GUEST POST: COMO O MACHISMO LIMITA A VIDA DE UM HOMEM

Eu cresci nos tempos da Guerra Fria, e o que mais ouvia era propaganda anticomunista. O melhor exemplo que o comunismo era prejudicial à sociedade é que as pessoas não podiam cumprir seus sonhos. Era o estado que determinava sua profissão e até mesmo seus hobbies. Ou seja, a pessoa não tinha direito algum como indivíduo. Pois é, este email que recebi do Rubens e pedi pra transformar em guest post (e que dialoga bastante com o post que publiquei no Dia Internacional da Mulher) me lembrou muito da propaganda que ouvi durante tantos anos. Será que são apenas os estados totalitários que limitam nossa individualidade? Essa é a única ditadura que conhecemos? Ou há outras que nos impedem de sermos o que queremos ser e de agirmos como queremos agir, em nome de uma suposta masculinidade que não passa de uma construção social? O guest post do Rubens é muito ilustrativo. Conheci seu blog há um ano. Tenho entrado nele desde então quase todo dia, adoro seus textos, você fala com discernimento sobre assuntos delicados, sempre ilustrando seus argumentos de forma clara. Vi neste espaço que há muitas pessoas que compartilham com alguns pensamentos meus e percebi também que posso reconsiderar outros tantos e melhorá-los.Sou homem, hétero, talvez eu não faça parte do “seleto” grupo “padrão” por ser filho de negra com nordestino... Ah, se não fosse isso, eu seria perfeito! (ironia, se me permite). Estou aqui para contar para você como o machismo atrapalha a minha vida. Acho que seria importante um relato vindo de um homem, mostrando alguns exemplos de como esse tipo de mentalidade atrasada não apenas prejudica as mulheres como nós homens também! O machismo começou a afetar a minha vida desde criança. Quando eu era pequeno gostava de brincar com as meninas de pique esconde, lenço atrás, essas brincadeiras de roda e cantigas e tudo mais. Não ligava muito para futebol ou “lutinha”, não gostava de brincadeira de “meninos” e era visto como um “bichinha”. Eu não entendia muito bem essa coisa de ser “viadinho”; eu era apenas uma criança, como teria noção sobre opções sexuais? Nem tinha ao menos idéia de como esses termos eram pejorativos.Apesar de ficar irritado na hora eu deixava para lá, mas um episódio com a minha mãe me magoou bastante na minha infância. Minha prima passava o final de semana na nossa casa e, como eu gostava de brincar com meninas, fazia companhia para ela numa boa nas suas brincadeiras de “casinha”. Éramos bem organizados, eu combinava com ela assim: eu limpava a casa e ela fazia a comida, botávamos a bebê para dormir antes do meio dia, então íamos passear de carro à tarde, já que os dois trabalhando juntos terminaríamos a parte chata mais rápido. Um belo dia minha mãe me pega com a boneca no colo. Horrorizada, minha mãe me pergunta o que eu tô fazendo roubando a boneca da minha prima. Eu na minha inocência respondi que não tava roubando, tava botando ela para dormir. Minha mãe responde categoricamente que isso não é coisa de menino, que isso era tarefa da minha prima, eu deveria estar brincando de bolinha de gude ou de pipa como os outros meninos “normais” faziam. Depois disso, passei três meses numa psicóloga. Sim, minha mãe pensou que eu era doente da cabeça; a médica constatou que eu era “normal”, que não era “gay”, apenas tinha uma mente “afeminada”... Dá para entender um negócio desses? Eu

odeio essas classificações de gêneros, menino usa azul, menina usa rosa, menino gosta de carro, menina gosta de sapatos e por aí vai, por que não podemos simplesmente gostarmos daquilo que nos dá na telha? Por que tenho que seguir uma cartela de possibilidades limitadas por um gênero? Onde está minha individualidade? Doeu muito para mim saber que minha mãe achava que eu era “esquisito”. Eu entrei na pré-adolescência, deixei as brincadeiras de casinha de lado, passei a jogar videogame e andar de bicicleta, a me relacionar mais com meninos, mas nem por isso deixei de fazer atividades que as pessoas consideravam coisa de “viado”. Nessa fase da vida fui estigmatizado porque me interessei a fazer artesanato com jornais velhos e garrafas pet (sempre tive a mania de aproveitar tudo que posso). O fim da picada para os meus parentes foi quando resolvi que faria um curso para aprender a lidar com biscuit, fazer ponto e cruz e aulas de pintura. Eu achava aqueles panos de prato com desenhos e bordados o máximo e queria fazer os meus, já que eu sabia desenhar... Mas fui impedido, minha “doença” estava atacando novamente, não pude fazer os cursos que eu gostaria. Simplesmente me negaram porque isso ia contra a convenção de ser “macho”. Só agora depois de adulto é que eu obtive autonomia para essas “atividades de mulher”.Outra vez minha individualidade foi transgredida em nome de uma “preocupação” que tinham comigo. Era frustrante, eu não entendia a razão disso tudo, eu só queria ser eu mesmo e fazer as coisas que eu gostava, se outros homens não davam atenção que culpa eu tenho de querer? No segundo ano do ensino médio conheci um cara gay assumido. Nossas personalidades bateram muito, rapidamente nos tornamos grandes amigos, nunca duvidei da minha condição de hetero e ele sempre me respeitou, nunca me cantou, e se eu fosse homossexual, qual seria o problema, né? Mas as pessoas não pensam assim, e logo viramos motivo de chacota... Ouvíamos buchichos, comentários maldosos de todas as partes, alunos, professores, funcionários da escola, enfim todos estavam criando um caso que não existia e nos julgando por isso! Como se gostar de alguém fosse crime, só por que essa pessoa tem a mesma genitália que a sua... Os anos da escola passaram, fui para a faculdade, conheci outras pessoas homossexuais, se tornaram boas amigas e eu aprendi muito com elas. Pelo menos isso minha família não critica mais tanto hoje em dia, se faz é de forma velada e para mim é até melhor que seja assim, pois estou meio cansado de ter que defender uma conduta que não é errada!Mas voltando um pouco, agora vou contar-lhe um caso complicado que tive na adolescência que me rendeu outras situações absurdas. Eu tinha uma namorada que era muito independente, ela fazia as coisas que ela gostava, dizia tudo que pensava na minha cara, até com certa sinceridade exagerada... Sou meio chato com as palavras, mas era justamente por isso que eu a amava, era tão dona de si! Eu realmente a admirava por isso. Em roda de amigos às vezes eu falava uma bobagem e ela me repreendia. Isso era o fim, todos meus amigos (homens) me desafiavam, “Ih, cala a boca dela, vai deixar barato?”. Eu ria, concordava com ela quando achava que tinha que ser e dizia para eles que eu não mandava na boca de ninguém. Isso era visto como sinal de “cornice” ou de “cintura frouxa”, como alguns diziam. Outra coisa que incomodava até mesmo a mãe da garota era o fato de ela sair produzida para a escola ou o estágio. Minha ex-sogra chegou a me cobrar uma atitude “máscula” e dizer para a filha dela não sair com roupas muito decotadas ou calças mais coladas. Quando eu respondi que eu não era o pai da menina, e que ela tinha todo o

direito de sair assim quando bem achasse e que ela tinha o direito de se achar bonita e gostosa, eu quase levei uma peixeira no bucho! Recebi ainda o apelido de “tanga frouxa”... Imagina deixar a mulher decidir por si só para onde vai, quando vai e com que roupa quiser? Absurdo! Cadê o macho repressor? Digo, protetor... não é opressão, é proteção, né? Eu ainda tive que argumentar com o pai dela pedindo para ele fazer um exercício de imaginação: as mulheres árabes não andam de burca, aquela vestimenta que cobre quase tudo? Essas mesmas mulheres não deixam de passar por situações degradantes de intimidação! E por muito menos, se uma delas deixa o tornozelo à mostra ou o pulso, já viu, né? Disse ainda ao pai da menina que para o homem basta ser proibido para ser cobiçado, não importa muito o quê. Sendo assim mostrar um pouco dos seios ou uma parte do antebraço dava na mesma. Também tive problemas por "deixar" ela ir na mesma condução que o exnamorado dela todo dia de manhã. Ela nunca escondeu que tinha uma quedinha por ele sexualmente falando. Eu fiquei tranquilo, disse a ela que eu confiava no nosso relacionamento e que eu estava sempre disposto a satisfazê-la. Caso ela procurasse outra pessoa para isso, poderia fazê-lo sem problemas, era só me avisar que terminaríamos o namoro numa boa. Eu era fiel à ela, no nosso trato particular isso prescindia que ela também fosse, mas qualquer um dos lados podia quebrar este vínculo desde que achasse conveniente, se preocupando apenas em não “enrolar” o outro. Mas fui tachado de corno manso, boné de galho e outras coisitas mais. Foi difícil ignorar, te confesso, não posso impedir uma pessoa por sentir tesão por outra, ela está namorando, é diferente de estar morta! Manter um relacionamento onde a menina tinha sua liberdade conservada era um “problema”. No fim essa garota passou no vestibular para uma federal e foi morar em outra cidade. Novamente fui cobrado pela minha ex-sogra a tomar uma “atitude de homem” e tentar impedir a mocinha de “abandonar” a família e o futuro noivo? Dono? Eu desejei a ela toda a sorte do mundo e disse também brincando para ela não pensar em namoro e aproveitar os tempos de república (será que fui idiota? Às vezes penso que sim... penso às vezes que esse ‘conselho’ foi um tanto machista por uma certa ótica). Quase fui escalpelado pela família (as duas famílias, a minha e a dela), escapei por pouco. O texto está ficando maior que os seus, Lola. Vou resumir o final então: Cresci, hoje sou adulto, conservo ainda algumas doses de “troglodismo”, por exemplo: acho que cantar uma mulher na rua é diferente de flertar ou paquerar, a primeira situação é uma invasão, uma ofensa; a segunda é uma tentativa de conseguir uma namorada. Mas em balada me dou a permissão de chegar nas garotas e dizer coisas mais toscas.. Quase ao estilo “pedreiro”. Penso eu: “tá na balada, tá disponível e não quer nada sério”! Eu sei que esse pensamento está errado e vou apagar ele da minha cabeça, prometo. Também me pego às vezes dando risada de piadinhas machistas. Sei que a omissão é outro fator que ajuda a manutenção dessa forma tão medieval de se viver. Se eu vejo algum amigo comentando algo machista ou agindo de forma ruim com alguma mulher, eu procuro dizer que ele está praticando uma atitude machista (aprendi no seu blog que a melhor maneira não é acusar a pessoa de ser machista). Claro que eu passo a ser o alvo das pérolas e impropérios, porém não me coloco como vítima, de forma alguma, prefiro ajudar combatendo este mal dia a dia.

Lola, não penso em casar e/ou ter filhos, mas se algum dia eu ajudar a botar alguma criança no mundo (sou apenas coadjuvante, quem passa por todo o processo tendo inclusive seu corpo modificado é a mulher), quero que ele ou ela venha a nascer num contexto muito melhor que o meu! Só poderei ter a certeza disso combatendo meus próprios pensamentos tortos e os das pessoas ao meu redor. Obrigado por publicar meu desabafo! Fonte:http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2011/03/guest-post-como-omachismo-limita-vida.html

MASCULINIDADE – REPRESENTAÇÃO SOCIAL, VIOLÊNCIA E PODER
Masculinidade diz respeito a um conceito que se refere ao conjunto de práticas e ações que são legitimamente reconhecidas e aceitas no universo social como um padrão de comportamento que afirma e realiza um ideal de “masculino”, que representa o “homem” no imaginário cultural coletivo. Pensar essa masculinidade se tornou um interesse muito grande de diversos estudiosos e curiosos de gênero, na medida em que o sexo masculino seria, no contexto de nossa sociedade ocidental-moderna-sexista, uma síntese histórica dessa construção. É através da força masculina, traduzida pelo pensamento de virilidade, que se admite o monopólio do uso da força evocado pelo papel social do homem como mantenedor desse status quo, desse modo, o perfil masculino almejado traduz-se com a consolidação do ethos guerreiro que se reflete nessa aptidão “natural” dos meninos para o combate, a luta e as diversas formas de violência – simbólica, psicológica ou física. R. W. Connel sugere a existência de uma masculinidade hegemônica que se refere a uma espécie de “organização social da masculinidade”. Nesse sentido, o autor celebra uma construção de um padrão que se impõe como dominante num contexto onde o mesmo exerce relações de poder intrínsecas ao seu status, que está calcado no aspecto de gênero. Connel admite que essa construção de gênero é dinâmica e plural, sendo, desse modo, portadora de relações históricas e de contradições internas que abrangem o feminino e o masculino. Entretanto, quando o autor concebe a existência de um padrão hegemônico há que pontuar como essas condutas são estabelecidas e transmitidas através da sociedade. É importante salientar, contudo, um tipo de fenômeno epidemiológico que atinge o público masculino: as mortes por causas violentas. A violência, nesse caso, é uma realidade que mata mais homens do qualquer doença que conheçamos e suas razões têm motivações sociais, históricas e econômicas. Entender o porquê de essas vítimas serem homens é revelar uma constante em nossa história. O processo de formação identitária revela uma ansiedade pela necessidade de adequar-se, o que compele os indivíduos a compor rituais, a escolher seus símbolos. Alba Zaluar destaca que dois dos grandes ícones do contexto simbólico masculino infantil são: armas de fogo e automóveis, sendo que assassinatos e acidentes estão entre as principais causa mortis desse público. A autora não pretende com isto estabelecer relações determinísticas, são tentativas de interpretar a realidade em

função de alguns valores, destacando que esses são influenciados por classe social, etnia, sexo e gênero. A concepção acerca da masculinidade não é uma condição natural, nem fixa, nem universal – existem várias percepções que convivem na mesma unidade cultural, resultado de complexas elaborações ideológicas e políticas. O problema da violência ser “admitida” e “naturalizada” como inerente ao processo de sociabilidade masculina é que essa perspectiva é permissiva com representações de violência como forma de imposição de poder/força. Aceitar a conduta violenta como prática cotidiana, típica, desejável e coerente é como incorporar um traço psicológico de controle e dominação que desenvolve valores torpes de se conceber o social de forma hierarquizada e segregacionista. *Luciana Prazeres é antropóloga pela Universidade Federal da Bahia e aluna-a-oficial da Polícia Militar da Bahia. Fonte:http://abordagempolicial.com/2012/01/masculinidade-representacaosocial-violencia-e-poder/

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