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ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.

Múltiplas faces dos conflitos de terra: escravos, lavradores de roça e senhores no final da escravidão na Mata Norte de Pernambuco Emanuel Lopes de Souza Oliveira 1 Resumo: Não foram poucos os conflitos na Mata Norte pernambucana. O artigo trata do envolvimento dos escravos em “questões de terra” nas freguesias de dois importantes municípios da região açucareira, Goyana e Nazaré da Mata, nas décadas de 1870 e 1880, sendo o primeiro de incrementado mercado interno. Através das mudanças na dinâmica da posse da terra e de escravos podemos redimensionar interpretações que primam por uma relação automática entre estrutura fundiária e controle social, e assim englobarmos muito mais uma discussão de múltiplas relações de força, diluídas entre os diversos grupos sociais. A contrapartida da resistência dos lavradores de roça, arrendatários e, sobretudo dos escravos, diante do controle da política senhorial, propõe novos debates sobre o processo histórico do acesso à terra. Neste contexto, o final da escravidão foi marcado por um forte sentimento de defesa das terras, do qual a roça dos escravos imprimiu significados de autonomia e liberdade. Palavras-chave: conflito- escravidão- terra.

No artigo, discutiremos a possibilidade de ampliação da presença de roças dos escravos na principal região de exportação de açúcar dos oitocentos, ao mesmo tempo em que, as dúvidas sobre o papel diminuto dado aos confrontos praticados pelos lavradores de roça e escravos frente às políticas de controle social, durante a crise do escravismo e efetivação da concentração fundiária, suscitam novos debates sobre a historiografia (EISENBERG, 1977; PALACIOS, 1987; ANDRADE, 1990) dos últimos anos da escravidão na Zona da Mata de Pernambuco. Nesse segundo ponto, a documentação apresenta aspectos da reação ao processo de expropriação, do qual a defesa dos escravos por espaços de autonomia fez parte ao lado dos lavradores de roça, de um conjunto de questionamentos sobre o entendimento dado por lavradores de roça e escravos à liberdade. Os escravos agiam em oposição ao que se acreditava ser um escravo, sem romper de fato, muitas vezes, a relação de negociação, respeito e obediência ao proprietário. E os lavradores de roça e libertos recusavam a todo tempo ao expediente regular de trabalho, percebido, muitas vezes, como escravidão 2 .

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Mestrando em História pela UFPE. Este trabalho foi realizado com o apoio do CNPq. De antemão, vale esclarecer a distinção das diversas categorias sociais envolvidas no texto, senhores de engenho, lavrador, agregado e arrendatários. Adotamos os mesmos critérios usados por Márcia Motta & Elione Guimarães (2007:112-113) no trato da documentação. Quanto ao lavrador de cana e algodão, e roça (mandioca, algodão, coqueiros, fumo, café) nos referimos à utilização de Bert Barickman (2003: 41). O termo “pobre” relaciona-se aos indivíduos nos inventários pos mortem com monte- mor menor e igual a 3: 500$000 (três mil e quinhentos réis). A escrita de Goyana, com “y”, deve-se a grafia antiga, ainda preservada nas edições da “Gazeta de Goyana”, em meados da década e 1880.

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. se caracterizou pela intensa vida social dos escravos e libertos. e das áreas internas de fronteira próximas ao agreste. que se situam na Mata Norte. um dos negociantes atuantes no comércio de gado e couro na cidade. a relação da resistência escrava com comércio de compra e venda de escravos no hinterland de Goyana. Joaquim Gomes. um pouco que a metade vinha de Timbaúba. “agricultor”. especificamente na Mata Norte da província. a segunda maior praça comercial da província. permeia. Havia também um mercado de lenha e madeira dos manguezais e matas que compreendiam terras de senhores da vila de Atapus. senhor do engenho Cana Brava. madeira. Em um dos casos de suspeição no envolvimento nas quadrilhas. Muito desse gado vinha das cidades de Timbaúba e Itambé. natural da “Costa da África”.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. receber o salário de dois dias de serviço” que prestou na roça desse escravo 4 . Goiana. 12 jul 1881. Para lá se dirigiam os comboios de gado dos Sertões do Ceará e da Paraíba. ou dos “terrenos de marinha”. para onde foi em um “domingo. por enquanto aqui. em áreas apropriadas por populares pelos usos costumeiros dos recursos naturais. 1877. Alguns exemplos como esse. ao longo dos anos. região açucareira da província ao norte do Recife. muito intenso principalmente no período das secas de 1877/1878. Na freguesia de São Lourenço do Tejucupapo. Jornal do Recife. de roças dos escravos. existia agitado comércio com as embarcações atracadas próximo a costa. Cel. 203. entre a barra de Goiana e Catuama. diferentemente de Nazaré. Virgínio Horácio de Freitas. José. e Agrícola de Pernambuco. prendeu José Antônio Pereira que morava em Pedras de Fogo. José estava “no roçado” do escravo Luis. 2009.165. por exemplo. tivera sido escravo do Ten. APEJE. Habeas Corpus de José Antônio Pereira. 1871. acusado de homicídio. outrora freguesias de Goyana. de produtos para a manutenção das barcaças. Ind. No momento da prisão. de 40 anos. graxa para barcaças e peixes. entre as décadas de 1870 e 1880. Abatia-se muito mais que 50 bois por dia. onde a solidariedade e conflitos dos homens de cor constituíam comunidades que se formavam em torno do pequeno comércio de lenha. no mesmo engenho. 3 4 5 6 Uma das freguesias do município de Goyanna. Terrenos estes que disputadíssimos. assim como o fenômeno do movimento das quadrilhas de salteadores. O envolvimento dos escravos nas “questões de terra”. MJPE. 2 . diligências do subdelegado de Nossa Senhora do Ó 3 . aparecem nas freguesias dos municípios de Nazaré da Mata e Goyana. p. aparecia no Almanaque de Pernambuco da época 6 . de Pedras de Fogo. possuía na freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Goyana. Almanaque Administrativo. Itambé ou Pedras de Fogo 5 . Cx. Goyana.

e duradoura. 193. Cx. em Japomim. desciam pelos Rios Capibaribe Mirim e Goyana. 184. haja vista a freqüência de 33. Robert Slenes (PREFÁCIO: 19 apud FILHO. Goyana com Nazaré da Mata os grandes engenhos de açúcar da região. pelo menos até bem entrada a 7 Cf. 3 . pelo Canal de Goyana até a barra de mesmo nome no Atlântico. 193. MJPE. Além disso. de onde se escoava ainda mercadorias. onde a negociação e estabilidade no cultivo da roças “novas e comedeiras” interferiam na formação dos pequenos pecúlios. 1869. dentro outros inventários pos mortem de Goiana. Nas feiras da cidade de Goyana e freguesias. Os proprietários de 6 a 10 escravos. sobretudo farinha de mandioca. 1881. nesse grupo. assim como o beneficiamento de alguns produtos. Cx. de 1869 a 1887. e a dinâmica da escravidão urbana não se fazia tão acentuada como em Goyana. Dividia. ao que parece. as ações de liberdade de Nazaré. Inventário de Bento José Tavares. imprimindo à cidade uma diversificação das atividades econômicas em três lados: uma importante produção de gêneros alimentícios. embargos e arrendamentos. onde as propriedades dos senhores de engenho e lavradores de cana eram maiores. e mandioca 7 . possuíam certa relação com o calendário agrícola da produção açucareira. Cx. havia mais engenhos de beneficiamento de açúcar.7%). entre outras dezenas de inventários de Nazaré da Mata e processos cíveis do acervo de Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). a farinha de mandioca. assim. nos revelou o importante peso da produção de gêneros alimentícios. o incrementado comércio propiciado pelos diversos produtos da Mata Norte. em seguida. Inventário de João Cardoso de Jesus. Inventário de José Carneiro de Mesquita Mello. e no subseqüente auto-resgate. MJPE. Rios que confluíam para o porto próximo da cidade.3% da família escrava nas escravarias (ANEXO: Tabela1). os arrendatários. e o azeite de carrapato ou mamona. 2006) comenta que no Recôncavo baiano os ex-escravos conseguiram aumentar o número de dias da semana que podiam dedicar a seus próprios cultivos nas terras de seus antigos proprietários. dividem as “plantas de canas” com o significativo cultivo de roças de milho.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. na maioria são plantadores de coqueiros e cana de açúcar. feijão. envolvendo a defesa de situações rurais e terra. algodão. Os processos cíveis de manutenção de posse (63. Goiana. dentre eles. Já em Nazaré. O perfil de posse dos inventariados mostra que a pequena unidade de produção na Mata Norte era economicamente viável. o mercado interno e a exportação. demarcações (tendência de aumento a partir da década de 1870). 1881. 2009. A pesquisa em inventários pos mortem da Comarca de Goyana (217). nos apresentam indicativos de um forte sentimento de defesa das terras no final da escravidão da Mata Norte (ANEXO: Gráficos 2 e 3). agenciadas por escravos e escravas.

Inventário de Maximiano Cândido da Silva Fragoso. a possível identificação de “agricultor”. à experiência do cultivo de roças. Nos autos de interrogatórios. na seção das matrículas especiais atribuídas ao ofício do escravo. em seguida o juiz mandou “passar a carta de liberdade em favor” dele. de 20 anos. Uma é a formação de pecúlios. poder ser problematizada por dois vieses nos inventários pos mortem de Goyana. Cx. de certo modo. durante o episódio da Guerra dos Cabanos. havia deixado de ser avaliada por “ter ido a cidade requerer ao Juízo civil. independente da vontade senhorial. 133. eles se identificavam como “agricultor” ou “que vive da agricultura”. década de 1890. fl. a da Zona da Mata de Pernambuco. A escrava Rosa desse mesmo senhor.16. Apenas temos a obra de Dirceu Lindoso (1983. apresentado com ressalvas por Slenes (“. no auge da aplicabilidade da Lei do Ventre Livre. 188. algo que aparentemente”) deve-se a quase inexistência de pesquisas sobre a escravidão e o mercado interno. os escravos sejam naturalmente listados como peças.. declararam “que não tinham pecúlio algum”. nos estabelece uma relaçãoproblema. E o mercado de escravos? 8 9 MJPE. Quando os escravos tinham acesso às autoridades.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. pardo. que abriu prerrogativas para o uso do pecúlio no auto-resgate. o que se poderia atentar para diferenças de preços por uma atividade especializada dos escravos matriculados como agricultor.4v. 4 . 1875. a de 1871/72 e a de 1886/87. Notamos que “agricultor” ao invés de “trabalhador de campo” não tem relação com preços. na sua fala respondendo aos coletores e juízes. durante as avaliações se invertia a ótica da ideologia da dominação em um momento fértil para sua atuação política. aparece apenas a partir de 1876. MJPE. 1888. em processos judiciais. em resposta ao Juiz. Percebemos que. A aparente indecisão do coletor persistia nas duas matrículas. algo que aparentemente estava fora de seu alcance na outra grande região açucareira.. os escravos do finado Maximiano Cândido. Inventário de Armando da Motta Silveira. o seu depósito para promover sua liberdade” 9 . refere-se à oscilação das palavras “agricultor” e “trabalhador de campo”. da Costa da África. Cx. Nos arrolamentos do inventário. ao lado de objetos e animais. A ampliação das roças dos escravos. 2009. na primeira metade do século XIX. que não exclui a conciliação com atividades no corte da cana. Tal fato. embora. contextualizada. 8 Com a morte do senhor de engenho Armando da Motta Silveira. Em 1875. no caso do desenvolvimento de áreas mais extensas de cultivo de roças pelos negros papa-méis. exibiu 140$. fl. o ofício de agricultor. em alguns escravos. Marculino. em Nazaré da Mata. como aquele de José Antônio Pereira. a outra mais complicada. dessa identidade. e acontece assim para os lavradores de roça. 1988).

mas que dezenas de senhores de engenho e lavradores de cana de Goyana e Nazaré também estão comprando escravos. para tal perspectiva. como se deduz das anotações nas matrículas especiais. a lavoura açucareira não foi a principal fonte de oferta de escravos para o Sudeste cafeeiro (IDEM: 287). anexas aos inventários pos mortem de Goyana e Nazaré. Areias. estão corroborando com a indicação de que não apenas senhores de engenho da Mata Sul (LIMA. inclusive de Paudalho. O comércio interno de compra e venda de escravos na região aponta. ou mais. sem a certidão da meia sisa na escritura de compra e venda exigida. entre 1860-1880. Itabaiana. houve queda dos preços do açúcar. pode ter havido diminuição do comércio de escravos no hinterland da Mata Norte e com as freguesias da Mata Sul. 2007: 64-70). aumentando o volume das exportações (CAMILO. e dentro das próprias freguesias de Goyana. portanto. cujo efeito foi sentido somente na década de 1880. mesmo numa sociedade híbrida. Na freguesia de Goyana. Escada. até então. desfavorável pelo desempenho dessa região na pauta de exportações de açúcar. os estudos de Versiani & Vergolino (2005: 285-301) sobre a dinâmica da compra e venda de escravos na praça do Recife em 1878. os proprietários estão se desfazendo de alguns escravos. e não em Nazaré. o 5 . escravos fora da idade produtiva. mais de não traficantes das áreas da Mata Norte. Esses escravos são comprados em cidades na Paraíba como Campina Grande. não tendo problema com ausência de mão de obra. durante as grandes secas de 1877 e 1878. e majoritariamente por livres. Por outro lado. libertos. É de observar que tal comércio. entre 1882-1885. inclusive. segundo o Censo de 1872. BARIKMAN. vem acontecendo a algum tempo. num contexto. por exemplo. Então. de 6 ou 8 anos. com a produção sendo dividida por escravos. pela incorporação de muitos trabalhadores livres é oposta a novos indícios de que o trabalho escravo ainda foi muito utilizado. sobretudo em Goyana. segundo o Censo de 1872. sendo empregados.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. negociando escravos dentro da província. favorecendo a aquisição por baixo preço do trabalhador livre. 1998/1998). 2009. No contexto de barateamento dos salários. para municípios da Mata sul. O fabrico do açúcar foi beneficiado pelas baixas cambiais. Segundo Robert Slenes. indicou o empenho na venda de cativos. do que usualmente relatado na historiografia. devido o aumento da migração de retirantes sertanejos ao litoral. já na década de 1870. 1978: 38). As matrículas especiais de escravos. a idéia de flexibilidade do escravismo. tanto quanto no Recôncavo Baiano (Cf. talvez. Recentemente. dependendo das negociações oficiosas. certificando que o respectivo escravo negociado foi matriculado nas freguesias de origem. vendedores de escravos. feitas tanto antes como depois da Lei do Ventre Livre. não só por traficantes mais voltados a negócios da escravidão em Recife. com uma diferença que. de demanda pelo trabalho escravo. nessa última fase. por exemplo.

alguns dias depois das festas dos santos juninos. Certidão de matrícula. A contagem de escravos. trazendo reações do senhor frente à iniciativa da escrava de torna-se livre: “É certo que o marido da escrava Luiza está despejado da casa em terras do engenho Albuquerque onde tem lavouras que não pode colher. Em primeiro de julho de 1881. correspondia a 1091. e o processo seguindo o curso nos ditames da Lei do Ventre Livre. sugere um corte “de ânimo e tensão” em torno das festividades. de 11 a 50 anos. ou curtido as festividades. a procura do curador e apresentado o pecúlio 14 ·. Francisco Agripino do Rego Barros. algumas de ocasião. Luiza escrava/ Francisco A. morando no engenho Albuquerque em Nazaré. 1869-1887.. 129. ou nas proximidades das festas de Santo em Salvador. entrou na Justiça. João José Reis observou a aumento de fugas. Inventários pos mortem de Goiana. 10 11 12 13 14 IAHGPE. ainda com 36 anos. MJPE.12v. IDEM. Essa defasagem indica o emprego de adolescentes. preta. número de escravos “lavradores” (979) era maior do que os escravos recenseados em idade produtiva (813). do Rego Barros. talvez. tivera vendido alimentos com o marido nessa ocasião. 6 . um sacerdote Africano’. 2008. amolando e adiando o recebimento da alforria. impedida de usar a casa de moer. fl. que tinham de 1 a 5 escravos. 12 O senhor de engenho. matriculada no município de Campina Grande em 1872 13 . no momento de agenciamento dos escravos nos processos cíveis de liberdade. como seja uma planta de canas que não quer moer de Luiza porque a escrava pretende se libertar exibindo a quantia de cem mil reis”. “do serviço de campo”. Em algumas petições do curador aparecem algumas citações. durante. Ação de Liberdade.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. São Paulo: Cia das Letras. fl. solicitando a carta de alforria mediante a indenização de 100 mil réis. com a maioria trabalhando em terras de lavradores de roça (algodão). ver o recente ‘Domingos Sodré. Cx. o proprietário alegava que a quantia era irrisória.. “quebrou um acordo”. a preta Luiza. geralmente de posse dos mais jovens e idosos 11 . em junho. MJPE. jovens e velhos no trabalho do campo. Quando lhe foi designado um curador para representá-la. doente e com mais ou menos 60 anos.21. passim. que havia comprado a escrava. Censo de 1872. entre 16 e 40 anos. 2009. entre cativos de ambos os sexos 10 . quando Luiza conseguiu arrumar algum dinheiro e alforria-se. 1881. tramando o confronto contra o senhor. Luíza. Luíza iniciou sua petição. O ponto de inflexão no gráfico. sentenciada no ano seguinte. Nazaré. Sobrou para o marido que já negociara uns roçados para plantar e ainda para liberta.

ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. em seguida tais atividades acompanhavam o reinício do ciclo. Os pequenos pecúlios foram adquiridos. na geografia de fronteira. a ampliação da autonomia da roça escrava tem muita ligação com o comércio de compra e venda de escravos. o que revigora o caráter conflituoso. e sim. as ações de liberdade tiveram suas petições iniciais redigidas não na entressafra. De fato. novembro dezembro setembro agosto outubro março junho maio julho abril 7 . reparamos que a produção do açúcar tinha para os meses de janeiro. 2009. Nazaré da Mata. não apenas vamos pensar em pequenos furtos. Ações de liberdade. 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 fevereiro janeiro GRÁFICO 1: AÇÃO DE LIBERDADE: DISTRIBUIÇÃO ANUAL NAZARÉ DA MATA Petição inicial Meses Fonte: Memorial da Justiça. fim do corte e produção do açúcar das canas do ano anterior. entre a região açucareira e a faixa de transição agrestina. pensávamos os agenciamentos dos processos cíveis de liberdade numa estratégia dada entre o intervalo do plantio e safra. portanto. negociados na província da Paraíba. Nos meses de setembro. pelo menos em Nazaré da Mata. mas também como indicam as fontes. favorável a possíveis negociações. na fase “amena” do ciclo da produção 15 . a maioria das ações representava menção à compra da alforria. Áreas aonde vinham se 15 16 A dura fase das limpas dos terrenos era realizada de forma contínua. podia até vender o mel de engenho. com maior freqüência justamente durante o corte da cana e beneficiamento do açúcar. dentro de várias possibilidades. Luiza como plantava canas. milho e feijão. outubro e novembro aconteciam a safra ou corte da cana. 1866-1888(54) De forma geral. ao analisar o calendário agrícola. o início do plantio das sementes. março. concomitante o plantio das sementes. e produzia o açúcar do próprio consumo 16 . de enfrentamento dos escravos no momento indispensável da mão de obra para lavradores de cana e senhores de engenho. mais assistidas na entressafra. muito próximos das vendas das lavouras de mandioca.7%. A meu ver. era mais exigido na entre safra. logo depois de finalizadas as tarefas no campo. Walter Filho (2006: 40) indica que alguns escravos participavam do “circuito do açúcar” como pequenos plantadores de cana para os engenhos no Recôncavo Baiano. escorrido das caldeiras. Como 40. No entanto. com o fabrico mais ou menos até março. fevereiro. ou seja. De início. A uma comparação com o calendário no Recôncavo em Walter Filho (2006: 94 notas 6 e 7).

se dedicavam ao comércio de lenha. já tinham assentado. e que por sua vez é levada às novas freguesias de destino. o acesso à terra vêm adquirindo mais do que a vinculação ao que por sua vez significasse “bom cativeiro” (concessão) e liberdade. estavam ainda “Paulino e Anergino que foram escravos Joaquim Branco”. 2009. concomitantes à mudança da política senhorial de recrudescer e retaliar diante do avanço do confronto dos escravos nos últimos anos. significantes da “não-escravidão”. ou seja. com escravos cultivando alimentos e até plantas de “canas para moer” dentro dos engenhos. em 188217 . Correspondências de 2. em Goyana. ou da produção de farinha. Outros conflitos aconteciam nos engenhos e terrenos de marinha de Atapus. desenvolvendo o cultivo do algodão. não deve deixar de ser pensada dentro de uma dinâmica de resistência.07. A flexibilidade da roça escrava na plantation da Mata Norte. 23 deles andavam armados. sinalizando a derrubada dos cercados de sua propriedade. interconectados com o conflituoso dia-dia das diferenciações sociais no século XIX. azeite.1882. e foi Eustaquio Lins Marques quem queimou o carvão. José Nicolau da Silva. antes de serem vendidos. significarem uma reação “anti-sistêmica”. obtida em negociações por vários escravos. Assim.1882 a 8. percepção ainda formada dentro do sistema escravista. passando então os conflitos envolvendo a questão da manutenção das roças. ex-escravos). praticada por um bando de ladrões e “malfeitores”. Secretária de Segurança Pública. de freguesias próximas a Itambé e Timbaúba. O juiz de paz de São Lourenço do Tejucupapo enviou várias notificações ao delegado de Goyana.06. madeira e destruíam instalações da propriedade como a “casa de carvão”. de combate direto e deslegitimação da escravidão. sobre a devastação das matas. 8 . assim como aos lavradores de roça. entendemos que para os escravos e seus descendentes (libertos. coqueiros e manguezais do seu engenho Itapessoca. durante também as expropriações que se intensificam na década de oitenta na Mata Norte. da experiência da roça escrava. Nicolau alegava que seus moradores há muito assentados nos terrenos de marinha. Liderados pelo célebre Azulão e protegido pelo senhor do engenho Atapus. Dentre os envolvidos na quadrilha.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. lã. O juiz rebatia nas correspondências. assim como roubavam cocos. da “posse” das terras percebida como espaços de liberdade. vol. sobre a ilegalidade do comércio. 17 APEJE. outra ao Chefe de Polícia. Já no contexto da emancipação e do movimento abolicionista. em número de 44. Goiana. que desciam com canoas carregadas de mangues e lenhas. conquistada nessas regiões de pequenas escravarias vinculadas ao mercado interno.180. o comércio de lenha. e o direito conquistado por negociações junto aos senhores em relação ao acesso à terra pinta. a manutenção dos seus roçados. onde vários “ladrões”.

3 4.8 7 Total 114 100% 517 100% 57 100% Fonte: Memorial da Justiça: Inventários pos mortem Goiana-PE a.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. Fundo Comarca de Nazaré da Mata. QUESTÕES DE TERRA OU DE SITUAÇÃO RURAL MATA NORTE 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 1840 1850 embargos processos cíveis ( %) 1860 1870 1880 1890 possessoria arrendamento QUESTÕES DE TERRA OU DE SITUAÇÃO RURAL MATA NORTE 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 1840 1850 1860 partilhas processos cíveis ( %) 1870 demarcações 1880 1890 Fonte: Memorial da Justiça. Incidência de relações familiares nucleares e matrifocal. ANEXO: TABELA 1.4 4. 2009.8 Quantidade escravos % 126 90 67 140 94 24. Goiana 9 .3 43.6 13 27 18 de Freqüência a Família escrava % Nenhum 1a5 6 a 10 11 a 20 21 a 40 41 a 51 38 50 14 5 5 2 8 19 9 17 4 14 33. Gráficos 2 e 3 respectivamente: MATA NORTE: POSSE DE ESCRAVOS NO MUNICÍPIO DE GOIANA (1869-1879) Escravarias nº inventários Proprietários % 33.8 12.4 17.4 1.8 29.3 15.

O Homem e a Terra do Nordeste. 1987. 21-22. Raimundo. EISENBERG. v. Modernização sem mudanças. n. 18701910. 2009. 10 .30. Rio de Janeiro: Paz e Terra. História Social da Agricultura Revisitada: fontes e Metodologia de Pesquisa. VERSIANI. Guilermo. p. 1998/1999. Até a véspera: o trabalho escravo e a produção de açúcar nos engenhos do Recôncavo baiano (1850-1881). Márcia & GUIMARÃES. São Paulo: Brasiliense. Dissertação de Mestrado. PALACIOS. 1978. Recife: UFPE. A lavoura canavieira em Pernambuco e a expansão do capitalismo britânico. Walter Fraga. Manuel Correia de Andrade. 2007. Diálogos: DHI/PPH/UEM. Dados: Revista de Ciências Sociais. Referências bibliográficas: ANDRADE. n. Flávio & VERGOLINO. 2006.11. Campesinato e Escravidão. p. BARICKMAN.3. 325-356. 2005. v. Elione Silva. n.3.ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza. CAMILO. Campinas. Recife: CEPE. 1977. Josemir. Tráfico e Traficantes: Comércio de escravos no Recife. Peter. 1878. SP: Editora da Unicamp. Rio de Janeiro. 95-117. 1973. Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGPE). Afro-Ásia. FILHO. Encruzilhadas da Liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia. Revista do Instituto Arqueológico. MOTTA.