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Literatura e história

Imagens de leitura e de leitores no Brasil no século XIX

Sarita Maria Affonso Moysés
Faculdade de Educação, Universidade de Campinas

Trabalho apresentado na XVII Reunião Anual da ANPEd, Caxambu, outubro de 1995.

A busca do letramento e da instrução sempre foi considerada pelo ideário republicano condição para a cidadania e a modernização da nação. Embora não possamos afirmar que seja uma mudança própria da sociedade brasileira no século XIX, da confrontação dessa necessidade de leitura e escrita com o modelo cultural da escravidão, que articulou essa sociedade durante quase quatro séculos, emergem transformações que lhe fornecem um perfil específico. Na evolução cultural da sociedade brasileira do século XIX, tais transformações, fundamentais para uma possível reconstrução das práticas de leitura, relacionam-se principalmente a mudanças de comportamento, de hábitos e mesmo de estrutura de personalidade de seus membros diante da apropriação de um conhecimento. Construída por negros, ágrafos e iletrados, e por brancos, iletrados e letrados — com a difusão de idéias liberais e republicanas, vindas principalmente da França, na formação de uma nação livre e homogênea —, a sociedade brasileira se vê defrontada não só com as oposições senhor/escravo que a estruturam, mas com as articulações entre as di-

ferenças e as dependências que configuram as suas práticas culturais. Se as proibições de educação e de acesso ao conhecimento para os negros, por sua exclusão na Constituição Imperial de 1824, ainda perduram, em meados do século XIX o que se dimensiona é o contraste dessas interdições com a diversidade de produções e apropriações culturais, com a invenção — segundo Certeau — de várias maneiras de ler desses grupos sociais. Ao tentar discutir, neste texto, algumas dessas transformações, que marcam a passagem de um mundo oral para o mundo da escrita, não se pretende simplesmente inventariá-las, mas recuperá-las enquanto imagens de uma época, fundamentais para sua compreensão histórica. Recuperá-las, na língua e na literatura, enquanto representações que, de acordo com o modelo escolhido (Bakhtin, 1988), são perspectivas sociais e históricas. Como representações literárias registram, em suas particularidades formais, em seus modos e estilos, os símbolos da pluralidade dessas perspectivas, os sinais que “diferenciam mundos histórico-sociais diferentes” (Bakhtin, 1981b, 1988). Como imagens, essas re-

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derivadas da condição escrava e pelo qual os grupos de homens e mulheres negros se orientam. pouco se diferenciam. as imagens re-apresentam. representam a si mesmos. Em um primeiro momento. “atravessam os textos. a substituição de um racismo anterior. se os negros possuem dos brancos apenas a forma. D’Arsy. “assim nus e pelados. Benci. com a África e a liberdade. os espaços de produção e circulação culturais. durante e depois dos séculos de escravidão — talvez esteja relacionada com os modos de construção do conhecimento. Burlamaque. incapaz de aprender.. na apreensão do mundo e do conhecimento. ainda são tênues. configurá-las (Elias.. significa reconstituir as representações dessa sociedade no seu acesso à cultura escrita. parediscussões sobre as idéias de Buffon são feitas no Brasil por Skidmore. por um racismo que. Depois. 1977). escreve: “entre todas as espécies de seres humanos descobertas até agora. os textos se transformam”. ou apresentam de novo (na modalidade do tempo) ou no lugar de (na modalidade do espaço). s/d). Assim. mas as virtualidades da linguagem. como os animais” (Koster. que. 1993). é desencadeado. atravessados por elas. em 1774. sentados no chão. Assim. feitas por viajantes e cientistas (Lery. Enquanto negros. “De bom grado se levantam para serem colocados a fim de serem examinados e tratados como gado” (Freysess. segundo G. As relações estreitas entre ciência e literatura permitem. por disposições específicas. No sistema de representações criado pelo negro como forma de orientar suas condutas. Nos séculos XVIII e XIX. baseada em postulados racionais. são vistos como animais. Long. 1990.. conflitos e aspirações. pretende-se discutir as rupturas nos sistemas de representações. seus valores. e. Como imagens de uma época. transformando-os. de acordo com as idéias de Buffon1 em Histoire Naturelle. que tornam possível sua realização (Elias. a difusão fundamenta a tese de Rousseau de que não constituem sequer uma raça. que categoriza as raças humanas. 1991) significa considerá-las historicamente como situações onde os indivíduos são atores e não entidades abstratas e hierarquizadas por estruturas e posições. Considerados esses textos como prova de testemunho da condição não-humana dos negros. nessa época. apud Mattoso. pelos atributos sexuais e físicos. às vezes invisíveis. Essa inferioridade intelectual pode provir tanto de uma constatação natural.. Vários deles chegam da África já marcados a ferros em brasa. Recuperar as imagens de leituras e de leitores. pela formação e pelos objetivos de observação de fauna e flora desses viajantes. tais descrições dos negros como selvagens vão aproximá-los. 1942). sua maneira de “ser escravo” — possivelmente a que mais o marcou. 1 As 54 Set/Out/Nov/Dez 1995 Nº 0 . Direcionado para se perceber como animal. como a de M. générale et particuliére (17491788). observando curiosos os transeuntes. (Marin. aparentemente dos macacos. 1992) reconstituindo contrastes e significações. principalmente. todo um processo de rupturas com o seu passado. das imagens de monstros e animais que povoam os escritos ocidentais dos séculos XVI e XVII. as situações de interação entre os indivíduos e as relações que as articulam às determinações longínquas. ao categorizar raças humanas por características físicas e. buscar traços e gestos esquecidos. onde o lugar de produção da palavra do indivíduo negro se estabelece pelas tensões com o mundo do trabalho redefinido pela Abolição e por outras relações de dependência com seu grupo social. por um lado.Sarita Maria Affonso Moysés presentações literárias revelam não só a realidade. mentais. determina a ideologia racista dos séculos XVIII e XIX. mas inferior. As fronteiras entre os textos literários e científicos. do seu desenvolvimento intelectual. vinculado às formas antigas de etnocentricidade. Apreendendo a língua com linguagem (Marin. marcas perdidas. “sua inferioridade intelectual pode mesmo ser inferida matematicamente”. com a língua principalmente. selvagem e depois como ser humano. 1993). aclamando as relações entre a língua que representa esses mundos e a língua que é representada nesses mundos. na qual se objetivam. por isso. 1960.

caso se integrem a uma nação. pela interiorização da dominação do branco. A língua registra/representa essa ruptura espacial: são todos. 1980). para que restem na nãocompreensão. de benins. e mesmo denominados segundo os portos de partida da África. antagonismos vindos de lutas anteriores. Porém. é “propenso a acreditar” que os negros são naturalmente inferiores aos brancos. criados nos textos literários. quase sobrenatural — que precisa ser “salvo pela escravidão”. 210. mostrando um ser inferior espiritualmente. Pelos olhos dos viajantes ingleses. Passam a ser chamados de cabinda. visto a inferioridade natural do seu espírito para pensar e agir como homens”. no silêncio. e é diferente do outro. Relatadas. no Congo. a comunicação. É diferente do outro. mas principalmente pelas variações entre as línguas. em Lagos. famílias e da própria nação. no isolamento. que está junto dele. as mucamas. rompendo-se as linhagens e relações de parentesco. em meados do século XVIII. “Realmente eles são tidos menos por homens do que por animais ferozes até gozarem do privilégio de ir à missa e receber os sacramentos” (Koster. mas que não o compreende. em razão da cidade de Benim. os cânticos. referência ao porto de Cabinda. é descrita por Gomes Eanes de Zurara. explora estrategicamente. para “prear negros”. Estão separados por diferenças. de família ampliada. que. em função do porto de São Jorge de Mina. se defronta e dos quais se apropria para “ser escravo”.Literatura e história cem ser os negros os mais incapazes. é entre esses textos e suas idéias — que fundamentam a necessidade da existência da escravidão e comprovam o desenvolvimento intelectual inferior do negro. devido ao porto de Quelimane. Representam. as negras. criam as imagens que configuram a escravidão. fazendo-o seu interlocutor. Enquanto negros. legalmente. como negros. de benguelas. segundo palavras do papa Nicolau V. para que não tenha a palavra desse outro como ponte de expressão. “a alteração e a degradação de indivíduos. no sul de Angola. pressuposto da condição escrava.. na África oriental. Cunha. é a partir das relações entre literatura e religião que a representação do negro como semi-animal. que relata. anotados. o branco. os significados temporais dos laços de san- Revista Brasileira de Educação 55 . O outro é o negro. científicos e religiosos. que partilha a mesma condição. de minas. na bula Romanus Pontifex (1454) —. 1985). é com os valores dessas representações de sua condição não-humana. Por outro lado. Assim. suas organizações de clã. que o negro. feita pelo branco para que o escravo não possa reconhecer-se no outro. as diferenças físicas. por causa do porto de Benguela. Evoca-se o lugar de partida ou o lugar a partir do qual se constitue escravo. ligada a outras cidades iorubás. O mecanismo é o desdobramento através das diferenças. Uma separação estratégica por diferenças. o branco. que lhe permita reconhecer-se nele e em sua palavra. como escravo. Ou de uma crença natural. o outro. p. 1942. como branco. não existisse enquanto homem. Ainda que. identificados. como a de David Hume. são considerados como degenerados e imorais.. A essa interiorização corresponde uma perda de identidade étnica. de jabus ou jebus por causa da cidade iorubá de Ijebu. é difundida. Uma dessas missões. evitando que surja a cooperação. as posturas dos negros capturados e como se desenrola a estratégia da separação por etnias e por comunidades lingüísticas. Deslocados de seus espaços originais. 1841). que. capturado na África. são destruídas. Gomes E. de um desenvolvimento intelectual inferior. quase animais.”. e a sua transmissão pela oralidade — que se criam formas e estratégias possíveis para a concretização do universo negro. o negro. que os domina e estimula as diferenças até que estas se anulem entre si pela confrontação com sua dominação. 1980. Zurara. de quelimanes. que se dissolvem” (Cohen. em 1444. “a causa de toda corrupção no Brasil são os escravos”. incapaz de um pensamento ideal: “Visto que os doutores cristãos opinam que o principal fim de aquisição de negros é o de trazê-los ao conhecimento de Deus e à salvação. a palavra escravo “retira todos os direitos de humanidade do ser ao qual é aplicado” (Cohen. porque. Principalmente as escravas.

falando mal a língua do branco. o lugar de produção de sua palavra também é transferido: o outro. que. e da ganância dos brancos. que carrega a energia e a força para a vida e a morte. que assegurem a dominação. pacíficos e robustos. vêem na língua que os representa como são representadas as suas línguas. ao interiorizar as significações dessa representação feita pelo branco. A língua não mais os representa de acordo com seus valores de origem. O diferente é o branco. O branco. Bambaras: estúpidos. chamados de bozales — aqueles que não compreendem. de acordo com Las Grammaire Générale et Raisonnée de Port-Royal. o lingala. um novo ser — o escravo — seja criado. “era proibido falar. a língua do comércio. o interlocutor que fala com eles..Sarita Maria Affonso Moysés gue. Os 56 Set/Out/Nov/Dez 1995 Nº 0 . através de representações teatrais. sempre de acordo com a sua língua. 123). diante de línguas para ele incompreensíveis e da dificuldade do negro em falar a língua do branco. 1981a). para criar novos laços. São. mesmo sem que tenham o domínio dessa escrita. p. Os africanos são povos ignorantes e avesados a barbaridades e às injustiças. A territorialidade lingüística é diluída. da palavra enquanto criação ideológica (Bakhtin. 1990. Segundo Voltaire (em seu Dicionário Filosófico e Juízos). tem a comprovação da inferioridade das línguas africanas e da incapacidade intelectual dos negros. Expressam.” Mas para que. uma língua de trânsito que se esgota no valor de uso. que são incapazes intelectualmente do entendimento. pode-se ouvir o uolof. 106). o canuri. tem o domínio do lugar de produção lingüística. o peul. assim como o poder mítico e ancestral. trocadas por ferro e aguardente. de acordo com o jornal abolicionista A Redempção (1887): “A escravidão do negro proveio do atraso dos povos dessa raça. E esse poder significa transformar a palavra africana não só no silêncio. soltas. que os une entre si. o branco. inferior. em Portugal dos séculos XVI e XVII. Perdido o lugar original. corresponde uma primeira confrontação com o mundo da escrita. Repetem as palavras do branco. As diferenças lingüísticas são identificadas pelo branco na tentativa de uniformizá-las. ao cosmos. cantigas e poemas. por ordens. o negro se apropria da língua do branco. a imagem do que é ser negro e escravo na língua do branco. perdem os significados. Porém. dessa “voz indizível na língua” (Certeau. habitantes da África. o fon daomeano. malembos.. “nascido bem longe. O branco ainda tem a certeza de que se consideram inferiores intelectualmente. educada” (Mattoso. Boçal é aquele que. na época. 1660. p. que fala mal. O branco. Diante de uma língua que os registra como boçais. as diferenças e os antagonismos entre eles. 48). na ruptura. sem artigos. o duaba. tem a certeza de que eles mesmos se consideram animais. o auça. 1990). em sua objetivação. por isso. Segundo os relatos de Ki-Zerbo (1990. é normalmente considerado uma criança ignorante que necessita ser criada. difundida pela ciência na língua escrita. mas na ausência da palavra. o branco veicula na língua dos tumbeiros a representação do que é ser escravo. são mercadorias. “é uma grande interrogação se eles descendem dos macacos ou se os macacos que provêm deles”. o mandinga. culta. o morê. com a palavra oral africana. que suscita o conhecimento. da concepção de que o desenvolvimento da linguagem é coincidente com o pensamento racional. o ewe. p. já se defrontam com uma escrita em língua vulgar. que articula a sua palavra. Costa do Ouro e Vidah: bons cultivadores. Ressalte-se a difusão. Já não são mais africanos livres. como recortes ou relexicalização. mas com qualificações para a sua venda: “Pretos do Caior: escravos de guerra que maquinam revoltas. sob pena de morte”. e chama de “malembos” os companheiros de viagem. à natureza. diante desses corpos sem vontade. É rompida a unidade dessa palavra africana. o pidgin. Ou. mas inclinados ao suicídio. como massa. Congueses: alegres e bons trabalhadores”. deslocados e maltratados pelo escorbuto. Com poucas palavras. ainda. Ainda que isso ocorra pela oralidade de iletrados ou por aqueles que. não representam mais o que é ser negro e livre na África. Como um tumbeiro transporta até 195 peças (Mattoso. 1990. À ruptura com uma identidade étnica. o bambara. a estratégia é a de representálo para ele mesmo.

os escravos não desconhecem a escrita que circula nos impressos e imagens religiosos. A ambivalência como forma de penetrar no real entre realidades opostas (Koby. sua interiorização de inferior e incapaz se articula pelas dependências ao conhecimento e à valorização do branco. 1956). Assim. Nascido no Brasil. Instauram-se modelos de apropriação de língua. de formação de uma nação. em meados do século. que traduzem um quadro de leitura ainda rarefeita. sem vínculos de parentesco: “na rua. contador de histórias. transformando-os. A ambigüidade como forma de penetrar na língua e no mundo do branco. vão se apropriando da língua oral e mesmo do imaginário do branco. as boas servas nos braços de quem se criavam” (Rego. 1991). A língua representa a não submissão e a fuga. Revista Brasileira de Educação 57 . discutidos por aqueles que voltam da Europa. através de expressões como: “páginas negras. em parte. como na revolta da Bahia de 1835 (Reis & Silva. Ou dependências recíprocas percebidas pela afetividade e por sua imaginação (Chartier). Porém. pela confrontação da oralidade em relação à escrita. Nas relações definidas pela escravidão é sempre a obediência que orienta a língua em que são representados. marcada a sua inferioridade. que se definem nessa sociedade pela “interdependência funcional” entre seres humanos (Elias. em condições de escravidão e de inferioridade. perigoso e não confiável. quando nascidos no Brasil e sabendo conviver com brancos. negros crimes. 1993). esses homens e mulheres. capazes de transmitir essa palavra transformada. a meninada do engenho encontrava os seus amigos. os únicos letrados desse mundo. Ou pela não submissão: são negros. 1993). pretos. Nessa ruptura. as figuras dos griol e dos doma. nos almanaques. nela. crioulos. Por outro lado. são valores que percorrem essa sociedade. Representam. Percebidas as suas diferenças em relação ao branco. Representações apreendidas pelo preto como símbolo da desconfiança instaurada entre eles. e se acha traído por ele.. quando rebeldes e fugitivos. Os seus comportamentos se orientam pela adaptação . Ao se representarem na língua oral que aprendem com o branco. Mesmo com as proibições de acesso ao conhecimento letrado. 1993). presentes nas crônicas dos periódicos brasileiros entre 1840 e 1850.Literatura e história registros dos tumbeiros são feitos por cronistas ou por padres. Crioulo e ladino são representações criadas pelo branco. marcado por movimentos e idéias de libertação. as categorizações discutidas pelos letrados da época. O século XIX se inicia. individualmente ou em grupo. nos periódicos e folhetins. na língua do branco. nos poucos jornais e livros. de conhecimentos. são pretos. todos. negro é aquele que acima de tudo perdeu sua humildade. É o que acontece quando criam. fazendo com que as relações desses homens e mulheres negros com esse mundo social sejam de engajamento ou de aproximação (Elias. 1987). quando africanos e mais fortemente ligados ao passado. É boçal se não aprende a língua ou ladino se aceita e fala a língua do branco. de instrução. a confrontação do negro ágrafo com o mundo da escrita ocorre pela oralidade. Representações que revelam as ambigüidades desse escravo. pela obediência e esperteza desse escravo. que acompanham as missões de “salvar as almas dos negros”. que lhe deram os peitos para mamar.. ao se constituir na língua do branco. pardos e mulatos. os moleques que eram seus companheiros e as negras. Pode-se aventar que esse mundo da escravidão não deixa de refletir as idéias. 1989). utiliza-se da ambigüidade e da ambivalência para sobreviver. no Brasil. de um avô ou de uma avó. A essa ruptura e dependências nas formas de apreensão do mundo sobrepõe-se um sistema de representações vindos da escravidão. a figura do velho ou velha. sendo negro. diários negros”. a valorização da leitura como sinal de instrução e como forma de socialização. ainda que na situação de escravo. O preto desconfia do crioulo por este ser criado pelo branco. percebem-se ligados aos valores daquele. “O negro é antes de tudo um fugitivo. O projeto de uma sociedade letrada. “se ligam uns aos outros em configurações específicas cuja dinâmica exerce sobre aqueles que as compõem uma influência irresistível” (Elias.” (Schwarcz. são crioulos.

de namoro ou outras. se estabelecem mundos correlatos. na escrita. a partir da palavra oral africana. mais uma vez. passam a ser a expressão da distância entre os espaços sociais. Por relações de distanciamento. vindo de apropriações. Porém. cuja cor e inferioridade racial representam o atraso e o obstáculo à nação homogênea. É nesse quadro que o leitor negro. A maneira diferenciada com que os materiais impressos circulam nos diversos grupos. a separação cultural não é a do senhor/ escravo. são mediadas pela voz de um branco que lê para outro branco: 58 Set/Out/Nov/Dez 1995 Nº 0 . traça suas relações com a escrita.] Histórias de casamento. 419). Para os diversos grupos sociais. Aprecia-se muito a leitura superficial e palhenta. de posturas diante do objeto-escrita.. Isso é o efeito de um processo cultural dinâmico. e o iletrado negro. pela exterioridade (Elias. tica — Damião não voltou a escrever.. nos meios urbano e rural — seus modos de apropriação —. eram as mucamas que contavam às sinhazinhas. na escrita.. semelhante àquela em que já é representado. Representado pelo branco em sua negatividade. a falta de leitura (Lajolo & Zilberman. cujas marcas históricas da escravidão representam a vergonha da nação. na leitura. p. Entre ser o negro que se humilha e não é obediente e o negro dos anúncios dos jornais. como passagem da oralidade para a escrita. 1981. A distância com os meios de produção da palavra escrita determina uma relação com ela. do século XIX. com a justificativa que destoava inteiramente da serenidade e das idéias do jornal — embora fosse uma pequena obra-prima de crônica polí- Nesses mesmos jornais o negro aparece constantemente como “o negro das ‘ocorrências policiais’. proprietário de uma fazenda no interior.. 1993). Entre o iletrado branco. a reação seria a mesma: estavam todos ligados aos senhores (Monteiro. para uma aristocracia quase analfabeta. É assim que no interior desse mundo letrado persistem modos de ser. enquanto conhecimento. apropria-se dessa escrita. escravo urbano que vende mercadorias nas ruas do Rio de Janeiro. esse escravo — que na e pela oralidade começa a estruturar formas de sensibilidade. Como “objeto” de discussão política. não passa daí o pecúlio literário do povo [. o negro violento que se evadiu.. o negro que é centro de notícias escandalosas. mas são ainda mais refratários à sua presença. arraigados a valores e representações da oralidade. o negro dependente e serviçal que é oferecido enquanto ‘peça de bom funcionamento’ ou mesmo o negro ‘objeto’ de um discurso dos editores científicos”.. como conhecimento: [. aparece como o escravo. Como “objeto” de discussão científica. de integração a essa terra — percebe-se na exterioridade desse processo.. O não ser representado por ele mesmo ou o não poder representar-se ganha dimensão de bloqueio a uma sua reelaboração. cujas representações sugerem a pluralidade de formas de constituição de uma cultura escrita..] depois que o Albino Frias lhe devolveu o segundo artigo. da oralidade para a textualidade se configuram práticas de leitura. através de modos e maneiras próprios daquele que não participa de seus usos. aparece como o negro. nos outros jornais. Como a sua palavra oral não ressoa na palavra escrita do branco. o escravo percebe que os espaços da escrita não lhe são só interditos. 1993) que se dimensionam. cuja apropriação lhe é mais difícil.. de usos e funções desse objeto em determinados espaços. 1991). As formas de apropriação de leitura desse escravo. se confrontar com uma sua representação. Vê-se contado por essa palavra oriunda de um lugar sócio-histórico diferente e antagônico do lugar onde trava a luta pela sobrevivência.. com a contraditoriedade de caminhos vindos de distintas representações.Sarita Maria Affonso Moysés Poucos livros se publicam e ainda menos se lêem. da escrita como um conhecimento que começa a estruturar essa sociedade. Suprira-se assim. agora na escrita. De antemão sabia que. quase sempre sem um contato direto com o texto. Não se configuram elementos/situações (Hébrard. o escravo vai.

rezava-se de manhã. o que os define... do leitor participante das leituras em voz alta. através dos elementos rítmicos da oralidade. Fui então encarregado pelo meu senhor de vender pão” (Eisenberg. Como leitores ouvintes.” (Broca.. meninos de coro nas igrejas. pela inserção no mercado de trabalho..] Um sarau é o bocado mais delicioso que temos.. no pescoço. justamente por ser ouvinte de algo que não se dirige a ela. ainda é o vínculo dessa leitura/escrita com o trabalho.] (Macedo. de falta de capacidade intelectual. à hora das refeições. como cheguei a fazer algumas quadras.. cantava-se Mater-Purïssima. São mediadas pelas imagens religiosas.. desenvolvida a partir de pistas. brancos e escravos reuniam-se na capela ou no quarto do santuário para cantar o bendito.] (Alencar. permitida a presença de mulheres”.. pela afetividade. ou um leitor que escuta uma oralização de uma escrita. nessa forma socializada de leitura. se apropria da textualidade.. do latim. e no fim do dia tinham que entregar a seus proprietários uma determinada quantia por eles previamente estipulada. reunidos todos os da casa. para esse escravo negro.] finalmente. recostado sobre a mesa.. pediam-me para recitar sonetos em dias de anos e assim introduziram-me em mil reuniões [. os malês atavam. Como imagens de confidentes de leitura. Várias capelas de engenhos tiveram coros de negros (Macedo. A imagem da leitura onde: “Ler o folhetim chegou a ser hábito familiar nos serões das províncias e mesmo da Corte. 1982). como a do ritmo através da leitura ouvida das poesias em saraus e serões.. 1979. nunca de leitoras. não apresenta o escravo. mas a contar: “Meu conhecimento de Língua Portuguesa melhorou rapidamente enquanto estava ali e. “grudavam-se papéis com orações” para proteger a família..Literatura e história [. 1989)..] um mancebo lê um dos volumes das Décadas de Barros.. papéis com orações para livrá-los da morte....] Quando trovejava forte. pela altura e entonação da voz. que faziam o enlevo da velha e de Rosalina [. 1981a) em função do interlocutor assume uma grande importância. É o que diferencia esse leitor negro. 1990. No canapé.... com o beneplácido Revista Brasileira de Educação 59 .... janelas e portas. muitas delas apropriadas da oralidade. Ewbank. Defronte um ancião. é que assiste. 1982). e o moço goza todos os regalos de sua época [. fora do universo da obra literária.] Os muleques. que. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas de seu tempo.” (Gorender. vindos. ao meio-dia. 1993). Principalmente nos espaços urbanos. A literatura cria as imagens de amas negras e negrinhas. “Dentro de casa. conseguia contar até cem. Pelas casas. da sociedade brasileira do século XIX. para executar as tarefas a que estavam obrigados. mas que compartilham. 1982) Instaura-se. presta à leitura a mais interessante atenção. muito breve. pelo movimento. Como a orientação da palavra (Bakhtin. Ou mediadas pelo canto. Configura-se um leitor ouvinte. mas que sabe que essa leitura não é feita para ele. ouvinte. onde os escravos de ganho aprendem não só a língua. a não ser como serviçais: “escravas decentemente vestidas ofereciam chavenas de café. ora pro nobis [. rezar o Magnificat [.] principiou com a voz sonora e desembaraçada a leitura de uns contos fantásticos. Como ouvinte dos ouvintes. bastante populares e difundidas na França do século XVIII e XIX (Chartier. 1978). serviçais da casa. a sua representação é mais uma vez de passividade. e de noite. uma jovem e bela senhora dá igual atenção à leitura do mancebo [. Pelo corpo.. porém incapaz de compreender essa situação de leitura.] às vezes lia para ela ouvir algum romance ou a Bíblia que era o seu livro favorito [. pelo corpo. repetindo-se no texto o que se apropriou da imagem. uma maneira de ler. [. no quarto dos santos — os escravos acompanhavam os brancos no terço e na salve-rainha” (Freyre. 1973). na oralização. Havendo capelão. a representação do negro que escuta essa leitura é a do curioso. De uma leitura que não é para elas. muitas vezes. “Os escravos de ganho eram mandados pelos seus senhores à rua. 1989). 1990. servindo de confidentes da leitura de uma carta.

de exterioridade em relação à escrita. europeu. da leitura ouvida. 1942. com o ser leitor. A do negro que gosta de batuque.” (Pesavento. Representado como inferior. imigrante. A substituição da mão-de-obra do escravo pelo branco. ainda que tenha memorizado. — Pronto. trazem folhetins. do ócio.] onde os viajantes eram abordados por escravas alcoviteiras com recadinhos (Freyre. Ouvinte de textos. negro. Joana. mas não o leva a uma identificação com a leitura. E o é também para os crioulos dos serviços domésticos. De um “muleque” curioso. mesmo assim. o faz ver-se como um selvagem. a sua representação de leitura se impregna dessa postura de ouvinte. [. essa relação som-letra. Eu tinha visto junto à porta nº 3 um moleque com todas as aparências de ser belíssimo cravo da Índia. que escuta as lições no método fônico. Não havendo professores de leitura e escrita para “negros e muleques barrados nas primeiras escolas jesuíticas. A leitura em voz alta é. lesto e agudo. cria um pré-saber da escrita. decentemente trajados. como se as significações do texto estivessem nessas partes. originado de uma representação literária. Ou a do que não se integra ao ritmo da mo- 60 Set/Out/Nov/Dez 1995 Nº 0 . como leitor diante de um texto. configura outras representações. Ewbank. Dessa cantoria. aos meninos brancos. vindo da oralidade. Representado como ouvinte. As imagens de meninos negros que levam bilhetes.Sarita Maria Affonso Moysés do senhor.Quando entramos. sua capacidade intelectual. e que deve se transformar em civilizado para conseguir ser leitor. Perseguir os egressos da senzala implicava agora acompanhar a designação preto. pelo ritmo da reza e da repetição das narrativas folhetinescas. de romances. orações e desinências latinas.. nas representações feitas nos discursos sobre ele — sua cor.. esses elementos repetitivos. todos lendo juntos em voz alta” (Koster. E assim avancei para o moleque [. 1989). eu podia muito bem mandar-lhe um recado pelo qual me fizesse conteúdo. a sua estrutura e seu desenvolvimento. ainda no fluxo suscitado pela notícia da liberdade”. o vínculo inicial entre o escravo ágrafo e a textualidade. 1973.. mulato. “Diga-se de passagem que.. que alfabetiza as crianças brancas: “. 1989). Ou uma pré-orientação. com pouca capacidade intelectual. que recitavam em coro a lição em cômodo contíguo. a contar e a rezar” (Graham. configuram a representação do “muleque” — ou daquele que é portador do objeto. desocupado: “A cidade voltara a encher-se de negros desocupados. como serviçal. fomos saudados pelo animado murmúrio das crianças.. as relações do negro com a leitura se estabelecem na voz e não no texto.. os termos liberto e exescravo desaparecem do vocabulário dos políticos e das páginas de jornais e periódicos. O modo de ser desse leitor negro inscreve-se em duplo percurso: aquele que. o Valdetaro. interioriza comportamentos de despossessão. sua condição social. não se descobre nele.. mas não o seu leitor. 1969) Algumas vezes. não integrando o negro ao trabalho livre.. se traça uma certa orientação para a textualidade. 1956).] — Hás de me levar um recado à sua D. tangidos do interior para a capital. se reúnem “crias e muleques. dessa mistura com textos religiosos de estruturas. há uma reorganização cultural que acentua mais a complexidade das relações entre os grupos sociais negros e brancos.. publicações semanais e quinzenais dos periódicos. respondeu-me o moleque (Macedo. dessas letras soletradas com os ês da fonética de tal método de leitura. a essa leitura de folhetins. que busca encontrar no texto essa oralização. inferior. recados.] ou de recados trazidos pelas negras boceteiras [. negros e muleques retintos” (Freyre. Antes mesmo de ter fim a escravidão e antes da República.. Vilhena.. e aquele que. sendo ouvinte. que mostra uma redefinição das condições de trabalho. Fomos até lá e deparamos com dez ou doze meninos sentados em bancos. 1982).. 1989). com a República. pardo. todos aprendendo a ler e a escrever.

em um movimento evolutivo e linear. Mas continua a cantiga E ri sem ver o tormento Daquele amargo cantar SARITA MARIA AFFONSO MOYSÉS é professora de Metodologia de Alfabetização da Faculdade de Educação da UNICAMP. L’invention du quotidien: arts de faire.). (1979). ASSIS. ensinada na escola. (1990). livre docente pela UNICAMP.). 1988): . CHARTIER. Les pratiques de la lecture. pela interiorização de mecanismos para essa estratégia. 1981). Trajectoires et tensions culturelles de l’ancien regime: Les formes de la culture. Senhora. B. BURLAMAQUE. BAKHTIN. Os escravos. São Paulo: Ática. The French Encounter North Africans. é a visão técnica da escrita que se impõe para o indivíduo dos grupos negros. é feita em Moysés (1993). __________. são tomadas de forma negativa. Referências bibliográficas ALENCAR. F. pobre criança! Que queres. no final do século XIX. CASTRO ALVES. Paris: Gallimard. Identificada a leitura com esses valores. 13. fac-símile. Lucíola. São Paulo: Hucitec. (1988). Loisir et sociabilité: lire à haute voix dans l’Europe Moderne. discussão sobre a separação entre o indivíduo negro e seu grupo. 12. com enfoque especial na leitura em voz alta e nas transformações dos modos de ler no século XIX e no início deste século.. pelas teorias racistas em torno do mulato. BENCI. White Response to Blacks. pela imigração. (1981b).ed. História de leituras. J. a influência da oralidade. infeliz Amigo. Ed.Literatura e história dernização: “Gastos no trabalho servil. __________ (org. é necessário que o indivíduo negro rompa com o seu grupo. seus valores. (1982). Ind. é necessário embranquecer. (s/d). Paris: Payot-Rivages. Paris: Seuil.. não fazendo uso da razão. (1980). de selvagem. COHEN. 2A Revista Brasileira de Educação 61 . s/d. História das Práticas de Leitura. jan.. M. M. São Paulo: Formar. como uma criança (Castro Alves. __________. Não se configura as representações de um leitor negro. Ed. Analytica acerca do commercio de escravos e acerca dos males da escravidão doméstica. As representações de suas leituras que ainda mostram. os negros velhos já pouco renderiam aos seus senhores..” (Montello.. Diário do Rio de Janeiro (1861-1863). (1988). __________. (1993).. 1530-1880. M. BROCA. de uma tradição oral. São Paulo: Hucitec.. Choras de rir. pelas representações do negro como estrangeiro que deve voltar à África2 correspondem a um embranquecimento da palavra escrita. São Paulo: Grijalbo. Crônica de 24/03/1862. J. trabalha com História da Alfabetização...ed. pré-românticos. carregadas de valores de inferioridade. Economia cristã dos senhores no governo de escravos (1700). Para ser leitor. Doutora em lingüística pela USP. Bloomington.. Paris: Seuil. 11. como forma de legitimação de uma democracia racial. Rio de Janeiro: Francisco Alves.. (1990)... eu quero o ferro da vingança. africana.L. W.. (1993). (1990)...B. __________. São Paulo: Polis. (s. Para embranquecer. (1977). fac-símile. história de rupturas. A do negro que continua sem responsabilidade. ultraromânticos. (1981a). Românticos. R.C. CERTEAU. Questões de literatura e de estética. O embranquecimento dessa sociedade. São Paulo: Ática.d.. Se o canto pára um momento Chora a criança imprudente. Literatures Classiques. Le principe dialogique. Marxismo e filosofia da linguagem.

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