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VIEIRA, Alberto(2003)

A Vinha e o vinho na História da


Madeira. Séculos XV a XX,

COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:


VIEIRA, Alberto(2003): A Vinha e o vinho na História da Madeira. Séculos XV a XX, Funchal, CEHA-
Biblioteca Digital, disponível em: http://www.madeira-edu.pt/Portals/31/CEHA/bdigital/avieira/2003-av-
vinhavinhomadeira.pdf, data da visita: / /

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A VINHA E O VINHO
NA HISTÓRIA DA MADEIRA
Séculos XV - XX
Alberto Vieira

A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA


Séculos XV - XX

Centro de Estudos de História do Atlântico


Secretaria Regional do Turismo e Cultura
2003
2 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 3

TÍTULO ÍNDICE GERAL


A Vinha e o Vinho na História da Madeira. Séculos XV a XX
ABREVIATURAS.....................................................................................4
1ª Edição
Setembro de 2003
INTRODUÇÃO.........................................................................................7
AUTOR
©Alberto Vieira O VINHO NA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA
FOTOGRAFIA
• A história do vinho ................................................................................8
Alberto Vieira, Duarte Gomes, José Pereira da Costa
• A historiografia do vinho.....................................................................15
Phtotograpia Museu Vicentes: Vicentes Photographos, Perestrellos
• As fontes .............................................................................................25
Photographos
• A bibliografia .......................................................................................36
COLECÇÃO MEMÓRIAS Nº. 46
DA VINHA AO VINHO
EDIÇÃO
• A VITICULTURA E A PRODUÇÃO
A Viticultura Madeirense ........................................................................
O Homem e a Terra ...........................................................................72
CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO As Castas e as Áreas Dominantes .....................................................103
RUA DOS FERREIROS, 165, 9004-520 FUNCHAL O Malvasia da Fajã dos Padres ..........................................................112
TELEF. 291-229635/FAX: 291-223002 Factores Meteorológicos e Botânicos ................................................122
Email: ceha@nesos.net. • A VINIFICAÇÃO
Webpage: http://www.ceha-madeira.net Da Vindima ao Lagar ........................................................................139
Do Lagar ao Canteiro ........................................................................148
TIRAGEM • A produção de Vinho........................................................................166
2000 exemplares Subsídio Literário...............................................................................178
Os Preços ...........................................................................................187
CAPA • Os Complexos Vinícolas....................................................................196
Painel de Azulejo. Largo António Nobre(Funchal). Ass. C. A. Medidas do Vinho.............................................................................206
Moutinho. Fábrica de Sacavém.1930 O Trato do Vinho..............................................................................215
As Estufas...........................................................................................234
IMPRESSÃO • A Questão das Aguardentes ..............................................................255
• O Processo de Vinificação Hoje .......................................................275
Deposito Legal Os Diversos Tipos de Vinho Madeira..............................................277
• A Defesa Institucional do Vinho Madeira .......................................285
ISBN A Confraria do Vinho Madeira.........................................................258

• ANEXO: quadros ...............................................................................290


4 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 5

O MERCADO DO VINHO
• Circuitos e Mercados ........................................................................293
• Movimento Interno ...........................................................................298
Movimento do Vinho no Mercado Madeirense ..............................302
Imposição do Vinho..........................................................................305
O Quotidiano e o Vinho ...................................................................315
• Movimento Externo...........................................................................328
Movimento de Exportação de Vinho ...............................................339 Abreviaturas
As Instituições Fiscais ........................................................................363
Áreas e Circuitos ................................................................................375
ANTT: Arquivo Nacional da Torre do Tombo
• Os Preços e os Mercados ..................................................................397
• O Negociante de Vinhos ...................................................................400 AF: Alfândega do Funchal [disponível no ANTT]
• Uma Nova Teoria sobre a Crise........................................................426 ARM: Arquivo Regional da Madeira [Arquivo da Região Autónoma da Madeira]
• Actualidade e Consumo do Vinho Madeira.....................................454
AHM: Arquivo Histórico da Madeira
• ANEXO: Quadros..............................................................................470 CSF: Cabido da Sé do Funchal
CX: Caixa
O CULTO E A CULTURA DO VINHO
DAHM: Das Artes e da História da Madeira.
• A Expressão Literária do Vinho........................................................537 FOL/fols.: Fólio(s)
O Vinho Madeira na Literatura ........................................................538 GC: Governo Civil [documentação desde 1834]
Personalidades Históricas e o vinho Madeira...................................550
• O Vinho na História e Património ...................................................553 IVV: Instituto do Vinho da Madeira.
A Expressão Plástica e Temática dos Rótulos...................................568 Nº: número
• O Vinho. Uma Rota Com História...................................................571
PJRFF: Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal [documentação existente no
ANTT. A Provedoria da Fazenda surgiu no século XVI sendo extinta em 1775
• ÍNDICE DE QUADROS..................................................................584
para dar lugar à Junta da Real Fazenda.]
P/pp: página(s)
RGCMF: Registo Geral da Câmara Municipal do Funchal [tombo em que se regis-
tava toda a correspondência oficial recebida na câmara do Funchal, disponív-
el no ARM]
6 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 7

Madeira Illustrated

Capa do livro
O O vinho é uma presença indelével no devir histórico da cristandade Ocidental.
Acompanhou os primeiros cristãos nas catacumbas, a expansão monástica na
Europa e dos europeus no Atlântico. A presença no acto litúrgico e alimentação
traçou-lhe o caminho do protagonismo no quotidiano e ecnomia do mundo cristão.
As ilhas atlânticas são um dos exemplos disso. Os europeus fizeram chegar as cepas
a todo o lado, mesmo àqueles onde a cultura teria dificuldades em se adaptar como
foi o caso de Cabo Verde. Apenas na Madeira, Açores e Canárias a qualidade e fama
do produto fizeram com que se assumisse uma destacada dimensão comercia,l que
animou o movimento com os mercados europeu e americano. A concorrência entre
os vinhos foi feroz. Primeiro tivemos a disputa pelo mercado inglês e, depois, no
século XVIII, pelo norte-americano, onde a Madeira usufruíu uma posição de
destaque, favorecida pelos tratados e leis de navegação estabelecidos pela coroa
britânica. Nalgumas ilhas dos Açores as condições do solo e clima não propiciaram
a produção de um vinho de superior qualidade. A excepção acontece no Pico e
Graciosa onde o vinho se igualou ao da Madeira e Canárias.
Em qualquer dos casos o mercado do vinho insular desenvolveu-se por força da
solicitação colonial. Os vinhos da Madeira e Canárias tiveram desde o século XV
presença assídua na mesa da aristocracia europeia. O mesmo se poderá dizer do
Verdelho do Pico que correu nos palácios dos czares da Rússia. Para os norte-ameri-
canos as ilhas atlânticas [Açores, Canárias e Madeira] são identificadas pelo vinho,
sendo momeadas desde o século XVIII na documentação e historiografia como as
ilhas do vinho1. O epíteto evidencia o papel que o seu vinho assumiu no mercado
americano. Note-se que nalguns registos alfandegários norte-americanos do século
XVIII o vinho da Madeira surge juntamente com o dos Açores2, tornando-se difícil
quantificar a participação de cada um dos arquipélagos.
1. GUIMERÁ RAVINA, Agustin, “Las Islas del Vino (Madeira, Azores y Canarias) y la America Inglesa Durante el Siglo XVIII”,
in Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1989, pp.900-934.
2. A. D. Francis, The Wine Trade, Edinburg, 1973, p.216; Ch. M.Andrews, The Colonial Period of American History, H. Haven,
de Henry Vizetely. 1880 1964, p.112
8 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 9

mentos substanciais da prática e a tradição, fazendo deles símbolos da essência da


vida humana e de Cristo. Ambos foram companheiros da expansão da Cristandade,
sendo responsáveis pela revolução dos hábitos alimentares. A partir do séc. VII o
comer pão e beber vinho simbolizava para o mundo cristão o sustento humano.
Em meados do século XV, com o arranque do processo de ocupação e de
aproveitamento da ilha, é dada como certa a introdução de videiras do reino e, mais
tarde, das célebres cepas do Mediterrâneo. João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz
Teixeira e Bartolomeu Perestrello, que receberam o domínio das capitanias do
arquipélago sob a direcção do monarca e do Infante D. Henrique, procederam ao
desbravamento e cultivo, plantando as primeiras culturas trazidas do reino, onde se
incluíam as cepas.
O Vinho Madeira adquiriu desde o princípio fama no mundo colonial, tornan-
do-se na bebida preferida do militar e aventureiro na América ou Ásia. Escolhido
pela aristocracia manteve-se com lugar cativo no mercado londrino, europeu e colo-
nial. Perante isto, o ilhéu, desde o último quartel do século XVI, fez mudar os
canaviais por vinhedos ao mesmo tempo que conquistou novas terras à floresta a Sul
A história do vinho e a Norte. O madeirense, embalado pela excessiva procura do vinho, esqueceu-se
de assegurar a auto subsistência. O vinho era a fonte de redimento e a única moeda

H
O vinho Madeira foi, sem dúvida, o que mais se evidenciou no universo das ilhas. de troca para assegurar o alimento, indumentária e manufacturas. Daqui resultou
O luzidio rubinéctar, que continua a encher os cálices de cristal, é, não só, a mate- uma troca desigual para o madeirense e muito rentável para o inglês.
rialização da pujança económica do presente, mas também, o testemunho dum pas- No séc. XV o vinho competia com o trigo e açúcar assumindo uma posição de
sado histórico de riqueza. Prende-o à ilha uma tradição de mais de cinco séculos. relevo na economia local, assumindo-se como um meio de troca no mercado exter-
Nele reflectem-se as épocas de progresso e de crise. No esquecimento de todos fica, no. Os trigais e canaviais deram lugar às latadas e balseiras e a vinha tornou-se na
quase sempre, a parte amarga da labuta diária do colono no campo e adegas, o cultura quase exclusiva. Tudo isto projectou o vinho para o primeiro lugar na activi-
árduo trabalho das vindimas, o alarido dos borracheiros. Hoje, para recriar a dade económica da ilha, mantendo-se por mais de três séculos. O ilhéu apostou,
ambiência, torna-se necessário olhar os restos materiais e ler os documentos, donde desde o último quartel do séc. XVI, na cultura da vinha, tirando dela o necessário
ainda é possível desbobinar o filme do quotidiano de luta, que se esconde por entre para o sustento e manter uma vida de luxo, construir sumptuosos palácios, igrejas e
a ferrugem, a traça e o pó. conventos. A Madeira viveu, entre o século XVII e princípios do XIX, embalada
O Vinho Madeira, celebrado por poetas e apreciado por monarcas, príncipes, pela opulência do comércio do vinho. O madeirense, com tão avultados proventos,
militares, exploradores e expedicionários, perdeu paulatinamente nos últimos cem deixou-se vencer pelo luxo, habituou-se à vida cortesã e copiou os hábitos ingleses.
anos parte significativa do mercado, fruto da conjuntura criada, nos finais do séc. A política exclusiva da cultura da vinha, imposta pelo mercantilismo inglês, mere-
XVIII e princípios do séc. XIX. A desusada procura obrigou o madeirense a utilizar ceu a reprovação quer do Governador e Capitão General, José A. Sá Pereira, através
todo o vinho e a acelarar o processo de envelhecimento de modo a satisfazer os de um “regimento de agricultura” para o Porto Santo, quer do Corregedor e
pedidos. Mas o futuro não era risonho. A abertura dos mercados conduziu a um Desembargador, António Rodrigues Veloso, nas instruções que deixou em 1782 na
certo fastio a partir de 1814. Depois. as doenças acabaram com as cepas de boa Câmara da Calheta. Mas foi tudo em vão, ninguém foi capaz de travar a “febre vití-
qualidade, fazendo-as substituir pelo produtor directo que se manteve lado a lado cola”, nem de convencer o viticultor a diversificar as culturas da terra. Vivia-se um
com as europeias numa promiscuidade pouco adequada à preservação da quali- momento de grande procura do vinho no mercado internacional e as colheitas eram
dade. O passado recente anunciou o retorno das castas tradicionais e abriu portas a insuficientes para satisfazer a incessante procura. Perante tão desusada solicitação e
novos momentos de riqueza. à falta de melhor socorriam-se dos vinhos do Norte da ilha e mesmo dos Açores e
A presença da vinha na Madeira, associada aos primeiros colonos, é uma Canárias para saciar o sedento colonialista.
inevitabilidade do mundo cristão. O ritual religioso fez do pão e do vinho os ele- A rota do comércio do vinho começou a ser traçada no século XV, partindo da
10 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 11

Europa ao encontro do colonialista na Ásia ou América. O comerciante inglês, que O casamento de Carlos II de Inglaterra com D. Catarina de Bragança foi o prelú-
surgiu a partir do séc. XVII, soube tirar o máximo partido do produto fazendo-o dio da conjuntura favorável ao vinho Madeira, sendo referido por Viera y Clavijo
chegar em quantidades volumosas às mãos dos compatriotas que o aguardavam nos como um golpe tan feliz para la isla de la Maderas como infausto para las Canárias7
quatro cantos do mundo. Vários factores fizeram com que o inglês se instalasse na . A guerra de Cromwell contra Espanha levou ao encerramento do mercado lon-
ilha e se afirmasse como o principal negociante do vinho. Para tanto contribuíram drino, no período de 1655 a 1660, ao vinho de Canárias e ao estabelecimento de
as condições favoráveis exaradas nos tratados luso-britânicos e o favorecimento que medidas preferenciais para o das ilhas portuguesas. O texto da ordenança de 1663,
as regulamentações britânicas do comércio colonial atribuíram à Madeira. Do repetido mais tarde na de 1665, era claro: Wines of the growth of Maderas, the
numeroso grupo de britânicos merecem referência: Richart Pickfort (1638/82), W. Western Islands or Azores, may be carried from thence to any of the lands, islands,
Boltom (1695/1714), James Leacock (1741), Francis Newton (1745), R. Blandy plantatinos, & colonies, territories or places to this majesty belonging, in Asia, Africa
(1811). or America, in english built ships8.
As Canárias foram desde o princípio o competidor directo da Madeira no mer- Com o fim da guerra de fronteiras entre Portugal e Espanha e a assinatura das
cado do vinho europeu e colonial. A união peninsular não terá sido favorável ao pazes em Madrid a 5 de Janeiro de 1668, ratificadas a 13 de Fevereiro em Lisboa,
vinho madeirense, uma vez que abriu as portas do mercado colonial ao vinho de restabeleceram-se os contactos entre os dois arquipélagos9. O reforço das relações é
Canárias. A conjuntura económica, que se anunciou em 1640, abriu novas perspec- testemunhado pela presença de Bento de Figueiredo no Funchal como cônsul
tivas para o Malvasia da Madeira, com o retorno a uma posição de privilégio do castelhano10. Mas não acabaram aqui as dificuldades pois apenas com as pazes de
mundo português e britânico. A concorrência estava no vinho dos Açores, produzi- Ultrecht de 1713 se abriram novas perspectivas de negócio, quando os vinhos
do nas ilhas Graciosa e do Pico. madeirenses e açorianos haviam conquistado uma posição sólida no mercado colo-
Os pactos de amizade entre as coroas de Portugal e Inglaterra sedimentaram as nial e britânico. O arquipélago das Canárias encontrava-se na posição de perdedor
relações comerciais favorecendo a oferta do vinho madeirense e açoriano nas coló- e a braços com uma crise económica por falta de escoamento do vinho11.
nias britânicas da América Central e do Norte, como o determinavam as leis de O movimento de exportação do vinho da Madeira nos sécs. XVIII e XIX liga-se
navegação a partir de Carlos II, aprovadas em 16413. A situação de privilégio con- de modo directo com o traçado das rotas marítimas coloniais inglesas que tinham
cedida ao vinho dos arquipélagos portugueses repercutiu-se negativamente na passagem obrigatória na ilha. São as rotas da Inglaterra colonial que faziam do
economia das Canárias, podendo ser considerada como um travão ao desenvolvi- Funchal o porto de refresco e de carga para o vinho no percurso para as Índias
mento da economia vitivinícola, a partir de finais do século XVII4. E. Steckley, não Ocidentais e Orientais, donde regressavam pela rota dos Açores, com o recheio
obstante documentar uma época de prosperidade no comércio com Inglaterra, colonial. Também os navios portugueses da rota das Índias, ou do Brasil escalavam
anuncia a crise que se aproximava: Así pues durante dicha centuria algunos de los a ilha onde recebiam o vinho para as praças lusas. São ainda os navios ingleses que
antiguos mercados canarios de vino se estancaron y las islas portuguesas demons- se dirigiam à Madeira com manufacturas e retornavam por Gibraltar, Lisboa, ou
traron ser unos competidores capaces y eficientes para los nuevos mercados ameri- Porto. E, finalmente, os navios norte-americanos que traziam as farinhas para sus-
canos de vino5. A mesma ideia aparece no estudo de António Macías e Agustin tento diário do madeirense e regressavam carregados de vinho. Por tudo isto o vinho
Millares Cantero, que definem o período de 1640 a 1670 com de crisis del prolon- madeirense conquistou o mercado britânico em África, Ásia e América afirmando-
gado esplendor económico, como resultado de la oferta madeirense y de o porto se até meados do séc. XIX como a bebida dos funcionários e militares das colónias.
que comenzó a sustituir a la Canaria en el mercado ingles6. A criação em 1665 da Com o movimento independentista das colónias todos regressaram à terra de
Companhia dos Mercadores de Londres e a reacção popular que gerou com o der- origem trazendo o vinho na bagagem.
rame dos vinhos, conduziu inevitavelmente à perda de importância do malvasia de O momento de apogeu na exportação do vinho Madeira situa-se entre finais do
Canárias no mercado europeu em favor do Jerez. séc. XVIII e princípios do séc. XIX, altura em que a saída atingiu a média de 20.000
pipas. Mais de 2/3 do vinho exportado destinava-se ao mercado americano, com
3. Rupert CROFT-COOKE, Madeira, Londres, 1961, pp.26-28; André L.SIMON, “Introduction” e “Notes on Portugal Madeira and
the Wines of Madeira”, in The Bolton Letters.Letters of an English Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928
4. A. Bethencourt MASSIEU, “Canarias Y Inglaterra. el Comercio de Vinos(1650-1800)”, in Anuario de Estudios Atlanticos, nº.2, 7. Citado por A. LORENZO-CÁCERES, Malvasia y Falstaff. los Vinos de Canarias, La Laguna, 1941, p.19.
1956, pp.195-308: IDEM, “Canarias y el Comercio de Vinos(siglo XVII)”, in Historia General de las Islas Canarias, tomo, III, 8. André L.SIMON, “Notes on Portugal, Madeira and the Wines of Madeira”, in The Bolton Letters. Letters of an English
1977, 266-273; Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928.
5. ”La Economia Vinicola de Tenerife en el Siglo XVII: Relación Anglo-espanola en un Comercio de Lujo”, in Aguayro, nº. 138, 9. A coroa insistiu na nova situação, recomendando às autoridades madeirenses que publicitassem o que foi feito por meio de
Las Palmas, 1981, p. 29 um bando a 8 de Maio. Veja-se Arquivo Regional da Madeira, Câmara Municipal do Funchal, nº.1215, fls.37vº.38
6. ”Canarias en la Edad Moderna(circa 1500-1850)”, in Historia de Los Pueblos de Espana. Tierras Fronterizas(I) Andalucia 10. Ibidem, nº.1215, fls.58-58vº, 17 de Dezembro de 1672.
Canarias, Madrid, 1984, pp.319, 321 11. G.STECKLEY, art.cit., pp.25-31.
12 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 13

destaque para as Antilhas e as plantações do Sul da América do Norte e a área de


N. York. A primeira metade do séc. XIX foi pautada pela alteração no mercado
consumidor do vinho da Madeira. Foi o período de afirmação de novo destino
capaz de suprir a perda do mercado colonial. A Inglaterra e a Rússia substituíram as
colónias a partir de 1831. O fim das guerras europeias, em princípios do séc. XIX,
abriu as comportas do vinho europeu os mercados asiático e americano. A saida do
colonialista foi considerada uma perda irreparável para o vinho Madeira.
Hoje, passados mais de quinhentos anos sobre a introdução da vinha na Madeira,
estão ainda presentes na memória madeirense os tempos áureos de apreciação e
comércio do vinho. A imagem passou rapidamente à História. À euforia da procura
sucedeu a crise dos mercados, agravada pela presença das doenças que atacaram a
vinha (oídio e filoxera). A crise do sector produtivo, resultado de factores botânicos
alastrou a todo o espaço vitícola com efeitos semelhantes na economia e mercado do
vinho. Perdeu-se a ligação ancestral com as tradicionais castas europeias mas, em con-
trapartida, descobriram-se novas variedades americanas. As dificuldades do negócio
conduziram à debandada dos agentes que haviam traçado o mercado. A Madeira
conseguiu paulatinamente recuperar ou conquistar novos mercados.
Os vinhos dos Açores e Canárias seguiram uma trajectória semelhante ao da
Madeira. Foram os madeirenses que levaram as primeiras cepas para os Açores e
Canárias. O das Canárias concorreu de forma directa com o da Madeira no merca-
do britânico já no século XV, a atestar pelas referências de Shakespeare. Para o dos
Açores a competição começou apenas no século XVII. Mas a concorrência foi sem-
pre entre o malvasia da Madeira e os caldos de Tenerife. Da disputa pelo mercado
europeu passou-se depois ao colonial.
O século XVII foi o momento de viragem no mercado atlântico do vinho, con-
seguindo a Madeira levar a melhor na preferência do mercado norte-americano e
colónias das Antilhas. O vinho Madeira tornou-se numa moda do quotidiano das
colónias britânicas. Os viticultores e comerciantes de Tenerife para poderem sobre-
viver tiveram que se sujeitar ao fabrico de um vinho semelhante ao Madeira, ou à
baldeação com o de Tenerife para depois venderem com o rótulo de Madeira 12. O
século XVIII foi a época de plena afirmação do falso e verdadeiro Madeira13.

Baco
12. Burguesia Extranjera y Comercio Atlantico. La Empresa Comercial Irlandesa en Canarias(1703-1771), Santa Cruz de Cerâmica Nau (Setúbal)
Tenerife, 1985, pp.317-332; G.L.Beer, The Old Colonial System. 1660-1754, N. York, vol. II, 1912, p. 287. Loja de Vinhos Diogos Shop
13. Alberto Vieira, Breviário da Vinha e do Vinho na Madeira, Ponta Delgada, 1991, p.30-31.
(Funchal)
14 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 15

A historiografia do vinho

H A História do vinho provocou o empenho de muitos estudiosos nos últimos


anos. Desde o pioneiro trabalho de Roger Dion (Histoire de la Vigne et du Vin en
France. Des Origines au XIXe Siècle, 1959) sucederam-se inúmeros outros, fruto de
arrojados projectos de investigação. Foi no campo da Geografia histórica que o tema
mereceu maior relevo, sendo a França a dar o exemplo. A realização em 1977 na
cidade de Bordéus de um colóquio foi a chamada de atenção para a temática. Nas
actas (Géographie Historique des Vignobles), publicadas em 1978 por Huetz de
Lemps o ponto da situação do tema incluia 701 títulos, sendo mais de metade refe-
rentes aos vinhos franceses e suas regiões: Bordeaux, Languedoc e Burgundy. Na
Universidade de Bordéus o Centre d’Etudes et de Recherches sur la Vigne et le Vin
desenvolveu uma linha de investigação sobre os vinhos europeus de que resultou
uma colecção dirigida por Andre Pitte com a publicação de 10 volumes, sendo um
sobre a Madeira (1989) da responsabilidade de Alain Huetz de Lemps. Na comu-
nidade de língua inglesa, como assinala Tim Unwin, o interesse pelo tema é rele-
vante desde a década de setenta14. O incremento da viticultura na Califórnia,
Austrália e África do Sul, na segunda metade do século XIX, conduziu à valoriza-
ção do tema.
A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização da maior
parte dos investigadores para a importância científica social, económica, cultural e
histórica do vinho. Os estudos científicos adequaram-se ao combate da praga e espi-
caçaram a curiosidade, permitindo a publicação de textos de diversa índole. Em
muitos dos casos a recorrência à História era o necessário alento para levantar os
ânimos enfraquecidos no combate às doenças, de modo a que a cultura assumisse a
adequada dimensão na sociedade e economia.
Em Portugal e Espanha foi cada vez mais evidente o interesse pelo estudo e con-
hecimento da realidade em torno do vinho. A tradição francesa e inglesa do trata-
mento do tema numa perspectiva historiográfica, levou a isso. Nos últimos anos sur-
giram estudos de grande importância para o conhecimento e divulgação da História
Capa do Livro de J. A. Mason,
A Treatise on the Climate and
do Vinho. Em 1982 a Academia Portuguesa de História organizou um encontro
Meteorology of Madeira,
Liverpool, 1850. 14. Wine and Vine. An Historical Geography of Viticulture and the Wine Trade.1991
16 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 17

sobre o Vinho na História Portuguesa séculos XIII-XIX. Depois tivemos projectos


inovadores, como O Marquês de Pombal e o Vinho do Porto (1980) de Susan
Schneider, a Memória do Vinho do Porto (1990) de Conceição Andrade Martins e
O Douro e o Vinho do Porto - de Pombal a João Franco(1991) de Gaspar Martins
Ferreira. Finalmente apareceu a Enciclopédia dos vinhos de Portugal, orientada por
António Lopes Vieira, que contempla os Vinhos Verdes, do Dão, do Alentejo,
Bairrada, Península de Setúbal, Porto e Madeira. A Universidade do Porto mantém
um Grupo para História do Vinho do Dão, pioneiro na divulgação da temática nos
últimos anos. O vinho tornou-se num tema comum, cativando poetas e literatos.
Hoje o vinho é uma questão cultural sendo cada vez mais numeroso o público inte-
Abertura oficial da exposição
ressado em conhecer a História. Daqui deriva a profusão de estudos de divulgação sobre o vinho da Madeira. 1980
e de grupos de trabalho especializados.
O vinho Madeira é considerado desde tempos muito recuados indispensável na
garrafeira dos apreciadores. Não é preciso ser escanção para reconhecer e apreciar
as qualidades aromáticas e gustativas, basta apenas um pouco de atenção no
momento de o beber. Os epítetos proferidos por poetas, escritores, políticos e via- Capa do folheto da Exposição
sobre o Vinho da Madeira. 1980
jantes, que tiveram a possibilidade de o provar e apreciar, poderão ser um dos cami-
nhos para isso. Todos ficaram deslumbrados com os aromas e sabores e ninguém
por fazer21. A monografia que pretendia realizar não era histórica mas antes uma
se escusou a tecer-lhe os maiores elogios. Prende-o à ilha uma tradição de mais de
enciclopédia à maneira do Elucidário. Assim, o entendeu ao traçar em o Elucidário
cinco séculos e reflecte-se nele a época de resplendor e os momentos de crise.
Madeirense22 um esboço da história em diversas entradas, no que muito se aproxi-
O vinho assumiu uma dimensão importante nas ilhas, nomeadamente nas
ma o Pe. Eduardo Pereira23. Estamos perante trabalhos com grande impacto junto
economias da Madeira e Tenerife a partir do século XVII. Por força disso encon-
do público, mas que pouco avançam em relação à informação já recolhida por Paulo
trámos na Madeira conjunto variado de textos que procuram traçar a História ou
Perestrelo da Câmara e Álvaro Rodrigues de Azevedo. O escrito de A. R. Azevedo
fazer o ponto da situação do problema vitivinícola entre finais do século XIX e
atem-se mais aos documentos do arquivo local, às deambulações históricas e políti-
princípios do século XX. É de considerar a obra de D. João da Câmara Leme, o
cas, mas mesmo assim é de considerar, por ser um primeiro esboço de história local
Conde de Canavial, o mais destacado estudioso e conhecedor dos problemas políti-
em que o vinho tem lugar de relevo24. Se a isto juntarmos a monografia de J. Reis
cos e enológicos madeirenses na segunda metade do século XIX. Nas Canárias os
Gomes, e algumas referências avulsas e parcelares, temos feito o inventário da bibli-
estudos são parcelares, ao clássico estudo de Andrés de Lorenzo Caceres15 deverá
ografia sobre o vinho até à década de setenta do século XX. Hoje felizmente que o
juntar-se outro de A. Bettencourt Massiu16 e, recentemente, os de A. Guimerá
panorama é distinto e contam-se já inúmeros trabalhos. O vinho é um tema de refe-
Ravina17, Manuel Lobo Cabrera 18 e Pedro Miguel Martínez Galindo19 e o de George
rência da Historiografia Madeirense. Os ingleses foram, entre todos estrangeiros, os
F. Steckley 20, de que foi publicada uma síntese em 1981 na Revista Aguayro. Para
que lhe dedicaram mais atenção. A posição hegemónica na exportação e consumo
os Açores é reduzida a atenção da historiografia à cultura e produto, não obstante
ter conseguido uma posição de relevo na economia de algumas ilhas como foi o caso
do Pico e Graciosa. 21 .Está ainda infelizmente por elaborar uma completa monografia sobre os vinhos da Madeira, em que se faça a sua História,
desde meados do século XV até a Época que vai decorrendo, nos variados e interessantes aspectos que ela nos oferece.
O Pe. Fernando Augusto da Silva diz-nos que a História do vinho da Madeira está Deveria para isso proceder-se a um largo trabalho descritivo e de pormenorizada coordenação, que além de abranger as
diversas fases de indústria e dos processos de vinificação, fornecesse também informações seguras Acerca da escolha
apropriada do solo e do plantio de bacelos, tratamento eficaz das videiras, fabrico e conservação dos mostos, preparação
dos produtos destinados ao embarque, o comércio interno e no estrangeiro, a análise rigorosa dos chamados vinhos ge-
15 .Malvasia y Falstaff. Los Vinos de Canarias, La Laguna, 1941. nerosos e a cuidadosa conservação da celebrada fama de que universalmente gozam, constituindo outros tantos objectos
16. “Canarias e Inglaterra. El Comercio de Vinos(1650-1800)”, in Anuario de Estudios Atlanticos, nº 2, 1956. Publicado em livro de investigação e estudo, para o que seria indispensável aproveitarem os valiosos elementos que se encontram dispersos
em 1991 em diversas publicações”, Elucidário Madeirense, vol. III, p. 392.
17. Burguesia Extranjera y Comercio Atlantico. La Empresa Comercial Irlandesa en Canarias(1703-1771), Santa Cruz de 22. Vide vol.I - Balseira (p. 113), Estufas (p. 408); vol. II, Filoxera (pp. 31/2), Indústria Vinícola (pp. 148/54), Mangra da vinha (p.
Tenerife, 1985. 315), Míldio (p. 347); vol III, Os Vinhos (pp. 389/95), Vinhas (pp. 381/9, Vinhas e uvas do Porto Santo pp. 387/9), Vinho de
18. El Comercio del Vino entre Gran Canaria y las Indias en el Siglo XVI, Las Palmas de Gran Canaria, 1993. Canteiro (p. 389), Vinho de roda (p. 389).
19 .La Vid y El Vino en Tenerife en la Primera Mitad del siglo XVI, La Laguna, 1998. 23. Ilhas de Zargo, vol. I, pp. 275/301.
20. “La Econmía Vinícola de Tenerife en el Siglo XVII: Relación Angloespañola en un Comercio de lujo”, Aguayro, Las Palmas 24. Anotações às Saudades da Terra, pp. 728/30; veja-se igualmente a colaboração nos jornais locais nomeadamente na
de Gran Canaria, 138, 1981. “Discussão” e “A Madeira”.
18 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 19

ditou a necessidade de conhecimento25. Aqui destacam-se as monografias de Henry Também nós fomos contagiados e o vinho passou a ser companheiro diário das
Vizetely, André L. Simon, Ruppert Crooft-Cooke e as publicações recentes de Noel nossas pesquisas. Ao longo dos últimos vinte anos reunimos tudo o que de mais
Cossart e Alex Liddel. importante existe sobre ele ou com ele relacionado. Dos materiais perdidos nos
A partir de 1976 o processo autonómico permitiu a valorização do vinho da armazéns fizemos um museu. A partir daqui incidimos a nossa acção sobre os
Madeira. A regionalização das competências atribuídas à Junta Nacional do Vinho, arquivos públicos e privados, testemunhos dos apreciadores, defensores e detrac-
com a criação do Instituto do Vinho de Madeira (1979), conduziu a uma diferente tores. Disso demos notícia num Breviário da Vinha e do Vinho da Madeira (1990),
importância do produto e das tradições a ele ligadas. Desde 1978 a Direcção numa compilação História do Vinho da Madeira. Documentos (1993) e o Vinho
Regional de Turismo iniciou a evocação da festa das vindimas, que têm permitindo Madeira da Enciclopédia de Vinhos de Portugal. No penúltimo volume procuramos
um momento de diversão e divulgação do vinho. Em 1980, no âmbito da festa, teve reunir o mais importante testemunho da vivência que o vinho Madeira definiu: a
lugar no salão nobre do Teatro Municipal do Funchal uma exposição sobre o Vinho economia da ilha e o papel dos directos interventores, a insistente procura dos que
da Madeira, que foi uma oportunidade para recolha de materiais relacionados com se tornaram apreciadores, o júbilo e o agradecimento dos que descobriram a gen-
a vinha e o vinho que se encontravam ao abandono. Daqui resultou a consciênciali- uinidade do produto e foram testemunhos da importância económica.
zação dos empresários ligados ao sector para a necessidade de valorização da cul-
tura material relacionada com o produto. Foi neste contexto que a Madeira Wine
Company repensou as caves de S. Francisco, adaptando à condição de espaço- Formas de ver e estudar o vinho
museu aberto ao público. Entretanto o IVM recuperou a cave das instalações para
um espaço museológico, inaugurado a 18 de Setembro de 1984. Tudo isto é
corolário de um trabalho de valorização da componente cultural do vinho. O núcleo Na actualidade é cada vez mais evidente o interesse pelo estudo do vinho. A
museológico do IVM tornou-se num espaço de divulgação do Vinho da Madeira e atenção do público e comunidade científica é grande. Já na segunda metade do sécu-
ponto de encontro de interessados no tema. O Museu do IVM apostou na pro- lo XIX, momento definido por uma conjuntura de crise da viticultura europeia,
moção da História e cultura do vinho, de que se destaca a edição de Contributos deparamos com igual euforia editorial sobre a temática da vinha e vinho. Aqui somos
para uma Rota do Vinho de Madeira (1997) e o Vinho na História e Património da confrontados, para além das discussões sobre as soluções económicas e técnicas, com
Cidade do Funchal (2000). estudos descritivos da realidade e História da cultura e comércio do produto. Assim,
A criação do Centro de Estudos de História do Atlântico em 1985 contribuiu podemos definir dois tipos de publicações, de acordo com a posição em que se colo-
para um avanço significativo no conhecimento da História do vinho, que passou a ca o autor: 1. Os estrangeiros, nomeadamente os ingleses, procuravam divulgar junto
merecer um tratamento historiográfico adequado. Nas edições, colóquios e semi- dos consumidores o historial do vinho que corria diariamente à mesa; 2. Os
nários o vinho foi presença constante. Entretanto em 1998 realizou-se um seminário nacionais que, motivados por conjunturas de crise, intervém no sentido de apresen-
sobre Os Vinhos Licorosos e a História que foi o início de um eficaz intercâmbio tar soluções, indo ao encontro de causas políticas ou económicas. Assim, quando a
com investigadores do Porto, Bordéus, Málaga e Puerto Santa Maria. Podemos, crise se situava na esfera comercial, surgiram tratados em favor do proteccionismo e
ainda, assinalar que a aposta na divulgação da História do Vinho da Madeira levou na área da produção tivemos soluções miraculosas para debelar a crise.
o CEHA a editar em 1993 um volume sobre a História do Vinho da Madeira. A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização para a
Documentos e Textos, da nossa autoria. dimensão científica social, económica, cultural e histórica do vinho. Os estudos
Todo o esforço de divulgação da História do vinho traduziu-se em inúmeras científicos adequaram-se ao combate da praga e espicaçaram a curiosidade de todos
publicações sob o formato papel e digital, que continuam a merecer a atenção do e permitiram a publicação de inúmeros trabalhos. Em muitos dos casos a recorrên-
público. Idêntica dedicação esteve presente ao nível museológico, ficando ao dispor cia à História foi o necessário alento para a aposta, debelar das doenças e fazer com
dos interessados espaços específicos das empresas e instituições do sector. O vinho que a cultura voltasse a assumir a adequada dimensão na sociedade e economia.
marcou épocas de prosperidade com evidentes reflexos no quotidiano e arte. As Sucederam-se exposições26, congressos27 e estações vitícolas28 e enológicas, associ-
expressões disso estão presentes na arquitectura urbana dos séculos XVIII e XIX e
em alguns museus. 26. Em Espanha tivemos em 1877 a Exposición Vinicola Nacional. Em Portugal: Exposição Histórica do Vinho do Porto(1931-
32).
27. Para Espanha: 1878 - Congreso Antifiloxerico de Madrid, 1886; Congreso de Viticultores. Em Portugal: Congresso Vinicola
Nacional(1895).
25. Aqui convém destacar as monografias de Henry Vizetely, de André L. Simon, Ruppert Crooft-Cooke, Noel Cossart e Alex 28. Em Espanha: Málaga, Zaragoça(1880), Sagunto(1881), Unidad Real(1882), Tanagona(1882). Em Portugal: Quinta de
Liddel, referenciados na Bibliografia. Nalaria(1887), Douro(1957), Régua(1929).
20 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 21

adas a publicações periódicas especializadas29. que envolve a cultura da vinha e o fabrico do vinho. O Folclore e as tradições
No caso das ilhas é na Madeira que encontramos a maior produção bibliográfica definem no passado e confrontam-se com a realidade global. A tecnologia tradi-
de autores nacionais e estrangeiros. O vinho havia conquistado uma dimensão inusu- cional foi esquecida nos armazéns. São poucos os lagares tradicionais que persistem
al pelo que se justificava a desmesurada atenção. Disso fizemos eco num estado onde e falta quem providencie o estudo e inventariação. O fabrico do vinho tinha lugar
compilamos o que de mais importante se publicou30. Nos últimos anos toda a atenção em lagares de madeira e pedra. Hoje são raros e o fabrico do vinho adequou-se às
tem sido dada ao sector comercial com trabalhos para o século XVIII. É, por isso, que inovações tecnológicas para que o produto final esteja conforme os padrões de
faz falta um estudo sistemático da cultura e do produto final que contemple os cinco qualidade da Comunidade Económica Europeia. No caso das Canárias é evidente
séculos de História. Também subsistem algumas dúvidas para alguns campos que nas ilhas de Tenerife e El Hierro o interesse dedicado a estas estruturas de madeira.
reputamos de grande interesse. Em primeiro lugar, no que concerne à diversidade de Já nos Açores é fácil encontrar no Museu do Vinho dos Biscoitos um conjunto único
castas, não temos informação segura sobre o início da presença na ilha e a dimensão de lagares e lagariças de pedra, a que se pode juntar idênticas infra-estruturas com
que cada uma assumiu no cômputo da produção. A isto acrescem as dificuldades em carácter museológico no Pico e Graciosa. Na Madeira são poucos os lagares de
conseguir definir de forma precisa as técnicas de vinificação e os tipos de vinho mais tabuado e pedra. As lagariças de pedra, circunscritas ao Curral das Freiras, Ponta do
comuns que deram fama ao Madeira. Para certa literatura tudo se reduz à Malvasia e, Pargo e S. Vicente, jazem hoje ao abandono.
de modo especial, à da Fajã dos Padres. O Vinho ganhou raízes nas ilhas pela necessidade dos primeiros povoadores mas
A análise da realidade vitivinícola não poderá esquecer a estrutura produtiva e cedo se espalhou a fama da qualidade fazendo com que acompanhasse as rotas
formas de evolução. Há que ter em conta o grupo de mercadores que serviram de comerciais do Novo Mundo e tradicionais mercados europeus. Fama e comércio
suporte ao mercado do vinho e dele tiraram o maior rendimento. A História das foram sinónimo de interesse científico e editorial. Daqui resulta que a Madeira se
casas comerciais é um tema ainda em aberto que deve ser merecedor da nossa apresenta como um caso raro na Historiografia da Vinha e do Vinho. O vinho foi
atenção, tendo em conta a disponibilidade de alguns e importantes arquivos empre- e continuará a ser uma referência importante na definição da ilha e da labuta de
sariais31. Os estudos no âmbito da História da Empresa têm aqui um campo que cinco séculos das gentes. As ilhas ficarão para a História como um momento do per-
aguarda a atenção do historiador. curso histórico do vinho entre o mundo antigo e o novo.
A par disso não deverá esquecer-se a envolvência do vinho na sociedade e as Em 1978, confrontados com o paupérrimo panorama bibliográfico madeirense
implicações daí resultantes. Assim, no caso da Madeira, é comum definir-se um sobre o vinho, decidimo-nos por encetar uma pesquisa com o objectivo de publicar
modelo de criação artística e urbanística, influenciado pelo vinho, que levou alguns uma monografia completa sobre o vinho, através da procura doutras vias de conhe-
a definirem para o Funchal uma cidade do Vinho. A propriedade do termo é dis- cimento e a recolha de informações, por intermédio de uma morosa investigação
cutível mas não impede de consideramos as relações do vinho com a arte e mesmo arquivística. A primeira atenção foi dedicada aos núcleos documentais dos Arquivos
com o quotidiano insular. A sociedade madeirense de oitocentos é herdeira do Regional da Madeira, da Torre do Tombo, Histórico Ultramarino e Secção de
impacto provocado pela dominância da vinha e vinho, faltando estudos que o valo- Reservados da Biblioteca Nacional. O trabalho de recolha alargou-se depois a toda
rizem. a imprensa madeirense, com particular relevo para a do século XIX. A informação
A um nível restrito poderá partir-se para um novo tipo de abordagens. Primeiro recolhida deu lugar a textos escolares, de divulgação e estudos apresentados em
a arte do vinho, lavrada em gravuras, avulsas ou ilustrativas de livros e rótulos. O colóquios. Hoje, passados mais de vinte anos, decidimo-nos por um melhor
rótulo para além da expressão plástica pode ser também um espelho da época aproveitamento de toda a informação recolhida, publicando o presente volume.
através das temáticas dominantes e mensagens escritas32. O levantamento das refe- Ao longo da investigação duas personalidades despertaram a nossa atenção: D.
rências que mereceu na literatura torna-se imperioso. Em prosa ou em verso o vinho João da Câmara Leme (Conde de Canavial) e José Silvestre Ribeiro. O primeiro foi
é uma constante que está ainda por descobrir. uma das mais destacadas figuras da sociedade madeirense da segunda metade do
A Etnografia é uma preciosa auxiliar do conhecimento e definição da ambiência século XIX, afirmando-se como escritor, cientista, naturalista, industrial, jornalista33,
influenciando de forma decisiva o aperfeiçoamento do processo de vinificação. Do
vasto espólio bibliográfico, merecem referência os estudos sobre o vinho e a situação
29. .Revista Vinícola Jerezana(1866) The Wine and Spirit Market (França-1871), The Wine Trade Review (Londres. 1864),
Revista do Comércio de Vinhos (1896) O País Vinhateiro (1884), Anais do Instituto do Vinho do Porto(1940), O Vinho(1935), de crise vinícola, traçando as linhas mestras da discussão em torno da crise e das
Vinicultura(1934).
30. História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993
31. Cf. Alberto Vieira, Guia Para a História e Investigação das Ilhas Atlânticas, Funchal, 1995, p.167.
33. Não existe qualquer monografia sobre esta personalidade insulana, apenas dispomos de alguns elementos em dois jornais
32. Cf. José de Sains-Trueva, Heráldica de Prestígio em Rótulos de Vinho Madeira, in Islenha, nº.9, 1991, 62 e segs; F. Guichard,
locais: - “A Luz”, nº 1 (1881), p. 2, e o “Diário de Notícias”, nº 5, pp. 2/3.
A Linguagem do Rótulo. O Vinho entre o Dito e o não Dito, in Os Vinhos Licorosos e a História, Funchal, 1998, pp.71-80.
22 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 23

soluções apresentadas pelas diferentes facções políticas. Foi pioneiro no associa-


tivismo cooperativo, apresentando a proposta de uma sociedade anónima de pro-
moção da rede viária da ilha para transporte das mercadorias com um cabo aéreo e
a criação da companhia fabril do açúcar madeirense, quer, ainda, com a criação de
uma associação de proprietários, viticultores e negociantes de vinho - Associação
Vinícola da Madeira, ou Real Associação Vinícola da Madeira -, como forma de
envolver os madeirenses na solução da crise da segunda metade do século XIX.
Ao mesmo nível está a figura de José Silvestre Ribeiro. A actuação situa-se mais
no campo prático da governação em momentos de crise vinícola da segunda metade
do século passado e nas medidas proteccionistas e incentivadoras do desenvolvi-
mento agrícola, como as soluções de emergência perante a situação de calamidade
pública resultante da crise. O delineamento da rede viária e a aposta no complica-
do sistema de levadas estiveram na linha da frente dos planos práticos para pro-
mover a agricultura e travar a emigração34.

Fontes e bibliografia

Os acervos bibliográficos e arquivísticos são pobres, como pouco conhecidos e


usados. Com isto não queremos dizer que escasseiem ou sejam desconhecidas as
fontes mais importantes, mas sim que o pouco estudado e inventariado é incom-
pleto para feitura dum trabalho científico. Durante muito tempo foi evidente a
ausência de um guia bibliográfico e roteiro arquivístico, onde fossem reveladas as
fontes fundamentais da História35. A inventariação bibliográfica evidencia a existên-
cia de várias tentativas, sendo de destacar as de A. Rodrigues de Azevedo36, José
Joaquim Rodrigues37, Fernando Augusto da Silva38 e o Visconde do Porto da Cruz39,
mas nunca se apostou no sentido de nos legar uma monografia completa.

34. Veja-se Colleção de Documentos Relativos à Crise de Fome..., 1847, Funchal, 1848; Uma Época Administrativa na Madeira
e Porto Santo, Funchal, 1949/50, III vols.
35 .Hoje o panorama é distinto. Foi guiado por esta ideia que em 1995 publicamos um Guia para a História e Investigação das
Ilhas Atlânticas.
36. Vide in Dicionário Universal de Português Ilustrado, artigo Madeira. Cuba em Madeira para
37. Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira, Funchal, 1950. envelhecimento do vinho.
38. Elucidário Madeirense, vol. II, Elementos para a História da Madeira. Madeira Wine Company
39. Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, Funchal, 1951, vol.II
2003
24 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 25

Gravura humorística. Re-nhau-


nhau

Carta de Armas de Ph. Cossart,


1700

As fontes

Copiador de cartas comerciais.


Arquivo da Madeira Wine
Company
F Ao nível arquivístico o panorama é pobre. A falta de um roteiro, colectâneas
documentais, obrigou à procura demorada nos arquivos disseminados pela capital e
ilha. A ideia lançada em 1960 (por altura das comemorações henriquinas) por
Pereira da Costa de publicação de uma MADEIRA MONUMENTA HISTÓ-
RICA, certamente tendo em vista o Arquivo dos Açores de Ernesto do Canto, não
teve continuadores. Os eruditos, interessados pela História da Madeira, entre 1873
e1950 dedicaram pouca importância à divulgação documental. Contrariando a situ-
ação temos iniciativas que merecem ser referenciadas. O Arquivo Histórico da
Madeira apostou desde os anos sessenta na publicação de documentos e o Centro
de Estudos de História do Atlântico seguiu o mesmo caminho com a edição de estu-
dos e documentação40. Foi aqui que publicamos três volumes com interesse para a
História do Vinho41.
Seria exaustivo enunciar todas as fontes dos séculos XVIII e XIX que reputamos
fundamentais mas, tendo em conta o tema que nos propusemos estudar, apresenta-
mos apenas uma relação sumária dos núcleos consultados. Na altura da pesquisa
documental, a inexistência do necessário roteiro arquivístico complicou o nosso tra-
balho, mas hoje a tarefa está facilitada pelos avanços no domínio da Arquivística.

40. É o caso dos livros de vereações do Funchal dos séculos XV a XVI, da responsabilidade de José Pereira da Costa.
41. História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993; O Público e o Privado na História da Madeira 2 vols, Funchal, 1998.
26 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 27

Publicação de documentos
ARAGÃO, António, A Madeira Vista por Estrangeiros. 1455-1700, Funchal, 1981. [publi-
ca entre as pp.227-393. As cartas de W. Bolton de 1695-1700]
MENEZES, Servulo D., Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo..., 3 vols,
Funchal, 1949-50
Guias de fontes NASCIMENTO, João Cabral, Apontamentos de História Insulana, Coimbra, 1927
SILVA, Maria Júlia de Oliveira e, Fidalgos-Mercadores no Século XVIII- Duarte Sodré
Arquivo Histórico Militar, Lisboa, 1978 Pereira, Lisboa, 1992
As Gavetas da Torre do Tombo, C.E.H.U., 12 vols., Lisboa, 1960-1977 SIMON, A. L., The Bolton Letters. The Letters of an English Merchant in Madeira, vol.
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Moniz]. — Lisboa: Biblioteca Nacional, 1896
BRANQUINHO, Isabel, Alguns Núcleos Documentais Relacionados com os Arquivo Regional da Madeira
Arquipélagos dos Açores e da Madeira Existentes em Arquivos e Bibliotecas de
Lisboa, in Os Arquivos Insulares (Atlântico e Caraíbas), Funchal, 1997, 227-266.
CASTRO E ALMEIDA, Eduardo, Archivo de Marinha e Ultramar. Inventário, 2 vols., Aqui distinguimos quatro núcleos onde foram recolhidos elementos importantes e valiosos
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Porto Santo, 1820-1833).
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28 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 29

- Actas do Conselho Distrital da Agricultura, 1893/1898, nº. 249 - Ofícios Dirigidos à Comissão da Fazenda, 1834/1835, nº. 400
-Actas da Sociedade Agrícola do Funchal, 1849/1854, 1854/1876, nº. 1016-1017 REPARTIÇÃO DO CONSELHO
-Inventário dos Volumes Oferecidos ao Gabinete de Leitura da Sociedade Agrícola - Avisos Expedidos, 1775/1844, nº. 402/409
do Funchal, nº. 1015 - Consultas, 1775/1791, nº. 410
Imposição das Estufas: - Ordens, 1775/1796, nº. 411/412
- Vinho, Manifestos, 1839/1872, 6 volumes, nº1069/1074. CONTADORIA GERAL:
Acção britânica e sua ocupação da ilha: - Contas-correntes do Rendimento das Estufas de Melhorar Vinho, 1806/1833, nº. 441
- Governo Civil, Registo de Ofícios, Rrespostas, Capitulações, Participações, Divisões - Notas da Contadoria – Registo, 1716/1833, nº. 458/460
e todos os mais Documentos Positivos deste Governo com as Forças e Tropas de Sua - Ofícios da Contadoria – Registo, 1806/1834, nº. 461/463
Majestade Britânica e Enviado Português em Londres, 1808/1815, nº. 516 - Portarias – Registo, 1830/1834, nº 465/467
- Portarias, Ofícios, Requerimentos, 1831/1832, nº 468
DÍZIMOS:
Câmara Municipal de Machico
- Contas Correntes com Vinho e Verduras, 1827/1831, nº 750
Colectâneas de documentos: ERÁRIO, Repartição do...:
- Livro do Registo Geral da Câmara, 1637/1840, nº. 84/93 - Avisos Expedidos, 1775/1832, nº. 758/759
- Livro das Vereações, 1700/1895, nº. 110/144 - Ordens Expedidas, 1775/1795, nº. 760
Imposição do Vinho: ERARIO RÉGIO:
- Livro de Arrematação da Imposição do Vinho, 1710/1732, nº. 3 - Consultas, 1775/1843, nº. 761/765
- Livro do Registo dos Manifestos de Vinho, Aguardente e Vinagre, 1774 e 1776, nº. - Ordens Enviadas à Junta da Fazenda, 1775/1844, nº. 770-778
145/146 JUNTA DA REAL FAZENDA:
Núcleo particular - Assentos Extraordinários, 1802/1807, nº. 940
- Casa Ornelas42 - Deliberações, 1775/1805, nº. 942
- Casa Torre Bela PORTO SANTO:
- Documentação sobre a Administração da Real Fazenda da Ilha..., 1781/1792, nº.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo 960
REGISTO GERAL DA FAZENDA E CONTOS1569/1775, nº. 963/976
Quanto à Madeira o arquivo nacional dispõe de três núcleos arquivísticos impor-
tantes que para aí foram transferidos por portaria de 9 de Junho de 1886. Alfândega SUBSIDIO LITERÁRIO, Repartição:
do Funchal, Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal, Cabido e Sé do - Avisos Expedidos, 1776/1789, nº. 994
Funchal. - Consultas e Ordens, 1775/1834, nº. 995/996
- Manifesto do vinho e receita por freguesia:
Alfândega do Funchal Arco de S. Jorge, 1834, nº. 1049
Calheta, Arco e Estreito, 1775/1834, nº. 1050/1053
-Direitos da Cerveja e Genebra, 1818. nº. 2
Camacha e Caniço, 1832, nº. 1054
Mercadorias- Entradas e saídas:
Câmara de Lobos e Estreito, 1812/1831, nº. 1055/1058
Livro do Fiel dos Armazéns - Manifesto de Carga de Vinhos, 1819/1831, nº. 207
Campanário (nº. 1063 também Ribeira Brava Serra de Agua e Tabua), 1828/1830, nº.
Vinho - exportação:
1059/1063
- Livro do Feitor do Embarque, 1789/1834, 11 volumes, nº 245/255
Caniço (o nº. 1068 também Gaula e Camacha, nº. 1069 também Gaula), 1803/1834,
nº. 1064
Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal Estreito e Arco da Calheta, 1804/1825, nº. 1072/1073
-Registo de Cartas Escritas a Sua Majestade por Francisco de Andrada, seu Filho Estreito de Câmara de Lobos, 1828/189, nº. 1074/1075
Ambrósio Vieira Andrada e seu Neto Jorge Vieira de Andrada, 1646/1783, nº. 396 Faial, 1834, nº. 1076/1077
Fajã da Ovelha, Paul do Mar, Prazeres, Jardim do Mar, 1834, nº. 1078
Gaula, 1828/1834, nº. 1079/1080
42. Maria Fátima Barros Ferreira, Arquivo da Família Ornelas Vasconcelos. Instrumentos Descritivos, in Arquivo Histórico da Machico, Agua de Pena, Caniçal, Faial, Santa Cruz, 1827/1834, nº. 1081/1088
Madeira, Boletim do Arquivo Regional da Madeira, vol. XXI, 1998.
30 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 31

Madalena do Mar, 1803, nº. 1089 - Colecção de Ordens e Providencias Militares, Civis, Económicas na Ocupação pela
Nossa Senhora do Monte, 1829/1832, nº. 1090/1092 Força Inglesa sob as Ordens de Clinton até 1815, cod. 8022
Ponta Delgada, 1833/184 – nº. 1093/1094 - Papéis Vários sobre o Comércio Inglês na Madeira, MA. 219, nº. 29
Ponta do Sol, Canhas, Madalena e Tabua, 1803/1834, nº.1059/1104
Porto da Cruz, 1816 e 1834, nº. 115/116
Monografias manuscritas sobre a ilha da Madeira
Porto Moniz, Ribeira da Janela, Seixal, 1829/1834, nº.1107/1112
Porto Santo, 1805/1834, nº. 1113/1119 - Documentos para a História do Archipélago da Madeira, compilados por Álvaro
Ribeira Brava, Campanário, Serra de Agua, Tábua, 1805/1832, nº.1120/11203 Rodrigues Azevedo, Cod. 6999
Ribeira da Janela, 1834, nº. 1124 - Cultura da Vinha - Notas de 1832, Cod. 598, fol. 136 vº/267 vº
Santa Ana, Arco de S. Jorge, 1804/1834, nº. 1125/1126 - DRUMOND, João Pedro de Freitas, Documentos Históricos e Geográficos sobre a Ilha
Santa Cruz, Gaula, Santa Luzia, Caniço, 1804/1834, nº. 1127/1153 da Madeira (cópia), Cod. 7210
Santa Luzia, S. Gonçalo, Nossa Senhora do Monte, 1834/1835, nº.1134 - Excursions in Madeira During Autum of 1823 by T. Edward Bodwish (extractos em por-
Santa Maria Maior, 1812/1835, nº. 1135/1142 tuguês - notícias várias, acerca da agricultura da região), cod. 298
Santo António, Camacha, 1819, nº. 1143/1144 - Miscelânea Histórica - História do Descobrimento da Ilha da Madeira, seus Donatários
Santo António e Curral das Freiras, 1829/1831, nº. 1145/1147 e mais Notícias... Memorial dos Terramotos, Cheias e outras Calamidades
Santo António, Curral das Freiras, S. Martinho, Câmara de Lobos e Estreito, 1834, Ocorridas na Ilha da Madeira, Alvarás, Editais, Proclamação... de 1802/18
nº. 1148 Referentes à Ilha da Madeira, cod. 10848
S. Gonçalo, 1804/1829, nº. 1149/1153 NÓBREGA, Januário Justiniano de, Breve Memória para a Descrição Histórica,
S. Jorge, 1834, nº. 1154 Ttopográfica, Económica do Concelho do Funchal, 1851, cod. 8023
S. Martinho, 1829/1831, nº. 1155/1156
S. Pedro, 1804/31, nº. 1157/60 Sobre o comércio:
S. Pedro, S. Roque, Nossa Senhora do Monte, Santa Maria Maior, 1834, nº. 1161 - Comércio de Importação dos Estados de 1788/1828, cod. 600
S. Roque, 1813/1831, nº. 1162/1164
S. Roque, Santa Maria Maior, S. Pedro, 1834, nº. 1165 Arquivo Histórico Ultramarino
S. Vicente, 1833/1834, nº. 1166
Sé e Santa Luzia, 1831, nº. 1167
Seixal, 1834, nº. 1168
Serra de Agua e Tabua, 1813 e 1832, nº. 1169/1170 O núcleo mais importante sobre a Madeira veio do Antigo Arquivo da Marinha
Tábua, 1813/1829, nº. 1171/1173 e Ultramar, estando já inventariado por Eduardo Castro Almeida 46. No entanto exis-
tem mais 31 maços não catalogados onde fizemos uma breve pesquisa.
Cabido e Sé do Funchal Posteriormente encontrámos novos elementos no códice 1162 (1673/1696).
MAÇOS 4 nº. 32; 6 nº. 32; 7 nº. 3; 17 nº. 20; 20 nº. 2; 23 nº. 13; 32 nº. 39

Biblioteca Nacional de Lisboa/Secção de Reservados


Aqui apenas podemos considerar alguns manuscritos da Colecção Pombalina e ou-
tros variados, especificamente sobre a Madeira

Colecção Pombalina:
- Manuscritos, nºs. 458, 462, 466, 611, 638, 642

Outros
Sobre a acção e ocupação inglesa: 43. Archivo da Marinha e Ultramar -Inventário-Madeira e Porto Santo, I vol (1613/1819), II vol. (1820/1833), Coimbra, Imprensa
da Universidade, 1907
32 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 33

Os Jornais

J
Henry Mare afirma que escrever a história do jornalismo no século XIX é escre-
ver a história do próprio século48. A partir de 1821 com o incremento da imprensa
os jornais assumem-se como uma fonte primordial para o conhecimento mais por-
menorizado do quotidiano e da opinião do cidadão, obviamente letrado. Tendo em
conta que o século XIX na Madeira se apresenta bem documentado de publicações
periódicas e, que seria impossível um estudo detalhado de todas, optámos por uma
selecção prévia que se alargou à medida da necessidade de informações de índole
político-económica. Primeiro incidimos a recolha nos períodos mais marcantes da
conjuntura vitivinícola, dando particular destaque aos anos de 1820/30, 1850/1855,
1870/1875.
O período de 1820/1830 é aqui apresentado por ser a fase de arranque do jor-
nalismo insulano, marcadamente criticista e comprometido com a conturbada con-
Copiador de cartas
juntura da primeira metade do século XIX. Tivemos quatro tipografias para nove
comerciais da empresa de jornais de publicação efémera. O Patriota Funchalense49, primeiro periódico publi-
Thomas Newton. Século XVIII.
Arquivo da Madeira Wine
cado na ilha, é o nosso maior destaque. As páginas do bissemanário estavam aber-
Company tas à colaboração (paga pelos autores), afirmando-se como uma tribuna de discussão
dos problemas de âmbito regional. De entre as principais preocupações temos a
Os Arquivos Empresariais. salientar as questões do vinho, aguardentes, vínculos e contrato de colonia50. Mas,
depressa perderam vigor com os acontecimentos de 182351.
A investigação completa de um tema como o vinho deverá contemplar a consulta De entre os jornais surgidos no primeiro momento podemos destacar O
aos arquivos das principais regiões de destino do vinho na Europa e América e o Funchalense Liberal e O Defensor da Liberdade. Entre 1850/1870 estámos perante
recurso aos arquivos privados, nomeadamente a documentação das casas inglesas. um momento rico na publicação de jornais, com cerca de meia centena de periódi-
Apenas no seio da comunidade britânica encontrámos um maior cuidado na preser- cos, destacando-se alguns pela incidência na discussão político-económica-social: O
vação do arquivo empresarial, de que temos notícia detalhada dos arquivos de Cossart Amigo do Povo, O Progressista, A Ordem, o Clamor Público.
& Gordon44 e família Blandy. A Madeira Wine Company mantem no acervo históri- O Clamor Público, surgido em 1854, agregou jornalistas de mérito com acção
co documentação das diversas empresas que se associaram a partir de 1925. Aqui política nas Cortes e fora delas: António Correa Henriques, António Gonçalves de
podemos encontrar abundante informação sobre as firmas supracitadas, como é o Freitas, Luís de Freitas Branco52. E, como diziam em editorial, a função do jornal
caso das casas de Tarquinio T. Lomelino e F. F. Ferraz & Co. O arquivo da firma
Cossart Gordon & Co (1745-1831)45 é entre todos o mais significativo reunindo mais 48. Citado por A. Aragão Mimoso de Freitas, A Madeira Adere à Revolução de 1820, Lisboa, 1958 (tese de licenciatura), p. 17.
de 2000 peças documentais de 1745 a 1943. 49. Veja-se José Augusto dos Santos Alves, “O Patriota Funchalense” ou o elogio do contrapoder, in Actas do II Colóquio
Internacional de História da Madeira, Funchal, Setembro de 1989, Lisboa, 1990, pp.279-400; António Marques da Silva,
A partir da publicação das cartas de William Bolton por A. L. Simon46 é possível Preocupações Ecológicas do “Estrela do Norte”, in Atlântico, 19, 1989, pp.203-220; idem, Almeida Garrett e “O Patriota
Funchalense”, Atlântico, 8, 1986, pp.289-292.
conhecer a acção do negociante de vinhos entre 1695 e 1740. Para nós as cartas co- 50. Um facto característico desta colaboração é o tipo de pseudónimo então usado pelos seus colaboradores a condizer ou não
merciais de William Bolton, juntamente com as de Diogo Fernandes Branco (1649- com o momento. Assim temos o “Ilheo Constitucional”, o “Imparcial Cidadão”, “Despertador Principiante”, “O Novo
Despertador”, “O Amigo da Verdade”, “Amante da Justiça”, “Hum Amigo da Paz”, “Hum Observador Imparcial”, “O Inimigo
1652), João de Saldanha Albuquerque (1673-1698) e Duarte Sodré Pereira47 permitem dos Aristocratas”, “Hum Português”, “Hum filho da Madeira”, “O Sentinela do Erário”, “Hum Cidadão”, “Hum Villão do
Campo”, “O Camponez Madeirense”. Dois mais se destacam: um pelo nome - Robert Machim, o outro pela sua prosa vig-
colmatar algumas lacunas da documentação oficial para os séculos XVII e XVII. orosa e contestatária - o Estrella do Norte. O primeiro, fruto dum saudosismo, marcadamente britânico, o segundo, identifi-
cado com o cónego Jerónimo Alves da Silva (1770/1861) evidencia-se pela sua prosa jornalística marcadamente liberal e
criticista em que ninguém escapava ao seu olhar crítico. Por outro lado temos a referenciar a colaboração assinada, donde
44. Elizabeth Nicolas, Madeira and the Canarias, Londres, 1953, p. 107. destacamos algumas personalidades conhecidas, como Francisco Manuel Alves, Diogo Dias Ornelas, Jaime António de
45. Parte da documentação encontra-se nos arquivos da Madeira Wine Company e outra foi vendida pelos herdeiros à França Neto, J. Cardoso Giraldes, João Chrisóstomo Espínola Macedo, Francisco Paula Medina de Vasconcelos.
Universidade de Liverpool.Cf.Noel Cossart, Madeira the Island Vineyard, London,1984.p.XI. 51. Primeiro tivemos a prisão do proprietário e redactor, Nicolau Pita, por alçada de 1823, acusado de maçónico, por outro a cri-
46. The Bolton Letters..., Londres, 1965, vol. I. ação em 12 de Junho de 1823 duma comissão de censura, que conduziram ao fim deste periódico.
47. Maria Júlia de Oliveira e Silva, Fidalgos-Mercadores no século XVIII- Duarte Sodré Pereira, Lisboa, 1992 52. Isto só até ao número 27.
34 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 35

era importante: Se o título de um periódico pode significar a Índole e carácter dele - O Progressista, 28 Agosto 1851/15 Maio 1854
– ‘O Clamor Público’ - indica que ele há-de ocupar-se de todos os assuntos cuja dis- - A Ordem, 15 Janeiro 1852/1 Setembro 1860
cussão é reclamada pela opinião e interesses gerais desta província. E essa missão já - O Clamor Público, 17 Maio 1860/15 Outubro 1877
se vê que vai tratar dos meios de proteger as indústrias agrícola, comercial e fabril, - O Direito, 1880/1883
- O Funchalense, 17 Abril 1859/17 Fevereiro 1851
com muita especialidade53.
- A Voz do Povo, 17 Maio 1860/15 Outubro 1877
Cada jornal tinha o devido enquadramento político-partidário, apresentando-se
- Gazeta da Madeira, 1 Fevereiro 1866/27 Fevereiro 1869
como o decalque da situação política. Os editoriais e artigos dos colaboradores mais - A Razão, 1867/1870
directos são disso um reflexo. Daqui resultou acesa polémica que envolveu alguns - O Popular, 1 Fevereiro 1809/12 Setembro 1869 - 1874/1877
jornais, nomeadamente O Clamor Público e a Ordem. - A Lâmpada, 21 Novembro 1876/17 Janeiro 1878
Destaque especial foi dado a um periódico surgido em 1851 - O Agricultor - O Popular, 1 Novembro 1876/17 Janeiro 1878
Madeirense - que se afirmava como órgão oficial da Sociedade Agrícola - Diário de Notícias, 11 Outubro 1876
Madeirense. Em O Archivista, onde se imprimia o novo periódico, temos a notícia Na imprensa do continente encontrámos várias páginas dedicadas à Madeira da
do aparecimento e da finalidade em vista: É destinado a dar conta das Actas da autoria de madeirenses58, como é o caso das memórias publicadas por António
Sociedade Agrícola Madeirense e direcção - de todas as propostas, indicações, Correia Heredia na Revolução de Setembro. Noutros periódicos, onde soubemos
relatórios e trabalhos dos sócios e comissões - da legislação agrária, em geral, e da que a pesquisa seria coroada de êxito, fizemos o levantamento sumário dos ele-
especial da Madeira, - e de memórias, artigos, e quaisquer escritos interessantes mentos mais importantes. Aqui tivemos em conta as publicações da especialidade.
sobre agricultura54. A ideia repete-se no editorial do primeiro número, que explicita Assim do Portugal Agrícola - 1901/8 - retivemos informações sobre a lavra da vinha
as razões de criação da Sociedade Agrícola55. no continente e na Madeira, de que destacamos as monografias de Menezes
A informação disponível sobre o jornalismo madeirense é avulsa, fazendo falta Pimentel, Azevedo Menezes. Na Informação Vinícola (1950/3), órgão oficial da
uma monografia e inventário adequado. Apenas conhecemos duas listas incomple- Junta Nacional dos Vinhos, colhemos notícias e informações de índole histórica
tas feitas por Jordão Apolinário de Freitas56 e pelo Visconde do Porto da Cruz57. Nas sobre o vinho, de modo especial os textos de Rodrigo Cavalheiro, Avelar Machado,
bibliotecas do continente e da Madeira os núcleos jornalísticos estão incompletos, António de Almeida e José Tavares. Outros mais consultamos em que destacamos:
tornando impossível uma relação completa. A colecção da BNL pertence em
grande parte ao espólio de A. R. de Azeredo, aí incorporado após a morte, fican- - A Vinha Portuguesa - Revista Mensal Dedicada ao Progresso da Viticultura Nacional,
do-se no século XIX. Lisboa, 1886/1929, sob a direcção de F. Almeida Brito, Alfredo le Coca, Jorge de
Apresentamos, de seguida, por ordem cronológica, os jornais consultados em Melo.
que colhemos informações para o presente trabalho. - A Vinha Americana em Portugal, 1897, 2 números, revista bissemanal publicada por
António Palma de Vilhena, que como o nome indica releva toda a actividade para
o replantio das vinhas em Portugal por intermédio das castas americanas59.
- O Patriota Funchalense, 2 Julho 1821/8 Fevereiro 1823, 214 números
- Vinicultura, 1934, [que se publicou no Porto por iniciativa de um proprietário local,
- O Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, 17 Fevereiro 1823/3 Julho
Fernando Ribeiro Guimarães].
1824, 71 números
- Vinhos de Portugal, publicação de propaganda vinícola, 1954, publicado em Coimbra
- Funchalense Liberal, 3 Fevereiro 1827/26 Abril 1828
por A. Rocha Pinto.
- O Defensor, 4 Janeiro 1840/18 Maio 1847
- O Vinho em Portugal, Lisboa, 1967, boletim mensal do grémio dos armazenistas de
- O Echo da Revolução, 27 Julho 1846/23 Janeiro 1847
vinho, sob direcção de Acácio Caldeira
- O Independente, 20 Agosto 1846/15 Maio 1847
- Vinho - Semanário Vitivinícola, publicado em Lisboa sob a direcção de António
- Correio da Madeira, 3 Fevereiro 1849/9 Agosto de 1851
Batalha Reis[um especialista das questões enológicas. Foi também director do jor-
- O Amigo do Povo, 26 Janeiro 1850/ 27 Abril 1854
- O Arrivista, 7 Dezembro 1850/27 Dezembro 1851 nal Informação Vinícola].
- O Agricultor Madeirense, 26 Março 1851/Dezembro 1851
53. Nº 1, p. 1.
54. Nº 15, p. 1.
55. Nº 1, pp. 1/2. 58. Existem diversas publicações que compilam os discursos parlamentares de deputados madeirenses. Veja-se Fernando
56. Vide Diário de Notícias, Funchal, nº 6385/6. Augusto da Silva, “Discursos”, in Elucidário Madeirense, vol. I, Funchal, 1984, pp.865-867.
57. Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, Funchal, 1953, vol. II, pp. 311/3. 59. Vide nº 1, pp. 1/2, onde se alude a esta finalidade prática.
36 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 37

A Bibliografia fundos arquivísticos locais com a organização do arquivo local sob o impulso de João
Cabral do Nascimento, que através dum boletim (1931) procedeu à sua divulgação. O
trabalho teve continuidade nos anos subsequentes de forma que hoje o acesso aos fun-

B
No século XIX lançaram-se as bases da História Insulana que teve em Álvaro dos documentais está facilitado. Foi neste contexto que tivemos na década de 50, da ini-
Rodrigues de Azevedo (1825/1898) o marco fundamental, com as anotações às ciativa da Sociedade de Concertos da Madeira e sob os auspícios de Luís Peter Clode,
Saudades da Terra e na monografia sobre a Madeira publicada no Dicionário uma revista de artes, letras e História, que tomou o nome de Das Artes e da História
Universal de Português Ilustrado de Fernandes Costa e numa colectânea de docu- da Madeira. A publicação animou o panorama cultural da ilha durante duas décadas
mentos que deixou em manuscrito60. O primeiro estudo ficou como fonte base de toda (1950/1960), tendo marcado uma fase importante da historiografia local, com os estu-
a posterior escrita sobre história da Madeira e, ainda hoje, é um elemento indispensável dos de Pita Ferreira, Joel Serrão e Ernesto Gonçalves.
de consulta. São da mesma época os textos de Paulo Perestrelo da Câmara (1810/1854), As teses de licenciatura apresentadas entre 1940/60 como prova final da licenciatu-
Breve Notícia sobre a Ilha da Madeira (1841), os apontamentos manuscritos de João ra de História às Faculdades de Letras de Lisboa e Coimbra assumem igualmente uma
Pedro de Freitas Drumond e a referência do cónego Joaquim Gonçalves de Andrade importância fundamental por serem trabalhos monográficos de investigação sobre
(1795/1868), que anotou a História Insulana de António Cordeiro, no que toca à temas obscuros ou inexplorados, podendo salientar-se as de Fernando Jasmins Pereira
Madeira e que teria reunido documentação para a História da Madeira, que se perdeu (em Coimbra), Maria de Lurdes Freitas Ferraz, Maria do Carmo Jasmins Pereira,
juntamente com o espólio literário61. Quase todos os textos publicados estão impregna- António Aragão, Mimoso de Freitas e João José Abreu de Sousa.
dos pela marca ideológica do movimento liberal, como se pode comprovar nas Horácio Bento de Gouveia, através da obra literária, merece destaque por ser o
tomadas de posição de Álvaro Rodrigues de Azevedo sobre a questão em debate do escritor e memoralista das palpitações, problemas e quotidiano da população rural. Na
contrato de colonia e da subordinação da ilha ao domínio britânico. obra que nos deixou perpassa um traço historiográfico, nomeadamente em A Canga,
A historiografia primeira metade do século XX (1922/50) foi marcada pela ideolo- com a refutação do contrato de colonia, Aguas Mansas, com o retrato de miséria das
gia patriótico-nacionalista, como foi o caso do grupo conhecido como a Geração do bordadeiras, O Torna Viagem, com a saída e regresso do emigrante madeirense,
Cenáculo. Estamos perante uma agremiação onde se juntavram alguns dos vultos mais Margareta, com o desvendar dos meandros da urbe funchalense dos anos 40. Alguns
destacados da época, de que podemos salientar ao nível historiográfico, J. Reis Gomes, aspectos do quotidiano da primeira metade do século XX estão ao alcance de todos.
Fernando Augusto da Silva e Alberto Artur Sarmento. A tertúlia tinha como órgão ofi- Para os séculos XVIII e XIX não devemos desprezar o contributo dado pela litera-
cioso o Diário da Madeira e o Heraldo da Madeira, onde davam conta das deambu- tura inglesa com a publicação de monografias específicas sobre a ilha. O inglês, não só,
lações históricas. Foi daqui que partiu a ideia de comemorar o V centenário da dominou os circuitos comerciais, como também se mostrou interessado na cultura e
descoberta da ilha, que teve lugar entre 1922/1923. História, certamente com a intenção de defender-se das acusações que determinada
O Pe. Fernando Augusto da Silva (1863/1949), com o Elucidário Madeirense historiografia local vinha fazendo.
(1923), lançou as bases da História da Madeira. Estamos perante um apanhado, em A Madeira ganhou a atenção dos aguarelistas, escritores e historiadores ingleses. Nas
modo de dicionário, dos aspectos mais importantes mas não qualquer história acaba- aguarelas testemunha a vida (e caricatura) da sociedade madeirense do século XIX, o
da. Alberto Artur Sarmento (1878/1953) foi o elemento mais influente, espírito pers- traje, as festas, costumes e paisagens63. Entretanto os memorialistas que por cá passaram
picaz e aberto que em Os Ensaios Históricos da Minha Terra (1ª edição, 193) esboçou deixaram escritas as impressões de tudo quanto viram, dando realce ao vinho. Aqui
uma síntese de história regional. merece destaque a memória de Henry Vizettely que em Facts about Port and Madeira
A geração seguinte continuou o trabalho de pesquisa e divulgação da História da (1880) dá conta do estado das vinhas madeirenses infestadas com a moléstia da
Madeira. A conjuntura foi favorável, quer através do Congresso do Mundo Português Filoxera, das castas mais importantes, da forma de funcionamento das estufas, do
em 1940, quer das comemorações henriquinas em 1960. Veja-se, por exemplo, as comércio64. Outras monografias surgiram com carácter turístico. R. White em 1853 ao
comemorações henriquinas celebradas no Funchal através do boletim do Arquivo escrever Madeira its Climate and Sunny, que tinha um subtítulo significativo: A
Histórico62. Os elementos mais destacados são: o Pe. Eduardo Pereira (1887-1976), Handbook for Invalid and other Visitors. Mais recentemente tivemos W. H. Koebel,
Ernesto Gonçalves (1898-1982), Carlos Montenegro Miguel. A. L. Simon, Rupert Croft-Cook que, em estilo de memória ou em forma de mono-
A partir dos anos 30 deu-se um impulso decisivo na historiografia na valorização dos grafia histórica, deram conta de vários aspectos da história ao público inglês.

60. BNL, Secção de Reservados, Cod. 6999.


61. Visconde do Porto da Cruz, ibidem, p. 62. 63. José Leite Monteiro, Estampas Antigas de Paisagens e Costumes da Madeira, Funchal, 1951.
62. Vide vols. XII e XIII. 64. Vide Ruppert Croft Cook, Madeira, Londres, 1961, pp. 96/105.
38 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 39

A mesma opinião foi também defendida para as Canárias, onde, volvidos vinte anos,
Elias Serra Rafols71 respondia a Francisco Morales Lezcano72, enunciando que nunca
existiu um regime de monocultura, uma vez que a economia canária foi dominada
por uma variedade de culturas, cuja actuação não foi uniforme no tempo e no
espaço. A questão foi retomada na década de cinquenta por Frédèric Mauro73, que
aconselhado por Vitorino Magalhães Godinho74, afirma que a economia insular
assentava apenas num regime de produtos dominantes e não de monocultura. Aliás,
V. M. Godinho para desfazer os equívocos introduziu um novo conceito operatório,
o complexo histórico-geográfico.
Na Madeira a ideia dos ciclos vingou junto de historiadores e eruditos não sendo
difícil encontrar expressão em qualquer análise de carácter económico. Assim, ficou
assente que a História Económica da Madeira evoluiu do ciclo dos cereais, do açú-
car ou ouro branco, do vinho, do turismo, banana e, certamente, da autonomia.
Finalmente em 1979 esta leitura chegou à análise da História de Arte e urbanismo
da cidade, surgindo pela pena de António Aragão75 a ideia de que a cidade teve dois
momentos distintos em que se definiram diversas formas de concretização artística
e urbanística: a cidade do açúcar e do vinho. O impacto que o texto teve no meio
académico e público interessado conduziu a que a ideia, ainda que sem qualquer
fundamento, acabasse por vingar.
Armas da Uma análise aturada da economia insular diz-nos que não se regeu por princípios
Cidade do Funchal65.
exclusivistas, de acordo com a premência das solicitações externas. Antes pelo con-
trário, o desenvolvimento socio-económico processou-se de forma variada, sendo a
História económica e a teoria dos ciclos. exploração económica resultado do confronto com as condições e recursos do
meio, as solicitações da economia de subsistência. É difícil, senão impossível, definir
Uma das questões mais prementes da historiografia madeirense sobre o vinho um ciclo em que impere a monocultura de exportação, num espaço amplo e multi-
prende-se com a ideia de ciclo, usada para definir o período de afirmação da cultura facetado como é o do mundo insular.
e comércio do vinho. É comum apresentar-se o processo económico da Madeira de Os modelos, embora perfeitamente delineados, não se ajustam à realidade socio-
acordo com a afirmação cíclica de produtos66. A teoria, que teve o apogeu nas económica, que é extremamente variada e enriquecida de múltiplas matizes.
décadas de cinquenta e sessenta, não colhe hoje adeptos. Tudo começou em 1929 Embora alguns produtos, como o trigo, o açúcar, o vinho e o pastel, surjam em
com Lúcio de Azevedo67 e foi reforçado passados vinte anos com Fernand Braudel68, épocas e ilhas diferenciadas, como os mais importantes e definidores das trocas
acabando por conquistar a adesão da historiografia brasileira. Ambos argumentam externas, não são únicos na economia insular. Na verdade, a dominância sucede
que o processo económico das ilhas se articulou de acordo com o regime produtivo
de monocultura. Ainda, em 1949 Orlando Ribeiro69 esclarecia, que no caso da 71. ”El gofio Nuestro de cada Dia”, in Estudios Canários, XIV-XV, 1969-1970, pp.97-99, sendo corroborrado por M. A . Ladero
Quesada, España en 1492, Madrid, 1978, pp.205-218, e Eduardo Aznar Vallejo, La Integración de las Islas Canárias en la
Madeira não é possível encontrar rastros de monocultura no regime de exploração Corona de Castilla, La Laguna, 1983, p.455.
agrícola, mesmo assim Joel Serrão insistiu em 1950 em definir o ciclo dos cereais70. 72. MORALES LEZCANO, Victor, Sintesis de la Historia Economica, Tenerife, 1966, IDEM, Las Relaciones Mercantiles entre
Inglaterra y los Archipiélagos Atlantico Ibericos (...), La Laguna, 1970;IDEM, “Cultivos Dominantes y Ciclos Agricolas en la
Historia Moderna de las Islas Canarias”, in Historia General de las Islas Canarias, IV, 11-22.
73. Frédèric MAURO, Le Portugal et l’Atlantique au XVIIe, siècle (...), Paris, 1960, 501; IDEM, “Conjoncture Économique et
65. Os elementos figurativos começam por assinalar apenas a cana de açúcar e só a partir de 1809 surgem os referentes ao Structure Sociale en Amérique Latine depuis d’Époque Coloniale”, in Conjoncture Économique, Sctruture Sociales,
vinho, através de uma parreira com uvas, confronte-se António Aragão, As Armas da Cidade do Funchal no curso da sua Hommage à Ernest Labrouse, Paris, 1974, 237-251.
História, Funchal.1984. 74. GODINHO, Vitorino Magalhães, Os Descobrimentos e a Economia Mundial, vol. IV, Lisboa, 1983, pp.207-223; IDEM, “A
66. O mesmo debate existe quanto às análises de História Económica Ibero-americana, veja-se Goizueta-Mimo, Felix, Bitter Divisão da História de Portugal em Períodos”, in Ensaios II, 2ª ed., Lisboa, 1978, 12-14; IDEM, A Construção de Modelos
Cuban Sugar. Monoculture and Economie Dependence from 1825-1899, N. York, 1987. para as Economias Pré-Estatísticas, Revista de História Económica e Social, 16, 1985, pp.3-16; “Entender la Praxis de los
67. AZEVEDO, Lúcio de, Épocas de Portugal Económico. Esboços de História, Lisboa, 1929. Negocios”. Esboço de Modelo para a Economia dos Séculos XV e XVI, História das Ilhas Atlânticas, vol. I, Funchal, 1997,
68. BRAUDEL, F., Le Méditerranée et le Monde Méditerranéen(...), ed. de 1949, 123. 13-39; IDEM, “Entender la Praxis de los Negocios”. Esboço de Modelo para a Economia dos Séculos XV e XVI, in História
69. Orlando Ribeiro, L’Île de Madère (...), Lisboa, 1949, 67. das Ilhas Atlânticas, vol. I, Funchal, 1997, pp.40
70. SERRÃO, Joel, Temas Históricos Madeirenses, pp.17-20 e 53-75. 75. ARAGÃO, António, Para a História do Funchal, Pequenos Passos da Sua Memória, Funchal, 1979
40 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 41

apenas no sector da exportação e nunca na globalidade da economia da ilha, onde Obras gerais
por vezes outros, como fonte de riqueza familiar e subsistência, se tornam mais
importantes.
Os ciclos de monocultivo são apenas a parte visível das exportações pelo que Estrangeiras • Temática Geral
resumir a análise económica a isso é uma atitude reducionista uma vez que se limi-
ALBIZZI, Six mois à Madère, in La Tour de Monde, Paris, 1889, T.15, pp. 65/96
ta a reconhecer a importância dos produtos com maior peso nas exportações. A ilha
BAGUET, A., L’île Madère, in Bulletin de la Societé de Gèographique d’Anvers, Anvers,
é um microcosmo definido pela variedade de espaços ecológicos que não se com-
1879, T. VI, 367/82
padecem com a unicidade agrícola. A situação de produto dominante levou à sis-
BLAIZE, L., Madère, in Bulletin de la Societé de Géographique de Lyon, Lyon, 1879, T.
tematização do devir socio-economico em ciclos, uma ilusão da complexa realidade
II, pp. 81/85
que serve de base. O produto define a estrutura socio-economica, numa determi-
nada época, esquecendo-se a complexidade do sector produtivo e comercial. A DERVENU, Claude, Madeira, Paris, Horizons de France, S/D
documentação é unânime na afirmação de que o empenho do ilhéu não se resum- KOEBEL, W. H., Madeira-Impressions & Associations, London, Metwens & Ca. Ldt.,
ia apenas ao produto que mais girava nas relações com o exterior. Há em todos os 1924
momentos uma preocupação das autoridades e das populações de auto-suficiência MARJAY, Frederic, Madeira, Lisboa, Livraria Bertrand, 1965
que milita em favor da manutenção das culturas da dieta alimentar que medravam, NICHOLAS, E., Madeira and the Canarias,, London, 1953
lado a lado, com as dominantes e solicitadas pelo comércio externo. A polivalência POWER, C. A. de P., Powers Guide to the Island of Madeira (the pride of Portugal),
produtiva foi uma constante do devir economico, sendo uma das características das London, George Philips &Son Ltd., 30ª edição
regiões insulares. A dominância de um produto nas relações com o exterior não PAJEAUX, Daniel Hneri, L’Escale du Pére Laval à Madère-1720, in Arquivos do Centro
impede a situação de policultura, nem retira o empenho das gentes laboriosas em Cultural Português, Paris, 1970, vol. II, pp. 445/56.
assegurar a sua autosubsistência. As posturas Municipais, quando regulamentam os PAPILLAUD, Lucien, Un Voyage à Madère en 1858, in Bulletin de la Societé de
diversos sectores económicos, evidenciam uma diversidade de interesses e movi- Geographie de Rodefort, Rodefort, 1883, T. IV, pp. 190/220
mento de produtos. BIRD, W. And Alfred, Madeira - A Guide Book of Useful Information, London, F.
No processo histórico madeirense é gritante a extrema dependência da ilha em Passmore, S/D
relação ao exterior. A Europa assumiu uma posição dominante firmando-se como WILHELM, Hartnack, Madeira, Landeskunde Liner Insul, Hambourg, Friederisheen de
o centro donde emanavam as orientações de ordem política e económica. A situ- Gruyter & C.M.B.H., 1930
ação é comum ao mundo insular definindo uma das peculiaridades, marcada pela WHITE, Robert, Madeira its Climate and Scenery- a Hand-book for Invalid and other
fragilidade e dependência económica em relação ao velho continente. Para isso con- Visitors, Edimbourgh, Adaw and Charles Black, 1850
tribuiu a posição hegemónica das cidades-capitais dos impérios peninsulares a
pouca disponibilidade de recursos e meios das sociedades insulares.Por outro lado
a afirmação de um produto nas exportações não é possível sem a existência de um Nacionais
sistema de policultura, principalmente em universos restritos como o das ilhas. CÂMARA, Paulo Perestrelo da, Breve Notícia sobre a Ilha da Madeira..., Lisboa,
Assim, os canaviais subsistem se for possível assegurar um vasto hinterland de cul- Typografia da Academia de Bellas Artes, 1841
turas de subsistência. Perante isto podemos afirmar que os ciclos serão apenas a FARIA, José Cupertino de, O Arquipélago da Madeira- Guia Descritivo, Setúbal,
visão deformada do processo económico, a caricatura de uma realidade que sempre Typografia de J. Santos, 1901
foi muito mais complexa. GOUVEIA, Horácio Bento de, Canhenhos da Ilha, Funchal, ed. Junta Geral do Funchal,
Entender a economia das ilhas e a História é reconhecer um estatuto diferencia- 1966
do aos espaços económicos. Para nós a História e a realidade económica não se - A Canga, Coimbra Editora Ltd., 1975
compadece com teorias e tão pouco se lhes deve subjugar. Quem conhece as ilhas LAMAS, Maria, Arquipélago da Madeira - Maravilha Atlântica, Funchal, Eco do Funchal,
sabe que em todas domina a diversidade geo-económica, fruto da configuração 1956
geográfica, que provoca na Madeira um escalonamento de culturas. MONTEIRO, José Leite, Estampas Antigas de Paisagens e Costumes da Madeira, Funchal,
ed. Câmara Municipal do Funchal, 1951
42 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 43

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Obras específicas 10, pp. 1 e 2
Como auxiliar da consulta sobre o vinho é importante a bibliografia organizada em TENREIRO, Francisco, Nótula Acerca do Vinho da Madeira, in Geographica, 1965, nº. 1,
1938 pelo Instituto Superior de Agronomia, por altura do V Congresso Vinícola: pp. 26/31
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(Magazine), Washington, 1973, vol. 143, nº. 4, pp. 488/51

Monografias Históricas sobre o vinho


Viticultura/vinificação
Em primeiro lugar convém destacar as que se debruçam sobre a História do vinho
em geral, desde o aparecimento das primeiras cepas no Oriente, aos tempos que Em primeiro lugar convém destacar a acção da Academia de Ciências de Lisboa, ao
decorrem. Igualmente daremos conta das que caracterizam e definem o vinho. longo dos séculos XVIII/XIX, com a publicação das memórias de Agricultura pre-
ALLEN, Warner, The Wines of Portugal, London, Casa de Portugal, by George Rabird, miadas pela mesma, nomeadamente as memórias I a IV (1787/90), e até mesmo as
Ltd., 1962 memórias económicas publicadas entre 1789/1885.
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Quanto à História do vinho da Madeira, poucas são as monografias que merecem
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muito longínquas como meados do século XV, o vinho nunca é esquecido ficando A Voyage in the Sunbeam our Home on the Ocean for Eleven Months, London,
claro o entusiasmo da descoberta. O interesse do forasteiro pela descoberta do vinho 1881.
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58 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 59

incidência na literatura britânica e norte-americana. Merece referência Chadwyck- 2001. [290.000 volumes da literatura inglesa e norte-americana, em prosa, verso e
Healey, por ser a mais completa e exaustiva na informação apresentada. Só aqui peças de teatro do ano de 600 até a actualidade. Acesso limitado]
foram encontrados 360 registos, sendo 130 de poesia, 84 de drama e 146 de prosa. Making of America (Cornell University Site), [disponível na Internet via WWW. URL:
À pesquisa digital juntou-se a consulta da informação bibliográfica da Madeira, http://library5.library.cornell.edu/moa/] Arquivo capturado em 17 de Agosto de
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62 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 63

A tenue parreira que cortada


Aos ramos estendidos acrescenta
Não só nas folhas, pródiga chamada
Mas nos filhos, que vários alimenta
Sendo com várias castas enxertada
O seu óptimo fruto glória aumenta
E nos seus cachos fermosos cada dia
Mostrará que está rica de alegria.

M. Thomas, Insulana, 1635, Lº. X, v. 96, p. 479

Rótulo antigo.
Colecção Madeira
Wine Company.

Viticultura e Produção
A viticultura madeirense
A A definição da viticultura madeirense assenta na disposição das áreas de cultivo
das castas e na forma de cultivo. Ambas as situações estão em relação directa com
o solo e clima, factores determinantes na definição da qualidade e valor gustativo do
vinho. O Madeira é fruto das propriedades comuns à casta, mas são as condições e
variedade de microclimas que determinam, em última instância, as peculiaridades.
O resultado de tudo isto é um vinho inimitável, definido por uma elevada acidez
que, ao contrário do que acontece nos demais, o favorece no processo de envelhec-
imento.
No solo abrupto e ravinoso surgiram os poios (socalcos) onde se distribuíram as
cepas que engalanaram as latadas e balseiras. Os microclimas obrigaram à selecção
da videira adequada a cada área, favorecendo a variedade de castas e qualidade da
uva produzida. A orografia da ilha expressa-se a partir de uma configuração pirami-
dal de cordilheira montanhosa central, e espraia-se em duas vertentes marcadas por
uma costa abrupta, aqui e acolá, entremeada de áreas planas altas (Paul da Serra,
Santo) e de algumas Fajãs. As últimas são um espaço privilegiado para a cultura da
vinha, como se pode verificar com a Fajã dos Padres. Ao povoador estava reserva-
do o labor de humanização do novo espaço, começando por desbravar a floresta e
erguer paredes sobre as ravinas e encostas para aplainar a terra e nelas lançar a
semente.
A agricultura madeirense é marcada pelas condições mesológicas e a persistência
do velho sistema de propriedade (o contrato de colonia1), a origem do desprezo,
abandono do campo e aversão às inovações técnico-agrícolas. A faina vitivinícola,
definida pelos cuidados da videira e da uva, vindima, lagar e tratamento do vinho,

1. Sobre o contrato de colonia veja-se: Pedro Pita, O Contracto de Colónia na Madeira, Lisboa, 1929; Manuel Soares da Rocha,
A Colonia no Arquipélago da Madeira e a Questão que Gerou, Lisboa, 1957; Ramon Correia Rodrigues, A Colonia na
Madeira. Problema Moral e Económico, Funchal, 1947; Idem, Questões Económicas. À Margem da Colonia na Madeira,
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Colónia, in Islenha, 13, 1993, 47-73; IDEM, História Rural da Madeira. A Colónia, Funchal, 1994; João Lizardo, Algumas
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64 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 65

dominam o ano agrícola dando trabalho quase todo o ano. Para o colono ou caseiro O estudo de Orlando Ribeiro5 continua ainda a ser fundamental para conheci-
a função resumia-se apenas aos cuidados com a cultura e vindima. Para os demais mento da Climatologia e Geologia. Foi ele quem chamou a atenção para a diversi-
intervenientes começa aqui o processo que só acaba com o escoamento do produ- dade de microclimas, destacando o contraste Norte/Sul, o mais evidente ao nível do
to para os principais mercados onde será servido à mesa, nomeadamente em cele- clima e da configuração geográfica6. Assim, temos uma faixa norte, marcada pelos
brações festivas 2. maciços montanhosos de colinas abruptas caindo ao mar (S. Vicente, Seixal) com
algumas fajãs por meio (Ponta Delgada, Arco de S. Jorge, Fajã da Areia, Porto
O solo e o clima Moniz), definida por uma vegetação exuberante e variada e uma forte pluviosidade
e humidade do ar. A vertente Norte foi a fonte abastecedora das regiões do Sul. Em
contraste, o Sul é mais suave na inclinação e elevação, de menor pluviosidade,
A configuração geográfica da ilha pode ser definida em poucas palavras. A dom- podendo-se definir com uma região seca chegando a ser árida (Caniçal). A diferen-
inância de um massiço central montanhoso define duas vertentes costeiras abruptas, ciação natural contribuiu para a definição das áreas de cultura da vinha.
poucas planícies, que alternam entre altas (Paul da Serra, Santo da Serra) e baixas Perante tais condições importa perguntar qual foi a atitude do madeirense, nos
(fajãs do litoral). Está aqui a razão fundamental da morosidade do trabalho humano últimos cinco séculos de História, perante os acidentes que entravam o percurso?
na conquista do espaço. A faina de desbravamento, retenção e arroteamento de ter- No século XV a primeira solução para o desbravamento do solo virgem foi o incên-
ras foi dura. A isto juntou-se a necessidade de canalização das águas para que as cul- dio ateado às densas matas que cobriam a ilha, advindo daí, segundo Francisco
turas de regadio pudessem medrar. Por vezes, a faina não atingia os resultados espe- Alcoforado e Cadamosto, um solo fertilíssimo. Já, nos séculos posteriores, reconhe-
rados, pela pobreza do solo da ilha, levando o Homem a socorrer-se do estrume e, ceu-se o aventureirismo de tão precipitada solução do recurso às queimadas, optan-
depois, dos adubos3. do-se por outras menos drásticas. A desarborização conduziu a mudanças bruscas
Os solos da ilha são resultado da desagregação das rochas vulcânicas sendo com- no clima e está na origem dos efeitos catastróficos da erosão do vento e chuvas. As
postos de basalto, traquite, tufo, escórias e conglomerados. A composição muda grandes catástrofes, conhecidas com aluviões, são o principal resultado7. A partir
conforme se sobe a encosta, estabelecendo diversos níveis minerais. Isto con- daqui estabeleceram-se medidas de protecção do parque florestal, impedindo-se o
juntamente com a variedade climática definem os patamares ideais de culturas. A corte desordenado de lenhas e madeiras, e apostando-se na arborização das
falta de calcário, potássio e azoto obrigaram o Homem a intervir no sentido de lhe encostas escalvadas.
atribuir os suplementos minerais para que as culturas pudessem medrar em per- O primeiro projecto de arborização da ilha pertence a António Rodrigues de
feitas condições. Em síntese o solo é pobre implicando um redobrado esforço com Oliveira, Corregedor e Desembargador da ilha, e está registado nas instruções que
o recurso a fertilizantes, caso se queira produzir em condições satisfatórias4. deixou na Câmara da Calheta em 1782, quando esteve em correição. O plano pre-
via a reorganização das culturas agrícolas no sentido de uma maior diversificação:
2. Aqui apenas daremos conta da vindima e aspectos mais marcantes da viticultura deixando o trato e comércio para capítu- Promoverá o plantio de árvores úteis, em lugar de silvados, nas beiras dos caminhos:
los específicos.
3. Vide J. A. Salema de Freitas, “Alguns Aspectos Agrícolas na Madeira”, in Portugal Vinícola, nº 9, pp. 234/5; A. T. Sousa, o de castanheiros, nos baldios, de meias terras acima, isto é, nas terras mais altas,
Adubaçöes, Funchal, 1952. Orlando Ribeiro [Ibidem, p. 65.] refere-se a essa pobreza do solo do seguinte modo: Les soles
à Madère, sont en général de mauvaise qualité; ils manquant de chaux, et, ils possèdent du fer e du phosfore en quantité
próximas da serra; o de laranjeiras, limoeiros, limeiras, cidreiras, e outras árvores
suffisante, leur teneur au potasse est aussi dificitaire. Ces sont, en outre, trés pauvres en humus. Une fin détruit la coverture frutíferas, protegidas pelos loureiros, vinháticos, e canas nos sítios menos abrigados
végétable spontanée, le sol se degrede trés vite. Le ruissellement l’emporte, l’alteration des basaltes donnes souvent des
argiles plastiques, impermeáble, qui se dêsséchant et se crevassent pendant la longue périodes de sèche. Directment e não muito secos; o do algodoeiro, nos pontos mais quentes e vizinhos do mar; o
exposé à l’insolation, la matiére organique se perd. La frente est presque partout dèfavorable à la culture. No mesmo senti-
do escreveu A. Teixeira de Sousa [Ibidem, pp. 28/30, cit. E. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, 39/40.]: Os solos agrícolas provêm
de amoreiras, junto às villas, igrejas, estradas e mais lugares públicos; e o de pinhais,
da desagregação de rochas vulcânicas, tais como: basaltos, traquites, tufos, escórias, conglomerados. Nas regiões de menor nos montes e picos escalvados, rochas sobranceiras ao mar, e geralmente nas terras
altitude preponderam os terrenos derivados do basalto, compactos, de cor escura que lhe imprime a presença de grande
quantidade de ferro; nos pontos altos os solos derivam com frequência das traquites. De um modo geral, uns e outros apre- magras e incapazes de outra produção; fizessem sementeiras de trigo, cevada,
sentam propriedades físicas muito apreciáveis e a sua fertilidade é notavelmente acrescida com água de irrigação.
Quanto ao aspecto químico são terras pobres em cal, de reacção à vida e contendo doses medianas de ácido fosfórico. Dos
restantes elementos nobres, o potássio, em regra apresenta-se em quantidades insuficientes e o azoto algumas vezes tam-
bém. Explica-se assim o muito proveito que estes terrenos teriam das calagens e das adubações completas. 5 . RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até Meados do Século XX. Estudo Geográfico, Lisboa, 1985 (1ª edição em 1949 com
4 . Em diversos textos é referida a qualidade dos solos onde se cultiva a vinha. Cf. João de Andrade Corvo, A Mangra ou Doença o título: L’ile de Madère. Étude Geographique), pp.27-44. Confronte-se o estudo mais recente de Raimundo Quintal, Ilha da
das Vinhas, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 283; T. E. Bowdich, Madeira. Esboço de Geografia Física, Funchal, 1985
Excursions in Madeira and Porto Santo, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, 6 . A Madeira está situada sob a influência do geral de Nordeste durante quase todo o ano. A ilha deve a este facto os traços
Funchal, 1993, p. 345; J. L Thudichum e a. Dupré, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, London, 1872, in gerais do seu clima e a oposição muito marcada entre as duas encostas, uma directamente exposta à acção do vento dom-
Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 371; H. Vizetelly, Facts About Port and inante, a outra que lhe escpa completamente devido à interposição duma grande massa de relevo. (…) A variedade de
Madeira, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 375; J. microclimas criados pelas condições topográficas é espantosa e seria tarefa vã tentar descrever toda a sua escala. (…) Toda
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66 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 67

Em 17989 João Francisco de Oliveira referia a urgência na criação de um viveiro de


plantas na ilha, mas só teve aplicação com o Corregedor José Maria Cardoso10 em
189511. Em 179912 o Governo Interino solicitara a D. Rodrigo de Sousa Coutinho o
envio de sementes para a plantação nas matas, prados, ribeiras, caminhos e
pomares. Remeteram-se sementes de sacapira e cedros, mas em quantidade insufi-
ciente para a pretensão das autoridades13.
O estabelecimento botânico, solicitado em 179914, ainda não estava preparado e
não se sabia se ia por diante, pois que o Bispo do Funchal queixava-se do facto da
Junta da Real Fazenda não ter abonado o dinheiro para a compra do terreno para
a implantação do viveiro. Era um estabelecimento útil à região, pois: ... que tem em
si todas as bem fundadas esperanças das maiores vantagens. O temperado do clima,
a situação local, a abundância das águas e tudo o mais chama por um semelhante
plano, que pode vir a ser um bom fiador das especiarias de Ásia, raridades da
América e talvez em princípio de riquezas verdadeiras e de um comércio novo e
bem útil à Humanidade.... Em 180115 a questão foi resolvida com a oferta pelo
Conde de Carvalhal do terreno necessário para a instalação do Reservatório de
Botânica.
A aluvião de 1803 evidenciou a urgência na aposta em novo projecto de arboriza-
ção como medida para impedir a desagregação das terras16. Em 181017 foi criada a
Junta de Melhoramento da Agricultura das Ilhas da Madeira e Porto Santo com tal
missão, mas a tarefa não foi executada por inépcia dos dirigentes18. A partir de 1850
a Sociedade Agrícola assumiu o comando da missão, dando-se através de O
Agricultor Madeirense19 as recomendações necessárias para a preservação do par-
que florestal. O Governador Civil José Silvestre Ribeiro foi o promotor da
Sociedade Agrícola20, incentivador da rearborização da ilha21 e do estabelecimento
de medidas proibitivas do corte de árvores para uso na fabricação de aguardente,
laboração das estufas e fornos de cal22.
A ilha do Porto Santo, a mais árida, arenosa e falha de arvoredo e águas, só era
merecedora da atenção das autoridades locais em momentos de crise marcados pela
Agricultura. Painel na
escadaria de acesso ao seca e fome. Daí resultou o Regulamento da Agricultura dado em 177423 por José
Salão Nobre do Governo António Sá Pereira, cuja aplicação ficou a cargo de um Inspector-geral com soldo de
Regional batatas, ou abóboras; e que para estas culturas, fossem aproveitadas as terras mais 400.000 reis. A situação de emergência obrigou à tomada de medidas drásticas,
altas, vizinhas da serra. Suscitou também o aproveitamento dos vegetais espontâneos
nesta ilha, usados em Pharmácia; o estancamento das águas; as searas de milho, a
9 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 997/998.
cuja cultura ele dera princípio, e intermeadas nestas, as do feijão, abóboras, ou semi- 10 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1029.
lhas; a criação de gados, prados artificiais para pasto, bardos de resguardo às terras 11 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1030.
12 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 1124.
cultivadas8. Foi a partir então que se esboçou o primeiro plano de arborização da 13 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 1123.
14 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº.1092.
ilha e de escalonamento das culturas em altitude de forma a travar o avanço da 15 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 1188.
16 . A. R. Azevedo, ibidem, pp. 717, 723/725.
monocultura da vinha. 17 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3290.
A necessidade de rearborização das serras foi e continua a ser uma constante. 18 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 3291, 3289, 3292, 4663.
19 . ARM, CMF, nº 1247, idem, GC, nº 1016/1017.
20 . Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1949/52, vol. I, pp. 477/88, vol. II, pp. 68/97.
21 . Ibidem, vol. II, pp. 427-469
8 . A. R. Azevedo, Anotaçöes às “Saudades da Terra”, Funchal, 1873, p. 717, vide Agricultor Madeirense, nº 3, pp. 50, 52. 22 . Ibidem, vol. II, pp. 544/5.
68 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 69

como a extinção do contrato de colonia24. Madeira é regada pelo suor do vilão28. E como nos diz Eduardo Pereira: O homem
Em oposição à política de preservação florestal temos a labuta do agricultor pela subiu de picareta na mão, quase de joelhos as vertentes a lutar a ferro e fogo com as
conquista do solo virgem, desbravado a floresta, aproveitamento os baldios e levan- rochas, debastando acidentes e armando pedras soltas em socalcos ou taboleiros
tando os alicerces dos poios nas colinas abruptas e sobranceiras ao mar. Os socal- para deles fazer searas e jardins; subiu até onde pode abrir caminho de pé-posto ou
cos ou poios foram, conjuntamente com o arvoredo, o único meio de reter as terras conduzir um fio de água de irrigação29.
para cultivo: A ilha da Madeira, em muitas partes plana é quase toda piramidal, pre- Todas as tarefas de construção dos poios e preparação do solo para cultivo da
cisa de paredes arretas ou socalcos de pedra, que em pouca distância uns dos outros vinha foram executados pelo caseiro ou colono, uma vez que pertenciam ao
tenham mão na sua terra para se não precipitas no mar com as águas e chuvas, e domínio da benfeitoria30. Em 1821 o Governador e Capitão General, Sebastião
sem estas paredes ficaria a ilha da Madeira reduzida um monte de pedras, sem terra Xavier Botelho, tinha razão ao exclamar perante o Conde de Arcos: Sua Majestade
que pudesse produzir25. choraria de dor se visse com os seus olhos as fadigas, as penas, que sofrem os habi-
A tarefa de transformar a terra desabitada em solo arável foi definida, como tantes do sul da Madeira para recolherem uma pipa de vinho31.
epopeia rural por J. V Natividade26 e humana, por A. Lopes Oliveira27. O teste- O encanamento das águas, por meio das levadas, fazia parte da epopeia rural e
munho e apreço pelo labor do madeirense estão presentes na memória e escrita das foi uma das mais espinhosas tarefas que acompanhou os madeirenses até ao século
autoridades. Vejamos algumas provas disso: Em escassas centenas de anos o vilão XX. As levadas evoluíram de acordo com a importância das culturas de regadio e
madeirense ergueu com tão pobres materiais um dos mais extraordinários edifícios foram alvo de regulamentação adequada32, merecendo atenção a do Rabaçal, cuja
agrícolas do mundo e escreveu, com o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas uma construção se prolongou entre 1835 e 1890. No arranque da obra foi decisivo o
grande epopeia. Atacou a rocha para obter terra, transportou-a depois sobre o papel de José Silvestre Ribeiro33.
dorso, por caminhos inverosímeis; lapidou amorosamente a montanha, o serro, as Executadas as tarefas de preparação do solo para a agricultura, teríamos razões
escarpas, os espinhadeiros, como se trabalhasse minúsculos diamantes, não raro para afirmar que a Madeira se tornaria num paraíso, um jardim feito pelo
debruçado sobre abismos e com risco permanente da própria vida; ergueu poios madeirense onde a viticultura e horticultura seriam prósperas. Mas tal não sucedeu,
sobre poios para segurar esses punhados de terra, e fertilizou-a por fim, conquis- nem era isso que se passava em 182334. A época de prosperidade vinícola fora de
tando e dominando o fio de água misteriosamente nascido através de caprichosos e felicidade efémera e pouco rentável para o colono. Uma memória sobre o estado e
de acidentadíssimos percursos. Nas encostas, agora suavizadas pelo trabalho de melhoramento da ilha da Madeira, enviada em 5 de Dezembro, pelo então
inumeráveis gerações e com gigantescos anfiteatros sempre verdejantes esfolha-se o Corregedor Manuel Soares de Lobão e Albergaria ao Conde de Subserra, dá conta
casario. Junto a cada casa, a parreira, um canteiro ou um modesto alegrete de flo- disso: A situação geográfica, temperança do ar, qualidade componentes de seu ter-
res: anseio de beleza, doçura, suavidade, após uma tarefa rude e magnífica, num reno, contínuos orvalhos, copiosos mananciais de água de suas alcantiladas mon-
cenário ciclópico... Em nenhuma outra parte do mundo se põe ao serviço da agri- tanhas produzem a fecundidade deste velho país por extremo favorecido pela
cultura maior soma de trabalho humano por unidade de superfície... Talvez por natureza para agasalhar os viventes e produção dos vegetais, para poder dizer-se que
isso, ninguém votará mais fundo amor à terra do que o vilão madeirense e por amor são aqui indígenas todas as plantas do mundo conhecido, pela facilidade de se clima-
dela mais se sacrifique e padeça... Se atendermos a que grande parte do solo tizarem e ainda mesmo por se acharem naturalmente sem cultura algumas raças que
madeirense é explorado sob o contrato de colonia, pelo qual o colono entrega ao recebem de Ásia e América... Todas as sementes, grãos, frutas e todas as castas de
senhor da terra o demídio das colheitas, compreende-se que o agricultor para viver plantas da Europa produzem e vegetam maravilhosamente35.
obrigue essa terra a fazer prodígios e tenha, na intensificação cultural, a sua única A ideia da ilha como Paraíso desfez-se rapidamente, mercê das dificuldades
defesa. Por isso o vilão, o homem que faz milagres, o lapidador de montanhas, o resultantes da tendência para a monocultura da vinha: Este país porém ricamente
feiticeiro da água, que trabalha vida inteira como um animal de carga e vive pobre- dotado pela natureza acha-se pobre e atenuado. Causas desta desgraça: a falta de cul-
mente e no maior desconforto, ao erguer os socalcos gigantescos de degraus na ver-
tente das serranias, construiu afinal o seu próprio calvário. Mais do que pela água, a 28 . J. V. Natividade, Fomento da Fruticultura na Madeira, Funchal, 1947, pp. 15/7, cit. E. Pereira, ibidem, vol. I, 438/9.
29 . Ibidem, vol. I, pp. 438.
30 . Vide AHU, Madeira e Porto Santo, nº 6478 e 3281; ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 120/2.
31 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 6265.
23 . ANTT, PJRFF, nº 976, fols. III -9. 32 . Para o estudo das levadas na Madeira vide M. R. Amaro da Costa, “Aproveitamento da Água na Ilha da Madeira”, in DAHM,
24 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 4846. vol. I, nº 4, 1950, 18/9.
25 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 6478; ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 120/2. 33 . Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, vol. II, pp. 607/40.
26 . Madeira. Epopeia Rural, Funchal, 1953. 34 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 7265/6.
27 . Arquipélago da Madeira. Epopeia Humana, Funchal, 1969. 35 . Idem, Madeira e Porto Santo, nº 7266.
70 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 71

tura e de uma cultura regular é a primária causa da ruína. Nem sequer uma quinta 1880, segundo Henry Vizetelly, era de 2.500ha, e passados três anos, Almeida e
parte da ilha se acha cultivada, sendo que toda ela até nos íngremes outeiros tem a Brito refere que passou de 2.500ha para apenas 500ha41. A informação estatística
propriedade de produzir o centeio, a cevada, batatas, grãos e legumes. A cultura que para os anos de 1881, 1882, 1885 diz que era, respectivamente, de 594ha, 353,10ha
se emprega é só em vinhas e muito mal cultivadas. Resulta daqui a falta de géneros e 769,42ha. Já em 1949 Orlando Ribeiro estabelece a área cultivável em 225 Km2, o
mais necessários à subsistência e lá se vão buscar ao estrangeiro, que deste modo que corresponde a 30% do total da ilha, em que a vinha ocupa apenas 8%. Na déca-
absorvem toda a importância dos vinhos e ainda assim mesmo os habitantes não da de cinquenta, segundo José Tavares42, o vinhedo havia já recuperado 1.200ha da
podem satisfazer as suas despesas ordinárias. área cultivada, atingindo na década imediata 2.000ha43. A partir dos anos setenta foi
A gente do pais, que é educada, tem talento, mas o luxo, o fatal luxo lhes tem evidente o avanço da vinha. Em 1977 ocupava 1940ha e passados vinte anos situa-
vedado a inclinação para a cultura e indústria36. Os proprietários que têm fundos, va-se já nos 2000ha. Ao mesmo tempo a cultura adquiriu uma dimensão importante
nos quais podiam empregar uma interessante cultura, abandonam os seus campos a na agricultura, pois que em 1989 ocupava já mais de 20 % da área cultivada.
colonos ignorantes e preguiçosos, cujo trabalho estendem só ao necessário para sub- Orlando Ribeiro44 apresenta o escalonamento das culturas em três zonas. Na ver-
sistirem, nada adiantam e por isso longe de irem gradualmente cultivando o terreno tente Sul atingem faixas contínuas até 700 m, enquanto no Norte se apresentam
inculto, vão deixando de cultivar o que estava culto; a poucos passos acima de tudo descontínuas. A primeira zona, que atinge 400 m no sul e 200 m no Norte, oestava
em maninhos. dedicada à cana-de-açúcar e mais culturas tropicais. Na segunda até 600 m cultiva-se
A tenacidade dos camponeses em não admitirem emenda nos vícios, que lhe são os frutos mediterrâneos. Já na terceira, que engloba os terrenos os terrenos baldios
notados, os instrumentos rústicos do seu uso, sendo eles aterradíssimos aos usos e florestas45. O presente escalonamento não pode ser considerado estático e per-
que herdaram de seus maiores, produz outro embaraço para a boa cultura. Muito feitamente definido, pois que a realidade é bem outra e as culturas dispõem-se no
conviria para corrigir este erro e semelhantes distribuir com alguma vantagem pelas solo conforme as disponibilidades e necessidades dos proprietários do terreno.
aldeias desta ilha alguns peritos lavradores do Minho e da Beira, podendo deste É certo que a vinha tinha no Sul, nos terrenos situados entre os 330 e 750 metros
modo estabelecer-se uma mais regular e mais conveniente cultura37. de altitude, as melhores condições para medrar. Mas, o homem fê-la espalhar por
A ilha apresentava outros óbices à afirmação da economia agrícola, resul- toda a ilha, ignorando as condições ideais e sujeitando-se à qualidade do fruto que
tantes do facto de dispor uma área agrícola limitada. Em 1865 o solo cultivável, daí advinha. A possibilidade de escoamento interno nas tabernas ou a queima para
abaixo dos 900m, cifrava-se em 18.381 ha, sendo 29.448 de baldios e terras situadas fabrico de aguardente estão na origem da situação. A vinha era uma cultura de con-
acima dos 900 m. Da área agricultada, cerca de 2.500 ha (19%) estava ocupada com vívio fácil com as demais, erguendo-se em latadas e sob o solo livre plantavam-se
vinha, 4.649 de cereais de pragana, 357 de cana-de-açúcar, 488 de milho, 10.389 de batatas, abóboras e outras culturas que contribuíram para a adubação do solo. Em
batatas, semilhas, inhame, legumes, ervagem. Em 1949, O. Ribeiro38 dava conta de 1817, Junta de Melhoramento Agrícola insurgiu-se contra a situação considerando-a
2.525 Km2 (30%) da área cultivada, sendo 247 Km2 de terreno inculto. A área, uma lesiva da cultura da vinha.
conquista do madeirense, distribuía-se pelas culturas do trigo, bananas, açúcar, Os vinhos das uvas colhidas nas áreas litorais eram os melhores, perdendo quali-
notando que: ...a ilha da Madeira é um canto de terra profundamente ordenado dade à medida que se avançava para a montanha ou no sentido da vertente Norte.
pelo homem. (…) a superfície cultivada é pois uma obra humana, uma vitória sobre Os preços do mosto, desde o século XVI, foram estabelecidos de acordo com os
o declive, a seca estival e a pobreza do solo39. Para Eduardo Pereira (1956) o terreno patamares ideais da cultura. A vereação do Funchal definiu dois níveis de preços: os
arável cifra-se em 30.000 ha., de que apenas 20.000ha, ou seja 1/340, eram apro- vinhos das meias terras abaixo, os melhores; e os vinhos das meias terras acima, os
veitados. de inferior qualidade.
Outro problema prende-se com a extensão do solo aproveitável, que se situava
apenas abaixo dos 900 metros e ocupava uma ínfima parcela do total da ilha. A área
de vinhedo evoluiu ao longo dos tempos conforme o vinho foi ganhando ou per-
dendo importância. O efeito das doenças sentiu-se rapidamente de modo que em
41 . José Tavares, Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, Funchal, 1953, p.9
36 . Mais adiante salienta-se acerca do luxo, “O maníaco luxo dos insulanos que pela criaçäo inglesa tem dado maior valor aos 42 . Ibidem. Segundo Ramon Honorato C. Rodrigues [Questões Económicas, vol. II, Funchal, 1953, p.46] a área era de 1650ha
objectos estrangeiros, quando mesmo os nacionais excedem em bondade, é outra causa de ruina do paíz”. 43 . Edurado C. N. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. II, p.576. Segundo Rupert Croft-Cooke [Madeira, London, 1961, p.95] as vinhas
37 . Eduardo Grande, Sociedade Agrícola do Funchal. Relatório, Funchal, 1865, p. 9. ocupavam na década de sessenta 3000ha
38 . Ibidem, p. 53 44 . Ibidem, pp. 56-59
39 . Ibidem, p. 55 45 . Ideia corroborada por Eduardo Pereira, Ibidem, vol. I, pp. 446/447; José Manuel Azevedo e Silva, ob.cit., vol. I., pp.59-65.
40 . Ibidem, vol. I, pp. 437/8. 46 . Vide H. Bento de Gouveia, A Canga.
72 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 73

O viticultor madeirense

V
A documentação do século XIX esclarece a forma como se estabelecia a domi-
nação e o tipo de relações geradas. Em 1813 dizia-se: Todo o terreno desta ilha, com
pouquíssimos, ou talvez nenhumas excessões, tem três donos; o primeiro, é o direc-
to senhorio, quando há emprazamento, o que raras vezes acontesse; o segundo, o
senhorio útil, enquanto não cai em comisso, o que também sucede, com a mesma
raridade; o terceiro é o colono que cultiva de meias, que quanto ao meu entender,
tira o mais lucro, porque come e cria todo o ano, de que não paga meação, porque
só a deve dos géneros da colheita, bem assim como o dízimo, o que é aqui um direi-
to provincial de 5 de Março de 1723, a favor da lavoura, para se lhe não exigirem
dízimos das verdadeiras, coisa muito bem entendida, por ser de dificultosa avalu-
ação e que tem causado a ruína de muitos cultivadores do Brasil, o que acontece,
quando o dizimado se não pode ajustar com o dizimeiro, o que é muito ordinário.
O colono além das utilidades ditas, tem o direito de retenção e conservação pelas
benfeitorias, que não outra coisa mais do que paredes que sustentam a terra, ou
taboleiros de vinha, para não serem levados pelas águas das grandes chuvas, o que
no Douro se chamão socalcos; cá manda-os fazer o proprietário, aqui são feitos pelo
colono e tem um valor verdadeiramente ideal; os socalcos, ou benfeitorias, sem a
terra, não valem coisa alguma, a terra sem eles, tem um preço e tudo que nela se
edifica, ou planta, pertencia ao dono por direito; aqui não é assim, e é muito justo
e útil que assim continue, por ser duplicado interesse de conservação e cultura entre
os proprietários e o colono, que tem mútua e recíproca dependência da fertilidade,
e cultura do mesmo terreno; o colono é quase servo da gleba, sem o saber e sem o
ser pela lei; o proprietário não o expulsa, sem lhe pagar as benfeitorias e o colono
Lavradores.
Gravura publicada O homem e a terra não se despede com o temor de perdê-las. São poucos os exemplos de serem des-
por W. Combe, 1821. pedidos, ou de se despedirem: uma prova de que as benfeitorias representão muito
Na Madeira a relação do homem com a terra foi diferente daquilo que aconte- e valem pouco, ou um preço ideal, é o número das benfeitorias incorporadas nos
ceu nas demais regiões do pais, resultado de uma situação particular conhecida próprios, avaliados em nove contos, para as quais não é comprado.
como contrato de colonia. De acordo com o contrato sobre a terra incidiam dois Há ainda um quarto proprietário, que tira sem interesse do trabalho industrioso
tipos de proprietários: o senhorio e o colono. O senhorio era o legítimo proprietário e dispendioso que concorre para a cultura; sabe-se geralmente que os soberanos
que recebera a terra de dadas, por compra ou herança e, por sua vez, a entregava ao reservam para si, quando dão muitos artigos; por exemplo, direitos reais, vieiros de
colono para que a tornasse arável, ficando com direito a metade das colheitas. O metais, águas, e outros declarados nas ordenações do Lº 2 Nº 26 e nas ordenações
colono estava obrigado a criar as benfeitorias necessárias, que era proprietário, para da Fazenda, cap. 237. Muitos destes artigos ficariam inertes e estéreis se os sobera-
que a terra se tornasse produtiva. Quanto à vinha o contrato, regido por normas nos os não concedessem a proprietários com certas e determinadas condições, fal-
consuetudinárias, estabelecia que o senhorio tinha direito a metade do mosto à bica tando-se a elas, caiem em comisso, e revestem para a coroa; desta natureza são as
do lagar, sendo todos os encargos com a plantação, construção das latadas e lagar, minas e águas47.
cuidados com a vinha e a vindima da responsabilidade do colono. A situação per- Em 1822 argumentava-se sobre o mesmo mas doutra forma: Há também n’esta
durou por muito tempo em algumas freguesias, terminando apenas em 1976, quan- ilha uma forma de domínio particular d’ela; e vem a ser, que um é o dono do solo,
do o contrato de colonia foi abolido por decreto da Assembleia Regional da
Madeira. 47 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3281.
74 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 75

ou terra e outro o dono da superfície ou das benfeitorias. Chamam na ilha da posse universal na ilha, um senhorio não pode expulsar um rendeiro sem primeiro
Madeira - benfeitorias - a tudo o que está feito, plantado, ou edificado no solo, ou o compensar por todos esses melhoramentos - o que, a propósito não incluem pré-
no terreno; as paredes, feitas para sustentar ou defender a terra, as videiras, e árvores dios que tenham sido feitos - que o rendeiro tenha feito no seu pedaço de terra.
plantadas, tudo entra na classe de benfeitorias. Estas benfeitorias ou melhoramentos são avaliadas por funcionários do Governo,
Para avaliar as benfeitorias das videiras e árvores não se avalia o que elas cus- que invariavelmente se inclinam para o lado do rendeiro e as estimam num alto
tavam a plantar, mas sim o que actualmente valem e para se fazer a avaliação das valor. A consequência disto é que quanto mais terra o arrendatário coloca num
videiras contam-se os pés e não se atende à produção. Acontece ordinariamente que monte e quanto mais muros ele levanta no seu pequeno pedaço de terra, mais certo
se o terreno vale v. g. 100, as benfeitorias de paredes, videiras, árvores, etc. que n’ele está de que nunca será mandado para fora dele, pois presentemente estas cons-
estão, valem, 300 ou 400. Por via de regra o dono do terreno é o dono das ben- truções a que o camponês e a sua família dedicam todo o seu tempo livre, tanto se
feitorias, porque se por acaso o é e quer dar a fazenda a cultivar vende ao colono as torne vantajoso ou não, frequentemente excedem o valor da própria terra.
benfeitorias avaliadas na dita forma, o qual lh’as paga, ou logo ou em prestações. Presentemente, deve haver muitas centenas de milhas destes socalcos em toda a
O colono, senhor ou dono das benfeitorias, ou porque as fez, ou porque as com- ilha.
prou, tem de cultivar a fazenda à sua custa, podando, amanhando, e cavando a Renda em géneros é a regra na Madeira. O rendeiro lavra, planta e aduba o solo,
vinha, tem de fazer a vindima e o vinho no lagar e à beira dele dá metade ao dono faz a colheita, que, quando é trigo, ele debulha; se for cana-de-açúcar, ele extrai a
do terreno, ficando com outra metade. sacarina; se foram as uvas, ele espreme, dando metade do produto ao senhorio
Esta metade do colono, poucas vezes excede, e muitas não chega à despesa que como renda, depois do Governo ter tirado a sua dízima. Metade da produção de
ele faz com a cultura da fazenda anualmente de sorte que a metade da produção milho, açúcar e vinho é reclamada rigidamente pelo senhorio, mas todos os vegetais
com que fica o colono é a paga do seu trabalho, ficando assim o valor das benfeito- cultivados são geralmente retidos pelo rendeiro, juntamente com os cereais, embo-
rias sem ter rendimento algum48. ra o senhorio possa exigir metade dos últimos, se quiser.
Finalmente em 1826 temos outra referência mais elucidativa: Geralmente as ter- O rendeiro que reside na terra que lhe foi arrendada é chamado um caseiro,
ras cultivadas nesta ilha tem dois proprietários, um do solo, a que chamam senho- devido à casa que ocupa, enquanto se ele apenas arrendar a terra e não residir nela,
rio, e outro das benfeitorias, a que chamam caseiro, ou lavrador, o qual fazendo é chamado um «médio», pela metade da produção que ele tem que dar ao seu se-
toda a despesa do custeamento, parte com o senhorio a metade de deus frutos, nhorio. O último é geralmente o proprietário só da terra - pertencendo, em quase
sendo bem feliz quando a metade, lhe fica paga a sua despesa e trabalho, do qual todos os casos, ao rendeiro prédios, aterros, árvores, vinha, etc.50.
tudo depende, e por isso, que política, e que equidade não é precisa para animar O contrato de colonia provocou o gradual afastamento do senhorio da terra e à
esta numerosa classe de habitantes devedores, cuja fortuna é realmente termómetro fuga para os centros urbanos, onde aguardava peloos proventos, necessários ao sus-
de felicidade pública? Que resultados podem acontecer pondo-se em desgraça mi- tento e vida desafogada. O colono, obrigado à partilha dos proventos resultantes da
lhares de famílias sem bens, sem domicílio, sem ocupação e sem sustento? Qual força de trabalho não se sentia motivado para apostar no melhor aproveitamento da
será a autoridade que possa responder pela segurança pública achando-se a força terra, ficando pelo quanto bastasse para a sobrevivência. Vem daqui a situação de
unida à mesma segurança?49. abandono do campo e o lento entorpecimento das forças produtivas.
Muitos estrangeiros que visitaram a ilha não entenderam a forma como se estabe- A partir do século XVI a instituição do morgadio ou a vinculação da terra51 viciou
lecia a posse e exploração da terrra. Henry Vizetelly é dos poucos que viu de perto o contrato de colonia tornando-o num misto de parceria agrícola e enfiteuse52. Com
esta realidade, apresentando uma visão correcta: Em muitos lugares, as vinhas são o Governador e Capitão-general Sá Pereira, o Pombal Madeirense, segundo a
plantadas no solo empilhado em socalcos suportados por paredes de pedra. Este sis- expressão de A. R. de Azevedo, lançaram-se as bases da abolição e regulamentação
tema foi originalmente adoptado como precaução contra as chuvas periódicas que em face da anarquia vigente, com a lei de 9 de Setembro de 1769 e carta de 3 de
arrastavam o solo com elas pelas íngremes encostas abaixo. Hoje em dia, onde quer Agosto de 1770. A extinção definitiva só aconteceu por lei de 19 de Maio de 1863,
que seja possível acumular terra e levantar uma parede, é certo que isto será feito enquanto a colonia no Porto Santo fora abolida por lei de 13 de Outubro de 177053.
pelo ocupante da terra, embora o proveito muito provavelmente não seja propor-
cionado ao tempo e trabalho dispendido. Mas então, de acordo com o sistema de 50 . Henry Vizetelly, Facts About Port and Madeira (...), Londres, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira.
Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 387]
51 . Maria de Fátima Coelho, “O Instituto Vincular, sua Decadência e Morte: Questões Várias”, in O Século XIX em Portugal,
Lisboa, 1980, pp. 111/131, e bibliografia aí aduzida, especialmente a obra de Herculano.
48 . Idem, nº 6478; ANTT, PJRFF, nº 703, fols. 120/2. 52 . M. B. França, Da Administração Pombalina no Arquipélago da Madeira, Lisboa, 1956 (teses de licenciatura), fols. 37-46.
49 . ANTT, PJRFF, nº 764, pp. 95/98. 53 . Idem, ibidem, fol. 30-32.
76 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 77

Em 177454, o Governador em ofício a Martinho de Melo e Castro dava conta dos plantio e enxertia, para o Caniço em 1901 foi 114$400.
vexames sofridos pelos colonos, dando apoio à extinção. Em 177655a pretensão dos Os livros de manifesto do vinho e receita do subsídio literário elucidam-nos
colonos e rendeiros em arrecadarem 2/3 da colheita conduziu a um protesto da sobre a forma com estava estabelecida a estrutura fundiária60. Quanto ao morgadio
Câmara, justificado pela tradição histórica da partilha a meias. Os colonos temos a predominância na vertente Sul, nomeadamente na área do Funchal a
baseavam-se na ordem do Conselho da Fazenda de 17 de Outubro de 1722, que o Campanário. Entre 1819/1834 referem-se 12 (50%) em Câmara de Lobos, de que
regulamentava situação distinta para o Porto Santo. Em 1818 deu-se uma sublevação podemos destacar os mais importantes, como o Visconde de Torre Bela (C. de
dos colonos que reclamavam a aplicação da lei na Madeira: No dia em que espera- Lobos e Tabua), João de Carvalhal (S. Martinho, Camacha, Ponta do Sol, Ponta
vam o despacho de um grande número de homens do campo apareceu à porta da Delgada, S. Roque, Serra de Agua, C. de Lobos), Ayres de Ornellas de Vasconcellos
Casa da Junta da Real Fazenda e parecendo, pela grande multidão, que ali se ajun- (Ponta do Sol, S. Martinho, Ponta do Pargo, C. de Lobos), D. João da Câmara
tou e alvoroço com que estavam que eles se tinham dirigido com espírito de assua- Leme (Quinta do Leme). Em Câmara de Lobos juntam-se os morgados, José
da, imediatamente mandei um ajudante de ordens e um capitão de artilharia, com Ferreira, António Ferreira, Carlos Vicente, Henrique Fernandes, Fernando da
uma escolta de soldados que fizerão dispersos aquela gente prenderam alguns Câmara61. Em Santa Luzia os morgados Dória, Agostinho António62; em S. Roque,
homens que pareceram ser os autores daquele ajuntamento..56. os morgados Faria e Rego63; Nossa Senhora do Calhau, os morgados Faria,
Em 185257, A. Gonçalves apresentou o contrato de colonia, conjuntamente com Albuquerque, Nunes Freitas64; em S. Pedro Agostinho65; S. Martinho, Luís
o sistema de morgado, responsável da ruína da agricultura da ilha, pugnando pela Alexandre Souveraine, Francisco João de Vasconcelos, Diogo Dias de Ornelas,
extinção: O contrato de colonia desanima o colono, no meio do seu trabalho e Pedro Agostinho66. Fora da área da cidade e termo, além dos já referidos, o número
desanima e aflige o proprietário... Naquelas partes da ilha onde mais domina o con- é reduzido podendo-se salientar apenas, no Porto Moniz, Francisco Ferro, António
trato de colonia, aí a indústria é nenhuma, a agricultura nenhum progresso dá fruto Pedro Barbosa67; em S. Jorge o morgado Falcão68; na Serra de Água o morgado
e em lugar de vida e actividade, observamos a indolência, a preguiça e a inaptidão58. Saldanha, Diogo de Ornelas, Diogo de Ornelas, Francisco Pedro69; em Ponta
A contabilidade de algumas fazendas, onde dominava o contrato de colónia, era Delgada, João Lúcio e Nuno de Freitas70. Todos eram detentores de extensas áreas
criteriosa por parte dos feitores, o intermediário entre o colono e o proprietário. A de produção de vinho, que eram entregues ao cuidado dos colonos.
exemplificação está patente em documentos do arquivo da família de Agostinho de O contrato de colonia predomina no Funchal e áreas limítrofes, em especial
Ornelas e Vasconcellos59. A casa dispunha de fazendas em toda a ilha mas apenas Câmara de Lobos onde em 1829 o número de senhorios era superior a trinta. Aqui
no Caniço, Câmara de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos surgem vinhas. O merecem referência os mais importantes como, Pedro Santana, Visconde de Torre
mosto era vendido aos mercadores do Funchal à bica do lagar como sucedeu em Bela, D. João da Câmara. No Campanário em 1831 o número elevava-se a vinte e
1895 à firma Blandy. Da receita, que competia ao senhor, retirava-se as despesas do quatro, destacando-se, o morgado João Correia Marques e José Agostinho Jervis,
feitor, com o plantio de novos bacelos e na compra do enxofre. Os gastos com o João da Câmara Leme, Luís Sauvaires, João Nunes Bento, A. Francisco Brito,
enxofre eram avaliados à razão de 200 réis por barril de mosto. Penfold71. Em S. Vicente, Fajã da Ovelha, Paul do Mar, Seixal, S. Jorge nota-se um
fraco número de senhorios, o que poderá ser indício do parcelamento da terra.
1895 1897 1900 1901 1902 1903 1904 1905 1906 Quanto ao contrato de colónia, é evidente a presença de proprietários influentes,
CASEIROS 10 15 14 6 4 11
VINHO Barris 53 10 52 18 8 55 121
morgados, ou militares. Mais significativa foi a importância assumida pelos propri-
réis 159$420 44$700 160$525 7$000 62$000 39$400 143$755 153$360 146$890 etários militares (Sargento-mor, Capitão, Tenente, Alferes), de que se destaca em S.

A cultura da vinha era rentável justificando-se o investimento em novas terras de


60. ANTT, PJRFF, nº 1049/1174. No entanto uma tal constatação requere um trabalho demorado nos referidos registos, o que
vinha. Em Câmara e Lobos apostou-se em simultâneo na cana doce e novos bace- nos seria impossível de realizar no pouco tempo disponível para a elaboração e investigação com este trabalho, assim, de
los enquanto que no Caniço os 89 caseiros receberam barbados de Lisboa e bace- uma breve consulta tiramos alguns apontamentos elucidativos, deixando para outra ocasião um estudo mais profundo.
61. Idem, nº 1057.
los do Norte. A despesa total, com a compra e despesa de transporte dos bacelos, 62. Idem, nº 1167
63. Idem, nº 1161
64. Idem, nº 1161, 1138
65. Idem, nº 1160
54 . A HU, Madeira e Porto Santo, nº418 66. Idem, nº 1156
55 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 449 67. Idem, nº 1112
56 . AHU, Madeira e Porto Santo, nº 4666 68. Idem, nº 1154
57 . O Clamor Público, nº 8, pp. 2/3; nº 9, pp. 2/3; nº 10, pp. 1/2 69. Idem, nº 1170.
58 . Idem, nº 9, p.2. 70. Idem, nº 1093-1094.
59 . ARM, Arquivo da Casa Ornelas, Caixa 2. Cf. Arquivo Histórico da Madeira, vol XXI, 1998. 71. Idem, nº 1104.
78 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 79

Jorge as fazendas do Sargento-mor, do Capitão João Rodrigues Moderno, e de


Francisco Correia do Tenente João Francisco da Silveira72; em Santana o Sargento-
mor José Joaquim de Moira e Silva, os capitães, Francisco Moniz Telles de
Menezes, Manuel António Silveira73; em S. Vicente do Capitão-mor Filipe Joaquim
Abreu, Capitão Gil Gomes74; no Seixal, o Capitão Filipe, o Capitão Roiz Pombo, o
Alferes Marcos João; na Serra de Agua, os Capitães João de Freitas, António
Joaquim Basto. O mesmo sucedia no Porto Santo com o Capitão Cristóvão Pereira
de Vasconcellos, os Tenentes Domingos de Castro Drumond, José Sebastião da
Silva, Justiniano José Lomelino e o Major João de Santana Vasconcellos.
A partir da informação aduzida na documentação podemos estabelecer duas for-
mas de dominação da propriedade vitícola: a vertente Sul dominando a área do
Funchal, C. de Lobos, Campanário, Ponta do Sol, onde predominava o morgado;
uma segunda a Norte, abrangendo S. Vicente, Seixal, S. Jorge, onde se afirma o con-
trato de colonia com a predominância do senhorio militar, isto é, os oficiais das
ordenanças do distrito de S. Vicente. Dentro da primeira área temos Campanário75
como propriedade eclesiástica das confrarias da Sé, Mosteiro de Santa Clara,
Religiosas da Encarnação. Os conventos assumiam uma posição de destaque. O de
Santa Clara possuía, para além da quinta de Santo António, diversas terras foreiras
em toda a ilha. No caso do Convento da Encarnação a área de vinho era menor,
atingindo-se em anos de boa colheita, como o de 1763, as 5 pipas76.
Um facto significativo da situação fundiária era a ausência quase total de propri-
etários estrangeiros, nomeadamente ingleses. A existência está atestada apenas na
área circunvizinha do Funchal. Em S. Pedro temos Leonardo B. Gordon, Diogo
Bringuel77; em S. Roque, Penfold; no Monte Henrique Briguel, Henry Temple78; em
S. Martinho, Thomas Magrath79. Isto denota que, à partida, os estrangeiros não
manifestavam interesse pela exploração da viticultura estando apenas empenhados
no comércio80.

72. Idem, nº 1120


73. Idem, nº.1125
74. Idem, nº 1166.
75. Idem, nº 1104.
76. Eduarda Maria de Sousa Gomes, O Convento da Encarnação do Funchal, Funchal, 1995.
77. Idem, nº 1160.
78. Idem, nº 1161.
79. Idem, nº 1156.
80. A partir de dados fornecidos em documentos oficiais fomos encontrar uma lista dos proprietários de vinhas na Madeira. A primeira
lista conhecida data de 1803 [Idem, nº 1160.], nela se referindo - João de Carvalhal Esmeraldo, Nuno de Freitas da Silva, Luíz
Alexandre Sauvayre Vasconcellos Drumond, Agostinho José de Ornellas herdeiros, Nicolau Tello de Menezes, herdeiros de Correia
Jervis d’Atouguia, Henrique de Correia Vilhena herdeiros, Cristóvão Ornelas Telles de Menezes, Pedro Jorge Monteiro, João António
de Gouveia Rego, Francisco José de Oliveira, Manuel de Sousa Tomás, José António Monteiro, João Joaquim Neto. Em 1824 [Idem,
nº 1161. temos outra mais numerosa: João de Carvalhal Esmeraldo, Nuno de Freitas da Silva, Nuno de Freitas Lomelino, João
Francisco de Florença Perera, João Agostinho Figueiroa Albuquerque de Freitas, Joaquim Francisco d’Oliveira, José Joaquim
Esmeraldo, José Joaquim de Freitas Abreu, D. Ana Joaquina de Freitas, D. Joana Francisca de Ornelas, Filipe Joaquim Acciauoly
Ferraz de Noronha, Luís Teixeira Doria, Pedro Anselmo Correia Olival, António de Carvalhal Esmeraldo, Luís Correia Acciauoly
António Caetano de Freitas Aragäo, D. Gertrudes Magna de Menezes Leal, Chrystóväo Esmeraldo, José António Monteiro, Carlos
Frederico Acciauoly, António José Spínola de Carvalhal Valdesso, José Caetano César de Freitas, João António Gouveia Rego,
Caetano Velloza de Castelbranco, João Sauvayreda Câmara, Luís Alexandre Sauvayre, João Francisco d’Oliveira, Paulo Malheiro
de Melo,. João Betencourt de Freitas, António de Freitas, António Leandro Escorsio de Menezes, Joaquim José de Faria
Bettencourt, Francisco António Ribeiro Tojal, João de Freitas da Silva, Roque Caetano d’Araújo, Roberto Leal, António Valério, Ayres
de Ornellas Sysneiros de Brito, Luís d’Ornellas e Vasconcelos, Pedro de Sant’Ana, Filipe Joaquim de Freitas e Abreu, Domingos
João da Affonseca, Jayme de França Netto, Ayres Augusto d’Ornellas, Francisco José de Oliveira, José Cruz de Sá Cabral, Balseira. Litografia de S. V. Harcourt, 1851.
Domingos José Ferro Garcez, Francisco João Betencourt, José Joaquim de Betencourt Araújo Esmeraldo, Manuel César de Freitas. Casa Museu Frederico de Freitas
80 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 81

O madeirense
modela
o rochedo
E o vilão ataca e tritura a rocha para a
transformar em solo agrícola; geme sob o
peso de enormes pedras para construir um
socalco; marinha pelas falésias para conquis-
tar um palmo de terra, mesquinha gleba,
pouco maior por vezes do que um ninho de
águias alcandorando no pendor de uma
fraga. Antes de ser agricultor, é cabouqueiro
e arquitecto. Labuta de sol a sol e transforma
o seu horto, a sua courela, num jardim. Onde
a água corre, o agricultor heróico e operoso
faz milagres; a levada empurra-o e ele em-
purra a levada. Novos poios se sobrepõem a
outros poios, e assim esse trabalhador hu-
milde, além de transportar sobre os ombros o
peso da sua cruz, cons-trói nos degraus da
montanha o seu próprio calvário. É a Madeira
sobrepovoada que luta heroicamente para
viver.
Este vilão madeirense, de torso hercúleo,
máscara rude e austera, personificação da
paisagem, figura de painel quinhentista; o
homem que cinzela montanhas, escala abis-
mos e amansa torrentes, é uma figura estran-
ha. Não se deixou vencer pelas seduções
traiçoeiras do clima desta antessala dos
trópicos que despertam em nós, lusíadas
indolentes, sonhadores e sensuais, o horror
ao esforço paciente e metódico. A meus
olhos, o vilão é um português que teve a cor-
agem de partir a guitarra, aquela guitarra que
todos nós trazemos na alma e no coração a
consolar-nos, com seus acordes de plan-
gente fatalismo, dos desencantos e dos fra-
cassos da vida.

J. Vieira Natividade, Madeira-A Epopeia Rural,


Funchal, 1953, pp. 39/40

Aguarela anónima. Séc. XIX, Colecção da Casa Museu Frederico de Freitas


82 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 83

A
Pintura de MaX Römer.
Sala de Provas da Madeira Wine Company

A área vitícola ocupava em 1865 cerca de 19% da terra arável distribuída pelas ver-
A cultura da vinha tentes Norte e Sul. Os efeitos da filoxera sentiram-se de forma rápida. A área de vi-
nhas no ano de 1883 não o nega. As estatísticas oficiais falam apenas 353ha, que pas-
saram em 1885 para 769ha. Segundo O. Ribeiro81: Na encosta norte, a vinha desce
Has de nela encontrar cepas viçosas
até ao nível do mar, achando-se sempre os maiores vinhedos nas terras baixas do
Em partes do terreno transplantadas, litoral. Ao Sul sobe até 400 metros, sendo cultivada em latada apenas até 400 me-
já mostrando seus frutos pampinosas tros. Nos anos quarenta a área vitícola ocupava 50% do solo cultivado no Sul, dom-
por mäos de natureza agricultadas: inado por Câmara de lobos, Estreito, Campanário, e 30% no Norte com as fregue-
farás, que destas parras preciosas sias de Seixal, Porto Moniz, Ponta Delgada, Arco de S. Jorge.
fiquem as terras brevemente inçadas,
O cultivo da vinha no século XX é descrito de forma sucinta por J. R. Gomes82:
porque fação nos séculos vindouros
o prazer das nações, os seus tesouros. Nas terras menos alagadas, como é natural, são as que dão melhores vinhos. Nas pro-
priedades mais bem cuidadas, o solo é aberto, até à profundidade de dois metros; o
Seja pois esta a planta mais querida bacelo, plantado fundo, alonga-se pelo gavião a procurar a humidade do subsolo,
de que tratem os íncolas primeiros; única que lhe dissolve os elementos necessários à sua nutrição. Para que a vinha se
seja a terra de cepas revestida
em vez de louros, cedros, e pinheiros:
não tente com a alimentação, fácil de Inverno, mas em profícua no Verão, das mais
a cultura das parras seja a lide altas camadas do terreno, as raízes superiores, as “pasteleiras”, são cortadas, permitin-
dos que forem alli teus companheiro, do-se-lhe unicamente esse árduo trabalho de mineiro que é de garantir-lhe, por longos
dizer-te nada mais me cumpre agora, anos, o sustento e a produção dos seus saborosos e abundantes cachos de oiro.
na enseada que vês ó Zargo, ancora. Só no fim de três anos é que o bacelo dá colheita apreciável. O seu tratamento não
Francisco Paula de Medina e Vasconcelos,
Zargueida, Lisboa, 1806, canto IX, vº XXIII, XXIV 81. RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até Meados do Século XX. Estudo Geográfico, Lisboa, 1985 ( 1ª edição em 1949 com
o título: L’ile de Madère. Étude Geographique)
82. O vinho da Madeira..., p. 6/7.
84 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 85

é muito trabalhoso: dá-se-lhe uma cava em Janeiro, para arejar o terreno, metendo-se- teem se recusado obstinadamente a adoptar essa pratica, não obstante o resultado
lhe adubos, entre os quais o tremoceiro e a giesta que fornecem à planta grandes quan- das colheitas ter sido muitas vezes prejudicado por causa da grande quantidade de
tidades de azoto, ajudando a acção do ar. Essas cavas, ou “mantas”, permitem o ramos que eles se negam a cortar, porque aumentam a quantidade do vinho (…). A
empoçamento da água das chuvas e o seu escoamento profundo na direcção do pé. situação é corroborada por outro estrangeiro em 1823 que refere a reprodução por
Duas enxofrações, uma “esfolha” depois da flor “vingada”, e outra, mais tarde, meio da mergulhia, que antecedia o enxerto87.
para melhor amadurecer o bago, é tudo quanto se concede de mais privativo à A videira depois de plantada só atingia o nível adequado de produção ao fim de
vinha. Indirectamente, recebe de outros benefícios que visam ao desenvolvimento três anos e passados quinze anos entrava na fase de decadência. Assim, quando con-
de certas culturas hortícolas, que medram sob as latadas durante o tempo em que a sideramos as crises da viticultura, é necessário ter em conta a situação. O próprio P.
ausência de folha permite à luz do sol chegar ao terreno agricultado. P. da Câmara evidencia o curto período de vida da videira: Antes de 3 anos de cul-
A actividade vitícola resumia-se até ao século XIX83, a estas actividades. A enxo- tivo, nada produz, a cepa; no quarto começa a vigorizar-se, e a dar anualmente abun-
fração só surgiu após a doença do míldio. Durante séculos repetiu-se a rotação dantes e grandiosos cachos; nos 8 anos acha-se na sua completa maturidade, e logo
monótona das tarefas agrícolas marcadas pela cava com adubação, poda, esfolha, cul- depois entra na sua decrepidez, perde o vício e a robustez, carrega pouco de uva, e
minando o ciclo com as vindimas. A vinha não se planta sem uma grande profundi- por fim, morre entre os 10 a 15 anos (...). O contrário, porém acontece na do norte,
dade na terra. Toda ela é cavada à força de braços, em muitos lugares os homens a onde uma temperatura, mais fria, e um terreno húmido, abundante de águas e
cavão até exceder a sua própria altura, o que nunca se pode dispensar em salvo (sic) arvoredos, lhe conserva uma longevidade sempre viçosa, entrelaçada nos verdes
e em pedra mole aumentão, outro tanto à mesma altura, e se não fosse assim corta- ramos das árvores, produzindo quase quer sem trabalho, em muito mais abundân-
da a terra nada produziria a mesma vinha84. A tendência para o aproveitamento das cia, põem no geral de inferior qualidade88.
terras de vinha no período de Setembro a Maio para o cultivo de produtos hortíco- Henry Vizetelly, que visitou a ilha em 1877, percorrendo os vinhedos mais impor-
las, como semilhas, feijão, aboboreiras, é uma tradição que não se perdeu não tantes da área circunvizinha do Funchal, apresenta-nos informações sobre o modo
obstante terem existido recomendações das autoridades contra isso como sucedeu como se cultivava a vinha: Na Madeira a vinha propaga-se por mergulhias, que cos-
em 1817 com a Junta de Melhoramento da Agricultura: Há igualmente por bem a tumavam ser plantadas apenas a uma profundidade de vinte polegadas. Agora, no
mesma junta determinar a vossas mercês que fação proibir todas sementeiras que os entanto, costuma-se coloca-las em valas com quatro pés ou mais de profundidade,
lavradores costumão fazer por entre as vinhas, não lhes permitindo o fabrico delas de acordo com a qualidade do solo. No fundo da vala coloca-se uma camada de
por princípio algum nem a cultivação de batatas, abóboras, ou outra qualquer plan- pedras soltas para evitar que as raízes penetrem no solo duro por baixo. Nos vinhe-
ta, que contribua para a destruição das mesmas vinhas, reduzindo este objecto85. dos de melhor qualidade, estas mergulhias são geralmente feitas com muita distân-
Antes da filoxera a cultura fazia-se geralmente em cavalos da própria casta desen- cia entre elas. As vinhas dão fruto no terceiro ano e são colocadas, na maioria dos
volvendo-se de seu pé, pois raras vezes se procedia à enxertia. A partir da segunda casos, tanto em latadas, como em corredores…89.
metade do século XIX foi necessário recorrer a cavalos resistentes de herbemont, O texto para além de referir o modo de plantio da vinha dá conta do estado das
jacquez, riparia, para enxertar a casta desejada. A primeira indicação sobre a enxer- latadas no último terceiro quartel do século XIX. Tal como hoje sucede, era comum
tia da vinha surge já em 1768. Segundo James Cook86 a mudança não foi fácil: São o uso de latadas ou corredores, no Sul, como suporte das videiras, enquanto que no
tão insignificantes os progressos que os habitantes teem feito nas artes agrícolas, que Norte se fazia em balseiras ou embarrados90. Dos 400 m para cima temos a vinha
só muito recentemente conseguiram fazer em vinhedo produzir a mesma casta de
uvas, por meio da enxertia das respectivas cepas (…) Foi à custa de imensas dificul- 87. T. E. Bowdich, Excursions in Madeira…, London, 1850, p.347, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos
dades que se conseguiu decidir os habitantes a enxertarem as suas vinhas; alguns e Textos, Funchal, 1993, p. 337
88. Breve Notícia sobre a ilha da Madeira, pp. 68/9; a opiniäo de que as cepas apenas duram 15 anos é dada por Eduardo
Grande, ibidem, p. 77. ... a circunstância de serem os bacelos plantados muito perto uns dos outros, e o género de poda a
que a videira é submetida no paíz, determinam o definhamento precoz desta planta e a sua curta vida. Segundo o
83. Em diversos textos é referida a forma como se cultiva a vinha. Cf. João de Andrade Corvo, A Mangra ou Doença das Vinhas, Governador Correia de Sá, em 1799 as vinhas necessitavam de 5/6 anos para frutificar; vide AHU, Madeira e Porto Santo,
in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 285-286; T. E. Bowdich, Excursions nº 174.
in Madeira and Porto Santo, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 89. Publicado por Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.386
1993, p. 346; J. L Thudichum e a. Dupré, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, London, 1872, in Alberto 90. F. Augusto da Silva, Elucidário Madeirense, vol. I, p. 113. Sobre a cultura da vinha na ilha temos o testemunho de Eduardo
Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 371; H. Vizetelly, Facts About Port and Madeira, Grande, Agrónomo adido ao Governo Civil do Distrito do Funchal em 1865: A cultura da vinha faz-se no Districto de duas
London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 386; J. Jonhson, formas differentes; em balseiras, ou embarrados, na região do norte; e em latadas e corredores na parte do sul.
Madeira its Climate and Scenery, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Nos embarrados a videira sustenta-se e enlata-se sobre árvores dispostas para esse fim: neste systema a produção abun-
Funchal, 1993, p. 408. dante, mas pouco qualificada, porque as uvas raras vezes chegam a uma completa maturação, já porque não recebem a
84. ARM, RGCMF, t. 14, fols. 131vº-134vº. reverberação dos raios caloríficos, já porque as arvores não são podadas convenientemente.
85. ARM, RGCMF, t. 14, fols. 106-106vº As árvores que no Districto se encontram associadas videira são o castanheiro, o carvalho, a faia e o louro. (Relatório
86. “Relação da Viagem Feita à Volta do Mundo…”, Heraldo da Madeira, nº.463, de 9 de Março de 1906. Sociedade Agrícola do Funchal.)
86 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 87

de pé e embarrados. A primeira referência às latadas surge 146191 em que o infante


D. Fernando ordenava a manutenção do dízimo da madeira delgada que se põem
nas latadas e vinhas e tapaduras92. A segunda aparece em 1492 quando se refere a
necessidade de restauro do caminho de S. Francisco que o tabelião Afonso Lopes
tinha um lugar de vinha e latada e casas de morada... para a quall hé muyto neces-
sario trazer madeyra para repairo da dita latada...93.
A forma de cultivo da vinha acarretava elevados encargos. Em 1815 em repre-
sentação ao monarca no Brasil refere-se os custosos trabalhos com as vinhas: Exige
ela outro trabalho muito arriscado, que é a condução das madeiras para latadas, e
corredores quase todas elas cortadas, em três ou quatro légoas de distância dos
lugares cultivados, e pelo meio da escarpa das rochas, onde a maior parte dos
homens vão cortá-las amarrados com cordas94. Numa representação da Câmara
(1811) aparecem as latadas e corredores como meio de segurar as vinhas dando-se
conta do elevado custo do sistema, pois precisava da constante renovação das
madeiras: Estas vinhas são surpreendidas sobre latadas, e corredores, formados de
canas sobre estacas de madeira, e tudo entre si ligado por atas de vimes, tudo expos-
to ao rigor das estações, e portanto é curta a sua duração, e precisão de ser reno-
vadas todos os anos as porções danificadas, o que induz o colono a mais uma anual
despeza. As mesmas vinhas cuja duração é de poucos anos precisão ser substituídas
por novas plantações, que também são de mais uma despeza anual95.
O espectáculo das latadas madeirenses, verdadeira obra-prima do colono
madeirense mereceu o elogio de Francisco Travassos Valdez: Usam-se muito na
Madeira, latadas ou parreiras armadas, trepando as vides pelas canas, e cobrindo
varandas, janelas e portadas, à maneira de toldo ou docel, formando em algumas
partes bonitos arcos, aberturas ou espécie de janelas entre cada uma das pilastras
que sustentam aquela vistosa cobertura de pâmpanos e cachos de uvas96.
Quanto à vinha de pé temos algumas referências. Em informação da Câmara do
Funchal ao Governador acerca da fome e meios para a debelar, alertava-se para os
perigos do corte de árvores: Enfim as vinhas se plantão por entre pedras das rochas
aonde não podem haver sementeiras e por causa destas cortando-se os arvoredos se
virão a secar as águas, e em consequência a extinguir as vinhas97.
As balseiras são referenciadas pela primeira vez em 1759 em ofício do
Governador José Correia de Sá sobre a necessidade de promover a cultura: E
porque não convém que haja só vinhos para as carregações aos estrangeiros, mas
também para os gastos da terra para o Brasil se deste também cuidar na cultura das
vinhas que podem servir a este intento o qual se pode facilmente obter plantando-
se as costas das ribeiras, e partes mais frias de árvores com vinha a que chamão bal-
91. ARM, RGCMF, t. 1, fols. 202-209. Balseira..Desenho de
92. Idem, t. 1, fol. 203vº. Litografia de Susan Vernon
93. Idem, t. 1, fols. 173vº-174vº.
Harcourt, Sketches in
94. Idem, t. 14, fols. 131vº-134.
95. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 3007.
Madeira, Londres,
96. África Ocidental, Lisboa, 1864, p.54. 1851. Casa Museu
97. AHU, Madeira e Porto Santo, nº 173. Frederico de Freitas
88 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 89

seiras, a que também se deve aumentar o preço a juízo prudente, atende-se a que gistos que confirmam a mudança de culturas. Em 1571104 Jorge Vaz de Câmara de
estas vinhas dão novidade mais tarde. E para que ambição não faça esta cultura inútil Lobos decidiu plantar o chão das laranjeiras de malvasia para dar mais proveito. Já
plantando árvores, porque umas crescem mais do que outras e fazendo branhas em 1587105 a terra de João Gonçalves em Santo António, que havia sido de vinha,
nada darão98. estava com canavial de soca de um ano. Na verdade, a união ibérica alterou a
Em 1851 O Agricultor Madeirense dava conta da crise vitícola no Norte e da geografia do mercado açucareiro e a Madeira viu de novo a possibilidade de expor-
degradação que havia atingido as videiras em razão do abandono votado pelos sen- tar açúcar. Mas, nem sempre foi assim, pois, em plena euforia de cultura açucareira
horios e a morte das balseiras: O certo é que o estado da cultura é assustador; as no século XVII, Rafael Catanho Vivaldo de Ponta de Sol lastimava a sorte porque
árvores que sustentam a vinha estão secas, e se por mais de dois anos se lhe con- as terras eram de canas he as ditas canas se não quiseram dar106 daí que prantei has
serva a parreira encostada, também esta morre, é preciso mergulhar as vinhas, cor- ditas terras de vinha he fiz nellas três laguares.
tar as árvores e matos gastachos99. Numa sentença de 1853 sobre uma demanda Outro factor que condicionou a substituição de culturas prende-se com as pragas.
entre um senhorio e um colono, em que o primeiro pretende cortar dezoito pesse- Nos inícios do século XVII o bicho atacou a cana tornando impraticável a cultura.
gueiros, um damasqueiro, quatro figueiras, quatro enxertos de ameixoeira, dois Martim Afonso reclamava em 1612107 da sua sorte uma vez que a fazenda não era de
laranjeiras é referido que todas ou quase todas essas árvores, estão sustentando par- grande proveito. O vinho em pouco tempo tornava-se em vinagre e as canas estavam
reiras, as quais correm o risco de se perderem cortadas as árvores, com o que o atacadas pelo bicho, por isso não entendem o que poderão vir a dar mas também
colono sofreria grave prejuízo100. que já andarão de canas e por o bicho dar nelas as deixarão estar devolutas e as plan-
O uso das árvores como suporte das vinhas é uma das características da cultura taram de vinha há poucos anos por não darem canas por o bicho tudo levar a eito108
da vinha no Minho e a presença na Madeira tem a ver com a participação minhota . Já para Manuel da Gram109 os dois serrados eram quase improdutivos pelos ares e
no povoamento do arquipélago. Hoje a tradição desapareceu da Madeira mas ainda maldade da própria serra, a alforra e a falta de água, não dando para as despesas da
persiste no Minho101. Eduardo Grande em relatório sobre a vinha no momento capela a que estavam vinculados. O agricultor madeirense foi tomando consciência
imediato à crise do oídio dá conta do modo de suporte das parreiras no norte com da nova realidade e a vinha acabou por assumir a importância desejada na agricul-
balseiras e embarrados - usando-se para isso o castanheiro, a faia, o carvalho, o tura e economia da ilha. Rapidamente as terras foreiras passaram a estar ocupadas
loureiro, enquanto no sul se utilizava as latadas e embarrados. No norte se culti- de vinhas, como foi o caso das pertencentes ao Convento de Santa Clara.
vavam desse modo os bacelos de verdelho, sercial, tinta, que produziam abundantes Terras de Vinha Foreiras do Convento De Santa Clara - 1644
uvas mas de pouca qualidade, devido à falta de maturação em razão da folhagem das
Nome Local Foro em réis
árvores de suporte. Por isso aconselha o uso de bacelos isabella, que depois serão Gaspar Costa ..................................................................................1 400
enxertados com as ditas castas, ao mesmo tempo que salienta a necessidade de Francisco Noronha Henriques.......................................................2 500
escolha de árvores de suporte com poucas folhagens, como o carvalho, castanheiro Roberto Vilovit ...............................................................................1 650
e freixo, da disposição espaçada das árvores, e assídua poda das mesmas de modo Pero Catanho ................................................................................3 500
a que os raios solares atinjam as uvas; isto para que as uvas sejão mais gradas e o Baltasar Gonçalves .......................................................................5 000
Afonso Aires .................................................................................1 700
vinho de melhor qualidade102. João Escórcio Vasconcelos ...........................................................2 000
No Porto Santo, mercê das condições geológicas e climatéricas, o terreno dedi- Rafael Estêvão Florença ..............................Calheta ......................3 000
cado à vinha reduz-se à área do litoral, nomeadamente na vila Baleira, numa área António Correia .........................................Funchal .....................1 000
que se estende da Calheta ao Espírito Santo103. Aqui sempre dominou a vinha de pé. Cristóvão Moniz ...........................................................................3 800
O momento de afirmação da cultura da vinha aconteceu na segunda metade do António Gonçalves .......................................................................3 800
—-Carvalho Valdavesso .................................................................1 200
século XVI, de modo especial as três últimas décadas. O mercado do vinho adqui-
Domingos De Andrade ................................................................2 000
riu importância quando os canaviais deixaram de ser rentáveis. São inúmeros os re- Lourenço Matos Coutinho .........................Funchal ...................30 000
Domingos Vieira Coelho ...........................S. Gonçalo ...............3 000
98. Idem, nº 174.
99. Nº 7, p. 116.
100.Setenças dum Juiz de Direito, Lisboa, 1860, p. 40. 104. JRC., fl. 499vº-500vº, testamento de 30 de Maio de 1571.
101. Confronte-se J. Leite de Vasconcelos, Opúsculos, vol. VII, Lisboa, 1933, p.129; idem, Estudos de Filologia Portuguesa, Rio 105. Misericórdia do Funchal, L1 711, fls. 141vº-142vº, trespasse de 20 Dezembro.
de Janeiro, 1961, p.8 106. JRC, 427-429vº, 30 de Junho de 1608.
102. Eduardo Grande, ibidem, pp. 74/6 in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, 107. ARM, JRC, fls. 254-258, testamento de 3 de Fevereiro.
pp.305-306 108. JRC, fls. 254-258vº, 3 de Fevereiro de 1612.
103. C. A. Menezes, “A Vegetaçäo e Clima do Porto Santo”, in Portugal Agrícola, 1908, nº 6, pp. 81/4. 109. RC, fl. 155-175vº, 31 de Maio de 1616.
90 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 91

Apolónia de Sousa .....................................Caniço.......................1 200 e lagar, a troco de metade do mosto saído à bica do lagar. O senhor limitava-se a assistir
Manuel Vieira Toscano ...................................................................700 à vindima, à partilha do mosto e, em muitos dos casos, nem sequer estava presente nem
João Ornelas Abreu .....................................................................1 100 se fazia representar pelo feitor, ficando o colono com o encargo de o conduzir às lojas do
Manuel Gonçalves Brandão ........................R0 Brava ...................1 400
centro da freguesia ou no Funchal.
Isabel Atouguia ............................................R0 Brava ..................1 000
Manuel da Silva ..........................................C. Lobos ...................2 000 Quase todos os colonos apresentam-se com lagar, construído de acordo com as
António Gonçalves .......................................................................3 000 possibilidades económicas. Assim, temos as lagariças de pedra, o cocho, o lagar de pedra
Heitor Nunes Berenguer ............................Calheta .....................5 000 e fuso. Os lagares e a casa implicavam, para a maioria, um avultado investimento. Todo
Baltasar Sequeira ........................................Sto. António.....................? o investimento necessário à cultura de vinha era quase sempre da responsabilidade do
Diogo de Ornelas .........................................................................1 000
colono. Era ele que atribuía a mais-valia ao terreno para que as culturas medrassem.
Domingos Rodriguez ...................................................................3 000
Jerónimo Teixeira .......................................Gaula............................300 Daqui resultava a situação de duplo favorecimento do proprietário, que retirava rendi-
Pedro Gonçalvez Sidrão ...............................................................1 000 mento sem qualquer investimento e vinculava o colono à propriedade através de um con-
Fonte: ANTT, Convento de Santa Clara, nº 18. trato regido pelo direito consuetudinário. O sucesso da instituição, conhecida como con-
trato de colonia, deverá estar precisamente na teia de relações e interdependências que
Os conventos do Funchal, nomeadamente de Santa Clara e Encarnação, eram estabeleceu.
detentores de bens fundiários em toda a ilha. No caso do da Encarnação o número O investimento inicial assumido pelo colono em terras de senhorio era elevado
de foros em vinho é mais reduzido quando comparado com os demais produtos ou podendo ultrapassar quinhentos mil réis, distribuídos entre as paredes de retenção de ter-
com o de Santa Clara110. Os dotes das noviças, as doações particulares alimentaram ras, as parreiras, a latada e corredor de canas e vimes e o lagar com casa ou palheiro. O
ao longo dos anos o património. Os dados evidenciam a realidade e um documen- valor mais elevado incidia no levantamento de paredes e parreiras. No Norte da ilha uma
to que faz a relação das adegas do convento torna-a evidente. Assim em 1667111 o das características das latadas era a necessidade de construir sebes ou bardos para prote-
convento de Santa Clara tinha adega em Santo António, Câmara de Lobos, Estreito, ger as vinhas do vento e da ressalga. Para isso usa-se a urze, tal como se pode verificar no
Campanário, Ribeira Brava e S. Vicente com um total de 104 tonéis. litoral entre o Seixal e a Ribeira da Janela.
A casa e o lagar só adquiririam outro valor quando eram em simultâneo morada do
Adegas Do Convento De Santa Clara Ao Longo Da Costa colono e portanto de construção mais cuidada, podendo ficar por apenas $800 réis, como
foi o caso do lagar de Manuel Gonçalves em Campanário, ou ultrapassar os trezentos mil
local 1688 1691 1692 1708 1750 1752 1753 1754 1755 1757 1763 réis, como sucedeu com a casa e lagar que Domingos da Silva Pinto havia construído na
C. Lobos 4 1 fazenda de Francisco Figueira no Estreito de Câmara de Lobos. Estámos perante um
Lugar Baixo lagar de grandes dimensões, tendo em conta os custos de trabalho com o pedreiro e
Santa Cruz 8 4
Rª Brava 1
carpinteiro. O valor assinalado para as parreiras plantadas era de 372.580 réis112.
Porto Novo 1 2 3 2 3 1 1
Na avaliação do lagar tenha-se em conta a capacidade, forma de construção, dis-
ponibilidade de apetrechos e a cobertura que o protegia. A presença de utensílios, como
A partir do levantamento dos testamentos dos séculos XVII e XVIII disponíveis no a tina e funil. A dificuldade em encontrar referências ao vasilhame, poderá ser indício de
Arquivo Regional da Madeira é possível saber qual o investimento indispensável para a que o mosto seguia directamente para o Funchal. Em 1664 Manuel Moniz apresentou no
cultura da vinha e sistema fundiário. Na Madeira é necessário distinguir um sistema de inventário da fazenda na Ribeira Seca cinco tonéis, avaliados em 5.000 réis. Já em 1752
dupla propriedade, conhecido como contrato de colonia. Com a cultura da vinha expres- Romão Figueira declara apenas dois barris no valor de 1.000 réis113.
sava-se da seguinte forma. O proprietário pleno detinha apenas o espaço enquanto o O maior investimento do viticultor/colono estava no arranjo das terras, no plantio, en-
colono era o dono das benfeitorias necessárias ao aparecimento dos vinhedos, isto é, pare- xertia e cuidados com a vinha. Temos informação sobre os preços dos bacelos e enxer-
des, pés de vinha, latadas, loja e lagar. É possível saber-se qual o valor das benfeitorias que tos. Em 1692 os bacelos eram avaliados em 6 réis cada, situação que se manteve em 1742,
aparecem nos inventários para a posse dos legítimos herdeiros. O colono recebia muitas uma vez que um milheiro equivalia a 6.000 réis114. Os enxertos são a 50 réis por pé115.
vezes a terra e ficava com o encargo de erguer paredes, plantar videiras, construir latadas
112. ARM, Capelas, Inventário, cx. 19, nº 459, 11 Dezembro 1742.
110. A Restauração e o Convento de Santa Clara, Funchal, 1940, pp. 45-47; Maria Eduarda Gomes, O Convento da Encarnação 113. ARM, Capelas, cx. 36, nº 952, cx. 20, nº 516.
do Funchal, Funchal, 1995. 114. ARM, Capelas, cx. 7, nº 159; cx. 17, nº 398.
111. ANTT, Santa Clara, maço 2, 10 de Maio de 1667. 115. ARM, Capelas, cx. 30 nº 398.
92 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 93

CUSTO DAS VIDEIRAS.1692-1782 que para 24.232 parreiras viu-se obrigada a investir 45.000 réis na construção de
Data Vinha Valor Unitário Total latadas a que se somam mais 65.000 réis de paredes117. A última despesa dependia
1692 350 bacelos 6 2100 do local onde estava o terreno. O valor mais elevado resultava do trabalho de
1700 1300 parreira 16500 preparação do terreno para o plantio dos bacelos com a construção de paredes.
1728 2 milheiros e 842 parreiras 14210
2604parreiras 13020
1730 15 milheiros 75.000 INVESTIMENTOS DOS COLONOS NAS VINHAS.1692-1782
1731 Campanário 6636 parreiras 33180
1732 Tábua 6650 25315
1732 C. Lobos 3800 parreiras 19000 Data Local Colono/Proprietário Vinhas Latadas Lagar Paredes TOTAL
1733 R. Brava 2854 parreiras 9.270
1735 Tábua 2537 parreiras 12575 1692 Robert Vilovid 10.900 19.000 29.900
1736 Curujeira 7933 parreiras 39.665 1700 António Gomes 16.500 27.000 2.000 64.500 110.000
1736 4500 parreiras 22.500 1728 Tábua Manuel de Abreu 27.230 7.000 4.000 38.230
1736 12.500 parreiras 62.000
1736 Santo António 13.085 parreiras 56.000 1730 S. Martinho José gomes Jardim 75.000 3.500 61.600 14.100
1738 Campanário 8.300 41.500 1731 Campanário Manuel Fernandes 33.180 3.000 68200 104.380
1738 Será de Água 6400 milheiros e 40 parreiras 2050 1732 Tábua Manuel Nunes 25.315 1840 1.500 2710 31.365
1739 15.400 7.700
1739 1732 C. de Lobos Pedro da Cruz 19.000 4.000 2.600 5.500 31.100
S. Martinho 9.620 51.100
1740 Estreito de C. Lobos 4800 22.800 1733 Ribeira Brava José Gonçalves 27.270 1.000 62270 90.540
1741 Campanário 5 milheiros 25000 1735 Tábua Manuel Pereira 26.975 30.600 3.200 82.200 142.975
1742 E. de C. de Lobos 20140 parreiras 77.300 1736 José Ferreira Mesquita 39.665 10.000 9.500 99.000 158.165
1742 1840 2.250
1743 Tábua 2348 parreiras 11.746 1736 Manuel Pires 62.500 9.000 125.000 196.500
1744 S. Martinho 26700 parreiras 119.250 1736 Santo António Maria Fernandes 86.528 43.000 8.500 14.500 152.528
1745 S. Martinho 21320 parreiras 70.800 1738 Campanário Catarina Abreu 41.500 4.000 110.500 156.000
1746 Campanário 7510 20.255
1746 Campanário 13.400 67.000 1738 Serra de Água Bernardo Gouveia 41.200 12.000 3.000 10.500 66.700
1746 Campanário 14.270 71.350 1739 Maria Rosa 15.400 500 200.000 215.900
1747 Campanário 4586 22.680 1739 S. Martinho Mariana de Freitas 51.100 7.000 5.000 116.000 179.100
1748 Tábua 3 milheiros 15.000 1741 Campanário Manuel Fernandes 25.000 4.000 800 120.000 149.800
1748 Tábua 8000 7000
1748 Campanário 24222 31.080 1742 Estreito Domingos da Silva Pinto 373.070 305.700 678.770
1748 S. Martinho 43.600 172.000 1742 Pedro Gonçalves 326.370 9000 335.370
1748 Campanário 12 enxertos 600 1742 E. C. de Lobos João Lopes Dantas 127.300 16.000 10.000 140.100 293.400
9180 parreiras 24.000
1750 Campanário 6.010 22.000 1742 Domingas Ascensão 8.250 850 22.00 400 31.500
1752 21.800 60.000 1743 Tábua Maria Gomes 40.246 17.900 186.500 186.500 431.146
1753 Campanário Enxertos 50rs 600 1744 S. Martinho António Figueira 119.250 3.000 40.000 35.650 197.900
1762 Tábua 620 parreiras 13.100 1745 S. Martinho Maria Gomes 30.000 12.000 6.500 74.500 123.000
1782 S. Roque 1360 parreiras 36.200
1746 Campanário António Rodrigues 20.255 10.500 4000 68.000 102.755
FONTE: ARM, Capelas-inventário, maços:1 a 42
1746 Campanário Joana Duarte 67.000 9.000 76.000
A extensão de vinhedos pode ser deduzida a partir do número de milheiros de 1746 Campanário Madalena Gonçalves 71.350 33.000 15.000 135.000 254.350
1747 S. Martinho Martinho de Freitas 15.000 5.000 20.000
parreiras dadas a inventário. Em 1748 Antónia de Freitas, casada com João
1747 Campanário Pedro Rodriguez Silveira 22.680 12.000 34.680
Rodrigues, tinha em S. Martinho terras de benfeitorias do capitão Francisco da 1748 Tábua Manuel Rodriguez Serra 15.000 12.000 27.000
Cunha com 43.600 parreiras. Estámos perante um dos maiores investimentos algu- 1748 Tábua 7.000 2.5000 65.000 74.500
ma vez assumido por um colono. 1748 Campanário Manuel Rodriguez 31.680 45.000 5650 65.000 147.330
O colono era ainda onerado com a obrigação de outro conjunto de benfeitorias, 1748 S. Martinho Antónia Freitas 172.000 10.000 9.000 166.000 357.000
1748 Campanário Maria de Ascensão 24.600 10.000 36.400
imprescindíveis à laboração da faina vitivinícola. A construção de paredes, o plantio
1750 Campanário Maria Mendes 40.050 10.000 4.000 160.000 214.050
das videiras, o erguer latadas e construir lagares estão incluídos no primeiro investi- 1752 Romão Figueira 60.000 63.000 123.000
mento do colono. A despesa em latada é reduzida, o que deverá ser prova do uso 1753 Campanário Francisco Rodrigues 45.600 3.000 197.250 245.850
da vinha de pé116. Diferente era, todavia, o caso de Maria Pereira no Campanário 1762 Tábua Leandro de Brito Oliveira 13.100 15.000 2.000 115.000 145.100
1782 S. Roque Josefa Maria 36.200 42.000 4.000 235.000 317.200
116.ARM, Capelas, cx. 36, n1 968. FONTE: ARM, Capelas-inventário, maços: 1 a 42
117.ARM, Capelas, cx. 27, n1 736.
94 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 95

uma crise de seca e fome. Ao mesmo tempo tentava-se acabar com o abandono e
alheamento dos proprietários com a extinção do contrato da colonia118. No regi-
mento ordenava-se a protecção à cultura: Nas terras incapazes de produzir trigo, cen-
teio, ou cevada se deverão plantar vinhas, para que, assim vivão independentes os
moradores desta ilha dos vinhos da Madeira, por ter sido esta falta, o quarto modo
por onde se lhes introduziu, o princípio de sua ruína119. Daqui resultou que o plan-
tio de vinhas não foi esquecido e no ano de 1784 temos referência ao envio de bace-
los da Madeira. O Sargento-Mor da ilha, ao mesmo tempo Inspector de Agricultura,
Pedro Telles de Menezes, apossuiu-se delas plantando-as nas suas terras em detri-
mento de outras mais apropriadas. A Junta solicitou ao vigário local informação
sobre o mesmo com a mais cautela e segredo possível120.
Segundo A. R. Azevedo121 , apenas, o período da administração pombalina não
foi marcado pelo proteccionismo à vinha, uma vez que se promoveu uma diversifi-
cação de culturas122. A intenção de arborizar das serras escarpadas e o recurso a
novas culturas foi vencida pela febre vitícola pois, como salientam as instruções de
1792, a vinha era a dominante e aquela a que o povo se entregava com mais cuidado.
Cuidados com a vinha. Nos documentos consultados não encontramos dados concludentes quanto à
Painel de Max Römer.
Sala de Provas afirmação de A. R. Azevedo. Tudo indica que o mesmo excedeu a confiança que
da Madeira Wine Company seria de depositar nos diplomas que refere. Aliás, no próprio texto encontramos afir-
mações que o contradizem.
Com o Governador José António Sá Pereira lançou-se mãos da diversificação de
culturas. O facto foi repetido em 1782, mas nunca foi possível destronar a predomi-
A maior parte dos investimentos na cultura da vinha tiveram lugar a partir dos nância da cultura da vinha que, com o aproximar do fim do século XIX, o vinho se
séculos XVII ou XVIII, revelando que ainda existiam terras por aproveitar que se tornou cada vez mais solicitado pelos mercados externos e, por isso, mais rentável. A
procuravam conquistar. A afirmação da vinha foi, assim, resultado da usurpação do mudança aconteceu na segunda metade do século XIX com o avolumar da crise vití-
terreno ocupado pelos canaviais abandonados e, acima de tudo, pela conquista dos cola que tem origem nas diculdades da produção, fruto de factores patológico-botânico
baldios situados em zonas com condições apropriadas à cultura. Acresce, ainda, o (oídio em 1852, filoxera em 1872, míldio em 1912). Os agricultores madeirenses foram
facto de os dados disponíveis revelerem uma aposta preferencial a partir da segun- obrigados a aceitar a substituição da vinha por outras culturas. Sucedeu assim com a
da metade do século XVII. Era a vinha que valorizava o espaço agrícola pelo que cana sacarina e diversas experiências como novas culturas como o tabaco, chá e bicho-
todas as tarefas e benfeitorias que conduzissem à sua afirmação eram valorizadas da-seda. A vinha não ficou no esquecimento do colono e a necessidade da água-pé para
pelo que não é estranho as referências em inventários à vinha e benfeitorias corre- as festanças de Natal e as longas noites de Inverno levou-o a procurar outra forma de
lativas. cultura sob cautela do bicho com o ensaio de bacelos americanos resistentes. Uma nova
Poucos são os elementos, como vimos, que nos dão a imagem aproximada do fase relançou a cultura da vinha da ilha. As actividades da Comissão Anti-filoxérica
incremento da cultura da vinha ao longo dos séculos XVIII/XIX e mesmo em (1882/1883)123 e da Comissão de Auxílio à Agricultura [1888/1890]124 evidenciam a
período antecedente. Os dados disponíveis são avulsos e outros mais seriam neces- aposta na reconversão agrícola da região no período de crise.
sários para se formar uma ideia do incentivo à cultura. Apenas temos à mão o regi-
mento de 1774 para o Porto Santo e as instruções do Corregedor e Desembargador 118.ANTT, PJRFF, nº 976, fols. 111/119
119.Idem, nº 960, fols. 64/65.
António Rodrigues Veloso de Oliveira em 1782 que refere a necessidade de diver- 120.Ibidem, p. 718.
sificação das culturas de forma a evitar o sistema de monocultura da vinha e, por 121.Ibidem, vide pp. 710/718.
122.Dois documentos evidenciam esta preocupação do Governo: As instruções de 27 de Outubro de 1781 (Alberto Vieira,
consequência, a dependência dos mercados externos. Em finais do século XVIII a História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.p.22), Informação do corregedor Pedro António Faria
de 16 de Maio de 1783[ibidem, pp.25-27), instruções para o Inspsector da Agricultura no Porto Santo de 1 de Junho de
tendência dominante era para a monocultura da vinha. O regimento de agricultura 1783(ibidem, pp.28-30)
123.ARM, GC, nº 85.
de 1774 dá conta das medidas de incentivo da policultura, como solução para mais 124.ARM, GC, nº 150.
96 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 97

Vinhas. Campo
Cuidados com a vinha.
Experimental do Estreito
Gravura de Max Romer. Sala
da Calheta. Colecção do
de Provas da Madeira Wine
autor. 2002
Company

estão as variedades preciosas cultivadas ao sul da Madeira; o que contudo, não deva
Cultura da Vinha talvez justificar o hábito, em que estão os cultivadores, de dar um extraordinário desen-
volvimento às videiras cultivadas em latadas e corredores. Todos os Enólogos confessam
A cultura e plantação das vinhas são, na Madeira, feita com bastante cuidado e per- que, na cultura da vinha, é a poda a operação mais difícil; e só a experiência pode decidir,
feição, o que infelizmente não sucede às outras plantas úteis. Contudo os processos qual o modo de a praticar nas diferentes variedades de vinha. Contudo certo que na
adoptados nessa cultura não são talvez os mais convenientes, como vamos ver. A plan- Madeira muitos proprietários se queixam de que os rendeiros, pelo modo por que podam
tação faz-se em valas de profundidade de quatro a seis pés, nos quais se lançam pedras as vinhas, as obrigam a produzir mais num ou dois anos, enfraquecendo-as assim e arrui-
soltas para o escoamento das águas, e boa terra com uma camada de mato. - Os bace- nando-as.
los são tirados de alguma das variedades mais vigorosas das vinhas, e depois são con- Uma outra operação cara e delicada de que as vinhas carecem no sul é a encana, isto
venientemente enxertados. Uma plantação de mil bacelos importa, termo médio, cinquen- é, o arranjo e concerto das latadas e parreirais, e a disposição das varas sobre estes; é
ta mil reis, segundo noticia dada por cultivadores inteligentes. De ordinário as vinhas são uma operação correspondente à empa, mas imperfeita em relação às necessidades da
pouco estrumadas com estrumes animais, porque se julga, com razão, que estes têm planta.
perniciosa influência sobre as qualidades das uvas. A cava das vinhas novas, de um, dois, ou três anos, faz-se em Janeiro; as outras
As vinhas começam a produzir frutos, aproveitáveis para a fabricação do vinho, três ou cavam-se no mês de Março ou nos princípios de Abril, havendo cuidado de escolher dias
quatro anos depois da sua plantação, e então elas são todos os anos sujeitas a variadas em que não haja nortes ásperos, porque estes prejudicam as raízes, ofendidas pela enxa-
operações, que favorecem a sua produtividade em frutos, à custa de certo da sua da, que ficam a descoberto depois da cava. Quando, semanas depois da poda, as vinhas
duração. Qual seja a época mais conveniente da poda não é ponto em que haja perfeito tem já brotado, e os pequenos cachos, com bagos tendo apenas o diâmetro de dois a três
acordo entre os lavradores; uns preferem o mês de Fevereiro, outros o de Março, e alguns milímetros, (ao que chamam na Madeira cachos em munição), se acham assombrados
hoje supõem ser a melhor poda a que se pratica em Janeiro. O processo geralmente pelas parras, procede-se ao arrancamento das folhas amarelas, e das que fazem maior
adoptado na prática desta operação tende a dar de ano para ano um maior desenvolvi- sombra aos cachos; tendo contudo cuidado que estes não fiquem inteiramente descober-
mento às videiras, e consequentemente a enfraquecê-las, e a torna-las mui sujeitas a tos, e expostos aos ardores do sol. Mais tarde esta operação da desfolha torna a repe-
doenças que as destroem; este processo de poda comprida é, principalmente no sul da tir-se, quando as uvas estão para luzir, isto é para entrarem em maturação; por este modo
Ilha, seguido nas latadas e corredores, e o seu resultado estarem ao cabo de quinze anos se facilita o progressivo amadurecimento das uvas, e se vão tirando das vinhas folhas que
de existência, e ainda menos, estas vinhas em muito grande decadência. A preferência, servem para dar ao gado.
contudo, a dar à poda curta ou à poda comprida não depende do capricho do viticultor; a
cada variedade de vinha compete um modo especial de poda, e não seguir esta opera- CORVO, João Andrade, Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto Santo: Memória I -
ção as indicações da experiência é, ou sacrificar a produção da vinha, ou sacrificar as Memória sobre a Mangra ou Doença das Vinhas nas Ilhas,
apresentada à Academia de Ciências na sessão de 3 de Fevereiro de 1854
cepas. Há plantas que dão frutos logo nas gemas ou borbulhas mais inferiores, a estas
compete a poda curta; outras variedades de vinha há que só frutificam nos ramos que têm
grande desenvolvimento, nestas deve empregar-se a poda comprida. E neste último caso
98 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 99

Balseiras. Gravura do
século XIX. Colecção de
Gravuras da Casa Museu
Frederico de Freitas.
Vinhas. Campo experimental
do E. da Calheta.
Colecção do autor. 2002

Balseiras Cultura da vinha


A cultura da vinha faz-se no Districto de duas formas differentes; em balseiras, ou As terras menos alagadas, como é natural, são as que dão melhores vinhos. Nas pro-
embarrados, na região do norte; e em latadas e corredores na parte do sul. priedades mais bem cuidadas, o solo é aberto até à profundidade de dois metros; o bace-
Nos embarrados a videira sustenta-se e enlata-se sobre árvores dispostas para esse lo, plantado fundo, alonga-se pelo gavião a procurar a humidade do subsolo, única que
fim: neste systema a producção abundante, mas pouco qualificada, porque as uvas raras lhe dissolve os elementos necessários à sua nutrição. Para que a vinha se não tente com
vezes chegam a uma completa maturação, já porque não recebem a reverberação dos a alimentação fácil de Inverno, mas improfícua no Verão, das mais altas camadas de ter-
raios caloríficos, já porque as arvores não são podadas convenientemente. reno, as raízes superiores são cortadas permitindo-se-lhe unicamente esse árduo traba-
As árvores que no Districto se encontram associadas videira são o castanheiro, o car- lho de mineiro que há-de garantir-lhe, por longos anos, o sustento e a produção dos seus
valho, a faia e o louro. saborosos e abundantes cachos de ouro.
Só no fim de três anos é que o bacelo da colheita apreciável. O seu tratamento não é
GRANDE, Eduardo Dias, Relatório Agrícola do Funchal, Funchal, 1865 muito trabalhoso: dá-lhe uma cava em Janeiro para arejar a terra, metendo-se-lhe o
empoçamento da água das chuvas e o seu escoamento profundo na direcção do pé.
Duas enxofrações, uma esfolha depois da flor vingada, e outra mais tarde para
amadurecer o bago, é tudo quanto se concede de mais privativo à vinha. Indirectamente
recebe ela outros benefícios que visam ao desenvolvimento de certas culturas hortícolas,
medrando sob as latadas durante o tempo em que a ausência da folha permite a luz do
sol chegar ao terreno agricultado.
Quinto Centenário do Descobrimento da Madeira, Funchal, 1922, pp. 41/2
100 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 101

Casa e latada. Gravura do


século XIX. Colecção de
Latada. Museu de
Gravuras da Casa Museu
Photographia Vicentes,
Frederico de Freitas.
Colecção Perestrelos.

Cultura da vinha Cultura da vinha


Modo de Cultivo - As vinhas são amarradas a latadas de madeira ou canas que vari- Na Madeira a vinha propaga-se por mergulhias, que costumavam ser plantadas ape-
am em altura entre 3 e 6 pés. Por vezes, as canas são colocadas em arcos, de modo que nas a uma profundidade de vinte polegadas. Agora, no entanto, costuma-se coloca-las
as uvas amadurecem na sombra dos caminhos cobertos. Na parte norte da ilha, as vi- em valas com quatro pés ou mais de profundidade, de acordo com a qualidade do solo.
nhas são estendidas sobre árvores podadas e, como consequência, as uvas são aguadas No fundo da vala coloca-se uma camada de pedras soltas para evitar que as raízes pene-
e sem qualidade. Durante a estação chuvosa, de Outubro a Março, as vinhas ficam sem trem no solo duro por baixo. Nos vinhedos de melhor qualidade, estas mergulhias são
folhas e os vinhedos surgem então nus e desolados. A meados de Março as vinhas geralmente feitas com muita distância entre elas. As vinhas dão fruto no terceiro ano e
começam a rebentar e no início de Abril estão bastante verdes; florescem em Maio e são colocadas, na maioria dos casos, tanto em latadas como em corredores, tendo
Junho e perfumam todas as partes da ilha. Nesta altura, as noites frias por vezes danifi- ambos sido descritos no meu relato sobre o vinhedo da Messrs. Krohn em Santa Cruz.
cam a fluorescência e prejudicam a colheita. Mas o calor do Verão, em qualquer dos Uma desvantagem destas latadas é que por baixo de muitas delas quase não há espaço
casos, rapidamente desenvolve e amadurece as uvas, de modo que a colheita pode para os homens rastejarem de modo a mondarem, podarem, colocarem as vinhas na lata-
começar no fim de Julho. da e tirarem parcialmente as suas folhas, como é geralmente feito durante os meses de
verão, ou apanharem as uvas na altura da vindima. Só em casos particulares é adoptado
THUDICHUM, J. L. e DUPRÉ, A, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, Londres, 1872. um outro sistema de colocar as vinhas mais moderno, tal como o seguido pelo Sr.
Leacock em são João. Quando vista de cima, a estrutura destas latadas, descoradas
como é costume pela influência combinada do sol e chuva, assemelha-se muito a um
conjunto de redes espalhadas no solo.
No lado norte da ilha, antes das devastações causadas pelo oídio, as vinhas eram pre-
sas aos numerosos castanheiros, e podiam crescer até qualquer altura, ou então eram
102 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 103

As castas e as áreas dominantes


A História das castas que deram nome ao vinho Madeira não está ainda devida-
mente esclarecida125. Sabemos apenas que o Infante D. Henrique mandou vir de
Creta a celebrizada Malvasia. Todavia os colonos que estiveram no início do povoa-
O vinho vem a reparo mento da Madeira, maioritariamente da região de Entre-Douro-e-Minho, não
a caninga também é podem ser alheios nos primórdios da cultura na ilha, habituados que estavam ao seu
arco, madeira e atelo convívio e consumo. A cultura da vinha tem tradição em Portugal, sendo a região
o herbemon e o jaquet Norte uma das áreas privilegiadas126.
Não temos dados precisos sobre os diversos tipos de cepas trazidos pelos
eram mais aventureiras
as parreiras do boal, primeiros colonos. Por outro lado, à falta de estudos ampelográficos, é evidente a
depois vem a americana dificuldade na identificação, uma vez que a designação popular das variedades de
e o delicado ferral uva muda de região para região. No caso da Madeira apresentamos aqui um inven-
tário a partir dos dados reunidos na documentação e textos. A primeira e mais
em tempos houve verdelho,
exaustiva enunciação das castas encontrámos num texto anónimo de 1801127.
parreiras de terrantia,
moscatel, alicante
e cachos de malvasia CASTAS DO VINHO MADEIRA AO LONGO DA HISTÓRIA

havia o rico bastardo FONTE Castas


sercial e jarracão 1455: Cadamosto Malvasia e “uvas pretas…sem grainha”
vi a tinta negra-mole 1530: Giulio Landi Malvasia e outros vinhos generosos brancos
e cada cacho de listräo. 1687: Hans Sloane Casta “hermitage”, e três espécies de uvas: “branca, a vermelha e a grande mus-
cadínea ou malvasia
1689: John Ovington Refere 3 a 4 castas, sem indicar o nome
Alfredo F. Gomes, Poetas e Trovadores da Ilha, II, Versos
177 G. Forster Malvasia
de Manuel Gonçalves, Feiticeiro do Norte, 1959, pp. 44/46
1797: George Thomas Staunton Uva branca, tinta e vermelha (=bastarda), malvasia
1801: Anónimo Negro mole, verdelho, boal, bastardo, preta, Boalerdo branca, babosa terrantez,
negrinha, maroto, casuda, negrinha de água de mel lestrong Galija, bringo, mal-
vasiam, malvasia, malvasia roxa, sercial, sercial grosso, tinta de Lisboa, Alicante
preto, Alicante branco, ferral, moscatel, dedo de dama
1823: T. E. Bowdich Verdelho, negro mole, bastardo, bual, sercial, tinta, malvasia candel ou cândida,
malvasia babosa, malvasion
1826: Lyall Boal, sercial, verdelho, negra mole, malvasia
UVAS. Colecção do deixadas crescer à vontade, por cima das rochas e pelo chão. Como o bom vinho só vem 1827: J. Holman Tinto, sercial, malvasia
Autor. 2001 das uvas cultivadas perto da superfície do solo, muita da produção das vinhas presas às 1834: John Driver Sercial, boal, malvasia, tinta, negrinha
árvores só prestava para destilar em aguardente. Logo depois do aparecimento do oídio,
a maioria das árvores foi destruída pela mangra e quando as vinhas foram plantadas de
125.Existem mais de 24.000 variedades de vinhas, mas apenas um grupo reduzido produzm o vinho; veja-se P. Viala e V.
novo, foram colocadas de modo semelhante ao das do lado sul da ilha. Vermorel, Traité Général de Viticulture: Ampélographie, Paris, 1901-1910, A.J. Winkler, General Viticulture, Berkeley, 1962;
Os solos dos vinhedos da Madeira são saibro ou tufo calcário vermelho decomposto, J. Robinson, Vines, Grapes and Wines, London, 1986, Tim Unwin, Wine and the Vine. Na Historical Geography of Viticulture
cascalho, de características pedregoso, pedra mole ou tufo calcário amarelo decompos- and the Wine Trade, London, 1991. Em Portugal faltam inventários detalhados das castas por épocas. Chama-se a atenção
para os seguintes estudos, que privelegiam os aspectos ampelográficos: Vicencio Alarte, Agricultura das Vinhas…, Lisboa,
to, e massapés ou argila resultante da decomposição de tufos calcários mais escuros. O 1712, A. Girão, Tratado Teórico e Prático da Agricultura das Vinhas, 1822; Cincinnato da Costa, O Portugal Vinícola. Estudo
solo que produz o melhor vinho é o saibro, mais especialmente quando lhe é juntado uma sobre a Ampelografia e o Valor Oenologico das Principais Castas de Videiras de Portugal, Lisboa, 1900; A. M. Lopes de
Carvalho, Subsídios para a Ampelografia Portuguesa, Lisboa, 1885.
mistura de pedras. Em muitos lugares, as vinhas são plantadas no solo empilhado em 126.Cf. O Vinho na História Portuguesa (Séculos XIII-XIX), Ciclo de Conferências, Porto, 1983, Mário Viana, Os Vinhedos
socalcos suportados por paredes de pedra. Este sistema foi originalmente adoptado Medievais de Santarém, Cascais, 1998; Deniz de Ramos, Subsídios para a História da Vinha na Bairrada (Séculos X ao
XII), Anadia, 1991;J. Duarte Amaral, O Grande Livro do Vinho, Lisboa, 1994.
como precaução contra as chuvas periódicas que arrastavam o solo com elas pelas 127.Produz-se uma grande variedade de uvas na Madeira, tais como a Negro Mole, Verdelho, Boal, Bastardo, Preta, Boalerdo
íngremes encostas abaixo. Branca, Babosa Terrantez, Negrinha, Maroto, Casuda, Negrinha de Agua de Mel, Lestrong, Galija, Castelão, Bringo,
Malvasia, Malvasia Roxo, Malvasiam, Sercial, Sercial Grosso, Tinta de Lisboa, Alicante Preto, Alicante Branco, Ferral,
Moscatel, Dedo de Dama, etc, etc, etc. Mas se este grande número de qualidades fosse reduzido Negro Mole, à Verdelho
VIZETELLY, Henry, Facts about Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the e à Boal, os vinhos seriam certamente de muito melhor qualidade. ( A Guide to Madeira Containing a Short Account of
Wines of Tenerife, London, 1880. Funchal, Londres, 1801, pp.12-20.)
104 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 105

1840: F. Taylor Boal, sercial, verdelho, negra mole, malvasia O panorama vitivinicola madeirense foi dominado por uma diversidade de cas-
1841: P. P. Câmara Sercial, malvasia, bastardo, boal, tinta, canaria, peringó, muscatel, ferral, negrinho
1851: Robert White Malvasia, boal, sercial, tinta ou Borgonha da Madeira, negra mole, maroto tas, que hoje se torna difícil identificar por falta de estudos ampelográficos, Segundo
1851: Edward V. Arcourt Malvasia, sercial, tinta, boal, verdelho, bastardo, negrinho e maroto P. Perestrelo de Câmara[1841] às castas era atribuída a valoração de acordo com a
1854: J. Andrade Corvo Boal, sercial, tinta, negrinho, verdelho, terrantez, bastardo, isabele
1854: E. S. Wortley Malvasia, tinta, sercial, negrinho, boal qualidade e apreciação do vinho. São quatro as que se destacam, sendo o Sercial a
1863: F.R.G.S. Malvasia cândida ou malvasia, bual, sercial, tinta, primeira casta em qualidade, ficando a Malvasia no segundo nível. Seguem em ter-
1865: Eduardo Grande Boal, sercial, malvasia, verdelho, bastardo branco, peringó, carão de moça,
gancheira, vermejolho, barrete de clerigo, sabba, listrão, moscatel branco, Alicante, ceiro lugar o Boal e o Bastardo e em quarto o Tinta negra mole. Sem classificação
tinta, negrinha, bastardo preto, terrantez, maroto. Castelão, isabele, ferral, mosca- ficam as Canaria, Peringó, Moscatel, Ferral e Negrinha.
tel roxo Alicante roxo, Arinto e tinta Padre António.
1872: J.L. Thudichum e A. Dupré Malvasia, vidonha, bagonal, sercial ou esgana-cão, muscatel, Alicante, bastardo, Já em 1865 Eduardo Grande divide as castas existentes na ilha em dois grupos:
tinta, negra mole, ferral, pérgola
1878: S. G. W. Benjamin Malvasia, bual, sercial, tinta
1880:H. Vizetelly Malvasia, verdelho, sercial, boal, 1. Uvas brancas - Boal, sercial, malvasia, verdelho, bastardo branco, peringó,
1880:Denis Embleton Malvasia, verdelho, sercial, bual, tinta, bastardo carão de moço, gancheira, vermejolho, barrete de clérigo, sabba, listrão.
1900: A. J. Drexel Biddle Verdelho, tinta, malvasia cândida, bual, sercial, negra mole, maroto, terrantez,
carão de moça, malvasia roxa, malvasião, listrão, bastardo, verdelho 2. Uvas coroadas - Negra mole, negrinha, bastardo preto, terrantés, maroto e
castellão, isabela (americano), ferral, muscatel roxo, alicante roxo.
A filoxera, a partir de 1872, condicionou a viticultura madeirense, pois caso se pre-
tendesse manter os vinhedos deveria socorrer-se das castas americanas como produ- De acordo com o Estatuto da vinha e do vinho, aprovado em 1985129, as castas
tores directos ou cavalos porta enxertos. O Governo criou dois viveiros, um no do vinho Madeira distribuem-se entre:
Torreão e outro no Ribeirinho, evidenciando a aposta na reposição das vinhas. Em Castas recomendadas:
1883 foram distribuídos mais de 60.000 bacelos americanos das mais distintas var- Brancas: Sercial (ou Cerceal), Boal (ou Boal), Malvasia Cândida, Terrantez
iedades: riparia, jaquez, hebermont, rupestris solonis, taylor, clinton, ebimbro, york e Verdelho Branco;
madeira. A que se juntaram, depois, outras como cunningham, viale, elvira, othelo, Tintas: Bastardo, Tinta da Madeira, Malvasia Roxa, Verdelho Tinto e
cineree, back pearle, gaston bazile, etc. Algumas serviram de cavalos para enxertia das Negra Mole;
castas tradicionais outras conquistaram o lugar, como foi o caso do jacquez, herbe- Castas autorizadas:
mont, cunningham e vinho americano, tornando-se em produtoras por excelência. Brancas: Carão de Moça, Moscatel de Málaga, Malvasia Babosa, Malvasia
Ganharam fama os jacquez de S. Vicente, Seixal, Porto Moniz, Ponta Delgada, Arco Fina, Rio Grande, Valveirinha, Listrão e Caracol;
de S. Jorge, e o vinho americano do Porto da Cruz. No Sul, nomeadamente em C. de Tintas: Tinto Negro, Complexa, Deliciosa e Triunfo.
Lobos, persistiram as antigas castas enxertadas em cavalos americanos.
No século XX estabeleceram-se medidas de reposição das castas tradicionais. A partir daqui ficou definido o panorama ampelográfico do arquipélago da
Em 1909 o Governo estabeleceu um regulamento no sentido de erradicar as castas Madeira. No sentido de contribuir para a elucidação da ampelografia histórica
americanas num prazo de oito anos. Acontece que a situação não mudou e em madeirense apresentamos alguns aspectos históricos das castas tendo em conta as
1935128 insiste-se no arranque das videiras americanas a partir de 30 de Março de áreas de expansão e o valor apreciativo no mercado130.
1936. E de novo ninguém cumpriu a ordem chegando até nós a presença e fama do A malvasia é a casta que deu nome ao vinho da Madeira e está presente desde os
vinho americano. inícios da ocupação. A tradição anota que foi o Infante D. Henrique que mandou
A Junta Geral, para fazer cumprir a medida de reposição das castas primitivas, vir os primeiros bacelos do Mediterrâneo. A Malvasia é originária de Napoli-di-mal-
estabeleceu, a partir de 1945, vários campos experimentais de videiras na Madeira vazie na ilha de Monia, junto da costa oriental de Moreia131, donde foi trazida para
e Porto Santo. Como corolário disto tivemos, desde 1954, a renovação das castas do a Madeira. Aqui desenvolveu-se em áreas específicas do litoral na vertente meridi-
Porto Santo com barbados vindos da Madeira. As diversas castas assumem particu- onal, estendendo-se pela Fajã dos Padres (Campanário), Paul do Mar, Jardim do
laridades que as diferenciam de idênticas na Madeira. Daí a adjectivação de Porto
Santo que normalmente se associava a Tinta, o Boal e o Moscatel. Somente a par-
129.Decreto Regulamentar Regional n.º 20/85/M: Aprova o Estatuto da Vinha e do Vinho da Região Autónoma da Madeira
tir de 1978 ficou assente o plano de reconversão das vinhas da Madeira no sentido 130.Fica desde já posto de parte o estudo botânico, que embora se afigure importante, por razões metodológicas reservamo-
lo para os especialistas como Carlos Azevedo de Menezes, “Vinhas da Madeira”, in Portugal Agrícola, 1908, pp. 353/9, vide
de reconstituir o aspecto vitícola anterior ao oídio e à filoxera. também Menezes Pimentel, “Vinhas e Vinhos da Madeira”, in ibidem, 1901/1902, pp. 262/266.
131.Segundo Filippo Cantannessa, Il Vino..., 1898, a Malvasia existia nas seguintes regiöes italianas (15/34): Provincia
Alexandria (p. 19), Novara (p. 20), Marche ed Umbria (p. 21), Regiäo Meridional do Adriático (p. 26), Sicilia (p. 28), Sardenha
128.Decreto-lei 24976, de 28 de Janeiro de 1935, Diário do Governo, nº.22. (p. 29).
106 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 107

Mar, Arco da Calheta, Madalena, Sítio do Lugar (Ribeira Brava), Anjos (Canhas). XVIII nunca excedeu as 80 ou 100 pipas e a de superior qualidade era no século
Os testemunhos de vários visitantes dos séculos XV e XVI anotam apenas a pre- XIX de apenas 200 pipas138. Ainda hoje continua a ser uma raridade.
sença da Malvasia. Somente em 1687 Hans Sloane diferencia três variedades de Em 1757, um marinheiro inglês de passagem pela Madeira dá conta da descober-
uvas: branca, vermelha, muscadinea ou Malvasia. A mais famosa surgiu na Fajã dos ta da malvasia do seguinte modo: As regards the Malmsey henhole island produces
Padres, mas a área de cultivo estendia-se ao Paul do Mar, Jardim do Mar, Arco da only abord 50 pipes annualy & they are the sole property of one gentleman & the
Calheta, Madalena, Sítio do Lugar (Ribeira Brava), Anjos (Canhas). excessive high prices graid him groth em & quantity being só small has made that
De entre as variedades de superior qualidade, que deram nome ao vinho wine never been regarded as a branch of trade & trade & whenany has beer shipped
Madeira, sobressai a Malvasia, com as variantes cândida, roxa, babosa e propea, que to oblige our friends they have seldom been charged more than has really been paid
mereceu a atenção dos mais afamados apreciadores do vinho - os ingleses - que no in the island for them and this I can affirm to you, that two years ago I paid for a
teatro, com Shakespeare, ou nos últimos desejos (morte do Duque de Clarence em quarter cask at the rate of 25 moidore p. pipes besides only & charge on shippings139.
1495) nunca a esqueceram. A fama do vinho Madeira, como é óbvio, adveio de cas- Para H. Warner Allen o que despertava a atenção era a qualidade do vinho que
tas superiores que estiveram na origem do vinho generoso: É a malvasia cândida, se produzia com a Malvasia: Gratest of old Madeira, malmsey, in wich quart bottle-
associada ao sercial, verdelho, boal, bastardo, malvasia roxa e tinta da Madeira que age transforms a quinessence of sweetness into a progronard magnificience of
sustentando os créditos de enologia insular deram nome aos seus vinhos, cuja fama ambrosial in ventacity such as the gods in the golden age drank are Olympus after
se espalhou por todo o mundo132. they had quenched their first with nectar, is perhapss the finest wine in the world...140.
Existem várias variedades de Malvasia. A mais recente é apelidada de S. Jorge, A vinha, por ser tão considerado, surge com frequência em testamentos e encargos
área onde incide a maior produção. Na ilha a mais conhecida foi a Malvasia cândi- pios. Nos encargos e foros do Convento da Encarnação do Funchal sabe-se da presença
da ou fina, Algumas não merecem a aprovação de todos os especialistas. Batalha da casta na cerca do convento e terras foreiras de Câmara de Lobos e Porto Novo141.
Reis, em conferência realizada no Funchal em 1905133, contraria a opinião corrente O Sercial, não tão conhecido como a Malvasia, pertence ao grupo das castas
ao condenar a Malvasia babosa por se desfazer em mosto e ser pouco doce. generosas de superior qualidade e é referido por P. P. da Câmara como de primeira
A Malvasia foi a bebida, por excelência, do aristocrata e colonialista britânico. qualidade antes mesmo da Malvasia: A mais preciosa e esquisita das bebidas, assim
Bebida doce que muitos preferem ao sercial, e que com ele emparelha na superi- como a mais custosa e rara de obter, e a que mais tempo exige para um completo
oridade e valor... esta se poderá bem comparar ao fabuloso néctar, no melífluo aperfeiçoamento (...). Nada menos de 10 anos são necessários, para este líquido
gosto e delicioso aroma, que parece sair de um ramo de odoríferas flores. Com 3 adquirir o gosto, aroma, e torrado que tanto o caracterizão, e durante este longo
anos de idade já esta bebida é preciosa, e quanto mais velha melhor, acrescendo, período, mais dispendioso e difícil é o seu tráfego... faz sobressair as qualidades na-
que mesmo de um ano é muito agradável, e até mais exala o seu perfume, e mais turais que é dotado as quais a idade aperfeiçoa142.
gosto de uva tem134. O Sercial terá sido importado do Reno, sendo conhecido no continente como
A Fajã dos Padres, propriedade dos Jesuítas na ilha, foi um dos lugares por Esgana cão. A área de cultivo é definida pelo Funchal, Câmara de Lobos, Fajã dos
excelência de produção da casta, tendo merecido a atenção dos comerciantes. Padres, Campanário, Paul do Mar, Fajã (Ponta do Pargo). Segundo Henry Vizetelly
William Bolton, em carta de 1699 ao Lord Somers em Bóston, que acompanhava era uma casta de superior qualidade fornecendo um vinho de sabor inestimável: pro-
o envio de 30 dúzias de Madeira Wine, dizia: There is a white wine Madeira wich duz um vinho branco, forte, seco, que possui um requintado aroma143.
called the jesuits wine and I think equal any of the spanish montain wines só much O Boal é a terceira casta na nomenclatura de P. P. da Câmara: A 3ª qualidade de
liked of late in England. Those Jesuits there so egross it, that it is ahard matter to get vinho que mais valor tem no mercado, mas que poucos proprietários mandão fazer
any: and I never tasted of that sorte of wine in two houses since my being in America em separado por ser o vidonho raro, é o boal, cujo cacho comprido e bago miúdo,
135
. Nas cartas comerciais é frequente a referência à produção e excelência da dando-se bem na vinha de pé... produz um líquido de sumo precioso, é o mais
Malvasia136, apresentado sempre como produto raro malmseys are very few this vin- aromático de quantos há na Madeira, porém de escassa quantidade144. A videira
tage, not exceding above half the quantity of other years137. A produção no século
138.P. P. Câmara, ibidem, p. 70.
139.Ruppert Croft-COOKE, ibidem, p. 136.
132.A. T. Sousa, Subsídio para o Estudo das Castas do Vinho da Madeira, Lisboa, 1938, p. 5.
140.The Wines of Portugal, Londres, 1962, p. 172.
133.Resumo da Conferência Realizada na Associação Commercial do Funchal em 15 de Outubro de 1905…., Funchal, 1905.
141.Eduarda Maria de Sousa GOMES, O Convento da Encarnação do Funchal, Funchal, 1995
134.P. P. Câmara, ibidem, p. 70.
142.P. P. CÂMARA, ibidem, pp. 60/70.
135.Portland mss, vol. VII, part. II; cit. A. L. Simon, The Bolton Letters..., vol. I, p. 18.
143.Alberto VIEIRA, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.385
136.Idem, ibidem, pp. 2, 51, 56, 159/61.
144.P. P. CÂMARA, ibidem, pp. 70/1.
137.Idem, ibidem, p. 56.
108 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 109

importada da Bretanha espalhou-se pela vertente meridional: Campanário, Câmara tornaram-se improdutivas com o oídio ou definharam com o ataque da filoxera às
de Lobos, Santo António, Estreito de C. Lobos, Paul do Mar, Fajã (Ponta do Pargo). raízes. Os produtos químicos não resolveram cabalmente o problema e só com o
A quarta qualidade mais conhecida é a Tinta, distinguindo-se duas classes con- recurso às castas americanas, vindas directamente dos EUA ou através da Europa,
forme as áreas de cultivo: conseguiu-se assegurar a reposição dos stocks de vinho e corresponder à solicitação
• 1ª qualidade de Santo António, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de do mercado de consumo interno e externo.
Lobos, S. Martinho; Apenas para o século XX se torna possível fazer uma ideia da importância asumi-
• 2ª qualidade em Porto Moniz, Santa Cruz, Gaula. da pelas diversas castas no conjunto da produção de vinho. Antes disso temos ape-
nas informação dispersa para os anos de 1849 e 1850148.
A casta foi trazida de Espanha para o reino e Canárias e da última para a
Madeira. A ela se refere H. Vizetelly: A uva negra, geralmente redonda, misturada PRODUÇÃO SEGUNDO AS CASTAS
com as anteriores variedades brancas é a tinta, da qual se faz, em certa quantidade, Castas 1849 1850
um vinho diferente…145. Pipas % Pipas %
O Verdelho é uma das que melhor produz na ilha, situando-se a área de cultura Malvasia 100 0,76 107 0,79
nas zonas altas. Na segunda metade do século XIX alcançou um lugar destacado na Sercial 93 0,71 99 0,69
viticultura madeirense, ocupando dois terços do vinhedo146. Tinta 88 0,67 94 0,63
Total 13 080 13 571
Como esclarece A. T. Sousa o vinho produzido por uma mesma casta em diver-
sas regiões apresenta-se com qualidade e características diversificadas, pois que as
De entre as castas nobres a Malvasia parece ter sido a rainha mas a que hoje con-
características dos mostos das diferentes castas estão em estreita dependência da
tinua a ser a principal fonte do vinho Madeira é a Tinta negra-mole. O quadro dos
natureza do solo, e da variação dos factores climatéricos da região onde são culti-
valores médios da produção em litros para o quinquénio de 1935-1939 evidencia a
vadas147. Daí distinguir-se os vinhos de primeira, segunda e terceira qualidade, con-
dominância do jacquez com 40% do total.
forme a região a que pertenciam. Por outro lado os estrangeiros, nomeadamente os
ingleses mais atentos ao vinho, delimitavam as melhores áreas de vinha. Em 1851 EVOLUÇÃO DAS CASTAS EUROPEIAS E AMERICANAS.1935-39
Edward V. Harcourt refere que os melhores vinhos eram oriundos de Câmara de
Lobos, S. Martinho, S. Pedro, partes baixas de Santo António, Estreito de Câmara CASTAS EUROPEIAS CASTASAMERICANAS
de Lobos, S. Roque, S. Gonçalo e Campanário. Para Henry Vizetelly(1884) S. Tinta 2.644.740 Izabela 647.045
Martinho produzia um vinho de elevada categoria enquanto a melhor área se situa- Listrão 146.326 Cunningham 157.965
Verdelho 43.401 Herbemont 736.846
va na Torre em Câmara de Lobos. Boal 58.373 Jacquez 3.494.887
Algumas das castas com que se faz o vinho Madeira são consideradas e valo- Moscatel 6.495
rizadas pela raridade e excelência dos vinhos. São elas o Bastardo, Listrão e Sercial 45.521
Terrantez. O vinho da última continua a ser considerado um verdadeiro néctar dos Malvasia 698.173
deuses. A cultura popular não se faz rogada em elogios: Total 4.036.534 Total 5.036.743
As uvas terrantez
Nas as comas nem as dês A dominância das castas americanas ocorre nos concelhos do Norte, com espe-
Para uvas Deus as fez cial destaque para S. Vicente, enquanto as europeias têm uma incidência particular
no Sul. Apenas com o Verdelho e o Sercial se altera a situação em favor do Porto
Eduardo Grande (1854) evidencia valorização das castas americanas a partir de
meados do século XIX. Elas chegaram à Europa pela fama da resistência ao oídio.
Mas acontece que transportavam nas raízes as larvas da filoxera. A situação impli-
cou uma mudança radical no espectro vitícola. As castas tradicionais europeias
148.O Agricultor Madeirense, 1851, pp.96-97, 125
145.Publicado por Alberto VIEIRA, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.385
146.CÂMARA, Benedita, A Economia da Madeira (1850-1914), Lisboa, 2002, p.104
147.bidem, p. 5.
110 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 111

Moniz, a principal área de ambas.


A relação maioritária das castas americanas manteve-se nas décadas de cinquen-
ta e setenta. A total reconversão da vinha para as europeias só começou a ganhar
forma na década de setenta com o impulso do recém-criado Instituto do Vinho da
Madeira. Tudo isto foi consequência de directivas comunitárias que proibiram desde
de 1996 os vinhos de híbridos de produtores directos. A partir daqui resultou a
inversão dos valores da produção de vinho a favor das castas europeias.

EVOLUÇÃO DAS CASTAS EUROPEIAS E AMERICANAS.1951-2002

ANOS Castas Europeias Castas Americanas TOTAL


(litros) (litros)
1951 1.830.425 5.332.890 7.163.315
1952 1.962.085 6.091.185 8.053.270
1853 3.181.616 8.739.949 11.921.565
1954 3.747.454 8.585.589 12.333.043
1955 3.488.792 .269.317 11.758.109
1966 2.413.426 7.518.259 9.931.685
1971 2.134.056 6.549.744 8.683.800
1975 1.788.704 5.783.920 7.572.624
1978 2.692.102 6.980.422 9.672.524 QUADRO EVOLUTIVO DAS DIVERSAS CASTAS. 1925-2001 Lagar.
Postal antigo
1979 3.145.399 8.530.139 11.672524 CASTAS 1935-39 1951 1966 1954 1980 1986 1990 1992 1994 1995 1997 1998 1999
1980 3.770.259 7.725.949 11.496.208 Tinta 30,4 48,5 38,0 54,0 70,1 77 67,8

CASTAS EUROPEIAS
1981 3.622.858 4.988.879 8.611.137 Listrão 1,7
Verdelho 0,5 0,5 0,4 0,7 0,9 1,4 1,4 1,6
1982 3.390.749 3.918.990 7.309.739 Boal 0,7 0,6 0,6 0,7 0,9 1,7 2,3 2,7
1983 2.927.930 3.761.314 6.689.244 Sercial 0,5 1,1 0,8 1,2 1,4 1,1 1,2 1,8
1984 2.528.538 3.178.853 5.707.189 Malvasia 1,2 0,9 2,0 1,8 3,1 2,6 3,4
1985 2.086.694 3.695.484 5.782.178 Malvasia babosa 8,1 1,83 1,6
Moscatel 0,1
1986 5.842.895 7.939.000 13.781.895
TOTAL 41,9 25,6 24,3 30,4 32,8 42,4 52,2 41,0 58,8 69,6 77,7 84,3 77,3
1987 4.947.508 6.849.092 11.796.600 Isabella 7,46

AMERICANAS
1988 4.692.926 5.636.652 10.329.578

CASTAS
Cunningham 1,82
1989 4.841.029 5.738.272 10.579.301 Herbemonmt 8,5
1990 4.025.780 3.686.685 7.712.465 Jacquez 40,41
1991 2.093.487 5.913.347 10.006.834 TOTAL 58,1 74,4 75.94 69,6 67,2 57,6 47,8 59,0 41,2 30,4 22,3 15,7 22,7
1992 3.779.875 5.454.466 9.234.341 (1) malvasia babosa
1993 3.100.225 2.810.364 5.910.389
1994 3.108.223 2.178.352 5.286.575 Não existe um estudo ampelográfico actual e comparativo que permita conhecer
1995 3.265.100 2.781.300 6.049.400
a situação da viticultura madeirense enquadra-la no panorama nacional e interna-
1996 4.759.401 1.252.605 6.012.006
1997 4.554.584 1.310.460 5.865.044 cional. Os raros estudos que conhecemos são do Eng. Teixeira de Sousa149, que apre-
1998 3.792.189 698.904 4.491.093 sentou um trabalho no V Congresso Internacional da Vinha e do vinho realizado
1999 5.102.830 1.499.194 6.601.923 em Lisboa em 1938, e de Carlos Azevedo de Menezes150. Estamos perante um
2000 5.651.548 591.351 6.242.899 campo em aberto que espera pela atenção dos especialistas.
2001 5.017.681 676.190 5.693.871
2002 4.564.085 539.936 5.104.021
149.Um sumário das castas mais importantes é apresentado por Eduardo C. N. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, Funchal, 1989,
p.564.O mesmo corre em folheto de divulgação editado pelo IVM.
150.Artigo publicado em 1902 no Portugal Vinícola, transcrito, parcialmente, no Elucidário Madeirense, vol. III, Funchal, 1966,
pp.384-387. Cf. P. Viala e V. Vermorel, Ampélographie, 7 vols, Paris, 1901-1910.
112 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 113

1663 para plantar 7000 bacelos de Malvasia, na


maioria em latada153.
A Fajã deveria ser uma referência para os
estrangeiros, pois em 1825 Edward Bowdich154
descreve a viagem por barco à descoberta deste
recanto. Já para John Driver155 aquilo que o entusi-
asmou em 1834 foi o Malvasia, considerado o me-
lhor entre todos. Em meados do século XIX a fama
da Malvasia persistia ainda como afirma Isabella
de França: há um sítio chamado Fajã dos Padres,
por ter pertencido antigamente aos jesuítas:
cresce aqui a melhor malvasia, famosa em todo o
mundo156. Em 1873 Henry Vizetelly refere a cele-
bridade do local pelas mesmas uvas, mas salienta
que a família Neto, proprietária da Fajã, aí plantou
verdelho157.
Os jesuítas, desde a fixação na ilha na 2ª
metade do século XVI, foram detentores de fartas
fazendas onde medravam culturas ricas como a
Fajã dos Padres.
Colecção do autor.1999
cana-de-açúcar e a vinha. As quintas estendiam-
se por toda a ilha ficando célebre a que se situava
na freguesia de Campanário. Daí resultou o nome
A Malvasia da Fajã dos Padres da actual Quinta Grande. Em 1759 os bens da
companhia foram confiscados e arrematados em
hasta pública por João Francisco de Freitas
Entre todos os tipos de vinho o mais celebrado é o Malvasia, o rico sumo das luzidias Esmeraldo no ano de 1770. Na década de setenta
uvas brancas que descem as latadas em largos e fartos cachos. Foi assim na Antiguidade do século XIX a Fajã estava em poder do coronel
e continuou nas épocas subsequentes até ao presente. A Malvasia cândida manteve-se por Manuel de França Dória, que a vendeu em 1919 a
muito tempo a rainha das videiras. Aconteceu assim no Mediterrâneo e também no Joaquim Carlos de Mendonça. A Quinta dos
Atlântico, tendo por assento as paradisíacas ilhas como a Madeira e Canárias. Na Europa Jesuítas de Campanário, definida pela actual
do século XV foi celebrado por poetas e dramaturgos, como Shakespeare. A fama condi- Quinta Grande, indicia uma faixa de terreno que ia
cionou a opção do Infante D. Henrique em recomendar aos povoadores as videiras de até ao mar, contemplando a ubérrima Fajã, isolada
Malvasia de Cândida. O senhor da ilha pretendia cultivar no novo espaço o vinho. Todavia, no litoral, cujo acesso se fazia apenas por mar
o mesmo não previa que havia de se tornar no mais afamado da ilha, que levou o nome aos Não dispomos de muitas informações sobre a
quatro cantos do mundo. Fajã, para além do afamado Malvasia que aí se
Já em meados do século XV o veneziano Cadamosto fazia fé na realidade ao afirmar produziu. O isolamento do lugar, os vestígios sobre
que provaram muito bem. Aliás, em 1530 outro italiano, Giulio Landi, proclamava que o o terreno indiciam a presença permanente de
malvasia madeirense é reputado melhor do que o de Cândida151. A fama persisitiu até ao colonos, tendo-se para o efeito construído uma
presente, sendo o Malvasia de todos o mais considerado dos vinhos da ilha. A produção Capela da invocação de Nª Sr.ª da Conceição.
foi sempre reduzida mas a procura foi sempre elevada. Em 1757 a produção foi de ape- Apenas sabemos da existência em 1626, quando
nas 50 pipas, muito disputadas pelos mercadores funchalenses. Aqui incluíam-se algu- foi profanada por corsários, mas a construção Vinhas na Fajã dos Padres.
mas pipas da Fajã dos Padres. A Fajã confunde-se com o Malvasia. Foi o Malvasia o mais deve ser de inícios da centúria, se tivermos em Colecção do autor. 2002
cobiçado entre todos os mercadores. conta a data da aquisição pelos jesuítas em 1595.
Os jesuítas destacaram-se na produção de vinho, sendo acusados em 1689 por John A ermida é referida em 1722 por Henrique
Ovington de quasi monopólio da malvasia: Eles asseguram aqui o monopólio do malva- Henriques de Noronha158, sendo quarenta anos
sia do que existe em toda a ilha apenas uma boa e grande vinha - na dita fajã - de que
são os únicos possuidores.152 153.Rui Carita, O Colégio dos Jesuítas do Funchal. Descrição e Inventários, Funchal, 1987, vol. II, p.240
A malvasia foi plantada por iniciativa do Padre Sebastião de Lima. É dele a ordem de 154.T. E. Bowdich, Excursions in Madeira…, London, 1825, p.59
155.Letters From Madeira, London, 1838, p. XII.
156.Jornal de uma Visita à Madeira…, Funchal, 1970, p.91
151.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, pp.37 e 86 157.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1993, p.386
152.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.198 158.Memórias Seculares e Eclesiástics para a Composição da História da Diocese do Funchal ilha da Madeira, Funchal, 1996.
114 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 115

Parreiras e uvas de depois deixada ao abandono com a expulsão e sequestro dos bens dos jesuítas na ilha. Começaremos pelo Sercial, a meu ver, a mais preciosa e esquisita das bebidas, assim Uvas das castas sercial,
malvazia na A memória material da presença quase que se apagou no tempo, restando em uma das como a mais custosa e rara a obter, e a que mais tempo exige para um completo aper- malvazia e boal.
Fajã dos Padres. Colecção do Autor. 2001
habitações a pia para a água benta. feiçoamento. O seu cacho, raramente adquire uma madureza perfeita, conserva sempre
Colecção do autor. 2002
Aí deveria existir uma pequena comunidade de jesuítas e colonos que tratavam do uma natural agrosidade, e apenas é tolerável o que nasce na beira-mar, crestado pela
amanho da terra, sendo certamente um local de veraneio dos frades, como sucedia na maresia e ardor do sol. Nada menos de 10 annos são necessários, para este liquido
Quinta do Cardo no Funchal. As construções existentes são testemunho disso. adquirir o gosto, aroma e torrado que tanto o caracterizam, e durante este longo período,
Certamente que os piratas argelinos não assaltariam um lugar ermo, sem vivalma e algo mui dispendioso e difícil é o seu tráfego, absorvendo perto de metade da sua totalidade
de interesse económico e religioso. O assalto provocou uma devassa, por as gentes de em aguardente, a qual evaporando-se em tão comprido espaço, não falando já no da
Câmara de Lobos, nomeadamente os pescadores, não terem acudido ao rebate dos Estufa, faz sobressair ao Sercial as qualidades naturais de que é dotado, as quaes a
sinos. idade aperfeiçoa; por isso uma pipa d’elle, da melhor qualidade, com o tratamento que
Saíram os jesuítas mas ficou o nome na designação do local, Fajã dos Padres, e o deixo dito, vale nunca menos de 200$000 rs. O melhor, e talvez o único bom que se cul-
interesse pelo vinho aí produzido continuou até 1920, altura em que a Fajã logrou o últi- tiva, é o da freguesia do Paul do mar, pertencente ao morgado João da Câmara de
mo afamado malvasia, sobrevivendo apenas algumas parreiras. Em 1940 encontrou-se Carvalhal, e toda a ilha poderá produzir anualmente 100 pipas do bom.
uma donde se retiraram bacelos que foram plantados em Câmara de Lobos nas terras de Vem logo depois a Malvasia, bebida doce que muitos preferem ao Sercial, e que com
Dermot Francis Bolger159. Em 1979 a operação foi repetida pelo actual proprietário, o ele emparelha na superioridade e valor. Da de superior qualidade apenas se colherão
Eng.º. Mário Jardim Fernandes, que enviou um exemplar ao Instituto Gulbenkian para pro- anualmente umas 200 pipas; esta se poderá bem comparar ao fabuloso néctar, no
ceder à clonagem e plantar no local. Hoje as latadas que cobrem o caminho de acesso melífluo gosto e delicioso aroma, que parece sair de um ramo de odoríferas flores. Com
às casas estão cobertas da videira, tornando o espectáculo alucinante nos meses de 8 annos de idade, já esta bebida preciosa, e quanto mais velha melhor, acrescendo, que
Julho e Agosto. mesmo de 1 ano é muito agradável, e até mais exala o seu perfume, e mais gosto da uva
Hoje a Fajã está rejuvenescida e os largos e dourados cachos de uvas regressaram tem.
ao recanto junto ao precipício. E a quem como nós tiver o prazer de degustar o actual A colheita total, entre boa e má, chegara a perto de 600 pipas, porem a melhor,
Malvasia espreitar e fotografar os cachos luzidios poderá afirmar que a tradição está de provem do lugar no Campanário, denominado Fajam dos Padres, que pertenceu aos
volta. Recuperou-se a memória e a técnica do afamado malvasia, ao mesmo tempo que Jesuítas, e logo depois a do Paul, Jardim, Arco da Calheta e Madalena.
se redescobriu um recanto paradisíaco, refúgio de locais e estrangeiros. Para nós o A 3ª qualidade de vinho que mais valor tem no mercado, mas que poucos proprietários
simples gesto de degustar um cálice de malvasia conduz-nos a um sinuoso percurso mandão fazer em separado por ser o vidonho raro é o Boal, cujo cacho comprido e bago
na descoberta da história. Todavia, ontem como hoje, resta a dúvida: quem plantou aí miúdo, dado se bem na vinha de pé, e por isso prematuramente crestado pelo ardor do
as primeiras videiras e fez brotar por entre os penhascos o sumo que escorreu nos qua- sol e calor natural da terra, temporãmente amadurece, o que junto à fortaleza e gene-
tros cantos do mundo para dessedentar o paladar dos mais exigentes apreciadores. rosidade da sua natureza, produz um liquido de suma preciosidade, e o mais aromático
Hoje, como ontem, apenas uma certeza, o malvasia madeirense confunde-se com a de quantos da Madeira, porem de escassa quantidade pois de Boal puro, apenas se
Fajã. poderão colher anualmente umas 50 pipas. O de melhor qualidade é produzido nas
freguesias do Campanário, Câmara de Lobos, Stº António, Estreito da Calheta &c. &c. e
159.Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol.I, 1989, p.563.
116 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 117

Uvas das castas bastardo


e tinta negra-mole. As variedades principais da vinha, que se cultivam na Madeira, são as seguintes: Uvas da casta terrantez.
Colecção do autor. 2002 Boal. - Uvas de um branco alambreado: bagos pouco unidos de pequena grandeza. Parra Colecção do autor. 2001
com as quatro divisões superiores muito profundas e agudas; pelos com ambas as faces.
o seu preço pouca diferença faz para menos do da malvasia. Julga-se que esta variedade de vinha foi trazida de Bucelas para a ilha; há porém, quem
Apenas aqui farei menção da muito rara e estimada uva denominada bastardo, a qual pense que ela veio de Borgonha.
já hoje pela sua escassez, não se pode separar para fazer liquido puro, de uma só qua- Sercial. - Uvas amareladas de bagos redondos, parras com quatro lobos arredondados;
lidade. Duas cousas se lhe notão que a tornão apreciável e curiosa; a primeira é por ser nervuras salientes; de um verde amarelado. Esta variedade é a conhecida em Alemanha com
rara e excelente para o prato ou mesa, pela dureza e adstringência do seu bago, e a o nome de Hock.
segunda é, que sendo uva preta, produz vinho branco. Malvasia. - Há quatro qualidades de Malvasia. A candila ou cadel; a malvasia roxa de bago
Em ordem numérica de valor, poderemos contar em quarta qualidade, a conheci- redondo; a babosa de bago branco e um tanto alongado; e a malvasia propriamente dita.
da e afamada Tinta, denominação bem aplicada, pela sua cor, e exclusivamente feita da Destas variedades o principal é a candila, esta dá cachos grandes e ovais de bagos ovados
uva preta. Os epicuristas classificam-na em duas qualidades, a forte e a fraca. A da e cor de ouro, parras de cor amarela esverdeada, com quatro divisões muito profundas, e
primeira classe abunda nas freguesias de Stº António, Camera de Lobos, Estreito, e S. redondas, e com duas menos distintas; cada dentadura tem uma ponta pequena e amarela-
Martinho, e a da 2ª nas de Porto do Moniz, Santa Cruz, e Gaula. O seu uso é muito da. Esta foi a primeira variedade de vinha introduzida na Madeira pelo príncipe D. Henrique
recomendado nas diarreias, gozando alem d’essa, d’outras virtudes medicinais, e em em 1445, vinte e seis anos depois da descoberta de ilha; é originária de Cândida. Como a
adstringência emparelha com o melhor vinho do Porto tinto. Sendo velha, mais preço tem; posição da Ilha da Madeira é quase idêntica à da ilha de Cândida, em relação à direcção da
com tudo a meu ver o estado da sua perfeição é aos 3 annos, antes que perca a cor e o linha isoterma dos 20º nada admira que esta variedade prosperasse na Madeira.
aperto do gosto, o que acontece dos 4 em diante. A sua colheita não escassa, da melhor Negra Molle-Tinta. - Uvas pretas de bago redondo. Parras de sete lobos, com sinuosi-
sorte, se poderão colher anualmente 350 pipas e no total umas 800; a do primeiro lote dades muito profundas e redondas; de cor verde escura com pontuações purpurinas.
tendo de 2 a 3 annos de idade pode valer 110$000 rs por pipa, mas a do segundo como Negrinha. - Uvas pretas, pouco preciosas. É necessário para delas se fabricar vinho de
quase só sirva para misturar com o vinho branco afim de lhe dar cor, regula menos de algum merecimento sujeitar à acção do sol, oito ou mais dias, as uvas depois de colhidas.
metade d’est’outra, e não tem consumo em pais estrangeiro. Verdelho. - Uva de bago amarelo, oval, Parras com sete lobos, com sinuosidades pouco
Muitas outras qualidades de uva ha, tais como Canaria, Peringó, Muscatel, Ferral profundas, de cor verde escura. Esta variedade é das que sobem a maiores alturas.
Negrinho & porem a sua diminuta quantidade pertencente a um só proprietário, em os Tarrantés. - Bago roxo escuro; alongado.
sítios onde nascem, não permite d’ellas fazer liquido puro, e vão juntamente com o verde- Bastardo. - Bago preto, e redondo.
lho, formar a grande maioria da produção dos seus vinhos, dos quaes esta ultima quali- Isabelle. - Cachos grandes - bagos arredondados de um roxo escuro, de pele grossa,
dade entra nas seis decimas partes da sua totalidade. muito abundantes em sumo; com um perfume um pouco semelhante ao das maçãs - Parras
grandes, pouco divididas, com a página inferior coberta de pelos abundantes. Variedade
Paulo Perestrelo da Câmara, Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91 americana da vitis vulpina.

João de Andrade Corvo, Memórias sobre as ilhas da Madeira e Porto-Santo. Por João Andrade Corvo, sócio
efectivo da Academia Real de Sciencias de Lisboa - Memória I. Memoria sobre a “mangra” ou doença das vinhas
da Madeira e Porto-Santo. Apresentada à Academia na Sessão de 3 de Fevereiro de 1854, (Lisboa), (1954); “A
mangra ou doença das vinhas”, in Das Artes e da História da Madeira, vols. IV-V, nºs.24-29, 1956-1959
118 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 119

Vinhas. Campo experimen-


tal do E. da Calheta.
Colecção do autor.2002

Latada.
Vicentes Photographos.
Museu Photographia Vicentes

Dois terços das vinhas nos vinhedos da Madeira são da qualidade verdelho, cujas era feito com uvas cultivadas num local especial, perto do mar e por baixo de um alto pe-
uvas possuem muita sacarina e produzem um rico vinho de qualidade esplêndida. A uva nhasco, chamado Fajã dos Padres, a oeste de Câmara de Lobos e num vinhedo perten-
sercial, que se diz ser a famosa uva «riesling» do Reno, transplantada para a Madeira, cente aos Jesuítas. Hoje, no entanto, o vinhedo tornou-se propriedade da família Neto e
agora muito rara, (predomina, na sua maioria, no concelho da Ponta do Pargo, no lado está cultivado principalmente com vinhas da qualidade verdelho. A uva malvasia requer
sudoeste da ilha), produz um vinho branco, forte e seco, que possui um requintado aroma. um solo muito seco e calor intenso, e não é normalmente colhida até que se adquira as
No entanto, quando é novo, este vinho é desagradável ao paladar, sendo a idade características de uva passada. Uma quantidade insignificante de vinho é feita da uva
necessária para o levar à perfeição e desenvolver o sabor agradável pelo qual se dis- muscatel, de sabor doce, e possuindo o bem conhecido aroma especial que uma
tingue. Outra uva é a boal, também bastante rara, dando um rico vinho saboroso, delica- decoação de flores de sabugueiro imita muito bem. Uma vez que os vinhedos da Madeira
do em sabor e com um aroma especial. A uva negra, geralmente redonda, misturada com são, em regra, de área reduzida e cultivados com diversas qualidades de vinhas, não vale
as anteriores variedades brancas é a tinta, da qual se faz, em certa quantidade, um vinho a pena ao cultivador separar as diferentes espécies antes de as espremer no lagar.
diferente, com uma cor profunda e um sabor adstringente, devido aos pedúnculos e às Consequente mente, a totalidade das uvas são esmagadas juntas, sendo o resultado um
cascas das uvas que ficam em infusão no mosto durante a fermentação. Dentro de rico vinho branco, de certo modo com uma cor profunda, devido à mistura de uvas negras,
poucos anos, este vinho torna-se amarelo-acastanhado, e com o passar do tempo encontrando-se em todos os vinhedos uma certa quantidade delas. Em vinhedos de
adquire a cor de um profundo Madeira médio. Outra variedade de uva, conhecida como a maior extensão, geralmente tem-se mais cuidado. As diferentes qualidades de uvas são
bastardo, tem uma tonalidade cor-de-rosa. o vinho que ela produz tem um aroma muito esmagadas separadamente, e o mosto de cada uma delas é mantido separado, espe-
delicado e é doce ao paladar, deixando, no entanto, uma adstringência não desagradá- cialmente o das qualidades sercial, boal e malvasia.
vel. Outras uvas brancas que ocasionalmente encontrámos são a terrantês, a listro e a
maroto, a primeira das quais produz um vinho de certo modo estimado quando velho. Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira(...), Londres, 1880
Toda a gente já ouviu falar no famoso Malvasia da Madeira, produzido da espécie de
uva malvasia - um vinho delicioso, que com a idade se torna um tanto alcoólico e tem todo
o carácter de um delicado licor. Durante alguns anos o melhor Malvasia produzido na ilha
120 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 121

Uvas da casta malvazia. Uvas da casta Sercial.


Campo Experimental Uvas da casta Verdelho. Uvas da casta Boal. Campo Experimental
das Preces. Campo Experimental das Preces. Campo Experimental das Preces. das Preces.
Colecção do autor. 2001 Colecção do autor. 2001 Colecção do autor. 2001 Colecção do autor. 2001

Malvasia Verdelho Boal Sercial.


Folhas glabras ou quase nas duas Folhas medianas, arredondadas, ondea- Folhas medianas, cotanilhosas na Folhas medianas, cotanilhosas na
faces, com 5 lóbulos muito profundos, em das, glabras ou providas de alguns pelos na página inferior, subglabras ou pubescentes página inferior, subglabras ou pubescentes
geral pontiagudos; dentes desiguais trian- na superior, com os 3 lóbulos do alto bem na superior, tom os 3 lóbulos do alto bem
pagina superior, cotanilhosas na inferior, mas
gulares, agudos ou sub-agudos; seios late- aparentes, as vezes acuminadas, os inferi- aparentes e os inferiores apenas esboça-
com o indumento pouco denso e irregular- ores de ordinário mal esboçados; dentes dos; lóbulo superior quase sempre maior e
rais quase sempre abertos e o peciolar mente distribuído, sendo as vezes quase
muito aberto; cachos grandes, cónicos, desiguais, em geral sub-obtusos, menos mais agudo ou acuminado que os laterais;
nulo em todo o limbo ou em parte dele; lóbu- vezes agudos; seio peciolar fechado ou dentes pouco profundos, desiguais; seios
densos ou frouxos, quase sempre muito
alados; bagos de 17/20 milímetros elípticos los muito pouco profundos ou apenas pouco aberto; seios laterais superiores laterais superiores e o peciolar quase sem-
ou eliptico-globosos, pouco rijos ou moles, esboçados com dentes obtusos ou agudos; muitas vezes pouco aparentes em virtude pre abertos; cachos pequenos ou medi-
verdoengo-amarelados, por fim dourados. seio peciolar de ordinário muito fechado; da sobreposição dos lóbulos; cachos anas, mm excedendo em geral 20 cen-
Cepa grossa, alta; sarmentos de um pardo cachos pequenos ou medianas (15/22 cm), grandes, muito alados, densos; bagos tímetros, densos quase sempre alados;
amarelado ou acastanhado, de entre nós quase sempre elípticos, de 15/22 milíme- bagos elípticos, de 15/20 milímetros,
geralmente alados e densos, cilíndricos ou
curtos ou medianos. E esta casta, conheci- tros, rijos, verdoengo-amarelados, doura- esverdinhado-amarelados, um pouco acer-
cilindrico-cónicos; bagos de 15/20 milímetros,
da também pelos nomes de malvasia de dos depois de maduros, muito dotes. Cepa bos, sub-rigidos. Cepa vigorosa; sarmentos
muito doces, rígidos, elípticos ou oblongos, mediana; sarmentos de um pardo claro, pardentoclaros, de entre nós curtos. O seu
cheiro, m. cândida e m. da ribeira, que pro- verdoengo-amarelados, geralmente doura-
duz o precioso vinho malvasia muito co- tom entre nós curtos. Produz boas uvas de vinho quando amadurecido (antes dos 10
dos na maturação, cepa Alta e muito vigo- mesa e um vinho meio dote muito estima- anos é áspero e cru), e seco e de exce-
nhecido pela sua doçura e perfume.
rosa; sarmentos pardentos ou pardento-aver- do. lente qualidade.
Eng.Teixeira de Sousa, 1938. melhados, de entre nós curtos. As suas uvas
Eng. Teixeira de Sousa, 1938 Eng. Teixeira de Sousa, 1938.
um tanto fortes são muito boas para comer e
.
produzem um vinho meio seco e de sabor
agradável que e tido como um dos mais finos
da Madeira.

Eng. Teixeira de Sousa, 1938.


122 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 123

O vingar do cacho.
Colecção do autor. 1999 Factores Meteorológicos E Botânicos
O clima nem sempre favoreceu a cultura da vinha no século XIX. Os factores
S
Secas
As condições climáticas são distintas na Madeira e Porto Santo. Enquanto na
primeira as crises de seca foram reduzidas e de menor influência, já na segunda per-
duraram ao longo do século XVIII e XIX, provocando graves crises de fome e o
abandono por parte da população da ilha. A mais antiga referência a uma seca pro-
longada na ilha da Madeira, no período invernal data de 1798, pois que em carta de
31 de Janeiro160 o Senado da Câmara da cidade em carta ao bispo implorava que se
fizessem preces públicas: Os tempos que tem e concorrem com geral falta de chuva,
nos promete notável esterilidade, nos frutos no presente ano, por impedirem aos
lavradores a semearem seus trigos, e a outros haver nascido as plantas do que a terra
tem entregue para a multiplicação, motivo porque ansiosos desejam deprecar a Deus
Nosso Senhor para do mesmo Deus alcançarem o remédio a tanto mal ameaçado.
E nós por bem de todos somos conformes a pedir a Vossa Exa. se digne deter-
minar três dias de preces nessa catedral do Santíssimo Sacramento, concorrendo a
elas as colegiadas e mais clero, para que o Altíssimo Deus nos conceda o remédio
necessário como temos recebido, quando nestas deprecações o imploramos.
Determinando-nos Vossas Senhorias com a brevidade possível, o dia que dão princí-
pio às ditas rogativas para nós concorrermos com juntamento todo o povo desta ilha.
Em 1850 aconteceu nova seca no período invernal e de novo se efez apelo ao
mesmo sentimento de impotência e submissão ao Divino. O Governador Civil, José
Silvestre Ribeiro, implorava, em carta de 6 de Fevereiro162, ao bispado que se
fizessem novas preces públicas: Desgraçadamente tem continuado a falta de chuva,
e é bem claro que, ou não poderão lançar-se as sementes à terra ou as que tiverem
sido e forem sendo lançadas não poderão frutificar, nem tão pouco os campos
poderão produzir pastos para os gados.
Nesta apurada situação, em que as providências humanas se apresentam inefi-
meteorológicos actuaram por vezes de forma negativa no cultivo da vinha, não só cazes, a alguém tem ocorrido apelar para a misericórdia divina e seguir os exemplos
porque ao homem faltavam os meios para os combater, mas também porque os de outros tempos, nos quais em idênticas circunstâncias costumavam os povos cor-
efeitos se faziam sentir no volume de produção e qualidade do produto. Daqui resul- rer aos templos, e dirigir a quem tudo manda fervorosas preces para que Deus se
ta a diferenciação dos vinhos de colheita. A designação vintage é a que celebra o compadecesse da desgraça dos homens163.
benefício favorável da meteorologia. Mais evidentes foram os efeitos negativos das 160.ANTT, CSF, maço 6, nº 32.
secas, tempestades e aluviões. 162.Uma Época Administrativa na Madeira, vol. III, pp. 300/2.
163.Idem, pp. 301/2.
124 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 125

Em carta ao Governador ao Administrador do concelho da Ponta do Sol164 jus- elevada quebra da produção que ficou por um quarto do ano anterior.
tifica-se as razões que estiveram na origem do pedido ao Bispo: Quando as calami- Em conclusão podemos afirmar que uma seca sendo prolongada torna-se lesiva
dades públicas excedem as faculdades humanas, só resta invocar a misericórdia divi- da cultura da vinha, provocando um decréscimo da produção, devido ao defi-
na, e n’este caso nos encontramos hoje, tendo que deplorar o temeroso flagelo da nhamento das parreiras. Mas quando extemporâneas e aparecem em determinadas
seca, que se continuar pode acarretar-nos horrores de fome, como V. S. tão judi- épocas do ano tornam-se propícias à manutenção da uva como úteis e benéficas à
ciosamente antevê - uma filosofia desdenhosa e altiva pergunta n’estas circunstâncias boa qualidade da colheita. Pelo menos assim se exprimia em 1851 Notícias
se a Natureza não obedece, por ventura, a leis gerais e imprescritíveis, - e argumen- Agrícolas do Agricultor Madeirense, quando aludia que o ano era seco nas fregue-
ta com esse facto para rejeitar a submissão ao omnipotente. Sim a Natureza obedece sias do Norte: Sítios há onde nunca se viu uva cerejada como este ano, ou seja madu-
a leis gerais: mas quem prescreveu esses leis? Foi Deus. Humilhemo-nos, pois ante ra, a novidade não é das grandes, mas também não das escassas, e os vinhos devem
os seus decretos e não nos envergonhemos de lhe pedir socorro nas nossas atribu- ser excelentes para a sua qualidade173.
lações. E ainda quando esta piedosa crença deixasse de assentar em sólidas con-
vicções do espírito, conviria, em todo o caso não arrancar aos infelizes a consolação
única, que nos dolorosos transes da vida pode ter o desgraçado165.
O Porto Santo, mais propício às secas prolongadas devido ao posicionamento
geográfico e à falta de arvoredos, ficou como a ilha seca, pobre e sujeita a prolon-

A
gadas estiagens. Em 1770 temos notícia da primeira seguindo-se outras em 1802, Aluviões e tempestades
1806, 1815, 1815, 1829, 1847, 1850, 1854, 1855, 1883. Se tivermos em conta que, a
cada momento segue-se outra crise mais prolongada de fome e abandono dos cam-
pos com a fuga para a Madeira poderemos prever o nível dos efeitos catastróficos. Em contraste com as estiagens prolongadas do Porto Santo temos na Madeira ao
Em 15 de Junho de 1770166 o Governador João António Correia de Sá, em ofício longo dos séculos XVIII e XIX a afluência espaçada de aluviões e tempestades. A
dirigido a Martinho de Mello e Castro, dava conta da situação deplorável dos povos configuração piramidal, com vertentes abruptas sobranceiras ao mar, fazia com que
da ilha do Porto Santo em resultado das prolongadas estiagens, da invasão das a acção continuada e torrencial das chuvas se tornasse catastrófica, porque arrastava
areias, esterilidade do solo, excesso populacional em relação aos recursos da região, os terrenos férteis dos socalcos e as poucas árvores, como as parreiras. De entre as
implorando por medidas eficazes. Em 27 de Outubro167 a Câmara em carta ao mais significativas destacamos: 18 de Novembro de 1724, 18 de Novembro de 1765,
Governador faz saber a situação clamando por auxílio. O Governador respondeu, 9 de Outubro de 1803, 26 de Outubro de 1815, 24 de Outubro de 1842, 19 e 20 de
seguindo as orientações régias, com um regulamento ao capitão Pedro Telles de Novembro de 1848, 5 e 6 de Janeiro de 1856174.
Menezes168 para executar e solicitando ao povo obediência169. Mesmo assim em 1783 De todas as aluviões referidas a mais catastrófica e lesiva da viticultura, foi sem
a situação pouco se havia alterado o que obrigou o Governador, D. Diogo Pereira dúvida a de 1803175, que atingiu toda a ilha e de modo especial o Funchal, Machico,
Forjaz Coutinho, a enviar o Sargento-mor Manuel da Câmara Bettencourt Noronha Santa Cruz, Campanário, Ribeira Brava e Calheta. A de 1848 inundou o concelho
e o Ajudante Diogo Luís Drumond em diligência170. de Santana arrastanto as águas as benfeitorias produtivas mais importantes.
Em 1829 ocorreu novo período de estiagem pela falta de chuvas por quatro anos Devemos, ainda, considerar as que assolaram a cidade do Funchal em 1765, 1803,
consecutivos, que provocou nova crise de fome a que acudiu o Governador José 1815, 1842, provocando danos nas lojas e contribuindo para a deterioração do vinho
Maria Monteiro171. Daqui resultou uma quebra na produção do vinho pois, das 1000 armazenado176. A tudo isto acresce a destruição de estufas, maioritariamente situadas
pipas que a ilha recolhia entre 1815/1816, ficou-se por apenas 600 em 1829172. O na margem das ribeiras.
mesmo sucedeu na Madeira em 1876 em que os efeitos da seca conduziram a uma Com as secas implorava-se a clemência e intercessão divina por meio de preces
públicas. Já com as chuvadas o madeirense poderia intervir no sentido de minorar
os efeitos, através de projectos de rearborização e desentulhamento das ribeiras177.
164.Idem, pp. 302/4.
165.Idem, pp. 303/4.
166.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 391. 173.Agricultor Madeirense, nº 7, p. 116.
167.Idem, nº 395. 174.Elucidário Madeirense, vol. I, pp. 51/5.
168.Idem, nº 396. 175.A. R. Azevedo, ibidem, pp. 723/725.
169.Idem, nº 397. A estas medidas juntaram-se outras por provisão régia de 13 de Outubro[Idem, nº 394.] 176.Vide, Defensor, nº 149, pp. 2/3, no que concerne ao aluvião de 1842; ARM, RGCMF, t. 14, fols. 126-130vº, quanto a alu-
170.Vide Documentos, ANTT, PJRFF, nº 960; AHU, Madeira e Porto Santo, nº 662/4, 666/8, 671, 3033. vião de 1815.
171.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 11273/11278. 177.Raimundo Quintal, Aluviões da Madeira. Séculos XIX e XX, Territorium, 6, 1999, pp.31-48. IDEM, O Parque Ecológico do
172.Idem, nº 11275. Funchal e a Prevenção das Cheias e Incêndios Florestais, in Territorium, 7, Coimbra, 2000, pp.39-54;
126 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 127

O
Oidium tucheri
O oídio, vulgarmente conhecido como mangra da vinha, surgiu em Inglaterra em
1845, alastrando depois à França e mais regiões vinícolas da Europa. Segundo
Hermann Schalack a doença começou, tal como na Alemanha, com o nascer da
flor178. A origem na Madeira deve estar relacionada com o facto de um francês ter
vendido em Fevereiro de 1851 castas colhidas em zonas infectadas na França. Por
este ou por outro qualquer motivo a doença fez sentir desde 1852 alastrando do
Funchal ao resto da área de cultura, atingindo, de modo especial, a zona de
Machico, Agua de Pena, Funchal, e arredores. Ficaram imunes à praga algumas
áreas, como as plantações de Roberto Donaldson no Curral do Mar (Porto da Cruz)
e as propriedades de Nicolau d’Ornelas no Caramanchão (Machico)179.
A 23 de Agosto o Governador Civil, José Silvestre Ribeiro, em proclamação aos
madeirenses, referia os efeitos da doença, implorando aos agricultores para que não
abandonassem os campos: Uma grande calamidade, talvez a mais temerosa de que
há notícia a história desta ilha pende hoje sobre vós
A fatal moléstia, que acometeu o rico fruto das nossas vinhas, ameaça reduzir-nos
à miséria.
Phylloxera Vastatrix, Gravura publicada Não o dissimularei. O mal é extremo, e os prejuízos que esse desastre vos acar-
em A vinha Portugueza, Julho de 1898. reta hão-de ser consideráveis, intensos, opressores... Madeirenses. O vosso gover-
nador civil também vos brada agora: coragem. Confiança em Deus.
Moradores das freguesias rurais. Não abandoneis a vossa terra. Não fujais desses
Factores patologicos e botanicos campos que vossos pais regaram com seu suor. Não deixeis o tecto das vossas
moradas, onde nasceram vossos filhos. Não volteis as costas à vossa risonha ilha.
O mundo vitícola não se prende apenas com os problemas relaciondados com o Lembrai-vos de que perdeis, talvez para sempre, o ar puro das vossas montanhas, o
ciclo de vida da vinha, como o replantio e a enxertia, necessários a uma melhor pro- risonho céu e o saudável clima da vossa pátria. Trazei à lembrança que muitas vezes
dução, pois também deverá juntar-se os factores patológicos e botânicos. A actuação tendes recolhido abundantes frutos, em recompensa das vossas fadigas, e que não
dos últimos foi mais catastrófica porque atacou as cepas destruindo-as e tornando convém ceder aos primeiros golpes da adversidade180.
impossível a permanência de qualquer casta em zona infestada, a não ser com o A 5 de Fevereiro de 1853181The Illustrated London News dava conta ao público
recurso ao sistema de replantio com cepas resistentes (americanas). O oídium e londrino da nova fatalidade que assolava a ilha. No breve historial da situação pre-
filoxera foram os principais agentes destrutivos da vinha na segunda metade do sécu-
lo XIX. Tardaram soluções e medidas preventivas. A recuperação das vides ata- 178. “Notícia da Madeira”, tradução do alemão por J. Félix Pereira, in A Lâmpada, nº 27, p. 3.
cadas, com o recurso a uma campanha de plantio com videiras americanas, só resul- 179.“Annaes do Municipio da Antiga Villa de Machico-Ilha da Madeira”, in Flor do Oceano (1865), nº 260, p. 2.
180.Proclamação avulsa, BNL, Leitura Geral, J. 437M.
tou em pleno alguns anos após o alastramento da doença. 181.Ruppert Crooft-Coock, ibidem, p. 9.
128 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 129

cavia-se o comerciante menos avisado para as consequências que se seguiriam nas Obras Públicas, Comércio e Indústria que, por sua vez, se encarregava de comu-
exportações. Em 4 de Junho, ia já avançando o estado de crescimento do cacho, o nicar à Madeira. Em 2 de Agosto de 1853 tivemos notícia do tratamento das cepas
Amigo do Povo182 referia o alastramento da moléstia a toda a ilha, fazendo apelo ao com cal e sangria. Em 17 de Agosto, a partir dos ensaios de D. Eramos de Janes,
Governador Civil para que fossem tomadas medidas: Convoque-se a Sociedade avançou-se com a aspersão do cacho com sulfato de ferro dissolvido em água191. E,
Agrícola, unam-se a ela todos os homens inteligentes e amigos da pátria, delibere-se finalmente, em 5 de Agosto de 1854192 divulgou-se a solução descoberta por D. José
aí o que convém reclamar a bem da agricultura.... Pois como refere Já não resta dúvi- Sacristia, natural de Barcelona: Toma-se pouca de lã, cânhamo, estopa ou pelo, e
da a pessoa alguma que a mangra é geral em todas as vilas, posto isto, é mister que far-se-á na extremidade superior do corpo das cepas, atada com um fio, banhando-
desde já se oficie ao governo reclamando as providências adequadas parecerem para a com qualquer azeite, substância gordurosa, ou mesmo alcatrão. Far-se-á isto
nos socorrer em quanto é tempo. A. G. Gomes, em comunicado no Clamor durante o mês de Junho e no princípio de Agosto, cortar-se-ão as vides, desde a
Público183, alude à moléstia, a quem acusa da origem da desgraça que se abateu extremidade ate ao ponto em que pendemos o cacho.
sobre a ilha: No pio sinistro de 3 anos, um aluvião de mangra tem encomendado Tendo em conta que o oídio é uma doença que ataca a flor da vinha, fácil será
nossas vinhas à desgraça, roubou-nos 3 novidade, no valor aproximado de 4 mil con- de deduzir o desconhecimento que então havia sobre a origem da moléstia, pelo
tos de reis. Perdidas estas novidades, a fome tem, crescido de dia para dia em toda menos por parte dos autores dos processos usados em Espanha, e de quem os
a extensão desta ilha. divulgava em Portugal, em oposição aos conselhos do Conde de Canavial e do
A gravidade da crise de fome e a situação das vinhas, principal origem do sus- Barão de Ornelas, que apresentavam meios de reconhecida probidade científica. O
tento da maioria dos madeirenses, levaram a que as autoridades fossem obrigadas a primeiro de regresso à Madeira tomou contacto com a situação lamentando-se de a
intervir. Em 1853 foi criada em Lisboa uma comissão para fazer o estudo da situ- sua voz não ter sido ouvida: Infelizmente a minha voz não foi ouvida. Não foram
ação, merecendo o desacordo de O Amigo do Povo que considerava colidirem as seguidos os meus conselhos. Cruzaram-se os braços; o flagelo caminhou sem encon-
suas competências com a Sociedade Agrícola184. Entretanto, a 15 de Julho185 reuniu- trar obstáculos, deixando por toda a parte ruína e destruição; e, quando, mais tarde,
se a Sociedade Agrícola, para estudar a conjuntura decorrente da mangra e o os lavradores, acordando do letargo, quiseram acudir às suas vinhas, não encon-
nomear de uma comissão para estudo da crise186. Mas, a Academia de Ciências de traram já senão cadáveres.
Lisboa enviou à ilha João Andrade Corvo com intuito de estudar a moléstia da Veio então a miséria com todos os seus horrores. Veio a emigração e a Madeira,
vinha. Esta atitude foi acolhido com grande regozijo pelos madeirenses187. Da deslo- vestida de andrajos, esmolando de cidade em cidade, de paíz em paíz. Que
cação resultou um relatório sobre o estado das vinhas do arquipélago188. dolorosas recordações. Mas também que profícua lição193.
D. João da Câmara Leme, à altura em Paris, de imediato enviou à ilha os As perdas foram elevadíssimas, colocando a ilha num completo estado de pros-
esclarecimentos necessários sobre a doença e o modo de a atacar. Em texto publi- tração. Segundo dados oficiais as perdas cifraram-se em mais de um milhão de réis.
cado no Estudo de 30 de Novembro de 1852, manifestou-se contrário à emigração,
aconselhando que tratassem de conservar as suas vinhas pelos meios que a ciência VALOR DAS PERDAS
e a experiência mostrassem ser os melhores, e que tivessem resignação, confiança LOCALIDADE VALOR EM RÉIS
no Senhor e esperança no futuro189. Ao mesmo tempo apresentou os meios usados Funchal 638.120$000
Santa Cruz 50.999$000
em França para combater a mangra por meio de pó de enxofre. Ainda, em França, Machico 31.200$000
o Barão de Ornelas deu conta de um novo processo de tratamento com sulphur Câmara de Lobos 150.000$000
que só começou a ser utilizado a partir de 1861190. Ponta do Sol 25.000$000
Calheta 20.000$000
Outros processos de combate foram descobertos e ensaiados em Espanha e o S. Vicente 120.000$000
cônsul português deles deu notícia à repartição da Agricultura do Ministério de Santana 103.670$000
Total 1:137.990$000
182.Nº 134, p. 1, vide igualmente nº 135, pp. 1/2. Fonte: Alberto Vieira, História do vinho da Madeira.
183.Nº 9, p. 4, vide nº 10, p. 1 e 4, onde se refere a acção então desencadeada, não se poupando críticas severas ao Governo
Civil.
Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.295
184.Nº. 135, pp. 1/2.
185.O Amigo do Povo, nº 135, p. 4.
186.Idem, nº 136, p. 1.
187.Idem, nº 142, p. 1.
188.Apresentado à Academia de Ciências em sessão de 3 de Fevereiro de 1854. 191.O Amigo do Povo, nº 177.
189.Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha, Funchal, 1872, p. 2. 192.Idem, p. 2.
190.Ruppert Crooft-Coock, ibidem, p. 92. 193.Idem, p. 2.
130 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 131

Phylloxera Vastatrix tidade vem a ser muito grande em proporção dos embarques, posto que menos que
menos que a do ano passado201. Em 5 de Outubro foi a vez de Leal Irmãos & Ca.,
a dirigir-se ao mesmo jornal para desfazer as notícias do Sr. Grabham: E verdade
Vinte anos depois da mangra da vinha, surgiu outra doença, não menos catas- que a filoxera já apareceu na Madeira, mas o facto não é tão assustador como o seu
trófica, que deu o golpe mortal à viticultura madeirense: A moléstia da vinha que correspondente parece querer profetizar, a produção dos nossos vinhos tem aumen-
me refiro foi descoberta na América em 1854, em Inglaterra em 1863, e em França tado nos últimos anos.202
também em 1863, mas só bem determinada neste paíz em 1866. Em Portugal foi Idêntica opinião tinha um articulista de A Lâmpada em 26 de Setembro de
notada de 1868 para 1869194. Segundo F. Almeida Brito chegou em 1865 em bace- 1873203 ao referir-se que a moléstia ainda não havia alastrado a toda a área vitícola,
los de Izabella, ou vinha americana, castas resistentes ao oídio195. Os primeiros indí- apontando-se a necessidade de proteger as que ainda estavam imunes como era o
cios da doença contagiosa foram detectados em 1872 por D. João da Câmara Leme, caso do Porto Santo. Segundo Carlos Azevedo Menezes a acção da filoxera foi tar-
em amostras de S. Gonçalo e S. Roque, cedidas por um lavrador196. A partir de dia de modo que em 1908 ainda se fazia sentir: A philloxera, que apareceu pela
então o cientista dedicou-se ao estudo da fêmea aptera e dos pós escuros na senda primeira vez na Madeira em 1872, só há poucos anos se manifestou igualmente no
de encontrar o processo adequado de tratamento. Porto Santo, mas apesar de ser recente a sua introdução, consideráveis são já os
Em 15 de Outubro de 1876 o inglês Michael Grabham publicou no Times197 uma estragos que tem causado. As cepas mais atacadas, têm sido as dos terrenos
carta sobre o estado da cultura da vinha na ilha dando conta dos efeitos devastadores argilosos, mas n’alguns pontos, embora poucos, onde o solo é arenoso, também as
da filoxera: Os cultivadores que plantaram vinhas depois da primeira moléstia que os vinhas têm sido invadidas por esse insecto. Segundo nos informam, as cepas do
destruiu, gosaram apenas de pouca prosperidade, porque a phylloxera vastatrix, litoral desapareceram quasi todas, só existindo ali duas faixas cultivadas de vinha,
insecto que suga as raízes, espalha geral e completa destruição. Nos melhores pontos uma do Espírito Santo e outra na Ponta.
os lavradores estão já queimando em montões os corredores das suas ainda há pouco (...) A não se cuidar a sério na introdução de cepas resistentes e adequadas aos
belas plantações, e nos lugares menos importantes a devastação está quasi a par das terrenos, grandes devastações poderá sofrer ainda a viticultura porto-santense, pois
outras. Nos arredores do Funchal não há uma só parreira em condições de vigor e é a experiência tem mostrado que as areias nem sempre constituem um dique à
claro que já se não deve esperar colheita considerável de vinho bom198. invasão da terrível phylloxera204.
A declaração, em tom alarmista, provocou a reacção dos produtores e comer- No período sucedâneo de 1877/1880 o panorama dos vinhedos da Madeira
ciantes locais (nacionais e estrangeiros). O articulista de O Popular, ao publicar a poderia ser considerado dramático. Os efeitos da doença eram visíveis, principal-
tradução da carta, tece algumas considerações sobre as intenções do Sr. Grabham ao mente na área circunvizinha do Funchal, como testemunha Henry Vizetelly em
publicar a missiva alarmista, notando os erros da visão, pois a área alastrada, resumia- 1877. Da visita que fez dá conta da situação. Sobre as vinhas das terras de Thomas
se apenas a Câmara de Lobos, Estreito e arredores do Funchal (S. Martinho, Santo Slapp Leacock em S. João refere: Não há muitos anos, o vinhedo do Sr. Leacock
António, Monte, S. Gonçalo), enquanto a maior parte dos vinhedos da ilha ainda se foi atacado pela filoxera e muitas vinhas foram seriamente afectadas. No entanto, o
acham cheios de vigor e de vida e em estado de produzirem de futuro, como pro- proprietário, através do seu atento cuidado e de tratamento sensato, incluindo a apli-
duziam no corrente ano (1876), grandes quantidades de excelente vinho199. Refere-se, cação de uma espécie de verniz nas raízes principais da vinha, o qual neste caso
ainda, que a filoxera não atingiu a Quinta Grande, Campanário, Fajã dos Padres, Paul parece ter sido o necessário, conseguiu recuperar a maior parte das vinhas doentes,
do Mar, Ponta do Pargo, ou seja as melhores áreas de vinhos da ilha. atingindo uma condição comparativamente saudável. O cultivador de vinha na
Cossart Gordon & Ca.200 em carta ao periódico londrino desmente o tom catas- Madeira tem não só pavor da filoxera, como também que proteger as suas vinhas
trófico da missiva do compatrício: não há dúvida que a philloxera tem feito algum contra o oídio. Isto consegue-se enxofrando-as, mas esta prática tem a desvantagem
dano às vinhas este ano (1875), mas a nossa casa, segundo nos escreveu da ilha em de se tornar difícil retirar todo o enxofre do fruto. O Sr. Leacock faz isto com a
15 de Agosto do corrente (Setembro último), informa-nos que a qualidade da co- ajuda de um fole e escovas que as mulheres aprenderam a usar com paciência e jeito
lheita deste ano é boa, tanto quanto se pode julgar pelo sacarímetro, e que a quan- na estação do ano em que as cascas das uvas começam a brilhar205.

194.D. João da Câmara Leme, Carta sobre a Moléstia da Vinha da Madeira, p. 2.


195.F. A. Silva, Elucidário Madeirense, vol. I, p. 31. 201.Idem, p. 1
196.Uma Crise Agrícola..., pp. 122/4. 202.Diário de Notícias, nº 16, pp. 2/3.
197.Tradução e publicação em O Popular, nº 73, p. 2.198. Idem, p. 2. 203.Nº 39. p.1.
199.Idem, p.3. 204.“A Navegação e Clima do Porto Santo”, in Portugal Agrícola, 1908, nº 6, p. 81.
200.Publicado no Diário de Notícias, Funchal, nº 5, pp. 1/2. 205.Idem, ibidem, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.381
132 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 133

e comerciantes208. Segundo afirmava todos os processos e meios até então usados


para combater a doença da vinha209 haviam sido quasi todos ineficazes, insuficientes
ou inaplicáveis210 tendo em conta que o progressivo desenvolvimento da nova molés-
tia da vinha não devida a um estado particular das videiras, mas sim ao contágio e
propagação da phylloxera..211. Só devemos combater a nova moléstia da vinha, como
hoje combatemos a sarna no homem e os animais; isto é prevenindo quanto pos-
sível o contágio, e destruindo o acarus nos indivíduos em que ela se manifesta, não
simplesmente com remédios internos e gerais, como faziam os antigos, mas sim, e
sobretudo, por meio de agentes insectidos aplicados localmente.
Para impedir o contágio é indispensável procurar destruir a phylloxera nas vinhas
já atacadas, ainda que não sejam de todas mortas, ainda quando seja necessário para
isso sacrificá-las.
(...) a conservação das vinhas sans exige que se sacrifique as vinhas atacadas de
moléstia e que já estão votadas a uma morte certa; pois que só enquanto o vinho tem
vida, só enquanto tem raízes suculentas que possam ministrar alimentos aos phyl-
loxeras, é que se acham junto delas e podem ser aí destruídos212.
Por isso propunha as seguintes medidas para atacar a doença das cepas. 1º
nomear uma comissão, com a sua sede na cidade do Funchal, encarregada de estu-
José Silvestre Ribeiro dar a nova moléstia das vinhas na Madeira, fazer ensaios, e propor os meios conve-
nientes de a debelar; 2º criar em cada concelhos uma comissão filial presidida pelo
respectivo administrador e da qual devem fazer parte os párocos, o presidente da
câmara municipal, e alguns dos proprietários mais instruídos, - comissões que se cor-
responderiam com a comissão central dando conhecimento do desenvolvimento da
moléstia, dos sintomas observados, dos ensaios feitos, e dos resultados obtidos; 3º
Conde de Canavial
fornecer, já pela caixa de socorros, sendo possível, já por subscrições, ou por qual-
quer outro modo que V. Exa. (dirige-se ao governador civil) entender conveniente,
os recursos necessários para que essas comissões possam pôr em prática os meios
A situação trazia à mente do insulano os tempos difíceis passados com a fome de que entenderem dever-se empregar para preservar as nossas vinhas de tão terrível
1847 e a crise de 1852. Estavam criadas as condições para reacender o debate na calamidade”213.
imprensa. Primeiro foi a procura desesperada das curas possíveis, a que se seguiu a O Governador Civil deu bom acolhimento à medida proposta, como se pode ver
tentativa de implantação de novas culturas como a cana-de-açúcar, o tabaco e a em carta de 28 de Agosto de 1872214 em que lhe solicitava a indicação das pessoas
cochonilha206. Aqui evidenciaram-se algumas personalidades locais, conhecidos pela adequadas para fazerem parte da comissão. Em 30 de Agosto215 apontaram-se as
actividade política e dom da oratória, como D. João da Câmara Leme. O Conde de seguintes: Juvenal Honório de Ornellas, José Leão Drumond Cavaleiro, Domingos
Canavial, cientista madeirense, havia adquirido em França a experiência e conheci- Alberto Cunha, Maurício de Andrade, João Maria Moniz, João Araújo Cunha,
mentos científicos necessários para se dedicar à investigação enológica e à Medicina. Francisco António de Freitas Abreu, Salvador Augusto Gramito d’Oliveira. Por
A ele se deve um dos raros estudos sobre a filoxera vastatrix207, os processos de trata-
mento das videiras infestadas, e as soluções para a crise vitícola com a definição de
208.Uma Crise Agrícola..., pp. 143/5.
uma politica de desenvolvimento local e a criação de uma associação de viticultores 209.Vide Uma Crise Agrícola..., pp. 118/31, as transcrições e referências aos processos usados ou experimentados localmente
e em França, e mais referências ao mesmo em Uma Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha, pp. 12/5.
210.Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha, p. 9.
211.Idem, ibidem, p. 11.
206.Vide estudos de D. João da Câmara Leme, Uma Crise Agrícola...; e jornais da época, especialmente O Direito, A Lâmpada, 212.Idem, p. 11.213. Idem p. 15.
Diário de Notícias, o Popular. 214.Idem, pp. 17/8.
207.Carta sobre a Nova Moléstia da Vinha da Madeira, Funchal, 1872. 215.Idem, p. 19.216. Idem, pp. 20/21.
134 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 135

alvará régio de 11 de Setembro foi criada a comissão216. Mas pouco ou nada sabemos causa pública224.
da actividade desenvolvida, ficando condenada ao malogro por força da luta políti- Em 30 de Julho de 1879 D. João da Câmara Leme foi finalmente nomeado
ca e partidária217. Governador Civil, com a possibilidade de pôr em prática as soluções que há muito
A 8 de Outubro de 1876 o Governador Civil, Francisco Albuquerque Mesquita tempo vinha pugnando. Mas se assim o pensava, cedo chegaria à conclusão que se
e Castro convocou uma reunião para estudo da crise agrícola, protestando D. João havia enganado, pois que instalado no cargo teve de fazer frente aos adversários
da Câmara Leme, quer pelo aspecto formal da reunião pública218, quer pelas decla- políticos que dominavam parte dos serviços administrativos e se negaram a põr em
rações aí proferidas219. E, mais uma vez, no discurso apresentou a solução para a prática as medidas. O primeiro facto surgiu em 11 de Agosto225, quando solicitou às
crise220, com forte impacto nos jornais, nomeadamente nos afectos ao Partido câmaras e Administradores dos concelhos do distrito um parecer sobre o estado da
Progressista de que o Conde era o líder local. Tal foi o caso de O Direito que refe- agricultura de cada zona. Todos se escusaram226, invocando razões várias, o que o
ria, a propósito: Tomou então a palavra o Sr. João da Câmara Leme, e num bri- não impediu de fazer um breve relatório em 6 de Dezembro de 1879227, dando
lhante discurso, fez sentir o estado agrícola do paíz, a grave crise que este atravessa- conta da situação aflitiva da ilha e da falta das necessárias medidas por parte de
va, e, em linguagem enérgica, apontou o mal e aconselhou o remédio eficaz para o Lisboa, ou a autorização para serem postas em prática as por si apresentadas, pois
debelar; demonstrou a evidência, a utilidade, a riqueza agrícola da cultura da como refere a Madeira, não só não poderá entender-se, mas há-de forçosamente
beterraba; e leva igualmente à convicção de todos os que o escutavão o grande esmorecer, se não tiver eficaz protecção228.
alcance do meio de transporte ou viação acelerada por um cabo, como S. Exa. pro- Mais uma vez aguardou-se por soluções de Lisboa que tardavam e só chegaram
punha. depois da filoxera ter alastrado no continente. A partir de então a situação da ilha
Era o homem da ciência que falava, o trabalhador incansável que expunha aos tornou-se clara para as autoridades nacionais e surgiram medidas para atacar a crise
seus concidadãos o fructo das suas vigílias em favor da terra natal, que tanto honra. vitícola. Houve que aguardar pelo ano de 1882 e pela acção da recém-criada
O discurso do Sr. Câmara foi extenso mas suculento, construtivo, à altura de ser Comissão Anti-filoxérica Distrital (5 de Agosto)229 para que fosse posta em prática
proferido numa academia, como o foi ante homens ilustrados”221. uma política de auxílio aos viticultores no sentido de minorar os feitos da crise. A
O Conde de Canavial, confrontado com a convocatória da reunião da Sociedade nova comissão composta por ilustres personalidades locais - Henrique de Lima e
Agrícola para 27 de Novembro sentiu-se magoado por ver as propostas votadas ao Canto, João de Calles Caldeira, Manuel José Vieira, John Leacock, Daniel Simões
esquecimento pelas autoridades civis, decidindo não comparecer, mas presenciando Soares - tinha como objectivo combater a filoxera por meio do uso do sulfureto de
de fora com olhar crítico o que aí se passou222. Discordou da argúcia das palavras do carbono, montando para o efeito um posto de tratamento. Ao mesmo tempo incen-
Governador Civil e da medida reabilitadora da decadente Sociedade Agrícola: E tivava os viticultores ao replantio da vinha com castas resistentes.
dizem que a Sociedade Agrícola ressuscitou... não ressuscitou, não. Arracaram-na Em sessão de 20 de Dezembro de 1882230 foi deliberado solicitar à comissão cen-
morta do túmulo; deram-na morta em espectáculo público; e morta a encerraram, tral que o distrito do Funchal, excepto o Porto Santo231, fosse considerado zona inva-
de novo no túmulo, repetindo em coro - requiescet in pace223. Proveita ainda para dida pela filoxera. Na reunião tratou-se da criação de um viveiro de cepas ameri-
desfazer qualquer dúvida que as tomadas de posição pudessem suscitar: não faço canas para as campanhas de replantio. O processo arrastou-se por algum tempo e o
oposição a este ou aquele ministério, a este ou aquele representante do governo: viveiro por ser instalado nas propriedades de Maurício Carlos Castelo-Branco232 e
revolto-me contra todos os que se opuseram à realização do que for útil, justo, depois foi transferido para outros terrenos no Ribeirinho e Torreão233. O presidente
necessário. da comissão, João Salles Caldeira, havia ensaiado com êxito as cepas americanas nas
Quem quiser unir-se em torno desta bandeira, alistar-se nesta cruzada, combater
nesta fileiras, achará em mim um fiel companheiro. Venham todos os que prezam
deveras o bem do seu paíz; formemos um grupo forte; não para servir um conilho 224.Idem, p. 142.
225.D. João da Câmara Leme, Apontamentos para o Estudo da Crise Agrícola no Distrito do Funchal, pp. 8/10.
político qualquer mas para empreender tudo quanto for conveniente e proveitoso à 226.Idem, ibidem, pp. 11/3; só houve uma resposta satírica apresentada sob o pseudónimo João Craca, publicada em Lisboa
em 1879.
227.Idem, ibidem, pp. 15/110.
217.Uma Crise Agrícola..., p. 39. 228.Idem, ibidem, p. 31.
218.Idem, ibidem, pp. 40/3. 229.ARM, GC, nº 85, fols. 1vº-2vº.As actas das reuniões foram publicadas por Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira.
219.Idem, pp. 44/6, 61/72. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 127-134
220.Idem, pp. 46/56. 230.Idem, fols. 5/6.
221.Idem, p. 73, igualmente Joaquim Ricardo de Trindade Vasconcelos em 15 de Outubro, no Diário de Notícias refere-se à 231.Quanto à ilha do Porto Santo, porém, que não deve ela ser compreendida nesta lista porque pela natureza do seu terreno
acção de D. João da Câmara Leme, cit. idem, ibidem, pp. 74/9. (arreias finas) e isolamento da ilha se espera que ela se conserve indemne... [Idem, fols. 1vº-2vº.]
222.Idem, pp. 114/24. 232.Idem, fol. 2.
223.Idem, p. 138. 233.Idem, fols. 11/2.
136 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 137

propriedades da Madalena (Santo António)234, como incentivo para a acção da canas e cana doce de castas resistentes às respectivas doenças, bem como estabele-
comissão que de imediato procedeu plantação de bacelos e sementes americanas. cer e organizar a estação química agrícola desta 100 região agronómica e o campo
Em 27 de Março de 1883 a comissão mandou avisar os jornais locais que comuni- experimental adjacente e demonstrativo, junto da mesma estacão e em outras pon-
cassem ao público de que distribuíam gratuitamente grainhas de vinhas americanas tas da ilha242. O certo é que toda a acção, incluso da comissão apoiante, composta
resistentes235. Daqui resultou a distribuição de 6.000 pés de videira de diversas castas pelo Visconde do Ribeiro Real, Domingos Alberto da Cunha, João Maria Curado
americanas resistentes. Ao mesmo tempo recomendou-se ao Juiz da Alfândega que de Vasconcelos e José Eduardo Gomes, se orientou para a procura de uma cultura
permitisse a entrada dos bacelos americanos sem cobrança de qualquer direito236. Em alternativa com valor mercantil. Daqui resultaram novas experiências com a cana-de-
1885 nos 2000ha de vinha destruídos temos 40ha com videiras americanas. açúcar, chá e tabaco.
A Junta tentou, ainda, recorrer aos métodos de tratamento disponíveis no senti- As actas das sessões realizadas são elucidativas e abundam em informações sobre
do de conservar as poucas castas não atacadas ou de minorar os efeitos da doença a cana doce vinda de Demerara243, Jamaica244, Taiti, Maurícias, Brasil245 e Canárias246,
nas já atacadas. Assim, estabeleceu-se um posto de tratamento, vindo em 1882 dois que se distribuíram pelo Funchal, Porto da Cruz, Ponta Delgada, Ponta do Sol247.
inspectores do reino com alguns barris de sulfureto e as instruções para proceder ao Para o vinho as referências são mínimas. Apenas se dá conta da distribuição das cas-
trabalho237. O prático, foi enviado, em Março, às freguesias de S. Vicente e tas pagas248. Em 16 de Março de 1889 os 15 requisitantes receberam cada um 687
Calheta238. Em 1883239 os trabalhos de sulfuração dos terrenos afectados estavam a bacelos. Manuel José Vieira adquiriu 135 bacelos de três castas e a Tomás Rebelo
cargo de António Brito Guedes. No tratamento da vinha o proprietário pagava 1/3 bacelos de quatro castas249. A situação evidencia uma tendência para a concentração
do custo do tratamento, ficando o restante a cargo da comissão. Mesmo assim a área da cultura em determinados proprietários com capacidade para enfrentar a despesa
abrangida pelo tratamento do sulfureto não ultrapassava os 4ha, quando tínhamos que o acto acarretava. Além disso, refere-se a necessidade de trato das vinhas com o
2000ha de vinha afectada. uso do adubo betuminoso antifiloxérico250. A comissão, ao fim de dois anos de activi-
Desde 10 de Junho de 1883 funcionou uma comissão de inspecção às vinhas dade, foi extinta por ofício de 20 de Dezembro e portaria de 30 de Dezembro de
composta por F. Almeida Brito (Inspector Geral), Salvador Gamito de Oliveira 1889 realizando-se a última sessão em 13 de Janeiro de 1890251.
(Intendente pecuário), João Salles Caldeira (Presidente da comissão antifiloxérica Não terminou aqui a acção das doenças da vinha. O míldio atacou os vinhedos nos
do distrito), para saber das áreas afectadas, aconselhando o processo de tratamento anos de 1894 e 1912. A cultura da vinha passou a merecer por parte do viticultor exces-
e adquirir os necessários elementos para elaborar o mapa filoxérico da Madeira240. sivos cuidados. O uso de pesticidas e a enxertia são hoje os meios de tratamento con-
Na conformidade do decreto de 2 de Novembro de 1880 e do ofício da tra as doenças252. As doenças ainda continuam a fazer sentir os efeitos sobre a cultura,
Comissão Central de 16 de Julho de 1883, surgiu a 7 de Setembro de 1883 a onerando os custos de produção. De acordo com José Tavares253 em 1938 os custos
Comissão de Vigilância à ilha do Porto Santo composta por João Fausto de Santana médios do cultivo da vinha no Porto Santo foram onerados em mais de 28%.
e Vasconcelos, Pedro Júlio de Vasconcellos, José Alexandre Lomelino de A política de reconversão e expansão da vinha contou, a partir de 1972, com a
Vasconcellos, Júlio César de Vasconcellos, Tomás Maria Tello, Manuel António intervenção do Governo através da Junta Geral, criando-se campos experimentais na
Ruas e Luís Faustino de Vasconcellos, com função de vigiar as vinhas de forma a evi- Ribeira Brava, Ponta do Pargo, Câmara de Lobos, Estreito da Calheta. Com o
tar o ataque da filoxera. processo autonómico o Governo Regional reforçou a aposta na viticultura com
A partir de 5 de Abril de 1888, com a criação da Comissão de Auxilio à Lavoura novos campos em S. Vicente, Ponta Delgada, Seixal e S. Jorge. A par disso, entre
da Madeira241, todas as tarefas de combate à filoxera transitaram para a sua alçada. 1973 e 1983, foram distribuídos 1.168.519 bacelos254.
Manuel do Carmo Rodrigues Morais havia sido enviado à ilha, segundo portaria de
4 de Fevereiro de 1888, em comissão com o fim de estudar o estado da cultura da
242.Idem, p. 1.
vinha e cana doce na ilha, distribuir gratuitamente pelos agricultores videiras ameri- 243.Idem, pp. 1/7, 20/4.
244.Idem, p. 30.
245.Idem, pp. 33, 37.
246.Idem, p. 21.
247.Idem, pp. 2, 8/15, 23/30, 63/74; vide igualmente livro nº 150.
234.Idem, fols. 2vº-3. 248.Idem, pp. 49/51, 55/60.
235.Idem, fols. 14vº-5. 249.Idem, pp. 60/1.
236.Idem, fols. 16vº-17vº. 250.Idem, pp. 29/34.
237.Idem, fols. 3vº/5, 7vº/9vº. 251.Idem, pp. 75/78.
238.Idem, fols. 11/12, 17. 252.Eduardo Pereira [Ilhas de Zargo, vol. II, pp. 575-576] refere ainda outras pragas que atacam a vinha: gota, lapa ou sarnica,
239.Idem, fol. 8. lapa preta, alforra, e a lagarta.
240.Idem, fol. 15. 253.Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, Funchal, 1953, p.44
241.ARM, GC, nº 149, pp. 1/7. 254.Noel Cossart, ob.cit., p.82
138 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 139

Armazéns da firma Blandy


Brothers & Co.
Gravura A. Vizetelly, 1880
A Vinificação

O ciclo vitícola distribui-se entre o plantar do bacelo, o trato das videiras e as tare-
fas rotineiras da vinha distribuídas ao longo do ano, em muitos casos executadas de
acordo com determinados princípios supersticiosos que a tradição não deixou
D
Da vindima ao lagar
A vindima, pelo movimento desusado de pessoas e animação é considerada o
momento mais importante da faina rural ligada à vinha. Ao longo do ano sucedem-
se os diversos cuidados com a vinha, quase sempre a cargo dos homens, atingindo-
se em Setembro o clímax com a vindima, que conta com a participação de todos. É
aqui que o agricultor vê o esforço compensado pela contemplação dos maduros e
luzidios cachos ou amenizado com os cantares característicos da época. As trovas
populares alusivas ao momento davam a necessária animação e alento.
Setembro é, por excelência, o mês das vindimas. Ao Agosto, de férias e festas,
sucede-se o mês do trabalho em que a viticultura é rainha. As terras de vinha são o
centro de todas as atenções. Do Estreito de Câmara de Lobos a S. Vicente, tudo se
movimentava em torno das latadas, dos poucos lagares e inúmeros postos recep-
tores de uvas. No passado o movimento era inusitado, ocupando quase todas as
gentes. Era um verdadeiro assalto às vinhas e lagares. Os senhores desciam do burgo
ao campo a observar e fiscalizar os pâmpanos de uvas e o pastoso mosto. Os demais
iam à procura de trabalho, pois a vindima aumentava a oferta de trabalho e, por isso,
em meados do século dezanove com o espectro da fome e da emigração, as autori-
dades rejubilavam por se fecharem, ainda que temporariamente, as portas da emi-
gração. A cidade ficava deserta. Todos estavam nas vindimas: uns a reivindicar o
pecúlio, outros no árduo labor da apanha, transporte, pisa da uva e posterior con-
dução do mosto aos tonéis, para descanso de alguns meses, até à viagem ao Funchal.
O processo era moroso e implicava a presença de mão-de-obra para que as tarefas
fossem executadas atempadamente.
Hoje tudo mudou. As terras não são de colonia ou de rendeiros. As tarefas da
vindima perderam em bucolismo mas ganharam em alívio do esforço humano. O
dorso do Homem deu lugar à caixa da furgoneta, o lagar passou a peça de museu,
esquecer, transmitindo-os de geração em geração sob o olhar expectante das autori- sendo o serviço executado pela hodierna maquinaria. O borracheiro desapareceu
dades interessadas em inovar. Aqui apenas destacaremos alguns aspectos da vinifi- da paisagem, dando lugar às cubas de metal, transportadas encosta acima pelo
cação madeirense iniciada com a vindima, que tem expressão em diversas tarefas automóvel. A força do progresso joga a favor do madeirense e contra o espectador
como a pisa, repisa, fermentação e trato do vinho. (turista de dentro e de fora) que se compraz no sofrimento dos outros. Não foi o
140 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 141

Máquina de moer uvas.


Museu de Photografia Lagar. Museu de
Vicentes. Photografia Vicentes.

instinto destruidor que fez apagar a bucólica imagem mas a urgência de libertação A festa das vindimas é uma tradição antiga estando documentada a realização
do madeirense da canga acumulada no dorso, há mais de quinhentos anos. Na actu- no Funchal em 1938, 1945 e 1946256. Para além do Funchal refere-se ainda em S.
alidade resta apenas a obra de engenharia que são os poios, agora ligados por estra- Vicente uma ocasional comemoração em 1981257. Hoje é ainda possível o reen-
da, e o canto de Vieira Natividade em a Madeira. Epopeia Rural. Ninguém melhor contro com o passado através das memórias descritivas e romances como sucede
que ele entendeu a luta hercúlea do íncola contra a natureza. Ninguém como ele com Horácio Bento de Gouveia, o retratista das emoções rurais do norte da ilha,
sentiu a dor e sofrimento do madeirense no acto de transformação do rochedo em nas gravuras inglesas ou fotografias, de que fizemos uso numa exposição que teve
horta ajardinada. A imagem, que pertence ao passado, perpassa a escrita poética. lugar no Teatro Municipal em Outubro de 1982. Os museus do Funchal sobre a
Pretender o regresso ao passado é atraiçoar o progresso e perpetuar o secular temática são os fiéis depositários.
sofrimento. O Eco-museu, realidade que não entrou no quotidiano, em que o visi- A época da vindima, que se estende de Agosto a Setembro ou Outubro, é o
tante é participante activo é a resposta e o meio de harmonização do passado com momento de maior azáfama rural e origem de migrações internas. Em terras onde
o presente. A emoção ao vivo não deve ficar-se pela hipócrita contemplação mas imperava o contrato de colonia, a apanha da uva subordinava-se à autorização do
alargar-se à observação participante. E, talvez, consigamos entender o grito de dor e senhorio, a disponibilidade de lagar e ao chamar gente para o dia aprazado: Os
os impulsos que fizeram progredir e inovar as tarefas que fazem parte do dia à dia colonos ao passo que as uvas amaduravam, dirigiam-se ao senhorio ou feitor a pedir
das vindimas. Assim, fica demonstrado que o progresso não é o virar de costas ao licença para fizeram a colheita, a apalavrarem o dia de empréstimo dos lagares. Os
passado, mas a expressão do presente e a projecção para o futuro. quais, porque em número restrito, não bastam nunca para os pedidos. E assim,ainda
Em muitos lugares o ciclo de trabalho revestia-se de um cerimonial inaudível que um lagar está a empesar um pé de uvas, já para dentro dele se despejam cestos sobre
atraía centenas de forasteiros da cidade. Sucedia assim em Câmara de Lobos nas quin- cestos, propriedade de outrem.
tas do Visconde de Torre Bela, do Conde de Carvalhal como no Estreito da Calheta e Logo que a manhã dealba, onde o mar toca no céu, começa a labutação de fazer
terras de João Nascimento255. Hoje temos algumas manifestações que pretendem recor- vinho de uvas que fazem apanhadas de véspera e o bulício lagareiro prolonga-se,
dar a faina em torno da vinha e do vinho. Referimo-nos às festas da uva, do Porto da fora de horas até passante da meia-noite258.
Cruz e das vindimas, desde 1980, no Estreito de Câmara de Lobos e Funchal. Ambas A vindima ocorria no dia marcado e desde muito cedo a azafama era grande: ...
as evocações são o momento ideal para a comunhão do passado com o presente.
256.Danilo José Fernandes, O Folclore em Eventos Sociais entre 1850 e 1948, Funchal, 1999, pp.34, 71-77
257.Horácio Bento de Gouveia, Crónicas do Norte, Funchal, 1994, pp.112-115
255.J. Reis Gomes, Op. cit., pp. 7/11. 258.Horácio Bento de Gouveia, A Canga, Coimbra, 1975, pp. 116/7.
142 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 143

por toda a parte, em montados, fajãs, cabeços, fraldas da montanha, um agitar de ao monarca, solicitando medidas urgentes contra tais práticas, o que foi prontamente
braços fazia estremecer as folhas das vinhas. Velhos e gente nova, munidos de facas atendido pelo regimento das vindimas de 16 de Agosto de 1785267. Aí estabeleceu-se
e navalhas, cortavam os cachos que lançavam para dentro dos cestos pequenos os o processo e a obrigatoriedade da escolha das uvas. Quanto ao primeiro deliberou-
quais por sua vez, se despejavam em barreleiros, que se enchiam, até que as uvas, se que em nenhuma das freguesias desta ilha se fará vindimar, sem expressa licença
acamadas umas sobre as outras para cima da roda da beira se acogulavam. E alça- por escrito deste governo, antes dos dias que vão indicados na relação que será com
dos trabalhadores a carregarem os barreleiros às costas a caminho do lagar...259. Já esta e assinada pelo secretário do mesmo governo. A tarefa ficou a cargo dum
no lagar, os homens de pé descalço e calça arregaçada após a respectiva licença do inspector, coadjuvado por inspectores locais. A autorização para vindimar só era
senhorio da lançavam-se aos montes de uvas260. Iniciada a tarefa os cachos esbor- passada após uma visita às vinhas. Quanto ao segundo providenciariam junto dos
rachavam-se e o mosto espumava na tina formando bolhas que cresciam e reben- colonos para que à bica do lagar se procedesse a necessária escolha das uvas, situ-
tavam para dar lugar a outras que se vão desfazendo por sua vez261. ação difícil de controlar. Ao infractor aplicavam-se severas penas: O lavrador que se
Esmagadas as uvas o bagaço era arrumado ao centro, posto em pé enrolado heli- atreva a vindimar sem a referida licença, fique por esse efeito incurso nas penas de
coidalmente, por uma corda, que dá todo o aspecto dum tronco de cone de largas prisão, e de perdimento das uvas que tiver vindimado, e vinho que delas tiver feito,
bases sobre a superior como diâmetro, e na direcção da “vara” assenta o “juiz” em que o mesmo inspector-geral mandará fazer apreensão e fará vender. Em anexo
decidindo, pela justa colocação da proficuidade dos esforços que o todo se prepara vêm estipuladas as datas da vindima em cada localidade:
para suportar. E em cima do “juiz” que se colocam “sucessivamente” as tábuas, os
“malhais”, e a “porca”, os “leitões”, e por último o “cachaço”, pedaço de madeira • a partir de 15 de Setembro, nas freguesias de Stº António, Stª Luzia, Stª Cruz,
de grossura variável, sendo este último que recebe directamente a acção da vara. O Ribeira Brava, Ponta do Sol, Arco da Calheta, Paul, Ponta do Pargo, S. Roque,
estremo livre desta grossa trave é atravessado pelo “fuso” que se prende inferior- Caniço, Campanário, Tabua, Madalena, Calheta, Jardim do Mar, Fajã da Ovelha,
mente à pesada “pedra de lagar”. Pondo-o em movimento de aperto, atarrachando- Canhas.
o, a pedra, que descansava no solo, levanta-se e fica exercendo pressão sobre o • desde 25 de Setembro nas freguesias de Machico, Estreito de Câmara de
bagaço. É a chamada empesa262. ... no silêncio da noite, ao longo e ao perto, ouve- Lobos, Stª Anna.
se o guinchar, o ranger das roscas do fuso que vai andando em torno da concha e • desde 1 de Outubro na freguesia de S. Vicente e a malvasia por ser este o
subindo na parte a vara com o esforço dos braços do homem, até fazer a pedra le- vidonho o que mais custa a sazonar268.
vantar do chão263. ... e cai da bica do lagar, na tina, o mosto espumoso e pegajento
que é medido pelo pote e canada nos barris...264. Depois pela noite segue-se a repisa, As recomendações quanto à cultura da vinha surgiram pela primeira vez em
em que se humedesse o bagaço obrigando a deitar o último pingo de vinho. Só 1785, conjuntamente com a proibição da baldeação interna e de adulteração dos vi-
então depois de espremido todo o vinho é que o senhorio autoriza o caseiro a fazer nhos. São medidas próximas das que o Marquês do Pombal preparou para o vinho
a água-pé, a chamada babida “dui proves”265. Feito o vinho, o mosto era vendido à do Porto quando ordenou a criação da região demarcada. Chegou-se mesmo a
bica do lagar ou transportado à adega que se situava junto à costa ou no Funchal. O reclamar por uma companhia para a Madeira como se havia feito em 1756 para o
colono só ficava com a água-pé, pois a parte do mosto que lhe cabia era vendida, de Douro269.
ordinário, ao senhorio e muito raramente ao comerciante. O facto de não dispor de Em Agosto de 1785270 publicou-se o regimento das vindimas em todos os distri-
adega ou vasilhame condicionava o campo de acção. tos da ilha com indicações sobre a forma de evitar o dano provocado pela colheita
Eram muitos os abusos praticados com as vindimas fora de tempo, porque os prematura sem escolha das uvas. Em 1819271 refere-se a prática corrente de apanha
colonos não esperão que as suas uvas estejão perfeitamente sazonadas para as vin- das uvas verdes era considerada uma das três causas da crise: são as vindimas pre-
dimarem; nem no tempo da vindima fazem a precisa escolha que se requer para que maturas, sem chegar a uva ao estado da perfeição natural, pois o vinho vai feito de
não se misture o verde com o maduro...266, conduziu às reclamações dos senhorios cepas regulando a uma inspecção prudente e deste modo se corta pela raiz o mal

259.Idem, ibidem, p. 116; vide idem, Canhenhos da Ilha, Funchal, 1966, pp. 57/9, 123/5. 267.ARM, GC, fols. 29vº-32,São diversos os regimentos sobre as vindimas: 12 de Agosto e 4 de Setembro de 1784, 16 de
260.Idem, A Canga, p. 125. Agosto de 1785, 16 de Agosto de 1786, 7 de Janeiro de 1839, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos
261.Idem, ibidem, p. 125. e Textos, Funchal, 1993, pp. 31-35, 39-42,121-122.
262.J. Reis Gomes, ibidem, p. 8. 268.ARM, GC, fol. 32.
263.H. B. Gouveia, Canhenhos da Ilha, p. 125. 269.ARM, RGCMF, T. 14, fols. 202/203vº.
264.Idem, ibidem, p. 58. 270.ARM, GC, nº 70, fols. 29vº/32, 35vº/43vº., in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal,
265.Idem, A Canga, p. 134. 1993, pp.31-42
266.ARM, GC, nº 70, fol. 29vº-32. 271.Idem, T. 14, fols. 202/203vº.
144 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 145

que se faz ao vinho, deitando-se-lhe açúcar e mel de barbadas para emendar a ver- em conjugação com os representantes das empresas quem determina a data de iní-
dura. A Junta de Melhoramento da Agricultura ordenou em 18 de Agosto272 que fos- cio da vindima.
sem nomeados três inspectores por freguesia para fiscalizarem a aplicação. As medi- Podemos ainda considerar outras medidas sobre a cultura da vinha, com a inter-
das tiveram eco nos anos de 1827273 e 1838274. No primeiro retomou-se a provisão de dição de cultivos intermédios os cuidados nas fases mais importantes do ano vitíco-
1819275 enquanto no segundo foi-se buscar fundamento à lei de 1786. Desta forma la. Acontece que as regulamentações esbarravam quase sempre com uma prática
procurava-se defender a qualidade do vinho e evitar os efeitos prejudiciais da práti- rotineira e adversa a qualquer progresso. A mesma opção rotineira é correspon-
ca corrente no comércio. A expressão espaçada das medidas dá conta da premên- sabilizada pelo atraso da viticultura e vinificação madeirenses.
cia em momentos de agudização da crise ou discussão e evidencia a apatia dos A qualidade do mosto não dependia apenas do respeito das medidas atrás referi-
colonos perante uma prática que se tornava onerosa e lesiva da safra da vinha. das. As condições climáticas do ano vitícola e, nomeadamente no período estival,
Em 1819 uma provisão da Junta d’Agricultura ordenava que se nomeassem condicionaram a situação e determinaram em última instância o resultado final. A
inspectores para as vindimas, três por freguesia, de maneira a que nos mesmos bair- partir de informações dispersas é possível acompanhar o quadro das vindimas280.
ros não possa pessoa alguma vindimar, antes do dia aprovado, guardando-se neste
procedimento quanto for possível e direito dos proprietários em combinação com SITUAÇÃO DAS VINDIMAS. 1695-1983
o interesse geral da ilha, e fabrico dos bons vinhos...276. Foi fácil a elaboração das
medidas mas difícil a aplicação. O fim em vista era de utilidade face ao descrédito ANO COLHEITA CASTAS LOCALIDADE QUALIDADE do vinho
1695 Pequena Regular
que o vinho estava enfrentando no mercado colonial britânico. A reclamação das
1696 Pequena Muito bom
medidas prende-se com a crise de exportação do produto. 1697 Pequena
A mesma política ressurgiu em 1939, quando o Conselho do Distrito decidiu por 1698 Muito pequena
1699 Maior que ano anterior
acórdão manter a regulamentação das vindimas, ordenando que se fizessem depois
1700 Grande
da aprovação por inspectores competentemente nomeados pela municipalidade, de 1701 Pequena
acordo com o regulamento de 16 de Maio de 1831277. Em carta de 4 de Outubro278 1702 Pequena
1703 Grande Bom
o Administrador Geral recomendava vivamente à Câmara a aplicação das medidas,
1704 Pequena Bom
replicando a Vereação com as devidas providências. Sabe-se, ainda que era comum 1705 Grande Bom
os lavradores misturarem as variedades de uva, enganando os compradores. Em 1706 Grande
1707 Menor ano anterior Muito bom
1849279 uma postura estabelecia a pena de 6$000 réis para quem misturasse as uvas
1708 Pequena
de bom vidonho denominadas malvasia, carão de moça, maroto, caxudo, etc., com 1709 Média Muito bom
outras de pior qualidade. 1710 Bom
1711
Não sabemos a forma como se procedeu à aplicação da medida, considerada
1712 Muito bom
salutar para a boa qualidade do vinho e, de certo modo, lesiva para o colono. 1713 Muito grande
Apenas podemos afirmar que em 1940 ainda persistia sob outra forma na freguesia 1774 Pequena Muito bom
1775 Muito bom
da Ponta Delgada como testemunha Horácio Bento de Gouveia. O colono estava
1783 Pequena verdelho Bom
obrigado a avisar o senhorio do início da vindima, aguardando o sim ou não de iní- 1787 Pequena Bom
cio da vindima. Estamos perante uma variante muito afastada, que comprova de 1788 Muito bom
1789 Câmara de Lobos Muito fino
modo inequívoco a subordinação do colono ou mieiro ao senhorio. Com a criação
1790 Câmara de Lobos Muito fino
do Instituto do Vinho da Madeira a vindima passou a ser controlada, sendo o IVM 1792 Boal Bom
1795 Muito bom
1803 Muito bom
272.Idem, T. 14, fols. 204/204vº. 1805 Verdelho Muito bom
273.Defensor da Liberdade, nº 20, p. 3.
1806 Câmara de Lobos e S. Martinho fino
274.ARM, RGCMF, T. 19, fols. 14/5vº, 224vº/225vº.
275.Tendo-se então granjeado forte apoio, como podemos inferir das informações fornecidas pelo Defensor da Liberdade [nº 1808 Muito bom
20, p. 2, nº 17, nº 15, p. 2.]
276.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 14-15vº.
277.ARM, RGCMF, t. 1, fols. 15-15vº.
278.ARM, RGCMF, t. 19, fols. 224vº-225vº.
279.Posturas da Câmara Municipal do Funchal, Funchal, 1849, p.21 280.Cf. Noel Cossart, ob.cit., pp.158-159
146 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 147

1812 Boal Muito fino 1902 Pequena Norte e Oeste Muito fino
1814 Boal Muito fino 1903 Boa Sercial Fino
1815 Boal Bom 1904 Acima da média
1816 Boal Muito fino 1905 Abundante Sercial e verdelho Norte Bom
1817 Sercial Bom 1906 Boa Malvasia Bom
1822 Excelente 1907 Verdelho fino
1824 Boal Muito fino 1908 Boa
1826 Sercial Muito fino 1909 melhor que ano anterior
1827 Sercial Muito fino 1910 Pequena Sercial, boal, verdelho Excelente
1834 Boal Muito bom 1911 Boa
1836 Sercial Muito bom 1912 Boa
1837 Malvasia Muito bom 1913 Pequena
1838 Verdelho Muito bom 1914 Pequena Boal Fino
1839 Malvasia Muito bom 1915 Muito boa Boal fino
1840 Sercial e verdelho Muito bom 1916 Muito boa malvasia Fino
1842 Sercial Muito bom 1918 Muito boa
1844 Boal Muito bom 1920 Muito boa Malvasia, Boal Excelente
1845 Boal Muito fino 1926 Muito boa Boal Fino
1846 Terrantez, boal e verdelho Muito fino 1934 Verdelho boal e malvasia Muito fino
1848 Boal e terrantez Muito bom 1936 Sercial Fino
1850 Verdelho Muito bom 1940 Sercial Muito fino
1851 Sercial, boal, malvasia Muito fino 1941 Boal e malvasia Muito fino
1852 Oidium 1844 Muito fino
1854 Muito pequena Sercial Muito bom 1950 Sercial Muito fino
1857 Muito pequena Sercial Muito bom 1951 Muito fino
1858 Muito pequena Verdelho Muito bom 1952 Verdelho e malvasia Muito fino
1860 Muito pequena Sercial Muito bom 1954 Boal, malvasia e bastardo Muito fino
1862 Pequena Malvasia Bom 1956 Boal, malvasia Muito fino
1863 Pequena Malvasia Câmara de Lobos Muito fino 1969 Verdelho Muito bom
1864 Pequena Boal, malvasia Bom 1974 Normal
1865 Pequena Tinta Bom 1975 Pequena
1866 Pequena Tinta Bom 1976 Pequena
1867 Pequena Tinta Bom 1977 Normal
1868 Pequena Boal Bom 1978 Extraordinária
1869 Pequena Boal Bom 1979 Normal
1870 Pequena Sercial Bom 1980 Normal
1871 Bom 1981 Normal
1872 Filoxera, pequena Fino 1982 Extraordinária
1873 Muito pequena Quinta Paz Fino 1983 Muito extraordinária
1874 Muito pequena Quinta Paz Fino
1880 Malvasia Fino
1882 Muito pequena Boal Fino
1883 Muito pequena Sercial Fino
1884 Muito pequena Sercial Fino
1885 Muito pequena Malvasia Fino
1886 Produção média
1890 Boa colheita Bom
1891 Boa Boal Bom
1892 Produção média Sercial Bom
1893 Pequena Malvasia Bom
1895 Pequena Boal Fino
1897 Pequena
1898 Verdelho e sercial Muito fino
1899 Regular Norte da ilha
1900 Média Muito fino
148 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 149

Lagar de Krohn Brothers. Museu de Photografia Vicentes. Lagar. Museu de Photografia Vicentes.

viticultores tinham meios para o dispor, sujeitando-se a maior parte dos caseiros ao
lagar do senhor. O lagar é hoje uma peça de museu, sendo substituído pela moder-
na tecnologia, mas noutros tempos foi um instrumento imprescindível ao fabrico do
vinho.
Na Madeira está documentada a presença de três tipos:

• lagariças de pedra, com o cocho escavado na rocha dispondo de vara e fuso


em madeira para exercer pressão sobre o bagaço;
Lagar. Gravura de A. • lagares de madeira, que podiam ser escavados num tronco formando um
Vizetelly, 1880 Do lagar ao canteiro cocho ou de traves de madeira calafetada;
• lagar de alvenaria com vara e pedra ou de prensa mecânica.
Nem todos os colonos e lavradores, na ânsia de uma rápida vindima, aguardavam
pelo total amadurecimento dos cachos, obrigando as autoridades a regulamentar a A tradição de uso da pedra e madeira na construção dos lagares foi trazida do
faina vitícola através do regimento das vindimas publicado em 12 de Agosto de 1785. continente português onde ainda existem testemunhos de épocas anteriores ao sécu-
A partir daqui a vindima passou a ser autorizada por inspectores nomeados para lo XV282. Na Madeira persistiram até a actualidade alguns lagares de madeira ou
todas as freguesias, ficando os infractores sujeitos à pena de prisão e de sequestro pedra. Dos construídos em pedra temos notícia de vestígios no Curral das Freiras,
das uvas. Arco da Calheta, Ponta do Pargo e S. Vicente, na chamada lapa do Chiapa. Para os
Concluída a apanha das uvas a animação transferia-se para a beira do lagar onde de madeira persistem vários exemplares na Madeira e Porto Santo, propriedade de
os homens esmagavam as uvas para poderem extrair o mosto281. Noite fora, até que particulares, museus e empresas do sector. O de cocho poderá ser encontrado no
fosse concluída a tarefa, o bulício continuava com desusada animação. A presença Campo de Baixo no Porto Santo e no Museu da Ribeira Brava, quanto ao de caixa
do lagar foi sinónimo de uma rectaguarda importante de vinhas, pois nem todos os temos exemlares nos Museus do IVM e da Madeira Wine Company.

281.A faina do lagar está devidamente descrita por alguns autores estrangeiros [Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira,
Funchal, 1993] e nacionais [GOMES, João dos Reis, O Vinho da Madeira. Como se Prepara um Nectar. Monografia, 282.V. Loureiro, As Lagaretas Escavadas na rocha. Uma Perspectiva Tecnológica, in O Vinho, a História e a Cultura Popular.
Funchal, 1937; Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, Funchal, pp.577-582.] Actas de Congresso, Lisboa, 2001, pp.27-37
150 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 151

O lagar foi e continua a ser um elemento de fascínio na faina vitivinícola. Todos 1723 Santo António 11.000
os que o descobrem ficam encantados com a monumentalidade e tarefas que ainda 1728 Tábua 4000
1730 S. Martinho 3500
ocorrem. A descrição do lagar tradicional de madeira atraiu o interesse de alguns 1731 Campanário 3000
literatos283. 1732 Tábua 1500
Junto dos vinhedos encontrava-se quase sempre o lagar que atingia a dimensão 1732 C. de Lobos 2600
1733 R. Brava 1000
igual à área de vinha. São lagares de madeira mas também lagariças de pedra. Na 1735 Tábua 3200
Ponta de Sol, Rafael Catanho Vivaldo apresentava em 1608284 uma extensa fazenda 1736 9500
de vinhas com três lagares. Em 1728 o lagar de pedra de Manuel de Abreu na Tabua 1736 12.000
1726 9.000
é avaliado em 4$000 réis e servia um vinhedo de 3.444 parreiras. Já em 1742 João 1736 Santo António 8500
Lopes do Monte do Estreito de Câmara de Lobos apresenta uma casa e lagar no 1738 Campanário 4000
valor de 10.000 réis para uma extensão de 20.140 parreiras. Os agricultores com 1738 Serra de Água 3000
1739 S. Martinho 5000
courelas de vinhas não tinham possibilidade de montar a estrutura e, por isso, socor- 1741 Campanário 800
riam-se do lagar do vizinho. 1742 9000
Os custos de construção da infra-estrutura eram elevados, sendo em muitos casos 1742 Estreito 305.700
1742 Estreito 10.000
mais um encargo a que estava sujeito o colono. O preço do lagar variava consoante 1742 22.000
fosse construído em madeira ou escavado na rocha, acrescentando-se, ainda, a 1743 Tábua 19000
cobertura. Quanto às diversas partes do lagar sabemos em 1767 do valor285 das do 1744 Campanário 2000
1744 S. Martinho 40.000
lagar de Paula de Aguiar na Tábua. Dos 28.9000 réis de despesa o senhorio con- 1745 S. Martinho 6500
tribuiu com 10.000 réis para o fuso, pedra e paredes: 1746 Campanário 4000
1747 S. Martinho 5000
1747 Campanário 12000
Caldeira do lagar em rocha e tina: 10.900 réis 1748 Tábua 12000
Pedra de empesar: 5.000 1748 Tábua 2500
Obra de carpintaria: fuso e toda a madeira: 2.400 1748 Campanário 5650
Palha e canas do lagar: 600 1748 S. Martinho 9000
total: 28.900 1748 Campanário 10.000
1750 Campanário 2000
1752 63000
O quadro, que se segue, completa a elucidação dos valores do investimento em 1753 Campanário 6000
lagares na ilha. 1762 Tábua 2000
1782 4000
LAGAR E CASA-CUSTOS(1650-1782) FONTE: ARM, Capelas-inventário, maços: 1 a 42

Ano Local Lagar Lagar e Casa


Pedra Madeira Pedra Madeira De acordo com o inventário das indústrias, feito em 1863 por Francisco P.
1650 S. Martinho 80.500rs Oliveira286, o arquipélago dispunha de 185 lagares assim distribuídos:
1664 Ribeira Seca 12.000
1690 Campanário 800 Funchal. 39 Porto Moniz. 31
1700 1800 Machico. 1 Calheta. 25
1717 S. Martinho 4000
Santana. 13 C. Lobos. 23
1718 Campanário 2000
1718 Campanário 21500
S. Vicente. 12 Porto Santo. 41
1720 Ribeira Brava 1400
1720 Campanário 15.000 Não deverá esquecer-se que o inventário ocorreu numa fase em que a economia
1720 2000
vitícola estava ameaçada pelo oídio, pelo que o número de lagares em funciona-
283.Marquez de Jácome Correa, A Ilha da Madeira, Coimbra, 1927, p.113; Eduardo Pereira, Ilhas de Zargo, vol. I, Funchal, 582.
284.ARM. JRC, fls. 427-429vº, testamento de 30 de Junho. 286.Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de Leiria e Funchal,
285.ARM, Capelas-Inventário, maço 18, nº.429, 11 de Setembro. Lisboa, 1863.
152 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 153

Lagar. Museu de Borracheiros. Museu de


Photografia Vicentes. Photografia Vicentes.

mento deveria ter sido superior na primeira metade da centúria. Aliás, o autor casas, foi definida pela substituição dos lagares de madeira por outros em cimento
chama a atenção para isso, destacando que muitos dos lagares estavam abandona- e o aparecimento generalizado das prensas manuais e mecânicas. Na actualidade a
dos por falta de uvas. Sucedia assim em quase todos os municípios, excepto no ilha dispõe da mais avançada tecnologia para o fabrico do vinho. Toda a produção
Porto Santo e Porto Moniz. A maioria era apenas utilizada no fabrico de vinho de dos viticultores destinada ao vinho Madeira é vendida em uvas, tornando
peros. Quanto ao Funchal o autor declara que Não se trabalha geralmente nos desnecessária a infraestrutura. Lagares ou prensas existem apenas em museus ou em
lagares de vinho pela falta de uvas depois do aparecimento do oidium tuckery, e casas particulares para a laboração do vinho caseiro.
apenas em três lagares se espremem alguns peros para fabricação de vinho. Hoje são raros os lagares tradicionais de madeira. No século XX evolui-se para a
A situação piorou, passados dez anos, com a filoxera, mas no século XX a ilha construção do cocho e tina em cimento ficando apenas a vara e o fuso, como sobre-
recuperou a vinha e os lagares voltaram ao activo, referindo-se para 1916 a existên- vivência da madeira. Os lagares de madeira são peças de museu, enquanto que nos
cia de cerca de 1000 lagares para um total de viticultores não superior a 8000287. Isto de cimento já poucos restam, pois deram lugar aos de fuso ou deixaram de ter utili-
quer dizer, se tivermos em conta que a produção era pouco superior a 50 mil hec- dade. As casas comerciais compram as uvas e no fabrico do mosto utilizam a mais
tolitros, que a laboração média por lagar era de 50hl. Muitos dos lagares eram actual tecnologia. No Norte da Madeira, nomeadamente no Seixal, Ribeira da
pequenos e artesanais, sendo construídos pelos proprietários para apoio à pouca Janela, era comum a construção das adegas junto dos vinhedos, situação que ainda
produção de vinho. A maioria dos viticultores não os possuia socorrendo-se dos que hoje persiste. São edifícios térreos de duas águas, tendo no interior um lagar e can-
estavam mais próximos. A contrapartida, tanto poderia ser feita em género, como teiro de pipas.
em serviços ou em dinheiro. Para o vinho de peros refere-se que em Ponta de Sol O momento mais esperado da vindima acontecia quando se procedia à divisão e
o pagamento de 49 a 59 réis por hectolitro de vinho saída da bica do lagar288. venda do vinho. Era à bica do lagar que todos vinham em busca dos dividendos: As
A última geração, anterior ao actual processo de mecanização organizado pelas vinhas são entregues apenas em posse anual e o cultivador somente recebe quatro
décimos do produto - outros quatro décimos são pagos em espécie ao dono da terra,
287.Vida Económica da Madeira (…), Funchal, 1916, p.82.
288.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de
um décimo ao rei e um ao clero. Proveito tão escasso e a ideia de estar meramente
Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.77. Tenha-se em conta que a pipa de vinho se poderia a retalho entre 575 a 860 réis o a labutar para os lucros de outros, excluem absolutamente a esperança de um
litro [idem, ibidem, p.77]
154 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 155

aumento de produção, mesmo que sejam tentados melhoramentos289. A mesma


ideia repete-se noutro testemunho: O proprietário da terra e o cobrador dos impos-
tos da Coroa assistem a esta operação: este último tira da tina o décimo de mosto
que lhe corresponde, sendo depois dividido o restante entre o proprietário da terra
e o arrendatário. Cada um leva consigo um número suficiente de carregadores para
transportar as suas respectivas partes, às vezes em barris, e às vezes em odres de pele
de cabra, para as adegas no Funchal. Os comerciantes Ingleses geralmente fornecem
antecipadamente dinheiro aos agricultores de maneira a motivá-los para um cultivo
mais cuidadoso290.
Feito o vinho o mosto era transportado ao destino, que poderia ser a loja do viti-
cultor, ou o armazém dos comerciantes no Funchal. No último caso tanto podia
acontecer por via terrestre, nas regiões próximas da cidade, ou marítima, quando
proveniente das diversas freguesias. Era no Funchal, sede as casas exportadoras, que
tinha lugar a fase seguinte. O transporte às adegas rurais ou da cidade era feito por
carreteiros em borrachos291. O mosto era enviado directamente ao Funchal, por via
marítima ou terrestre, onde fermentava nas lojas292. Era aí que se iniciava o proces-
so de vinificação. Após a fermentação era sujeito às trasfegas e trato em canteiro ou Borracheiro.
Foto José Pereira da Costa
estufa.
Os borrachos ou odres assumiram um papel importante na circulação interna do
mosto. A tradição do odre para o transporte de líquidos está documentada no como nas vizinhas Canárias. A população indígena do arquipélago, donde os
mundo mediterrânico desde a Antiguidade293. Também na cultura berbere encon- madeirenses trouxeram os primeiros escravos, utilizava este tipo de vasilhame, sob
tramos o uso, donde a origem dos chamados zurrones das Canárias294. Os mesmos a designação de zurrones, para guardar o gofio e leite de cabra. No século XVI
estão testemunhados em Portugal no século XV e no século seguinte na Madeira. surgem referências avulsas a odres e sabemos da existência do ofício de odreiro295.
Está ainda por apurar a origem na Madeira, pois tanto pode estar na Península, Falta-nos informação sobre o momento em que passaram a chamar-se borrachos.
Entre nós ganharam fama e foram um dos elementos pitorescos que mais
chamou à atenção dos estrangeiros. Isabella de França296, no retrato da visita à ilha
289.G. Forster, A Voyage Round the World (...), Londres, 1777, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e
Textos, Funchal, 1993, p. 337.
entre 1853 e 1854, refere-o: A pele de cabra usava-se no tempo do vinho para o
290.J. Barrow, A Voyage to Conchinchina…, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e transportar até às pipas, frequentemente a algumas milhas de distância, quando a
Textos, Funchal, 1993, p. 337
291. J. Reis Gomes, ibidem, p. 11. Já em 1793 John Barrow de passagem pela Madeira refere os odres feitos com pele de cabra estas não era fácil trazê-las do local da vindima. A pele é voltada do avesso, cortam-
para transporte do vinho, vide A. A. Sarmento, Ensaios Históricos da Minha Terra, Funchal, vol. III, pp. 131/3; J. Barrow, A
Voyage to Conchinchina…, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, lhe a cabeça e os pés e as aberturas assim formadas ligam-nas com cordel. Ao dis-
1993, p. 337
292.Temos três fontes que comprovam de modo directo o que vimos afirmando e explicitam as razões de tal procedimento. A
tender-se, dá a impressão de estranho animal acéfalo. E que espectáculo singular o
primeira é-nos dada num documento de 1777 [ANTT, PJRFF, nº 994, pp. 8/11.], em que se salienta que na ilha não se pro- de uma fila de homens a descer pelos montes com essas peles cheias aos ombros.
cede de modo idêntico como no reino: não se praticäo as colheitas como no reino que vão passando dos lagares a encubar
nas adegas, mas como as terras estão aqui divididas em porções módicas de colonos, estes pisando suas módicas porções Os odres cheios de vinho eram transportados até ao porto mais próximo de
que logo imediatamente conduzem a meia parte respectiva ao senhorio para a cidade, nem dão lugar a tirar guias, o que
é impraticável por ser a condução em barris de dois almudes, ou odres sobre ombros de homens, porque a escabrosidade
embarque ou ao Funchal aos ombros dos homens ou no dorso das mulas297. Os gru-
dos caminhos faz impraticáveis outras conduções [Idem, ibidem, p. 9.]. A segunda surge-nos de modo idêntico em docu- pos intermináveis de borracheiros faziam parte do espectáculo das vindimas. A ne-
mento de 1779 [ANTT, PJRFF, nº 995, pp. 25/41]: ... os moradores são avulsos por não haver na ilha povoações, ou lugares,
nem os colonos encubäo os vinhos em suas adegas, porque não tem, e cada um em sua casa em lagariças de pau faz o nhum estrangeiro passava desapercebido tal burburinho: No momento da nossa visi-
vinho que daí se transporta por homens rústicos muitas légoas para as dos senhorios pela escalosidade dos caminhos, tais
que nem cavalgaduras o podem transportar, quanto mais vasos ou pipas. [Idem, ibidem, p. 37.]. A terceira é dada noutro
documento de 1789 [ANTT, PJRFF, nº 995, pp. 53/4.]. ... no campo não se achäo adegas suficientes para o vinho, porque
a parte dos senhorios habitantes nesta cidade, todo é transportado para esta e a maior parte do vinho dos caseiros, é ven- 295.Bernardete Barros, A Festa Processional, “Corpus Christi”, no Funchal (séculos XV a XIX), in Actas do I Colóquio
dido à bida a infinitos habitantes também desta cidade para onde igualmente transportäo[ Idem, ibidem.]. Internacional de História da Madeira. 1985, Funchal, 1989, vol. I, p.348
293.Robert Flacelière, A Vida Quotidiana dos Gregos no Século de Péricles, Lisboa, sd., p.190: O vinho destinado ao consumo 296.Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal. 1853-1854, Funchal, 1970, p.112-113
local era metido em odres de pele de cabra ou de porco… 297.O mosto fermenta em barris. Quando vendido aos comerciantes de vinho, é transportado para as suas adegas em
294.Luis Diego Cuscoy, Los Guanches, Santa Cruz de Tenerife, 1968; Vários, Aproximación a la Descripción de la Carta pequenos barris ou odres de pele de cabra amarrados no dorso das mulas. [J.L.Thudichum e A. Dupré, A treatise on the
Arqueológica de Fuerteventura, in I Jornadas de História de Fuerteventura y Lanzarote, vol. II, Puerto del rosario, 1987, origin, nature and varieties of wine, Londres, 1872, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos,
p.129. Funchal, 1993, pp. 389]
156 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 157

ta [à casa Krohn Brothers & Co.], encontrámos um grupo de borracheiros enchar-


cados de suor, entregando odres com mosto, que tinham trazido das montanhas
nessa manhã. Ao serem despejados nas pipas, um empregado do armazém volta e
meia media os conteúdos de um certo número deles escolhidos ao acaso e verifica-
va a quantidade de sacarina através de um sacarómetro, para se certificar de que cada
odre continha todo o seu barril, correspondente a cerca de nove ou dez galões, e de
que o mosto não fora falsificado «en route». O preço do mosto oscila entre 18s. e
21s. por barril - sendo doze barris equivalentes a uma pipa. Os borracheiros mais
robustos fazem, durante o auge da vindima, duas ou mesmo três viagens das mon-
tanhas para a cidade e de regresso às montanhas, durante um dia298.
O espectáculo dos borracheiros é hoje um dado do passado e só ficou a célebre
canção dos borracheiros e alguns borrachos como ornamento de lagares perdidos.
Hoje a realidade é distinta. A partir da década de quarenta o automóvel ocupou o
lugar do homem no transporte do vinho ao Funchal. Às filas intermináveis de bor-
racheiros sucedeu o desusado movimento de furgonetas com pipas em pé a trans-
bordar de mosto. Mudou também o processo. As casas exportadoras passaram nos
últimos anos a adquirir as uvas directamente aos viticultores, através de uma rede de
agentes em toda a ilha. A vindima resume-se quase só ao rotineiro gesto do apanhar
das uvas. Esta nova forma de intervenção das empresas permite controlar todo o
processo de vinificação, adequando-o às actuais exigências do mercado e às
recomendações legislativas.
Vindima. Pintura de Max Romer.
Muitas das terras de vinhas eram de colonia, residindo o senhor no Funchal. Sala de Provas da Madeira Wine Company
Aqui destaca-se os conventos, importantes senhorios em toda a ilha. Em 1667 o
Convento de Santa Clara apresentava-se com cinco adegas, com 154 tonéis, para
recolha do quinhão de vinho: Santo António, Câmara de Lobos, Estreito de Câmara
de Lobos, Campanário e Ribeira Brava. Apenas neste ano o convento vendeu para
fora 165 pipas de vinho.
As adegas madeirenses, não eram edifícios preparados de raiz, pois qualquer
cave, desde que ampla e escura, servia para guardar e envelhecer os vinhos299. Junto A vindima é uma época de grande excitação em toda a ilha. Os homens e mulheres
estavam as estufas e a oficina de tanoaria. Foram os ingleses quem no século XIX que apanham as uvas formam uma alegre multidão que rasteja por baixo das latadas e,
tentou alterar a situação definindo uma arquitectura e estruturas adequadas à função entre muita conversa e brincadeira colhem os cachos que são em seguida colocados em
pequenos cestos. Quando cheio, o conteúdo destes cestos é cuidadosamente deitado
das instalações300. A maior evidência de mudança pode ser encontrada nas insta- num grande e forte cesto de salgueiro, o “cesto de vindima”, redondo, com uma boca
lações da firma Cossart Gordon, de que apenas dispomos descrições, gravuras e que abre como a duma trompeta, neste, as uvas são levadas para o lagar. Ele suporta
fotografias. cerca de cem pesos de uvas, as quais devem produzir um barril de sumo. Quando
chegam ao recinto onde a operação de esmagar tem lugar, os cestos são esvaziados
para dentro de uma rude tina de madeira chamada “lagar”.

J. Jonhson, Madeira its Climate and Scenery (...), Londres, 1885, pp.81-91 in Alberto Vieira, História do
Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.409

298.Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira (...), Londres, 1880, pp.149-202, in Alberto Vieira, História do Vinho da
Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 392-393
299.Ruppert Croft-Cook, ibidem, pp. 159/166.
300.Confronte-se o texto de H. Vizetelly in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1983, pp.375-399.
158 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 159

Vindima.
Gravura de A. Vizetelly. 1880

Década de sessenta do Vindima.


século XX Vindima. Museu de Photographia Vicentes.
Fotografia Perestrellos.
Museu de Photographia
Vicentes.

Azáfama das vindimas


Os colonos ao passo que as uvas
amaduravam, dirigiam-se ao senhorio ou
feitor a pedir licença para fazerem a co-
lheita, a apalavrarem o dia de emprésti-
mo dos lagares. (...) por toda a parte, em
montados, Fajãs, cabeços, fraldas da
Transporte uvas ao lagar. Transporte de uvas ao lagar.
montanha, um agitar de braços fazia Colecção Perestrellos. Grvura de a. Vizetelly.1880
estremecer as folhas das vinhas. Velhos Museu de Photographia Vicentes
e gente nova, munidos de facas e nava-
lhas, cortavam os cachos que lançavam
para dentro dos cestos pequenos, os
quais por sua vez, se despejavam em
barreleiros, que se enchiam, até que as
uvas, acamadas umas sobre as outras Por Regimento de 12 de Agosto de 1785 foi regulamentado o processo das vindimas
para cima da roda da beira se na ilha, de modo a evitar os abusos praticados pelos colonos, que não esperam que as
acogulavam. (...) trabalhadores a car- suas uvas estejam perfeitamente sazonadas para as vindimarem; nem no tempo da vin-
regarem os barreleiros às costas a ca- dima fazem a precisa escolha que se requer para que não se misture o verde com o
minho do lagar... maduro....
Cestos Vindimo. No mesmo regimento se estipulava a data certa para a vindima em cada locali-
Foto de José Pereira H. B. de Gouveia, A Canga, Coimbra. pp. dade, ficando o cumprimento desta regulamentação a cargo de um inspector coadjuva-
da Costa. 116/117
do por inspectores locais.

ARM, GC, N.º 70, fols. 29Vº/32


160 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 161

Lagar.Postal pintado.
Barrault Photographie

Evolução do lagar
Lagar. Pintura de Max Romer. Sala de Pisam os homens as uvas nos lagares, de calça arregaçada até ao joelho, músculos
provas da Madeira Wine Company. estriados e faces congestionadas. E há 44 lagares em actividade, construídos de cimen-
to, assim como as tinas. Os de madeira de til com tinas feitas de ripas arcaizaram-se e
aproveitaram-se as tábuas. O cimento conferiu aos lagares uma eternidade que a
madeira não podia dar. E, de feito, a substituição desta por aquele trouxe vantagens ao
O lagar madeirense lavrador. Pois os lagares de madeira, todos os anos, por altura das colheitas, tinham de
ser calafetados. Através das juntas das tábuas, com o batuque das repisas e no ardor
ainda maior de tirar do bagaço a água-pé, as pranchas davam de si e o mosto começa-
A espremadura das uvas faz-se a pé calcante, a dentro dum reservatório que antiga- va de pingar. As tinas apertadas por arcos de ferro também se desconjuntavam. Deixou,
mente era um simples tronco escavado, em geral de dragoeiro, que constituía o velho portanto, de haver a preocupação do conserto, semanas antes das vindimas, além de
lagar de coxo. que era outra a durabilidade.
Fez-se depois de tábuas justas, calafetadas em caixa aberta com biqueira na base, Introduziu-se, há muitos anos, a prensa no lagar, mas, no norte da ilha não vingou o
sobre um suporte de traves, encimando-o a vara do lagar, grossa viga articulada num moderno aperfeiçoamento da técnica no espremer das uvas. Mais dispendioso, menos
extremo e apoiada no outro por uma porca, onde vem morder um alto parafuso de
pratico e de resultados não superiores ao processo primitivo. Pelo que o sistema da vara
madeira, ligado a um pesado bloco de pedra. Esta suspende, ao elevar-se o parafuso de
corpulenta de pinho ou de castanho e o fuso de pau branco, das nossas serras, conti-
pau branco, transfurando a vara, e actua como reforço, premindo de alavanca inter-
nua mantendo o costume, posto que absoleto, dos avoengos. A mesma corda grossa a
resistente sobre o bagaço, depois deste ter sofrido o primeiro piso, a pé nu lavado.
Há pequenos lagares mais simples, sem parafuso, e então o reforço do peso é feito enrolar o monte dos engaços, se bem que o chincho a vá substituindo, as mesmas
num prato, como os de balança decimal, onde sucessivamente se vão colocando peças de madeira, o tampão e os dormentes, sobrepostos aquele e até tocarem a parte
pedras, aumentando a potência de espremeção, sobre o “frascal”, em forma de pão de inferior da vara, a mesma pedra redonda, volumosa e pesada, com um buraco ao de
açúcar, formado pelos engaços e folhelho, apertado espiralmente por uma resistente cima, onde sai um ferro que se encaixa na base do fuso e se prende a ele.
corda fabricada de esparto ou raízes de era.
Horácio Bento de Gouveia, Canhenhos da ilha, Funchal, S/D, pp. 124/5

A. Sarmento, Notícia Histórico-militar sobre a Ilha do Porto Santo, Funchal, 1933, pp. 94/95
162 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 163

Armazéns de Messr. Krohn


Como em todos os vinhedos da Madeira, a sua área limi-
tada, compreendendo apenas quatro acres, estando rodeado
de muralhas por todos os lados. Elevações abruptas apre-
sentando poios cultivados e com abetos coroando os seus
cumes, rodeiam o vinhedo de ambos os lados. A maioria das
vinhas, que são principalmente da qualidade verdelho, com
uma quantidade insignificante de tinta, ou uva negra, são
colocadas sobre uma baixa latada horizontal, a uma altura de
cerca de quatro pés do chão, quase uma cópia do sistema de
colocar as uvas que prevalece em certos distritos vinícolas
da Alemanha chamado «Kammerbau». As restantes vinhas
são colocadas mais altas em relação ao solo naquilo que é
chamado corredor, oferecendo as latadas colocadas por
cima uma agradável sombra para os calores do Verão. Estas
latadas são construídas em cana ou madeira de pinheiro,
com estacas de castanheiro a servirem de suportes.
Aqui, os trabalhadores que colhem as uvas são todos
homens, com barba preta, descalços, e com roupas esfar-
rapadas, com a sua pele quase tão castanha quanto os seus
calções cor de mogno. Eles apanham as uvas e atiram-nas
para dentro de redondos cestos abertos com pegas,
esvaziando-os depois num cesto maior, semelhante na forma
e conhecido como o «cesto da vindima». Este último cesto
tem capacidade para mais de um quintal de uvas, mais ou
menos o suficiente para produzir um barril de mosto, o mesmo
que um pouco mais de nove galões imperiais. A casa do lagar
Lagar.
Pintura de Max Romer. ficava no centro do vinhedo, e o próprio lagar era formado por
Sala de provas da Madeira Wine Company. uma enorme tina de madeira, semelhante ao usado na região
do Xerez. No entanto, em vez de um parafuso de metal ele- Lagar. Gravura de W. S.
vando-se no centro do lagar, uma enorme trave de madeira, Aqui, as vinhas plantadas em canteiros elevados que formam um rego entre as dife- Pitt Spingett.1843.
como aquelas usadas nas proximidades de Lisboa e no Alto rentes filas , são colocadas ao longo de arames horizontais, sustentados por postes Colecção da Casa Museu
inclinados, que se juntam na parte superior, formando um V invertido.… Embora o vinhe- Frederico de Freitas
Douro, está pendurada no meio do lagar e ajuda na extracção
do sumo das cascas de uvas amontoadas, depois destas do possua menos de treze acres, as uvas são colhidas em não menos de oito alturas
terem sido bem pisadas por vários pés acastanhados. No diferentes, sendo apenas apanhados em cada momento os cachos completamente
entanto, antes dos pisadores entrarem no lagar, o próprio maduros. Por este motivo, a vindima que começou a 24 de Agosto, durará um período
peso das uvas produz um fluxo contínuo de sumo que corre de três semanas completas. Quem colhia as uvas eram mulheres descalças, com vesti-
para a tina contígua - um regato que se torna uma torrente dos leves e casacos brancos de linho, com lenços vermelhos e amarelos amarrados à
quando se começa a pisar. Os homens, dispersos pelo lagar, cabeça. ...
começam com um movimento lento e regular, depois esticam A casa do lagar é uma construção baixa de pedra com um alto telhado, iluminada por
os braços e agarram-se na enorme trave interveniente, apro- algumas pequenas janelas, e à sombra dos grandes ramos de um óptimo espécime da
ximando-se e afastando-se rapidamente um do outro, dando, eriobotrya japonica. Possui vários lagares, sendo o maior deles capazes de espremer
ocasionalmente, meia volta uma vez para a esquerda, uma quatro ou cinco pipas de mosto ao mesmo tempo. Encontrámos seis homens a trabalhar
vez para a direita, abrandando, depois, os seus movimentos lá, três em cada lado de uma espécie de trave divisória ou vara. O primeiro sumo que
agitados para um tipo de dança lenta e monótona. saiu foi deitado num balseiro ou pequena tina, contendo cerca de oitenta galões, e que
possui uma torneira na parte mais baixa, para permitir que o sumo saia depois dos
VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of restos de enxofre que ficaram nas uvas se terem depositado na parte mais baixa. Os
Wines Vintaged Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880. pisadores fizeram várias vezes o mesmo movimento que já descrevemos, e quando o
164 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 165

Latada em Madeira.
Vicentes Photógraphos.
Museu Photographia Vicentes

sumo já não saia do lagar através da abertura que ficou tapada com as uvas esma-
gadas, estas foram empilhadas no centro ou aos lados, pressionadas e levemente
espremidas com as mãos, e o sumo, conforme ia escorrendo, era coado, passando por
um cesto pendurado na bica ou tubo do lagar. Este empilhamento foi repetido três vezes,
conhecidas como a primeira, segunda e terceira abertura, e depois passou-se a outra
operação - a massa é reunida de modo compacto num monte central, ficando pronta
para receber a corda, que foi cuidadosamente enrolada à sua volta, com espaços pelo
meio, pelos quais o sumo podia passar. Um forte disco de madeira, reforçado com
pedaços cruzados, foi colocado na parte de cima, e sobre este foram colocadas, trans-
versalmente, várias pequenas barras quadradas de metal, e uma forte tábua por cima
de tudo. A pressão é exercida sobre este monte através do parafuso perpendicular numa
das duas extremidades, que se apoia numa enorme pedra a alguns pés do lagar. O
sumo espremido deste modo chama-se vinho da corda. Depois de uma ou duas horas
nesta operação, a massa sólida é quebrada com as mão ou, se necessário, com enx-
adas, e depois começa a repisa, um vigoroso movimento de dança ou saltos executado
sobre as cascas de uvas aparentemente secas. Faz-se isto para esmagar, de maneira
eficaz, aquelas uvas que estão já em passas e que se tornaram mais moles por terem
ficado de molho no sumo produzido. A repisa dura cerca de meia hora, e os homens ale-
gram o seu trabalho com uma variedade de piadas, partidas ou outras. Por vezes, dois
deles de um lado da trave subitamente agarram um camarada e atiram-no por cima da
trave para o outro lado, onde os homens o receberão com os braços abertos, mas só
para o atirar de volta outra vez por cima da trave, entre o riso de todos. As cascas das
uvas são novamente empilhadas; depois deita-se água por cima delas, e são bem
revolvidas e espremidas pela última vez, produzindo a água-pé que se dá aos trabal-
hadores para beberem.

VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged
Around Lisbon and the Wines of Tenerife, London, 1880.
Festa das Vindimas. Estreito de Câmara de Lobos, 2002
166 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 167

Latada no E. de Câmara de
A PRODUÇÃO DE VINHO
P Para que a análise do quadro da produção de vinho no arquipéla-
go seja completa devemos ter em conta a evolução quantitativa, de
acordo com as áreas produtivas e o tipo de uva, com também a carac-
terização do sistema de exploração da terra, que teve na ilha uma
forma peculiar de expressão, com o contrato de colónia. No que con-
cerne aos valores de produção a informação é escassa e, por vezes,
contraditória. Daqui que resulta que o o completo esclarecimento só
é possível se tivermos em conta os níveis de produtividade da ilha, o
estado e a forma de cultivo da vinha.
Segundo T. Bowdich301 um acre de terra de vinha podia produzir
quatro pipas, mas a média era de apenas uma pipa. Insiste-se na ideia
de que a produtividade é fraca: A produtividade das vinhas não é, em
geral, muito grande na Madeira. Ainda que nalgumas das balseiras da
região do norte, como por exemplo sucedeu em 1850 no sítio
denominado Fajã do Penedo, duas cepas possam produzir até
catorze barris de vinho, é contudo certo, que no sul a produção é de
duas a seis pipas, ao mais, por hectare, ou de oito almudes por mil
bacelos, o que é uma produção muito pouco considerável302. A pro-
dução para E. Harcourt estava de acordo com as condições do solo:
Um alqueire de terreno, quando se trata de solo da melhor quali-
dade e bem cultivado, produzirá, num ano médio, entre doze e
quinze barris de vinho, dos quais doze vão para a pipa. Se o solo é
de qualidade média e bem cultivado, produzirá entre oito e dez bar-
ris. Terreno de qualidade média ou boa com maus cultivadores não
produzirá mais do que um ou dois barris.303

301.Excursions in Madeira, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993,
Lobos. Colecção p.346 e corroborado por Alfred Lyall, Rambles in Madeira, London, 1827, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira.
Perestrellos. Museu de Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 349; F. W. Taylor, The Flag Ship, NY, 1840, in Alberto Vieira, História do Vinho da
Photografia Vicentes. Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 357.
302.João Andrade Corvo, Memoria I.Memoria sobre a “Mangra” ou Doença das vinhas da Madeira e Porto Santo. Apresentada
à Academia na Sessão de 3 de Fevereiro de 1854, (Lisboa), (1954); “A Mangra ou Doença das vinhas”, in Das Artes e da
História da Madeira, vols. IV-V, nºs.24-29, 1956-1959. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos,
Funchal, 1993, p.288.
303.Edward V. Harcourt, A Sketch of Madeira…, London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e
Textos, Funchal, 1993, pp. 362-363
168 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 169

abrangendo a vertente de Machico ao Porto Moniz representava mais de metade da


produção. No Norte as maiores áreas vitícolas, situam-se em S. Vicente, Ponta
Delgada, Porto da Cruz, que até a actualidade se afirmaram como as principais
áreas. A situação tornou-se mais clara a partir de 1821 com o surto dos alambiques
e as crises provocadas pelas doenças em 1852 e 1872. No Sul, as áreas de maior pro-
dução estavam em Santo António, Câmara de Lobos e Estreito, Ponta do Sol, S.
Roque, onde se encontrava também o melhor vinho da ilha para embarque.
De acordo com o mapa da produção, elaborado por Casado Giraldes305, eviden-
cia-se, mais uma vez, o predomínio da capitania do Norte, sobressaindo Ponta Del-
gada, Faial, Porto da Cruz, S. Jorge, S. Vicente e Santana, enquanto no Sul temos
Santo António e Estreito de Câmara de Lobos. A relação entre os valores do vinho
de inferior qualidade e os de superior qualidade de castas europeias era de 3 para
1. A situação é idêntica entre a produção e a exportação o que pode ser encarado
como um forte indicio de que os vinhos do Sul eram reservados para embarque,
enquanto os do Norte ficavam para consumo interno e destilação. A receita do
Subsídio Literário dá conta da mesma diferença, numa relação de 324 para 17,
destacando-se, mais uma vez Câmara de Lobos, Santo António, S. Martinho, no sul
e S. Vicente, Faial, Porto da Cruz, Ponta Delgada, Machico, no norte. Segundo uma
média de produção estabelecida entre 1830/1840 por P. P. da Câmara306 confirma-
se o predomínio do Norte, desde o Faial, Porto da Cruz, S. Jorge, Ponta Delgada,
Santana, e no Sul de Santo António, Câmara de Lobos e Estreito.

PRODUÇÃO DE MOSTO POR CONCELHO 1787-1887(EM HECTOLITROS)


Localidade 1787 1813 1837 1851 1852 1986
Calheta 6773 5295 4106 4573 1063 833
Câmara de Lobos 6838 8850 11960 8208 1455 53891
Funchal 14231 14225 10217 11470 1363 9068
Machico 9348 15580 10882 3017 247 678
Ponta de Sol 7006 4380 5941 4530 348 7225
Borracheiros. Porto Santo 916 1650 2270 2412
Museu Áreas de produção Santana 11214 28760 25576 23341 931 19092
de Photographia Vicentes
Santa Cruz 2528 3695 23925 1493 200 1030
A ilha apresenta duas áreas vitivinícolas perfeitamente demnarcadas. Na vertente São Vicente 19879 30520 26766 19486 4283 38911
Sul, dominada na quase totalidade pelo espaço da primitiva capitania do Funchal, TOTAL 78733 111305 119373 76121 9894 137818
encontramos o melhor vinho, enquanto na vertente Norte, área quase exclusiva da
Obs.: os municípios de Câmara de Lobos e Santana só surgiram após a reforma de Mouzinho da Silveira. A conversão
capitania de Machico, produzia-se em maior quantidade mas de pior qualidade. Este dos barris foi feita pelo valor médio de 50 litros
vinho raramente saia da ilha, sendo usado para consumo interno e fabrico de Fonte: AHU, Madeira e Porto Santo, nº.977, José Pedro Casado Giraldes, Estatística Histórico Geográfica das Ilhas da
Madeira e Porto Santo…, Paris, sd.; Alberto Vieira, História do vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993,
aguardente. pp.295
Já atrás aludimos às áreas vitícolas de acordo com a qualidade e castas e a demar-
cação de 1795, aqui apenas daremos conta da importância e peso no volume de pro-
dução304. Pelos dados de 1787 constata-se que a capitania de Machico, ou do Norte,
305.Estatística Histórico Geográfica da Madeira e Porto Santo, Paris, s/d.
304.AHU, Madeira e Porto Santo, nº 977. 306.Op. cit., pp. 78/81
170 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 171

PRODUÇÃO DE VINHO em hectolitros o ano foi mau sendo a colheita inferior a metade do ano anterior. Apenas a partir
Localidade 1986 1996 1997 1998 1999 de finais da centúria temos informações claras. Assim, enquanto Hans Sloane refere
Calheta 833 770 760 608 1404 em 1687 que a maior parte da ilha estava coberta de vinhedos, em 1689, John
Câmara de Lobos 53891 33827 29414 25602 31483 Ovington torna a situação mais clara, dando-nos os primeiros valores de produção,
Funchal 9068 3194 889 552 1499
que se cifravam em 20.000 pipas312, situação que se repete em 1698313. O vinho era
Machico 678 404 323 102 451
Ponta de Sol 7225 475 205 158 728 o principal produto da ilha, pelo que as colinas e vales estavam abafados de vinha.
Porto Moniz 9293 4231 2947 1715 3764 A vinha ganhou importância no último quartel do século. As vindimas de 1697 e
Porto Santo 2412 507 1187 477 367 1698 foram reduzidas, melhorando no ano imediato, como corrobora William
Ribeira Brava 4664 1449 1103 910 1508 Bolton314.
Santana 15092 7760 5448 2784 6367
Santa Cruz 1030 17 60 645 205
São Vicente 29618 20007 16308 11933 18237
TOTAL 137818 72646 58650 44910 66020

Movimento da produção
Não dispomos de dados completos que permitam acompanhar a produção

P
desde o século XV. A informação apenas se torna frequente a partir do século XIX.
Mesmo assim os dados disponíveis, ainda que avulsos, dão-nos uma ideia do proces-
so evolutivo da produção e da importância que a vinha assumiu na economia agrí- PRODUÇÃO DE VINHO NO SÉCULO XVII. Cálculo estimado315
cola do arquipélago. Em 1455 Cadamosto realçava a elevada produção de vinho,
pois que satisfeitas as necessidades dos residentes se exportam muitos deles.307 A Borracheiros. Foto José Pereira da Costa Com dados disponíveis elaboramos o
ideia mantém-se no século XVI, referindo Giulio Landi, cerca de 1530, que se mapa da produção que contempla os momentos mais significativos da História do
exportava vinho, por lá haver em grande abundância.308 Passados trinta e sete anos, vinho no arquipélago316. A evolução da cultura da vinha adequa-se às exigências do
outro italiano, Pompeo Arditi, refere que toda a ilha produz grande quantidade de mercado e à influência da comunidade britânica na ilha que definiu um destino priv-
vinho.309 ilegiado para o vinho. A partir de meados do século XVII a produção entrou em
Gaspar Frutuoso310 apresenta, para finais do século XVI, o panorama das áreas curva ascendente só parando na década de vinte do século XIX. O golpe mortal foi
de produção do vinho da ilha, referindo 1180 pipas. O Funchal era o principal cen- dado na segunda metade da centúria tendo origem nas diversas doenças que asso-
tro produtor onde se encontravam vinhas de muitos vidonhos e de boas malvasias. laram a vinha. Em 1852 tivemos o oídio e desde 1872 a filoxera. O oídio deverá ter
Aos vinhos de boa qualidade juntavam-se os das Ribeiras do Porto do Seixo, de chegado à ilha em Fevereiro de 1851 em castas trazidas de França. E rapidamente
Santa Cruz e Socorridos, dos lugares de Gaula, Caniço e Câmara de Lobos. A área alastrou a doença a toda a ilha, atingindo de modo especial o Funchal e Machico.
de produção de vinhos de inferior qualidade compreendia as localidades da Ribeira As soluções tardaram e, por isso mesmo, os efeitos fizeram-se sentir de forma pro-
Brava, Ponta do Sol, Canhas, Calheta, Jardim do Mar, Machico, S. Jorge, Ponta longada na produção.
Delgada, S. Vicente e Seixal. Em meados do século XVII a tendência era para a subida em ritmo galopante
Para o século XVII escasseiam dados sobre a produção. Em 1625311 sabe-se que de modo que, num intervalo de 26 anos (1650/76), quintuplicou a produção, man-
307.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.37. De acordo com o dinheiro da imposição sabe-se
que no Funchal se consumiram em 1488 cerca de 439 pipas de vinho [J. M. Azevedo e Silva, A Madeira e a Construção do 312.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, pp.158, 197-198
Mundo Atlântico, Funchal, 1995, vol. I, p.265.]. 313.Cabral do Nascimento, Documentos para a História das Capitanias da Madeira, Funchal, 1930
308.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.83 314.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, pp.341, 351, 366
309.António Aragão, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, 1981, p.130 315.J. M. Azevedo e Silva, A Madeira e a Construção do Mundo Atlântico, Funchal, 1995, vol. I, p.269
310.Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, caps. XV, XVI e XVII. 316.Elementos colhidos em quase toda a bibliografia consultada, sendo de destacar Eduardo Grande e a informação apresen-
311.ARM, CMF, nº.1323, fl.66, 25 de Outubro de 1625. tada por D. João da Câmara Leme, Os Vinhos da Madeira e o seu Descrédito pelas Estufas..., pp. 30/31.
172 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 173

Borracheiros. Borracheiros.
Estreito de Câmara de Lobos.
tendo-se o último quartel do século com valores médios de 20.000 pipas. Se nos 40.000 pipas e dão uma média de 20.000. Até 1852, altura da crise da produção do Postal Antigo.
Foto de José Pereira da Costa primeiros anos do século XVIII os dados oscilaram pouco, desde 1730 é evidente vinho, a Madeira nunca conseguiu estabilizar o mercado exportador, ainda que
a descida, mas é em 1756 que se atinge o valor mais elevado até então, isto é, 35.000 entre 1833/1846 se tivesse dado um curto incentivo, a quebra é acentuada. Se ao
pipas. longo do século XVIII e inícios do XIX a crise se apresentava como de sub con-
Desde 1776 entrou-se numa fase descendente, atingindo-se em 1780 valores infe- sumo, tendo como ponto de partida as mudanças temporárias do mercado de des-
riores (856 pipas), seguindo-se um momento ascendente em 1781/1782, com um tino em pleno século XIX a crise dominou a produção resultando de vários facto-
período de estabilidade até 1796, altura em que a subida foi vertiginosa até 1801. De res e, não unicamente dos patológico-botânicos. Entre 1814/1816 foi evidente a crise
acordo com os dados de 1787 o arquipélago produziu 22.053 pipas de vinho maiori- na produção, pautada pela estagnação do vinho no mercado local em razão da aber-
tariamente na Madeira, uma vez que no Porto Santo tivemos apenas 179 pipas. O tura de outros portos exportadores do vinho de França e Espanha.
restante valor era da capitania de Machico com 68%. O concelho de São Vicente O período que decorre de 1801/1825 foi marcado por altos e baixos, como
era o principal produtor com 3.898 pipas, seguido do Porto da Cruz com 1245. No sucede em 1806, 1810, 1820. O facto revela o incentivo dado à cultura em razão da
Sul o maior volume e qualidade estava no Funchal e freguesias limítrofes, donde saia solicitação que o vinho tinha no mercado mundial e ao elevado preço que alcançou
o chamado vinho de exportação. A afirmação da viticultura na vertente Norte acen- entre 1780 a 1810318. A quebra momentânea da procura com a Paz Geral fez-se sen-
tuou-se na primeira metade do século XIX, mercê da incessante solicitação de vi- tir, conduzindo, à crise de sub consumo em 1820/1821, com reflexos na produção
nhos para exportação e da destilação nos alambiques. Além disso as medidas fruto do abandono das vinhas.
proibitivas de entrada de aguardentes de França foram favoráveis à alambicação dos O período de 1816/1820 foi marcado por uma ligeira quebra, a que se seguiram
vinhos do Norte, cujas guardentes passaram a fortificar os do Sul. anos fartos entre 1821/1827. Isto demonstra que os reflexos da crise nas exportações
Os dados reunidos dão conta que a produção entre finais do século XVIII e iní- só se fizeram sentir a partir de 1837. Embora, entre 1831 e 1851 se note uma recu-
cios do XIX, o período de apogeu, oscilava entre as 50.000 pipas e as 20.000, com peração, atingindo-se valores elevados em 1836, o certo é que a produção estava
uma média de 30.000317. Acontece que os números disponíveis não ultrapassam as
318.O texto anónimo de um autor francês testemunha o surto da viticultura: On planta des ceps sans interruption de la mer a
la montagne et toute la main d’oeuvre disponible fut y employé. La vigne prenait avec une facilité incroyable; même dans le
Nord elle s’enroulait autor des cataigners. L’ile entiére se transforma en une vaste vignoble. [Rupert Croft-Cooke, Madeira,
317.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 78-81, 126-130vº; t. 15, fols. 100vº-104. London, 1961, p.81]
174 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 175

condenada, ficando comprometida desde 1852 com o oídio. Entre 1852/1859 tive- de Ciências de Lisboa, as perdas foram elevadas sendo contabilizadas em
mos os valores mais baixos de produção, que oscilaram entre 30 (em 1855) e 1.872 1.137.990$00 réis, fruto de uma quebra de 132.454,7 barris de vinho
pipas (em 1858). As décadas de 60 e 70 foram favoráveis à produção, denotando-se A busca desesperada de soluções para debelar a crise levou os agricultores a
a recuperação rápida após os anos de doença. Além disso os efeitos da filoxera socorrerem-se dos bacelos de Izabella, resistentes ao oídio, que começaram a chegar
(1872) só se fizeram sentir de forma clara em 1876/1877. O vinho estava condenado à ilha em 1865. Só que eram portadores de uma larva, a filoxera vastatrix, que ata-
e perdia-se na memória dos tempos os anos de abundância e riqueza. cou as raizes das videiras europeias fazendo-as definhar.
Em 1837 a crise de produção é reflexo da estagnação das três colheitas Não foi fácil a recuperação da cultura. O desânimo do madeirense, o abandono
de algumas casas inglesas, a conturbada situação das colónias inglesas, principal des-
(1818/1820). A situação conduziu ao abandono de muitos vinhedos e à fuga da popu-
tino do vinho, fizeram retardar o processo de restabelecimento da cultura. Em 1883
lação do campo para a cidade ou a emigração para as colónias inglesas. A crise acen-
apenas 353 ha dos 2500 que a vinha ocupava quando foi atacada pela filoxera
tuou-se a partir de 1848, caminhando a passos largos até 1851/1852 para um momen- estavam plantados. As estatísticas referem que mais de 80% das vinhas foram
to de forte quebra. Deste modo será errado atribuir ao oídio a origem e princípio da destruídas. Os cuidados com a vinha e a forma de debelar a doença foram morosos.
crise de produção vitícola, uma vez que esta já se arrastava desde 1814 e se eviden- Apenas quatro hectares estavam a ser tratados com sulfureto e as vinhas americanas
ciou de uma forma nítida desde 1837. Mais, a crise de sub produção do vinho liga-se ficavam-se por 40ha. A conjuntura conduziu ao quase total desaparecimento das cas-
a outra de sub-consumo que, como já referimos, vinha de 1815, com expressão plena tas que deram fama ao vinho Madeira. A Malvasia só se salvou na Fajã dos Padres.
1820. A perda dos mercados das Índias Ocidentais e Orientais não foi, no imediato, O panorama da viticultura madeirense mudou passando a dominar as castas amer-
compensada com a conquista do nórdico, já invadido e dominado por outros vinhos. icanas. O quadro dos valores da produção em litros, para o quinquénio de 1935-
A quebra da produção torna-se mais nítida em 1823, 1826/1827, 1830/1831, 1939, evidencia a total dominância do jacquez com 40% do total.
1847/1848 e, como é óbvio, de modo acentuado a partir de 1852/1853. No período
de 1852/1861 fez-se sentir, concomitantemente, uma crise de sub produção e sub
consumo. A tendência de subida da produção só foi acompanhada das exportações
a partir de 1866. Esta coincidência cronológica dos factores patológicos sobre a pro-
dução vitícola torna quase impossível discernir as consequências de um e outro
fenómeno, uma vez que o efeito de ambos se exerce no mesmo sentido319.
A crise vitícola madeirense diferencia-se da que aconteceu no Douro. Na
Madeira desde o primeiro quartel do século XIX tivemos uma forte quebra no volu-
me das exportações resultante da contracção do mercado externo, que se acentuou
a partir de 1852. A retracção do consumo repercutiu-se na produção, conduzindo a
uma diminuição acentuada, fruto do abandono do campo pelo viticultor.
PRODUÇÃO DE MOSTO POR CASTAS. 1935-39320
PRODUÇÃO POR CONCELHOS-1851-1852
Castas europeias Castas americanas
LOCALIDADE 1851 1852 Concelhos Tinta Listrão Verdelho Boal Moscatel Sercial Malvasia Cunnin- Izabela Herbe- jacquez
Babosa gham mont
Funchal 2.2941,3 2.727,8 Funchal 374.628 38.850 3.121 39.854 5.676 1.359 689.124 109.046 202.974 14.785 1.040.085
Santa Cruz 2.987,3 400,8 C. de Lobos 1.792. 10 315 12.561 334 221 43.065 173 10.432 6.141 63 302.127
Machico 6.034,7 4.946,0 Porto Moniz 32 26.463 162 33 2.205 968.168
S. Vicente 49.239 365 558 1.444 140.187 823.616
C. Lobos 16.417,5 2.911,3 Santana 260 3.173 517.599 122.087
Ponta Sol 9.061,0 697,9 Calheta 179.559 120 40 785 3.976 28.723 74.162 37.943 108.065
Calheta 9.146,1 2.127,7 Ponta de Sol 113.584 100 45 3.580 290 68.541 4.679 64.693
S. Vicente 38.972,6 8.566,7 Ribeira Brava 105.136 28 732 17.955 312 1.130 4.245 57.451 1,582 31.317
Machico 7 207.131 17.765 6.062
Santana 46.683,2 1.862,2 Santa Cruz 14.624 34 28 3.518 27.439 18 28.667
Total 152.243,7 19.789 Porto Santo 5.328 106.913 125 185

Tal como informa João Andrade Corvo, no relatório feito em 1854 à Academia A incidência das castas americanas ocorre nos concelhos do Norte, com especial
destaque para S. Vicente, enquanto as europeias tinham plena afirmação no Sul.
319.M. H. Pereira, Livre Cambio e Desenvolvimento Económico em Portugal na Segunda Metade do Século XIX, Lisboa, 1971,
p. 151. 320.José Tavares, Subsídios para o Estudo da Vinha e do Vinho na Região da Madeira, pp.16-17
176 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 177

A total reconversão da área de vinha para cas-


Armazéns de tas europeias só começou verdadeiramente na
envelhecimento de Vinhos.
Madeira Wine Company década de setenta com o impulso e apoio dado
pelo Serviços de Viticultura do Governo Regional
Apenas com o Verdelho e Sercial se altera a situação em favor do Porto Moniz, a da Madeira. A reconversão das vinhas atingiu de
principal área de ambas as castas. A posição maioritária das castas americanas man- modo especial a costa Norte onde dominavam os
teve-se nas décadas de cinquenta e setenta. híbridos americanos. Tudo isto foi resultado de
directivas comunitárias que proibiram a partir de
PRODUÇÃO.1935-2002 1996 os vinhos de híbridos de produtores direc-
Castas Europeias Castas Americanas TOTAL tos. Só a partir daqui sucedeu a inversão dos val-
Hl % Hl % Hl
ores da produção de vinho em favor das castas
1935-39 40365 44,5 50367 55,5 90732
1951 18304 25,6 53328 74,4 71632 europeias321.
1952 19620 24,4 60911 75,6 80531
1953 31816 26,7 87399 73,3 119.215
1954 37474 30,4 85855 69,6 123329
1955 34887 29,7 82693 70,3 117580
1966 24134 24,3 75182 75,7 99316
1971 21340 24.6 65497 75,4 86838
1975 17887 23,7 57839 76,3 75726
1978 26921 27,9 69804 72,1 96725
1979 31453 24,9 85301 73,1 116725
1980 37702 32,8 77259 67,2 114962
1990 40258 52,2 36866 47,8 77124
1991 40934 40,9 59133 59,1 100064
1992 37799 41,0 54544 59,0 92343
1994 31082 58,8 21783 41,2 52865
1997 45546 77,7 13104 22,3 58650
1998 34587 83,2 6989 16,8 41576
1999 51028 77,3 14991 22,7 66019
Pipas.
321.João Brazão, A Reestruturação e Reconversão da Vinha na Região
Vinhos Barbeito, Ldª
Autónoma da Madeira, in Os Vinhos Licorosos e a História, Funchal,
1998, pp. 185-197.
178 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 179

e na Ásia de 10 reis em cada canada de aguardente das que fazem nas terras, debaixo
de qualquer nome que se lhe dê ou venha a dar. Estava assim criado um novo impos-
to que onerava o vinho na produção. O imposto manteve-se por largos anos até 11 de
Setembro de 1861, altura em que foi extinto na Madeira e nos Açores323.
O alvará de 1772 e instruções de 1773324 dão conta do modo a seguir na adminis-
tração do imposto, tendo em conta as fraudes e subterfúgios que habitualmente sur-
giam na arrecadação. As instruções de 1773 especificavam a forma de recolha da colec-
ta: As pipas de vinho a 315 reis cada uma e os almudes a 12 reis, as aguardentes a 248
reis e os seus almudes a 48 reis, e as de vinagre a 160 reis, e os almudes dele a 6 reis
cada hum. Estavam isentos os vinhos produzidos nas cercas, muradas de qualquer con-
vento, que diserem respeito às cláusulas deles, como também o fabrico e os casais e
fazendas, que forem enfiteutas ao cabido da colegiada de Nossa Senhora de Oliveira
de Guimarães...325.
De acordo com as instruções de 1773 e alvará de 1772 a arrecadação deveria ser feita
por meio dos juízes ou contadores. Mando que nos tempos em que os vinhos das co-
lheitas entrarem nas adegas e os do consumo ordinário nas tavernas sejam obrigados
os donos deles a manifestálos perante os respectivos juízes que farão lançar, por termos
estes manifestos nos sobreditos livros, debaixo das penas contra os primeiros do perdi-
mento dos vinhos que não manifestarem, ou os manifestarem com diminuição em pre-
juízo público, contra os segundos de suspensão dos seus lugares até minha mercê nos
casos em que acharem incursos nas negligências de não terem obrigado os donos dos
vinhos de colheitas até o fim do mês de Novembro de cada ano. E os que venderem
vinhos por meudos antes de os recolherem nas tavernas onde será perdido provando-
se que nelas sem ser manifestado, salvos somente os casos que apresentarem certidões
e guias com que provem que as imposições serão já pagas pelos primeiros vendedores.
O mesmo se observará debaixo das mesmas penas pelo que toca às aguardentes,
incumbindo sempre aos ditos respeitos. E em todos os casos os pagamentos, e os
Igreja e encargos as pessoas que fizerem as vendas em grosso os seus armazéns, ou suas ade-
Subsídio literário

L
Colégio dos Jesuítas.
Desenho de E. h. Locker. gas, como sucede nos vinhos das costas e demarcações do Alto Douro, cuja
1805. arrecadação se acha encarregada a Junta da Companhia Geral da Agricultura deles326.
A reforma pombalina dos estudos foi feita para suprir a falta provocada pela extinção Os juízes ou contadores deveriam ir às terras das comarcas e incumbir ao juiz da
da Companhia de Jesus, que detinha o controlo do ensino. Com isto acabaram-se as vara ou o juiz ordinário a diligência de tomarem aos lavradores e mais pessoas delas
colectas usadas para tal, mas em contrapartida criou-se um novo direito para financiar debaixo de juramento dos Santos Evangelhos, os manifestos dos vinhos, que cada um
o ensino oficial. D. José em 1772322 ordenou que acabassem todas as colectas que forão tiver recolhido nas adegas e casas de sua morada e isto no acto da revista, que os ditos
lançadas para por elas serem pagos mestres de leis, e escrever ou de solfa, ou de juízes devem dar ao tempo das colheitas deles. Obrigando-os outrossim a manifestarem
gramática, ou de qualquer outra instrução de meninos... mando que para a útil apli- as aguardentes e vinagres que a esse tempo tiverem nas ditas adegas e que pelo ano em
cação do mesmo ensino público em lugar das sobreditas colectas até agora lançadas e diante fabricarem...327.
a cargo dos povos se estabeleça, como estabeleço o único imposto, a saber, nestes No final do mês de Novembro de cada ano os juízes deviam ter concluída a revista
reinos e ilhas dos Açores e Madeira, de um real em cada canada de vinho, e de quatro
reis em cada canada de aguardente, de cento e sessenta reis por cada pipa de vinagre...
323.Vide “Informação Vinícola”, nº 5, 1950, pp. 1 e 3.
324.ARM, RGCMF, t. 12, fols. 9vº-12vº.
325.Idem.
322.ARM, RGCMF, t. 12, fols. 5-7vº; ANTT, PJRFF, nº 994, fols. 3-4.
326.Idem, t. 13, fols. 5-7vº.
180 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 181

às adegas e casas dos moradores do distrito de modo a enviarem uma certidão autênti- pagarem, a qual é consequência, porque estes povos não tem todo o acatamento devi-
ca extraída do livro dos ditos manifestos328. A partir das certidões o Provedor fazia o do às ordens régias e menos ideias de utilidade resultante deste subsídio. E por isso é
mapa geral que enviava à Junta da Administração e Arrecadação do Subsídio necessário todo o cuidado como em nenhuma outra terra335. Deste modo retornou o
Literário329. Foi este o modelo administrativo aplicado na ilha com a Repartição do sistema antigo, moroso e lesivo do colono ou mieiro.
Subsídio Literário330. Em 14 de Julho de 1777336 o escrivão da Junta do Subsídio Literário, Vicente Luís
O sistema de propriedade, assente no contrato de colónia, gerou dúvidas quanto à Nobre, representou ao monarca os inconvenientes da arrecadação em dinheiro e a pos-
forma do lançamento e arrecadação do imposto. Não se sabia sobre quem deveria sibilidade de passar a ser feito em género por meio de contrato. Deste modo se
recair o imposto: o senhorio, colono ou mieiro. Em 1777 o Governador desfez todas obviaram os inconvenientes devidos à inépcia dos oficiais: Agora devo participar a
as dúvidas por meio de um edital, partindo do princípio que os colonos ou mieiros Vossa Mercê que estes povos estão no miserável estado de não poderem pagar, pois
que, na verdade, são jornaleiros, que as cultivão e recebem a satisfação de seus jornais lhes falta o dinheiro, que aqui é pouco, em vinho muito bem poderião satisfazer, mas
as meunças de todos os frutos que colonizão e que os mesmos eram pobres e a acção ainda que ordem houvesse para isto, muito trabalhosa seria a arrecadação dedução e
de manifesto do vinho os obrigava a deslocações prolongadas e desgastantes, pelo que só assim por meio de arrematação, arrecadando-se a colecta ou por massa geral, ou por
decide: Ordeno, que os ditos lavradores, ou sejam proprietários das fazendas, quais são freguezias como se faz aos dízimos, porque os mesmos rendeiros dos dízimos, os ou-
os que nelas tem o domínio directo e útil, ou sejam arrendatários delas, quais são os tros administrando e recebendo a colecta em vinho era suavíssima aos lavradores e
que por certo e determinado tempo e preço tem só o domínio útil, sejam unicamente lucrosa à colecta, porque neste continente não se praticão as colheitas do reino que vão
os obrigados a manifestarem todo o vinho que produzir cada uma propriedade das passando dos lagares a encubar nas adegas, mas como as terras estão aqui divididas em
ditas fazendas, ou de sua propriedade, ou do seu arrendamento e a pagarem a porções módicas de colonos, estes pisando suas módicas porções que logo imediata-
imposição ou coleta respectiva a todo o dito vinho produzido na sua fazenda sem que mente conduzem a meia parte corespectiva ao senhorio para a cidade, nem dão lugar
sejam contemplados para o pagamento as pessoas, ou colonos a quem os ditos propri- a tirar guias, o que é impraticável por ser a condução em barris de dois almudes, ou
etários ou arrendatários façam à parte ou o todo dos ditos vinhos, ou em pagamento, odres sobre ombros de homens, porque a escabrosidade dos caminhos faz imprati-
como é aos colonos, ou em renda, como é aos mercadores que lhes comprão. Ficando cáveis outras condições. Ou deixão de pagar a colecta quem só tem 2, 3 e 4 barris o
lhes sempre o direito salvo (se entenderem que o tem) para haverem dos mesmos que farião se pagassem o vinho por almudes. E por isso é impossível fazerem os juízes
colonos, e dos mesmos mercadores a importância respectiva à coleta que pagarem dos leigos o lançamento como devem, porque não há adegas lá para onde se conduzão, ou
referidos vinhos, que pelos referido modo lhes entregarem331. Eram os proprietários ou são de mercadores, que comprão em mosto, ou de senhorios em que recebem as suas
arrendatários que pagavam os direitos do vinho e tinham poderes para deduzi-los do mais partes do rendimento, ficando a outra meia parte, que pertence ao colono no
total da colheita. Em aviso às câmaras de 12 de Julho de 1777332, em consequência do arbítrio deste quando não chega a pipa a ocultá-lo, além de que os oficiais para os lança-
edital, ordenou-se o manifesto dos vinhos. O pagamento era feito em dois quartéis, mentos são inábeis, e escusão-se com razão pelas longas e falta de possibilidade, porque
sendo o primeiro pago logo no início e o segundo a partir de 5 de Novembro333. as vilas são muito distantes e os oficiais opidâneos são inertes mas assim vão tratando
Como seria de esperar a medida não teve bom acolhimento por parte dos propri- do modo mais activo que pode ser337.
etários, que se sentiram lesados. Em 27 de Novembro de 1778334 dá-se conta que sendo Noutro documento de 1779338 insistiu-se na má arrecadação e administração dos
parcial (o edital) fez causar uma revolução nesta terra que nem a política e o cuidado juízes nas comarcas: Nem a ilha pelos juízes ordinários rudes que há nas ilhas e que só
com que a Junta fez logo anular o dito edital e influir nos povos, que em nada se altera- o seu sinal mal fazem podem dar conta de semelhante encargo, porque os chamados
ria a cobrança da sua consistência antiga, pode remover a repugnância congénita a à Contadoria Geral da Junta para aprenderem, tanto pela sua inversível ignorância,
como pela quotidiana expulsão de uns, entrada de outros, e finalmente pela longitude
das terras e um só escrivão não pode, porque nem tem que viver e menos com que
327.Idem, t. 12, fols. 9vº-12vº.
328.Idem.
transitar, porque os moradores são avulsos por não haver na ilha povoações ou lugares,
329.Para a escrituração existiam vários livros de contabilidade - um borrador, um livro-diário, um livro do mestre, 4 livros de reg-
isto de ordens, e 7 livros auxiliares . Cf. A. F. Germano, O Subsídio Literário e os Estudos Menores - 1772/1782, Lisboa,
nem os colonos encubam os vinhos em suas adegas, porque não as tem...339. As
1969 (tese de licenciatura em História apresentada em Lisboa à Faculdade de Letras), pp. 95/96.
330.Da acção da repartição, guardam-se no ANTT [ANTT, PJRFF, nº 994/1186.] alguns livros que atestam a actividade e nos
fornecem elementos importantes para o estudo de determinados aspectos da estrutura da propriedade fundiária na ilha
[Idem, nº 1049/1073.]. 335.Idem, nº 994, pp. 8/11.
331.ANTT, PJRFF, nº 995, p. 11. 336.Idem, nº 994, pp. 8/11.
332.Idem, nº 995, pp. 12/14. 337.Idem, nº 994, pp. 8/9.
333.Idem, nº 995, pp. 14/15. 338.Idem, nº 994, pp. 25/41.
334.Idem, nº 994, pp. 26/28. 339.Idem, nº 994, p. 37.
182 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 183

recomendações foram de pouca importância, pois que nada havia sido feito até 1788340 maior parte é transportado (o vinho em mosto) para a cidade do Funchal em mosto e
mantendo-se a prática lesiva dos juízes: Estes umas vezes por negligência, incapacidade, no breve espaço da vindima, que dura de 40 a 50 dias, sendo o seu transporte feito
outras vezes por ser aquele trabalho sem remuneração alguma deixam passar o ano do parte por mar e parte por terra, em muito pequenas porções. Nestes termos quais serão
seu juizado sem fazer diligência alguma, correspondendo unicamente em cartas e as pessoas encarregadas desta cobrança, que tão breve espaço possam tomar denuncias,
respostas de dúvidas e embarcações, desculpando-se com os procedimentos de seus receber o pagamento e passar guias e examinar os vinhos que em tão grande quanti-
antecessores ou exagerando a miséria e impossibilidade dos colectados, ao ponto, que dade entram naquele espaço, assim por mar, como por terra, não só de dia, como de
quando pela Contadoria Geral se chega a conhecer os fundamentos verdadeiros ou noite. Que confusão e desordem se seguiria em querer embaraçar o expediente destes
inabilidade, ou descuido dos juízes ordinários, é em tempo que tem findado a sua juris- indispensáveis transportes, quando no campo se não achão adegas suficientes para o
dição e produz novos motivos de desculpa, que deste modo se amontoam as dúvidas, vinho, porque a parte dos senhorios, habitantes nesta cidade, toda é transportada para
impossibilitar-se os devedores e se confundem os procedimentos e escrivães, os quais esta, e a maior parte do vinho dos caseiros, é vendida à bica a infinitos habitantes tam-
muitas vezes se aproveitam desta mesma desordem para se servirem dos dinheiros bém desta cidade para d’onde os transportão.
cobrados e espalhados pelas freguezias. Em 1787344 procedeu-se à reformulação da lei de 1772 com o novo regimento dado
À inépcia dos arrecadantes juntava-se a retracção dos arrecadados e a falta de opera- pelo Visconde de Vila Nova da Cerveira e, em 1805345 determinou-se uma nova modali-
cionalidade das repartições da Junta na vigilância e controlo, pois a população desta ilha dade de arrecadação com o recurso aos arrendamentos. Procedeu-se à arrematação da
dispersa por branhas e serras, sem lugares ou aldeias, em que não pode caber na colecta para os anos de 1805/1807, ficando encarregado Francisco Alexandre Silva. Em
diligência dos exactores vagarem, ainda quando não os embaraçasse, a incapacidade, e 1798346 os proprietários negaram-se ao pagamento da colecta, ocultando a quantidade e
comissão, pobreza...341. À Junta não interessava nem era possível punir todos os infrac- qualidade do vinho produzido, contado para o efeito com a complacência do escrivão
tores, mas apenas os casos mais gritantes, para servirem de exemplo, como então se da arrecadação. A 14 de Março347 a Junta recomendou ao Juiz vereador da cidade que
dizia. A justificação foi mais uma forma de subtrair a responsabilidade directa e define exercesse vigilância sobre a acção do escrivão. Neste ano corria um processo contra
a complacência dos quadros administrativos. A Junta pautava-se pelos seguintes princí- Agostinho Pedro de Vasconcelos e Manuel Acciauoly, por não ter pago a colecta de
pios: Porque esta tem por dictame castigar poucos para terror de muitos e não destru- 1795348, o que prova a maior dureza da Junta após a reformulação do regimento em
ir um corpo desfalecido quando vê que a falta de prontidão nos exactores nasce da mi- 1787. É também a partir de então que os livros de registo da arrecadação são mais abun-
séria em que vivem sem os lucros a que esta junta não pode deferir, vendo que os mere- dantes.
cem pela pobreza em que são obrigados a vagarem por serras e branhas, a desamparem Por alvará e edital de 7 de Julho de 1787 isentou-se os vinagres e aguardentes,
suas casas e famílias, e a conduzirem consigo o alimento, pagando casas, por não haver enquanto os vinhos verdes ou de enforcado pagavam apenas 120 réis por pipa, o que
estalagens; finalmente porque os mesmos oficiais por falta de rendimento de ofícios, em 1789349 foi abolido, passando a pagar igualmente 315 réis por pipa e 1 real por cana-
são inertes, por não se aporem a eles alguns hábeis, o que dá causa a não persistirem e da. A medida de interditar as aguardentes e vinagres tinha, de certo, em mente uma
nunca poder conseguir-se, não manifestos regulares, mas nem clareza desordenada, consulta de 1779350 que referia aos inconvenientes da colecta sobre o vinagre e
numa força dos emprazamentos de juízes e oficiais, de que outra consequência alguma aguardente, únicos géneros que faziam mover desta ilha o comércio do Brasil, comér-
se tira do que perpetuarem-se nos cárceres, como então alguns sem poder averiguar-se cio tão suspirado... visto que por indolência dos povos se não tinha com a corte351. O
a sua responsabilidade e dívidas342. comércio era tão pouco que, a manter-se o estanco a favor do imposto, ficaria reduzi-
Segundo a lei de 1772, que criou o subsídio literário, era necessário proceder-se aos do a nada.
varejos e guias, aquando da passagem do vinho de uma localidade para outra, de modo Os dados quantitativos evidenciam a evolução do volume do produto arrecadado e
a evitar-se as fugas ao tributo e os inconvenientes de uma segunda imposição. A prática a relação directa com o volume de produção. A partir de 1805 é evidente a assiduidade
seria difícil de concretizar na ilha, sendo necessárias soluções que se adaptassem aos na marcação dos dados das colectas, facto que deve resultar de as colectas passarem a
condicionalismos locais. A primeira medida foi a obrigatoriedade dos senhorios e ser feitas por meio de contratos de arrendamento por hasta pública.
lavradores ou arrendatários darem conta do vinho produzido e pagarem a respectiva
soma aos juízes encarregados da arrecadação. Em consulta de 1789343 justifica-se: A 344.Idem, nº 996, pp. 17/18.
345.Idem, nº 996, p. 85.
346.Idem, nº 995, pp. 63/5.
347.Idem, nº 995, pp. 65/68.
340.Idem, nº 995, pp. 50/52. 348.Idem, nº 995, pp. 69/72.
341.Idem, nº 994, p. 74. 349.Idem, nº 996, pp. 24/25.
342.Ibidem, nº 994, pp. 76, 91. 350.Idem, nº 995, pp. 25/41.
343.Idem, nº 995, pp. 53/54. 351.Idem, nº 761, pp. 173/174.
184 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 185

LOCALIDADE 1795 1796 1802 1803 1804 1805 1809 1811 1812 1816 1817 1818 1819 1823 1825 1827 1828 1829 1831 1832 1833 1834
Arco da Calheta 112749 108981 151563 51271
Arco de S. Jorge 65219
Calheta 144403 143036 84208 62774
Camacha 1992 11057 170672
Câmara de Lobos 67744 110130 84209 211708
Campanário 170790 60482 46004 25965 55700 60733
Canhas 87889 26565 99649 18023 48619
Caniço 126334 56406 39523 37022 13936 13463 24153 33550 24099
Curral das Freiras
Estreito da Calheta 115011 108981 279880 75438
E. Câmara de Lobos 215644 149623
Faial 349541
Fajã da Ovelha 22164 13885
Gaula 28004 21418 11341 17588 23136
Jardim do Mar 13892 19374
Madalena 18580 23610 9591 21535
Machico 37551 210509
Monte 50309 45714 61977 59695
Nª Senhora do Calhau 54782
Ponta Delgada 403986
Ponta do Pargo 12840
Ponta de Sol 53072 26020 52633 27008 49403 104171
Porto da Cruz 343364 212135
Porto Moniz 94456 339100 83194
Porto Santo 108582 269757 128512 188172 208012 108847 82419 64968
Prazeres 11478 9441
Ribeira Brava 46944 12282 56332 152396
Ribeira da Janela 108632 71322
Santa Maria Maior 81582 33294 33431 60896 67138 42275 41988
Santa Cruz 144374 68841 31285 63613 52477 93379
Santana 100438 132418
Santa Luzia 93467 99649
Santo António 301570 166495 143095 282370
São Gonçalo 39871 19009 32512 15269 23385
São Jorge 45644
São Martinho 72147 74178 113134
São Pedro 315672 58402 75887 85061
São Roque 82229 52282 86797
São Vicente 351941 269503
Sé 1769 1127
Seixal 169374
Serra de Água 160075 6726 33795 8524
Tábua 35661 63504 21505 6536 25960 26661

SUBSÍDIO LITERÁRIO.
186 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 187

Marcas da firma Cossart Gordon & Co.

Os preços

Borracheiro. E. C. Lobos.
Foto Figueiras.
Photographia Museu Vicentes
P O estudo dos preços torna-se importante na abordagem das flutuações económi-
cas e conhecimento do processo histórico no geral352. Guiados por este princípio
decidimo-nos por uma breve abordagem dos preços do vinho. Acontece, que uma
análise do movimento de preços necessita de uma reflexão aturada da dinâmica
envolvente, uma vez que os números e gráficos, de per si, não são elucidativos e idên-
ticos aos movimentos de produção e exportação. Aqui há que ter em conta a relação
entre os valores monetário e real, com o ouro e prata. No caso da Madeira devemos
ter em conta a disponibilidade de prata uma vez que a moeda corrente era a prata
espanhola. A moeda circulante na ilha entre os séculos XVII/XIX foi a pataca espan-
hola. Estamos perante um facto notável se tivermos em conta a obsessão pelo ouro e
dos ingleses não terem conseguido inverter a situação353.
A questão financeira dominou as carências do mercado insular sem nunca se ter
encontrado uma solução satisfatória, reflectindo-se nas crises económicas que
sucederam ao longo dos séculos XVIII e XIX. Em 1799354 a situação económica da

352.Como o sugere A. Silbert [Do Portugal do Antigo Regime ao Portugal Oitocentista, Lisboa, 1977, pp. 3/31] no estudo que
faz sobre o movimento dos preços dos cereais em Lisboa desde 1750/1850: Ninguém ignora quanto a História dos preços
pode enriquecer a História Geral. Ela permite tirar conclusões suficientemente seguras sobre as flutuações. É indispensável
a toda a tentativa de compreensão de um período. Os movimentos longos agem sobre as estruturas ou reflectem as mod-
ificações que as afectam. E o jogo combinado das estruturas e conjunturas apresenta muitas vezes a chave das grandes
transformações históricas [Idem, ibidem, p. 9.]. V. M. Godinho [Introdução à História Económica, Lisboa, s/d, pp. 87/181, e
no Dicionário de História de Portugal, vol. IV, pp. 488/516. Prix et Monais au Portugal.1750/1850, Paris, 1955.] salienta que
a importância do estudo do movimento de preços com elemento importante para o estudo de uma dada conjuntura
económica, tendo para tal feito um estudo, bem elaborado sobre preços. No que foi secundado por M. H. Pereira [Livre
Câmbio e Desenvolvimento Económico..., Lisboa, 1971, pp. 189/231.]. Num estudo do movimento dos preços agrícolas na
segunda metade do século XIX, tendo em consideração que por tal meio seria possível verificar a correlação entre as alter-
ações produzidas na produção e os preços e entre estes e a exportação.
353.A. Silbert, Madère un Carrefour..., pp. 42/44.
354.ANTT, PJRFF, nº 761, pp. 52/59.
188 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 189

ilha é resultado do facto de não haver dinheiro girante e em girar o pouco em No século XVII o preço de compra do mosto era estabelecido em vereação, de
moeda castelhana de 200, 100 e 50 reis com vinte e cinco por cento de perda no acordo com as estimativas da produção e a qualidade da colheita de acordo com a
valor de 160, 804 reis, porque corre fora da ilha quanto ao dinheiro sarrilhado, posição geográfica das vinhas: meias terras acima ou meias terras abaixo362. A desig-
porque o do Peru ou mechicano se não pesa como devera e como susceptível de nação, que diferencia os preços de acordo com a altitude, desapareceu a partir de 1667.
furto se vai o povo agravando355. Como solução tivemos a substituição pela moeda
PREÇO DO MOSTO.1620-1667
do reino, o que facilitou as trocas. Em 1813 a falta de dinheiro corrente era crónica, Ano Meias terras cima Meias terras abaixo
contribuindo para isso as práticas especulativas dos comerciantes: Há aqui nego-
1620 5$500 4$800
ciantes com grandes liquidações em todos os artigos, sem comprarem vinhos, nem 1625 5$000 6$000
letras. Tem estes contra si a presunção de réus na matéria sujeita, minando surda- 1665 5$000 4$500
mente o fundamento principal do comércio, que é a moeda, com prejuízo público 1667 6$500 7$000
e particular, pois falta o dinheiro e para paga da Real Fazenda, dos proprietários dos
vinhos, falta o giro das letras e por consequência extinta aquela mola real ficam O preço de venda à bica do lagar tinha em conta não só a área de proveniência
paradas todas as ramificações do bem público e particular. Tão grandes males mere- como também o tipo da casta. No Funchal estabeleceu-se a diferenciação entre as
cem proporcionados remédios356. meias terras abaixo e meias terras acima. Depois demarcaram-se as áreas entre S.
Em 1821357 a falta de moeda foi compensada pelo hábito da troca directa, de pro- Gonçalo e Câmara de Lobos e daí por diante até à Lombada da Ponta de Sol363.
duto a produto, sendo o vinho a moeda corrente ou a contrapartida à importação Quanto à casta sabemos que a Malvasia era a mais valorizada, havendo uma dife-
de comestíveis e manufacturas358. Quando o circuito falhava era o caos financeiro renciação do preço por localidade. Em 1641 uma pipa de malvasia do Caniço, ven-
para o agricultor e o momento ideal para o inglês aumentar os réditos, através do dida à bica do lagar, custava 8$000 réis, situando-se o demais entre 4 e 5$000 réis364.
crédito aos agricultores. A situação marcou a relação entre o agricultor e o comer- Em 1846 ao barril de mosto de Malvasia da Madalena do Mar valia 3$600 réis,
ciante de vinhos e do preço de compra do vinho. A prática dos mercadores ingleses enquanto a dos Anjos, nos Canhas ficava por 2$500365.
foi vantajosa, não só porque assegurava uma permanente actividade dos represen-
tantes e casas comerciais, mas igualmente porque era um incentivo ao controlo dos PREÇO DO MOSTO POR LOCALIDADE DE ACORDO COM A CASTA.1839-1848

circuitos comerciais e preços de compra do vinho. Contra isto manifestaram-se por CASTA LOCALIDADE 1839 1846 1848
várias vezes a Junta e a Câmara. A primeira referência surge em 1722359, dando-se Anjos 3400 5010
conta que o vinho da Madeira era escoado para o Brasil ou vendido aos ingleses e Madalena 4200 2400
Santa Cruz 4000
lhe tinham pouca conveniência, porque os ingleses os queriam extrair, como Arco da Calheta 5000
extraem, por muito inferiores preços e a troco de alguns géneros comestíveis, que MALVASIA Jardim do Mar 5500 4000
lhe tinham pouca conta aos moradores dessa ilha. Paul do Mar 7000 5700 4300
Calheta 3600
Em 1814360 com o tratado de 1810 a dominação inglesa fazia-se sentir de forma Canhas 1800
vincada, tornando o comércio dos insulares passivo: O nosso comércio é absoluta- Ribeira Brava 2300
mente passivo, os ingleses põem o preço aos nossos vinhos e aos seus efeitos. O SERCIAL Paul do Mar 5000 3000 3000
cabedal da gente da terra está todo em poder deles pelos longuíssimos prazos, a que S. Vicente 3000
Jardim do Mar 4500
tem puxado os pagamentos e para aguentar, ainda, a sua preponderância e
BOAL Paul do Mar 4000 3200
ascendência comercial trabalham por fazer parar nas nossas mãos, para passar às
suas pelo preço que quiserem um grande excedente de vinhos e não há decerto
No século XX as câmaras municipais passaram a diferenciar a qualidade do
meio mais adequado para obter este danado fim do que arruinar e obstruir o nosso
vinho por sortes. Os preços eram tabelados em 3 sortes:
consumo interior, que sendo só dos nossos vinhos, emparelha com a exportação361.
355.Idem, p. 55.
356.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 59-59vº.
357.Idem, t. 15, fols. 263/264. 362.T. B. Duncan, Atlantic Islands, Chicago, 1972, pp.40-43
358.ANTT, PJRFF, nº 942, fols. 45, 160; idem, AF, nº 239, fol. 54vº. 363.Em 1661 o primeiro vinho valia 8$000 e o segundo 7$000, veja-se João Adriano Ribeiro, Ribeira Brava. Subsídios para a
359.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 59-59vº. História do concelho, Funchal, 1998, p.157
360.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 79vº/81. 364.F. Mauro, ob.cit., p.119.
361.Em documentos de 1814 e 1817 alude-se ao mesmo facto, vide ARM, RGCMF, t. 14, fols. 87vº, 154-155. 365.J. Adriano Ribeiro, Ponta de Sol. Subsídios para a História do Concelho, Ponta de Sol, 1993, p.117.
190 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 191

LOCALIDADE 1821 1822 1839 1844 1845 1846 1846 1848 1850 1851 1852
1ª 2ª 3ª 1ª 2º 3ª 1ª 2ª 3ª 1ª 2ª 3ª 1º 2ª 3ª 1ª 2ª 3ª 1ª 2ª 3ª 1ª 2ª 3ª
Água Pena 4000 4000 3800 3300 3000 1310 1900 1400 1200 2800 1800 1500 2800 2000 1700 1500 1200
Arco Calheta 4.500 45000 3000 2400 2000 1800 1600 1500 1380 1200 1800 1400 1300 1000 800 2000 1600 1200 2000 1500 1200 1200 1000 800
Arco S. Jorge 2800 3000 2500 2000 1450 1500 1200 1000 800 1500 1100 1800 1500 3000
Boaventura 1000 700
Calheta 4000 3800 2800 2500 2000 1800 1600 1500 1380 2000 1800 1400 300 1100 900 2200 1800 1500 2000 2000 1800 1500 1200 1000
Camacha 1800 1200 1100 3000 2200
Campanário 5600 6200 4000 3200 2500 1200 1500 4000 3500 2500 2200 1800 5000 4500 2500 2000 1600
C. Lobos 5600 6000 4000 3000 7000 6000 4000 3500 2500 1500 2400 4700 4000 2000 5300 4500 2500 5400 4000 2500 3800 2500 1500
Canhas 3500 3000 2500 2000 1200 1400 1000 800 1100 1800 1500 800 1400 1000 700 2000 1500 800 1800 1500 1400
Caniço 4000 4500 4000 3000 2700 2400 1800 1600 1100 1400 2000 1600 1200 1700 1400 1000 2100 1800 1200 2000 1500 1200
Curral 2000 100 900 935 1100 800 900 800 1500 1200 1400 1100
E. Calheta 3000 3000 2700 2500 2400 1800 1500 1300 1380 1800 1600 1500 1300 1200 1800 1600 1400 1800 1700 1500 1800 1200 1000
E. C. Lobos 5500 5500 4000 3000 6600 4500 3000 3500 2500 1800 1700 4500 3000 2000 2800 2000 5000 3500 2500 5100 3500 2000 3500 2200
Faial 3400 3000 3000 2500 2000 1600 1300 1000 1200 1700 1400 1100 1200 1100 1000 2000 1700 1400 2000 1800 1400 3000
Fajã Ovelha 4000 4500 3500 3000 1500 2000 1800 1000 1220 2900 2000 1500 1500 1200 800 3200 2000 1500 2000 1500 1200
Gaula 4000 4000 1900 1500 1000 1400 2000 1600 1200 1600 1400 1000 2000 1800 1200 1900 1800 1300 2000
Jardim do Mar 3500 3000 1500 4000 3500 3000 4000 3000 2000 1500 800
Lombada 5000
Machico 3000 2500 2600 2300 2000 1310 1500 1300 1100 1300 1200 1000 1800 1600 1400 1900 1600 1400 1500 1200 1000
Madalena 3500 3500 3400 2800 2000 1800 1500 1300 1120 1800 1500 1200 2000 1600 1200 2000 1800 1500
Monte 4500 4500 4200 2000 1700 1900 2200 2000 1600 1200 2600 2200 3000 2600 1500 1200
Nª Sª Calhau 5000 5000 4000
Paul do Mar 4000 5000 3000 2800 1220 3000 5500 5400 4000 8000
P. Delgada 3000 2000 3000 2300 2000 1400 1100 800 1320 1900 1600 1300 2200 1800 1600 3000 4000
Porto Moniz 5000 4000 3600 3300 3000 2000 1800 1600 1700 2000 1700 1600 1500 1300 1100 2500 2200 2000 4000 3500 2500
P. Pargo 4000 5000 3000 2500 2000 2000 1500 1200 1220 2400 2000 1500 2000 1500 1000 3000 2500 5000 1800 1200
P. Sol 3000 3000 2600 2000 1200 1500 1100 800 1100 1900 1400 1000 1500 1200 800 2000 1500 1000 1500 1200 800 2000 1500 600
P. Cruz 3200 3000 3400 3100 2700 1600 1400 1000 1500 1600 1500 1200 1600 1500 1300 2000 1800 1500 2000 1900 1800 3200 2000 1500
Porto Santo 1410 1600 1500 1400 1300 1200 1100 2000 2400 2300 2200 4200 4000 3800
Prazeres 5000 3000 1220 2500 2000 1000 1500 1300 800 2000 1500 1000 1800 1600 1200 1200 1000 800
Ota Grande 2000 1600 1300 4000 4000 3000 3000 2000
Ribeira Brava 5000 4500 3500 4000 3500 1800 2200 1600 800 1100 2500 2000 1500 1600 1200 800 2000 1600 1200 2600 1500 800 3000 1800 1000
R. Janela 3500 3000 3000 2500 2000 1500 1300 1000 1700 1700 1500 1200 1300 1200 1000 2000 1800 1500 2600 2000 1500 3000
Santa Cruz 4000 3900 4000 3500 1900 1500 1100 1400 2000 1600 1200 1600 1400 1000 2000 1800 1500 2000 1600 1200
Santana 2400 2200 2000 1800 850 709 1230 1300 1000 900 800 1200 1000 1500 1000 2000
S. Maria Maior 2500 2200 1800 1910 2800 2500 2000 2200 2000 1600 3000 2500 2200 3300 2600 2200 1000
Santa Luzia 4500 4000 1800 1600 1500 1900 2100 1900 2400 1800 1400 2500 2200 2000 3000 2500 2000 1500
S. Martinho 5000 5000 4000 2000 2160 3000 2400 4000 4000 6000 3000
S. Pedro 5000 5000 3500 2600 2200 1600 2350 3000 2600 2000 2400 1800 1400 4000 3000 2000 4000 3000 2000 5500 2500
S. António 5500 5000 2600 2000 2450 3000 2400 2400 1700 3800 2500 4000 2800 3000 2200
S. Gonçalo 4500 5000 4000 3000 2300 2000 1400 1910 2700 2200 1800 2000 1800 1500 3300 3000 2800 3300 2800 2600 1500
S. Jorge 2600 2100 2000 1000 950 1220 1350 1200 1000 900 800 1200 1000 1400 1300 3000 1000
S. Roque 5000 5000 4500 2500 2200 1900 2900 2400 200 1700 3300 2700 3300 2600 2200
S. Vicente 1500 1500 2000 900 800 1365 1400 1300 800 700 1100 1000 1500 1500 1000
Seixal 3300 3000 2800 2300 2200 1200 1100 1000 1410 1600 1500 1400 1200 1100 1000 1800 1600 1500 2500 200 1800 3000 2500 2000
Serra Água 1400 1200 1000 1100 1800 1500 900 1500 1300 800 1900 1500 1000 1600 1200 800 1000
Tabua 5000 4600 3000 2500 2800 2000 1400 1400 1000 800 1100 1800 1500 1000 1800 1200 600 1800 1400 1000 1900 1400 1000 2000 1200

PREÇO DO MOSTO POR FREGUESIA.1821-1852


192 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 193

Para o período de 1699 a 1863 temos informação dos preços da pipa de mosto de 16.000 reis o barril. A quebra acentuou-se, atingindo valores de 3.000 e 8.000
vendida à bica do lagar no concelho de Machico366: reis, igual ao que tivera há cerca de 250 anos370.
Em 1829 pressente-se uma ligeira recuperação a que se seguiu entre 1833/1834
PREÇO DO MOSTO EM MACHICO. 1699-1863
uma quebra superior à de 1819/1823, num momento em que a exportação se encon-
Ano 1ª sorte 2ª sorte 3ª sorte trava em notável recuperação, se tivermos em conta os anos de 1830/1831. Entre
1699 13$000 10$000 6$000 1837/1845 tivemos um aumento acentuado do preço da pipa de vinho, seguindo-se
1700 9$000 7$500 5$000 a partir de 1846 uma quebra que se manteve até 1850, altura em que aumentou de
1712 11$000 7$000 4$000
1799 48$000 36$000 30$000 forma vertiginosa, como se pode verificar entre 1851/1854371, atingindo em 1863 o
1800 56$000 54$000 48$000 valor de 80.000 reis, regressando em 1875 a valores inferiores. A subida do preço
1814 80$000 75$000 70$000 justifica-se pela permanência da procura pela colheita má, provocada pelo oídio. A
1815 100$000 80$000 70$000
1823 25$000 22$000 20$000 quebra foi provocada pela estagnação em 1878 dos vinhos nos armazéns. Entre
1829 30$000 26$000 21$000 1882/1888 a tendência foi novamente para uma progressão descendente372. A subi-
1833 18$000 16$000 13$000 da nos inícios da década de noventa prende-se com o facto de se ter retomado a
1834 19$000 16$000 12$000
1850 18$000 16$000 13$000 queima de vinhos para o fabrico de aguardente. Embora em 1893 as perspectivas
1851 19$000 16$000 14$000 não fossem as melhores a tendência desde 1898 foi para subida atingindo mais de
1860 50$000 30%, fruto do aumento das exportações e consumo local. Acontece que nos anos
1863 80$000
imediatos o preço desceu devido às colheitas abundantes. O início do século XX foi
A partir do quadro da evolução global do movimento de preços é possível con- marcado pela estagnação dos preços dos vinhos superiores, enquanto com os infe-
statar a influência dos factores atrás enunciados. Partindo dos dados disponíveis riores do Norte a tendência foi para descida em 1907 e de subida em 1912.
vamos acompanhar a evolução dos preços do vinho. Desde 1615 a 1815 a tendência No mercado local o preço do vinho em mosto variava de terra em terra con-
geral foi para uma subida acentuada que se evidenciou nos anos de 1810/1815. O soante a qualidade e as castas. Os preços eram tabelados anualmente pelo
facto revela a importância que ganhou no mercado colonial consumidor. O período Administrador do concelho373, de acordo com os condicionalismos de cada área pro-
de 1810/1815 define-se por valores elevados marcando um dos momentos mais sig- dutiva, sendo a principal diferença entre os preços do vinho do Norte e o do Sul.
nificativos do comércio e valoração no mercado internacional. Em 1813 atingiu-se o Em 1783 enquanto os preços do Sul oscilavam entre 60/80.000 reis por pipa, os do
preço mais elevado. A situação é tanto mais saliente, se tivermos em consideração Norte ficavam por 30 a 50.000 reis; em 1850 enquanto os do Sul eram vendidos a
que a produção de 1812 foi das mais profícuas (40.000 pipas) correspondendo tam- 50.000 os do Norte por 30.000. No que concerne à qualidade do vinho tem-se em
bém a uma exportação de valor elevado (22.000). A quebra do preço em 1814 só se conta quatro sortes com preços distintos para a mesma casta. Em 1822 na freguesia
torna compreensível com a descida acentuada das exportações, pois que o volume de Câmara de Lobos o vinho comum da primeira sorte vendia-se a 6.000 reis ao
de produção é reduzido, acentuando-se em 1815, o que provocou um aumento do barril, da segunda a 4.000 e da terceira a 3.000.
preço. As castas, de acordo com a região a que pertenciam, tinham preços variados. A
A partir de 1819 a tendência foi para descida, que se acentuou em 1823 e Malvasia do Paul do Mar vende-se a 7.000 reis o barril, do Arco da Calheta a 5.000,
1833/1834. No primeiro caso a situação explica-se pela estagnação da colheita dos da Madalena a 4.200, Santa Cruz a 4.000, dos Anjos a 3.400 (1839). Outra modali-
três anos antecedentes por falta de escoamento367. Estava-se num momento de fartas dade de preço era estabelecida consoante a casta. Em 1839 no Paul do Mar temos
colheitas e de contracção do mercado do vinho. A conjuntura vintista não foi favorá- a Malvasia a 7.000 reis o barril, o Sercial a 5.000 e o Boal a 4.000; em Santa Cruz o
vel à viticultura madeirense. A contenção das pipas de vinho vinha-se verificando vinho ordinário a 3.100, a Tinta e Malvasia a igual preço.
desde 1819368, acentuando-se em 1821369 com a estagnação de 20.000 pipas de vinho A situação manteve-se no século XX apontando-se, em muitos dos casos, a ati-
nas adegas. A quebra do preço foi elevada, ficando reduzido a 1/3 do de 1817, cerca tude dos chamados partidistas que se substituíram aos ingleses. A depreciação dos
preços de compra do vinho era uma forma de exploração, tanto mais evidente

366.Zita Cardoso, Machico. Cidade Histórica, Machico, 1996, p.32 370.Idem.


367.A. Silbert destaca a mesma conjuntura de crise no reino, vide, Le Problème Agraire Portugais au Temps des Premières 371.Coincidindo com igual subida coincide com igual subida do vinho do Porto conforme salienta M. H. Pereira, ibidem, pp.
Cortes Libérales, Paris, 1968, pp. 37/9. 223/229.
368.ARM, RGCMF, t. 14, fols. 198-199vº 372.Idem, t. 14, fols. 263-264, 100vº-104.
369.Idem, t. 15, fols. 263-264, 100vº-104. 373.ARM, RGCMF, t. 18, fols. 97/98.
194 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 195

quando se estabelecem comparações. Antes da Primeira Guerra Mundial a pipa do


vinho do Porto valia 70$, quando o Madeira não ultrapassava os 20$, inferior ao
preço dos chamados vinhos de pasto do continente374.
Os madeirenses estavam dependentes dos interesses das casas de vinho inglesas
que fixavam os preços. Em finais do século XIX a casa Cossart Gordon Lda., uma
das principais no comércio de vinho, era quem de forma arbitrária estabelecia o
preço. Aliás, o senhor Cossart era considerado o rei do comércio do vinho da
Madeira.375 Para combater o poder discricionário dos estrangeiros insistiu-se na cri-
ação de uma associação de viticultores, o que veio a suceder em 1900 com a Real
Associação Vinícola da Madeira, que teve apenas um ano de vida.376
O estabelecimento do preço manteve-se durante muito tempo ao livre arbitrio
dos comerciantes e partidistas. A partir de 1835 a classe de Exportadores de Vinho
da Madeira, da Associação Comercial do Funchal, anunciava os preços de compra.
O preço começou por ser determinado anualmente antes da vindima pelo Governo
Civil. Todavia, a partir da década de quarenta do século XX o Ministério da
Economia interveio através da delegação da Junta Nacional do Vinho, que determi-
nava o preço do mosto, mas depois voltou-se a situação arbitrária da determinação
do preço pelos compradores.
No sentido de combater a situação foi manifesto o empenho de algumas autori- Sistema de engarrafamento manual. Artur Barros & Sousa Ldª
dades. Foi o caso do empenho do Agrónomo António Teixeira de Sousa na criação
de Adegas Regionais, com a função de regular o preço de mercado e de salvaguar-
da dos interesses dos agricultores em época de vindimas excedentárias. A primeira
adega foi montada no Porto Santo em 1956, seguindo-se no ano imediato outra em
Câmara de Lobos.
Com a criação do Instituto do Vinho da Madeira, desde 1979, ainda se avançou
em consonância com a Mesa de Vinhos da Associação Comercial do Funchal, com
o tabelamento do preço de compra do mosto, mas hoje a opção é livre, intervindo
o IVM apenas na determinação da data da vindima e na fiscalização.
Na década de setenta do século XX generalizou-se o uso de aquisição das uvas
por parte das empresas, passando o preço a ser estabelecido por kg e graduação
alcoólica do mosto. Para uma vindima com 10º Baumé o preço de compra pelas
empresas da Tinta negra mole ao kg era o seguinte:

1974: 11$20 1979: 35$00


1975: 10$88 1980: 40$00
1976: 12$00 1981; 44$00
1977: 17$00 1982; 44$00
1978: 24$00 1983; 54$20

374.Eduardo Atonino Pestana, Ilha da Madeira. II. Estudos Madeirenses, Funchal, 1970, pp.233-238; Eduardo Pereira, Ilhas de
Zargo, vol. II, pp. 583-589. Sistema
375.Cf. Benedita Câmara, A Economia da Madeira (1850-1914), Lisboa, 2002, pp.139-140 de engarrafamento
376.Estatutos da Real Associação Vinícola da Madeira. Sociedade Cooperativa, Anonyma, Responsabilidade Limitada. Fundada automático.
na Cidade do Funchal em 19 de Janeiro de 1900, Funchal, 1900. Justino & Henriques, Ldª
196 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 197

As lojas e os serrados

A partir do texto de Henry Vizetelly377 e

C
das gravuras que adicionou de Ernest A.
Vizetelly é possível conhecer algumas cons-
truções que serviram para de adegas para
abergar o vinho. Aqui são descritas as insta-
lações de algumas das mais importantes fir-
mas: Cossart, Gordon and Cº, Krohn
Borthers & Cº, Blandy Brothers, Leacock
and Company, Henry Dru Drury, Henriques
and Lawton, Mrs Welsh, R. Donaldson and
Cº, Meyrelles Sobrinho e Cia, Henrique J. M.
Camacho, Augusto C. Bianchi, Sr. Cunha e
Leal Irmãos e Cia.
Em todos é evidente a mesma definição
do espaço. Uma fachada imponente, que dá
entrada para um grande pátio coberto de lata-
da, que serve de logradouro comum às diver-
sas arrecadações: as lojas de fermentação e
envelhecimento do vinho, a oficina de
tanoaria e a estufa. O bom gosto com que
alguns souberam combinar as diversas
divisões e o cuidado que lhes atribuíam não
Fachada dos armazéns de foram ignorados por Henry Vizetelly que na
Blandy Brothers no Funchal.
Peretrellos Photographos.
Os complexos vinícolas casa Blandy Brothers é levado a afirmar que
Museu de Photographia Vicentes. estava perante um verdadeiro museu de
Princípios do século XX vinho.

377.Facts About Port and Madeira. Londres, 1880


198 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 199

Antiga oficina de Tanoaria


da Madeira Wine Company
nas adegas de S. Francisco.
[Colecção do autor , 1998]

A tanoaria
A oficina de tanoaria assumia um papel relevante no quotidiano estando em
relação directa com a importância da casa378. Maior número de pipas com vinho a
envelhecer implicava um aparato enorme de operários preparados para reparação,
como para proceder à construção de novas para envelhecimento e embarque do
vinho. Acresce, ainda, que, até meados do século XIX, o sistema ordinário de trans-
porte do vinho para os principais mercados era estes recipientes de madeira, feitos em
diversos tamanhos: pipas, quartolas, barris e barrilinhos. Embora esteja documentado
o uso das garrafas nas exportações foi muito tardia a plena afirmação. Muitas das pipas
retornavam à origem em peças de aduela, poupando-se espaço nos navios.
O vasilhame de madeira usado no transporte, vinvificação e envelhecimento do
vinho, era quase todo fabricado na ilha. Para isso usava-se habitualmente as
seguintes vasilhas:
TIPOS CAPACIDADE
Tonel 750 a 2500 litros
Antiga oficina de Ponche 630
Tanoaria da Pipa 550
Madeira Wine Meia pipa 210
Company nas
adegas de S. Quartola 105
Francisco. Barril de mosto 50
[Colecção do autor
, 1998] 378.Cf. Lília Mata, Ofícios Tradicionais: os Tanoeiros, in Islenha, 12, 1983, pp.97-105.
200 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 201

A partir do registo de exportação de vinho é possível fazer uma ideia do vasi- Ano Origem Pacas Arcos Aduelas Molhadas
Pipa Quarto Quartola (molhos) Pipas quartos
lhame necessário para o processo de vinificação e transporte do vinho aos princi-
1827-28 Filadélfia 10
pais mercados. A maior incidência, no século XVIII, estava nas pipas, mas na cen- Liverpool 300 300 197 1.192
túria seguinte as vasilhas de capacidade inferior ganharam importância. De acordo Londres 621 342 329 7.230
com os dados da exportação de 1784 a 1787 as embarcações transportavam em Newport 160
Neverson 60 20
média 80 pipas. Nova York 125 160
Garnizé 37
Ano Tonéis Pipas Quartos Quartolas Estad. Unidos América 15.919
1784 8358 4 1829-30 Filadélfia 109
1785 11498 1 Liverpool 2.072
Londres 404 100 2.307
1786 6556 4
Dublin 25 125 20 4
1787 10831 2 Bristol 1.498
1831 42 3182 280 3415 Nova York 464 636 760
1832 39 3515 3522 Hamburgo 218

As madeiras usadas na construção do vasilhame tinham várias proveniências. A As peças de tanoaria importadas tinham preço de venda ao público publicitado
ilha fornecia alguma de vinhatico, aderno, castanho e carvalho, mas a maior parte nos jornais:
era de importação379. Das florestas do Báltico, até à Revolução Russa, vinham as adu-
elas preparadas de carvalho negro, o mesmo sucedendo com as de carvalho e faia PREÇO DE VENDA AO PUBLICO DOS MATERIAIS DE TANOARIA.1836-1838
de Nova Orleães e Charleston. A maior frequência de madeiras é dos Estados PEÇAS 1836 1838
Unidos da América380. No período de 1727 a 1810, temos a entrada de 181 embar- Aduela de pipa(milheiro) 120$000 a 130$000 120$000 a 130$000
cações com aduelas381. Da Inglaterra e da Irlanda evidencia-se a maior constância Aduela de quarto(milheiro) 85$000 a 90$000 70$000 a 80$000
aduelas e arcos, mas também de pipas e outro vasilhame. Estamos perante o retorno Aduela de quartola(milheiro) 45$000 a 60$000 60$000
Arcos de ferro(quintal) 4$000 a 4$500 4$000 a 5$000
do vasilhame usado no transporte do vinho. No período de 1727 a 1810 foram
declaradas na alfândega 238 embarcações com aduelas e arcos e 147 com pipas e FONTE: Flor do Oceano, 71, 1836; A Chronica, nº.18, 1838
outras vasilhas.382
O convento de Santa Clara dispunha de uma ampla adega no Funchal e outras
I IMPORTAÇÃO DE MATERAIS DE TANOARIA- 1819-28 dispersas por toda a ilha, de forma a poder armazenar o vinho que lhe pertencia.
Em 1667 são referidas 161 pipas para uso corrente283. Ora isto implicava a existência
Ano Origem Pacas Arcos Aduelas Molhadas
Pipa Quarto Quartola (molhos) Pipas quartos de uma importante oficina de tanoaria. As aduelas eram preparadas até fim do sécu-
1819-20 Nova York 24.309 lo XVII com madeiras de S. Vicente, passando a partir daqui a depender de
Londres 275 73 105 10 madeiras importadas da Grã-Bretanha284.
Canárias 1.200 191 3
Liverpool 55 55 10
O tanoeiro, para além do serviço de apoio às lojas de vinho, tinha também ocu-
1821 Filadélfia 1.389
pação no apoio às embarcações que demandavam o porto. O trabalho era duplo
Bordéus 221 pois o vasilhame era usado para manter as reservas necessárias de água potável a
Liverpool 223 20 10 2.189 bordo. Em 1566, de acordo com o livro de posturas de Lisboa, tanto faziam as pipas
Leithe 100
Londres 2.900
no porto de Lisboa, como nos da Madeira, Castela e Algarve285. Em 1698 a
Provedoria da Fazenda pagou aos tanoeiros 26.110 réis pelo concerto de 98 pipas de
água da fragata Nossa Senhora das Hortas, vinda de Lisboa286. O trabalho do
379.Gaspar Frutuoso, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, 1979, p.138
380.Importa-se madeira incluindo tábuas para barris, sobretudo da América. [Alfred Lyall, Rambles in Madeira…, London, 1827,
in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.348] 383.ANTT, Convento de Santa Clara, maço 2, 10 de Maio de 1667.
381.J. J. Abreu de Sousa, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810. Alguns Aspectos, 384.Otília R. Fontoura, As Clarissas na Madeira, Funchal, 200, p.100.
Funchal, 1989., pp.146-148 385.Livro das Posturas Antigas, Lisboa, 1974, p.363
382.J. J. Abreu de Sousa, ibidem., pp.138-141. 386.ANTT, PJRFF, nº.969, fl. 114vº-115vº.
202 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 203

PREÇO DO VASILHAME. 1884-1740


Ano Barril Quartola Pipa Tonel
1664 1$000
1667 1$666
1670 $320 $600
1690 2$000
1720 1$800
1740 $290 1$500
Fonte: ANTT, Convento da Encarnação, nº.14-15; ANTT, Convento de
Santa Clara, maço. 2; ARM, Capelas- inventário, maços: 15, 20, 36

O ofício de tanoeiro assumiu desde o século XV uma importância relevante no


quadro dos ofícios do Funchal, estando representado na Casa dos Vinte e Quatro
com dois oficiais388 e tinha lugar cativo na procissão do Corpo de Deus, sendo eles
quem levavam a torre389. A arte da tanoaria era de prestígio na sociedade fun-
chalense390. O juiz de tanoeiro tinha a obrigação de controlar a capacidade do vasi-
lhame feito pelos companheiros de ofício, sendo a marca da corporação a garantia.
Na Ribeira Brava um destes, por nome António Rodrigues Jardim, terá construído
uma capela da invocação das Almas, que hoje já não existe.
A Funchal era o local onde se concentravam-se as oficinas de tanoaria, que
começaram a funcionar de forma isolada. Com o desenvolvimento das casas co-
merciais do vinho, a partir de meados do século XVII, passaram a estar próximas
ou incorporadas nas adegas. A Rua dos Tanoeiros existe desde o século XVI391.
Num inventário dos ofícios de 1863 sabemos que dos 52 tanoeiros existentes em
toda a ilha 46 eram do Funchal392.
Funchal. 46
Calheta. 3
Câmara de Lobos. 1
Porto Moniz. 1
S. Vicente. 1

Henry Vizetelly393, no relato que faz da situação da vinha e do vinho da Madeira


em finais do século XIX, destaca a importância de algumas oficinas de tanoaria,
associadas a empresas, descrevendo a da firma Cossart Gordon & Co: Aqui observá-

388.Alberto Vieira, O Município do Funchal (1550-1650), in Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira.1986, Vol.
Oficinas em plena II, Funchal, 1990, pp.1056-1057.
Rua de João Esmeraldo. 389.Bernardete Barros, A Festa Processional, “Corpus Christi”, no Funchal (séculos XV a XIX), in Actas do I Colóquio
Internacional de História da Madeira. 1985, Funchal, 1989, vol. I, p.348
Gravura de 1850.
390.Diz-se que os barris da Madeira são os melhores do mundo; säo todos feitos na ilha e os tanoeiros formam uma corporaçäo
que tem privilégios especiais. Säo os únicos trabalhadores autorizados a exercer a sua actividade na rua. [Alfred Lyall,
Rambles in Madeira…, London, 1827, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993,
p.348]
tanoeiro era bem remunerado. Assim em 1671 o conserto de um barril custou 500 391.Álvaro Manso de Sousa, Ruas do Funchal (Notas para o Estudo da Toponímia Citadina), in DAHM, nº.510, 17 de Julho de
1949, p.279.
réis ao Convento da Encarnação, quando apenas um novo poderia valer 320 réis287. 392.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de
Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.10
383.Facts about Port and Madeira…, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos,
387.ANTT, Convento da Encarnação, nº.14 fls.58vo, 61
Funchal, 1993, pp. 375-399]
204 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 205

Antiga oficina de Tanoaria Antiga oficina de Tanoaria


da Madeira Wine Company mos pipas a serem feitas precisamente do mesmo modo que o utilizado no Jerez, aguardente394. da Madeira Wine Company
nas adegas de S. Francisco. talvez com a excepção do cutelo que os homens manejam tão destramente ser um Em 1910 são referidas apenas 10 oficinas de tanoaria, mas os operários do ofício nas adegas de S. Francisco.
[Colecção do autor , 1998] [Colecção do autor , 1998]
pouco mais pesado e desajeitado do que o que é usado pelos seus irmãos da mesma deveriam ser em número mais elevado, uma vez que em 1913 foi criada a
confraria do Jerez. Os tanoeiros do Funchal trabalham à peça e cada pipa, que é cer- Associação de Tanoeiros do Funchal, com 124 sócios. Na década de vinte são
tamente um artigo bem executado, custa qualquer coisa como algumas libras. à volta recenseados duzentos operários relacionados com a actividade de tanoaria395.
da tanoaria havia pilhas de aduelas de carvalho Americano, já preparadas ou em Hoje a profissão está em vias de extinção e são poucas as empresas que continu-
bruto, enquanto no centro do terreno havia barracões onde as pipas são medidas, am a manter e valorizar as oficinas de tanoaria. Os recipientes de aço inoxidável reti-
marcadas com ferro quente, escaldadas e submetidas à acção do vapor de água, bem raram-lhe parte do protagonismo. O vasilhame de madeira é apenas usado para o
como alguns grandes reservatórios. O espaço vago entre os barracões e os armazéns envelhecimento dos vinhos no canteiro. E mesmo aqui a aposta continua a ser nos
está ocupado com filas de pipas de vários tamanhos, acabadas de vir da tanoaria, cascos velhos, já preparados para receber o vinho.
passando aqui por um período de habituação com água. Quando sito está termina-
do, as pipas são transferidas para o armazém de Avinhar, sendo lá enchidas com
vinho comum, que permanece dentro delas durante dois ou três meses. Nestes
armazéns há sempre em uso para este fim entre oitenta e cem pipas de vinho, o qual
depois de usado muitas vezes não está mais adequado e é destilado em
394.Facts about Port and Madeira…, London, 1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos,
Funchal, 1993, pp. 389]
395.Peres Trancoso, O Trabalho Português, I Madeira, Lisboa, 1928, pp.119-123
206 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 207

Medidas. jas usadas na venda de líquidos. As botijas de arroba deveriam ter capacidade para Medidas.
Exposição de1988. Medidas do vinho 7 canadas e meia, enquanto a botija de meia arroba equivaleria a 3 canadas e 3 quar-
Exposição de1988.
Colecção do autor Colecção do autor

M
tilhos400. Ao mesmo tempo determinou-se a capacidade do vasilhame usado no
A Historiografia testemunha o pouco interesse votado à Metrologia Histórica. transporte do vinho.
Entre nós é uma realidade ignorada, assumindo importância significativa em estu- A imposição do vinho determinava, ainda, algumas regras sobre a forma de
dos de História económica396. Até à reforma dos pesos e medidas de 1865, que esta- venda do vinho ao público nas tabernas. Em 1485401 o almude passou de 12 para 13
beleceu a uniformização para o todo o país, a cada região correspondia um sistema canadas, sendo a referida canada para a imposição. Já em 1637402 o almude, que era
de medição distinta. Aqui devemos considerar dois tipos de medidas usadas no con- de 14 canadas, passou para 15.
sumo e comércio que, por vezes, não eram coincidentes. O barril, para carregar o mosto, deveria ser de 27 almudes, sendo a pipa equiva-
A regulamentação das medidas era uma prerrogativa do poder municipal, lente a 12 barris de 3 almudes e 1 de 2 almudes403. De acordo com postura de 1842
estando definido de forma clara a intervenção, quer nas posturas, quer nas o barril do carreteiro deveria medir 19 canadas e meia404, mas, passados sete anos, o
vereações397. O município, através dos almotacés e afiladores, procedia ao afilamen- barril de mosto era de 2 almudes e meio405, enquanto o usado pelos taberneiros era
to das medidas usadas nas lojas de venda ao público como de transporte e expor- de 2 almudes e 1 almude. Aqui, diferenciava-se a canada de aguardente da de vinho,
tação. Em 1789 foi provido no cargo de marcador das pipas António José Drumond pois a primeira era de 7 canadas, enquanto a segunda de 14 canadas406. Em meados
Novais e Henriques, uma vez que o cargo estava na posse da família398. do século, José Silvestre Ribeiro refere distintas medidas. Assim, o barril de mosto,
A venda do vinho ao público só poderia ser feita por almudes estando proibido
o uso de jarras e botijas399. Em 1547 a vereação determinava a capacidade das boti- 400.Ibidem, p.393.
401.IARM. CMF, t.1, fls.22-24vº
402.IARM. CMF, t.6, fls. 26-31vº, 16 de Março.
403.Iibidem, p.392.
396.Confronte-se Witold Kula, Las Medidas y los Hombres, Madrid, 1980; Manuel Lobo Cabrera, Monedas Pesas y Medidas en
404.IPosturas da Câmara Municipal do Funchal, Funchal, 1849, pp.57-60; Posturas da Câmara Municipal da Cidade do Funchal,
Canarias en el siglo XVI, Las Palmas, 1989.
Funchal, 1895, p.49
397.José Pereira da Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Século XV, Funchal, 1998, p.98-99.
405.ISérvulo Drummond de Menezes, Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1850, pp.49-61.
398.Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.46
406.IPosturas da Câmara Municipal da Villa de Machico, Approvadas pelo Concelho de Distrito em 5 julho 1856, Funchal, 1856,
399.José Pereira da Costa, Vereações da Câmara Municipal do Funchal. Primeira Metade do Século XVI, Funchal, 1998, p.286
p.13.
208 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 209

a Sul e a Norte, era de dois almudes e meio, e o de vinho limpo ficava igual no A uniformização das medidas nunca foi alcançada na plenitude e ainda hoje per-
Norte, sendo reduzido para 2 almudes no Sul. Também no barril anota algumas sistem as antigas em alguns lugares, como é o caso do Porto da Cruz, onde é notória
diferenças, de acordo com o tipo de medida de almude usada. Em S. Vicente e uma diferença quanto ao barril. De acordo com Eduardo Pereira415 o barril apre-
Porto Moniz o barril era de 35 canadas de folha, enquanto no Sul as mesmas de sentava uma medida distinta nos concelhos da região:
barro. Atente-se que doze canadas de folha equivaliam a catorze de barro407.
A pipa de vinho, normalmente de 30 almudes, distingue-se consoante fosse de Capacidade LOCALIDADES
mosto ou vinho limpo. A diferença era de menos 4 almudes para o vinho limpo. do barril
45 litros C. de Lobos, E. de Câmara de Lobos, Curral das Freiras, Funchal, Porto Santo
Acontece que no Porto a de mosto tinha 25 almudes e a de vinho claro 26 almudes. 50 litros Arco de S. Jorge, Boaventura, Calheta, Faial, Ponta Delgada, S. Vicente
Já em Machico a pipa tinha a capacidade única de 10 barris de 2 almudes408. 56 litros Porto Moniz, Ribeira da Janela, Seixal, Achadas da Cruz
Também se diferencia a pipa carreteira da de embarque. A primeira media 418
litros e a segunda 500 litros, equivalendo a 92 galões ingleses409. Todavia em 1755410 A necessidade de definir uma medida padrão, de forma a evitar o dolo, levou a
o Conselho da Fazenda determinou que as pipas de exportação do vinho Madeira que ficasse assim estabelecido:
deveriam ser de 23 almudes. Anotam-se ainda outras medidas para a pipa, que tanto
DESIGNAÇÃO CAPACIDADE
poderia ser de 389,95 litros ou de 429 litros411.
Tonel 50 pipas
As medidas usadas tanto podiam ser de barro, folha e, em alguns casos de
Pipa carreteira 5 00 litros
madeira. Entre o almude de barro e o de folha havia uma diferença de duas Pipa de exportação 418
canadas412. A afilação das medidas passou a fazer-se desde 1484 de acordo com a Quartola 105
forma que se fazia em Lisboa, sendo obrigatório. O vinho só podia ser medido por Barril 45 a 50 litros
almude que deveria equivaler a 13 canadas. Vasilhas 20 a 1 litro
Almude 25 litros
Paulo Dias Almeida413 apresenta, em princípios do século XIX, o quadro das
Canada 2 litros
medidas usadas na Madeira. Galão 4,5 litros
Medida Equivalência Capacidade em litros
Acontece que na construção do vasilhame de madeira torna-se difícil, senão
Canada 1 e ? almude 2,0
Galão 4,5
impossível, ao tanoeiro conseguir acertar com a medida atribuída. Desde tempos
Almude 48 quartilhos ou 22 canadas 25,0 recuados ficou estabelecido que o tanoeiro deveria marcar a medida exacta. Existia
Pipa 23 almudes 375,0 mesmo alguém que recebia o encargo de proceder à aferição do vasilhame. De acor-
Tonel Pipa e meia 562,5 do com postura de 1587, uma pipa ou barril que fosse concertado deveria ser nova-
mente afilado e confirmado por contra marca416.
A equivalência das diversas medidas foi estabelecida em 1865414.
Tipo Funchal C. Lobos P. de Sol Calheta S. Vicente Santana Machico S. Cruz P. Santo
Meio almude 9 8,85 9,29 9,08 9 8,88 8,81
Canada de folha 1,5 1,47 1,46 1,46 1,47 1,47 1,5 1,45 1,45
Canada de barro 1,286 1,27 1,24 1,34 1,3 1,286 1,25 1,27
Meio pote 4,34

407.IAlberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.172
408.ISérvulo Drummond de Menezes, Uma Época Administrativa da Madeira e Porto Santo, Funchal, 1850, pp.49-61
409.IElucidário Madeirense, vol. II, 1978, p.80.
410.IAlberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.20
411.IPauta Geral das Alfândegas do Continente de Portugal e Ilhas, Lisboa, 1885, p.44, Inquérito sobre a Situação da Ilha da
Madeira, Lisboa, 1885, pp.183-185
412.IIbidem
413.IRui Carita, Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, 1982, p.99
414.IMappas das Medidas do Novo Systema Legal Comparadas com as Antigas nos Diversos Concelhos do Reino e Ilhas, 415.IIlhas de Zargo, vol. II, Funchal, 1967, p.586.
1868, pp.129-131 416.IArquivo Histórico da Madeira, vol. I, p.75
210 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 211

Aspecto de armazém
de vinhos. Madeira
Wine Company

Armazéns de Krohn
Brothers no Funchal. tufas encontram-se os vinhos mais baratos da Messrs. Krohn Brothers and Co. - um
Gravura Krohn Brothers and Co. Madeira absolutamente leve variando entre 26 e 30 libras por pipa - armazenados no
de a. Vizetelly. 1880 andar superior; enquanto no andar de baixo, trabalhadores com as habituais camisas
compridas, estão a preparar um carregamento de um puro vinho seco de sabor suave
Em frente da casa espaçosa onde está instalada a casa da contabilidade - uma constru-
para o mercado Holandês, trasfegando a bebida alcoólica para grandes jarros de cobre.
ção pomposa com uma alta torre central com telhado, com as habituais barras de ferro
No rés-do-chão deste armazém há barricas de aguardente e de vinhos acabados de
em todas as suas janelas mais baixas e varandas ornamentais nas de cima -, uma baixa
vir da estufa, à espera de serem melhorados antes de passarem para outros armazéns
passagem em arco conduz a um pátio pavimentado onde estão dois carros de bois espe-
mais espaçosos, situados numa rua contígua. Estes últimos compreendem um rés-do-
rando à sombra para transportarem algumas pipas de vinho para a praia. Em frente à
chão e dois andares superiores, cada um formando um vasto compartimento iluminado
entrada de onde as pipas são trazidas a rolar, ficam as estufas da firma, um compacto
por grandes janelas em cada uma das extremidades, e com filas de pilares de pedra a
prédio de dois andares, encimado por um compartimento espaçoso com os lados e o
dividi-lo em três partes. Aqui, a firma recebe as suas aquisições de mosto, sendo depo-
tecto em ferro. Este é a Estufa do Sol, na qual sessenta pipas de vinho podem ser sub-
sitadas no armazém, no rés-do-chão do prédio.
metidas à influência dos raios de sol ao mesmo tempo. Nos dois andares da estufa pro-
No primeiro e segundo andares do prédio de que temos estado a falar, são armazena-
priamente dita, o primeiro dos quais tem entrada pelas traseiras. - ficando ao mesmo nível
dos vinhos de qualidade mais baixa e intermédia, sendo um dos melhores um «Verdelho
do pátio devido à inclinação do solo - cerca de 500 pipas podem ser empilhadas, e
fino» de sabor delicado e de agradável aroma, com alguns vinhos novos que prometem
amadurecidas através de calor artificial, provocado, como já foi explicado, por serpentinas
transformar-se em Madeira de alta categoria. Depois de visitarmos vários outros arma-
que passam pelo interior do prédio. Perto da estufa fica uma pequena estrutura que con-
zéns, onde são guardados lotes de vinho diverso, incluindo um recentemente arrendado
tém os utensílios do empacotador para a exportação de amostras, os ferros de marcar,
para armazenar uma parte das aquisições da firma de mosto novo, passámos para o anti-
etc. A fornalha propriamente dita confina com a fresca tanoaria com sombra, no lado direi-
go armazém onde a Messers. Krohn tem reunidos os seus melhores vinhos. Entra-se
to. Por baixo de um grande alpendre, na parte traseira do prédio e perto de um jardim
neste venerável armazém através de um estreito pátio pavimentado, e os vários andares,
umbroso, estão empilhadas em filas pipas de todos os tamanhos. As pipas são medidas
com as pesadas cargas que têm que suportar, estão apoiados em fortes vigas. As gran-
por meio de um pequeno tanque que possui um indicador e mesmo ao lado homens
des pipas têm pequenas chapas pretas penduradas, indicando o seu conteúdo.
descalços com compridas camisas estão a limpar as pipas com uma quantidade de
pequenas pedras redondas dentro delas, rolando-as para a frente e para trás com um VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Aound Lisbon and the
movimento brusco ao longo de suas fortes traves. No armazém mesmo em frente das es- Wines of Tenerife, London, 1880
212 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 213

Fachada dos armazéns de


Blandy Brothers no Funchal. Armazéns de H. Dru Drury
Peretrellos Photographos. no Funchal.
Museu de Photographia Vicentes. Gravura de A. Vizetelly. 1880

A maior reserva de Madeira armazenado por qualquer casa de exportação no Funchal as quais, ao contrário dos vinhos produzidos no lado sul da ilha, ocasionalmente desen-
é a que pertence à Messrs. Blandy Brothers. Ela chega a atingir cerca de 5.000 pipas, volvem a «mycoderma vina» ou as chamadas flores da vinha, tão ansiosamente procu-
variando em valor entre 35 e 250 libras cada, e foi acumulada pelo velho Sr. Charles R. radas pelos produtores de xerez. Continua-se por uma série de armazéns, unidos por
Blandy, a seguir à destruição dos vinhedos da Madeira de 1852. Estes vinhos - que numerosos pátios e plataformas - com várias «Clapham Junctions» - onde estão
incluem alguns admiráveis exemplares e uma variedade de produções, armazenados dis- armazenados vinhos que variam entre 1865 e 1875.
tintamente tanto quanto à localidade de produção como quanto ao ano da vindima - estão
guardados em não menos de quarenta armazéns, ligados por passagens, escadas, pata- VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the
mares e entradas abertas em maciças paredes de pedra. Wines of Tenerife, London, 1880.
Sai-se dos escritórios na Rua de são Francisco - uma rua que segue em direcção ao
mar - e entra-se num pequeno pátio rodeado por estranhos prédios irregulares, sendo o
rés-do-chão de um deles o antigo armazém onde os vinhos mais veneráveis da firma A casa de Henry Dru Drury, antigamente Rutherford, Drury and Co., estabeleceu-se
estão reunidos. É um compartimento longo e sombrio, iluminado por pequenas janelas inicialmente na Madeira logo depois do início do presente século. Os seus armazéns,
quadradas, protegidas por barras de ferro, e pavimentado com lages. Aqui, alinhadas em situados no quarteirão oeste do Funchal, e onde se entra através de um estreito pátio,
filas, estão umas trinta ou quarenta enormes pipas, todas com um aspecto mais ou compreendem alguns prédios grandes, com não muito menos de 200 pés de compri-
menos antigo, e muitas possuindo as marcas de firmas madeirenses antigamente famo- mento, cada um com dois andares, e ligados ao primeiro andar por uma galeria de
sas, hoje extintas, cujas reservas ainda estão aqui expostas. …. Confinando com este ver- madeira com vinhas em latada, deixadas crescer à sua vontade. Num lado armazena-se
dadeiro museu de vinho ficava antigamente o velho teatro do Funchal, que o Sr. Charles o mosto enquanto completa a sua fermentação, e no outro estão os vinhos maduros e os
R. Blandy adquiriu e converteu num armazém de vinho. Aqui, uma série de arcos con- velhos e valiosos vinhos da firma, sendo os últimos armazenados em pipas com aspecto
duzem a uma sucessão de pátios rodeados de prédios cheios de pipas sobre pipas de antigo no andar superior. A tanoaria fica na parte detrás dos armazéns, confinando com
vinho. No antigo teatro, onde se armazenam vinhos em pipas duplas, os trabalhadores um pequeno terreno com vinhas das quais a firma produz algumas pipas de vinho. Este
estavam ocupados a melhorar o vinho com clara de ovo, enquanto que numa espécie de pequeno vinhedo está ligado, num dos lados, a um velho convento onde se instalaram na
armazém aberto se fazia uma mistura de cinquenta pipas. …. Daqui, uma escada conduz altura da nossa visita, sete veneráveis irmãs, tendo a mais nova cerca de setenta anos.
para uma plataforma em cima, onde está instalado um mecanismo para erguer e descer Uma vez que a legislatura portuguesa decretou a supressão de estabelecimentos con-
as pipas, e tem-se acesso a vários armazéns espaçosos, contendo cada um duzentas ou ventuais, não se fazem mais adições à venerável irmandade.
trezentas pipas. Num destes as pipas estavam alinhadas em cinco filas separadas, e num
outro, cujo chão assentava em sólidos suportes de alvenaria, as pipas estavam colocadas VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the
Wines of Tenerife, London, 1880.
uma sobre a outra. Aqui estavam algumas das produções do norte, agradáveis e leves,
214 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 215

Borracheiro. Pintura de Max


Romer. Sala de provas da
Madeira Wine Company

Casa de H. Lawton no Na Messrs. Henriques and Lawton passámos através de uma «porte cochère» em ruí-
Funchal. Gravura de A.
nas, com altos pilares de pedra de cada lado, entrando num espaçoso pátio empedrado,
O trato do vinho
Vizetelly. 1880

O
onde a mansão desmantelada erguia a sua fachada maciça, com as suas numerosas e
grandes janelas ornamentais, no nosso lado esquerdo, e uma fila de armazéns mais A necessidade de apurar a qualidade do vinho para exportação levou as autori-
baixos, parcialmente cobertos de vinhas, surgia em frente. Através da casa, chega-se a
um segundo pátio pavimentado, coberto com vinhas cheias de folhas, colocadas em
dades a estabelecerem medidas no sentido de impedir que os vinhos bons do Sul
corredores, por baixo de cuja sombra numerosos tanoeiros trabalham. As estufas da firma fossem baldeados com os de inferior qualidade do Norte. A Vereação do Funchal,
que incluem uma estufa aquecida por temperatura artificial e uma estufa do sol, sendo o em face de reclamação dos mercadores, aprovou em 9 de Janeiro de 1737 uma pos-
seu calor causado, como sugere o nome, exclusivamente pelo sol, contêm as duas jun- tura interditando a entrada dos vinhos de inferior qualidade na cidade. Mais tarde,
tas 350 pipas e ficam situadas noutra parte da cidade com uma panorâmica total sobre o em 1768, o Governador e Capitão General Sá Pereira retomou as medidas
mar.
proibindo a entrada dos vinhos do Norte no Sul até Maio, de forma a poder escoar-
VIZETELLY, Henry, Facts About Port and Madeira, With Notices of Wines Vintaged Around Lisbon and the se o do Sul. Por outro lado defendia-se que os vinhos das melhores áreas, que é
Wines of Tenerife, London, 1880. como quem diz, de Câmara de Lobos, Canhas, Calheta, Arco da Calheta, Prazeres
e Fajã da Ovelha, não podiam ser baldeados com outros inferiores. Em 1785 ficou
estabelecido que todos os vinhos do Norte deveriam permanecer encascados até
Janeiro. Caso alguém tivesse intenção de o movimentar deveria fazê-lo com uma
guia passada pelo Juiz do lugar ou Comandante do distrito militar. Tais medidas não
colheram grandes apoios por parte dos proprietários. Os vinhedos a Norte e a Sul
estava quase todos sujeitos ao contrato de colonia. O senhorio da terra residia no
216 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 217

Vinho canteiro
Vejamos agora o modo singular de os tratar nos
dois sistemas em uso Canteiro e de Estufa. O
primeiro reduz se a conserva-lo no vasilhame colo-
cado em cima de duas traves, na altura de 2 ou 3
palmos do chão, e ahi se lhe presta o necessário
tratamento; começarei desde o seu primeiro
processo. Colhida que é a uva, e lançada no lagar,
é pisada com os pés até que o bago fica quasi
moído; então de todo o bagaço se forma uma pyra-
mide sustentada em roda por cordas, em cima da
qual uma taboa vai servir de base a alguns
pedaços de madeira quadrados até irem tocar na
vara do lagar, isto é, uma grossa viga que o atra-
vessa, com um maquinismo de espremer, ou aper-
tar o objecto a que aplicado, com um peso de
pedra. Findo este processo, desmancha se o
bagaço, o qual ficou exausto de suco aparente-
mente, cortado, separado, e então outra vez forte-
mente calcado, ao que chamão repisa, findo o que,
Pormenor do armazém Funchal e era aí que se encontravam os armazéns e pipas para encascar os vinhos. o mesmo resíduo ensopando-se outra vez do
da empresa Henriques âmago da uva que, se não poude esgotar no
& Henriques, Ldª Por outro lado o colono não tinha loja nem cascos para a armazenar o quinhão, ven- primeiro processo, passa a um segundo igual, e o
dendo-o todo à bica do lagar. liquido que produz, chamado o da corda ou repisa,
Feita a vindima e escorrido o mosto sucedia-se nova fase do ciclo vitivinícola, na é de superior qualidade. Depois torna-se a des-
cidade onde se encontram os armazéns dos exportadores com as adegas para onde manchar o bagaço, deita-se lhe agoa, o que pro-
eram escoados todos os vinhos. O Funchal era o centro privilegiado do processo de duz a agoa pé.
Sacado o mosto da tina, he lançado em pipas,
vinificação, tendo as casas exportadoras, servidas de amplas adegas, como o palco não batocadas, por causa da efervescência que
de actividade. Isto manteve-se sem alteração por muito tempo. logo se lhe desenvolve, e dura nos vinhos gen-
A partir de finais do século XVIII ocorreram profundas alterações no processo erosos até Dezembro. Claro que esteja, é tirado
de vinificação madeirense provocadas, quer pelo funcionamento das estufas para de cima da borra; então é logo mandado para o
aceleração do envelhecimento do vinho, quer pela adição de aguardentes, primeiro alambique, e o que se quer tratar para velho vai
para o canteiro onde é clarificado com goma de
de França e, depois da terra, para fortificar os vinhos mais fracos. O método antigo, peixe, ou claras d’ovo, ou sangue, e logo trasfega-
conhecido de canteiro, entrou em desuso, por ser mais demorado, dispendioso e do e agoardentado. Nos primeiros 18 mezes, é
incapaz de antender às solicitações do mercado. A solução estava nas estufas e na necessário repetir este processo 6 ou 8 vezes
abafando-o sempre com aguardente. Se acaso Canteiro. Armazém de Artur Barros
fortificação com as aguardentes. e Sousa Lda. Colecção do autor.
D. João da Câmara Leme, qu, em meados do século XIX tomara contacto com por ser muito maduro ou muito verde o vinho 2002
amolece, e fica como azeite, o que acontece ás
os processos de vinificação utilizados no trato, apercebeu-se do deficiente uso das vezes nestes dois estremos, é preciso logo
aguardentes e estufas, apostando numa solução mais rápida e eficaz para o trato do baldea-lo, rolar a pipa em que está, ou bate-lo
vinho, que ficou conhecida como sistema canavial, definido pelas seguintes fases: 1º bem com o mechedor e agoardenta-lo, mas se a
- sistema sem aquecimento; 2º - sistema com aquecimento lento, ficando o vinho em nada disto cede, só o calor da estufa o curará, ou
comunicação com o ar ambiente; 3º - sistema com aquecimento rápido e arrefeci- servirá para aguardente.
mento lento, demorado ou não, em recipiente fechado417. (PAULO PERESTRELO DA CÂMARA Breve Notícia sobre
a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91)
417.IIdem, ibidem, p. 1.
218 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 219

Armazém de Vinhos. Vindima em Santa Cruz. A.


Cossart Gordon & co. Vizetelly. 1880

Na Madeira e Porto Santo produzem-se muitas qualidades de vinho, algumas das pouco mais ou menos. Quando terminada esta fermentação faz-se o trasfego do vinho
quais tem grande importância no comércio, e outras só são próprias para o consumo para outras vasilhas; sendo esta operação acompanhada de uma clarificação, e do adi-
interno das ilhas, ou para serem destilados nas fábricas de aguardente. Os vinhos mais cionamento de uma quantidade considerável de aguardente. depois desta operação que
conhecidos pelas suas qualidades são: começa para os vinhos essa lenta transformação, que os enriquece e torna preciosos
O Boal - vinho branco delicado e maduro, de alto preço; podendo ser consumido quer pelas suas qualidades. Para fazer adquirir rapidamente ao vinho propriedades que só o
quando novo, quer quando velho. este vinho é extraído das uvas do mesmo nome. tempo lhe pode dar convenientemente, introduziu-se na Madeira, na época da guerra que
O Sercial - vinho seco, de cor alambreada, “aromático e de fino perfume”. E este vinho agitou a Europa nos primeiros anos deste século, e em que os vinhos daquela ilha foram
só adquire todas as boas qualidades no fim de anos. É produzido pela variedade de vinha muito procurados, o uso de sujeitar vinhos novos durante meses a uma alta temperatura
“sercial”, que descrevemos. (60º ou mais) dentro de estufas que para isso se construíram. O número das estufas foi,
O Malvasia - vinho de cor alambreada, muito apreciado pelo seu “perfume” e com- desde essa época, progressivamente crescendo, e em 1850 havia quarenta e duas estu-
parável ao Tokai; mas que a ilha da Madeira produz só em pequena quantidade, e em fas em actividade. Os vinhos porém, assim trabalhados, não chegam segundo a opinião
lugares muito pouco elevados. dos homens entendidos na matéria, a adquirir as boas qualidades do vinho velho da
A Tinta - vinho tinto bastante agradável, e que se assemelha no sabor e qualidade ao Madeira, antes adquirem às vezes um sabor pouco agradável, e o seu aparecimento nos
Porto. A fermentação fazendo-se em contacto com o engaço, dá a este vinho o sabor mercados estrangeiros tem contribuído para o descrédito dos vinhos da ilha.
adstringente. A aguardente que se aplica ao tratamento dos vinhos, fabricada na Madeira com vi-
O Madeira - vinho, de todos o mais conhecido nos mercados da Europa e da América, nhos da região do norte e com os vinhos do Porto Santo; a aguardente estrangeira, e
branco alambreado; quando amadurecido pelo tempo, de um delicado perfume. Este mesmo a de Portugal não é, por lei, admitida na Ilha.
vinho é o resultado da mistura de uvas das variedades Verdelho, Tinta, Tarrantés,
Bastardo e Boal. João de Andrade Corvo, Memórias sobre as Ilhas da Madeira e Porto-Santo. Por João Andrade Corvo,
sócio efectivo da Academia Real de Sciencias de Lisboa - Memória I. Memoria sobre a “Mangra” ou Doença
O Vinho pálido - vinho de pouco valor feito de “verdelho”, e clarificado. das Vinhas da Madeira e Porto-Santo. Apresentada à Academia na Sessão de 3 de Fevereiro de 1854,
Para a fabricação dos vinhos mais preciosos da Madeira faz-se escolha dos cachos (Lisboa), (1954); “A Mangra ou Doença das Vinhas”, in Das Artes e da História da Madeira, vols. IV-V,
de uvas melhores, logo depois da vindima. As uvas levadas ao lagar, são espremidas, nºs.24-29, 1956-1959.
primeiro por homens que as pisam, depois pela pressão da vara, e o líquido assim tirado
delas é levado em odres para os cascos onde fermenta por quatro, ou cinco semanas
220 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 221

Réplica de “decanter” de vinho


Madeira de Thomas Jefferson.
Colecção Museu do

Somente a partir de meados do século XVIII temos notícia do uso da aguardente para
“adubar” os vinhos. Primeiro usam-se as afamadas aguardentes de França, mas num
segundo momento apostou-se na aguardente local. Esta pratica de fortificação do vinho
foi provocada pelos ingleses que também fizeram chegar até nós as ditas aguardentes
A partir de 1822 proíbe-se a entrada dessa aguardente que será substituída pela da
ilha feita com os vinhos do norte. Pois tal como se proclama em 1821 era “um erro capi-
tal na economia política receber de fora as produções e manufacturas de que o país não
carece, antes abunda”.
Armazém de Vinhos
Esta medida favoreceu o desenvolvimento dos alambiques, especialmente na zona O canteiro de Freitas Caldeira.
norte, o que favoreceu de forma vantajosa o vinho daí de inferior qualidade. Severiano de
Freitas Ferraz foi um dos destacados interventores neste processo tendo descoberto um

C
maquinismo avançado de destilação contínua. O sistema, conhecido como de canteiro, era simples. As pipas descansavam
Em meados do século XIX a ilha estava servida de 13 alambiques que ferviam em cheias de vinho sob duas traves, onde se procedia à clarificação e múltiplas trasfe-
media 7 a 8.0000 pipas de vinho. O resultado desta aposta é evidente, uma vez que em
gas. A clarificação ocorria num período de 19 meses e tinha lugar entre 6 ou 8 vezes,
1821 foram assinalados apenas 3 alambiques.
A generalização do uso da aguardente como bebida e produto para adubar os vinhos usando-se goma de peixe, clara de ovo e sangue. Os vinhos da Madeira que hoje
é, entre nós, uma realidade apenas na segunda do século XVIII. Foram os ingleses que aparecem, geralmente nos mercados, são muito diferentes d’esses vinhos afamados,
introduziram tal uso, oferecendo-nos as aguardentes de França. Eles estavam habituados e que a Madeira exportava antes dos fins do século XVIII. A ilha da Madeira não
a beber os vinhos franceses fortificados, mas, impossibilitados pela guerra, foram mudou... o que mudou foi o sistema de tratamento418.
buscá-los a outros destinos. Note-se que no período de ocupação da ilha pelas tropas
O método de envelhecimento do vinho em canteiro era o único usado até finais
britânicas (1801-1802, 1807-1814) generalizou-se entre os madeirenses o hábito do con-
sumo de aguardente e demais bebidas espirituosas. do século XVIII. A forma de execução surge descrita em alguns documentos. Na
A Madeira ficou conhecida como a ilha da Aguardente. O alcoolismo tornou-se numa ilha do Porto Santo as autoridades procuraram por todos os meios disciplinar os
praga social e para o combater tivemos, após a saída dos ingleses, inúmeras proibições, métodos de tratamento do vinho, estabelecendo regras a serem usadas por todos os
mas a aguardente continuou a entrar por via do contrabando e a encontrar consumidor. agricultores, de forma a conseguir-se um produto de superior qualidade: De pois de
Entretanto o madeirense começou a alambicar os seus vinhos e a dispor der
muito bem lavada a pipa, se concerve destapada vinte e quatro horas sobre os can-
aguardente local para consumo nas tabernas e fortificação dos vinhos. As dificuldades na
saída dos vinhos a partir de 1814 vieram aumentar as possibilidades de recurso
aguardente local e a guerra aberta às aguardentes de França, proibidas desde 1822. 418.D. João da Câmara Leme, Os Três Sistemas de Tratamento de Vinho, p. 1.
222 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 223

teiros para se enchugar e expellir o mofo. Dece-lhe huma boa porsao de mecha; Alfândega, Manuel António Serrão para proceder ao trato, pois que o trato dos vin-
com a qual se conservará tapada por espaço de cinco a seiz horas; no fim das quaes hos deste país é inteiramente diferente daquele que se pratica em Portugal, sendo
se lhe hirá lançando o mosto, e estando a pipa meia, se lhe deitará canada e meia necessário cuidá-lo de contínuo424.
de agoardente boa, sobre a qual se contenuara o mosto de sorte que não fique a pipa Já em Lisboa o mesmo representou que aonde se achão os vinhos da Madeira,
perfeitamente cheia. Tenha-se prevenido huma porsão de uvada ou marmelada de não é aquela comodidade necessária para os beneficiar, e fazer caldas que é preciso
uvas, como aqui se lhe chama, feita de verdelho, ou boal, com alguma passa, de ser em mais particular, da mesma forma não há nas sete casas a dita comodidade...
sorte, que fique em boa consistência, e lançando-se em cada pipa de cinco até seis o único lugar onde tal seria possível era o armazém no sítio da Boavista, que já antes
arráteis de marmelada muito bem desfeita, não sesse o mechedor de trabalhar pella servira tal fim e ora encontrava-se cheio de tabaco425. José Joaquim Rosa Coelho, do
manha, e noite, até que tutalmente suspenda a fervura. Descance o vinho para Arsenal da Marinha, não ficou contente com a relutância do madeirense e por isso
abater as fezes, tendo cuidado de o ver de tempo a tempo para se obeservar se está em representação, chama-o de impostor refinado: Tratei imediatamente de fazer
propenço a algum vicio; e concervando-se sem novidade até 20 do mez de Março, despejar dois armazéns, os mais inxulados (sic), fi-los limpar, pôr canteiros,
se porá em limpo, e trasfegará; lançando-se no meio da pipa duas canadas de agoar- arrecadar neles o vinho que se tem recebido, e guardei em meu poder as chaves
dente boa, que será muito bem encorporada pello mechedor, atestando-se e tapan- ficando desta maneira o vinho acondicionado de forma que é costume desde que
do-se imediatmente. Se o vinho for tão doce, que se possa temer a fermentação do no mundo há vinho, e a coberto de toda e qualquer fraude, que ele pudesse ter, (...)
accido, se ajunte na tansfega com trez cannadas de agoardente; se estiver tão turvo, o encarregado de os tratar perguntou em um dos armazéns se era fresco, respondeu-
que se purefique, se lhes lance na transfega algumas claras de ovos muito bem bati- se-lhe que era que sim, desaprovou-o logo, porque deve ser quente, passou imedi-
dos, com os quaes se mexerá o vinho muito bem, e facilmente se hirá alimpando, e atamente ao outro e fez a mesma pergunta, respondeu-se-lhe que era quente,
purifficando.419 reprovou-o porque devia ser frio. Reprovava os canteiros que não são outra coisa,
Feito o vinho o mosto era transportado à adega onde fermentava no vasilhame mais do que uns paus sobre os quais se estivão as pipas, para não estarem no chão,
instalado sobre o canteiro, ou seja duas traves na altura de dois ou três palmos420, por conseguinte o homem reprovava tudo, e por tal motivo confirmo a opinião que
depois de retiradas as borras, o que deveria envelhecer era transfegado, após ter dele faço, e digo a V. Exa. que neste arsenal só pode haver armazéns quentes como
sofrido o processo de clarificação com goma de peixe, clara de ovo, sangue. O ele quer, metendo-lhe dentro alguma estufa, e frescos talvez também como ele dese-
processo de clarificação repetia-se por seis ou oito vezes no decurso de 19 meses. ja tendo-lhe a porta aberta426.
Só numa fase posterior se começou a adicionar aguardente na fase de transfega421. Em Agosto foram escolhidos cinco homens para o trabalho de lotação do vinho
À informação fornecida por P. P. da Câmara422 podemos juntar outra avulsa que da Madeira, pagos a 300 reis por dia427, iniciando-se de imediato os trabalhos. Na
encontramos no Arquivo Histórico Ultramarino em que se dá conta do modo como altura da trasfega deu-se por falta de 2 almudes em cada pipa o que o encarregado
era tratado em Lisboa os vinhos para aí enviados após a fermentação. Nos armazéns do trato de imediato deu conta, ilibando-se de qualquer responsabilidade: Eu não
do Arsenal da Marinha procedia-se às diversas tarefas de trato do vinho, como a sei se é dos navios que conduzirão os vinhos, donde esta falta procede, eu não sei,
clarificação com goma de peixe423 e trasfegas. A prática encontra-se documentada a só o que sei que falta, eu não estou para responder a V. Exa. por faltas dos outros428.
partir de 1832. Em Abril a Junta da Fazenda do Funchal enviou para Lisboa o vinho Durante os meses de Agosto e Setembro laborava-se com grande intensidade nos
do sequestro feito nos armazéns do morgado João de Carvalhal Esmeraldo, pro- armazéns de vinho do Arsenal da Marinha, onde se encontrava o vinho, ora envasi-
nunciado na devassa de 1828. A acompanhar o vinho seguiu o Escrivão da lhando o vinho novo, ora trasfegando o velho ao mesmo tempo que se clarificava e
tratava com aguardente e se baldeava alguma Malvasia velha. A 5 de Agosto429 fez-se
o trato dos lotes de vinho sercial de 1820, de 1823/1825, procedendo-se à clarifi-
419.AHU, Madeira e Porto Santo, nº.667., confronte, Jorge de Freitas Branco, Camponeses da Madeira, Lisboa, 1987, pp. 211-
212 cação com goma de peixe 28 tonéis e 1 pipa, à trasfega de um lote particular de 1244
420.P. P. da Câmara, ibidem, p. 73.
421.D. João da Câmara Leme, ibidem, p. 6. pipas, um lote de 1824 com 7 tonéis e 12 pipas e outro de 1826 com 6 tonéis e 8
422.Paulo Perestrelo da CÂMARA Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91 pipas. Entre 27 de Agosto e 10 de Setembro foram clarificados e trasfegados outros
423.O processo de vinificação é descrito pelos inúmeros estrangeiros que visitaram a Madeira no decurso do século XIX.
Quanto à clarificação referem o uso do gesso, sangue de boi, clara de ovo e carvão. Cf. A Guide to Madeira,…, London,
1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 342; T. Bowdich, Excursions
in Madeira, London, 1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 347; 424.AHU, Madeira e Porto Santo, (documentos näo catalogados), maço 24, doc. 5 de Abril de 1832.
Robert White, Madeira, London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, 425.Idem, doc. de 5 de Abril de 1832.
p. 359; E. Wortley, A Visit to Portugal and Madeira, London, 1854, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. 426.Idem, doc. de 5 de Abril de 1832.
Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 366; D. Embleton, A Visit to Madeira, London, 1882, in Alberto Vieira, História do 427.Idem, doc. de 10 de Agosto de 1832.
Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 401; J. Jonhson, Madeira, London, 1885, in Alberto Vieira, 428.Idem, doc. de 14 de Agosto de 1832.
História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 409. 429.Idem, doc. de 25 de Agosto de 1832.
224 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 225

lotes de vinho totalizando 32 tonéis e 399 pipas430. A 15 de Setembro clarificou-se


vinho Madeira Particular de primeira qualidade ao mesmo tempo que foram trata-
dos 46 tonéis e 369 pipas com efusão de Malvasia431. Seguindo-se, depois, mais 220
pipas clarificadas com goma de peixe432. A 17 de Setembro433 procedeu-se à trasfega
e clarificação de 39 pipas, e em 14 de Outubro a 228 tonéis e 459 pipas de Sercial.
A 14 de Outubro, Manuel António Serrão dava por terminados os trabalhos,
descrevendo de modo sumário o processo usado: Achando-se acabado as lotações do
vinho de que vim encarregado pelo Exmo. Governador e Capitão General da ilha da
Madeira, sendo do meu dever como encarregado de uma tal comissão e para crédito
de tais vinhos, uma vez que sejão exportados para países estrangeiros, exceptuando
deste o da Rússia, que é aonde tem menor preço por não gostarem senão de vinhos
baixos e estufados, com bastante aguardente, e como estes sejão vinhos, sejão criados
de canteiro, tem por sua idade adquirido cheiro balsâmico por isso se fizeram dois
lotes, como já fiz patente a V. Exa. por um mapa que remeti e agora por o que vai junto
e, que pertence ao segundo lote, sendo estes dois lotes de primeira e segunda qua-
lidade, que pouco diferem do primeiro, a que ficará tudo igual logo que leve a sua com-
petente aguardente, e como esta só haja própria na ilha da Madeira dos mesmos bens
socrestados, onde se acha preparada e concertada com malvasia, que era já para adubar
estes mesmos vinhos. E por isso de certo não se poderá dispensar o ela vir, não só para
que dê mais valor aos mesmos vinhos, como também para interesse da Real Fazenda,
cujos vinhos já se acham clarificados, e prontos a entrar na sua trasfega. Logo que
Actual sistema de filtragem
aguardente venha para se deitar aquela porção que for suficiente, segundo o clima do foram ao longo do século XIX motivo de polémica. As francesas, comummente e transfega. Empresa
país e ficarem de todo prontos. E por isso julgava de necessidade que V. Exa. mandasse usadas para adubar os vinhos, ora surgem como adubo necessário e precioso, ora Justino Henriques. 2002.
vir da dita ilha, a qualidade de 180 a 200 galões d’aguardente já acima indicada. E como prejudiciais.
achando-se a malvasia ainda por concertar, não se poderá fazer sem vir a dita Em 1863 temos outra informação, que acrescenta novos dados sobre o método
aguardente, pois na ocasião de ser concertada é que leva a sua competente porção...434. usado no tratamento do vinho: Lançam o mosto em pipas enxofradas, tapando-o
O uso da aguardente de França e, depois, da terra, foi uma prática muito tardia convenientemente. Alguns fabricantes limpam as impurezas que se reúnem em
no tratamento dos vinhos de canteiro, uma vez que está documentada apenas a par- cima do liquido na ocasião de fermentação tumultuosa, outros reservam-se para o
tir de meados do século XVIII: O que porém, parece averiguado é que, na segun- limpar mais tarde e totalmente, depois da fermentação, ou ainda depois de já estar
da metade do século XVIII, os vinhos da Madeira superiores eram já adubados com tratado pela aguardente; para limpar os vinhos usam do emprego ordinário da colla
aguardente de França para o mesmo fim435. A partir daqui a tradição de adicionar de peixe, das claras de ovos, e ainda alguns de gomma arábica.
dois galões de aguardente a uma pipa de vinho generalizou-se436. As aguardentes Passada completamente a fermentação tumultuosa, e quando pelos signaes
adquiridos pela pratica só tratamento de vinhos, principalmente pela densidade,
sabor, cheiro e cor, se reconhece que o liquido está capaz de começar a ser tratado,
430.Idem, doc. de 10 de Setembro de 1832.
431.Idem, maço 20, doc. de 15 de Setembro de 1832. immediatamente o trasfegam, com as attenções convenientes e ordinárias a esta
432.Idem, maço 24, doc. de 15 de Setembro de 1832.
433.Idem, doc. de 17 de Setembro de 1832.
operação, para outras pipas, misturando com o mosto fermentado uma certa quan-
434.Idem, doc. de 14 de Outubro de 1832. tidade de assucar, isto é, 7 a 8 kilogrammas por pipa, assim como aguardente e pas-
435.D. João da Câmara Leme, ibidem, pp. 3/4; vide H. Machard, Traité Pratique sur les Vins, Besançon, 1865, p. 87 e seguintes.
436.São vários os testemunhos sobre a adição de aguardente. Cf. A Guide to Madeira,…, London, 1801, in Alberto Vieira, sas de Alicante pisadas, ou o sumo destas, sendo 48 litros de aguardente e 6,5 litros
História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 342; T. Bowdich, Excursions in Madeira, London,
1825, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 347; Robert White, Madeira,
de passas por cada pipa. Passado algum tempo os vinhos são outra vez trasfegados
London, 1851, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 359; E. Wortley, A e limpos, e ainda mesmo sem os trasfegarem, são levados para as estufas, onde
Visit to Portugal and Madeira, London, 1854, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal,
1993, p. 366; D. Embleton, A Visit to Madeira, London, 1882, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e ficam por espaço de três mezes; no fim deste tempo tiram-se os vinhos das estufas,
Textos, Funchal, 1993, p. 401; J. Jonhson, Madeira, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira.
Documentos e Textos, Funchal, 1993, p. 409. sendo então tratados com iguaes quantidades de aguardente, assucar e passas, como
226 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 227

tinham sido antes de entrarem nellas.


Depois de dez ou doze dias e às vezes de mais, limpam os vinhos conveniente-
mente, pelos processos ordinários. Alguns fabricantes deitam o assucar no mosto
antes de começar a fermentação tumultuosa e a outra metade depois de sair da estu-
fa.437
Em finais do século, quando a vinha agonizava, publicaram-se vários estudos com
as soluções adequadas para debelar a crise. Surgiram instruções sobre a forma de
cultivo e o método mais adequado para o tratamento de vinho. Um deles foi apre-
sentado por D. João da Câmara Leme, o maior especialista em enologia
madeirense: Era então pequeno o número de cepas, principalmente cultivadas na
Madeira: verdelho, malvasia, boal, sercial, tinta. O vinho feito de uvas de uma só va-
riedade tomava o nome de cepa que o produzia; quando no vinho entravam uvas
de diversas variedades, ele tomava o nome de vinho Madeira.
Na apreciação do vinho tinham-se em conta o sítio e a exposição; a maturação da
uva, que muitas vezes, se queria que estivesse meio passado, o que exigia sempre
uma rigorosa escolha, para que o vinho da uva bem madura ficasse separada do da
uva menos madura, que era chamado vinho de escolha, ou vinho verde; os anos
mais chuvosos e frios eram cuidadosamente notados nas reservas anuais; de modo
que, quando as casas exportadoras compravão o vinho antes da colheita, os culti-
vadores não tinham, geralmente licença para a vindima, senão depois de terem sido
enviados inspectores por essas casas, para verem se as uvas estavam capazes.
Mas, a esse tempo, os exportadores, para mais segurança costumavam comprar
Bomba de transfegas.
o vinho, depois de claro, aos colonos, aos senhorios ou a comerciantes inter- deveria fazer-se com ovos, goma, leite, sangue, barro. O sercial, de todos o mais Colecção do Autor. 1988
mediários. Por isso a colheita da uva era feita sempre com o maior cuidado; e o alcoólico é também o que requere menos trabalho (...).
vinho ia dos lagares para as adegas; onde permanecia enquanto fermentava. Mas ao passo que as clarificações e trasfegas se iam tornando menos frequentes
Se era sercial, a fermentação durava enquanto havia açúcar no vinho, que por à medida que os fermentos iam sendo eliminados, o vinho ia perdendo, sem sair do
isso, ficava seco e mais alcoólico, e se tornava, depois mais aromático. Se era mal- canteiro, o gosto, o sabor, o cheiro e cor de novo, e adquirindo o gosto, sabor, o
vasia ou boal, numa palavra, era vinho que não contivesse fermentos suficientes para cheiro e a cor de vinho mais velho; até que quando, passados quatro ou cinco anos,
desdobrarem todo o açúcar, o vinho ficava doce, menos alcoólico, e não se tornava o vinho podia conservar-se, por muito tempo, sem alteração, em vasilha fechada e
tão aromático. longe de vinhos mais novos, era considerado pronto para o consumo, tendo adquiri-
Se era vinho Madeira, mais ou menos doce, mais ou menos alcoólico, e tornava- do as qualidades especiais que o caracterizavam.
se depois mais ou menos aromático segundo as variedades das uvas que o tinham Assim o sercial, cor de topázio claro, tornara-se seco, muito alcoólico, e muito
produzido. aromático; o malvasia, também cor de topázio, talvez mais apertada, do que a do ser-
O tinta era especialmente notável por sua cor escura, que perdia com o tempo. cial conservara-se menos doce, mas tornara-se muito menos alcoólico e menos
O vinho ficava claro “quando os fermentos tinham desdobrado todo o açúcar, ou aromático; o boal, de cor semelhante à do sercial, conservara-se menos doce do que
quando havia mais fermento em actividade que desdobrassem o açúcar. o malvasia mas tornara-se um pouco mais alcoólico e aromático; o tinta era espe-
A partir de então retirava-se as borras e os exportadores conduziam-nos ao envel- cialmente caracterizado pela sua cor escura que os anos faziam desaparecer; o
hecimento no canteiro. madeira, em que entrava, em grande parte o verdelho, e, muitas vezes, o tinta a cor
Os vinhos menos alcoólicos incapazes de manter inertes os fermentos eram sub- de rubim mais ou menos viva e apresentava qualidades um pouco variáveis, segun-
metidos maiores tratamentos com clarificações balde, celhas por vezes a clarificação do as variedades das uvas que nele predominavam438.
437.Francisco P. Oliveira, Informações para a Estatística Industrial Publicadas pela Repartição de Pesos e Medidas-Distrito de
Leiria e Funchal, Lisboa, 1863, p.48.. 438.Idem, ibidem, p. 6.
228 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 229

Canteiro com pipas.


Artur Barros & Sousa, Ldª

Vinho canteiro
Vejamos agora o modo singular de os tratar nos dois sistemas em uso Canteiro e de
Estufa. O primeiro reduz se a conserva-lo no vasilhame colocado em cima de duas tra-
ves, na altura de 2 ou 3 palmos do chão, e ahi se lhe presta o necessário tratamento;
começarei desde o seu primeiro processo. Colhida que é a uva, e lançada no lagar, é
pisada com os pés até que o bago fica quase moído; então de todo o bagaço se forma
uma pyramide sustentada em roda por cordas, em cima da qual uma taboa vai servir de
base a alguns pedaços de madeira quadrados até irem tocar na vara do lagar, isto é, uma
grossa viga que o atravessa, com um maquinismo de espremer, ou apertar o objecto a
que aplicado, com um peso de pedra. Findo este processo, desmancha se o bagaço, o
qual ficou exausto de suco aparentemente, cortado, separado, e então outra vez forte-
mente calcado, ao que chamão repisa, findo o que, o mesmo resíduo ensopando-se outra
vez do âmago da uva que, se não poude esgotar no primeiro processo, passa a um
segundo igual, e o liquido que produz, chamado o da corda ou repisa, é de superior qua-
lidade. Depois torna-se a desmanchar o bagaço, deita-se lhe agoa, o que produz a agoa
pé.
Sacado o mosto da tina, he lançado em pipas, não batocadas, por causa da efer-
vescência que logo se lhe desenvolve, e dura nos vinhos generosos até Dezembro. Claro
que esteja, é tirado de cima da borra; então é logo mandado para o alambique, e o que
se quer tratar para velho vai para o canteiro onde é clarificado com goma de peixe, ou
claras d’ovo, ou sangue, e logo trasfegado e agoardentado. Nos primeiros 18 mezes, é
necessário repetir este processo 6 ou 8 vezes abafando-o sempre com aguardente. Se
acaso por ser muito maduro ou muito verde o vinho amolece, e fica como azeite, o que
acontece ás vezes nestes dois estremos, é preciso logo baldea-lo, rolar a pipa em que
está, ou bate-lo bem com o mechedor e agoardenta-lo, mas se a nada disto cede, só o
calor da estufa o curará, ou servirá para aguardente.
Preparação das pipas. Gravura
de Max romer. Sala de Provas PAULO PERESTRELO DA CÅMARA Breve Notícia sobre a Madeira, Lisboa, 1841, pp.67-91
da Madeira Wine Co.
230 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 231

principais consumidores do vinho Madeira, foram os primeiros apreciadores do


vinho da roda, por isso no mercado britânico, desde finais do século XVIII, os
Common Madeira, London Market e London Particular foram preteridos em favor
do East India Madeira. As pipas embarcadas eram marcadas com as seguintes ini-
ciais: V.O. W. I (Very Old West Indies Madeira). A diferença de preços entre um
e outro era do dobro, resultante dos custos do transporte, elevada procura e repu-
tação que o mesmo adquiriu no Reino Unido onde teve um estatuto especial440. A
primeira referência ao comércio do vinho retornado das Índias surge em 1722441.
Nos meses de Setembro e Novembro de 1790 Mr. Christie colocou à venda no mer-
cado britânico 3 pipas de vinho Madeira vindo da Índia e 39 do Brasil.
Foi a partir daqui que se generalizou o uso das estufas como sistema de enve-
lhecimento dos vinhos, estando a primeira documentada em 1794. A solução re-
presentava uma maior economia de tempo e custos permitindo colocar, em pouco
mais de três meses, à disposição do cliente um vinho prematuramente envelhecido,
com propriedades semelhantes ao que tinha cinco anos no casco. O uso das estufas
generalizou-se. Era vulgar ver-se as pipas jacentes nos fornos de pão da cidade, ou
simplesmente ao Sol. O vinho estufado, para alem de ter gerado acesa polémica em
Rótulo antigo. Colecção da princípios do século XIX não mereceu os elogios do consumidor.
Madeira Wine Company
O vinho da Roda era diferente e tinha o condão de melhorar as qualidades
organolépticas sem se degradar, o que não sucedia, segundo alguns, com o vinho estu-
O vinho da roda fado. Em 1818 a própria Junta deu o exemplo ao carregar 50 pipas no brigue-escuna
Maria do Capitão José A. Martim de Sá442. Tendo-se dado ordem de embarque a 21
A situação privilegiada da comunidade britânica é resultado dos tratados de ami- de Abril443. Em aviso ao Deputado-escrivão da Junta de Cabo Verde se dá conta da

R
zade, nomeadamente o de Methuen, e da estratégia definida pelas actas de navega- remessa de vinho para envelhecer e depois ser dado o destino que S. M. desejar,
ção inglesas (em 1660 e 1665). A Madeira foi para os ingleses a ilha das escalas e recomendando o cuidado e vigilância de sua existência, de maneira que receba o
abastecimento em vinho. São inúmeros os testemunhos da presença das armadas muito calor possível de Verão futuro e não haja extravio444. Noutro aviso a J. de Araújo
britânicas no porto do Funchal. A passagem era frequente, usufruindo de um trata- Barros, em Cabo Verde, dá-se conta da remessa para os fazer pôr nessa ilha e voltarem
mento especial das autoridades locais. Relevam-se as de 1799 e 1855 compostas a vir depois de passado o Verão futuro... lhe rogo o maior desvelo e cuidado na boa
respectivamente por 108 e 112 embarcações que saíram da ilha a abarrotar de vinho. guarda e vigilância do dito vinho a fim de que não haja extravio casual nem voluntário
Muito do vinho fazia o percurso de ida e volta. Os tonéis de vinho no porão das e obtenha aquele grau de melhora que se espera146.Em 1826 a prática de embarque
embarcações estavam expostos ao calor dos trópicos e sujeitos à constante baldeação de vinhos nem voluntário e obtenha aquele grau de melhora que se espera445
resultante das correntes marítimas, adquiria um envelhecimento prematuro, assim Em 1826 a prática de embarque de vinhos para emvelhecer havia-se generalizado
descrito por A. Sarmento439: Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes e e todo o vinho de roda era reembolsado dos direitos pagos à saída ou levantava
exportadores de vinho que este, sujeito a uma longa viagem, batido pelo balouço da fiança até ao retorno. Em 21 de Fevereiro Philip Noailles Searle solicitou o descon-
embarcação, aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões, tornava to dos direitos de 3 quartos e 10 meias quartolas de vinho de roda, autorizado em 8
características especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido, pelo de Junho de 1825446.
que mandavam muitas pipas à índia com frete de torna-viagem, para de lá voltar me-
lhorado o vinho, que ficou sendo chamado da roda do mundo ou simplesmente 440.A.Jullien, Topographie de tous les Vignobles Connus, Paris, 1816(reed.1832), p.467; Rupert Croft-Cooke, Madeira, London,
1961, p.86
vinho da roda. 441.A. Huetz de Lamps, Le Vin de Madere, p.36.
442.ANTT, PJRFF, nº 759, fol. 407.
Diz-se, que da constatação deste facto à prática corrente foi um salto. Os ingleses, 443.Idem, nº 405, fol. 161.
444.Idem, nº 759, fols. 408/409.
445.Idem, nº.759,fl. 409.
439.SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha Terra, vol. III, Funchal, 1952, pp.119-120 446.Idem, nº 241, fol. 39vº.
232 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 233

Um ano depois a generalização e a prática causou graves incómodos à adminis- A Junta da Real Fazenda reconhecendo os per-
tração da alfândega, pelo que se determinou o embargo: Havendo-se nesta ilha calços que a situação causava à arrecadação dos direitos
introduzido o costume de embarcar vinho com faculdade de voltar a ela para na via- decidiu por fim tal prática. Daqui resultou a perda de
gem ganhar melhoramento, foi sempre tolerado em pequenas proporções. De tal importância do vinho da roda na ilha e a consequente
uso passou a fazer-se abuso, pois que os negociantes para ganharem maior prazo no valorização no mercado britânico, onde as pipas da
pagamento dos direitos, figuravam em mui tas das suas especulações os embarques roda passaram a afluir com maior assiduidade.
do vinho para vir de roda, dando a sua fiança, e a final quando passava o prazo mar- Ficou célebre, entre os apreciadores, o vinho que o
cado para a entrada do vinho, e este não chegava, se lhes carregavam os direitos, cuja cônsul inglês H. Veitch ofereceu em 1815 a Napoleão
arrecadação ia ter a demora que as mais ordens terminam a favor dos assinantes. Bonaparte, aquando da passagem pelo Funchal com
Resultava deste meio acharem-se muitos direitos por cobrar, poderem ometer-se destino ao exílio de Santa Helena. O imperador não o
outros dolos que esta Junta por bem da fazenda intendeu dever prevenir e substrar bebeu e o vinho acabou de volta à ilha, onde foi engar-
na continuação de tal prática447. rafado a partir de 1840 com o título de Battle of
Nos registos de embarque de vinho entre 1823/30 assinala-se o vinho da roda que Waterloo. Winston Churchill de visita à ilha em 1950
durante a fase permissiva atingiu grandes proporções. Em 1823 saíram 1650 pipas e foi um dos poucos contemplados com uma garrafa.
em 1824, 366. Aqui destacaram-se os comerciantes ingleses John Howard March & Em 1992 recriou-se a referida rota e a técnica de
Ca. e Philip Noailles Searle, e poucos portugueses, de que se afirmam as casas envelhecimento com o embarque de 600 litros de Boal
madeirenses mais importantes como Monteiros & Ca., Luís de Ornelas a bordo do veleiro Kaisei, que participou na regata
Vasconcelos, João Oliveira & Ca. Colombo 1992.
O vinho da roda é para o madeirense e o britânico
REGISTO DE SAÍDA DE VINHO DA RODA. 1823-1830 uma dádiva do oceano. As agitadas águas do Atlântico
e Índico transformaram-se numa grande adega, onde
MERCADOR 1823 1824 1828 1830 Rótulo antigo.
os vinhos madeirenses envelheciam. Foi uma mais- Colecção da Madeira Wine Company
1/2 quartolas

1/2 quartolas

1/2 quartolas

1/2 quartolas
valia, sabiamente aproveitada pelos insulares que
quartolas

quartolas

quartolas

quartolas
Quartos

Quartos

Quartos

Quartos
cativou os tradicionais apreciadores britânicos. Mas
pipas

pipas

pipas

pipas
nem todos comungaram da mesma ideia, surgindo
John Howard March & C. 100 77 73 38 2 3
opiniões contrárias: Consumidores de vinho em
Monteiros & Co. 19 18 8 Inglaterra são muitas vezes enganados pela ideia de
Gordon Inglis & Co. 74 1
Luiz de Ornelas Vasconcelos 22 2 11
que uma viagem às índias Orientais ou Ocidentais é
Seymonds Rfly & Co. 25 31 22 18 suficiente para garantir a excelência do vinho. Mas isto
Minett Honotton & Cº. 3
Diogo Hougton 46 20 8
é uma falácia óbvia, pois, se o vinho não fosse de boa
Gould & Co. 3 qualidade quando exportado da ilha, mil viagens não o
George Blackburn & Co. 80 5 5 19
Alexander Hally 54 2 43 42
poderiam tornar no que nunca tinha sido. Todos os
João Oliveira & Co. 13 24 1 comerciantes na Madeira sabem bem que uma grande
Rutherefort & Grant 1 9 14 12
Diogo Taylor 30 16
parte dos vinhos assim exportados são de uma quali-
Guilherme Tindlay 55 38 18 1 9 dade inferior, e são adquiridos em troca de géneros
Philip Noailles Searle 94 78 47 161 34 21 5
Gough & Hollway & Co. 27 54 12
por pessoas geralmente conhecidas como comer-
Outros… 402 432 560 25 2 2 4 ciantes por troca448.

448.J. Holman, Travels in Madeira, London, 1840, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal,
1993, p.354. Sobre o vinho da roda veja-se: A Guide to Madeira, London, 1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da
Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.343; J. L. Thudichum, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of
447.Idem, nº 764, fol. 139. Este informe vem a propósito de um requerimento de Philip Noailles Searle & Ca, solicitando o reem- Wine, London, 1872, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.372; A. Drexel
bolso dos direitos de 50 pipas de vinho de roda [Idem, nº 406, fol. 20.]. Biddle, The Land of the Wine Being na Account of the Madeira, London, 1900, in Alberto Vieira, História do Vinho da
Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.421.
234 A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX A VINHA E O VINHO NA HISTÓRIA DA MADEIRA • Séculos XV - XX 235

passaram a ser expostas ao sol450 ou colocadas por cima dos fornos de pão sujeitas
ao calor. Ao mesmo tempo construíram-se as primeiras estufas, isto é, recintos fecha-
dos onde circulava o ar quente por canos. A mais antiga conhecida, mas não a
primeira, é a de Pantaleão Fernandes e data de 1794451.
O sistema de estufa está considerado oficialmente como o método de tratamen-
to do vinho, apenas usado pelas casas para o vinho das castas autorizadas, nomeada-
mente, a tinta negra mole. De acordo com a legislação em vigor o vinho deverá man-
ter-se recipientes a uma temperatura constante até 55ºC. por um prazo de noventa
dias. Antigamente o vinho sofria uma evaporação de cerca de 15%, mas hoje com a
nova tecnologia as perdas são reduzidas. A disponibilização no mercado só poderá
acontecer após dois anos de estágio no canteiro452.
Apenas a empresa familiar Artur Barros & Sousa Lda. não utiliza no tratamento
do vinho as estufas. As demais dispõem do referido sistema, usufruindo da mais
moderna tecnologia. A Madeira Wine Company Lda. dispõe nas instalações ao
Largo Severiano Ferraz dois tipos de estufas tradicionais: a estufa de cimento e de
madeira. Além disso usa aqui e na rua de S. Francisco do chamado sistema de
armazém de calor.
A estufa é entendida como resultado da conjuntura favorável ao escoamento rápi-
do do vinho, que adveio com as guerras napoleónicas, com consequente esgota-
mento dos stocks, criando a necessidade do trato rápido dos vinhos novos para sat-
isfazer as encomendas do mercado, o que só poderia ser possível com as estufas. Ao
primeiro facto comenta D. João da Câmara Leme: Estamos em fins do século
XVIII. A exportação dos vinhos da Madeira tem aumentado, muito principalmente
Fornalha da estufa
para a Inglaterra, porque, em razão da guerra, lhe estão fechados os portos da
da firma Cossart As estufas Europa. As reservas de vinhos em boas condições de embarque estão esgotadas. O
Gordon & co.
sistema do canteiro não é processo aplicável a um largo e importante consumo com

E
O vinho da roda é considerado um feliz acaso das viagens transoceânicas. No per- a perspectiva de grandes lucros453. Quanto ao segundo Alberto Artur Sarmento
curso da Madeira à Índia e retorno à Inglaterra, com duas passagens pelos trópicos, destaca: Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes exportadores de vinho
melhorava. O calor dos porões atribuía-lhe um rápido envelhecimento, que cedo se da Madeira, que este sujeito a longa viagem batido pelo balanço da embarcação,
tornou notado pelos ingleses. Foram eles os primeiros a usufruir da situação vanta- aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões, tomava características
josa. Este vinho tem a fama de possuir muitas qualidades extraordinárias. Tenho especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido, pelo que man-
ouvido dizer que se Madeira genuíno for exposto a temperaturas muito baixas até davam muitas pipas à Índia com frete de torna-viagem, para lá voltar melhorado o
ficar congelado numa massa sólida de gelo e outra vez descongelado pelo fogo, se vinho, que ficou sendo chamado de roda do mundo ou simplesmente vinho de
for aquecido até ao ponto de fervura e depois deixado arrefecer ou se ficar exposto roda454.