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O País Económico // Sexta-feira 09 de Agosto de 2013

Grandes projectos estreitam rela

Os gigantes multinacionais preocupam-se cada vez mais em criar valor para as comunidades onde montam operações
Moçambique é um dos países africanos que conseguiu captar mais Investimento Directo Estrangeiro em 2012

A cidade de Pemba acolhe, na próxima semana, um evento de “consciencialização” para o empresariado local promovido pela Anadarko, o gigante norte-americano pioneiro na exploração de gás na bacia do Rovuma. O programa, que inclui discussões temáticas e momentos de networking, tem por objectivo explicar em que consiste o projecto AMA1 (Anadarko Moçambique Área 1), além de expor aos pequenos e médios empresários os vários requisitos para terem acesso aos concursos lançados pela empresa em diferentes sectores, como construção civil ou catering, entre outros. “Este ano, a Anadarko está a trabalhar no

sentido de estabelecer fundações sólidas para implementar o programa de desenvolvimento de fornecedores moçambicanos, em parceria com outras empresas” , afirmou fonte oficial da empresa. Este é mais um passo no cortejo que os grandes investimentos têm feito às pequenas e médias empresas nacionais, no sentido de enviar um sinal claro ao país e aos próprios stakeholders de que estão atentos à necessidade de criar valor para as comunidades locais. As pequenas e médias empresas representam, neste contexto, um ponto de entrada estratégico para que as grandes minerado-

ras, petrolíferas ou siderurgias mundiais possam criar uma relação sustentável com as comunidades envolventes. Segundo o Ministério da Planificação, os negócios entre as pequenas e médias empresas moçambicanas e os grandes projectos passaram de 45 milhões de dólares por mês em 2002 para 350 milhões de dólares em 2011, de acordo com o Ministério da Planificação e Desenvolvimento. Por outro lado, o número de pequenas e médias empresas moçambicanas envolvidas no fornecimento de bens e serviços aos grandes projectos situava-se, no final de 2011, em 470.

Deste modo, à medida que Moçambique se torna cada vez mais apetecível para os investidores estrangeiros, assim cresce o leque de oportunidades para que todos possam participar no crescimento acentuado que o país atravessa. Outro caso que tem sido apontado como uma boa prática é a instalação de um Centro de Negócios pela Rio Tinto, na cidade de Tete, com o objectivo de “garantir que Pequenas e Médias Empresas locais beneficiem cada vez mais das oportunidades de negócio proporcionadas pela companhia” . Em Junho passado, a multinacional carbonífera lançou a primeira de uma série

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ações com empresariado local 470
Número de PME moçambicanas fornecedoras dos grandes projectos (2011)
milhões de dólares

250 5,7

Volume de compras locais da Rio Tinto (2012)

mento acentuado no Investimento Directo Estrangeiro (IDE) nos últimos anos. Em 2012, Moçambique terá sido um dos 10 países africanos que mais IDE captou, tendo praticamente duplicado de 2,7 mil milhões para 5,2 mil milhões de dólares entre 2011 e 2012, segundo o relatório anual do banco português BPI. “A capacidade de atracção de investimento estrangeiro e a exploração de recursos naturais têm sido determinantes para elevar o potencial de crescimento da economia” , refere o BPI. No entanto, o aumento do IDE – só por si – não resulta necessariamente num aumento de facturação para as empresas nacionais. “A criação de oportunidades é um efeito intrínseco ao aumento do IDE, mas elas devem ser conquistadas com trabalho” , salienta Marcelo Mosse, director da ACIS-Associação de Comércio e Indústria (v. caixa “Pergunta&Resposta” , pág. 10). “As novas oportunidades só podem ser agarradas se as nossas PME tiverem qualidade e forem competitivas” .

Inovação tecnológica abre janela de oportunidades
As tecnologias de informação e comunicação têm sido potenciadas como ferramentas importantes para a criação de oportunidades e promoção do acesso à informação para as pequenas e médias empresas, contribuindo para um melhor ambiente de negócios através de uma maior transparência. Para além das bases de dados que empresas como a Anadarko ou Rio Tinto possuem, onde divulgam informação sobre concursos para PME registadas na sua rede, existem instrumentos de acesso mais alargado como é o caso do “portal do fornecedor” , lançado este ano pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB).Alojado num site de internet, o portal foi concebido como “um espaço de negócios onde a HCB publicará todas as suas necessidades de aquisição, permitindo que as pequenas e médias empresas moçambicanas participem das oportunidades oferecidas, contribuindo assim para o desenvolvimento do empresariado nacional” . Outro exemplo recente de inovação tecnológica é a plataforma digital de aquisições InBid, desenvolvida pela ACIS, em parceria com a Pandora Box e a ITMZ-Serviços e Soluções, no sentido de contribuir para um maior acesso à informação. O InBid vai “servir de elo de ligação entre compradores e fornecedores, e vai produzir informação sobre toda a cadeia de fornecimento, contribuindo para o aprofundamento da industrialização, a criação de postos de trabalho, a estabilidade social e o desenvolvimento económico” , explicou Mosse. n

mil milhões de dólares

Investimento Directo Estrangeiro em Moçambique (2012)

350 milhões 45 milhões

2002

2011

As pequenas e médias empresas representam um ponto de entrada estratégico para que as grandes multinacionais possam criar uma relação sustentável com as comunidades envolventes

Legenda: Volume de negócios mensal entre as PME moçambicanas e os grandes projectos Fonte: Ministério da Planificação e Desenvolvimento

de sessões de capacitação de fornecedores locais em matéria de finanças, procurement, desenvolvimento de negócios, procedimentos jurídicos, saúde e segurança no trabalho. “Este programa mostra o comprometimento da RTCM com o desenvolvimento do

empresariado local, alavanca essencial para o crescimento económico ao nível regional e do país” , avançou, na altura, Isménio Chitata, gestor de Desenvolvimento de Negócio Local da empresa. As mineradoras como a Rio Tinto, Vale ou Jindal são as grandes responsáveis pelo au-

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O programa MozLink, lançado em 2003 pela Mozal em conjunto com o IFC, foi uma das primeiras iniciativas concebidas para criar ligações comerciais entre os chamados “megaprojectos” e as pequenas e médias empresas moçambicanas
Criada em 1998, a Escopil Internacional foi uma das empresas moçambicanas que agarrou essa oportunidade para se catapultar para a linha da frente, contando hoje com projectos-bandeira como a gestão da Janela Única Electrónica ou as oficinas de compressão na zona industrial da Matola e em Moatize. Mayur Manchu, administrador para a Área de Operações e Projectos, partilha algumas das lições aprendidas ao longo deste percurso de 15 anos. A Escopil tem conseguido várias distinções, nomeadamente, já foi considerada a melhor PME do ano da Mozal. Como é que a empresa se tem posicionado para conseguir conquistar a confiança dos grandes projectos em Moçambique? Fundamentalmente, para qualquer projecto de grande envergadura, há três aspectos muito importantes que temos que ter em conta como fornecedor de serviços. Primeiro, é a própria capacitação técnica, ou seja, a nossa capacidade técnica para responder às exigências dos nossos clientes; segundo, é extremamente importante que tenhamos um sistema de gestão padronizado; por fim, é o nosso compromisso com os aspectos ligados à higiene, segurança no trabalho e com o meio ambiente. Esses foram os três elementos que fizeram com que a nossa empresa fosse a melhor PME fornecedora de serviços à Mozal, em 2004, na área de higiene e segurança de trabalho. Falou na área da capacitação técnica, a empresa tem investido muito na formação dos seus colaboradores? Temos investido muito na área de formação. Sempre que há oportunidades, nós criamos condições para que o nosso pessoal seja formado e capacitado, quer numa área específica, técnica ou de gestão. Quais os principais desafios para corresponder a este nível de exigência? Direi que dois desafios são extremamente importantes, o primeiro é o aperfeiçoamento da capacidade técnica, porque na área em que nós actuamos, no caso da Vale que trabalha com mineração, a Mozal que é na produção de alumínio, e também em outras áreas como exploração de petróleo e gás natural, é necessário um grande esforço e investimento na capacitação dos nossos colaboradores. O segundo grande desafio que temos que enfrentar como uma empresa fornecedora de serviços é aderir aos padrões de gestão estabelecidos por essas empresas. Do lado dos grandes projectos, que programas devem ser desenvolvidos para criar oportunidades para as PME? Neste caso, darei um exemplo muito clássico da própria Mozal, que é para nós uma “escola” . Em 2001, participámos num projecto apadrinhado pela própria Mozal, que era o MozLink, cujo objectivo principal era aumentar a capacidade competitiva das empresas locais e transferência do know-how e boas práticas empresariais que geralmente são aplicadas. Este tipo de iniciativas, por parte dos mega-projectos, é extremamente importante para preparar os técnicos locais, porque para nós o que falta não é insuficiência de capacidade dos nossos técnicos, mas sim as oportunidades. Se as oportunidades vierem, nós teremos capacidades para responder. Posso usar o próprio exemplo da Escopil: hoje nós conseguimos competir com várias empresas regionais em pé de igualdade. Mencionou o MozLink, que é um programa-bandeira em termos de ligações empresariais. Em termos de ambiente de negócios, o que acha que o programa

“Hoje conseguimos competir com várias empresas regionais em pé de igualdade”

Pergunta&Resposta Marcelo Mosse
Director ACIS (Associação de Comércio e Indústria)
Moçambique é um dos países africanos que mais Investimento Directo Estrangeiro recebeu no ano passado. Até que ponto essa realidade se tem reflectido em termos de criação de oportunidades para as PME moçambicanas? A fatia de leão do IDE tem sido canalizada para o sector de hidrocarbonetos, onde se colocam grandes exigências em termos de qualidade e quantidade, em que as PME nacionais ainda não se estabeleceram na cadeia de valores que levaria os seus produtos e serviços aos mega-projectos. Nalguns produtos e serviços até podemos ter qualidade, mas os mega-projectos têm demandas por grandes quantidades e para isso não estamos ainda preparados. E aqui a questão que coloca é: porquê? Por que é que, depois destes anos todos de diálogo público-privado no quadro da melhoria do ambiente de negócios, não conseguimos ter um mercado suficientemente competitivo? Como é que as PME podem/devem reforçar as suas competências para tirarem o máximo partido deste momento de expansão? As empresas em Moçambique operam num ambiente de negócios imprevisível e cheio de incerteza e isso não ajuda o seu desenvolvimento. Em todo o caso, a prioridade é o factor humano. O país precisa de investir mais na formação de competências afins. Parece que isso ainda não existe. Por outro lado, a melhoria do ambiente de negócios é fundamental para que a competição no mercado obrigue as empresas a melhorarem a qualidade dos seus produtos e serviços. Seja como for, há uma acção urgente: o acesso à informação, nomeadamente aos planos de procurement dos mega-projectos. A ACIS, em parceria com outras entidades, lançou recentemente uma plataforma digital de aquisições (InBid). O que esteve na origem desta iniciativa e que resultados esperam alcançar? A ACIS pretende resolver um problema de fundo do ambiente de negócios em Moçambique: a questão da ausência de informação. A INBID vai servir de elo de ligação entre compradores e fornecedores, e vai produzir informação sobre toda a cadeia de fornecimento. www.100melhorespme.co.mz

trouxe de novo? Primeiro, permitiu-nos que nos organizássemos melhor como PME, na criação do Mozambique Business Recorder (MBR), que era basicamente as empresas fornecedoras da Mozal. E daí criou-se uma organização que, em conjunto, conseguia responder à demanda do cliente. Em relação às medidas que eventualmente o Estado pode fomentar, o que pode ainda ser feito para melhorar o acesso das PME aos grandes projectos? O mais importante é criar incentivos de modo a que as PME moçambicanas possam ser privilegiadas. Por exemplo, um tecto orçamental, até um valor x devem ser privilegiadas às empresas moçambicanas. Isso fará com que as empresas locais cresçam, buscando parcerias inteligentes e desenvolvendo-se, porque o importante para nós é criar capacidade local e não esperarmos pelas estrangeiras. n

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“Os grandes projectos contribuem muito para o PIB, mas as PME é que são a base da economia”
A BDO é a empresa incumbida de pré-seleccionar todo o universo de micro, pequenas e médias empresas participantes. Luís Carvalho, managing partner da BDO, explica cada passo deste intenso processo
Como decorre o processo de selecção dos vencedores nas três categorias? Temos uma primeira fase em que é feita uma triagem sobre as centenas de empresas concorrentes, em que se pretende analisar se os requisitos formais foram ou não cumpridos. Os requisitos são: um formulário devidamente preenchido, alguns anexos a serem entregues, o nível de facturação da empresa. A empresa tem que ter um histórico de pelo menos três anos de existência em Moçambique, ou seja, o início de actividade deve ser anterior a 2011, pois os anos que vamos analisar são 2010, 2011 e 2012. Referiu como um dos critérios a questão da facturação de acordo com a definição de PME, isto é, não deve exceder os 30 milhões de meticais. Imaginemos uma empresa que, no ano passado, facturou 40 milhões, mas nos anos anteriores facturou 20 ou 10 milhões. Essa empresa fica excluída do processo? Não. Nós estamos a analisar um período de existência mínima de três anos. Se, neste período, a empresa foi uma PME – mas, porque foi uma boa PME no capítulo da facturação, já se pode considerar uma grande empresa – esta empresa estará incluída no nosso projecto. O que é fundamental é saber se, neste período de três anos, a empresa teve uma facturação inferior aos 30 milhões. Como se faz a verificação da informação submetida? Ou seja, como se garante o controlo da qualidade? Nós começamos por fazer uma triagem inicial das empresas e das informações que são disponibilizadas. Primeiro, é preciso assegurar que o preenchimento dos formulários foi respeitado e devidamente preenchido e os anexos entregues. Essa parte tem a ver com as contas das empresas que são entregues à Autoridade Tributária. Isso quer dizer que terão uma prova, um carimbo de que aqueles processos de contas foram entregues à Autoridade Tributária, o que nos garante que a informação apresentada é a mesma fornecida às autoridades tributárias. Depois da triagem, vem uma segunda fase em que visitamos algumas empresas para fazer uma verificação minuciosa sobre empresa contribui para a sociedade, tanto através do pagamento de impostos como através de uma distribuição adequada aos seus trabalhadores e também com o próprio produto. Não querendo desmerecer uma empresa comercial, terá muito mais relevância uma empresa que produz arroz em Moçambique do que outra que importa contentores de arroz para Moçambique, no contexto desse nosso prémio. Usando como exemplo uma das empresas que venceu no ano passado, nós também queremos analisar se a empresa contribui para o desenvolvimento qualitativo da economia. Como é que o prémio contribui para a melhoria do ambiente de negócios? O prémio pretende aliciar as pessoas e mostrar que uma PME também tem importância e que não são só as grandes empresas que andam nos jornais. As 128 mil PME que existem em Moçambique asseguram o emprego de quase 50% dos trabalhadores. Os grandes projectos contribuem muito para o PIB, mas não para a geração de emprego e para a criação de valor para a comunidade. Acabam por ter menos impacto do que essas milhares de empresas, que acabam por ser a base da economia. Se essas empresas conseguirem sustentação e organizarem-se de forma adequada, poderão até deixar de ser PME, mas vão continuar a gerar valor e emprego, que é o que basicamente a sociedade moçambicana precisa neste momento. Moçambique é, neste momento, um país com um nível de desemprego muito elevado, não só no meio urbano, mas também fora das grandes cidades. n as informações disponibilizadas. Então não visitam todas as empresas que se candidatam ao prémio? Fazemos a triagem inicial porque, no início, achámos que não seria fácil visitar todo o número de empresas, em todo o país, que se podia candidatar aos prémios. Daí que, com base na documentação apresentada pelas empresas, seleccionamos aquelas que possuem os princípios mínimos e depois fazemos uma decomposição até chegar a um número razoável de empresas, que podem ser 30 ou 40 que serão as visitadas. Avançando já para o apuramento dos vencedores, para além da questão da facturação, o que é que pode destacar uma empresa da outra? A questão da facturação é o elemento inicial da nossa análise, mas é um elemento quantitativo. Este prémio tem mais a ver com a qualidade da empresa e do seu trabalho, o que se reflecte não só ao nível de aumento da facturação, mas também ao nível da sociedade, ou seja, como é que a

Apresentações regionais levam Prémio 100 Melhores PME a todas as províncias
A partir do próximo dia 12 de Agosto, o roadshow deste prémio que distingue o melhor das PME vai passar por todas as capitais provinciais, numa série de encontros entre os parceiros e o tecido empresarial de cada província, bem como entidades oficiais e outros interessados. O Prémio 100 Melhores PME é uma iniciativa conjunta do Grupo Soico e do Ministério da Indústria e Comércio/IPEME, que conta com o apoio do BCI, SNV, Intellica, Primavera, BDO e CTA. Após a fase das candidaturas, que decorre até 19 de Outubro, o Prémio entra na fase de apuramento dos vencedores, culminando numa gala prevista para Novembro de 2013, onde serão reveladas as empresas galardoadas nas três categorias: Melhor PME do Ano, PME Inclusiva e PME Inovação.

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