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O CATÓLICO PODE ACREDITAR EM REENCARNAÇÃO?

BELINI, L. A. . O católico pode acreditar em Reencarnação?. SERVINDO, Campo Mourão, p. 08 - 09, 01 nov. 2005.

Pe. Luiz Antonio Belini Não! A reencarnação é incompatível com a fé cristã. Portanto, não apenas os católicos não crêem na reencarnação, mas qualquer cristão 1. Mas será que esta afirmação reflete a realidade? Segundo Boaventura Kloppenburg, uma pesquisa feita em 1996, revelou que 35% da população brasileira aceita a doutrina da reencarnação 2. Se esta estatística é exata ou não, não importa muito, mostra que em um país de maioria esmagadora de cristãos como o nosso, certamente existem muitos cristãos que aceitam a doutrina da reencarnação. Como afirmei antes, a fé cristã na ressurreição é incompatível com a doutrina da reencarnação, ou seja, há uma falta de compreensão ou do cristianismo ou do reencarnacionismo3. Mas porque então a reencarnação atrai? São muitos os motivos costumeiramente alegados, lembramos alguns: antes de tudo, porque vem de encontro com um anseio profundo de todos que é justamente a busca de salvação. A afirmação de muitas vidas – além de preencher o desejo de imortalidade – parece permitir uma maior segurança psicológica de salvação: muitas vidas = muitas chances de salvação. A doutrina da reencarnação atrai também pela simplicidade de suas afirmações (é uma resposta muito simples para os sofrimentos presentes: sofre-se como purificação de males cometidos no passado); além de explorar uma região do ser humano que ainda é mistério, o sobrenatural – algo muito precioso em um mundo racionalizado e tecnificado como o nosso. Assim, aqueles fenômenos que ainda não possuem uma explicação convincente pela ciência acabam sendo utilizados como justificação de “vidas passadas”. Por que não podemos aceitar a doutrina da reencarnação? Os motivos também são muitos. Lembremos ao menos os principais. Antropologicamente (ou seja, do ponto de vista do homem) parte de um equívoco. Afirma que a pessoa humana identifica-se com sua alma. Em outras palavras: o homem é a sua alma. É isto que possibilita a transmigração da alma (reencarnar-se em um outro corpo). Nesta visão, o corpo não importa decisivamente para o ser da pessoa, é um acessório, instrumento ou princípio de limitação; tanto é verdade que para o
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Nos pronunciamentos do Magistério da Igreja podemos encontrar muitas condenações – ainda que nem sempre explícitas – à doutrina da reencarnação, um exemplo é a condenação das teses de Orígenes pelo Sínodo de Constantinopla, em 543 (DS 403-411). Um exemplo mais atual e acessível é a condenação que faz o Catecismo da Igreja Católica: “A morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo de graça e de misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrestre segundo o projeto divino e para decidir o seu destino último. Quando tiver terminado ‘o único curso da nossa vida terrestre’, não voltaremos mais a outras vidas terrestres. ‘Os homens devem morrer uma só vez’ (Hb 9,27). Não existe ‘reencarnação’ depois da morte” (n.1013). Também o papa João Paulo II se manifestou contra a reencarnação em sua Carta apostólica Tertio Milennio Adveniente, n.9: “Alguns imaginam várias formas de reencarnação: consoante o modo como tivesse vivido durante a existência mais nobre ou mais humilde, até atingir a plena purificação. Muito radicada nalgumas religiões orientais, esta crença indica, entre outras coisas, que o homem não pode resignar-se à irrevogabilidade da morte. Está convencido da própria natureza essencialmente espiritual e imortal”. E o papa continua: “A revelação cristã exclui a reencarnação e fala de um cumprimento que o homem é chamado a realizar no curso de uma única existência sobre a terra”. 2 KLOPPENBURG, B., Reencarnação? Petrópolis: Vozes, 1998, p.13. Battista Mondin cita uma pesquisa feita em nove países europeus cujo resultado indicou que 21% dos entrevistados aceitam a doutrina da reencarnação (Preesistenza, sopravvivenza, reincarnazione. Milão: Editrice Àncora, 1989, p.33). 3 KLOPPENBURG, B., Reencarnação? Petrópolis: Vozes, 1998, p.9: “Os cristãos rezam: ‘Creio na ressurreição da carne’. Jamais como hoje, tem havido tanta necessidade de sublinhar esta parte do Credo da Igreja. A ressurreição e a esperança cristã são unidas de maneira indissolúvel. Onde desaparece a fé na ressurreição, ela é substituída pela crença na reencarnação. A fé na ressurreição e a teoria da reencarnação são duas interpretações profundamente diferentes do enigma da vida e do mistério depois da morte. Trata-se de duas tomadas de posição fundamentais acerca da vida e de duas diferentes formas de esperança”.

não perder nada de tudo aquilo que agora constitui e singulariza a cada homem” (RUIZ DE LA PEÑA. corpo e alma5.. 6 RUIZ DE LA PEÑA. Perde-se a “unicidade e irrepetibilidade” da pessoa. A esperança na ressurreição corporal dos mortos foi-se impondo como uma conseqüência intrínseca da fé em um Deus criador do homem inteiro. impede qualquer antropologia individualista: “ressurreição é um conceito corporativo. pelo contrário. A libertação significa libertar-se do “peso” da corporeidade. Por outro lado. mas que mesmo os nossos ‘corpos mortais’ (Rm 8. que responde de um modo singelo e poético em sua primeira carta aos Coríntios. Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora” (Rm 8. recuperar a própria vida em todas as suas dimensões autenticamente humanas. Na visão reencarnacionista a promessa de plenitude. visíveis e invisíveis’).. tem sido amassada no molde da socialidade. Foi frente a este perigo de desvalorização da corporeidade que a Igreja sentiu necessidade de proclamar como dogma de fé: “creio na ressurreição da carne” 4. As decisões livres do homem. que comprometem sua existência. Madri: BAC. Afirmar que a salvação é graça não significa que isto dispense nossos esforços por sermos melhores e termos um mundo melhor. vida eterna. “Ressuscitar ‘com o mesmo corpo’ significa. Não somos salvos por nossas próprias forças. que as três grandes religiões que assentam sua compreensão da realidade no dado criação (judaísmo. A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus. A fé cristã desconhece a promessa de vida eterna para uma “alma espiritual desmundanizada”7. tão secundário que. como conseqüência e desde logo. Temos que rejeitar a doutrina da reencarnação porque ela não valoriza a Encarnação e morte redentora de Cristo . A carne que ressuscita está feita de proximidade.992: “A ressurreição dos mortos foi revelada progressivamente por Deus a seu povo. Ou seja. comunitário. L. ter muitas vidas não significa garantia de salvação. já que o corpo – a “mundaneidade do homem” – não é levada a sério. principalmente no capítulo 15. Isto contrasta com nossa fé na ressurreição que se refere a toda a criação .. 5 O “como” será esta corporeidade ressuscitada já incomodava os cristãos do tempo de Paulo. A afirmação de ser o homem “ um ser relacional”. para participar da liberdade dos filhos de Deus. banalizada. Porque Deus é o criador de tudo.173). Há uma desvalorização da corporeidade e de tudo o que diretamente se refere a ela. Escatologia. não é o salvamento do naufrago solitário. que se constitui no “encontro” com o outro. No fundo. J. Por mais vidas que tivéssemos. Resurrección o reencarnación? Communio (1980) p. Metempsicose é a transmigração da alma.299). senão a reconstituição da unidade originária de toda a família humana” (RUIZ DE LA PEÑA. pois. n. islamismo) repudiam o conceito de metempsicose”. é dom de Deus. uma ou 4 Catecismo da Igreja Católica . para muitos tipos de reencarnacionistas. p.reencarnacionista o corpo é algo “exterior”. a seriedade e tragicidade da morte é enfraquecida. J. mas somente a alma. E tudo o que faz o faz por amor8. La Pascua de la creación. a plenitude ou vida eterna. cristianismo. a alma poderá se encarnar em um animal qualquer e não apenas em “corpos humanos”. não envolve o cosmo (o universo por inteiro). O homem se constitui naquilo que é a partir de sua vivência com os outros homens. Resurrección o reencarnación? Communio (1980) p. Já dizia Platão – fazendo eco aos pitagóricos – que o corpo é o cárcere da alma. pois ela também será liberta da escravidão da corrupção. A reencarnação não leva a sério o fato do “homem ser pó e voltar ao pó”. São Paulo é muito claro: “Penso que os sofrimentos do momento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós. é também O salvador de tudo. a seus pressupostos ontológicos e éticos. A ‘ressurreição da carne’ significa que após a morte não haverá somente a vida da alma imortal. 7 Aqui cabe lembrar também da sociabilidade fundamental do ser humano. 18-22) 6. .990: “O termo ‘carne’ designa o homem na sua condição de fraqueza e de mortalidade.11) readquirirão vida”. Entregue ao poder do nada – não por sua própria vontade. L. J. n. mas por vontade daquele que a submeteu – a criação abriga a esperança. O mundo e tudo o que está diretamente relacionado ao homem perde sentido. Diante da crença na reencarnação.298: escrevendo sobre a incompatibilidade entre a ressurreição (fé cristã) e a reencarnação afirma: “Seu não à reencarnação está já préanunciada no não às premissas desta. a promessa de ressurreição é para o homem inteiro. 8 Catecismo da Igreja Católica. Não é casual. criador de todas as coisas. A salvação que se promete e confere com a ressurreição não é individualista. acabam sendo desvalorizadas. 2000. L. a promessa é para todas as criaturas (embora cada uma a seu modo). O último artigo do Creio cristão (‘cremos na ressurreição dos mortos’) se deriva rigorosamente do primeiro (‘cremos em Deus Pai. alma e corpo”.

1998. 9 Embora muitos reencarnacionistas queiram ver na Bíblia um fundamento para a reencarnação. A Palavra de Deus também nos ensina que a reencarnação não faz sentido9. se com ele sofremos. ilusória é também vossa fé” (1Cor 12ss). ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal: donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras de Cristo’” (KLOPPENBURG. “Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos. 10-13). também ele nos renegará. pois não pode renegar a si mesmo” (2Tim 2. fazendo ver como a interpretação que fazem da Bíblia é equivocada e tendenciosa. Se nós o renegamos. Concluindo. Se lhe formos infiéis. como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos.27: “Está estabelecido que os homens devem morrer uma só vez e depois disso vem o julgamento”. para que também eles alcancem a salvação que está em Jesus Cristo. também Cristo não ressuscitou. “É por isso que tudo suporto por causa dos escolhidos. Falar em salvação sem ter claro a graça salvífica e mediadora de Cristo é anti-cristão. Porquanto. doutrina Kardec. p. com ele reinaremos. Basta-nos recordar duas citações: o capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios e Hb 9. percebemos que a concepção de homem que perpassa toda a Bíblia é uma noção unitária. Reencarnação? Petrópolis: Vozes. . E se Cristo não ressuscitou. nossa fé na ressurreição assenta-se em Cristo. B. O próprio Kloppenburg responde detalhadamente a esta questão. segundo eles “o próprio Cristo teria ensinado formalmente a pluralidade de nossas existências corporais..41). com a glória eterna. representam a mesma possibilidade de resposta ao diálogo amoroso com o Criador. vazia é nossa pregação. Estas palavras são certas: se com ele morremos.muitas vidas. com ele viveremos. ele permanece fiel. ‘o princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos Judeus. incompatível com a doutrina da reencarnação. Mas olhando mais profundamente a questão.