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VIEIRA, Alberto (1996),

O Funchal no contexto das mudanças


sócio-politicas do século XVIII. O
corso e a guerra de represália como
arma,

COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:

VIEIRA, Alberto (1996), O Funchal no contexto das mudanças sócio-politicas do século XVIII. O corso
e a guerra de represália como arma, Funchal, CEHA-Biblioteca Digital, disponível em:
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Funchal NO CONTEXTO DAS MUDANÇAS POLÍTICO-IDEOLÓGICAS DO SÉCULO
XVII. O CORSO E A GUERRA DE REPRESÁLIA COMO ARMA

Alberto Vieira

Múltiplas e variadas razões fizeram com que o Funchal se


afirmasse no século XVIII como um centro chave das transformações
sócio-políticas então operadas, de ambos os lados do oceano. A
ilha foi também protagonista no processo, concorrendo para isso
vários factores. Aqui deverá, sinalizar-se a forte presença da
comunidade inglesa e o facto desta a ter tranformado num
importante centro para a sua afirmação colonial e marítima, a
partir do século XVII. Esta vinculação da ilha ao império
britânico é bastante evidente no quotidiano e devir histórico
madeirenses dos séculos XVIII e XIX1. O reconhecimento da importância da
anglicização da Madeira torna-se necessário para a compreensão das mudanças operadas ao
longo do século XVIII e, de modo especial, a questão que nos ocupa - o corso como arma
político-ideológica.
Para além desta formulação do problema é preciso ter em
conta que a actividade do corso não se esgota na cobiça e
partilha da presa, pois a este benefício económico, que é a razão
única do pirata2, juntam-se outros objectivos. É por isso que o corso se justifica também
como forma de represália resultante dos conflitos bélicos ou da luta contra as opções do
exclusivismo económico definidas pelas teses do mare clausum. O corso foi,
assim, no decurso do século XVIII uma forma de extensão dos
conflitos europeus3 e americanos, veiculando neste último caso uma opção político-ideológica que
marcou o Novo Mundo. Estes corsários sul-americanos ficaram conhecidos como insurgentes,
porque se insurgiram contra as potenciais colonias europeias e
abraçaram a bandeira do independentismo içada, primeiro, pelos
norte-americanos. É, na verdade, a declaração de independência
dos E.U.A. que fez despoletar a nova situação.
Neste fogo cruzado a Madeira, porque protagonista activo no
relacionamento entre os dois mundos e pela forte presença da
comunidade inglesa, não podia alhear-se das mudanças políticas

1Confronte-se Desmond GREGORY, The Beneficent Usurpers. A History of the British in


Madeira, London, 1988.

2 É necessário assinalar que a diferença entre pirata e corsário é a chave para a compreensão disto. Assim enquanto
o primeiro actuava por sua iniciativa sendo o seu objectivo apenas económico, o segundo via a sua acção legitimada
por uma carta e ordenança de corso. Veja-se L. Luis AZCARAGA DE BUSTAMANTE, El Corso Maritimo,
Madrid, 1950, 91, 131-132.

3 Georges RUDÉ, A Europa no século XVIII, a aristocracia e o desafio burgês, Lisboa, 1988, refere que "dois
em cada três anos foram de guerra"(pp.255-369).
geradas pela difusão de novas ideias e repercussão das suas
consequências. Na verdade, um porto não é apenas um receptáculo
de mercadorias, mas também um meio difusor de doenças e ideias4. E,
na segunda metade do século XVIII, foi evidente esta aportação5. Para isso contribuiu de forma evidente o
protagonismo do Funchal, através do comércio do vinho, no relacionamento comercial com os portos norte-
americanos, mas também com as metrópoles. Deste modo para situar a problemática em debate é necessário ter em
atenção, não só as actividades de corso, mas também, o activo relacionamento e interdependência da Madeira com
este mercado, que em termos políticos esteve, desde o último quartel do século XVIII, em permanente ebulição.

1. A Madeira no contexto das rotas e dos mercados atlânticos


do século XVIII

No decurso do século XVIII a Madeira firmou a sua vocação


atlântica, contribuindo para isso o facto de os ingleses não
dispensarem o porto do Funchal e o vinho madeirense na sua
estratégia colonial. As diversas actas de navegação (1660, 1665),
corroboradas pelos tratados de amizade, de que merece relevo
especial o de Methuen (1703)6, foram os meios que abriram o caminho para que a Madeira
entrasse na área de influência do mundo inglês7. Aos poucos, esta comunidade ganhou uma posição de respeito na
sociedade madeirense que, por vezes, se tornava incomodativa8. A presença e importância da feitoria inglesa, no
decurso do século XVIII, é uma realidade insofismável.
A comunidade inglesa passou a usufruir na ilha de um
estatuto diferenciado que lhe dava a possibilidadede de possuir
um cemitério próprio, desde 1761. Também os mesmos tiveram
direito a igreja própria, emfermaria, conservatória9 e juiz privativo.

4 Sobre isto anote-se uma conferência do Prof. Russel-Wood proferida no Funchal em 15 de Junho de 1989 sobre
"As Cidades Portuárias do Brasil" e publicada sob título "Ports of colonial Brazil",in A.L.KANAS e J.R.
MCNEIL,Atlantic american societies. From Columbus through abolition 1492-1888, N. York, 1992, pp.174-
211; veja-se ainda Franklim W. KNIGHT e Peggy K. LISS, Port cities: economy, culture, and society in the
Atlantic World, Knosville, 1991.

5 António LOJA, A luta do poder contra a Maçonaria, LIsboa, 1985, p.247.

6 Veja-se Public Record Office, FO 811/1, cartas dos privilégios da nação britânica com Portugal desde 1401 a
1805.

7 Confronte-se J. H. FISHER, The Methuen a Pombal. O Comércio anglo-português de 1700 a 1770, Lisboa,
1984, p. 29.

8 Em 1754 o Governador Manuel Saldanha Albuquerque lamenta o exclusivo do comércio inglês na ilha (AHU,
Madeira e Porto Santo, nº.48-49).

9 Public Record Office, FO 811/1, fls.278, 31 de Janeiro de 1724.


Sabemos, ainda, que estavam isentos do pagamento de qualquer direito na alfândega, cobrando, por iniciativa
própria, um tributo sobre os barcos ingleses para as despesas da feitoria. A situação, segundo o governador João
António de Sá Pereira10, era antiga e contava com o hábito de "obsequiar os governadores para os ter sempre
propícios afim de melhor continuar nos grandes interesses que tira d'esta ilha...".
É de acordo com este quadro que deve ser enquadrada a
ocupação da ilha, por duas vezes, por tropas inglesas: 1801-1802
e 1807 a 181411. Esta opção, embora da primeira vez colhesse o governador de surpresa, parece ser
desejada, pois em 1898 o governador de S. Miguel, depois de tomar conta do sucedido, manifestou o desejo que o
mesmo sucede-se nos Açores, para evitar o perigo dos franceses12.
Mesmo assim os ingleses tiveram de se aver com a reacção
madeirense à sua influência na vida económica madeirense. Uma
destas está patente nas palavras do juiz do povo, que em 1770 os
responsabilizava pela situação de crise do comércio do vinho
resultado da impunidade com que actuavam na ilha13.
De acordo com isto poderá afirmar-se que a Madeira
funcionava para os ingleses como uma colónia que jogou um papel
fundamental entre a metrópole e as possessões norte-americanas
das Indias ocidentais e orientais, assumindo uma dupla função
para os ingleses: porto de apoio para as incursões no oceano e
abastecedor de vinho às embarcações e colónias.
A presença de armadas inglesas no Funchal era constante e o
relacionamento com as autoridades locais amistoso, sendo
recebidos pelo governador com toda a hospitalidade14. Destas relevam-se as
de 1799 e 1805, compostas, respectivamente de 108 e 112 embarcações15. Para além disto era assídua a presença de

10 Veja-se AHU, Madeira e Porto Santo, nº 317, 30 de Abril de 1768. Sobre os ingleses na ilha veja-se Fernando
Augusto da SILVA, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal 1984, entradas "ingleses", Estrangeiros, conservados
dos ingleses, Cemitério Britânico, igrejas inglesas; A.A. SARMENTO, "A Feitoria Inglesa", in Fasquias da
Madeira, Funchal, 1951, pp. 99-103; Walter MINCHINTON, "British Residents and their problems in Madeira
before 1815", in Actas do II C.I.H.M., Funchal, 1990, pp. 477-492; Desmond GREGORY, ob. cit.; Graham
BLANDY (ed.) Copy of Record of the establishement of the chaplaincy and notes on the old factory at
Madeira, Funchal, 1959.

11 Veja-se Pe. Fernando Augusto da SILVA, ob. cit., vol. III, "Ocupação da Madeira por tropas inglesas", pp. 5-6;
A. A. SARMENTO, Ensaios Históricos, vol. III, Funchal, 1952, pp. 146-237; idem, Madeira 1801 a 1802, 1807 a
1814. Notas e Documentos, Funchal, 1930.

12 Em 27 de Fevereiro de 1808 o governador madeirense havia-lhe enviado uma carta relatando o sucedido.
Confronte-se: Arquivo dos Açores, vol.XI, 359-360, 373-379; Francisco d'Atayde de Faria e MAIA, Subsídios
para a História de S. Miguel e Terceira. Capitães-generais 1766-1831, 2ª edição Ponta Delgada, 1988.

13 A.R.M., C.M.F., nº 167, fls. 53-57vº, 17 de Março 1770.

14 Public Record Office, FO 63/7, sabe-se que por ordem de 14 de Junho de 1722 as embarcações com destino às
colónias permaneciam alguns dias no Funchal. A 20 de Janeiro de 1786 são 20 barcos em tal situação, coordenada
pelo consul.

15 AHU, Madeira e Porto Santo, nº.1125, 1620, 22 de Outubro de 1799 e 7 de Outubro de 1805
uma esquadra inglesa a patrulhar o mar madeirense, sendo a de 1780 comandada por Jonhstone16.
A procura do nosso vinho resulta também da feliz
circunstância de ser o único que não se deteriorava com as
constantes mudanças de clima, antes pelo contrário, adquiria
propriedades, mercê do balanço resultante da ondulação do mar e
do calor tórrido a que estava sujeito nos porões. Esta
constatação surge muito cedo, pois desde princípios do século
XVIII temos referências a isso que veio a dar origem ao vinho da
roda. Quem o confirma é o consul francês no Funchal, que
justifica a preferência dos ingleses pelo vinho Madeira em
detrimento do de Bordéus17. Daqui resultou a sua afirmação no mercado colonial europeu, com
especial relevo para o britânico. Neste contexto releva-se a posição do mercado americano, dominado pelas colónias
das Indias Ocidentais e portos norte-americanos.
O último destino sedimentou-se, a partir da segunda metade
do século XVII, mercê de um activo relacionamento. Desde então o
vinho da Madeira foi uma presença assídua nos portos atlânticos -
Boston, Charleston, N. York e Filadélfia, Baltimore, Virginia -
onde era trocado por farinhas18. Esta contrapartida reforçou o relacionamento comercial e
actuou como circunstancia favorecedora do progresso da economia viti-vinícola. Assim, se nos séculos XV e XVI a
afirmação da cultura dos canaviais foi conseguida com o suprimento frumentário dos Açores e Canárias, a partir de
finais do século XVII é na América do Norte que se situa o celeiro madeirense. Cedo a Madeira entrou na esfera dos
interesses norte-americanos, sendo o vinho o cartão de visita. Note-se que as ilhas atlânticas são conhecidas na
documentação oficial norteamericana como as ilhas do vinho19.
Acresce que algumas das ilustres personalidades que
estiveram na origem da independência e, depois foram estadistas,
não dispensaram a passagem pela Madeira para conhecer a terra
donde brotava o vinho de que eram grandes apreciadores. São eles
George Washington, Benjamin Franklin, John Adams e Thomas
Jefferson20. Também o nosso vinho esteve nas origens da convulsão que iniciou a luta pela independência
norte americana. Estávamos em 1764 e o vinho da Madeira havia já conquistado o mercado e a Inglaterra, através do
"sugar act" decidiu tributar as ligações directas com a ilha.
Esta medida, que obrigava os navios da colónia a uma

16 Ibidem, nº.545, 22 de Janeiro de 1780.

17 Cartas de 25 Fevereiro de 1741 e 27 de Maio 1771 referenciadas por Albert SILBERT, "Un Carrefour de
l'Atlantique: Madère (1640-1820)", in Economia e Finanças, vol. XXII, 1954, pp. 413-414.

18 Cf. Jorge Martins RIBEIRO, "Alguns aspectos do comércio da Madeira com a América na segunda metade
XVIII", in Actas III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1993, pp.389-401.

19 Veja-se A. GUIMERA RAVINA, "Las islas del vino (Madeira, Açores e Canarias) y la América inglesa durante
el siglo XVIII. Una aproximacón a su estudio", in II C.I.H.M. Actas, Funchal, 1990, pp. 900-934, confronte-se
Albert SILBERT, art. cit., pp. 420-428.

20 T. B. DUNCAN, Atlantic Islands. Madeira, the Azores and the Cape Verdes in Seventeenth Century.
Commerce and Navigation, Chicago, 1972, pp. 250-252; Cf, Jorge Martins RIBEIRO, art.cit., pp.391-392.
obrigatória ligação com a metrópole, não colheu adeptos e foi o
motivo que despoletou o ideário da independência. Assim em 1768
dá-se a primeira desobediência com o navio Liberty, recusando-se
John Hancock a pagar direitos pelas 100 pipas de vinho da Madeira
entradas em Boston21. A isto seguiu-se o confronto de 1770, conhecido como o "Boston Tea Party".
Certamente que este acontecimento e a ligação de alguns politicos norte-americanos não foram alheios ao facto de o
vinho da Madeira ser escolhido para o brinde da proclamação solene da independência.
Todavia, esta nova situação implicaria dificuldades
acrescidas para a Madeira, mercê do ancestral vínculo da ilha à
Metropole e a quase impossibilidade de definir uma política de
neutralidade. Por algum tempo a Madeira perdeu, não só um dos
melhores consumidores do seu vinho, mas também a contrapartida de
cereais22. O resultado disto foi a fome que atormentou os madeirenses23. Durante os oito anos do bloqueio
pararam as embarcações nesta rota e o ambiente na ilha era visto pelas autoridades como de total consternação24.
Perante a excessiva vinculação da Madeira ao mundo colonial britânico e em especial aos portos norte-americanos
era inevitável que a ilha fosse um dos primeiros alvos das convulsões políticas que envolveram a Europa e a
América na segunda metade do século XVIII, através da guerra de represália expressa no corso.
A partir da década de 70 e até aos princípios do século
seguinte os conflitos que têm como palco os continentes europeu e
americano alargam-se ao Atlântico. Aliás, neste momento o oceano
é um activo protagonista das disputas entre os três principais
beligerantes: Espanha, França e Inglaterra. Por isso Mario
Hernandez Sánchez-Barba25 define o século XVIII por três realidades: guerra, diplomacia e
comércio. Entre elas existe uma perfeita sintonia. A tudo isto junta-se a permanente preocupação com a organização
militar e a defesa da costa, porque o perigo espreita no mar a qualquer momento.
É dentro desta ambiência que deverá considerar-se a presença
dos corsários. Para isso poderão assinalar-se dois momentos: o
período que decorre entre 1744 a 1736 definido pelo afrontamento
de Inglaterra com a França e Espanha; a época das grandes
transformações do século, com a proclamação da independência das
colónias inglesas da América do Norte (e a consequente guerra de
independência até 1783), a Revolução Francesa (1779) e as
convulsões que lhe seguiram até 1815. Neste último intervalo de

21 Hiller B. ZOBEL, The Boston Massacre, N. York, 1978, p. 73; O. M. DICKERSON, The Navigation Acts and
the American Revolution, N. York, 1983, p. 177; John W. TYLER, Smugglers & Patriots Boston Merchants
and the Advent of the American Revolution, Boston, 1986, p. 115.

22 Cf.Jorge M. RIBEIRO,art.cit.,pp.391-392.

23 Alberto SILBERT, art. cit., p. 423; veja-se Aires dos Passos VIEIRA, Elementos para a História da Vida
Quotidiana da Madeira na governação de João Gonçalves da Câmara Coutinho (1777-1780), Lisboa, 1891;
Maria de Lurdes de Freitas FERRAZ, "A cidade do Funchal na 1ª metade do século XVIII. Freguesias Urbanas", in
II C.I.H.M.. Actas, pp. 281-281.

24 A.N.T.T., P.J.R.F.F., nº 1182, fl. 29, 22 de Dezembro de 1776.

25 El mar en la Historia de América, Madrid, 1992, p. 239.


tempo sucederam-se novas alterações no continente americano com a
luta pela independência das colónias de Espanha, que veio a gerar
um novo interlocutor para a guerra de corso.
A dimensão assumida por esta guerra de represália está bem
patente nos números das presas. No período de 1793 a 1798 os
franceses apresaram alguns milhares de embarcações dos ingleses e
aliados: em 1795 só o porto de Brest tinha 700 presas inglesas e
em 1798 contavam-se 3199 navios comerciais apresados26. Perante a investida
francesa não será de estranhar a ocupação inglesa da Madeira, entendida como forma de preservar os interesses dos
súbditos de Sua Magestade, mas também de estabelecer uma barreira ao avanço francês além oceano.
Em todos os momentos a Madeira funcionou como base para as
inúmeras incursões dos corsários ingleses. A neutralidade,
insistentemente proclamada no papel não passava disso, pois os
ingleses afrontaram por diversas formas a atitude do governador27.
Desde a guerra de sucessão da Casa de Austria que a Madeira teve esta vocação. Aí estacionaram alguns navios
corsários como sucedeu com a balandra do capitão Filipe Maré e o corsário rei Jorge. Da resposta castelhana temos
a presença do bergantim Santelmo Nossa Senhora Candelária, sob o comando do capitão Pascoal de Sousa Viúvo,
possuidor desde 1739 de carta de corso28. Todavia não foi feliz nas suas presas. Em 14 de Abril de 1748 apresou
junto ao Cabo Girão, uma balandra inglesa que ao pretender vender o recheio viu embargado pelo bispo governador
a favor dos ingleses. Depois tomou uma escuna inglesa na Ponta do Sol, mas acabou apresada pela nau inglesa
Chesterfield, sendo arrematada pela alfândega do Funchal29. Mais tarde em 1762 recomenda-se ao governador José
Correia de Sá para manter uma posição neutral em face dos acontecimentos, mas que exerça represália sobre os
navios espanhóis e franceses, o que ia de encontro às pretensões inglesas30.
Mesmo assim os ingleses não aceitaram este pacto de
vizinhança, atacando os navios costeiros ou de pescarias, como
sucedeu em 178031. E a situação continuou nos anos subsequentes, afirmando-se a Madeira como base
para as incursões inglesas contra os navios castelhanos e franceses. O facto da ilha estar sob as ordens de Sua
Magestade, entre 1801-1802 e 1807-1814, favoreceu isso. Assim tivemos duas presas francesas e 21 castelhanas32.
Por seu turno os franceses faziam incidir mais a sua acção sobre as embarcações portuguesas, porque menos seguras

26 Confronte-se A. C. BAPTISTA, O Ressurgimento da Marinha Portuguesa no Último Quartel do Século


XVIII, Lisboa, 1957 (tese de licenciatura na Faculdade de Letras).

27 Em 1780 o Governador João Gonçalves da Câmara participa a Martinho de Mello e Castro a presença de uma
esquadra inglesa no Funchal, pedindo instruções para manter absoluta neutralidade Ibidem, nº.545, 22 de Janeiro).

28 A.N.T.T.,P.J.R.F.F.,nº972, fls.233-235vº, 24 de Novembro.

29 A.N.T.T., P.J.R.F.F., nº 109, fls. 79, 82, 83vº; A.F., nº 970, fls. 16vº-17.

30 A.N.T.T., P.J.R.F.F., nº 985, fls. 16vº-19.

31 A.H.U., Madeira e Porto Santo, nº 561.

32 Ibidem, nº 1556-60, 1584, 1589, 1594.


e protegidas, do que as inglesas. Esta permanente ameaça da esquadra de Brest sobre o Funchal justificava-se mais
pelo colaboracionismo madeirense aos ingleses do que pela guerra declarada entre as coroas peninsulares. Os dados
que documentam esta preocupante presença são elucidativos. Em 178533 é uma esquadra de 12 embarcações sob o
comando do general Le Comte d'Albert Derions. Depois a partir de 1718 instalou-se o pânico com os franceses a
estabelecerem um bloqueio à ilha, o que lesou o comércio externo34.
Nos Açores o corso teve maior incidência nos primeiros anos
do século XIX. Os principais protagonistas europeus são os
ingleses e castelhanos35. Todavia é entre os originários do continente americano que temos as
acções mais violentas. A intervenção dos corsários americanos é uma forma de reclamar o direito à independência.
As acções são lançadas contra as embarcações da metrópole e aliados, o que vem a atingir os portugueses. A isto
acresce a guerra entre ingleses e norteamericanos no período de 1812 a 1815 que provocou um aumento
desmesurado do número de corsários. Com as pazes muitos deles passaram-se para o serviço dos insurgentes36.
Sem dúvida o facto mais importante deste momento é o combate
naval que teve lugar na baía do Faial a 26 e 27 de Setembro de
1814 entre o corsário americano general Armstrong e uma divisão
naval inglesa sob o comando do general Cokrane, que se dirigia
para a América com a finalidade de atacar Louisiana37. O corsário americano
entrara no dia 26 no porto da Horta para fazer aguada, sendo perseguido pela divisão naval inglesa. Daqui resultou,
na voz do governador da Horta, "um horroroso e sangrento combate a que deu logo o desvario, orgulho e soberba de
um insolente chefe britânico, que não quis respeitar a neutralidade com que Portugal se acha na actual contenda
entre sua Magestade britânica e os Estados Unidos da América"38. Disto resultou um diferendo diplomático
manteve-se até meados da centuria. Este facto marca o recrudescer das actividades dos corsários
americanos que actuaram também contra os portugueses como represália de colaboracionismo
activo a favor dos ingleses. Este permanente afrontamento entre ambas as partes é definido pelo
governador da seguinte forma: "entre os vassalos destas duas potencias há huum ciume que os
menos prudentes não sabem ocultar..."39

33 Ibidem, nº760-761.

34 A.H.U, Madeira e Porto Santo, nº 1019 e 1126; veja.se também A.H.U, Madeira e Porto Santo, nº 1476.

35 A.H.U, Açores, Maço 11.

36José Calvet de MAgalhães, História das relações diplomáticas entre Portugal e os Estados Unidos de
América, Lisboa, 1991, p.92.

37 Arquivo dos Açores, vol. XII, pp. 58-75; Marcelino Lima, Anais do Município da Horta, Vila Nova de
Famalicão, 1943, pp. 665-682; João AFONSO, Açores em Novos Papéis Velhos, Angra, 1980, pp. 235-249; José
Calvet MAGALHÃES, ob.cit., pp.74, 145 segs.

380 A.H.U., Açores, Maço 61; veja-se Archivo dos Açores, XII, pp., 58-59.

39 ARM, Governo civil, nº.518, fls. 89-93vº, 22 de Fevereiro de 1794.


A estes sucederam-se os chamados corsários insurgentes, a
mando dos ideais de independência das colónias de Castela na
América do Sul40. A presença portuguesa nesta querela prende-se com o Brasil e com o conflito gerado
sobre a definição das fronteiras, nomeadamente no Sul41. A sua acção incidiu com maior insistência nos Açores e
Canárias, sendo rara a presença nos mares da Madeira42. Nos Açores os anos de 1816 e 1817 são os de maior
actividade, mantendo-se estes em permanente actividade e em cruzeiro nas diversas ilhas do arquipélago43. As ilhas
de Santa Maria e Flores eram o centro da sua intervenção. A presença destes corsários é constante ao longo do ano
mas com particular incidência nos meses de Novembro a Janeiro e Maio a Junho.

2. O corso e a guerra de represália como arma ideológica

Para atendermos a esta dimensão assumida pelo corso no


século XVIII torna-se necessário ter em conta alguma informação
fundamental sobre ele. Estamos perante uma actividade
44
regulamentada pelas ordenanças e cartas de corso e é partir daí que se poderá
compreender o seu alcance e múltiplos objectivos.
O corsário para ser considerado como tal deveria ser
possuidor de uma carta e ordenança de corso. A primeira
autorizava a sua acção enquanto a segunda estabelecia os
parâmetros em que ela deveria ter lugar. Em qualquer dos casos
era o direito internacional que servia de legitimação e
fundamento a esta actividade. A violação destes requesitos levava
a que o seu autor fosse considerado pirata45. Esta é uma regulamentação que no

40 François XAVIER-GUERRA, Modernidad e Independencia, Madrid, 1992; Merle E. SIMMONS, La


Revolución Norte-Americana en la Independencia de Hispanoamerica, Madrid, 1992.

41 Jaime CORTESÃO, Alexandre de Gusmão e o tratado de Madrid, 9 vols, Rio de Janeiro, 1952-1960; Luis
Ferrand de ALMEIDA, "O Problema de Fronteiras no Sul do Brasil: o caso da colónia de Sacramento", in Portugal
no Mundo, vol. VI, pp. 191-201; vejam-se ainda neste volume outros textos assinados por Alfredo Pinheiro
MARQUES e Max Justo GUEDES.

42 Manuel PAZ, "Corsários insurgentes en aguas de Canarias (1816-1828)", in VIII C.H.C.A (1988), vol. I, 1991,
pp. 679-693; Fernando CASTELO-BRANCO, "Pirataria nas águas das Canárias-Madeira nos inícios do século
XIX", in ibidem, t. II, pp. 83-95.

43 A.H.U., Açores, Maço 65 e 66, 12 e 13 de Dezembro 1816.

44 J. AZCARRAGA y BUSTAMANTE, ob. cit., pp. 91, 131-132.

45 Em 1803 uma galera espanhola fundamenta o apresamento de um corsário inglês em Ponta Delgada com base
numa ordem que possuia, autorizando-a a tomar os navios franceses e holandeses (Veja-se A.H.U., Açores, maço
29, 8 de Agosto). Ainda neste ano um corsário inglês, que apreendera uma galera espanhola, foi admoestado pelo
governador para apresentar a declaração de guerra e a patente de corso, caso contrário seria considerado pirata
(Ibidem, maço 29, 23 de Agosto).
concreto não mereceu o empenho de muitos dos intervenientes. Note-se que americanos e ingleses são os que menos
acataram as recomendações sobre o direito dos mares, aceite por todos. Por exemplo, a violação das águas
territoriais, isto é o espaço marítimo ao alcance de uma bombarda e os portos costeiros, pelos ingleses no
afrontamento aos americanos e franceses, foi uma constante que provocou algumas dificuldades à diplomacia
portuguesêsa46.
Era a declaração de guerra entre as nações do réu e da vítima
que legalizava, em última instância, o acto47. Mas esta não foi a única condição
legitimadora da actividade, uma vez que o corso assentou quase sempre numa forma de enfrentamento pela posse
das rotas e mercados coloniais. Foi, por exemplo, a luta contra o mare clausum peninsular que
sedimentou a guerra de corso nos séculos XV e XVI. Aliás, nos
séculos XVIII e XIX, bastava o colaboracionismo de cidadãos e
autoridades com inimigo para que tal acto fosse encarado pelos
intervenientes como legal48. Também a autorização para entrada dos portos das embarcações de
corso e de venda das presas eram consideradas como meio de colaboração. Neste caso as recomendações das
autoridades portuguesas anotam a necessidade de respeito pela indispensável hospitalidade49.
Estes princípios, para além de seguirem de perto as
aportações resultantes do debate sobre a liberdade dos mares50, são
exarados nas diversas ordenanças de corso, de que se conhecem algumas51. Na espanhola de 1718 é definida a presa
ideal:

"Han de ser de buena presa todos los navios pertencientes a


enemigos y los mandados por piratas, corsaros y outra gente que
conviere la mar sin despacho de ningun principe ni estado
goverano"52.

46 A admoestação do governador de S. Miguel em 24 de Novembro de 1814 do consul inglês é bastante clara


(A.H.U., Açores, maço 62). A mesma recomendação surge nas ordenanças de corso, veja-se J. AZCARRAGA Y
BUSTAMANTE, ob. cit., pp. 296-7.

47 Em 1803 o consul espanhol apresentava um protesto pelo facto de um corsário inglês ter apresado a galera Nª Srª
das Mercês, uma vez que não estava declarada guerra entre os dois países (A.H.U., Açores, Maço 29).

48 Em 1811 um navio americano foi apresado por outro inglês em Angra sob o pretexto de levar a bordo
mercadorias pertencentes a vassalos de países com quem a Grã Bretanha estava em Guerra (A.H.U, Açores, maço
52, 31 de Agosto).

49 As recomendações foram exaradas em 30 de Agosto de 1780, 17 de Setembro de 1790 e 3 de Junho de 1803


(A.H.U., Madeira e Porto Santo, nº 1558, 1301, 1638; Idem, Açores, maço 11, 29, 42.

50 Tenha-se em consideração os comentários que os governadores açorianos tecem quando relatam o sucedido nos
mares açorianos. Veja-se o que diz o governador de S. Miguel aos acontecimentos de Horta em 1814 (A.H.U.,
Açores, maço 62, 24 de Novembro) ou do de Angra em 1811 (A.H.U., Açores, maço 52, 31 de Agosto).

51 J. AZCARRAGA Y BUSTAMANTE, ob. cit., pp. 92-110, 258-265, 370-371.

52 Ibidem, p. 259.
Por aqui fica justificada a importância atribuída ao
passaporte passado às embarcações que sulcavam os mares. Num
deles, tirado ao acaso, vê-se que a justificação da concessão se
coaduna com o atrás referido:

"...afim de que lhe não embarasem de forma alguma a viagem,


antes para ella lhe dem todo o favor, ajuda e beneficio que pede
a aliança, amizade e boa correspondencia que ha entre as mesmas
coroas"53.
Atrás ficou estabelecido o pressuposto jurídico que
legitimava o corso, resta-nos agora rastrear as motivações que
enformam as suas acções. Se nos séculos XV a XVII o corso estava
orientado para o combate ao domínio exclusivo do Atlântico por
portugueses e castelhanos, para os séculos XVIII e XIX os
objectivos serão outros. O empenho económico, a luta pela
afirmação imperial esta sempre latente entre os tradicionais
beligerantes europeus, que tiveram, que contar com mais um rival,
os povos das colónias. A isto deve juntar-se, ainda, os conflitos
políticos e a declaração de guerra.
O corso é aqui entendido pelos novos corsários americanos
como uma forma de combate contra as ancestrais ligações, controlo
por parte da metrópole e de propaganda do ideário de
independência que despontou em 1776 nas colónias inglesas da
América do Norte.
No primeiro momento a luta travou-se em duas frentes: o
Atlântico oriental, dominando pelos mares circum-vizinhos das
ilhas, e o Caribe. No último dominaram, até fins do século XVII,
os célebres piratas Filibusteros e bucaneros54. Estes actuaram a mando de
franceses e ingleses, tendo como objectivo o colapso do comércio regular entre as colónias espanholas e a
metrópole, no caso Sevilha. Note-se que foi a partir daqui que ingleses e franceses conseguiram penetrar no Novo
Mundo e estabelecer colónias nas ilhas do Caribe.
À parte isto é de relevar a acção dos corsários huguenotes,
em que militava nas suas acções o fervor anti-religioso. Aliás o
Funchal foi palco de um assalto, em 1566, destes, resta saber se
a razão fundamental que o justifica foi a luta religiosa. Gaspar
Frutuoso55 refere o acto de forma reprobatória apontando o anti-catolicismo dos huguenotes, manifesto na
profanação dos templos, como sucedeu com a Sé.
O Padre Eduardo Pereira fez disto uma leitura inflamada,
considerando-os como "sectários, inimigos da nossa crença e
política religiosa" e conclui que "a armada dos corsários teve

53 A.R.M., Governo Civil, nº 523, 228vº-229, 8 de Julho de 1790, passaporte da galera portuguesa S. Francisco
Protector, mestre Guilherme José Nunes, com destino à Graciosa.

54 Confronte-se Manuel LUCENA SALMORAL, Piratas Filibusteros y Corsarios en América, Madrid, 1992.

55 Saudades da Terra, caps. 44 a 46.


função político-religiosa... político por hostilidade ao trono; o
religioso por ódio ao altar"56. Esta foi também uma forma de manifestar a sua oposição a A.
R. Azevedo57 que havia afirmado que o mesmo não se justifica pelo "ódio religioso" mas sim pela "inveja
governamental e o embate de interesses dos estados marítimos da Europa" pois "as crenças eram estranhas a esta
pirataria sem crenças"58. Todavia a opinião mais unânime na historiografia é de que este foi um acaso, resultante da
má recepção madeirense a um pedido de refresco59. Deste modo a presença do ideário religioso poderá ser
rastreado, não na justificação do facto mas sim na forma de concretização.
Ao mesmo nível são considerados os assaltos de corsários
argelinos às ilhas do Porto Santo e Santa Maria, de que ficou
célebre o de 161760. A ameaça dos argelinos terminou em 1774 com a celebração de um pacto de
amizade com Marrocos, após o abandono de Mazagão, a ultima praça a manter a presença portuguêsa. Note-se que
nas várias deligências feitas na Mesa da Consciência e ordens para o resgatar dos cativos insistia-se no facto "de ser
muito dela de tenra idade e donzellas nobres a que convinha acudir com presteza pelo perigo que havia de poderem
deixar a fee, como alguns hiam deixando, ..."61.
Certamente que esta insistente ameaça de corsários argelinos
não se justifica unicamente como represália à presença portuguesa
na costa marroquina - onde os madeirenses tiveram uma activa
participação - pois, também, pode ser enquadrada no secular
afrontamento religioso. É de salientar aqui a forma de actuação e
o objectivo dos corsários. A presa preferida consistia em
mulheres e crianças, rapina e destruição dos templos religiosos e
os testemunhos ancestrais, isto é os registos documentais da
igreja e municipio. O relacionamento com os cativos não se
resumia apenas em negociar o resgate mas também à sua conversão,
o que veio a suceder, sendo conhecidos como renegados62.

56 Piratas e Corsários nas ilhas adjacentes, Funchal, 1975, pp. 95 e 109.

57 "Nota XXIX. Os Corsários", in Saudades da Terra, Funchal, 1873, pp. 728-736.

58Ibidem, p. 733.

59 Veja-se Ed.FALGAIROLLE, Une expedition française a l'île de Madère en 1566, Paris, 1895; Rebelo da
SILVA, História de Portugal, vols. III e IV, Lisboa, 1971-71, pp.134-137, 589-590.

60 Eduardo PEREIRA, ob. cit.; Jorge Valdemar GUERRA, "O Saque dos argelinos à ilha do Porto Santo em 1617",
Islenha, nº 8, 1991, 57-78; Jacinto Monteiro, "Incursões de piratas argelinos em 1616 e 1675 nos mares açorianos",
in Ocidente, vol. 61, nº 283, 1961, pp. 197-203.

61 A.N.T.T., Registo da mesa de Consciência e ordens, nº 65, fls. 297, 27 de Junho de 1618, publicado in Arquivo
dos Açores, vol. VII, p. 335.

62. Idêntica é a situação nas ilhas de Lanzarote e Fuerteventura, veja-se Luis Alberto ANAYA HERNÁNDEZ,
"Repercusiones del corso berberisco en Canarias durante el siglo XVII cautivos y renegados canarios", in V
Coloquio de História Canario-americana(1982), t.II, pp.125-177.
Sem dúvida, foi a partir do último quartel do século XVIII,
com a declaração da independência da América do Norte e
conjuntura política consequente, que o corso foi uma arma ao
serviço da política. As transformações político-ideológicas
porque passaram os continentes americano e europeu fizeram do
Atlântico o espaço privilegiado de embate, sendo o corso o meio
usado. O oceano foi assim a via de mútua troca de ideias, mas
também o palco do seu debate e defesa. E, neste particular, as
ilhas jogaram um papel fundamental. Os três arquipélagos do
Mediterrâneo atlântico (Madeira, Açores e Canárias) foram, mais
uma vez, a área charneira para a expressão disso.
Os contactos preferenciais com o continente americano, a
assídua presença de gentes (mercadores ou corsários) destas
paragens, foram concerteza um poderoso veículo de expansão do
novo ideário político saído da declaração da independência dos
E.U.A. (1776). Este facto marca um novo momento da vida do até
então conhecido como Novo Mundo e do oceano que o separa do Velho
Mundo63, e também uma nova função para a guerra de corso. Por iniciativa dos norte-americanos o corso é
utilizado como arma de afrontamento à metrópole e de afirmação do ideário de independência das colónias. A ideia
contagiou também as colónias espanholas (Argentina, Bolívia, Colombia e Peru) e portuguesas (o Brasil)64. No caso
das Canárias eles chegaram mesmo a incitar os moradores de Tenerife a sublevarem-se contra a metrópole65.
Ambas as situações surgem como corolario da Revolução
liberal (em Espanha no ano de 1808 e em Portugal no de 1820). No
primeiro caso, de acordo com a aceitação ou reprovação da Junta
Central, tivemos as colónias leais e as insurgentes. É no seio
das últimas que surgirão, com o patrocínio dos norte-americanos
os corsários insurgentes. Note-se que estes arvoravam
habitualmente a bandeira dos E.U.A., sendo a tripulação das
embarcações composta por marinheiros de diversas proveniências,
onde pontuavam, mais uma vez, os norte-americanos66.
A ligação dos insurgentes aos E.U.A. é insistentemente
referenciada nos relatórios oficiais. Assim em 29 de Abril de
1817 refere-se: "Se espalharam vozes de que os corsários, ou
antes piratas, que causavam nos mares desta capitania e ora se

63 Confronte-se François-Xavier GUERRA, Modernidad e Independencias, Madrid, 1992; Merle E. SIMMONS,


La Revolucion Norte-Americana en la Independencia de Hispano-America, Madrid, 1992; Eric BEERMAN,
España y la Independencia de Estados Unidos, Madrid, 1992; Carlos MELÉNDEZ, La Independencia de
Centro América, Madrid, 1993.

64 Para o período das hostilidades, que decorre de 1822 até à assinatura do tratado de 29 de Agosto de 1823
conhece-se apenas uma presa nos Açores em 1823(AHU, Açores, maço 83, 23 de Setembro).

65 Manuel PAZ, art. cit., p. 686.

66 A.H.U., Açores, maço 69, 24 e Dezembro 1816, 14 de Fevereiro, 27 Março, 29 de Abril, 27 de Maio, 20 de
Junho, e 12 de Dezembro de 1816.
diziam pertencentes aos insurgentes de Buenos Aires, ou ao
chamado governo republicano do México, haviam efectivamente saído
de Baltimor nos Estados Unidos d'America e não tripulados pela
maior parte por cidadãos dos mesmos estados..."67.
Um facto assinalável sucedeu em 30 de Abril de 181768, relatado
pelo capitão da galera Marquês de Pombal, apresada por um corsário patriota de Buenos Aires. Segundo ele o
corsário, quando o apresou arvorava a bandeira americana, sendo a tripulação também da mesma origem, todavia ao
ver o bergantim americano içou a bandeira do México.
A declaração da independência dos Estados Unidos e a guerra
subsequente ditaram uma nova ordem internacional e mais uma vez
geraram incómodos à posição portuguesa de neutralidade, tendo em
conta a aliança com Inglaterra69. A primeira reacção foi de encerramento de todos os portos
aos barcos das colónias revoltadas (decreto de 4 de Julho de 1776), numa medida sem precedentes do Marquês de
Pombal para agradar ao nosso aliado. A opção não foi nada benéfica para o país e principalmente para as ilhas da
Madeira e Açores70. E cedo o governo, reconhecendo o erro optou em 30 de Agosto de 1780 (ratificado a 13 de
Julho de 1782) por uma posição de neutralidade. Todavia só reconhecemos o novo estado após as pazes de 1783.
É de salientar que a França, molestada nos seus intentos de
ocupação deste continente, foi a primeira nação a reconhecer o
novo país, assinando em 1778 um tratado de comércio. Esta atitude
foi compensada mais tarde com a Revolução Francesa (1789)
surgindo os E.U.A. como o preferencial aliado dos franceses. O
novo estado de coisas não se apresentava favorável à Madeira,
sendo natural a apreensão do governador da ilha em 179371 quanto a um
possível ataque por "uns revoltozos francezes" a exemplo do que sucedeu em Nápoles. Entretanto João Marsden
Pintard72, consul americano no Funchal, não nega o seu apoio à República Francesa73.
Esta propaganda causou apreensão nas autoridades locais. Em
21 de Setembro refere-se que estes "trabalhão para propagarem
entre nós as suas perniciozas e abomináveis doutrinas com que nos
tem procurado fazer huma guerra mais funesta que a de nos

67 A.H.U., Açores, maço 69.

68 Ibidem.

69 Veja-se José Calvet de MAGALHÃES, ob.cit., p. 17.

70 Confronte-se Pedro Soares MARTÍNEZ, História Diplomática de Portugal, Lisboa, 1986, pp.198, 202(nota 72)

71 A.R.M., Governo Civil, nº 58, fls. 6vº-9, 21 de Fevereiro.

72 Teve carta de consul a 8 de Novembro de 1791, veja-se A.R.M., C.M.F., XIII, fls. 16-17. Mas já exercia o cargo
desde 1784, confronte-se João José Abreu de SOUSA, ob.cit., nota 67, p. 81; Jorge M. RIBEIRO, art.cit., nota 7,
p.400.

73 A.R.M., Governo Civil, nº 518, fls. 63vº, 66-vº, 3 e 4 de Novembro.


atacarem com as armas na mão"74. A situação estremou-se no ano imediato levando a aceso
conflito entre os navios mercantis norte-americanos e os de guerra ingleses, pois como se segue "entre os vassallos
destas duas potencias ha um ciume que os menos prudentes não sabem ocultar...". Mais se refere que ele era "tão
inclinado a discordia e tão propenço a fomentar desordens e intrigas"75.
O consul americano era considerado o principal agitador e
suspeito nas convulsões que começavam a aparecer, como foi o caso
de "dois pasquins" que foram distribuídos anonimamente: um contra
o governador e o outro "dava ideas bem contrarias ao sistema das
monarquias; pois invitava a França, a quem chamava May, para que
viesse libertar os moradores desta ilha"76. Daqui resulta o retrato de João Marsden
Pintard, consul americano: "Este homem he dotado de hum espirito intrigante, libertino e revoltozo adopta,
applaude, e celebra com publicidade o actual sistema da convenção francesa; falla sobre este assumpto com muito
desenvoltura; e neste ponto exemplifica muito mal a estes insulares; entre os quaes pouco, a pouco vai espalhando, e
se poderão talvez introduzir no povo ideas contrarias ao sistema monarquico". Por isso mesmo faz votos "para que
esta ilha seja livre deste insolente americano, antes que com o seu mao esemplo preverta aquelles vassallos
portuguezes que elle poder seduzir e enganar"77.
A apreensão do governador e capitão general não é
despropositada, sendo resultado do temor que lhe infundia o
movimento maçónico, que se afirma neste momento com alguma
pujança na cidade78. Também aqui a vinculação à Inglaterra favoreceu a penetração dos novos ideários
políticos veiculados pela maçonaria. Na voz do corregedor Manuel Soares Lobão a sua presença no arquipélago
prende-se com a importância assumida pela comunidade inglesa:

"A maçonaria n'esta ilha he antiga por duas razões: 1º


porque sendo ela hum amplo estabelecimento da Inglaterra, onde
não parece politicamente crime, o grande numero de inglezes, que
de remotos tempos aqui tem vindo habitar e commerciar, consigo
tem trazido o instinto d'esta associação.2º porque he muito uzado
n'esta ilha os paes de familia mandarem seus filhos a educarem e
a viajar a Inglaterra.... He pois a maçonaria da ilha, de sua
origem britannica e esta não parece tão perniciosa."79.

74 Ibidem, nº 518, fls. 51vº-53vº, 21 de Setembro 1793.

75 Ibidem, nº 518, fls. 89-93vº, 22 de Fevereiro de 1794.

76 Ibidem, nº 518, fls. 93vº-97, 3 de Março de 1794.

77 Ibidem, nº 518, fls. 98vº-101, 3 de Março de 1793.

78 Confronte-se António Egídio Fernandes LOJA, A luta do poder contra a Maçonaria, Lisboa, 1986; A. H. de
Oliveira MARQUES, História da Maçonaria em Portugal, vol. I, Lisboa, 1990, pp. 45-49, 61-69, 130-143.

79 AHU, Madeira e Porto Santo, nº.7283, 9 de Dezembro de 1823, já referenciado por A.SARMENTO,Ensaios
Históricos da Minha Terra, vol.III, Funchal, 1952, pp121-122.
Na verdade, o principal perigo estava entre os franceses que
"trabalhão para propagarem entre nós as suas perniciozas e
abomináveis doutrinas com que nos tem procurado fazer huma guerra
mais funesta que a de nos atacarem com as armas na mão"80.
Tudo isto revela-nos que a actividade dos mercadores e
consules suplantava muitas vezes o seu âmbito, podendo ser
considerados também agentes políticos. Eles foram a peça chave de
toda a agitação política que alastrou às ilhas. O consul estava
em primeiro lugar, pois por seu intermédio divulgavam-se as
informações e solucionavam-se os problemas que estes conflitos
provocavam81. Além disso ele, a exemplo do que sucede com o americano, poderá ser um agitador político.
Também a sua função alarga-se à espionagem, fornecendo informações sobre o movimento comercial de amigos e
inimigos. Neste caso temos a actividade do consul castelhano Luis Agustín del Castillo, que teve um papel
primordial na defesa das presas castelhanas no período da guerra de sucessão de Espanha (1704-1713)82. É também,
de acordo com esta estratégia, que deverão considerar-se os informes do consul francês83.
Daqui se conclui que a Madeira, pelo facto de ter sido uma
base para o corso no Atlântico e mesmo no Pacífico84, de avanço em direcção
à América, foi também centro de observação e espionagem por parte de castelhanos85 e franceses86. É esta
actuação concertada que atribuiu aos arquipélagos da Madeira e Açores um papel fundamental na História do
Atlântico no decurso do século XVIII e as transformou num importante veiculo difusor do ideário político saído das
revoluções americana e francesa.

80 ARM, Governo Civil, nº518, fls.51vº-53vº, 21 de Setembro de 1793.

81 A documentação reunida no Foreign Office, referente à Madeira, testemunha de forma evidente esse
protagonismo do consul.

82 Demetrio RAMOS, "Madeira, como centro del espionaje español sobre las actividades britânicas, en el siglo
XVIII", in Actas do III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal,1990, pp.191-199.

83 Albert SILBERT, art.cit.

84 Em Outubro de 1740 o corsário George Anson aportou ao Funchal com oito navios, sendo o seu destino o
Pacífico. Veja-se George Anson A voyage round the world in the years MDCCXL,
London, 1748( com várias edições sendo a última de 1942).

85 Demetrio RAMOS, art.cit.,197-199.

86 Confronte-se Albert SILBERT, art.cit.


ACÇÕES DE CORSO NA MADEIRA E AÇORES (1756-1827)

DATA

LOCAL

CORSÁRIO

PRESA

1756

Madeira

navio castelhano

1762

Madeira

navio castelhano

1777.Out.

Açores

americano

nau portuguesa do Brasil

1780

Madeira

navio castelhano

1781.Mai.17

Flores

inglês Herlekin
bergantim português Monte Carmo e S. Francisco

1782

Açores

francês

navio inglês

1793

Madeira

de Nantes

1793.Mai.21

Açores

inglês

navio sueco

1796

Madeira

francês

galera do Brasil

1797.Jun.10

Açores

inglês

navio francês

Madeira

francês
navio português

Madeira

francês

navio português

Madeira

francês

galera americana Virginia e portuguesa Aníbal

1798

Madeira

francês

navio português

1799

Madeira

navio castelhano

Madeira

inglês

navio Fama (Castela)

.Abr.02

P. Delgada

armador Vitoria

bergantim hamburguês

1800.Nov.03
P. Delgada

inglês Herlekin

bergantim espanhol Três Amigos

1800-1801

Madeira

John Smith

6 presas de Castela

1801

Madeira

francês

1 presa portuguesa

1803.Mar.29

P. Delgada

armador Victori

galera holandesa

1803.Ago.17

P.Delgada

inglês general Gordon

galera espanhola Nª Srª das Mercês

1803.Set.15

P.Delgada

galera Amadora

escuna espanhola Ecce Homo

1804
Madeira

português

1804.Mai.26

Madeira

bergantim português Conceição

1805

Madeira

inglês

5 presas de Castela

1805.Jan.

Madeira

inglês

3 presas de Castela

1805.Mar.17

Madeira

nau inglesa Imortalité

espanhol El entrepid corines

1805.Jul.

Madeira

fragata inglesa Venus

bergantim espanhol Nª Srª Conceição

1806.Jun
Madeira

brigue escuna inglês Saracen

fragata espanhola

1806.Out.03

Açores

Monsieur Ladduc

bergantim inglês Ruth

1806.Dez.

Madeira

fragata inglesa Nereyde

corsario de Bilbau e corveta de Pontevedra

1806.1807

Madeira

aargelinos

1807.Fev.

Madeira

brigue guerra

inglês

navio guerra inglês

navio francês

fragatas Neryde e Cabian e escuna guerra Quail

1810
Madeira

galera inglesa The Valiant

fragata francesa Onnonier

1811.Ago.31

Açores

navio americano

1813

Madeira

inglês

bergantim americano

1814

Madeira

francês

1814.Nov.23

S. Miguel

americano

escuna inglesa Matilde

1816

Madeira

bergantim espanhol Nª Srª do Carmo

1816
Faial

brigue escuna de S. José Severino

1816

Stª Maria

fragata Espírito Santo

1816.Dez.03

Açores

bergantim José Severino Avelar

1816-Dez.12

Açores

lancha S. Miguel

1816.Dez.18

Açores

escuna portuguesa Nª Srª Piedade e Almas

1816.Dez.24

Açores

hiate D. José

1817
?

fragata hiate Nª. Srª Alívio, nau Nª Srª Piedade e Almas

1817

Stª Maria

2 barcos Castela, bombarda Nª Srª Dores e Flor do Cairo

1817.Abr.30

S. Miguel

Buenos Aires

galera Marquês de Pombal

1817.Abr.Mai

S. Miguel

bergantim S. Luis, bergantim Protector, bergantim Stº Cristo (beligerante)

1817.Mai.

Stª Maria

barco Senhor dos Paços e Livramento

1817.Jun.20

S. Miguel

barco de Rabo de Peixe

1817.Jun.28
S. Miguel

americano

português

1817.Jul.22

S. Miguel

escuna portuguesa

1817.Jul.24

Flores

2 barcos

1817.Jul.26

S. Miguel

escuna portuguesa Boa Nova

1817.Dez.05

S. Miguel

bergantim espanhol

1817.Dez.17

S. Miguel

escuna inglesa Sarah

1818
Madeira

galeras Luisa e Ninja, escuna Maria, galera Rainha dos Mares, bergantim Restaurador

1818

Madeira

6 navios portugueses

1820

Madeira

navio português

1820

Madeira

brigue português Providencia

1821

Açores

hiate português Conceição, contra-escuna Feliz Ventura

1822

Madeira

inglês

bergantim inglês Betsey

1823
Madeira

navio espanhol Armonia

1823

Açores

corsario do Brasil

4 barcos portugueses

1826

Faial

escuna americana

1827.Fev.06

Faial

brigue Flor do Pará

1827.Nov.12

Açores

2 navios do Brasil
BREVE CRONOLOGIA

DATA

ACONTECIMENTO

1756

Guerra dos Sete anos

1763.Fev.10

Tratado de Paris entre Grã-Bretanha, França e Espanha

1773.Dez.10

Boston Tea Party

1775

Guerra da Independência norte-americana

1776.Jul.04

Declaração da Independência dos EUA

1783.Set.03

Tratado de Versailles põe termo à guerra norte-americana

1788.Jun.21

Entrada em vigor da contribuição norte-americana

1789.Jul..14

Tomada da Bastilha

1804.Jan.01

Republica de Haiti

1808

Conspiração de Lima (Perú)

1810.Mai-Setembro

Insurreição geral das Colónias de Espanha


1811.Jul. 05

Proclamação da Independência da Venezuela

1814.Jun.04

Abdicação de Napoleão

1815.Jan.25

Estado da Costa Rica

1815.Out.11

Estado da Guatemala

1815.Dez.11

Estado de Honduras

1816.Jul.09

Declaração de Independência das Províncias Unidas de Sudamérica (Argentina)

1816.Jul.28

Proclamação da Independência do Perú

1818

Independência do Chile

1819.Ago.07

Indpendência de Nova Granada

1819.Dez-17

Fundação da República da Colombia

1820

Instauração do regime liberal em Portugal

1821.Jul.28

Proclamação da Independência do Perú


1821.Set.15

Independência de Guatemala

1821.Nov.

Independência da Colombia

1821.Dez.

Independência da Republica de S. Domingos

1822.Out.12

Proclamação da Independência do Brasil

1823.Jul.01

Confederação das Províncias Unidas da América Central

1825.Ago.06

Independência do Perú

1825.Ago.25

Independência do Uruguai

1825.Ago.29

Portugal reconhece a Independência do Brasil