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O Inferno é real, mas não físico

BELINI, L. A. . O inferno é real, mas não físico. SERVINDO, Campo Mourão, p. 4 - 4, 01 abr. 2008.

Pe. Luiz Antonio Belini Pároco de Quinta do Sol Vemos com freqüência na imprensa escrita ou televisiva, uma campanha contra a Igreja Católica, ou simplesmente, contra as verdades nas quais cremos. Muitos ataques são frontais e declarados, outros camuflados e indiretos. Entre os segundos, há uma tendência preocupante que é a apresentação de uma pretensa informação que na verdade visa levar ao ridículo algum conteúdo de nossa fé. A revista Veja, de 20 de janeiro de 2008, nas páginas 100 e 101, traz um artigo assinado por Jerônimo Teixeira intitulado O fogo eterno queima mesmo. E seu subtítulo é: O papa e um bispo da igreja anglicana tentam reafirmar a realidade física do céu e do inferno. O artigo pretende partir de uma constatação: está havendo um enfraquecimento na adesão aos princípios morais pregados pelas igrejas tradicionais. O problema é a abstração na qual cairam algumas crenças, como as do céu e inferno, que até então haviam sido “um recurso didático”. A conclusão do artigo: “é em resposta a esse enfraquecimento de princípios que alguns líderes religiosos vêm reafirmando a verdade física do céu e do inferno. No ano passado, o papa Bento XVI reiterou, em um sermão para fiéis de Roma, que o inferno não é uma imagem literária – trata-se realmente de um lugar onde as pessoas queimam por toda a eternidade (...) A pregação direta e assustadora de Bento XVI não diverge da linha dura que ele vem imprimindo a seu papado. O papa anterior, João Paulo II, amainou um tanto a noção de inferno, definindo-o como um lugar em que Deus está ausente. Cioso dos fundamentos do catolicismo, Bento XVI não faz mais do que relembrar o que está nos textos sagrados. O capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, para ficar em um exemplo, é inequívoco: os colocados à esquerda de Deus, que não deram de beber a quem teve sede nem alimentaram quem teve fome, serão banidos ‘para o fogo eterno destinado ao demônio e seus anjos’”. Algumas perguntas poderiam ser feitas: se o papa falou isso em um sermão “no ano passado aos fiéis de Roma”, porque publicá-lo agora? (justamente quando a Igreja está no centro da polêmica quanto à legalidade do uso ou não de embriões humanos na pesquisa de células tronco, e por causa de sua postura contrária vem sendo acusada sistematicamente de “obscurantismo”!). A citação da palavra do papa é feita sem o menor respeito às regras básicas de qualquer

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Façamos rapidamente uma análise. esse é tão real que entra na própria existência do homem” (trad. 1977. de modo que não é possível saber se o papa realmente as disse. perfis desse gênero. em 1976. Faz questão de acrescentar: “em uma semelhante religiosidade. pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. em qual contexto? Quais foram realmente as palavras usadas por ele? Penso que nesta reportagem não há apenas imprecisão. Mas pelo que conheço de teologia e pelas publicações que já fez a este respeito. após ter lecionado esta disciplina por vinte anos. única fonte de vida. tratado teológico ao qual pertence o tema do inferno. Ali o papa reafirma a doutrina dogmática da Igreja a esse respeito: a existência do inferno e a eternidade de suas penas se apóiam em um terreno sólido. sobre a Esperança Cristã. Mostra a bondade de Deus que sofre com a rejeição dos homens ao seu convite de salvação. mas também leviandade jornalística. então Joseph Ratzinger. nn. Regensburg: Friedrich Pustet. não posso analisar o que realmente o papa disse. a Spe Salvi. mas que permite. o papa simplesmente remete para o Catecismo da Igreja Católica. Em sua última encíclica. essa situação. por amor à liberdade de suas criaturas. mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever. Em tais indivíduos não haveria nada de remediável e a destruição do bem seria irrevogável: é isso que se indica com a palavra inferno ”. publicada em 30 de novembro de 2007. O que o autor do referido 2 . nada é cancelado da terrificante realidade do inferno. duvido muito que este artigo esteja com a verdade. tanto bíblico quanto dogmático. afirma simplesmente: “Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor. terminava de escrever uma obra sobre Escatologia (Eschatologie: tod und ewiges leben. quando no número 45 toque a questão do inferno. o papa volta à questão escatológica. apenas um professor de teologia. O papa Bento XVI. A esse ponto. ao contrário.1033-1037. Pelas razões acima mencionadas. pessoas nas quais tudo se tornou mentira. 227). it. e se as disse. Trata-se de uma perspectiva terrível. Em nenhum momento o papa propõe o inferno como realidade “física” ou afirma que o tal fogo queime fisicamente. e a publicou no momento em que recebeu o episcopado. mas conclui que o respeito de Deus pela liberdade humana faz que aceitemos a eternidade desta decisão humana de rejeitar este diálogo amoroso com Ele. O papa lembra aqueles que procuraram pensar um inferno “temporário”. traduzido para o italiano já em 1979).artigo sério: quando foi feito tal sermão? Onde está publicado? Não possui nenhuma referência. de forma assustadora. Também o Catecismo retoma esta visão: a possibilidade do inferno é uma conseqüência de levar a sério a liberdade humana. mas seu objetivo é falar da esperança de salvação e não de uma possível condenação. embora real.

Notem que o Catecismo faz questão de evitar a palavra lugar para designar o inferno. O papa sempre afirmou que o inferno é “real”. comum no mundo moderno. O sofrimento que esta “situação” infernal comporta. Aliás. se quer toca na questão do “fogo do inferno”. é que o inferno seja real. em um documento de 1990. A Igreja creu sempre que esta vontade salvífica universal de Deus tem. deve recomendar-se muito um ânimo aberto à sóbria doutrina do evangelho tanto para expô-la como para crê-la. já que o ser humano ainda não fez a experiência de existir completamente sem Deus. Quando a Igreja reza pela salvação de todos. Por isso. Deus ‘quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade’ (1Tm 2. justamente para evitar o mal-entendido de determinar fisicamente o inferno. isso. Há aqui um preconceito. físico (ao menos no sentido costumeiro que atribuímos a esta palavra).1033). nestes textos analisados. experimenta para aceitar a doutrina do Novo Testamento sobre o inferno. deverá ser adequada a este novo modo de existir. uma ampla 3 . presidente da Comissão”): “Todo teólogo é consciente das dificuldades que o homem. o Único em que o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira”. A Igreja leva a sério a liberdade humana e a Misericórdia divina que tem concedido a liberdade ao homem. não podemos afirmar nada. Em relação ao que isto significa. Alguns afirmarão inclusive que somente o físico é real. como condição para obter a salvação. Afirmar que o inferno é real. chamado Algumas questões atuais de escatologia (documento que. Satisfeitos com essa sobriedade. E completa no n.artigo indica como uma versão “amainada” de João Paulo II para o inferno está ali: “é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra ‘inferno’ ” (n. não se reduz a uma figura de linguagem. os caminhos pelos quais podem conciliar-se a infinita bondade de Deus e a verdadeira liberdade humana. que o que é real é físico. isso não quer dizer. mas fala de “ estado” e. 1035: “A pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus. Encerro esta questão com as palavras da Comissão Teológica Internacional. segundo se afirma em seus inícios “se publicou com a permissão do eminentíssimo cardeal Joseph Ratzinger. de maneira concreta. tanto em nosso tempo como em qualquer outro tempo da história. quer dizer que ele existe.4). na realidade está pedindo pela conversão de todos os homens que vivem. de fato. devemos evitar a tentativa de determinar. Conclusão lógica: o papa não se refere ao inferno como lugar físico e nem mesmo os “sofrimentos” infernais como físicos. a ponto de real e físico se tornarem sinônimos (por exemplo: alguns tipos de materialismos sensistas). que pode ser dito somente com as palavras do Catecismo: uma separação eterna de Deus. O que é plenamente aceitável. O problema pode estar na compreensão da palavra real. Isso não quer dizer “físico”.

A Igreja nunca declarou a condenação de alguma pessoa em concreto. Por isto. Madri: BAC.494-495). não é lícito – ainda que se esqueça hoje às vezes na pregação das exéquias – pressupor uma espécie de automatismo da salvação. com respeito a esta doutrina . Veinticinco años de servicio a la teologia de la Iglesia .é absolutamente necessário fazer próprias as palavras de Paulo: ‘Ó profundeza da riqueza. 4 .eficácia. 1998. Documentos 1969-1996. Mas porque o inferno é uma verdadeira possibilidade real para cada homem.33)” (Comisión Teológica Internacional. p. da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus julgamentos e impenetráveis os seus caminhos!’ (Rom 11.