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EUTANÁSIA: CRIME OU UM PROBLEMA DA MEDICINA?

LOIANE ALMEIDA DA SILVA RESUMO Este trabalho analisa a eutanásia sob a visão religiosa, médica e da sociedade em geral com relação ao direito que o enfermo tem de decidir sobre sua própria vida, se deve seguir seu curso natural ou deva ser reduzida, em razão do sofrimento intolerável que lhe é imposto pelo tratamento médico ou pela própria doença que lhe acomete, demonstrando segundo os princípios da dignidade da pessoa humana, da autonomia e da justiça, o conceito jurídico mais adequado para a eutanásia, às necessidades da sua regulamentação para que seja garantida uma morte digna, sendo que a vida diante de tais situações não seria mais considerada digna. O referido estudo pretendeu refletir e discutir a eutanásia enquanto a complexidade do tema, suas controvérsias e a sua relação com o direito. Durante o estudo desenvolveu-se umas pesquisas de opiniões, que serviram para analisar o posicionamento das diversas camadas da sociedade, pensamentos diferentes e avaliações diversas. O estudo tomou por base a pesquisa bibliográfica e alguns filmes envolvendo a temática. Os resultados alcançados demonstram que a eutanásia por ser muito complexa é considerada relativa, devendo ser analisados os casos individualmente, buscando-se a melhor solução ao paciente.

PALAVRA-CHAVE: Eutanásia, morte, saúde crime, INTRODUÇÃO O presente artigo cientifico que ora se apresenta tem como tema: Eutanásia: ato de misericórdia ou um crime contra a vida? E tem como objetivo estudar e esclarecer o que vem a ser eutanásia, identificando os pontos positivos e negativos da sua regulamentação, se ela pode ser considerada um ato de misericórdia com o intuito de garantir uma morte digna, como no caso de um doente em fase terminal, ou se essa prática é considerada um crime contra a vida. Demonstrar segundo os princípios constitucionais, os princípios bioéticos, a autonomia do paciente e o direito a vida, qual o conceito jurídico mais adequado e as suas necessidades de regulamentação em nossa sociedade atual.

Este tema foi escolhido por ser um tema de extrema importância, pois versa sobre o nosso bem maior que é a vida, garantido em nossa Constituição Federal no seu artigo 5º caput, pois o mesmo é considerado inviolável e por isso gera inúmeras discussões quando relacionado ao princípio da dignidade humana, sendo que existem casos em que a vida não seria mais considerada digna.

EUTANÁSIA: conceitos e pressupostos Conceitos A eutanásia não é tão somente uma questão de direito, mas também um problema da medicina, que abrange a religião e as crenças, atraindo a atenção dos filósofos, sociólogos, da imprensa, dos escritores, e principalmente, da sociedade em geral. O doutrinador Villanova Y Morales declara que a eutanásia:
É a morte doce e tranquila, sem dores físicas nem torturas morais, que pode sobreviver de um modo natural nas idades mais avançadas da vida, acontecer de um modo sobrenatural como graça divina, ser sugerida por uma exaltação das virtudes estóicas ou ser provocada artificialmente, já por motivos eugênicos, já com fins terapêuticos, para suprimir ou abreviar uma inevitável, longa e dolorosa agonia, porém sendo sempre prévio o consentimento do paciente ou prévia a regulamentação legal. (RODRIGUES, 1993, p.50)

Eutanásia é a boa morte, também chamada de homicídio piedoso, é qualquer abreviação da vida comissiva ou omissiva, com o fim de compaixão, não exigindo que exista uma situação de letalidade, de terminalidade. Esse é um tema bastante polêmico, envolvendo várias camadas da sociedade, com opiniões diferentes, de um lado os contra e do outro os a favor dessa prática. É uma tarefa muito difícil a de dizer qual dos dois lados estaria correto. De acordo com Bizzato:
A palavra eutanásia é de origem grega, significa morte doce, morte calma, tendo sido empregada pela primeira vez por Francis Bacon, no século XVII. Do grego eu e thanatos, que tem por significado a morte sem sofrimento e sem dor – para outros a palavra eutanásia também expressa: morte fácil e sem dor, morte boa e honrosa, alívio da dor, golpe de graça, morte direta e indolor, morte suave, etc.(BIZZATO, 2003, p 13).

No começo, a eutanásia não era vista como morte, mas um conjunto de medidas indispensáveis ao bem-estar, pois era realizada como cuidados paliativos para o sofrimento, realizando o acompanhamento psicológico do doente ou outras técnicas que viessem a controlar a dor, podendo ser a interrupção de tratamentos desnecessários ou que aumentassem o tormento, ou seja, a eutanásia não visaria a morte, mas fazer com que ela acontecesse de

55) A eutanásia pode ser direta ou indireta. p. causando sua morte? Na concepção de Bacon. e a que tende a extinguir a agonia demasiado cruel ou prolongada”. 2. mesmo quando esse alívio sirva para trazer uma morte doce e tranquila. a eutanásia compreenderia o "direito de matar" ou o "direito de morrer". o que abre grande debate no meio acadêmico jurídico. ela pode ser ainda ativa 1 . então chamado. É o caso do terrível acidente de trânsito que leva ao esmagamento da medula ou coluna raquiana da vítima. abrangendo outras modalidades: O termo Eutanásia. Acabar com a vida indigna. pode socorrer-se do processo. da Bioética e da saúde. ou de eugenia. 2001. 259). seu sentido ampliou-se passando a abranger o suicídio. como por exemplo. Acabar com a vida do paciente. É a hipótese do enfermo hostil e agressivo.(. se este não consegue por seus próprios meios. a explicação de Asúa (ASUA. 2) Segundo Oliveira. outrem precisa ter o dever de realizá-lo. que cunhou o termo eutanásia. provocada para término de sofrimentos.. p. caracterizada por ideiasdelirantes de perseguições e alucinações. o conceito vem se transformando e alargando sua aplicação. Podemos indagar se haveria apenas uma faculdade ou um direito juridicamente tutelado. para fazê-lo valer e. em sua obra “Liberdade de Amar e Direito de Morrer”. em regra. na hipótese do autor proporcionar a morte da pessoa por entender que ela leva uma vida intolerável. paciente terminal. Para Milton Schmitt1 tem um sentido mais amplo. a primeira é toda ação ou omissão que visa diretamente o encurtamento da vida. Suscita-se a questão: a quem caberia realizar essa ação destinada a eliminar o sofrimento de um doente. antecipando-lhe a morte inevitável.. isto é. Com o passar do tempo. 1946.) Dentro dos limites da conceituação jurídica. que possa ser coercitivamente exigido. ou por medida de seleção. a ajuda em nome do Bom Morrer. sendo vista como meio para suprir a agonia demasiadamente longa e dolorosa do. a eutanásia alcança três níveis de manobras para lidar com a morte. p. É o que ocorre com o portador de câncer inoperável e multimetástico. (OLIVEIRA. Destarte. 2005. Porém. afetado por uma esquizofrenia do tipo paranoide. em virtude de razão que possa justificar semelhante morte. sempre por motivos de piedade.maneira menos dolorosa possível. seria dever do médico acalmar os sofrimentos e as dores. a eutanásia leva à discussão sobre o direito de uma pessoa por fim à própria vida. 3. na hipótese do prognóstico concluir que a pessoa está irremediavelmente chegando ao fim com cruciante agonia. que já estava em curso. No mundo jurídico. Acabar com a vida de doente sem perspectiva médica de alívio para suas intensas dores físicas ou torturas morais. hodiernamente passou a ser utilizado para designar a morte deliberada de uma pessoa que sofre de enfermidade incurável ou muito penosa. que define a eutanásia como a “morte que alguém proporciona a uma pessoa que padece de uma enfermidade incurável ou muito penosa. são estas: 1. A eutanásia veio ganhando algumas definições que vieram a considera-la como morte.(LIMA NETO. valendo-se de outra pessoa. ou Homicídio Piedoso”. se alguém tem um direito.

pois ele sabe que a morte vai acontecer antecipadamente.  Eutanásia não voluntária: quando a morte é provocada sem que o paciente tivesse manifestado sua posição em relação ao assunto. o que chamaríamos em Direito Penal de dolo direto de segundo grau. mas pode ter sua vida encurtada. com efeito colateral de métodos paliativos para o alívio do sofrimento.  Eutanásia involuntária: quando a morte é provocada contra a vontade do paciente. mas para aliviar o sofrimento e o único jeito de aliviar o sofrimento.ou passiva. ou porque não se inicia uma ação médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária. pode ser classificada de várias formas. A eutanásia indireta não é considerada criminosa. Segundo Goldim (GOLDIM2. o caso de uma pessoa que esteja sofrendo com dores atrozes. que a pessoa vai ter a vida encurtada. como por exemplo. o médico não quer matá-la. ele pode estar abreviando a vida. O que irá diferenciar a eutanásia direta da eutanásia indireta é a intensão. as seguintes: Quanto ao tipo de ação  Eutanásia ativa: o ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente. a eutanásia dependendo do critério considerado. porque o médico tem certeza de que esse efeito colateral vai acontecer. 2003). mas o médico não agindo para encurtá-la. isso não significa que o paciente irá morrer naquele momento. com o objetivo de minorar o sofrimento. 2 . Quanto ao consentimento do paciente:  Eutanásia voluntária: quando a morte é provocada atendendo a uma vontade do paciente. A eutanásia indireta é a abreviação da vida. seria administrando uma medicação que tem como efeito colateral também a diminuição da expectativa de vida do paciente. Nesse caso o médico assume o risco.  Eutanásia de duplo efeito: quando a morte é acelerada como uma consequência indireta das ações médicas que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal. mas aliviar o sofrimento e o único jeito de aliviar o sofrimento seria administrando uma medicação que tem efeito colateral de diminuir os dias de vida. entre elas. dentro de uma situação de terminalidade.  Eutanásia passiva: a morte do paciente ocorre. pois a intensão não seria diretamente matar. mas ele sabe que usando doses altas de morfina. por fins misericordiosos.

abreviando a agonia dos que feridos mortalmente. de acordo com a obra de Vieira. Na índia. Já os nômades sacrificavam os seus enfermos que não conseguissem transportar. pois essa atitude era melhor do que abandoná-los aos inimigos ou às condições instáveis do clima. lançando-se sobre sua própria espada para não cair prisioneiro. as instituições. era costume que os filhos matassem seus pais quando já estivessem velhos e doentes. a ideologia e os mitos relativos ao início e fim de vida. gesto com que se decretavam a extinção do vencido. sacrificavam anciães e enfermos. onde tinham suas narinas e bocas obstruídas por barro e depois eram jogados no rio para que morressem. (RAMOS. buscando dominar o poder divino de decidir entre a vida e a morte. o gesto dos césares nos circos romanos. por Francis Bacon. as pessoas que adquirissem doenças incuráveis. essa prática era comum e em alguns casos ela era considerada obrigatória. que fossem nómadas por fatores ambientais. para não os expor a ataques de animais. Como explica Rodrigues (1993. todo aquele que chegasse aos 60 anos de idade era envenenado. no Livro dos Reis (I. já que o estômago de seu filho seria sua sepultura. Na antiguidade.3 a 7). p. uma vez que sua vida teria prosseguimento. haviam de sofrê-la lenta e cruel. eram levados a beira do rio Ganges. por exemplo. por isso. na passagem em que Saul. Em Roma. Esse pedido costumava ser concedido. Na Bíblia. p. por ocasião dos combates dos gladiadores.96) Populações rurais sul-americanas. quando não havia mais esperança. 2003. e matassem crianças disformes.Pressupostos A eutanásia não é um fenômeno recente e vem acompanhando a humanidade ao longo de sua existência. a expressão eutanásia: Foi empregada pela primeira vez no mundo moderno. pede a seu escravo que acabe com sua vida. 23) que: Em certas tribos selvagens os filhos tinham que comer parte do corpo de seu pai enfermo. sendo que este ficava bastante satisfeito com este ritual sagrado. Em Atenas. ao referirse a ação do médico.(VIEIRA. . já que não traria mais contribuição à guerra e todo aquele que estivesse exausto de sua vida e de seus deveres para com o Estado podia procurar a magistratura a fim de manifestar sua vontade de ser envenenado. Em Esparta. 31. que ao ser procurado pelo doente. p. dava-lhe uma morte doce e tranquila. diversos povos assim como os celtas. encontramos configurada a eutanásia. 2003. vem a aferir-se e. de abaixar o polegar. 85) As atitudes diante da morte variam conforme a cultura.

na Prússia.No século XX. Esse código. no ano de 1956. p. (MENEZES. 1977. Na Europa a eutanásia era associada com eugenia (ciência que se preocupa com o estudo e cultivo e condições que tendem a melhorar as qualidades físicas e morais de gerações futuras). mediante reiteradas súplicas da vítima. 400 anos a. desde que o agente tenha sido levado por compaixão. pacientes terminais e portadores de doenças consideradas indesejáveis. servindo. aceitou a possibilidade de que a vida possa ser . no terceiro livro de sua República se posicionava a favor afirmando que: “a medicina deve se ocupar dos cidadão que são bem constituídos de corpo e alma (. No ano de 1931. refletindo nas crenças e em causas sobrenaturais das doenças e estabeleceram os alicerces da medicina racional e científica. com o objetivo de alcançar a perfeição ou o aprimoramento de uma raça. no art. esta proposta buscava justificar a eliminação de deficientes. compaixão ou direito para terminar com a própria vida.30 aC). a discussão sobre a eutanásia repercute com a participação de Lutero. a eutanásia era tida como uma ferramenta de higienização social. Karl Max (Medical Euthanasia). através da possibilidade do “homicídio piedoso”. a escola hipocrática separou a medicina da religião e da magia. Thomas More (Utopia) e David Hume (Of suicide). A Igreja Católica. e o da Colômbia. concedem o benefício do perdão judicial em caso de eutanásia ativa.C. posicionouse contra a eutanásia. Em 1934. Nestes casos.Na Idade Antiga. se realizada com a anuência expressa do paciente terminal. numa alocução a médicos. em 1957. o Papa Pio XII. no art. Prosseguindo ao longo da história da humanidade. uma das propostas teria sido de que o Estado deveria fornecer recursos para a execução da eutanásia em pessoas que se tornaram incompetentes para solicitá-la.. criou no Egito uma academia com o objetivo de estudar formas de mortes menos dolorosas. no ano de 1895. esta mesma proposta. como base para o modelo holandês. Millard propôs uma lei na Inglaterra para a legalização da eutanásia voluntária. tendo sido discutida até 1936 quando foi rejeitada pela Câmara de Londres. porém. entre as décadas 20 e 40. deixando morrer aquele cujo o corpo é mal constituído”. 365. não tinha nada haver com piedade. Platão em Atenas. Mas o seu auge foi no século passado. Schopenhauer. o Dr. foi enorme o número de exemplos de relatos de situações que foram caracterizadas como eutanásia. o Uruguai introduziu a possibilidade da eutanásia em seu Código Penal. 37. o professor Jimenez de Asúa registrou mais de 34 casos.). Cleópatra no sáculo VII (69 aC. ocorreu que *na análise do seu plano nacional de saúde. afirmando que a eutanásia é contra a “Lei de Deus”.. 70) Os debates sobre a ética da eutanásia surgiram desde os primórdios da civilização greco-romana.

de ascendente. em atitude extraordinária. dotado com a minorante do “relevante valor moral ou social” (art. essa posição firme. eutanásia ou pena de morte. Ana Raquel Soares. p. também não lhe fornece a menor proteção. Não tendo continuado seu curso a referida reforma. para eliminar-lhe o sofrimento. Considera-se homicídio simples. outras tentativas houve de tirar o ordenamento jurídico da omissão em que se achava. de acordo com as circunstancias concretas de cada caso. a despeito de alguns esforços legislativos infrutíferos. esse projeto buscava a convocação de um plebiscito sobre eutanásia. descendente. Mas só a partir do Direito moderno que a eutanásia passou a ter caráter criminoso. antecipa morte iminente e inevitável. Comenta sobre a autorização da eutanásia. em 1994. com o consentimento da vítima. ou seja. Igualmente procedeu a Consolidação das Leis Penais de 1932. Ambos foram arquivados por pareceres contrários das comissões de Seguridade Social e Família e de Constituição e Justiça e Redação. pode ser a morte do paciente. §1°). O Anteprojeto da Parte Especial do Código. Também o projeto de lei complementar exibido pelo deputado Osmânio Pereira. O código que atualmente se encontra em vigor. sem vínculo causal. Um exemplo disso é o projeto de decreto legislativo apresentado pelo deputado Gilvam Borges. mas só passou a ser condenada com o surgimento do judaísmo e do cristianismo. exime de pena a prática da eutanásia realizada pelo médico que. o Código de 1940. utiliza-se o princípio do duplo efeito. de 1984.121. que: “Não o fez o Código Criminal do Império. O Brasil nunca possuiu uma legislação flexível em relação à prática da eutanásia. atestada por outro médico. Modalidades a) Distanásia . buscando proibir qualquer forma de controle de natalidade ou mesmo de apresentação de projeto que viesse a legalizar o aborto. cuja parte geral foi alterada no ano de 1984. inviolável e tem caráter sagrado. pois são crenças que consideram a vida um dom de Deus.abreviada como efeito secundário a utilização de drogas para diminuir o sofrimento de pacientes com dores insuportáveis. ou na sua impossibilidade. porém o efeito. como proteção irrecusável do mais valioso dos bens que é a vida. pois a intenção é diminuir a dor. em 1993. Nem mesmo o de 1890. desta forma. pelo menos no âmbito legislativo. Nosso ordenamento sempre puniu e tipificou o crime. isso permite ao julgador o poder de reduzir a pena de um sexto a um terço. E sempre teve essa mesma posição com relação à eutanásia. 1997. cônjuge ou irmão. de 1830”. 155) A eutanásia era admitida na antiguidade. (SOARES.

A maioria das pesquisas realizadas. que é um processo psicológico. mas apenas adiá-la horas ou dias em condições deploráveis para o enfermo. na tentativa de adiar o momento da morte. o medo. evidentemente. temos a morte do corpo. você preferiria ter um dia de vida pleno com a sua família. podendo apenas adiá-lo. questões que norteiam várias pesquisas e debates. tratamentos prolongados e obstinações terapêuticas. Trata-se do prolongamento exagerado da morte de um paciente terminal ou tratamento inútil. 373) Existe o momento e que o processo de morte já está instaurado. Não visa prolongar a vida. mas adiá-lo a que preço? Se você se deparasse com uma situação horrenda do tipo. cuidando apenas do corpo? Essas são perguntas muito difíceis de serem respondidas. mas sim o processo de morte (. acusam que nos idosos. 2006. absolutamente alienado e longe de todos os seus familiares. e ainda que isso imponha ao moribundo sofrimentos adicionais e que. não é diretamente a morte.) (DINIZ. pois são muito complexas e dependem de vários pontos de vista diferentes. É muito importante destacar que quando se fala em morte. 399). p. sempre expressa o conceito de alguma coisa errada. Pela distanásia. mesmo esses dias sendo traçados em uma cama de hospital. não conseguirão afastar a inevitável morte. fazendo uso de todos os meios. é uma prática que vai contrao princípio da dignidade da pessoa humana nos cuidados com a saúde para com os idosos. acrescida de sofrimento físico e mental. alguma coisa que conturba. também chamada de obstinação terapêutica. O ato de .. gozando da harmonia entre os seus? Ou preferiria ter dois dias. podendo ser conceituada como o ato ou conjunto de ações com a finalidade de impedir a morte. proporcionados ou não. que é um processo biológico e a morte da pessoa. é a imposição de tratamentos inúteis e que provocam sofrimento ao paciente. Então a distanásia é a morte errada. 2008. Esse prefixo “dis”. também designada obstinação terapêutica ou futilidade médica. p. e nada mais que se faça poderá evitá-lo. por causar tanto sofrimento e desconforto.Isso porque a distanásia é morte lenta e com muito sofrimento. referentes as dores provocas pelos tratamentos aplicados. como por exemplo distúrbio.A distanásia é etimologicamente o contrário da eutanásia.. provocando um pavor aos idosos hospitalizados ou submetidos a tratamentos de doenças crônicas. mas sim a proximidade com ela. tudo deve ser feito mesmo que cause sofrimento atroz ao paciente. A distanásia é uma prática desumana. mesmo que não haja nenhuma esperança de cura. atrasando o máximo possível o momento da morte. (DINIZ. também designada obstinação terapêutica (L’acharnementthérapeutique) ou futilidade médica (medical futility).

assim como o ato de nascer. que substituem e controlam órgãos que param de funcionar. ou seja. fundada em razões científico-humanitárias. O ato de morrer faz parte da vida e tem que ser vivido de alguma forma. mais ao mesmo tempo mais confortável. A ortotanásia é o ato de deixar morrer em seu tempo certo. emocional e econômico. quanto mais dias de vida melhor. o dever do médico não é sempre curar. que encara a vida apenas sob o seu aspecto biológico e tenta adiar ao máximo a morte a custa de todo o restante da qualidade de vida que possa ter o paciente. assim como o sexo também não é. A distanásia é um equívoco da medicina. ou de deixar de usar os meios artificiais para prolongar a vida de um paciente em um estado irreversível. Na distanásia a vida deve ser sempre quantitativa. pois é a tecnologia de hoje que permite a distanásia perene. Ela é uma ajuda dada pelo médico ao processo natural da morte. quanto um fruto da nossa visão espiritual do mundo que ficou bastante desgastada. . encarando a morte como uma inimiga a ser vencida sempre e não como a última etapa da vida de uma pessoa. mediante a suspensão de uma medida vital ou de desligamento de máquinas sofisticadas. mais harmoniosa e espiritualmente mais tranquila na companhia de seus entes queridos e dos familiares. ela será adiada mesmo que seja as custas de sofrimento ou falta de qualidade. por ser uma visão muito materialista do que seja a vida e a morte. porque parar de cuidar nunca. o ato de morrer é uma experiência integrada para o homem. espiritual e que tem um fundo biológico evidente. A distanásia é fruto de nosso tempo. o momento em que o médico pode parar de tentar curar. O ato de morrer não é apenas um ato biológico. a custa de uma existência mais curta. de amar etc.morrer é um dos atos da vida. pois são duas coisas diferentes. devendo ser vivida da melhor forma possível. assim como o nascimento também não é. de respirar. sem abreviação ou prolongamento desproporcionado. fruto tecnológico. existem casos em que não há cura. B) Ortotanásia A ortotanásia é o contrário de distanásia. se for possível adiar a morte. de ter filhos. uma justificação ao morrer com dignidade. A Ortotanásia consistente no ato de suspender medicamentos ou medidas que aliviem a dor. por ser intolerável o prolongamento de vida vegetativa sob o prisma físico. acatando solicitação do próprio enfermo ou de seus familiares. sendo ela psicológica.

pararam com os tratamentos. mas exige também o consentimento do paciente. Este não pratica. por meios artificiais. podendo inclusive deixar escrita. III. um ato de vontade pelo qual a pessoa deixa expressos os limites terapêuticos que cada um deseja na hora da sua morte. poupando-o de tratamento inútil ou doloroso. se tenta descobrir a vontade presumida do próprio paciente. pois existem inúmeros estados da Europa e dos Estados Unidos que preveem o chamado living will. descendente ou irmão”. é totalmente diferente da pessoa que vivencia. pois o processo de morte já havia se iniciado e os médicos em respeito a sua vontade. Se o paciente não for capaz de consentir a respeito do prosseguimento dos tratamentos. de que ninguém deve ser submetido a tortura. 5º. mudar a forma de analizar a vida e a morte. mesmo solicitado. a respeito considera: “Como se vê. se o paciente quiser os tratamentos. e desde que haja consentimento do paciente ou. que é um testamento em vida. mesmo que inúteis e dolorosos.. Nos Estados Unidos o living will tem valor. Paulo José da Costa Jr. através da sua conduta de vida.Um caso conhecido que representa a ortotanásia é o do Papa João Paulo II. não constituirá crime “deixar de manter a vida de alguém por meio artificial. a morte piedosa. a decisão cabe ao seu representante legal.805/2006. de cônjuge. pois o mesmo havia renunciado. Não age. o paciente tem o direito de receber e o médico tem o dever de agir e realizar os tratamentos. da Constituição federal de 1988. como no living will. O Conselho Federal de Medicina baixou resolução (proposta pela Câmara Técnica sobre terminalidade da vida) n° 1. mas em nosso país ele não é reconhecido legalmente. além de sofrida. uma vida que. nesses estados não se atribui a responsabilidade de decidir ao representante legal. companheiro. Pelo projeto de Código Penal. mostra-se irrecuperável”. até porque para uma pessoa que está saudável escrever alguma coisa sobre o momento de sua morte. Um ponto a ser criticado é o de decisão do representante legal na lei brasileira. nem a tratamento desumano ou degradante. deixa apenas de prolongar. aprovando a ortotanásia em paciente terminal ou incurável. ascendente. pode a pessoa mudar de opinião. a ortotanásia não implica qualquer conduta do médico. c) Suicídio assistido . o que significa que. em sua impossibilidade. se previamente atestada por dois médicos a morte como iminente e inevitável. Então. invocando o art.

após aprovação médico-psiquiátrica. além de sofrer de mal incurável e associado a um incontrolável sofrimento. munido de mecanismo que. condenado a 25 anos de prisão numa penitenciária de Pontiac(Michigan) por armar sua máquina na casa do paciente. pois inventar a máquina do suicídio que consiste num aparelho de eletrocardiograma. assim. que paralisa o coração. os custos hospitalares. Jack Kevorkian. nesse atoa morte é provocada por um ato praticado pelo próprio paciente. para ajudar pacientes irreversíveis a porem um fim a seus atrozes sofrimentos. d) o médico deve certificar-se de que o julgamento do paciente não está distorcido. O “Doutor Morte”. Dr. p. f) imprescindibilidade da consulta a um outro médico para ter certeza de que o pedido do paciente é racional. na verdade. p.Na Holanda o suicídio assistido. b) o médico deve averiguar se o sofrimento do paciente e se o seu desejo de suicidar-se não decorrem de tratamento paliativo inadequado que lhe foi ministrado. seria muito bem pago para isso e teria até mesmo um emprego público garantido. calculando que para um procedimento indolor seriam necessárias cinco visitas médicas. ao ser acionado pelo próprio paciente. conhecido como o “Doutor Morte”. e) o ato de assistência ao suicídio só pode ser levado a efeito no contexto de uma significativa relação médico-paciente. Os grupos de apoio aos suicidas passaram a argumentar que esse quantum não cobre as despesas do suicídio assistido. deve estar ciente da moléstia. 2008. e depois uma dose letal de cloreto de potássio. 2008. do prognóstico e dos tipos de tratamentos paliativos disponíveis. o suicídio assistido já constitui prática institucionalizada. injeta em sua veia uma substancia salina neutra. contendo o anestésico Thiopental. No Estado norte-americano de Oregon. (DINIZ. p. 357) .Existem pessoas que defendem o suicídio assistido. (DINIZ. consciente e voluntário. 2008. 356 e 357) Quill. não passa de uma dissimulação de participação criminosa em suicídio. de que o diagnóstico e o prognóstico estão certos e que as alternativas de tratamento paliativo são adequadas. desejar participar do programa de suicídio assistido. cujo valor total giraria em torno de 300 dólares. financiando.357) No Oregon. que acarreta inconsciência. Na Holanda e na Suíça. aprovado em referendo popular. apresentam as seguintes propostas de critérios clínicos para suicídio assistido por médico: a) o paciente.(DINIZ. e g) apresentação de uma documentação que comprove a observância de cada um dos requisitos acima apontados. com o objetivo de garantir uma morte digna. c) o doente deve ter manifestado sua vontade de morrer de modo claro e espontâneo. o departamento de saúde paga 45 dólares a cada paciente terminal que. Cassel e Meiei. onde o mesmo é orientado ou auxiliado por terceiro ou por médico. configurando-se pela injeção de uma única dosagem letal.

da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 garante aos brasileiros e estrangeiros que residem em nosso país a inviolabilidade do direito à vida e o art. admitia o suicídio assistido no território do norte. c) acesso. 2008. a Lei dos Direitos dos Pacientes Terminais. 4º da Convenção Americana sobre os direitos humanos. injetava-lhe a substância letal.122 do Código Penal esses são os dois tipos penais que podem se enquadrar na conduta do médico ou de qualquer pessoa que mata ou deixa morrer. mas ele prevê dois crimes que podem se enquadrar nas situações de eutanásia ou de ortotanásia. se a tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave”. 122: “Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça. com o consentimento do paciente. pois a nossa Constituição Federal consagra o direito à vida. a um equipamento. depois desse lapso temporal. 5º. operado por computador. (DINIZ. na eutanásia a morte é provocada pelo médico. b) reflexão do paciente por 9 dias antes de tomar a decisão final. e se suicida mediante o uso de medicação para isso prescrita. O Código Penal de 1890. revogada em março de 1998. de 1º de julho de 1996. previsto no art. do qual o Brasil é signatário. Do Crime No ordenamento Jurídico . e o Código Penal pune o suicídio assistido ao determinar em seu art. só que provocada pelo próprio paciente. atestado por três médicos.Na Austrália. p. se o suicídio se consuma. mais conhecida como Pacto de São José. a morte dá-se nas mesmas circunstâncias. previsto no art. 121 do Código Penal e o auxílio ao suicídio. consistente em um tubo ligado à veia do paciente e contendo uma tecla “sim”. desde que obedecida a seguinte ordem: a) estado crítico de saúde do paciente. que. de 2 a 6 anos. por ocasião de sofrimento físico ou psíquico incurável ou insuportável. É importante destacar que. em seu artigo 299. de 1 a 3 anos. pois o art. os dois tipos são o de homicídio. previa pena de prisão de dois a seis anos para a pessoa que induzisse ou ajudasse moral ou materialmente alguém a suicidar-se.A eutanásia não está especificamente tipificada no Direito Penal brasileiro. ou reclusão. caput. Já no suicídio assistido. A legislação brasileira não permite a eutanásia. 358) Em nosso país. Pena – reclusão. é inaceitável não acolher a acusação. quando seria o seu dever agir para evitar a morte. sendo um especialista da moléstia de que é portador e um psiquiatra. sendo pressionada pelo suicida. o mesmo pede auxílio ao médico para morrer. sob o argumento de inexistência de norma que proíba a assistência ao suicídio. .

Inúmeras legislações não punem o auxílio ao suicídio. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça: Pena – reclusão.devendo ocorrer a confirmação da morte do suicida para que a conduta fosse considerada crime. conforme estabelece o parágrafo único. o importante é que o último ato esteja sob o controle da própria vítima. onde prestar auxílio para alguém se matar não é crime. pois na participação no suicídio. Essa Lei de Oregon que regulamentou a eutanásia permite que o médico venha a receitar uma dose letal de drogas conforme seja o pedido do paciente. mas em nenhum dos dois casos existia a situação de terminalidade. No mundo são apenas três países que permitem a prática da eutanásia. a pena será duplicada. o que configura um homicídio. Praticado por motivo egoístico. a sua capacidade de resistência diminuída. . Segundo a doutrina alemã. Nos Estados Unidos. assim como é o entendimento atualmente. de 2 (dois) a 6 (seis) anos. já no caso do filme Menina de Ouro. em que ele pediu a um amigo que colocasse um copo de veneno perto da sua boca com um canudo. ainda. mas a matar uma pessoa a pedido dela é crime de homicídio privilegiado. apesar de punir o homicídio a pedido da vítima. é o que acontece na Alemanha. O Código Penal em vigor. O amigo de Ramón Sampedro. o único Estado que não proíbe a eutanásia é o Oregon. os Estados Unidos da América. para ser partícipe eu posso auxiliar de todas as maneiras. mas acima de seis meses o médico não poderá ministrar a droga ao paciente. por exemplo. no caso em que a expectativa de vida do mesmo. de 1 (um) a 3 (três) anos. no Brasil deveria responder por crime de auxílio ao suicídio. são eles. relatado no filme Mar Adentro. que colocou o copo de veneno. a Colômbia e a Holanda. se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave. No Brasil a participação em suicídio é punida com uma pena mais branda. não tem previsão no Código Penal alemão. pode acontecer como um homicídio ou como uma participação no suicídio. se o suicídio se consuma. por qualquer causa. então ele sugou o veneno. A eutanásia do ponto de vista jurídico. como no caso do Ramón Sampedro. em que o ator injeta uma substância venenosa no soro da paciente. onde a prática da eutanásia foi aprovada no ano de 1994 através de um plebiscito. seja inferior ao período de seis meses. desde 1940. não é possível que o agente realize os atos mortais. menos executar o ato final. em seu artigo 122. 122. ou reclusão. estabelece a seguinte disposição: Art. mas só no ano de 1996 é que houve a sua regulamentação de fato. ou sendo a vítima menor ou. se a vítima tiver.

mas se era possível ele evitar a morte hoje e ele não evitou. provocou alvoroço na comunidade médica. Segundo o Ministério Público Federal. nos territórios do norte da Austrália a primeira lei que autorizou a eutanásia ativa. Essa lei vinha estabelecendo vários critérios e precauções para que fosse permitida a realização do procedimento. a ação pleiteava a revogação da resolução sob o argumento de que o Conselho Federal de Medicina estaria legislando sobre matéria penal. O primeiro paciente que conseguiu obter a autorização foi Robert Dent. essas medidas tinham o objetivo de impedir solicitações inapropriadas ou que não estivessem clinicamente comprovadas. no ano de 2006. a resolução nº 1. Essa resolução teve a sua constitucionalidade questionada através de uma ação civil pública que tramitou em Brasília. estaria violando o seu dever de agir. o Conselho . primeiro porque matéria penal é reserva absoluta de lei e depois porque o Conselho Federal de Medicina não teria o poder e nem a legitimidade para legislar.805/2006. na 14º Vara Civil. através de uma resolução. dizendo que ela violava o direito à vida. sendo 38 votos contra e 34 votos a favor. esteve em vigor do dia primeiro de julho de 1996 a vinte e quatro de março de 1997.Conforme foi publicado no jornal “Correio do povo”. tanto que impôs uma ação civil pública contra o art. 1º da resolução. precisaria de uma lei oriunda do Poder Legislativo com representatividade democrática e etc. como se o Conselho Federal de Medicina estivesse criando uma excludente de ilicitude do homicídio. No seu artigo primeiro prevê a possibilidade do médico deixar de empregar tratamentos inúteis e dolorosos. cometendo assim um homicídio por omissão. estava passando a permitir uma conduta que é tipificada no Código Penal. mas a lei foi derrubada por pouquíssima diferença de votos. ela nunca tinha sido de fato legalizada pela Lei nº 1. O que o Ministério Público Federal argumentou é que o Conselho Federal de Medicina. a mesma recebeu a denominação de Lei dos Direitos dos Pacientes Terminais. que entrou em circulação no dia vinte e sete de setembro de 1996. p. o médico quando deixa de empregar os tratamentos disponíveis para evitar a morte. permitindo isso. porque apesar da ortotanásia ser muito comum nos hospitais. o que não é possível em nenhum sentido. que morreu no dia 22 de setembro de 1996. mesmo que eles sejam inúteis do ponto de vista macro. O Ministério Público Federal entendeu que essa resolução viola a lei penal.805 expedida pelo Conselho Federal de Medicina. no cotidiano. No caso da ortotanásia. em pacientes graves e terminais. desde que seja com o consentimento do paciente ou do seu representante legal. 12.

quando a cura é impossível. tem o dever apenas de cuidarnão de curar. não tem o dever de agir para procurar a cura. mas ela tem uma regulamentação pelo Conselho Federal de Medicina e foi reconhecida como constitucional pelo judiciário. porque ela não violaria nenhum dever jurídico de agir. A atitude do Conselho Federal de Medicina. não estaria passando a permitir algo que o código penal proíbe. antes da regulamentação da resolução. já que a ortotanásiaexiste. Se o paciente ainda possui autonomia física e psicológica. podemos dizer que a lei ortotanásia é de certa forma regulamentada dentro do nosso ordenamento jurídico. o mérito foi julgado. pois de acordo com o art. nesse caso poderia. mas a procuradora do caso pediu a improcedência da ação.805/2006. mas que poderia ser duvidosa. foi primeiro tornar clara uma situação que já existia na prática. que não é legislar sobre matéria penal. mas o médico que não obriga seria punido penalmente por omissão. Dentro da ação civil pública havia um pedido de liminar para que o art.Federal de Medicina estaria criando a hipótese de homicídio permitido. Mas no caso de um paciente que esteja acamado. Na prática. que não tem autonomia física. portanto. de forma fiscalizada. ela estaria simplesmente tornando clara para a ética médica os limites do dever de agir do médico. com o argumento de que o Conselho Federal de Medicina ao dispor sobre a ortotanásia. se o paciente recusar o tratamento. portanto a conduta do médico seria atípica por falta de qualquer dever de agir que tenha sido violado. A conduta do médico na ortotanásia seria atípica. O pedido de improcedência foi acolhido pelo juiz no final do ano de 2010. não existe constrangimento ilegal na atuação para evitar o suicídio. dificilmente um médico irá obrigar um paciente a realizar algum tipo de tratamento. depois foi dar parâmetros. Foram acolhidas pelo juiz. que a lei penal não prevê. quando o tratamento é impossível. não por uma lei. ter algum risco para o médico. Isso vai de acordo com o nosso Código de Ética com a resolução nº . O médico. esse artigo garante que o médico poderia tratar o paciente contra a vontade dele. o médico não irá amarrá-lo. pois é melhor. 146 do Código Penal. força-lo a realizar os tratamentos. com a resolução nº 1. 1º da resolução fosse suspenso e ele foi suspenso enquanto se julgava o mérito da ação. algumas argumentações para que se considere que a regulamentação pelo Conselho Federal de Medicina não extrapole a sua atribuição funcional. e recusou aos tratamentos e depois foi embora. que ela seja regulamentada. embora o médico pudesse fazer isso.

a integralidade existencial.Direito à vida O direito a vida é o direito de maior valor no ordenamento jurídico brasileiro. art. o alívio do sofrimento. pensar na eutanásia como uma excludente de ilicitude. tanto ativa quanto a passiva. ela não foi discriminalizada. A eutanásia no Brasil continua sendo típica. poderia configurar uma excludente de ilicitude. tanto ativa quanto a passiva. ou seja. mas o alívio do sofrimento tem mais valor naquele momento do que a própria vida. nem por força de uma excludente de tipicidade e nem por uma excludente de ilicitude. caput. que não tem mais possibilidade. a vida humana deve ser protegida contra tudo e contra . por ser essencial ao ser humano. pelo estado de necessidade. prossegue configurando os delitos de homicídio privilegiado ou de participação em suicídio conforme o caso.1. pois o consentimento não tem o condão de aplicar-se a bens indisponíveis. uma vida terminal.1. mesmo que com o consentimento da vítima.2. A Constituição Federal de 1988. porque os bens em conflito. Para que a ortotanásia seja permitida. com o consentimento. Na posição majoritária. em seu art.930/2010. no direito brasileiro é crime. com o consentimento da vítima. um dos elementos exigidos pelo Conselho Federal de Medicina. A eutanásia tanto a ativa quanto a passiva. em determinados casos. momento específico. a vida é um bem jurídico tutelado como direito fundamental básico desde a concepção. Existem situações em que eu posso. consequentemente. assegura a inviolabilidade do direito à vida. quando o sofrimento e a dor for insuportável e não admitir remédio. que vai se esvair daqui a seis ou sete horas. condiciona os demais direitos da personalidade. Na minoritária. da formação da pessoa. então se a pessoa é incapaz de decidir. 1º é o consentimento do representante legal ou do próprio paciente.805. 2. com os instrumentos do direito a autonomia da vida e do estado de necessidade. com o consentimento ou sem o consentimento. que também prevê seu artigo 41 a possibilidade da ortotanásia. daqui a dois ou três dias. vale mais que a própria vida. fez entrar em vigor o novo Código de Ética Médica. 5º. a eutanásia. comprovado cientificamente. O direito brasileiro priorizou a vontade do representante legal. resolução nº 1. sendo assim. tanto a eutanásia ativa quanto a passiva. sempre é proibida. a ortotanásia é possível desde que haja consentimento do representante legal. desde que com o consentimento. a eutanásia. ela continua sendo majoritariamente típica.

9): “grosso modo. . pois é objetivo de direito personalíssimo. Sem ele. Isso vale tanto para o direito material. mesmo assim. Segundo Paganelli (PAGANELLI. 3. dignidade da pessoa humana e valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”. todos os outros institutos jurídicos não terão valor. Imprescritíveis: desde o momento que os adquire. segundo a doutrina majoritária em nosso país. É função do Estado garantir o direito à vida. para o Inalienáveis: não podem ser transferidos. Irrenunciáveis: uma vez que a eles não se pode renunciar. mas essa garantia não é apenas no sentido de estar vivo. possui. uma vez que se baseia no consenso. porque o direito natural é o fundamental do dever ser. que. 790). por ser decorrente de norma de direito natural. 7. p. mas também no sentido de garantir ao cidadão uma vida digna quanto à sua subsistência. (MORAES. sem distinção. As ações que protegem estes direitos não perdem o prazo. respeitando os princípios fundamentais da cidadania. O Direito à vida. O respeito a ela e aos demais bens ou direitos correlatos decorre de um dever absoluto. São considerados. mensurável economicamente. ao qual a ninguém é lícito desobedecer. Se não existisse tutela constitucional ao direito à vida. o princípio de todas as relações humanas. cuja expressão máxima é a Declaração Universal dos Direitos do Homem. até posterior à sua Direito. 5. Neste sentido. 4. portanto. morte. é deduzida da natureza do ser humano. pela capacidade. tampouco permanentemente.todos. afirma Moraes: “o Estado deverá garantir esse direito a um nível adequado com a condição humana. fruto concebido pela consciência coletiva da humanidade civilizada. 6. por ser personalíssimo. por sua própria natureza. sem a proteção ao direito a vida. nem provisórios. quaisquer outras prerrogativas juridicamente tuteladas perderiam o interesse. compreendida nas áreas jurídicas. os direitos fundamentais lhe são garantidos. o direito que é mais veementemente nuclear é o direito à vida. Absolutos: são exigíveis de toda a coletividade. Genéricos: porque são concedidos a todos. 2. Sua marca registrada é a indisponibilidade”. Intransmissíveis: não se transfere por hereditariedade. morais. erga omnes(exigíveis contra todos). religiosas e econômicas. sociais. quanto para o processual. A vida é considerada a base. Extra patrimoniais: não possuem natureza de patrimônio. erga omnes. legitimaria aquela imposição erga omnes. que passamos a expor: Os direitos personalíssimos são: 1. do direito positivo. p. 2005. certas características destes.

Dignidade da Pessoa Humana é um valor supremo que atraí o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem. anunciando o que é merecedor. a educação. considerando a mesma irrenunciável. 267). p. também. o conceito de dignidade da pessoa humana obriga a uma densificação valorativa que tenha em conta o seu amplo sentido normativo constitucional e não qualquer idéia apriorística do homem. devendo ser protegida a vida até mesmo contra o seu próprio titular. inalienável e absoluto. ignorando-a quando se trate de garantir as bases da existência humana. Necessários: porque todo ser humano os detém. vem do latim digna. 193). 2000. preeminente. 9. 2002. porque a dignidade é um pressuposto de sua condição.331) A nossa Constituição como ápice de todas as normas do nosso ordenamento jurídico.8.. 264). Ela serve para incluir todo ser humano e não para excluir alguns que não . não permite nenhuma prática que venha a pôr em risco esse direito personalíssimo. protege o direito a vida. está acima de qualquer lei e é incólume a atos dos Poderes Públicos. o desenvolvimento da pessoa e seu preparo para o exercício da cidadania (art. protegidos mesmo a revelia da pessoa. Canotilho e Vital Moreira. não podendo reduzir-se osentido da Dignidade humana à defesa dos direitos pessoais tradicionais. Segundo Diniz: O direito à vida condiciona os demais direitos de personalidade. É a dignidade quem qualifica a pessoa e a coloca a pessoa em uma categoria acima de qualquer indagação. É adjetivo derivado da forma verbal decet. Da dignidade da pessoa humana Dignidade. não como meros enunciados formais. 270). a ordem social visará à realização da justiça social (art. necessário. etimologicamente. cargo ou honraria. Daí decorre que a ordem econômica há de ter por fim18 assegurar a todos existência digna (art. esquecendo-a nos casos dos direitos sociais. p. de decere. (SILVA. (SILVA. o que é digno. p. ou invocá-la para construir teoria do núcleo da personalidade individual. por ser irrenunciável. Toda pessoa é considerada digna. 2004. Significaria. Preeminentes: porque se situam em um patamar acima aos demais direitos.(BITTAR. 250) etc. desde o direito à vida. A Dignidade da Pessoa Humana deve ser garantida de forma integral. convir. pois ela é a auto realização do cidadão. concebido como referência constitucional unificadora de todos os direitos fundamentais observam Gomes. 2006. Não se atribui a nenhum ser humano mais dignidade que é atribuída a outro. Essenciais: porque inerentes ao gênero humano. (DINIZ. 10. intransmissível. considerável etc. p. mas como indicadores do conteúdo normativo eficaz da dignidade da pessoa humana. essencial.172) Entende-se que os direitos personalíssimos são direitos por excelência.

p. não pode ser usado como critério de exclusão. (SARLET. Nesse sentido. nas diversas crenças. de modo que oprincípio fundamental embasa tanto normas contendo direitos subjetivos de caráter negativo (não violação da dignidade). pois envolve assuntos que a muitos anos vem provocando diversos debates em nossa sociedade. pois ele choca normas e princípios. não é uma tarefa fácil. Mas tentar encontrar uma solução adequada para a prática da eutanásia na sociedade em geral é a meu ver uma tarefa impossível. pode-se haver esperança de mudança . A norma constitucional (art. pois seu significado é justamente de inclusão.interessam. o princípio da dignidade humana. qual a vontade que poderia prevalecer? Muitos foram os conceitos e opiniões encontradas a respeito do assunto. inc. da CF) no qual está disposto a dignidade da pessoa humana não é apenas um dispositivo. Ingo Sarletfaz um destaque sobre oduplo caráter da função defensiva e prestacional da dignidade. algum avanço tecnológico. Entre os assuntos alavancados nos vem questionamentos no sentido de valer a pena viver ou não sem saúde. em situações de inconsciência do paciente. assim como fazemos nossas escolhas diariamente durante a vida. (JUNGES. Todas esses questões terão que ser avaliadas e discutidas. um tratamento ou um aparelho mais eficaz. será se realmente ele iria optar pela abreviação da vida? Talvez ele quisesse lutar até o fim ou não. 1º. pensamos que pode surgir algo novo que possa mudar aquele quadro clínico. 68-69). mas é também um princípio e valor fundamental. muitas as vezes a família tem uma opinião e o paciente outra. de viver tendo que suportar dores atrozes sem nenhuma esperança de melhora. 110). 1999. assuntos estes como o direito à vida. procurando interpretações que não afete nossos direitos garantidos constitucionalmente e ao mesmo tempo em que seja de acordo com os princípios éticos e constitucionais. refletindo nas mais variadas esferas de nossa sociedade. CONCLUSÃO Este trabalho monográfico foi realizado com o intuito de dar uma noção mais precisa a respeito desse tão polêmico tema. p. pois ao longo do estudo realizado verifica-se que se posicionar a favor ou contra a eutanásia. a liberdade e a autonomia da vontade do ser humano. como também estabelece condutas de caráter positivo. a pessoa pode estar consciente ou não para consentir. sempre nos questionando se temos de fato o direito de fazer escolhas no momento da morte. tem diagnósticos diferentes. sendo uma norma tanto enunciadora de direitos e garantias fundamentais como de deveres fundamentais. a família pode se posicionar contra ou a favor. 2004. de forçar uma pessoa a continuar vivendo mesmo contra a sua vontade. III. visando amparar e promover a dignidade. Mas de um outro lado. na medicina e principalmente no direito. cada caso tem sua particularidade.

demonstrating on the principles of human dignity. due to the intolerable suffering to it imposed by medical treatment or the disease itself affects him. Eutanásia: aspectos éticos e jurídicos da morte. do Centro Universitário São Camilo. P. José Ildefonso. During the study developed a research opinions. KEYWORD Euthanasia. which the life before such situations would no longer be considered worthy. the cases must be analyzed individually. different thoughts and various reviews. which were used to analyze the positioning of the various layers of society. Eutanásia e responsabilidade médica. 2004. violência. its controversies and its relation to the right. Results show that euthanasia is too complex to be considered relative.Pesquisa 6/01/2005 10:52 jMSMBNZPmVxgYZgjqd .htm. Paulo Lúcio. the needs of its regulation to be guaranteed a dignified death. PESSINI. 2003. 2013. eutanásia. São Paulo: Saraiva. Augusto César.no quadro clínico e pode não haver. URBAN. health. levando-se em conta todos estes requisitos ABSTRACT This paper examines euthanasia under the religious. Luiz Flávio Borges. suicídio.sp. pena de morte. 1995. etc. A Eutanásia na Visão das Grandes Religiões Mundiais II « . Florianópilis OAB/SC Editora. O estado atual do biodireito. autonomy and justice. Responsabilidade do médico diante da eutanásia. Observando todos estes detalhes. The study was based on the literature and some films involving the theme.crork – Acesso em: 20 de maio.gov. Leo. NOGUEIRA. RAMOS. Em defesa da vida: aborto. death. . 2003. linchamento. Maria Helena. Rio de Janeiro: Revinter. deve ser analisado de maneira individual. one must follow its natural course or to be reduced. D’URSOS. 2008. medical and society in general with respect to the right of the patient has to decide about his own life. REFERÊNCIAS BIZZATO. 13. the legal right for euthanasia. Eutanásia: por que abreviar a vida?. DINIZ. crime. Cícero de Andrade. seeking the best solution for the patient. Bioética clínica. This study sought to reflect and discuss euthanasia while the complexity of the subject. São Paulo: Saraiva.br/rev1g. São Paulo: Ed. Disponível em: http://www.imesc.

São Paulo: Atlas. 1999. 2005. BONAVIDES. Bioética. 18º ed. ortotanásia e distanásia: breves considerações a partir do biodireito brasileiro. 2002. A previsibilidade da eutanásia no Direito Penal moderno.BARCELLOS. José Afonso. São Leopoldo: Editora Unisinos. n. ed. LARCHER. 2. JUNGES. 2005. 2013.uol. . São Paulo: Malheiros. Rio de Janeiro: Renovar. Direito Constitucional. ed. Jus Navigandi. 2004. Aplicabilidade das normas constitucionais. Disponível em:<http://jus. Lições Preliminares de Direito. Dignidade da pessoa Humana e Direitos Fundamentais. Miguel. Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais Viana Júnior. ed. A Eficácia Jurídica dos Princípios Constitucionais: o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. São Paulo: Saraiva. 24. São Paulo: Malheiros. Paulo. Roxana Cardoso Brasileiro. 3. Eutanásia. 10. Juiz de Fora. São Paulo: Malheiros. 871. Juarez. Ana Paula de. Acesso em: 28 abril. Monografia. BORGES. FREITAS.br/revista/texto/7571>. perspectivas e desafios. José Roque. Teoria Constitucional da Democracia Participativa. Alexandre. REALE. 1998 SILVA. SARLET. nov. MG. 2004. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Teresina. 2000. 2ª ed.com. 1998. MORAES. 1999. a. A interpretação sistemática do direito. Ingo Wolfgang. M.