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POPULISMO, NACIONALISMO E CAUDILHISMO: a atuação do Master na Fazenda Sarandi – norte do Rio Grande do Sul – 1960 a 1964

João Carlos Tedesco* Joel João Carini** Colaboração de Renan Cecchet***

Resumo O artigo trata do conflito ocorrido na Fazenda Sarandi por ocasião do Movimento Master no início dos anos 60, o qual envolveu a esfera pública estadual, camponeses e latifundiários em torno da questão da reforma agrária. O referido analisa o papel do governador Brizola e de lideranças locais no processo de luta, resultando na desapropriação de parte da mencionada fazenda bem como desencadeando um conjunto de ações do Movimento em prol da reforma agrária no estado do Rio Grande do Sul. Palavras-chave: Reforma agrária, governador Brizola, Master, Fazenda Sarandi

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Doutor em Ciências Sociais, professor do Programa de Mestrado em História da UPF. Mestre em História, professor da UPF. Graduado em História pela UPF.

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História: debates e tendências-Passo Fundo, V. 6, nº 1, p. 63-99, 1º sem. 2006

João Carlos Tedesco; Joel João Carini; Renan Cecchet 1-Considerações Iniciais A luta pela terra no Brasil vem de longa data. Na trajetória histórica dos movimentos sociais pela terra, a organização e os princípios norteadores dos movimentos vêm se modificando. Do banditismo, ao messianismo e do paternalismo ao movimento social popular de conotação socialista, os movimentos sociais no campo têm evoluído e se modificado, ainda que suas demandas permaneçam quase as mesmas ao longo dos séculos. No presente texto, pretendemos fazer uma breve interpretação histórico-sociológica da atuação do Master (Movimento dos Agricultores Sem Terra – 1960-64) no norte do Rio Grande do Sul, especificamente no evento denominado: “Movimento de Capão da Cascavel”, ocorrido no mês de janeiro de 1962, próximo a atual cidade de Ronda Alta/RS, movimento que resultou na desapropriação da Fazenda Sarandi pelo então governador Leonel de Moura Brizola, um latifúndio com área, na época, de cerca de 22.000 ha1 pertencente a estancieiros e industriais uruguaios.
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Uma interpretação históricosociológica e política deste evento exige a reconstituição de elementos determinantes de uma conjuntura político-econômica nacional, aliada ao quadro fundiário local-regional. É o que tentaremos fazer, ainda que de forma breve, no início deste texto. Num segundo momento, a partir das fontes primárias, analisamos a atuadas propriedades que eram feitas na época. A Fazenda Sarandi se tornou emblemática na questão da luta pela terra no RS pelas invasões ocorridas por sem-terras, desapropriações, reapropriações, conflitos entre camponeses e latifundiários, esses com o Estado, camponeses com o Estado, camponeses com camponeses em acampamentos e invasões variadas. Proprietários absenteístas, fragmentações da mesma entre membros da família proprietária nas primeiras décadas do século XX (família Maílhos – uruguaios, latifundiários e industriais do fumo no referido país), arrendamentos, exploração da madeira (dentre as maiores madeireiras estão a Iochpe S.A e a Macali), plantação de trigo e soja por grandes granjeiros (dentre eles Ari Dalmolin e Lin Yen Sun), aquisições de áreas expressivas como a da família Anoni em 1962 de em torno de 16.000 ha, etc dão a tônica de um processo de lutas e envolvimentos políticos e sociais que, ainda, não está resolvido no seu todo. Uma análise rica em detalhes e relações conflituosas em torno da Fazenda Sarandi entre os anos 60 e 83 encontra-se em GEHLEN, I. Uma estratégia camponesa de conquista da terra e o estado: o caso da Fazenda Sarandi. Porto Alegre: UFRGS, 1983. Dissertação.

Reconhecemos a existência de controvérsias em torno do tamanho (ha) da Fazenda Sarandi no período. Aliás, ao certo, é difícil saber por razões de documentação e das formas de reconhecimento e medição

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Populismo, nacionalismo e caudilhismo... ção dos mediadores e/ou protagonistas do movimento, suas estratégias de cooptação de apoio e lutas para legitimação das ações que desembocaram na ação do governo Brizola, assim como a posição da Igreja Católica frente e esse evento, enquanto força de oposição ao movimento. A idéia central do texto é mostrar o movimento Master inserido num cenário de lutas sociais pelo país a fora e que na região ganharam um dinamismo maior e diferenciado em razão do apoio e da mediação, ainda que de uma forma ambígua, do governador Brizola. O texto quer demonstrar que esse Movimento além de condensar formas e lutas sociais em torno do problema da terra no Rio Grande do Sul, foi desencadeador de inúmeros processos e relações sociais em torno do mesmo problema por décadas posteriores com a unificação de lutas em torno do MST e das questões indígenas regionais. A análise específica do Movimento Capão da Cascavel torna-se importante pela sua repercussão no momento (pela presença do Governador e seu discurso inflamado em torno da reforma agrária, pela quantidade de famílias acampadas, pela extensão de terra da Fazenda Sarandi, pelos desdobramentos posteriores e pela presença de mediadores do governador em espaços regionais como é o caso do Prefeito de Nonoai Calixto, dentre outros aspectos) e por poder ainda trazer para o cenário relatos de pessoas que vivenciaram o período. O texto é parte de um projeto de maior fôlego sobre os movimentos sociais no campo do norte do Rio Grande do Sul ocorridos entre a década de 1960 até início dos anos 1980, especialmente sobre os desdobramentos dos movimentos desencadeados pelo Master e que culminaram com o Acampamento na Encruzilhada Natalino em 1981. Por isso, para efeito de um espaço reduzido, muitos aspectos que deveriam ser melhor delineados principal- mente em torno das ações e desenvolvimento do Master, serão apenas mencionadas. No tocante às fontes utilizadas nesse texto, valemo-nos de entrevistas com diversas pessoas diretamente ligadas ao movimento: assentados, dirigentes e intelectuais do âmbito regional e em torno do Movimento Capão da Cascavel ocorrido na histórica e conflituosa Fazenda Sarandi. Utilizamos também inúmeras matérias publicadas em diversos jornais, principalmente da região (Carazinho e Passo Fundo) sobre apenas alguns aspectos do referido Movimento, ressalvando que há um vasto material que está sendo usado para fins de uma análise e espaços mais amplos.

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Joel João Carini. O movimento societal se caracteriza pelo desejo de desenvolvimento. as ações do Cardeal Dom Vicente Scherer e de outros bispos conservadores (em especial D. familistas. escolas rurais. participação política. jornais em Passo Fundo anunciavam e. democratização. legislação. ao mesmo 66 tempo. oligárquicas e populistas. reformas estruturais em determinados setores (o agrícola e agrário por excelência). programas. nas relações de trabalho e de produção na terra. ao que parece. porém conservando formas patriarcalistas. associações. Edmundo Kunz) foram fundamentais para definir e fortalecer posturas. disputas por hegemonias em meio a determinados movimentos e representações sociais. escolarização. Renan Cecchet 2-Aspectos do contexto sóciopolítico do período em questão Os anos 1950 e até a metade dos anos 1960 se caracterizam. apoiavam a ação da Igreja Católica. principalmente em torno dos objetivos da FAG que. tão presentes no meio social. de uma cultura organizacional conservadora no campo das associações e representações dos camponeses. etc) se multiplicam pelo país afora. A Igreja Católica exerceu uma influência muito grande no meio social e no campesinato em particular. sindicatos assistencialistas) de representantes do latifúndio gaúcho expressam isso. No Rio Grande do Sul. Em termos regionais. cooperativas de produção e comercialização de cereais. pelos movimentos da Igreja Católica e por outros grupos e influências nas lutas e resistências. representação. bem. na esfera pública e nas questões em torno da sociabilidade no meio rural por todo o país. propostas. O fim do Estado Novo e os processos de redemocratização social e política em evidência. sindicatos). movimentos. reivindicações e ações sociais. clientelistas. etc.João Carlos Tedesco. alguns influenciados pelas Ligas Camponesas (as quais foram a ponta de lança de uma série de transformações socais e políticas no campo a partir da metade dos anos 50). organização (cooperativas. principalmente em torno de propostas modernizantes. ambos com forte correspondência com a esfera pública. pelo PCB. não acabaram com estruturas patrimonialistas. direitos de posse. sem dú- História: debates e tendências . na história política e no pensamento social brasileiro por um período de grande efervescência em torno de idéias. Movimentos sociais pela terra e por transformações sociais (sindicalização. O surgimento da FAG (Frente Agrária Gaúcha em 1962) e de outros órgãos associativos (Clubes 4 S.

]. principalmente no controle social e em setores econômicos. [.. nacionalismo e caudilhismo.. Continua o Jornal local dando ênfase à Instituição e a sua performance regional: Malgrado o avançar de posições da ala conservadora da Igreja Católica nas questões da terra.Populismo.. constituindo mais um esforço a parte para a solução do grave problema que vem enfrentando a agricultura rio-grandense e nacional.. com início as 20 horas no salão de festas do Clube Caixeral. havendo presidido os trabalhos S. São Paulo.. pois estavam aliadas às dinâmicas em evidência como o progressismo. esses aliados a uma filosofia estatista em vários campos. nos mesmos.. Passo Fundo. com terra e sem terra. História: debates e tendências 67 . de baixo para cima. a tecnificação. 16 de mar. Goiás e Minas Gerais.2 Solenemente instalada ontem a diretoria da Frente Agrária Gaúcha. vindo a compor-se somente agora. não objetivava alterar o quadro fundiária de uma forma substancial como a evidenciada em nível federal e também estadual pelas forças políticas no poder.. o produtivismo. DD.. Bispo Diocesano. [. o órgão dirigente. 4. 3 Idem. Dom Cláudio Colling. a seção solene de posse da Diretoria do Departamento Regional da Frente Agrária Gaúcha.. o movimento propaga-se com grande rapidez pelo interior. ideologias de cunho desenvolvimentista ganhavam cada vez mais espaço nacional. coordenador da Frente Agrária. [.] A FAG – disse o Cônego Jacó Stein – é uma associação civil que pretende associar todos os agricultores ou pessoas relacionadas com os mesmos. ao que parece foi unânime. O cenário também demonstrava. sindicalizando-os para a defesa de seus legítimos interesses. sendo que há de ser estendida para todo o território Nacional. orientadas por processos de substituição de importações com forte internalização de capitais internacionais.Excia.] A propósito da expansão do movimento no país disse: . 28 fev. Mais de 50 mil agricultores inscritos na ‘Frente Agrária’ da região de Passo Fundo [. 1962..A Frente Agrária já foi organizada no Rio Grande do Sul. 1962. mais de 50 mil agricultores.3 O apoio da Igreja local. Podemos adiantar que já se acham inscritos na região de Passo Fundo. nesta diocese. p. nesta região. ser favorável à questão 2 Jornal O Nacional. que compreende 22 municípios. com mais de 50 mil associados.] O primeiro orador foi o Irmão Urbano Máximo. e Revdma. vida. em parte. Pelo que pudemos observar nas declarações do Cônego Jacó Stein. Paraná. convindo dizer que a Frente já conta. em Passo Fundo Realizou-se ontem.

política e ideológica do campesinato. sua incipiente participação na vida política. sua performance pretérita pelas políticas públicas que intencionavam ter em suas fileiras ideológicas os trabalhadores urbanos. organização sindical e partidária e forma de organização do Estado. oligarquias regionais. Os anos 60 se apresentam como indicadores de uma certa viabilidade de inclusão social (organizativa) e política do campesinato. pois é interessante enfatizar que nem todas as suas formas expressavam orientação socialista). a histórica subordinação econômica. houve o predomínio da burguesia agrário-comercial. Até 1930. Joel João Carini. surgindo como uma força social ainda que incipientemente organizada. O “clima” era favorável e era quase impossível ser contrário à mesma. Segundo Ianni4. o populismo nasce em 1930 quando se inicia no Brasil uma crise de hegemonia de classe. 68 História: debates e tendências . O populismo vigente há quase duas décadas não foi capaz ou não intencionava incorporar reivindicações dos camponeses. porém. O ciclo da Revolução Burguesa. Petrópolis/RJ: Vozes. Nunca esquecendo. Esse processo evidenciou. Ele dominou grande parte da vida política brasileira. Com a ausência de uma 4 IANNI. 3-O nacional-populismo no contexto histórico brasileiro – 1946 a 1964 O populismo foi a principal marca dos governos brasileiros do pós-1930 até o Golpe Militar de 1964. etc) impediam o brotar de forças organicamente organizadas em níveis mais amplos de participação e mediação. ainda que suas concepções sejam diversas. que a forma de organização da propriedade da terra no Brasil e sua cultura e sociabilidade do “entorno” (grandes propriedades e minifúndios. enquanto movimento político. O. proposta ideológica. legislação ao seu favor. 1984. 81. em correspondência com os vários grupos e atores sociais no momento (dentre eles a Igreja. mas que reivindicava reformas. ainda que não desestruturasse. em grande parte. no decorrer dos anos que antecederam o Golpe Militar. que entra em colapso com a crise da cafeicultura. troca de favores. Renan Cecchet da Reforma Agrária. complementaridades sociais e de direitos já presentes no meio social em geral urbano.João Carlos Tedesco. a histórica concentração de terras no país e não colocasse em dúvida a continuidade do exercício e influência no poder político e econômico. lealdade. coronelismo. coerções diversas. p. Veremos melhor isso a seguir.

sempre em evidência na disputa pelo poder e pela simpatia do eleitorado. da G. alia-se ora com este. apesar de ter sido readores.5 No período que vai de 1946 (Eurico Gaspar Dutra) até 1964 (Golpe Militar). Ver IANNI. e manteve-se sempre debruçada sobre planos e estratégias golpistas. faz de tudo para agradar a todos. 77. tendo criado “uma cultura política na sociedade latino-americana em que se observa uma ‘naturalização’ das relações sociais entre os cidadãos (ou não-cidadãos) e o Estado.. a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Comunista do Brasil (PCB). a relação de dominação expressa em termos de clientelismo e paternalismo passou a ser a norma geral. ainda que interrompido por alguns retrocessos6. A UDN. Teorias dos movimentos sociais: Paradigmas clássicos e contemporâneos. representante da oligarquia agrária. É interessante frisar que o PTB. a classe política. em outras palavras.. Gohn reconhece que o populismo marcou a política na América Latina no período que vai do fim da Segunda Guerra aos anos 1960. São Paulo: Loyola. burguesia de base industrial e burocracias (federal e estadual). ou seja. vista como natural pela própria população”. p. opunha-se tanto ao PSD. porém. O ciclo da.. quanto ao PTB.Populismo. ora com aquele segmento social ou. aquele interregno marcou o surgimento de vários partidos políticos de dimensão nacional. mais destacados em termos de representatividade.. p. nacionalismo e caudilhismo. eram: o Partido Social Democrático (PSD). 226. entre pequenos camponeses. com o intuito de cooptação de apoio. O. 4ª ed.. Os de atuação nacional. o Brasil viveu uma fase marcada pelo avanço do processo democrático. mas que foi aos poucos conquistando adeptos. também. com consciência modernizante das relações de produção e dos problemas fundiários e de mercado. 5 GOHN. num período marcado pela transição de um Brasil agro-exportador. M. 2004. que tinha forte ligação com setores imperialistas e que nunca chegou ao poder antes de 1964. senadores e ve- 6 História: debates e tendências 69 . esse tinha uma base principalmente operário-urbana. assalariados rurais e categorias medianas de proprietários rurais. A hegemonia política no período foi exercida pela aliança populista entre PSD. classe hegemônica. e PTB. Na área político-partidária. que finalmente foram executadas com sucesso em 1964. o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em 1947 o governo do General Eurico Gaspar Dutra (1946-50) cassou o registro do Partido Comunista do Brasil e o mandato dos seus deputados. para um Brasil urbano-industrial.

enfrentava forte oposição do PSD. A campanha vitoriosa do Movimento da Legalidade de agosto de 1961. Reforma Administrativa. Joel João Carini. Economistas seguidores das orientações da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina). a CEPAL defendia. Reforma da Empresa. principalmente. 17ª ed. As “Reformas de Base”10 anunciadas por Jango assusta7 8 9 Id. Reforma Bancária. a intervenção estatal na economia. de outro. contrária a Reforma Agrária. petróleo. Conjunto de medidas anunciadas por João Goulart.João Carlos Tedesco. Siderurgia. pôde. a limitação das importações. Reforma Cambial e Reforma Educacional. o governo Brizola (PTB). Reforma Fiscal e Tributária. dentro de um projeto de industrialização por substituição de importações.80. Com a ascensão de João Goulart à Presidência. o Brasil inaugura uma série de iniciativas de ambição nacionalista8. principalmente a elite agrária nacional. a aliança populista entre PTB-PSD começou a ser desfeita. de um lado. economistas brasileiros passam a defender a ampliação da produção e consumo internos em todos os setores. Reforma Urbana. 1997. após a renúncia de Jânio Quadros em 1961. a empresa nacional. Com Vargas no poder. Assim. dos camponeses. deu a Brizola status de líder nacional. Ibid. O conjunto de reformas elencadas era: Reforma Agrária. Petrópolis/RJ: Vozes.. estímulo ao mercado interno e ênfase ao planejamento das atividades econômicas. Ijuí/RS: Editora Unijuí. p. dentro do projeto mais amplo das Reformas de Base. No Rio Grande do Sul. muitas vezes. principal âncora de apoio ao governo Goulart. uma das suas principais bandeiras. representante dos interesses da elite agrária e da burguesia urbana em ascensão e. Sob orientação cepalina9. Criada em 1946 pelo economista argentino Raul Prebish. Ver BRUM. A. Amparado num dispositivo da Constituição do Estado. recebia a adesão da ampla maioria do operariado urbano e. Brizola sentia-se fortalecido o suficiente para levar a termo o projeto da Reforma Agrária. sair da crise global em que a nação estava mergulhada. O desenvolvimento econômico brasileiro.7 Outra característica do período histórico em tela foi o nacionalismo. eletricidade. integrar as po- vam os setores conservadores. 270-271. Renan Cecchet criado por Vargas para fazer oposição ao PCB. consideradas necessárias pelas esquerdas para superar o atraso histórico do Brasil. levantado no Rio Grande do Sul. dentre uma série de outras medidas. p. no final de 1961 e começo de 1962. Reforma Partidária e Eleitoral. que determinava a entrega de terras a agricultores sempre que surpulações marginalizadas na vida nacional e preparar o Brasil para a arrancada rumo ao desenvolvimento. contar com a sua adesão. 10 70 História: debates e tendências .

. J. O estoque de terras devolutas usadas para colonização já se esgotara no começo dos anos 1940. p. a Fazenda Sarandi. Desse modo. 12 História: debates e tendências . a 71 4-O quadro fundiário na região No final dos anos 1950 o norte do Rio Grande do Sul. condensando e expressando a situação do latifúndio improdutivo no período. para o Meio Oeste de Santa Catarina. Brizola e as bases do PTB estimulavam o surgimento de abaixo-assinados. com isso.. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. também. em seu maior peso pelas importações desenfreadas e a custo baixo. acirram-se as tensões sociais em torno da questão da terra no Estado.12 11 BANDEIRA. até o presente será palco de inúmeras tentativas de ocupação e apropriação. M. é interessante que diga “primeira vez”. No início dos anos 60. o ritmo migratório gaúcho. ver CARINI. nos anos 50. das reservas indígenas e florestais no entorno desse espaço. a partir desse momento. foi invadida pela primeira vez em 62 e. no início dos anos 1960. pois. Passo Fundo: UPF Editora. que a região do Médio Alto Uruguai tinha se tornado terra de passagem da migração intensa de colonos. sem esquecer. organizações em torno da questão fundiária. Ventarra – e iniciara a diáspora de gaúchos em direção ao oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná. índios e colonos: o conflito na Reserva Indígena de Serrinha – Norte do Rio Grande do Sul. até porque a oferta de trabalho urbano permanecia reduzida. 2005. começa a haver uma significativa redução do potencial de absorção de migrantes para SC e PR reduzindo.Populismo. Nonoai. 1979. gissem abaixo-assinados com mais de 100 firmas. uma das regiões do Rio Grande do Sul com maior demanda por terras. contatos. J. 70.11 A região de Sarandi. quando se formaram os últimos fronts no interior das reservas indígenas – especialmente de Serrinha. a crise do trigo gerada. fator esse que promovia intercâmbios. Na região de Ronda Alta. especialmente a região de abrangência dos agricultores envolvidos no Movimento de Capão da Cascavel. então pertencente ao município de Sarandi. deflagrou a campanha dos abaixo-assinados. Nesse contexto. sob a coordenação da Diretoria de Terras de Nonoai. Estados. Sobre o assunto. e as exigências modernizantes em torno da cultura da soja. apresentava um quadro fundiário de forte crise. nacionalismo e caudilhismo. Brizola e o Trabalhismo. as quais não levavam em conta a situação de precariedade dos pequenos produtores na região.

do Partido Comunista. reuniu mais de 1000 convencionais”. Renan Cecchet Fazenda Sarandi – área remanescente de uma antiga posse de mais de 70. de uma ala progressista da Igreja Católica. O jornal Correio do Povo deu ampla cobertura ao evento patrocinado pela Farsul. um jornal destaca: “Santa Maria. sem emoções. na cidade de Santa Maria. de conflitos fundiários como era o caso do RS. Numa das edições. 13 O evento de maior repercussão da primeira quinzena de janeiro de 1962 foi a Concentração Rural – de latifundiários -. 1997. o tema Reforma Agrária foi foco de debates e preocupava a elite agrária no início de 1962. em manchete de capa. Passo Fundo/RS. formada no século XIX13 – constituía um latifúndio. envolta nos Programas da Ação Católica. de mais de 21. no sentido de dizer que no Rio Grande do Sul. p. tanto na divulgação da fase preparatória. centro das atenções das classes produtoras. -----. porém essa preocupação se constituía já por alguns anos em razão da influência das Ligas Camponesas nascidas no nordeste porém espalhadas pelo país a fora. 44 72 História: debates e tendências . dos sindicatos combativos. sendo propriedade de empresas uruguaias. disse o orador oficial das delegações. No primeiro dia do encontro.João Carlos Tedesco. 07 jan. 22. Jornal Correio do Povo. realizada nos dias 06 e 07. Em con14 Ver RÜCKERT. paixões subalternas ou interesses escusos”. 1999. A trajetória da terra: ocupação e colonização do centro-norte do Rio Grande do Sul – 1827/1931. no início de 1962. ainda que tênues. Joel João Carini. desejamos uma Reforma Agrária. Porto Alegre. 1962. p. grandes latifúndios improdutivos. (Coord.000 ha de terras. quanto na publicação de trechos dos debates e das moções de apoio vindas da Assembléia Legislativa e de entidades diversas.000 ha. É bom que contextualizemos alguns aspectos mais amplos. p. os discursos já deixavam transparecer a preocupação dos ruralistas com a questão da Reforma Agrária: “Não somos um acampamento de reacionários. em especial em espaços. 72.) A construção do território na Região de Ronda Alta: ocupação e colonização – 1831/1996. com sede em Montevideo. ao lado de uma situação de demandas por terra. EDIUPF. mas.14 Portanto. espraiadas por campos e matos da região. temos no Rio Grande do Sul. que no caso da Fazenda Sarandi tinha ainda o agravante – num contexto de um populismo nacionalista de pertencer a estrangeiros. As terras eram arrendadas a vários agricultores e pecuaristas. dentre outros grupos de menor expressão. como já vimos. Ronda Alta: Secretaria Municipal de Educação e Cultura. A.

A proliferação de ações em torno da mesma e sua dimensão politicamente aceita em nível político e. da pecuária. agregados. pequenos camponeses. filhos de pequenos agricultores (o Censo de 1960. Segundo Eckert. aliada a crise do trigo. trapartida. parceiros. o começo da cultura da soja e suas políticas de alteração produtiva. no norte e sudoeste do Paraná. manifestado pela forte organização dos ruralistas.15 Inúmeros conflitos eclodiram em nível de país. em grande parte. especialmente no nordeste. a intensa presença de peões. contra latifundistas. expressavam a preocupação de entidades.Populismo. Porto Alegre.814 agricultores sem terra no RS). o movimento de Capão da Cascavel foi emblemático. temos um quadro de insurgência contra a possibilidade de mudanças na estrutura fundiária. social. institucionalizou-se e ganhou visibilidade entre os anos 60 a 64. Porém. Essa realidade demonstrava certo avanço na organização política do campesinato. desencadeando os movimentos que caracterizaram o Master. assalariados. meeiros. No norte gaúcho. O Master se consolidou. cooperativistas e sindicatos patronais e de trabalhadores rurais. assalariados rurais. o Movimento se consolida em 1960 por ocasião de uma tentativa de retomada de uma 15 Cf. É neste contexto que irrompe a operação Brizola. de 1962. nacionalismo e caudilhismo. amplamente apoiados pela mídia. assalariados rurais. arrendatários. com a concentração da propriedade. em Goiás. agremiações políticas. entidades essas de pouca repercussão no solo gaúcho até então. História: debates e tendências 73 . posseiros. pequenos proprietários. indicava a existência de 297. no caso em especial o PCB e o PTB. sua articulação não é meramente conjuntural e nem regional. manifestações de triticultores. com o aumento do minifúndio. Estratégias de ocupação de terras. Jornal Correio do Povo. 3 jan. com o esgotamento da fronteira agrícola no Estado. arrendatários. em geral em torno de lutas de posseiros contra fazendeiros. cujos desdobramentos veremos logo adiante.. organizações sindicais rurais já vinham se constituindo e inserindo em suas diretrizes ações de justiça em torno da terra no Estado. dentre outras formas de expropriação. contra o Estado por terras devolutas. havia uma correlação e uns fios que se teciam já por alguns anos coligados com mediações das Ligas Camponesas e com a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB). agregados. mas que contribuíram para legitimar ações reivindicativas em torno da questão fundiária e dos grandes problemas vividos por peões..

educação rural. Essa vinculação mediada por sujeitos ligados à agricultura moderna e à esfera pública continha intenções políticas e modernizantes da sociedade e do agrobrasileiro. Ruy Ramos. induzindo-os e coagindo-os a comprar a terra sob pena de serem despojados. pelo menos em seu nascedouro. redução dos custos dos insumos.. Dissertação. sensíveis em relação à questão agrária no Estado.000 ha – na qual o estado estava fazendo grandes investimentos em obras de saneamento e de irrigação) foram os mais expressivos no período pela forte vinculação com o governador Brizola que ambos expressavam. que o Master foi um movimento que. começa a exigir dos posseiros cobrança pelo uso da terra. dentre outros. C. Do mesmo modo. após quase 40 anos sem reclamar da propriedade.16 Esse movimento foi o que desencadeou a possibilidade de organização. foi institucionalizado de cima para baixo por intermédio de alguns proprietários modernos e intelectuais das fileiras do PTB. dentre outros). assalariados rurais. Renan Cecchet área de 1. pouco ou nada sobre a situação dos assalariados 16 ECKERT. Vários mediadores.800 ha no interior do município de Encruzilhada do Sul que há 50 anos estava em poder de 300 famílias de posseiros. Idem. Joel João Carini. Rangel. Prado Júnior. arrendatários.17 É importante que se diga. No início. 1984. 17 74 História: debates e tendências . buscou-se uma solução política e jurídica para apenas uma parte da área em litígio... não é bom esquecer que a questão da reforma agrária aparecia como secundária na pauta de reivindicações do Movimento nascente. Movimento dos Agricultores Sem Terra no Rio Grande do Sul: 19601964. Rio de Janeiro: UFRRJ. núcleos coloniais para camponeses sem terra. Falava-se em desapropriação do latifúndio antieconômico. gaúcho. de áreas improdutivas. em especial. dentre eles. Paulo Schilling e Milton Serres Rodrigues. tão em evidência nas grandes questões e teorizações sobre o campesinato brasileiro no período (Furtado. Passo Guimarães. redução das importações de trigo. etc. passam a pleitear junto ao governo do estado uma solução. pertencentes ao PTB. O proprietário. ainda que sinteticamente. melhores preços agrícolas. porém o da Fazenda Sarandi e o do Banhado do Colégio em Camaquã (esse repercutiu por ser uma imensa extensão de terra pública – em torno de 50.João Carlos Tedesco. principalmente em torno das pressões e da organização ainda incipiente de um contingente imenso de pequenos agricultores. A reação foi imediata.

ou sem. fez com que o mesmo. o qual passava pela reforma agrária como condição de ampliação do mercando interno de alimento. nacionalismo e caudilhismo. a constituição do mesmo por atores do meio rural com estruturas fundiárias. com performances variadas em seu interior. cria também o IGRA (Instituto Gaúcho de reforma Agrária) com o objetivo de definir políticas agrícolas e agrária para o Estado. cria em 1962 o PRADE (Programa Especial de Reforma Agrária e Desenvolvimento Econômico e Social) para organizar cooperativas de pequenos e médios agricultores em terras adquiridas. bem as enquadrava em seu projeto. desapropriadas. nos dois primeiros anos. 75 História: debates e tendências . ambigüidades e ambivalências políticas. democratizar o acesso a terra. a favor do avanço industrial.. acampamentos espalhando-se por todo o Estado foram minando posições e ações estratégicas no interior do Movimento. mediações mais radicais. ampliando o consumo urbano e rural. lutas por espaços mediadores e hegemônicos entre PTB. da extensão da CLT ao campo). reação de entidades em defesa da propriedade. sem.. A idéia era difundir a pequena e média propriedade. promessas não cumpridas pela esfera pública. em especial do Brizola. Com o passar dos meses e em decorrência da abrangência do Movimento. Igreja. necessitar enfrentar diretamente o problema da concentração fundiária e bater de frente com entidades representativas do latifúndio no Estado e que o sustentaram politicamente. não tivesse uma postura mais radical em torno das transformações da estrutura fundiária no Rio Grande do Sul. independentes. etc. Congressos. de certa forma. rurais (ou seja. O início do Movimento confundia-se muito com a luta pela Legalidade no qual Brizola intensificou sua simpatia popular agregada às lutas pelas reformas de base. Para viabilizar a reforma agrária no Estado Brizola cria o Grupo de Trabalho 14 com a incumbência de viabilizar colônias agrícolas de sem terra. bem como de propostas e de apoios. PCB. Desse modo. mesmo quando sob a orientação ideológica e política do PTB. Suas fileiras e suas mediações foram variadas. marcaram os primeiros anos do Movimento em seu vínculo com o governo Brizola. Os movimentos camponeses estavam nesse horizonte.Populismo. No entanto. etc. facilitar formas de organizações cooperativas e associativas. principalmente em seus primeiros meses. doadas. conflitos internos não eram incomuns. contra o imperialismo. encontros. Brizola ampliava seu controle e apoio no interior das classes populares.

da Fecotrigo. as formas variadas de desapropriação. grande latifundiário. Renan Cecchet suas formas de luta. produzindo. meeiros. agregados. Baseado em boatos. sejam madeireiras. Joel João Carini. ontem. A ocupação da Fazenda Sarandi irá condensar esses processos todos.. fixando-se em Ronda Alta no Município de Sarandi – famílias estas que pertenceriam às chamadas Ligas Camponesas. como reconhece o referido Jornal abaixo.. narrado por pessoas que vieram de Ronda Alta. ao que parece” – disse-nos um dos que informaram. quando o Estado proclamava a existência de “terras devolutas”. o início do Movimento na referida Fazenda. em Ronda Alta A reportagem colheu informes de que. as inserções de colonos nas reservas indígenas. grandes arrendatários e proprietários fundiários (dentre eles Ari Dalmolin. etc) que viam na mesma uma possível solução para os problemas agrários da região. o tomar posse das terras indicadas: o que chegar primeiro. dentre outras. mais de 600 pessoas no referido local.].. Veremos especificamente alguns aspectos dessa realidade.] Segundo consta. é descrito sob a ótica da mediação das Ligas. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo sob a ótica do voluntarismo e da irracionalidade e do reconhecimento da existência do problema fundiário na região: Concentração de elementos da “Liga Camponesa” de Nonoai.. em torno dos grandes conflitos que constituíram sua história. Segundos alguns 5-A ocupação da Fazenda Sarandi Como já frisamos a dita Fazenda Sarandi foi palco de muitas controvérsias em torno de seu tamanho. sem terra em suas várias identificações sociais no meio rural (assalariados rurais. [. a correrem em suas viaturas. [.João Carlos Tedesco. Isto é. as estratégias de ocupação. já no dia de hoje.. “Reclamam pelas terras de Sarandi.. pequenos arrendatários. nos Estados Unidos. encontram-se. dentre outras entidades representativas dos grandes interesses agropecuários no estado) e camponeses. presidente da Coopasso. diversas famílias tinham vindo de Nonoai. a constituição massiva de sindicatos sob a sua coordenação. em torno dos grandes expoentes do capital que investiram nela. essa concentração de pessoas pretende realizar algo parecido com o chamado “Cimarron”. outros grupos de resistência e contraposição. diando esses processos. Consoantes alguns informes. as famílias estão preparadas. no local chamado Capão da Cascavel. apossa-se da terra que conquistou e que é de sua preferência. Grupos políticos e de lutas sociais pela terra vão acompanhando e me76 História: debates e tendências .

lá no teu município. prático e que conheça bem o trajeto de Ronda Alta até o Pontão. no correr da estrada. informantes os colonos estão armados. Para a organização do movimento. nacionalismo e caudilhismo. De qualquer forma. em geral reconheciam o problema e apelavam para solução na esfera pública. acredita-se que já não se pode esconder a gravidade da situação criada em Nonoai que agora. se reflete sobre o Município de Sarandi. Homem de total confiança de Brizola. Calixto contou com a colaboração de vários líderes na região. causou impressão e impacto em todos os setores da comunidade gaúcha...18 O acampamento. Segundo um dos nossos entrevistados. aliada a algumas figuras mediadoras do PTB na região. prefeito de Nonoai. A capacidade de mobilização. começou no dia 11 de janeiro com 300 pessoas. Havia que se criar um fato social de grande repercussão para 18 justificar a desapropriação. p. objetivando a desapropriação da Fazenda Sarandi. 1. apesar de ter também muitos desafetos. 11 de Jan. se não foi planejado. cestiava sempre nas aguadas. que saiba da existência de um lugar que tenha boa aguada. para não viabilizar a justificativa de retirada pro invasão da propriedade. Calixto era um caudilho de grande prestígio na região de Nonoai. no diz 13 já se contabilizava mais de 1. Ao que se sabe. não muito pra direita e nem muito pra esquerda. os quais. utilizando a estratégia da beira da estrada. Calixto havia dado provas de sua liderança caudilhesca. bem como a intensa demanda pela terra na região. coragem e destemor durante a Campanha da Legalidade em agosto de 1961. “não havia homem mais apropriado para uma missão que exigisse coragem”.] Infelizmente a reportagem não pode se locomover até Ronda Alta para a verificação exata dos fatos. Passo Fundo. Na organização do movimento.Populismo. um homem da tua confiança. Eu conhecia muito bem o trajeto de Nonoai até o Pontão.. esteve sob o olhar vigilante e muito bem informado por Brizola nos mínimos detalhes. tu me arruma..Pra nós entra lá na Fazenda. Já outros dizem que não possuem armas. fidelidade política. o acampamento de Capão da Cascavel. O Calixto disse: . 1962. Nosso entrevistado Francisco Santos da Silva (conhecido por Chiquinho das Leis) foi convocado para colaborar com o movimento por ser conhecedor do trajeto Ronda Alta-Pontão-Passo Fundo. o então governador Brizola chamou ao Palácio Piratini seu primo-irmão Jair de Moura Calixto.300. conhecendo os melhores pontos para pousadas: O Brizola falou pro Calixto: . História: debates e tendências 77 . [.Olha Jornal O Nacional.

. principalmente no meio da caboclada. João Manuel. mandou chamar novamente Calixto. O entrevistado.Então você vai ser o chefe do movimento e este teu amigo vai ser o chefe da invasão. homens de posição. então eu nem assino este negócio. 64 anos.19 Brizola. mas tem muita prática e é conhecedor deste trajeto.20 hierarquicamente. No movimento de Capão da Cascavel. A liderança e o carisma davam-lhe forte poder: “olha. Aí o Brizola falou: . a primeira vez foi eleito pelo MDB e a segunda pelo PDT. para que se cumprisse o plano estabelecido para a invasão no prazo previsto e seguindo determinadas diretrizes. Francisco Santos da. Ronda Alta/RS. prá dia 11. foi prefeito de Ronda Alta em duas legislaturas (a terceira e a quinta).João Carlos Tedesco. 141. Nonoai se torna o ponto de articulação e a principal base de apoio ao movimento. foi tropeiro (madrinheiro de tropa) e agricultor assentado nas terras desapropriadas na Fazenda Sarandi. foi secretário municipal nos municípios de Sarandi e Constantina. Daí viemo aí em Ronda Arta. 20 RIBEIRO. Linha Dona Carolina. colaborou no recrutamento dos sem terra da região de Ronda Alta e na assessoria à Calixto. cedo.Nóis em avisemo que passá o caminhão. Era o Deus da caboclada”. 2005. E assim aconteceu. no dia 10 de janeiro. pra esse serviço só tem um e vô te dizê no pé da letra. p. Calixto e Chiquinho. 27 de fevereiro de 2006. vereador em três legislaturas. Além disso. Entrevistado por Joel João Carini. terra do prefeito Calixto. 27 de fevereiro de 2006.21 Assim.) era pessoa folclórica.. Os agricultores foram recrutados por Calixto e Chiquinho. Conversaram muito e combinaram a data da ocupação: 10 de janeiro e dia 15 Brizola prometeu estar no acampamento com todas as autoridades do Estado. tinha 92 anos. Erechim/RS: Gráfica São Cristóvão. mas. CASALI. né. J. 78 História: debates e tendências . Mas. acampar. arruma a turma. O entrevistado é aposentado. no dia 10 de janeiro prá amanhecê 21 Percebemos na relação caudilhesca estabelecida entre Brizola. Você volta pra Nonoai. a afirmação de um pacto de confiança e fidelidade. o Calixto era uma figura folclórica e muito ligado à pobreza. O Brizola perguntou: você tem certeza? O Calixto disse: se você não confiar. Entrevistado por Joel João Carini. no dia 06 de janeiro. ele não sabe ler nem escrever. tenho muitos amigos lá em Nonoai. Joel João Carini. A organização do acampamento de Capão da Cascavel foi projetada a partir de Nonoai. homens inteligentes. posa em Ronda Alta. estruturada 19 SILVA. a primeira vez pelo MDB e as outras duas pelo PDT. tinha também uma forte liderança. (. Memórias de Brizola – O guerreiro do povo brasileiro. Renan Cecchet Leonel. A. os quais mandavam emissários todas asia casas: . Este foi a Porto Alegre de avião e transmitiu a Brizola estar tudo em ordem conforme o combinado. Ronda Alta/RS.

Em verdade.. assentado em terras da Fazenda Sarandi. Calixto coordenou a ação nos demais municípios da região. é assessor parlamentar aposentado. Este já indicava um outro.. com o beneplácito. sabia que um não tinha terra. nacionalismo e caudilhismo. Teve também a participação do prefeito de Sarandi Ivo Sprandel. Ivo Sprandel. fui procurado por uma comissão de pecuaristas e agricultores ar24 SILVA.24 De Nonoai.. A gente olhava prá tráis e via aquela enorme fila de caminhão cheio de gente.23 primeiro administrador da Fazenda Sarandi. Entrevistado por Joel João Carini. 22 de fevereiro de 2006. A gente ia formando grupos. depois se juntou em Três Palmeiras com outro pessoal que também veio em caminhões do Pipiri. Ronda Alta/RS. foi um dos intelectuais do Master.(. tendo sido assessor de Calixto. Valdomiro.Populismo. Em matéria de capa. Então a gente saía convidando. 27 de fevereiro de 2006.Um vizinho avisava o outro. disse-nos o senhor Ivo Sprandel: . Saímos de Nonoai numas 100 famílias. Visitou colonos. tendo aderido apenas no final. sendo que depois foi o 22 Com relação ao comportamento de Sprandel no episódio de Capão da Cascavel. SOARES. Pois em encontro que ontem mantivemos com o prefeito de Sarandi. Na reportagem sobre o assunto. com 64 anos. fomos surpreendidos com a manifestação de S. desde Nonoai. o jornal Correio do Povo. é agricultor. lemos: Como tivemos oportunidade de informar. S.a de que Nonoai quer fazer reforma agrária à custa do município de Sarandi....22 .. esboça-se no município de Nonoai um movimento visando à entrega de terras a agricultores.”. do prefeito Jair Calixto. encarregou o João Manuel para reunir o pessoal de Ronda Alta. 23 SANTOS. anunciou: “Denuncia o prefeito de Sarandi: Mil homens de Nonoai se aprestam para invadir terras de Sarandi”.) Na verdade. Naquela época era muito difícil... quando chegamos em Ronda Alta tinha mais outro tanto.. delegando poderes a outras lideranças: O Calixto mandou caminhões na área indígena de Nonoai pra reunir colonos que estavam assentados naquelas terras. Entrevista já informada. Passo Fundo.. podemos dizer que foi contraditório. Cleto dos. o Calixto fez o movimento a pedido do Brizola. Francisco Santos da. visitou famílias. Entrevistado por Joel João Carini. O entrevistado. O entrevistado tem 71 anos. Linha Dona Carolina. As pessoas tinham medo dessas coisas. dia 11. No começo do movimento ele teve uma posição radicalmente contrária.. sr. esses capitaneados pelo Albano Jacobsi e em Ronda Alta com a adesão do grupo liderado pelo João Manuel Ribeiro. Convidado a entrar em detalhes acerca da curiosa situação. ia lá e convidava. sábado último. sendo que o Albano Jacopsi teve uma participação ativa. principalmente do Movimento de Capão da Cascavel. senão a liderança. História: debates e tendências 79 .

16. cientificando as autoridades. aderiu ao grupo de Calixto e passou a apoiá-lo como se a ele estivesse integrado por princípios ideológicos: “O Ivo Sprandel e o Maneco (João Manuel Ribeiro) traziam comida pra nóis. ainda que o governo estivesse de acordo com “um movimento pacífico”. Imediatamente mandei uma pessoa de minha confiança a Nonoai para entrar em contato com as autoridades daquele município. o chefe do Executivo é parente próximo.. p. que contraria frontalmente os dispositivos constitucionais. Ivo Sprandel disse que apesar de amigo do prefeito de Nonoai. O certo é que Sprandel havia se licenciado do cargo de prefeito para concorrer a deputado estadual. com o objetivo de ali se fixarem. Porto Alegre. num primeiro momento. Renan Cecchet rendatários de terras da Fazenda Sarandi. que em face da comunicação feita pelo prefeito Ivo Sprandel às autoridades estaduais.João Carlos Tedesco. Informaram que mil homens viriam acampar em três lugares diferentes nessa fazenda. É o que se depreende pela matéria: Informa-se. não poderia consentir com uma medida dessa ordem. ou não sabia do plano de Brizola (apesar de ser companheiro) ou sabia. se justifica como tentativa de carrear os votos dos mesmos para si. o sr. o Chiquinho e o Damaceno distribuíam. fazendo sentir a gravidade desse ato. a começar pelo governo do Estado. se fosse o caso. 12 de jan de 1962. Porto Alegre. repartindo a terra entre si. como se sabe. Joel João Carini. o governador Leonel Brizola teria mandado chamar a esta Capital o prefeito de Nonoai. que veio manifestar seu temor com referência a esses rumores oriundos de Sarandi. outrossim. S. Correio do Povo. o governador Brizola procurou mostrar à opinião pública que o ato partira exclusivamente da iniciativa de Calixto e de seus asseclas.25 ao lado dos agricultores e pecuaristas arrendatários.. a fim de apurar a veracidade da notícia. sr. Jornal Correio do Povo. para “moderar os ímpetos reformistas” de S. a fim de inteirar-se da situação reinante em seu município e. de propriedade da firma Estância Júlio Maílhos. de acordo com o tamanho da família”. Prosseguindo. Valdomiro. preferiu ficar do lado dos arrendatários da Fazenda Sarandi. p.27 A reportagem nos permite deduzir que Sprandel. o fato de ter permanecido 25 26 SOARES. 27 80 História: debates e tendências . o meu enviado concluiu que de fato está sendo tramada a invasão das citadas terras. 14. Entrevista direta já informada. mas. Tomei as providências que se impunham.26 Por sua vez. Porém. Jair Calixto. percebendo o sucesso do movimento.a do qual. 12 de jan de 1962. com sede em Montevidéu. Ao nosso ver. Embora não tivesse sido confirmada oficialmente a informação. Daí o Calixto.

nem mesmo se pode conferir a possibilidade deste texto ter sido enviado por alguma pessoa ou leitor. Por isso foi muito oportuna a visita do Governador do Estado a gleba visada pelo milhar e meio de lavradores que se deslocam (oriundos de vários municípios).28 As preocupações de Brizola com a ordem pública. No entanto não ocorre nenhuma indicação de que o texto aqui reproduzido tenha sido feito a pedido de alguém ou alguma facção ou partido. para um estudo mais acurado. Chama-nos a atenção o fato de que não havia tanta animosidade de parte do referido Jornal com as facções encabeçadas pelo governador Brizola. e que sem dúvida. p. concorrera para o incentivo da nossa produção (dentro do plano da pequena propriedade) e irá ao encontro das reivindicações justas de patrícios nossos. Brizola enfeixa nas mãos o problema dos agricultores deserdados O chefe do executivo riograndense.. 17 de jan. É o que um Jornal local manifesta. História: debates e tendências 81 . especialmente devido as questões políticas e econômicas locais. tem se emprenhado em resolver satisfatoriamente a questão. Está nas mãos de Brizola a resolução de grave problema social e humano pelo qual trabalham milhares de brasileiros. Em verdade se aproxima a hora de se processar uma distribuição racional. que acompanha com o maior interesse o desenvolvimento dos fatos. O Sr Leonel Brizola . constitui um drama vivido por agricultores concentrados naquele local. que desafia os legisladores. pelas cercanias da Fazenda do Sarandi e outras fazendas e granjas que ali se situam. Informamos que a matéria do jornal fora reproduzido na integra. desde os primeiros movimentos em busca de terra. social e humano. Brizola hoje conhece “in loco” a questão. pois ouviu e anotou os reclamos e os apelos dos homens do campo e das lavouras.Populismo. na rica região que compreende o território situado entre Sarandi e Nonoai. disseminados pelo vasto território nacional. Passo Fundo. tendo em mente a comentada Reforma Agrária. o que de certa forma seria mais coerente. 1.. tem uma idéia formada em torno do momentoso problema. juntamente com o prefeito Jair de Moura Calixto. sem lar e que lutam “por um lugar ao sol”. tendo em mira um equilíbrio econômico-social que de forma legal. com a possibilidade de ideologização do movi28 Jornal O Nacional. equânime e equilibrada de glebas territoriais (enquadradas no atual sistema latifundiário) tendo em vista o aproveitamento de homens afeitos ao amanho da terra. colocando a questão afastada de quaisquer pruridos de natureza política. bem como outras autoridades municipais e estaduais. solvendo-se assim um problema. 1962. sem terra. Decididamente houve uma contínua preocupação por parte de Brizola no sentido de tornar o movimento legítimo e simpático à opinião pública. nacionalismo e caudilhismo. tese que merece um debate no seu sentido básico.

[. com o amanho pelo braço hercúleo o agricultor. 141-142. o Governador do Estado destacou o Capitão Walter Emílio Nick...] Informações procedentes de Porto Alegre.. o Governo do Estado esta de acordo com um movimento pacífico mas não permitira qualquer alteração da ordem ou infração da lei. para facilitar a desapropriação. 1 e 2.. enviando caravanas ao próprio local das ocorrências. que estão concentrados entre Nonoai e aquela localidade. 14.]. 82 História: debates e tendências . ao que nos parece pelas matérias dos veículos de comunicação local. O chefe do Executivo estadual estabelecerá contato com o milhar e meio (mais ou menos) de lavradores. Que ninguém meta o pé além do alambrado! Quero que respeitem as propriedades particulares. rumará hoje para a região de Ronda Alta. Essa questão é interessante. Até a pouco as atenções gerais do Estado e agora de todo o país cerca os acontecimentos que se vem registrando nesta região no território entre a localidade de Ronda Alta e Nonoai. O movimento porém se processa pacificamente. demandam ao local centenas de pessoas. como na efetivação de uma grande jornada. Calixto. cit... onde mais de um milhar de agricultores realizam grande marcha em busca da terra.]. ajudante de ordens. p.]. Segundo informações fornecidas e agora confirmadas.29 caminhada épica pela conquista do solo e suas riquezas. Tanto o Executivo como o Legislativo vem adotando uma série de medidas. [. que serão arrancadas do seio da terra.. auxilia na legitimação da luta do Movimento que.. [. p. 13. [... Governador do Estado. Joel João Carini. já se contando cerca de 1300 agricultores e suas famílias formando bandeiras. ao que se percebe não é tanto questionada em seus objetivos e nem em sua estratégia de ação: Marcha em busca da terra. após estuda-las detidamente. revolucionário ou subversivo eram constantes: Isto não é invasão.30 Um jornal local corrobora o depoimento acima em torno da dimensão pacífica do Movimento. Renan Cecchet mento ou em fazer com que o movimento não se parecesse comunista. Como se sabe. 30 Jornal O Nacional. Cuida para não entrar no grupo algum agitador. op. adiantam que o Sr..].João Carlos Tedesco.. a fim de examina-las e.. [. como seu representante e observador pessoal em Ronda Alta. visitando o reduto dos agricultores sem terra.] . numa 29 B RIZOLA apud CASALI. [. 15 de jan.].. sem que até agora se tenha constado perturbação da ordem. De municípios vários. Leonel Brizola.. [. Passo Fundo. que há dias estacionaram nos territórios de dois municípios que abrangem vasta área. pois. O que nós precisamos é criar um clima social pacífico. visando encontrar uma solução para drama social que tem por teatro essa região do Estado.. 1962.

teses do Concílio Vaticano II e das decisões da Conferência de Medellín (Colômbia. a postura da Igreja Católica no Brasil estava distante das influências das 31 Sobre o assunto ver WARREN. I. R. No início dos anos 1960. 1968). o movimento de Capão da Cascavel foi criticado com veemência pela Igreja. Jornais mostravam que Brizola orientava determinadas invasões em várias partes do estado e determinava que fossem plantadas cruzes no centro do acampamento “para que mais tarde não nos chamassem de comunistas”. mantinha a maior parte do clero subordinado às suas 32 6-“Quem tem terra vai com Cristo. nacionalismo e caudilhismo. sindicatos e movimentos sociais: quarenta anos de história. com uma estrutura e uma doutrina muito clara. n. aquele era um momento de transição entre um período marcado por uma conduta teológica que fazia da Igreja Católica “um bloco monolítico”.. Igreja Católica. era conquistar o apoio da Igreja Católica. projetando luzes para a defesa e a promoção da vida na região. 2005.32 Efetivamente. abertamente contrária ao movimento.”33 No Rio Grande do Sul. A nova produção teológica e a nova prática pastoral. e outro. através de suas pastorais.Populismo. S. HAMMES. 16. 33 Jornal O Rio Grande. 1979. num grande aggiornamento. chegam ao Brasil mais tarde. Como um déspota. Redes de movimentos sociais.43-44. História: debates e tendências 83 . inaugurado com a eleição do Papa João XXIII. que tinha como propósito “abrir as janelas da Igreja Católica para o mundo. Porto Alegre. que havia assumido como arcebispo em 1947. numa profunda renovação.31 Uma das estratégias para a criação de um “clima social pacífico”. quem não tem vai com Calixto” – A posição da Igreja Católica frente ao movimento Ao contrário dos movimentos sociais populares. Santa Cruz do Sul/RS: EDUNISC. São Paulo: Loyola. até aí bastante reticente e. 23 a 30 de ago. em certos casos. a Igreja Católica estava concentrada nas mãos do arcebispo de Porto Alegre Dom Vicente Scherer. que desembocam na criação das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). como se verá a seguir. 2003. encarnadas pela Teologia da Libertação na América Latina. válida para todos.. p. A Teologia da Libertação ainda não havia nascido. segundo os nossos entrevistados. deflagrados nas décadas de 1970 e 1980. que puderam contar desde a sua origem com a mediação da Igreja Católica. 3ªed.

sob influência da Encíclica Mater et Magistra de João XXIII. Por isso. p. como fiel escudeiro do papa Pio XII. de representação partidária. dentre eles o Gaudium et Spes.[. ver também GOHN. faz um chamamento à sociedade e aos agricultores em particular para que reconheçam as inúmeras ações da Igreja nesse campo: Os objetivos da Frente Agrária Gaúcha Embora o Cristianismo vise antes e acima de tudo. A matéria a seguir é imensamente ilustrativa. p. seriam agregadoras de ações coletivas e comunitárias para além de dimensões classistas. 7. 230.. “Dom Vicente. 03 jan. da G. 35 84 História: debates e tendências .35 ao mesmo tempo em que apoiava a pequena propriedade por ser ela. de acordo com a doutrina social. o bem estar espiritual e eterno dos homens. trabalho e família. O surgimento da FAG. Com isso. 44.. introjetara que o comunismo era tudo o que não prestava. sendo sua principal obsessão a do “anticomunismo”. M.]. Ibid. nunca deixou Sem parecer ser paradoxal ou ambígua... Vicente. Segundo Hammes34. D.. essas concebidas como assistenciais e prestadoras de serviços. SCHERRER. Scherer manifestou-se nos seguintes termos: Os vanguardeiros das forças de Moscou agem com disfarces.João Carlos Tedesco. Joel João Carini. aliciando adeptos e ocupando posições. demonstra as inúmeras ações. a garantia histórica da família. Jornal Correio do Povo. as associações cooperativas e sindicais. mostramos os erros da ideologia marxista pelo debate dos princípios doutrinários em que se funda e pelo exame da experiência desastrosa que se está fazendo nos países já dominados pelas forças aguerridas do novo império colonialista. 4ª ed. condensa os objetivos da FAG e da Igreja Católica na questão da terra no Estado. cismava em combater tudo aquilo que pudesse ter alguma semelhança com a doutrina marxista ou que pudesse caracterizar alguma aproximação com países comunistas. entendia libertar a família e a propriedade dos males das doutrinas marxistas. bem como a Populorum Progressio de Paulo VI e dos próprios documentos do Concílio Vaticano II. a Igreja mantinha o controle ideológico dos sindicatos. do familismo em torno do tripé terra. Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. Renan Cecchet ordens e fiel às suas teses. 2004.” Na mensagem de abertura do ano litúrgico de 1962. 1962. Não promovemos campanhas negativas de anticomunismo. p. Porto Alegre. dá-se com essas intenções. a oficialidade da Igreja Católica do período interviu nos movimentos sociais de luta pela terra 34 Id. São Paulo: Loyola.

Populismo.Unir as populações agrícolas e rurais em Sindicato. Passo Fundo. Em 36 Jornal O Nacional. as Caixas Rurais. movimento inspirado na doutrina de Deus. trabalho e propriedades convenientes: recursos. justo. No Brasil.. são mérito das forças cristãs. os Círculos Operários. A Frente Agrária Gaúcha quer duas coisas principais: 1º . A Frente Agrária Gaúcha quer alertar o agricultor a que se una numa frente poderosa e ativa no sentido de obter. detentora de dois terços das terras do Brasil. de trabalho e profissão para todo o cidadão que quer ser útil a família e a sociedade... pacífica e sem política. esses concebidos como assistenciais. distribua mediante módicos resgates. Uni-vos sobre a bandeira do Cristianismo. a abolição da escravatura. 11 de Jan.. Agricultores e Homens do campo uni-vos. o direito de fama e opinião. serviço recreativo.. 85 porcento do ensino. A Frente Agrária Gaúcha não quer arrebatar a terra de ninguém. serviços sanitários. é justo reconhece-lo a civilização cristã. é uma organização brasileira democrática. por si e para si: leis. A Frente agrária Gaúcha crê e conta com Deus. A Frente Agrária Gaúcha. de habitação. de propriedade. melhores hospitais. farmácias. 2º .]. escolas rurais e profissionais.. justiça social e um lugar na sociedade. p. desse patrimônio a quem. o direito de locomoção. impulsionado pelas forças cristãs e compreensivas. e criai a vossa elevação e grandeza. só promete o paraíso na eternidade. 85 porcento das obras de assistência social. o direito de família e religião. Reclama sim o direito natural humano. Sois uma força numerosa e decisiva.. A Frente Agrária Gaúcha quer respeitados e garantidos os direitos naturais e inalienáveis de toda a pessoa humana: o direito de nascer. representantes na vida socioeconômica. [. comunicações e transportes valorização e escoamento da produção. habitações. o direito de viver o direito de instrução e educação: o direito a propriedade. o habitando o queira trabalhar e render. Sugere a Nação. reclama colaboração e trabalho. a serviço da promoção do homem rural. o direito de trabalho e profissão. promotores de serviços comunitários. Soou a vossa hora. nacionalismo e caudilhismo. líderes agrônomos. maternidades. História: debates e tendências 85 . controle de preços e de produção. o direito de cooperativa e sindicalização. no sentido de trazer o colono e o homem do campo para um nível de vida mais justo e humano.. serviço religioso. de votar consideração e esforços para o bem estar material e cultural dos povos e indivíduos. pequenas indústrias e serviços públicos.Operar uma educação de base nas Zonas Rurais. 2. seguros de família e de trabalho. empréstimos para colocar a família numerosa. estradas. defendo os valores espirituais e morais.36 Podemos ver que há uma orientação aos sindicatos. 1962..

Ibid. o padre de Sarandi esteve no acampamento para rezar missa para os acampados. uma capelinha de madeira abrigando a imagem de Sta Terezinha. Quando clareou o dia estava lá a faixa com os dizeres: QUEM TEM TERRA VAI COM CRISTO. mandou colocar uma faixa na torre da igreja. né. “prá mostrá que nóis não era comunista. 144. cidade onde o prefeito Jair de Moura Calixto mantinha forte liderança caudilhesca. 146. o acampamento foi batizado com o nome do Papa João XXIII. sábado. um cartaz em pano branco. Atrás dela. dar a bênção aos barracos.João Carlos Tedesco. registrou a visita que fez ao acampamento no dia 13 de janeiro de 1962. uma romaria em honra ao padre Manuel Gonzales). Renan Cecchet termos regionais. Jairo Antônio. de acordo com os nossos entrevistados. a cruz de madeira erguida à semelhança daquela de Cabral. Cleto dos. CASALI. 39 86 História: debates e tendências . somente isso não bastava. p. O depoimento de nosso entrevistado reflete o estado de ânimo entre as partes: Eu me lembro que o padre vigário de Nonoai. p. fiel discípulo de Scherer. Memórias de Brizola. rezar missa. Logo na entrada foi identificado por uma faixa: “Acampamento João XXIII”. algum padre deveria ir ao 37 acampamento.38 Com o propósito de dar ainda mais ênfase ao caráter religioso. Id. pois falavam muito que era um movimento comunista. Cit. Encimando a cruz.. os padres de Nonoai e Sarandi faziam coro ao discurso de Scherer no tocante ao anti-comunismo e ao antibrizolismo. em seu diário.37 Mesmo assim. Assim em 14 de janeiro. op. Entrevista direta já informada. QUEM NÃO TEM VAI COM CALIXTO. por ordem de Brizola..” Brizola já recomendara a Calixto para que fosse erguida uma cruz no acampamento e afixadas faixas dando ênfase ao aspecto religioso.39 Porém. com escrita preta: Somos cristãos! Queremos terra. Casali. o que contribuiu para atrair contra si forte oposição do pároco local. anualmente. domingo.. Joel João Carini. Indagamos a um dos nossos entrevistados de que forma foi possível convencer o padre a ir 38 SANTOS.. O Calixto em represália ao sermão do padre. durante o sermão de uma missa num domingo. O fato de maior repercussão na relação entre a Igreja Católica e o Movimento aconteceu em Nonoai. dizendo ter encontrado “em frente à faixa que liga Ronda Alta a Passo Fundo. ‘baixou o pau’ contra ‘este movimento comunista’. numa romaria que teve lá em Nonoai (Lá em Nonoai acontecia e ainda acontece. Era necessária a presença do padre para rezar missa.

I. aqui na capelinha!”. p.Populismo..41 A correlação entre o “ser cristão” e o “não ser comunista” dava ao movimento.40 seu uso corresponda aos interesses coletivos”. Por que nem nóis aceitava o tal comunismo. 151. CASALI. p.. uma das lideranças do movimento. Memórias de Brizola. em defesa dos interesses do Colégio... nosso entrevistado: “Eles falavam no tal comunismo. Isso é perceptível nas palavras de um dos assentados. segundo os entrevistados. como se fosse uma escola pública. um caráter de movimento “ordeiro”.42 O registro encontrado na obra de Casali sobre o discurso de Brizola. também. levantando os braços.. dentre as quais a que enfatiza o direito à propriedade particular “desde que 41 Ver GEHLEN. Os padres de Sarandi estavam vinculados ao Colégio de lá. um gritou: “Taí o padre que rezou a missa com nós ontem. levante o braço!”. apresentou-nos a seguinte versão: O padre que rezou a missa no Capão da Cascavel era de Sarandi (padre Quintilho Costini). nacionalismo e caudilhismo. Uma estratégia camponesa. Nóis queria terra. “pacífico” e limitado à reivindicação de um pedaço de terra. Entrevista direta já citada. 86.. Valdomiro. Enquanto isso. op... cit. Entrevista direta já informada. João Manuel. Jairo Antônio. na realidade não era um movimento comunista. O colégio dos padres de Sarandi (Ginásio Sarandi) dependia de verba do município e também do governo do Estado para funcionar gratuitamente. 42 40 RIBEIRO.. quem for comunista que erga a mão!” Silêncio total. citações da Mater et Magistra se fizeram presente. 43 História: debates e tendências 87 . “E agora. Com isso Brizola atendia aos interesses de uma ala da Igreja e não agredia em demasia outra. SOARES. anticomunista. também é elucidativo nesse aspecto: Aí Brizola perguntou: “Quem é cristão. E novo delírio!43 Havia uma constante preocupação em mostrar nas aparências e nas ações práticas que o movimento era cristão e. Mas. bem como buscava adeptos influenciados pela mesma em sua política em torno do que o mesmo considerava reforma agrária. Então o padre.. que por ocasião da presença do governador em seu discurso no acampamento. Inclusive eu estudei lá e nunca paguei nada. acabou dando cobertura ao Brizola. por que nóis era agregado e a vida de agregado não era fácil”. até o acampamento? O entrevistado.. por isso.Todo mundo explodiu num delírio. É importante dizer.. em visita ao acampamento em 15 de janeiro de 1962.

pois lhe atribuía ao desenvolvimento e incorporação da técnica... O Movimento dos Agricultores.00 ha. o fator técnica e capacidade de percepção e adoção da mesma lhe dá legitimidade e explicação. Redes de movimentos sociais..034 de 13 de janeiro de 1962.47 Encerra-se o caso dos sem terra em Nonoai Integra desapropriação da “Fazenda Sarandi” e seus considerandos. manter-se distante do movimento em termos de mediação-doutrinação ou conscientização. op.. as três fazendas do Sarandi. A área a ser desapropriada eleva-se a 24. apesar de.14 ha. que motivou o ato do governo. via indireta. Renan Cecchet Como se percebe. porém.44 No entanto. A.João Carlos Tedesco. com 6.46 7-Em fim. contrbuindo para a consolidação de um projeto de movimento social organizado em torno de fortes lideranças carismáticas e/ou paternalistas. 3ªed. a “terra prometida” O desfecho do movimento de Capão da Cascavel deu-se com a desapropriação de uma área de 21. daquela igreja a que se refere Boff: “que nasce do povo”... Joel João Carini. 1982. A Igreja reconhecia a concentração da terra. Acentua o documento que o movimento dos “agricultores sem terra”.239 hectares de terras e matos. cit. 46 ECKERT.. p. com 8. BOFF. cit. acaba emprestando sua ajuda. porém nada podia fazer.087. p. S. sábado o Decreto 13. dentre eles D. C. através do Decreto Estadual nº 13. J.. aparentemente. Leonardo. articulada e colocada ao lado das classes subalternas. O Governador Brizola assinou. 45 47 88 História: debates e tendências . a Igreja Católica. reconheciam os humildes e indefesos lavradores no campo. 66. a Ganadero Horácio Mailhos. Edmundo Kunz. com 7. A. das classes dominadas.151.28 ha.. Igreja: Carisma e Poder. I.45 Os ideólogos da FAG.034 declarando de utilidade pública para fins de desapropriação por interesse social..650. Memórias de Brizola.. como a questão da terra estava em evidência no contexto nacional. abrangendo a Agropecuária Lucena S. era importante livrá-los dos “lobos marxistas e dos agitadores do Master”. op. não se afastou da or- 44 Ver WARREN. ou seja. CASALI.86 ha e a Estância Júlio Mailhos.889. Petrópolis/RS: Vozes. apresentando uma alternativa dentro do “contexto cristão”. esta Igreja Católica estava distante da Igreja das CEBs. 155.

. n. 107. uma junta de boi. e por isso.Populismo. dem. p. do PTB. Mas teve gente que não pôde se inscrever.]. op. Entrevista direta já informada.. representantes dos colonos e de mediadores.. João Manuel. Entrevista direta já citada. tinha que ter um começo... arado – com isso o agricultor provava que ele era um agricultor sem terra.. A criação das Associações de Sem Terra tem o meu apoio. perdia 90% dos pontos. nacionalismo e caudilhismo.50 Tinha regras pra quem quisesse receber terra na Fazenda Sarandi.. Porque na época não havia empréstimos. os governos não davam empréstimos. Tinha que ter tradição agrícola. umas galinhas. no qual insistia-se na organização dos agricultores do RS para via50 Jornal O Nacional.49 O Plano de Colonização foi elaborado pelo Instituto Gaúcho de Reforma Agrária (IGRA – órgão do Estado) e foi apresentado aos sem terra no acampamento durante a ocupação.. 107. p. por que a causa da reforma agrária é justa. RIBEIRO. em maioria. A força da Brigada Militar está aqui para assegurar essa ordem”. um porquinho ou dois. sob a assessoria de pessoas ligadas ao IGRA e a Diretoria Estadual de Terras Públicas de Nonoai. 49 51 História: debates e tendências 89 . Ressalta-se que havia algumas 48 regras para a distribuição dos lotes de terra: cada sem terra inscrito recebia determinada pontuação. devemos empregar os meios justos. Passo Fundo.. todos ganharam um lote. Tinha que alcançar um certo número de pontos. pela forma ordeira e pacífica com que se conduziram. Valdomiro. de 1962.. conservando sempre o caráter pacífico. jan. o mesmo diz que “quero cumprimentar a todos e felicitar. 4. Se não tivesse equipamento nenhum.51 No mesmo dia da desapropriação pelo governador Brizola.48 No discurso em que Brizola comunicou a desapropriação da Fazenda Sarandi. dependendo das condições que tinha para tornar-se apto para a atividade agrícola. reuniram-se e lançaram um manifesto intitulado “Proclamação dos Lavradores do Capão de Cascavel”. uma vaca de leite. Nóis tinha que ter carroça. cit.. carroça. 16 jan. [. C. 1962. apud ECKERT. dentre os quais. As listas dos futuros beneficiados pela distribuição dos lotes foram elaboradas pelas lideranças do Movimento. A partir de hoje está desapropriada a Fazenda Sarandi e daqui não sairá mais um pau de lenha. tinha que ter os equipamentos – uma junta de bois. Aqueles que se inscreveram. Eu vos felicito pela ordem e pela alta moral do acampamento. Jornal Terra Livre. SOARES..

dentre outras questões.. foi vereador em Porto Alegre (1934)..p. conforme já exposto. Defendeu no Brasil uma ação trabalhista semelhante à do Partido Trabalhista da Inglaterra. os arrendatários da fazenda.. Por isso que essas áreas Ver ECKERT. Segundo Pasqualini. Movimento dos. A terra pouco adianta 52 53 sem meios. Uma estratégia camponesa. Ivaldo.52 O critério utilizado na distribuição da terra da Fazenda Sarandi. o qual reflete a influência de mediadores variados. mas não tinham terra. Os pequenos arrendatários que já estavam presentes no interior da Fazenda Sarandi. a partir de certas pré-condições do agricultor. foram aos poucos sendo cooptados pelo movimento e muitos deles acabaram se beneficiando com lotes que variavam de 100 até 200 ha. nos parece ir ao encontro da visão que o PTB tinha de reforma agrária. dependendo do lugar.. todas convergindo para o problema fundiário no Estado e a necessária democratização do acesso a terra pelos camponeses. “reforma agrária não significa apenas distribuição da terra. Segundo Ribeiro. De acordo com nosso entrevistado “aqueles que residiam dentro da fazenda. pela aprovação da reforma agrária. secretário do interior e da justiça do Rio Grande do Sul (1944) e senador por este Estado (1950). bem como no apoio de intelectuais e granjeiros do PTB gaúcho. Só se interessavam pelas terras de mato. por meios legais. Político brasileiro. nasceu no Rio Grande do Sul (1901) e morreu no Rio de Janeiro (1960). O PTB gaúcho era herdeiro das idéias do grande líder do trabalhismo brasileiro Alberto Pasqualini53. a agregação de operários e estudantes e todos os interessados em lutar. técnica e recursos para cultivá-la”. Joel João Carini. ao mesmo tempo. 90 História: debates e tendências . mas. Área de 100 a 200 hectares. modernista e estatista da questão fundiária estava presente nos discursos de Brizola. 90.. O pessoal da colônia não queria as terras de campo. como forma de resistência e pressão. Daí recebiam uma área maior.54 A dimensão progressista.. um apelo ao necessário apoio de entidades regionais. também intenções variadas. 54 GEHLEN. os arrendatários foram se organizando: E aqueles que arrendavam. misturando. também somavam um número X de pontos”. que tinham maquinário. C. Renan Cecchet bilizar uma organização em nível de estado e de país que congregasse os interesses dos agricultores. criaram uma associação (Associação dos Granjeiros Mecanizados Sem Terra). Participou da Revolução de 1930.João Carlos Tedesco. inicialmente contrários à ocupação dos sem terra.

dão a entender que a terra fora prometida e distribuída como um “gesto de benevolência” do governo Brizola.. p.55 Os acampados estão se organizando para receber o Governador e alguns já vestem suas roupas domingueiras.000 pessoas se acotovelam diante das barrancas da Fazenda Sarandi.. Brizola chega ao acampamento para tirar os colonos das trevas. sobretudo das entrevistas. acariciou uma vez as crianças.. Jairo Antônio.. A análise das fontes.. Memórias de Brizola. 149. abraçando a dona Emília. ainda que tenha havido organização e mobilização do grupo. E. Delírio geral! Chegou o nosso líder!diziam os colonos. O povo aguarda de mãos estendidas A concessão da terra é reconhecida como um favor e não como um direito ou resultado de uma mobilização e luta dos colonos.. De repente os alto-falantes anunciam que dois aviões surgem no horizonte. Os registros de Casali sobre a chegada de Brizola ao acampamento. Como um “Messias”. CASALI... p. cabocla velha. pois na época ninguém usava calcário.. Os sem terra e sem recursos para atividade agrícola. Ibid.. Os únicos alijados do processo de assentamento foram os primeiros. Desde sua origem. que lhe diziam: “Viva o Brizola”. Ensina os meninos a cultivá-la com carinho e técnica. 150-151. muito mais do que como resultado de uma ação coletiva. você é um exemplo de mulher.. os sem terra com animais e equipamentos próprios da agricultura familiar-colonial. e os granjeiros arrendatários da referida fazenda. Se aproximam e sobrevoam o acampamento. Entrevista direta já citada. nacionalismo e caudilhismo. o movimento de Capão da Cascavel constituiu-se num plano articulado de uma forma ou de outra com a participação do governador Brizola.57 Percebe-se uma nítida divisão dos sem terra em três grupos.. Nesta altura são 16 horas e mais de 10.Populismo.. que tenha contribuído. justamente os mais necessitados. dentro de uma concepção paternalista e sempre com a preocupação em torno da ordem. Id. são emblemáticos neste sentido: O caráter populista está expresso nas citações. em 15 de janeiro de 1962. 57 História: debates e tendências 91 . João Manuel.”56 “(.Vai ter terra para toda a família. também. como experiência de crescimento inte- 56 55 RIBEIRO. maiores foram sobrando.. Vou recomendar para você que lhe seja destinado 25 ha de terra.) Muito bem. A conquista da terra não se constitui no coroamento de uma ação coletiva.....

como nos disse um entrevistado. a garantia do direito à propriedade. principalmente em torno do cessamento dos acampamentos (em alguns casos locais cessaram. ainda que reconhecesse a necessidade do atendimento a uma “justa reivindicação social” dos agricultores. Analisando escritos sobre o Master. Petrópolis/RJ: Vozes. Muitos de seus pedidos não eram levados em conta.João Carlos Tedesco. 59 60 92 História: debates e tendências . “no bem” e “na ordem”. Brizola defendia uma forma de reforma agrária na qual seriam criadas associações/comunidades agrícolas de aproximadamente 30 famílias com 30 ha cada e uma área de lavoura moderna para o mercado a qual seria estruturada de forma coletiva em áreas adquiridas e pagas num intervalo de até 10 anos. acordava com a Farsul. contra o latifúndio. rios e açudes. é bom que se enfatize o fato de que nem todos os acampamentos do Master pelo Estado tiveram tanto apoio e um princípio de resolução no período do governo Brizola como o em questão. Ainda que. etc. mas no geral. das re58 formas de base. Renan Cecchet lectual e humano. não aconteceu no evento de Capão da Cascavel. pensou inclusive em desapropriar terras na beira de rodovias. uma reforma agrária “na lei”. Joel João Carini. sem desapropriações indevidas. nos pareceu clara a afirmação de Brizola nem sempre teve o controle geral sobre o Movimento. 2004. de. O Acampamento na Fazenda Sarandi passou a ser referenciado no interior do Movimento e pela imprensa local pela sua expressão e manifestação da popularidade do Governador que esteve pessoalmente. J. Brizola acionou as terras públicas. ao mesmo tempo que apoiava ações do Movimento. Brizola. 2ª ed. Ver GOHN. F. bem como houve manifestações de inconformidade em relação ao acordo com a Farsul Sobre o assunto ver SOUZA. de reservas indígenas. A democracia dos movimentos sociais populares: uma comparação entre Brasil e México. Que tenha servido para a expressão do pleno exercício da cidadania. essa estratégia continuou). Movimentos Sociais no Início do Século XXI. fez um discurso extremamente populista em torno do tema. tenha alterado suas propostas. da G.58 Que tenha extrapolado os limites do aspecto meramente reivindicativo.59 A participação cidadã. na prática. viu”. Recife/PE: NUPEP/ Editora Bagaço. os proprietários da referida gleba serem estrangeiros. no caso específico em questão. “Ganhemo a terra graças à vontade do Brizola. valendo-me de expressões de Gohn60. sem violência. aquela que permite que ideários múltiplos fragmentados possam ser articulados. Para garantir essa ambigüidade. Porém. M. contra o imperialismo. 1999.

Nonoai. dentre outros. Serrinha. de apoio social. Movimento e proprietários). pontuando mais alguns aspectos do desfecho final do mesmo com o governo Meneghetti e o Golpe Militar de 64.. Movimento dos Agricultores. Guarani. suas lutas em correspondência com o que se desenvolvia no país em torno de preços..). freqüentava as reuniões da Farsul. de participação pública. não há dúvida em afirmar que o Movimento se fortaleceu enquanto núcleo de luta pela terra.. Vários acampamentos tiveram desfechos variados. no período em questão. no fim de seu mandado estavam em vias de serem adquiridas e não o foram mais com o governo Meneghetti. Assim como Brizola participava no interior do Master através de seus interlocutores do partido. a desapropriação em terras públicas. outras adquiridas e não distribuídas. mas sempre insistimos que muitas das terras foram distribuídas em reservas indígenas (Votouro. políticas (correlação de forças e pela ruptura radical de sua política no governo que o sucedeu. com violência ostensiva ou não. 8-A repressão e o fim do Movimento Ainda que nossa intenção seja a análise do Movimento Capão da Cascavel. Idem. custos.. da Farsul. em vários momentos. Gravataí.61 Dificuldades jurídicas. o apoio de lideranças do PCB. Giruá...Populismo. São Francisco e Paula. outras. não buscava se indispor com a cúpula da Igreja Católica.) deixaram ou fizeram com que a “reforma agrária do Brizola” ficasse muito aquém do aparentemente possível. metodologias de ação das partes (governo. estão os acampamentos de Cruz Alta. 61 ECKERT.. Taquari. crédito. etc. Itapoá. Dentre esses. Tupanciretã.62 Não obstante. represálias ou não de ruralistas. Santa Maria.. Camaquã. da Brigada. a não violência. nas suas relações com outros movimentos e lutas sociais sejam elas rurais ou operárias.. 62 História: debates e tendências 93 . nacionalismo e caudilhismo. Eckert coloca que terras foram desapropriadas e distribuídas pelo governador Brizola. Sapucaia. financeiras.. que determinava o fim das invasões. outras foram cedidas. obtinha.. etc. produtividade. achamos necessário dar um fecho final na sintética análise. legislação no campo. C. mercado.. pelo sindicalismo.

Movimentos na região de Passo Fundo continuaram ocorrendo como é o caso de Nonoai. Torres... ainda que o mesmo manifestasse desconhecimento das barbaridades que foram feitas contra os colonos e 63 alguns indivíduos representantes de entidades mediadoras. movimento esse que foi fortemente reprimido. na prática. Terras que tinham sido desapropriadas pelo governo Brizola não foram entregues aos acampados pelo governo Meneghetti que. Movimento dos.63 Outros acampamentos foram reprimidos a mando do governador. prisão de sindicalistas. revelou não ser a ECKERT. à necessária resolução da questão fundiária no Estado. estratégias de impedimento de passagem de alimento (“cerco da fome” e “tortura da sede”). movimentos estudantis. Eckert analisa vários acampamentos logo nos primeiros dias do novo governo. Tapes. Renan Cecchet O governo Meneghetti. Guaíba. redefiniu-se algumas linhas. perseguições a presidentes de sindicatos de trabalhadores rurais. 94 História: debates e tendências . prisão e repressão aos sindicalistas que o estavam apoiando. Repressão policial. dentre outras técnicas de controle governamental. C.. Canoas. Quem ler seus discursos de campanha. numa não menos conflituosa reserva florestal do Estado. assalariados permanentes por parte de proprietários e jagunços contratados e amparados e/ou ignorados pelo governo (sob o argumento do estatuto do trabalhador rural). em teoria. Joel João Carini. na própria Fazenda Sarandi e em reservas indígenas. parceiros. a cidade de Nonoai ocupada pela Brigada Militar. em outros moldes. dentre eles: o de Sapucaia. despejos de arrendatários. O IGRA sofreu intervenção com a diretoria exonerada e dezenas de funcionários demitidos. radicalizou-se a questão da reforma agrária. divisa com Nonoai. agregados. Com a saída de Brizola da cena política gaúcha. bem como a constituição de sindicatos de assalariados rurais e de pequenos camponeses. Bagé. Osório. Novo Hamburgo. o acampamento incendiado. desrespeito e descumprimento de ações do governo federal em relação às questões agrárias e às repressões que ocorriam aos colonos. A repressão do governo não tardou a aparecer. deslegitimação de ações de representantes de entidades federais pelo governo estadual. o prefeito Calixto impedido de governar o município. lideranças. na dita Reserva Florestal. a hegemonia do PCB no Movimento se fez presente.. bem como no início de seu mandato percebe que suas propostas eram até progressistas em torno da questão. prometia dar seqüência. Um deles é o de Irai.João Carlos Tedesco.

Ainda que os interesses dos camponeses fossem em torno da luta pela terra. endossava as denúncias dos mesmos. vereadores. apoio jurídico. o Movimento de Capão da Cascavel na Fazenda Sarandi manifestou-se muito mais como um movimento estratégico. uma área grande de terra..64 constante conflito com o IGRA. Mas depois extrapolaram. O mesmo apoiava ações dos acampados. Ou foram entregues sem o cumprimento das regras estabelecidas pelo IGRA. No fundo. Porém seu papel não agradou por inteiro o Master que o criticava pela sua inércia. deputados. Começaram a usar a terra da Fazenda pra favorecer apadrinhados políticos. O Master foi reprimido. representava a ambigüidade enfrentada pela presidência da república no período em questão. como foi o caso da FS. na legitimação da criação de cooperativas. Por que ali. etc.Populismo. suas lideranças principalmente. na intermediação entre sem terras e governo. Isso aconteceu. bem como estender suas lutas e afinar suas estratégias de transformação social a partir de alianças operáriosestudantes-camponeses. ampliando a simpatia e o interesse em torno da reforma agrária em outros âmbitos sociais além do camponês. Entrevista direta já informada. associações rurais. Terra não. elegendo-se prefeitos. ganhou uma granja. organizado pelo então governador Leonel de Moura Brizola. nacionalismo e caudilhismo. do que propriamente como um movimento social de base popular e ideológica campesina. da conquista de um espaço de chão para sobreviver na regio acusavam de comunistas.. o Ex-prefeito Normando Baldissarelli era comerciante e ganhou terra. com finalidades previsíveis. Aí desmoralizou um pouco”. uma área que variava de 17 a 20 hectares de terra. não tinham a quem recorrer que não fosse ao SUPRA (Superintendência da Reforma Agrária)..65 órgão do Governo Federal em 64 RIBEIRO. eu sei. questão fundiária sua prioridade de governo. Tanto é que aqui em Ronda Alta. com a mudança de governo. mudou a coisa. era criticado também por entidades de grandes proprietários que 65 História: debates e tendências 95 . cada sem terra recebia um módulo. promovia políticas assistenciais junto aos acampados (alimentos. subversivos. João Manuel. Nosso entrevistado informa que: infelizmente depois. Muitas de suas lideranças passaram para a esfera institucional da política. alfabetização). porém sua luta pela terra permaneceu como central e marca do Movimento. no começo. ou seja. essas enfraquecidas. sindicatos. Começaram doar terra à gente estranha a agricultura. 9-Considerações finais No plano das estratégias e ações concretas.

Renan Cecchet ão. nesse jogo de contentamentos. a oposição ao Movimento não foi tão forte por parte dos latifundiários do Estado congregados na Farsul. em segundo. de autoafirmação e sobrevivência do nacional-populismo. aos conflitos na Fazenda Sarandi. no tocante. dentre outras entidades que se opuseram com firmeza quando da invasão de inúmeras outras glebas produtivas e/ou improdutivas no Estado. a desapropriação de terras de estrangeiros representava uma atitude nacionalista. além de caudilhescas. Por isso que. em crise desde meados de 1961 com a ascensão de Jango na presidência da República. Expressou-se também naquele evento uma seqüência de atitudes caudilhescas. O movimento Capão da Cascavel tinha 96 um objetivo específico: a desapropriação e a nacionalização de um latifúndio pertencente a uruguaios. No entanto. típicas da tradição política gaúcha desde a República Velha. do que o rompimento com a secular estrutura fundiária que insistia em reproduzir e legitimar o latifúndio. A luta de Brizola para que a ação de Capão da Cascavel fosse reconhecida como um ato legítimo. manifestadas pelas lideranças do movimento. como emblemática para a solução agrária do Estado. Assim ele acabaria contentando os dois lados: os sem terra e os médios e grandes proprietários nacionais. representava muito mais a expressão do nacional-populismo. Nada para além do alambrado da Fazenda Sarandi. Em primeiro lugar a reforma agrária atendia a principal meta das Reformas de Base e uma das grandes bandeiras do trabalhismo. A Fazenda Sarandi apareceu. vista com simpatia pela elite agrária ligada ao PTB. assim como as reservas florestais e indígenas. são o prenúncio da aproximação do Golpe Militar. aos olhos de Brizola e das forças reacionárias do latifúndio. cujo desfecho resultou na deflagração da Campanha da Legalidade no Rio Grande do Sul. inserida no contexto das Reformas de Base do Presidente João Goulart. na própria Fag.João Carlos Tedesco. para convencer a opinião pública e a mídia da importância das Reformas de Base. A idéia da reforma agrária defendida com veemência por Brizola. Joel João Carini. foi muito a expressão de uma tentativa de reação. é importante enfatizar que no tocante à questão agrária Brizola esteve sempre sob fogo cruzado História: debates e tendências . naquele momento do pré-1964. adoçadas com uma forte dimensão paternalista e clientelista fomentadas pela Igreja e outros mediadores junto aos camponeses e expropriados do campo. A desapropriação da mesma representava para Brizola o coroamento de um projeto ambicioso.

Movimentos pela terra. C. por todo o de Meneghetti.. Abriu espaço e experiência para no66 ECKERT. em termos de estratégias de ações. como foi o caso de Paulo Schilling. parceiros. do apoio parcial da Igreja. ainda que o Movimento tenha avançado em muito nas questões da terra e nas políticas públicas em torno da agricultura em geral.Populismo. Malgrado essas dificuldades. vindo a se manifestar numa forma mais intensa quase duas décadas depois com acampamentos e assentamentos em parte de seu interior como é o caso do Natalino (1981). Movimento dos Agricultores. em grande parte. por mais que por muito tempo tivesse em mãos o controle da direção do mesmo e que seus ideólogos estivessem em posição de destaque no interior do PTB. em seu governo. outros migraram para outros estados e até no Paraguai. defendia a invasão como forma de justificar. assim como não havia uma organização fundada em princípios ideológicos e políticos definidos – não obstante a forte presença do PCB. A Fazenda Sarandi. continuou sendo palco de conflitos no fim do governo Brizola. duas décadas após. Por mais que Meneghetti tenha concedido direito de propriedade e uma gorda indenização à família Maílhos (uruguaios). História: debates e tendências 97 . posições variadas e conflitos internos foram sua marca registrada. ganham visibilidade na região como. assalariados.66 Nem sempre a diretoria de um movimento consegue agregar e contemplar o todo do mesmo. o Master construiu um referencial histórico de conquista de terras num estado de centenas de milhares de sem terras. muitas famílias de sem terra permaneceram no lugar atuando como peões.. no cenário das pressões dos pecuaristas. É nesse sentido que o mesmo. Porém. outras invadiram terras indígenas. objeto de alguns sintéticos e esquemáticos aspectos nesse estudo. produziu reações por todo o lado.. conseguiu penetrar no seio do latifúndio no Rio Grande do Sul.. nacionalismo e caudilhismo. arrendatários. pressionar e legitimar desapropriações (em geral com apoio da Brigada!). do Anoni em 1984 e nas tentativas de novas glebas que pertenciam a dita fazenda até os dias atuais. não houve homogeneidade política no interior do mesmo. fruto desse processo mal resolvido pela esfera pública no período em questão. até mesmo nos primeiros meses do governo Militar. dos minifundistas e sem terra. das críticas e contentamentos “conjunturais” do PCB. Brizola nem sempre influiu como quis no interior do Movimento. não há dúvida em afirmar que..

.67 Com o Golpe Militar não só o Master. Igreja: carisma e poder. 2005. comercial e industrial). O Desenvolvimento Econômico Brasileiro. Movimento dos. Estados. lutas mais radicais e que mexiam com formas históricas e estruturais como as da propriedade da terra foram desmobilizadas. A... Joel João Carini. os sujeitos e entidades em torno das mesmas eram considerados subversivos. Porto Alegre. Correio do Povo. M. 98 História: debates e tendências . Correio do Povo.João Carlos Tedesco. presos. dentre outros aspectos. Joel João. recompõese a aliança da propriedade da terra com vários expoentes do capital (financeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 10-Referências bibliográficas BANDEIRA. tendo os movimentos sociais perdido parte de seu vigor e sua efervescência. crédito. 2005. L. desviadas para outras questões no campo do trabalho. Petrópolis/RS: Vozes. O emprego no meio urbano. produtividade. inimigos da pátria. Memórias de Brizola – O guerreiro do povo brasileiro. CARINI. nas questões de produção. Porto Alegre. 1997. eram reprimidos. Petrópolis/RJ: Vozes. 17ª ed. 1982. dependendo do conteúdo das demandas sociais. 07 jan. C. etc. Ijuí/RS: Editora Unijuí. no meio urbano. Erechim/RS: Gráfica São Cristóvão. financiado por políticas públicas. J. até porque. mas movimentos sociais em geral entram numa situação de aparente imobilismo. índios e colonos: o conflito na Reserva Indígena de Serrinha – Norte do Rio Grande do Sul. por quase uma década. 1962. BOFF. os grandes projetos de colonização. 03 jan 1962. Ver ECKERT. em meio às políticas repressoras. cooptaram massas de pobres no campo e no meio urbano. Correio do Povo. Com os militares. anular também o papel da Igreja no meio rural ainda que a tivesse como aliada nas políticas assistenciais nos órgãos de representação de determinadas cate67 gorias. CASALI. BRUM. a modernização no campo. Renan Cecchet vos e mais organizados movimentos em torno da questão da terra no Estado a partir do final do regime militar no país. O referido regime conseguiu. A. Porto Alegre. 3ªed... 1979. Passo Fundo: UPF. Brizola e o Trabalhismo. 12 de jan de 1962.. ameaçados.

Igreja Católica. GOHN. GEHLEN. M. C. HAMMES. Redes de movimentos sociais. F. Santa Cruz do Sul/RS: EDUNISC. O ciclo da Revolução Burguesa. R. . 2ª ed. IANNI. Rio de Janeiro: UFRRJ. 1983. Petrópolis/RJ: Vozes. 1999. Teorias dos movimentos sociais: Paradigmas clássicos e contemporâneos. A democracia dos movimentos sociais populares: Uma comparação entre Brasil e México. São Paulo: Loyola.Populismo. Ronda Alta: Secretaria Municipal de Educação e Cultura.. A. O. sindicatos e movimentos sociais: quarenta anos de história. S.. 1984. História: debates e tendências 99 SOUZA. projetando luzes para a defesa e a promoção da vida na região. ________. Porto Alegre: UFRGS. 2005. I. (Coord. Petrópolis/RJ: Vozes. I. 2004. A construção do território na Região de Ronda Alta: Ocupação e colonização – 1831/1996. São Paulo: Loyola. ECKERT. de. Passo Fundo: EDIUPF. 2004. Dissertação. 1999. 3ªed. Movimento dos Agricultores Sem Terra no Rio Grande do Sul: 1960-1964. Movimentos sociais no início do século XXI. RÜCKERT. nacionalismo e caudilhismo. 1997. J. 4ª ed. 2003. __. Uma estratégia camponesa de conquista da terra e o Estado: o caso da Fazenda Sarandi. Dissertação. WARREN.) A trajetória da terra: ocupação e colonização do centro-norte do Rio Grande do Sul – 1827/1931. 1984. da G. Recife/PE: NUPEP/ Editora Bagaço.