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DEUSDEDITH JUNIOR

A GUERRILHA DO ARAGUAIA (1972 – 1974)

Dissertação apresentada como requisito para a conclusão do mestrado em História Política do Brasil da Universidade de Brasília. Orientadora: Adalgisa Maria Vieira do Rosário

BRASÍLIA 1995

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XAMBIOÁ Xambioá Mata virgem e escura, foi lá Que no meio do mato Um amigo de infância Tentou começar. Ah! foi por lá Onde o povo sofreu pra contar Como um homem sozinho Valia por trinta Em qualquer lugar. Êh! Marabá, Altamira e Estreito olhem lá Ainda grita até hoje A vida do povo Que morreu por lá. Ei, meu irmão , Você fez renascer o sertão E o maior contingente Não viu o tamanho Do seu coração. Pedra não pára o caminho, Fogo não queima o luar, Eu já não canto sozinho, Canto em Xambioá. ("Xambioá", letra e música de Itamar Corrêa)

Quando eu penso naqueles anos, Um calafrio me atravessa, Como os raios de uma "perereca" Nos corpos frágeis dos "desaparecidos". As canções daqueles tempos Pesam sobre mim, Como as patas dos cavalos Que atravessavam as praças A dispersar os estudantes. As histórias daqueles tempos, Transitam entre a fantasia Da criança que eu era E o medo que a razão me deu. Quando eu penso naqueles anos, Tenho saudades do que não aconteceu. (Deusdedith Alves Rocha Junior)

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Agradecimentos
Nunca se trabalha só. E este trabalho dependeu do esforço de muita gente. Sustentar a idéia de encarar a pós-graduação com este tema, é algo que trago comigo há pelo menos dez anos. Foi fundamental, então, o apoio daqueles que permitiram que as obrigações impostas pelo dia-a-dia não fizessem fenecer o sonho. Também aí foram grandes ajudantes Victor Hugo e Anna Carolina, meus amados filhos, que muito me ensinaram e ensinam da vida, como ter paciência e procurar compreendê- los. Este trabalho dependeu também da atenção e credibilidade que recebi da professora doutora Adalgisa Maria Vieira do Rosário, minha orientadora, por quem tenho grande estima; do professor doutor Jaime Almeida, que acreditou no meu sonho e capacidade, e também da CAPES, que me deu possibilidades financeiras para a realização deste trabalho. Muitos outros amigos - tantos que não cabem aqui - também participaram deste esforço. Jorge Henrique Costa Medeiros, que me "empurrou" ao mestrado; Fabiano Queiroga, com a sua arte; Kelerson Semerene, Elias Nazareno e Daniel Dias, presentes neste trabalho; Carlinhos, com a datilografia do projeto, Arlete, na solução das burocracias; Maria Vitória e o pessoal da Casa da Cultura de Marabá. A atenção e dedicação de amiga que recebi da professora Eleonora, na leitura do projeto e na fase final desta dissertação foram fundamentais para que este trabalho chegasse a sua conclusão. Meus pais, Deusdedith e Virgínia, e meus sogros, João e Cema, também têm grandes responsabilidades pela realização deste trabalho. Por fim, ao meu querido avô, Raimundo Liberalino Maya, pela entrevista, o seu carinho e o seu amor pelo saber, que tanto me estimulou. Sem a contribuição destas e de outras tantas pessoas com quem convivi, esta tese de mestrado não teria chegado ao papel.

4.2.6.4 SUMÁRIO 1.1. 4. 4.4.7.5.2. 2.3. 5. 3.1. 4. 3. 7.1. Introdução A Região O Sudeste do Pará O lugar da guerrilha O País Os anos 70 "O milagre econômico" Poder. 6. 3. 5. 2. 3. 5.5. 3.4. repressão e censura Os lugares da repressão Censura: repressão à alma O Partido Do PCB ao PcdoB: os caminhos da revolução O Brasil dos comunistas O velho e novo PcdoB A Guerrilha Quem são os guerrilheiros do Araguaia? Preparando a guerrilha A Operação Carajás Agora.2. 8. uma guerrilha de verdade O Exército e os seus inimigos Camponeses e guerrilheiros: alguns casos Os guerrilheiros: alguns nomes Conclusão Bibliografia Anexos . 5.1.3. 3. 5. 2.2.3. 5. 5. 5.

A identificação das principais características sócio-econômicas da região Sudeste do Pará. . a identificação dos discursos que se formaram em torno dos acontecimentos é abordada de forma crítica. quando procuramos evidenciar as lacunas que se formaram em torno das "histórias" da Guerrilha do Araguaia.5 Resumo A Guerrilha do Araguaia é abordada nessa dissertação levando-se em consideração as relações que se estabeleceram entre os guerrilheiros. das relações sócio -políticas do Brasil no contexto do Estado autoritário instalado em 1964 e das decisões do PCdoB que culminaram na realização da guerra de guerrilhas que pretendia a derrubada do Estado autoritário. contribuem para a formação de um quadro do conjunto das circunstâncias que envolvem a Guerrilha do Araguaia. Em seguida. assim como a presença e a ação do Estado no combate aos partidários da luta armada. o partido e a população regional de onde se desenvolveu a luta guerrilheira. sob a ótica da "análise do discurso".

the Party and the regional population when the fight took place. as well as the presence of the Estate and it's action towards the armed partisans in combat. Also. the socio-political structure in Brazil within an authoritarian Estate context set up in 1964 and the decision of the Brazilian Communist Party which ended up in the guerrilla warfare. a critical analysis of the speech of the time is made here and the gaps that where built up around the stories of the Araguaia Guerrilla are enhanced. .6 Abstract The Araguaia Guerrilla is commented on this dissertation taking into account the relationship that was settled among the warriors. The identification of the main socio-economic characteristics of the Southeastern region of Pará. aiming a "Coup d'Etat". contribute to the meke-up of a set of circunstances that conform the Araguaia Guerrilla.

sem perder sua intenção: a de evidenciar e criticar o silêncio que o Estado procura impor sobre a Guerrilha do Araguaia. a citação de Marcelo Rubens Paiva (na epígrafe acima). Com mais espaços vazios que evidências e esclarecimentos.7 14. INTRODUÇÃO "Não me lembro de um fato histórico cujos vencedores escondam sua versão. Lacunar. As partes envolvidas nessa luta. da forma que lhes convinha. nunca 1 houve a guerrilha do Araguaia. já não é mais uma novidade. para o Exército. Desde 1979 muitos escritos surgiram sobre os acontecimentos que se referem à luta armada contra o Estado autoritário entre 1968 e 1974. Seria como querer esconder um elefante branco. Até hoje não existe uma versão oficial. senão 1 Marcelo Rubens Paiva in Folha de São Paulo. E essa é a versão oficial. uma versão formulada pelo próprio Exército Brasileiro. negar a Guerrilha do Araguaia." Escrever sobre a Guerrilha do Araguaia. O Estado nunca negou: houve sim a Guerrilha do Araguaia. Existe sim uma versão oficial. 19 de outubro de 1992. Entendido dessa forma. sempre procuraram estabelecer (este termo cabe melhor que "esclarecer") os acontecimentos que descrevem a história da luta armada no Brasil desse período. Mas que dizer dos outros discursos. mesmo com todas as proibições que pairaram sobre esse tipo de literatura. não a sua negação. poderia ser reformulada. Dessa forma podemos inferir que o que estabelece o discurso do Estado é o silêncio sobre os acontecimentos. .

tomando-os como elementos considerados pelo PCdoB no momento da escolha da região para o desencadeamento da guerrilha. procurar características próprias da região que possam de alguma forma ter influenciado as decisões do partido. compreender a evolução do pensamento do PCdoB. ou compará.los entre suas principais versões objetivando somente a verificação da sua veracidade – apesar da necessidade de tais verificações. investigar os aspectos sociais. mas da mesma maneira. Entendido dessa maneira nossa investigação deve procurar: a. após a dispersão da guerrilha. c. objetivando ampliar a contextualização dos acontecimentos da Guerrilha do Araguaia. as condições que forjaram a luta armada sob a direção do partido e sua postura frente aos acontecimentos. Entendido dessa maneira. não pode resumir-se a elencar seus acontecimentos numa ordem cronológica apenas. posto que não há literatura que esclareça este aspecto. portanto. Escrever sobre a Guerrilha do Araguaia. Trata-se também de identificr as versões que se construíram sobre ela e investigar os motivos que contribuíram para que elas assim se estabelecessem. Ao mesmo tempo nos interessa relacionar a guerrilha com os aspectos da realidade regional e nacional.8 que também possuem suas lacunas. econômicos e sociais torna-se indispensável para a compreensão do período e dos acontecimentos que são objetos desse estudo. sociais e econômicos do Brasil dos anos 60/70 que tenham contribuído para o impulso à luta armada pelo PcdoB (acompanhando uma tendência das esquerdas no p eríodo). juntamente com suas condições . promovem sobre os fatos entendimentos ideologicamente desejados. b. Portanto a busca dos fundamentos políticos. procurar evidenciar os aspectos políticos. Na seqüência. políticos e econômicos da região. São outras as intenções. não nos propomos apenas ao resgate de um momento esquecido da história. mas também procurar entender por que seus narradores inssistem em esquecer alguns de seus aspectos.

Nas três identificações dos discursos acima estão contidas intenções que são próprias ao grupo ou classe que os proferiu. d. ou negados. resistem fragmentos quase sempre compreendidos de forma mitificada. "guerrilheiro" ou "povo da mata" são termos sinônimos. Disso concluímos que este trabalho não pretende repetir "uma" das versões da Guerrilha do Araguaia. resultando nos acontecimentos que formam a Guerrilha do Araguaia. Há um aspecto em que se pode observar a identificação de cada um dos discursos e o posicionamento sócio-cultural que seus proferidores adotavam. Numa terceira versão. ou constatar sua veracidade. passou a tratá. objetivando. É o tratamento dado ao militante do PCdoB que lutou no Araguaia. o povo da região pôs-se a tratá. O PCdoB. Criadas tais condições.los por "guerrilheiros". Permeando nosso trabalho investigativo.los por "povo da mata". tomando por base os acontecimentos mais imediatos da luta no Araguaia. ou envoltos em segredos e heroísmos de outro. porém não se configurando no eixo da pesquisa.do resgate de acontecimentos que têm sido. "terrorista". mas também não se arvora construir uma versão mais abrangente e nova de nosso objeto de estudo. enquanto construção interpretativa do real. mas que determinam as maneiras e intenções diferenciadas com que cada grupo se relacionava.e este é o nosso objetivo . O Estado. Dessa forma. de um lado.9 internas e posicionamentos políticos. sem assumir que se tratava de militantes treinados. Por fim. os discursos e seus vínculos com grupos ou classes sociais. não optar por um deles. Trata-se . a identificação e crítica dos discursos se encontram dispersas e nem sempre facilitando uma abordagem comparativa. desde o momento em que se pôs em luta contra os militantes do PCdoB no Araguaia. identificar. . mas com a evidente intenção de caracterizar o acontecimento como "revolucionário". a versão dos moradores da região. compreendendo os sentidos da luta armada a partir de suas compreesões próprias e dos interesses dos outros. passou a tratá-los por "terroristas" – esse tratamento é mesmo anterior à Guerrilha do Araguaia na literatura e no discurso dos governos militares. mas encontrar suas características básicas e os eventuais motivos que propiciaram sua construção. o ingresso no caminho da luta armada procurou seguir os pressupostos estabelecidos pelo partido.

Os acontecimentos que acompanham a preparação da guerrilha e o posicionamento do PcdoB diante dela. faziam lavagem cerebral. que fora tratada pelos integrantes da guerrilha como a "luta do povo contra seus opressores". de guerra de guerrilhas. bem como a idéia de que imperava a promiscuidade no mundo capitalista (para os países comunistas). Segundo. tornam-se estranhos. Transformando essa luta numa verdadeira cruzada. ao estabelecer a luta armada como condição para a superação da "ditadura militar". tornava necessária a forma ção de quadros militares entre os militantes do partido. o Estado estabeleceu (em seu discurso e na prática) a dicotômica luta do bem contra o mal. estabeleceu-se sob a forma não-convencional. 2 Em seus escritos. havia uma certa generalização em torno das causas da luta. na medida em que este se resguarda dos vínculos com os seus guerrilheiros.los principalmente por "povo da mata". como se a idéia da guerrilha tivesse surgido das contradições sociais da região. mas a todos que se opuseram através da luta armada ao Estado autoritário. de ambos os lados incluía a idéia de que os comunistas comiam crianças. Por fim. O discurso. A preparação para a luta e a própria luta em si. não se sabia exatamente quem e quantos participaram da luta. que era empregado n ão apenas aos militantes do PCdoB em luta no Araguaia. . São vários os motivos. não reivindicando posicionamentos ideológicos ou outros significados que 2 Este é um fenômeno mundial que marca o tratamento do opositor (o outro) no período caracterizado pela Guerra Fria.neste caso "terrorismo" tornou-se um sinônimo depreciativo de socialismo. do país e os guerrilheiros tivessem surgidos como frutos dos acontecimentos próprios das contradições locais e nacionais. a população local. principalmente aqueles que conviveram com os militantes do PCdoB (sem sabê-los) na região do Araguaia resolveu tratá. Primeiro. O PCdoB trata os "guerrilheiros" do Araguaia como se estes não fossem quadros do partido. onde aquele usava da violência de modo convencional e estabelecido por regras (na defesa do capitalismo) era tomado por “bom” e apto para lutar contra o socialismo (o mal). que não tinha reconhecidas as suas regras para a luta e portanto era tomado como aquele que estabelecia o terror . o PCdoB.10 A compreensão dos aspectos que compõem a conjuntura brasileira dos anos 60/70 contribui para situar nesse espaço discursivo o termo "terrorista".

procuramos estabelecer os principais aspectos que contribuíram para a sua formação sócio-econômica. 1979 e Velho. 1992. E. 1988. que viviam ali há algum tempo e que lhes eram semelhantes. 1924 e Moura. em 1964. eles possuíam as características de outros mitos da selva (como o curupira). no quarto capítulo. são obras fundamentais para o entendimento da formação sócio econômica da região. no final da década de 60 até sua eclosão. O corte temporal que pretendemos estabelecer em nosso trabalho está relacionado com o conteúdo dos capítulos. no início deste século. Dessa forma buscamos inserir um corte que vai da ocupação da região. para o primeiro capítulo nos baseamos principalmente nas obras de Carvalho. eram imortais. 1972. a contextualização do Estado autoritário levou-nos ao corte temporal que compreende o seu estabelecimento. porque os militares não conseguiam encontrá-los. Assim. 1987. No primeiro deles. Emmi. até o fim da Guerrilha do Araguaia. principalmente aos anos 60. Mas o "povo da mata" carregou consigo todos os símbolos que o povo da região costumava atribuir àqueles que se destacavam por algum motivo: porque o Exército não conseguia eliminá. O segundo capítulo. . como a invisibilidade. não podiam ser penetrados por balas.los. até o momento em que se estabeleceu a Guerrilha do Araguaia. eles tinham o "corpo fechado". para o povo da região os guerrilheiros eram pessoas comuns.11 pudessem dar outra imagem aos guerrilheiros. as fontes bibliográficas utilizadas nos levaram a seguir o conteúdo estabelecido pelos capítulos. do ponto de vista desse discurso. por fim. que vai da sua preparação. E ainda Laraia e Mata. que pesquisaram os índios Suruí enquanto os militantes do PCdoB se preparavam para a luta armada. porém. trabalhamos com o corte temporal relativo ao período da guerrilha. ao abordarmos a região em que ocorreu a guerrilha. No terceiro capítulo. Por fim. Ianni. Do mesmo modo que estabelecemos os cortes temporais. ao procurar identificar os principais conceitos defendidos pelo PCdoB e sua formação. Ainda Barros. etc. em 1972. sua lógica e a Guerrilha do Araguaia acabou por se caracterizar como mais um episódio da luta pela terra. senão a de "povo". 1910 para compreender o sentido da colonização da região. o discurso do povo da região possui. em 1974. Disperso e lacunar. prende-se. e daí ao seu final.

s/d serviram-nos para o histórico do partido.. 1979. 1981. de uma organização social mais ampla (Amado. dos quais podemos citar o periódico O Movimento. tomando por base o conceito teórico de região. 1992 foi de fundamental importância. tratando-o como uma "singularidade" dentro da "totalidade".nos para uma melho r compreensão dos significados das ações dos militares. 1980. s/d para uma visão geral dos acontecimentos e também como base da versão defendida pelo partido que organizou e implementou a luta armada no Araguaia. Mantega. como base para . utilizamos as obras de Moura.) nos aponta que o fora da linguagem não é o nada mas ainda sentido. O Globo e a Folha de São Paulo. A contextualização do Estado autoritário foi orientada nas obras de Alves. além dos diversos artigos de jornais e revistas.. através da teoria da análise do discurso serviu. 1980 e Portela. Ainda Dória. Mir. o Jornal da Tarde.12 O Partido Comunista do Brasil foi analisado levando-se em consideração a necessidade de evidenciar ao mesmo tempo seu "pensamento" e seu histórico. 1985 foram as principais obras utilizadas para o primeiro objetivo. para a Guerrilha do Araguaia. as revistas Veja. 1989 e Skidmore. 1991 e Reis e Sá. Berardo. Na busca da compreensão dos discursos que se estabeleceram nas narrativas da Guerrilha do Araguaia a obra de Orlandi. 1987 e Silva. procuramos os principais aspectos sócio econômicos do Sudeste do Pará. 1985." (Orlandi. 1982. 1991. os conceitos defendidos pelo Partido Comunista do Brasil. da sua origem à luta armada no Araguaia. Levy. 1979. Fiorin. 1994 e Sirkis. assim como diversos artigos de jornais recolhidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito dos Desaparecidos Políticos e as diversas entrevistas colhidas na região. 1990:9). Isto É .1983 foram úteis na compreensão da luta armada no contexto histórico brasileiro do período em questão e Sader. enquanto Carone . na inserção da militarização do Estado no contexto latino americano. Enfim. Pomar. Manchete e O Cruzeiro. 1985 e PCdoB. 1992:13) Quanto à abordaem conceitual. principalmente para que entendêssemos que "o silêncio (. o PCdoB. 1988. Gorender. abordam especificamente o tema que investigamos e são obras fundamentais para a realização de nosso trabalho.

e ainda há necessidade de se estabelecer a caracterização do Estado autoritário. .13 a compreensão da formação do partido e de sua defesa da luta armada.

tomando por limite de seu avanço ao interior o alto Araguaia e o médio Tocantins. Até o final do século XIX acreditou-se que a floresta apenas margeava o lado paraense do médio Tocantins. O SUDESTE DO PARÁ A ocupação da Amazônia brasileira distinguiu-se por seu aspecto tardio e seu caráter diferenciado das ocupações tanto litorâneas .frutos da decadência da economia açucareira e sua substituição pela pecuária e/ou mineração. avançou para o interior do Brasil em busca de pastos naturais e assim dominou o espaço das economias goiana e maranhense. nos referimos à chegada do "homem branco". É preciso então compreender o desenrolar das relações sócio -econômicas e políticas que se desenvolveram no Norte de Goiás (atual estado do Tocantins) e no Nordeste (principalmente no Oeste maranhense). A pecuária. Não se pode deixar de lembrar que quando tratamos da ocupação do Sudeste do Pará. l924). REGIÃO 2.14 2. Porém os pastos naturais imaginados pelos desbravadores do médio Tocantins somente foram buscados a partir de situações que se lhes foram impostas. aqui entendido por "não- . uma região que já apresentava caráter amazônico. de onde vieram os seus primeiros ocupantes. o que se incompatibilizava com a atividade pecuária.1.com a predominância da monocultura exportadora . sendo secundada por vastos campos de pastos naturais (Carvalho. e esse foi então um dos motivos que concorreram para a ocupação do Sudeste do Pará.quanto do Sul e do Brasil Central . enquanto suporte e substituta da economia açucareira.

uma borracha que. produzia o látex. devemos destacar ainda as questões políticas internas do estado de Goiás (disputas por poderes políticos locais). foi significativo o processo de agitação social que se desenvolveu a partir de Boa Vista do Tocantin s (atual Tocantinópolis). assim como a seringueira. e a extração da borracha do caucho. visto que a chegada do "homem branco" nessa região fora há muito precedida pela dos índios dos troncos linguísticos Tupi-Guarani e Jê.o caucho . Goiás e Maranhão.foi a Guerra da Boa Vista. l967 ou Barros. No entanto estas incursões trouxeram o descobrimento de uma árvore . (Velho.o fracasso da tentativa de ocupação para fins agro-pecuários foi imediatamente seguido da organização da atividade comercial gerenciadora do processo de exploração da borracha. este último.cuja seiva. que se acentua na segunda metade do século XIX. Quanto às questões que envolveram os poderes locais do Norte do Goiás. Os pastos naturais. desencadeado por divergências entre religiosos católicos e líderes políticos locias . l972:29). sua comercialização e a . Dentre os fatores que contribuem para uma análise do processo de ocupação do Sudeste do Pará.os primeiros anos do século XX . apesar de sua constatada inferioridade em relação a da seringueira. Nesta época . foi capaz de acelerar o processo de ocupação do médio Tocantins e do Itacaiúnas. nunca foram encontrados (por uma natural inexistência!). o que acabou por acarretar na dispersão de alguns membros deste último grupo. l992). apesar de terem orientado as penetrações no interior da selva amazônica por algum tempo. É da associação dessa questão política do Norte de Goiás e a busca de pastos naturais no lado paraense do médio Tocantins. que se inicia a ocupação branca dessa região intensificando-se com a disputa interestadual pela sua posse.15 índio". de onde se destacam respectivamente os Suruí e os Gavião (Laraia e Da Mata. as questões políticas interestaduais de ocupação do espaço vazio e indefinido entre os estados do Pará. que durou de l892 a l894 -. fator decisivo na ocupação e na criação de traços característicos das relações de poderes locais e que surge ainda como substituto da tentativa inicial da agropecuária.

pois as enchentes dos rios dificultavam a sua extração nos meses chuvosos . indicando a localidade do Burgo a 18 km da confluência dos rios Itacaiúnas e Tocantins. que se caracterizou por uma forma de servidão por dívida. que se dedicavam a manutenção do caucheiro e a aquisição de sua produção por um baixo valor. já não se voltava mais à atividade econômica que lhe dera origem.lhe o progresso esperado e a descoberta do caucho acabou por conduzir o Burgo para o confronto dos rios Itacaiúnas e Tocantins. 1988:23. em 1898. cita Moura 1910:250. a qual conhecemos em algumas regiões do Brasil como “sistema de barracão”. pois colocaria tal cidade muito mais próxima de Itupiranga . Concomitantemente.e o comerciante . sua sazonalidade . localizado a 08 Km abaixo da confluência do Itacaiúnas e o Tocantins 3. a extração da borracha do caucho.16 montagem de um sistema de trabalho característico da sua extração. . Nesse momento. que trouxe como personagens ligadas a essa atividade o caucheiro .deu margem ao 3 Emmi. dando origem à cidade de Marabá (Velho. para onde foi transferido o Burgo. O incentivo que recebera do governo paraense não fora capaz de trazer. Esta demarcação parece-nos pouco provável. Apesar da primazia do caucho na economia marabaense. povoado que surgiu em 1895 em decorrência das disputas de poderes políticos do Norte do Goiás. a ocupação do Sudeste do Pará intensificou-se em direção à nascente do Itacaiúnas – principal rio que conduz à região onde se encontrava a referida árvore – sem que houvesse qualquer preocupação com a posse da terra.financiador do caucheiro e revendedor da borracha. quanto de comerciantes. principalmente maranhenses.do que Marabá. l972:31).o extrator do látex . a agropecuária. tanto de retirantes nordestinos que vinham dedicar-se a essa atividade. o Burgo Agrícola do Itacaiúnas. O processo de extração e comercialização da borracha fez intensificar a imigração ao Sudeste do Pará.cidade que surgiu em decorrência do traslado da borracha e da castanha para Belém . Marabá surge então. como resultado do estabelecimento de uma nova atividade econômica. pois que a extração do caucho consistia na extirpação de sua madeira.

Naquele então. Porém. . Até 1913. referindo-se a região Sudeste do Pará (tratando especificamente da área de Conceição do Araguaia). durante os anos da borracha (até o início da década de 20) nunca fora suficiente para suprir as necessidades básicas da própria região. "pouco se cuidava da legalização da posse. a partir daquela mesma data (1913). a importância que ganhara Marabá rendeu. que. a posse da terra. A economia extrativista da borracha fez desenvolver um grupo dominante baseado no comércio . A decadência da economia caucheira. quanto da exportação da borracha.lhe a independência política. em pequena escala. este. Nas primeiras décadas do desenvolvimento da economia castanheira começou a se efetivar. Porém. uma vez que. apesar das características extrativista e sazonal . atividade que já se revezava.lhe substituindo em importância até que no começo da década de 20 já lhe suplantava.na extração da castanha.como também ocorria com o caucho . como assinalou Otávio Ianni. devido ao caráter predatório da extração do caucho (e sua maior importância concentrada mais na comercialização que na produção). em princípio de forma complementar com a exploração do caucho. a imigração para a região fez surgir. Ainda.17 aparecimento de outras atividades. em função de diversos fatores. a preservação e a limpeza dos castanhais estimularam a sua posse.por demais violentos – marcaram o rearranjo dos poderes locais entre os grupos de comerciantes em 1919. porém. foi. um povoado surgido no início do século XIX e que possuía funções militares de repressão ao contrabando e a fuga de escravos pelo Araguaia/Tocantins. a produção da borracha brasileira entrou em uma situação de crise e decadência da qual não mais saiu. no entanto. pois que a extração da castanha do Pará. a atividade agropecuária. Alguns conflitos locais . Esse grupo dominante não estabeleceu interesse imediato na posse da terra.tanto da sustentação ("aviamento") da extração do caucho. (entre eles a concorrência asiática e em seguida as quedas na exportação decorrentes da Grande Guerra). como a extração da castanha do Pará. que de início utilizada como complemento alimentar do próprio caucheiro e de animais domésticos. desvinculando-a do município de São João do Araguaia. paulatinamente. não significou a decadência do comércio e dos grandes comerciantes de Marabá.

pelo menos até a década de 60 .18 predominava o controle efetivo da terra. No primeiro caso. por meios de instrumentos privados de violência'' (Ianni. Cabe ressaltar que os grandes proprietários de castanhais conviveram durante muito tempo . Essa atividade. licenciada ou não pelo Estado através de demarcações imprecisas ou do alheiamento dos conflitos que ocorriam. na morte do endividado. foram objeto da cobiça e ocupação. empréstimo). através do endividamento (aviamento.com castanhais públicos. 1978:40). surgiu o garimpo.1988:78) O poder político da oligarquia castanheira cresce à medida que. do transporte e aos poucos. as terras indígenas. em sua grande parte constituem castanhais. as quais. Para se apossar das terras onde se encontram os castanhais. Também Marília Emmi ressalta que ''a fonte da riqueza e do poder desses grupos repousava sobre o monopólio do crédito (aviamento). onde o município possibilitava o trabalho de indivíduos não-proprietários. além do controle da comercialização do produto. inevitavelmente e devido ao processo de imigração que na região se desencadeou. que só trabalhava na .'' (Emmi. o castanheiro. É esta última característica que vai dominar os aspectos sócio-político e econômico do Sudeste do Pará até épocas mais recentes. sobre o controle dos castanhais. que muito facilmente desembocava em fuga e comumente. Ainda nesse sentido. Como essas atividades somente se realizavam durante o verão. das atividades econômicas complementares a da castanha. principalmente o de cristal de rocha e o de diamante. a oligarquia castanheira intensificou as relações de dependência entre o castanheiro (coletor de amêndoas) e o dono do castanhal. através de expedientes políticos que envolvem os governos estaduais e os grupos exportadores de castanha do Pará em Belém. os grandes comerciantes vão também se apossando das terras onde jazem os castanhais. fez surgir uma série de outras atividades econômicas complementares ou não à economia castanheira.

essa será a tendência do desenvolvimento da s relações econômicas e sociais dessa região. o acirramento das relações sociais e políticas entre agricultores e donos de castanhais estarão presentes de forma cada vez mais intensa na história da região.19 extração da castanha durante o inverno . como fizemos acima. do domínio político e intensificando a agressividade nas relações entre essas oligarquias e os novos habitantes do Sudoeste paraense. o Sudeste do Pará conheceu um acelerado processo de ocupação que se direcionou à agricultura e à pecuária. o feijão e o milho). É comum que se relacione o crescimento migratório do Sudeste paraense com a abertura das grandes estradas construídas em decorrência dos projetos integracionistas dos governos militares. através de novas frentes migratórias deu um grande impulso para o desenvolvimento da pecuária e da agricultura (notadamente o arroz. O aumento populacional. por parte da oligarquia castanheira. E estas novas relações podem facilmente ser associadas ao ciclo migratório nordestino e o atrativo que as terras devolutas do Pará representavam. Mas. Nessa abordagem procuramos demonstrar que a partir dos anos 50 o Sudeste do Pará começou a conviver com relações sociais profundamente distintas das que haviam sido desenvolvidas anteriormente .em favor da oligarquia castanheira.pois é nesse período que caem os ouriços da castanha e as cheias dos igarapés facilitam o transporte da produção -. em decorrência do crescimento populacional e da grande quantidade de terras devolutas. Até o final da década de 60. Além dessa atividade complementar. e que o aparecimento das grandes estradas na região (Belém-Brasília. PA-70 e Transamazônica) transformaram . o desenvolvimento da agropecuária. Dado que o transporte fluvial ao longo do Tocantins-Araguaia ainda não possuía grande importância. mesmo de forma resumida. dando início ao descontrole. Por volta do início da década de 50. desenvolveu-se um pouco mais a atividade agropecuária. conseqüentemente. apesar da predominância da castanha na economia regional e. os principais elementos da história da ocupação do Sudeste do Pará sustentam facilmente uma opinião contrária: a partir da década de 50 a região Sudeste do Pará. passava a se dedicar às atividades garimpeiras para complementar sua renda.

no conjunto. a ocupação p recede à rodovia.450 quilômetros.300 quilômetros de extensão. com aproximadamente 2.latifundiários. pode-se dizer que o caráter político de integração nacional que envolveu o projeto de construção dessas grandes estradas é de certa forma falacioso se se apoiar em tais justificativas. e mais uma dezena de outras de razoável extensão. pois que seus objetivos parecem estar mais relacionados com os grandes projetos mineradores. E. Outras vezes. A prospecção de minérios. com cerca de 2. é inegável que a construção da rodovia tende a assinalar uma nova fase na formação ou desenvolvimento das atividades econômicas e políticas em cada área.'' (Ianni. 1979: 90 e 91) . intensificou-se o programa do governo federal de construir rodovias na Amazônia. Otávio Ianni também concorda com o que acima se encontra exposto: ''Desde 1970. colônias. com a ocupação da área.20 significativamente a interação entre os povoados (tornando importante aqueles que se encontravam afastados dos grandes rios) e o escoamento da produção agropecuária e extrativista. empresários. dentre as muitas que passaram a cortar a geografia da regiãoamazônica: Transamazônica. com cerca de l820.''defesa nacional'' ou ''segurança e desenvolvimento'' iniciou-se ou intensificaram-se as construções de várias rodovias de grandes proporções. como continua a haver. mas não representaram mudanças significativas no processo migratório (ou pelo menos em sua tendência crescente) (Velho. com 800. Em muitos casos a rodovia caminha de par-em-par. Em todos os casos. agentes do poder público. domínios. Mas essas rodovias não podem ser tomadas sempre como ''precursoras'' da chegada de posseiros. Manaus-Fronteira da Venezuela. Estas foram as principais. Cuiabá -Santarém. E houve casos. 1972:119) e no tipo de economia que se desenvolvia. bancos e outros indícios da metamorfose de ''terras virgens'' em roças. Por razões de ''segurança interna''. igrejas e seitas. Perimetral Norte.fazendas. depressa ou devagar. grileiros. como o ferro e o manganês é fato no Sudeste do Pará desde o início da década de 60. criações. posses. em que a ocupação e a rodovia encontram na área populações indígenas trabalhando a terra e a vida a seu modo. empresas. as rodovias assinalam uma nova fase para a Amazônia como um todo.

refere-se ao interesse na extração de minérios por parte de empresas multinacionais e a intensificação da ocupação da terra para fins agropecuários.21 A ''nova fase'' que as grandes rodovias trazem consigo. desprezando as relações sócio-políticas e econômicas que se processavam na região . Esta.e que já tendiam ao acirramento dos conflitos decorrentes da ocupação das terras para finalidades agropecuárias . quanto aos pequenos ocupantes das terras devolutas que estavam sob seu controle. os grandes projetos de ''integração nacional'' do estado autoritário. no entanto. o que acabou por descaracterizar o poder político da velha oligarquia castanheira. procurou resistir tanto aos novos grupos econômicos (nacionais e internacionais) que por ali se instalaram.fizeram surgir situações sociais com novos elementos concorrentes. . como assinalamos anteriormente. Na segunda metade da década de 60. no caso do Sudeste do Pará.

O aparelho repressivo do Estado . Aquelas que então encontramos abrangem um vasto leque de motivos que poderiam Ter conduzido o PCdoB à região do Araguaia.22 2.tinha ali presença ínfima e era . O LUGAR DA GUERRILHA Partindo do quadro que acima expomos. Mas por que não outras regiões que porventura possuíssem um quadro de graves conflitos sociais ou geografia favorável à guerra de guerrilhas? O Nordeste e o Pantanal Mato grossense preencheriam muito bem as alternativas sugeridas acima. nem mesmo encontrar indícios de que as respostas dadas até agora a essas perguntas tenham consistência. Não nos foi possível responder com precisão às perguntas relativas à escolha da região. até heranças políticas e obras do acaso. esta última tese defendida pelo próprio PCdoB.2. baixo nível de conflitos sociais e insignificância econômica. A área se caracterizava pelo povoamento recente. que vai desde as questões sociais que por lá se desenvolviam. que em Combate Nas Trevas conclui que a situação social do Sudeste do Pará foi o principal fator na escolha da região. O primeiro autor que destacamos e que investiga a escolha da região pelo PCdoB é Jacob Gorender.uns minguados elementos da Polícia Militar . não resta dúvidas de que esta situação social do Sudeste do Pará concorreu em sua escolha como a região adequada para a implantação de uma guerra de guerrilhas. o que em si excluía boa parte do território brasileiro: "O prolongado período de preparação seria inviável sem a escolha deliberada da área de atuação e do tipo de trabalho com a população. apesar de que muito previamente as teorias adotadas pelo partido já antecipavam que a "guerra popular prolongada" deveria necessariamente se desencadear do campo para a cidade. com os padrões que o modelo chinês da "guerra popular prolongada" previa para a tomada do poder.

decorrente das opiniões contrárias que coexistiam no partido.Partido Comunista Revolucionário.Partido Comunista do Brasil . 1987: 208) 4 Para Wladimir Pomar. dando origem a duas cisões. discutia-se o papel prioritário que deveria ser adotado na escolha da região para desencadear a luta armada: “o terreno” ou “as massas”. que. o PCdoB-AV . Em seguida. mas também se encontravam presentes no VI Congresso do Partido. em 1966. Primeiro.Mais uma vez o relatório de Ângelo Arroio demonstra que essa discussão não foi aprofundada e a realidade demonstrou que o Comitê Central optou pela utilização de "especialistas" na organização da luta armada . segundo Pomar.Ala Vermelha e o PCR . a escolha da região foi precedida de alguns elementos relacionados à visão do partido quanto ao processo revolucionário que contribuíram para que o Sudeste do Pará acabasse por se tornar o palco da guerrilha. 4 A chegada dos guerrilheiros na região ocorreu a partir do ano de 1966. e ainda ressaltando as divergências que caracterizavam as estratégias revolucionárias do PCdoB. dentre os quais. o Osvaldão. de Ângelo Arroio. 5 Ver em anexo "Relatório sobre a luta no Araguaia".o que não significa dizer que todos os militantes do partido que se dirigiram para o Sudeste do Pará com a finalidade de compor os quadros guerrilheiros tivessem formação militar adequada para o que pretendiam empreender.através do relatório de Ângelo Arroio 5 .que nem mesmo toda a direção do PCdoB conseguiu se reunir para debater sobre as diversas opiniões. se confrontavam.23 coisa rotineira a chegada de gente nova na região de fronteira agrícola". se esta deveria ser discutida ou não por todo o partido. Por fim. se a luta armada deveria ser "tarefa de especialistas ou de todo o partido ”. com alguns membros do Comitê Central do partido. Esses aspectos são definidores não somente das de cisões sobre a organização da guerrilha e a sua localização. quanto à "definição do caminho da luta armada". (Gorender. . Para esse aspecto pode-se comprovar posteriormente . permaneceu Osvaldo Orlando da Costa. a prioridade do trabalho militar ou o trabalho político que organizasse os trabalhadores e construísse o partido.

a área prioritária foi deslocada para o norte do Goiás e sul do Maranhão. então. Mas a rápida expansão da frente agrícola. Guerra de Guerrilhas no . À medida que prevaleceu a corrente que dava peso maior ao terreno. a área prioritária localizava-se mais para o centro-oeste de Goiás. de provável zona de refúgio. a Guerrilha do Araguaia. e se as massas eram dispersas e desorganizadas. trazendo consigo massas que iam derrubando as matas para o plantio.24 Quanto ao local que foi escolhido. mesmo tratando especificamente sobre esse assunto." (Pomar." Para esse autor. as comunicações e o transporte para a zona eram extremamente precários (o plano da rodovia Transamazônica só surgiu uns dois anos depois da decisão da Comissão Militar do CC do PCdoB). mais ao Norte: "Inicialmente. 1980: 28) Consideramos importantes para a investigação sobre a luta armada no Brasil. as massas lá existentes eram escassas e dispersas. A área do baixo Araguaia não passava. Estas obras são. o mesmo acontecia com o aparelho militar da repressão. Pomar destaca inicialmente que "no período em que se deu a escolha da região. sem experiência política e com baixo nível de organização. duas obras que. fez com que o Araguaia passasse a constituir o centro mesmo do trabalho de preparação. Ali as matas quase não haviam sido tocadas e existia um imenso fundo selvagem que ia bem além do Xingu. isso caracteriza a prioridade atribuída ao terreno como fator decisório na escolha da região da guerrilha. atraindo novas vias de comunicação para o escoamento das safras e fazendo surgir outros fatores que influíam sobre a própria segurança do dispositivo que estava sendo montado. Pomar destaca ainda que a prioridade atribuída ao fator "terreno" trasladou uma tendência inicial de organização da guerrilha do Centro-Oeste para a região do Araguaia-Tocantins. não especulam quais as razões que dirigiram os comunistas do PCdoB para a região do Araguaia. e em especial. procurando compatibilizar as diferentes opiniões e divergências em torno do papel preponderante do terreno ou das massas.

ao seu turno. que defendia a idéia do "foco" guerrilheiro. E o primeiro comunista a pensar em luta armada nessa região do Brasil foi o coronel comunista Jefferson Cardim.25 Brasil. obra que trata quase que especificamente das incursões da ALN . estão fundamentadas nas razões políticas da resistência ao Estado autoritário. Os comunistas do PCdoB empreenderam a guerrilha no Araguaia sem qualquer tipo de ajuda ou associação com outras correntes políticas que defendessem a luta armada. No relato do advogado Washington Mastrocinque Martins. em 65.Ação Libertadora Nacional contra o Estado autoritário. iniciado em 46. tornavam-na inconciliavelmente oposta aos projetos revolucionários do PCdoB." (Mir. o "modelo" revolucionário chinês da "guerra popular prolongada". Luis Mir. mais uma vez se . A decisão do Partido. de Fernando Portela e A Guerrilha do Araguaia de Palmério Dória e outros autores. baseado em entrevistas com ex-integrantes dessa organização uma tendência pela utilização da região do Araguaia como área para desencadear a guerrilha desde a constituição do Estado autoritário: "O PCdoB herdou o Bico do Papagaio da ALN como zona estratégica e localização ideal para a instalação de um exército guerrilheiro fixo (70). as quais provavelmente subsidiaram o próprio Comitê Central do PCdoB à supressão de discussões internas sobre o local. os seus vínculos e defesa do "modelo" revolucionário cubano. para estes autores. O Bico do Papagaio da ALN foi uma herança do trabalho político do PCB nessa zona. o envolvimento das “massas” ou a ação de “especialistas” no processo da guerra de guerrilhas. No caso da ALN.integrante da ALN sob a patente e o nome de comandante Raúl Sotelo Soto Mayor. a herança referida por Mir não passa de uma coincidência de intenções para iniciar a guerrilha no mesmo local. em A Revolução Impossível. encontra. que defendia. ex. 1994: 697) Na verdade.

Araguaia e uns poucos sítios no Pará. nem que. Tudo o que Marighella tinha montado. Os cubanos não tinham a dimensão do que era a região. como era complicado andar a pé. quanto à escolha do local para desencadear a guerrilha. . publicado em 1979 pela editora Alfa -Omega e publicado sem data pela editora Bandeira Vermelha em Protugal. inclusive fazendas de apoio. O Araguaia era o ponto central do projeto guerrilheiro. por exemplo. Os documentos que podem dar uma oficialidade da versão do partido destinam-se ao esclarecimento de que se tratou de “uma reação de camponeses contra a repressão do Estado 6 A principal r eferência bibliográfica que evidencia a versão do PCdoB é o "Diário da guerrilha do Araguaia". pela espessura da mata. (Mir. Perderam-se terras no Vale do São Francisco. Não sabiam. Goiás. 1994: 698 e 699) Devemos observar que tal coincidência deve considerar alguns aspectos que de algum modo propiciavam ou faziam parecer propício o desenvolvimento de ações guerrilheiras na região do Araguaia. 6 O PCdoB em várias ocasiões referiu-se à Guerrilha do Araguaia sem esclarecer os motivos que levaram o partido a decidir pela região Sudeste do Pará. A idéia era implantar unidades móveis do Araguaia até o sertão de Minas Gerais". No entanto. radicalmente diferente dos modos de pensar a que acima nos referimos é a versão do próprio partido. que exportava arroz. sem que se tenha constatado quaisquer vínculos entre os projetos guerrilheiros das diferentes correntes políticas: "Os pais da guerrilha rural da ALN foram Marighella e Farid Helou. Precisávamos de recursos e apoios em todos os pontos possíveis. era impossível andar a cavalo. em certas zonas. morreu com ele.26 pode notar a coincidência. o PCdoB. o que vem em favor do questionamento que fazemos sobre a decisão do Partido de tomar por local da guerrilha o Sudeste do Pará. A ALN estava trabalhando e tinha uma empresa em Marabá.

Em toda a obra predomina esta visão. de acordo com a visão deste partido. a preparação da guerrilha passou a se incompatibilizar com tais falas. A região do Araguaia-Tocantins por algum (ou vários) motivo agradou mais que outras ao PCdoB para dar início à luta armada para a derrubada da "ditadura".a referida obra não esclarece muito. encontramos uma obra assinada pelo PCdoB que elenca e organiza os acontecimentos relacionados com a guerrilha. a obra conclui que "nos fins de 1967 começam a chegar a essa região aqueles que. obra que para fins de estudo será por nós tomada como a versão "oficial" do Partido Comunista do Brasil sobre a Guerrilha do Araguaia. fatalmente o local onde esta deveria ser desencadeada foi um assunto especulado por seus dirigentes. as primeiras observações sobre a região indicam que se tratava de frente agrícola em expansão. Depois. No que nos interessa por este momento . Além dos documentos divulgados através do jornal do Partido. inviabilizando o entendimento de que fora uma atitude deliberada do próprio Partido.qual foi o critério utilizado para a escolha da região onde se organizou a guerrilha e porque o Sudeste do Pará . Trata-se de A resistência armada do Araguaia. mais tarde. no entanto. Partindo desta observação. como se tornou uma presença constante na versão do partido a idéia de que tratou-se apenas da reação de camponeses contra o Estado autoritário. principalmente da região Nordeste do Brasil. o que descaracteriza qualquer preparação anterior ou escolha de uma região onde desencadear um movimento armado. s/d: 11) e que chegam espontaneamente. tornam-se destacados combatentes da guerrilha" (PCdoB. sem que esta ação tenha sido premeditada pelo partido. que desde 1966 evocavam o caminho da luta armada levantavam a necessidade de "organizar" a luta contra o Estado autoritário. . temos apenas que observar que na medida em que os documentos do partido. Sem uma resposta precisa. que nos últimos trinta anos recebeu imigrantes.27 autoritário”.

em qualquer momento significa conviver com a ação ditatorial do Estado dirigido pelos militares desde o golpe desfechado contra o governo de João Goulart e o novo modelo populista até o momento presente e as permanências autoritárias nas instituições do Estado brasileiro. que veio a ser caracterizado por "milagre econômico". foram nos anos do governo Médici que o regime.1. encontrou o seu ápice. mas não exclusivamente por um militar. o Estado era conduzido por militares . A primeira metade dos anos 70 teve o Estado brasileiro administrado pelo presidente e general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). OS ANOS 70 É Possível afirmar que a década de 70 no Brasil começou em 1964.militar de 1964 e as suas mais diversas conseqüências. que dava continuidade aos governos militares que no Brasil diferiam de certo modo da personalidade conferida a certas ditaduras da América Latina no mesmo período. O PAÍS 3. os primeiros anos da década de 70 estão diretamente relacionadas com o golpe civil. Acerca dos mais diversos aspectos que pretendemos abordar aqui. . Em todo caso.28 3. implantado em 1964. mas também nunca estancada) e o terror estabelecido pela imposição da ideologia da “segurança nacional" compunham o quadro político que se completava com os altos índices alcançados pela economia. Por aqui. Conhecer essa década. A censura (agora institucionalizada e prévia). a repressão (nunca admitida pelo Estado.principalmente o exército -.

" (Alves. decretado a 13 de dezembro de 1968. pelo menos um país que não mais possuía as características do "terceiro mundo". O AI-5 (Ato Institucional nº. Enfim. Junto a isso. a incentivar o referido golpe. para os setores que buscavam transformações radicais na sociedade brasileira. Apesar do termo "revolução" ter sido adotado pelos militares para definir o movimento golpista. aos que preconizavam reformas ou mudanças sem violência. o AI-5 representou sua . quando foram questionados o modelo político populista e sua economia caracterizada pela "substituição de importações". do Brasil e do mundo inteiro. em 1968. "Brasil Grande". 5). que vinham sendo ameaçados .segundo os protagonistas do golpe – pelo "perigo comunista". o Estado autoritário implantado em 64 representou o fim de suas possibilidades de ação mais "livre". O governo Médici representou a consolidação dos objetivos idealizados pelos golpistas de l964. e junto com ela o governo norte-americano. Os partidos políticos criados pelo decreto que instituiu o bipartidarismo após a instalação do Estado autoritário. eram slogans que procuravam desenhar a fisionomia primeiro mundista do país. é necessário que se diga que o mesmo teve um caráter predominantemente nacional-reformista. por outro lado. sob o signo da Guerra Fria explica os motivos que levaram a burguesia. que o medo e a censura impunham. como a dos compositores Dom e Ravel em "Eu te amo meu Brasil". a repressão militar e as intervenções nos sindicatos conseguiram desmobilizar o movimento sind ical que ainda resistia entre 64 e 68. sofreram pesadas perdas. Se. o partido que apoiava o governo. compunha o quadro social com a propaganda nacionalista que enquadrava o Brasil. O movimento estudantil entrou em declínio a partir da prisão de 800 líderes estudantis ocorrida num congresso secreto na cidade paulista de Ibiúna. senão como aspirante a "Grande Nação". que buscavam superar a crise política e econômica estabelecida nos meados dos anos 60. "Grande Potência". em defesa da "moral". o partido da oposição. a perseguição ao comunismo. da "família" e dos demais aspectos de nossa "democracia". irá marcar "o fim da primeira fase de institucionalização do Estado de Segurança Nacional.29 O silêncio. encontravam o mais amplo espaço para compor a retórica ufânica do Estado na década de 70. 1989: 141). as declarações de amor. tendo o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). sofrido mais expurgos que a ARENA (Aliança Renovadora Nacional).

40 atos complementares e 20 decreto-leis. objetivava concluir os expurgos na burocracia do Estado e nos cargos eleitorais. Para Maria Helena Moreira Alves. "o AI-5 introduziu um terceiro ciclo de repressão." (Alves. assim como para a participação política em geral. concentrara-se no expurgo de pessoas politicamente ligadas a anteriores governos populistas.30 desarticulação total. Quanto a esta. o Executivo promulgou 13 atos institucionais. não incluiu o emprego direto e generalizado da violência. Isso parece se explicar de certo modo. ordenados. 1989: 141). para universidades e outras instituições educativas.. (Alves. Destinavam especificamente a institucionalizar o controle de instituições da sociedade civil. Ao fim de 1969. Enfim. esclarecer sobre as relações entre os decretos repressivos e a política econômica adotada após a implantação do Estado autoritário em 1964: "O Congresso Nacional permaneceu fechado de dezembro do 1968 a 30 de outubro de 1969.. o texto mais importante foi a Lei de Segurança Nacional. com o estabelecimento da censura prévia direta. o controle do Executivo manteve-se firmemente nas mãos dos grupos que privilegiavam a Segurança Interna. após a promulgação do Ato Institucional n. 1988). estava solidamente estabelecido o quadro geral para os anos do 'milagre econômico'". O período de recesso do Congresso foi plenamente utilizado para a publicação de decretos-leis de regulamentação da economia e a criação de um completo sistema de incentivos fiscais que facilitasse a implantação do modelo de desenvolvimento econômico. para quem havia uma certa preocupação nos primeiros governos militares anteriores ao AI-5 . sendo também fechadas sete assembléias estaduais e municipais.) O segundo ciclo (1965-1966). os membros do Aparelho Repressivo. Maria Helena Moreira Alves apresenta uma seqüência de dados numéricos que procuram. Neste período. 1989:142) . (. em 1964. Criaram-se controles específicos para a imprensa. isto é. como assinala Thomas Skidmore. especialmente o de Goulart.em manter uma aparência de legalidade que legitimasse seus autoritarismos via legislativo (Skidmore. Durante o recesso forçado do Congresso. O primeiro ciclo.2.

2.67). enquanto democracia está relacionada ao nível jurídico político da superestrutura. o de democracia é ditadura. seus discursos apontavam para o “perigo” que representava o comunismo e sua ameaça para a sociedade brasileira.0% em 1973. para seus realizadores. a ampliação das atribuições dos bancos do Estado e a ampliação dos grandes grupos estatais (como a Petrobrás. a Siderbrás. mas nesse momento os números apresentados pela propaganda do Estado pareciam justificar todas as exceções cometidas.2% em 1968. O “MILAGRE ECONÔMICO” De um modo geral.7% em 1972 e 14. contribuindo para a “construção” do clima de “milagre” atribuído à economia. o discurso dos governos militares se fundamentavam na luta da "democracia contra o comunismo". 7 Mas. chegara a 11.aparentemente. a Eletrobrás.1988: 110). 31/12/80. p. se durante a segunda metade dos anos 60. Eram dados numéricos que indicavam os altos índic es de crescimento que a economia brasileira vinha alcançando. 13. .0% em 1969. Através dos índices anuais do PIB (Produto Interno Bruto) podia-se concluir que a política econômica alcançara exitosamente seu objetivo." (Fiorin. Não é nova a estratégia de utilizar-se isoladamente de números para justificar toda uma prática política – e nem mesmo será essa a última –. era nesse sentido que se encaminhava a lógica da propraganda do Estado autoritário. a 7 José Fiorin assinala que apesar do discurso dos militares no pós-64 apresentar essa narrativa onde se opõe "democracia" a "comunismo". 8. admitidas ou não. no início dos anos 70 tornou-se possível apresentar de fato os benefícios que a opção pela "democracia" representavam . O promotor desse "milagroso" crescimento econômico. 10.31 3. (fonte: Isto É.8%. com o aperfeiçoamento do sistema fiscal. fora a opção pela ampliação e diversificação da atuação econômica do governo. tal discurso é falacioso pois que esses lexemas "não revelam nenhuma semelhança que possa servir de base para essa oposição. 11.3% em 1971. no ano de 1967 fora de 4. O antônimo de comunismo é capitalismo. O crescimento do PIB que. uma vez que "comunismo" corresponde à infra estrutura econômica.8% em 1970.

Os subsídios e os incentivos fiscais. os governos militares dissolveram a capacidade de resistência dos trabalhadores e acabaram com a estabilidade no emprego.32 Telebrás e a Nuclebrás . Por fim. A concentração de renda foi uma conseqüência lógica dessa política econômica. os investidores nacionais e estrangeiros não encontrariam riscos para a aplicação de seu capital.por ele retido . facilitava também ao Estado no investimento deste fundo . em 1966. ao mesmo tempo em que permitia ao patrão a demissão do trabalhador sem maiores custos. 1991). Ficou muito conhecida a argumentação do ministro da Fazenda Delfin Neto de que em seu projeto econômico era preciso fazer primeiro crescer o "bolo". substituindo-a. na agropecuária de exportação. sendo que o aumento do número de empregos de um modo geral. Por mais que se observasse um aumento no consumo. tanto quanto os grupos nacionais. não representava qualquer distribuição mais eqüinânime da renda ou qualquer aumento substancial dos salários. que construía casas e apartamentos que seriam destinados às camadas médias da sociedade (Alves. Percebe-se claramente que contribuiu de forma decisiva para o "milagre brasileiro" o recrudecimento político imposto a partir do AI-5. As empresas multinacionais passaram a controlar os mais diversos setores da economia brasileira. que vinha mais em forma de empréstimos (facilitados pela Resolução 63 do Banco Central que permitia aos bancos de investimentos contraírem empréstimos do exterior) que de investimentos diretos. tendo sido estas. pois. uma vez silenciadas todas as vozes que pudessem se opor à política salarial do governo (caracterizada pelo arrocho salarial). pelo FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) que. este se restringia aos bens de consumo duráveis que chegavam até as casas das camadas médias da sociedade através da facilitação do crédito. para só então distribuí. também favoreceram para que os empresários nacionais investissem na indústria de transformação e de bens duráveis. 1989:147).em projetos sociais. como o Banco Nacional de Habitações . Em que pese seu trocadilho culinário. os salários . no comércio. beneficiados pela política de contração de salários impostam aos trabalhadores (Skidmore.estas figuravam entre as maiores empresas do país). a presença cada vez mais intensa do capital estrangeiro.BNH.lo (Alves. no mercado financeiro. associados a uma política de compressão salarial. etc. Entre 1964 e 1968. 1989).

que ficaram popularmente conhecidos por "obras faraônicas". sem sombra de dúvidas. Na esteira da propaganda governamental e. o Programa de Integração Nacional. investiu tudo o que pôde na indústria de bens de consumo duráveis . Grandes usinas hidrelétricas.considerada o carro chefe do "milagre econômico" -. os eletro-eletrônicos e a construção civil. de outro as camadas médias e a burgue sia de um modo geral festejavam o "milagre" que só a elas beneficiava. foi também de fundamental importância a propaganda intensa. boa parte dos grandes projetos governamentais. Este foi o caso das construções de grandes rodovias.foi. Para o Estado ditatorial. funcionando como um dos elementos promotores do "milagre" estava a realização de grandes projetos governamentais. fosse através de empresas multinacionais. pelo menos como incentivador e preparador de terreno para grandes indústrias.33 continuaram contidos devido à política de compressão dos mesmos e a omissão dos verdadeiros índices inflacionários (como aconteceu em 1973). Esta última. nem mesmo numericamente para fins de propaganda . prestou-se. No entanto. Para garantir a expansão do consumo desses produtos. viadutos.conseguiu apresentar bons resultados. pois esta .a propaganda . onde se destacaram os automóveis. tanto dos produtos (facilitada pelo salto qualitativo alcançado nos setores de comunicação). A integração nacional. . fosse ligada ao capital estrangeiro ou nacional. necessários para o reajuste dos salários dos trabalhadores. Se por um lado o proletariado ressentia-se dessa política econômica. pontes (como a ponte Rio-Niterói) e gra ndes estradas foram construídas com a utilização do capital estrangeiro. quando não à alocação do capital multinacional. quanto do plano econômico em si. tratava-se de colocar em prática um dos itens estabelecidos pela ideologia da segurança nacional. fosse através de empréstimos contraídos pelo Estado. um dos sustentáculos do plano econômico e da ação política do Estado autoritário nesse período. no momento em que crescia a indústria automobilística e o consumo de automóveis estimulado pela facilitação do crédito. como assinalamos acima. em seu discurso. além da criação de um moderno sistema de crédito ao consumidor.

permitiu que as empresas multinacionais encontrassem no Brasil as maiores facilidades de investimento e retorno do capital aos países de origem. como o Sudeste e o Sul do país e acabaram acarretando novos conflitos devido a ação dos grileiros (especuladores de propriedades rurais) e ao abandono que sofreu a maioria das colônias agrícolas. e depois. onde a maioria dos seus habitantes acabou por retornar para suas regiões de origem. A propaganda sobre os objetivos desse projeto chegou ao cúmulo de registrar na revista Cruzeiro que se tratava de uma estrada totalmente asfaltada. o grande projeto concretizado pelo Estado autoritário no início dos anos 70 e que em termos de ocupação planejada e racional do espaço amazônico. cortada pela rodovia Transamazônica. doentes e sem terras (foi grande o número de colonos que contraíram a malária e outras doenças tropicais nas circunstâncias acima descritas).3 dólares.34 Confirmando o fracasso do Programa de Integração Nacional. de mineração e na exploração de outras matérias-primas com grandes reservas no Brasil foi intensificada no período do "milagre".2 dólares e no Brasil. Ao mesmo tempo em que se intensificava. 2. mostrando uma foto de um pequeno trecho asfaltado para que o presidente Médici descesse em um pequeno avião e inaugurasse a referida rodovia. foi a rodovia Transamazônica. ouvir-se dizer que esta é uma estrada que vai do "nada ao lugar nenhum". A participação do capital estrangeiro no setor agro-pecuário. A legislação favorável à política econômica do Estado autoritário. 1980: 209).Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. a toque de caixa. somente beneficiou o fortalecimento do latifúndio. 3. 9 dólares. os projetos de ocupação do espaço na Amazônia. que no Brasil o custo da mão-de-obra especializada em suas fábricas era vantajoso porque "o custo da hora de trabalho na Alemanha é de 13.(Santos. nos Estados Unidos. É comum até hoje entre os moradores da região. os quais deram origem a inúmeros órgãos institucionais e contaram com a participação de outros órgãos que já existiam. obtinha do Estado o . 1993).2 dólares. Enfim. como o INCRA ." (Berardo. construída paulatinamente até 1968. Em setembro de 1979 o presidente da Volksvagem afirmava. no México. justificando tais facilidades. levaram à criação de várias colônias agrícolas que recebiam agricultores de longínquas regiões – quase sempre onde havia conflitos de terra -. após o AI-5.

existe o já famoso Projeto Jari. espalhadas nos municípios de Cáceres. campo ou em crescimento da produção agropecuária.881.. o quarto grupo mundial da madeira. na fronteira do Pará com o Amapá. a fazenda do Sr. a fazenda Companhia Agropecuária do Pará com mais de 200 mil hectares de terras. três dos maiores grupos mundiais da carne.5 bilhão de dólares. conhecido negociador de terras no Norte do país e Toyomenka. a infra-estrutura básica (a malha rodoviária. descreveu assim a penetração das multinacionais no solo amazônico: "O solo está dominado e dividido. os setores da construção civil tomaram impulso embalados pelos grandes projetos governamentais.053 hectares de terras. É a era dos "impérios amazônicos"! “No Mato Grosso. do grupo paulista Ometo 8 Nota-se porém que isso não representou crescimento no setor agro-pecuário. Nas margens do rio Jari. Pará. em sua carta-defesa enviada ao Conselho de Justiça Militar.. Medem-se terras de avião e planta-se capim de helicóptero. A transamazônica. surgiu mais como fruto dos interesses que giram em .35 aprimoramento. a Companhia Brasil Lond Catle Paking toma conta de 2.. Corumbá. de propriedade de um dos maiores magnatas do mundo. Robin Hollie McCohn. o primeiro guerrilheiro preso no Araguaia.. Há ainda a Com panhia Agropecuária Suiá -Missu S/A. onde os governos militares investiram grandes verbas adquiridas de empréstimos estrangeiros e ao mesmo tempo lotearam esse território entre várias multinacionais que atuavam em diversos setores. José Genoíno Neto. estas últimas com 400 mil hectares cada uma. Nesse mesmo sentido. Em fevereiro de 1975. Três Lagos e Campo Grande. no sentido do grande rio encontram-se a Georgia Pacific Corporation com 500 mil hectares de terras. por exemplo ) necessária para o escoamento de sua produção 8 . “(. montou em Paragominas. o norte-americano Daniel Ludwig cujos investimentos alcançam a escandalosa cifra de 1. “(. nesse sentido.) O consórcio King's Ranch-Swift-Armour.) Logo abaixo do Jari. A região amazônica foi palco de vários desses grandes projetos.

no Mato Grosso. o número de grandes latifúndios naquela região. no Amapá (. “(. "Brasil Grande Potência". localizada no município de Luciara. A Companhia de Desenvolvimento do Araguaia (Codeara). no Mato Grosso.36 (hoje do grupo italiano Liquigás). . tendo à frente os norte-americanos que encontraram na exploração dos minérios a fonte de grandes lucros. com a exploração do manganês. E assim por diante. na área amazônica.) Um projeto semelhante já funciona no Amapá. cujas ações são monopolizadas pela Bethlehem Steel. o nacionalismo da ideologia da segurança nacional espalhava a idéia de que a "ordem" e a "paz" estabelecidas pelos governos militares era algo intrínseco à uma certa "índole" do povo torno dos grandes projetos governamentais. que como fruto da penetração do capital estrangeiro no campo. que tem outros grandes investimentos no Brasil (. estão sob o controle de grupos imperialistas. A Icomi S/A. que possui 678 mil hectares de terras no município de Barra do Garças." (Doria et alli. "Este é um país que vai pra frente".. “Os recursos do subsolo da Amazônia.) Para encobrir sua ação monopolizadora. explora a 14 anos o manganês da serra do Navio. "Brasil Grande".. A propaganda do governo também trilhou outros caminhos. firma ligada à Alcan .Aluminum Company of Canadá. situada nas vizinhanças de Marabá e calculada pelo Departamento Nacional de Pesquisas Minerais em mais de 12 milhões de toneladas de ferro. está nas mãos da United States Steel. esta companhia norte-americana age em associação com a Companhia Vale do Rio Doce.. dizia a ufânica música de Don e Ravel.. "Brasil: ame-o ou deixe-o". como do resto do país. com 196 mil hectares. 1979: 30 e 31)”. vai crescendo de ano para ano. A mina de ferro da serra dos Carajás. é outra que se coloca entre as grandes empresas latifundiárias da Amazônia.) A bauxita é explorada pela Mineração Rio do Norte S/A. sempre procurando demonstrar o esforço técnico do governo federal para transformar o Brasil em "uma nação de primeiro mundo"...

A promessa de um país rico no ano 2000 reforçava-se com a divulgação de que o Brasil alcançara o posto de 8ª potência econômica do mundo. a comemoração das datas cívicas. A resistência organizada transferiu-se para o âmbito das associações de comunidades religio sas de um lado. e de outro na radicalização explosiva que logo foram batizadas de "badernas". mais a essa tal "índole" do povo que ao próprio governo. crianças que disputavam fezes (. as ações oposicionistas aos projetos do Estado autoritário se contrapunham. Concentração de renda. da Academia Nacional de Medicina. de acordo com esse discurso.)" Combinados com a repressão policial. trazendo à tela a "boa vida" que o capitalismo e o "milagre brasileiro" ofereciam. aumento das favelas e de outras condições subumanas de vida para a maio ria dos brasileiros foi o saldo que deixou o "milagre econômico". Em 28 de junho de 1987 o pediatra Yvon Rodrigues. completavam o quadro que as mais atuais técnicas de propaganda faziam uso para compor a face ideal do Estado autoritário. Antes.37 brasileiro. Dessa forma. o alto índice de desemprego. como o tão festejado sesquicentenário da Independência do Brasil e as novelas de televisão. Foram entrevistadas 55 mil famílias. a conquista do tri campeonato mundial de futebol em 1970.. os baixos salários e a luta diária pela sobrevivência. e o resultado foi tão aterrador que se proibiu a divulgação dos resultados. mas que não passava de uma – talvez a única – forma de ação dos que não tinham mais a quem reclamar. irão ser retidos o movimento sindical e a luta dos trabalhadores em organizações políticas. Havia famílias que comiam ratos. migração do campo para a cidade. denunciava em O Globo que: "Em 1974 um órgão do governo gastou 20 milhões de dólares para investigar o que comiam os brasileiros. aumento da pobreza.. ou ainda na resistência da .

encontrou mais aceitação junto às camadas médias . no entanto.38 esquerda comunista que.na pequena parcela dos estudantes universitários .que junto aos operários e camponeses. .

Enfraquecido pelo bipartidarismo e pelas cassações de parlamentares da oposição. nas associações. o Estado autoritário agiu sobre todos os suspeitos de forma tão violenta que passou a reinar um certo medo e desconfiança coletivas. nas famílias. PODER. O Congresso Nacional perdera seu papel legislador.39 3. o "decurso de prazo". O partido da oposição permitida. etc. a prisão perpétua e a pena de morte. que tornava aprovado os projetos governamentais que não fossem votados dentro de um determinado período.qualquer que fosse ele . lhe coube nesse período apenas o papel de homologador das decisões que eram tomadas pelo Executivo. acabou ligando-se às regras estabelecidas para o funcionamento do Parlamento. para os crimes políticos. o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). O Parlamento funcionava por permissão dos governos militares que precisavam esforçar-se cada vez mais para manter um aspecto de democracia sobre o regime autoritário. Sob o AI-5. entre outros.3. onde os parlamentares estavam sujeitos a votar de acordo com a decisão do líder de seu partido. um aluno ou professor poderia ser um agente (policial) disfarçado ou informante da polícia. que obrigava os parlamentares a não . regras impostas pelo Executivo. e a "fidelidade partidária". REPRESSÃO E CENSURA O governo Médici foi o mais autoritário dos governos militares. Em qualquer sala de aula.predominava a mesma desconfiança. pairava acima de qualquer ideologia. o Conselho de Segurança Nacional e a partir de 197l. os decretos que eram divulgavados no Diário Oficial da União apenas em seus números e estabeleciam o banimento. No ambiente de trabalho . Talvez uma das poucas exceções fosse as torcidas de futebol. onde se formava uma coletividade que aparentemente. como o "voto de liderança". por sua atuação dentro dos limites consentidos.

como foi o caso das eleições para governadores em 1974. às vezes com graves conseqüências para os seus proferidores. o lider de seu partido. quando lhes era permitido votar. esta não conseguiu ultrapassar o âmbito do discurso. No quadro abaixo é possível perceber que mesmo a obrigatoriedade do voto imposta aos brasileiros fora suficiente para elevar o percentual de comparecimento dos eleitores. estava sujeita à permissão que o Estado autoritário lhes concedera. Em que pese a ação desse partido ter-se dirigido contra as arbitrariedades cometidas pelo Estado autoritário. Normalmente a insatisfação popular se evidenciava no número bastante significativo de votos nulos. . veio se tornar “área de segurança nacional” depois que foram contidos os guerrilheiros. De um modo geral. haja vista o descrédito que pairava sobre o processo eleitoral e os candidatos.40 contrariarem as opiniões de seu partido – no caso.e as eleições podiam realizar-se ou serem adiadas. Prefeitos eram nomeados no caso das capitais e "áreas de segurança nacional" 9 . 9 A cidade de Marabá. a atuação parlamentar e dos demais cargos eletivos. palco da Guerrilha do Araguaia.

102 6.221 7.355 5.180 8.251 8.104.422 7.59 7 7.254.70 Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (1) O decréscimo do eleitorado de 1958 é resultante do novo alistamento eleitoral.435.246 3.014 2.890.149 5.667.88 8 1.715 2.649 8.586.030.74 8 2.285.21 7 7.74 7 2.459.170 leitorado .475 .604 5.504 1.260.747.481.805 .556 2. determinado pela lei no.460 5.332 8.993.218.00 8 0. 2.543.111 .94 8 2.847 2.810.41 O ELEITORADO E OS VOTANTES % no 945 947 950 954 955 958(1) 960 962 966 970 972 974 976 978 982 otantes .68 9 2.710.48 5 9.46 7 9.29 8 0.678.114 0.354 4.616.12 7 0.387.982.588 Comparecimento 8 3.097.400 4.528.521 4.316.849 .780.243.997 2.454.464 8.06 6 5. .97 7 9.550 de 25/07/1955.455.966.629.989 .

complementar estes dados com a comparação dos votos dos grandes centros urbanos com os votos do interior do país. estes. . cabendo diversas punições àquele que não o exercesse. a pequena queda no percentual de comparecimento do eleitorado às urnas entre os anos 1966 e 1972 faz-se significativa. porém. constantemente manipulados pelas elites dominantes locais e com o número de votos em branco e inválido (nulos) no mesmo período.42 Levando-se em consideração que a faculdade do voto era obrigatória. Deve-se.

4. e os meios de comunicação de um modo geral também diziam existir. o discurso . atentados e conflitos em várias partes do mundo. Era a realidade da violência e da repressão que atingia aqueles que se manifestavam em desacordo com a ideologia da segurança nacional e com a ordem estabelecida. Pode-se perceber ali que a construção dos discursos dos militares se fundamenta na caracterização do "perigo" e da "desordem" que o "populismo/comunismo" oferecia para toda a sociedade e a redenção da "paz" e da "ordem" que a nova realidade. o Brasil marcha em paz. . De início. OS LUGARES DA REPRESSÃO O clima de tranqüilidade que a televisão transmitia através das notícias para tal selecionada. rumo ao desenvolvimento. Médici. parecia confirmar o lema positivista da bandeira nacional. O general presidente Médici atestava e vangloriava-se com a paz que o seu governo promovia: "Sinto-me feliz todas as noites.Discurso e Ideologia . José Fiorin. 1992: 27). apud Habert. agitações. estabelece a relação entre os termos próprios ao discurso "populista/comunista" visto sob a ótica dos golpistas e o discurso do poder estabelecido no pós-64.se fundamenta no confronto entre João Goulart e as Forças Armadas. em O Regime de 64 . fundamentada na ideologia da segurança nacional inaugurava.sempre antitético . É como se eu tomasse um tranqüilizante. após um dia de trabalho”.(pres.43 3. quando ligo a televisão para assistir o jornal. Mas a essa tranqüilidade era contraposta uma realidade que não era conhecida por todos. passando logo em seguida para o confronto comunismo e povo. 22/03/73. Enquanto as notícias dão conta das greves.

O SNI .Serviço Nacional de Informações. dando origem a órgãos como o CIE (Centro de Informações do Exército). estendeu seus braços sobre toda a administração pública .mantendo sucursais nos ministérios -.foram os três aspectos que predominaram no modo de agir dos órgãos instituicionais (ou não) responsáveis pela "manutenção da ordem" e no combate ao "terrorismo desordeiro".às vezes sigilosa e seu castigo . Dessa forma o poder militar. Contra elas. quando ainda se articulava o golpe de Estado desfechado em 1964 os elementos necessários para a construção de um órgão de informação já se encontravam definidos. a população dos grandes centros urbanos e da zona rural em determinadas ocasiões. O general Golbery do Couto e Silva. apresentam-se como o mal necessário para a construção da "felicidade social". A informação tornou-se o principal elemento para a manutenção da "ordem e da segurança nacional". sofria as mais . que esteve profundamente ligado à ESG.quase sempre a violência e a tortura física . das polícias civil e federal. nesse discurso.principalmente contra as manifestações populares (sempre apresentadas. O objetivo contra o qual se voltava tamanha força policial eram as organizações de esquerda. suas ações. Na Escola Superior de Guerra. formando uma teia institucional responsável pelo mapeamento e manutenção de informações que favorecessem à manutenção da “ordem” instaurada pelo Estado autoritário. chegando aos organismos militares e policiais. como fruto da infiltração "populista/comunista" ou da falta de saber e ingenuidade das massas) e a criação de instituições que vigiem e combatam os promotores da "desordem" são justificadas. o uso da força . A informação sobre a conduta do oposicionista. grandes operações militares foram montadas.44 A violência e a repressão. Neste contexto. mobilizando às vezes vários batalhões das mais diversas armas. foi o mentor e instaurador do órgão governamental que centralizou as mais diversas informações sobre a conduta e o paradeiro de quem quer que se opusesse ao Estado autoritário. o Cenimar (Centro de Informação da Marinha) e outros órgãos das polícias militares estaduais. a CISA (Centro de Informação Social da Aeronáutica). sua detenção .

um golp e aplicado nos ouvidos com as duas mãos abertas. eram algumas das formas de espancamento. navalhas e estiletes. A generalização da aplicação da tortura deu-lhe outro significado. desprezando quaisquer informações que pudesse fornecer o torturado. alterações de temperatura e outros meios que retiram. que provocava afundamento de crânio. a "cadeira do dragão". que extrapolou o já absurdo âmbito da obtenção de informações. este.aplicando. Alguns métodos de tortura foram desenvolvidos ou adaptados de métodos já utilizados pelas polícias militares desde a década de 30 no Brasil. com as quais os governos autoritários desbarataram toda e qualquer resistência . a "ge ladeira".quase sempre armada . o uso do "torniquete". correndo ainda o risco de serem tomadas como suspeitas.45 humilhantes investigações. não somente os atingidos às vezes nada tinham a ver com as organizações de esquerda como os objetivos da tortura ultrapassavam o âmbito da extração de informações. uma variante do "sistema inglês". pedaços de madeira. nunca reconhecida pelo Estado. correntes de aço. várias formas de "afogamento". 1979).lo . tratava de humilhá. desmoronando-o psicologicamente. além do "telefone". cordas molhadas. o que fatalmente as levaria aos centros de tortura. submetendo-o a variadas sessões de ruídos intensos.palmatórias.às vezes fazendo-o confessar informações que já eram conhecidas pelos órgãos de informações . torturas químicas. as mais variadas formas de espancamento. o uso do "sistema inglês".lhe os mais cruéis castigos corporais (Fon. velas e cigarros acesos. socos e pontapés. mas ao mesmo tempo procedimento comum nos órgãos de investigações policiais e militares. o pentotal sódico. que empregavam principalmente o amoníaco e o éter.no de qualquer possibilidade de raciocínio lógico.que as organizações de esquerda puderam oferecer. o uso do "soro da verdade". Arrancar os dentes do supliciado. uma cadeira com braços forrada de lâminas . No entanto. A tortura. chicotes. utilizadas como complementos de outras torturas . enquanto outros foram adquiridos de órgãos militares e de inteligência de outros países. tinha como principal objetivo a obtenção de informações. cassetetes de borracha. que consistia em manter o prisioneiro totalmente isolado. A tortura funcionava também como um castigo que.

o papel de recolhimento das informações que compõe o quadro dos agressores e dos agredidos coube a instituições que conseguiram se resguardar das repressões e censuras impostas pelo Estado. ficando ainda em torno de 125 dessas nas listas de "desaparecido". profissionais liberais. também conhecida por "pimentinha". e surgiu a partir dos telefones de campanha do Exército. esposas.46 de metal que conduziam eletricidade pelo corpo do supliciado. mulheres. a CNBB . De um modo geral. a "maquininha de choque". etc. Os números que se referem aos atingidos são muito imprecisos devido as dificuldades que a própria repressão e a censura ofereciam. como a OAB . surgiu pela primeira vez na Alemanha nazista. Nestas instituições. ligados ou não a partidos e tendências de esquerda. entre outras. os parentes dos atingidos e os jornalistas entre outros profissionais que se envolveram de alguma forma na luta contra a tortura. ou "manivela". 1985) Crianças.Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. os parentes dos presos políticos. sendo largamente utilizado nas câmaras de tortura dos órgãos de repressão durante todos os anos dos governos militares. foram capazes de listar cerca de 300 pessoas atingidas. 1979 e Arns. junto à Gestapo.Associação Brasileira de Imprensa. um dos mais difundidos instrumentos de tortura no Brasil. (Fon.Ordem dos Advogados do Brasil. operários. ou "perereca". uma haste onde se pendurava o torturado sobre dois cavaletes. quase todos os que de uma forma ou de outra foram envolvidos e atingidos pelos órgãos de repressão. seus filhos. acabaram sofrendo tortur as físicas. . a ABI . uma denominação que passou a ser usada como sinônimo de "morto pelos órgãos de segurança do Estado". homens. o "'pau de arara". estudantes.

Fontes: Arns. 17 .encarte n. 1985.47 OS NÚMEROS DOS DESAPARECIDOS Ano 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 * Total Desaparecidos 12 01 02 01 11 19 31 44 61 50 31 12 07 03 04 07 09 07 12 324 * Desaparecidos sem data precisa. 1979 e Retratro do Brasil. Fon.

. a censura caracterizou-se em princípio por defender a moral e o pudor cristãos. Alguns artistas. Além da proibição das mais variadas formas de ação que por ventura podessem vir contra o Estado autoritário. livros e revistas. pois que a ideologia da segurança nacional. assim que eram identificados. ou seja. músicas. atribuía.5. jornalistas e outros profissionais liberais que de alguma forma contrapuseram suas opiniões às do Estado. ao tomar todo entendimento contrário ao seu como sendo "comunista".48 3. escritores. a censura era aplicada postumamente à obra ou manifestação contrária ao que defendia o governo. a sociedade viu-se impedida também de falar ofensivamente do poder instituído. Ainda levando em consideração que a ideologia da segurança nacional mobilizava o Estado e a sociedade na luta contra um "inimigo interno e oculto". mas em seguida dirigiu. encontravam dificuldades ou eram excluídos de seus mercados de trabalho.se com vigor às representações políticas. eram combatidas via moral cris tã. publicações e filmes. as quais de certo modo. A censura instalou-se já desde os primeiros momentos dos governos militares. influenciadora e/ou influenciada pelo comunismo. toda atitude de um indivíduo ou grupo que questionasse as verdades estabelecidas pelo Estado (e por essa ideologia) era tomada por conspiradora. sendo que em seus primeiros anos sua atividade visava coibir aquilo que já se manifestara contra a situação definida pelos militares. CENSURA: REPRESSÃO À ALMA Silêncio. Dirigida principalmente às peças teatrais. com todos os "males" que ele representava para a sociedade brasileira.lhe também a pecha de anticristão.

Dessa forma. para o rigor devido ao "perigo comunista" que.que possuía antes. Por mais que a crítica ao que fora censurado não transparecesse aí. ficava explícita uma oposição à própria censura.principalmente . A saída encontrada por alguns jornais contra a ação dos censores foi a de deixar páginas ou espaços em branco. São alguns exemplos das atitudes acima citadas. ampliou suas ações. a ausência de críticas que levantassem dúvidas sobre esses números ou sobre os efeitos negativos que esse crescimento econômico pudesse trazer à sociedade.a eficiência do trabalho dos censores encontrava-se na preparação através dos cursos promovidos pela própria DCDP ou pelo Conselho Superior de Censura. na maioria das vezes. principal característica da atividade censória na década de 70. para a DCDP escondia-se nas obras culturais dos autores resistentes à ideologia da segurança nacional. com receitas de doces e salgados e o jornal O Estado de São Paulo . que ocupava espaços censurados com trechos do poema épico "Os Lusíadas". de Luís de Camões. levou para a sede dos jornais. em perfeita consonância com as decisõe s tomadas pelo órgão censor do Departamento de Polícia Federal. ou preenchê . Opinião. A censura prévia. o Estado conseguiu unir à propaganda que em seu favor apresentava os números do crescimento econômico conseguido pelos governos militares. a revista Veja. saindo do caráter moralista .isso é perceptível nas formas de arquivamento elaboradas ao longo da existência deste órgão . A perseguição política a jornais como O Pasquim. do Departamento de Polícia Federal. A DCDP . um órgão do Ministério da Justiça que agia como um tribunal de última instância. A ostensividade censória foi mais rigorosa ainda com a chamada "imprensa alternat iva". o Jornal da Tarde. a censura ganhou novas feições e passou a se impor ao que ainda iria se dirigir ao público. com o recrudescimento da repressão política. Movimento.Divisão de Censura e Diversões Públicas.49 A partir de 1968. que em algumas ocasiões publicou o logotipo da Editora Abril em páginas inteiras para substituir notícias. Apesar do pouco rigor destinado à ordenação e preservação dos documentos que chegaram à DCDP . e chegou até a retirada de . por várias vezes ultrapassou a barreira do corte de notícias ou entrevistas. Versus e Em Tempo.los com receitas culinárias ou poemas épicos. Era a censura prévia. censores que julgavam sobre o que seria publicado em todos os jornais do país.

Ferreira Goulart. então ministro da educação) procuraram acelerar o processo de privatização do ensino. bem como colaboradores e jornalistas. Os currículos escolares tiveram disciplinas suprimidas ou adaptadas e novos conteúdos foram acrescentados . no campo da música. Deve-se notar que boa parte dos jornais alternativos da década de 70 estavam ligados a partidos ou tendências de oposição. além de dezenas de programas de rádio e televisão. o que serviu para agravar ainda mais a seletividade e o índice de analfabetismo. 1988: 109). a extensão do tempo de escolaridade básica para oito anos e a profissionalização compulsória do 2º grau. podiam ser conseqüências quase naturais para . foram alguns dos atingidos por essa política silenciadora. esteve presente em quase todos os aspectos da vida social brasileira nos anos 70. cientista e professor. no teatro. de repressão e censura. detenções e seqüestros. Gilberto Gil e Chico Buarque. Jarbas Passarinho. na poesia. Várias medidas do Estado (na pessoa do cel. e 500 filmes. Autores como Caetano Veloso.como é o caso das disciplinas de educação moral e cívica para todos os níveis de ensino. a ação censória foi responsável pela proibição da veiculação de cerca de 200 livros. apesar desta situação contribuir para que esses jornais fugissem das garras dos censores. A ação policial. desde 1969 . etc. Glauber Rocha. Tele fones grampeados. José Celso e Augusto Boal.com o objetivo de propagar a ideologia da segurança nacional nas escolas.50 algumas de suas edições das bancas de revistas e a constantes prisões de seus editores. e ainda mais de mil letras musicais (Alves. Professores tiveram suas aulas vigiadas ou foram perseguidos com demissões. devido a clandestinidade necessária para a sobrevivência de tais jornais. 450 peças teatrais. Mas a política de intervenção no ensino não ficou por aí. o que lhes obrigava a publicação e circulação clandestinas. no cinema e Florestan Fernandes. As universidades e de um modo geral as escolas também sofreram os efeitos da censura e da repressão política. ela também restringia seu público a um círculo muito pequeno. prisões. No decorrer dos anos em que se impôs o Estado ditatorial. Porém. arrombamentos e invasões de residências.

É dessa forma que a ação dos censores vai se tornando evidente demais. no caso em que estamos observando. índices superiores aos do rádio.000. do sentido que se contrapõe ao já estabelecido e imposto pelo Estado autoritário. encarte n. quando obteve a substituição definitiva do rádio pela televisão como veículo de informação da preferência da maioria dos brasileiros. em sua primeira metade. Levando-se em consideração que em 1960 esse número era de 760.202. 1992:162). até 1980. mas apenas retirada dela certos elementos que não contribuíam para dar. Logo. marcou um crescimento significativo do uso de aparelhos de tv e conseqüentemente da preferência deste meio de comunicação sobre outros.000 em 1970 e 10. dentre eles os eletro-eletrônicos. a informação em si não precisa ser silenciada totalmente. Desde o início da década de 60 que o aparelho de tv vinha alcançando. É nesse sentido que Eni Pulcinelli Orlandi assinala em As Formas do Silêncio que "o silêncio é a possibilidade do dizer vir a ser outro ”. cada vez mais.(Orlandi. O que importa é acima de tudo quebrar qualquer possibilidade de formulação histórica por parte do sujeito informado (Orlandi. 36% do total de emissoras (em forma de associação) do país. ou proferisse em público algum discurso ou comentário distoante dos padrões da ideologia da segurança nacional. Apoiando-se no Estado autoritário e sobressaindo-se como conseqüência do "milagre econômico" surgiram várias emissoras de tv e dentre elas a Rede Globo que apareceu como uma das emissoras que mais cresceu.931. Mas o "milagre econômico" e sua intensificação da produção de bens de consumo duráveis. 1992). porém.51 quem tivesse em mãos algum livro suspeito. chegando a atingir. Apesar do intenso cerceamento à informação. não objetiva. pode-se notar que a década de 70. 34). para 4.lhe o sentido pretendido pelo Estado. impedir que todos os cidadãos tenham acesso a informações. O .000 em 1975 (fonte Retrato do Brasil.000 em 1965. o Brasil conheceu nesse mesmo período um crescimento razoável no campo das comunicações. mas necessária para a manutenção da imagem que buscava o Estado autoritário.185. 10 A interdição da fala. fez com que o número de aparelhos de tv crescesse de 2. cegar a todos.

ora agindo de forma institucionalizada. ou não foi dito por inteiro. encarte n. a notícia que não foi veiculada. Justificando-se na ideologia da segurança nacional que previa o "colapso social" e o fim das "liberdades" com o advento do comunismo. criou um vácuo e nele um sentido propício para representar a realidade consoante com o pensamento predominante (e imposto) na sociedade. É dessa forma que o presidente Médici encontra todos os elementos necessários para descobrir no Brasil de seu governo uma "ilha de paz" em meio a um mundo conturbado. é o sentido do próprio silêncio.52 silêncio. Assim entendido. mas porque em si adquire um sentido que não mais é o que foi silenciado. a ideologia da segurança nacional. ora sobrepondo-se mesmo às instituições do Estado. . ganha significado não porque deixa transparecer nas entrelinhas ou de outra forma o que deveria ter sido dito. 10 fonte: Retrato do Brasil. Partindo do mesmo ponto poderíamos ainda encontrar várias situações que se furtavam à "realidade" desse período por meio da interdição censória. O que não foi dito. dessa forma. em parte ou integralmente. É o caso das ações armadas das correntes de esquerda. o Estado restringiu as "liberdades" e conduziu a sociedade para uma "ordem" que beneficiava apenas a grupos cada vez mais restritos. salvo quando no confronto com o Estado este saía vencedor. deixou de fazer parte da "realidade" brasileira dos anos 70. 34. Censura e repressão foram dois elementos constitutivos do Estado autoritário nos anos 70 que se destacaram.

pois foi esse partido que deu origem à grande maioria das tendências de esquerda que passaram pelos anos 60 e 70. o PCB e sua visão da sociedade brasileira. conforme o posicionamento que cada autor assume em relação às perspectivas mais gerais sobre os acontecimentos dos anos 60/70.para contextualizar esse período . Identificar alguns elementos. como a concepção acerca do caráter da sociedade brasileira na visão das tendências de esquerda. As questões sobre o porquê das esquerdas terem escolhido este caminho tem encontrado as mais diversas respostas. O PARTIDO 4. Em 1961. sem a preocupação de responder à questão acima apresentada. centraremos esforços para identificar o Partido Comunista Brasileiro. De início.que julgar a validade da opção das esquerdas pelo caminho da luta armada. O percurso que levara a esse extremo não somente se relacionava com a constituição do Estado autoritário. procuraremos identificar alguns elementos constitutivos da esquerda nesse período. Aqui. como também envolveu elementos que estavam ligados ao movimento comunista em nível internacional e aos caminhos trilhados pelos comunistas e o comunismo no Brasil. em 1964. faz-se aqui mais importante .1. as origens dessas tendências e suas ações junto à sociedade brasileira. em função de mais uma tentativa de Luís Carlos Prestes (que comandava o partido desde a década de 20) para trazer à legalidade o então PCdoB.53 4. a esquerda brasileira já se encontrava em sua grande maioria inserida na tentativa de tomada do poder pela via armada. que com . DO PCB AO PcdoB: OS CAMINHOS DA REVOLUÇÃO Quando os anos 70 se iniciaram.

Estes princípios básicos do partido desenhavam a nossa realidade a partir das "Teses sobre a questão nacional e colonial" da III Internacional Comunista em seu Segundo Congresso. mas sim pelo contexto histórico mundial que inaugurava os anos da Guerra Fria.a característica de sucursal do PCUS. não em função do que significava sua sigla . "luminescentes. em 1920. contra o imperialismo e o latifúndio.dizia a tese . tirando de sua sigla . Somente rompendo esses laços . abdicar das principais orientações que lhes serviram de guia desde a sua fundação e que desde 1954 adaptara-se melhor à realidade brasileira através do novo programa aprovado no IV Congresso desse partido e de sua utilização na análise de alguns intelectuais e acadêmicos.em inaugurar um Brasil "verdadeiramente capitalista". essa também considerada uma classe interessada . Mas para vencer o imperialismo e o latifúndio fazia-se necessário uma união estratégica com a "burguesia nacional". inserido em tal classificação. . quando aconteceu o XX Congresso do PCUS. Acontece que o curto período legal foi interrompido. apesar de sua fraca estrutura e atuação junto às massas operárias e camponesas. trazendo à nossa realidade a vontade da elite brasileira de adaptar-se aos procedimentos tomados na política mundial daqui para adiante. 1987:46). contudo. abrindo assim. Por outro lado. possibilidades de obter de volta sua legalidade. a Conferência Nacional do partido resolveu mudar seu nome para PCB (Partido Comunista Brasileiro). burguesa. buscava adaptar-se a essa nova realidade que se impunha sem. (Bottomore. experimentada apenas naqueles dois anos que foram. segundo Jacob Gorender. predominantes na sociedade brasileira.pelo menos era essa a intenção . assinalados pelos êxitos eleitorais" (Gorender.mesmo que tenha sido esta a sua justificativa -.segundo a mesma análise . o PCB. 1988) e que indicava o caráter da revolução nos "países coloniais e atrasados" (Mantega. estes últimos. seguindo as orientações desestalinizantes.54 ela convivera entre os anos 1945 e 1947. deveria passar primeiro por uma revolução nacionalista.poderíamos almejar o socialismo. 1991) onde o Brasil. desde 1956.

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4.2. O BRASIL DOS COMUNISTAS

"O caráter da revolução em sua atual etapa", para o PCB, em seu IV Congresso, realizado entre dezembro de 1954 e janeiro de 1955, deverá ser "democrático de libertação nacional", e realizar-se-á através da união do povo, dos comunistas e da "burguesia brasileira", todos representantes das "forças revolucionárias antifeudais e antiimperialistas" (Carone, 1985). O PCB do IV Congresso, no entanto, e mais profundamente que em suas análises anteriores, evidencia que a "burguesia brasileira" já não é mais a mesma. Ela encontra-se dividida em dois grupos distintos. Um, de capitalistas ligados aos latifundiários e conseqüentemente aos imperialistas, e outro, denominado "burguesia nacional", ligado diretamente aos interesses de desenvolvimento da indústria nacional. Assim, a revo lução democrático-burguesa terá que, com o seu advento, “separar o joio do trigo” e garantir que não sejam "confiscados os capitais e as empresas da burguesia brasileira" para garantir a liberdade de iniciativa industrial e do comércio interno. O desenvolv imento das relações capitalistas de produção significaria "fatalmente" a progressiva aproximação do socialismo para a sociedade brasileira (Carone, 1985). O regime político e o governo pelo qual luta o PCB, levando em consideração a análise que faz da sociedade brasileira, são, respectivamente, o "regime democrático popular", que será "uma ditadura das forças antifeudais e antiimperialistas" e, o governo dos latifundiários e grandes capitalistas será substituído "pelo governo democrático de libertação nacio nal" (Carone, 1985).

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Mesmo tendo aprofundado sua análise sobre a realidade brasileira, em relação aos seus documentos anteriores, e nela identificando nela a presença de uma "burguesia brasileira", parte dela "traidora", outra parte "nacionalista" e "revolucionária", o PCB não abandonou alguns elementos que foram fundamentais para sua caracterização, suas posições e ações políticas. Assim, a presença de uma sociedade notadamente burguesa no Brasil não os impedia de afirmar que predominavam aqui relações semifeudais e semi-escravistas de produção associadas com a "opressão imperialista", notadamente norte-americana. Tal idéia parte do princípio etapista de revolução. Na medida em que não houve no Brasil uma revolução burguesa, por mais que se tenha aqui uma burguesia, não se poderá considerar o Brasil um país onde se observe a predominância do modo de produção capitalista. Seguindo este raciocínio, o advento da revolução proletária deveria ser ainda precedido da ainda não realizada revolução democrático-burgue sa, que somente seria vitoriosa "sob a direção da classe operária e do seu Partido Comunista" (Carone, 1985). Mesmo assim, o combate ao que era semifeudal, representado pelo latifúndio e, semi-colonial, o imperialismo norte-americano, exigia o esforço de unir-se à burguesia nacional e a outros países imperialistas, se fosse necessário. Estas características da sociedade brasileira apresentadas pelo PCB em 1954/55, trazem implicações históricas internas e externas. Internamente o governo Café Filho, empossado em agosto de 1954, "é o representante da minoria reacionária que domina o país", na qual se encontram, além de restos feudais, a facção entreguista da burguesia brasileira associada aos imperialistas. Assim, o governo Vargas (1951/54), que tinha sido veementemente combatido, passa, após o golpe de 1954 e seu suicídio, a ser visto de forma complacente pelo PCB, o que se estenderá mais tarde a outros governos populistas, representantes do "avanço" capitalista no país. Em nível externo, a Terceira Internacio nal de 1943, apesar de sua dissolução, mantém-se como referência importante para a análise da sociedade brasileira feita pelo PCB, sobrevivendo, tal análise, inclusive até o final da década de 70 (Mantega, 1991:167). Nesta análise, segundo o PCdoB, como já evidenciamos, os “países coloniais e semi-coloniais” ainda não passaram pela etapa capitalista de produção, precisando então realizar uma revolução burguesa para então voltar suas forças para o seu objetivo final, a implantação da ditadura do proletariado.

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A análise acima pertence às Teses da Comissão Nacional e Colonial, aprovadas no Segundo Congresso da Terceira Internacional, em 1920, e é fruto do casamento das propostas de Lênin e das ponderações de M. N. Roy, representante da Índia nesse Congresso (Ma ntega, 199l: 159 e 160). Desde a sua fundação, em 1922, o PCB mantém-se filiado ao Comintern (órgão de representação da III Internacional), apresentando essas teses como válidas para a análise da sociedade brasileira. Mantendo-as de forma genérica e superficial, é somente a partir do IV Congresso (1954) que voltará a essas teses para uma análise mais aprofundada e sistemática da sociedade brasileira. Assim, o Brasil será adaptado aos conceitos formulados nas teses (ao invés de formulá-las a partir da realid ade brasileira) e os comunistas terão o duplo esforço de realizar, primeiro a revolução capitalista e, depois de evidenciada as condições necessárias, realizar então a revolução socialista. Na sociedade brasileira, desenhada pelo IV Congresso, a burguesia brasileira está dividida entre os entreguistas e os nacionalistas. Como há uma burguesia no Brasil não pode deixar de haver um proletariado, que por sua vez é entendido como intrinsicamente revolucionário. Além dessas classes sociais são identificados também os latifundiários, que representam os “restos feudais” do país e estão ligados - já que são agro-exportadores - aos grandes imperialistas, especialmente os norte-americanos. As camadas médias da população estão situadas nas cidades e são formadas pelos "artesãos, empregados, pequenos comerciantes e industriais, intelectualidade e funcionalismo público, em processo de pauperização" (Carone, 1985: 127). Por fim, os camponeses, de fundamental importância para o rompimento com os “restos feudais”, são divididos entre "os assalariados agrícolas, os camponeses pobres, os camponeses médios e (...) os camponeses ricos". São todos fundamentais para a revolução, não devendo ser confundidos os últimos, com os latifundiários.

Portanto. conseqüências do XX Congresso do PCUS. . principalmente. no entanto. segundo a análise pecebista. 1985: 127). A complexidade da sociedade brasileira estabelecida pela Declaração de Março. arcaica e em decomposição. de avanços e recuos. como também fundamentou teses para a historiografia. 11 O modelo desenvolvimentista de Kubtscheck (1955/1960). São os anos da autocrítica e "redemocratização" do partido. não nega os fundamentos teóricos remanescentes da Terceira Internacional 11 O suposto feudalismo brasileiro não somente representa uma análise fundamentada pelos partidos de esquerda. a cada dia a burguesia revolucionária ganha forças e espaços para o desenvolvimento do capitalismo nacional.58 Apesar de considerar os grandes latifundiários como “senhores feudais”. como uma análise "dogmática e sectária". Em março de 1958 o PCB traz a público o documento que ficou conhecido como a Declaração de Março. a presença de latifundiários retrógrados no Estado. expressões como “feudalismo japonês” – uma “europeização” da cultura e da história daquele país. a "velha estrutura econômica" é substituída progressivamente por uma nova e mais desenvolvida: "O desenvolvimento capitalista nacional entra em conflito com a exploração imperialista e a estrutura tradic ional. agora reconhecida pelo partido. onde aprofunda a análise acima apresentada. onde Kruchev denunciou os "crimes de Stalin"." (Carone. mas. em livros didáticos. mas é a tendência que abre caminhos e se fortalece. Ainda há nesse momento. a análise feita pelo PCB em seu IV Congresso não apresenta os camponeses como aqueles que vivem em relações servis de produção nestes "latifúndios feudais". representou para os comunistas brasileiros um largo passo no caminho da revolução burguesa. Tal autocrítica busca principalmente aprofundar a análise da sociedade brasileira. Este desenvolvimento se processa através de contradições. É muito comum encontrar. ampliando-se para os mais diversos países que conviveram com o capitalismo europeu na condição de colônia.

o centro tático é a luta das liberdades democráticas. que estaria representando os interesses progressistas do país.59 e suas teses para os países subdesenvolvidos. com o fortalecimento da burguesia nacional e a necessidade de sua inclusão na frente revolucionária com papel de destaque. 12 Como o âmago destas teses preserva ainda a visão que o PCB tem da sociedade brasileira em seu atual estágio. definida já em maio de 1965 em documento do CC. 1" do PCB em São Paulo. É importante notar também que estes são os anos da Guerra Fria e. com atuação preferencialmente dentro da legalidade democrática e constitucional. o reconhecimento de um desenvolvimento capitalista local e baseado na industrialização. resumidamente. no "caminho pacífico" para a realização do socialismo. O caráter etapista da visão de revolução com certeza é o ingrediente principal para a sustentação destas teses. apresenta.estas idéias já estavam 12 Note-se que a adoção das teses da revolução democrático-burguesa não retirou do PCB a perspectiva da luta armada para a tomada do poder . a substituição da luta armada pela via pacífica para o socialismo. só a ação das forças antiditatoriais e do movimento de massas podem derrotar o regime" . Até 1978. "Houve mudança do regime político. de setembro de 1977 assinala que: "A evolução do quadro político nacional. e c. o PCB continua insistindo em uma aliança com a burguesia e. b. confirmou a correção do núcleo da política do partido. O "Comunicado n. em A Economia Política Brasileira. São os acontecimentos relacionados à . o apoio à ala nacionalista do governo Kubitscheck. no entanto. poucas modificações se apresentarão a esta análise. as inovações da Declaração de Março de 1958: a. tais modificações novamente tentam ajustar a sociedade a características previamente estabelecidas e não o contrário.pelo menos até meados da década de 50. Guido Mantega. particularmente nos últimos 4 anos. a partir de então.

Dessa análise decorreu a proposta da convocação de uma Constituinte como saída política para a substituição do regime ditatorial. a completa emancipação nacional. A segunda é a contradição entre as forças produtivas em Guerra Fria e os novos entendimentos com a "burguesia nacional" que levarão o PCB a optar pelo caminho pacífico para a revolução. nacio nal e democrática. estão entre os "capitalistas nacionais" e os "capitalistas estrangeiros" e. A atual etapa da revolução no Brasil continua antiimperialista e antifeudal.60 contidas na resolução de maio de 1965 e foram repetidas pela Resolução Política do VI Congresso e em todos os documentos seguintes do nosso partido. 1981: 27) O que foi colocado acima." (PCB. para o PCB. Disso decorre que a luta pelo socialismo ainda não pode ser direta e imediata. saída esta proposta em 1967. também na Resolução Política do VI Congresso. . antes de tudo ratifica as principais teses estabelecidas pela mesma análise da sociedade brasileira. A primeira é a contradição entre a nação em desenvolvimento e o imperialismo norte-americano e os seus agentes internos. exigindo. O V Congresso do PCB. mas que nos marcos em que se estabeleceu o "tipo" de revolução pretendido pelo partido (democrático-burguesa). O seguinte parágrafo condensa. não representa dizer que o partido abdicou da "revolução" para se dedicar única e exclusivamente ao combate à "ditadura militar". realizado em outubro de 1960. as principais contradições da sociedade brasileira. nas teses do V Congresso a análise que faz o PCB das contradições sociais do Brasil: "Em sua atual etapa histórica. entre os "capitalistas nacionais" e os grandes latifundiários improdutivos e "associados aos imperialistas". Assim. as forças sociais que fossem identificadas como "revolucionárias" precisariam primeiro derrubar o governo autoritário para somente então dar continuidade ao seu projeto de transformação social. a sociedade brasileira deve superar duas contradições fundamentais. como solução radical.

o PCB. que o proletariado desta recém nascida "nação capitalista" teria condições de realizar e dirigir a revolução democrático-burguesa. partindo dessa lógica.nascido no Brasil é que dá. tais condições: "Se o capitalismo. Cabe ressaltar que esse tipo de questionamento somente reforçaria as teses pecebistas. como solução radical. É de se notar. essencialmente. que sob tal estágio de desenvolvimento da nação. que por sua vez almejam também a realização da revolução democrático-burguesa. o desenvolvimento capitalista tem por enquanto caráter objetivamente progressista. . pois. como contradição entre latifundiários e as massas camponesas. entretanto. tendo ela própria participado de tais transformações. atribui aos burgueses a necessidade de se encaixarem nestas últimas classificações e nas características de "aliado" dos proletários e camponeses." (Carone. a principal contradição que elas apresentam está no fato de propor que classes antagônicas realizem um esforço conjunto direcionado ao benefício de somente uma delas. já que esta é a única saída para o seu desenvolvimento e de toda a nação. 1985: 232). em que o caráter revolucionário é burguês. O capitalismo recém. exigindo. no Brasil. Na insistência de ajustar a sociedade às suas teses.61 crescimento e o monopólio da terra. que pode ter classificações que vão de "associada" e "reacionária" a "progressista" e "revolucionária". 1985: 231). o objetivo da "revolução nacional e democrática" visa instaurar "um poder das forças antiimperialistas e antifeudais sob a direção do proletariado". uma reforma agrária de tipo camponês. apesar de subdividir a "burguesia nacional". que se expressa." (Carone. ou. Nas teses do V Congresso. é um sistema em acelerada decadência. segundo o partido. fica difícil crer que a "burguesia revolucionária" confiaria ao proletariado a direção de tal revolução. na arena internacional.

PCdoB. dos chineses) do processo revolucionário socialista. onde será negado o modelo proposto pelo PCB. aproximou-se das teses maoístas do marxismo e passou a negar o "caminho pacífico" para o socialismo. o modelo pecebista. durante todos os anos das décadas de 60 e 70 serviu de palco para o exercício dos interesses que transpareceram nas diversas tendências que dirigiram o movimento socialista (Mir. o Estado autoritário. o antigo nome do partido. que pretendia o envolvimento “das massas”. sendo que esta última ainda possuía um ponto de ligação. O trotskismo da IV Internacional e as idéias da vertente marxista norte-americana. promovido: a) pela associação da grande burguesia nacional aos latifundiários "semifeudais" e aos imperialistas. para os cubanos e a guerrilha como um primeiro passo de um processo que desembocará em uma guerra convencional. implantado em 1964. com a teoria do "caminho pacífico" soviética. que retomou. A América Latina. A mais importante destas dissidências. em vários momentos. encontram abrigo em trabalhos acadêmicos de brasileiros como Caio Prado júnior e Rui Mauro Marini. estas teses. O quadro geral do movimento comunista em nível mundial demonstra porém que mesmo defendendo a luta armada. e b) pela pressa que tiveram os setores médios em realizar reformas que o atual estágio da revolução nacional não tinha condições de absorver. os chineses diferiam dos cubasnos tanto no aspecto estratégico (a guerrilha até a conquista do poder. 1994). serão questionadas. para os cubanos. em determinados aspectos. uma chinesa e uma cubana. Some-se a isso as repercussões da revolução cubana e as dissidências internas do PCB. irá representar em suas análises um recuo no desenvolvimento capitalista do país. fazendo aparecer duas tendências que adotavam o caminho da luta armada. É o que atesta o documento "O golpe de 1964 e seus ensinamentos.62 No decorrer da década de 60 no Brasil. 1980:65) . As concepções da conjuntura a partir da análise pecebista irão desencadear uma sucessão de novas avaliações conseqüentes daquelas primeiras. e a “guerra popular prolongada”. para os maoístas) quanto tático (o “foquismo” como uma ação de especialistas. buscando o caminho da luta armada. da qual faziam parte Paul Baran e Paul Sweezy. apesar de não negar. Por exemplo." (Pomar. pelo menos na íntegra. em 1962.

em 1960. quando já vigorava a acumulação de capital em escala alargada. de modo a comprometer sua visão da situação das classes sociais brasileiras. 1991: 209). da Declaração de Março de 1958 e do V Congresso. impulsionados fundamentalmente pelo desenvolvimento das forças produtivas. as contradições do Modelo Democrático-Burguês no qual o PCB apresenta sua análise da sociedade brasileira. certamente tomados como paradigmas. constituem-se no fato de haver ali uma avaliação previamente estabelecida do estágio de desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais de produção do Brasil. que emergira no quadro de um sistema capitalista mundial em estádio avançado e que. a deturpar os interesses político-econômicos destas e escamotear suas principais contradiç ões e antagonismos. os propósitos defendidos nas teses pecebistas. no entender dessa corrente de pensamento. não se parecia com os casos clássicos de desenvolvimento capitalista. passando. Esta é. Perdia -se. Em função disso. ao invés de criticá-lo e combatê-lo. Dessa forma. a especificidade de um capitalismo atrasado e dependente. Esse equívoco originou-se numa concepção evolucionista da história. principalmente a partir de seu IV Congresso. onde esta foi concebida como uma sucessão quase linear de estádios ou modos de produção. assim." (Mantega. inevitavelmente. cabia implementá-lo. uma vez que deveria tratar-se de uma sociedade feudal ou pré-capitalista. com várias etapas a percorrer. em 1922 (quando ainda se chamava PCdoB). portanto a análise da sociedade brasileira adotada pelo PCB desde a sua fundação. que: "Tidas como fundamentalmente pré-capitalista. um capitalismo plenamente implantado. Guido Mantega ressalta ainda. apoiava -se e reforçava -se o capitalismo. Como no Brasil não houvera ainda. De um modo geral.63 Enfim. o caminho para o socialismo torna-se uma estrada de mão única. mas que fora se elaborando e cada vez mais adaptando-se às peculiaridades sociais. pelo capitalismo em sua forma clássica. por isso. em 1954. indicam que o caráter (a atual .

Certo é que a partir de 1966. pelo menos. A crise interna. Ainda no âmbito da "esquerda" não podemos deixar de assinalar outras tendências que atuaram nos movimentos populares. etc. no entanto tê. para impor as determinações ratificadas nos congressos anteriores no que diz respeito à forma de luta para alcançar o poder . sem. o PCdoB passou a se distinguir do PCB no que se refere à forma de luta para a tomada do poder. sindical. Resta. principalmente.subjugando a esses propósitos ou mesmo expurgando os membros do partido que não compactuavam com essas idéias. No Brasil.ultrapassando as mais radicais modificações que sofreu a sociedade brasileira . dando prioridade a luta armada. na questão colocada pelo XX Congresso do PCUS que denunciava os crimes de Stalin e pretendia engavetar as concepções stalinistas dos partidos politicamente alinhados à URSS. O trotskismo.lo levado à prática. disputando com o PCB (e mais tarde com o PCdoB) o mesmo espaço. haja visto ter permanecido entre os dissidentes a idéia etapista da revolução no Brasil. 1987). objetivamente. que desde meados da década de 50 vem buscando espaços de participação política.são anteriores a Stalin e tudo o que o XX Congresso do PCUS conseguira realizar foi uma encabulada modificação nas orientações desses partidos sem que fosse colocado em cheque seus princípios verdadeiramente burocratizantes (ou stalinistas) (Gorender. portanto. expressa o discurso oposto ao do PCB no que se refere ao caráter da revolução e a forma de alcançar o poder.64 etapa) da revolução brasileira deverá ser nacionalista. as orientações desestalinizantes irão servir.a via legal em detrimento da via armada . Este modelo irá persistir no modelo pecebista pelo menos até 1978 (Mantega. mas.e não será contributivo para o "racha" de 1962 – onde se originou o novo PcdoB –. antiimperialista e democrático-burguês. Outras tendências também radicalizaram em função da crise que constituía a . 1991) . que será a chave para a compreensão do "racha" de 1962 encontra-se. porém lembrar que as bases das concepções ideológicas destes partidos . no que se refere ao caráter da revolução (democrático-burguesa) ambos os partidos continuam a convergir em discurso. antilatifundiário.desde as orientações táticas às funções burocratizantes .

Foi o caso do populismo brisolista a partir de 1963 e das tendências de esquerda ligadas à Igreja católica. ficando restrita aos meios intelectuais e estudantis. Rosa Luxemburgo. Somando-se às denúncias dos crimes de Stalin pelo XX Congresso do PCUS. Partido Socialista Revolucionário. em 1961 o trotskismo ganha novo impulso com uma nova tendência.65 conjuntura nacional naqueles primeiros anos da década de 60. alguns membros da AP irão. s/d: 87). o dogmatismo do PCB e suas teses reformistas. Apesar de sua produção literária esta tendência não conseguiu identificar-se na prática com a luta operária e camponesa. Juventude Universitária Católica e JEC. como foi o caso de suas relações com o POR(T). Partido Operário Revolucionário (Trotskista). do PSB. 1985). Juventude Estudantil Católica.os trotskistas . Em 1953. Ação Popular. formou-se em lugar deste partido o POR(T). composto por jovens intelectuais e estudantes filiados à IV Internacional e orientados pelo argentino J. Brizola aproximou-se da esquerda socialista. onde a JUC e a JEC passaram a não mais servir de instrumentos que se contrapunham à luta de classes.acabou por abrir novas possibilidades de abordagem do marxismo no Brasil quando adotaram para suas análises. (Política Operária é o nome de seu informativo) que se formou a partir de dissidências do PCB.até 1952 estavam organizados em torno do PSR. Partido Socialista Brasileiro e de marxistas independentes (Silva. Diferenciando-se do populismo de Vargas. tomou força no início da década de 60 e contava com o exagerado nacionalismo expresso no governo de Leonel Brizola no Rio Grande do Sul. O brisolismo. Posadas (pseudônimo de Homero Cristali) (Carone. A AP. ligado à IV Internacional. Organização Revolucionária Marxista . Os defensores da "revolução permanente" . no início da . Sua atuação política.Política Operária. sem qualquer inspiração socialista. porém. Formada em 1962 a AP decorre das transformações ocorridas na Igreja Católica. pouco eficaz entre os operários e os camponeses apesar de ser este o sentido de seu discurso . Bukarin. a ORM-POLOP. A princípio inspirada em pensadores católicos que pregavam um "socialismo humanista". tem origem nas JUC. etc.

1984).66 década de 70. aderir ao marxismo-leninismo até fundir-se ao PCdoB em 1973 (Lima e Arantes. .

O VELHO E O NOVO PCdoB "A formação do PCdoB remonta aos debates realizados pelos comunistas brasileiros em meados da década de 50 sobre a estratégia e a tática da revolução brasileira. através de uma Conferência Nacional. nem que seja aderindo a novos sinônimos sobre as suas velhas concepções. A Declaração de Março.. Um grupo de dirigentes. aproveitou o momento para insurgir-se e proc lamar a continuidade do PCdoB.). quando publicaram o Manifesto Programa (. em oposição desde 1957.3.de PCdoB para PCB. Em conseqüência. realizado em 1954. Com bases no Rio de Janeiro. . de fato. este novo partido. já no "Manifesto-Programa" dá demonstrações de que pretende inaugurar uma nova fase no comunismo brasileiro. Resolveriam então. confirmada em 1960 pelo V Congresso do então PCdoB. o Partido Comunista requeria seu registro legal. mudando de estatuto e de nome . Sobre ele procuraremos identificar o que se assemelha ou deixa de se assemelhar em relação ao pensamento pecebista. o Manifesto Programa será o documento mais imporante e definidor das principais características do partido nesse per íodo. Assim os autores de " Imagens da Revolução" resumem o surgimento do PCdoB em 1962.na prática. Até aqui. de 1958. o que há de novo. 1985: 23). promoveria radicais transformações na linha política definida no IV Congresso. São Paulo.67 4. Partido Comunista Brasileiro. é o próprio partido. em fevereiro de 1962. "reorganizar" o PCdoB . Até 1964. Bahia e Pará.. fundaram um novo partido" (Reis Filho e Sá.

seu conteúdo social em relação a sua etapa atual. onde o que estava sendo colocado em questão não era propriamente a condição capitalista da sociedade brasileira. por exemplo. Ainda esse mesmo nacionalismo vai sobreviver por toda a história do PCdoB e responsabilizar-se-á por documentos como "União dos brasileiros para livrar o país . 1985:31). primeiro documento produzido pelo PCdoB. O partido de João Amazonas nesse sentido. "a espoliação que as empresas e os capitais norte-americanos realizam no país" (Manifesto Programa . A tomar pelo caráter nacionalista da revolução que o PCdoB pretende realizar e das aquisições teóricas de Mao Tsé Tung em que o fio condutor da revolução passa mais pelo campesinato que pela classe operária.68 No "Manifesto-Programa". No que diz respeito. é compreensível que o nacionalismo desse partido arrisque alianças que descaracterize a hegemonia proletária na direção revolucionária e chegue a propor – em discurso – alianças que inclusive acene acordos com outros capitais estrangeiros na tentativa de cercar por todos os lados o imperialismo norte-americano. responsáveis pela característica "pré-capitalista" do país.citado por Reis Filho e Sá. "O golpe de 1964 e seus ensinamentos" pode ser citado como um exemplo de documento do PcdoB que assim trata a idéia de revolução no Brasil. Nesse sentido. não acrescenta nada de novo em relação ao partido de Luís Carlos Prestes. na leitura das transformações propostas pelo "governo popular revolucionário" deduz-se facilmente tratar-se de uma revolução de caráter democrático-burguês e nacional. como se pode confirmar em outros documentos. o PCdoB irá centralizar em sua mira o imperialismo norte-americano e contra ele dirigirá todas as acusações de impedimento do desenvolvimento e do progresso do país. encontramos as referências necessárias para caracterizar e contrastar esse novo partido em relação ao PCB. mas. além de exigir a união extraclasses exige também que se identifique "um determinado imperialismo" a se combater. Assim. O imperialismo norte-americano estará unido apenas aos capitais nacionais associados aos EUA e aos latifundiários. não há nenhuma referência direta. ao caráter da revolução. mas. apenas camuflando o termo "nacional-democrático" – utilizado pelos pecebistas – em "democrático-antiimperialista".libertador. combater o imperialismo.

acima de quaisquer pretensões socialistas. como Nelson Levy. nunca participou de qualquer investida armada pela tomada do poder.69 da crise.feudal. o nacionalismo do PCdoB estaria fundamentado nas proposições teóricas de Mao Tsé Tung. ou da década de 20. Já para outros autores. No entanto. de 1966. Não se pode negar que há fundamentos nos dois autores e suas indicações da origem do nacionalismo e das proposições de uma revolução burguesa nos dois partidos comunistas (o PCB e o PCdoB). tanto que as formas de luta e a composição da união nacional são perfeitamente adequadas ao pensamento do comunista chinês.mas que também habitam o pensamento pecebista. indentificando-os como se não tivessem alcançado o estágio capitalista de sociedade. durante todo o período em que vigorou o Estado autoritário inaugurado em 1964. e de ações como a Guerrilha do Araguaia (1972/74) onde o nacionalismo contra a "ditadura e o imperialismo norte-americano" foram condutores da peleja. Tanto na III Internacional quanto em Mao Tsé Tung são visíveis essas características e o contexto histórico deste século é capaz de explicar o por que. onde por um lado o PCB acredita na via pacífica e por outro o PCdoB investe no caminho da luta armada vale lembrar que o PCB. mas não se pode negar que ele próprio participou da formulação das proposições que mais contribuíram para as asseverações dos comunistas . quando das análises da sociedade brasileira a luz das idéias socialistas também fundamentadas nas proposições da III Internacional para os países “atrasados”. Não se trata aqui de buscar uma resposta sobre uma possível adesão de Lênin a tais propostas nacionalistas. até aqui. que as contradições teóricas entre esse partido e o PCB se apresentam quase que apenas nos sinônimos utilizados para designar o caráter da revolução e as classes sociais que nela estão envolvidas e na forma de conquistar o poder. Para alguns dos autores por nós pesquisados. grande parte das concepções teóricas do PCdoB . da ditadura e da ameaça neocolonialista".são aquisições antigas que datam. ou da década de 50. no caso da explicação de Nelson Levy percebemos uma certa salvaguarda das concepções leninistas. Assim analisa Guido Mantega. Vê-se. o que levou a intelectuais comunistas como Nelson Werneck Sodré a caracterizar o Brasil como um país de estágio social semi. das concepções do Cominter.

Quanto às referências teóricas do PCdoB. converge os discursos dos dois partidos comunistas aqui tratados. Mais tarde. e já sem semelhanças com o PCB. Cada um dos dois partidos requisitava para si a característica de partido único (ou verdadeiro) da classe operária. a sua fonte de inspiração para a construção do socialismo.70 brasileiros. no final da década de 70. de um modo geral. O leninismo. e o PCdoB já havia abandonado a via pacífica logo após o "racha". as formulações maoístas do caminho da revolução foram importantes para a formação das análises da sociedade brasileira feitas pelo PCdoB. jogando tudo na busca da sua própria legalidade. optando pelas concepções maoístas que pregavam a luta armada. o que contribuiria para manter o apoio da "burguesia nacional revolucionária". seu objetivo reduziu-se à conquista das liberdades burguesas retraídas pelo Estado autoritário. as conclusões a que chegamos demonstram que a URSS ainda é. distinguindo-se ainda mais de suas primeiras formulações sobre o caráter da revolução e o papel do partido da classe operária. como era ao PCB. por outro lado. nacionalista e a saída da zona rural para o meio urbano. o PCB acreditava que a luta deveria ser travada no campo institucional legal. O ponto onde as divergências entre esses dois partidos mostram-se mais acentuadas é o da forma de luta para alcançar o poder. Há ainda uma contradição que ao invés de diferenciar. apesar da forma de luta pregada pelo PCdoB ainda ser a luta armada. onde poria em prática seus ideais. não se mostrou afeito aos caminhos do nacionalismo e das alianças com a burguesia sem a hegemonia operária. Se por um lado. embora não tivessem. No entanto. . nenhum dos partidos negava a necessidade da união "patriótica" da classe operária com o campesinato e a "burguesia nacional". É a concepção da direção única da classe operária no caminho da revolução socialista.

Para concluir. os trotskistas e os católicos. Enfim. em 1964. mas com outras tendências como os populistas. grandes penetrações no seio do operariado brasileiro.71 ambos. no caso de algumas delas. o que fez prevalecerem as repetidas fragmentações na esquerda brasileira (Gorender. 1987: 79). O motivo que inicialmente promovera tal fracionamento encontra-se na persistência do PCB em manter suas orientações de tomada do poder por via pacífica e eleitoral mesmo após a instauração do Estado autoritário. b) o novo PCdoB adquiriu novas concepções teóricas do marxismo. é inegável que a década de 60 possibilitou aos comunistas brasileiros o contato com vários intérpretes do marxismo em maior número que nas décadas anteriores. podemos destacar duas observações que. A riqueza teórica adquirida neste período é por demais responsável pelos caminhos tomados pela esquerda brasileira a partir daquela década. na primeira metade dos anos 70 as tendências de esquerda se encontravam divididas. chegando a competir não somente entre si. permitiu a persistência de algumas concepções formuladas no PCB que foram contributivas para a análise da sociedade brasileira elaborada pelo PCdoB ou. diferentes dos trilhados pelo PCB. como o maoísmo. com um número muito pequeno de militantes. mais que concluir. ao contrário. as novas concepções o levaram a outros caminhos. não foram suficientes para romper concepções que já estavam cristalizadas no momento do "racha" e que sobreviveram a ele nos dois partidos. . Jacob Gorender assinala ainda que as condições de clandestinidade contribuíram por demais para impedir os canais de contato entre as facções saídas do PCB. apesar de envolver questões teóricas. Quanto ao PCdoB. São elas: a) o "racha" de 1962 do PCdoB. indicam novos caminhos por onde abordar outros aspectos deste partido que podem contribuir para análises sobre como se construiu a visão do partido sobre a Guerrilha do Araguaia. chegando a contar. pouco divulgadas no Brasil antes de 1962. as novas aquisições teóricas do PCdoB. Mesmo que o burocratismo stalinista e o apreço ao socialismo real soviético tenham sobrevivido.

ou externos. com o surgimento de correntes marxistas que davam mais ênfase às formas de luta armada que às condições necessárias para a sua realização. porém. na década de 50. a não ser no que se refere à forma de luta para alcançar o poder. em todo caso. a qual não fora imediatamente rompido pelo Estado autoritário –.que mantiveram basicamente as mesmas apreciações teóricas do partido de onde se originaram. Enquanto o PCB persistia na tese da "via pacífica" para a chegada ao poder e a instauração do "Estado democrático-burguês" – e essa via pacífica se consubstanciava na disputa parlamentar. Quase nunca abandonando o caráter "etapista" da revolução (realizar primeiro a revolução democrático-burguesa para então criar condições de passar ao socialismo) os adeptos da luta armada encontravam justificativas e argumentos internos. Do POR(T) surgiram outras correntes políticas . como o fechamento político promovido pelos militares e a impossibilidade de atuação democrática no parlamento. como os exemplos chineses e notadamente o cubano. ora por meio de ações práticas.72 De um modo geral. quando aquele partido já havia julgado impossível esse caminho para a revolução brasileira. ora não saindo das conjecturas literárias dos vários partidos de inspiração marxista. a luta armada ganhou novos matizes. acrescentando ou não novos elementos que. não se distinguia daquele partido.destacava em sua literatura a necessidade da luta armada. Criar as condições de . primeiro passo na construção do Estado socialista. Além das tentativas de 1935.o ME-1º de maio em 1966 e a OC-1º de maio em 1969 . sob o comando do PCB-ANL (Aliança Nacional Libertadora) liderados por Luís Carlos Prestes. pode-se perceber que a grande maioria dessas tendências – principalmente aquelas originadas diretamente do PCB – manteve os princípios fundamentais da análise da sociedade brasileira no modelo pecebista. A luta armada como forma de conquista do poder nas tendências da esquerda brasileira destacou-se em vários momentos desse período da nossa história. de que somente em armas seriam capases de vencer a sociedade capitalista brasileira.em que pese sua pouca intervensão junto à classe operária . configurada no Estado autoritário. o POR(T) . as tendências saídas daquele partido preconizavam que somente através da luta armada é que se poderia dar passos concretos rumo a ditadura do proletariado. Na década de 60.

surgido das divergências dos comunistas brasileiros em função das críticas ao stalinismo. Mas os significados do maoísmo para as esquerdas brasileiras na década de 60 ultrapassavam as concepções teóricas dessa corrente. porém.o PCdoB irá encontrar o caminho da luta armada como forma de instauração do socialismo. irá encontrar no modelo socialista chinês a principal referência para a luta revolucionária. não lograram êxito.ao contrário. afirmam no documento "União dos brasileiros para livrar o país da crise. exatamente porque não contaram com o respaldo do campesinato. Ainda nesse modelo. para "maoístas" e "guevaristas". Estendia-se para o âmbito da forma de luta revolucionária e da oposição que a China oferecia ao modelo soviético. 1985) . e Sá. partindo desse princípio ." (Reis F. Em junho de 1966." "Os movimentos de renovação social e política que ocorrem em distintos períodos de nossa História. onde existem as melhores condições para desenvolver as lutas do povo brasileiro. em 1962. o campesinato. nem tiveram maior conseqüência. O "maoísmo" foi adotado de forma generalizada e sem levar em consideração alguns de seus princípios. como a "política de massas" e a análise da realidade concreta para formulações teóricas. tendo como classe condutora da revolução. um passo que se deveria dar após o estabelecimento da luta armada para a tomada do poder. principalmente após o XX Congresso do PCUS (1956) e as denúncias dos crimes de Stalin feitas por Kruchev. e sem trair a tese do modelo "democrático-burguês" .73 estabelecimento de um processo revolucionário era. que: "É no campo. o caminho da construção do socialismo. que consideravam a necessidade de encontrar na "situação concreta" e em suas "contradições". É nesse sentido que o PCdoB. e que se propagam nas cidades. da ditadura e da ameaça neocolonialista".

.termo retirado da literatura maoísta -. os comunistas brasileiros enxergaram na realidade brasileira condições para realizar uma revolução de mesmo tipo. Assim se expressava o PCdoB em 1969 no documento "Guerra Popular ." Assim estabelece o documento "União dos brasileiros para livrar o país da crise. a chave para a realização da revolução brasileira: "A luta revoluc ionária em nosso país assumirá a forma de "guerra popular".que possuíam as realidades brasileiras e chinesas. É uma . Essa teoria não tem em conta a situação objetiva. elaborado por aquele partido (citado por Reis Filho e Sá..) A guerra popular é o caminho para a emancipação dos povos oprimidos nas novas condições do mundo. para os partidários do PcdoB.. começou a ser difundida a idéia de que o caminho da luta armada do povo brasileiro seria preconizado pela teoria do "foco".74 Como fora o campesinato o condutor da Revolução Chinesa sob a forma de guerra de guerrilhas.caminho da luta armada no Brasil": "Depois de abril de 1964.segundo suas análises . "Guerra popular prolongada" era . A principal crítica que os adeptos da corrente ma oísta atribuíam aos "guevaristas" era a de que estes eram aventureiros que se propunham realizar tarefas que pertenciam às “massas” sem a participação delas. (. que conduziam à revolução democrático-burguesa.. que partiu do campo para a cidade. dadas as condições semelhantes . principalmente. da ditadura e da ameaça neocolonialista" (1966). (. a forte presença do campo nas relações sociais e econômicas e a condição de "semicolônia" estabelecidas pelas teses do Comintern. 1985: 72 e 73). as forças de classe em presença e o processo polític o em curso.) O cenário principal do choque armado é o interior e que a luta será dura e prolongada.

1980: 103." (citado por Pomar. . situado em regiões pouco acessíveis e com combatentes provindos das cidades. Luís Mir assinala que a importância do Brasil para Cuba se estabeleceria na medida em que um processo revolucionário reduziria a vigilância norte-americana sobre a ilha. Ainda na tentativa de dar prosseguimento ao processo revolucionário na América Latina. Assim como os chineses. Apesar das restrições que colocava o PCB ao modelo cubano de revolução.. 104). dá origem a outra coluna que. a guerrilha se desenvolve harmonicamente. tiveram estreitos contatos com Cuba nos primeiros anos da década de 60. os cubanos incentivaram os grupos pára.1994). ao atingir 120 a 150 homens. Seu método não tem em vista ganhar as massas para que elas mesmas façam sua guerra (. um dos dirigentes pecebista. desde a 1ª metade dos anos 50. Esse núcleo cresce até se transformar numa coluna mestra que. por sua vez. antes de sua investida na Bolívia (Mir. "a partir de um núcleo central único". tem se revelado na prática inteiramente falsa.em que pese a dependência soviética e a defesa de "via pacífica" do PCB. pequeno-burguesa. Segundo os teóricos do "foco". Sua existência e manutenção dependem fundamentalmente dos centros urbanos. Maurício Grabois traduzia e publicava "A Guerra de Guerrilhas". origina mais outra e assim por diante.75 concepção voluntarista. Esta teoria. que eram conhecidos por "grupos dos onze".. Este foi um dos motivos que levaram Che Guevara a planejar a instalação de um "foco" guerrilheiro na região do Brasil Central.). em Pernambuco. em 1961 .militares organizados pelo ex-governador Leonel Brizola. a presença dos cubanos na esquerda brasileira é anterior à instalação do Estado autoritário em 1964. de Che Guevara. no início dos anos 60. lideradas pelo advogado Francisco Julião. As Ligas Camponesas.

a 21 Km de Brejo Grande. do latifúndio e da ditadura militar" no Brasil era finalizada. representava o mito construído ao longo dos oito vivos anos em que vagou por toda a região cercada pelo Araguaia-Tocantins e o Itacaiúnas. Isto lhe retirava o seu caráter imortal e foi motivado por tais atrativos financeiros que Arlindo "Piauí" conseguiu. com uma espingarda. e os conhecimentos militares do ex-oficial do CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva) do Exército Brasileiro. de romper com o domínio do "capital estrangeiro. o Osvaldão. mais que o último guerrilheiro. dentro de um pequeno milharal. QUEM SÃO OS GUERRILHEIROS DO ARAGUAIA Quando Osvaldo Orlando da Costa.1. o Estado autoritário escrevia em claras linhas os limites. a malária. um camponês da região.mesmo sem vida -. A GUERRILHA 5. implementada pelo PCdoB. seu corpo massacrado . grande e forte Osvaldão. Ficou o mito. agora se resumia a dez mil cruzeiros. da ação oposicionista. Era abril de 1974 e a tentativa – aparentemente tardia em relação aos outros movimentos armados do mesmo período -. nas cercanias do povoado de São Domingos do Araguaia. foi avistado por Arlindo "Piauí". Qualquer que fosse ela. A fome. . e os dramas psicológicos causados pelo isolamento na mata era o que dominava a mente do então alegre. como o saci e o curupira. ou o pouco que restara dela. da Fazenda Consolação. Com sua morte.76 5. A permanência intensa e incômoda do Exército para os habitantes da região foi aos poucos se tornando comum. Sua vida. Os anos quentes da guerrilha já se encerraram. não possuía mais o reflexo e a capacidade do guerrilheiro treinado pelo Exército chinês. tão imortal quanto outros míticos habitantes da selva amazônica. destruir o homem. Osvaldão. curtos.

o povo do Araguaia construiu a sua versão fundamentando-se nas peculiaridades do seu modo de ver e nos choques que provocaram os acontecimentos. Para o Estado. 1992) . O PCdoB acreditou. A cada um deles não se pode atribuir um pensamento ou uma versão monolítica.aqui entendido não como o que se coloca nas entrelinhas. Basicamente podem-se distinguir aí os três "atores" que se envolveram nos acontecimentos da Guerrilha do Araguaia: o Estado. Podemos facilmente identificar a narração dos acontecimentos vista sob a ótica do PCdoB.77 Muitos outros fatos e circunstâncias decorreram da Guerrilha do Araguaia. o PCdoB e o povo da região. Primeiro no sentido ideológico. no sentido geográfico. que quase sempre se pautou pelo silêncio . De início. O que levou esses “atores” a contracenarem os acontecimentos da guerrilha foi. não há uma. motivos próprios que se relacionam com a sua posterior versão. necessariamente pela "guerra . pois o inimigo encontrava-se fora dos preceitos ideológicos defendidos pelo Estado.ou outras vezes. tratava-se de um "inimigo externo". que apresenta. uma versão que lhe concede a vitória imediata. não estavam contidas no conceito "nação". o partido que organizou a guerrilha. de outra nação. Tal é o caso do PCdoB. para cada um deles. e seus documentos não deixam dúvidas. mas o proibido de se dizer. tanto a essa versão quanto de outros fatos relacionados com a guerrilha. a negação explícita dos acontecimentos que envolvem a Guerrilha do Araguaia. no Brasil. Também o Estado que silencia convive com discursos de indivíduos que o representam ressaltando a importância militar da Guerrilha do Araguaia. tradicionalmente. porque na medida em que os elementos opositores identificavam-se com ideologias que. mas a própria guerrilha hoje é assunto suficiente para uma longa abordagem histórica. o inimigo representava interesses externos. porém não impossível de se identificar. aparece-nos a versão do Estado. pois aparecerá uma versão dos acontecimentos de acordo com os interesses dos elementos desses grupos que produzem os seus discursos. mas várias "histórias" da guerrilha. para o Estado. que o caminho da revolução socialista deveria passar. ou existe para não ser dito (Orlandi. mas convive com severas críticas. o que não é dito embora exista. Por fim. Depois. difícil.

13 13 As referências bibliográficas identificadas na Introdução desta pesquisa foram as fontes utilizadas na reconstituição dos fatos e na identificação dos militantes do PCdoB que lutaram no Araguaia. que podem juntas compor uma grande história. mas na medida em que. Passaremos então a dar conta dos acontecimentos que se referem à Guerrilha do Araguaia. narrar episódios. Também não exatamente uma só versão. destacando. lhe foi dado participar dos acontecimentos que envolvem a Guerrilha do Araguaia. ou. Ao povo da região pode-se atribuir um complexo de inter esses. podem ser relatados. independentes dos locutores. . mas várias. porém. implantada sob a forma de guerrilha que cresceria naturalmente com apoio que o povo iria lhe conferir. Suas expectativas se traduziram na construção de valores que mais tarde serviram para construir uma versão do povo da região. na medida em que reconhecesse seus interesses ali presentes. mesmo contra sua vontade. não necessariamente no sentido dos objetivos da guerrilha. Os fatos da Guerrilhado Araguaia. ou quais as outras versões que podem ser atribuídas aos fatos. separadas. quando necessário.78 popular prolongada". ou quem construiu a versão e a quem favorece.

desenvolveram-se frentes de expansão que ocuparam e transformaram as relações sociais. A cidade de Marabá. revendedores que corriam os intricados igarapés em barcos levando remédios. Marabá. O lugar para onde foram os guerrilheiros. principalmente no que se refere às questões ligadas à ocupação da terra 14 . uma delegacia e um Tiro de Guerra . fazendo comércio ambulante. São João do Araguaia e Conceição do Araguaia. possuía apenas um hospital público que atendia a toda a região.onde os filhos da região cumpriam os seus deveres para com o serviço militar obrigatório 15 .79 5. a maior delas. os únicos meios de transporte que levavam à cidade eram os aviões e os barcos. temperos e condimentos. Pequenos agricultores predominavam no processo de ocupação das terras devolutas. tratava-se de uma região de difícil acesso. roupas. Numa vasta região (mais de 40 mil quilômetros quadrados) coberta por floresta tropical. onde ainda predominava o trabalho extrativo da castanha do Pará. Contando com cerca de 11 mil habitantes. onde não era estranha a chegada de novos indivíduos e a ação do Estado praticamente não existia. Entrevista com Raimundo Liberalino Maia. chegavam também brasileiros das mais diversas regiões para trabalhar nas mais diversas ocupações que existiam ou que apareciam com as novas feições da sociedade regional. . uma agência postal. PREPARANDO A GUERRILHA No decorrer dos anos 60 a região sudeste do Pará possuía quatro municípios: Itupiranga. duas agências bancárias. Os primeiros são raros e seu 14 15 Ver capítulo "A Região".2. mas também chegavam caixeiros. Se a chegada de nordestinos predominava e dava a tônica do desenvolvimento agrícola na região.

como ficou conhecido devido a sua grande estatura . acrescido da caça e à aproximação dos camponeses que viviam nas redondezas. apresentavam perigosas corredeiras. do qual viviam. nos períodos mais secos do ano. que por ali era conhecido como Cid. Sob a proteção da Serra das Andorinhas. que juntos deram início ao trabalho agrícola. que devem ter influenciado para que o PCdoB decidisse pela eclosão da guerrilha partindo daquele ponto. O primeiro a chegar na região foi Osvaldo Orlando da Costa. Já bastante conhecido na região. Na região desde 1966. Osvaldão. a Oeste e ao Sul de Marabá aparecem. o Zeca.com viagens regulares até Belém . vivendo como garimpeiro e vendedor de peles.quase dois metros . tornando o tráfego fluvial uma tarefa de especialistas. fixou-se em uma pequena propriedade próxima da Serra das Andorinhas. Os barcos são. tendo adquirido tal posse pela quantia de Cr$50. .00. conferindo à região as mais diversas características geográficas. portanto os mais utilizados para a interligação com as outras cidades . Ao se iniciar os anos 70 os militantes do PCdoB passaram a residir em três pontos diferentes da região. tornando-o inacessível para a maioria da população. Junto a Osvaldão estavam no sítio Gameleira o dirigente do PCdoB João Amazônas. Por fim. às margens do rio Gameleira (nome usado para distinguir o "destacamento guerrilheiro" que se formou ali). Mas os igarapés confundem com as suas semelhanças e os rios. a Serra dos Carajás e a Serra das Andorinhas. ou tio Cid e José Humberto Bronca. a selva. os futuros guerrilheiros do Araguaia começaram a chegar na região conta-se que Osvaldão já circulava por ali desde 1966. que ao se iniciar a guerrilha transformaram-se em bases dos "destacamentos" guerrilheiros16 . A distância e as dific uldades de locomoção nessa região sempre facilitaram os laços de solidariedade entre vizinhos que necessitam de grandes esforços para transportar (por via fluvial ou em lombo de burros) a sua produção.passou pelos vilarejos de Itamirim e Araguatins. respectivamente.e com a zona rural. um afluente do rio Araguaia. um emaranhado de rios e igarapés e o anonimato.80 acesso requer grandes somas em dinheiro.

. Arildo Valadão. casada com Wadick Reidnes Pereira Coqueiro. Paulo Roberto Pereira Marques. Pedro Alexandrino de Oliveira. utensílios de pesca e outros artigos num pequeno barco a motor. porém. próximo ao lugarejo de Aruanã. perto do rio Caiano. a pequena fazenda "Caiano" passou a receber novos militantes do PCdoB. Paulo Rodrigues e Daniel exerceram a profissão de comerciantes ambulantes. Gilberto Olímpio Maria. na fronteira do Goiás (hoje Tocantins) com o Pará. João Amazônas e José Humberto Bronca se instalaram no sítio Gameleira outros militantes do PCdoB instalaram-se à margem esquerda do Araguaia. Áurea Elisa Pereira Valadão. procuraram se integrar ao trabalho agrícola como uma primeira fase preparatória da "guerra popular prolongada" que os princípios maoístas estabeleciam. Manuel José Murchis. o Gil. assim como aqueles que foram morar na Gameleira. que. a base guerrilheira da fazenda Caiano. no Mato Grosso. estudante paulista. ex-campeã brasileira de natação. vendendo roupas. até São Félix do Araguaia. um gaúcho de 33 anos e Daniel Ribeiro Calado. Telma Correia. a Lia. começou a chegar o restante do grupo que fazia parte daquele "destacamento" guerrilheiro. cidade paraense pró xima a Aruanã. Paulo Mendes Rodrigues.81 Constituído o primeiro "barracão" do Gameleira. ocupados com as tarefas agrícolas e as tarefas de preparação para o combate guerrilheiro. o Comprido ou Simão. o Cazuza. são os primeiros militantes a chegar no futuro "Destacamento C". Dinaelza Soares Santana Coqueiro. e outros militantes do PCdoB que até 1971 passaram a viver em três barracos no sítio Gameleira. José Genoíno Neto. Miguel Pereira dos Santos. foram seguidos por Ciro Flávio Oliveira Salazan. a Mariadina. Depois de instalada. o "carajá". ex-estudante do Espírito Santo (Berardo: 262) que veio para a região da guerrilha com sua companheira. Foram morar na fazenda Caiano. além de Paulo e Daniel. o Ari. um operário conhecido na região por Doca. logo após terem se casado. Glênio Sá17 . Idalício Soares Aranha Filho. que percorria o Araguaia e seus afluentes desde São Geraldo. 1990. estudante cearense e Suely Yomiko Kanayama. o 16 17 Ver mapa em anexo Ver Sá. o João do B ou Baiano. companheiro de Walquíria Soares Aranha. À mesma época em que Osvaldão. o Amaury. Antes. o Geraldo.

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casal de geólogos Antônio Carlos Monteiro, o Antônio da Dina, e Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina Baiana ou Dina Monteiro. Até o final de 1970, a base guerrilheira da fazenda Caiano completou-se com a chegada de novos militantes: Ângelo Arroio, o Joaquim, dirigente do PCdoB que após a eclosão da guerrilha passou a fazer parte da Comissão Militar; Bergson Gurjão Farias, estudante de química que usava o codinome de Jorge 18 ; João Carlos Haas Sobrinho, o Juca, médico que desde 1967 se encontrava instalado na cidade de Porto Franco, Maranhão, às margens do rio Tocantins, em frente à cidade goiana de Tocantinópolis e que ao montar a única clínica médica da região tornou-se conhecido por sua perícia e pela bondade com que tratava os pacientes, aceitando quaisquer coisas como pagamento de seu trabalho. Em 1970, com a circulação de cartazes de "criminosos políticos" procurados pelo Estado autoritário na região, João Carlos foi obrigado a se retirar, refugiando-se na base da fazenda Caiano. Kléber Lemos da Silva, o Quelé; Maria Lúcia Petit, com seus irmãos Jaime e Lúcio; Rosalino Souza, o Mundico ou Baiano e o bancário Vítor (não conseguimos mais informações sobre este último nome), são também militantes do PCdoB e novos habitantes do Sudeste do Pará, na fazenda Caiano, em treinamento para a instalação da guerrilha. Descendo o rio Araguaia, entre as cidades de Araguatins, no Go iás e Apinajés, no Pará, e próximo de São Domingos, instalou-se o terceiro grupo de militantes do PCdoB, para, a partir daquela futura base guerrilheira, o "Destacamento A", instalar a guerrilha na região. No final do ano de 1967, começaram a chegar os primeiros habitantes do sítio Faveira, o "Destacamento A". Maurício Grabois, conhecido na região como Mário, dirigente do PCdoB e futuro membro da Comissão Militar da guerrilha, após o seu início, deu origem ao sítio Faveira juntamente com Joca, um operário metalúrgico (não conseguimos mais informações) e Elza de Lima Monnerat, D. Maria, como era (e ainda é) conhecida na região. Com um pequeno comércio que não visava à obtenção de lucros e realizava -se basicamente através da troca, aceitando o coco babaçu, cas tanha-do-pará, ovos, milho, mandioca, fumo, arroz, etc. em troca de remédios, sal, café, sabão, querosene e um
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Portela, 1979 é a única fonte que indica a base do Gameleira como residência de Bergson, o que não nos pareceu provável, pois os relatos dos sobreviventes indicam sua base no sítio Caiano ( Ver Sá, 1989 ).

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improvisado atendimento médico, os três primeiros habitantes do sítio Faveira foram criando condições para que chegassem novos militantes do PCdoB na região, visando prepará-los para a guerrilha. André Grabois, filho de Maurício, ficou conhecido na região por José Carlos ou Zé Carlos. Futuro comandante do "Destacamento A" André veio com sua companheira Criméia Alice Schmidt de Almeida, a Alice. Logo depois chegaram Beto, um engenheiro eletrônico (não encontramos mais informações) e Luiz Renê Silveira e Silva, ex-estudante de arquitetura. Até o final de 1970 o sítio Faveira recebeu os militantes que completariam o "Destacamento A": Elenira Rezende de Souza Nazaré, a Fátima, como era conhecida na região; Landim; Nunes (não encontramos mais informações); José (ou Nelson?) Lima Piauhy Dourado, o Piauí; Lúcia Maria de Souza, estudante de medicina, conhecida na região por Sônia e Zezinho Armeiro (não possuímos mais informações). Além dos nomes acima citados encontramos outros, os quais não conseguimos relacionar com suas respectivas bases guerrilheiras. Alguns deles são tratados com informações complementares em várias obras e artigos sobre a Guerrilha do Araguaia ou citados em entrevistas dos habitantes da região, dando assim uma margem de segurança com relação à veracidade dos nomes citados. Em alguns desses casos, tornou-se fácil comprovar a veracidade por tratar-se de sobreviventes. Mas o que costuma prevalecer nas obras sobre a Guerrilha do Araguaia é a indicação de que os guerrilheiros formavam um total de 69 militantes do PCdoB, sendo que nenhuma obra apresentou tal número em suas relações de guerrilheiros. Em nossa investigação, após relacionar alguns nomes com seus respectivos codinomes, tarefa que não nos foi possível realizar por completo, obtivemos um total de 84 nomes. Talvez porque o PCdoB tivesse algum interesse em proteger os verdadeiros nomes dos guerrilheiros, a comparação da obra produzida por este partido com outras dificulta sobremaneira a relação dos nomes (ali representado apenas pelo codinome) com os acontecimentos da guerrilha apresentados em outras obras. Os outros autores que trataram da Guerrilha do Araguaia não apresentaram uma relação completa dos guerrilheiros e nem sempre os tratam pelo nome, utilizando-se do codinome quando as suas investigações forneciam apenas ele.

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O Estado, representado principalmente pelo Exército, jamais apresentou qualquer documento ou declaração que citasse, de alguma forma, o nome de algum guerrilheiro - mesmo no caso de sobreviventes, suas condenações acusavam- nos genericamente de subversão, nunca de terem participado de movimento armado no Sudeste do Pará. Assim, não podemos ter absoluta certeza quanto ao número exato de militantes do PCdoB que combateram no Araguaia, como também dos camponeses da região que aderiram ao movimento. Deste modo, nos 84 nomes que relacionamos podemos estar repetindo o codinome de algum nome que já tenha sido citado. Porém, mesmo sem dados suficientes, pretendemos destacar todos os nomes possíveis que nos trouxe esta investigação. Além daqueles que citamos acima, porque conseguimos relacioná- los com a base guerrilheira a que pertenciam, outros militantes do PCdoB estiveram na r egião do Araguaia com a finalidade de desencadear a "guerra popular prolongada". São eles: Adriano Fonceca Fernandes Filho, funcionário do Superior Tribunal do Trabalho conhecido por Chico na região; Alfredo, um camponês da região; Angelina Gonçalves (não conseguimos mais informações); Antônio "Alfaiate" e Antônio Alfredo de Campos (também sem mais informações); Antônio de Pádua Costa; Antônio Guilherme Ribeiro Ribas, ex-presidente da União Estadual dos Estudante Secundaristas de São Paulo; Antônio Teodoro de Castro; Cilon da Cunha Brun; Custódio Saraiva Neto; Demerval Silva Pereira; Divino Ferreira de Souza; Dower de Moraes Cavalcanti, estudante cearense; Elmo Correa; Francisco Chaves; Hélio Luiz Navarro de Magalhães, conhecido na região por Edinho; Jana Moroni Barroso, a Cristina; João Gualberto; José Maurílio Patrício; José Toledo de Oliveira; Líbero Giancarlo Castiglia; Lourival Paulino, um camponês da região; Luiza Augusta Garlippe; Maria Clélia Correia, Rosa era seu codinome; Nelito; Orlando Momente; Pedro Pomar, dirigente do PCdoB; Rodolfo de Carvalho Frioano; Selina Regina Cordeiro Corrêa; Tobias Pereira Junior; Uiraçu de Assis Batista, conhecido na região por Valdir; Pedro Albuquerque de Oliveira Neto, que, segundo José Genoíno, "tinha estado na guerrilha, também saiu à revelia, com uma mulher, que ficou grávida, e foi preso no Ceará" ( Playboy, maio de 1993: 39); Amaro Lins, que abandonou a guerrilha antes mesmo dela começar mas ficou na região; Zebão (não

nessa fase preparatória era necessário. àqueles mesmos a quem tinham confiado uma tarefa extrema. para os guerrilheiros do Araguaia. morador do sítio Faveira também usava o codinome de Zé Carlos.André Grabois. além das obras de Mao Tse Tung e Euclides da Cunha. conhecê. Isso transparece na visão do partido quando afirmavam que o campesinato não possuía condições necessárias para compreender a profundidade de uma luta que. conhecê-la e viver como um camponês do lugar ser igual -. principalmente no que se refere à sobrevivência na selva. para não chamar a atenção do Estado. guardar segredo sobre seus objetivos. 19 As pessoas entrevistadas na região expressam constantemente a surpresa que fora descobrir que aqueles "camponeses" eram "terroristas procurados". Depois.85 conseguimos mais informações) e Zecarlos. Por isso. Este consistia em um rigoroso condicionamento físico acompanhado de treinamento de táticas guerrilheiras.los para desencadear uma "guerra popular prolongada". Os futuros guerrilheiros acreditavam que a selva seria a grande guardiã da guerrilha e. deveria ser travada pelo proletariado. o campesinato abraçaria a causa guerrilheira por se tratar de uma luta contra o Estado opressor e por ser encabeçada por "camponeses". onde se utilizavam armadilhas próprias da caça na região e armamentos que também se confundiam com as armas diárias dos habitantes da mata. Nesta fase os futuros guerrilheiros utilizaram uma bibliografia que constava os manuais condensados sobre guerra de guerrilhas. portanto. era também fundamental "ser igual" aos seus "vizinhos" camponeses19 . em suas análises. segundo os seus princípios. Ao longo dos anos 1970 e 1971. sob alegação de que. . foi vetado aos militantes do PCdoB. que lhes fornecia em "Os Sertões" informações sobre as táticas guerrilheiras dos soldados de Antônio Conselheiro (Dória. 1979). o PCdoB transferiu para o Sudeste do Pará. Enfim. De certo modo pode-se afirmar que o trabalho político dos militantes do PCdoB na região consistia em "ser igual". quadros militantes com a finalidade de prepará. este último identificado como morador do sítio Gameleira . eram atividades que deveriam ser desempenhadas em paralelo com o treinamento militar. assim como transformar todo esse conhecimento. Adaptar-se à região. em vantagem estratégica. realizar trabalho político de convencimento ou de discussão.la era fundame ntal para a sua sobrevivência.

) Quando a guerrilha começasse é que a gente iria fazer o discurso político. as forças populares terão a seu dispor amplo campo de manobra que lhes permitirá evitar o cerco. Nele é possível assegurar a sobrevivência dos grupos combatentes na difícil fase inicial da guerra popular. caçávamos e andávamos juntos nos rios.) A massa camponesa é uma grande força. trabalhávamos em conjunto.caminho da luta armada..." (Guerra popular . etc. maio de 1993: 37) .. por exemplo. ou seja. meios de transportes difíceis ou inexistentes. ao evidenciar tal tendência justifica de certo modo o desprezo do trabalho político na fase preparatória da guerrilha:" "O interior é o campo propício à guerra popular.. o desenvolvimento de contradições sociais que facilitassem a adesão de novos elementos à luta armada.86 Ao longo da literatura do PCdoB. Tínhamos relações de amizade com os camponeses. sempre predominou uma visão que pode ser denominada "militarista". poupar e acumular forças. as tropas reacionárias atuarão em ambiente adverso: situação geográfica que favorece os combatentes do povo e dificulta a ação das unidades repressoras. 1980:22) José Genoíno Neto reforça a "proibição" imposta ao militante e futuro guerrilheiro quanto à realização do trabalho político junto aos camponeses: . Estas não contam com suficientes efetivos militares para ocupar as vastas áreas rurais.... anterior à guerrilha. (.) a gente nem falava em política com o pessoal da região. (. ausência de fontes de abastecimento para forças regulares numerosas. in Pomar. Aí existe uma população que vive no abandono. caminho da luta armada no Brasil". O documento " Guerra popular. falávamos das coisas da roça. Só isso.. sempre houve prioridade nos aspectos geográficos que favorecessem o desenvolvimento de uma ação armada sobre os aspectos políticos.. (.) Nestas regiões. Isso era proibido.) O interior é o elo mais débil da dominação das forças reacionárias no país.. (."(. condições sociais desfavoráveis. como." ( Playboy. No interior. de 1969.

Conhecê-la. antas. a surucucu venenosíssima que alcança 2. se atinge uma pessoa. a jararacuçu em alguns brejos e capoeiras. Mesmo aqueles que a conhecem bastante sucede desorientar-se e custar a encontrar a saída. a sucuri que chega a 10 metros. veados. tem seus segredos e suas leis que podem ser conhecidos e dominados.87 Portanto. s/d: 26) . No seu inter ior há roças e barracos. geralmente. secas ou com pouca água na época em que não chove. araras. a cipó que se confunde com a vegetação. Estreita e. pesados. Parecidas umas com as outras. gralhas. corujas. não é problema tão simples. Quem entra na mata está arriscado a perder-se. capivaras. Morcegos (vampiros). durante a safra. transbordantes no período das chuvas. A selva é quase toda igual. e em auxílio à formação militar. castanhais. caititus. porém. O caminho é a picada. despencando ao sopro mais forte do vento. acima do trabalho político estava o interesse pela adaptação e conhecimento da região. Nos castanhais. às vezes uma. difícil até de encontrar. macacos. porém." (PCdoB. tornando-os iguais. das doenças. E uma infinidade de galhos podres nas árvores. jacus. Nela há milhares de grotas. A floresta. Andar na mata.5 a 3 metros de comprimento. gatos -maracajás. existem onças. a queda de um ouriço. E muito mais para o fundo. Escorpiões e aranhas venenosas. o trabalho no campo era o ponto de ligação entre os guerrilheiros e os camponeses. porcão (queixada). pacas. da beira do rio. Aves de diferentes tipos e cores mutuns. proteger-se de insetos. E cobras: a jibóia que passa de 6 metros. azulonas. conhecer plantas comestíveis e outras nocivas era a primeira grande tarefa dos guerrilheiros. Na região. O próprio partido assim descreveu a realidade da vida no Sudeste do Pará: "Eles preocupam-se em conhecer a região. por onde passa gente e por onde passa jegue. Nesse sentido. pode aleijá -la ou matá-la. A mata começa a duas léguas.

. que dá óleo e excelente palmito. utilizar tudo o que seja digerível. mas em certas épocas do ano encontram-se algumas: cajá. tatajuba (deve ser macaúba). Levam apenas farinha. para sobreviver é preciso caçar. Sem respostas ficam as indagações quanto à conclusão do treinamento e se o PCdoB pretendia inserir ainda novos militantes na região para dar início à guerrilha. s/d: 27) Assim. caju-de-janeiro. Não existe muita fruta. Sabem que o índio vive aí há muitos séculos. Todavia. bacaba.88 Na busca do domínio dos segredos da floresta os militantes do PCdoB buscaram no trabalho agrícola e na imitação da vida dos camponeses da região o aprendizado para a sobrevivência na selva: "Eles preocupam-se também com a sobrevivência na selva. Nesta região há babaçu. desenvolveu-se a preparação para a guerrilha ao longo dos anos 1970 e 1971. E que caçadores do (?) vão do Araguaia ao Xingu (cerca de 200 quilômetros de floresta) numa proeza que dura meses. assaí (sic). Portanto a vida é possível. Isto exige prática." (PCdoB. o remédio indispensável e munição. O resto é fornecido pela mata. pescar. cupuaçu. sal. Os novos moradores fazem sua aprendizagem. cacau. castanha -do-pará que contém proteínas. conhecer a manha e o hábito dos bichos.

que naquela região se concretizava através da construção de uma grande rodovia (mais ou menos 2. mas o ano de 1970 está repleto de acontecimentos que apontam o despertar do interesse do Estado pela "integração" da região aos "interesses nacionais".89 5.300 km no total) que tinha. antes mesmo que se concluísse a construção da Transamazônica.são os casos da Union Carbaidge e da United States Still. A OPERAÇÃO CARAJÁS Ao longodo ano de 1970. relegando as formas de organizações e relações sociais anteriores. O interesse do Estado e de grandes grupos multinacionais. o Exército brasileiro montou um grande espetáculo anunciando os novos tempos que estavam por vir. que teve grande cobertura da revista O Cruzeiro (dez/70).3. o Estado autoritário também planejava e começava a executar o Plano de Integração Nacional. ou que acumulam . assim como o processo de imigração nordestina e goiana que se acentuou na segunda metade dos anos 60 apontam agora para o desenvolvimento de novas relações sociais. Na verdade a presença do capital (inclusive o capital estrangeiro) e do latifúndio não é algo que se inicia nesse momento. o de abrir caminhos para a exploração da Amazônia. Não se tratou da certeza de que havia "subversivos" no interior da selva amazônica. Mas novas perspectivas se acendem sobre a região desde meados dos anos 60. quando empresas mineradoras estrangeiras .detectam o grande volume de ferro e manganês que repousa sob o solo do Sudeste do Pará. enquanto o PCdoB treinava os seus militantes alguns até ainda estavam por vir -. formadas pela economia castanheira. Porém como parte da estratégia de apresentação dos interesses do Estado na região. Era a "Operação Carajás". entre outros objetivos.

Ehrenfried Von Holleben. que fugira de um quartel com armas e munições. o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher foi seqüestrado também pelo grupo VPR e trocado por 70 .Brasília. pretendia resolver os conflitos agrários do Sul. Até setembro do ano seguinte. objetivando no final. com o objetivo de capturar o capitão rebelde Carlos Lamarca. 1992 ). a 19 de junho o presidente general Médici anunciou. em 9 de julho de 1971." (Alves. em São Paulo. a construção da rodovia Transamazônica. sem alterar os latifúndios então existentes na Amazônia. Maria Helena Moreira Alves assinala que o principal objetivo era dar acesso à riqueza mineral da região e que "cerca de 150 milhões de dólares (americanos) foram gastos na construção da Rodovia Transamazônica e da Belém. o PIN. que teve iniciada sua construção em primeiro de outubro. Em maio do ano seguinte. Logo na primeira metade do mês de abril de 1970 o Exército viu-se obrigado a enviar tropas em conjunto com a Aeronáutica e a Marinha ao Vale do Ribeira. os grupos VPR e ALN realizavam o seqüestro do embaixador da Alemanha Ocidental. alguns acontecimentos premiram o Estado à especialização do Exército Brasileiro para o combate em guerras não convencionais. estimulando mesmo o aparecimento de novas propriedades onde a noção de latifúndio não é suficiente para caracterizá-las 20. as companhias de mineração foram beneficiadas com a dedução de 20% no imposto de renda por depreciação de capital. Lamarca levou as Forças Armadas a mobilizarem cerca de cinco mil soldados (Miranda e Silva Filho. quando será morto em Pintada. que cortam toda a bacia amazônica. o Projeto Radam já efetuava levantamento aerofotogramétrico da Amazônia com a finalidade de estabelecer novas áreas que guardassem minérios que pudessem ser explorados. no interior da Bahia. a "integração nacional".Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. No primeiro caso. transmigrando colonos para o Norte. também objetivando a "integração nacional". A criação do INCRA . capaz de conter revoltas que provoquem guerras não convencionais. Ainda no ano de 1970. que foi trocado dias depois por quarenta presos políticos.90 motivos para que o Estado apresente um novo Exército. a primeiro de maio de 1970. No segundo caso. 1989:162). em dezembro. No Rio de Janeiro. como meta do Plano de Integração Nacional. Além disso.

uma pequena ilha no Tocantins. em março. Porém. na "Operação Carajás" as forças "convencionais" do Exército venceram o inimigo "subversivo" e "desorganizado" (imaginário). . Em São Paulo. em frente à cidade de Marabá. 20 Ver capítulo "A Região". por aviões que sobrevoavam a praia do Tucunaré. a "Operação Carajás" foi encerrada com um espetáculo de bombas de napalm despejadas sobre barracos construídos para essa finalidade. Fazendo transparecer que a estratégia do Exército Brasileiro era combater guerrilheiros através do uso de grandes contingentes e armas convencionais. outros acontecimentos solidificaram no Exército Brasileiro a idéia de que era necessário especializar-se na luta contra o "inimigo interno" e o "perigo vermelho". o cônsul japonês Nobuo Okuchi foi seqüestrado pelos grupos VPR. Além destes. Aparelhar a Polícia Militar para o combate às ações armadas dos militantes comunistas nas cidades e preparar o Exército para o combate em guerras não convencionais são atitudes que condizem com a idéia de segurança interna preconizada pela "ideologia da segurança nacional". resultando na liberação de cinco presos políticos. REDE e MRT.91 presos políticos.

em abril de 1972. a chegada do Exército na região. .com cerca de 2 mil soldados.92 5. ocupando as duas principais cidades . que tem sido aceito por alguns investigadores da Guerrilha do Araguaia: a delação. "onde seus nomes eram conhecidos do Departamento de Ordem Política e Social . Segundo Portela. se fixando na região até a coisa acalmar”. os quais.4. Para esta última opção. o que antes não acontecia. Fernando Portela destaca a suspeita inicial das polícias militares de Marabá e Xambioá da presença de "estranhos subversivos" na região. para combater guerrilheiros de verdade. 1979:28). não mais para reproduzir uma situação imaginária. como sugere Portela. Outros porém. tinha por objetivo a prisão de "subversivos". somente após um curto período de indefinição quanto ao tratamento a ser dado aos "subversivos" é que os chefes militares se decidiram pela prisão de todos eles. A presença de um "grupo de especializados" descobriu que se tratava de "estudantes subversivos" e concluiu que eles apenas objetivavam sair de circulação das grandes cidades. Essa volta está relacionada com um acontecimento um tanto obscuro.DEOPS. AGORA. mas. ao que parece. a do acaso.(Portela. decorrente de informações prestadas por grileiros e fazendeiros que notaram um suposto aumento da resistência dos posseiros. não se sabia ao certo ainda sua quantidade e nem os objetivos pelos quais estavam lá. Assim. UMA GUERRILHA DE VERDADE Em abril de 1972 o Exército Brasileiro voltava ao cenário da "Operação Carajás". preferem optar pelo acaso como criador das circunstâncias de enfrentamento entre o Exército e os guerrilheiros num momento em que estes últimos ainda não haviam se manifestado de público.

uma cópia de edição portuguesa do "Diário da Guerrilha do Araguaia ". chegam as tropas e inicia m o ataque aos habitantes da zona da Faveira e de São Domingos das Latas. Tudo enfim não passou de uma infeliz coincidência para os jovens que haviam abandonado a vida urbana para viver no campo.93 O principal questionamento que se deve fazer sobre a versão da descoberta da guerrilha apresentada por Fernando Portela é quanto à indecisão do Exército após ter identificado os "estranhos subversivos" como estudantes conhecidos pelos órgãos de informação do Estado. Em três momentos. e transforma a montagem do grupo guerrilheiro como resposta às incursões do Exército. Faveira. o acaso ultrapassa a descoberta da presença de "subversivos" por parte do Estado. ficaria claro. fora contra camponeses. A agressão do Exército nesta versão. o suficiente para distanciar o Estado da idéia de "refúgio da cidade grande".) "No dia 12. como o INCRA: "Nos primeiros dias de abril de 1972. São Domingos das Latas e Araguatins. que todos pertenciam ao mesmo partido. através da Polícia Militar. Prendem diversas pessoas. Na pior das hipóteses. s/d:38) . de coletores de impostos e de outras instituições.. estranha coincidência ou clara evidência. São Geraldo.. transformando-a na luta de camponeses contra a ação dos grileiros que procuravam ocupar suas terras auxiliados pelo Estado. fatos estranhos ocorrem em Xambioá. Também os militantes do PCdoB são identificados como camponeses que resistiam ao processo de grilagem que aumentava na região. porém. Nesta obra. Uns tipos esquisitos aparecem indagando sobre os moradores que se opõem decididamente à grilagem (." (PCdoB. o PCdoB constrói a hipótese da casualidade da eclosão da guerrilha. pois esta era a nova vida daqueles "ex-estudantes". de uma forma ou de outra. já que eles são conhecidos. na obra citada. Outra versão que opta pelo acaso na descoberta da guerrilha é a do próprio PCdoB. em "A resistência armada do Araguaia".

o partido agiu com ingenuidade. os que morreram e aqueles que sobreviveram. outras obras ligadas ao PCdoB apresentam essa característica: a adoção de codinomes com o explícito objetivo de proteger os militantes do partido.à Guerrilha do Araguaia. s/d:41) Ao longo de nossa investigação esteve sempre presente uma pergunta: por que todas as informações prestadas pelo PCdoB ou seus representantes. não pode ter outro objetivo senão aquele de conferir casualidade . Os que tinham escapado para a mata. de Haroldo Lima e Aldo Arantes. coordenam-se e criam três destacamentos. Nesse 21 Se o objetivo do PCdoB ao ocultar os verdadeiros nomes dos guerrilheiros tiver sido o de confundir o Estado para protegê-los. nunca houve então a real necessidade de descaracterizar a guerrilha e seus objetivos. sobre os acontecimentos do Araguaia. É o caso de "História da Ação Popular . foram presos. identificados e condenados.em se considerando que o PCdoB pretendia realizar uma guerra revolucionária . De outro modo. sobre a Guerrilha do Araguaia escondem seus "verdadeiros" objetivos . pelo PCdoB.de acusações do Estado que pudessem agravar os "crimes" a eles atribuídos. . Ocultar em sua versão os verdadeiros nomes de seus militantes.os sobreviventes . Na medida em que o próprio Estado impunha o silêncio. Especulando.que ainda mantém o caráter "camponês" da guerrilha em sua versão. Mas os sobreviventes que foram presos .da JUC ao PCdoB". poderíamos pensar na necessidade de proteger seus militantes . mas também por codinomes e fotos. 21 Assim também.uma reação de "camponeses" ameaçados .e os nomes verdadeiros dos militantes que integraram a frente armada do partido? Uma resposta objetiva somente poderia vir do próprio partido ." (PCdoB. Neste caso a confusão somente funcionou para aqueles que procuraram relacioná-los nas listas dos desaparecidos políticos.na própria área da guerrilha foram condenados por diversos crimes políticos sem que o Estado os tenha acusados de promover luta armada para a tomada do poder no Sudeste do Pará.94 "Começa então a organizar-se a resistência armada. ocultar os verdadeiros nomes dos militantes combatentes deve ter sido apenas para reforçar o caráter "camponês" da guerrilha. através da censura. pois que os órgão de informações já os conheciam não somente pelos nomes.

começou a pesquisa policial na zona.. deixando todo o PCdoB. meses atrás. que se tratou de "traição"." (Pomar. com um grande "vácuo" nas análises e conclusões dos fatos ocorridos no Araguaia. daí pra frente. com a segurança de quem esteve no Araguaia.um documento que fazia parte da pauta de discussões previstas na reunião da Executiva do Comitê Central do PCdoB. reforçaram-se as medidas de segurança. quando este foi atacado pela polícia paulista no bairro da Lapa.95 caso porém. De outro lado. e sem discussão. o próprio Ângelo Arroio (Pomar. . apresentando. em seguida. em seu "Relatório sobre a luta no Araguaia" . soube-se que Pedro Albuquerque havia sido preso no Ceará e. colocavam-se guardas para manter a vigilância.. dentre eles. tanto quanto esta. em dezembro de 1976. 1980:249) A certeza que Ângelo Arroio possui de que a descoberta da guerrilha foi fruto da traição de Pedro Albuquerque não é compartilhada por nenhum dos envolvidos com a guerrilha.os fatos que o levaram àquela conclusão: "O Exército soube de nossa presença no sul do Pará através da denúncia do traidor Pedro Albuquerque que. não oferecerem segurança suficiente para ultrapassar o valor de hipótese. Para a hipótese da delação como descoberta da guerrilha pelo Exército. do destacamento C.) Em março de 1972. Construíram-se alguns barracos na mata ou em capoeiras e o nosso pessoal passou a dormir fora dos locais conhecidos. Ângelo Arroio é o primeiro a afirmar. clandestinamente. apesar de as outras versões. Arroio morreu enquanto discutia suas opiniões sobre a guerrilha. em decorrência do "Massacre da Lapa". a justificativa se impõe pelo fato de tal obra ter sido escrita na prisão. De dia. onde ocorreu a morte de vários militantes. com sua mulher. a opinião dos dirigentes que sobreviveram a 1976. Devido a isto. havia fugido. (. 1987) . prevalecendo.

montaram uma operação para descobrir a área de treinamento. Para Genoíno. portanto. ele descarta a possibilidade de Pedro Albuquerque ter sido o delator e destaca a surpresa que fora para a Comissão Militar o ataque do Exército sobre os guerrilheiros do Araguaia. mesmo tendo sido o primeiro militante do PCdoB preso no Araguaia. o CC (Comitê Central) ficou sem saber a causa da descoberta do trabalho do partido na área. Aqui." (Playboy. uma das militantes selecionadas para o trabalho na área. entronizou a versão da delação. o dispositivo foi descoberto por denúncia de outra delatora (descartando a hipótese de ter sido Albuquerque o delator). em grande parte porque ignorava a deserção daquela .) Apesar de todo método conspirativo adotado. discordando. mas descartou a possibilidade de que Pedro Albuquerque fosse o delator. do relatório de Ângelo Arroio. É fácil identificar em São Paulo de onde veio uma pessoa com doenças desse tipo. uma pessoa reacionária.96 José Genoíno Neto. denunciou o trabalho de preparação. Durante muito tempo. Foram para a região até descobrir. maio de 1993:38) Um outro adepto da hipótese da delação é Wladimir Pomar. Regina. ficou doente e teve que ser enviada para o sul em meados de 1971 para tratamento. sob pressão da própria família. é possível que a delação tenha partido de uma militante que saíra à revelia da região do Araguaia. Acabou desertando e. autor de vários depoimentos. "Ela teria falado para o pai dela. A partir daí. que estava com leishmaniose e malária e ele se tocou que ela viera de uma área de trabalho do PCdoB.. Pomar também identifica a delatora e destaca a falta de informações para que Arroio tivesse sustentado a acusação sobre Albuquerque: "(.. como eles também sabiam pelos documentos do partido que estava em preparação uma guerrilha. apesar das normas em contrário estabelecidas pela Comissão Militar. possibilitando que as forças repressivas montassem todo o plano de ataque.

23 Apoiado pela Marinha e Aeronáutica. entre março e abril de 1972. não se sentiram na obrigação de informar nem mesmo a CEx (Comissão Executiva) sobre o assunto. A Comissão Militar e seu principal dirigente [João Amazonas?].97 militante.1981). O Exército contava com o Batalhão de Guarda Presidencial. Para fins de comparação. o Regimento de Cavalaria de Guarda. Só após 1974. 23 Em Moura (1985:43). representou a ocupação militar da região por cerca de 2 mil soldados. a maior delas. lembramos que o total de soldados mobilizados para a captura do capitão Carlos Lamarca no Vale do Ribeira fora de 5 mil soldados. a Polícia do Exército de Brasília. em 24 de setembro de 1972. o número de soldados é calculado entre 8 a 10 mil. 1980:38)22 A chegada do Exército na região do Araguaia. encabeçando as Forças Armadas. não saiu mais da região. chegando a alcançar um total de 12 mil soldados ao longo da segunda campanha de cerco e aniquilamento dos guerrilheiros (PCdoB. " (Pomar. número significativo para uma região que possuía apenas três Tiros de Guerra. desde que passou a combater a guerrilha. que teve que permanecer fora da área após o ataque das Forças Armadas. Ao longo dos anos em que combateram os guerrilheiros do PCdoB o efetivo do Exército na região cresceu significativamente. foi possível desvendar o mistério. o Exército. o 6º Batalhão de 22 João Batista Berardo é o único autor que apresenta em sua relação de guerrilheiros o nome de Regina Pereira. divulgou uma relação das unidades que se encontravam em operação no Araguaia. s/d). as "campanhas" empreendidas pelas Forças Armadas na região representam momentos em que um número maior do contingente empregado esteve em operação. a provável "delatora" da guerrilha (Berardo. Sem informações oficiais sobre a origem do efetivo militar do Estado empregado para combater os guerrilheiros. Desse modo. logo após o início da segunda campanha. . com a derrota da guerrilha. o 10º Batalhão de Caçadores de Goiânia. rompendo a vigilância que os órgãos de censura mantinham sobre o assunto. além da Polícia Militar do estado e policiais federais. o 8º Grupo de Artilharia Antiaérea. sem que nos momentos que entremeiam as três campanhas militares tenha havido alguma trégua. o jornal O Estado de São Paulo.

A marinha enviou uma tropa do grupo de fuzileiros navais de Brasília. como eram conhecidos os guerrilheiros. O agente secreto do Exército que melhor personificou o seu papel foi o major Sebastião Rodrigues de Moura. engenheiros. o major Sebastião Rodrigues de Moura. como a do natal de 1973. conhecido na região como major Antônio Luchini ou também como "doutor Curió". as Forças Arnadas passaram a contar com o apoio de militares estrangeiros que chegaram a se instalar no teatro de operações. já configurava motivo suficiente para que o pânico ali se instalasse.. Com o desenrolar da guerrilha. exigindo que lhe tratassem por major Curió. Ligado à área de informação do Exército. A Aeronáutica enviou para o Araguaia. Ao longo das três campanhas todo o contingente acima referido foi comandado por militares do Exército. Militares à paisana que. etc. da 6ª Zona Aérea de Brasília e da 3ª Zona Aérea do Rio de Janeiro. dentre eles. o Dr. o general Antônio Bandeira. que comandou as operações fixado na cidade de Xambioá e os generais Viana Moog e Hugo Abreu.98 Caçadores de Ipameri. apareceu mais tarde sob fardas porém. apresentou-se na região como engenheiro agrônomo do INCRA. ao final da guerrilha. principalmente na última campanha. unidades da 1ª Zona Aérea de Belém. o 36º Batalhão de Infantaria de Uberlândia. onde foram mortos vários guerrilheiros. Participou diretamente de algumas ações militares. passou a controlar. de forças militares armadas para uma guerra nas pequenas cidades do Sudeste do Pará. fazendeiros. novas situações surgiram para acrescentar ao medo das populações a desconfiança: foram os "secretas". Luchini. destacando-se dentre eles. alterando a dinâmica social da região. como foi o caso do coronel do exército português Hermes de Oliveira (Berardo. a procura de qualquer informação que os pudesse levar aos "homens da mata". 1981:260). sob os mais diversos disfarces penetraram na intimidade das cidades e lugarejos como pedintes. . Na medida em que os acontecimentos foram se tornando mais graves. sem apresentar seu verdadeiro nome. que se envolveram no combate à guerrilha a meia distância. vendedores ambulantes. forças do Comando M ilitar da Amazônia e da 12ª Região Militar. Maurício Grabois e. Se a presença do Exército.

deram-lhe votos suficientes para transformá. o garimpo de ouro. subindo pela Transamazônica. os camponeses que se envolveram com a guerrilha. cerca de 200 km. foi um dos pontos de concentração dos militares que davam acesso ao lado maranhense do rio Tocantins. A ocupação da região pelas Forças Armadas procurou adotar o critério tático de cercar os guerrilheiros. foi preterida por um grande acampamento da construtora Mendes Junior. A fazenda Bacaba. Nos anos 80. no então estado do Goiás (hoje Tocantins). os entroncamentos que levavam às cidades de São Domingos. ocupando desde as margens do rio Araguaia. Alguns pontos privilegiados das cidades foram ocupados e junto com eles o poder da autoridade pública passou para as mãos dos representantes armados do Estado autoritário. A fazenda Bacaba . que eram raras na região que foram utilizadas como residências de oficiais.o antigo acampamento da construtora Mendes Junior. prisões. Havia ainda uma pista de pouso que ficava a meio caminho entre Xambioá e Marabá. sem infra-estrutura suficiente para receber um grande contingente. no perímetro que vai da sua conexão com o rio Araguaia até a cidade de Marabá.Brasília. Muito próxima da área ocupada pelos guerrilheiros na Serra das Andorinhas e contando com um aeroporto. mas situada no centro do teatro de operações.99 através da distribuição de pequenos lotes de terras e remédios (públicos!). Apinagés. até fechar o cerco pelo s rios Itacaiúnas-Sororó. dando aos militares a vantagem de se manterem afastados de eventuais curiosos. São João do Araguaia e o 52º Batalhão de Infantaria da Selva. A cidade de São Domingos. esteve constantemente ocupada pelas Forças Armadas durante todos os anos da guerrilha. foi outra importante base militar das Forças Armadas. aliada à sua proximidade com o governo federal e um grande poder de intervenção na Serra Pelada.possuía casas de madeira. A rodovia Transamazônica. com a possibilidade de movimentação de tropas ao longo da rodovia Belém. princip almente aqueles que serviram de guias e mateiros (Portela. cercando por completo a área da guerrilha. que ficava a 15 km daquela cidade e 68 km de Marabá. utilizado para a construção da rodovia Transamazônica . sua força política na região. mais tarde substituídos pelas estradas operacionais. no Maranhão. Xambioá.lo em deputado federal pelo estado do Pará. A cidade de Imperatriz. 1979). etc. Xambioá ligava-se a Marabá por via aérea e fluvial. construído em tempo récorde a .

As Forças Armadas. Por fim. códigos que nas comunicações das Forças Armadas correspondem às letras "P" e "M". oferecendo a estrutura da maior cidade da região . Para o PCdoB.significados estes que não eram percebidos no convívio diário pelos camponeses . que lutavam pelo "bem" do povo. onde as relações entre o bem e o mal quase sempre se representavam pelo fantástico e o real. Os camponeses que moravam na região preferiram construir sua própria lógica. a cidade de Marabá concluía o grande cerco à área da guerrilha.guerrilheiros .terroristas . que trazia consigo outros significados como ateísmo. da ordem contra a desordem. Soldados de uma guerra não convencional . Tratava-se.100 8 km de Marabá. foram os principais pontos da Transamazônica ocupados pelas tropas federais. inserindo-se dessa forma.tratava-se. antipatriotismo e radicalismo . Todo o dia-a-dia de Marabá foi alterado por força da presença constante de militares. um hospital público. seus militantes eram "guerrilheiros". Enquanto naquele primeiro discurso . do medo e da desconfiança que a nova situação provocou em seus habitantes. identificava-os por "terroristas"24 . Ademais. 1988) justificava a ação das Forças Armadas.com cerca de 20 mil habitantes (em todo o município). Um aeroporto.foram os principais pontos da cidade ocupados pelas Forças Armadas. de acordo com o proferidor do discurso. do certo contra o errado. ocupada pelo DNER . patriotismo é um conceito pouco elaborado onde quase não se percebia a presença do Estado e ateísmo era algo que para 24 Os guias.o das Forças Armadas . de significados distantes da vida dos camponeses e do povo da região. eram obrigados pelos militares a tratar os guerrilheiros de "Papa Mickey".o "terrorista" caracterizava-se como adepto do comunismo.lhes a condição de quem possuía o "corpo fechado" (que não pode ser atingido por balas) e tratando-os de "povo da mata". para elas. no extremo oposto desse discurso. A condição do militante do PCdoB ganhou substantivos distintos. de "povo . um grupo escolar no centro da cidade e uma vasta área ao longo do rio Itacaiúnas.ou promotores de atos violentos e de terror . em qualquer dos casos. escolhidos entre os camponeses da região. em uma ou outra das condições que o discurso dicotômico propiciava. da "luta do bem contra o mal". A mesma dicotomia que estabelecia as bases do discurso do Estado autoritário (Fiorin.Departamento Nacional de Estradas e Rodagens .o discurso camponês preferiu destacar no guerrilheiro a capacidade de sobreviver sobre um ataque de forças muitas vezes maiores atribuindo.

(o candomblé local) e dos batizados. Chamá -los pelo nome (ou de guerrilheiros) incorreria em acusações e castigos ( Movimento. o único meio de transporte capaz de aproximar-se de qualquer ponto da selva amazônica. granadas. Todos tinham facão e tinham faca. de alguma forma. o trânsito nessa estrada. além de helicópteros. isqueiro. A presença em massa das Forças Armadas na região não foi. Enfim. prato. dezessete revólveres Taurus 38 (cano médio). A força militar do Exército. pois eles eram assíduos freqüentadores do "terecô". . as armas dos guerrilheiros são armas de caça. a capacidade bélica das Forças Armadas ratificava sua superioridade sobre as forças guerrilheiras através do uso de fuzis de repetição. de um modo geral. solado de bota. A rodovia Transamazônica foi ocupada. Os aeroportos de Xambioá.. Em contra partida. duas carabinas 22. É comum em reportagens sobre a Guerrilha do Araguaia encontrar informações sobre o uso de explosivos que levam a crer tratar-se de napalm.101 os camponeses não se podia atribuir ao "povo da mata". membro do destacamento B (Gameleira). lembra que ao se iniciar a guerrilha suas armas (do destacamento) e equipamentos compunham-se de: "(. Glênio Sá. porém. lanterna. munição para arma longa e curta. o fator determinante da sua vitória sobre os guerrilheiros do PCdoB. colher. Nossas mochilas continham uma muda de roupa forte e nova. cinco rifles 44. da fazenda Bacaba e de Marabá permitiam o tráfego de aviões grandes e pequenos. 1990: 15). adquiridas na região. da mata". uma bereta e uma submetralhadora Royal.) Um mosquetão. este.. pois em nenhum momento os guerrilheiros conseguiram empatar. A tiracolo levávamos um bornal contendo mais munição. sal. pistolas de grosso calibre. uma 20 de dois canos. cordas de naylon e alguns outros objetos de uso pessoal" (Sá. uma metralhadora de balas 38 (fabricada por nós). impróprias para o combate. farinha. 9 a 15/7/79). armas de guerra. um plástico para proteger-nos da chuva. uma rede nova. permitindo a movimentação rápida de tropas federais. seis espingardas 20. pilhas e remédio para malária. Marinha e Aeronáutica distinguia-se principalmente pela superioridade técnica e bélica que estes possuíam na luta contra os guerrilheiros. fósforos. uma 16.

A desigualdade . somada às poucas possibilidades da aquisição ou do fabrico de munições após o início da guerrilha pode ter mesmo acrescentado dificuldades aos guerrilheiros.não somente numérica .102 Na verdade essa variedade de calibres. poderia chamar a atenção dos militares. Isso dificultava a caça e tornava a sobrevivência na selva bem mais complicada do que já era. Glênio Sá conta que o tiro na mata era algo que só deveria acontecer em caso de confronto com forças opostas.é o que há de mais acentuado quando se observa a capacidade de enfrentamento militar entre as Forças Armadas e os guerrilheiros. pois de outro modo. .

A paz e a segurança. Nas centenas de prisões que ocorreram. facilitando sobremaneira o trabalho dos militares. As informações que levaram as Forças Armadas aos guerrilheiros foram extraídas de camponeses. . por conhecerem os caminhos e os perigos da selva serviram de batedores. O EXÉRCITO E OS SEUS INIMIGOS Em abril de 1972 os dois mil homens do Exército ocuparam o Sudeste do Pará. também receberam dezenas de suspeitos. Somente na fazenda Bacaba as Forças Armadas chegaram a ter cerca de 140 (depoimento de Pedro Marivete) pessoas detidas. o Tiro de Guerra. mas também rendeu aos militares o apoio. a grande maioria delas acometendo principalmente camponeses.nos a crer que o Exército possuía o mínimo de informações sobre as pessoas que procuravam e a localidade onde se encontravam antes mesmo de se fixar na região. o que leva. Em Marabá. José Genoíno Neto esteve preso por vários dias em um desses buracos. se fora a partir desse momento. mesmo que forçado. com o objetivo de prender os "subversivos" que "ameaçavam a paz e a segurança da região". ou o mínimo que delas havia. onde ficaram detidos vários prisioneiros. Em Xambioá. moradores da região que. além das prisões convencionais. foram cavados grandes buracos em torno da pista de pouso do aeroporto. de pessoas que. de alguma forma haviam mantido contato com os guerrilheiros. Antes de ser transportado para Brasília. os principais pontos da cidade ocupados pelas Forças Armadas.103 5. o acampamento do DNER e o grupo escolar Alavanca. Espancamentos e outros tipos de tortura funcionavam como fator de intimidação. predominou a violência.5.

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Para os militantes do PCdoB, a chegada do Exército na região, em princípios de abril de 1972, e as centenas de prisões que de imediato ocorreram, foram motivos suficientes para que se internassem na mata, onde suas chances de sobrevivência eram superiores à dos militares. Glênio Sá destacou no livro Relato de um guerrilheiro, que fazia parte do treinamento para a guerrilha a preparação de locais na m ata que pudessem servir de refúgio aos guerrilheiros. A presença do Exército precipitou o início da guerrilha, mas no que tange às tarefas estratégicas de sobrevivência da guerrilha os militantes do PCdoB já se encontravam preparados.
"No dia 13 de abril, à noite, veio ao castanhal um camarada nos avisar de que um estafeta nosso da região de Apinagés chegara com a notícia de que o Exército tinha invadido aquela área. Tínhamos que avisar o pessoal de Caiano e a decisão era uma só: resistir. O Geraldo (José Genoíno Neto) que já conhecia o local, foi encarregado de ir avisar nosso pessoal localizado em Conceição do Araguaia. "Começamos a arrumar as nossas coisas e levá-las para o mato. Eliminamos o cachorro, matamos e depenamos as galinhas, preparamos as carnes. Pedimos a dois amigos que cuidassem da nossa mula e da nossa roça. Levamos também o arroz do nosso paiol. Eram os preparativos para a resistência necessária”.(Sá, 1990:14)

Desde que os militares chegaram na região, os militantes do PCdoB tiveram que se internar na mata, não mais saindo de lá, a não ser com o objetivo de executar alguma operação guerrilheira. A contradição entre o que pensavam (seus documentos) e a prática guerrilheira por eles executada pode ser remetida ao âmbito da discussão sobre o tipo ideal de guerra revolucionária: a guerra popular prolongada ou o "foquismo". A realidade dos fatos pode facilmente levar-nos à conclusão de que o PCdoB foi o partido mais anti- foquista

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que melhor emplementou a teoria do "foco" guerrilheiro no Brasil. Wladimir Pomar acrescenta que, dessa forma, o partido fora capaz de provar na prática a ineficácia da prática do foquismo no país (Pomar, 1980:27). Nesse sentido, a falta do trabalho político, somado à repressão que se abateu sobre os camponeses, transformou a estratégia do refúgio na mata em um completo isolamento entre camponeses e guerrilheiros. Ao se iniciar a guerrilha mais parecia se tratar de uma contenda pessoal de um determinado número de pessoas contra o Exército do que uma luta de caráter político.
"As quatro casas foram evacuadas às pressas. Partimos em uma marcha para a floresta, cuidando para não deixar rastros e levando conosco mochilas, armas, panelas, rádio, mantimentos, livros, remédios. Tudo isso seria muito útil. Deixamos o milho e o arroz armazenados. Alguns dos nossos pertences foram escondidos nos peares mais próximos (locais clandestinos de armazenamento). "Acampamos na cabeceira de uma grota, não muito distante da nossa casa principal. Comemos nossas galinhas e fomos dormir, protegidos por um forte esquema de segurança. Começava uma nova vida para todos nós. A vida de guerrilheiros." (Sá, 1990:15)

As duas principais campanhas das Forças Armadas, de "cerco e aniquilamento", eliminaram pelo menos a metade dos guerrilheiros, sem contar aqueles que se retiraram da região. O grande contingente utilizado, porém, tornou desgastante, em todos os sentidos, a ação dos militares na região, que se arvoravam combater os "inimigos da ordem", subvertendo por meio da força, a ordem vigente na sociedade regional. O processo de mudanças das relações sociais já possuía dinâmica tal que o confronto entre grandes proprietários de um lado e não-proprietários e pequenos proprietários

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de outro não tardaria a acontecer. O aparecimento de uma rodovia, a Transamazônica, cortando e valorizando uma região já predisposta ao conflito pela posse da terra trouxe a "grilagem" e novos elementos para compor as contradições sociais 25 . A presença das Forças Armadas foi imediatamente associada a esses novos conflitos e rapidamente o Exército adquiriu uma função policial em favor dos grandes proprietários de terras. Em Marabá, inclusive durante muito tempo após a guerrilha, pequenas questões que viessem a se tornar objeto de denúncia, como pequenas dívidas não pagas, etc, eram resolvidas no "8", o 52º Batalhão de Infantaria de Selva (que ficava a 8 km da cidade, na Transamazônica)26 . A autoridade do Exército, no entanto, não foi fruto apenas de sua presença e representatividade do Estado na região. A violência e o autoritarismo com que foram tratados os casos de desconfiança forjaram, antes de tudo, o medo, pois que nem mesmo padres e freiras escaparam de serem presos e torturados pelos militares. 27

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O advento desta rodovia foi seguido de um processo de desapropriação em suas margens, visando uma posterior distribuição de lotes, em boa parte, em terras povoadas pelo menos desde a década de 50. 26 Raimundo Liberalino Maia revelou alguns desses casos em entrevista com o autor. 27 Ver, Incidentes ocorridos em Marabá , em anexo.

tendo passado. posteriormente. Trabalhando no garimpo.107 5. tendo de prestar depoimentos por diversas vezes. mas encontrava-se endividado e com um tumor no cérebro que lhe causou amnésia temporária trinta dias após ter sido liberado. A 4 de abril de 1972 Otacílio foi detido no posto de Jatobal. principalmente D.lhes sal. Belém e Brasília. José Alves conhecia toda a região da guerrilha. a princípio sem acusação. Detido sob a acusação de ajudar os guerrilheiros.6. lamentando sua incapacidade para o trabalho 28 . na função de batedor (guia ou "bate-pau") e de informante. querosene e "munição" (chumbo e pólvora). por Marabá. conhecido também como caçador na região da Palestina e do Saranzal. vigiava os comentários surgidos nas feiras e locais públicos. Acusado de pertencer ao grupo guerrilheiro e/ou de ter colaborado com os militantes do PCdoB. acabou se firmando no comércio ambulante. CAMPONESES E GUERRILHEIROS: ALGUNS CASOS Otacílio Alves de Miranda. durante dois meses. era caçador e lavrador quando conheceu Osvaldão. um baiano que chegara na região em 1955 e fora trabalhar de castanheiro. . vendendo. sua liberação implicou na aceitação de trabalhar para o Exército. vendendo as mais diversas mercadorias ao longo do rio Araguaia. um maranhense de Caxias. foi torturado em Brasília com choques elétricos e ficou detido. Ao final Otacílio obteve o reconhecimento de que era inocente. Com um ano de trabalho Otacílio passou a comercializar com os moradores do sítio Faveira. Otacílio hoje vive sob efeito de remédios. Operado em São Paulo. Maria (Elza Monnerat). José Alves da Silva. Como informante.

o Exército entrou na vila Bom Jesus e prendeu várias pessoas conforme narrou em entrevista: "Comerciantes como o S. Vald ir. a base militar do Exército. quando comprou terras ao lado do sítio onde moravam "Edinho. Após uma curta conversa com Zé Carlos. depositando. Pedro Marivete voltava de Imperatriz e já havia passado por barreiras policiais em Araguatins. Também o S. escondidos entre um rebanho de bois. No dia 9. após ter sido denunciado e acusado de envolvimento com os 28 Ver depoimento de Otacílio em anexo. conhecido como Pedro Marivete. Palestina. mulher do finado Luizinho.108 repassando informações que pudessem ser úteis ao Exército. seguindo no outro dia para casa. voltando da região do Água Branca. um dia. estes desconfiavam inicialmente que Pedro Marivete fosse um agente das Forças Armadas infiltrado na região. onde dormiu. Em outubro de 1973. Laurinho e Antônio Alfaiate”. Claudinho.lhe mais confiança. até na fazenda Bacaba. Zebão. Expedito. Adão e D. Joana. o Curió. no dia 4. João Araguaia e dois novatos que Pedro não conhecia. que era representado em seu ponto máximo pela pessoa do major Sebastião de Moura Rodrigues. Antônio Alfaiate. Abdias. . Pedro Marivete foi encontrá-los na fazenda do Sr. Pedro Matos do Nascimento. Nelito. Pedro Borba e outros que já morreram. S. foi abordado por um camponês. que integrou a guerrilha juntamente com o filho. a arma foi devolvida. o qual. mas que com o tempo foram descartando essa possibilidade e passaram a visitá-lo com mais freqüência. o que representou para todos um grande poder de intervenção junto aos guerrilheiros. Porto da Balsa (nos dois lados). Brejo Grande. Já em 1972. Indicado pelos guerrilheiros como alguém que podia intervir em favor do camponês desarmado. os "homens da mata" haviam lhe tomado o revólver. chegou à região de São Domingos em janeiro de 1971. o Mariano." Todos foram levados para Marabá. Segundo soube mais tarde do guerrilheiro Piauí. em uma nova onda de detenções Pedro Marivete fora levado prisioneiro pelo Exército.

Iniciou-se.109 guerrilheiros por um camponês detido dias antes. onde já se encontravam cerca de 90 pessoas em uma pequena sala. Aos 45 dias de detenção Pedro fora liberado. o assalto ao posto militar do entroncamento de São Domingos. com um grande número de prisioneiros. Landin e Alfredo. A situação dos prisioneiros é degradante. sustentar-se sobre pequenas latas. além de permanecerem aprisionados em pequenas e improvisadas selas. Por isso não foram logo reconhecidas como tais. Era essa a rotina dos cárceres das Forças Armadas na região da guerrilha (idem). apesar das armas que traziam consigo. sentar-se sobre nocivos formigueiros. Era um grupo de soldados do Exército usando traje civil. Pedro Marivete fora conduzido para um presídio à beira do rio Itacaiúnas. do final de 1972 destaca a situação dos prisioneiros e seus parentes. Nelito. Antônio. na Transamazônica. concedida ao autor). Beto. que partiam para essa missão. com o compromisso de continuar apresentando-se aos militares a cada 15 dias (entrevista de Pedro Marivete. em Marabá. fora transferido para a fazenda Bacaba. "Na manhã daquele dia o povoado acordou assustado com a notícia da presença de pessoas estranhas na localidade. que contara ao Exército o caso do revólver devolvido pelos guerrilheiros após sua intervenção. Depois de 13 dias preso em Marabá. quando. sob "condições desumanas". no dia 24 de dezembro. em São Domingos. Obrigados a repetir versos e canções estranhas sob pena de violência em caso de erro. Em seu depoimento. quando Pedro viu pela última vez os guerrilheiros Valdir. Pedro Marivete relatou aos militares vários episódios da guerrilha que tomara conhecimento. a 7 de outubro um grupo de policiais à paisana deteve para investigação mais de 50 pessoas naquele lugarejo. de onde eram derrubados violentamente com uma rasteira. . Um relatório da prelazia de Marabá. dentre eles.

) 29 "Acontecimentos desagradáveis em São Domingos. As prisões se atribuem a qualquer contato com os guerrilheiros. CNBB. esquecidos de todos os socorros e atenções por parte das autoridades. Brejo Grande e São Geraldo.110 naquele dia. O silêncio sobre os fatos os protegia aparentemente. caçadores. sem se comprometer. Fim de outubro e início de novembro as prisões se repetiram”. Brejo Grande e São Geraldo. Brejo Grande. Dos que estiveram presos.) Repetidos os mesmos métodos. A família não pode visitar nem se comunicar com os parentes presos”."29 Comerciantes. alguns demonstravam por palavras e modo de agir que haviam sofrido torturas físicas e morais. Acontece que estavam espalhados na mata muitos agentes secretos que presenciaram os encontros e muitos moradores interessados em delatar o seu vizinho em proveito próprio. CNBB. 1972. outros ficaram. Senhoras também foram presas. Palestina. temendo represália tanto por parte dos guerrilheiros como por parte do Exército. uma de 65 anos passou três dias na prisão. São Domingos descobre a força do Estado sem saber o que fizeram estes prisioneiros para merecer tamanha agressividade." in Informativo da . 1972. até mesmo por simples visita dos mesmos.(Informativo da Prelazia de Marabá. "A angústia cresce porque as prisões continuam atingindo toda a região até a Palestina. agricultores. uma série de prisões sendo o maior número entre pais de família. porquanto viviam isolados na mata. garimpeiros. Acontece que o povo visitado pelos guerrilheiros os recebia como de costume se faz com qualquer pessoa. novos prisioneiros foram feitos em Palestina. "Alguns foram despachados no mesmo dia. toda a região da margem sul da Transamazônica. sem que tenha havido comunicação imediata por parte dos hóspedes.(Informativo da Prelazia de Marabá.

o que. na casa das irmãs Dominicanas. Humilhados e torturados. sob a acusação de falarem mal do "governo " e assemelharem-se com os guerrilheiros.lo. os clérigos envolvidos produziram um detalhado relatório. a caminhoneta C14 que os conduzia teve um pneu furado. clérigos de São Domingos. o padre Roberto de Valicourt e a irmã Maria das Graças foram atingidos pelas Forças Armadas que pretendia afastar a Igreja de atividades que questionavam o autoritarismo do Estado.3. estes últimos utilizados pelos militares como batedores. que foi publicado na revista CEDOC. o missionário junto aos índios suruí. junto aos moradores dos lugarejos ocupados. os obrigou a passar pela localidade de São Domingos do Araguaia para consertá. frei Gil Gomes Leitão e o vigário de Conceição do Araguaia. na madrugada de 2 de junho de 1972. após sua troca. o relatório começa com a partida desses clérigos e a sobrinha de um deles. Além da irmã Maria das Graças e o padre Roberto. de Marabá. A 40 km de Marabá. Informando à CNBB. D. o padre Roberto de Valicourt e a irmã Maria das Graças. aberta pelas Forças Armadas. CNBB. Em São Domingos. a alguns quilômetros na estrada Operacional . com destino a Conceição do Araguaia. 1972.111 Também a Igreja acabou vitimada pelos métodos utilizados nas Forças Armadas em suas duas primeiras campanhas: a violência contra tudo e todos que mantivessem qualquer tipo de relacionamento com os guerrilheiros. Estevam Cardoso Avelar. Um momento extremo da utilização desses métodos foi a prisão de um padre e uma freira em São Domingos. em agosto de 1972. . aos camponeses e aos índios suruí. constituindo-se assim em um dos poucos documentos a falar da guerrilha e da existência de militantes do PCdoB armados no momento em que ela se desenvolvia no Araguaia. foram informados que no dia anterior (1º de junho) militares à paisana levaram para a localidade conhecida por Metade. Entre São João e São Domingos percorre-se cerca de 15 km. Narrado pelo bispo de Marabá. o bispo de Marabá fora detido na Transamazônica e o padre Humberto preso em Itamirim. há quanto tempo estavam na região e se conheciam outras Prelazia de Marabá. para responderem sobre seus trabalhos. no entroncamento da Transamazônica que dá acesso à cidade de São João do Araguaia. da CNBB. frei Alano Maria Pena.

e documentos que "falavam contra o governo e o INCRA". assim como o padre Roberto . o oficial ali presente passou a ofendê-los. ao contrário do que esperavam. onde. do outro lado da Transamazônica.padre Humberto é francês. Na manhã do dia 2 os clérigos vindos de Marabá adiantaram-se até a Palestina a fim de evitar maiores transtornos ao padre Roberto e à irmã Maria das Graças. No caminho. Com a casa paroquial cercada por militares o padre Humberto foi conduzido ao carro sob a mira dos soldados. Padre Humberto retornou a Itamirim. onde foi detido. os clérigos foram liberados e informados que o mesmo aconteceria ao padre Roberto e a irmã Maria das Graças. . informados de que seus problemas poderiam ser resolvidos por militares de escalão superior. Em Araguatins. foram abordados e novamente identificados por um grupo à paisana. foram conduzidos para a Palestina. foram informados que no dia seguinte deveriam prestar maiores esclarecimentos na localidade de Palestina. onde o padre Humberto foi "acusado" de possuir em sua casa um exemplar do "Le Monde" . Ao chegar no porto de travessia do rio Araguaia. mas foram detidos em uma barreira militar da Transamazônica e mesmo tendo se identificado .112 localidades próximas. De volta.ou talvez por isso mesmo . Eram anotações de uma reunião com o p róprio INCRA. frei Gil e frei Alano prosseguiram em sua viagem para Conceição do Araguaia.foram conduzidos por soldados que passaram a ocupar a caminhoneta para a localidade de Brejo Grande. após muitos desencontros com os militares. Tudo aconteceu cercado de pesadas acusações e humilhações aos clérigos. Estevam. obrigando-os sob escolta. preso e juntado ao grupo o padre Humberto Rialland. enquanto D. Em Brejo Grande. a dirigirem-se para Araguatins. foram obrigados a entrar na localidade de Itamirim.

padre Roberto e irmã Maria das Graças continuaram a ser investigados. girou em torno de perguntas que questionavam o fato dos clérigos andarem sem batina e de "falarem mal" do governo em reuniões com a comunidade. Ao menor esforço. com mais um preso. A justificativa apresentada pelos oficiais do Exército ao bispo de Marabá. Após muito sofrimento os clérigos foram conduzidos . de São Domingos à Palestina. o interrogatório. todos amarrados com as mãos atadas às costas e delas partindo uma outra corda que envolvia o pescoço. a corda do pescoço lhes provocava enforcamento. Os combates se desenvolveram entre o início de 1972 e meados de 1974. quando caía em suspeição. não caberia outra forma de tratamento . contudo. evitando porém. sempre acompanhado de violência física socos e pontapés -. mesmo o do cansaço dos braços. concomitantes com o que ocorreu ao padre e à freira detidos em São Domingos e levados para a Palestina.o mesmo tratamento dispensado ao povo da região. agora sem a violência inicial. Na manhã do dia 2 de junho. para os militares. Reconduzidos a São Domingos. Em Palestina. passaram a tratar os prisioneiros de forma mais branda. os dois clérigos foram conduzidos por militares. o padre Roberto e a irmã Maria das Graças. quando passou a adotar a assistência social em lugar da violência para com a . que se encontrassem com o bispo. foi de que se tratava de uma forte suspeita de que tais clérigos eram "terroristas " disfarçados.até Araguatins.amarrados . mudando de tática em sua terceira campanha. o que. onde os militares. Nesse período os guerrilheiros mantiveram-se internados na selva e as Forças Armadas organizaram duas campanhas de cerco e aniquilamento. ao notarem a presença do bispo. que somente soube da violência que atingira os clérigos de São Domingos quando voltava de Conceição do Araguaia a 6 de junho.113 Os acontecimentos narrados acima são.

No entanto tratava-se apenas de militares.....) "Os soldados entravam de seis com a gente no mato. mulher..tá!" Soldado também mandou uma brasa: "Trrrrr!" "Esse cara (o índio Arecachu) ajudou muito carregando morto dentro do hericópire. Demorou. com autorização da FUNAI. esperava. na hora que vê o barulho dele vai andando mesmo: "Taaaaaá!" Quebrou tudinho cabeça. Ele avisava pra nós: . quando além da inexperiência dos soldados no combate nas selvas. esperava.. saiu tudinho o miolo: .114 população local e a utilizar "especialistas" em combates na selva. o medo contribuiu para que irrompessem enfrentamentos que chegaram a causar algumas dezenas de mortes entre os militares. os índios Suruí recordam os combates e o fim da guerrilha: "Nós esperava na mata. Recrutados pelo Exército como guias. vocês passa pra trás de mim. pois que na insistência de ocultar os fatos que ocorriam no Sudeste do Pará. Mortos e feridos chegavam constantemente a Marabá e Xambioá. (... especialmente o grupo de pára-quedistas do Rio de Janeiro comandados pelo general Hugo Abreu.. tinha muito avião. "Agora soldado. Ao longo dos combates foi comum o confronto entre grupos das Forças Armadas. Cortava a cabeça e levava pro São Raimundo pra tirar retrato. hericópire voava baixinho. principalmente durante as duas primeiras campanhas. até que quebrou o paul Terrorista mandou uma brasa: "Tá . tudo misturado. também os corpos dos guerrilheiros foram ocultados..É escutar barulho. Era homem.

cidade próxima a Xambioá. não: é fácil. o cerco à serra das Andorinhas .o pólvora.. fazendo. esse terrorista não presta.. Agora. com a Transamazônica. Primeiro camisa nova. não deixa nós. Nós chegava no acampamento dele no cipozal e soldado ia mexer nas coisas. tudinho cheia de caroço. morena. acabou tudo. Mas soldado já tava com muita força. . Ele fez o negócio todo feito pra morrer qualquer soldado. (. depois camisa velha.Tem que acabar com esse terrorista: ele quer tomar o Brasil. preta.Rapaz.) "Enterramos todos no São Raimundo. Gente branca. 1979: 56) Além dos corpos enterrados na região próxima à aldeia dos índios Suruí onde passa uma das três estradas operacionais que foram construídas em 60 dias entre a segunda e a terceira campanha e vai de São Domingos a São Geraldo. queimou tudo na cara do soldado .. Tem ferida. (Dória. "Roupa de terrorista já parecia saco velho. mas já vieram buscar os ossos”. rapaz! Coisou.115 "Paaaaaá.é comum ouvir .tá tá tá trrrrr!" "Antes era difícil de achar. Amarelo tinha também. Não tem fogo. Soldado falou: ." A gente escutava aqui na aldeia o barulho: "Tá-tá tá tá tá tá tá . você não pega nesse bicho aí! "Ele abriu.. não tem fósforo. tudinho também aqui na cara.

"Cabeças cortadas do povo da mata. "Quando deu três horas. Cabeças cortadas também foi assunto de vários relatos. quem é que não conhece o ronco da "pretinha da viuvinha"? Falei pra minha mulher: . um dia eu ia batizar uma criança e. Nesse sentido. que tinha lá um negócio enrolado. De um modo geral. vai ter canguela. aqueles que serviam como guias e batedores deveriam participar de tais atos de violência. que era pra ajudar o Exército e a polícia.uma das estradas operacionais abertas pelas Forças Armadas.30 Os efeitos da assistência social promovida pelas Forças Armadas. Amanhã cedo tenho que batizar uma criança". foram sentidos nas cidades. 9 a 15/7/79 . Aí gritaram: 30 Ver. mas a "necessidade" do Exército em manter acesa a idéia de que prováveis terroristas seriam sempre combatidos em armas. como prova de que não estavam envolvidos com os guerrilheiros. onde somente foram distribuídas terras a quem serviu ao Exército como guia: "Lá na Palestina.Assistência Cívico-Social. ex-guia do Exército e morador da OP-3 . no dia antes. Foi o que aconteceu com Alexandre Oliveira. em anexo. base militar das Forças Armadas na Transamazônica.Velha. veio um senhor me chamar. Mas quando deu 11 horas da noite eu disse: "Vocês vão me desculpar mas eu tenho que ir embora." Movimento. parece que havia a preocupação de deixar claro que a violência que se aplicava aos rebeldes deveria convencer pela crueldade aos camponeses que por ventura esboçassem qualquer forma de apoio aos guerrilheiros. foi um truuuum.116 na região que também foram enterrados guerrilheiros na cabeceira da pista de pouso da fazenda Bacaba. a ACISO . fez com que mesmo no fim da guerrilha a violência continuasse atingindo os camponeses.

Agora. pra fora. outro do outro lado. assim. Apanhei a lamparina. e cumprimentei ele s. seu terrorista! E eu disse: . veja o senhor. abri a porta e botei o pé. Era pau comendo solto.Que boa noite o quê. um de um lado da porta. botei em cima da mesa. "E foi "plan" aqui no meu peito.Alexandre Oliveira E eu digo: .. que fazia "toim". Isso já foi em 74.. Tinha um sargento e outro sujeito da polícia. me jogaram dentro da C-10 e foram buscar outros.117 . passaram uma vara no meio e me penduraram de cabeça para baixo. 1979: 71 e 72) . presente! "Me mandaram sair para fora. Foram diretinho pra mata como quem vai matar terrorista. sem tomar uma xícara de café nem dar uma pitadinha sequer num fumo.Ter.. Me amarraram com as mãos cruzadas com os pés. Sei que me deram um monte de pancada. Isso era três horas da manhã e foram soltar a gente às duas e meia da tarde.)." (Dória.. não. (. Depois chegava outro e dava duas bofetadas de mãos juntas no ouvido. Volta e meia vinha um e dava botinada nas costas que a gente chegava a dar a volta por cima. que eu fui bater lá longe na parede.Pronto. "Queriam que a gente dissesse que tava sustentando terrorista. Eu tava só de calçãozinho. Não levaram a gente pra base. Aí o sargento disse: . Aí eles me pegaram pelas mãos e pelos pés e me sacudiram. a gente mal tinha pra forrar o estômago e ia lá ter jeito de sustentar os outros.

em nível nacional. Panfletagem . Mas a censura severa sobre os meios de comunicação impediu que houvesse. pois que. o PCdoB preferiu. o PCdoB pretendia torná-lo um grande acontecimento. ao longo desse período. também ameaçados e considerados "traidores". grandes aviões. Primeiro foi a publicação na revista SEDOC. tendo sido distribuído nas redações de jornais.para uma multidão de analfabetos .118 Em meio aos combates os camponeses foram disputados tanto pelas Forças Armadas quanto pelos guerrilheiros do PCdoB. O tablóid e possuía uma média de 15 páginas e era distribuído pelo correio. executavam a mesma função: abrir espaços para a grande propriedade.foi um dos artifícios usados pelas Forças Armadas. armas automáticas. Depois. . essa novidade se apresentou como instrumento de tortura . tendo sido por isso castigados quando negavam qualquer tipo de ajuda. de 1973 até o início de 1975. que não diferiam muito um do outro. porém duas únicas exceções sobre fatos que envolvem a guerrilha que foram divulgados nesse período. e em qualquer dos casos. sobre a prisão e a tortura de clérigos acusados de colaborar com os guerrilheiros. assistência social do Estado. "traidores da pátria". o autoritarismo do Estado. Divulgando os acontecimentos do Araguaia. publicou informações sobre as unidades militares que se encontravam em operação no Araguaia.e a grande estrada (a Transamazônica) com os grileiros e o INCRA. qualquer informação veiculada que falasse sobre a movimentação de tropas federais e o combate a guerrilheiros no Sudeste do Pará. instabilidades políticas para a sustentação dos governos militares. O jornal O Araguaia procurou desempenhar esse papel. Os camponeses tiveram que utilizar identidades especiais que os autorizavam a transitar pela Transamazônica conheceram novidades como. em 24 de setembro do mesmo ano o jornal O Estado de São Paulo . criando assim.para alguns. o discurso: o de camponeses agredidos pela violência sem motivos do Estado. Há. que questionasse. acima de tudo. eletricidade . os jagunços para os primeiros e o Exército e a polícia para o último. informativo da CNBB. em agosto de 1972. helicópteros. Os militares também proferiram seu discurso: tratava-se de "terroristas".

Depois de intenso tiroteio. mas um dos combatentes perde a vida: Bergson. Osvaldo e outro companheiro defrontam-se com um grupo do Exército numa picada de Santa Cruz. e uma patrulha do 2º Batalhão de Infantaria da Selva de Belém. o resumo das campanhas. em seguida. Trava-se tiroteio e um soldado tomba gravemente ferido. Um sargento é morto e um soldado ferido. um sargento pára-quedista é gravemente ferido. prevaleceu a versão da "dispersão temporária da guerrilha"31 . 31 Ver em anexo o documento "Gloriosa jornada de luta". do Rio de Janeiro. No entanto. que mais tarde passou a integrar os relatos do "Diário da Guerrilha do Araguaia". por não chegarem ao grande público leitor de jornais não cumpriam seus objetivos iniciais. publicado no nº 7 de O Araguaia: Primeira Campanha "O primeiro choque ocorre com integrantes do Destacamento B. Em fins de abril. e em seu último número foi publicado um resumo das três campanhas empreendidas pelas Forças Armadas. O lavrador que servia de guia aos pára-quedistas foi acus ado de conivência com os guerrilheiros. que devido ao fato de não ter sido assumido de imediato pelo PCdoB a derrota das forças guerrilheiras para os militares. do Destacamento C. Antes de morrer. um grupo dirigido por Bergson. "Em maio.119 As informações veiculadas pelo jornal O Araguaia. cinco guerrilheiros chefiados por Paulo Rodrigues caem numa emboscada. porém. atinge um tenente do Corpo de Pára-quedistas do Exército. Acrescentamos. . alguns detalhes da guerrilha ficaram registrados. "Em meados de maio ocorre um choque no mato entre um grupo de pára-quedistas. acampa num lugar chamado Água Bonita. Conseguem escapar. "Dias depois. Deve -se notar.

Três dias depois voltariam para apanhá-la. que vinha com outro capanga. No tiroteio. dirigidos por "Mundico" (Rosalino). Ele não agüentara a caminhada que fazia devido a uma fístula de leishmaniose na perna. João Carlos é atingido por duas balas. três do Destacamento pediram a um conhecido. Recebe um tiro.120 "Na primeira quinzena de junho. levam-no a um centro chamado Abóbora e o matam. . É comandada por Paulo Rodrigues. "O Exército pensava liquidar os rebeldes numa rápida investida. acamparam a uns 200 metros. do Destacamento C. chefiado por João Carlos. Fracassou. estrebucha no chão. Fazem propaganda para os peões e empregados do castanhal. uma na perna. Retirou-se para as cidades próximas. O administrador é intimado a entregar as mercadorias. encontra-se com uma patrulha do Exército. defrontam-se na mata com um b ate-pau. Coioió. Pela manhã. Objetivo: conseguir gêneros alimentícios.000 cruzeiros por guerrilheiro morto. próximo da Grota Vermelha. Ele propalava que o Exército lhe oferecera 1. foi descoberto e acabou sendo morto pelo Exército. Foi preparar nova ofensiva”. "Três do Destacamento C. querosene e pilha para lanterna. o combatente Quelé (Kleber). "Também em princípios de julho. "Mas Idalício. que se perdera do grupo. "Ainda em julho. o Destacamento C realiza uma operação contra a sede de um castanhal. outra na coxa. Rosalino grita-lhe "mãos ao alto!" Rapidamente. "Em fins de junho. mas consegue recuperar-se na mata. que lhes fizesse uma pequena compra em São Geraldo. é localizado e preso. Uma noite antes do dia marcado. aproximam-se. o bate-pau saca a arma. Dominam os vigias. que leva um tiro a 30 metros da casa. um grupo do Destacamento B. À frente vai Maria Lúcia.

Desde então o Destacamento A leva seu nome. cai a jovem guerrilheira Elenira Resende de Souza Nazaré. Recrutam bate-paus. Chaves . dia 20 de setembro.121 Segunda Campanha "Em setembro de 72. num local denominado Porto Franco. ex-dirigente da UNE. as Forças Armadas voltam com oito a dez mil homens sob o comando dos generais Viana Moog e Antônio Bandeira. num encontro casual. Em Xambioá. Confunde algumas pessoas na selva com companheiros . noutro encontro com o Exército. "Guerrilheiros do Destacamento B preparam uma emboscada contra o inimigo numa picada que vai para Santa Cruz. Ali aplicam-lhe torturas e matam-no.já idoso.bancário. E se retiram sem baixas. As tropas ocupam estradas. ex-marinheiro. No encontro. do Destacamento C. Matam um soldado. Utilizam helicópteros e aviões. vinha do movimento aliancista de 35. Distribuem boletins afirmando que "era inútil prosseguir". sedes de castanhais. Num instante. "Tombam também. "No dia 29. onde encerram os suspeitos. recebem ordem de "Rendam-se". cercado de arame farpado. "Cinco guerrilheiros. morre Cazuza. fazendas. Abrem picadas no mato. Levam-no para São Geraldo. o geólogo Antônio é gravemente ferido. sob a direção de João Carlos. Flávio responde com um tiro que atinge um soldado. cavam um enorme fosso. "No seus. roças e a aldeia dos índios Suruí. Vítor .

Dormem ao relento. Morrem João Carlos. o grupo de João Carlos é atacado de surpresa. "Durante a campanha. poucos animais captura. Quem não a possui é detido e interrogado. na região de Caiano. Valquíria. nessa ocasião. O Exército aumenta seus efetivos na Amazônia. abarca uma área de 6. pequeno mosquito vetor da leishmaniose] persegue sem descanso todos os mortais. Mariadina. Sob o comando de Osvaldo. o Exército teve. a vida dos combatentes e do povo não é fácil. "Enquanto isso. Sônia. Se a tropa anda por perto. onde a tatuquira [flebotomus . "No dia 30.. Cabe ressaltar o papel das mulheres. da Capingo (Capim Goiás). Flávio e Gil.) Abrem-se estradas dentro da zona guerrilheira que. Áurea. conhecido pelos crimes praticados contra os lavradores. Lia. A situação se agrava se ele está enfermo. (. procurando local apropriado para uma emboscada. precisa de mais cautela ao apanhar água nas grotas. Cristina. são vistos pela tropa. perto da casa de um lavrador. "A preparação vai durar quase um ano: até outubro de 1973. . Faz grandes caminhadas a pé para estabelecer contatos ou buscar informações. Tuca.. "Em fins de outubro. Sem poder utilizar arma nem cachorro pra caçar. Os trabalhadores locais recebem uma carteira especial de identificação. Rosa e Maria Lúcia. Dina. Sueli. Faz-se um julgamento sumário e ali mesmo Pedro Mineiro é fuzilado. o Destacamento B realiza uma operação contra o grileiro Pedro Mineiro. o Destacamento prende o grileiro. escapam. Até acender o fogo constitui tarefa trabalhosa.122 "Zé Carlos e Nunes. mais uma vez. Elenira.500 quilômetros quadrados. dentro da mata. que se retirar da área guerrilheira. Perseguidos. em março de 1973. Protege a munição da chuva e cuida que a umidade não estrague a arma.

Apreendem seis fuzis. como que tentando cortar possível retirada dos guerrilheiros. Nemer é posto em liberdade e advertido. incluindo pequenos comerciantes. também grileiro. grande número de mateiros e rastreadores. Nemer. . remédios. Dispõem de meios rápidos de comunicação. inicia -se a terceira campanha. o Destacamento C realiza uma operação contra a casa comercial do paulista Nemer Kouri. Suas patrulhas de penetração na floresta portam metralhadoras leves e fuzis FAL. roças e sedes de castanhais. em forma de arco. munições. roupas e revólveres. Aviões e helicópteros participam da Operação. Dentro da zona. tinha posto sua fazenda à disposição do Exército e ajudou na prisão de "Geraldo" (Genuíno). Calcula -se de cinco a seis mil os efetivos empregados. Prendem mais de mil pessoas.123 "Em agosto. "A primeira parte da ofensiva é contra os moradores. os barracos são incendiados. Apreendem alimentos. secundado por Nunes. Onde as tropas não encontram moradores. Deixam os soldados só de calção. o Destacamento A realiza uma operação contra o Posto da Polícia Militar em plena Transamazônica. um revólver. Alfredo e mais sete. Traz não somente recrutas. "Na segunda quinzena de setembro. mas tropas especializadas e bem treinadas em luta na selva. estabelece bases de apoio nas fazendas." Terceira Campanha "A 7 de outubro de 1973. no entroncamento para São Domingos das Latas. O Exército ocupa diversas localidades e planta-se em vários pontos da mata. religiosos e até mesmo fazendeiros. O ataque é comandado por Zé Carlos.

Há intenso tiroteio. Mas os soldados não passam pelo local escolhido. "Nelito e seu grupo. dirigidos por Ari. Zé Carlos. preparam uma emboscada contra as tropas.124 "Os guerrilheiros estão mal calçados. limpam e quando vão retirar-se são metralhados. Distribuem suas forças para defender-se da ofensiva inimiga. "Dia 24. "Dia Matam um soldado. 21 de novembro. "Osvaldo e mais 10 organizam também uma emboscada. "Um grupo de três guerrilheiros. Alfredo havia insistido em que o grupo fosse a uma roça apanhar dois porcos. três guerrilheiros do Destacamento C fustigam uma tropa que passava na estrada de São Geraldo. Pegam os porcos. o Destacamento Elenira Resende sofre outra baixa: Sônia. Sabe-se que o Exército desde o dia 7 tinha ocupado a roça. Vão então para a Transamazônica tentar destruir uma ponte. matam. Permanecem mais de uma semana no local. Zé Carlos considera a ação perigosa. Alfredo. ao ir a um encontro na mata. com a participação de vários moradores. "Dia 24. . Mas têm o apoio dos moradores. realiza uma missão de fustigamento nas proximidades de Franco. Seu corpo é achado sem cabeça. plásticos para se abrigarem da chuva. Ari é atingido por uma bala próximo de uma grota. Nunes e Zebão morrem num encontro com o inimigo. mas os soldados retornam porque terminou o alimento que levavam. "Dia 14 de outubro. Faltam-lhes roupa.

125 "Em São Félix. todo o esquema do PCdoB montado para a eclosão da luta armada no Araguaia. tornavam radicalmente nova a ordem social que ali se desenvolvera. Na Belém-Brasília entraram num ônibus e falaram aos passageiros sobre os acontecimentos da mata. resolvendo os conflitos de terras e investigando sobre prováveis "guerrilheiros disfarçados" entre os camponeses. sob a forma indireta de eleições. já se encontrava desfeito. uma coluna de 20 guerrilheiros aproxima-se do refúgio do Destacamento Elenira Resende. os guerrilheiros tomaram o cartório e queimaram todos os papéis de títulos de terras. A realidade social do Sudeste do Pará então. um movimento em direção à dissolução da ordem social anterior. mas as Forças Armadas permaneciam em alerta." (Dória. a presença do Estado. encontrava-se alterada de tal maneira. e a região passou a contar com a presença de batalhões do Exército. que se deixavam identificar pela falta de colaboração ou pelas críticas dirigidas ao Estado. que seria inconcebível falar em volta à situação anterior. mesmo que nessa ordem ainda houvesse espaço para as velhas oligarquias regionais.51 e 52) Em 1975. principalmente do Exército e do capital estrangeiro. bairro de Marabá. da economia castanheira. quando se iniciou a guerrilha. Transformado em Área de Segurança Nacional o município de Marabá passou a receber prefeitos vindos diretamente dos quartéis do Exército. especializados em combates na selva. "Dia 28 de dezembro. mas também porque já se encontrava em curso. agravada pela construção da Transamazônica. 1979: 50. Altamira e Imperatriz. São cercados por tropas. . Entre eles está Maurício Grabois. n ão somente porque a guerrilha e os guerrilheiros tenderam a mudá-la. Há intenso tiroteio. em Marabá. e após a guerrilha. Já não há mais a realidade social anterior.

e suas . o Curió. No entanto. na fazenda Bacaba. com seus codinomes . Alguns deles têm a identificação facilitada principalmente pelo fato de terem sobrevivido aos combates. as peculiaridades da guerrilha criaram certas circunstâncias que tornaram bastante complexa a identificação daqueles que morreram em combate. na Metade e da Transamazônica. por negar e/ou dar por inexistentes os combates contra os guerrilheiros. Posteriormente retirados. é comum encontrar pessoas na região que. não há informações seguras sobre sua localização ou possibilidades de identificação de corpos. Para a grande maioria das populações das cidades. Nas decisões que envolviam os governos estaduais ou federais e até mesmo junto aos ex. Primeiro porque o Exército Brasileiro. apesar de terem vivido esse período. como camponeses. De outro modo.e dos militares mortos em combate também . o que os torna visíveis narradores de sua própria história. retribuindo com a prisão de qualquer pessoa que aparecesse na região fazendo perguntas sobre o período da guerrilha e sobre os guerrilheiros. Seus corpos foram enterrados em sua maioria próximos às bases militares da estrada Operacional 3. Mas a violência e o "terror" permaneceram o suficiente para que o fim da guerrilha não lhes fosse correspondente. lugarejos e da zona rural tratou-se de um tempo de muita violência onde o seu começo e a sua intenção podem ser demarcados claramente: o combate aos "terroristas".guias que receberam terras ao longo das estradas operacionais abertas pelo Exército e que recebiam das mãos do major Curió remédios da CEME . Seguindo as indagações necessárias para narrar tais fatos nos colocamos agora na difícil tarefa de identificar seus personagens.126 A autoridade inconteste do major Sebastião Rodrigues de Moura. Os guerrilheiros vivem na memória de seus vizinhos.vinculada a qualquer das versões .sobre a guerrilha e os guerrilheiros. não forneceu até hoje qualquer explicação satisfatória sobre o paradeiro dos corpos dos guerrilheiros . no km 68. não possuem qualquer informação .poucos conhecem suas verdadeiras intenções e identidades.sob a alegação de que haviam sido comprados com o seu próprio dinheiro -. se percebia em quaisquer assuntos.

Por fim. Identificados os personagens trataremos de relacioná-los com os fatos que se referem à guerrilha propriamente dita. procuramos identificar as principais versões. tem então não somente a função de resgatá. durante o percurso a que nos propomos trilhar.este confuso emaranhado de nomes. uma composição que não aceita integralmente aquelas anteriores. Através da crítica e da consideração de que partimos de determinados pressupostos para analisar as versões e os fatos.o quanto puder . Os fatos que procuramos abordar neste estudo têm. Enquanto cumprimos a tarefa acima proposta sabemos. portanto. sempre os tratou pelos codinomes em todos os documentos em que se referiam aos guerrilheiros do Araguaia. será este o nosso segundo passo. o que não poderá por extensão significar que tivemos mais segurança em nossas afirmações. mas também desembaraçar . Sendo assim. sabemos que construímos. várias fontes de referência. o povo da região que conviveu com os guerrilheiros sabe – foi o caso de alguns entrevistados – apenas dos nomes por eles adotados na região. se não uma nova versão.los à história.127 identificações. Cremos que estamos tratando de fatos que por motivos óbvios foram esquecidos ou apenas superficialmente tratados em nossa historiografia. Depois. . Por fim. A maioria da bibliografia encontrada sobre o assunto trata-se de obra de cunho jornalístico. criticando-as onde nos pareceu conveniente. o Partido Comunista do Brasil. A tarefa de identificá-los. não estamos apenas apresentando as versões que previamente identificamos da guerrilha.

Dória. André chegou na região do Araguaia após o natal de 1967 e foi morar na região do sítio Faveira (ver 32 As fontes utilizadas para a coleta de informações sobre os guerrilheiros foram as seguintes: Arns. 1986. e Portela.128 5. 1979. Sobre Alfredo conseguimos apenas a informação de que se tratava de um camponês da região. formado em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. No entanto não nos foi possível identificar nem o nome nem o número deles. OS GUERRILHEIROS: ALGUNS NOMES Com bases em cinco fontes. s/d. ANDRÉ GRABOIS. Sobre Adriano. ADRIANO FONSECA FERNANDES FILHO. seguindo com os principais dados encontrados sobre eles32 . Algumas informações indicam que vários camponeses da região aderiram à guerrilha. 0. Maurício Grabois.7. ALFREDO. 1979. o único dado de sua participação na guerrilha que conseguimos encontrar foi o ano de seu "desaparecimento". devido a fragmentação que há sobre as informações que envolvem os acontecimentos. 2. foi funcionário do Superior Tribunal do Trabalho.los pelo nome. 1. e casado com Criméia Alice. procuramos identificar os principais personagens dessa história. que também participara da guerrilha. Berardo. Mineiro. . 1981. aquelas que representam um trabalho mais sistematizado sobre a Guerrilha do Araguaia. através de entrevistas e conversas informais com habitantes da região. As limitações que os autores dessas fontes encontraram não foram aqui totalmente superadas. Filho de um dos principais organizadores da guerrilha. que é 1973. Optamos por relacioná. PCdoB.

Seu nome é apenas citado como uma das mulheres que participou da guerrilha . foi assassinado em 1976.767. ANTÔNIO CARLOS MONTEIRO TEIXEIRA Antônio Carlos era geólogo inscrito no Ministério das Minas e Energias quando mudou-se para o sítio Caiano.129 mapa em anexo). esteve presente nos conflitos agrários ocorridos na região de Trombas e Formoso. 5. com 41 anos quando chegou à região e foi morar no sítio Caiano. 3. Metalúrgico. ANTÔNIO "ALFAIATE". 9. rua Pio XI. 4. André era conhecido na região pelos codinomes José Carlos e Zecarlos. pela polícia. foi dado como desaparecido em 1973. Companheiro de Dinalva Oliveira Teixeira. a comandar o Destacamento "A". Sobre Antônio "Alfaiate". 8. comandados pelo delegado Fleury. 6. em ação combinada com o Exército. passando após o início da guerrilha. no então Estado do Goiás. n. em São Paulo. o estudante paulista. a única informação que temos é que foi dado como desaparecido em 1974. Um velho integrante do PCdoB. Também sobre ele possuímos apenas a informação de que foi dado como desaparecido em 1973. ANTÔNIO DE PÁDUA COSTA. ex-presidente da União Estadual dos Estudantes Secundaristas. Foi dado como desaparecido em 1972. ANGELINA GONÇALVES. quando o Comitê Central do partido discutia as opiniões diversas que pairavam entre seus membros sobre a Guerrilha do Araguaia. ÂNGELO ARROIO. 7. no bairro da Lapa. Ainda militante do PCdoB e clandestino. . que nos anos 50. Conhecido na região como Ferreira. ANTÔNIO ALFREDO CAMPOS. Arroio era um dos dirigentes da Comissão Militar da guerrilha e conseguiu escapar ajudado por populares em 1973. Antônio foi morto em 1972 na zona da guerrilha. ANTÔNIO GUILHERME RIBEIRO RIBAS.

chegou por lá em fevereiro de 1969. Usando também o nome de Jorge. 16.ÁUREA ELISA PEREIRA VALADÃO. foi morto em 30 de setembro de 1973. 11. foi presa por participar do XXX Congresso da UNE. também guerrilheira. Era engenheiro eletrônico. tendo sido.130 10. Também foi dado como desaparecido em 1973. indo morar no sítio Caiano. 17. Ex-estudante de arquitetura no Rio de Janeiro. após sua captura. Áurea foi ex-campeã brasileira de natação. Conhecido na região como Ari. amarrado em uma árvore e torturado.por sua atuação no movimento estudantil. tendo sido morta em 1974 e até hoje dada como desaparecida.CRIMÉIA ALICE SCHMIDT DE ALMEIDA. Conhecido na região apenas por Flávio. no interior de São Paulo. 12. . Companheira de Arildo.BETO. A aluna da Escola de Enfermagem Ana Nery. juntamente com João Carlos Haas Sobrinho. Em 24 de novembro de 1873 Arildo foi morto em combate e seu corpo foi posteriormente encontrado sem a cabeça.em 64 . A fonte "Brasil: nunca mais" considera que sua morte tenha ocorrido em 1972. Após uma semana teve relaxada sua prisão e aguardou o julgamento em liberdade até que a decretação do AI-5 empurrou-a para a clandestinidade. em maio de 1972.ANTÔNIO TEODORO DE CASTRO. paulista de 22 anos. Foi para a guerrilha imediatamente após seu casamento com Áurea Elisa Pereira Valadão.ARILDO VALADÃO. É dado como desaparecido em 1973. 14. 13.CIRO FLÁVIO DE OLIVEIRA SALAZAR.BERGSON GURJÃO FARIAS. foi criada em Minas e é militante comunista desde os 15 anos. em Ibiúna. Em 1968. Bergson morou no sítio Gameleira. O ex-estudante de química e membro do DCE da Universidade Federal do Ceará foi o primeiro guerrilheiro a morrer. foi morar no sítio Gameleira. 15. Aos 17 respondeu a um IPM (Inquérito Policial Militar) . tendo com ele chegado em 1969.CILON DA CUNHA BRUN.

casada com o também guerrilheiro Wandick. ou Dina Baiana. 24. e ficou até 1972. . Dina. quando conseguiu fugir no final da primeira campanha do Exército. na região. a carioca Dinalva apresentava-se na região do sítio Caiano como professora e parteira. grávida do também guerrilheiro. era conhecida na região por Baiana. Daniel desapareceu em 1973. Conhecido também como João Araguaia. 20.CUSTÓDIO SARAIVA NETO.DANIEL RIBEIRO CALADO. Dinaelsa.131 Em janeiro de 1969 deixou o Rio de Janeiro em direção ao Araguaia. conseguiu sobreviver e trabalhou como médico sanitarista em Fortaleza. 22.DINALVA OLIVEIRA TEIXEIRA. juntamente com o também guerrilheiro Paulo Rodrigues. no barco Carajás. é dado como desaparecido em 1974. 21. Estudante cearense. era um operário que ao mudar-se para a região do sítio Caiano. Divino dado como desaparecido em 1973. Desaparecida em 1973.DEMERVAL SILVA PEREIRA. É dada como desaparecida em 1973. ou Dina Monteiro. também guerrilheiro. inscrita no Ministério das Minas e Energia como cientista.DOWER DE MORAES CAVALCANTI. André Grabois.DIVINO FERREIRA DE SOUZA. 19. Criméia hoje luta pela localização dos corpos dos guerrilheiros desaparecidos. para São Paulo. Também conhecido por Lauro. Morreu em 1994. 18. nome que usava na região. Dinalva era a geóloga.DINAELSA SOARES SANTANA COQUEIRO. passou a fazer comércio de barco. onde foi morar no sítio Faveira. O Doca. tendo sido presa. Sobrevivente. é dado como desaparecido em 1974. profissão comum na região. 23. Casada com Antônio Carlos Monteiro Teixeira.

Carioca." 28.GILBERTO OLÍMPIO MARIA. em novembro de 1976. então. pela sua idade de 60 anos.132 25. saíu do Ceará para São Paulo. 27. também conhecido por Gil ou Pedro. é dado como desaparecido em 1974. Morreu em combate em 29 de setembro de 1972 e sua base guerrilheira. mora em São Geraldo. 26. que esteve cumprindo na Penitenciária Feminina do Estado. Imperatirz MA. "Funcionária pública aposentada do Estado do Rio de Janeiro. Foi condenada a cinco anos de prisão e posteriormente o Superior Tribunal Militar reduziu a pena para três anos. Conhecido na região como Lourival. mas foi para o Araguaia. Francisco Chaves morreu na guerrilha em 20 de setembro de 1973. tendo desistido das suas funções revolucionárias para casar com uma moça da região. juntamente com outros militantes.FRANCISCO AMARO LINS . a mais notável delas (guerrilheiras). ficou conhecida na região como D. pelo roteiro Anápolis . adotou. Estudante e dirigente da UNE.Não participou da guerrilha.GO. na região do sítio Gameleira. é dado como desaparecido em 1973. Hoje. 29. e por estar quase sempre nos cenários das lutas. aparentemente para providenciar reforços e armas. de onde partiu para o Araguaia. Foi presa em São Paulo.FRANCISCO CHAVES.ELENIRA REZENDE DE SOUZA NAZARÉ. 30. pertencia à direção do PCdoB e fazia parte do setor estratégico.marinheiro e líder comunista que vinha do movimento aliancista de 1935. que partira do sítio Faveira.ELZA DE LIMA MONNERAT. sendo anistiada. São João do Araguaia .ELMO CORREA. Saiu do campo de ação em dezembro de 1973. onde foi morar. 31. em meados de . o seu nome. Maria tendo chegado ao sítio Faveira em 25 de dezembro de 1967. Elenira era conhecida na região por Fátima.PA.GLÊNIO FERNANDES DE SÁ. Ex. Nascido no Rio Grande do Norte em 1950. Genro de Maurício Grabois. tendo se fixado na base do Gameleira.

)" (Berardo. cheguei à conclusão de que não posso aceitá. Na análise que fiz. onde ficou preso até o início de 1975. o mineiro Idalício foi morar com sua companheira Walquíria no sítio Gameleira. Glênio foi torturado em prisões militares em Xambioá. sendo preso por ajudantes (bate-paus) do Exército. em um ataque do Exército ao grupo de Maurício Grabois. foi para o sítio Faveira e desapareceu no dia de natal de 1973. pesei tudo (.IDALÍCIO SOARES ARANHA FILHO.. onde vagou por quase um mês. Brasília e no Rio de Janeiro.. Glênio Sá morreu em um acidente de automóvel. sabemos apenas que foi dado como desaparecido em 1974..chegou a comer animais crus na selva .. na região do rio Saranzal. quando foi libertado sem acusações que remetessem ao movimento armado do Pará . Doente . para mim não vale o enquadramento dentro do esquema. A 2 de fevereiro de 1970...GUILHERME GOMES LUND. No final da primeira campanha de cerco e aniquilamento perdeu-se na mata.. para mim. Sobre Hélio. Guilherme escreveu uma carta aos pais onde dizia que "(. Araguaína. 34. Morreu em um confronto com o Exército em julho de 1972. 1981: 263) 33. E.. é preciso que encare seriamente a questão de nossa vida e a quem dedicá-la.como aconteceu com outros militantes presos. não posso largar tudo. No momento só há mesmo uma saída: transformar este país e o próprio governo que nos obriga a ela. (. como era conhecido na região o paulista Guilherme Lund. nascido em 1947.Glênio contraiu malária e leishmaniose .) Diante da situação atual. Em 1990.las. 32.) Sobre as propostas que me fizeram. (.HÉLIO LUIZ NAVARRO DE MAGALHÃES. . quando deixara sua casa.e faminto . quando concorria a uma vaga no Senado pelo PCdoB em seu estado natal.133 1970. Cada vez se torna mais difícil para os jovens se manter nesse estado de coisas.). Minha decisão é firme e bem pensada. Ex-estudante de psicologia. seria atentar contra a minha consciência. Andei pensando bastante no assunto e cheguei a várias conclusões. essa consciência é algo de muita importância.ao reencontrar um povoado acabou caíndo em uma cilada. Luis.

beneficiado pela anistia. aos 28 anos João Carlos. 36. tendo desaparecido em 1974. aparecendo. como era conhecido na região. e lá ficou até que a preparação da guerrilha se visse ameaçada. Irmão de Maria Lúcia e de Lúcio.JOÃO AMAZONAS DE SOUZA PEDROSA. Era conhecida na região como Cristina. principalmente porque costumava não cobrar pelo seu trabalho ou aceitar em pagamento o que os camponeses lhes pudessem dar. . foi morar nas margens do rio Gameleira. Após deixar a guerrilha.134 35. Jaime é dado como desaparecido em 1973. 40. tornou-se um dos comandantes da guerrilha combatendo mesmo ferido (em julho) até setembro de 1973. Membro da Comissão Militar na guerrilha. o Juca. Médico gaúcho.JOÃO GUALBERTO. então Goiás.JANA MORONI BARROSO.JOCA. surgiram cartazes na região com fotos de "criminosos políticos". 39. Em 1970. 38. João Amazonas foi constituinte em 1946 pelo Partido Comunista Brasileiro e um dos principais líderes da cisão que deu origem ao PCdoB. Tendo se retirado para a base guerrilheira do sítio Caiano. tendo regressado ao Brasil em 23 de novembro de 1979. ao lado de Tocantinópolis. formado pela UFRS. entre eles. quando tombou em combate. em 1967. Ali. O velho Cid. 37. que também participaram da guerrilha. tornando-se um dos seus principais dirigentes.JAIME PETIT DA SILVA.depois de ter problemas com a polícia política do seu estado natal foi morar na cidade maranhense de Porto Franco. A única informação que possuímos sobre Gualberto foi o seu desaparecimento em 1973. Era um jovem operário metalúrgico que pertenceu a base guerrilheira do sítio Faveira.JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO. viveu na clandestinidade e exilou-se na Albânia. no Destacamento B dos guerrilheiros do Araguaia. a falta de assistência social por parte do Estado contribuiu para torná-lo muito querido.

morador do sítio Gameleira. 47. esportista. 45. Formado em Filosofia. morador do sítio Caiano.JOSÉ HUMBERTO BRONCA. Desaparecido em 1974. Era morador do sítio Faveira.o Estado nunca assumiu sua existência -. chegando a ser preso no Congresso da UNE realizado em Ibiúna.JOSÉ TOLEDO DE OLIVEIRA. equilibrista. o destacamento B. fora vice-comandante do Destacamento B e morreu em 1973. além de seu nome. tendo cumprido pena até 1977. foi morar na base do sítio Gameleira. acabou morrendo por enforcamento. Desaparecido em 1972. São Paulo. Após participar dos treinamentos de guerrilha.JOSÉ MAURÍLIO PATRÍCIO.LOURIVAL PAULINO. Estudande de 24 anos. em 1972. Membro da base do sítio Faveira era um jovem de 22 anos. Não há mais informações. Gaúcho. foi preso em princípios de julho de 1972 na localidade de Abóbora. tendo sido amarrado. quando foi cassado pelo Decreto Lei 477. em 14 de abril de 1972. 42.JOSÉ GENOÍNO NETO. Genoíno fora presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade do Ceará e um dos dirigentes da UNE.LANDIM.JOSÉ CARLOS. Tendo ido em 1970 para a região. Zeca. Genoíno fora preso assim que as Forças Armadas chegaram à região. 43.135 41. . mecânico da Varig. e condenado em tribunal militar sobre acusações que não incluíam a participação na Guerrilha do Araguaia . 48. Desaparecido em 1973. Genoíno foi torturado em Brasília. Depois de preso.KLÉBER LEMOS DA SILVA. Geraldo era o seu codinome.JOSÉ DE LIMA PIAUHY DOURADO. 44. 50. 49. 46. Quelé. Um camponês da região que se uniu aos guerrilheiros e depois de capturado. em maio de 1972.LÍBERO GIANCARLO CASTIGLIA. chegou a iniciar o curso de Direito. arrastado em um burro e morto a golpes de baionetas.

LÚCIA MARIA DE SOUZA. Cazuza. morto em 1974. onde começou a preparar a guerrilha. Desaparecido em 1974.MANUEL JOSÉ MURCHIS. morto em 20 de outubro de 1972. irmã de Jaime e Lúcio. 53. 54. Apesar de sexagenário Maurício Grabois integrou a guerrilha.MIGUEL PEREIRA DOS SANTOS. 59. . além de seu nome. Depois de morta. na primeira quinzena de junho de 1972.136 51. Não há mais informações.LÚCIO PETIT DA SILVA. Morreu durante a primeira campanha. provavelmente. teve seu corpo violado.MARIA CLÉLIA CORREIA. mineira.MARIA LÚCIA PETIT DA SILVA. 56. Conhecida na região por Rosa é dada por desaparecida em 1974. fazendo parte da Comissão Militar. tendo morrido. Maurício Grabois foi deputado da Assembléia Constituinte de 1946. Transferindo-se para a região do Araguaia. 58. 57. Velho militante do Partido Comunista. Árduo defensor da luta armada foi tradutor de obras de Che Guevara e membro dissidente do Partido Comunista do Brasil.MARIADINA. chegou no sítio Faveira em 25 de dezembro de 1967. Desaparecida em 1973. Estudante secundarista. Ex-estudante de arquitetura. morador do sítio Gameleira. Guerrilheiro pertencente à base do sítio Gameleira. 55. Maria Lúcia foi para a base do sítio Caiano.LUIZ RENÊ SILVEIRA E SILVA. Conhecida na região por Sônia era estudante de medicina que fora criada em asilo.LUÍZA AUGUSTA GARLIPPE. Moradora do sítio Faveira foi ferida e baleou o major Curió. desaparecido em 1972. 60. tendo sido fuzilada em 1973.MAURÍCIO GRABOIS. em 1973. 52. em um ataque dos pára-quedistas do Exército.

indo viver em seguida em Araguatins. 66. o Osvaldão chegou à região do Araguaia em 1966.OSVALDO ORLANDO DA COSTA. Não há mais informações. quando explorou garimpo em Itamirim.PEDRO ALEXANDRINO DE OLIVEIRA. ferido.PAULO MENDES RODRÍGUES. tendo sob seu comando 23 companheiros. Conhecido na região como Amaury. Um dos primeiros a chegar na região. 62.ORLANDO MORMENTE. Mineiro de Passa Quatro. Respeitado por seus companheiros e pelos camponeses da região.PA/Aruanã . sua pontaria e seus quase dois metros de altura. na Escola Nacional da Thecoslováquia.PAULO ROBERTO PEREIRA MARQUES. a 21 km de Brejo Grande. Morador do sítio Faveira.NUNES. Nascido a 27 de abril de 1978 tem curso no Centro Preparatório de Oficiais da Reserva . Moardor do sítio Caiano.CPOR. 63. foi comandante após o início da guerrilha. morreu em 1974. tendo morrido em 1973. destacava -se por sua bondade. Em maio/junho de 1974. com malária. quando viveu como vendedor ambulante em um pequeno barco. Na base guerrilheira do Gameleira. Não há mais informações. Osvaldão foi morto por um tiro de espingarda na fazenda Consolação. com curso de engenharia e fora jogador de basquete no Botafogo do Rio de Janeiro.137 61. próximo a São Geraldo .GO. Desaparecido em 1974. o ex-bancário mineiro Paulo Rodrigues era morador do sítio Gameleira e foi dado como desaparecido em 1973. 68.NELITO.NELSON DE LIMA PIAUHY DOURADO. 65. próximo a São Domingos. além de seu nome. para onde fora em 1970. 64. o gaúcho de 33 anos Paulo Mendes conheceu quase toda a região pelo rio Araguaia. chefiou esse destacamento. . 67. Morador do sítio Caiano.

perfurada com mais de 100 balas. Desaparecido em 1974. quando participava de uma reunião do partido. Conhecido como Valdir.TUCA.ROSALINO SOUZA. foi dado como desaparecido em 1973. na rua Pio XI.TELMA CORREIA.TOBIAS PEREIRA JUNIOR. paulista. 72.138 69. de onde se retirou.RODOLFO DE CARVALHO FRIOANO.SELINA REGINA CORDEIRO CORRÊA. Morador do sítio Caiano. 78. Quando fora morar no sítio Caiano o bancário Vítor já havia sido preso e torturado no Rio de Janeiro. 75.PEDRO VENTURA FELIPPE DE ARAÚJO POMAR. tendo sido assassinado em 1976. que reorganizou o PCdoB e membro da Comissão Militar da Guerrilha do Araguaia. Moradora do sítio Gameleira. nascido em 1913. onde era conhecida por Lia. deputado Constituinte de 1946. em São Paulo. 77.WANDICK (ou wadick) REIDNES PEREIRA. 73. era enfermeira. no bairro da Lapa. Casado com Dinalva. . foi aliancista de 1935. estudante de Letras de 22 anos. 71. um dos dirigentes do "racha" de 1962. Desaparecido em 1974. Moradora do sítio Gameleira.SUELY YOMIKO KANAYAMA. Paraense de Óbid os. foi dada como desaparecida (sem data). 79. Mundico ou Baiano. pertenceu ao destacamento C (Caiano) e foi dado como desaparecido em 1973. 76.UIRAÇU DE ASSIS BATISTA. Desaparecida em 1974. morou no sítio Gameleira e foi morta em 1974. Nissei. 74. 70. também era conhecido por João do B e Baiano.VÍTOR. foi dado como desaparecido em 1974.

82. Morador do sítio Gameleira. foi morta em 1974. Moradora do sítio Gameleira. 84. 81.ZEZINHO ARMEIRO.ZECARLOS.WALQUÍRIA AFONSO COSTA ou WALQUÍRIA SOARES ARANHA. 83. Não há nenhuma informação. além do nome.ZÉLIA MAGALHÃES.DANILO CARNEIRO (vive hoje no Recife)??? .139 80. companheira de Idalício. Morador do sítio Faveira.

empreendido pelas esquerdas que de algum modo pôs-se em prática. defendeu a "guerra popular prolongada". . embora daí servindo-se apenas da idéia da utilização dos recursos bélicos fornecidos pela própria região – para facilitar a adesão dos camponeses – o que se revelou estrategicamente ineficaz. a guerrilha do PCdoB mostrou-se bastante diferenciada dos outros movimentos armados do período. CONCLUSÃO A Guerrilha do Araguaia enquanto movimento armado contra o Estado autoritário distingue-se de outros ocorridos no mesmo período por vários fatores. ainda. apesar de que. pois não devemos esquecer que o principal objetivo estabelecido pelas tendências que empreenderam ações armadas nas cidades era o financiamento da luta no campo. De um modo geral. propugnava uma forma diferenciada de luta em relação às outras tendências de esquerda. essa demora causou certa aflição entre alguns militantes que por esse motivo. posto que se puseram a enfrentar um exército utilizando armas de caça. esta. o que manteve o partido distanciado das manifestações radicais da segunda metade dos anos 60 – limitando-se ao trabalho de formação de quadros. acabaram por abandonar o partido. não pode ser estabelecido apenas no âmbito da diferenciação entre "guerrilha urbana" e "guerrilha rural". Isso. aderindo às táticas maoístas. contou com um longo período de preparação.140 6. principalmente no meio estudantil – reduzindo suas baixas em relação às outras tendências que defendiam a luta armada e proporcionando relativa facilidade no recrutamento dos futuros guerrilheiros. Foi o único movimento armado no campo. porém. Enquanto estas defendiam o "foquismo" como a principal característica da guerra revolucionária o PCdoB.

Sem confirmar oficialmente a ação das Forças Armadas e ao mesmo tempo sem possibilidades de esconder acontecimentos que mobilizaram um grande contingente por muito tempo. 33 Há. podemos concluir que para o Estado a Guerrilha do Araguaia é um fato histórico que existe para não ser dito. como ocorreu com a guerrilha do Chê na Bolívia (Gorender. 33 Luís Mir indica essa tendência mesmo na ALN. seus formuladores e seus silêncios são os objetivos aos quais nos propomos ao realizar este trabalho. principalmente o da vigilância que o Exército ainda faz na região. para ser relegado à condição de "silêncio". Sem negar por completo os acontecimentos. (Mir. Durante todo o tempo em que esteve em vigor à ação censória. o interesse pelo silêncio por parte do Estado poderia ser explicado. inclusive em Marabá. devido a intenção dos militares de evitar que sua divulgação de alguma forma tivesse ameaçado a sobrevivência do Estado. chegando mesmo a pretender o silêncio sobre todos os acontecimentos relacionados à luta armada no Araguaia – é o que propõe o Estado. Mas essa explicação somente se justifica para o período em que as Forças Armadas combatiam os militantes do PCdoB. Identificar as versões. o Estado fez de tudo para silenciar os acontecimentos da luta armada no Sudeste do Pará. sentimos que ainda recaíalhes o medo. que chegou a possuir vários sítios para o treinamento militar e casas comerciais pelo interior. porém um outro fator que distingue a Guerrilha do Araguaia dos outros movimentos armados do período: as versões elaboradas ao longo e após os acontecimentos pelos seus dois lados procuram de alguma forma silenciar fatos e nomes. Com tudo isso.141 defendida – mesmo que de forma diferenciada – por todas as correntes de esquerda que defendiam a luta armada. o Estado autoritário valeu-se da censura sobre a Guerrilha do Araguaia. 1994) . a versão do Estado se apresenta através do silêncio que tenta impor aos acontecimentos. tomando depoimento de pessoas da região que se envolveram com os acontecimentos da guerrilha (julho de 93). segundo Jacob Gorender. 1987). Neste percurso. Como explicar a ameaça e tortura que recaiu sobre os camponeses que informaram a jornalistas sobre os acontecimentos? Enquanto fazíamos nossa pesquisa de campo.

É o caso de "Gloriosa jornada de luta". não somente a ação armada não fora organizada pelo partido. nem sempre bem esclarecida (nesta versão). em setembro de 1976. nos termos que estabelecemos no capítulo terceiro. a determinação do partido em estabelecer o combate com a finalidade de derrubar a ordem social vigente. Alguns documentos produzidos pelo próprio partido apresentam sempre as características citadas acima. de caráter popular e espontâneo. apenas contribuiu para intensificar a resistência dos camponeses que foram atacados pelo Exército. Da forma estabelecida acima pelo partido para explicar a luta armada no Araguaia. Obviamente. que fora organizada pelos posseiros da região e que não contou com o planejamento prévio e o financiamento do partido. a sua presença se limitava ao fato de alguns guerrilheiros possuírem algum tipo de vinculação com o partido. assegura que estes acontecimentos estão relacionados com a luta pela terra. como o da preparação de militantes para o combate na selva. mas ao mesmo tempo. o artigo afirma que "os moradores mais resolutos resolveram revidar à violência reacionária ”. como o seu caráter fica vinculado à luta pela terra. n. ou seja. segundo essa versão. apesar de sua participação ativa. o trabalho do militante na região como formador de quadros para o partido e não como posseiro que reagiu à grilagem. 34 "Gloriosa jornada de luta". não esclarecendo ou admitindo intenções revolucionárias socialistas. 34 Nesse artigo o Partido Comunista do Brasil admite sua participação nessa "gloriosa jornada". não podemos deixar de observar que o caráter da revolução preconizado pelos militantes comunistas do PCdoB é "democrático-burguês". . que pretendia derrubar o Estado. formam-se "silêncios". contra a ação dos grileiros. Em todos os escritos do partido que se referiam à luta no Araguaia. Ver artigo em anexo. 109. Dessa forma. a presença de militantes do partido. Assim. um artigo publicado no jornal "A classe operária". sob o "pretexto de combater a subversão".142 Para o PCdoB. o silêncio pairou sobre a responsabilidade da ação armada. Reforçando essa teoria. Isso representa dizer que o partido compreendia a Guerrilha do Araguaia como uma luta de cunho "revolucionário".

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A "vitória" da luta armada no Araguaia é outro ponto do discurso do PCdoB sobre a Guerrilha do Araguaia que silencia sobre a completa derrota dos guerrilheiros. Nesse ponto, o partido admite a derrota militar do movimento armado e atribui tal derrota a erros táticos, mas considera que os seus frutos foram bastante satisfatórios, o suficiente para transformar-se em vitória. Dentre os aspectos que configuram a vitória estão a formulação da "idéia da revolução no campo não apenas no sul do Pará, mas também nas áreas fronteiriças dos Estados de Mato Grosso, Goiás e Maranhão"; o fato de ter servido como "uma advertência e um brado de protesto contra a política criminosa dos militares na Amazônia" e de demonstrar que o a luta contra o Estado autoritário ainda persistia:
"Somente em março de 1975, e assim mesmo destorcendo os fatos, fizeram referência oficial aos acontecimentos: publicamente Geisel reconheceu a existência do movimento guerrilheiro, dizendo, porém, tê-lo "reduzido". A resistência armada veio mostrar que o movimento democrático e antiimperialista, embora temporariamente contido, continua se desenvolvendo, ganhando forças e adquirindo matur idade." (Pomar, 1980: 149)

A idéia de "derrota temporária" (ou vitória parcial) representa a interpretação no partido, do ideário socialista e revolucionário que difunde a idéia de "inevitabilidade" da derrota do capitalismo. Em se tratando da Guerrilha do Araguaia esse discurso estabelece contradições com a realidade, principalmente no que se refere ao aspecto militar. A idéia de vitória é, portanto anterior ao desenrolar dos acontecimentos e tende a permanecer independente dos resultados alcançados. Apesar de parecer deslocado do período em que as esquerdas procuraram reagir em armas contra o Estado autoritário, o movimento do PCdoB começou a ser preparado ainda na primeira metade da década de 60, ou seja, enquanto as outras tendências de esquerda ainda não haviam empunhado armas. A versão do PCdoB considera, como vimos acima, que a Guerrilha do Araguaia deu início ou impulso à luta pela terra na região do Araguaia, o que não nos parece

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uma afirmação válida, principalmente levando-se em consideração o desenvolvimento das relações sociais que já se existiam na região, antes mesmo de se estabelecer o movimento guerrilheiro, como demonstramos no primeiro capítulo e talvez tenha sido isso um dos fatores que contribuíram para que o partido optasse por essa região para implantar a "guerra popular prolongada". Ainda quanto aos outros motivos que explicam a "vitória" da guerrilha, a censura, como demonstrou em seguida o mesmo artigo, foi utilizada com eficiência pelo Estado para silenciar e evitar que ganhasse grandes dimensões os protestos e advertências do partido. Quanto aos motivos que levaram o partido a tais formulações, inferimos, principalmente no que se refere à ocultação dos verdadeiros nomes dos guerrilheiros, notadamente os sobreviventes, que se tratava de uma forma de preservá- los de reações do Estado, sob a forma judicial ou de qualquer outro modo. Mas, se esse motivo fosse aceito, estaria fatalmente limitado pelo tempo, quando em 1979 o Estado autoritário isentou as esquerdas do "crime" da luta revolucionária. Que motivos teria agora o PCdoB para dar continuidade à sua versão envolta de "silêncios"? Entretanto, não se pode deixar de evidenciar que apesar da grande deficiência técnica, principalmente no que se refere às armas, os guerrilheiros conseguiram resistir por dois anos aos ataques do Exército. O que explica isso são fatores que apesar de ressaltar a força e obstinação dos militantes guerrilheiros, não lhes pode conceder a pretendida vitória estabelecida pela versão do partido: a. a estratégia do Exército nas duas primeiras campanhas limitouse ao cerco e aniquilamento dos guerrilheiros através do uso de um grande contingente militar que não foi eficiente contra o pequeno número de guerrilheiros devido ao uso generalizado da violência – que atingiu também a população local – e a completa inexperiência em combate na selva dos militares recrutados. A mudança de estratégia das Forças Armadas, trazendo assistência social à população para contar com o seu apoio e utilizando pequenos grupos de especializados em combate na selva, como a

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brigada de pára-quedistas comandada pelo general Hugo Abreu resolveu a contenda em favor do Estado autoritário. b. os guerrilheiros estavam há muito tempo na região e a conheciam melhor que os militares, destacando-se na sobrevivência e movimentação na selva. c. não se pode esquecer a determinação dos guerrilheiros em resistir e lutar, enquanto os militares contavam com grande parte das tropas sem saber exatamente o faziam ali35.

Na região, cremos que os termos utilizados para identificar os militantes do PCdoB que lutaram no Araguaia, são elementos importantes para a apreensão das características das versões que se formaram. Os grupos sociais ligados às elites locais, assim como aqueles que conviveram e aceitaram o discurso do Estado os tratam por "terroristas"; os grupos sociais que conviveram diretamente com os guerrilheiros os tratam por "povo da mata"; a expressão "guerrilheiro" nem sempre é usada porque os próprios guerrilheiros evitaram evidenciar qualquer vinculação com o PCdoB e com a causa revolucionária comunista, identificando-se apenas como camponeses que reagiram à repressão do Exército. Como observamos no primeiro capítulo a região Sudeste do Pará se encaminhava para significativas transformações sócio-econômicas em função tanto do processo migratório que se acelerara para aquela região nas décadas de 50 e 60, quanto da pretensão do Estado de acelerar a utilização do potencial mineral existente ali. Estas evidências corroboram com a hipótese que defendemos acima, de que a luta pela terra, os conflitos entre grileiros e posseiros que se agravaram no Sudeste paraense a partir da década de 70 está mais relacionada com essas transformações que indicamos que com o "exemplo" que pretendeu significar a Guerrilha do Araguaia. Isso, porém não pode querer dizer que os
35

Ver "Cabeças cortadas do povo da mata", em anexo.

novos locutores fizeram-se aparecer com novos dados que. citou. Membros da Comissão encontraram vestígios de corpos enterrados na mata que podem ser de um guerrilheiro – ainda não se conseguiu provar. A partir de 1991. na selva e próximo às bases militares. razões que expliquem essa insistência. apesar de não mais haver. o Exército colocou-se à disposição para prestar esclarecimentos e relatou apenas aquilo que já era do conhecimento dos membros da Comissão – e que não lhe oferece novos riscos quanto à manutenção do “silêncio” –. . considerando nosso objetivo neste trabalho – evidenciar e analisar de forma crítica os discursos que se construíram em torno dos acontecimentos da Guerrilha do Araguaia –. Enfim. em uma obra de ficção. alegando não possuir documentos ou novas informações sobre os acontecimentos. Não se pode. usando como tema a Guerrilha do Araguaia. mesmo quando não se obtêm respostas satisfatórias sobre alguns dos seus principais questionamentos. que foram queimados os restos dos corpos dos guerrilheiros – que haviam sido enterrados em vários locais. Pedro Corrêa Cabral. pela Câmara dos Deputados. entretanto não ameaçaram as versões acima citadas. na obra e em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito.146 acontecimentos relacionados à guerrilha não tenham de alguma forma influenciado a luta dos posseiros nos anos seguintes. Sobre o “silêncio” que permeia os acontecimentos da Guerrilha do Araguaia. pelo menos aparentemente. podemos observar que os dois principais discursos formulados por seus atores – o Estado e o PCdoB – de certa maneira ainda insistem na permanência dos silêncios e obscuridades que se lhes caracterizam. com a implantação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os desaparecidos políticos. O ex-coronel da Aeronáutica. paira o questionamento sobre os corpos dos guerrilheiros e a ação dos militares. entretanto furtar-se à investigação sobre tais fatos.

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159 8. mapa da guerrilha 1. Carta-depoimento de Otacílio Alves de Miranda . ANEXOS 0. A primeira carta da guerrilha: José Genuíno (fevereiro de 1975) 3. Documento: Guerra popular – caminho da luta armada no Brasil 2. A Segunda carta da guerrilha: anônima (2º sem. Jornal Movimento (9 a 15/7/79): “Cabeças cortadas do povo da mata” 6. Depoimento de José Alves da Silva 5. programa dos 27 pontos 7. de 1972) (inverter a ordem com a 1ª) 4.

nos idos de 1984 – nem faz muito tempo –. clarear a visão do homem sobre determinados conhecimentos ou fatos – nos surge a não menos válida necessidade de buscar argumentos subjetivos. dos helicópteros e aviões. e tratar do trabalho acadêmico como um exemplo. em qualquer nível que seja o trabalho universitário. o fiz dentre outras coisas com o claro intuito de entender mais sobre a Guerrilha do Araguaia. caso a sua “verdadeira utilidade” não se preste a coisas “verdadeiramente” acadêmicas – comprovar uma tese. Mas. Neste meu trabalho – um trabalho acadêmico – tive a oportunidade de comprovar uma tese – a de que todas as partes envolvidas na Guerrilha do Araguaia construíram um discurso prórpio nas suas versões sobre os acontecimentos – e também de resgatar acontecimentos mais que esquecidos. de outra forma (e até meio sacana). um esclarecimento ou um resgate de acontecimentos já esquecidos. . não revelado. havia outro. Queria saber sobre aquilo que vivi e que os meus olhos de criança registraram. dos corpos vistos pelos buracos do muro do hospital. qual é a sua verdadeira utilidade? Bem. Desde que me decidi pelo estudo da História. enfim. a primeira pergunta que surge em seu entorno é: a que se destina este esforço? Ou. não-ditos. Se em algum momento não consegui satisfazer à minha orientadora e à banca examinadora foi porque não cumpri com aquilo que havia prometido para satisfazer às necessidades acadêmicas com as quais me comprometi. As imagens na lembrança: das marchas dos militares.160 PARA UM POSSÍVEL POSFÁCIO Quando se escreve para a Academia. verificar a veracidade dos fatos. porém de importância equivalente. se não superior. para além desse compromisso. filtraram e transformaram em um produto de carga emocional bem maior que a confirmação de uma tese.

Mas. não para que todos saibam e com tais informações decidam sobre suas condutas e julgamentos – talvez até para isto valha –. f ilhos. dos seres fantásticos das matas. E este não era. Isto não é conveniente para ser dito por um historiador? Pois bem. Tudo isto somado às emergências políticas que os meados dos anos 80 me trouxeram. encontraram forças para suportar uma “dose dupla”. . mas dizer porque estava aqui. pais e amigos o sabem. somam-se aos discursos gravados na memória: dos comunistas que comiam crianças.los academicamente. E sou mui grato ainda àqueles que compreenderam a importância que este trabalho para mim representava e de algum modo procuraram dar a sua contribuição no trânsito desse fardo. fui acadêmico – não sei se competente – e busquei satisfazer as exigências desta ciência. um “tratamento de choque” – esposa.la. deixei que para fora viesse o fruto de uma vida inteira de reflexão sobre acontecimentos destinados ao silêncio. com a qual me sinto comprometido. ao mesmo tempo. Espero ter sido compreendido. uma necessidade de “resolver um problema” nascido da minha convivência com os acontecimentos. Sempre soub e os seus lugares na minha formação. apertando. sem traí. devo confessar. na verdade. E foi aí talvez que vacilei entre a análise e a descrição. e as esparças notícias com que fui tomando contato ao longo de minha vida (principalmente. Sou muito grato àqueles que. dos “terroristas”. Junior. porque sei que perceberam tanto o meu compromisso acadêmico quanto o meu compromisso pessoal. na minha adolescência). Dizer. da propaganda ufanista. Como historiador.161 das bombas de napalm explodindo na praia durante a parada de 7 de setembro. cansados de me ouvir falar destas histórias. ainda assim. Sou muito grato à minha orie ntadora e meus examinadores. e eu precisava botar para fora. no meu coração. tanto que pude trabalhá. fez surgir em mim uma grande necessidade de “dizer” o que foi a Guerrilha do Araguaia.