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NATAL: DEUS ASSUMIU NOSSA HUMANIDADE!

BELINI, L. A. . "Natal: Deus assumiu nossa humanidade". SERVINDO, Campo Mourão, p. 6, 01 dez. 2006.

Pe. Luiz Antonio Belini Pároco de Quinta do Sol O natal é uma festa que nos envolve. Podemos dizer que nos envolve a todos, mesmo os não cristãos – embora, é claro, por motivos diferentes. E nenhum natal é semelhante ao outro. Há um dinamismo nesta festa que o faz renovar-se continuamente. E isto é uma verdade sobretudo para nós cristãos. Como cada eucaristia que comungamos tem para nós um caráter único, assim também o natal, parece-nos ter um caráter único. O centro desta experiência de unicidade, que não é marcado pela impossibilidade de ser repetível, mas pelo caráter de decisividade e absolutidade contida em cada um destes atos (trocando em miúdos: cada encontro com Jesus é único porque é pleno e nos envolve por inteiro) tem sua raiz no fato mais singular da humanidade: a páscoa. A carta aos Hebreus expressa isso com uma clareza sem igual quando, comparando os sacrifícios oferecidos anualmente pelos sacerdotes em nome de todo o povo, com sangue de bodes e de touros, diz que o sacrifício de Cristo é único e completo: “é por causa desta vontade que nós fomos santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas” (10, 10). Este sentido único do natal pode ser obscurecido. São muitas as denúncias de uma exploração indevida que o comércio faz desta festa. O poder da propaganda já tem conseguido tornar mais popular o papai Noel que o próprio aniversariante. Em muitos ambientes capitalistas e secularizados onde o aniversariante não pode entrar, celebra-se ricamente seu aniversário! Mesmo em famílias cristãs praticantes e, portanto, de modo inconsciente, encontra-se mais enfeites que indicam o natal simplesmente, do que o presépio, que tem como centro o menino Jesus e a sagrada família. Do ponto de vista da teologia, o melhor versículo bíblico, no meu entendimento, para expressar o natal, é o de São João: “ E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós ” (1,14, esta é a tradução da “Bíblia de Jerusalém”). Verbo traduz o grego Logos (algumas Bíblias usam este termo, que é simples transliteração, sem traduzir). Verbo é um sentido forte de palavra, indica ação. De fato, no prólogo de seu Evangelho, São João está narrando a ação criativa de Deus por intermédio de seu Filho (“tudo foi feito por meio dela, e, de tudo o que existe, nada foi feito sem ela ” – 1,3). Recolhendo toda a tradição hebraica, São João aproveita a riqueza da palavra grega Logos para indicar o Filho, segunda pessoa da Santíssima Trindade. No livro do Gênesis se narra a criação de tudo por Deus através da expressão “Deus disse: que exista...” e imediatamente passa a

diz que a Palavra (ou Verbo) se fez carne. Feliz Natal! Que o aniversariante encontre no coração de todos uma manjedoura acolhedora e aconchegante! . Com suas concretas limitações. Não levamos suficientemente a sério quando São Paulo nos diz que Ele esvaziou-se de sua condição divina para assumir nossa humanidade: “Ele tinha condição divina. que o Filho de Deus quis assumir. finitude e impotência. tornando-se obediente até a morte. aquele que nós somos. Ou seja.68). para ajudar a compreensão do leitor. É bom refletirmos sobre isto porque na maioria das vezes pensamos em Jesus como Deus em uma mera aparência humana. ou seja. assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos simples homens. Basta lembrar o que Adão disse sobre Eva: “Esta sim é . Isto acontece porque toda tradução comporta já alguma interpretação: o tradutor procura a palavra que mais parece preencher o significado literal e ao mesmo tempo seja compreensível para o leitor. Isto é: o Filho de Deus encarnado é verdadeiro homem deste mundo. Continuando o versículo de São João em questão. assumiu verdadeiramente a condição humana. nossa condição terrestre. concreto. Assim apresentando-se como simples homem.23). E desde dentro de nossa humanidade nos trás a salvação.. e sua Palavra é o Filho. o judeu indicava o homem inteiro. Pelo contrário. Algumas Bíblias. limitada. Mas também indicava esta essencial relação nossa com o mundo e com o outro. A tradução da Bíblia Edição Pastoral por exemplo. Este é o significado do natal: a encarnação do Filho de Deus que se faz homem para de alguma maneira carregar consigo a humanidade para Deus. mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Mas mostrou-nos que é possível sermos fiéis à nossa missão de filhos de Deus. já traduz a palavra grega sarx (=carne) por homem.existir aquilo que foi indicado por Deus. o Verbo de Deus que se fez carne. É esta condição terrestre. A pergunta é: o que significa o Verbo se fazer carne? Com o termo carne. em nossa fragilidade. humilhou-se a si mesmo. mundaneidade e socialidade. Celebrarmos o natal é reconhecermos que Jesus. Deus cria através de sua Palavra. Assim. esvaziou-se a si mesmo. Em outras palavras. e morte de cruz!” (Fl 2. traduz assim: “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós”.. reconduzida ao Pai. frágil. Celebrar o natal é reconhecer que o Verbo se fez carne para que a carne pudesse ser redimida. ou seja. carne da minha carne!” (Gn 2. a palavra grega sarx foi traduzida literalmente por carne (pela Bíblia de Jerusalém) e por homem (pela Edição Pastoral).