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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA Centro de Ciências Humanas e da Educação Departamento de História Disciplina: Prática Curricular - Patrimônio Cultural

Docente: Janice Gonçalves

Memória do Sertão do Ribeirão a partir dos Engenhos:
“Aquecendo Memórias”

Equipe: Mariana Jucá de Mello e Paulo Onésimo Minardi Pereira

Ilha de Santa Catarina 2008

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA Centro de Ciências Humanas e da Educação - FAED Departamento de História

Memória do Sertão do Ribeirão a partir dos engenhos:
“Aquecendo Memórias”

Equipe: Mariana Jucá de Mello Paulo Onésimo Minardi Pereira

Trabalho de conclusão de estágio referente à disciplina de Prática Curricular - Patrimônio Cultural, orientado pela Professora Janice Gonçalves e ministrado na 5ª fase do curso de História, Centro de Ciências Humana e da Educação – FAED, Universidade do Estado de Santa Catarina.

Ilha de Santa Catarina 2008

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Resumo

Este trabalho de conclusão de estágio referente à disciplina de Prática Curricular Patrimônio Cultural II aborda as diferentes relações sociais estabelecidas na época áurea dos engenhos e as transformações no decorrer do tempo na comunidade tradicional do Sertão do Ribeirão e do Peri, situada no município de Florianópolis. A pesquisa teve como objetivo valorizar as manifestações culturais que recompõem a identidade do bairro. Para isso utilizou-se o registro áudio-visual baseado na pesquisa de História oral. Palavras-chave: Florianópolis, Casa da Memória, Sertão do Ribeirão do Peri, Engenhos, Memória.

. 9 Compartilhando o fazer de uma narrativa histórica............................................................................. 9 Um olhar antropológico e cultural sobre o Sertão do Ribeirão do Peri ............................................. 23 .............................. 6 Descrição e análise do estágio ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 14 Considerações Finais............................................ .........4 Sumário Introdução........................................................ 22 Anexo: Projeto “Memória do Sertão do Ribeirão a partir dos engenhos e do caminho histórico que liga a Caieira ao Sertão”...................................................Projeto Memória de Bairros.............. 5 Trajetória de estágio ............................................ 21 Referências ............

na Casa da Memória centro de documentação vinculado à Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes. relacionados à história do município. . contação de histórias que permeiam o imaginário ilhéu. Percebeu-se. A pesquisa teve como objetivo procurar compreender a história do bairro a partir da época em que a economia girava em torno dos engenhos. Contudo. analisaram-se as diversas relações que os entrevistados estabeleciam com esses lugares de memória. que ainda mantém fortes traços da cultura açoriana. A Casa da Memória atua na área de conservação. em geral cedidos por particulares. coordenado pela Professora Eliane Veras da Veiga Pacheco. que as relações sociais passavam inevitavelmente por esse universo. há uma crescente evasão da população local. pela falta de investimento público. É também intenção do projeto dar visibilidade à comunidade e à sua história. pesquisa e divulgação de acervos.5 Introdução O presente trabalho está articulado ao projeto “Memória de Bairros”. O trabalho da nossa equipe consistiu na valorização da memória e do patrimônio cultural da comunidade do Sertão do Ribeirão através da pesquisa de História Oral com moradores antigos. através de celebrações de casamentos. ao longo do projeto. comemorações. A partir daí.

uma vez que a disciplina Patrimônio Cultural organizou um mini-curso com os próprios . que costumava ir à localidade e fotografar com freqüência o Sertão. foram oito entrevistas registradas em vídeo. onde ele levou fotos que muito contribuíram como instrumento de memória. pois antigamente ninguém da comunidade possuía máquina fotográfica. Percebeu-se. através do grande número de pessoas envolvidas com a farinhada. que o engenho não é apenas um lugar onde se fabrica farinha de mandioca. Para a orientação dessa oficina. não foi possível realizar todas as entrevistas planejadas. sejam moradores ou visitantes. com a professora Eliane Veras da Veiga Pacheco (coordenadora do projeto “Memória de Bairros”). havíamos planejado contactar a equipe do Instituto Câmara Clara. e levantamento de fotos antigas. Em relação às fotos antigas. a equipe foi informada sobre um médico. na Freguesia do Ribeirão.6 Trajetória de estágio Inicialmente buscamos. Em agosto de 2008. Após dois meses buscando informações sobre ele. uma vez que ele foi construído no início da década de 90. no engenho do Ailton. conhecido como Waldemar do Ribeirão. Em função do difícil acesso à comunidade. não foi necessário. Buscou-se entrevistar os moradores mais antigos. a sua família. Essa entrevista também foi registrada em vídeo. iniciamos a primeira etapa do projeto. um espaço de sociabilidade. informações em relação a possíveis fontes sobre o tema do projeto. Em seguida. Para a segunda etapa do projeto foi idealizada uma oficina de produção de álbuns com as fotos recolhidas. Através das entrevistas. com o intuito de manter viva a tradição e não mais como uma fonte de renda. ou Farinhada. No entanto. Foi realizada uma entrevista com Waldemar na Casa da Memória. pois em dias de chuva não é possível subir o morro de carro. No total. estabeleceu-se contato informal com alguns moradores da comunidade do Sertão do Ribeirão na festa da Farinha. Lá foram feitas algumas imagens do evento. mas principalmente um lugar de memória. houve bastante dificuldade para levantá-las. localizou-se. que consistia na realização de entrevistas de História Oral. realizada em junho de 2008.

realizamos o álbum com quatro famílias. foi previsto pesquisar os caminhos paralelamente ao engenho. optou-se por realizar individualmente o álbum com os interessados. a queimada). estão cobertos por mato. encontrou-se certa resistência por parte dos moradores em relação à idéia de se reunirem para a confecção dos álbuns. a prioridade de determinadas fotos que escolhiam para contar a sua história. que a princípio seriam elaborados coletivamente. que ligavam a comunidade a diversas localidades vizinhas. utilizaram-se as cópias das fotos apresentadas pelos próprios participantes. por onde os carros de boi e os cavalos passavam. Esse trabalho ampliou as possibilidades da memória. que foi uma das formas escolhidas para . nas terras do engenho. Esse fato mostra a relevância do modo de produção agrícola preponderante da época. No final das oficinas. como reconstituição da memória local. somada à desativação de grande parte dos engenhos e à implantação da Unidade de Conservação do Parque da Lagoa do Peri (que proíbe práticas tradicionais de agricultura. Além disso. a pesquisa não pôde ser aprofundada. Isso muito contribuiu para o desenvolvimento das oficinas previstas no presente projeto. Em virtude do elevado nível de chuvas ocorridas no mês de setembro e outubro. Através de depoimentos. com a criação das estradas que dão acesso ao Sertão . Sendo assim. Para a oficina. No final. com a duração de aproximadamente 4 horas cada produção. estabelecendo uma dinâmica própria e maior envolvimento emocional dos entrevistados. Por isso. situado no bairro Ribeirão da Ilha. houve um atraso no cronograma de execução do projeto. Porém.pelo Ribeirão e pela Costa de Cima -.7 idealizadores do instituto sobre as possibilidades em se trabalhar fotografia e memória. fotografadas pela equipe e fotos de jornal. Como. No projeto elaborado no primeiro semestre. Por esse motivo. como por exemplo. houve um reconhecimento por parte dos participantes que foi de grande importância para a equipe que desenvolveu o projeto. por exemplo. as plantações articulavam uma rede de caminhos. percebeu-se que eram estabelecidas diversas relações em torno da sua identidade. com a conotação de reciprocidade. pesquisadas no acervo do Ecomuseu. Pois. Todos os entrevistados se mostraram entusiasmados e o trabalho foi realizado. atualmente os caminhos que interligavam o Sertão com as regiões vizinhas. No entanto. em novembro deu-se início ao processo de edição do vídeo. verificou-se que antigamente existiam vários caminhos diferentes aos atuais.

8 socializar o objetivo do projeto. e viabilizar cópias para os moradores que se mostrarem interessados. filmado em 1997. e “Fragmentos”. Utilizamos a maior parte do nosso tempo no planejamento do trabalho “in loco”. planejou-se a realização de um evento no Sertão do Ribeirão. Claudia Aguirre. verificou-se que as metas estavam além das possibilidades materiais. mantivemos o contato com a Casa da Memória nos momentos que entendemos necessários. A interação com os funcionários da Casa da Memória se deu de forma harmoniosa. elaborado no ano 1990. pelo fato da equipe ter optado por um projeto de pesquisa de História Oral do bairro em questão (muito distante do centro da cidade). dirigido por Ademir Damasco. no entanto. que já confirmou a sua presença no dia. É importante ressaltar que. no dia 29 de Novembro. diretora de dois documentários realizados no Sertão: “A visita”. O planejamento inicial previa a apresentação desse material áudio-visual nas escolas públicas das proximidades. Para exibição do produto final. . relevante para a nossa pesquisa. pois se pôde contar com a experiência dos profissionais envolvidos no projeto “Memória de Bairros”. Um acontecimento ocorrido no mês de novembro. “Memória de Bairros”. conjuntamente com a exibição do documentário “A Farinhada”. foi o encontro com a Profa. Armação do Pântano do Sul e Caieira. pelo fato da equipe contar com somente dois alunos. em função dessas intempéries. não foi possível ter cópias dos seus filmes a tempo. Em relação às intenções do planejamento inicial em desenvolver propostas para o uso sustentável dos engenhos e caminhos. no engenho do Ailton. não foi possível a apresentação do vídeo nos bairros do Ribeirão da Ilha. Contudo. Ela separou fotos de seu acervo pessoal tiradas no período em que produzia seus filmes e respectivas anotações. Pretende-se agregar esse material ao acervo do projeto no qual estamos inseridos. da Casa da Memória.

9 Descrição e análise do estágio Compartilhando o fazer de uma narrativa histórica. Paraná. apresentado na Faed em 2008/01 em aulas da disciplina de Prática Curricular Patrimônio Cultural. As poucas fotografias antigas que encontramos foram fotografadas há mais ou menos 25 anos atrás. realizado em Londrina. além dessa metodologia ter se mostrado rica na reconstituição da memória. aquelas fotografias que guardamos das nossas experiências de vida que preservam cristalizadas nossas memórias. Uma das dificuldades iniciais desse trabalho com as fotografias se baseou no fato da comunidade do Sertão por se localizar numa região mais isolada . ela proporcionou outro tipo de relacionamento entre o entrevistado e o entrevistador. Mariana Jucá de Mello A equipe.até a década de 70 não havia luz elétrica e nem estradas. Por isso. No decorrer do projeto. a rememoração por meio de imagens-relicário. Nesse último processo eu também ajudava. Os mais velhos escolhiam as fotos. optou por utilizar a fotografia como objeto vetor de lembranças e mobilizar os moradores em torno do tema pesquisado por meio de oficinas de confecção de álbuns com fotografias antigas. existiam apenas trilhas que ligavam a comunidade com os bairros vizinhos e os moradores viviam basicamente de uma economia de subsistência -. os filhos e netos que estavam por perto também participaram. Essa prática com as imagens abriu espaço para a interação entre diferentes gerações na hora de montar o álbum. inspirada no trabalho de memória e fotografia de Tati Costa e Daniel Choma . . como coloca Boris Kossoy. a maioria dos moradores não possuía máquinas fotográficas. tornou-se mais limitada e 1 1 Projeto do Instituto de Memória e Imagens Câmara Clara. ou seja. Como as oficinas aconteciam nas casas dos entrevistados. e seus filhos e netos ajudavam a escrever sobre a foto e a montar o álbum. que inicialmente havia sido planejado para ser uma prática individual.

o primeiro não é mais a fonte do pesquisador. além de estabelecer uma relação de troca e aproximação diferenciada entre entrevistado e entrevistador. editar e analisar entrevistas. Já Alice Lang não concorda com essa visão e defende a importância do método crítico-dialético em todas as etapas do trabalho e vê a memória como elemento fundamental e característico da História Oral.” (JANOTTI.. Além de maior interesse e . em última instância remete à humanização das ciências. a partir dos engenhos. 1996). p. O fazer compartilhado da História proporciona uma interação muito maior dos sujeitos envolvidos. (JANOTTI. 1996). (KOSSOY. Pois a História Oral tradicional é vista “apenas como uma técnica para coleta de relatos orais e fontes para pesquisa” (LANG.10 demandou um maior esforço da equipe em investigar e contatar profissionais que já realizaram pesquisas na região. tendo como resultado um documento em co-autoria. É nesse sentindo que essa visão se contrapõe à autora Lang. agora realizado em estreita sintonia entre o colaborador (depoente) e o mediador (pesquisador). em repensar o lugar do entrevistado e entrevistador. para a realização dos álbuns utilizou-se fotografias tiradas pela equipe de situações e locais que consideramos significativos para a pesquisa sobre a memória do Sertão do Ribeirão. a metodologia utilizada seguiu a vertente à qual José Sebe Bom Meihy se alinha. que após ter registrado a entrevista vai para casa e busca interpretar e construir uma narrativa: a produção desta se faz em conjunto com o entrevistado. 1996) No caso das oficinas. Como esses encontros se concretizaram apenas em outubro. o trabalho realizado assume a forma de uma experiência social única que. Meihy. (JANOTTI. e fotos pesquisadas em jornais antigos. 57). que propõe que a análise deve ser feita em todas as etapas pelo pesquisador. [. Segundo Janotti.] ao estabelecer inéditos procedimentos e responsabilidades ao ato de registrar. Outra diferença significativa durante o processo de produção dos álbuns foi o fato do produto final da oficina ficar com os entrevistados. 1996. para Meihy “a memória é um material bruto a ser polido e modificado pela análise conjunta realizada pelo colaborador e pelo oralista. 2005).. Optou-se por explorar o novo dentro da História Oral. Partindo da perspectiva do autor. Mudando os pressupostos da antiga cultura acadêmica.

para as pessoas se prepararem para a atividade. Essas tardes foram tecidas com risadas. Algumas oficinas só terminaram porque não tinha mais folha para colocar as fotos. não aconteceu na data inicialmente programada no cronograma em virtude de aspectos climáticos do tempo. Ao todo foram 3 tardes. além dos registros do processo de confecção dos álbuns. Pois com chuva o acesso a comunidade fica bem mais difícil. o participante mostrava com entusiasmo folha por folha do álbum que estava fazendo para contar a sua história. causos e mais causos que faziam os olhos de quem contava brilhar mais ainda. A realização dessas. . Embora as oficinas não tenham gerado para mim nenhum resultado material. também foram uma maneira de retribuir o que apreendi durante as entrevistas. dessa forma. admiração. Quando alguém chegava durante as oficinas. e sempre no final um suspiro saudoso por “um tempo em que se trabalhava mais. e ao mesmo tempo desabafos em relação a insatisfações da vida e desavenças no convívio como comunidade. o trabalho foi valorizado pelos participantes. os laços criados com os entrevistados me preencheram com um enorme sentimento de satisfação e gratidão por passar tardes ajudando na reconstrução de suas histórias de vida. “amigo me dê licença de um versinho cantar Da amiga Mariana Sempre vem me visitar” Escrito pela Dona Maria no final da oficina Os álbuns.11 receptividade na proposta do projeto. mas as pessoas eram mais felizes”. As oficinas foram combinadas anteriormente. com a participação de 4 famílias. Concordo com Portelli quando ele coloca que.

a restituição não se baseou em transcrições ou publicações que. antes de mais nada para nós mesmos.. segundo o mesmo autor. Contudo. em registrar essa memória (uma vez que isso faz parte da história de suas vidas durante a infância e atualmente estão se distanciando cada vez mais dessa realidade) consistia na consciência sobre a importância em passar essas experiências para seus filhos.. 1997) Durante as oficinas.12 [. portanto. no entanto. não podem ser consideradas de fato uma restituição à comunidade. enquanto não entregamos seus resultados àqueles que foram responsáveis por viabilizá-lo. e alguns ainda vendem a farinha -. (PORTELLI.] Recebemos tanto de pessoas e comunidades que não sentiremos nosso trabalhos concluído. motivados pelo desejo e pela necessidade de “ tentar aprender um pouquinho” e de conseguir com que as pessoas (nos) contem histórias”. 1997) No caso do projeto. Uma vez que as crianças já não vivem tanto o cotidiano do engenho.. aquilo que realmente restituímos é uma oportunidade para as pessoas com quem conversamos organizarem seus conhecimentos com maior clareza: um desafio para aumentarem sua consciência. e o interesse dos mais jovens.. . filhos dos entrevistados. creio que deveríamos indagar: para que a fazemos. [. câmera de vídeo . “Nesse caso.foi uma forma de proporcionar maior interesse e participação deles em torno do tema trabalhado. visto que muitas vezes o narrador não consegue ler as transcrições e os acervos onde ficam guardados esses materiais são acessíveis apenas a profissionais. a aproximação que as novas gerações possuem com as tecnologias – máquina fotográfica. Minha impressão é a de que a fazemos. colhem. todo ano participam da farinhada e conhecem todo o processo de fazer farinha. levam para o engenho. mas.] antes de nos perguntar o que fazer com a História Oral.” (PORTELLI. pude perceber o quão vivas estão as lembranças da vida no engenho para antigos moradores que ainda vivem a tradição da farinhada – plantam.

13 Referências JANOTTI. poucas certezas e uma proposta. 1996. José Carlos Sebe Bom. (Re)introduzindo a História Oral no Brasil. 1996. . História Oral: muitas dúvidas. LANG. Fotografia e Memória. In: SAMAIN. O fotográfico. KOSSOY. São Paulo: 2005. São Paulo: Editora da USP. (Re) introduzindo a História Oral no Brasil. Boris. In: MEIHY. Refletindo sobre História Oral: procedimentos e possibilidades. Etienne. Maria de Lourdes. Alice. São Paulo. In: MEIHY. José Carlos Sebe Bom. Editora da USP.

tradições e religiosidade que eles se identificam.14 Um olhar antropológico e cultural sobre o Sertão do Ribeirão do Peri Projeto Memória de Bairros Paulo Minardi O que pode ser mais criativo do que ouvir os próprios relatos de moradores do local. vários moradores já aposentados retornaram para levar uma vida rural e. Acostumados a viver em um lugar tranqüilo. em especial os mais antigos? A memória de um povo vem esculpida pela emoção e não há nada comparável aos sentimentos humanos. entrelaçam diversos tempos e opiniões. modestas e sem conhecimentos científicos. as mais variadas histórias e que. Há muita colaboração entre avós. Mas o foco deste trabalho era o de procurar identificar como eram as relações sociais na época em que existia uma grande atividade produtiva que eram os engenhos de farinha. Porque para cada olhar há uma nova interpretação. assim. Daí advém relatos dos mais inesperados. Em função de haver um número tão significativo de engenhos. e de cana de açúcar para a produção da cachaça. No início do século XX havia em torno de 170 engenhos espalhados pela ilha de Santa Catarina. Nas nossas entrevistas e gravações está o diferencial do nosso trabalho. sendo de diferentes espécies. e levam o historiador a melhor entender as épocas que está estudando. netos e netas em função do trabalho dos pais. indubitavelmente os sentimentos atravessam a alma do ser humano. . morador local. longe das mazelas da urbanização dos grandes centros. Ou há? Se houver. como poderá ser interpretado? A não ser que conheçamos uma outra forma de interpretação e percepção. Além disso. No sertão do Ribeirão do Peri. o conhecimento agrícola e medicinal passado pela tradição oral em função dos seus antepassados soma-se a toda gama dos outros conhecimentos adquiridos pelas tradições. encontra-se sempre a família prestativa. procurar entender determinados padrões de comportamento e maneiras de sociabilidade. sendo que. de acordo com o Seu João. no Sertão do Ribeirão. O imaginário popular é de grande valia para que possamos pelo menos. onde pode-se encontrar pessoas simples. A primeira situação que entendi como muito relevante foi a questão da valorização da família. para aqueles que têm que se ausentar. vemos que é através de suas crenças. havia em torno de 60 engenhos no Sertão.

. com toda essa atividade econômica e social. O imaginário popular leva e remete a histórias exóticas. continuaram habitando a região. mas mesmo assim. Mas. Imaginávamos que pudesse haver colaboração entre as famílias na época da produção da farinha. como era a vida no Sertão do Ribeirão. como estradas. como também situações em comum.] Com efeito. deixaram de pensar em termos de uma única história ou identidade nacional. pois era assim que eles avisavam da sua morte. engenhos de farinha que se moviam sozinhos à noite quando alguém falecia. levando a ilusão de se chegar a uma verdade do povo.. o que não é de se estranhar. naquela época? Para se ter uma idéia da dificuldade para se ir ao centro da atual Florianópolis.após amplo movimento de transformação dessas ciências que. lembremo-nos de Verena Alberti. em artigo publicado em Fontes Históricas. pois essa é a natureza humana. pois não tinham nenhum tipo de infra-estrutura. transporte público.15 aparece uma especial questão: então. [.[. memórias e identidades em uma sociedade. como bem diz Verena Alberti. os depoimentos dos moradores devem ser entendidos como mais uma fonte. o que nos fez bem entender o grande trabalho de Franklin Cascaes.... mas independentemente de trabalhos coletivos. mas não.. lobisomens e uma série de histórias intrigantes. Existiam festas religiosas e populares. era uma situação difícil. a fonte oral. algumas das práticas da chamada História oral militante levaram a equívocos que se convém evitar. O primeiro deles consiste em considerar que o relato que resulta da entrevista da História oral já é a própria história..] Essa circunstância leva contudo. p. saíam às 5 horas da amanhã para poder retornar à noite. com o tempo. graças ao levantamento do testemunho oral. para reconhecer a existência de múltiplas histórias. cada família tinha o seu engenho de farinha e por isso eles tratavam de desempenhar bem sua função. pelo que pudemos ouvir. Em relação à vivência de grupos. a uma curiosa conclusão: à medida que a ênfase sobre a História “de baixo” corre o risco de acabar reforçando ainda que de modo indireto o preconceito em relação a eles: pois eles não são capazes de deixar relatos escritos sobre si mesmos.158: . O segundo é pensar na História Oral como o História vista “de baixo. porque cada pessoa vê as coisas sob determinada ótica e acontecem muitas contradições em função dos relatos. . Mas também identificamos conflitos entre as famílias da região.” [. que deverá se incorporar a uma gama de fontes que ajudarão na determinada interpretação do historiador. Eles contam sobre bruxas. Eles andavam a pé até o Ribeirão da Ilha e aí pegavam um ônibus..] É muito interessante o processo das oitivas dos cidadãos.

fazendo parte de um processo onde existem outros protagonistas. Assim. pois cada época tem as suas características próprias. Anulando as amarras do conceito de autoria. em (Re)introduzindo a História Oral no Brasil . mas é manipulada no sentido de força de trabalho. pode-se entender que é necessário apresentar muitos relatos de cidadãos habitantes de um determinado lugar. mas principalmente as pessoas que não têm muita aceitação no sistema capitalista atual. Por isso a recuperação da capacidade narrativa. que a boa História Oral rompe com a tradição de superadas práticas de áreas que tratavam o depoente como objeto.” (MEIHY. Já na década de 1930 Walter Benjamin em “O Narrador ” identificava o ser humano moderno como alguém fragmentado silenciado e prestes a perder a capacidade narrativa. È por isso. seria um desafio acadêmico importante. no indivíduo e através deste a sociedade. pois a questão da identidade cultural passa pelo local onde se está. a sabedoria se alcança com o passar do tempo e esse processo é fundamental. Apresenta-se agora o conceito de colaborador. há uma valorização da sociedade local. no sentido de que ganham notoriedade velhos e novos protagonistas. 1996) . É evidente que a juventude é parte fundamental em nossa vida e é maravilhosa. como informante. e os bairros são as unidades que determinam estas peculiaridades. Para nós. mudando a função da cultura acadêmica. no processo da História oral reavivam-se memórias e retorna-se a um momento em que a vida seguia por outros rumos. Com o projeto “Memória de Bairros”. A força da juventude é imprescindível. para que se possa elaborar uma visão a respeito de uma possível realidade que existe num determinado tempo e lugar. Mais do que isso. um sistema que só enaltece os jovens. mas deve ser entendida dentro de um espectro mais abrangente. como ator. delegando papéis inéditos que transformam o direito exclusivo da análise e propõe ao diretor do projeto a noção de mediador de uma forma de experiência social. Por isso nos identificamos com o projeto e adaptamos o nosso trabalho em função dele. confrontos de idéias. dando sentido a uma nova relação entre quem faz a entrevista e quem presta a narrativa. a História Oral estabelece novas responsabilidades. dados. há inegavelmente uma alteração nas relações locais e a identidade com o tempo vai se modificando. A nossa inserção no projeto “Memória de Bairros” da Casa da Memória de Florianópolis se deu em função da grande relevância do tema. p. por conseqüência do grande fluxo de pessoas de outras regiões que vieram e estão morando na ilha. Entendemos que. seguindo também o ritmo da pós-modernidade. De acordo com José Carlos Sebe Bom Meihy. 51: O documento vivo é um recurso no qual não se limita apenas a buscar informações. de produção pela burguesia. propõe-se a perceber o impacto dos acontecimentos em nível subjetivo.16 Dessa maneira.

esse entendimento. foi visível a insatisfação de todos em relação ao tipo de modelo atual. um desafio acadêmico a recuperação da capacidade narrativa dos cidadãos. as mesmas fórmulas de jornalismo. Todas as pessoas têm esse discurso. Neste caso em questão estamos lidando com pessoas muito modestas que estão bem distantes de processos políticos. Trabalham para sobreviver e administrar suas famílias sem grandes pretensões de crescimento econômico. então todos estão na mesma condição. Daí . é que havia uma equivalência estrutural e econômica em todos os lugares da Ilha de Santa Catarina. ou de barco. fomentada por veículos de comunicação. Em função dessa reflexão. em relação ao silêncio e à perda da capacidade de narrativa. no máximo se presta a ficar repetindo as mazelas e não se permite partir para descobrir as soluções e tentar efetivá-las. também entendemos que a sociedade não discute a possível solução para os problemas. pudemos identificar que em relação à avaliação por parte dos entrevistados da qualidade de vida atual comparada à anterior. Informações de alta relevância são omitidas. Morar no Sertão é sem sombra de dúvida um esforço efetivo de contraposição ao sistema capitalista. Essa questão para nós é de suma importância. de uma forma clara estão se posicionando contra o sistema atual estabelecido. É abdicar de todos os conceitos modernos e pós modernos e ficar fora deste impregnação que vai contaminando milhões de pessoas através de sistemas de comunicação de massa que diariamente repetem as mesmas mensagens. pois como bem acima foi lembrado Walter Benjamin. Mas a narrativa por parte deles é fundamental. Ora isso para mim é uma necessidade extrema. Por isso entendemos que aqueles que preferem morar nesses lugares com poucos recursos tecnológicos e se sentem felizes. E por que é interessante pensar nisso? Vamos fazer o exercício de transposição no tempo: se você tem o transporte feito somente a pé ou a cavalo.17 Achei simplesmente incrível o que foi dito pelo Walter Benjamin no sentido de que é sim. e aqui nos reportamos ao início do século XX. Outro ponto interessante de ser analisado em função da economia da época dos engenhos. para que possamos entender a maneira pelo qual eles interpretam o mundo e como eles se posicionam diante os problemas que são inerentes a todos nós. principalmente quando se tem uma geração dominada por uma ditadura. É visível a questão da perda de valores morais e do aumento da violência.

Não há dúvida. como dizem os mais velhos entrevistados. Fizemos álbuns de família que nos aproximaram de uma outra realidade e que para eles foi muito gratificante pois puderam recordar de momentos que fizeram parte de suas vidas e que têm um significado impensável para nós. Evidentemente não se trata aqui de mostrar uma igualdade preponderante. a princípio. É por isso que no Sertão do Ribeirão havia tantos engenhos. . e conseguimos criar empatia. pois. é porque simplesmente a classe dirigente optou por esse modelo que na época era uma tendência. o nosso trabalho no Sertão foi aceito com muita serenidade. Com isso. com certeza faz. Mas a História não aconteceu desse jeito por que tinha que acontecer. pois é na modernidade e com os transportes atuais que se tem mobilidade. ficar num hotel de 5 estrelas vivendo sob um sistema criado para satisfazer o consumo e conhecer o superficial. suas tradições. Mas eu diria: mobilidade de que? O que é mobilidade? É viajar. As fotografias conseguem remeter o imaginário para uma memória que só quem viveu aquele momento pode saber. os governos resolvem investir mais nas áreas urbanas. Encontrar-se-ão aqueles que irão utilizar a mobilidade moderna para tentar se aproximar de uma realidade que de fato acontece no lugar visitado. E por que era uma tendência? E por que essa tendência foi aceita? Quando se tem poucos recursos financeiros é necessário administrar prioridades e os centros comerciais e administrativos vem em primeiro lugar. pois quando os lugares eram longe “pousavam” na casa de conhecidos e assim se fazia um intercâmbio. antigamente e especialmente nesta época as pessoas circulavam muito mais. o visual? Ora. Ora. outras coisas também se desenvolviam. pois não existem acessos fáceis. imaginem como era a coisa em 1905. tirar fotografias. Assim. o que é fundamental para o bom desenvolvimento das entrevistas. E a vida lá era igual a dos outros lugares. pois se o centro da cidade era o ponto da administração pública. e é isso que com o tempo vai diferenciando os lugares. sua cultura. a pesquisa de História oral se enriquece de uma maneira significativa e se encaminha para a materialização de coisas que. Naquela época havia uma potencial estrutura econômica que era pequena mas relativamente distribuída por toda a ilha. E mais: o século vinte não faz parte da modernidade? Bom. é evidente que as pessoas não são iguais.18 significa que não existe nenhum tipo de preconceito no sentido de ir e conhecer outros lugares e de fazer comércio com eles também. mas se a energia elétrica só chegou no Canto da Lagoa da Conceição em 1977. alguém poderá objetar e entender que esse argumento é inócuo. Pois bem.

desaparecidos história do tema e da gênese da imagem no espaço e no tempo. E esse caminho estará acessível quando entendemos os verdadeiros sentidos das fotos colocadas em questão sob o olhar de pessoas que participaram efetivamente daqueles momentos. sua realidade exterior. De acordo com Vavy Pacheco Borges. criar oportunidades de coleta de acervo documental e incentivar a produção de textos fundamentais sobre a história dos bairros do município de Florianópolis. que . A Casa da Memória com este projeto colabora de uma maneira significativa com a sociedade catarinense. Durante muito tempo a memória foi tratada. a realidade interior da imagem: a primeira realidade. ou até em uma nação.. As demais faces são as que não podemos ver. mais uma vez. mas que podemos intuir: é o outro lado do espelho e do documento: não mais a aparência imóvel ou a existência constatada. No início havia muita crítica quanto às distorções que poderiam advir desses relatos e assim entendia-se que nem sempre era interessante confiar neles.] É através da sensibilidade que podemos chegar ao outro lado da imagem. Hoje já há um consenso de que é preciso ter em mente que há uma multiplicidade de memórias em disputa. O sociólogo Michael Pollak chamou atenção para isso quando observou a existência numa sociedade.[. Falava-se da oposição entre a memória oficial. invisíveis. A memória é essencial a um grupo porque está atrelada à construção de sua identidade. Ela é resultado de um trabalho de seleção e organização do que é importante para o sentimento de unidade.. visível. o trabalho com a História oral pode mostrar como a constituição da memória é objeto da contínua negociação. p. a segunda realidade. A primeira é a mais evidente . passando pela memória dos grupos e pela memória erudita ( dos historiadores ).. Robert Frank seu colega no Institut d’Histoire Du Temp Présent. de memórias coletivas tão numerosas quanto as unidades que compõem a sociedade. e sobretudo.] A imagem fotográfica tem múltiplas faces e realidades. o conteúdo da imagem fotográfica (passível de identificação). a vida das situações e dos homens retratados. na aparência do referente. É exatamente o que está ali. que vai a memória oficial da nação.. enfim. de continuidade. p. Tem como objetivo mapear fontes publicadas em diferentes mídias.] Ao mesmo tempo. de forma polarizada. imóvel no documento. As fotografias têm um papel fundamental neste processo.167: [. propôs uma classificação em quatro tipos. em Fontes Históricas . produzir fontes orais em potencial. o testemunho. a memória subordinada ou a memória dominada. são importantes para se compreender esse mesmo grupo.19 seriam inimagináveis. permanecem ocultas. A História oral pode trazer contribuições muito interessantes. De acordo com Etienne Samain. até a memória pública .40: [. não se explicitam. ou a sociedade como um todo.. isto é. mas também..

São Paulo: SENAC 2005. São Paulo: Xamã.20 comparativamente possamos ter uma compreensão mais abrangente dos fatos que sucederam em determinado período. Manual de História Oral. pois leva-se em consideração a voz de protagonistas que participaram de momentos de muita relevância social. que nem sempre mostra determinada realidade sob diferentes óticas.. Referências ALBERTI.] A memória coletiva passa a ter uma significação fundamental para a História. Etienne. Pois estamos acostumados a conhecer uma história que se preocupa com determinados valores.. aquelas que não somente se preocupam com as pessoas mais brilhantes ou diretamente relacionadas ao poder político e financeiro. Verena.[. O Fotográfico. SAMAIN. 1996. Local de Publicação: São Paulo Editora Contexto. 2006. . José Carlos Sebe Bom (org. incluindo aí a falta de relatos das populações. PINSKY. Carla Bassanezi (org. O trabalho realizado no Sertão do Ribeirão foi muito gratificante para nós que pudemos trocar conhecimentos e também aprender mais sobre a população do nosso país.) Fontes Históricas.) Reintroduzindo a História oral no Brasil. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas. do andamento da vida da sociedade sob outras óticas . 2005 MEIHY.

“no ano de 1797 haviam sido registrados 450 engenhos na Ilha de Santa Catarina. a partir das entrevistas realizadas na comunidade. Já aqueles que não possuíam seu próprio engenho em função do seu trabalho para produzir farinha. criavam diferentes laços. . a farinha de mandioca tornou-se o principal produto de exportação da região. Esse sentido familiar no trabalho e no espaço também é percebido nas narrativas que se referem ao engenho como moradia. De acordo com depoimentos do Seu João dos Santos. A partir da criação de uma consciência do valor do seu patrimônio. visto que.o trabalho com a farinha era de cunho familiar. É importante ressaltar que a subjetividade de cada dono de engenho expressava o comportamento das pessoas que viviam naquele engenho. como cantigas de trabalho e mutirões para produção. da qual a equipe participou. proporcionando-lhes uma consciência histórica. cresce a possibilidade de uma mobilização social para que novos projetos sejam implementados. no Sertão havia em torno de 60 engenhos.” No final da pesquisa foi possível constatar a importância em se valorizar os traços da cultura açoriana presentes nos antigos que. dizem respeito a suas raízes. Número bastante significativo. notou-se que cada família estabelecia determinado tipo de relação com esse espaço. de acordo com o Cecca. mesmo menos vivos nas novas gerações. A importância desse projeto se dá na tentativa de contribuir na conservação do patrimônio imaterial e material da comunidade. somando-se os engenhos de farinha com os de açúcar.21 Considerações Finais A partir da percepção construída na farinhada. Pois apesar do engenho ser um espaço central na vida dos moradores – casavam-se. ao longo do século XIX. No entanto. pois a maioria das famílias possuíam o seu próprio engenho. realizavam-se “festas de domingo” . imaginava-se que no tempo em que os engenhos funcionavam havia um grande movimento social e cultural dentro desse espaço. estando esse diretamente ligado à recomposição de sua identidade.

KOSSOY. Maria de Lourdes. In: SAMAIN. MEIHY. In: MEIHY. São Paulo: SENAC 2005. Etienne. São Paulo: Xamã. Refletindo sobre História Oral: procedimentos e possibilidades. Boris. Alice. Fotografia e Memória. São Paulo: 2005. JANOTTI.Revista do Centro de Ciências da Educação. Editora da USP. SC. . PINSKY.) Reintroduzindo a História oral no Brasil.5. Manual de História Oral. 1996. LANG. Etienne. São Paulo. 1996. Referências ALBERTI. História Oral: muitas dúvidas. Carla Bassanezi (org. José Carlos Sebe Bom. SAMAIN. São Paulo: Editora da USP. Florianópolis. Local de Publicação: São Paulo Editora Contexto.2.) Fontes Históricas. 2005 BATISTA. Percursos . Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas.22 . v. 1996. 2004. O fotográfico. poucas certezas e uma proposta. José Carlos Sebe Bom (org. n. (Re) introduzindo a História Oral no Brasil. Sertão do Peri: um olhar etnográfico. José Carlos Sebe Bom. 2006. O Fotográfico. (Re)introduzindo a História Oral no Brasil. In: MEIHY. Verena. Karina Romariz.

Patrimônio Cultural Docente: Janice Gonçalves Memória do Sertão do Ribeirão a partir dos engenhos e do caminho histórico que liga a Caieira ao Sertão Equipe: Mariana Jucá de Mello Paulo Onésimo Minardi Pereira Ilha de Santa Catarina 2008 .23 Anexo: UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA Centro de Ciências Humanas e da Educação .FAED Departamento de História Disciplina: Prática Curricular .

a disciplina poderá ampliar um trabalho que já vem sendo desenvolvido. centro de documentação que atua na área de conservação. Pretendemos promover a valorização da memória e do patrimônio cultural da comunidade do Sertão do Ribeirão através do recolhimento de histórias com antigos moradores. a partir das memórias de seus moradores. Segundo a Unesco. orientado por Bárbara Giese. nas festas e em manifestações. cultura e meio ambiente. órgão de Prefeitura Municipal. 2 Projeto Crer Sendo no Sertão. pelo menos. As propostas desse projeto foram ao encontro das expectativas que já possuíamos antes de entrar em contato com o campo de estágio. cultural e natural para o Município. por sua vez representa um enorme potencial histórico. Optamos por trabalhar nessa comunidade porque. que tem como objetivo fortalecer a comunidade do Sertão do Ribeirão e Peri através da sua história.em geral perdidos por particulares – relacionados à história de Florianópolis. no sentido de dialogar com ela. Dessa forma. Há muito mais contido nas tradições. esta. “não é só de aspectos físicos que se constitui a cultura de um povo. Está vinculada à Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes. Tem como objetivo mapear fontes publicadas em diferentes mídias. além de uma das integrantes desse projeto já possuir contato com os moradores da região. vinculado à UDESC. fontes orais em potencial. visto que ela faz parte de um projeto de extensão na comunidade2. É um dos principais acervos relativos ao patrimônio imaterial da cidade. criar oportunidades de coleta de acervo documental e incentivar a produção de textos fundamentais sobre a história dos bairros do Município de Florianópolis. nos saberes. inicie um processo que possa trazer resultados mais efetivos para a comunidade. Pois desde o começo queríamos desenvolver um trabalho que. 2004) A instituição possui um projeto chamado "Memória de Bairros" que consiste na pesquisa de aspectos da história dos vários bairros do município. . transmitidos oralmente. recriados coletivamente e modificados ao longo do tempo” (Apud: MUHLHAUS. oferecendo à sociedade novas referências sobre a sua cidade. pesquisa e divulgação de acervos .24 Introdução/ Justificativa Optamos por estagiar na Casa da Memória. construídas desde o início da disciplina. nas línguas.

.] levar os moradores a (re)descobrir novas formas de olhar e apreciar seu lugar. despertar novas vocações e possibilitar oportunidades de trabalho e renda ligados ao turismo. diz que: [. em um artigo sobre interpretação.. pretendemos juntos com os moradores. É tempo de consolidar a prática de interpretação do patrimônio para propiciar o desenvolvimento cultural das comunidades e fortalecer o turismo sustentável.]. no entanto. de forma a desenvolver entre eles atitudes preservacionistas [. 1993) Já que o engenho de farinha de mandioca e o caminho que liga o Sertão à Tapera do Ribeirão servem como importantes referências históricas para a comunidade do Sertão.11) . Esses temas possuem muita proximidade com a História da Ilha de Santa Catarina em geral. Há locais de memória porque não há mais meios de memória" (NORA. pois não possuía estradas e nem energia elétrica. Murta e Albano. iniciou-se um processo de migração para a cidade. (MURTA e ALBANO. que eram o principal mercado de trabalho local. p... A mesma se caracteriza como uma comunidade tradicional repleta de espaços de memória. mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. Pierre Nora no texto “Entre Memória e História”. Depois desse período. com a abertura de estradas e a decadência de práticas agrícolas de subsistência. percebemos que os engenhos possuem muito valor nas suas percepções locais.. analisar ações no uso sustentável desses dois espaços.] a curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Por isso a centralidade desse projeto é promover discussões sobre o que torna esses lugares especiais. Em conversas informais com alguns moradores. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada. como os engenhos e caminhos.25 A comunidade até a década de 1970 vivia basicamente isolada. 2005. porque eles devem ser preservados e como resignificá-los no tempo presente. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. preservação e turismo escrevem que: A prática interpretativa deve [..

(FREIRE e PEREIRA. visto que a localidade foi tombada como paisagem cultural pelo Plano Diretor do Parque Municipal da lagoa do Peri em 1981. que somadas a ausência de políticas públicas de gestão do Parque. do desenraizamento e do esquecimento fácil. a uma verdadeira eliminação do passado. não há como negar.]. Embora tal discussão não seja o objetivo desse trabalho. Alguns estudos vêm sendo feito para se pensar qual denominação melhor satisfaz as diferentes realidades vividas por moradores do Parque. a um excesso de apelos históricos. O processo é. Assiste-se de um lado. originando a necessidade de indivíduos e coletividades retormarem seu passado. essa necessidade de história não vem sendo levada em consideração. Novas imposições foram colocadas para os moradores na época da criação do Parque. 2005) A rapidez do processo de mudança. No final do ano passado. tendo em vista a sua constante presença nas narrativas dos moradores. trouxe o sentimento de perda do sentido do passado. Mas. (MURTA e ALBANO. meio ambiente e patrimônio. a interpretação surge como um novo campo de investigação do historiador.. a proibição de práticas agrícolas tradicionais. seja na interação com o visitante. e. paradoxal. tanto no discurso comum quanto no discurso público. como por exemplo. é importante ressaltar que esse processo é da comunidade. com ênfase num presente sem raízes e sem futuro. a comunidade precisa conhecer a si mesma para comunicar a importância do seu patrimônio. . geraram diversos conflitos entre entidades públicas e a população local. seja na sensibilização dos órgãos públicos e privados que trabalham com turismo. De outro. desde então. No entanto. portanto.. Essa denominação não permite a presença de moradores na área. Atualmente reuniões com o Conselho Consultivo do Parque e a Floram vêm sendo realizadas para tentar revogar essa lei. pois são os moradores que possuem uma sabedoria sobre o local. em 2007. 2005) No caso do Sertão. o parque foi tombado por um projeto de lei complementar como “Parque Natural”. na busca de elementos que permitam uma recomposição de sua identidade [. não há nenhuma política publica na conservação dos patrimônios materiais e muito menos imateriais.26 Nesse contexto. é impossível ignorá-la.

E .Elaborar um vídeo sobre a memória do Sertão do Ribeirão. por meio de oficinas com fotografias antigas. “A História Oral permite apreender as minúsculas atitudes da vida cotidiana que em grande parte escapam às investigações clássicas. registros coletados nas oficinas de interpretação. . . A oralidade.Realizar entrevistas com moradores antigos do Sertão. trazer esse conflito à luz de toda sociedade. além de ter sido o ponto de partida desse trabalho será a principal metodologia utilizada para repensar a história da comunidade através de entrevistas de História Oral temática. fotografias levantadas ou registradas pela equipe.27 É nossa intenção. além de valorizar o imaginário coletivo do Sertão que envolve os engenhos e caminhos da região. com base nos depoimentos coletados. Objetivos Geral Valorizar a história e a memória do Sertão do Ribeirão através das representações construídas pelo imaginário local em relação ao caminho que liga o Sertão do Ribeirão à Tapera do Ribeirão e os engenhos de farinha ali existentes. motivando a própria comunidade a participar deste processo.Realizar em um dos engenhos de farinha uma exposição com os álbuns de memória produzidos nas oficinas de fotografia. registradas em vídeo. Específicos . Metodologia A idéia de realizar esse projeto nasceu de relatos orais de alguns moradores da comunidade.Mobilizar os moradores em torno da importância do engenho e do caminho na história da vida cotidiana do bairro. .

A partir desse trabalho. Essa oficina será realizada na casa de uma das moradoras mais antigas do Sertão. com a História Oral. objetivamos reavivar as memórias e levantar. Pois estará sendo apresentada por quem a viveu. 2005) Para a elaboração das entrevistas faremos um levantamento bibliográfico de autores sugeridos pela orientadora Janice Gonçalves e usaremos o roteiro de metodologia para História Oral elaborado pela professora Eliane Veiga. buscaremos contatar a equipe para possíveis orientações para ministrar a oficina. para os alunos da disciplina de Prática Curricular de Patrimônio Cultural em 2008/01. dos moradores mais antigos. além do Museu Universitário da UFSC. Paraná. Para mobilizá-los em torno do tema . com o intuito de compartilhar o trabalho . coordenadora do projeto “Memória de Bairros”. de um projeto do Instituto de Memória e Imagens. apresentam para a comunidade.” (FREIRE e PEREIRA. com duração de 3 horas. promoveremos uma oficina em que os participantes deverão criar um álbum que conte a sua história. através da disponibilização desse material. Freire e Pereira enfatizam que.28 são precisamente esses pequenos fatos da vida cotidiana que constituem o essencial da trama social. através de imagens do engenho e do caminho. Pretendemos. através de histórias pessoais as diversas representações que esses lugares de memória. da Casa da Memória. por Tati Costa e Daniel Choma. dessa forma. No fim da oficina de fotos. contribuir para o acervo do projeto “Memória de Bairro” da Casa da Memória. mais viva. organizaremos junto aos moradores uma exposição com café colonial em um dos engenhos. abrem-se possibilidades de novos pontos de vista sobre a mesma realidade vivida e a oportunidade daqueles que não dominam a escrita contar sua própria história. a fim de tornar essa memória conhecida através da produção de um vídeo/documentário com duração de no máximo 15 minutos. 2005) Registraremos os relatos orais. tornando essa. com o material recolhido. Investigaremos documentos iconográficos no acervo do Ecomuseu localizado no Ribeirão. o caminho e o engenho. (FREIRE e PEREIRA. Por isso. pretendemos analisar as múltiplas relações e pontes que são construídas a partir desse tema e a história local. A idéia dessa oficina surgiu da apresentação. Dessa forma. Câmara Clara realizado em Londrina. e incentivaremos os moradores a recolherem fotos antigas no bairro e na vizinhança.

pretendemos apresentar o vídeo.Freguesia do Ribeirão. relatórios sócio ambientais) Documentos Iconográfico Jornais Livros pertinentes ao tema do projeto Cronograma MAIO JUNHO AGOSTO SETEMBRO OUTUBRO NOVEMBRO Visita ao campo de estágio Casa da Memória Levantamento bibliográfico Elaboração do projeto Produção imagens da Farinhada Pesquisa Iconográfica Entrevistas orais Oficina de interpretação e com fotos antigas Edição de vídeo Exposição no engenho e na Faed dos trabalhos realizados na oficina de fotos Elaboração da apresentação dos X X X X X X X X X X X X X X . Armação e Caieira. No final do trabalho. para darmos visibilidade à memória da comunidade. Se possível. produzido ao longo do projeto. levaremos os trabalhos para uma exposição na Faed/ Udesc e na Casa da Memória. no Engenho. e nas escolas públicas das proximidades . Fontes: • • • • • Relatos orais Documentos oficiais (Plano Diretor do Parque.29 artístico e as fotos registradas durante o projeto com toda a comunidade.

Florianópolis. Memória Turismo Cultural. Adriane. FREIRE e PEREIRA. Revista Nossa História. Roteiro/metodologia para História Oral – coleta de depoimentos. 2003. Celina. 62-67. PRINS. 2005. Stela Maris. Joinville: Editora Univille. Interpretar o patrimônio: um exercício do olhar. Histórias de Engenho. Stela Maris. SCHROEDER. Eliane. VEIGA. 2005. A escrita da história: novas perspectivas. p. Florianópolis. Ilha de Santa Catarina. SILVA. Sertão do Peri: um olhar etnográfico. Ano 2 / n13 novembro de 2004. 2007. Entre memória e história: a problemática dos lugares. MURTA.121-130. História Oral. Carla. . Celina. Projeto História. Belo Horizonte: Ed. 2007. Para além da pedra e cal.UDESC. ALBANO. In: __ (orgs. da UFMG. Arqueologia dos engenhos da ilha de Santa Catarina. Franklin Cascaes / Casa da Memória 2006. 1993.09 . Fundação Cultural de Florianópolis. Peter (org). Belo Horizonte: Ed. Editora Habilis. Pierre. São Paulo. Preservação e turismo: uma introdução. MUHLHAUS. In: BURKE.30 resultados do projeto em Power Point Apresentação do video nas escolas Elaboração do relatório final e dos ensaios individuais que o comporão Apresentação do trabalho no seminário de estágios da UDESC X X X Referências: BATISTA. Osvaldo Paulino da Silva. 1992. da UFMG. p.). NORA.12. Gwyn. São Paulo: Editora da Unesp. Interpretação. Interpretar o patrimônio: um exercício do olhar. p. História oral. In: MURTA. ALBANO. Karina Romariz.