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A posição da Gestalt.

Admite-se que "sentir e perceber são dois tipos de respostas que permitem a interação entre o homem e o ambiente"*131. A percepção é uma tomada de consciência das sensações e estas são tipos simples de experiências, como já foi dito. Nas percepções há, então, análises, associações e sínteses. Razão pela qual o estudo da percepção requer primeiramente o conhecimento da estrutura e funções dos órgãos de sentido e do sistema nervoso central, porque, se entendermos que a per cepção é sempre uma interpretação pessoal de um acontecimento, temos que entender como esse acontecimento chega aos centros nervosos superiores. Essa é a posição de quem pretende estudar o comportamento e a experiência do indivíduo. Há psicólogos, entretanto, que negam o valor das sensações e chegam a afirmar a impossibilidade de conhecermos a sensação, posto que sensação e percepção formam um todo, uma estrutura irredutível a partes. De nada nos adiantaria estudar as sensações. Em suas críticas às concepções subjetivistas do fisiólogo Sherrington, feitas em 19/9/1934, Pavlov chamou a atenção de seus discípulos para as palavras de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo". A Psicologia não pode dizer tudo sobre as atividades de um indivíduo, porque muito há ainda a se estudar. Mas, daí a dizer-se que não podemos conhecer as sensações e percepções separadamente. . . O cientista tem que dar atenção ao objeto de seu estudo. Tem que analisá-lo. Os gestaltistas não dão atenção alguma às sensações. J. Philippe, em 1920, escreveu um artigo a respeito da impossibilidade de encontrarmos uma sensação pura ("À Ia recherche d'une sensation tactile pure")<14>. Para ele, por exemplo, não há uma sensação pura de liso, porque quando penso em liso é por oposição a rugoso. Isso conduz estudiosos como Guillaume a dizerem que "os psicólogos serão levados a abandonar o conceito de sensação"(15). Para os gestaltistas, devemos estudar os objetos pela sua forma, dado que matéria e forma não se dissociam num ser. Uma melodia é mais que a soma de suas notas. Ela tem forma. Descrever essa forma é mais importante que tentar decompô-la, analisá-la, o que iria nos dar uma visão errada da melodia. Opõe-se a essa tese a escola Comportamentista, alegando que jamais se deixou de considerar que um todo é mais que a soma das partes, mas que as partes têm papel

relevante num todo, pois sem elas não existe o todo. Tal é também a posição dos reflexologistas, que têm por método a observação e a arfolise. O assunto, passa dessa forma, do campo das discussões psicológicas para as ontológicas (acerca da natureza do ser). Os gestaltistas (ou configuracionistas) nã<? concordam com a opinião dos comportamentistas de que "a percepção de uma rosa é um complexo de estímulos associados, visuais, táteis, olfativos mais as experiências pessoais e emocionais"'10' Os elementos sensoriais não são unidades que possam ser trabalhadas, estudadas. E por quê? Porque existem tendências naturais que determinam a organização dos estímulos no cérebro, integrando-os de tal forma que não adianta estudarmos o processo da percepção pela decomposição, pela análise. Portanto, a Gestalt opõe-se à Psicologia Estruturalista, de Titchener, que tinha por objeto a consciência e por método a análise dos elementos dessa consciência; opõe-se ao Comportamentismo de Watson, porque não admite que um segmento de comportamento possa ser analisado; e opõe-se, por esse mesmo motivo, à Reflexologia pavloviana. No entanto, todos esses psicólogos admitiram que as percepções são experiências totais diferentes das partes. Mas as experiências dependem dos elementos que as constituem. O mérito dessa descoberta, para os comportamentistas, não pertence a Ehrenfels, psicólogo vienense, e sim aos filósofos antigos. Os químicos antigos estavam cansados de saber que dois elementos combinados formam um terceiro diferente dos dois. Em Filosofia, qualquer principiante sabe que os velhos filósofos entendiam muito bem ser a síntese algo mais que uma tese e uma antítese. Mas ninguém pode negar que sem uma tese e uma antítese possa existir uma síntese. Em suma, os gestaltistas, com relação à percepção, afirmam: l — a distinção entre figura e fundo decorre de um fator inato; 2 — a percepção é sempre global e sempre há uma figura e um fundo; 3 — o estado psíquico representa uma estrutura sincrética (configuração, forma, estrutura); 4 -uma estrutura, uma forma, não pode ser decomposta em elementos e deve ser apenas descrita em termos de estrutura, porque uma parte num conjunto é uma coisa e isolada é outra<17). Tendências para perceber. Não só os gestaltistas, como a maior parte dos psicólogos, acreditam na existência de uma queda, de uma tendência (natural para uns e adquirida para outros) para percebermos conjuntos. E quais seriam essas tendências?