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PODEMOS REZAR PELOS MORTOS?

BELINI, L. A. . Podemos rezar pelos mortos?. SERVINDO, Campo Mourão, p. 6, 01 nov. 2007.

Pe. Luiz Antonio Belini Pároco de Quinta do Sol Deus criou o homem como ser social. Não quis que Adão ficasse só. Criou também Eva e deu-lhes o poder de gerar filhos. Assim, a Bíblia nos narra o surgimento do homem, da família e da sociedade humana. Os seres humanos estão ligados por sentimentos. Lembro neste momento três: o amor, que os une e os tornam carinhosos e preocupados entre si; a indiferença, que é o sentimento neutro frente ao outro, nem a sua presença nem sua ausência são significativos emocionalmente; por fim, o ódio, que é exatamente o contrário do amor, é um sentimento negativo, ao invés de preservar o outro, quer sua destruição. No plano de Deus, deveria existir apenas o amor, em suas muitas variações: amor de amizade, amor de filiação, amor maternal e paternal, amor erótico ou conjugal, etc. O desequilíbrio instituído pelo homem, o que nós chamamos de pecado original, quebrou a harmonia. Os homens se tornaram um misto de amor e ódio. Por isso, a mensagem redentora de Jesus é amor e perdão. Em todo caso, o homem é um ser comunitário. Está em comunhão. Ainda que se apresente muitas vezes em desunião, ninguém é puramente ódio. Nesta vida em comum, nos sentimos responsáveis uns pelos outros, principalmente por aqueles que mais amamos. Expressamos este sentimento com gestos e símbolos: dar uma flor ou um beijo pode assumir significados que mudem inteiramente uma vida. Algo, em si mesmo muito banal, pode adquirir, no plano simbólico da humanidade, um sentido profundo. Basta lembrar que todo o planeta se une em torno de uma tocha de fogo, que passa de mão em mão, pelos continentes, com toda a atenção dos meios de comunicação mais respeitados, por ocasião das olimpíadas. É claro, não é pela tocha de fogo e sim pelo que ela representa, a olimpíada. E a importância da Olimpíada não está apenas na competição, mas em seu significado de integração de toda a humanidade. Nós cristãos acreditamos que vivemos em comunhão mesmo com aqueles que já morreram. Existe entre nós um sentimento que continua nos ligando a eles, possivelmente mais do que com aqueles que ainda virão a existir e, com a emergente consciência ecológica, nós temos nos sentido responsáveis por
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nós que vivemos e os que ainda viverão: o amor. ou seja. Se podemos cuidar dos túmulos. Não porque precisem. Embora sejam testemunhos de difícil interpretação e muito discutíveis. No Antigo Testamento esses testemunhos só aparecem tardiamente. então esse é um pensamento santo e piedoso. seria coisa inútil e tola rezar pelos mortos. Nós que estivemos unidos em vida. 29). Há um sentimento vital que une os que já viveram. E o 2 . Levamos flores e velas. considerando que existe uma bela recompensa guardada para aqueles que são fiéis até à morte. que fala em oferecer o batismo pelos mortos. 44-45: “Se não tivesse esperança na ressurreição dos que tinham morrido na batalha. Mas. Por isso. Nós cristãos católicos chamamos esta comunhão tão profunda de Comunhão dos Santos. poder unir-se a Deus em prece por eles. Afinal. desconhece a profundidade do sentimento humano. de todos aqueles que conheceram e vivenciaram ou vivenciam ainda. não porque aqueles que foram ali sepultados precisem. o que ganhariam aqueles que se fazem batizar em favor dos mortos? Se os mortos não ressuscitam. embelezá-los e enfeitá-los. não nos separaremos na morte. nos faz cuidar de seus sepulcros. adorná-los. Vamos encontrar um primeiro testemunho explícito em 2Mac 12. Quem crítica o fato de se pôr flores e velas nos túmulos ou.aqueles que ainda virão. talvez como nós que oferecemos a celebração eucarística: “Se não fosse assim. mandou oferecer um sacrifício pelo pecado dos que tinham morrido. Este sentimento de comunhão para com os mortos. Por isso podemos levar flores e velas aos túmulos. porque dependem do amadurecimento da fé na ressurreição pessoal. Amor que se realiza a seu modo em cada caso. como em algumas culturas. nem para se aquecer nem para se iluminar. porque se fazer batizar em favor deles?” (1Cor 15. morte? Nos mantemos unidos: nós que ainda peregrinamos àqueles que já existem na glória do Pai e os que se purificam . já seria algo maravilhoso. Na Bíblia encontramos testemunhos que nos apóiam. o amor redentor de Cristo. Como quem carrega a tocha olímpica sabe que a humanidade não depende daquele mísero foguinho. mas porque este é um modo humano de vivenciar o sentimento de amor e comunhão. vale a pena lembrálos. quem poderá nos separar: tribulações. alimentos. mas porque assim realizamos emocionalmente essa comunhão emocional como seres humanos e históricos. para que fossem liberados do pecado”. Mas cremos que nossa oração é de valia também para os que já morreram. No Novo Testamento encontramos um testemunho interessante em Paulo. porque não poderíamos fazer também uma prece por aqueles que morreram? Ainda que não fosse de nenhuma utilidade para eles.

Tanto de orações litúrgicas públicas quanto privadas. V). enquanto peregrinamos. "Lembrai-vos também dos nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida: acolhei-os junto a vós na luz da vossa face. Indicações nesse sentido foram encontradas. Tertuliano. Lembremos algumas: "Lembrai-vos também dos que morreram na paz do vosso Cristo e de todos os mortos dos quais só vós conheceis a fé ". pede aos irmãos que rezem por ele no trigésimo dia de sua morte. A tradição cristã de rezar pelos mortos. advogado convertido ao cristianismo. II). na Frigia e conservada agora no museu de Latrão. Euc." (Or. Ramsay. 3 . do século IV. desde os inícios do cristianismo. Escreve em De Corona III. nas proximidades de Hierápolis. (Or. Também no século IV temos o testemunho de São Cirilo de Jerusalém que em sua Catequese (23. Que vivam para sempre bem felizes no reino que para todos preparastes. O exemplo mais conhecido é a celebre Inscrição de Abércio. no qual em seu final se lê: “ quem compreende e está de acordo com essas coisas. Euc. nos dá muitos testemunhos da prática cristã de rezar pelos mortos. permeiam nossas próprias Orações Eucarísticas. que nasceu em Cartago pelo ano 155 e morreu por volta de 220.próprio Paulo reza por Onesíforo e sua família: “Que o Senhor lhe conceda misericórdia junto a Deus naquele dia” (2Tm 1. Santo Efrém. é riquíssima. Esta prática da Igreja de rezar pelos mortos e oferecer a celebração eucarística desde seus inícios. 3: recomendando a tradição entre os cristãos de “oferecer pelas almas dos defuntos sacrifícios no dia de seu aniversário”. 18). descoberto em 1883. do segundo século. rezar por eles e oferecer o sacrifício eucarístico. portanto. 4 escreve que “a mulher viúva reza pela alma de seu marido e pede para ele a paz eterna. "A todos os que chamastes para a outra vida na vossa amizade.9-10) defende a utilidade da oração pelos defuntos e do sacrifício eucarístico oferecido pelos mortos. Podemos. Desejando. por exemplo." (Or. Euc. pelo arqueólogo protestante W. preparada para cada um de nós por Jesus. e aos marcados com o sinal da fé. IV). que todos possamos nos unir um dia na morada do Pai. rogue por Abércio”. E em De Monogamia X. acolhei-os. pela arqueologia nas catacumbas ou nos cemitérios cristãos. levar flores e velas aos túmulos dos entes queridos. abrindo os vossos braços. no qual conta a vida de Abércio. bispo de Hierápolis. com o fim de estar com ele desde o primeiro momento da ressurreição e lhe oferece sacrifícios no aniversario de sua morte”.

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