lado das câmeras de vigilância. estética e biopoliticamente.folha.uol. um reality show como o norte-americano Survivor chegou tomar as categorizações identitárias como critérios estritamente “raciais”. 28 16 . isto é. essas mesmas identidades são construídas relacional e posicionalmente.shtml. de maneira não-essencializada. está a capitalização . encenando-se a si mesmos. exibido pela FOX.co.br/folha/ilustrada/ult90u64071. crenças e desejos mais cotidianos. todo um regime de verdade. na prática. próprio à dinâmica neoliberal. sobre o qual assentamos nossas práticas. infidelidades e disputas entre casais.com. bem como “Reality show ‘Survivor’ é criticado por uso de ‘critérios raciais’”. Não por acaso. também reguladora . exibido pelo GNT. asiáticos. dividindo os candidatos em “tribos” de brancos.e a aceitação de que. Já no caso do Big Brother Brasil. instigando e gerindo traições. homogêneas e pré-estabelecidas uma mistura das classificações do IBGE com categorizações protofascistas . literalmente. os quais competiriam entre si em uma multicultural ilha deserta28. de visibilidade e de sensibilidade.das categorias identitárias.e a conseqüente modulação.

renda e origens “étnica” e regional. identificados por suas rígidas categorias e formatados. o cara engraçado e por aí vai. faixa etária (jovem. as armações. São as reações dessas pessoas juntas . as tensões.A encenação auto-reflexiva. Nesse sentido. Brasília: UnB. tais como gênero. Max. que faz da própria cena. Em WEBER.o que significa. capacidade de exteriorização das emoções e um alto coeficiente de humor e sensualidade. o humor e os romances . conforme as estratégias narrativas de criação de antagonismos e estereotipias. também contribui para acentuar o jogo de máscaras e de espelhos. gente que sirva para fazer uma boa festa. sobretudo. na prática. 29 Sobre a capitalização do “carisma” pelo capitalismo empresarial-midiático e o histórico deslocamento que o termo vem sofrendo. dos personagens e das cambiantes e múltiplas relações entre eles o assunto principal. são evidentes os critérios de seleção dos candidatosconcorrentes. Como já admitiu o diretor de núcleo de criação do programa. em maio de 2002.que farão a receita”. os quais não implicam nenhuma identidade como garantia. sobretudo). Tem que ter a barraqueira. 17 . vinculada à religião. além dos fundamentais “carisma”29 e “boa aparência” . pela edição. Economia e Sociedade. seria interessante ver a definição clássica em Max Weber. 30 Ver entrevista de Boninho à revista Playboy. Boninho30: “O que se quer são figuras interessantes. mesmo que eles sejam.os conflitos. 1991.

2001”. O que importa é a verdade dos conflitos. de “leis de SARAIVA.em termos da economia de distribuição de imagens na edição . “BBB e Edifício Master: espetáculo e anti-espetáculo”. ano VIII. O que importa. Cinema e Vídeo. Festival do Filme Documentário e Etnográfico . 33 O conceito de auto-mise-en-scène foi formulado por Claudine de France e retomado por Jean-Luis Comolli em “Carta de Marselha sobre auto-mise-en-scène”. quando definia o seu cinéma-verité como uma busca pela verdade do cinema e não no cinema. aqui. número 11. fora da relação com as câmeras. potencialização de uma verdade que emerge na relação com os outros participantes. L. físicos e comportamentais. uma auto-mise-en-scène33. É por essa razão que a edição do Big Brother Brasil não tem qualquer compromisso com a exibição equânime das imagens de cada personagem. 5º. isto é. 31 18 . Belo Horizonte. não tem qualquer compromisso com uma verdade que esteja fora da cena. In: Sinopse – revista de cinema.doc. é a potencialização da performance.e não na encenação32. setembro 2006. In: Catálogo “forum. L. por meio das opções e operações de linguagem. quem tem presença cênica e quem faz da própria cena um solo performático. usualmente. Por isso o privilégio concedido ao potencial dramático da ação. no caso. antes. ano VIII. da célebre frase do etnógrafo e documentarista francês Jean Rouch. número 11. uma auto-encenação que parece reproduzir e codificar “performances comuns a um amplo leque de relações sociais contemporâneas”34. 32 Aproprio-me.Fórum de Antropologia. em relação às câmeras. a verdade da encenação .quem é considerado carismático. relações de força e de poder no bojo daquilo que chamamos. isto é. relativa às dinâmicas concorrenciais da sociedade brasileira. além dos critérios identitários. faz-se presente valorização da “rentabilidade” da cena no âmbito de uma “economia emocional-funcional”31. “BBB e Edifício Master: espetáculo e anti-espetáculo”. In: Sinopse – revista de cinema. novembro de 2001. ao naturalizar e consolidar.Nessa receita. No Big Brother Brasil. “rende” mais . 34 SARAIVA. bem como dos estratagemas narrativos.bh. setembro 2006. Assim.

36 Decerto. inclusive. 19 . de forma mais sutil e modulável. é possível aprender a: emagrecer (“Você é o que você come”. Contudo. há os realities “profissionalizantes”. ser competitivo no mundo corporativo (“O Aprendiz”). sobreviver em uma fazenda de 1900 nas condições do passado (“A casa de 1900”) ou conviver com tribos que habitam remotas regiões do planeta (“Woman on the tribe”). há “Endividados”. ser competitivo na selva (“Survivor”). arrumar e remodelar a casa (“Minha casa. Certamente. funcionam como um tipo de serviço “assistencial”36 para os telespectadores. “Beleza Comprada”). cuidar dos filhos. sua casa”. enquanto oferecem oportunidades de reformatação do corpo. prestam-se a uma função social-técnica: espécie de serviço “público” ou programação e regulação pedagógica das condutas “privadas”. anterior à sua lógica. NP 21 . cujo método passa por estratégias de humilhação deliberadas (caso de “Ídolos”. com toda a criatividade narrativa e dramatúrgica que possam apresentar . Neste caso. cujo dispositivo de convivialidade vigiada estimula a produção de conflitos e a exposição de condutas privadas. “Antes e depois’: reality shows de intervenção. não nego.basta acompanhar os desenvolvimentos de uma decupagem narrativa nas sucessivas edições do Big Brother brasileiro -. empreender ações ambientalistas (“Planeta em ação”). um e outro “modelo” muitas vezes se sobrepõem. (“Superbabá”). por exemplo). além dos reality shows de intervenção35: aqueles que. “Queer eye for the straight guy”). “O Grande Perdedor”). Além dos reality shows de confinamento hedonista e voluntário (sendo o Big Brother a matriz). esse aspecto assistencial da TV. V Encontro de Núcleos de Pesquisa do XXVIII INTERCOM. os programas de realidade tele-programada. um programa que paga as dívidas dos participantes. I. 35 FELDMAN.para os participantes. enquanto o SBT oferece o mesmo “serviço” em “Devo.Rio de Janeiro. reformatar o visual através de cirurgias plásticas (“Extreme Makeover”.Comunicação e Culturas Urbanas. por exemplo. Na TV Record. para citar apenas alguns. de 5 a 9 de setembro de 2005 (disponível em PDF na internet). além de diversos exotismos: como desempenhar o papel de mãe em outra família cujo perfil identitário seja oposto (“Troca de família”). reformatação do corpo e produção de esquecimento”. UERJ . vestir-se de acordo com a moda em voga (“Esquadrão da Moda”). submeter-se a homens machistas (“Garota FX”). a função “assistencialista” da televisão ultrapassa o horizonte dos reality shows sendo. da casa ou do comportamento .mercado”. pago quando puder”. dispor de apenas um único mês para mudar radicalmente de profissão (“Tudo é possível”). adestrar homens (“Traga seu Marido na Coleira”). os reality shows vão intensificar. “The Swan”. dominar técnicas de sedução (“Inspetores do sexo”).

de Peter Weir e roteiro de Andrew Niccol (EUA. para quem a ficção era o único caminho para se penetrar a realidade. mas uma testemunha 37 The Truman Show. de captura e busca por uma autenticidade. o método de aproximação dos personagens revela-se um híbrido entre o documentário observacional . O que significa que. a partir do qual essa mesma autenticidade é posta-em-cena. Como já disse o mestre do cinéma-verité Jean Rouch. “a câmera não deve ser um obstáculo para a expressão dos personagens. no filme homônimo37). simultaneamente. em um processo não apenas de captação. 20 . a câmera deixa de ser somente um instrumento de captação e revelação para tornar-se.Ultrapassando a casa da centena. Entendidos comumente como um dispositivo de captura e busca por autenticidade. um instrumento de catalisação e produção das verdades dos personagens. todos esses gêneros e formatos de reality shows são conformados por uma mesma dinâmica narrativa e por um mesmo padrão de linguagem. criador do Programa de TV ‘O show de Truman’. mas de simultânea construção compartilhada. nos diz Cristof.e o documentário interativo . além da utilização dos códigos do melodrama. 1998). a câmera possui uma função produtiva. tal como o poder e como um aparato de poder. Assim. isto é.o ideal de uma câmera-testemunha transparente. no que diz respeito à linguagem.a prática de uma câmera autoconsciente e provocativa. Desse modo. aquela autenticidade que teria sido perdida pela ficção assumida como tal (“Já estamos cansados de atores com emoções falsas”. que seria revelada . Dir. os reality shows têm também tornado cada vez mais explícitos e evidentes os artifícios ficcionais que organizam e engendram as narrativas.

humilhações. Quanto à dinâmica narrativa.htm 38 21 . In: revista eletrônica Contracampo http://www. espécie de “estimulante psicanalítico”39 com o qual é possível interagir. resumiu certa vez com propriedade o personagem Jean Willys.contracampo. Apud BRAGANÇA. J. Decerto. ser redimido por ela. trata-se aqui. vencedor do BBB5. “Mestres dos mestres”. Felipe. a “redenção” do herói será alcançada não apenas por meio da conquista do prêmio em jogo.br/58/jeanrouch. Como em uma via-crúcis do corpo. diferentemente do ideal de “testemunha ocular” do cinema-direto e da simples vigilância. Em um momento histórico em que a conquista e a manutenção da visibilidade estão associadas ao movimento natural da própria vida.com. enquanto tomava seu relaxante banho de ofurô: “A vida é igual a nossa experiência no Big Brother: uma hora sai do ar”. Felipe. apesar de todos os embaraços.br/58/jeanrouch. no âmbito de um “capitalismo legal”: aquele que ROUCH.contracampo. trajeto atravessado por sacrifícios físicos e emocionais. In: revista eletrônica Contracampo http://www. de um outro tipo de testemunha.htm 39 ROUCH. as trajetórias pessoais são sempre alicerçadas em uma jornada tanto de auto-superação quanto de superação das adversidades exteriores. ao conquistar a imagem. “Mestres dos mestres”. Apud BRAGANÇA.com. A “redenção” será. constrangimentos e. mesmo. como também pela conquista de uma auto-estima e de uma visibilidade próprias aos vencedores. o vencedor do jogo se revelará como um modelo de empreendedor40 capitalista. J.indispensável que motivará sua expressão”38. Pertencendo então à esfera do visível.

Como já disse o empresário norteamericano Ted Bell.carreira e vida de pessoas que fizeram diferença. O que nos permitiria pensar que o modo de subjetivação dominante no seio desses programas revela-se.htm 41 Apud WATSON. no âmbito da tele-realidade programada e programática. Lucinda. 2007. Não a mais inteligente. tende a ser reduzida a padrões comportamentais e motivacionais. não a mais esperta. In: revista Cinética. presença ou ausência de carisma. da intimidade e da visibilidade. Trajetória de grandes líderes .. características fenotípicas e grau de autoestima. 40 22 . mas a mais entusiasmada. I. motivado e alegremente engajado. por meio de um desempenho sempre colaborativo.com. E você será o vencedor”.br/vitoriaalemao. Disponível em: http://www. Panorama em que se desenha uma espécie “subjetividade S/A” ou “subjetividade corporativa”. 2002. “Um novo tipo de jogador: a vitória de Alemão e a ‘profissionalização’ no BBB”. da democracia e da tirania. “seja a pessoa mais entusiasmada.lida com os obstáculos sem problematizá-los e sem reclamar. como um modo de roteirização e instrumentalização subjetiva.41 Nesse sentido. Efeito e diagnóstico Embaralhando as outrora nítidas fronteiras existentes entre as dimensões do público e do privado. categorias identitárias. abr. do real e do ficcional. da pessoa e do personagem. ao fim.revistacinetica. a complexidade da própria vida humana. e operando no bojo desse estado de indeterminação Sobre a mutação do perfil de ganhadores do Big Brother Brasil FELDMAN. São Paulo: Negócio Ed.

ainda podemos nos solidarizar e nos identificar com o “fracasso” ou com a humilhação dos demais. que. também regula. ao incitar. visa. portanto. sendo eles próprios objetos indeterminados por atuarem simultaneamente nas zonas nebulosas entre o estético. além de testemunharmos os métodos de “sucesso” de algumas das pessoas reais. de certo modo.entre as dimensões elencadas. que. revela-se muitas vezes como um mecanismo confortador e conformador. ao capitalizar o problema. bastante rentável e a baixo custo. expurgando. apresentam-se também como um instrumento. Esta espécie de atenuação se evidencia pelo fato de que a lucratividade dos reality shows está em promover uma pedagogia social no âmbito do audiovisual. contorná-lo. Tal aposta pode ser feita sem hesitação.isto é. já que esta alcunha que designa uma realidade apresentada tal como um show . nossos próprios temores de exclusão. o político e o tecnológico. moraliza e policia. organizada intensiva e ficcionalmente para o consumo imediato -. 23 . por meio da qual se criam e se compartilham repertórios consensuais de modos de gestão da própria vida . apenas a um tipo de formato narrativo e dramatúrgico. Se compreendemos os reality shows. Confortador porque. do comportamento e de uma imagem de si performativa. podemos então sugerir que eles operariam em dois sentidos justapostos: ao mesmo tempo em que são efeito de uma série de mudanças e deslocamentos históricos ocorridos desde as últimas décadas do século XX. O que poderia então ser visto como uma pedagogia corretiva. estimular e seduzir (lembremos das festas no Big Brother Brasil). com isso. como vimos. podemos afirmar que os reality shows vieram para ficar. não diz respeito. o econômico. como sintoma e diagnóstico de um panorama sócio-político marcado pela rarefação das fronteiras constituintes do mundo moderno.como a produção alterdirigida do corpo. se comparado à produção de teledramaturgia.

No jogo em questão. Rio de Janeiro: Objetiva. Ano retrasado [2005]. pelo diretor do programa Boninho e pela própria TV Globo.desfiliação. reduzi-la a imagem metafórica. antes de o programa começar. paradoxalmente. ainda. democraticamente tematizadas e discutidas pelos próprios jogadores. “Brincando de Deus”. em 8/01/2007. eles dormirem. quando estava um marasmo no final. a utilização da “cadeira elétrica” como a última entrevista. desligamento e “demissão”42 por má administração de nossa auto-imagem. H. E. com isso. Podemos fazer isso. e o emprego do “detector de mentiras” ou polígrafos durante os depoimentos dos participantes no “confessionário”. certa conformidade. Niterói: IACS.paternais. que irá determinar a inclusão ou exclusão do candidato. E conformador porque essa pedagógica dinâmica narrativa. I.se confundem e se indeterminam. embora as metáforas bélicas e autoritárias lá existam: a presença do “paredão” nas noites de “eliminação”. na mesma entrevista. do mesmo modo em que ficam turvas as fronteiras entre os poderes exercidos pela audiência brasileira. Jesus e Javé. em que as regras do jogo capitalista são. patronais e empresariais . In: Contracampo No. baseado nos atributos divinos da onividência e da onisciência. Mandar eles acordarem. que nos remete à célebre frase de Kafka44. É um jogo. as três figuras das relações de poder ali estabelecidas . eles fazerem alguma coisa. É importante lembrar que nomear de “tirania” essa radical assimetria das relações de poder no âmbito do Big Brother Brasil não significa. 8 . 42 24 . “Programas de Desemprego Programado”. No entanto. instrumento utilizado em investigações policiais em diversas partes do mundo. 2003. apagamos a luz do programa. Como enfatiza o próprio Boninho43: “O BBB não é um estudo psicológico de personalidades. p. ver: FELDMAN. 2007. compreender a fonte de legitimação deste poder tirânico apenas por meio da hegemonia nacional da Rede Globo seria esquecer-se da mistificação divinizante do aparato tecnológico da vigilância empregado. produzindo. e eu me divirto muito com ele. 43 Em entrevista ao O Globo. naturaliza tirânicas relações de poder no bojo de um “capitalismo legal”. É brincar de Deus”. em que é preciso confessar toda a verdade sobre si.Visões em Movimento. 44 Apud BLOOM. 234. pelo apresentador e interlocutor Pedro Bial. além de conformar padrões de conduta e comportamentos. os nomes divinos.Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF . Segundo Caderno. segundo o qual Deus teria empreendido sua criação em um momento de mau-humor: Sobre a relação entre exclusão e “demissão” nos reality shows. de modo algum.

Do contrário. como a expansão de um regime de visibilidade fascinado pela ilusão da transparência total . telecomunicacionais e audiovisuais contemporâneos põem em funcionamento . cada vez mais. O que posso fazer é falar: ‘Fiquei de mau humor e amanhã não haverá festa’. os dispositivos tecnológicos.um “integrismo técnico”. tudo mostrar.como já nos havia alertado Paul Virilio45. a onipresença. Paris: Galilée. por meio da intensificação de efeitos de real e de verdade. além da onividência e onisciência. sugerir que. Na hora que eu quero que todo mundo acorde. portanto. no início dos anos 90 . Não seria exagero.tudo ver. Toca uma música e todos têm que acordar. nada esconder. 1991. Nesse sentido. 25 . 45 VIRILIO. eles não podem nada. todo mundo acorda. a instantaneidade e a transparência. E decidi e ponto. a ubiqüidade.. há punição. marcado por algumas propriedades do divino. Mas podemos influenciar a vida do grupo.Há um limite. não podemos influenciar o relacionamento entre os participantes. como. O Big Brother pode tudo. L’écran du désert. poderíamos também compreender a proliferação de reality shows e de toda sorte de objetos audiovisuais contíguos que apelam constantemente à realidade. tudo provar. faz parte da regra.. P.

de dominação e de instrumentalização extrema. os lapsos. codificar. p. libidinal e produtiva da vida e da experiência humana torna-se matéria-prima e núcleo vital da política. aliás. UFMG. seu objetivo maior é tornar-se uma linguagem hegemônica em nível global. mesmo que fragilmente opaca. constranger. 46 AGAMBEN. pois sua capacidade de resistir não se aloca em sua matéria rija. Homo Sacer .Ao mesmo tempo. justamente porque totalizante. a vida. é a linguagem da cibernética. essa vida natural. No jogo da revelação e do engano engendrado pelas imagens biopolíticas. quando a dimensão inventiva. se “nossa política não conhece hoje outro valor que a vida”46. roteirizada. Contudo. 2002. como os afetos. mas na poeira que dela deriva. da produção estética. “nua”. os dispositivos estéticos e biopolíticos de regulação. na argamassa de que é feita. se esse regime de visibilidade pode ser instrumentalizado e reduzido a uma função social-técnica . administração e controle da vida vão gerir. Belo Horizonte: Ed. Porém. de comportamentos e de libidos -. da estatística e da genética. No limite. as brechas e aquilo que dela escapa.18 26 . programada e programática como. Os reality shows se afigurariam assim como um dispositivo biopolítico e como uma linguagem hegemônica do capitalismo imaterial. o risco da perda de controle. tal desejo de transparência carrega consigo o fantasma da vigilância. justamente.o poder soberano e a vida nua. que se localiza aquém e além do “real” e do “ficcional”. ainda por vezes resiste às tentativas de transparência total. evocado em nome da segurança: é preciso cada vez mais fechar. do desenvolvimento tecnológico e da organização dos fluxos capitalistas. atuante em nível local. há algo no funcionamento das vivas estratégias biopolíticas que é puro desfuncionamento.reguladora de condutas. G. isolar.

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