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“QUEM NÃO SABE GOVERNAR A SI, MAL GOVERNARÁ A OUTREM”: CONFLITOS PELO PODER NA COLÔNIA DO SACRAMENTO

Paulo Cesar Possamai Universidade Federal de Pelotas paulocpossamai@hotmail.com A história da Colônia do Sacramento apresenta diversas facetas que foram diferentemente realçadas pelos historiadores de acordo com as suas próprias opiniões. Centro de contrabandistas, mas também posto avançado da fronteira e núcleo de povoamento, Sacramento é um tema fascinante pela sua história sui generis dentro do quadro do sistema colonial da América portuguesa, onde a riqueza estava na agricultura ou nas minas e as invasões estrangeiras constituíram-se em episódios isolados e inconstantes, ao contrário do que acontecia em Sacramento.1 Fundada em 1680, na margem norte do Rio da Prata, um problema específico da Colônia do Sacramento era a falta de uma administração civil, fator responsável pelo aumento excessivo do poder dos militares. Embora a metrópole se preocupasse em elevar o povoado à condição de vila através da criação de uma câmara, as dificuldades dos primeiros tempos e, como conseqüência, o aumento da deserção, não só entre os militares como também entre os civis, foram responsáveis por protelar indefinidamente a alteração do estatuto do novo estabelecimento. Tomada pelos espanhóis no mesmo ano de sua fundação, devolvida aos portugueses pelo Tratado Provisional em 1681 e retomada pelos espanhóis em 1705, o governo da Colônia do Sacramento era dominado pelo militar que tinha a maior patente. O Tratado de Utrecht, assinado em 1715, assegurou aos portugueses a devolução do território da Colônia do Sacramento, abandonada aos espanhóis dez anos antes em conseqüência dos conflitos da Guerra da Sucessão de Espanha. A partir de então, a Coroa portuguesa iniciou uma verdadeira política de povoamento na região, através do envio de sessenta casais da província de Trás-os-Montes.

Para maiores informações sobre variados aspectos da vida cotidiana na Colônia do Sacramento, consultar: POSSAMAI, Paulo. A vida quotidiana na Colónia do Sacramento. Lisboa: Livros do Brasil, 2006.

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apesar da promessa de que cada casal receberia três jeiras de terra nas proximidades da praça. o fato é que ela não tardou a ser contestada pelos povoadores. 58). Cx. Cx. Cx. A situação não era nova. que lhe pediram. 1. acusado de pedir dinheiro pela doação das terras (AHU_ACL_CU_012. Embora não saibamos exatamente como se deu a distribuição dos terrenos. não tinham recebido nada além de um terreno onde edificaram suas casas. Cx. os quais acusaram o governador de se beneficiar do processo. D. 7694). 1. . p. Porém. 7695-7696). atestou que Gomes Barbosa “repartiu os chãos. 58). que atestou a inocência do governador. o sucessor de Manuel Gomes Barbosa no governo da Colônia do Sacramento. os moradores queixaram-se de que. Antônio Pedro de Vasconcelos informou o rei de que os moradores podiam fazer suas lavouras no lugar onde escolhessem e que todos fugiam dos arredores de Colônia por serem terras demasiado secas (AHU_ACL_CU_017-01. D. D. 33. Luís Ferrand de Almeida relata que a documentação da época fala simplesmente em dar terras. sendo-lhes necessário “semear muito longe seus trigos”. Com relação à acusação de que os oficiais militares tinham sido privilegiados com a posse das terras que se situavam mais perto da povoação. 54). D. Para se defender das acusações. sem intervir nisto interesse algum da sua parte” (AHU_ACL_CU_012. superior da residência dos jesuítas em Colônia. 1973. Cx. mas não há qualquer referência ao sistema de sesmarias ou à celebração de contratos agrários (ALMEIDA. Porém como persistia a controvérsia com as autoridades de Buenos Aires sobre a questão da extensão do território de Colônia. Também o padre Antônio do Vale. aos casais e mais moradores. (AHU_ACL_CU_017-01. assim dentro como fora da fortaleza. D. como o sargento-mor Antônio Rodrigues Carneiro. Gomes Barbosa pediu o testemunho de pessoas importantes na comunidade local. 88). pois os colonos que lá viviam antes da evacuação ordenada em 1705 também não tinham a posse da terra que cultivaram reconhecida através de documentos. numa representação à Coroa. limitando-se a distribuir os lotes entre soldados e colonos (AHU_ACL_CU_012. 33. o governador Manuel Gomes Barbosa julgou melhor não conceder títulos de propriedade. 1.A carta régia de 9 de setembro de 1719 regulamentou a maneira pela qual o governador deveria proceder à distribuição das sesmarias aos casais.

Os colonos também reclamavam da perda de parte das colheitas devido à invasão das suas lavouras pelo gado e cavalos dos poderosos e principalmente pela concorrência que os grandes proprietários de terras. D. maior era o perigo de sofrer algum ataque. Cx. Porém as queixas contra os oficiais militares não se restringiam à disputa das terras mais próximas à fortaleza. o que não sucede aos ditos oficiais. fosse por parte da guarda espanhola. o problema principal não consistia na maior ou menor fertilidade do solo. por sua vez. alegando que como o trigo “não tem saída para fora da terra [de Colônia]. Os colonos pediam então ao rei que proibisse o plantio aos oficiais militares. asseguraria o aumento dos dízimos da produção. que o domínio legal sobre o território garantiria a segurança dos lavradores. uma vez que eram cultivadas por escravos “e outras pessoas que por respeito lhe lavram e semeiam o dito campo”. o que. Antônio Pedro Vasconcelos não deixou de se contradizer com essa afirmação. pois quanto mais longe da fortificação. D. 7694). geralmente militares e comerciantes. Argumentava. com os quais poderse-ia prover o sustento da guarnição (AHU_ACL_CU_012. pois anteriormente havia escrito ao rei que a resolução da questão sobre o território de Sacramento era essencial para garantir o aumento na produção de alimentos. Cx. (AHU_ACL_CU_017-01.Na verdade. Como nas terras dos oficiais não havia problema de falta de mão-de-obra. lhes moviam na produção do trigo. D. 199). 33. os colonos pediram ao rei para que se buscasse o fim da controvérsia sobre o território de Sacramento com a corte de Madri. 7695-7696) os militares conseguiam uma produção maior que a média. 33. então. Cx. 2. mas sim na segurança. a fim de livrar a guarnição da dependência das remessas de farinha do Rio de Janeiro. fosse por parte dos índios das missões jesuíticas sob o domínio de Castela. não tem o povo conveniência em plantar mais que para o seu sustento e de suas famílias [e] que se vendem algum para se remediarem é barato. O pedido dos moradores não deixou de escandalizar o governador Vasconcelos. que alegou que essa era uma “matéria muito alheia das suas obrigações e desnecessária em tempo que põe estâncias e levam as suas lavouras onde os convida o apetite” (AHU_ACL_CU_017-01. Procurando resolver o problema das investidas dos espanhóis e assegurar a propriedade através de títulos. os quais poderiam expandir as suas lavouras para o interior da campanha. .

e lhe atiram seixadas ou pedradas de maneira que os obrigam a fugir para Buenos Aires. catástrofes naturais e contestações ao modo como foi feita a distribuição das terras. v. era um fator de instabilidade no comércio realizado na Colônia do Sacramento que. ou mesmo de certos indivíduos que usavam de sua autoridade militar como meio de amedrontar os comerciantes. segundo Rocha. mas parece que de nada adiantou essa medida.porque como não têm necessidade de guardar para mais tarde e o reputam como querem” (AHU_ACL_CU_017-01. Em suma. forçando inclusive a deserção de alguns soldados para Buenos Aires. 4. de onde passou para a Inglaterra e de lá para Lisboa a fim de queixar-se ao rei. Francisco Pinheiro que encaminhasse uma carta ao rei na qual. p. insegurança. denunciava o capitão de infantaria Manuel de Macedo Pereira e seu irmão. Em maio de 1726. 287)”. D. o mercador José Meira da Rocha pediu ao importante comerciante de Lisboa. contribuíram para gerar um cotidiano bastante difícil para as pessoas que se dedicavam à agricultura no território da Colônia do Sacramento. 33. Cx. 7695-7696). um mercador fora obrigado a fugir para Buenos Aires. 1973. pois. mas que depois conseguira retornar à Colônia do Sacramento. realidade que seria muito diferente do que os idílicos relatos dos cronistas sobre a fertilidade do solo platino nos levam a pensar. eles continuaram a aterrorizar as pessoas com seus três cães de fila. o governador repreendeu os dois irmãos. “quanto que algum mercador lhes não fia fazenda ou empresta dinheiro. Para se livrar das perseguições dos irmãos Macedo. onde continuava a inquietar os comerciantes. João de Macedo. Os atritos também eram freqüentes entre os comerciantes e as autoridades militares. [os irmãos Macedo] botam-lhe cães de fila. Por ordem do Conselho Ultramarino. entre outras coisas. Concluía dizendo que não podia provar a denúncia porque ninguém da praça se atrevia a acusar os Macedo publicamente. por ser antes de . A interferência das autoridades. e a mim me quiseram lançar fogo às casas por lhes não fiar fazenda (ROCHA in: LISANTI. Segundo Rocha. Continuava dizendo que João de Macedo fora recambiado para o Rio de Janeiro pelo governador Manuel Gomes Barbosa como amotinador.

Cx. 4. 379). o qual. onde os comerciantes pudessem se fazer representar. v. 1973. tinha “mais fogo do que costumam ter os homens de negócio”. não teria deixado de castigá-los severamente. Essa convivência forçada provavelmente gerou muitos outros atritos. Ele queixava-se de que as mercadorias vindas do Brasil já haviam pagado as taxas alfandegárias nos portos de embarque. 1973. pois. pois influía nos preços das mesmas. segundo o governador. decisão que daria conta à Coroa (AHU_ACL_CU_012. 4. como o relatado por Rocha. De fato. pois nenhum . p. A partir desse impasse é que deve ter surgido o problema da dupla tributação. 383). v. como vimos. 383). sendo todo o governo da povoação dominado pelos militares que. Afirmava ainda que. segundo suas próprias palavras. impunha a convivência entre militares e comerciantes. o principal defeito dos irmãos consistia em não terem “a prudência de reprimirem as línguas na ocasião da ira”. mandara prender o capitão Macedo. aumentando-os. para contentar Meira da Rocha. p. Porém. sendo portanto duplamente taxadas em Colônia (LISANTI. A alegação do Conselho Ultramarino para a cobrança das taxas era que foram instituídas para evitar algum descaminho à receita da Fazenda Real (LISANTI. a partir de então. o governador era “um comilão de autoridade que nesta praça se acha” (ROCHA in: LISANTI. A alfândega de Sacramento criava problemas para o costume dos comerciantes em passar suas mercadorias de um porto ao outro. ao dar a notícia da criação da alfândega ao rei. D. o governador defendeu os irmãos Macedo. Rocha acusava o empenho do governador Vasconcelos em defender o responsável pela alfândega. Porém. 159). 2. Por culpa desse seu destempero é que teriam entrado em conflito com José Meira da Rocha. mas concluía dizendo que as “imprudências de uns e outros [eram] caso que se devia desprezar” (AHU_ACL_CU_012. v. D. p. 4. Outro atrito aconteceu entre Meira da Rocha e o governador em 1726.tudo um presídio militar. 2. Vasconcelos informou-lhe que havia escrito ao vice-rei para que. 1973. não deixavam de utilizar meios violentos para conseguir seus intentos. mas que o mesmo ordenara-lhe que não se alterasse a cobrança das taxas alfandegárias. 203). Cx. Para Antônio Pedro de Vasconcelos. a fim de dar-lhes saída. afirmando ao rei que se eles tivessem cometido a metade do que eram acusados. a cobrança da dízima passasse a ser feita somente em Colônia. uma vez que Colônia não possuía uma câmara. como um meio de defender seus próprios interesses.

e tanto se intimidaram que de nenhum modo querem assinar a segunda via dizendo que tem medo que ele lhes faça alguma violência” (ROCHA in: LISANTI. escreveu novas cartas para a Corte e buscou as assinaturas dos comerciantes num documento que afirmava que as queixas feitas eram unicamente de responsabilidade de Meira da Rocha e de Domingos Álvares Calheiros. 4. considerando-a a mais bem livrada que há nesta praça. do Rio de Janeiro. mas também era uma vingança contra os mercadores que lhe negavam propinas. ao mesmo tempo em que também visava impedir que a provável cólera do governador se dirigisse unicamente contra Meira da Rocha. D. esse era um meio de aumentar a importância do requerimento. portanto. ao ter notícia do requerimento. e saqueados. pois. Nesse meio tempo.contratador queria abrir mão dos recursos da dízima alfandegária. afirmasse que ele tinha sido “feito assinar pelo governador violentamente. Novamente encontramos outra acusação contra uma autoridade que usa de seu poder para conseguir benefícios pessoais. 384). pois temia que o governador mandasse revistar a bagagem de Damião Nunes de Brito. alguns meses depois do ocorrido. de onde ele não pode tirar o dinheiro que lhe parece. 384). 4. 1973. o governador mandou deter por seis dias a embarcação que o levava. v. p. Francisco Pinheiro pediu-lhe um requerimento assinado por todos os comerciantes da praça. José . p. nem se os mercadores acusados por ele sofreram algum tipo de punição. Pedia. “porque este homem entendo que anda atrás de saquear esta casa. iniciou-se outro cerco espanhol. Terminava dizendo que mandara suas cartas através do padre Francisco de Oliveira. a atitude do governador não somente dizia respeito à defesa de seus interesses na arrecadação da alfândega. 211). obrigando aos comissários com o medo e respeito do cargo que o assinassem. v. 1973. Não sabemos se o governador conseguiu realizar seu intento. como faz das demais”. o empenho de Pinheiro na sua defesa em Lisboa “a fim de que não nos venha alguma ordem contra nós em virtude da qual seremos aqui roubados. se o requerimento feito pelo governador chegasse ao Conselho Ultramarino. Em julho de 1737. Recomendava ainda que. Para Rocha. A fim de levar a queixa de Meira da Rocha ao Conselho Ultramarino. situação que ainda não havia sido resolvida em julho de 1729 (AHU_ACL_CU_012. até o último real” (ROCHA in: LISANTI. Porém. 2. Com certeza. com o objetivo de condená-los pelo crime de amotinadores. Cx.

o governador Manuel Gomes Barbosa opinou que. além de ser coronel. 1. pp. 40). nem nenhum outro que não fosse o da urbana persuasão” (AHU_ACL_CU_012. desenganado de que os portugueses conseguissem se livrar do sítio espanhol. 178). 617-618). Em 1727. permaneceram na Colônia mesmo após 1750. pois detentores de importantes cargos militares na Colônia do Sacramento também se dedicavam ao comércio. Cx. resolveu abandonar Colônia juntamente com os outros comerciantes (LISANTI. Apesar das acusações de Meira da Rocha. é juiz de órfãos da Colônia e coronel. mal governará a outrem” (AHU_ACL_CU_012. Ao informar o rei sobre a deserção de oito colonos. Estes foram alguns que permaneceram sediados na Colônia ao longo de todo o período entre 1717 e 1753. pp. Estes homens possuíam redes que os conectavam ao Rio de Janeiro e a Lisboa. devido à guerra. que viera do Rio em 1717 para a Colônia. explorando as possibilidades de situar-se na fronteira” (PRADO. como Jerônimo de Ceuta e Manuel Botelho de Lacerda. tudo leva a crer que a pressão do governador sobre os comerciantes tinha antes o objetivo de levantar fundos para pagar as despesas da guarnição do que tirar algum proveito próprio. D. Provavelmente. 164-165). argumentando que “quem não sabe governar a si. . A questão era efetivamente delicada. Cx. Tentativas no sentido de elevar o estatuto da Colônia do Sacramento a vila não deixaram de ser feitas. D. o governador afirmou que “jamais usei de meio violento. Em sua defesa. Vasconcelos foi severamente repreendido por ter forçado os comerciantes a lhe darem dinheiro para a compra de um grande número de cavalos e gado em troca de letras de câmbio que não eram aceitas no Rio de Janeiro. Jerônimo de Ceuta na década de 1740. 3.Meira da Rocha avisou Pinheiro que. v. porém sempre contaram com a oposição dos governadores. ocupando ofícios reais. o que o Vasconcelos entendia por “urbana persuasão” era compreendida como uma ameaça pelos comerciantes. a partir de 1729 ocupou o ofício de juiz da alfândega na Colônia. 2. já em 1720. 1973. 2002. como nos informa Fabrício Prado: “Sabemos que alguns comerciantes de importância na praça. havia pouca gente capacitada para ocupar os cargos da futura câmara. dentre os casais. Manoel Botelho de Lacerda.

De fato. o governo interino da Bahia informou a Coroa sobre as dificuldades que encontrava para completar o Terço de auxiliares. in: Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. vol. 82). cujo capitão era José Ferreira de Brito e estava composta por 24 homens. 1995. p. que era composta de 37 homens. o ouvidor geral do Rio de Janeiro. 4 de março de 1718. tinha o efetivo de 29 homens. Os casais estavam divididos em duas companhias: uma. Paulo de Torres Rijó. 503 2 . 369-370. 22 de julho de 1762. XXXI. Cx. A documentação indica que a pressão contra a elevação à vila da Colônia do Sacramento por parte dos governadores contribuiu para impedir que a Coroa levasse a efeito a criação da câmara. dizendo que “os homens de negócio e seus caixeiros só querem alistar-se nas ordenanças. p. vol. a política de implementar a colonização através dos casais estava intimamente ligada à instituição militar. encarregadas do recrutamento das tropas de linha e auxiliares. 3 Ofício do governo interino para Francisco Xavier de Mendonça Furtado. a companhia dos mercadores. escreveu a Lisboa informando que não podia ir a Colônia tirar residência do governo de Manuel Gomes Barbosa sem uma ajuda de custo da Fazenda Real. poder tremendo! Não os fazer. XXXIX. in: Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O pertencimento às tropas de ordenanças não só assegurava status social. 1.3 Personalidades que se destacavam nas comunidades faziam questão de obter cargos de comando nas ordenanças. querendo entrar no número dos privilegiados”. D.2 Em 1722. comandada pelo capitão Manuel do Couto. Romero Magalhães sintetizou o poder de que estavam investidos com uma frase: “Fazer soldados. como também garantia que seus membros não seriam enviados em missões para fora da área de atuação do regimento. Em setembro de 1721.É provável que os elementos que se destacavam dentre os casais povoadores buscassem nos títulos militares uma forma de ascensão social que também garantia uma posição de poder na Colônia do Sacramento. Em 1762. O Conselho Ultramarino era de parecer favorável a que ele recebesse uma ajuda Registro de uma carta régia dirigida ao governador do Rio de Janeiro. 121). pois antes mesmo que chegassem ao seu local de destino. a Coroa já enviara trezentas armas para a formação de “algumas companhias de ordenança dos mesmos casais que ajudem a defesa da dita praça”. maior ainda” (citado por COSTA. enquanto a do capitão Jerônimo de Ceuta congregava 35 homens (AHU_ACL_CU_012. eram quatro as companhias de ordenança: a companhia de cavalaria dos moços solteiros. Cedo os civis foram enquadrados no sistema militar. pp. a cargo do capitão João de Meireles.

94-95). desse modo. Outros povoados com menos recursos que Colônia foram elevados à condição de vila em princípios do século XVIII. A fim de cumprir sua missão. enquanto que. que tinha grande interesse em afastar os militares do governo e do controle da alfândega. até o momento. 1. pois. habilitada a assumir os cargos públicos que seriam criados com a instalação da administração civil em Colônia. sob a alegação de que os mesmos representavam a “parte maior e mais nobre deste povo” (AHU_ACL_CU_017-01. com governo de câmara e justiça. dentre os quais o grupo mais influente era o dos comerciantes. enfatizando o desejo da população de que “no governo da câmara e alfândega não entre militar algum” (AHU_ACL_CU_017-01. Cx. protestou contra a pretensão de excluir os militares da câmara e da alfândega. 7695-7696). Cx. a fim de se “poder saber qual é o mais privilegiado. Cx. tudo indica que a visita do ouvidor geral não se realizou. uma representação dos moradores pediu a presença de um juiz e a elevação da povoação em vila ou cidade. Porém. por volta de 1731.1. especialmente à vinda de um juiz. por se evitarem contendas” (AHU_ACL_CU_017-01. como foi o caso de Laguna. Talvez prevendo as objeções do governador. assim como regulamentasse os privilégios especiais concedidos. 33. ff. Procuravam. determinava ainda que Rijó ficasse por um ano em Sacramento a fim de “criar em vila a dita Colônia.21. que. criar uma “nobreza da terra”. os moradores já haviam incluído no seu requerimento um pedido para que a Coroa reconhecesse todos os direitos e privilégios a que tinham direito como povoadores. 7695-7696). como população suficiente e a presença de um pároco. Porém. Para a mudança de estatuto não faltavam as condições básicas. e a conseqüente criação de uma câmara. D. Antônio Pedro de Vasconcelos deu seu apoio ao pedido dos moradores. D. onde os casamentos e batizados somente se realizavam quando o . Provavelmente. 7694). segundo o próprio. Arq. fazendo-lhe um regimento por onde se devem governar” (IHGB. considerando a grande distância e a periculosidade da navegação entre o Rio de Janeiro e Colônia. tal recomendação devia-se às tensões que opunham os militares aos moradores.de custo. apesar de se compor de um grupamento de casas de pau-a-pique cobertas de palha. não havia entre os casais sujeitos idôneos para ocupar os cargos que seriam criados. Chamado pela Coroa a dar seu parecer sobre o assunto. “porque na disposição das leis só pode obrar com acerto quem as estudou”. D. 33. 33.

a maior parte dos comerciantes não passava de agentes comerciais de mercadores estabelecidos no Rio de Janeiro ou Lisboa.4 Em 1735. in: BETHENCOURT e CHAUDHURI v. 5 4 . A eleição de alguns comerciantes. Por sua vez. De fato. 303-304). uma vez que. 205). pois. v. Talvez a razão se encontre no medo de que a câmara de Sacramento fosse dominada pelos comerciantes. Deve-se observar também que a maior parte do comércio realizado em Sacramento não passava de contrabando aos olhos das autoridades espanholas.padre a visitava. 71). 1998. 169). atividade que assegurava a subsistência da cidade (BOXER. Uma câmara dominada pelos comerciantes com certeza dificultaria as relações sempre tensas entre portugueses e espanhóis numa área em disputa que era o território de Colônia. 3). 274). em 1697. quando não contava com mais de 42 casas e 300 pessoas adultas (SANTOS. 445). apesar do caráter essencialmente comercial do império marítimo português. o conflito em torno do acesso aos lugares na câmara prolongou-se pelos séculos XVII e XVIII. 1980. p. o desprezo contra os comerciantes era profundo na sociedade portuguesa do Antigo Regime. viviam em Colônia e em seus arredores mais 1. p. p.5 situação que aumentava ainda mais a discriminação. sobre a atividade comercial pesava fortemente o preconceito contra os judeus. Cx. No Rio de Janeiro. Respondendo ao protesto que os mercadores fizeram à Coroa contra a concorrência inglesa no comércio ilícito com os espanhóis. 8. 2. Vasconcelos informou ao rei que “estes homens são uns comissários que vivem da comissão que tiram da fazenda vendida” (AHU_ACL_CU_012. 31. conseguiram ocupar importantes cargos públicos. Em 1764 houve uma nova tentativa de criar uma câmara na Colônia do Sacramento. a população de Sacramento foi calculada em cerca de 2.040 habitantes.600 pessoas que viviam em 327 casas (SYLVA. foi anulada pelo rei que atendeu aos protestos dos vereadores contra a entrada de “pessoas hebréias” na instituição municipal (BETHENCOURT. Mesmo em Macau. D. 1946. pp. Em Colônia. 1998. se os grandes comerciantes. vol. v. 1993. 3. 3. em 1718. p. 1981. as resistências contra a ascensão social dos agentes comerciais ou dos pequenos mercadores eram muito maiores (RUSSELL-WOOD. Reclamavam que “padeciam consideráveis violências e opressões originadas dos despotismos com Carta de Gomes Barbosa ao vice-rei. p. in: Documentos Históricos. 12 de abril de 1718. a despeito da dependência dos seus cidadãos do comércio. por vezes. conseguiu o foral de vila em 1714 (TAUNAY. LXXI. através de um requerimento dos moradores enviado ao rei. p. o preconceito existia.

p. “as guarnições das praças só controlavam o terreno à volta das muralhas. p. pois. perigosa situação que era temida pelas autoridades portuguesas. 89). 7. Na correspondência trocada entre o governador interino de Minas Gerais. 22). segundo Boxer. 1970. interessados no governo político. Porém então a realidade era outra de 1722. Se Mazagão foi qualificada como vila em 1536 (AMARAL. vegetais. A fundação de Montevidéu pelos espanhóis em 1724 e a manutenção do campo de bloqueio pelos mesmos depois do cerco que se estendeu de 1735 a 1737 reduziu Colônia a um mero entreposto comercial fortificado. O padre Florián Paucke durante sua visita a Colônia. De 1737 a 1777. II. p. Cx. p. 1970. 1977. a autoridade suprema residia na pessoa do governador. p. Os moradores diziam que passavam de trezentos. 446. com capacidade para governarem e por isso pediam o cumprimento da ordem régia de 1722 que ordenara que o ouvidor geral da capitania do Rio de Janeiro se dirigisse a Colônia do Sacramento a fim de elevá-la a vila. onde. 1989. 18 de julho de 1737. Proença mostrava sua preocupação com a manutenção de uma praça mantida sob bloqueio contínuo. 33). vol.que os governadores daquela praça mandam em falta de câmara”. ela não chegou a contar com uma câmara. D. a partir de então a situação de Colônia se tornou parecida com as possessões portuguesas na costa marroquina. o cotidiano do habitante de Sacramento foi marcado pelo bloqueio constante a que os espanhóis submeteram o povoado. 56). que comparava a Mazagão. levando-se em consideração a população que a compunha. cultivavam os cereais. in: Revista do Arquivo Público Mineiro. até onde alcançava o canhão. praça-forte portuguesa situada na costa atlântica do Marrocos. Viajantes dão testemunho do aspecto de praça-forte assumido desde então pela Colônia do Sacramento. tal como em Colônia. frutas e pastoreavam os cavalos e o gado” (BOXER. calculada entre 1500 e 2000 habitantes durante o período filipino (FARINHA. realizada 6 Carta de Martinho de Mendonça a Gomes Freire de Andrade. que dispunha do poder militar e civil (FARINHA. Martinho de Mendonça de Pina e Proença e o general Gomes Freire de Andrada. quando Sacramento era ainda um importante centro de colonização português no Rio da Prata.6 Efetivamente. militar e público fazem cassar o progresso das ordens mais convenientes para a governança dos povos” (AHU_ACL_CU_012. Nesse terreno. . 566). Queixavam-se de que os “governadores.

cercada de muralhas simples na costa e mais poderosas em terra (MILLAU. na sua Descripción del Río de la Plata. O padre Paucke observou que o gado era recolhido à praça durante a noite. p. 112). para evitar que fosse apresado pelos espanhóis. de 1772. “atraídos pela segurança do porto. que vigiavam de contínuo as atividades dos moradores e soldados (PAUCKE in: BARROS-LÉMEZ. outras circunstâncias concorreram para diminuir a sua dependência com relação ao governador do Rio de Janeiro. 55). citamos a enorme distância . observou que. pela inexistência de barreiras alfandegárias na entrada das mercadorias e pela facilidade dada pelas autoridades no trato com os comerciantes mouros e judeus” (FARINHA. ocupada por peças de artilharia de ferro. p. O jesuíta não deixou de comparar a situação dos portugueses em Colônia à dos judeus na Europa. e por um profundo fosso seco aberto na rocha. 75). o que também acontecia em Mazagão.em dezembro de 1749 descreveu-a como uma pequena cidade constituída de casas baixas. durante o período filipino. Já Francisco Millau. 1992. p. Se a falta da câmara e de um juiz favoreceu a concentração do poder local nas mãos do governador. ao qual o governo de Colônia era formalmente subordinado. feitas de pedra. que. 1947. da guarda principal e da residência do governador. 67). 1992. tanto Paucke como Millau acentuam que o caráter militar da Colônia do Sacramento não excluía a intensa atividade comercial que ali se realizava. foi um centro de comércio muito visitado pelos mercadores europeus. p. Defendendo o porto. ao observar a existência de sentinelas espanholas nos arredores da praça. 1970. No cordão de isolamento estava sempre de prontidão um destacamento de tropa que fazia parte da guarnição de Buenos Aires (MILLAU. onde um dos portões chamava-se “porta dos bois”. Colônia estava protegida por uma alta muralha. justamente por ser utilizado para conduzir o gado para as pastagens do campo vizinho (FARINHA. Millau descreve a existência de uma forte paliçada que. Porém. p. 75). Mais uma vez. descreve Sacramento como uma pequena povoação com boas casas altas e edifícios regulares. 1970. Em primeiro lugar. p. armado com seis canhões de ferro (PAUCKE in: BARROSLÉMEZ. podemos traçar um paralelo com Mazagão. confinava os portugueses na península ocupada pela Colônia do Sacramento. Sobre as fortificações. de uma praia a outra. Na praça. notou a existência de um alto bastião. 112). por terra. 1947. destacou a presença da igreja paroquial.

o soldo é só militar. Vasconcelos ainda não sabia a quem devia prestar conta dos seus atos. essa política não deixou de trazer inconvenientes. Quando Antônio Pedro de Vasconcelos foi registrar sua patente de governador na Chancelaria do Reino. in: BETHENCOURT e CHAUDHURI v. a correspondência do governador prestando informações e recebendo ordens era quase que direta com Lisboa.7 Quase um ano após a sua posse no governo da Colônia do Sacramento. Porém. 1. Crescida à sombra da fortaleza do Santíssimo Sacramento.física que há entre o Rio e Sacramento. Essa explicação também serve para o caso da Colônia do Sacramento. Apesar da Coroa preocuparse em fazer de Sacramento um centro de colonização portuguesa no Rio da Prata. 106). as vicissitudes no seu desenvolvimento inserem-se 7 Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de abril de 1749. p. o alcance de controle efetivo das autoridades coloniais já mostrava sinais de atenuação a menos de cem quilômetros da sede (RUSSELL-WOOD. 61. a povoação jamais se constituiu em vila ou cidade durante o domínio português. os funcionários não sabiam se ele deveria pagar os direitos reais pelo posto que iria ocupar. in: Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Também é importante salientar que. 2002. pois gerou confusões e conflitos de autoridade na estrutura hierárquica da administração colonial. na prática. com o Conselho Ultramarino” (PRADO. 94). ou de uma estrutura colonial interna que pudesse desenvolver-se independentemente do controle metropolitano” (SCHWARTZ. D. quase regulado pela patente do posto que ocupava”. antes se entende que por ser praça particular e não governo de distrito. p. p. pois: “Administrativamente. L. 1998. p. vol. ela encorajava a autonomia das capitanias com o objetivo de “dissipar o aparecimento de uma mentalidade colonial separada. 148). 3. 3. a vocação militar de Colônia sempre se sobrepôs ao seu papel de núcleo de povoamento. Embora a Colônia do Sacramento não tenha evoluído até tornar-se uma importante cidade da América portuguesa. já que. Cx. embora a Coroa tenha formalmente regulamentado a hierarquia entre as diferentes autoridades coloniais. pois então escreveu ao rei perguntando-lhe se estava subordinado ao governador do Rio de Janeiro ou se devia prestar contas somente à administração central de Lisboa (AHU_ACL_CU_012. 1998. “por não ser aquele governo de capitães gerais. in: BETHENCOURT e CHAUDHURI v. conforme Russell-Wood. . 171).

em agosto de 1680. como embrião de um conteúdo urbano. 8 . 1957. História de Mazagão. As cartas foram publicadas em: Luís Ferrand de Almeida.perfeitamente no quadro do império ultramarino português. Fica claro que o termo “colônia” refere-se a um núcleo de povoamento ligado à fortaleza do Sacramento e não ao nome próprio da praça. Lisboa: Horizonte. 1989. _____. p. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. A Colônia do Sacramento na época da Sucessão de Espanha. 2. 1981. _____. as cartas de Lobo foram datadas da cidadela do Sacramento. Luís Ferrand de. Charles Ralph. por deriva. p. A documentação produzida por ocasião da discussão que levou ao Tratado Provisional de 1681 acabou por consagrar o uso do nome Colônia do Sacramento. fato que ilustra muito bem a situação de provisoriedade que sempre marcou a presença portuguesa nas margens do Rio da Prata. D. BOXER. 1977. A diplomacia portuguesa e os limites meridionais do Brasil (1493-1700). 2000. Augusto Ferreira do. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Manuel Lobo propôs ao rei denominar Lusitânia a futura cidade que planejara criar nas proximidades da fortaleza do Santíssimo Sacramento (MONTEIRO. pp. pelas quais a documentação passou a referir-se a sua fundação após a tomada da fortaleza pelos espanhóis. pp. 330-331 e Jonathas da Costa Rego Monteiro. vol. Referências bibliográficas ALMEIDA. não raras vezes adiado ou abortado” (CONCEIÇÃO. Observamos que o próprio nome do estabelecimento português no Prata foi marcado pela provisoriedade. Lisboa: Alfa. A Colônia do Sacramento. A Diplomacia Portuguesa e os Limites Meridionais do Brasil. 29). ditada pelo problema de ter sido fundado num território em disputa por duas Coroas rivais.8 já que o mesmo desconhecia as denominações de “Colônia do Sacramento” ou “Nova Colônia”. Lisboa: Edições 70. 41-42 e 51-53. 1937. AMARAL. Margarida Tavares da Conceição sustenta que o ato de “fazer fortaleza” podia “ser entendido como rito iniciático da implantação de soberania e. 2. O império colonial português (1492-1825). 26). 1973. vol. A mulher na expansão ultramarina ibérica. De fato.

1973. Brasília: Ministério da Fazenda. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. A vida quotidiana na Colónia do Sacramento: um bastião português em terras do futuro Uruguai. CONCEIÇÃO. 1995 – 1º. . Francisco e CHAUDHURI.-mar. Porto Alegre: Arcano 17. São Paulo: Visão Editorial. Montevideo: Monte Sexto. nº 41. 1970. caminantes.ª ed. PRADO.). Análise Social: Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.). Prado. Fernando Dores. POSSAMAI. Descripción de la Provincia del Río de la Plata. TAUNAY. P. Porto Alegre: F. 121-155pp. “A construção do Brasil urbano”. Francisco. 1980. 1947. Jonathas da Costa Rego.Calpe. 1992. “Os problemas do recrutamento militar no final do século XVIII e as questões da construção do Estado e da nação”. 2. Lisboa. Fabrício. 3: O Brasil na balança do império (1697-1808). Lisboa: quarta série. COSTA.BETHENCOURT. fundadores. Affonso de E. Alvaro (comp. Lisboa: Livros do Brasil. MILLAU. Lisboa: Centro de Estudos Históricos Ultramarinos. Florián. 1998. Círculo de Leitores. Revista Oceanos. A Colônia do Sacramento: o extremo sul da América portuguesa. in: BARROS-LÉMEZ. vol. Silvestre Ferreira da. Negócios Coloniais (uma correspondência comercial do século XVIII). A Colônia do Sacramento (1680-1777). António Dias. Corcino Medeiros dos. Relações comerciais do Rio de Janeiro com Lisboa (1763-1808). nº 130. História de Mazagão durante o Período Filipino. vol. Relação do sítio da Nova Colônia do Sacramento. adelantados. MONTEIRO. V Centenario en el Río de la Plata: pioneros. “A praça da guerra: aprendizagem entre a aula do paço e a aula de fortificação”. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. 1937.). Margarida Tavares da. 1946. História da expansão portuguesa. XXX. Lisboa. 1993. SYLVA. Montevideo y la Colonia del Sacramento”. jan. FARINHA. LISANTI. 2006. 2002. Buenos Aires: Espasa . Kirti (dir. História geral das bandeiras paulistas. Porto Alegre: Globo. 2000. Paulo. “El Silberfluss. PAUCKE. Luís (Org. SANTOS.